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Revista Bimensal | N.º 13 - II Série - 3º Ano Outubro/Novembro 2018

CULINÁRIA

Tiramisù com creme de castanha

PEDRO NARRA O fotógrafo cujas fotos "valem por mil palavras” Da Guiné ao Estuário do Sado

Setubalenses pelo mundo


EDITORIAL

Voltámos!

`tÜ|t ]ÉûÉ YxÜÜÉ Diretora Editorial

Para início de conversa penso que devo um agradecimento especial aos nossos leitores e, a todos aqueles que nos têm vindo a apoiar, neste caminho do crescimento da SER. Voltámos com um novo formato: O Digital. Voltámos também, porque somos uma verdadeira equipa, e, como equipa que somos voltámos acima de tudo, pelo amor que temos àquilo que fazemos. Somos um grupo de carolas, de artistas, de escritores, de poetas, de músicos, de jornalistas, de psicólogos, de professores, de atores, de gestores e de médicos. Somos uma equipa que pretende apresentar um outro olhar sobre Setúbal, que ul-

Somos uma equipa que pretende apresentar um outro olhar sobre Setúbal, que ultrapasse o famoso e saboroso choco frito, o excecional peixe grelhado… somos mais que isso e temos algo para vos contar.

trapasse o famoso e saboroso choco frito, o excecional peixe grelhado… somos mais que isso e temos algo para vos contar. Tenho algumas novidades para vos apresentar: Vamos receber com muito gosto a Professora Eugénia Canito e a Psicóloga Sílvia Silva. Neste número, em particular, vamos ter a participação especial da Engenheira Susana Luciano e do Fotógrafo Pedro Narra. Obrigada aos dois pela vossa colaboração. Na qualidade de Diretora Editorial envio, com muito carinho, um agradecimento especial a todos os colaboradores. Obrigada por se manterem

connosco e obrigada por acreditarem! Pessoalmente desconheço até onde este projeto nos irá levar, na certeza porém, de que enquanto desempenhar estas funções vos prometo, será de coração, com toda a minha dedicação e por amor àquilo que faço. Obrigada a todos os Setubalenses e em especial àqueles que acreditaram em nós, impulsionando a divulgação da SER. Obrigada ao nosso paginador, à nossa editora e a todos que contribuem para que a SER seja possível. Termino enviando um agradecimento especial ao Pedro Conceição, por viabilizar este projeto: Obrigada. Bem Hajam! n

Setúbal Revista – Registo na ERC: 126664; Depósito Legal Nr. 390882/15 Propriedade: João, Pedro & Armindo, Lda; Diretora Editorial: Maria João Ferro; Editores: Maria João Ferro. Colaboram nesta edição: Ana Paula Saraiva; Maria Pereira; Isabel Marques; Maria do Carmo Branco; Nuno Castro Luís; Jorge dos Santos Forreta; Paula Cunha e Silva; Eugenia Canito; Silvia Silva; José Gomes; Alexandra Aleixo; José Nobre.

FICHA TÉCNICA

Contactos: redacao@setubalrevista.com - Avenida 5 de Outubro, 111, 2900-312 Setúbal; Publicidade: 967 122 006 - Estatuto Editorial em www.setubalrevista.com

Setúbal Revista respeita a opção dos seus colaboradores quanto ao Acordo Ortográfico Setúbal Revista

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SUMÁRIO ENTREVISTA

P.19 A P.26

SOCIEDADE

P.5

O que é a humanização?

Pedro Narra, o fotógrafo cujas fotos "valem por mil palavras”

OPINIÃO

P.42 E P.43

Pedro Narra, natural de Setúbal, fotógrafo reconhecido internacionalmente e cofundador de Vertigem Azul, empresa dedicada ao turismo de natureza a operar na região desde 1998, aceitou o desafio de Setúbal Revista para juntar às fotos que “valem por mil”, algumas palavras. Descobrimos um contador de histórias que, numa conversa sem tabus, revelou o percurso de uma vida a explorar trilhos pouco percorridos.

SETUBALENSES PELO MUNDO

P. 7 A P.15

Mohandas Gandhi HISTÓRIA LOCAL NO FEMININO P. 27 A P.30

Portugal / Mocambique 1996 – 2018 Nasci em Lisboa mas com 2 anos o meu pai e mãe decidiram ir viver em Setúbal, Cidade onde cresci e vivi até aos 18 anos. Se me perguntam de onde sou? de Setúbal !!! Sem dúvida alguma.

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Rendilheiras de Setúbal


SOCIEDADE

MARIA EUGÉNIA PALMELA CANITO Coordenadora Emérita do Corpo de Voluntariado da Liga dos Amigos do Hospital São Bernardo

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UMANIZAR é um processo que deveria ocorrer sempre nas nossas vidas nas diversas situações: nos hospitais, nos lares, nas escolas, nas nossas próprias casas e até mesmo na rua. Sempre que ocorre a humanização cria-se condições melhores e mais humanas para o outro. O processo de humanização implica a evolução de cada um para cumprir essa tarefa, pode-se utilizar recursos e instrumentos como forma de auxílio. A comunicação é uma das ferramentas de grande importância na humanização. Na política da humanização podemos focar-nos na oferta da mesma atenção,

O que é a humanização? “Devemos dar a esmola ao pobre não só com a mão mas com o afeto do coração, para que a avareza não fique a chorar a esmola”. (Santo António) sem distinção da idade, etnia, origem, género ou orientação sexual. Não é necessário ser Natal ou Páscoa ou outra qualquer data temática para fazer um contributo à sociedade para se mostrar que somos na realidade uma pessoa humana. Cada ano, cada mês, cada dia, cada minuto, cada segundo e cada suspiro deveriam ser para nós tão importantes como o valor que atribuímos aos bens materiais ou, principalmente, ao dinheiro. Nada é mais importante do que o ser humano! “Todos nós desejamos ajudar uns aos outros . Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o infortúnio.

Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nós extraviamos. A máquina que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e infortúnio.” (Charles Chaplin) Bem hajam! n

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CULTURA

JOSÉ NOBRE Actor

Despertador biológico

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petece-me escrever sobre o facto de acordar uma hora antes do despertador. Sim, li a "Profecia Celestina" dum sopro, aqui há uns anos, e concordo que tenhamos no subconsciente um despertador biológico, muito mais funcional, pelos vistos, que poderia estar mais acertado pela hora do terrim-terrim mecânico, digamos, com um lapso de 10 minutos. Uma hora, não se faz, porque ficamos com a sensação de que já não dá para adormecer, sob o risco de se não acordar com a mesma frescura. Inda há pouco, 15 minutos depois das 6, espreitei pelas frinchas da persiana e ainda era noite, mas a sensação de já ter dormido tudo não me largava e — plim! — o cérebro ligou-se-me. A partir daí já não há volta a dar. É bom não ter de correr logo de manhã, digo eu, num contexto aparte dos demais saudáveis atletas que se fazem à estrada pela fresquinha. As rotinas alimentícias e higiénicas seguem em ritmo zen, sobrando tempo, imaginese, para a reflexão e a contemplação. Não é aconselhável, ao menos no meu caso, a poesia, pois a incessante busca pelas palavras certas costuma dar em pressas tardias, em que verificamos que já deveríamos ter trocado o pijama pelo duche há pelo menos meia-hora, e lá se vai a poesia no meio de tanta urgência material. Bem, por falar nisso, e muito embora a página ainda esteja meio-despida de palavras, a verdade é que tenho que pensar em colocar o corpo debaixo de água, para logo depois o secar, pentear os cabelos todos, à excepção dos do alto do cocuruto, que esses deixaram de me dar trabalho, porque já lá não moram, saudar o espelho com um braço no ar, esfregar

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com o auxílio do outro a axila descoberta, repetir o processo com o outro braço no ar, escovar os dentes, aliviar as fossas nasais de impurezas, libertar as redondezas dos olhos das remelas mais convictas, libertar o rosto, queixo e pescoço da folha-de-lixa acumulada, untarme de unguentos refrescantes e ardentes, rir para o espelho, notar que um ou outro pêlo nasal se assoma para lá do recomendável, sacar da tesourinha,

tchac-tchac, passar água no lavatório e voilá, enterrar as pernas nas calças, os pés nas meias, as meias nos ténis, o tronco na t-shirt, cabeça e braços pelos buracos, as coisas na mala, procurar por toda a casa os óculos de sol durante 3 minutos, aperceber-me de que afinal estavam dentro da mala, sair com 10 minutos de atraso. Vamos lá, que ainda tenho que editar isto. n


SETUBALENSES PELO MUNDO

PORTUGAL MOCAMBIQUE 1996 – 2018

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Nasci em Lisboa mas com 2 anos o meu pai e mãe decidiram ir viver em Setúbal, Cidade onde cresci e vivi até aos 18 anos. Se me perguntam de onde sou? de Setúbal !!! Sem dúvida alguma. Passei por inúmeras escolas, como era naquele tempo, frequentei a pré primária na Escola Luisa Todi e a primária na Escola Primária do Bairro da Conceição,

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tendo sido minha professora a D. Idalina, o ciclo (5 e 6 anos) foi na Escola Preparatória da Camarinha, o 7, 8 e 9 anos frequentei a Escola Secundária da Bela-Vista, o 10 e 11 ano a Escola Secundaria da Camarinha e o 12 ano nos chamados “Contentores da Camarinha”, onde aprendi. Aos 18 anos fui estudar para Évora

onde me Licenciei em Engenharia Zootécnica em 1995. Penso que, como todos os jovens de 18 anos, as dúvidas foram constantes para mim tendo entrado, primeiro, em Matemática, por ser uma boa aluna nesta disicplina, e no ano seguinte mudei para Engenharia Zootécnica... por gostar tanto de ter estado em Évora e não querer ir para Lisboa, onde


SETUBALENSES PELO MUNDO havia o Curso que sempre pensei que iria tirar e acabei por não o fazer ... Medicina Veterinária. Ao longo deste meu percurso de mudanças, chegadas e partidas, conheci muitas pessoas diferentes e de várias partes do País, e penso ter sido uma boa preparacao para o que viria a seguir ... Vim a Moçambique de férias em 1996 , Março de 1996 precisamente, eram as férias da Páscoa ... E nunca mais regressei, de vez ... A chegada a Mocambique foi um choque ... o pais estava a saír da Guerra Civil que acabou em 1992 ... as ruas estavam sujíssimas, cheias de sucata e lixo, poucos cafés / restaurantes abertos, os elevadores nos prédios não funcionavam, edifícios degradados e não

havia quase nada para comprar , as mercearias que existiam e supermercados tinham pouca variedade para escolher ... Lembro-me que íamos uma vez por mês à vizinha África do Sul fazer compras para o mês todo ou à mercearia do velho Bairro de Mafalala, onde nasceu o Eusébio e José Craveirinha, a “Mercearia Mufundisse “ de madeira e telhado de zinco. Estive praticamente o primeiro ano em Moçambique à procura de trabalho... Não era fácil, naquela altura, aliás o primeiro ano foi difícil em tudo. Mas os moçambicanos são muito afáveis, simpáticos, humildes e acolheram-me muito bem ao longo destes 22 anos, de tal maneira que hoje possuo as duas nacionalidades. Costuma dizer-se que “África no principio estranha-se

e depois entranha-se”... penso que não há meia medida ou se Adora ou se Detesta! “Sinto-me africana, não porque nasci em África, mas porque África nasceu em mim” No fim de 1996 consegui um trabalho na Higest Mocambique , fui a Portugal fazer um estágio de 4 meses no Marco de Canavenses e no Natal de 1996 estava de volta a Moçambique. Comecei a trabalhar como responsável técnica da Higest Mocambique, dei formação e assistência técnica aos criadores de frango, dei apoio na gestão da fábrica de rações e tive o meu primeiro grande desafio aos 27 anos - estar à frente e ser responsável pela execução do Projecto de Incubação da Higest Moçambique.

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Em Setembro de 1998 a minha filha Catarina nasceu ! Lembro-me que foi o dia mais feliz da minha vida e que comecei a ver também África com outros olhos; costuma dizer-se que quando a alma está feliz tudo à nossa volta nos parece bem melhor... Não havia nada... o primeiro berço dela foi um cesto de palha com um colchão de espuma forrado a capulana ... que me pareceu o berço mais bonito que já

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tinha visto! Em Março de 1999 saí da Higest Moçambique e fui trabalhar para a União Geral das Cooperativas, onde permaneci até fim de 2006. Posso dizer que nestes 8 anos cresci profissionalmente e como pessoa. A União Geral das Cooperativas era uma Cooperativa gerida por um padre franciscano italiano – o Padre Prosperino Gallipoli , que tinha vindo da Zam-

bezia e queria reproduzir o projecto em Maputo. Éramos cerca de 5.000 famílias e 25.000 pessoas, tinhamos tudo, desde a reprodução, incubação, fábrica de rações, aviários, matadouro, distribuição, centro de formação, centros de saúde e farmácia, escolas, olaria, jornal e rádio, estufas de flores, fábrica de caju, poedeiras de ovos, etc. etc. Todos estes projectos eram finan-


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ciados pela Cooperação Italiana, Espanhola e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). Através das várias Cooperações, trabalhei na UGC durante 8 anos, onde desenvolvi vários projectos na minha área: 1 – Centro de Reprodução da Namaacha; 2 – Fábrica de Rações na Machava; 3 – Coordenação de todos os sectores

da Indústria Avicola. Infelizmente o Padre Prosperinno faleceu em 2002 e a Cooperativa não aguentou muito tempo com saúde financeira para gerir tantos e diversos sectores; vínhamos de um ano difícil, com muitas percas devido às cheias de 2000, que destruiu praticamente todos os sectores e nos colocou numa posição difícil de recomeço e de procurar

novamente financiamentos para o arranque das actividades. O Padre Prosperino apesar de ser um bom Líder, não preparou ningu´rm para a sua substituição e em dois anos os principais quadros saíram e eu, no fim de 2006, saí também para iniciar um novo projecto de raíz na mesma área, no qual estou até hoje. “Quando se fecha uma porta abre- se uma janela” e em 2002 nasce mais um Setúbal Revista

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dos meus maiores amores da minha vida, o Luís! O que me deu força para ainda ficar e tentar mudar algo na Cooperativa até fim de 2006. Entre 2005 e 2006 sentimos a necessidade de nos organizarmos como sector, pois começaram a surgir novos investimentos nacionais e estrangeiros; o mercado comecou a ficar mais competitivo e complexo. As importações começaram a aumentar no País sem regras, pelo que dei início a mais um dos meus projetos: Organizar todos os avicultores do país e empresas pri-

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vadas a nível nacional e criar a primeira Associação Nacional Moçambicana dos Avicultores, para que tivéssemos um porta voz para as reuniões com o Governo Moçambicano e participar nas decisões sobre o nosso sector. Em Março de 2007 oficializou-se a AMA – Associação Moçambicana de Avicultores – no norte de Moçambique em Nampula, onde sou eleita Presidente e fico durante 2 mandatos de 4 anos cada. Foram anos de muito trabalho com o Governo de Moçambique no desenvolvimento da Indústria Nacional.

Em Março de 2007 aceito mais um desafio de um novo projecto, em que estou até hoje. Actualmente sou Directora Geral da Irvines Moçambique, empresa do Grupo Irvines (10 empresas em África e exporta para 20 países) que faz parte do grupo Tyson Foods americano. Em 10 anos duplicamos a produção e a nossa missão principal é produzir proteína acessível a todos os africanos e ajudar a crescer o seu negócio de uma forma sustentável e com ligação ao mercado. Trabalhamos ac-


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tualmente com milhares de famílias, damos formação, assistência técnica e fornecimento de todos os produtos de produção. Continuamos a trabalhar com o apoio das agências que apoiam o desenvolvimento em Moçambique e em África. Em 2017 sentimos mais uma vez necessidade de nos organizarmos mais formalmente e ajudei a criar a recente Associação Moçambicana da Indústria Avícola da qual sou membro fundador. Ainda hoje me pergunto como vim parar a Moçambique e porque cá permaneço? Apesar de todas as crises e dificuldades que senti e passei e que o país passou, ao longo destes 22 anos que cá vivo; todas as histórias que passei por todo o Moçambique, fazem a pessoa que hoje sou.

É preciso coragem para mudar! E, em África, muda-se quase todos os dias... cresce-se todos os dias! A adaptação foi bastante mais fácil do que pensei no início e continuo a não me sentir uma emigrante, no sentido da palavra, talvez por a língua falada ser o português, a gastronomia principal ser a portuguesa, parte da cultura e o ordenamento urbanístico nos fazer sentir em casa! Talvez o que seja mesmo diferente foi ter de conduzir à esquerda! Vivo em Maputo, uma cidade simpática, organizada, tranquila, verde, com um clima óptimo o ano todo, o que convida a passear e a fazer programas fora de casa. Temos boas praias a 30 km e as cores das capulanas e dos mercados são convidativas a visitar. Adoro o Verão o ano todo, as idas ao

fim de semana para fora da cidade, ver os nascer e por do sol que só mesmo em África existem, passear nos parques naturais com os animais, beber a boa cerveja Manica e ou Laurentina e 2M com o camarão e ou carangueijo cozido ao fim do dia... As pessoas, as suas histórias e vivências, os bons amigos que ficam família para a vida inteira, a abertura e tolerância para outros povos pela mistura de diferentes culturas que existem no País. Mas quando chega Julho... a Saudade da família, dos amigos, actualmente da filha, do Rio Sado, da Serra da Arrábida e de Tróia, da sardinha assada... aperta! E as raízes chamam sempre para voltar! Quem sabe um dia... cá ou lá... sinto-me em CASA! n Setúbal Revista

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CULTURA

ISABEL OLIVEIRA MARQUES Poema Sobre Imagens (incluído na Coletânea A SERRA DA ARRÁBIDA NA POESIA PORTUGUESA edição do CENTRO DE ESTUDOS BOCAGEANOS

São estreitas as ruas que me levam a ti alma inquieta ardente sofrida São dúvidas as que em mim persistem(ou não) das razões que fizeram do poeta um palhaço pobre desta vida Quanta ironia... Não é isso que encontro nos teus versos que leio desde criança (não, não entendia) Fui crescendo e as palavras se foram revelando uma a uma dia a dia Agora quando o céu escurece nas primeiras chuvas e a calçada espelha os nossos passos procuro sem dar por isso o centro mais centro da cidade o teu olhar azul de Sado e as ruelas se fazem rios sinuosos como eu impacientes por desaguar na imensidão da tua CLARIDADE

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BOCAGE e eu


MÚSICA

IVONE CAMPOS Bióloga; Professora; Musicoterapeuta; Curso de Educação Musical pelo Conservatório Nacional de Música; Curso de Piano pelo Conservatório Nacional de Música

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oites de calor em esplanadas. Corpos salgados. Sorvetes. Bolas de Berlim. FÉRIAS! São as cores do Verão espelhadas em cada rosto. Toda a gente parece feliz, descontraída. Sorrisos bronzeados convidam ao convívio e partilha. Quem não se lembra dos amores de Verão? É a altura ideal para conhecer pessoas e despertar paixões. A temperatura amena convida os dias a entrarem pelas noites dentro. E a brisa morna afaga os sentidos despertos pelo estio. Um amor de Verão é um afago para o corpo e para a alma com sabor a aventura. Nada é grave nem trágico e tudo assume uma beleza leve. Têm o poder de curar corações partidos e podem morrer na praia, mas serão sempre recordados como uma

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Praia. Mar. Areia. Sol.

coisa boa. Nascem abruptamente num final de tarde, numa mesa de café ou num passeio pelo areal. Uma bola descuidada que cai na nossa toalha ou um cão que nos enche de areia. Será sempre uma surpresa que nos apanha sem estarmos à espera e nos lança numa paixão intensa e bela. Dificilmente sobrevivem ao Outono, porque amores de Verão querem-se quentes, com água salgada, cabelo molhado e músicas para dançar. Será que há músicas de Verão? Músicas de amores de Verão? A música dos amores de Verão será sempre aquela que nos fará recordar essa paixão. Por ser a que está na moda ou a que ambos gostam de ouvir num abraço. Quem não tem músicas de Verão? n


ENTREVISTA

PEDRO NARRA

O fotógrafo cujas fotos "valem por mil palavras”

Da Guiné ao Estuário do Sado

Texto: Ana Paula Saraiva Setúbal Revista

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ENTREVISTA

Pedro Narra, natural de Setúbal, fotógrafo reconhecido internacionalmente e cofundador de Vertigem Azul, empresa dedicada ao turismo de natureza a operar na região desde 1998, aceitou o desafio de Setúbal Revista para juntar às fotos que “valem por mil”, algumas palavras. Descobrimos um contador de histórias que, numa conversa sem tabus, revelou o percurso de uma vida a explorar trilhos pouco percorridos.

Muitos parabéns pela Medalha de Honra da Cidade de Setúbal (2018)! Que relevância atribuis a este reconhecimento? É bom, é um grande orgulho e sentimo-nos muito felizes, mas não nos deslumbramos... estava ainda a Maria João com a medalha ao pescoço e eu com o

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certificado na mão e estávamos no Mercado a comprar Queijo de Azeitão, pão e broas, porque tínhamos um compromisso profissional, passadas duas horas [Maria João Fonseca é cofundadora de Vertigem Azul e marca presença nesta entrevista pelas várias referências de Pedro]. Com a Vertigem Azul celebras vinte anos de atividade, como é que o fotógrafo se torna empresário de turismo? Na realidade primeiro surgiu a Vertigem Azul e quando eu e a Maria João idealizámos este projeto, já estava na nossa cabeça fazer uma publicação sobre os Golfinhos do Sado, porque estava pouco documentado, apenas havia um livro muito pequenino do Stefano com pouca informação. Nós queríamos algo mais apelativo, que descrevesse as características da espécie, o seu habitat e alertasse para os

perigos que os ameaçam e, a partir de 1999, começo a fotografá-los, projeto que durou largos anos até saír o livro. Então tornaste-te fotógrafo devido aos Golfinhos do Sado, fizeste uma formação? Não fiz qualquer formação porque não tenho muita paciência para as coisas que envolvam teoria. Já na escola, passava um ano e chumbava o seguinte...claro que não tendo formação demorei mais tempo do que outros fotógrafos. Eu aprendi com os erros, mas também tive dois bons mestres a quem recorria quando me surgiam dúvidas. Aprendi muito com as suas dicas, vendo o trabalho de outros colegas, estando atento ao que se fazia de fotografia no mundo. Depois adquiri o meu estilo, a minha própria maneira de fotografar. Quem são os teus gurus na fotografia, quem te inspira?


ENTREVISTA Destaco o Luís Quinta que me ajudou muito e o Pedro Vieira, que fez formação em fotografia e é das pessoas mais talentosas que conheço, com grande nível técnico, é também nosso colaborador na Vertigem Azul. Li reportagens sobre o teu trabalho que te descrevem como um caçador de imagens, camuflado na natureza para capturares os animais com a máquina fotográfica. Como se aprende essa técnica? Em primeiro lugar há que haver o conhecimento dos animais e isso é algo que vem de mim, embora possa pedir conselhos a biólogos ou informar-me junto de um agricultor ou alguém que esteja no terreno e possa ter visto os bichos que procuro. Mas todo o trabalho no terreno é meu, embora aprenda também seguindo o trabalho de outros colegas. E o conhecimento dos animais, não sendo biólogo de onde vem? Eu nasci em Setúbal, mas nas férias de Verão, no primeiro dia apanhava o autocarro para a Amareleja, no Alentejo, para a casa dos meus avôs e só regressava na véspera do reinício das aulas. Acompanhava o meu avô no campo, na azeitona, nas vindimas, a montar armadilhas para os bichos e, passei assim a minha infância e adolescência. Em miúdo via uma série na TV, “A Terra e o Mar” com o Félix de La Fuente e o Jacques Cousteau. O facto de passar no Ferry e ver os Golfinhos... tudo isto esteve sempre na minha cabeça e fui sempre uma pessoa de me sentir melhor no ar livre. Daí ter dito sempre, desde pequeno, que nunca iria ter um emprego dito normal. Resultado dessas influências tornaste-te um fotógrafo de natureza e trabalhas numa das publicações mais prestigiadas do setor, a National Geographic... Não sou da National, sou freelancer, ou seja, sou independente e colaboro com a Geographic Portugal, que apresenta trabalhos de algum modo ligados a Portugal, ou porque tem a ver com os PALOP, ou porque um biólogo de nacionalidade portuguesa está a fazer um trabalho relevante num certo lugar. Como foi iniciada a colaboração com a National Geographic Portugal? Foi durante uma conferência nos Açores onde estavam presentes pessoas de todo o mundo, nós fomos fazer uma apresentação sobre os Golfinhos do

Sado e o Gonçalo, o editor da Geographic Portugal, propôs-me que apresentasse um artigo para a revista e estabelecemos uma relação profissional desde aí. Como funciona essa colaboração, trata-se de encomendas, a revista propõe-te as temáticas da reportagem? Eu proponho os meus trabalhos, vou dar-te o exemplo da reportagem sobre o vulcão da Ilha do Fogo. Era um dos meus “projetos na cabeça”, fotografar um vulcão, apenas tinha estado em contacto com vulcões inativos. Assim que ouvi falar desta erupção, contactei uns geólogos para recolher informações e passada uma semana já estava lá a fotografar. Quando vi que tinha algum material interessante liguei ao Gonçalo e disse-lhe, — olha, estou aqui no Fogo, estás interessado neste trabalho? Ouvi do outro lado, “Grande ma-

luco, porta-te bem e traz isso”. Quem completa a reportagem e insere o texto, também colaboras nesse processo? Há um trabalho de pesquisa feito por jornalistas ou pelo próprio editor. Nessa situação da Ilha do Fogo foram entrevistadas algumas pessoas que estavam a trabalhar no terreno. As minhas ideias correm mais depressa que a minha mão [Risos] para esse tipo de escrita não colaboro. Fala-me desses “projetos na cabeça”, como se materializam? Tenho sempre vários projetos a decorrer em simultâneo, um projeto de maior envergadura e mais dois ou três. Acabei o projeto para o livro Estuário [publicado em 2017] a que dediquei sete anos. Agora, o grande projeto é na Guiné que já deu origem a dois ou três artigos publicados na National. Este trabalho vai demorar mais um ano e Setúbal Revista

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implica ir lá mais duas ou três vezes. Fui para lá com um projeto em mente, algo definido, depois alterei o projeto, tornou-se algo mais ambicioso. Porquê a Guiné? Com, a história da Guiné... acredito que é uma coisa do destino, o destino é a coisa mais espetacular que existe para o bom e para o mau. Aconteceu assim... ganhámos, numa Feira de Turismo há cerca de quinze anos, uma viagem à Guiné. Numa tômbola, saiu-nos a Guiné por sorteio, logo numa altura em que andavam por lá aos tiros, mas ganhámos uma viagem e tínhamos de ir à Guiné. Fui com a Maria João e uma

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amiga. Desde os meus doze, treze anos que ouvia a umas amigas, que os pais viajavam todos os anos ao arquipélago dos Bijagós e iam ver as tartarugas. Quando ganhámos a viagem, levava isso na cabeça pelo que, lá chegados, fomos visitar uma ilha deserta com a intenção de ver as tartarugas, mas não as vimos porque não era a época delas. Fomos depois a Bissau, visitar um parque natural com chimpanzés e no regresso sofremos um brutal acidente de viação. Ficámos bastante mal, mas fomos muito bem tratados e eu sempre disse que tinha de voltar um dia para agradecer àquelas pessoas. Estava a

trabalhar já há anos no projeto do Estuário e, num momento de saturação, decidi retomar a ideia das tartarugas e foi com esse objetivo que fui à Guiné. É então que fazes a reportagem “Bijagós, o tesouro sagrado da Guiné-Bissau”. Sim, foi publicado esse trabalho na National. Entretanto, na Guiné fiz conhecimento com um padre e das nossas conversas sobre natureza, mas também sobre cultura e arte. Nasceu a ideia para outro artigo e, na realidade, o projeto inicial tornou-se bastante mais amplo e vai fazer quatro anos que lá estou. Encontrei um potencial


ENTREVISTA enorme neste sítio, principalmente porque não existe concorrência de colegas internacionais. O mundo está muito explorado, se formos ao Quénia, Tanzânia, Índia, encontramos centenas de fotógrafos. Na Guiné sou eu e mais um ou outro francês que aparece de vez em quando, porque devido à situação de instabilidade no passado, ninguém quer trabalhar lá. E deste projeto também irá resultar um livro? Inicialmente assumirá a forma de livro, mas o grande projeto que sairá desta experiência na Guiné será algo diferente, algo que ainda está em banhomaria, em análise e que eu gostaria de realizar em Setúbal... se não for aceite, vou apresentar a proposta em Nova York ou em Paris. Tem potencial para esses mercados, mas preferia que ficasse por cá. O teu trabalho é reconhecido no plano internacional. Tens ganho vários prémios. Eu não sou nada, não sou uma das referências. Existem dois ou três grandes concursos de prestígio e a esses tento concorrer todos os anos, porque a iniciativa tem de ser dos fotógrafos, funciona assim. Depois há ainda o prémio da BBC que é tipo o Nobel da fotografia de natureza. É um objetivo? Não, não é, mas gostava...não é um objetivo porque não trabalho para isso, quando vou para um local fotografar nunca estou a trabalhar para um prémio, ninguém o faz. Mas quando o trabalho resulta em algo com potencial para concorrer apresento-me a concurso porque um prémio é uma valorização do trabalho, feita por júris e é importante para abrir portas. Sendo conhecido posso chegar a um local e ter um barco à minha disposição, trabalhar com animais de mais difícil acesso; porque com esse reconhecimento também se abrem portas a nível institucional. Os prémios não significam ganhar dinheiro, mas neste aspeto são muito bons, abrem portas, tal como as publicações ou as exposições. Fala-me da Exposição de rua na Comporta. Como surgiu essa ideia tão inovadora na altura (2008)? A ideia de trazer uma exposição para o exterior surgiu pela própria ambiência da Comporta no Verão, repleta de gente nas ruas. Apresentei a ideia, nessa altura ao Grupo Espírito Santo.

Aceitaram de imediato, ajudaram imenso, até na fase de montagem das fotos nas paredes do edifício do Largo de São João... e ficou espetacular. Porque o público em geral, quem tem uma vida mais recatada, não frequenta museus ou galerias. Tenho uma ótima recordação dessa exposição, ainda hoje quando visito a Comporta as pessoas me perguntam quando volto para fazer uma nova exposição. Nessa altura vivias em Tróia, era uma situação um pouco “fora da caixa”. Sim, é mais uma daquelas situações di-

tadas pelo destino. Com 15 ou 16 anos, passava pelas Bandas em Tróia e pensava que um dia gostaria de viver ali. Mas era impossível, aquilo pertencia à Torralta, eram apartamentos turísticos. Depois, coincidiu ser a fase em que entrou a Sonae com o momento em que resolvi saír da casa dos pais porque já estava a trabalhar. Comparando com Setúbal, que nessa altura era uma tristeza, porque poucas pessoas acreditavam em Setúbal ou tinham orgulho em Setúbal, ali tinha o mar e era super sossegado. Acabou por me dar imenso jeito porque em dez, Setúbal Revista

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ENTREVISTA

quinze minutos, pegava no carro e estava a fotografar para o livro do estuário, foi ótimo. Mas agora já vivo em Setúbal. Como é pago o teu trabalho fotográfico? A maior parte dos custos é suportada por mim porque o retorno só acontece quando apresento o resultado dos projetos. E foram anos e anos a investir em máquinas, lentes, computadores,

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abrigos e fatos. Depois, em cada ocasião acresce o custo das viagens, os transportes lá dentro, a alimentação. Com a evolução tecnológica houve uma redução do valor das revelações... e também do peso do material que tinha de transportar [Risos], por vezes levava uma mochila só para os rolos. Portanto, não concordas com quem defende que o digital retirou o charme à Fotografia?

Para mim esta alteração é positiva. O livro dos Golfinhos do Sado ainda foi feito, em 90%, na altura do diapositivo. Por vezes ía para o mar, tirava uma foto que achava que estava espetacular, ía a correr para Lisboa com o filme e, passados dois dias é que recebia a foto; que afinal não correspondia à minha expectativa... depois, para não gastar dinheiro, eu é que as encaixilhava, era a loucura total [Risos]. O digital veio


ENTREVISTA poupar muito dinheiro em rolos, revelações, caixilhos. Hoje, quando vou fazer trabalho de campo levo três ou quatro cartões e aguento-me lá uma semana. Por falar em investimentos, adquiriram recentemente uma nova embarcação para a Vertigem Azul. É verdade, o Jasmim. Quisemos voltar ao passado porque quando começámos tínhamos um semirrígido de seis metros, que transportava oito ou nove pessoas e permitia um serviço muito exclusivo, privado, que nos permitia conhecer os nossos clientes, era tudo muito próximo. Depois fomos crescendo, claro, e com o catamaran Esperança que leva muitas pessoas, perdeu-se esse contacto. Agora quisemos voltar às origens e fomos buscar o Jasmim que leva menos gente e também preenche uma lacuna que nós identificámos no mercado, porque criámos um produto mais específico, mais caro, com um serviço muito personalizado e de momento há mercado para isto. Portanto o sector turístico está em alta. Setúbal está na moda, isso é um facto, mas o sector turístico é muito volátil, aqui e em qualquer lado, porque a preferência dos turistas por vezes muda por qualquer fator negativo que surja e essa alteração não está nas nossas mãos. Aqui temos sempre os Golfinhos do Sado como atrativo turístico. Esperemos que sim, que sejam respeitados, na realidade é uma população frágil porque o grupo é pequeno. Sendo maior haveria mais fêmeas disponíveis e a probabilidade de se formar um grupo maior. Por exemplo este Verão nasceram duas crias, mas morreu uma, é uma informação que não se divulga, mas como estamos no final da época já posso dizer. Porquê o secretismo? Não se revela no Verão porque as pessoas sabendo, todas iriam procurar o pequenino e essa perseguição constante é muito prejudicial. Os golfinhos adotam, como nós, rotinas. Apercebime dessa realidade durante um Verão em que fui nadador-salvador em Soltróia — trabalhei para comprar uma máquina fotográfica —. Depois, quando criámos a Vertigem Azul, nesse primeiro ano, não falhámos uma única observação porque conhecia o padrão de comportamento deles. Claro que agora Setúbal Revista

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ENTREVISTA

há um excesso de embarcações que faz alterar tudo isto... daí nós pedirmos para a nossa atividade ser fiscalizada, devemos ser os únicos, num país em que ninguém quer ser fiscalizado. Uma das tarefas que a Vertigem Azul assume é educar para a sustentabilidade. Sim, temos um “Programa Escolas” onde passamos informação sobre o trabalho que fazemos, e depois temos uma vida inteira de passar informação à Reserva [ICNF- Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], porque ninguém monitorizava os golfinhos, eles próprios não têm biólogos e não os conhecem, não sabem os que nascem ou morrem e fomos nós sempre a fazer esse trabalho ... é algo que me faz muita confusão, esta insensibi-

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lidade. Mas consultam-nos, só que é pelo telefone, não fazem os pedidos por escrito para não terem que nos citar. Para a despedida, a pergunta clássica a um fotógrafo: Gostas que te “tirem o retrato”? É uma pergunta com dois sentidos. Se gosto de ser fotografado? — Não acho qualquer piada, não me acho fotogénico... quanto ao meu “retrato”, eu sou low-profile, embora o pacote exterior por vezes leve, quem não me conhece, a ver “um grande maluco”, sempre “na lua”. Mas o que faço exige estrutura, as coisas que consegui realizar não surgiram do nada. Equilibras a faceta criativa e sonhadora com essa “estrutura” para atingires o resultado que é visível para o público...

É fundamental amar o que se faz para atingir algum sucesso. Tenho a sorte de ter escolhido uma profissão muito bonita, porque estou sempre em contacto com a natureza, com a vida selvagem e tenho paixão pelo que faço. A fotografia é o que me permite estar comigo e desenvolver as minhas ideias e sonhos. Depois, na empresa somos uma equipa. Eu e a Maria João construímos o que sonhámos e acarinhámos este projeto, começado do zero e continuado porque fazemos aquilo em que acreditamos. Obrigada Pedro, ficaram ainda muitas histórias por contar e muito por saber, mas, como alguém disse, “O retrato mais fiel é sempre um retrato inacabado”. n


HISTÓRIA LOCAL NO FEMININO

CONTAR HISTÓRIAS DE MULHERES COM LIVROS ANA PAULA SARAIVA Jurista, Investigadora, Autora

RENDILHEIRAS DE SETÚBAL

A Renda de Bilros de Setúbal é uma manifestação de arte popular associada às mulheres dos bairros piscatórios. Pouco estudada como atividade profissional, foi, na época florescente, a ocupação de centenas de mulheres cujo labor e talento criou enxovais de elevado valor estético e comercial, significando subsistência familiar e autonomia feminina. Para procurar o fio desta história tornei-me aprendiza de bilros.

Foto do catálogo da "Exposição Distrital de Artesanato e Trajos Regionais", presente na Feira de Santiago, em 1967.

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HISTÓRIA LOCAL NO FEMININO

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pós alguns meses de interregno, a publicação desta crónica é retomada em formato digital. Nas edições anteriores elegi dar visibilidade a personalidades femininas, históricas ou contemporâneas, de forma individual (e.g. Maria Arminda Santos, Virgínia Rau, Ana de Castro Osório). Na presente edição optei por um nome coletivo, as Rendilheiras de Setúbal. Tendo em conta a dificuldade do objeto de estudo — uma atividade extinta há mais de 60 anos, realizada no espaço doméstico, por mulheres — não apresento um retrato acabado, como nas prévias publicações, apenas uma imagem em construção, iniciada em setembro de 2017 quando me inscrevi nas aulas de bilros da mestra Beatriz Oliveira, na UNISETI (Universidade Sénior de Setúbal). Este estudo de pendor etnográfico, permitiu-me dialogar com materiais, técnicas, ambientes e, conhecer a gramática própria da renda de bilros1. A experiência incluiu uma visita a Peniche e Óbidos (Josefa de Óbidos, no século XVII, pintou reproduções de rendas em vários dos seus famosos quadros), onde foi possível adquirir os materiais tradicionais de produção artesanal utilizados na execução da renda: almofada cilíndrica forrada a algodão com enchimento de palha (rebolo), bilros portugueses esculpidos em madeira, picadeira, alfinetes, etc. A lenta evolução enquanto aprendiza não fez esmorecer a minha admiração por esta arte; a falta de habilidade foi recompensada por uma história fascinante. A pesquisa, em estádio inicial, é aqui apresentada de forma resumida. Apoiou-se nos poucos livros identificados sobre o tema e exigiu a valorização de outras fontes documentais não clássicas, como memórias, fotografias, exposições museológicas, espólios particulares, periódicos, testemunhos orais, etc. RECONTAR A HISTÓRIA Como faz notar a historiadora Natividade Monteiro, as mulheres não produziram tantas fontes documentais como os homens por estarem afastadas do espaço público e raras vezes surgirem em discurso direto, todavia, existiram “apesar de invisíveis e emudecidas pelos construtores da memória”2, merecendo por direito estar presentes no

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Renda executada por Fernanda Ventura, registo de imagem por Jean-Jacques Pardete, fevereiro de 2018, coleção do Museu do Trabalho Michel Giacometti.

discurso histórico, acrescenta. O caso presente ilustra esta situação na perfeição. A atividade das rendilheiras, mulheres e filhas de pescadores dos bairros de Troino, Fontainhas e Bairro Santos Nicolau, tem sido descrita, quase sempre, de forma romantizada desvalorizando-se o significado do seu contributo para a subsistência familiar ao ser-lhe atribuído um caráter subsidiário e ocasional, apenas quando o mar se tornava avaro de peixe, ou mais pródigo de perigos, como elucida a passagem seguinte: “Outrora — já lá vão umas décadas bem contadas” — em Setúbal, quando o homem ia para o mar, para o duro labor

da pesca, a mulher e as raparigas (...), nas horas livres das lides domésticas, entregavam-se no aconchego do lar ao trabalho mimoso e suave das rendas”3. Confunde-se o resultado com o processo. Rendilhar, além de implicar perícia, exige, para se produzir peças com valor comercial, longas horas de árdua dedicação. Filhas e netas de rendilheiras narram uma realidade menos voluptuosa: as encomendas surgiam todo o ano obrigando a trabalho continuado diário que se prolongava pela noite dentro quando os filhos e a casa dispensavam cuidados. A venda era, usualmente, feita através de intermediários para clientes ou retalhistas, locais, de Lisboa, Alentejo e Algarve.


HISTÓRIA LOCAL NO FEMININO

Registo de imagem por Jean-Jacques Pardete, coleção Museu do Trabalho Michel Giacometti.

Deste modo, a atividade das rendilheiras tinha, a par da pesca, peso nas economias familiares, sendo a fonte de rendimento mais constante cuja variável residia no valor dos artigos vendidos. DECLÍNIO E EXTINÇÃO DAS RENDAS As fontes não são unânimes a sinalizar o período em que a atividade das rendilheiras tradicionais de Setúbal cessou. No plano nacional, a consulta ao Instituto Nacional de Estatística, embora disponibilize dados detalhados sobre profissões, não esclarece a situação das rendilheiras (artesãs) / rendeiras (comerciantes). No entanto, é consensual que no alvor do século XX o declínio da atividade em Portugal se generaliza e se encaminha inelutável para a extinção que ocorreu em meados da década de 50, aludindo-se a várias causas desde a diminuição do uso de rendas no vestuário, a concorrência de rendas estrangeiras e as produzidas mecanicamente a baixo custo, as implicações sociais e económicas das duas

Guerras Mundiais, a dificuldade em apresentar novidades, por não haver quem criasse novos piques (cartões onde se traça o desenho que é perfurado constituindo o molde)... Junta-se o argumento talvez de maior peso, o surgimento de empregos para mulheres nas fábricas do país como alternativa de melhor rendimento e estabilidade. Em Setúbal, tal ocorre com a indústria conserveira, fortemente implantada a partir de 1919. Com efeito, rareavam os empregos que garantissem sobrevivência económica às mulheres de origem humilde e às “mulheres sem homem”. Ana de Castro Osório, uma das defensoras da instrução para a autonomia das mulheres (nomeada, em 1916, Subinspetora dos Trabalhos Técnicos Femininos) defendia a promoção das pequenas indústrias caseiras e regionais onde se incluía rendas e tapeçaria. Num esforço para implementar o ensino feminino, foram criadas vinte e sete escolas no país, das quais nove ofereciam cursos

de Lavores Femininos, funcionando o curso especial de Rendas nas escolas de Setúbal e Peniche. A Escola (Princesa) Rainha D. Amélia (depois Escola Industrial e Comercial de Setúbal) foi inaugurada a 1 de Outubro de 1888 (há 130 anos) tendo por diretora Joaquina Amélia Baptista Guerreiro. Não existem respostas definitivas para o facto de as filhas de pescadores não terem frequentado os cursos aqui ministrados, desaproveitando a oportunidade de obter uma qualificação profissional que as habilitaria a integrar indústrias locais4. A Escola formou, no entanto, raparigas das classes privilegiadas que souberam criar verdadeiras obras de arte rendeira. Posteriormente, oficinas de artesanato de iniciativa autárquica promoveram formação e comércio das rendas aí produzidas. RENDAS DE BILROS DE SETÚBAL A beleza da renda setubalense resulta da associação harmoniosa do “ponto Setúbal Revista

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HISTÓRIA LOCAL NO FEMININO

inteiro” ou “paninho”, do “meio ponto”, do “ponto de palhinha”, do “ponto de carreiras redondas” ou “abertas”, do “ponto virgem” e do “ponto carrapato”, ou das “ovais”, entre outros, mas, distingue-se pela existência do “guião” (linha mais grossa com que se realça os contornos dos motivos decorativos garantindo-lhes maior expressividade) que a torna mais resistente. Esta particularidade foi essencial para tornar a renda de Setúbal preferida às demais em peças de uso quotidiano como lençóis, toalhas de rosto ou de mesa, facto com impacto na economia local: “Uma indústria caseira, a da renda de bilros, que remonta, pelo menos, ao século XVIII, toma notável incremento e os seus produtos, leves e delicados, são conhecidos como rendas de Setúbal”5. A qualidade e beleza da renda de Setúbal é reconhecida por Calvet de Magalhães na obra considerada uma bíblia dos Bordados e Rendas de Portugal6, tendo sido premiada em Exposições

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Nacionais. Em 1953, Maria de Lurdes Fialho fez uma recolha de piques e rendas tradicionais7 que doou à cidade. A exposição presente no MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal) resulta, quase na totalidade, desta coleção. O Museu do Trabalho Michel Giacometti tem realizado um trabalho de valorização da história da renda de bilros local através do enquadramento social e cultural da sua produção. Aqui, os bilros marcam presença com rendilheiras residentes desde 1995. Do grupo inicial resta (ainda), Fernanda Ventura, cuja arte iniciada há 45 anos, foi homenageada na exposição inaugurada em março de 2018, “Rendas de Bilros: fios que tecem rendas do mar”. Esta mostra culminou com uma “Tarde Intercultural” dinamizada pela coordenadora do Museu, Lucinda Fernandes, que permitiu a partilha de experiências entre as mestras (Beatriz Oliveira da UNISETI; Maria Vicente do projeto “Nosso Bairro, Nossa Cidade”) e aprendizas de Setúbal

(sete aprendizas nos dois núcleos de formação) e, representantes da Escola Municipal de Rendas de Bilros de Peniche. Naquela localidade verifica-se um grande investimento na valorização e promoção das rendas. Existem muitas publicações dedicadas à história da renda de Peniche, várias atividades de formação, incluindo escolas de Verão para crianças, aceitam-se encomendas e desenvolvem-se novas aplicações das rendas. Foi criado o Museu da Renda de Bilros de Peniche (2016) e, ali se realiza a Mostra Internacional de Bilros (considerada a maior do mundo com cerca de três dezenas de delegações) que atesta a universalidade desta arte e justifica a candidatura a património imaterial da UNESCO, em curso. Investimento similar ocorre em Vila do Conde, outra das dezassete localidades com tradição de bilros em Portugal. Em Setúbal, estamos perante um cenário diferente, a Renda de Bilros de Setúbal e a existência de Rendilheiras tradicionais quase desapareceram da memória coletiva. Porém, assim como as rendas surgem da ligação de pequenos pontos, podem, igualmente, encadear-se ações que permitam guarnecer as memórias que subsistem: visitar a exposição permanente no MAEDS; conhecer as iniciativas do Museu do Trabalho para a valorização das rendas de Setúbal; iniciar formação numa escola local; descobrir fotos, notícias em jornais antigos, piques e, partilhar esta informação, permitindo, quem sabe, novos voos a esta pesquisa.n

NOTAS: 1

Maria do Carmo Vieira da Silva (1988). Onde há redes há rendas. Setúbal: Salpa. Contêm glossário. 2 Natividade Monteiro (2011). Memórias de Maria Veleda. Leiria: Imagens & Letras. 3 J.M. Costa (1962). Rendas de Setúbal. Setúbal: Junta Distrital de Setúbal. Consultar aqui. 4 Teresa Pinto (2005). Ensino industrial feminino oitocentista. Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX). Lisboa: Livros Horizonte. pp. 311-315. 5 Fernando Falcão Machado (1949). O nosso sal de Setúbal. Setúbal: Tipografia Simões. Referência a esta obra aqui. 6 M.M. de S. Calvet de Magalhães (2.ª ed., 1963). Bordados e Rendas de Portugal. Lisboa: DireçãoGeral do Ensino primário. 7 J. Soares (1980). Rendas de Setúbal. Setúbal: Museu de Arqueologia e Etnografia.


CENAS DA VIDA FAMILIAR

JORGE SANTOS FORRETA Médico cenasdavidafamiliar.blogspot.pt

Ao finado Finura

Ao finado Finura, O inventor de Setúbal: se não foi ele, deu a ideia... -Você é bruxo..., Fosse, eu: bruxo!, acertava nos números do totoloto, - Doutor, obrigado., Aceite... Lembro-me dele, barbado de fato-macaco e de lenço na lapela, a cachimbar enquanto pedalava a pasteleira, tal e qual como no cartão que me deixou, " Francisco Augusto da Silva Finura. O Finura" Professor de Hipnose, Telepatia, Retenção Memorial, Psicanálise, Magnetismo e Fascinação; Correspondente da Escola Azteca de Psicologia e Magnetismo; Ilusionista. Inventor. Erudito investigador. Arqueólogo. Mergulhador profissional. Marinheiro de longo curso. Homem-rã. Escafandrista. Numismata. Polidor de metais. Cromador. Afinador de bicicletas. Recauchutador. Vulcanizador. Torneiro. Bate-chapa. Mecânico. Eletricista: Operário especializado em trabalhos não especializados. Professor de natação. Remo. Vela. Ski. Ciclista. Judoca. Lutador.

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Boxeur. Toureiro, Dador de sangue no Hospital Distrital de Setúbal. Cozinheiro. Industrial de Conservas e Conserveiro. Faquir. Artista de variedades. Rei do Carnaval de Setúbal, 1968-19691970. Astro internacional de cinema. O meu tio Agostinho conhecia-o: a nadar, encontravam-se, em Troia, do outro lado do rio. - Ator: lembro-me dele, Por breves segundos, num filme rodado em Setúbal, nos anos cinquenta, - Aparecia mesmo em primeiro plano, de frente para o ator principal: levou um

murro nos queixos e desapareceu no chão... Tudo tem solução. Disso, o Finura era a prova provada, Uma vez, O Gordo, o avô deixou-lhe em herança num baú, pesado de alguma coisa. Ou de coisa alguma...,combinou dois contos com o Finura, no Clube Naval, para lhe abrir a maleta: trocadas meia dúzia de chaves, bastaram três minutos ao Finura para abrir o cofre, - Dois contos?, Dois contos por três minutos?! - Mas está aberto!, Achas muito?! Retirou a chave e atirou-a para o meio da doca, - Se achas muito, falo* de borla: espeta os óculos e enfia-te no limo! n


CENAS DA VIDA FAMILIAR

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CONSULTÓRIO JURÍDICO

NUNO CASTRO LUIS Advogado

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ecordo-me de ver, em casa da minha avó, fotografias a preto e branco antigas, de grupo, com várias meninas alinhadas e de vestidos de tecidos claros, com o ar da formalidade inerente ao primeiro dia de aulas (presumo que recordações dos inícios de anos letivos da minha mãe e tias, nas décadas de quarenta e cinquenta do século XX). Tenho, igualmente, fotografias de toda a minha turma, no final dos anos setenta, em frente à porta principal da escola pri-

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Direito à imagem no primeiro dia de aulas

mária onde estudei, em Setúbal, nos primeiros dias, e julgo que também nos últimos, desses anos letivos fabulosos a que chamávamos, então, primeira, segunda, terceira e quarta classes. Sei que o meu irmão e primos terão fotografias idênticas. Ainda hoje, quando observo essas fotografias do meu tempo de escola, sorrio de forma nostálgica ao relembrar-me dos nomes, alcunhas, características e vivências da maior parte dos retratados, transpondo-me para um tempo que foi,

como deve ser, um dos mais felizes da minha vida. Há poucas semanas levei o meu filho ao seu primeiro dia oficial de aulas. Referi-lhe, repetindo o que certamente muitos outros pais disseram e estariam a dizer naquele momento, que aquele dia era muito especial, que nunca se deveria esquecer de que agora tudo seria diferente e que aquele momento marcava uma das etapas mais importantes da sua vida. Que aproveitasse tudo, que aprendesse muito, que fosse muito feliz. Fotografei-o a sair de casa e a entrar na escola; esperei ter a oportunidade de obter, mais tarde, um retrato de grupo com toda a sua turma, idêntico a tantos outros tirados noutras épocas, pois os momentos únicos nunca se perdem, muito menos com uma fotografia. Mas não foi isso que aconteceu. Cumprindo a Lei, a direção da escola emitiu uma diretiva onde proibia expressamente a captação de imagens dentro da mesma, não sendo possível, igualmente, imagens de grupo, mesmo que apenas da sua sala, e muito menos com a professora. Tudo a bem da salvaguarda do direito à imagem e da proteção das crianças. Na verdade, o artigo 26º da Constituição da República Portuguesa consagra, como fundamental, o direito à imagem, admitindo-se, por interpretação, que o mesmo integra a decisão de qual a forma, o momento e os destinatários da utilização dos seus registos. No que concerne à fotografia, o artigo 79º do Código Civil estipula mesmo que “um retrato de uma pessoa não pode ser exposto ou reproduzido sem o seu consentimento”. Quando a captação e divulgação atinge


CONSULTÓRIO JURÍDICO

um tal nível de contrariedade à ordem jurídica pode mesmo assumir a forma de crime (conforme artigo 199º, do Código Penal). No caso das crianças esta matéria é de complexidade superior porquanto não podem prestar, por si, o consentimento (devendo ser suprido por quem tem responsabilidades parentais ou equiparadas), tendo a exposição a perigos outro impacto pessoal e social pela sua menor capacidade de defesa. As redes sociais vieram, indubitavelmente, agravar este risco pois, uma fotografia de alguém, com representação individual ou de grupo, pode chegar a milhares de destinatários, sendo possível a sua exposição durante muitos e

muitos anos. Há poucos meses, uma mãe intentou uma ação de inibição de poder parental do pai, sendo um dos fundamentos o ter colocado fotografias no facebook sem a sua autorização prévia. Há, igualmente, vários pedidos de condenação a ressarcimento por danos, em Tribunais portugueses, por divulgação de imagens não consentidas. Andou bem, por isso, e face ao Direito, a escola do meu filho. A obtenção de consentimento por todos os pais é de muito difícil concretização e, ainda assim, nem sempre consensual: alguns pais não se importam que haja captação, mas opõem-se à divulgação; outros não se importam que haja captação e divulga-

ção desde que esta não se faça em redes sociais; outros, ainda, opõem-se ou permitem tudo. Contudo, como dizia uma mãe de quatro filhos, um dos quais colega do meu, para respeitar o Direito havia uma grande injustiça: todos os irmãos eram ex-alunos daquela instituição e só o mais novo não teria a tão preciosa fotografia de grupo do primeiro dia, para mais tarde recordar. Dá que pensar… num momento de grande banalização do registo e divulgação de imagens, em que quase tudo na vida social e pessoal se transforma em domínio público, haverá crianças que, por respeito à lei, parece que viveram num tempo diferente, na sua escola, no seu primeiro dia de aulas. n Setúbal Revista

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HISTÓRIA

A BOLACHA PORTUGUEZA... está de volta a Setúbal

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história da Bolacha Portugueza foi reabilitada e está à venda na Baixa de Setúbal desde Novembro de 2017. No fundo estamos a falar dos antigos barquilhos, que eram vendidos por figuras emblemáticas, como o “Ervilha”. Hoje em dia, produzidos pela marca “Bolacha Portugueza”, e pela mão de Filomena Vargas, responsável por trazer de volta um percurso com gerações. “ (...) respeitamo-la e estamos a desenvolvê-la de forma a oferecê-la, ainda mais valorizada, aos nossos filhos...”, diz-nos Filomena Vargas. Encontrando as suas origens nos inícios do cristianismo, o barquilho deriva directamente do pão divino, que era distribuído nas igrejas aos fiéis. Após preservada a receita pelas congregações religiosas, a tradição do consumo de barquilhos atravessou diversos séculos, tendo a sua venda, em Portugal, atingindo o seu apogeu no século

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XX, sendo uma das suas imagens mais marcantes, as das tradicionais latas de roleta, que os barquilheiros transportavam às costas. Colocada no chão, a lata permitia que a roleta fosse lançada e que, com muita expectativa, se aguardasse o veredicto que, na sorte, poderia satisfazer o desejo. O Barquilheiro consistia, numa figura típica de todo o nosso país, exercia o seu ofício com primor, cioso da sua receita e dos segredos passados de família para família.Com o tempo, perdida a tradição da venda, foi-se perdendo também o segredo do ofício. Filomena Vargas conseguiu recuperar, através do último barquilheiro de Setúbal, a receita e prepetuar esta magnifica arte, através da criação da marca “Bolacha Portugueza”. A primeira loja da marca, “ Bolacha Portugueza”, abriu em Setúbal, no passado dia 4 de Novembro de 2017, na Rua Dr. Paula Borba nº83, pela mão de Jorge Paulo Prazeres. Este espaço pretende

dar a recordar imagens e sabores de um Portugal mais antigo, bem como cativar as gerações mais novas. Para além da preservação da tradição e do conhecimento gastronómico, a marca “ Bolacha Portugueza”, através da sua loja em Setúbal está a desenvolver uma série de outras experiências de degustação, respeitando a receita original de base, oferecendo apontamentos de modernidade e abrindo espaço a novos paladares e novas conjugações de sabores. n

Vale a pena visitar! Rua Dr. Paula Borba nº83 Baixa de Setúbal Bolachaportugueza.com


HISTÓRIA

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CULINÁRIA

Tiramisù com creme de castanha

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ara adoçar os dias de outono e aproveitar o que de bom ele nos traz, as suas cores, os seus cheiros, os seus sabores, nada melhor que um tiramisù com creme de castanha. É perfeito para estes dias de outono, ainda tão quentes, que nos convidam a saborear algo fresco. Comece por fazer o creme de castanha com: 400 g de castanhas peladas, pode utilizar castanhas congeladas 400 g de açúcar amarelo 1 vagem de baunilha 1 colher de sopa de moscatel de Setúbal (ou outro vinho a gosto) Coloque as castanhas num tacho, cubra com água e leve ao lume du-

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rante 15 minutos. Descasque, pele as castanhas e coloque-as novamente num tacho cobertas com água até cozerem. Coe e guarde a água. Com a varinha mágica triture as castanhas até obter um puré e pese-o. Num tacho leve ao lume o açúcar, a água reservada (cerca de metade do peso do puré) e a vagem de baunilha aberta no sentido longitudinal e raspada. Quando começar a ferver, junte o puré de castanha e mexa até ficar homogéneo. Leve a lume brando durante aproximadamente 30 minutos, mexendo de vez em quando. Retire a vagem de baunilha, junte o moscatel e triture novamente até ficar em creme. Depois de frio pode ser guardado em frascos.

Ingredientes para o Tiramisù: 16 palitos La Reine 500 g de queijo mascarpone (2 embalagens) 2 ovos 100 g de açúcar amarelo 1 colher de chá de pasta de baunilha 1 chávena de café morno (cerca de 250 ml) 3 colher de sopa de Baileys (ou outra bebida a gosto) 250 g de creme de castanha Ingredientes para a Cobertura: 200 ml de natas 100 g de creme de castanha Cacau em pó para polvilhar


CULINÁRIA Modo de preparação Forre uma forma com película aderente, deixando as extremidades grandes para poder desenformar (utilizei uma forma de bolo inglês com 24x11x7 (CxLxA). Separe as claras das gemas, bata as claras em castelo e reserve. Num recipiente fundo, misture o café com o Baileys e reserve. Bata as gemas com o açúcar e a baunilha até obter um creme esbranquiçado. Junte o mascarpone, bata até ficar homogéneo. Envolva, delicadamente, neste preparado as claras em castelo, com uma espátula e em movimentos circulares Coloque uma boa camada de creme de mascarpone na base da forma. Molhe metade dos palitos La Reine no café e coloque-os na forma, formando uma camada. Espalhe uniformemente uma camada de creme de castanha por cima dos palitos. Coloque outra camada de creme de mascarpone, de seguida palitos e creme de castanha. Finalize com o creme de mascarpone e alise bem. Bata com a forma na bancada de forma a retirar bolhas de ar. Leve ao congelador até solidificar. O ideal será preparar a receita de véspera e deixar refrigerar durante a noite. Antes de desenformar espere alguns minutos, para que não esteja tão gelado e seja mais fácil desenformar. Bata as natas bem frias em chantilly, junte o creme de castanha e bata novamente. Utilizando um saco de pasteleiro, decore o topo do tiramisù e polvilhe com cacau. Guarde no frigorífico até à hora de servir. n

Com o apoio de Merengue & Chocolate email: merengueechocolate@gmail.com Setúbal Revista

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PSICOLOGIA

SILVIA SILVA Psicologa, Psicoterapeuta Torres Vedras psicologa.silviasilva@gmail.com

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ntes de começarmos a encharcar as nossas crianças com medicamentos que dão muito dinheiro a ganhar aos laboratórios farmacêuticos e bónus chorudos a quem os receita em barda, talvez pudessemos começar por parar. Só um pouco. Parar e pensar. Pensar no que consideramos poder estar a provocar ou a, pelo menos alimentar o tal comportamento que nos desagrada. As crianças precisam de ser saciadas biológica, social e psicologicamente. Proponho hoje que falemos brevemente nesta última. As crianças precisam de orientação, de mimo, tal como de regras e rotinas para se desenvolverem de forma psicologicamente saudável. As tarefas, sejam elas de levantar, despir, vestir, pentear, lavar os dentes, estudar ou deitar, quando instaladas são como informações dadas ao organismo. E uma vez dadas, se forem feitas de forma habitual, às mes-

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A importância das rotinas do sono

mas horas, deixam de ser actividades novas, para serem automáticas. Todas as tarefas que possamos fazer de forma automática, fazem com que recorramos a muito menor gasto energético, assim, facilmente concluímos que se nos desgastamos menos, descansamos mais. Da mesma forma, podemos concluir que, se as nossas crianças forem habitualmente à mesma hora para a cama e dormirem um número de horas que se considere ajustado à sua idade, irão descansar e repor energias. Falemos então da chamada higiene do sono. Para que haja um sono de qualidade é imprescindível criar um conjunto de condições que proporcionem um bom descanso: dormir um número de horas adequado, deitar-se habitualmente à mesma hora, manter o quarto escuro (respeitando o ritmo circadiano), com temperatura agradável e em silêncio e levantar-se à mesma hora, são alguns

exemplos. Filipe Glória Silva desenvolveu um estudo com crianças portuguesas com idades entre os 2 e os 10 anos e nele fala da importância determinante do sono adequado, e das suas consequências na saúde das crianças, afirmando que a privação voluntária ou involuntária do mesmo pode afectar as funções cognitivas, o desempenho escolar, o peso, o risco de quedas acidentais, o controle emocional e o comportamento. Assim, pode concluirse que manifestações consideradas negativas do comportamento de uma criança podem estar directamente relacionadas com a má qualidade do seu sono. Birras, irritabilidade, comportamentos desafiantes e de oposição ou dificuldades de concentração são os principais sintomas comportamentais de sono inadequado. Há muito a fazer antes de medicar uma criança. Pense nisso…n


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OPINIÃO

MARIA DO CARMO BRANCO Vogal do Conselho de Administração da UNISETI (Universidade Sénior)

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este mundo materialista, em que cada pessoa tem valor pelo que faz e não pelo que é, muito difícil é esclarecer quem foi Mohandas Gandhi. Na realidade ele não foi um líder político, nem um líder religioso, nem tão pouco um nacionalista, foi apenas um advogado que defendeu até à exaustão tudo aquilo em que acreditou, animando lutas, resistências, ideias, projetos. A sua linha de orientação não foi a da violência, mas a de ajudar o seu povo a desenvolver uma força inabalável, sem

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MOHANDAS GANDHI

armas, transformando a luta não violenta pela justiça num método político que se tornou num modelo para os movimentos éticos de paz e liberdade, inspirando muitos movimentos de resistência. Gandhi dizia que a violência acabava por substituir uma tirania por outra, sacrificando cada vez mais os povos oprimidos. Veio, no entanto, a ser vítima da violência que não praticou. A sua ação de conquista pelos direitos

dos seus compatriotas foi exercida na Inglaterra, África do Sul e na Índia. Desprezou o seu próprio corpo, com greves de fome como meio de atingir o que desejava e, em alguns casos, para conseguir concórdia entre castas, religiões e etnias. Juntamente com os seus apoiantes, transgrediu pacificamente leis injustas e suportou destemidamente todas as penas, demonstrando ao mundo a brutalidade da oposição e convertendo-a em proveito moral.


Considerava-se, acima de tudo, um defensor da verdade e um homem religioso, afirmando que o problema da civilização era o afastamento da religião. Cada pessoa deve venerar o seu Deus de acordo com o seu pensamento. Gandhi nem sequer participou nos festejos da independência da Índia. O seu lugar foi, uma vez mais, a tentar a concórdia entre muçulmanos e hindus. Quando Gandhi foi assassinado, o presidente Nehru disse: “ A luz partiu das nossas vidas e em nossa volta só reina a escuridão” Afirmou Albert Einstein “as gerações atuais e futuras têm e vão ter dificuldade em acreditar que alguma vez neste mundo viveu uma pessoa de carne e osso como ele”. A imagem do pequeno homem esguio com pano branco na cintura, calvo e com óculos de metal redondos é uma das mais famosas do século XX. Representa a superioridade dos oprimidos. O triunfo da sinceridade e caridade sobre a violência colonial e o racismo. Um homem de uma originalidade fascinante, com uma enorme força de vontade na luta pela liberdade do seu povo. Na Índia, Gandhi é venerado como o pai da nação. n Documentos consultados A minha vida deu um livro(edit.sol) A vida de Gandhi

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