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O príncipe Feliz Fonte : Revista Seleções Data : Outubro de 1981 Autor : Oscar Wilde Uma fábula maravilhosa como um sonho, narrada para crianças e adultos por um grande escritor. Havia lá, bem no alto, acima da cidade, uma alta coluna, onde ficava a estátua do Príncipe Feliz. Toda forrada de finas folhas de ouro precioso, tinha duas safiras no lugar dos olhos, e um enorme rubi faiscava no punho de sua espada. Era admirada por toda gente. Uma noite, um pequeno Rouxinol voou sobre a cidade. Seus amigos haviam partido para o Egito seis semanas antes, mas ele havia ficado para trás, pois estava apaixonado por uma linda cotovia. No princípio da primavera, havia-a conhecido ao sobrevoar o rio, atrás de uma grande mariposa amarela. “É um namoro ridículo”, chilrearam os outros rouxinóis. E, quando o outono chegou, voaram para longe. Depois que eles partiram, o Rouxinol sentiu-se muito só, e começou a cansar-se do seu amor. “Ela não sabe conversar”, disse, “e temo que seja muito vaidosa, pois vive namorando o vento.” E voou para longe. Voou durante todo o dia e à noite chegou àquela cidade. “Onde poderei alojar-me?” conjeturou. “Espero que a cidade esteja preparada para me receber.” Então viu a estátua sobre a alta coluna. “É ali mesmo que vou ficar”, exclamou. “Está muito bem localizada.” Então pousou aos pés do Príncipe Feliz. “Tenho um quarto todo de ouro”, disse, olhando em volta, enquanto se preparava para dormir. Justamente quando ia pondo a cabeça debaixo da asa, caiu em cima dele uma grande gota de água. “Que coisa curiosa!” exclamou a avezinha. “Não há uma única nuvem no céu e no entanto está chovendo. Este clima do norte da Europa é realmente péssimo.” Aí caiu outra gota. “Qual é a utilidade de uma estátua se não me protege da chuva?” indagou ele. E resolveu voar para longe. Antes que abrisse as asas, no entanto, caiu uma terceira gota; ele olhou para cima e viu o que? Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas, e elas corriam-lhe pelas faces douradas. Seu rosto era tão lindo ao luar que o pequeno Rouxinol sentiu piedade. “Quem é você?” perguntou. “Sou o Príncipe Feliz.” “Então, porque é que está chorando?” perguntou o Rouxinol. “Você me molhou todo.” “Quando eu estava vivo e tinha um coração humano”, respondeu a estátua, “não sabia o que eram lágrimas, pois morava no palácio de Sans-Souci, onde não se permitia que a tristeza entrasse. De dia, eu brincava com meus amigos no jardim, e de noite dançava no salão. Meus cortesãos chamavam-me de Príncipe Feliz. Agora, porém, que estou morto, eles me colocaram tão alto que posso ver toda a feiúra e toda a miséria da minha cidade, e, embora meu coração seja de chumbo, não posso deixar de chorar.” “Que! Então ele não é de ouro maciço?” pensou o Rouxinol para consigo. Era educado demais para fazer comentários em voz alta.


“Lá longe”, continuou a estátua na sua vozinha musical, “lá longe, numa ruela, está uma casa pobre. Através de uma das janelas eu posso ver uma mulher sentada a uma mesa. Seu rosto é magro e cansado; suas mãos ásperas e vermelhas, todas picadas da agulha, pois ela é costureira. Está bordando umas flores num vestido de cetim, para a mais encantadora das damas de honra da rainha vestir no próximo baile da corte. Numa cama, a um canto do quarto, jaz doente um menininho, que está chorando. Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol, poderia você levar para ela o rubi que brilha no punho de minha espada?” “Estão esperando por mim no Egito”, disse o Rouxinol. “Meus amigos andam voando no Nilo para cima e para baixo, e falando com as flores de lótus.” “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, disse o Príncipe, “será que você não poderia ficar comigo uma noite e ser meu mensageiro?” Sua aparência era de tal tristeza que o pequeno Rouxinol teve pena. “Está muito frio aqui”, disse, “mas eu fico por uma noite e serei seu mensageiro.” “Muito obrigado”, disse o Príncipe. Assim, o Rouxinol retirou com o bico o grande rubi da espada do Príncipe, e voou com ele sobre os telhados da cidade. Acabou chegando à casa pobre e olhou para dentro. O menino agitava-se febril na cama; a mãe havia adormecido. Voou para o interior, e colocou o enorme rubi sobre a mesa, ao lado do dedal da mulher. Depois ficou voando levemente em volta da cama, abanando a testa do menino com suas asas. “Estou me sentindo muito melhor!” disse o menino e adormeceu descansado. Quando o dia nasceu, o Rouxinol voou até o rio e tomou um banho. “Hoje à noite vou partir para o Egito”, disse, sentindo-se muito animado com a perspectiva. Depois, ele voltou para junto do Príncipe Feliz. “Quer alguma coisa para o Egito?” perguntou. “Vou partir agora mesmo.” “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, suplicou o Príncipe, “será que você não poderia ficar comigo mais uma noite?” “Mas estão me esperando no Egito”, respondeu o Rouxinol. “Amanhã, os meus amigos vão voar até a Segunda Catarata.” “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, repetiu o Príncipe, “lá longe na cidade estou vendo um jovem num sótão. Seu cabelo é castanho e crespo, e seus olhos são grandes e sonhadores. Ele está debruçado sobre uma escrivaninha, tentando acabar de escrever uma peça de teatro, mas tem tanto frio que não consegue continuar.” “Eu ficarei uma noite mais com você”, disse o Rouxinol, que tinha muito bom coração. “Quer que eu leve a ele outro rubi?” “Ai de mim! Não tenho mais nenhum rubi”, disse o Príncipe. “Só tenho meus olhos. São feitos de preciosas safiras trazidas da Índia há mil anos. ‘Arranque uma e leve-a para ele.” “Querido Príncipe”, atalhou o Rouxinol, “eu não posso fazer uma coisa dessas” – e começou a chorar. “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, rogou o Príncipe, “faça o que estou pedindo.” Aí, o Rouxinol arrancou um dos olhos do Príncipe, e voou até o sótão do estudante. O jovem tinha enterrado o rosto nas mãos, não ouvindo o bater das asas da avezinha quando ela entrou no sótão; só depois de levantar os olhos é que viu ao lado uma linda safira. “Finalmente estou começando a ser apreciado”, exclamou ele. “Isto é presente de algum grande admirador meu. Agora já posso acabar a minha peça!” No dia seguinte, o Rouxinol voou até o porto. Ficou pousado no mastro de um grande navio, observando os marinheiros descarregarem grandes baús de dentro do porão.


“Vou para o Egito!” gritou ele, mas ninguém ligou, e, quanto a Lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz. “Vim dizer-lhe adeus”, anunciou. “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, disse o Príncipe, “será que você não pode ficar comigo só mais uma noite?” “Já estamos no inverno”, lamentou o Rouxinol. “No Egito, o sol bate quente nas folhas verdes das palmeiras, e meus companheiros estão construindo um ninho no templo de Baalbec. Querido Príncipe, tenho de deixa-lo.” “Na praça aí embaixo”, disse o Príncipe, “há uma pequena vendedora de fósforos. Ela deixou seus fósforos caírem na sarjeta e ficaram todos estragados. O pai vai lhe bater se ela não levar algum dinheiro para casa e a menina está chorando. Arranque meu outro olho e dê a ela; assim não será espancada.” “Ficarei com você mais uma noite”, disse o Rouxinol, “mas não posso arrancar seu olho, senão você fica completamente cego.” “Rouxinol, Rouxinol, pequeno Rouxinol”, rogou o Príncipe, “faça como estou lhe ordenando.” Assim, ele arrancou o outro olho do Príncipe, e desceu rapidamente voando com ele. Passou junto da menina dos fósforos e colocou a jóia na palma da sua mão. “Que lindo pedaço de vidro!’ exclamou a menina. Então, o Rouxinol voltou para junto do Príncipe. “Agora você está totalmente cego”, disse, “por isso ficarei com você para sempre.” “Não, pequeno Rouxinol”, aconselhou o pobre Príncipe, “você deve ir-se embora para o Egito.” “Ficarei com você para sempre”, teimou o Rouxinol, e adormeceu aos pés do Príncipe. Durante todo o dia seguinte, continuou pousado no ombro do Príncipe, e contou-lhe histórias do que tinha visto em terras estranhas. Falou-lhe dos íbis vermelhos, que ficam pelas margens do Nilo e pescam peixes dourados com o bico; da Esfinge, que é tão velha como o mundo, e vive no deserto. “Meu pequeno Rouxinol querido”, atalhou o Príncipe, “você conta histórias maravilhosas, porém mais extraordinário é o sofrimento dos homens e das mulheres. Voe sobre a minha cidade e diga-me o que vê.” Assim, o Rouxinol voou sobre a grande cidade, e viu os ricos divertindo-se em suas lindas casas, enquanto os mendigos se quedavam sentados junto aos portões. Voou por escuras ruelas, e viu os rostos pálidos de crianças esfomeadas que olhavam indiferentes para as ruas enegrecidas. Então voou de volta e contou ao Príncipe o que vira. “Estou coberto de ouro precioso”, disse o Príncipe, “tire-o folha a folha e dê-o aos pobres da minha cidade.” Folha a folha, o Rouxinol foi tirando o ouro fino, até que o Príncipe Feliz ficou todo cinzento e sem graça nenhuma. Folha após folha de ouro eram levadas aos pobres, e os rostos das crianças iam ficando rosados, e elas riam e brincavam. Então veio a neve e o gelo. O pequeno Rouxinol ficou cada vez com mais frio, mas não podia abandonar o Príncipe, porque o amava demais. Ele tentava conservar-se aquecido batendo as asas, mas acabou entendendo que ia morrer. Só teve forças suficientes para voar mais uma vez e pousar sobre o ombro do Príncipe. “Adeus, amado Príncipe!” murmurou. “Estou muito contente porque você finalmente vai partir para o Egito, pequeno Rouxinol”, disse o Príncipe. “Você ficou tempo demais aqui; beije-me nos lábios, pois eu o amo.” “Não é para o Egito que vou”, disse o Rouxinol. “Vou para a Morada da Morte. A Morte é irmã do Sono, não é?” Beijou o Príncipe nos lábios e caiu morto a seus pés.


Nesse mesmo instante, ouviu-se um estranho ruído dentro da estátua, como se algo se tivesse quebrado. O fato é que seu coração de chumbo se tinha partido em dois. Aquele era certamente um inverno muito rigoroso. Cedinho, na manhã seguinte, o prefeito vinha passeando pela praça em companhia dos conselheiros da cidade. Quando passavam pela coluna, ele olhou a estátua e disse: “Meu Deus” Como o Príncipe Feliz parece um maltrapilho!” “Realmente” Ele está maltrapilho mesmo”, exclamaram os conselheiros da cidade. “´Há até um pássaro morto aos pés dele!” continuou o prefeito. “Temos de fazer uma proclamação declarando que não é permitido aos pássaros morrerem aqui!” Mandaram então pôr por terra a estátua do Príncipe Feliz. Depois, derreteram-na numa fornalha. “Que coisa estranha!” disse o capataz dos trabalhadores da fundição. “Este coração de chumbo partido não há meio de derreter. Temos de joga-lo fora.” E jogaram-no num monte de lixo, onde também jazia o pequeno Rouxinol morto. “Traga-me as duas coisas mais preciosas existentes na cidade”, ordenou Deus a um dos Seus anjos; e o anjo trouxe-lhe o coração de chumbo e a ave morta. “Foi uma escolha acertada”, disse Deus, “pois, no meu jardim do Paraíso, essa avezinha cantará para sempre, e na minha cidade de ouro o Príncipe Feliz me glorificará.


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