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INTRODUÇÃO Como pode um livro nascer, sem que o próprio autor tenha consciência de que está criando um? Pois foi assim que Mundos Secretos ganhou vida: Em um momento, eu só estava pensando em todas as facetas fantásticas por detrás da Saga das Sombras... No outro, eu já tinha em mãos cinco contos sobre o universo dos Arcanos, cada um abordados através de um ponto de vista diferente. Para quem não conhece a história da criação da Saga das Sombras, desde que me entendo por gente, eu sempre quis produzir um livro sobre anjos e demônios. Escapista com orgulho e apaixonado por todas as vertentes da Literatura de Fantasia, nunca me vi escrevendo algo que não tivesse relação alguma com esses seres... Bom, quase nunca. Confesso que tentei várias vezes sair desta linha e desbravar novos mitos, afinal nós temos esses ''momentos''. Mas de uma forma ou de outra, as narrativas nunca funcionavam, e lá estava eu pensando mais uma vez em uma realidade repleta de criaturas aladas e batalhas entre o Bem e o Mal.


Desde 2006, quando finalmente encontrei a minha história e a melhor forma de narra-lá, venho passando dias e noites imaginando e recriando o mundo que adaptei. Pois sim, construir um mito a partir do nada é uma tarefa difícil; mas moldar um mito já existente - e que é uma verdadeira crença para milhares de pesssoas - é algo que posso designar como uma tarefa digna de Hércules. Afinal, como poderia contar a minha trama sobre anjos e demônios de uma forma original, sem quebrar os paradigmas pré-estabelecidos e ultramente arraigados destes seres? A resposta para esta pergunta veio para mim através da criação dos Arcanos. No princípio, eles seriam meros quadjuvantes. Mas o meu fascínio por eles se tornou tão grande que logo se transformaram nos personagens principais da trama central da série. Na verdade, os Arcanos eram tudo o que eu queria no momento: pessoas com dons especias e sobrehumanos, que poderiam ver tanto anjos quanto demônios - ficando, por consequência, no centro de tudo. Escolhido os narradores, um dos personagens mais jovens da turma dos Arcanos reclamou o direito de ser nossos olhos e ouvidos através da história. E não tinha jeito, sempre que imaginava uma nova cena, lá estava Adrian Regis na frente de todos os outros - dando pitacos no que acontecia ao seu redor e tomando para si as futuras ações. Ele me perturbou e me encheu tanto no processo de criação, que não tive outra escolha: dei para ele o papel de protagonista da Saga, e consequentemente, o nomeei como personagem que dividiria conosco o seu ponto de vista pelo maior tempo possível.


E assim, a partir de setembro 2009, comecei a escrever e a postar no meu blog a trama de Terra das Sombras – o romance da Saga que seria ''escrito'' pelo proscrito da Academia Constantine. O que eu não sabia no começo era que Adrian tinha uma limitação, que ao mesmo tempo podia ser uma benção ou uma maldição: Ele era um Arcano em treinamento. O que às vezes era útil para o desenvolvimento dos mistérios da história, outras vezes se mostrava um problema - pois se ele não considerasse as informações repassadas úteis para o momento, acabava as descartando sem dó nem piedade, e assim diminuindo muita das coisas que eu tinha em mente sobre o seu universo. Foi aí que surgiu o meu primeiro conto sobre a Saga das Sombras – o ''Dança Macabra''. E para narrá-lo, ninguém menos que Angelina Regis – a tia do Adrian. Depois do sobrinho, não havia personagem mais intrometida do que ela. E, após escrever uma longa conversa - porém muito ''por alto'' - entre Adrian e seu pai sobre demônios, logo vi que Angel era a melhor pessoa para aprofundar um pouco mais este assunto. Em uma única noite, escolhi o tema da mini-trama, qual adversário a garota iria enfrentar e como a história se desenrolaria... E Deus sabe o quanto eu me diverti escrevendo sobre o ponto de vista da garota. Angel tem uma personalidade completamente diferente de Adrian. Ela conhece mais sobre o mundo ao qual pertence. Sem falar que temos a chance de conhecer a sua melhor amiga desmiolada Naty, e o Incubo sedento por...


er... ''sangue'', Nicolai (personagens que tiverão inspiração em um casal bastante famoso, mas que não posso falar aqui pois - se prestar bastante atenção na sua descrição - a minha visão sobre eles não é nem um pouco lisonjeira). Cinco horas mais tarde, lá estava eu revisando – em plena madrugada - o texto com mais de quinze páginas e me perguntando qual seria o meu próximo conto. A questão não tardou muito a ser resolvida. Na noite seguinte, eu volto para a frente do computador, e escrevo com fúria os acontecimentos de Assombrado. Assim como a história de Angelina, o pequeno conto sobre a possessão demoníaca de uma Sensitiva - que na verdade é uma charlatã que desconhece os seus verdadeiros dons - na frente de pessoas que não faziam idéia do que estavam lidando levou apenas algumas horas para ficar pronta. Porém, diferente de Dança, ele foi um dos mais revisados e o que teve o final mais modificado das cinco narrativas de Mundos Secretos. No original, além da ação principal, eu também havia criado um pequeno dilema amoroso - que acabava em um esperado e ''bonitinho'' final feliz... Mas só de ler pela primeira vez, eu via que aquilo estava forçado, e muito enjoativo. Era muita coisa acontecendo em um curto espaço de tempo e tudo acabava rápido demais. Resultado: pelo resto da semana, passei o meu tempo livre editando e revisando, até que Assombrado se tornou o que é hoje. O que acabou resultando em uma pequena greve de contos durante quase dois meses. Nesse tempo, eu continuei a trabalhar e a postar a história de Adrian e de todos os seus companheiros - que a cada capítulo que se passava, mais


pesado e denso o clima ficava. Deste período, que carinhosamente chamo de ''minha era dark-emo'', nasceu Reunião Sombria. Nunca, em todo este tempo, eu me lembro de produzir um texto tão pesado e depressivo quanto ele. A história não acaba bem para ninguém, e a mensagem descrita nele é bastante controversa. Acredite, não foi proposital. Eu escrevi o conto em menos de meia hora, e pelo resto da noite (sempre ela) eu fiquei deitado no meu quarto, escutando música no escuro. Os acontecimentos de Reunião Sombria haviam me afetado de uma forma potente e esmagadora. E eu percebi o por quê. Pois, a cada ponto de vista que eu utilizava (tanto nos contos quanto na trama principal), eu deixava uma parte do personagem-orador entrar dentro de mim. E, por aqueles breves momentos, eu não enchergava como Henrique. Não pensava como Henrique. Não falava como Henrique. Eu era o Adrian. Eu era a Angelina. Eu era o Gui. Eu era o Higor... E foi por causa do que eu senti escrevendo como o Higor que eu tive tanto medo de finalmente digitar a história que vinha se desenvolvendo já a algum tempo dentro da minha cabeça. E isto me incomodava. Afinal, por mais que as tramas que eu imaginasse fossem fracas e sem sentido, eu sempre as colocava para fora. Foi assim desde do princípio, quando a Saga nem me passava pela cabeça.


Mais alguns dias se passaram, e eu enfim perdi a batalha contra os meus medos. O conto seria escrito, e – por alguns instantes - eu deixaria o personagem usar as minhas mãos para contar o que ele tanto queria. Mas ele não era um personagem qualquer... Era o confuso, o cruel, o vingativo, o cheio de ódio e dor, Alexander Morton. O vilão da história central da Saga das Sombras. E sua história também não seria qualquer história... Simplesmente seria o momento em que ele descobriu que havia morrido; que havia ganho não só uma nova - e malígna - consciência, mas também um novo e letal corpo de demônio. Nem preciso dizer que A Fúria foi o conto em que eu mais demorei escrevendo. Durante quase um mês e meio, eu passei noites em claro, me sentindo péssimo e esgotado pela manhã. Mas isto nunca parecia o bastante para Alex. O rapaz queria mais, e eu tive que segurá-lo. Quando coloquei o ponto final em sua narrativa, parecia que os meus olhos finalmente viam a luz depois de passar uma longa temporada no escuro. Meu humor estava péssimo. Mas eu tinha feito o meu papel; tinha escrito o conto. Foi quando percebi algo bem maior. Sim, eu tinha superado os meus temores quanto A Fúria. Não só isso. Eu descobrira o que um escritor queria dizer quando falava que seus personagens ganhavam vida própria e tomavam conta da narrativa, sem pedir licença ou permissão. Porém, naquele dia, não era nenhuma das duas coisas


o que ocupava tempo e espaço em minha mente. O que, na verdade, eu pensava era: Eu tenho quatro histórias terminadas sobre a Saga das Sombras... Eu tenho uma pequena Antologia! A ''minha'' Antologia. O ''meu'' Mundo. Mundos Secretos. O que, devo dizer, foi algo bastante inesperado. Pois, se antes eu via os contos apenas como braços soltos da trama que eu estava criando, agora eu os encarava de uma maneira muito, mas muito mais séria e profissional. A revisão de cada um deles passou a ser ferrenha. Porém, o mais importante desta decisão, foi que eu sabia que precisava escrever mais um conto. Precisava aprofundar ainda mais o universo da série. E foi assim que surgiu Caçada, a última narração-solo a ser escrita e a única que foi especialmente pensada para fazer parte do volume Mundos Secretos. Também devo confessar que este foi o único conto que eu planejei com afinco durante uma semana antes de escrever. A história da fuga de Luce era repleta de pequenos detalhes e segredos que deveriam ser contados pouco à pouco, e que envolvia diretamente o seu passado, presente e no que ela se tornaria no futuro. Terminado Caçada, revisei mais uma vez os cinco contos e, depois de muita concentração, me esqueci de tudo o que havia escrito e li cada um deles - através dos olhos de um leitor. Como se fosse a primeira vez. Quando cheguei no último parágrafo, da última página, percebi que as histórias contidas em Mundos Secretos não eram apenas um braço adjacente e sem importância da trilogia principal da Saga das


Sombras. Elas faziam parte do universo de Adrian. Elas traduziam, ilustravam e desconstruíam a realidade na qual o garoto cresceu e atualmente vive - mesmo aquelas que parecem não ter relação alguma com ele, tanto no passado quanto no futuro. E é por este motivo que você está, neste exato momento, segurando Mundos Secretos em suas mãos – seja em sua forma física ou digital, no silêncio da sua casa, no carro, na confusão do ônibus, escondido no trabalho, na escola, aonde for... Cada conto ganhou por si só o direito de criar vida. Mas vou lhe avisando de antemão: não se anime muito. Não vá com muita sede ao pote. Nem todas tem um ''final feliz''. Nem todas são alegres, divertidas ou mágicas. Porém, elas são a verdadeira face do universo dos Arcanos. E, como diz o Antigo Provérbio: só a verdade tem o poder de nos libertar. Desejo que façam uma boa viagem... e abram bem os seus olhos.

Sinceramente, Henri.


O

velho Cemitério de St. Argell era, sem a menor

sombra de dúvidas, o lugar mais sombrio de toda a região. Tudo naquele cenário inspirava ao macabro e, nem de longe, o terreno conseguia refletir a incrível modernidade de Dumont, ou a velha beleza decadente de Ventura. De fato, a visão do mato crescido acompanhado pela névoa gelada sobre os túmulos afastavam qualquer ser humano normal do local. Exceto, talvez, na aterradora noite de lua nova em que começa a nossa história, quando se podia distinguir através da densa neblina as formas agitadas e elegantes dos jovens que se movimentavam no ritmo intenso do bate-estaca, não parecendo se importar nem um pouco com o endereço inusitado da festinha particular. - Viu só, Angel? Eu não disse que o Nicolai ia conseguir deixar este lugar perfeito pra gente?


Eu não acreditava no que os meus ouvidos estavam escutando. Ali estava minha doce e descerebrada amiga Naty, seus olhos verdes levemente desfocados e seus lábios finos se mexendo preguiçosamente, só para me lembrar o quão otário aquele Nicolai parecia ser. Qual é, eles se conheceram à apenas uma semana! Não tem como uma garoto da nossa idade jurar amor eterno para uma garota em tão pouco tempo... E o pior, não me entrava na cabeça ele querer comemorar com todos os nossos amigos a sua ''união eterna'' com a Naty em pleno cemitério, e ainda por cima no maior estilo Baile de Máscaras. Não Mesmo! Parecendo adivinhar para onde os meus pensamentos me levavam, ela me puxou para um canto oculto pelas sombras de uma enorme árvore petrificada e me lançou um estranho olhar de reprovação. - Escute aqui, Angelina - sussurou Naty, enquanto ajeitava de forma breve a delicada máscara Rosa-Bebê que lhe cobria a parte superior do rosto - Esta é a noite mais perfeita da minha vida! Por favor, não vá estragá-la com os seus papos bizarros... - Não, escute você... - comecei a me defender, mas logo após mais uma mirada severa de minha amiga, eu não consegui continuar. Até por que eu tinha plena consciência que às vezes os meus papos eram bizarros. Só que eu não podia fazer nada - era parte da minha natureza.


Afinal, quando você nasce com o estranho dom de ser um Arcano, e é obrigada a ver e fazer coisas que qualquer um duvidaria, é meio que implícito que uma hora ou outra as suas conversas iriam seguir as estranhas e tortuosas curvas da anormalidade. Mas, se não fosse por essa minha particularidade (que todos teimavam em achar maluquice), tenho plena convicção que metade dos meus amigos - incluindo a Miss Tico & Teco à minha frente - já teriam encontrado um destino não muito agradável há muito tempo. Para ser mais sincera, se não fosse pelo meu ''Alarme Interior Para Problemas Paranormais'', eu não teria nem pisado fora da cama esta noite. Tudo bem, eu não era a garota mais ajuizada da região, mas uma Rave misteriosa em pleno Cemitério para comemorar aniversário de namoro? Coisa mais suspeita quanto aquela não podia ter. De fato, se não fosse pelos meus amigos - e confesso que este pensamento não era nada nobre - eu não teria chegado nem perto dali. Isto era problema na certa. E era isto o que eu estava tentando dizer para Naty quando as caixas de som posicionadas em um mausoléu próximo de onde estávamos diminuiu o volume dramaticamente, e todos os convidados da festa começaram a urrar e bater palmas - como se um grande astro do Rock tivesse acabado de anunciar a sua entrada. - Ai. Meu. Deus! - resfolegou Naty, ajeitando as alças de seu vestido rosa com as mãos trêmulas - Eu não


acredito, é o Nicolai! - Ah, por favor - esbravejei, não aguentando ver tamanha adoração no rosto daquela gente - É só um cara! Fingindo que não escutava o que eu havia acabado de falar, Naty deu às costas para mim e se misturou a multidão que se acotovelava entre os túmulos, indo na direção de algo que eu ainda não tinha visto. Sem ter muita escolha, me encarapitei em cima das estranhas raízes da árvore petrificada e arrumei minha máscara de renda negra, que cismava em bagunçar o penteado que eu havia levado horas para fazer, repuxando vários fios de cabelo prateado do meu coque. No mesmo instante, um holofote se ascendeu só Deus sabe aonde e levou o seu facho de luz na direção da entrada da Capela de St. Argell. Como por encanto, a figura alta e forte de um rapaz loiro, todo vestido de negro e com a face parcialmente oculta pela máscara branca que usava surgiu em frente às portas de madeira trabalhada da igrejinha - levando todo o grupo reunido ali à loucura. Eu não sabia o que aquele Nicolai tinha feito para deixar os meus amigos daquele jeito, mas eu desconfiava que era uma macumba das feias. Sem nem mesmo falar uma palavra, o carinha tinha aquele povo todo nas mãos. Se eu não desconfiace que o cordeirinho à minha frente pudesse ser na verdade um lobo dos maus, eu até


que acharia ele muito suculento... Mas eu não era uma qualquer - oras, eu sou uma profissional, não brinco em serviço - e se ele achava que iria ganhar a minha simpatia só com aquele sorrisinho idiota, ele bem que podia tirar o seu cavalinho da chuva! Com um breve aceno de sua mão, Nicolai conseguiu silenciar toda balburdia, ao mesmo tempo em que admirava a pequena multidão ao seu redor com um estranho brilho no seus olhos dourados. Se até aquele momento eu tinha dúvidas sobre o caráter dele, ali eu tinha certeza que o cara era encrenca na certa. Por um segundo, me peguei imaginando o que meu irmão Cirus faria em uma situação como aquela. Com cautela, isto eu tinha certeza. Pois, se teve uma coisa que meu irmão havia herdado do meu pai era a calma inabalável, mesmo diante do risco iminente. O mesmo não se aplicava ao seu filho, o meu - argh - doce e temperamental sobrinho Adrian. Se eu o conhecia bem, uma coisa que eu sabia que ele iria fazer seria estragar tudo. Adrian era simples e completamente movido pelo impulso. Cirus com certeza falaria: ''Não pegue pesado com ele, Angel... O garoto só tem 18 anos!''. Mas aí eu responderia com acidez: ''Não, mano - ele já tem 18! É bastante diferente...'' Em pensar que aquela criatura era só 3 anos mais nova do que eu - e ainda por cima 15 centímetros maior! - Olá, meus amigos... - bradou Nicolai com sua voz grave, me despertando inteiramente dos meus


pensamentos - É muito bom ver quanta gente está aqui, para felicitar a união da minha vida com a da formosa Natally! Em meio as risadinhas estridentes de Naty e os sussurros de adoração que vinham da platéia, parecia que eu era a única que tinha percebido o tom que Nicolai acabara de usar para se referir a própria ''vida''. Foi verdadeiramente agourento - e se não tivesse tanta gente ao meu redor, eu teria me jogado em cima dele ali mesmo, e o faria se revelar (sendo lá o que ele fosse!). Mas como ninguém, além de mim mesma, pareceu perceber este pequeno detalhe, nosso charmoso anfitrião continuou o seu discurso - dessa vez não tirando aqueles seus estranhos olhos dourados de cima da minha amiga sem cérebro. - Então - continuou ele, com o seu incomparável tom de voz - por que alongar os ouvidos de vocês com um assunto tão íntimo quando todos poderíamos estar celebrando esta maravilhosa noite de Lua Nova? Acho que o melhor seria dizer: Que os festejos comecem! Céus, mas em que tipo de século esse cara pensava que vivia? Eu nunca ouvira palavras tão antiquadas serem faladas com tamanha naturalidade desde a minha última visita à mamãe. Era assustador. Mas novamente, sendo a única a ter uma reação normal depois de escutar o que aquele projeto de candidato à Presidente dizia, toda a algazarra da festa recomeçou - só que agora em um ritmo muito mais intenso e... tribal.


A música que saía das caixas de som parecia tremer o cemitério por inteiro, e todas as pessoas ao meu redor começaram a dançar como se tivessem ensaiado a semana inteira para aquele momento. Sem movimentar a boca para falar um ''ai'', Nicolai abriu um círculo perfeito no centro do ajuntamento, convidando Naty para dançar com um pequeno aceno de cabeça. Quando enfim se encontraram, em meio aos olhares obcecados de toda aquela gente, os dois iniciaram uma espécie de valsa maluca - o que na verdade mais parecia ''A Dança Pornográfica do Acasalamento'' do que outra coisa. Mais uma vez, eu não podia acreditar no que os meus olhos me amostravam... Como Naty, uma garota não muito dotada de esperteza mas conhecida por ser ''de respeito'', poderia deixar aquele completo estranho a tocar daquele jeito tão vulgar na frente de todo mundo? Com a cabeça estourando pelo choque, tentei sair do lugar mas não consegui. Parecia que uma força maligna me prendia aquele cemitério, e tudo o que podia fazer era ficar observando todos os meus amigos alguns à dois, outros à três, o restante... nem queira saber - copiando a mesma coreografia desconcertante que Naty e Nicolai protagonizavam no epicentro da festa. Sem ter para onde ir, olhei aterrorizada para minha amiga - mas ao invés de receber o seu olhar de volta, foi a mirada de seu parceiro que me encontrou.


Agora Nicolai parecia diferente de uma forma terrível. A face - mesmo oculta pela máscara branca e retorcida de um prazer ofensivo - estava pálida como o mármore dos túmulos, os olhos dourados chamuscavam de forma intensa e os seus lábios - estáticos em um sorriso horrível - estavam vermelhos e brilhavam como se estivessem cobertos de sangue. Ao perceber que o encarava, o monstro loiro sorriu ainda mais e - com um ligeiro rodopio - afastou Naty de seus braços e traçou uma linha reta na minha direção. Completamente paralisada, lutei para quebrar o encanto que estava ao nosso redor, mas todo o meu esforço foi em vão... Nem mesmo os meus dons de Arcano pareciam ser úteis contra o vudu produzido por Nicolai. Me amaldiçoando em pensamento, esperei a chegada do meu carrasco com as mãos atadas. Tudo o que me passava pela cabeça era a pergunta: ''Mas como eu pude ser tão burra?''. Estava na cara que Nicolai era um demônio... E não era só isso. Ele era um demônioIncubo! Um Incubo que estava pronto para drenar toda a vida da minha melhor amiga, sugar o máximo de energia dos meus colegas e - se pudesse, e ainda estivesse com disposição - acabar com a minha raça sem dó nem piedade. - Angelina Regis - sussurrou Nicolai, assim que


chegou aonde eu estava, as mãos duras e frias tocando a pele do meu braço - Nossa, você não sabe a quanto tempo venho escutando sobre você... e sua extraordinária família! Então era isso? Tudo aquilo não passava de uma armadilha para me pegar? Era inacreditável ver todo o trabalho que ele fizera só para obter esse resultado. - Olha só - falei, tentando demonstrar uma calma que eu não tinha - Se você queria se vingar de mim por qualquer coisa que eu tenha feito, não precisava envolver meus amigos. - Ah, mas é claro que eu precisava - respondeu o demônio, tirando a máscara que vestia e revelando um rosto infernalmente bonito - Você me destroçou... Tirou tudo o que eu tinha... E pra quê? Pra voltar para essa sua vidinha dupla e infeliz, protegendo seus amigos de algo que metade deles nem acredita - e muito menos tem a capacidade de lhe agradecer! - Eu não preciso de reconhecimento - cuspi, tentando puxar pela memória o que eu poderia ter feito para provocar a fúria de Nicolai - Este é o meu trabalho... O meu dever. - O ''seu dever''? Por favor, isto é tão piegas – retrucou Nicolai, me lançando um sorriso cheio de presas pontiagudas - Por que todo Arcano tem que ter esse incrível ''Complexo de Herói''? Só quando o assasino à minha frente me lançou aquele sorriso foi que a lembrança que estava escondida


nos cantos mais escuros da minha mente veio à tona... O Sorriso Macabro. Era igual ao dela - a Súcubo que eu aniquilara há uns dois meses atrás em Dumont. - É você! - exclamei, não conseguindo conter a surpresa - Você era o parceiro daquela vadia que estava atacando o garotos do Instituto Alverga! Antes que pudesse reagir, senti um forte impacto me atingir no estômago e todo o peso do meu corpo me levar à três metros de distância, na direção das raízes nodosas de uma grossa árvore atrás de mim. Mesmo com a visão embaralhada pela queda, eu pude ver o Incubo se aproximar de mim em um átimo de segundo - a expressão triunfante enquanto esmagava a minha garganta apenas com a sua mão esquerda. - Como ousa citar Dalila com esses seus lábios imundos? - perguntou Nicolai, a voz grave falhando tamanho era a sua fúria. - Dalila? - arfei, não me importando com o fato de que minha vista ficava cada vez mais obscurecida - Mas que nome conveniente, não? Isso explica a grande vagabunda que ela era! Minha provocação só fez aumentar a fúria que o demônio sentia por mim. Exalando um ódio infernal, Nicolai colocou mais pressão na mão que esfacelava a minha traquéia, seus olhos delirando de puro prazer. Não sabendo o que estava acontecendo comigo, a cada vez que eu sentia a minha respiração fraquejar, eu começava a rir descontroladamente.


Sem entender a minha reação louca diante da morte, o Incubo pareceu voltar a si, liberando a minha garganta de seu aperto e pondo-se de pé, o rosto voltando para o modo ''galanteador'', sem perder a áurea malígna. - Eu tentei fazer as coisas do modo certo com você, Angelina. - murmurou ele, recolocando a máscara sobre o rosto e alinhando o colarinho de sua camisa negra - Mas você não me deu outra esolha... Acho que está na hora de você sentir tudo o que eu senti quando arrancou Dalila de mim. Em uma única batida do meu coração, Nicolai voltou para o centro de seu Baile das Sombras e - depois de piscar de forma marota para mim - enlaçou Naty novamente em seus braços, suas mãos pecorrendo todo o caminho do fecho do vestido rosa e elegante de minha melhor amiga até encontrar o seu zíper. Aquilo foi a gota d'água. Como se o feitiço do Incubo não pudesse mais me conter, eu me coloquei de pé – pouco me importando com a ardência no meu pescoço ou com as dores pelo meu corpo - e abri a fenda da minha saia de renda negra, retirando da parte interna de minha coxa esquerda o velho punhal feito de Prata Purificada do papai. Determinada, e não demonstrando um traço de insegurança, cruzei o caminho até onde estavam Nicolai e Naty, empurrando sem um pingo de dó todos os idiotas que cruzavam a minha frente e que estavam


imitando os passos estúpidos daquela dança ridícula e vulgar. Aproveitando a distração que o vestido de minha amiga oferecia ao demônio, peguei Nicolai pela gola de seu paletó e o puxei para mim, como se o convidasse a tentar fazer comigo o mesmo que fazia com ela. Sem entender patavinas, o Incubo se virou estarrecido e me encarou, a chama viva que eram os seus olhos cor-defogo mais brandos do que eu já havia visto até então. Não perdendo tempo, me estiquei o máximo que podia nas pontas dos pés e murmurei ao seu ouvido o mais alto que eu me atrevia com aquele bate-estaca ensurdecedor: - Se você sente tanta falta da VACA da sua namoradinha, por que não vai se juntar a ela no Inferno? Antes que Nicolai esboçasse qualquer reação, levantei o punhal na altura do meu rosto e o cravei com toda a força que tinha no ''coração'' do demônio. Ainda surpreso com o que tinha acabado de acontecer, o Incubo urrou em fúria, sua voz agora transformada em um rúgido bestial. Com uma satisfação macabra, me afastei do ''namorado perfeito'' de Natally e o observei definhar, sua antiga beleza dando lugar ao seu verdadeiro eu - se transformando em chamas e pó em questão de segundos. Como que para purificar todo o terreno daquela presença maligna, um vento forte e aterrador atingiu o


cemitério, sacudindo o topo alto das árvores ao redor com violência e levando sem deixar rastro toda a poeira da qual Nicolai havia sido reduzido. Para completar, as caixas de som que continuavam a tocar aquela música horrível entraram em curto e explodiram, despertando os convidados (incluindo a Rainha Sem Noção) do torpor em que haviam sido mergulhados pelo Incubo - e os fazendo perceber o quão constrangedora era a situação em que se encontravam. - Mas... o que aconteceu? - perguntou Naty, seu rosto ficando vermelho vivo ao perceber que o zíper de seu vestido rosa estava aberto - Angel, o que nós estamos fazendo aqui? Por que a minha roupa esta aberta? Sentindo todo o peso daquela noite me cair sobre as costas de uma só vez, inspirei fundo e tentei encontrar a melhor desculpa que eu podia dar nas minhas condições. - Eu que sei? - fingi bufar, me esforçando ao máximo para parecer o mais natural e despreocupada o possível – Foi você que me trouxe pra essa festa maluca! Mas escuta bem, da próxima vez em que quizer fugir para uma Rave clandestina, pelo menos tenha certeza se os caras que organizaram tem um equipamento decente... Essa porcaria explodiu na primeira oportunidade! Eu estava tagalerando, assim como sempre acontecia quando eu contava uma mentira. Mas Naty


parecia ter engolido. Ela olhava toda hora para as caixas de som em chamas e depois mirava na direção dos nossos amigos - ligeiramente trôpegos, como se tivessem acabado de tomar todas - e perguntava para si mesmo ''O que foi que eu tomei?''. Sei muito bem o que você deve estar pensando: Como uma amiga era capaz de fazer isto com a outra? Acredite, no meu caso, mentir era muito melhor do que contar a verdade. Imagine se eu tivesse respondido para ela que estávamos no cemitério por que ela havia me levado para uma Dança Macabra, onde o anfitrião era nada menos que um Incubo tarado que queria se vingar de mim – abusando até a morte de minha melhor amiga e sugando toda a energia juvenil do restante dos convidados... No mínimo ela ligaria para o hospício mais próximo e me internaria até que o mundo ficasse plano. Por isso que, assim que Naty pediu para ir para casa por que ''não estava se sentindo bem'', eu apenas concordei com a cabeça e a acompanhei de forma lenta e cuidadosa em direção ao portões ao lado da velha Capela de St. Argell – que era o local por onde todas as pessoas saíam, envergonhadas demais para olharem para o lado. Com um último suspiro, me virei para trás e vi a densa neblina do começo da festa recomeçar a tomar forma e novamente engolir o mato e as lápides do cemitério como um imenso mar branco-pérola. Se tudo


desse certo, eu não precisaria voltar naquele lugar horrível tão cedo, muito menos para ver alguém que amava passar por um perigo tão mortal quanto o que os meus amigos e eu enfrentamos nesta noite. Era uma pena que, como sempre, eu estava completamente enganada.


-Afinal, Gui, você quer ou não quer acabar com essa história de uma vez? - esbravejou Celina, a expressão zangada transformando por completo seu rosto bondoso. - É lógico que eu quero! - exclamei, minha voz subindo duas oitavas sem a minha autorização - Só não acho mais que esta seja a melhor forma de resolver a questão... - Calminha aí pessoal... - sussurou Leo, tentando conter as ondas de tensão que cresciam ao nosso redor – Nós vamos ser os próximos, não precisa de todo esse estresse! Ao mesmo tempo, Celina e eu lançamos um olhar zangado para o Capitão da Equipe de Lutas do Colégio Delta. Sem se deixar abalar, Leo apenas ergueu os ombros, virando-se novamente na direção da RodaGigante, as luzes do brinquedo iluminando com cores estranhas os seus olhos azuis. Sem um pingo de paciência para travar outra discussão, cruzei os meus braços sobre o peito com força e encarei a escuridão que tomava conta do céu acima de mim.


Desde o começo eu havia achado aquela idéia terrivelmente idiota, mas Leo e Celina encheram tanto os meus ouvidos que acabei concordando. Agora ali estávamos os três, no canto mais escuro e deserto do único Parque de Diversões da cidade, de frente para uma barraca antiga e de cores sombrias, esperando a nossa vez de nos consultarmos com a ''Inestimável e Famosa Madame Sherazaid'' (que por sinal eu nunca havia ouvido falar dela, até ler o letreiro dourado ao lado da entrada da tenda à uns cinco minutos atrás). - Hum... e aí Gui - pigarreou Celina, tentando estabelecer uma conversa decente depois de nossa pequena briga - nesse meio tempo, aconteceu mais alguma coisa estranha com você?... Hoje? Ainda me sentindo irritado pelo bate-boca, ignorei a pergunta de Celina e continuei a encarar as estrelas. A verdade era que, assim como a semana inteira, havia sim acontecido uma coisa estranha hoje; e eram por essas coisas estranhas que estavam acontecendo comigo que ela e Leo haviam indicado um encontro com uma Paranormal, para começo de conversa... Mas agora que eu estava ali, prestes a ser ''consultado'', tudo parecia ainda mais ridículo do que já era. E se o que aconteceu não foi apenas uma coincidência macabra? E se os meus acidentes não passassem de uma pequena maré de má-sorte? Quebrando as minhas divagações como um raio


atingindo a copa de uma árvore, um casal de namorados saiu da barraca de Madame Sherazaid, os rostos petrificados em uma carranca de medo. Ao passar por nós, o dois trocaram uma olhadela de medo e apertaram ainda mais o passo na direção da saída do Parque. - Essa madame deve ser boa, não? - riu-se Leo, acompanhando o casal com clara diversão, enquanto entrávamos na escuridão que era a tenda da Vidente. Como se fosse possível, o interior da barraca parecia ser ainda menor do que o visto do lado de fora. O lugar era decorado por um círculo de longos candelabros encarapitados por velas em formas esquisitas, ao passo que os únicos móveis presentes eram uma pequena e torta mesa redonda e um grupo de pufes manchados cor-de beterraba. A mesa era coberta por um tecido escuro e pesado, e sobre ela havia o mais variado grupo de objetos místicos – desde cartas de tarô cortadas até a esperada orbe enevoada de uma Bola de Cristal. Parada de costas para entrada estava Madame Sherazaid, o vestido leve e colorido cobrindo o corpo definido como névoa mágica, suas costas tomadas por cascatas e mais cascatas de um cabelo vermelho e brilhante. - Nossa, e como é boa... - cochichou o capitão ao meu ouvido, ao mesmo tempo em que Celina dava um forte cutucão em sua costela. Virando-se de forma elegante e teatral, Madame


Sherazaid nos encarou com seu incrível par de olhos verdes, as mãos e o pescoço cobertos por dezenas de correntes de ouro e prata. - Até que fim vocês chegaram, meus jovens disse ela, com um tom fino e baixo como de uma fada – estive esperando pelos três a semana inteira... Confesso, a menção da palavra ''semana'' fez toda a minha pele se arrepiar. Eu sabia que havia chegado a hora de confrontar todos os meus ''demônios interiores'', mas fazer isto em um lugar sombrio e tomado pelo denso aroma de incenso não era uma experiência muito agradável. - Hei, pra que toda essa formalidade? - perguntou a vidente, fazendo um gesto despreocupado para a mesa à nossa frente, enquanto se encarapitava sobre um dos pufes cor-de-beterraba - Basta me contarem qual foi o Carma que os fizeram me procurar esta noite e eu garanto que irei resolver o problema em três dias! Antes que Leo explodisse em uma gargalhada descontrolada e infantil, Celina e eu o carregamos pelos ombros e nos sentamos nas almofadas manchadas. Sem olhar para nós, Madame Sherazaid começou a separar as cartas de Tarô à sua frente e, com um arrepio pra lá de duvidoso, se inclinou na direção da impetuosa Líder da Equipe de Debates e perguntou: - Eu sei o que a preocupa... E sei que posso resolver - Com uma piscadela, a mulher sorriu maternalmente e balançou a cabeça para onde eu estava


sentado - Um garoto. Sempre é um garoto! - Me desculpe, Madame, mas não estamos aqui por minha causa – exclamou Celina, alto demais para abafar as risadinhas bestas de Léo - Na verdade, o motivo de nossa visita é o meu amigo Guilherme. - Mas não é sobre ele que estamos falando? indagou a vidente, enquanto Leo literalmente se dobrava de tanto rir. - Sim... quero dizer, não... A senhora não está entendendo! - engasgou-se a garota, o rosto mais vermelho do que um tomate - O que eu quero dizer é que é ele quem vai se consultar. - Ah, agora compreendo - sussurou Madame Sherazaid, mudando a sua postura e voltando-se para mim - se me permite perguntar: Que mal lhe aflige? Eu estava achando aquela sessão de clarividência uma charlatanice pura, mas depois de ver os olhares de encorajamento dos meus amigos, resolvi contar tudo. E quando digo tudo, estou falando de tudo mesmo: falei do começo da semana, de como parecia que eu estava vendo vultos escuros pelos cantos, aonde quer que eu ia; contei sobre o dia em que a macarronada da minha mãe se transformou misteriosamente em uma verdadeira ''Sopa de Verme'' no meu prato; também citei o episódio da queda quase-fatal do meu armário no vestiário da escola, aparentemente aparafusado na parede... até falei do episódio de hoje de manhã, quando parecia que o meu travesseiro de estimação estava tentando me


esmagar com todas as forças contra o colchão da minha cama até a morte. É claro que, para um leigo, aquilo tudo pareceria uma maluquice, mas Madame Sherazaid escutou o meu relato com completa atenção e interesse. Quando terminei, ela me encarou com seus olhos verdes gigantes e, depois de um longo suspiro, se levantou e começou a... ...dançar. Isto mesmo o que você leu: ela começou a dançar. Sem se importar com a expressão assombrada de Celina, ou até mesmo com a satisfação nada cavalheiresca exibida por Leo, a mulher rodopiou e se balançou pela tenda, as correntes farfalhando e zunindo com os seus movimentos excêntricos. Para completar a cena, Madame Sherazaid pegou um dos incensos que estavam presos em um suporte no chão e o agitou ao redor da minha cabeça, assoprando e assobiando, completando de uma forma nada digna a sua encenação de fada maluca. Para mim, aquilo foi a cereja do bolo. A raiva e o arrependimento que eu estava sentindo no começo - antes de entrar na barraca voltou com força total, e se não fosse pela mão pesada de Leo no meu ombro, eu teria me levantado e deixado aquele circo sem pensar duas vezes. - Não. Se. Estresse! - murmurou Celina, percebendo a minha reação.


Tentando me acalmar, respirei com força e me concentrei em coisas banais. Como por encanto, me lembrei do antigo relógio-de-bolso que o meu avô havia dado no meu último aniversário e o pegeui para ver quanto tempo mais aquela palhaçada iria durar. Eu não gostava de usar aquele troço velho e antiquado, mas como o meu celular havia feito o favor de cair na piscina da escola na semana anterior, ele era a minha única opção momentânea para ver as horas. Assim que eu tirei o mostrador dourado e antigo de dentro da minha jaqueta, o corpo de Madame Sherazaid se congelou no ar e tombou, atingindo o chão atapetado da tenda com um baque surdo e profundo. Após cinco segundos de trocas de olhares confusos e um longo silêncio, resolvemos nos levantar e verificar o que de fato havia acontecido com a Paranormal. - Será que ela está morta? - perguntou o capitão, cutucando a mulher estirada com a ponta do seu tênis. - Não seja ridículo, Leonidas... Ela só desmaiou sussurrou Celina, verificando o pulso da vidente e observando a sua respiração - Até eu desmaiaria se tivesse que ficar enfurnada dentro dessa tenda quente e fedida o dia inteiro! - Acho que devemos ir embora - resmunguei, me levantando do meu pufe manchado e indo na direção da entrada da barraca. Porém, antes que eu alcançasse a saída, as velas bruxuleantes que iluminavam todo o interior


tremeluziram e se apagaram, ocultando a passagem com as sombras. Tudo ficou no mais perfeito escuro, e não conseguíamos ver nada, a não ser a fraca luz enevoada que vinha da orbe brilhante da Bola de Cristal. - Eu não gosto disso - resmungou Leo, em algum lugar atrás de mim - Eu não gosto nada disso! Tateando às cegas, Celina procurou por uma das velas e tentou ascender o seu pavio com uma caixa de fósforos que encontrou sobre o tampo da mesa redonda. Ela riscou um, dois, ..., cinco palitos, mas sempre que colocava o fogo perto da vela, a chama se apagava. - Acho que devemos ir embora - repeti, dessa vez sentindo o pânico correr pelas minhas veias. - O Gui tem razão - concordou Celina, e eu podia distinguir um ligeiro traço de medo em sua voz - Esse lugar aqui não está me inspirando muita confiança. No mesmo segundo, antecipando qualquer movimento que nós poderíamos fazer, todas as velas do lugar voltaram a se ascender - as chamas chegando quase ao topo da tenda. Com um batucar lento e ritmado, o tampo da mesa redonda começou a se agitar e sacudir ao mesmo tempo em que o corpo de Madame Sherazaid se erguia do chão e flutuava à nossa frente, como se ela fosse uma enorme marionete com cordões invisíveis. - Mas que merda é essa? - cuspiu Leo, as mãos nos meus ombros tão tensas que parecia que ele queria arrancar o meu osso fora.


Sem chance alguma de dizer algo, a boca mole da vidente se abriu e um som alto e espectral furou os nossos tímpanos, como se o grito viesse das profundezas do mais sombrio abismo. - Você!!! - cacarejou a voz ríspida e velha, usando o braço direito de Madame Sherazaid para me acusar – Você. Me. Roubou!.. Seu ladrão! Ladrãozinho de uma figa! - Eu não roubei nada de ninguém! - respondi, ainda em choque pela situação, mas não me contendo ao ser chamado de ladrão por ''sabe-se lá quem'' - E se pudesse, não gostaria de ser acusado de ladrão... - Ah, não?! - debochou o ser que possuía a Paranormal adormecida, a descrença e o escárnio presente em cada nota que usava - Então aonde você arranjou esse relógio que está guardado no bolso da sua jaqueta? Como se eu tivesse acabado de perceber que havia sido atropelado por uma locomotiva, tirei o relógio de dentro do meu casaco e o segurei pela corrente, bem em frente ao meu rosto. Aquilo não fazia sentindo. Meu avô havia me dado de presente. Por que aquilo estava me chamando de ladrão por um crime que eu não cometi? - Eu não disse!!! - se vangloriou a voz, levando o corpo de Madame Sherazaid para cima e para baixo, tamanho era o seu prazer pela descoberta - Vocês o


tomaram de mim... O presente do meu marido! Vocês três nos roubaram... roubaram tudo o que tinhamos em vida, e agora vão pagar! Ah, como vão pagar! - Quem você pensa que está chamando de ladra? explodiu Celina, empurrando Leo e a mim do seu caminho, ficando frente a frente com a força do além Este relógio não lhe pertence mais! O avô de Guilherme o comprou de forma honesta, e deu para o neto de presente! Nós não temos culpa se, pelo visto, os seus herdeiros não sabem guardar nada de valor familiar... Em um acesso de fúria, o ser abominável se ergueu e jogou o corpo da vidante à toda velocidade na direção de Celina. Assim que chegou no lugar onde a garota estava, levantou os braços dormentes de Madame Sherazaid e os enroscou no pescoço de minha amiga com todas as forças, visivelmente a apertando até lhe tirar o último sopro de vida. Tomado pelo raiva, Leonidas saiu de seu breve momento de torpor e se atirou em cima da atacante, ao passo que nem pode terminar o trabalho, já que - antes de tocar a clarividente - ele foi arremessado pelo ar, até cair com estrépido em cima da mesa circular que ainda tremia. Olhei para o relógio que eu ainda segurava com extrema aversão. Havia sido ele quem começara tudo aquilo, e agora os meus dois amigos estavão feridos e correndo risco de morrer nas mãos de... Alguém que eu não queria nem imaginar o que pudesse ser. Movido por


esse sentimento, andei firme até o espirito possessor e o encarei, ainda com a mão que empunhava a corrente acima da minha cabeça. - Hei, Velha do Relógio! - chamei, meu corpo tremendo só de imaginar o que eu estava prestes a fazer - Não é isso o que você quer? Por um instante, a criatura parou de pressionar o pescoço de Celina e me olhou com as pálpebras fechadas, toda dua fúria sendo despejada sobre mim. - Isto me pertence, e você sabe disso! - Sei... - murmurei, andando para trás e chegando no limite da tenda - Então, por que você não vem pegar?! No mesmo momento, soltei o aperto de minha mão direita e libertei a corrente de ouro, fazendo com que o relógio se espatifasse em milhares de pedaços no chão atapetado. Com uma lamúria horrenda, o corpo de Madame Sherazaid girou no ar e caiu, libertando Celina e fazendo com que tudo dentro da barraca voasse pelos céus. Foi um segundo desagradável; a grande orbe da Bola de Cristal brilhou e explodiu, uma luz clara e forte interrompendo por completo a nossa visão. Quando acabou, Celina correu para mim e me abraçou, fios e mais fios de lágrimas manchando o seu rosto delicado. Do outro lado, Leo se levantava aos trancos e barrancos, vindo na nossa direção e me pegando pelo pescoço com seu braço musculoso.


- Nunca mais! - gritou ele, num misto de pânico e fúria - Nunca mais me pessa para lhe ajudar com nada! Escutou bem?! Meio segundo depois, ele me segurou pela cintura e me rodou, em um imenso abraço de urso. No meio de nossa pequena confusão de euforia, Madame Sherazaid despertou e se colocou de pé, o rosto aparvalhado e perdido, como se tentasse entender o que havia acabado de acontecer em sua minúscula barraca. - Me desculpem, meus jovens - sussurou ela, sua voz etérea de fada no estado natural - Devo considerar, pela alegria de vocês, que lhes trouxe enormes boasnovas... Mas será que poderiam me explicar o que se passou por aqui? Eu não sabia o que responder. Algo muito ruim havia acabado de acontecer ali, e de uma forma que eu não compreendia, eu conseguira controlar e expurgar o que quer que fosse que estava me seguindo. Somente quebrando o relógio que o meu avô me dera. - Acho que você nos ajudou - disse por fim, um leve tremor percorrendo todo o meu corpo. - Bom - suspirou a vidente, arrumando seus cachos ruivos e nos encarando de uma forma prepotente e orgulhosa - então está na hora de eu receber o meu pagamento... Não pensando duas vezes, tirei uma nota de vinte do bolso da minha jeans e depositei na mão ossuda e


pálida de Madame Sherazaid. No mesmo instante, Leonidas, Celina e eu saíamos da barraca, abençoando o ar frio da noite que nos recebia e não esperando um minuto sequer para ver a reação da mulher ao perceber o estrago que havia acontecido no interior de sua tenda. - Nós não vamos contar o que aconteceu agora para ninguém, não é mesmo? Sem nos virarmos para Celina, Leo e eu concordamos em silêncio, nossos pés tentando chegar o mais rápido possível da saída do parque. Afinal, quem acreditaria em nossa história? É, isto mesmo... Ninguém. Mas de uma coisa eu estava certo. Meu avô iria me matar se descobrisse o que aconteceu com o ''presente'' que ele me deu; o que seria a segunda tentativa de assassinato por causa daquele relógio em um único dia.


Por um longo tempo eu a esperei.

Desde que ela havia partido, me peguei preso à única janela do meu quarto, esperando algum vislumbre, sombra ou até mesmo um sopro no vento que me lembrasse Alana. Mas nada aconteceu. Minha mãe dizia que era para eu despertar daquele meu sono profundo - dizia que a vida continuava, e era isto o que Alana deveria estar querendo para mim, onde quer que ela estivesse. Mas eu não queria continuar. Eu queria ela, do meu lado. Assim, quando a noite sombria chegou, e com a brisa trouxe o cheiro da morte, eu sabia que seria ela quem viria me buscar. No decorrer do dia D, deixei tudo pronto: Minha carta de despedida, o meu quarto arrumado, algumas lembranças para minha familia e o copo de leite que me


levaria aos braços de minha amada - para sempre. Depois do banho, me deitei sobre a minha cama e tomei um longo e profundo gole da bebida envenenada. Com o passar das horas, o comodo me pareceu ficar mais frio e o meu corpo cada vez mais pesado. Com um último suspiro, fechei os meus olhos. E como eu esperava, Alana apareceu ao meu lado - seu rosto perfeito e angelical iluminado por uma luz tão bela quanto ela. Quando Alana se aproximou, percebi que sua face estava tomada por lágrimas prateadas. Aquilo não estava certo. Era um momento feliz - nós estávamos juntos! - Higor, o que você fez? Eu não entendi a pergunta. Havia feito aquilo por nós, e foi isso o que disse a ela. Mas Alana continuou a chorar, como se não tivesse me escutado. Por isso repeti o que disse... talvez dessa vez ela entendesse. - Alana - sussurrei, tentando me aproximar dela – Fiz isso pois não aguentava viver sem você... Agora poderemos ficar juntos, para sempre! - Não Higor, não podemos. Como assim? Era claro que podiamos. O que iria nos impedir? - Você se matou, Higor - respondeu Alana, adivinhando o que se passava em minha cabeça – Diferente de mim, você escolheu terminar com a sua vida...


Eu olhei para ela ainda sem compreender. Porém, com as feições de seu rosto delicado transformadas em uma expressão dura, Alana se afastou de mim e me encarou - como se fosse nossa última vez. - Me desculpe, Higor, mas não era para ser assim. Infelizmente você escolheu o caminho fácil e errado. Agora não há mais volta: estaremos separados para sempre... A luz ao seu redor pareceu ficar mais forte, e Alana desaparecia gradativamente junto com ela. - Espere! - gritei, um esforço que eu sabia que era inútil - Alana, eu te amo! - Eu também te amo, Higor - respondeu ela, as lágrimas voltando a banhar sua face meiga - mas isso não muda nada. Com um clarão de luz, Alana desapareceu levando o meu coração e parte da minha alma. E ali eu fiquei, deitado no escuro, vendo as sombras se apossarem pouco a pouco de mim, conduzindo os pedaços quebrados que haviam restado do meu ser para a escuridão eterna.


Aquela era a primeira vez, em duas longas semanas,

que dormíamos em um quarto de verdade. Afinal, depois de todo este tempo, descobrimos que ''dormir ao relento'' era apenas um dos tributos que Adam e eu teríamos que pagar por cruzar o país às pressas, com alguns poucos trocados nos bolsos e completamente sem destino. No momento, comer ainda não havia se tornado um problema, a higiene pessoal era algo que dava para ''ignorar'' com um pouco de esforço e o caminho confuso e complicado que tomávamos todo santo dia parecia colocar o jogo à nosso favor... mas hoje a noite, quando vimos este hotelzinho mixuruca piscando para nós no final da estrada, não pensamos duas vezes e decidimos nos hospedar. Até por que, não se é todo dia que podemos dispensar um bom colchão sob as nossas costas e um teto de verdade para nos abrigar.


- Não acredito que nem pediram a nossa identidade na entrada... - comentei, frenética, enquanto torcia meu cabelo ensopado na velha toalha embolorada que eu havia pego no pequeno banheiro da suíte - Sabe, se bater uma fiscalização aqui, eles estão ferrados! - Se bater uma fiscalização aqui, pode ficar tranquila que nós seremos os primeiros a saber. Adam encarava a janela embaçada, do outro lado do quarto, com suas mãos apoidas firmemente no móvel preso à parede. A chuva continuava à cair aos borbotões do lado de fora do prédio, e eu ainda não conseguia decidir se continuava de dia ou se já era noite. - O que vamos fazer agora? Em um piscar de olhos, Adam se virou para mim e - com um estranho meio sorriso se espalhando por seu rosto - me avaliou dos pés à cabeça. Só então eu percebi que continuava vestindo as minhas roupas encharcadas pelo aguaceiro, e que cada parte do meu corpo deveria estar tão exposta quanto se eu estivesse usando apenas lingeries. - Tenho uma uma boa idéia do que podemos fazer... - Adam respondeu, se aproximando lentamente da cama e parando bem na minha frente - Só não sei se você vai concordar comigo. Com um esforço descomunal, engoli seco. Nunca, em todos estes meses, eu tinha ficado tão perto de Adam quanto naquele instante. Desde que nos conhecemos, nós dois tinhamos passado por tanta coisa


juntos, enfrentando os mais diversos tipos de contratempos, que nunca me passou pela cabeça que ele pudesse estar interessado em mim. Pelo menos, não do mesmo jeito que eu estava interessada nele. O que, ambos sabíamos, era um erro incrível. Tentando controlar a pulsação que latejava em meus ouvidos, levantei o meu rosto e sustentei o olhar que o rapaz me lançava. Como de propósito, uma minúscula gota de chuva caiu de seus cabelos castanhos umedecidos e deslizou lentamente por todo o seu rosto bronzeado, até chegar aos seus lábios cheios. Inspirando forte, obriguei a minha mente a apagar a imagem que havia se formado em meu subconsciente e fechei os meus olhos com força. Eu tinha que colocar a minha cabeça no lugar, por mais difícil que pudesse parecer. - Acho que deviamos tirar estas roupas molhadas e tomarmos um banho... - Eu concordo com tudo o que você falou. Assim que abri os meus olhos, pensei que iria desmaiar. Pois, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Adam já havia se livrado de sua camisa e me encarava intensamente, de um jeito que eu nunca tinha visto até então. Como se um grande imã me puxasse, levantei minha mão direita e toquei em seu abdômen torneado meus dedos percorrendo de forma hipnótica cada músculo que se tencionava ao meu toque, minha


respiração ficando cada vez mais lenta e mais pesada. - Isto não é certo - sussurei fracamente, minhas mãos ainda presas no corpo seminu do rapaz. - Ah, Luce... Como algo tão bom pode não ser certo? Eu não respondi. Na verdade, já não estava pensando em mais nada. Apenas deixei os meus dedos continuarem o seu trabalho, passeando pela pele molhada de Adam até chegar às suas costas - onde duas longas cicatrizes desciam em sentido diagonal de seus ombros e se encontravam na altura dos pulmões, formando um grande V na parte superior de seu tronco. O meu toque fez Adam se arrepiar todo - mas ao passar por cima das longas marcas esbranquiçadas, me lembrei porque nós dois estávamos ali, escondidos como ratos. Aquelas cicatrizes eram um dos motivos que me fez sair de casa, deixando tudo para trás, e caindo no mundo como uma proscrita; Aquelas cicatrizes eram as provas vivas do mundo que até pouco tempo acreditava ser apenas um mito, mas que agora se revelava ser uma parte de mim – da maneira mais cruel o possível. Aquelas cicatrizes não eram apenas de Adam... Eram minhas também. Ainda perdida naquele torpor, nem percebi quando os músculos de Adam se retesaram e ele me


puxou para junto de si, arrancando minha regata com apenas um breve puxão. Surpresa, senti a pressão que o seu corpo fazia em meu corpo, e instintivamente, inclinei a minha cabeça para trás – um convite aberto e explícito para ele fazer o que nós dois queríamos. - Luce - ele murmurou, sua mão grande ajeitando delicadamente a mecha negra e cacheada do cabelo que caia sobre a minha testa - Eu esperei tanto... Eu pensei tanto em você... Nisto... Que eu nem sei... Eu via a adoração estampada em seu olhar, e aquilo pareceu despertar algo que estava escondido este tempo todo dentro de mim. Algo que me deixou ligada – e sedenta por mais. - Escuta aqui - disse por fim, segurando sua cabeça com firmeza na minha direção e o encarando com a mesma intensidade daquilo que sentia - Por que você não para de falar e me beija logo?! Não se fazendo de rogado, Adam me segurou firme pela cintura e me inclinou na direção da cama nossos lábios se cruzando como se aquele fosse o último minuto de vida na Terra. Por mais que nos beijássemos com fúria, meu corpo ainda gritava de desejo. Minhas pernas pareciam ter vida própria, e enlaçavam famintas a pélvis de Adam contra o meu baixo-ventre; minhas mãos, antes tão delicadas e fracas, agora pareciam pertencer a uma nova Luce: certa do que queria, e que guiava com destreza a cabeça do rapaz em cima de mim, do meu ombro para o


decote do meu sutiã. Eu me sentia suja, e ao mesmo tempo, incrivelmente livre. Tudo parecia perfeito - Adam e eu deitados na cama, nossos corpos entrelaçados como se fossem um só - até que minha pele se arrepiou de repente, e uma estranha e assustadora sensação de aflição se apoderou do meu ser. Eu queria simplesmente ignorar aquele sentimento e continuar o que estava fazendo, mas não me parecia natural. Algo estava errado. - Hei... O que está acontecendo? Assim que tirou seus olhos da pele nua da minha barriga e os levou de forma instintiva para a expressão que começava a tomar conta do meu rosto, Adam parou instantaneamente de me beijar e se levantou - sua postura relaxada dando lugar à movimentos rápidos e atentos. - Eu... eu não sei - gaguejei, me encolhendo pouco-apouco e procurando em todas as direções possíveis o que poderia estar me causando aquilo. - Só sinto que... eu não sei, alguma coisa... está se aproximando. Um segundo depois, um forte relâmpago cruzou o céu turbulento do lado de fora da janela, e a porta do nosso quarto se explodiu em milhares de pedaços deixando para trás uma imensa nuvem de poeira e caliça.


- Eles no encontraram - murmurou Adam, puxandome pelo braço e fincando o seu corpo à minha frente. Em meio à névoa produzida pela explosão, a figura alta e monstruosamente forte de um homem que aparentava ser um pouco mais velho do que nós surgiu do nada – seus olhos, dourados como fogo em brasas, nos encarando com uma fome assassina. - Ora, ora, ora... Vejam só quem eu encontrei retrucou o intruso, sua voz àspera e cortante ecoando pelo silêncio do quarto revirado - Mas não é que vocês realmente merecem o título de ''Romeu & Julieta'' do Plano Celestial?! Sem saber para onde ir, e muito menos o que fazer, pressionei o meu rosto com força contra os ombros de Adam - o que acabou se revelando um grande erro, já que ele tomou aquele gesto como uma forma de encorajamento e caminhou alguns passos na direção do invasor, sua mãos cerradas em punhos e sua respiração lenta e entrecortada. - Nicael - disse Adam, em reconhecimento – Eu deveria imaginar que era você este tempo todo... Como resposta ao comentário do rapaz, Nicael unicamente olhou para nós dois com desdém e sorriu com uma satisfação devastadora. Descobrindo de imediato o por que da risadinha tola, recolhi a toalha embolada que estava no piso ao meus pés e tentei me cobrir da melhor maneira que podia.


- Vamos lá, Luce, não precisa ter medo de mim Nicael caminhou à passos largos na direção da única janela do cômodo e encostou-se no peitoril, tirando maliciosamente seus cabelos dourados do campo de visão e piscando para mim - Acho que você deve saber... Eu sou do time dos bonzinhos. À minha frente, todos os músculos de Adam se retesavam, e eu podia sentir nas palmas de minhas mãos o tremor que subia e descia por toda a superfície de suas cicatrizes em V. Com um suspiro, percebi o que estava prestes à acontecer. E não seria nem um pouco legal. - Fique longe dela - rosnou Adam, encarando o intruso sem piscar um minuto sequer. Desta vez, Nicael não esboçou nemhum tipo de reação forçada de amizade. Na verdade, ele parecia estar se controlando o máximo que podia. E, se eu não estivesse enganada, sua cicatriz deveria estar tão inquieta quanto à do rapaz com quem discutia. - Nós confiamos a você uma Missão - disse ele, sua voz diminuindo até atingir um ponto que parecia mais um sibilar venenoso de uma serpente do que um som humano - Seria rápido e limpo... Tudo o que tinha que fazer era chegar nela. O resto era conosco. - Eu não vou deixar você, nem ninguém, se aproximar de Luce - Adam deu mais um passo a frente, e meu coração estava prestes a saltar pela boca. Sempre quando falava de sua Missão, o real motivo que ele teve


para se aproximar de mim assim que nos conhecemos, as marcas esbranquiçadas em suas costas pareciam querer se abrir em revolta e vergonha - Vou protegê-la, nem que para isto eu tenha que cair. - Intercessores - resmungo Nicael, começando a desabotoar sua camisa de linho branco e se aproximando mais um pouco de nós - Sempre achei uma má idéia desde o Princípio... E aqui está a prova: uma vez Homem, sempre Homem. Será que existe alguma outra raça neste mundo que consegue ser tão facilmente manipulada com as mais fracas palavras e um pouco de pele exposta? Como se estivessem ensaiando para aquele instante durante meses, os dois homens diante de mim contraíram as suas costas e a pele esticada de suas cicatrizes se rasgaram ao meio - revelando dois pares de longas e assustadoras asas, suas penas alvas e sedosas como nuvens em um dia ensolarado e as pontas de cada uma delas tão letais e afiadas quanto o fio de uma espada. - Cala a boca, Nicael! - vociferou Adam, a vibração de sua raiva conseguindo fazer tremer os vidros presos na janela - Eu não estou sendo controlado por ninguém! - Ah, está sim... - respondeu o invasor, seus olhos dourados se transformando em dois poços de chamas – Você está sendo controlado pela Paixão, pela Luxúria... Você está sendo controlado por ela.


Em um piscar de olhos, Adam pulou como um gato sobre o corpo de Nicael, agarrou seus cabelos dourados com fúria e jogou a cabeça do anjo contra a quina do pequeno criado-mudo. Mesmo estando do outro lado do quarto, pude ouvir alarmada os ossos do nariz do anjo sendo triturados à cada pancada. - ''Os pecados do pai não serão os pecados do filho''... - Adam repetia o movimento várias e várias vezes, encharcando de sangue prateado a superfície lustrosa do móvel de madeira - Estas palavras nãos significam nada para você? Deslizando como uma serpente, Nicael se livrou do aperto empregado por Adam e saltou na minha direção. Eu estava pronta para me virar e fugir, mas ao ver o rosto do anjo perfeitamente inteiro, sem uma única marca ou arranhão e apenas coberto pelos respingos de seu sangue luminoso, todo o meu corpo se congelou. - Ela não é uma humana comum! - gritou Nicael, me pegando pelos ombros e me empurrando contra a parede oposta - Ela é uma Nefilim! Ela é filha de um Anjo Caído... As Leis não se aplicam para esse tipo de coisa. Antes que eu pudesse reagir ou sair correndo, senti o meu corpo tremer e as mãos frias e duras do invasor se fecharem sobre o meu pescoço. Lágrimas começaram a transbordar dos meus olhos. Aquilo era tão injusto! Nunca, em toda a minha vida, eu tive qualquer


tipo de contato com o meu pai biológico. Tudo o que ele havia feito para mim foi transar com a minha mãe por uma única noite e cair no mundo - a deixando sozinha com uma filha. Eu não o conhecia, e nem queria. Quando Adam me contou sobre o que eu era, o por que dele ter me encontrado e qual era a real natureza do meu pai, eu acreditei na hora. Em parte por ele ter revelado as suas asas de Intercessor para mim junto com toda a verdade, mas com toda a certeza eu era capaz de imaginar que Arziel era um ser mal e egoísta, que era capaz de trair a todos quem conhecia só por alguns minutos de prazer e Pecados baratos. Eu não tinha nada a ver com ele... Muito menos com as coisas abomináveis que ele havia feito para ser expulso do Céu. - Por favor, não me machuque – choraminguei desesperada, sentindo a pressão das grandes e pesadas mãos de Nicael presas ao redor do meu pescoço - Eu odeio o Arziel tanto quanto você... É sério. Se quiser, eu ajudo a encontrálo. Eu faço qualquer coisa! - As coisas não são tão fáceis assim - disse o anjo, o fogo em seu olhar se abrandando por um milissegundo – Não podemos confiar em um Nefilim. Pode ainda não sentir, mas em breve a herança de seu pai começará a tomar conta de você, e aí será perigoso. Não só para as pessoas ao seu redor, mas para si mesma. Acredite, não é nada pessoal. Eu só sigo as ordens... Ordens que eram de Adam, mas que ele foi fraco demais para cumpri-lás.


No mesmo minuto em que Nicael começou a apertar a minha garganta com sua força real, uma chuva de cacos de vidro caiu sobre a sua cabeça e ele se desviou para o lado - libertando-me instantaneamente da prisão assassina de seus braços e despencando aturdido na confusão que era a cama do hotel. - Eu falei que era para você ficar longe dela... Adam estava parado atrás do intruso, suas mãos segurando um pesado pedaço da luminária do cômodo. Suas asas gigantescas se agitavam loucamente, o que acabou criando um intenso vendaval que impedia o outro anjo de se levantar e revidar o ataque. - Escutai-me, Intercessor - ladrou Nicael, tentando a todo custo superar a intensidade do vento produzido pelas asas de Adam - Eu sou o seu Superior. E eu ordeno que obedeças às nossas Leis! AGORA! Com um breve meio-sorriso, Adam meneou a cabeça com incredulidade e lançou para o outro lado do cômodo a arma improvisada que ainda tinha em mãos. - Posso ser o seu subordinado, Arcanjo Nicael, mas não sou seu cão de aluguel - respondeu meu protetor, se aproximando um passo de cada vez de seu oponente caído, seus olhos cinzentos sendo tomados por um estranho tom escuro - Nunca, em toda a minha breve vida, eu matei um outro ser inocente... E não será agora, depois de transformado em um anjo Intercessor, que irei fazer isto. Os dois se entreolharam por um curto espaço de


tempo que me pareceu uma eternidade. A decisão do que iria acontecer foi tomada ali, bem na minha frente, sem uma única palavra. Por mais que tentasse ignorar, eu podia sentir o terror e a expectativa do que estava por vir se espalhar rapidamente pelo ambiente fechado do quarto - se agarrando a minha pele igual à um gás venenoso. - Se existe alguém aqui que merece ser condenado, com certeza não é a Luce... E estas foram as últimas palavras que Nicael, o Arcanjo, escutou antes de perder a sua consciência e mergulhar - para todo o sempre - no desconhecido abismo da Eternidade. Por um segundo, eu quis desviar os meus olhos da cena que se seguiu. Mas, por mais que eu tentasse, eu não conseguia deixar de ver o espetáculo macabro que se desenrolava à minha frente. Adam estava tomado por uma fúria animalesca, e açoitava, e socava e chutava cada centímetro do corpo do anjo. Eu escutava o barulho de cada osso sendo quebrado, via o sangue prateado espirrar em todas as direções - e ainda assim, não conseguiar desgrudar os meus olhos do massacre. Quando suas energias estavam quase no fim, o rapaz se debruçou sobre o ser desfalecido e começou a puxar, sem dó nem piedade, as asas presas ao tronco. Conforme a cartilagem se soltava da pela marmórea e as penas despencavam do membro atrofiado, mais o meu coração parecia querer saltar de minha boca.


Eu estava assustada e, de uma maneira doentia, fascinada. - Me desculpe por isto - murmurou Adam, assim que passou o seu acesso de raiva e suas asas se retraiam novamente para dentro de suas cicatrizes. Para ser sincera, não sabia como agir em uma situação daquelas. Havia uma criatura morta no chão de nosso quarto, o cômodo inteiro se encontrava revirado e completamente destruído, e mesmo assim, tudo o que eu pensava era como os músculos expostos do meu Intercessor pareciam belos e másculos estando cobertos pelos fluídos luminosos do anjo abatido. - Você... você é lindo - deixei escapar baixinho, constrangida demais por falar uma coisa dessas naquele momento. No mesmo segundo, Adam levantou seus olhos do corpo caído de Nicael e os levou na minha direção. Assim como na luta com o anjo, suas íris não estavam em seu tom natural de cinza, e sim negras e com as pupilas dilatadas. Por um breve instante, eu imaginei se não seria eu quem o transformava, o manipulava para ficar desta maneira. Mas era loucura. Como eu, uma garota comum e sem atrativo algum, poderia controlar uma criatura poderosa como um anjo? - E você sabe que está totalmente enganada, não é mesmo? - Como?! - respondi, despertando do meu devaneio.


- Não sou eu que sou lindo - continou Adam, seu meio sorriso maravilhoso brincando em seus lábios - É você... só você! E, assim que ele disse isto, eu sai de meu transe temporário e me joguei em seus braços ensopados de sangue celestial. Adam tinha feito tudo aquilo abandonando a sua Missão, fugindo comigo e matando um anjo superior - só por minha causa. Aquilo não era cruel... Era maravilhoso. E romântico. E belo. Afinal, como algo tão bom poderia ser ruim?! - Me beije - sussurrei, fechando os meus olhos – Me beije agora! Quando nossos lábios se entrelaçaram, nada mais parecia errado. Não me importava com o fato de o quarto estar destruído, muito menos que os olhos sem vida de Nicael nos encarava - suas asas repartidas jogadas de qualquer jeito no piso do cômodo. Só o que me importava era que Adam e eu estávamos conectados, nossos corpos se movendo e se tocando em único ritmo, e que juntos - a Nefilim e o Intercessor - seríamos invencíveis...


Eu estava queimando.

Cada centímetro do meu corpo parecia estar sendo consumido por chamas vivas, e a respiração que saia da minha boca era quente e entrecortada. Nunca, em toda a minha vida, eu havia experimentado uma dor tão lacinamte quanta aquela. Era uma sensação impossível de se explicar, tamanha a sua complexidade. Insurpotável... mas, ao mesmo tempo, estranhamente prazerosa. Tentando entender o que estava acontecendo comigo, tateei a superfície abaixo de mim, minhas mãos encontrando ao acaso a textura dura e arenosa do asfalto úmido que se agigantava em todas as direções ao meu redor. Abri os olhos. Para minha surpresa, um enorme e negro céu me saldou lá do alto. Débilmente, e sentindo uma fisgada forte e aguda no topo da minha cabeça, pisquei como um farol descontrolado em todas as direções possíveis... Só para me ver deitado no meio da auto-pista que ligava Dumont à cidade de Ventura, feito um mendigo velho e chapado.


- Mas que merda - resmunguei em voz baixa, obrigando cada partícula do meu ser a trabalhar e me levantar do meio da estrada - O que eu estou fazendo aqui?! Antes que eu recobrasse totalmente os meus sentidos, uma viatura da polícia surgiu ruidosa em meio a névoa expessa - o automóvel passando à toda velocidade pela autopista e me obrigando a rolar sem cuidado algum na direção do acostamento. - Seus Babacas! - bradei para a escuridão, as brasas em meu peito se atiçando violentamente - Não me viram aqui não?! Um segundo depois, outra viatura passou correndo na mesma direção, as luzes do capô prenchendo de azul e vermelho o ar cinzento da noite. Aquilo era muito, muito estranho... E, eu não sabia por que, uma espécie de aflição começou a tomar conta de mim - sentimento que foi triplicado com a ajuda do fogo que ardia em meu interior. Num subito momento de inspiração, resolvi checar o que estava acontecendo. Desajeitado, e ainda um tantinho tonto, caminhei péante-pé pela borda do acostamento. A cada passo que eu dava, as chamas que me devoravam pareciam se agitar mais, produzindo uma grossa camada de suor em minha pele e grudando a camiseta que usava ao meu peito. - Inferno - bufei, puxando de qualquer maneira o tecido encharcado pela minha cabeça e o jogando na direção da grossa fileira de eucaliptos que me seguia no limite da estrada - Este deve ser o pior dia da minha vida... Seguindo a curva da auto-pista, deparei com uma cena


que me fez estacar no chão e o meu sangue borbulhar ainda mais. À alguns metros a minha fente, uma confusão de ambulâncias e viaturas bloqueavam por completo as duas vias da estrada. Para onde eu olhava, homens e mulheres de farda corriam determinados, suas mãos ocupadas com o mais variado tipo de maletas e equipamentos. Porém, o que mais chamava a minha atenção eram os dois carros retorcidos que demilitavam onde começava e onde terminava o frisson. O primeiro, obviamente, era um táxi. Sua lataria dianteira estava em um estado de perda total - o parachoque dividido ao meio pelo tronco robusto de um eucalipto à margem da via. A visão do segundo era mais assustadora. Capotado no meio da auto pista, o conversível vermelho queimava como uma imensa fogueira de comemoração - seu teto móvel, a porta dianteira e uma de suas rodas jazindo em chamas à metros de distância. Eu não conseguia ver como estava a pessoa que dirigia o automóvel, mas de uma coisa eu estava certo: Aquele carro era igual ao meu. Respirando fundo para recuperar meu equilíbrio, me aproximei do acidente e tentei encontrar alguém que pudesse me explicar o que estava acontecendo. Se antes eu queimava, agora estava em erupção - tamanho era o meu nervosismo. Por sorte, encontrei um policial afastado do grupo, seus olhos míudos fixos em uma sacola preta e disforme postada aos seus pés. - Com licença, senhor - sussurrei, contornando com cuidado a massa estranha no chão e parando de frente para o oficial - Será que poderia me dizer o que foi que aconteceu


aqui?... O senhor por acaso sabe quem estava dirigindo o conversível? Durante dois minutos, eu fiquei esperando a resposta do policial. Mas, em uma atitude bastante grosseira, o cara parecia fazer questão de me ignorar - como se nem ao menos eu estivesse ali, em pé diante dele. Contrariado, vi o homem sacudir a cabeça com reprovação e se afastar dali, me deixando sozinho no meio da algazarra. - Mas que merda de profissional! Mesmo eu tendo gritado a provocação para todo mundo ouvir, ninguém apareceu para me dar o mínimo sequer de atenção. Sem saber em quem descontar a minha raiva, chutei o embrulho preto aos meus pés com toda a força - o plástico rodopiando para longe de mim como uma gigantesca bola de futebol americano, sua lateral se rasgando no asfalto antes mesmo de parar. - Ca-ce-te. Percebendo tarde demais a enorme burrada que eu havia acabado de cometer, observei estupefado uma grande mão masculina deslizar imóvel para o lado de fora da abertura cerzida, suas veias tão roxas que era posssível vê-las saltarem através da pele marmórea. Afinal, aquilo na minha frente não era uma simples sacola jogada de qualquer jeito no chão... ...Era uma mortalha. Em um misto de terror e curiosidade, me esgueirei silenciosamente por entre o caos de pessoas trabalhando e me aproximei de onde a manta térmica se encontrava


violada. Olhando por cima dos ombros, puxei bem devagar o fino zíper que lacrava a bolsa negra e espiei o corpo jovem que se deteriorava minuto à minuto em seu esconderijo escuro. Uma coisa eu devo confessar: desde que me entendo por gente, sempre tive fobia por cadáveres. É algo meio irônico de se imaginar, já que metade da minha família é formada por médicos, e eu mesmo estava cursando medicina. Porém, ainda que eu não tivesse este pânico por ver gente morta, nada poderia ter me preparado fisicamente – e psicologicamente - para aquele momento. Pois, do interior da mortalha, um rapaz alto e bastanta forte me encarava com olhos vidrados, as pontas de seus cabelos ruivos levemente chamuscados e metade do seu rosto pálido oculto por uma grossa camada de sangue e carne queimada. Talvez, para a maioria das pessoas ao meu redor, aquele rosto apagado não significasse completamente nada. Mas para mim era diferente. Eu conhecia aquele rosto; cada centímetro dele, cada imperfeição, cada marca de expressão... Aquele era o meu rosto. O meu corpo. Morto. Em um asfixiante turbilhão de imagens, todas as lembranças ocultas daquela noite invadiram a minha mente por completo, me tirando o chão e o restinho de ar que ainda havia em meus pulmões. Totalmente nauseado, revivi impotente minhas últimas horas de vida - desde que acordei, até aquele momento obscuro.


Flash. Meu pai discutia comigo. O coroa falava sem parar por eu ter chegado em casa tarde na noite anterior. Eu não queria escutar. Minha cabeça explodia. Fui para a varanda e ascendi um baseado. A fumaça do cigarro me entorpeceu e pareceu abafar a ladainha que vinha da porta aberta. Flash. Eu e Suzana davamos uns amassos no meu carro. Quando paramos, ela perguntou se eu estava bem. Eu menti. Disse que estava ótimo. Que os meus pais haviam parado de pegar no meu pé. Ela não acreditou. E falou que se preocupava. Flash. Hora do estágio. O Dr. Biel me chamou para conversar na sala dele depois do expediente. Tentei disfarçar os olhos vermelhos. Ao chegar lá, não acreditei no que ele me dizia. O tutor falava que estava impressionado comigo. Me queria em sua equipe. Assim que o semestre acabasse. Flash. Eu rodava pela cidade. A turma fazia uma zona no meu carro. O tilintar das latinhas de cerveja e a fumaça do baseado enchiam o ar à nossa volta. Íamos para um bar no limite do campus da Faculdade. Eu só pensava em comemorar. Em poucos meses, eu estaria livre das merdas dos meus velhos. Livre para fazer o quizesse. Para Sempre. Flash. Suzana dizia que eu era louco. E que estava chapado.


E que eu precisava parar de dirigir naquele instante. Eu não me importei. Repeti o pedido que havia acabado de fazer pelo celular. Perguntei se ela queria morar comigo. Perguntei se queria se casar comigo. Ela riu e me mandou tomar uma ducha de àgua gelada. Dessa vez quem riu fui eu. Disse que não precisava de água gelada. Só dela. E de seu corpo. Falei para Suzana se preparar, pois eu estava indo para a sua casa. Nós iríamos comemorar. A noite inteira. Antes que ela me respondesse, um par de luzes amarelas iluminou o meu parabrisa, e eu perdi o controle do conversível. Tudo ficou escuro. Com um forte suspiro, voltei para o presente. Piscando loucamente, me vi novamente ajoelhado de frente para o meu cadáver. As chamas no meu corpo agora eram labaredas e, só agora eu percebia, a minha pulsação não existia mais. Era um som único, como um motor de carro ligado, e que zumbia baixinho em meus ouvidos. O que havia acontecido comigo, afinal?! Será que agora eu era um fantasma? Um monstro das sombras? Besteira... Eu nunca acreditara nestas histórias. Em um surto de lucidez, procurei pelas outras vítimas do acidente: o motorista e os passageiros do táxi. Era claro. Pois, se eu estava nesta espécie de limbo ''Além da Imaginação'', eles também deveriam estar. Guiei os meus olhos por todas as direções, mas não os encontrei em lugar algum. Nem um outro corpo pelo chão... Nem uma outra mortalha. Só a minha. Sentindo um macabro arrepio percorrer a minha espinha, andei à passos largos na direção da ambulância mais


próxima. Os paramédicos já se preparavam para partir, mas eu não podia perder aquele chance de procurar por respostas. Eu não podia simplesmente ser o único. Assim que me desviei do pequeno grupo de bombeiros que bloqueavam a minha visão, meu estômago deu um salto. Sentados de qualquer jeito no interior do veículo, três pessoas contemplavam o nada, suas expressões tão abatidas que eu tive certeza que eram os outros envolvidos no acidente. O mais próximo de mim só podia ser o taxista. Com o cabelo raspado em estilo militar e enormes costeletas, o cara deveria ser apenas alguns anos mais velho do que eu. Ao seu lado, um casal de adolescentes se encostava um no ombro do outro, as faces dos dois tomadas por lágrimas e fuligem seca. Com os mesmos cabelos ondulados e o tom de pele castanho, se via claramente que eram irmãos. Mas, enquanto a menina era uma verdadeira rainha da beleza em todos os sentidos, o visual do rapaz parecia ser de um jovem sátiro que havia acabado de participar de um filme de vampiros emos. - Então, precisam de alguma coisa? Pulando com o susto, girei nos meus calcanhares e me deparei com a expressão dura e misteriosa do Chefe da Brigada de Paramédicos. Por um breve momento, pensei que ele me encarava... Seus olhos cinzentos, parcialmente ocultos por uma mecha de seu cabelo negro, pareciam tentar se fixar em meu rosto. Porém, assim como todos ao redor, o homem cruzou o espaço entre nós e se dirigiu na direção do pequeno grupo sentado na ambulância. Naquele segundo, percebi o que estava óbvio à muito


tempo... Os três ainda estavam vivos. Haviam sobrevivido ao desastre apenas com alguns arranhões e manchas de cinzas pelo corpo. Só eu perdera o corpo. Só eu havia morrido. E. Aquilo. Não. Era. Justo! Vendo os homens terminarem de prestar os primeiros socorros e fecharem a porta dupla da ambulância, todo o meu corpo começou a entrar em convulsão. Ao colocar a mão diante do meu rosto, tudo o que eu conseguia enchergar era um borrão de cor e raiva. Não podia ser... Eu tinha acabado de ganhar um emprego. Estava prestes a me formar na Faculdade. Aquilo não era real. Não era possível! Eram eles quem deveriam estar invísiveis à todos... ...Eram eles que deviam ter seus corpos se decompondo lentamente dentro de uma mortalha plástica... Eram eles quem deviam estar mortos, não eu! - NÃO! - implorei com todas as minhas forças, um rio de lágrimas incandescentes rolando por meu rosto sem controle algum - Por favor, NÃO! Tomado pela fúria, observei a ambulância ganhar distância à toda velocidade, as luzes presas no teto do veículo ficando cada vez menores com o passar do tempo. Eu me sentia impotente. Não sabia o que fazer. Mas tinha plena convixão de que eu tinha que fazer alguma coisa – qualquer coisa - para mudar a situação. Sem pensar em nada, comecei a correr atrás da viatura.


Desesperado, meu subconsciente tentou me alertar que aquilo era inútil, que eu só iria me cansar e me deixar ainda mais frustrado. Eu não me importava. Só queria continuar movendo os meus pés... continuar seguindo o ronco distante da ambulância. Com o passar do tempo, ao invés de sentir o cansaço começar a me abater, tudo o que eu percebia era que eu estava ficando cada vez mais rápido. Os eucaliptos que margeavam a rodovia não passavam de um leve borrão de cores, a umidade do ar noturno se condensava instantaneamente ao entrar em contato com a minha pele quente, e - principalmente - o som produzido pela sirene parecia ficar cada vez mais próxima, ao invés de cada vez mais distante. Intuitivamente, apertei ainda mais os meus passos. Assim que eu comecei a forçar as minhas pernas à darem o máximo de si na corrida, um cheiro denso e insuportável de borracha queimada me atingiu em cheio me obrigando a parar e ver o que estava acontecendo. Respirando fundo, olhei para os meus pés e o choque me tomou por completo. Do solado dos meus sapatos, uma fumaça negra e pegajosa se espiralava para o céu, um brilho fosco de dourado sendo atiçado sobre o solo ao mais leve sopro do vento. Alarmado, arranquei fora o calçado em chamas e o joguei longe. De alguma maneira assustadora e quase animalesca, eu conseguia correr mais rápido que uma pessoa comum. Se a sola dos meus sapatos não tivessem entrado em cobustão


instantânea devido ao atrito, em mais alguns metros eu teria conseguido alcançar a ambulância - que naquele momento, já deveria estar à quilômetros de distância do ponto onde eu estava. Me lembrar disto só me fez piorar. Como uma onda em meio à uma tempestade, eu senti toda a pressão do que estava passando cair sobre mim e me jogar com todas as forças no chão. Eu estava cansado. Eu estava perdido. E o meu coração parecia querer explodir de tanto... Ódio. Sim. Eu estava com Ódio... Ódio por estar morto. Ódio por não poder ver mais a Suzana. Ódio pelos meus pais. Mas, principalmente, Ódio por aqueles três filhos da puta de merda que haviam sobrevivido ao acidente. Que haviam me matado, me fudido, e me tirado tudo o que eu havia conseguido. Eles iriam me pagar... Nem que isto fosse a última coisa que eu fizesse! Com um esgar sombrio, uma dor lacinante rasgou a pele das minhas costas ao meio. Mesmo ficando por um segundo sem ar, gritei com todas as minhas forças para o céu da noite, as veias do meu pescoço saltando com fúria tamanho era o terror e o ódio que sentia. Arfando enlouquecidamente, tombei para frente e esmurrei o chão com o punho repetidas vezes, triturando o concreto duro à cada batida. Agora o fogo não parecia estar


somente me consumindo por dentro; ele se esvaia para fora do meu corpo, as chamas encontrando uma saída através do buraco que havia se explodido de meus ombros e que agora me obrigavam a ficar arriado, o rosto colado no asfalto. E, mesmo balejado, com cada ponto do meu interior sendo torturado por partículas de brasa, e com a minha visão turva sendo parcialmente obliterada pelo gigantesco vulto negro que desabrochava a partir do meu tronco, eu não conseguia esquecer o que havia acontecido. ''É culpa deles'', um coral de vozes no fundo do meu cérebro me incitava, a cada espasmo que me fazia tombar de cara no asfalto, ''Você precisa se vingar!'' Sim, eu concordava com isto. Eles tinham que me pagar. Eu tinha que me vingar.

E foi assim que o farfalhar de longas asas destroçadas encheram os meus ouvidos e, no mesmo instante, a sombra que surgia de mim me rodeou por completo - abraçando e recolhendo o meu novo corpo em meu próprio mundo de escuridão.


Anjo:

Ser puramente espiritual, de aparência humana e longas asas de pássaro. Criado por Deus para ser seu Mensageiro, sua principal Missão é guardar o Mundo Material das intenções subversivas do Exército das Sombras. A Ordem dos Anjos é formada por diversas classes e subdivisões, sendo a principal delas composta pelos Arcanjos. Apesar de Imortal, se um Anjo ''morrer'' durante uma batalha, o seu eu pode retorna no Mundo Material na forma de um Arcano.

Arcano:

Pessoa capaz de ver e interagir com Anjos e Demônios. Além da Visão, um Arcano possue força e agilidade sobrehumanas, além de ser dotado de uma sensibilidade apurada – o que o possibilita descobrir qualquer tipo de Operação Maligna que esteja trabalhando no ambiente ao seu redor. Os Arcanos podem surgir de duas formas: Através da ''morte'' em batalha de um Anjo, ou da hereditariedade familiar.


Demônio: Ser de natureza malígna; Anjo Caído. Integrante superior do Exército das Sombras, sua principal missão é levar dor e desespero ao Mundo Material, além de tentar corromper a alma humana. Assim como a Ordem dos Anjos, a armada demoniaca é formada por várias classes e subdivisões, sendo a mais comum composta por espíritos de mortais que morreram sem Salvação e agarrados à Pecados Capitais como: o Ódio, o Rancor, a Inveja, a Avareza e a Luxúria. Se um demônio é banido do Mundo Material por um Anjo ou por um Arcano, o seu eu é aprisionado no Inferno por toda Eternidade.

Incubo:

Espécie de demônio masculino que suga a vida de suas vítimas através do prazer sexual. Além do poder da beleza e da sedução, um Incubo exerce forte influência no mundo dos pesadelos.

Intercessor:

Membro pertecente à Última Classe da Ordem dos Anjos. Originados a partir da morte de um humano de ''alma-pura'' cuja Missão na Terra não foi completada, o Intercessor segue diretamente no Mundo Material as tarefas idealizadas por seus Superiores. Apesar de sua transformação em um ser Celestial durante leito de morte, o Intercessor ainda preserva muitas de suas características humanas, tais como a impulssividade e a paixão.

Nefilim:

Filho de um Anjo Caído/Demônio com uma pessoa comum. Metade ser sobrenatural, metade ser


humano, um Nefilim herda não só alguns dos perigosos ''dons'' de seu pai, como também sua personalidade vingativa, traiçoeira e manipuladora.

Sensitivo:

Ser humano comum que nasce com uma leve conexão com o Mundo Espiritual. Capaz de descobrir a verdadeira natureza de uma pessoa, e suas reais intenções, muitos Sensitivos passam a vida sem descobrir a origem de sua ''intuição''. Diferentes dos Arcanos, um Sensitivo só consegue ver/interagir com um Anjo ou um Demônio se o mesmo se revelar para ele.

Sucubo: Espécie de demônio feminino que suga a vida de suas vítimas através do prazer sexual. Assim como o seu consorte, uma sucubo também é uma ''pessoa'' incrivelmente bonita e exerce forte influência no mundo dos pesadelos.


Não perca a irresistível continuação da saga de anjos, demônios e arcanos:

Em Breve


HENRI B. NETO Nasceu no Rio de Janeiro, no ano de 1989. Apaixonado por livros desde pequeno, é um ''escapista''de carteirinha - e tem como grande paixão a Literatura de Fantasia. Atualmente, ele divide o seu tempo entre a Faculdade de Pedagogia, seu blog & vlog no Youtube sobre romances para o público Jovem-Adulto e na produção de novos volumes da ''Saga das Sombras''. henrib-neto.webs.com


Mundos Secretos: Uma Antologia da Saga das Sombras  

Anjos, Demônios, Possessões e Exorcismos... Para a maioria das pessoas, estes temas ainda são um grande mistério; Para outras, não passam de...