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Revista Bimensal | N.º 21 - II Série - 4º Ano Abril / Maio 2020

Receita de Pão Básico

Vítor Mingates

“Gosto de criar, de ter objetivos e de ter um foco…”

Os relógios, o sono e a Covid-19, por Miguel Meira e Cruz


NÃO É SÓ SETUBALENSE É TAMBÉM SOLIDARIEDADE

OBRIGADO O SETUBALENSE PRESTA HOMENAGEM AOS QUE LUTAM NOS HOSPITAIS E CENTROS DE SAÚDE DA REGIÃO


EDITORIAL

As narrativas da pandemia

`tĂœ|t ]ÉÝÉ YxĂœĂœĂ‰ Diretora Editorial

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ois cĂĄ estamos em plena Pandemia, abril de 2020, assunto mundial “monotemĂĄticoâ€?, ansiedades, medos e muitas narrativas, muitos pontos de vista, muitas anĂĄlises e muitos sentires. Tal como todo o desconhecido ĂŠ sempre temido, o medo instala-se e o stress do quotidiano termina. O silĂŞncio paira, a calma das ruas vazias e o planeta agradece que todos, ou uma grande parte de nĂłs, se tenha recolhido. Finalmente respira. NĂŁo fazĂ­amos assim tanta falta por estas bandas, ďŹ ca tudo em equilĂ­brio por momentos, a reclusĂŁo aproxima-nos, um contrassenso, mas estamos mais prĂłximos nĂŁo fosse a pandemia. E se nĂŁo fosse a pandemia nĂŁo pensava em ti‌nĂŁo pensavas em mim e nĂŁo pensĂĄvamos nos outros que precisam da minha, da tua e da nossa ajuda. Uma ajuda a nĂŁo morrer por falta de apoio, por falta de recursos, em solidĂŁo de forma

FICHA TÉCNICA

fria, sem toque. Neste cenĂĄrio pandĂŠmico, as narrativas do medo sĂŁo vĂĄrias, multiplicam-se pelos canais de televisĂŁo, artigos de jornal, revistas e tambĂŠm aqui na SER se fazem sentir. Narrativas com medos bons, com medos maus, com sentires diferentes, com a anĂĄlise descritiva, cientĂ­ďŹ ca e histĂłrica do que ĂŠ viver em Pandemia. Que sequelas poderĂĄ trazer? NinguĂŠm sabe. Que efeitos? Desconhecidos‌mas que se advinham problemĂĄticos. Vai ou nĂŁo mudar o registo do comportamento humano? Talvez sim ou talvez nĂŁo. Muito estĂĄ em jogo, deste jogo que se espera longo e onde se avistam diďŹ culdades. Pede-se resiliĂŞncia, disciplina e temos todos, ou grande parte de nĂłs, esse altruĂ­smo, do conďŹ namento que salva vidas. Honramos esse compromisso todos dias. Falta a paciĂŞn-

cia, desperta a angĂşstia, surge a irritabilidade, mas no ďŹ nal do dia, acreditas que isto vai correr bem‌e recolhes Ă espera do prĂłximo, do outro e de mais alguns outros dias que virĂŁo a seguir. Dentro deste contexto, aqui vos deixo a SER 21, onde se explanam formas de sentir, testemunhos, partilhas cientĂ­ďŹ cas e anĂĄlises descritivas e pessoais, neste singular abril de 2020. O Momento 21, da revista SER, onde ainda se explicam ansiedades, narrativas pandĂŠmicas, descriçþes emocionais, constataçþes de autor, dicas de saĂşde fĂ­sica e mental. Pretendemos preencher a vossa quarentena, recheando-a de conteĂşdos e enriquecendo-a com possibilidades de novos circuitos de pensamento, potenciando as introspeçþes, ou simplesmente ocupando o vosso precioso tempo livre. AndrĂ  Tutto Bene đ&#x;˜Š n

Setúbal Revista – Registo na ERC: 126664; Depósito Legal Nr. 390882/15 Propriedade: João, Pedro & Armindo, Lda. [Sócios: Armindo Manuel Fernandes da Conceição (33%); Maria João Moreira da Conceição Ferro (33%); Pedro Manuel Moreira da Conceição (33%)]; Diretora Editorial: Maria João Ferro; Editores: Maria João Ferro. Colaboram nesta edição: Maria Pereira; Isabel Marques; Maria do Carmo Branco; Nuno Castro Luís; Jorge dos Santos Forreta; Paula Cunha e Silva; Eugenia Canito; Silvia Silva; JosÊ Gomes; Alexandra Aleixo; JosÊ Nobre; Carolina Bico; Alexandra Mendes; Cristina Pinho; Sara Loureiro. Contactos: redacao@setubalrevista.com - Avenida 5 de Outubro, 111, 2900-312 Setúbal; Publicidade: 967 122 006 - Estatuto Editorial em www.setubalrevista.com

Setúbal Revista respeita a opção dos seus colaboradores quanto ao Acordo Ortogråfico Setúbal Revista

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SUMÁRIO ENTREVISTA

P.33 A 37

TESTEMUNHO

P.24 E 25

O dia em que quase perdemos um sorriso Vítor Mingates: “Gosto de criar, de ter objetivos e de ter um foco…”

LIVROS

P.38 E 39

Vítor Mingates, natural de Sarilhos Grandes, concelho do Montijo, trabalha como sonoplasta há vários anos. Recentemente foi o responsável pela sonorização do vídeo “Andrà tutto bene/Vai ficar tudo bem”, com música de Flávio Cristóvan e realização de Pedro Varela. O tema do vídeo consiste num hino de esperança para todas as pessoas que estão na linha da frente no combate ao novo coronavírus, um hino a todos os profissionais de saúde, a funcionários dos hospitais, e a todos aqueles que em casa a lutam contra a doença, em isolamento social.

VIAGENS

P. 46 A 49

Viver em tempo de pandemia CONS. JURÍDICO

Viajar em tempos de Corona Vírus 4

Setúbal Revista

P.44 E 45

Este Direito é mesmo excecional!


IDEIAS SOLTAS

IVONE CAMPOS Bióloga; Professora; Musicoterapeuta; Curso de Educação Musical pelo Conservatório Nacional de Música; Curso de Piano pelo Conservatório Nacional de Música

Com vida 2020

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odia vestir a pele de Bióloga e desatar aqui a falar sobre este vírus que virou a nossa vida de cabeça para baixo. Dizer que os vírus são microorganismos não vivos, agentes responsáveis por infeções, que necessitam de células vivas para se multiplicarem e que, por essa razão, uma vez fora das células se tornam inertes. Sublinhar também a nossa (ainda) tão longa caminhada científica até conseguirmos dominar esta diversidade biológica, uma vez que não existe um padrão único de estrutura viral. Mas parece-me de maior utilidade determonos sobre aquilo que realmente importa neste momento crítico das nossas vidas. Em primeiro lugar parece-me importante entender o modus operandi deste vírus. Porque razão alguns infetados são assintomáticos, outros reportam apenas sintomas moderados similares ao de uma gripe e outros ainda evoluem para quadros severos incluindo comprometimento pulmonar e morte. No mundo cientista parece ser já consensual que o sistema imunitário tem um papel crucial na evolução desta doença. Acontece que no momento da infeção o nosso corpo reage contra este vírus como reage a qualquer outro, libertando substâncias (interferões) cujo objetivo é contrariar a replicação viral. Nesta fase é provável o surgimento de febre e tosse (caso o vírus invada o trato respiratório) ou diarreia (caso invada o digestivo) – entrando pela boca pode seguir os dois caminhos. Em algumas pessoas o vírus replica-se rapidamente antes mesmo de o sistema imunitário entrar em ação, e isto

acontece seja porque a carga viral é elevada, seja porque o sistema imunitário se encontra deficitário e por isso incapaz de responder. Estas duas razões explicam o facto de os profissionais de saúde e os mais idosos ou pessoas imunodeprimidas representarem os grupos de maior risco. E aqui chegamos ao segundo ponto importante: podemos reforçar o sistema imunitário? Há quem defenda que não, mas não é verdade. Podemos e devemos. A pele de Homeopata sugere-me de imediato alguns medicamentos que contenham equinácia, propólis, geleia real, ácido ascórbico, zinco ou os conhecidos sais de Schussler importantes na correção de desequilíbrios orgânicos, para além de hidratação, horas de sono suficientes, exercício físico e alimentação variada e equilibrada. Já a pele de Musicoterapeuta me alerta para a grande importância do equilíbrio mental nesta fase, usando a música como auxílio para manter a serenidade, afastando assim a ansiedade

e o pânico. Mas finalmente como terceiro e último ponto deste artigo, visto a pele de Vocas (como me conhecem a família e amigos) e foco-me na grande aprendizagem que a vida nos permite ter no presente: o de Ser Humano. O de entender de uma vez por todas que não somos ninguém sozinhos, que dependemos sempre uns dos outros e que somos todos elos de uma grande corrente, que se quebra ao quebrar um elo. Não podemos sair indiferentes desta experiência. Uns tirarão dela bons ensinamentos, outros infelizmente talvez não. Mas tentemos de uma vez e para sempre entender o significado da Humanidade, enquanto família de uma mesma casa: o Planeta. E nessa dimensão possamos todos estender um pouco mais a mão, e de forma pueril olhar o outro como um irmão, reunindo todos os fragmentos de sol e com eles construir um mundo novo. Assim como uma arca de Noé chamada COM VIDA 2020. n Setúbal Revista

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TURISMO

ALEX-EM-LUTÉCIA Correspondente em Paris, França

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estes dias de quarentena, sentada à mesa a petiscar, inesperadamente fui atingida por uma onda de bem-estar ao abranger num olhar os três homens mais importantes do meu universo: Francisco, Pedro e Luís! Agradeci interiormente o privilégio supremo de podermos estar juntos e até ao momento incólumes, face ao que nestes tempos foi classificado acertadamente por Emmanuel Macron, no discurso que fez ao país, de inimigo invisível… Havia-se instalado uma conversa fluída, inicialmente de pinceladas densas com alguns receios e questões, mas, devagarinho, entre garfadas, fomos navegando para assuntos mais leves e terminamos por ir parar a locais mais felizes e mais certos, acabando a rir e a recordar outras vidas que já tivemos e pessoas que conhecemos. A arte de bem petiscar, no seu melhor, emparelhando o sabor e o convívio, património que partilhamos em absoluto com o resto da humanidade. Em França não se petisca, on grignote. Grignoter….Existem palavras que simplesmente encantam.. Ficam-nos a brincar na mente, pintam-se de cores vivas e às riscas e enrolam-se de forma apetitosa na língua, fazendo-nos sorrir sem que para isso exista sequer uma razão precisa.. Fui de imediato conquistada pela maneira impertinente como as letras se inscreviam no toldo vermelho daquele bistrot da esquina, ali mesmo junto aos Invalides, onde alguns clientes, não obstante o calor da tarde e modorra, se deliciavam com queijos cremosos e charcutaria fina e petits morceaux da mais inseparável de todas as companheiras, la reine baguette!! S’il vous plait, acompanhado da mania nacional, um bom champagne gelado, soltando bolhinhas marotas e, pasme-se, bebido em copos

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POUR VOTRE SANTÉ EVITEZ DE GRIGNOTER ENTRE LES REPAS* OU A ARTE DE BEM PETISCAR EM FRANÇA


TURISMO

que embora elegantes, exibam a boca larga própria dos de vinho branco, permitindo a melhor noção dos aromas e gosto, acabando de vez com a ideia romântica dos flûte e consentindo-nos assim o alívio de já não ter que substituir aqueles que se foram partindo do conjunto caro recebido como prenda de casamento… Toda esta ciência foi-me trazida pelo Luís em A.Q. (Antes da Quarentena), quando esteve na região do Marne, mais precisamente em Reims, num workshop que contemplava também uma visita e um almoço de degustação nas requintadas caves da Veuve Cliquot. Mulher com um apurado instinto para os negócios, nascida em 1777, uma das primeiras empresárias e milionárias francesas, ávida leitora de romances, grande apreciadora de cavalheiros mais jovens e benfeitora da região que habitou, soube transformar a criação do frade Pérignon num aristocrático produto apreciado por todas as cabeças coroadas dessa Europa fora – com a ajuda de Antoine de Muller, NicoleBarbe inventou e desenvolveu o remuage, técnica que possibilita ao champagne ganhar o aspeto cristalino e apurar o sabor através da inclinação graSetúbal Revista

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TURISMO

dual das garrafas até que estas atinjam uma posição vertical, permitindo assim que os restos de levedura e depósitos da bebida que aí se acumulam, sejam posteriormente removidos. As caves da Viúva não são apenas requintadas, são também históricas, já que os subterrâneos foram considerados património Mundial da UNESCO. Ao longo dos séculos as antigas pedreiras ou crayères, localizadas a 18 metros de profundidade e com uma rede de túneis com 24 quilómetros de comprimento, foram protagonistas de momentos únicos, nomeadamente servirem de refúgio às populações civis durante as grandes guerras que assolaram a França.. Desejo-vos o melhor, Au revoir Un bisou * Lei francesa de 9 de agosto de 2004 que obriga todos os tipos de mensagens que publicitem alimentos açucarados, com edulcorantes, sal ou outros elementos à partida considerados perniciosos, a contemplar a frase: “Pela vossa saúde evitem petiscar entre as refeições…” n

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CENAS DA VIDA FAMILIAR

JORGE SANTOS FORRETA Médico cenasdavidafamiliar.blogspot.pt

O Albarran

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rrábida deriva do árabe Arrabidah: isso, montes de montes, as Serras da Cabeça Gorda, das Guaritas e da Boa-Vida, o Picoto e, lá bem no alto, do Formosinho, quinhentos metros acima da Anicha, o sinclinal do Portinho, separa o Formosinho do Solitário: não está só, não longe, o nome não esconde: a Mata Coberta... Lembram-se do Albarran, dos tempos do liceu?, Maluco sou eu, levo a vida A sério: o Aldraban era, já se vê, pouco verosímil ou, como dizia o padre Frango de Sousa, de Azeitão, a história, cada um a fantasia à sua maneira... O Eduardo fez-se à estrada e montou a barraca na Mata Coberta, A malta soube disso..., - Podíamos ir até lá... - Isso, fazer-lhe uma festa surpresa... - Uma aparição! Agostinhos e franciscanos, todos concordaram, - Com lençóis, encapuchados!, Sem papel higiénico e a borrar-se, calças abaixo, bem pode agradecer os panos! Cê Bês, Erre Dês, Pushes e até o Xico, da Famel Zundapp, fizeram excursão, a coberto da noite, Largaram as motas no arvoredo e seguiram à pata, a coberto uns dos outros, até ao local onde, mais coisa menos bota, o Hildebrando as perdeu, - Buh, Buuuh..., brrrh, brrrrrh..., os lençóis prendem nas roseiras e a mata recambia os sons em dobro, mais unido do que nunca, o grupo segue determinado, - Buh, buh!, Buuuh, Buuuuuuuh!, Buuuh... Lembram-se?: sempre com o sorriso nos lábios, O Eduardo era bom amigo, quem te

avisa também, - Quem vem aí?! - Buh..., Buuuuuuuh..., Buuuh! Veio o primeiro tiro e, depois o segundo e o terceiro e os pés no traseiro, galgaram silvas e deram-se por felizes quando chegaram sãos e, salvo melhor

opinião, rasgados e cortados à estrada, a mais de quinhentos metros das motas, Tiro e queda: saiu-lhes o tiro pela culatra!, E ao Xico, pelo outro lado da perna. cenasdavidafamiliar.blog.spot.pt n Setúbal Revista

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OPINIÃO

Isolamento MARIA DO CARMO BRANCO Vogal do Conselho de Administração da UNISETI (Universidade Sénior)

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arregou-se num interruptor e, logo, o mundo perdeu tudo aquilo (pelo menos temporariamente) a que era a nossa força de viver: liberdade, convívio, lazer, trabalho e, em troca, a solidão espalhouse por aqueles que já têm tão pouco tempo para viver, pela ordem natural das coisas (os mais velhos). Somos nós que impomos o nosso pavor, o nosso

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medo, a nossa solidão. Não podemos contactar os filhos, os netos, os nossos amigos, o nosso bem mais precioso, a não ser por telefone ou internet. Lembro um destes domingos em que caminhei sozinha até à beira rio e, sentada a olhar, pensei: que mais posso desejar da vida do que isto, para além do bem-estar da minha família e dos

meus amigos? Mal sabia eu que, passados 15 dias, não podia estar nessa situação e, sim, confinada à minha casa e à minha janela/varanda! Aprendi que nada pode ser dado por adquirido, mas que devemos viver minuto a minuto da melhor forma, tendo sempre presente a solidariedade e a fraternidade. A realidade é muito triste: por detrás da-


OPINIÃO

quele “bicho” que nos quer consumir, há um longo trabalho a desempenhar pelos homens e mulheres: pessoal de saúde, camionistas, produtores, funcionários dos estabelecimentos alimentares, farmácias, forças de segurança, bancos, investigadores, governo e funcionalismo público. Dentro de todos eles há força, dignidade e energia que vão buscar não sei aonde e a quem nos devemos curvar em agradecimento. Do mesmo modo que durante tantos anos não houve uma única vez que me preocupasse em sair de casa, a não ser por doença, hoje, a minha e a nossa preocupação é sermos atingidos por este vírus que nos escolhe por sermos o elo mais fraco. Mas este elo mais

fraco que embora não espere grande coisa da vida, está firmemente decidido a conservar o que já conquistou. Esta inquietação que nos assola é um sintoma de agitação, mas a passividade é um sinal de rendição. Tornamonos passivos quando achamos que não podemos lutar. Mas será assim? Pensando bem, devemos aproveitar este interregno para arrumar coisas em que há muito tempo não mexíamos, ou começar a ler aqueles livros que temos pendentes e que nos fazem sentir que estamos num banco de jardim rodeados de histórias e de conhecimento. Ler é criar um baú de sonhos e emoções que preencherão os dias e as noites que não queremos passar

em claro. Sempre que lemos ou ouvimos uma música, não podemos ficar indiferentes, mas sim deslumbrados com tanta coisa boa nessas duas áreas. As novas formas de comunicação vão ocupando espaços que, no futuro, irão fazer rarear o gesto de abrir um livro. Enquanto isso não acontecer continuaremos a ler porque o livro nos aproxima de pessoas que vivem longe umas das outras. Se lermos, podemos discutir as personagens e a emoção que a leitura nos causa e, a isso se chama partilha e convívio. Temos de ser fortes e tentar dominar todos estes medos que nos assolam e esperar a hora do abraço e do convívio. n Setúbal Revista

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CULTURA

EUGENIA CANITO Professora

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uito se tem comentado e muito se tem ouvido sobre esta pandemia, o Covid 19, nuvem cinzenta que tem assombrado o planeta de todos nós, sem sabermos quando ela se extinguirá, para que todos nós possamos voltar às nossas rotinas, próprias dos seres humanos.

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A história e o tempo

Agora, dentro de um mundo desconhecido, sentimo-nos confinados a um isolamento a que não estávamos habituados, num tempo em que quase tudo é tão precário, em que somos obrigados a gerir aquilo que estávamos habituados a fazer e que agora não podemos realizar: ruturas de afetos, convívios com familiares e

amigos, atividades escolares e profissionais, etc., tudo que fazia parte das nossas rotinas. “FIQUE EM CASA”, “SAIA SÓ EM CASO DE NECESSIDADE”, “MANTENHA AS MEDIDAS DE CONTENÇÃO”, todas estas regras muito importantes, implicam toda a nossa força de vontade, coragem e dever de cumprimento


CULTURA para tratarmos de nós e dos outros, para assim diminuirmos os riscos de contágio. Fazer face à violência deste vírus feroz e à incerteza que nos rodeia, só é possível com o nosso pensamento em que todos nós ficamos separados, mas todos mais perto no futuro. É uma questão de sobrevivência e pensar que estamos todos no mesmo barco. A semana passada li na Revista do Expresso uma longa e emocionante crónica do Cardeal Tolentino Mendonça, Teólogo português atualmente Arquivista do Arquivo Apostólico da Biblioteca do Vaticano, na qual ele nos transmite que a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos, daquilo que deixamos sistematicamente por dizer, daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz nem vez, daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer.

Tomo a ousadia de transcrever uma parte desta maravilhosa crónica, onde o Cardeal nos transmite que a nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas. ...””NUMA DAS HORAS MAIS OPACAS DO SÉCULO PASSADO, UMA RAPARIGA HOLANDESA DE NOME ETTY HILLESUM ESCREVEU NUM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO ESTE COMENTÁRIO ÀS PALAVRAS DO EVANGELHO DE MATEUS: “UMA VEZ ESCREVI NUM DOS MEUS DIÁRIOS: “ GOSTAVA DE TATEAR COM AS PONTAS DOS MEUS DEDOS OS CONTORNOS DESTA ÉPOCA “. NESSA ALTURA ESTAVA SENTADA À SECRETÁRIA SEM SABER COMO ATINGIR A VIDA… E ENTÃO, DE REPENTE FUI LANÇADA NUM FOCO DE SOFRIMENTO HUMANO NUMA DAS MÚLTIPLAS FRENTES ESPALHADAS POR TODA A EUROPA. E FOI AÍ QUE EU EXPERIMENTEI ISTO ABRUPTAMENTE: A PARTIR DOS ROSTOS DAS PESSOAS, DE MILHARES DE GESTOS DE MANIFESTAÇÕES, DE BIOGRAFIAS, COMECEI A INTERPRETAR ESTES TEMPOS… SE AS PESSOAS ENTENDESSEM ESTA ÉPOCA, SERIAM CAPAZES DE

COMPREENDER COM ELA A VIVER COMO OS LÍRIOS DO CAMPO.” O QUE SIGNIFA SERMOS CAPAZES DE OLHAR OS LÍRIOS DO CAMPO E AS AVES DO CÉU? SIGNIFICA ADOTAR UMA ATITUDE CONTEMPLATIVA. PRECISAMOS DE OLHAR, MAS NÃO APENAS COMO HABITUALMENTE O FAZEMOS, POIS A MAIOR PARTE DAS VEZES O NOSSO OLHAR MORRE JUNTO AOS SAPATOS. SOMOS DESAFIADOS A UM OLHAR QUE VÁ ALÉM DE NÓS, QUE SUPERE OS LIMITES DO NOSSO TRACEJADO, QUE TRANSCEDA O LIMITE DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES IMEDIATAS, QUE SE PROJETE PARA LÁ DO QUE SÓZINHOS CONSEGUIMOS VER… PORQUE A VIDA NÃO SE RESOLVE APENAS COM AQUILO QUE TRAZEMOS OU CONSEGUIMOS, MAS SIM NO DIÁLOGO MISTERIOSO ENTRE A NOSSA ESCALA E A ESCALA MAIS AMPLA QUE A PRÓPRIA VIDA É; NO DIÁLOGO ENTRE O QUE SURGE COMO CONQUISTA E O QUE BROTA COMO INEXPLICÁVEL DOM;...”” FIQUE EM CASA ! BEM – HAJAM! n

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LIVROS E LEITURAS

SARA LOUREIRO Mestre em Ciências da Educação Mediadora de Leitura Produtora Cultural Co-fundadora da PLUS Academy

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á quem tenha a capacidade de nos abraçar com as palavras. Em diversas circunstâncias, senti a escrita de Valter Hugo Mãe como um verdadeiro abraço, um amplexo, uma escrita energizante, uma demonstração de carinho pelo Homem, pela Humanidade, por um Mundo que se deseja melhor, mais honesto e generoso, onde possa haver lugar para sonhar, para crescer e fazer crescer. Em 2010, VHM dava à estampa, pela editora Objectiva, dois pequenos livros que me têm acompanhado. O rosto e As mais belas coisas do mundo, ambos edições limitadas, numeradas e assinadas. Apenas trezentos exemplares de cada um. Do primeiro coube-me o número sessenta e nove. Do segundo, o número duzentos e cinquenta e dois. O primeiro, com belíssimas ilustrações hiper-realistas de Isabel Lhano e o segundo com ilustrações de Paulo Sérgio BEJu. Na altura, haveria de comprar dois exemplares de As mais belas coisas do mundo, tendo oferecido um deles a uma amiga que perdera o avô por aqueles dias. O livro apresentava a história de um rapazinho de dez anos e do seu avô, com quem partilhava a aventura da descoberta da vida e do respeito pelo próximo. Lembro-me de me sentir imensamente abraçada por

Sara Loureiro Fotografia Março, 2020 ©Sara Loureiro

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Reinventar a vida


LIVROS E LEITURAS uma escrita clara, límpida, mas profunda, sem presunções ou moralismos, que deixaria em mim marcas indeléveis. Esta narrativa de VHM aborda a beleza e a importância da partilha intergeracional, fala dos mistérios da vida, da construção do conhecimento e da capacidade de fazer acontecer, das dúvidas e das descobertas e apresenta-nos avô e neto no processo de pensar as mais belas coisas do mundo, muito para além do tangível, de procurar saber onde se esconde a felicidade e como poderá ser o caminho para lá se chegar, de pensar e aprender a vida, de aprender o sonho, de aprender a poesia. E é este processo de descoberta e construção do que é “ser-estar-fazer” no mundo que nos enleva e emociona, de tão bem cerzido e apresentado pelo autor. Em O rosto VHM aborda, igualmente, a descoberta do próximo, do outro e da essência que o habita, protagonizada também por um menino de tenra idade, filho de um guarda florestal, habituado, no isolamento do alto de um monte onde vivem sozinhos, a perscrutar, juntamente com os pais, seus únicos companheiros, a lonjura silente como forma de prevenção dos fogos. O autor recorre, em ambos os livros, ao ponto de vista da primeira pessoa, neste caso um rapazinho, narrador protagonista, gerando empatia entre a personagem e o leitor: “Durante muitos anos, eu, a minha mãe e o meu pai vivemos nessa casa no cimo de um monte mais ou menos afiado, que custava subir e descer. Explicaram-me que a nossa tarefa era ver ao longe, e eu via ao longe sem saber o que esperar e esperava que um dia pudesse entender melhor porque tínhamos de o fazer.” (Mãe, 2010b:2). Este entendimento e esta descoberta da vida e do outro só viriam a acontecer quando o menino entra na escola e descobre, por via da professora, o significado e as cambiantes de um rosto e o que está para além dele, a essência da pessoa humana e o que nela há de subtil, de único, de extraordinário. Nestas obras a que aludo, o autor privilegia a dimensão psicológica do protagonista em detrimento da acção, porque não é a acção o que verdadeiramente importa, mas sim o sujeito da narrativa, o actante e o impacto transformador das suas reflexões, das interrogações, das dúvidas e das respostas que vão sendo tecidas, ainda que de

Sara Loureiro Fotografia Março, 2020 ©Sara Loureiro

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LIVROS E LEITURAS uma forma simples e despojada, como só uma criança poderia fazer. VHM consegue tudo isto, usando uma prosa que nos prende e arrebata, porque simultaneamente despida de artifícios e límpida, sem deixar, contudo, de ser profunda e inquietante. Uma inquietação boa: “Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma (...). Percebi que ver verdadeiramente uma pessoa também é como prevenir os fogos, como fazia o meu pai que, afinal, era guarda-florestal. (..) Toda a vida precisamos de estar atentos, senão vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor.” (Mãe, 2010b: 28). Em 2019, surge uma nova edição do livro As mais belas coisas do mundo. Desta vez editado pela Porto Editora. Surge, agora, como livro de grande formato, desta feita com ilustrações de Nino Cais, em papel de alta gramagem e especialmente bonito. Não resisti. Comprei. Não percebi logo que o texto sofrera alterações. O que ali estava, no novo livro, seria, em substância, o mesmo que estaria no primeiro livro, supus. Mas, na verdade, o texto fora editado, porque o autor sentira necessidade de lhe mexer, de acrescentar, de reformular, de inserir, de substituir... Em suma, o texto renascera. “Uma obra de arte nunca se termina, só se abandona”, disse-o Leonardo da Vinci no Tratado de Pintura, o que é válido para todas as artes. E veja-se aqui. “O meu avô sempre dizia que o melhor da vida haveria de ser ainda um mistério e que o importante era seguir procurando. Estar vivo é procurar...” (Mãe, 2019: 7), assim começa o livro, com o rapazinho evocando as sábias palavras do avô, nesta nova versão ainda mais atento às pessoas e ao seu coração, um “detective de interiores”, inspeccionando, sobretudo, sentimentos, porque, segundo ele, seria a forma de nos aproximarmos da felicidade e de lhe “tirar as medidas”. Todas as memórias do rapazinho vão no sentido da revisitação das palavras do avô e do seu contributo para repensar(mos) a importância da descoberta do outro, a importância de um abraço, mas também a importância da descoberta e do encontro com o próprio, da tomada de consciência das forças e das fraquezas de

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Sara Loureiro Fotografia Março, 2020 ©Sara Loureiro

cada um, da capacidade de colocar(mos) questões, porque, como ele dizia “Inventar perguntas é aprender. Quem não aprende tende a não saber perguntar. Muita gente não tem sequer vontade de ouvir. Fica do tamanho de uma ervilha, no que às ideias diz respeito.” (Mãe, 2019: 14). E VHM volta a apresentar tudo isto com uma prosa clara, bem pensada, palavras escolhidas em pormenor, metáforas e imagens simultaneamente enternecedoras e acutilantes, não ferindo, mas pondo o dedo na ferida, convidando o leitor a uma reflexão sobre o conteúdo

do que escreve, mas também sobre a forma como escreve, sobre a sintaxe, sobre a semântica. Com o avô, o menino aprendia a vida, mas também a morte, por esta fazer parte da vida. Tudo lhe era explicado de forma serena, com uma inteligência que vinha, sobretudo, do coração, e que ajudava a cultivar o respeito e a celebrar as boas memórias dos que desapareciam, sem que deixassem, por isso, de continuar a celebrar a vida. Certa vez, o avô colocou-lhe aquela que seria, porventura, a pergunta mais desafiante: “Quais seriam as mais belas coisas do mundo?” Ele não soube exactamente o que dizer, mas alvitrou


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Sara Loureiro Fotografia Março, 2020 ©Sara Loureiro

algumas hipóteses: os filhotes de cão, a cara das mulheres, as nuvens, as árvores... Mas o avô divergia, ou melhor, alertava “(...) não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa (...)” (Mãe, 2019: 25). Neste processo de pensar, repensar, fazer e refazer, o menino tornava-se pessoa humana. E quando o avô teve que partir, de tão cansado e velho, ele sentiu que o avô era das coisas mais belas do mundo e aninhou-se na esperança de, um dia, poder parecer-se com ele e ser capaz de reinventar a vida. E é desta forma comovente que VHM

toca num tema fulcral dos nossos dias: o respeito pelos mais velhos e a valorização dos seus saberes e competências. As relações e as práticas intergeracionais entre crianças e idosos evidenciam-se como sendo de extrema importância e com impacto muito positivo não só no desenvolvimento pessoal e social de crianças e jovens, mas também no desenvolvimento equilibrado e responsável das comunidades e da sociedade em geral, onde todos têm um papel a desempenhar e a cumprir, tendo por base o respeito e a solidariedade. A Valter Hugo Mãe, escritor sobejamente conhecido e reconhecido no pa-

norama literário, com livros para todas as idades, fica a nossa reverência pela sua notável capacidade de escrita e pela lição de inteligência emocional que nos oferece ao longo das páginas destes seus livros, que são para ler e reler.

Referências Bibliográficas MÃE, Valter Hugo. As mais belas coisas do mundo. Editora Objectiva. Carnaxide. 2010a MÃE, Valter Hugo. O rosto. Editora Objectiva. Carnaxide. 2010b MÃE, Valter Hugo. As mais belas coisas do mundo. Porto Editora. Porto. 2019 n Setúbal Revista

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SIMPLES ASSIM

PEDRO SOARES Terapeuta motivacional Desenvolvimento Pessoal

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aço gosto em dedicar as primeiras linhas deste texto a agradecer e dar os parabéns à forma como em Setúbal, estão todos juntos no terreno das soluções. Essa é a atitude que faz dos milagres realidade. Em vários momentos e contextos, tenho citado Setúbal como um exemplo a seguir pela forma como os cidadãos se posicionam face à comunidade. Neste ano (0) zero de um “Novo Mundo” onde nos será permitido viver, após o drama desta experiência global que nos ocupa e preocupa todo o planeta, sentimos que nada mais será como dantes. Na nossa pequenez, no nosso egoísmo e no nosso MEDO gigantesco “criamos” mentalmente algumas “verdades” que traduzimos em chavões para ajudar o nosso medo. Diz-se e escreve-se com desusada frequência que: Vai ficar tudo bem! É uma frase bonita para dizer às crianças que acordam com febre por terem tido um pesadelo. Na circunstância atual, não. Convido aos leitores que “venham” comigo, fazer este exame interior. Quando estamos fora do país e nos perguntam de onde somos ou de onde vimos, enchemos o peito para honrosamente dizer que vimos de PORTUGAL. Contudo, se estivermos no nosso país e nos fizeram a mesmíssima pergunta (vou dar o meu exemplo) de novo enchemos o peito e dizemos, de novo honrosamente, sou dos AÇORES! Se eu estiver nos Açores e esta mesma pergunta me for dirigida, eu orgulhosamente respondo que sou da ilha de São Miguel. Mas, se estiver na Ilha de São Miguel já irei responder que sou da Fajã de Baixo. Se estiver na minha Terra Natal irei responder que sou da Rua do Egipto e nesta, vivo no número 18-B…

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Setúbal Revista

Não. Nós não vamos ficar todos bem!


SIMPLES ASSIM

Mas, se na Fajã, eu estiver nesta casa, no seio de uma família que pode ser mais ou menos numerosa, eu já vou dizer que o meu lugar é o meu quarto. Porque cada um de nós vive no seu pequeno mundo, habitado pelos seus fantasmas e pelas suas deambulações filosóficas. A esse comportamento, para não entrarmos em termos técnicos, comummente chamamos de bairrismo. A verdade é que esta atitude que limita o nosso horizonte é pouco mais que traição do ego. Somos naturalmente egoístas… Se há um acidente de maior impacto num país, se um avião se despenha, se um comboio descarrila, se existe um país a arder numa dilatada e assustadora área geográfica… em todos os países, (incluindo o nosso) nós, nos meios de comunicação e as redes sociais só vamos ver e ouvir o seguinte: Não há portugueses entre as vítimas… Não há casas de portugueses atingidos pelas chamas… Qualquer outro país e povo agirá mais ou menos igual! Setúbal Revista

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SIMPLES ASSIM Bem podemos dizer que é defeito e feitio da nossa espécie! Ainda há menos de nada, e já no início do mês de março, circulava pelas redes sociais um “post” que comparava os países infetados com o nosso. Na altura, tínhamos zero infetados e talvez tenhamos acreditado que assim continuaríamos. Sempre gostamos de acreditar até ao último minuto na mão invisível que nos protege. Esta foi, e continua a ser a atitude de todos os povos e países do planeta terra. A isso, iremos chamar de “ilusão de comando”. Eu posso, eu mando, eu decido, eu quero, eu prevejo…. Inconscientemente temos uma infinita necessidade de ego e de nos enganarmos. De repente, o vírus chegou a Portugal também. De repente, a cidade parou. Em muitos lugares do mundo, tudo havia parado também… Andamos a meio gás, metade em resguardo e a outra metade na “guerra”. E ainda assim, envolvidos em uma situação mundial que não deixa saída para ninguém, onde os sem-abrigo e os multimilionários, têm as mesmas hipóteses de morrer ou de sobreviver. Onde, com dinheiro ou sem ele, vamos encontrando prateleiras vazias ou com pouca capacidade de respostas. Pois, a nossa procura “selvagem” e egoísta foi e é mais veloz do que os muitos que de noite não dormem para repor alimentos nas prateleiras. O homem, para não sofrer amanhã, prefere sofrer todos os dias mais um pouco!

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Setúbal Revista

Que somos e podemos ser todos mais humanos, humildes, unidos e mais fortes, sem dúvida que sim! Esta situação de extrema novidade para as gerações mais jovens, ainda assim, tem trazido à tona das sociedades um pouco por todo o mundo, o melhor e o pior da nossa “raça” … Sim! Infelizmente a angústia dos nossos comportamentos é ainda maior e mais forte do que o próprio vírus. Não tem sido suficiente o exemplo do resto do mundo para trabalharmos a cautela, a humildade e a gratidão… E eu sinto, que a Gratidão é a memória do Coração. Se formos egoístas muito para além do que já todos sabíamos ser, se não me disser nada o número de infetados por este mundo afora, se não me tocar o “mar de gente” que sucumbiu “aos pés do vírus” … Se não me toca o esforço sobrenatural de metade da população mundial que está proibida de voltar às suas casas e famílias trabalhando arduamente para salvar a outra metade… Se não me importa se vamos infetar e quem vamos infetar… Se nada disto me disser nada, então é mesmo verdade que: “Não vai ficar tudo bem!”

Mas se não somos realmente indiferentes a nada no meio deste enorme flagelo global, se estamos solidários com a dor e o luto do outro… Então, sim: “Vai ficar tudo bem!” Assim como somos descendentes de sobreviventes de outras pandemias que foram ao longos dos tempos moldando as civilizações, também agora, quem ficar, será descendente de sobreviventes e de milhares e milhares de semelhantes que não resistiram! Eu acredito que eu e tu, nunca mais iremos ficar bem, mesmo quando tudo voltar ao “normal” possível. Nunca poderemos ser felizes quando todos os OUTROS estão de luto! E é aqui, que eu e tu podemos mostrar a nós próprios que somos indefesos, que somos pequeninos, que não sabemos nada e que estamos todos em constante crescimento e evolução. Agradeçamos todos os dias o privilégio de podermos ficar em casa a cuidar dos nossos e a proteger a nossa própria vida. Cuide-se e cuidemos uns dos outros. Até ao próximo número desejando que nesta altura o mundo já esteja diferente para melhor, ainda que, nunca mais possamos em consciência, ficar todos bem. n


CULTURA

JOSÉ NOBRE Ator

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cidade mascarou-se de fantasma, os carros alinhados ao longo da rua ficaram a olhar para a traseira do próximo sem espanto ou cobiça. As luzes das casas vão desistindo à medida que a noite avança, as dos candeeiros permanecem iluminando as ruas abandonadas, as pracetas esquecidas, as avenidas desertas.

As cidades fantasma

Entretanto amanheceu, a natureza espreguiçou-se em toda a claridade dos seus tons, respirando melhor, mais lúcida. Os pássaros interrogam-se no seu chilrear contínuo o que se terá passado para tudo permanecer tão tranquilo, tornando-se em plena cidade as suas conversas tão perceptíveis como se estivessem no campo. Estão animados. Hão-de quiçá julgar-

nos fofinhos, assim quietos. Neles se denota uma alegria, um certo misto de regozijo e espanto, um alívio frenético. Tudo isto contrasta evidentemente com a involuntária desistência profissional colectiva de quase toda a humanidade, do cativeiro a que foi sujeita perante a ameaça dominante. Toda a sociedade se sustentava do trabalho e vê-se agora tão órfã como prisioneira, entregue a si própria, remetida à sua própria jaula. Quem diria? Os números têm subido assustadoramente. As notícias, de dia para dia, mais desanimadoras. Os problemas multiplicaram-se em todos os quadrantes. A humanidade está em suspenso e divide-se agora entre os poucos que têm de sair; e entre todos os outros que têm de esperar. É heroico enfrentar o inimigo invisível e fatal arriscando-se, mantendo a calma, cumprindo ordens, mas desejando em muitas ocasiões ser apenas como os outros, esperar em casa pelo melhor. São heróis, os que têm de sair e saem. Aos restantes comuns mortais resta-lhes permanecer entre a tremenda, incógnita, espera e a débil esperança de que tudo passe depressa. Não serão heróis, mas terão de demonstrar semelhante coragem. A cega soberba veio ignorando o apoio à Saúde, às Artes, à Ciência. Se aliarmos a tudo isso, ou a tudo o que nisso falta, uma quase total ausência de espiritualidade, de fé e de princípios básicos de civilidade, compreendemos rapidamente que o caminho tomado não foi o melhor e que terá de ser minuciosamente recalculado no GPS colectivo. Não apenas para nos mantermos vivos, mas para nos precavermos melhor, no futuro, da nossa própria ganância. n Setúbal Revista

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SAÚDE

CRISTINA PINHO Médica Gastroenterologista / Homeopata cristinapinhomedica@gmail.com

SAÚDE com COVID-19

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ó aquilo que realmente somos tem o poder de nos curar.” Carl Jung

Um estudo de 2018 descobriu que apenas 12% dos norte-americanos são metabolicamente saudáveis (1). Mais de 90% tem alguma doença crónica e toma os respectivos medicamentos que são necessários para a controlar, e/ou é obeso. Isto significa que vive com um corpo acidificado a nível celular e o seu sistema imunitário (SI) está fragilizado. Estas pessoas são as mais vulneráveis e as que têm maior probalidade de apresentar um quadro clínico moderado a grave se estiverem em contacto com um vírus ou qualquer outro agente exterior. No mundo global e exaustivamente informado onde presentemente todos nos encontramos podemos e devemos ter um papel crucial na escolha da nossa alimentação, exercício, repouso, suplementos e pensamentos/stress, a fim de viver com um SI eficaz/saudável. Sobre a alimentação todos os profissionais falam na importância de evitar os doces, lacticínios, alimentos transgénicos e álcool, todos eles pro-inflamatórios e depressores do SI. Devemos também ter o cuidado de comer legumes frescos diariamente e manter uma hidratação adequada. O exercício é adaptado a cada um, mas caminhar ao ar puro e uns minutos de sol fazem milagres pelo SI. Sim, eu sei … não podemos sair de casa … sejam criativos. Dormir bem é super importante. A melatonina produzida durante o sono é crucial para o SI e um imprescindível antioxidante. Um bom sono é muito mais útil do que ver televisão. Os suplementos são monitorizados pela leitura do nosso corpo através de análises, mas está amplamente divulgada a

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importância das vitaminas A, complexo B, C, D, E, assim como dos minerais selénio, zinco, magnésio e ferro. Menos falado mas supremamente importante é manter o microbioma saudável. Para além da dieta saudável não se esqueçam dos probioticos. Quanto aos pensamentos/stress, factores que condicionam a bioquímica que modela o nosso SI (2), aconselho: Sejam o vosso próprio placebo. Está amplamente estudada a maneira como uma sugestão, interior ou exterior, ajuda a manter a saúde ou curar a enfermidade. O contrário também está provado. A crença na doença permite a sua manifestação e/ou o seu agravamento (nocebo). O que está a passar na comunicação social é altamente nocivo e promove a doença. Dia após dia, 24h sem interrupção, em qualquer canal do mundo inteiro o assunto é medo e doença. Contam-se

os mortos e assusta-se os vivos para que morram mais depressa. Não se colem a isso por favor! Se não sabem comportar-se não se exponham! Não vejam, não ouçam, não comentem. Não se deixem invadir pelos desânimo, angústia, impotência, com que as notícias tentam alimentar-vos. Presentemente, antes de qualquer outra coisa, o que cada um pode fazer é visualizar e agradecer SAÚDE para si e para o planeta incluindo tudo o que esta Terra contém. E tratar de si da maneira sucintamente exposta acima. Dessa maneira mostramos confiança e apoiamos a inteligência inata do corpo/mente para se manter saudável ou auto curar. Este é um tempo de grande transformação. Todos sabemos que nos preparámos para esta situação. Temos décadas de treino neste corpo/mente físicos. Aprendemos a comer bem, a fazer o exercício correcto, a descansar, a meditar/orar, a partilhar, a observar o que acontece sem expectativa nem julgamento, e a arregaçar as mangas com compaixão para fazer o que tem que ser feito, seja qual for o serviço a que sejamos chamados. O Dr. Carl Jung ficaria encantado connosco pois damos testemunho que somos um hospedeiro responsável, sábio e amoroso que conhece o poder da melhor protecção que existe: Essência / Consciência ! (1) - Joana Araújo, Jianwen Cai, June Stevens. Prevalence of Optimal Metabolic Health in American Adults: National Health and Nutrition Examination Survey 2009–2016. Metabolic Syndrome and Related Disorders, 2018. (2) – Bruce Lipton 2018. The Disease Scoreboard: Genes; Stress. Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=qE YPCT-Rtrk. n


SAÚDE

Setúbal Revista

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TESTEMUNHO

O dia em que quase perdemos um sorriso Texto reproduzido do blog Quarentenas.com

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pós uma semana de confinamento mandatório na França, seguíamos nos mantendo ativos e fortes e redescobrindo jogos de tabuleiro. No entanto, em um segundo, tudo mudou. Eu estava na cozinha enquanto meu marido e filhas jogavam palavras cruzadas. O que parecia ser um jogo maçante, em nossa casa tornou-se muito competitivo. Uma palavra com muitos pontos gera danças comemorativas intensas. E assim foi até nesse instante no sábado em que, no meio da dança, fez-se um silêncio inexplicável. Em dois passos, cheguei até a sala e vi minha filha com a boca ensanguentada. Ela havia escorregado e caíra de cara no chão quebrando os dentes da frente. Seu olhar de dor e medo me quebraram por dentro. Enquanto aplicava gelo e tentava acalmá-la assegurando-a que haveria uma solução, minha mente se lembrava que os consultórios dentários estariam todos fechados e que seria impossível levá-la a uma emergência. Na próxima hora e meia, havíamos consultado o telefonema para emergências da França, três dentistas conhecidos em Paris e no oeste da cidade, quatro dentistas conhecidos de amigos, dois hospitais com urgência dentária, uma dentista amiga no Brasil e um primo querido, dentista da família. Todos foram unânimes em dizer para não ir aos hospitais e lamentavam não poder atendê-la pois não tinham equipamento adequado para recebê-la em segurança. Enquanto quebrávamos nossa cabeça conversando com os profissionais, vi o sorriso da minha filha ir embora. Aos 14 anos, obrigada a ficar presa em casa e tendo aulas online com câmeras

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que focalizam com closes no rosto dos alunos, perder os dentes é desalentador. Ao final da tarde, desistimos e resolvemos pensar como poderíamos fazer para manter o ânimo dela. Fomos dormir bastante inquietos e acordamos tentando pensar que no meio desse turbilhão de acontecimentos assombrosos, esse problema não era tão grave. Fora a dor que diminuíra,

Livia Frossard é jornalista e mestre em comunicação social. Atualmente ministra aulas na escola de negócios ESLSCA, em Paris, e é redatora do blog Quarentenas.com


TESTEMUNHO

não havia mais o que poderíamos fazer. Até que o telefone tocou e um dentista aqui perto de casa nos perguntou se poderíamos levar a Elisa para que ele a examinasse em uma hora. Esse dentista, do qual nunca ouvimos falar, recebeu a foto dela via outro colega, que também não fazia parte dos nossos contatos. O que acontecera é que uma rede de solidariedade se formara. A foto dos dentes da minha filha circulava entre dentistas da minha região para descobrir um que poderia atendêla com, no mínimo, luvas e máscaras. Deu-se início, então, a uma verdadeira operação de guerra. Meu marido rece-

beu instruções de deixá-la na porta do consultório. Ela teria que entrar sozinha, deixar sapatos e casacos numa antessala, colocar avental descartável e finalmente entrar no consultório. Lá a esperavam o dentista e sua assistente, paramentados como se estivessem num filme de ficção científica. Minha filha mal viu os olhos deles. Em poucos minutos, eles colaram um dos dentes mais afetados e o outro ficou agora só sem um pedacinho. Ela foi encaminhada até a calçada onde o pai a aguardava. Meu marido já sacou o talão de cheques pensando que seria um valor exorbitante. O médico pediu

apenas a carta da Secu, o equivalente no Brasil a uma carteirinha do SUS. Assegurou que deixássemos que o seguro cuidasse disso. Eu jamais vou descobrir os caminhos que a foto da minha filha passou até chegar a esse especialista em implantes dentários que se dispôs a nos ajudar. Só sei que essa rede de solidariedade me deixou esperançosa de que sairemos dessa situação mais unidos do que nunca. Minha filha chegou em casa com a boca ainda muito inchada e com dores. Pediu para descansar. Acordou uma hora depois, foi até à sala e sorriu. n Setúbal Revista

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SER PORTUGAL- BRASIL

SÓIRA SOLEDADE DOS ANJOS CELESTINO Correspondente do Brasil SER Portugal-Brasil

SAMBA PORTUGUÊS

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om os olhos contemplando o Douro e o coração no Brasil, Fátima Fonseca, compôs uma canção. A filha de imigrantes portugueses, que era diretora de comércio exterior em um banco, sentiu que sua alma a convidava para compor e cantar. Assim o fez. O videoclipe do fado canção “Rio dos Moinhos”, que ela compôs inspirada pela vida da mãe, alcançou grande sucesso em Portugal. Logo começaram a surgir os convites para apresentações em concertos por toda Europa. Impulsionada pelo desejo de aproximar ainda mais os dois países irmãos, ela viu na união de estilos musicais o meio adequado para fazê-lo, lançando músicas com a combinação do Fado, Bossa Nova e Samba. Seus álbuns obtiveram muito sucesso em várias rádios europeias e no Canadá, surgindo daí, inúmeros convites para participação em programas de rádios portuguesas e francesas e em canais da televisão portuguesa. No Brasil, ela apresentou-se em muitos concertos e é uma das referências como cantora na Casa de Portugal. Em abril de 2018, sua música “A Bossa e o Fado” foi indicada para o prêmio internacional da música portuguesa IPMA 2018, categoria World Music, nos Estados Unidos. O recém lançado “Samba português” está concorrendo no IPMA 2020, na mesma categoria. Na canção “Bossa e o Fado”, há o namoro entre os estilos musicais representando o diálogo constante e o amor entre Brasil e Portugal en-

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quanto que o “Samba Português” celebra o encontro festivo dos três ritmos, dos seus povos e cultura. Mas não é só na experiência eclética da compositora e cantora Fátima Fonseca que vivenciamos o diálogo constante e a celebração de encontros nas relações entre Brasil e Portugal. A globalização, ao integrar as economias mundiais mediante negociações realizadas em ambientes altamente tecnológicos e nos diversos setores de atividade econômica e financeira,

gerou a necessidade de reflexões conjuntas, fortalecimento do diálogo, trocas de experiências e adoção das melhoras práticas mundiais. Uma destas reflexões conjuntas concerne à política tributária, fortemente impactada por inúmeros desafios para a Administração Tributárias dos países e seus contribuintes. Acadêmicos e profissionais que atuam na área tributária promovem parcerias de trabalhos e encontros para discussão de tais temas, como é o caso da Dra. Ana Cláudia Utumi, sócia-fundadora do escritório Utumi Advogados. Ana Cláudia Utumi, Ph.D. em Direito Econômico-Financeiro pela USP, é uma advogada renomada e com inúmeras premiações em seus 25 anos de atuação em consultoria e contencioso tributário, promovendo ao longo destes anos, trabalhos em parcerias com ilustres tributaristas portugueses tais como o Dr. Rogério Fernandes Ferreira, presidente da IFA Portugal (Associação Fiscal Portuguesa), o Dr. Miguel Teixeira de Abreu, sócio fundador do escritório Abreu Advogados, considerado “Eminent Practitioner” pelo “Chambers & Partners”, o Dr. João Ramalho e Dr. Nuno da Barnabé do escritório PLMJ e com o Dr. Miguel Durham Agrellos do escritório Durham Agrellos. Com este último, em um caso recente de um dos principais executivos de um banco com investimentos relevantes em Portugal. Dra. Tania Carvalhais Pereira e Dra. Rita de la Feria, titular da Universidade de Leeds são professoras com as quais ela troca experiências e desenvolve parcerias enquanto profes-


SER PORTUGAL- BRASIL sora de renomadas universidades no Brasil e exterior, levando-se em conta que além da atuação profissional, Dra. Ana Cláudia mantém uma intensa atividade acadêmica. Dentre as muitas associações ressaltamos sua atuação como membro do Practice Commitee do International Tax Program da New York University School of Law, Pesquisadora do Núcleo de Estudos Fiscais da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, membro do steering group do Women of IFA Network (WIN) e foi, entre 2010 e 2017, membro do Comitê Científico Permanente da International Fiscal Association. Em 2017, a IFA Portugal promoveu dois relevantes eventos, o I Encontro Tributário Brasil-Portugal, onde a Dra. Ana Cláudia palestrou no Painel I: Investimentos no Brasil. Aspectos gerais relativos à Investimentos. Entrada e Saída de Capitais (Dividendos, Juros sobre o Capital Próprio e Aspectos Cambiais) e o “International Tax Seminar: Tax Morality and Legal Certainty in the 21st Century”. As atuações dos tributaristas citados e de outros tantos que se debruçam sobre as discussões envolvendo os aspectos tributários, estão longe de serem concluídas. Políticas de transparência fiscal, acordos para troca de informações entre os países ou para evitar a dupla tributação, mudanças nos sistemas tributários e legislação local, tem sido algumas das medidas adotadas e que precisam ser revistas dentro do contexto da nova ordem econômica internacional. No entanto, a despeito de ainda ser necessários esforços para equalizar a questão tributária, os negócios seguem seu curso. Neste processo de integração promovido pela globalização é notório o interesse de empreendedores em busca de oportunidades de negócios em Portugal, que avaliam o país como a possibilidade de ingressar seus produtos e serviços no mercado internacional. Atento a este movimento, o Dr. Luiz Carlos Ferreira de Oliveira fundou em 1999, no Brasil, o Grupo Feoli Assessoria em Gestão de Negócios, e, posteriormente, a Ozne Consultoria, com sede em Lisboa. Seu perfil empreendedor aflorou aos 14 anos, ocasião em que começou seu aprendizado nos negócios do pai, um imigrante português. Com ele

aprendeu que sua maior preocupação deve ser sempre garantir segurança, tranquilidade e confiança nas relações com clientes e parceiros. Advogado com MBA em Gestão Empresarial solidificou sua carreira profissional na gestão e intermediação de negócios em um ambiente de segurança jurídica contando com o apoio de sua sócia e diversos parceiros que angariou ao longo dos anos. A abertura da OZNE Consultoria em Portugal, mostrou ser uma decisão acertada, ao gerar facilidade e segurança para os empreendedores, portugueses ou brasileiros, que podem contar com a atividade de uma empresa situada nos dois países, focada no aumento das relações empresariais entre Brasil e Portugal através de negócios, projetos, investimentos e o que mais for demandado. Dentre os projetos em andamento, além de ampliar a atuação da consultoria em Portugal, está a criação de um Programa para exportadores portugueses. Isto porque, o Dr. Luiz Carlos, cumprindo os cargos de Diretor Conselheiro na Distrital Centro e Membro do Conselho Consultivo da Associação

Comercial de São Paulo (ACSP), foi nomeado para assumir a coordenação do Programa EXPORTA SÃO PAULO – FACESP (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo) / ASCP – SP CHAMBER. Este programa, fruto do Protocolo de Cooperação assinado no dia 1° de setembro de 2004 entre o Governo do Estado de São Paulo (Secretaria de Desenvolvimento Econômico), a FACESP – Federação das Associações do Estado de São Paulo e a SP CHAMBER – ACSP, tem como escopo o fomento da exportação aos micros, pequenos e médios empreendedores, através da Mobilização e Sensibilização; Capacitação; Prévia análise da empresa para adequação à exportação; Missões Empresarias e Rodada de Negócios; Fortalecimento do Processo de Globalização e Internacionalização; Segurança Jurídica-Prevenção e Solução de Conflitos – Arbitragem; Certificado de Origem; Declaração de Exclusividade; Prêmio Exporta São Paulo, outorgado ao empreendedor exportador (para seleção dos premiados é seguida uma criteriosa forma de seleção). Toda sua dedicação e envolvimento em tantas frentes de negócio foi comprovada e reconhecida em 2019, quando o Dr. Luiz Carlos foi condecorado com o Prêmio Networking Nacional e Internacional, na categoria Excelência em Empreendedorismo, entregue em Lisboa. Em suas palavras, diz acreditar que Portugal tem um potencial enorme no Brasil pela relação entre os dois países, além de ser a porta de entrada para a Europa, o que leva os brasileiros a se interessarem em começar seu negócio internacional em Portugal. O fato é que seja na combinação de ritmos, ideias, parcerias, negócios, caminhamos para um processo de união cada vez maior e serão muitos os exemplos destas celebrações de amizade e companheirismo que traremos nos próximos artigos, com Adriana Silveira, contanto como sua experiência de vida pessoal, acadêmica e profissional contribuíram para o desenvolvimento de um trabalho de mentoria para mulheres, com Fred Neves e seu empreendimento futebolístico Projeto Europa e Tathiane Piscitelli, compartilhando sua experiência liderando projetos tributários. n Setúbal Revista

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CULTURA

ISABEL OLIVEIRA MARQUES Poema Sobre Imagens Fotografia de Fernando Santano Rêgo

Dois olhares sobre...

“O lugar onde a fotografia e as palavras se encontram”.

NO TEMPO DIFERENTE Já não são dias são números não há semanas são curvas picos e planaltos mapas que desenham o MEDO a diferentes cores máscaras e luvas ninguém tem nome nem rosto nem idade só há "os velhos e os outros" e ventiladores… Ah os ventiladores!!! que Cristo se esqueceu de multiplicar com os pães e os peixes no tempo da sua caminhada chove em Abril e nem as águas mil lavam certas lágrimas desnudas as igrejas as ruas vazias de fumo e de gente apressada e a qualquer momento as pontes podem deixar de ser "uma passagem para a outra margem" a casa limpa que já cansa não espera ninguém

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Antes AQUI ( segredamos) que entre tubos e anjos vestidos de azul cujo rosto é apenas uma doce e vaga imagem que consola e depois se afasta cresce a imaginação dos criativos que a Arte nunca desiste não se ouve trânsito mas aplausos e a Música ecoa, repete,aconchega e resiste aprende-se a fazer o pão de cada dia É PÁSCOA tempo de ressurreição e de sermão da montanha Vá lá chega de tristeza lá fora rebenta em flor a natureza invade de glicínias as janelas e grita connosco como uma MÃE zangada "fica o aviso e a lição" Depois mais brandamente ABRAÇA E DIZ que qualquer dia( não sei quando) voltaremos a viver de novo mais humildes mais felizes mas entre o RISO e a CICATRIZ


CULTURA

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SOLIDARIEDADE

PRÉMIO TERESA ROSMANINHO 2020 MARIA DO ROSÁRIO BARARDO História e Património Investigadora - Estudos sobre a Mulher CICS.NOVA - Universidade Nova de Lisboa Vice-Presidente da União Soroptimist De Portugal

“Num mundo em confinamento continuamos a missão soroptimist”

SOROPTIMIST INTERNACIONAL UNIÃO DE PORTUGAL (SIUP)

Filipa Raimundo jovem setubalense que ganhou o Prémio Teresa Rosmaninho

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Filósofo José Gil alerta: “este confinamento não é um lazer. Mesmo que haja quem consiga transformar este tempo em tempo de ócio, coletivamente isso é im-

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Setúbal Revista

possível. O tumulto e a catástrofe que desabam sobre o nosso país e sobre o mundo todos os dias não podem deixar de nos angustiar. No entanto, além do que a transformação da vida quotidiana

traz de novo ao indivíduo – que muitas vezes descobre uma vida nova (mas nunca sossegada e livre) – está a formar-se um outro espaço de comunicação entre as pessoas. Trocam-se


SOLIDARIEDADE e-mails, poemas, mensagens mais pessoais e próximas, textos, frases nunca anteriormente possíveis. Isto implica uma ação – que se revela necessária, às vezes, no fechamento em que estamos. Este espaço coletivo de comunicação (que não é um espaço público ou de opinião pública) vai desenvolver-se e, talvez, modificar um pouco as relações entre as pessoas”… (Público, cit.). A filosofia não é um conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo, mas é uma maneira de pensar e é também uma postura diante do mundo. Perante as palavras do grande filósofo, tudo o que poderia aqui acrescentar seria inútil! E é também por estas sábias palavras, que é imperioso que os membros do Movimento Soroptimist continuem a compartilhar o compromisso de tornar o mundo um lugar melhor para mulheres e meninas: servimos, rimos, lideramos, celebramos, aceitamos desafios - fazemos a diferença! Em conjunto, podemos realizar sonhos e é por isso que devemos prosseguir e não retrairmo-nos a um mero estado introspectivo - vamos, sim, contribuir para que, neste “espaço coletivo de comunicação”, possamos continuar a nossa missão! O Movimento Soroptimist foi fundado, em 1921, em Oakland, nos Estados Unidos da América, num período muito conturbado mundialmente, pelo que não será agora que iremos “cruzar os braços”! TERESA ROSMANINHO A SOROPTIMIST DEFENSORA DOS DIREITOS HUMANOS O PRÉMIO TERESA ROSMANINHO foi instituído em homenagem a Teresa Rosmaninho por iniciativa de Luísa Ramires, sua amiga e admiradora. Luísa Ramires é uma soroptimista também ela uma mulher de “braços abertos para o mundo”. Médica, especialista em oftalmologia, integrou em 1985 o primeiro Clube Soroptimist de Portugal, o Lisboa Fundador, a convite de uma excecional Mulher, a psicóloga clínica, Maria de Lurdes Bettecourt, que chegou a trabalhar com Egas Moniz. Luisa Ramires foi Presidente da União Soroptimist de Portugal, de entre outras elevadas funções que desempenhou no Movimento Soroptimist, tendo sido madrinha do Clube Porto Invitca, que teve como primeira presidente Teresa Rosmaninho. Luísa Ramires refere-se a Teresa Ros-

Teresa Rosmaninho falecida aos 55 anos

maninho como uma Mulher “FORTE, DETERMINADA e EMPENHADA”. Teresa Rosmaninho, deixou-nos aos 55 anos, motivada por uma doença prolongada, mas marcou o seu tempo com um grande empenho na defesa dos direitos das mulheres e com um papel fundamental na luta contra todo o tipo de injustiças e da discriminação em razão do género. Ativista convicta acabou por ingressar no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa, e ingressar num processo revolucionário, aceitando desafios e assumindo responsabilidades, sempre empenhada por um país mais justo. Foi considerada uma pioneira na defesa das vítimas de violência doméstica e abriu o primeiro núcleo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), no Porto. Entre 1983 e 1996, desempenhou funções no Instituto de Reinserção Social. Chefiou o Projecto INOVAR, e com ela a PSP e GNR receberam formação na área da violência doméstica, abrindo salas de atendimento às víti-

mas de violência. A para deste seu excecional desempenho, há muito que fazia voluntariado no SI, e, nos últimos tempos, dedicou-se, de forma excecional a abrir caminho na defesa das mulheres. Teresa Rosmaninho foi a responsável pela fundação da significativa obra Casa Abrigo no Porto destinada a vítimas de violência doméstica, impulsionando também serviços de proximidade com as autarquias. Este projeto tornou-se realidade graças à colaboração dos Serviços Sociais da Câmara Municipal do Porto, cuja presidência muito admirava o trabalho de Teresa no Apoio à Vítima. Também lançou um dos primeiros programas de promoção de igualdade de género nas escolas. Sobre a Casa Abrigo, em funcionamento desde 2004, falou-nos Catarina Seabra Côrte-Real, filha de Teresa Rosmaninho, também ela uma defensora dos direitos humanos e soroptimist há sete anos, com especial dedicação em dar continuidade a esta instituição. Para além de vários e importantes cargos no SI Clube Porto Invicta, onde é atualmente presidente, tem um cargo vitalício de Diretora da Casa Abrigo/Porto d'Abrigo, garantindo o bom e normal funcionamento do projeto, dando, assim, uma continuidade ao árduo trabalho e grande empenho de sua mãe. Para melhor exemplificar o quanto tem sido importante a Casa Abrigo para muitas mulheres que passam por esta instituição, transcrevemos um sentido depoimento de uma utentes, que nos foi cedido pela Catarina Seabra Seabra Côrte-Real: “Porto d’Abrigo: tantas lágrimas na chegada, tanto aperto e angústia. Um sítio estranho, tudo novo, tanta dor…depois o carinho, a convivência de todas as horas, e as utentes no mesmo patamar… dores, sofrimento, lembranças, todo um passado partilhado, até que nos levantamos e começamos a acreditar outra vez na vida e que ainda somos Mulheres e Mães com letra grande…” (H, 46 anos) PRÉMIO TERESA ROSMANINHO 2020 UNIÃO SOROPTIMIST DE PORTUGAL O Prémio pecuniário é atribuído pela SI União de Portugal a uma Jovem Líder com idade não superior a 40 anos à data da eleição, que se tenha distinguido em actividades associativas e/ou Setúbal Revista

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SOLIDARIEDADE

projetos sociais. A apreciação e decisão de Patrícia Moreno, Presidente 2019-2021 da SIUnião de Portugal, na atribuição do Prémio Teresa Rosmaninho 2020, após aprovação por unanimidade das delegadas/representantes dos Clubes Soroptimist de Portugal, foi atribuído à jovem Filipa Raimundo, de Setúbal, a quem foi reconhecido esse mérito pelo percurso de vida que aqui resumimos. O projeto Centro de Apoio à Vida “Pequena Grande Mãe”, abrigo inicial de Filipa, tem vindo a ser apoiado pelo Clube Soroptimist de Setúbal, trabalho prosseguido, agora, com Maria João Ferro, Presidente 2019-2021. UMA HISTÓRIA DE MENINA: Filipa Raimundo é uma jovem, agora com 29 anos de idade, que teve um percurso tumultuoso numa família disfuncional, com muitas dificuldades a nível económico. Começou a ser acompanhada no Centro de Apoio à Vida “Pequena Grande Mãe” da Cáritas Diocesana de Setúbal em março de 2008, com 17 anos, quando lhe foi descoberta uma gravidez de 7 meses, sem vigilância médica, até então. Esta menina grávida, sozinha, sem apoio da família, segundo nos relatou a Cáritas Diocesana de Setúbal, demonstrava uma grande fragilidade e instabilidade emocional quando foi alojada no Centro de Apoio “Pequena Grande Mãe”, desta Instituição. Tudo isto sucedeu quando já tinha acabado o namoro, por estar a ser vítima de

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violência. O namorado pôs em dúvida a sua paternidade e recusou assumir essa responsabilidade, mas, mais tarde, veio a confirmar-se ser ele o progenitor. EMPREENDEDORISMO Filipa, passados estes anos de dor e sofrimento, criou e educou o seu lindo menino, o Salvador. Mas Filipa é uma vencedora porque, para além de ter ajudado a mãe numa grave doença, que acabou por ser fatal, sem colo, incompreendida pelas jovens da sua idade, começou a trabalhar na restauração, de manhã, e nas limpezas, à tarde. Após o trabalho frequentou um curso de educação e formação de fotografia, porque era essa a sua paixão, acabando por aceder à equivalência do 9.º ano de escolaridade. E tudo sem descurar o cuidado dedicado ao seu filho. Continuou a lutar para melhorar o seu projeto de vida, demonstrando sempre uma grande responsabilidade e capacidade. Estas características levaram a que fosse contratada para trabalhar na Cáritas, onde acabou por concretizar uma nova formação na área da multimédia, o que lhe deu equivalência ao 12.º ano. Mas esta jovem continua com um sonho: dar continuidade aos seus estudos e poder investir na área social. Presentemente, a menina insegura e frágil, com dificuldades em relacionar-se com os adultos, tornou-se numa mulher e mãe responsável, preocupada, interventiva e lutadora, motivada em melhorar a sua vida e do seu menino. Muito acarinhada, continua a manter

uma relação de grande proximidade com as técnicas de saúde e todas(os) as(os) que a ajudaram e acompanharam. Face ao seu percurso de vida tornou-se uma voz fundamental para, com as suas ações interventivas, contribuir para melhorar as vidas e estatutos das mulheres e meninas, incentivando-as à aprendizagem e educação, para atingirem o seu potencial individual e coletivo, visando o emprego e igualdade de género. Luta pela melhoria de condições das mulheres e meninas junto de organizações locais, sensibilizando-as para se associarem à ajuda dessas mulheres e meninas carenciadas, situação tão recorrente na nossa sociedade. A Filipa Raimundo é um grande exemplo que honrará, certamente, a memória de TERESA ROSMANINHO, porque a jovem tem demonstrado ser uma empreendedora e porta-voz, junto da sociedade local, para futuramente tornar-se numa verdadeira líder na defesa das questões e princípios que fazem parte da grande missão “SOROPTIMIST INTERNATIONAL”. n

SIMBOLOGIA DO SOROPTIMIST INTERNACIONAL Soroptimist deriva do latim soror, que significa irmã, e ótima, que significa melhor, comummente interpretado como “O MELHOR PARA AS MULHERES” em todas as esferas de suas vidas.

O logótipo Soroptimist Internacional mostra uma mulher de braços abertos, com o sol por detrás, rodeada de folhas de louro (que representam o sucesso) e de carvalho (símbolo da força para trabalhar), que significa: “A MULHER ESTÁ DE BRAÇOS ABERTOS PARA O MUNDO “


ENTREVISTA

VÍTOR MINGATES

“Gosto de criar, de ter objetivos e de ter um foco…” Setúbal Revista

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ENTREVISTA

V

ítor Mingates, natural de Sarilhos Grandes, concelho do Montijo, trabalha como sonoplasta há vários anos. Recentemente foi o responsável pela sonorização do vídeo “Andrà tutto bene/Vai ficar tudo bem”, com música de Flávio Cristóvan e realização de Pedro Varela. O tema do vídeo consiste num hino de esperança para todas as pessoas que estão na linha da frente no combate ao novo coronavírus, um hino a todos os profissionais de saúde, a

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Setúbal Revista

“O sonoplasta ajuda a contar a história de um filme para que as pessoas o entendam e sintam melhor”.

funcionários dos hospitais, e a todos aqueles que em casa a lutam contra a doença, em isolamento social. Em

poucos dias, o vídeo tornou-se viral e um sucesso em todas as plataformas sociais, foi partilhado em todo o


ENTREVISTA mundo. Vítor Mingates, 47 anos, sempre gostou do mundo do som e do audiovisual, por influência de seu pai, músico e compositor de orquestras e coros. Atualmente trabalha na área da publicidade como sonoplasta e já esteve envolvido na sonorização de campanhas publicitarias para a Vodafone, a PT Comunicações, a McDonald's, a FNAC, entre outras empresas de expressão internacional e nacional. Vítor venceu um Leão de Ouro no Festival de Cannes e fundou a sua própria empresa com Ana Carqueijeiro, em 2008, a Amėba a operar em Lisboa no Restelo. Quando é que surgiu este gosto pelo universo do som? Desde os meus 16 anos que soube que queria ser sonoplasta. O meu pai era músico e compositor de orquestras e coros e, obviamente, cresci com a música e num meio artístico. No entanto, tive sempre bastantes dificuldades na minha aprendizagem musical, tenho dislexia e devido a esse problema as aulas de música eram um problema. Quando ainda estava no ensino secundário decidi estudar Artes e foi aí que descobri o audiovisual. Nessa altura, as peças do puzzle começaram a fazer sentido. Aos 18 anos fui estudar para Lisboa. Fiz vários cursos no Centro de Formação Profissional da RTP, frequentei formações de sonoplastia para teatro no Instituto de Formação e fiz formação em Investigação e Criação Teatral – IFICT. Mais tarde, surgiu a oportunidade de entrar num estúdio de publicidade e sonorizar filmes para os anúncios televisivos, uma paixão instantânea, que até hoje ficou comigo e nunca mais larguei. Atualmente, o meu trabalho passa muito pela publicidade. Gosto de criar, mas sempre com objetivos e um foco. Gosto de acordar de manhã e não esperar pela inspiração, mas pensar que tenho de arranjar soluções para um determinado filme que possa ter em mãos naquele momento. Em que consiste o trabalho de um sonoplasta? O sonoplasta ajuda a contar a história de um filme para que as pessoas o entendam melhor. E o sintam melhor. No entanto, o meu trabalho não se limita a sonorizar unicamente o filme,

“Desde os meus 16 anos que soube que queria ser sonoplasta”.

em todas as produções, há sempre uma vertente de realização sonora, em parceria com o realizador, onde definimos, por exemplo, os tempos das músicas, os silêncios, com o objetivo de gerir as emoções dos espetadores.

Onde faz a recolha dos sons para os seus trabalhos? Depende de vários fatores. Existem, de facto, bibliotecas de sons, mas que não funcionam em Portugal, porque os grandes fornecedores são americanos ou nórdicos e a sonoridade desses países não é igual culturalmente ou socialmente à nossa. Por exemplo, nos USA a frota automóvel é diferente, diferentes modelos, os carros são diferentes assim como os meios urbanos, os ambientes é tudo muito diferente, então inevitavelmente, os sons têm que ser diferentes. Por isso, sempre que os prazos me permitem faço a minha própria recolha dos sons. Setúbal Revista

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ENTREVISTA

“A nossa única intenção foi transmitir uma mensagem de esperança às pessoas nesta fase difícil, que o mundo atravessa...”.

Quais os projetos mais marcantes até agora? Os projetos que gosto mais de fazer são os mais difíceis. Por exemplo, há uns anos a Vodafone pediu-me para encontrar um tema para servir de música de marca. Depois de várias semanas de pesquisa, encontrei a música “On The Top of the World” dos Imagine Dragons, que era uma banda praticamente desconhecida na altura. Apresentei primeiro a proposta ao diretor criativo da empresa, que adorou o tema e depois mostrou à Vodafone. Eles aceitaram de imediato. Fizemos a campanha em cinco dias e penso que a música chegou a tantas pessoas, que a banda encheu três coliseus e esteve no top durante imensas semanas. Os últimos projetos foram os anúncios da Vodafone Natal, McDonald's Natal e FNAC Natal. Durante a minha carreira já ganhei um Leão de Ouro no Festival de Cannes, com uma campanha de rádio para a PT Comunicações. Em 2008, orgulho-me também de ter conseguido formar a minha própria empresa, a Amėba, juntamente com a minha sócia Ana Carqueijeiro. Como é que surgiu a oportunidade de sonorizar o vídeo “Andrà tutto bene/Vai ficar tudo bem”, que se tornou absolutamente viral nas redes socias? Eu sou amigo do Pedro Varela, reali-

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zador do vídeo. Ele ligou-me no início do surto do Covid-19 e lançou-me o desafio. Apresentou a proposta deste projeto, tentando desafiar a minha motivação para o mesmo. Eu aceitei o convite e fui acompanhando o processo ainda numa fase muito embrionária. O Cristóvan criou a música e com os contactos que o Pedro tem, foi conseguindo imagens de várias pessoas que estavam em casa, em vários países. Através de vários outros canais de televisão internacionais, fomos conseguindo mais imagens e ilustrando o vídeo. À medida que íamos recebendo imagens eu fui criando os primeiros esboços de edição e preparando o trabalho. A sonorização das cidades vazias foi, sem dúvida, o desafio mais complexo. Foi difícil tentar arranjar um som que ilustrasse as cidades vazias, porque normalmente há sempre movimento ou ação, há outros sons típicos, como um carro a passar, ares condicionados ligados e, neste caso, as ruas estavam completamente desertas, e eu tinha que criar o som adequado a essa realidade. No plano final, o Pedro lembrou-se de pormos o renascer da cidade, onde o drone sobrevoa o espaço e aí há uma sonorização diferente, que mostra as pessoas de volta à vida. Foi um projeto muito interessante. O videoclip foi lançado no dia 25 de março, quarta-feira. No YouTube já conta com mais de 562 mil visualizações. No entanto, ele foi partilhado nas redes sociais em todo o mundo e tem sido um imenso sucesso. Por isso, penso que os números são, na realidade, muito superiores aos que temos registados. De facto, o que é importante salientar é que este vídeo, que serve para ilustrar a música, não foi feito com o propósito de haver um protagonista. É um trabalho de todos e para todos. O mérito está na música do Cristóvan e nas filmagens do Pedro. A nossa única intenção foi transmitir uma mensagem de esperança às pessoas nesta fase difícil, que o mundo atravessa, consequência da pandemia causada pelo covid-19. Pessoalmente, acho que a inclusão do refrão em várias línguas torna o tema mais internacional, solidário, próximo e humano. Foi um trabalho que me deu muito gozo criar. n


ENTREVISTA

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PSICOLOGIA

SILVIA SILVA Psicologa, Psicoterapeuta Torres Vedras psicologa.silviasilva@gmail.com

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stamos todos a aprender a lidar com esta tão súbita quanto horrível situação. Do pouco que já sabemos importa dizer que se a questão física é a mais perigosa de momento (o que nos obriga a ficar o mais resguardados possível), as questões psicológicas resultantes de todo este contexto poderão ser igualmente desastrosas: depressões, esgotamentos ou até mesmo suicídios. Relembremos o que estamos a viver: privação de vida social; privação de manifestações físicas de carinho; redução ou perda total de remuneração para uns; para outros confronto com a gestão da situação dos seus funcioná-

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Viver em tempo de pandemia

rios e das suas empresas; privação de liberdade; convívio forçado com família nuclear vinte e quatro horas por dia, para uns; para outros isolamento e solidão absoluta; incerteza quanto ao termo da pandemia; incerteza quanto ao resultado final da pandemia; incerteza sobre a própria sobrevivência e dos familiares e amigos; privação de normalidade… E um sem número de factores que, por terem surgido tão repentina como inexpectavelmente, impediram a qualquer um de nós a sua antecipação e preparação. Importa reagir rápida e eficazmente tanto quanto possível, porque temos que continuar a viver. E sobretudo perceber que nesta como em qualquer

situação difícil, mais importante que a situação em si, é a forma como lidamos com ela que faz toda a diferença. Psicologicamente o que podemos fazer para que tudo isto tenha o menor impacto negativo possível? Criar rotinas! E aprender a gerir um tempo que habitualmente não temos. Rotinas de sono; rotinas de alimentação; rotinas de vida doméstica; rotinas de exercício físico e rotinas de lazer. Isto não é um período excepcional de férias. É um periodo excepcional nas nossas vidas e o que fizermos no decorrer do mesmo poderá ditar o nosso futuro. Se estamos isolados para manter a nossa saude física, então façamos o necessário para manter a nossa


PSICOLOGIA saude mental. Comecemos pelo aparentemente mais básico, mas sem dúvida um dos dois mais importantes alicerces da nossa saúde: respeitar o sono respeitando o ritmo circadiano. O que é isto? Muito resumidamente é estar acordado durante o dia e dormir durante a noite. O nosso organismo tendencialmente rege-se pela existência ou não de luz solar, quer isto dizer que potencia algumas das nossas competências se o fizermos de acordo com o nosso relógio biológico que por sua vez se orienta pelo relógio externo. Sempre que descambamos e prorrogamos a hora de deitar começam a surgir consequências negativas. A primeira é que muito provavelmente acabamos por prorrogar também a hora de levantar e isto significa acordar mais tarde e desperdiçar três, quatro ou mais horas de luz solar que neste momento de pandemia podemos afirmar que “é como pão para a boca”. A luz solar é grandemente responsavel pela produção de vitamina D que precisamos mais do que nunca para a regularização do nosso organismo. Importante

ainda referir a associação já provada entre a carência desta vitamina e a depressão. Para além disso, quando nos deitamos muito tarde, as tais competências que deveriam estar a ser potênciadas pela escuridão, como o descanso e a reestruturação celular, perdem-se tanto quanto as horas que protelamos a ida para a cama, independentemente de acharmos que compensamos dormindo até mais tarde. A segunda hipótese é levantarmo-nos mais cedo, ou seja, à hora habitual e expormo-nos desta forma à privação do sono. Como também sabemos, o sono é um dos maiores, senão o maior regulador do nosso metabolismo. Dito de uma forma simples, é ele que carrega a bateria que gastamos durante o dia. E é também ele que regenera as células, que nos organiza e que produz nova energia para nos mantermos saudáveis, como tanto precisamos agora. Um organismo debilitado é muito mais susceptível a apanhar doenças, e se já sabíamos que todos os vírus são oportunistas este é talvez ainda mais, o que significa que aproveitam qualquer debilidade na

nossa saúde e infiltram-se, e isso é o que menos queremos que aconteça, sempre, e muito mais no actual contexto que vivemos. Manter rotinas na alimentação! Manter os horários e o número de refeições que costumavamos fazer e/ou que devem ser feitas. Estar em casa pode promover à feitura de uma alimentação mais calórica sobretudo a nível de bolos ou outras sobremesas. Cuidado! Relembramos que este é o momento de estarmos o mais saudáveis possivel. A par do sono, a alimentação é o outro alicerce da nossa saude física e mental. Como em tudo, não se sugere rigidez ou proibições, mas sim alguma ponderação e tentativa de distinção entre fome efectiva ou ansiosa/emocional. O espaço da casa pode nesta altura tornar-se ínfimo e algo confuso. É importante manter os espaços individuais e outros colectivos para que não seja obrigatório estar o dia inteiro junto dos outros elementos de família e para que seja possivel continuar a haver momentos de privacidade e introspeção. Há que fazer um mapa de tarefas quer escolares/profissionais quer domésticas, estas últimas que envolvam todas as pessoas que vivam na casa, com os respectivos horários, para haver uma linha orientadora e algum controle que ajude a manter o foco e evite a dispersão. Uma vez mais importa tentarmos manter a maior normalidade possível e por isso devemos fazer a nossa higiene habitual e vestirmo-nos quando nos levantamos, tal como fazíamos habitualmente. E porque sabemos que está directamente relacionado com o bem estar mental sugere-se que faça exercício! Mesmo que tenha pouco espaço, existe um sem número de sugestões online de exercícios que pode adequar à sua realidade. Ajuda a destruir alguns possíveis pecados de gula ou fome emocional e estimula os neurónios que aumentam a produção de dopamina, um neurotransmissor que participa em várias funções cerebrais como a atenção, o humor, motivação, sono ou memória. Por último: divirta-se! Tente rir, brincar, cantar, dançar, jogar e já agora, aproveite para fazer tudo aquilo que passava a vida a dizer que não tinha tempo para fazer. n Setúbal Revista

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SAÚDE

Os relógios, o sono e a Covid-19 MIGUEL MEIRA E CRUZ Médico Dentista Especialista Europeu em Medicina do Sono Director do Centro Europeu do Sono mcruz@cesono.pt

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xiste um tempo adequado para tudo. Esta é uma máxima que, apesar de difícil aplicação prática, temos como segura, no contexto da vida e suas circunstâncias. É evidente que a sabedoria popular transfere do que os olhos vão observando, sem o escrutínio da interpretação científica, aquilo que os estudos de observação fazem, naturalmente condicionados. Por isso, é também evidente de que em todos os aspetos da vida, esta máxima se torna lei, mesmo quando nos passa ao lado a manutenção de ritmos como os da respiração e do batimento cardíaco, o da alimentação ou o do sonovigília. Se atentarmos bem à forma como ocorrem, conseguimos entender, ou no empirismo popular, assumir ao longo dos tempos que, para além do automatismo inerente a algumas destas funções, a regularidade e afinação com que ocorrem, permite predizer o momento em que se repetem no tempo. O período (tempo que dura a repetição de um evento) corresponde a um tempo curto, na ordem das frações de segundo ou dos segundos, para os batimentos cardíacos e movimentos ventilatórios, e mais longo, quando nos centramos na alimentação (horas) e no sono (um dia, na idade adulta). Todos eles sucedem, desde que não intervenhamos nos seus mecanismos, de uma forma mantida e regulada para que os desvios sejam li-

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mitados e assim corresponderem às reais necessidades da fisiologia normal. Este é um dos princípios que levaram os seres vivos a desenvolver relógios e a condicionarem a existência de um tempo interno que, mais ou menos silenciosamente, antecipa comportamentos rotineiros quer do próprio corpo, quer de outros que com ele interagem. Por exemplo, todos os dias amanhece, e com o nascer do sol a dinâmica da vida aumenta para os seres diurnos enquanto diminui para os seres com atividade predominantemente noturna. Os períodos de inação resultam num repouso (incluindo aquele que decorre durante o sono) de que depende a readequação energética e a recupera-

ção metabólica necessária à manutenção da vida. Mas quer esses, quer os outros períodos de atividade, são antecedidos por comportamentos que otimizam o seu rendimento. O relógio circadiano Porque o tempo em que a terra faz um movimento completo de rotação, o tempo que passa até um novo por do sol e o tempo que um homem adulto passa acordado até dormir novamente dura mais ou menos um dia, estes ritmos tomaram o nome de circadianos (do latim: circa diem ou cerca de um dia). Os ritmos biológicos circadianos (como o sono-vigília) decorreram da existência de ritmos de natureza geo-


SAÚDE física (a disponibilidade diária de sol, por exemplo) e de um treino a que a seleção obrigou tendo em conta a evolução dos mais aptos. Veja-se por exemplo que se os nossos antepassados não tivessem aprendido que à noite, a fragilidade era maior face aos riscos da predação animal, a espécie humana tinha sido dizimada ou nem sequer tinha lá chegado. Assim aprendemos a recolher à noite, a protegermo-nos da incerteza da escuridão e da menor temperatura que geralmente a acompanha, e a retornar ao exterior quando nos sentimos seguros e com maior controlo sobre as coisas. A capacidade de trabalho e de interação durante o dia tornou-se, portanto, mais provável e eficiente, assim como o aproveitamento do silencio noturno, por exemplo, predispôs a um sono mais tranquilo. Os mecanismos através dos quais isto se tornou possível são, em grande medida, ainda um mistério, mas passam por estruturas moleculares complexas que organizaram células, órgãos e sistemas numa orquestra cujo controlo temporal é exímio e que tem por base a existência de um relógio central localizado no nosso cérebro que, sincronizado com múltiplos relógios, virtualmente dispersos por todo o organismo, se concertam na extraordinária melodia da biologia, sempre obediente á lei com que iniciei o texto: existe um tempo adequado para tudo!

comportar “de acordo”. Nem sempre o fazemos, é certo! Também é certa a inevitabilidade das consequências, nem sempre pacificas e muitas vezes dramáticas. O risco de acidentes, de desconcentração, de dificuldade na aprendizagem ou de ter um enfarte ou um AVC aumentam, quer quando não dormimos adequadamente e em suficiência, quer quando dormimos em horas distintas daquelas ditadas pela melatonina e pelo nosso relógio biológico. Desta indisciplina também resulta uma menor competência imunitária, uma resposta mais débil por parte dos mecanismos de defesa inatos e adquiridos e uma maior suscetibilidade à doença, nomeadamente por via da infeção. As horas do coronavirus e o sono na COVID-19 Como outros fatores patogénicos, bacterianos e fúngicos, o vírus tem um relógio biológico, pelo menos em parte, com funcionalidade circadiana. A interação entre vírus e hospedeiro é um dos paradigmas que refletem o que expliquei anteriormente. Com efeito, ambos desenvolveram coincidências temporais que permitem manter o equilíbrio desejável, sobretudo a favor da saúde. Contudo, essas coincidências podem alterar, adjuvando mecanismos patológicos predisponentes

à doença ou à exacerbação da mesma. Num trabalho recente da nossa equipa, a propósito do agente etiológico da COVID-19 (o vírus SARS-Cov2), sugerimos que alterações nesta interação temporal podem refletir-se num aumento da agressividade, quer do próprio vírus, quer das manifestações clínicas da doença. Horários erráticos no que respeita às rotinas diárias, nomeadamente ao sono, são, neste contexto, contraproducentes para a harmonia desejável de todas as componentes dos nossos relógios internos que orquestram a eficiência imunitária. Também, comportamentos que indo contra as boas práticas de higiene do sono, coloquem em causa a sua estrutura, que restrinjam ou nos privem deste importante estado da vida, devem ser evitados, sendo igualmente indispensável o controlo adequado e tratamento das doenças do sono que possam coexistir. Todos estes fatores determinam potenciais défices nas respostas naturais de defesa, dificultando a recuperação. É fundamental atender a estes factos que, com mais ou menos certezas, permitem acreditar que vida encontrou um caminho, e de que esse caminho passa por um tempo a respeitar, para que as horas passem, de forma a que tudo corra o melhor possível: o sono, a saúde e a própria vida. n

O Sono Na maioria dos animais diurnos, e durante a maior parte da vida, o sono predomina nas horas noturnas. Isto sucede essencialmente por dois motivos. Um deles, já explicado, reúne a componente circadiana de regulação do sono. Um outro, inevitavelmente associado ao primeiro, resulta do continuo equilíbrio desejável e para o qual, durante as horas de atividade (diurnas na espécie humana), se requer um maior gasto energético. O período de compensação ou recuperação evoluiu aproveitando a noite. Com isso, moléculas, células, hormonas e outras tantas substâncias evoluíram também para dar resposta sincronizada a esta vantagem evolutiva. Assim, surgiu a melatonina: uma hormona produzida endogenamente para anunciar a noite interior e para lembrar o organismo de que se deve

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CULINÁRIA

Pão Básico

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s tempos que correm não são fáceis para ninguém. Vivemos envoltos num turbilhão de emoções e preocupações, acima de tudo muita ansiedade… Nestes dias de isolamento em que precisamos todos uns dos outros, a empatia por todos os que sofrem, que estão sozinhos, torna-se muito mais intensa! No entanto, não podemos deixar de acreditar que é uma fase e que em breve irá terminar. Por isso, temos de encontrar mecanismos de defesa para nos abstrairmos, nem que seja por breves momentos, deste clima de incerteza e vulnerabilidade em que nos encontramos. Assim, pensámos numa receita que fosse fácil de confecionar, com poucos ingredientes e que pudesse envolver toda a família, principalmente as crianças, se for o seu caso. Podem fazer um pão grande ou deixar a criatividade das crianças fluir para descobrirem a magia da confeção do pão. No final, todos vão adorar o pão que fizeram e que os ajudou a passar momentos diferentes e divertidos em família. Não se esqueçam de tirar fotografias para registar o momento para mais tarde recordar. Caso as queiram partilhar connosco será um privilégio!

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CULINÁRIA

Ingredientes: 1 Kg de Farinha tipo 55 600 ml de água morna 22 g de fermento de padeiro seco ou 25 g de fermento de padeiro fresco 10 g de Sal

Assim que a farinha absorver a água, espalhe farinha sobre o balcão de trabalho e pelas suas mãos. Retire a massa do recipiente e amasse até que crie ar por dentro e que esteja a uma temperatura superior à das suas mãos. Se tiver uma batedeira com o acessório de gancho, pode utilizar em vez de amassar manualmente. Deixe a batedeira amassar durante, pelo menos, 15 minutos numa velocidade baixa.

Modo de preparação Numa tigela grande, deite a água morna (a temperatura ideal é de 53°C), o fermento e misture com um garfo.

Quando começar a fazer bolhas adicione o sal e continue a misturar até que o sal se dissolva completamente. De seguida adicione e misture, com a ajuda de um garfo, 900 g de farinha. Reserve a restante farinha para usar posteriormente.

Volte a colocar a massa na tigela e deixe levedar por 2 horas a uma temperatura de 38°C (utilize o forno para manter a temperatura).

Retire a massa da tigela e amasse novamente para lhe dar a forma pretendida e coloque no tabuleiro para ir ao forno. Volte a deixar a massa levedar novamente por 1 hora ou até que duplique o tamanho a uma temperatura de 43°C (utilize o forno para manter a temperatura). Retire do forno. Pré-aqueça o forno a 250°C. Forme a massa novamente, se necessário, e coloque no forno durante 10 min a 250ºC. Após esse tempo, reduza a temperatura para os 190°C e deixe cozer por 30 min., se tiver a possibilidade de usar um termómetro para medir a temperatura interior do pão regule para os 96°C. Quando estiver pronto coloque sobre uma grelha durante, pelo menos, 60 min antes de servir. n

Com o apoio de Merengue & Chocolate email: merengueechocolate@gmail.com Setúbal Revista

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CONSULTÓRIO JURÍDICO

NUNO CASTRO LUIS Advogado

Este Direito é mesmo excecional!

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imagem da saída dos presos de Caxias após o 25 de Abril, que fui vendo em pequenos apontamentos e reportagens televisivas ao longo da minha infância e juventude, sempre me deixaram a pensar. Sem saber se naquela altura o formulava desta forma, sempre equacionei como é que se poderia enviar alguém tão facilmente para uma prisão e tão facilmente libertá-lo. Naquela altura, talvez não tivesse a perceção clara do que era uma prisão política, mas sempre me pareceu estranho que de um dia para o outro tudo pudesse mudar. Quando estudei Direito, nomeadamente Direito Penal, percebi que a colocação de pessoas numa prisão não se cingia a uma mera punição, a um castigo. As funções de uma pena de prisão são essencialmente a prevenção especial (evitar que aquela pessoa volte a praticar crimes), a prevenção geral (servir de exemplo e evitar que outras pessoas voltem a praticar crimes) e a ressocialização (ajudar a reintegrar a pessoa na sociedade). A decisão de manter alguém numa prisão ou antecipar a sua liberdade tem aquelas funções sempre em vista: a pessoa já está em condições de voltar à sociedade e reintegrar-se numa vida que seja aceitável para todos? Com o contexto de pandemia em que vivemos, uma das normas jurídicas mais controversas é a que permite a libertação de presos. Muitas são as críticas relativas à forma e aos critérios definidos, admitindo-se até que se relacionam muito mais com as evidentes faltas de condições dos estabelecimentos prisionais do que com qualquer outra. Ainda assim, talvez fosse oportuno analisar se as funções desta libertação são assim

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tão distintas daquelas a que normalmente associamos às penas. Existe uma função de prevenção especial (que não é o evitar a prática de um facto danoso pelo individuo, mas evitar que corra riscos individuais de ser contaminado). Existe uma função de prevenção geral (que não será o servir de exemplo para a sociedade, evitando que outros elementos pratiquem novos crimes, mas antes o evitar a contaminação generalizada da comunidade, nomeadamente a prisional). Haverá uma integração na sociedade, na medida em que o ex-recluso passará a estar, como todos nós, numa situação de confinamento habitacional.

Assim, ainda que de modo excecional, as funções humanistas ligadas ao Direito Penal acabam por ser cumpridas, de forma diferente e excecional…. Numa época marcada pela pandemia, as críticas normalmente imputadas ao Direito (nomeadamente às leis e à sua aplicação) parecem, de repente, não se aplicarem mais. Ideias como a de que o Direito é pouco flexível, não consegue adaptar-se à realidade, é muito moroso, parecem agora estar comprovadamente ultrapassadas face à rapidez com que se legisla com soluções normativas de exceção. Não nos deveremos, porém, entusiasmar. Para quem possa já estar a pensar que se isto aconteceu agora, então po-


CONSULTÓRIO JURÍDICO

derá sempre acontecer, bastando utilizar o exemplo deste momento excecional como fundamento para o futuro, talvez seja melhor refrear-se. Desde logo, a louvável rápida resposta a necessidades terá sempre associados inevitáveis elementos negativos. No exemplo da libertação dos presos, ninguém poderá ignorar que o regresso de um recluso à sociedade nem sempre é fácil. Muitas vezes perdeu as referências familiares e de amizade que tinha, não tem casa para onde ir, não tem formas de subsistência. Numa altura de confinamento obrigatório e de estado de emergência, a situação poderá ser mais grave, pois a possibilidade de obtenção de emprego, difícil para a generalidade dos cidadãos, será certamente ainda mais dificultada para quem sai de uma prisão. Que acompanhamento se prestará a estes cidadãos? Legislar de forma excecional pode pois, exigir outras soluções que nem sempre são fáceis de obter. Nem tudo se resolve de forma excecional. Poderíamos pensar noutros exemplos desta situação excecional: possibilidade de não pagar rendas sem que tal acar-

rete despejo, proibição de atividades letivas presenciais, possibilidade de não cumprir imediatamente algumas obrigações fiscais. Em todas encontraríamos, certamente, aspetos positivos e negativos associados. Mas o que nos interessa reter é que esta é a forma possível de responder a um contexto de exceção. E excecional, em Direito, é o que vai em sentido contrário à regra. Ora, sendo o Direito uma forma de estabilidade, de certeza, de segurança da sociedade (servindo para que todos saibam com o que contar), não se poderá admitir que, fora de uma época excecional como aquela em que se vive, se possa legislar, solucionar, aplicar normas legais de forma excecional. O que seria da sociedade se, após a pandemia, se continuasse a permitir que as rendas não fossem pagas? E se as crianças continuassem a não ir à escola? E se deixássemos de pagar impostos? Ninguém o defenderá, pois sabemos que só o permitimos por ser uma situação justificada, única, de exceção. O que seria da sociedade se continuás-

semos a legislar de forma tão rápida, quase à flor da pele, sem poder ter em conta todas as variantes de análise e de impacto? Como tão bem ensinou Norbert Elias, um médico, filósofo e psicólogo do século XX, no seu livro Processo Civilizacional, “(…) quando hoje refletimos e tentamos elaborar teorias acerca da estrutura dos afetos humanos e dos seus controlos, partimos da assunção que é possível construi-las com base no estudo da observação dos homens de uma fase específica da evolução social, que são os da nossa própria sociedade, como se apresentam aqui e agora.” Mas tal não é possível, pois uma situação de exceção nunca poderá servir de regra para os restantes períodos. Adaptação de todos nós é uma necessidade e uma mais valia. A adaptação do Direito igualmente. Mas nunca nos poderemos esquecer que, mais tarde ou mais cedo, tudo voltará à desejada “normalidade”, devendo este Direito (e forma de o fazer), adequado para uma época pandémica, ser considerado apropriado apenas para esta fase. Este Direito é mesmo excecional.. n Setúbal Revista

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VIAGENS

Viajar em tempos de Corona Vírus

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e o Corona Vírus nos tirou alguma liberdade, não nos tirou o desejo, a esperança e os sonhos de voltar a viajar que continuam cá e, quanto mais tempo esperamos, mais aumenta a vontade de sair e partir à aventura por esse mundo fora. E a melhor parte é que o podemos fazer sem limitações, sem gastar dinheiro e sem sair de casa … por enquanto! Então, sonhemos! Sonhemos muito e sonhemos cá dentro pois a conjuntura assim o exige e porque vale muito a pena. Pois é! Nunca o ‘Vá para Fora Cá Dentro’ fez tanto sentido e vai ser tão necessário como agora! Vá cá dentro e visite a maravilha que é

Sofia em Viagem Após um acidente de viação, no qual ficou paraplégica, Sofia passou a deslocar-se em cadeira de rodas. O facto de fazer algumas viagens e as dificuldades que encontra, desde o planear até à viagem em si mesma, levaram-na a partilhar as suas experiências com o objectivo de inspirar ou facilitar essa tarefa a outras pessoas. É no blog JustGo by Sofia que o faz, sendo, também, um espaço de divulgação e promoção de boas práticas de turismo, em termos de acessibilidades, para pessoas com mobilidade reduzida. http://justgo.com.pt

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o nosso país que, em poucos quilómetros, tem tanto para oferecer: Sol, neve, cidade, campo, natureza, praia, cultura, história e mar, muito mar! Não será um sacrifício mas sim um prazer, viajar pelo nosso país e explorar todos os cantos, provar toda a gastronomia e todos os sorrisos que sempre encontramos e nos caracterizam tão bem por todo o mundo. Levemos Portugal ao Mundo e continuemos a mostrar que somos um exemplo a seguir e que nunca desistimos! Todas as viagens começam, muito antes da partida, com o planeamento, e o primeiro passo é a escolha do destino. Escolher Portugal dá-nos um enorme leque de opções e não há como começar pela nossa terra que tem sempre algo para nos surpreender.


VIAGENS Aqui ficam as minhas sugestões para uma visita a Setúbal. Escolher Portugal -Setúbal Quando pensamos em Setúbal, pensamos logo em mar, natureza, praias, peixe e ... choco frito, claro! E é isso tudo e muito mais do que isso! Uma das mais belas baías do Mundo Setúbal faz parte do Clube das Mais Belas Baías do Mundo, desde 2002. A Serra da Arrábida, o Estuário do Rio Sado e a Península de Tróia dão a esta baía um enquadramento deslumbrante. A Serra da Arrábida é um verdadeiro paraíso! Basta fazer um passeio para ficar rendido às suas lindíssimas paisagens. Inserida no Parque Natural da Arrábida partilha vários tesouros como o Portinho, o Convento, a Anicha, grutas e muito mais. As praias de água límpida e areia branca são das melhores do país, e não só, pois a praia de Galapinhos foi considerada, em 2017, a melhor praia da Europa, pelos votantes do concurso levado a cabo pela European Best Destinations. E eu concordo pois, quanto a mim, é realmente uma das melhores praias da região apesar de lá não ir há muitos anos, uma vez que o acesso a quem se desloca em cadeira de rodas é impossível, infelizmente! Muito perto, temos a praia da Figueirinha, essa sim, com todas as condições para pessoas com mobilidade reduzida e igualmente fantástica!

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VIAGENS muita animação. O Largo Dr. Francisco Several, mais conhecido por Largo da Ribeira Velha, é um bom exemplo disso. Ao passar pela Praça do Bocage, o poeta da cidade, repare no edifício dos Paços do Concelho, que pode visitar assim como a Casa da Cultura, um espaço moderno onde poderá assistir a espectáculos, tertúlias, exposições ou aproveitar para tomar algo, no pátio, antes de seguir caminho. Tudo acessível, claro! Passe, também, pelo Fórum Luísa Todi, a sala de espectáculos da cidade, pois pode ser que tenha sorte e que encontre o seu programa favorito. Quando terminar, suba ao último andar do edifício e beba um copo no elegante Roof 61, ouça boa música e espante-se com a vista deslumbrante da cidade. Em frente, do outro lado da Avenida, entre na Biblioteca Municipal e, mesmo que não tenha tempo para se perder num livro, aprecie o espaço. Visite a Casa do Bocage com uma exposição alusiva ao poeta, à sua obra e ao seu percurso, e onde vai poder deliciar-se com o espólio do fotógrafo Américo Ribeiro que retrata a realidade da cidade ao longo do século passado. Muito próximo, não pode perder o Museu do Trabalho Michel Giacometti, um espaço dedicado ao mundo do trabalho. Fica numa antiga fábrica de conservas de peixe o que proporciona uma visita muito curiosa pois fica-se a perceber como funcionava a indústria conserveira, tão característica desta cidade. Aí, encontra ainda uma antiga mercearia de Lisboa, doada à Câmara Municipal de Setúbal pelos antigos proprietários, e que foi reconstituída tendo em conta todos os pormenores da original, o que nos transporta a alguns anos atrás!!

Parques da cidade Se quer conhecer um pouco a cidade vá até ao Parque do Bonfim e entretenhase com as bem-dispostas personagens dos Pasmadinhos. São réplicas enormes das peças de cerâmica, da autoria de Maria Pó, inspiradas em figuras características da cidade. Descubra-as! São encantadoras. Se prefere estar mais próximo do rio e avistar Tróia, opte pelo Parque Urbano de Albarquel. Aqui, vai encontrar uma zona verde e de lazer muito agradável, óptima para passear, praticar desporto

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ou relaxar e com todas as condições necessárias de acessibilidades. Centro Histórico / Baixa de Setúbal O Centro Histórico de Setúbal onde se podem, ainda, visitar alguns vestígios das muralhas, da época medieval, as suas torres, portas, cortinas e baluartes, proporciona-nos um passeio rico e cheio de curiosidades. A Baixa de Setúbal, após alguns anos adormecida, é, neste momento, um local muito agradável e com grande dinâmica de comércio, esplanadas e

Centro de informação Casa da Baía Para conhecer a baixa da cidade existem circuitos definidos, e com audio guias, que pode requisitar na Casa da Baía e de onde poderá partir à descoberta. Estes circuitos não são totalmente acessíveis, no entanto, o município está muito empenhado na questão das acessibilidades, estando a desenvolver um roteiro próprio. Na Casa da Baía, encontra-se um centro de informação e promoção turística da região que fica situado num edifício da primeira metade do século XVIII.


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Aqui, vai poder usufruir de um área, completamente adaptada, com um espaço vínico, produtos da região, uma cafetaria e um pátio, acolhedor, onde vai querer passar um bom bocado. Mercado do Livramento De certeza que já ouviu falar de um dos melhores mercados do mundo, sim, um dos melhores, segundo o USA Today, e eu concordo, claro! O espectacular Mercado do Livramento! Famoso pelo peixe fresco mas onde se pode deliciar com todo o tipo de produtos supostos encontrar num mercado. É, também, muito visitado pelo seu, lindíssimo, painel de azulejos novecentista. O mercado é totalmente acessível! Moinho da Maré Se gostava de conhecer um moinho de maré tem, mais a nascente da cidade, o da Mourisca. Enquadrado na Reserva Natural do Estuário do Sado e com uma enorme biodiversdade de aves este é um local muito procurado pelos amantes de observação de aves. Existe,

ainda, a possibilidade de sair de barco pelo Estuário, podendo encontrar uma enorme diversidade de espécies e a identificação de uma grande variedade de habitats. Não é totalmente acessível, pois não tem casa de banho adaptada, mas dá para visitar. Enoturismo - Adegas Azeitão A caminho da Serra pode optar por uma passagem pela pitoresca Vila de Azeitão, apreciar as suas bonitas quintas e caves e provar os deliciosos produtos regionais: queijo e os, famosos, “esses” e tortas de Azeitão. Ah, claro, acompanhados de um Moscatel de Setúbal! Pertencendo à Rota de Vinhos da Península de Setúbal deixo duas sugestões para uma visita e prova do excelente vinho da região: A Adega/Museu Bacalhôa além da visita, prova de vinhos e várias exposições, proporciona também, a visita ao Palácio da Bacalhôa. Com um enquadramento histórico que teve início com os fundadores da Dinastia de Avis, aqui pode apreciar a arquitectura, a decoração e a beleza do Palácio e dos seus

jardins. Tem rampa de acesso para a entrada do Museu e, dentro, todos os pisos são planos. Existe casa de banho adaptada e estacionamento no próprio parque. A Casa Museu José Maria da Fonseca fica num edifício do início do Século XIX, que pode visitar e ficar a conhecer a sua história, podendo, claro, disfrutar da degustação dos vinhos aí produzidos, bem como uma experiência gastronómica dos produtos da região. Trata-se de um edifício antigo, onde a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida é limitada e feita por percurso alternativo, não havendo, no entanto, casa de banho adaptada. Nota: Os lugares de estacionamento para pessoas com mobilidade condicionada, em Setúbal, não são tarifados se apresentar o dístico de pessoa com deficiência, segundo o Regulamento Municipal de Estacionamento Público Tarifado e de Duração Limitada do Concelho de Setúbal. JustGo!! n Setúbal Revista

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Setúbal Revista Nr. 21  

A revista SER publica mais um número em plena crise pandémica de Covid-19. Este e muitos outros temas da atualidade na sua Setúbal Revista d...

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