Page 1

Revista Bimensal | N.º 20 - II Série - 4º Ano Fevereiro / Março 2020

Soroptimist International (Si)

Mafalda Casmarrinha

Uma mulher que sabe o que quer e faz o que ama, com a música na alma

Viajando por Xangai | China com Sofia Martins


EDITORIAL

Entre as Boas Vindas e os Filhos de Sucesso de Pais Bem-Sucedidos…

`tÜ|t ]ÉûÉ YxÜÜÉ Diretora Editorial

C

hegámos à edição número 20! Com esta chegada trazemos mais um punhado de novidades, trazemos a rubrica do Pedro Soares “Simples Assim”, Coacher e Terapeuta Motivacional que nos traz uma prestação simples e muito complexa sobre SER e SER, sendo FELIZ. Trazemos também outra das nossas mais recentes apostas, a colaboradora Maria do Rosário Barardo, Investigadora no âmbito dos “Estudos sobre a Mulher”, da Universidade Nova de Lisboa, e vice-presidente da União dos Clubes Soroptimist Internacional de Portugal. Maria do Rosário Barardo brinda-nos com a página sobre “Solidariedade”. Caros leitores, talvez seja neste número 20, aquele em que mais partilho as minhas dinâmicas profissionais, não querendo fazer deste espaço um exercício de Ego, mas tendo sempre em mente a divulgação e difusão da informação, que pensamos interessar

FICHA TÉCNICA

a todos. Se por variadíssimas dinâmicas estou presente, nalgumas rubricas, quero partilhar convosco o meu interesse ultimo, e esse será sempre sobre a mera e simples informação. A SER 20 centra-se novamente na música, desta feita pela mão da professora Mafalda Casmarrinha e pelos projetos e parcerias que tem connosco estabelecido. Pela sua carreira, dinamismo e empreendedorismo. Também pela diferença e pela sua última aposta na cidade de Setúbal. Ao ler a entrevista da Mafalda Casmarrinha concluo a importância que seus pais tiveram na sua carreira: A Família. Debruço-me sobre este tema e na verdade verifico, mais uma vez, que em cada caso, em cada carreira profissional existe alguma necessidade de estabilidade emocional, uma base sólida que permita aos jovens voar sem medos e com a segurança que na queda serão amparados. E podem ser amparados, por várias realidades objetivas ou subjetivas, por alguém, por algum punhado de pensamentos, por crenças cognitivas várias, mas também e muitas vezes pela família. As Asas que essas mesmas famílias lhes proporcio-

nam…para que possam voar sozinhos, de forma autónoma e independente. A Família! A responsável, muitas vezes, pelo SUCESSO da carreira, o pilar do sucesso, o património mais precioso do individuo. Ao aprofundar a temática aprofundo alguns estudos, que nos indicam que este processo se faz sentir em especial nas mulheres, de mãe para filha, como no caso da Mafalda Casmarrinha. Em especial nos perfis psicológicos caracterizados pela resiliência feminina, onde parece existir com elevada frequência um perfil materno igualmente resiliente. Quando as mães tendem a ser fortes e corajosas potenciam, nas suas filhas, as probabilidades de estas seguirem com mais sucesso os estudos, aumentando a força e o foco com que estas se centram no desenvolvimento das suas carreiras. Muito longe já estamos nós das profissões ditas femininas, e por outro lado, longe também estamos de uma carreira unicamente definida pelo contexto familiar, pelas profissões paternas ou pela cultura socioeconómica. Hoje em dia os pais exercem influencia não por variáveis essencialmente culturais, mas pelas asas, que podem oferecer aos seus filhos…e a mim parece-me que, o tamanho dessas mesmas asas serão o maior património que todos nós podemos deixar aos nossos filhos. Espero que gostem dos conteúdos … que gostem do nosso número 20 e das asas herdadas pela nossa entrevistada: Mafalda Casmarrinha. Bem Hajam! n

Setúbal Revista – Registo na ERC: 126664; Depósito Legal Nr. 390882/15 Propriedade: João, Pedro & Armindo, Lda. [Sócios: Armindo Manuel Fernandes da Conceição (33%); Maria João Moreira da Conceição Ferro (33%); Pedro Manuel Moreira da Conceição (33%)]; Diretora Editorial: Maria João Ferro; Editores: Maria João Ferro. Colaboram nesta edição: Maria Pereira; Isabel Marques; Maria do Carmo Branco; Nuno Castro Luís; Jorge dos Santos Forreta; Paula Cunha e Silva; Eugenia Canito; Silvia Silva; José Gomes; Alexandra Aleixo; José Nobre; Carolina Bico; Alexandra Mendes; Cristina Pinho; Sara Loureiro. Contactos: redacao@setubalrevista.com - Avenida 5 de Outubro, 111, 2900-312 Setúbal; Publicidade: 967 122 006 - Estatuto Editorial em www.setubalrevista.com

Setúbal Revista respeita a opção dos seus colaboradores quanto ao Acordo Ortográfico Setúbal Revista

3


SUMÁRIO ENTREVISTA

P.21 A 25

CULINÁRIA

P.28 E 29

Bife Wellington Mafalda Casmarrinha: “A música faz-me sonhar e lutar por aquilo em que acredito”

LIVROS

P.32 E 33

A pianista e empresária alentejana Mafalda Casmarrinha dirige vários projetos na área da música, com destaque para a Classic Art Piano Academy, uma escola de música, com sede na Quinta do Anjo, que conta com uma parceria com duas das mais prestigiadas instituições de Londres: a ABRSM e a Rockschool. O ano passado, a pianista fundou a Classic Ceremony Music Academy, que junta música, dança, teatro, solidariedade e ensino especializado.

VIAGENS

P. 10 A 13

O que pode o coração de um pássaro AVENTURAS

Viajando por Xangai | China com a Sofia Martins 4

Setúbal Revista

P.46 E 47

Almoço das Motas BMW Clássicas Torrão – Janeiro 2020


IDEIAS SOLTAS

IVONE CAMPOS Bióloga; Professora; Musicoterapeuta; Curso de Educação Musical pelo Conservatório Nacional de Música; Curso de Piano pelo Conservatório Nacional de Música

VAMOS COMEÇAR O ANO A RIR đ&#x;˜Š

E

stĂĄ mais do que provado cientiďŹ camente que ao rirmos produzimos serotonina e endorďŹ na, que sĂŁo substâncias quĂ­micas habitualmente conhecidas como “molĂŠculas da felicidadeâ€?. SĂŁo conhecidas vĂĄrias funçþes associadas a estas substâncias ligadas ao apetite, regulação do sono e alteraçþes de humor. Relacionada com esta Ăşltima função existe uma tĂŠcnica cada vez mais usada denominada Risoterapia. Existem jĂĄ em Portugal vĂĄrias empresas apostadas em manter os seus empregados felizes e bem dispostos, proporcionando-lhes sessĂľes regulares deste mĂŠtodo. É fĂĄcil navegarmos por sites repletos de exercĂ­cios promotores de riso induzido e riso verdadeiro, mas nĂŁo ĂŠ por aĂ­ que me alongo hoje neste artigo. Todos temos, sem poder escolher, momentos curtos ou longos embrulhados de tristeza, que se nos deparam como obstĂĄculos penosos de contornar. Podemos contudo eleger estratĂŠgias e ferramentas que nos amparem nesse trilho. NĂŁo abraçar a tristeza. NĂŁo fazer dela nossa amiga. NĂŁo a acolher como visitante desejada. OlhĂĄ-la de frente e acreditar que serĂĄ dissolvida no resto do caminho, todo ele muito maior. Por isso o tĂ­tulo deste artigo: comecemos o ano a rir! Seja um riso induzido ou um riso verdadeiro. Em ambos os casos estaremos a estimular o sistema nervoso, libertando o stress e os pensamentos negativos. Sabia que quando rimos ativamos mais de 400 mĂşsculos, fortalecemos o sistema imunolĂłgico e melhoramos a função pulmonar, entre outros benefĂ­cios? Por isso vamos rir! Vamos rir muito! Sozinhos ou acompanhados! Rir de nĂłs, rir dos outros, com os outros! Rir do ab-

surdo, do insigniďŹ cante, da vida! Para terminar nĂŁo podia deixar de partilhar convosco uma memĂłria muito antiga que por alguma razĂŁo ainda guardo‌ Havia, na minha infância, um concurso televisivo intitulado “Arreganha a Taxaâ€? (presumo que os rapazes e raparigas da minha geração se recordem), que tinha como propĂłsito oferecer o pagamento anual da taxa de televisĂŁo a quem conseguisse rir durante um minuto. A imagem que guardo, e que ainda hoje me faz rir, ĂŠ a de uma senhora, apa-

rentemente septuagenĂĄria, que tentava a todo o custo rir e simultaneamente manter dentro da boca a sua placa (prĂłtese) dentĂĄria, que parecia querer saltar a cada momento. Que me perdoe a minha geração (mais uma vez), mas mais parecia o Mister Ed, o cavalo que falava tambĂŠm nessas ĂŠpocas televisivas. E com esta imagem vos deixo, espero que a rir. SĂł mais uma coisa‌ a dita senhora ganhou đ&#x;˜Š n SetĂşbal Revista

5


TURISMO

AUGURI ALEX-EM-LUTÉCIA Correspondente em Paris, França

E

ste ano no Natal a Ana não quis fazer a charlotte russe envolta no laçarote vermelho de seda, nem armamos, lá em casa, pela primeira vez desde que me lembro, a árvore ao pé da última janela da sala, salpicada de luzinhas que ficavam a piscar desde que o lusco-fusco se instalava, até que nos fossemos deitar. Não deixei no entanto de colocar na mesa da consoada a loiça especial enfeitada a trenós e sinos, ramos de azevinho e renas, assim como não faltou o obrigatório bacalhau. No fim abrimos as prendas, cumprindose a tradição, apesar da ausência dos nossos pais, que durante o último ano, de forma cúmplice, partiram quase juntos - como diria a minha amiga Zélia, em direção às estrelas, deixando gravados nos nossos corações em tons quentes, profundas saudades e agradecimento infinito. Do mesmo modo e contrariando hábitos antigos de ver chegar o Ano Bom à beira do Sado a contemplar o fogo de artifício, decidimos, por iniciativa do Luís, os quatro, receber 2020 junto ao rio Tibre e ir conhecer enfim a Cidade Eterna, que não obstante as já várias idas a Itália, não tínhamos tido ainda a oportunidade de visitar. Feliz Ano Novo, Auguri, Happy New Year, Bonne Année.. Após uma viagem tranquila de avião e um transfer simpático realizado na carrinha de um conterrâneo meu, a ouvir coladeiras em ritmos tropicais num dia de intenso frio romano, desembocamos junto ao hotel escolhido ao lado da muito maravilhosa Basílica de Santa Maria Maggiore, uma entre as mil igrejas que por ali coexistem, algumas escondidas em cantos inesperados, todas elas devotadas aos santos que populam o calendário litúrgico. Chegamos no dia de S. Thomas Becket, bispo e mártir, partimos de volta a Paris no do Santíssimo Nome de Jesus.

6

Setúbal Revista


TURISMO

Itália nunca desilude. É extraordinária na maneira como nos acolhe, alimenta e ensina, deixando nas nossas memórias momentos inesquecíveis que condizem com todas as construções que fizemos baseadas nas fotografias, nos livros, filmes, nos nossos desejos. A primeira vez que para aí viajei, há muitos, muitos anos atrás, ainda eu era uma miúda, foi com amigos velejadores, para o Lago di Como - local escolhido para a realização do Campeonato Europeu de Dart18, tendo aproveitado o facto de não competir, para conjuntamente com a Fátima, também na mesma situação, concretizar uma pequena viagem à descoberta de Veneza, de comboio - modo absolutamente magnífico de chegar a um destino de sonho. Veneza espraiava-se preguiçosa e quente e ao longo desse nuncamais-esquecido-tempo, fizemos todos os trajetos obrigatórios e os também não, as exposições abertas, atravessamos a Ponte dos Suspiros e percorremos o Palácio dos Doges, governantes supremos da República… Deliciamo-nos com os violinos nas arcadas e tomámos o que até ali foi o café mais caro de sempre. Regressamos com a noite já muito instalada, no Vaporetto, espreitando com Setúbal Revista

7


TURISMO

curiosidade as janelas iluminadas dos palacetes com fundações de madeira fincadas nos canais, tal e qual senhoras friorentas em dias de água gelada, que apenas molham os pés e os tornozelos. Depois desta viagem voltei a Itália mais duas vezes, uma para velejar, com um Pedro pequenino que ainda não andava e outra, já na companhia dos meus dois adolescentes, para descobrir a lindíssima Toscânia e a Renascença. Mas faltou-me sempre a experiência não vivida de Roma, cidade que me fazia sentir saudades sem nunca lá ter estado antes. Assente em colinas tal e qual como Lisboa, abrigou em tempos perdidos uma comunidade de pastores, tendo esta sido ponto de partida para uma das mais poderosas civilizações existentes. Produziu figuras ímpares desde o claudicante Cláudio e a sua Messalina, passando pelo Imperador Nero para sempre associado a uma lira e a ruínas fumegantes, Cícero, percursor da advocacia moderna, Marco Crasso conhecido pela sua bilionária fortuna e sovinice, ou Caio Júlio César, o maior general de sempre e ditador absoluto. Facto é que, atualmente, passear pelas suas ruas, é literalmente, andar sobre historia, já que, qualquer escavação realizada consegue revelar estruturas da sua urbe milenar, razão pela qual não é fácil encontrar edifícios mais modernos, nem se consegue contar com uma rede eficiente de metro. Mas nada

8

Setúbal Revista

melhor do que caminhar e perceber que mesmo que ao fim de alguns dias tudo se se torne familiar, o sentimento de grandeza e de elegância e contemporaneidade dos edifícios romanos sobreviventes permanece. Segundo uma das nossas guias, durante a Idade Média e após o declínio de Roma como centro do Universo (como dizia o ditado, todos os caminhos vão dar a Roma…), os habitantes dedicaram-se a refazer a cidade desmantelando de forma impaciente os palácios, templos e fóruns… Os que sobraram para nosso gáudio, foram bafejados pela sorte, porque se transformaram em igrejas ou foram reconhecidos como locais de culto relacionados com a morte dos primeiros cristãos, tal como aconteceu ao Coliseu ou ao Panteão. O Panteão. Uma das mais bem conservadas estruturas da antiguidade, localizada na Piazza della Rotunda e que foi rebatizado como Igreja de Santa Maria dei Martiri, depois de que o Papa Bonifácio fez remover das catacumbas várias relíquias de mártires, colocando-as debaixo do altar-mor. Entrei lá dentro, olhos fixos na cúpula coroada por um óculo central, no preciso momento em que uma gaivota a atravessava contra o céu ainda azul do fim da tarde. Dois mil anos depois da sua construção, continua a constituir-se como formidável. Quando baixei os olhos para contemplar com emoção o chão original, lindamente desenhado,

percebi que as minhas super confortáveis Uggs pisavam o mesmo mármore por onde caminharam as caligae de Agripa e de outros ilustres patrícios… Costuma-se dizer que não se vai a Roma sem ver o Papa. No nosso caso não tivemos essa honra, uma vez que optamos por não assistir à tradicional bênção na majestosa Praça do Vaticano no dia de 1 de Janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de Dois Mil e Vinte, mas, com toda a certeza que não deixaríamos de fazer a segunda visita obrigatória, ao Coliseu, ou Amphitheatrum Flavium…. A consagração deste pelo Papa Bento XIV no século XVII à Paixão de Cristo, salvou a formidável obra de arquitetura e engenharia romana da destruição que se anunciava certa. Tão bem que fez, porque se a imagem da Torre Eiffel se tornou o símbolo de Paris, sem duvida que o Coliseu é por definição, o logo desta cidade. Vale a pena percorrer os seus corredores e tentar imaginá-lo preparado para fazer delirar os milhares de espectadores, onde nenhum pormenor era descurado, desde os animais selvagens importados de África, aos elaborados cenários onde constavam edifícios e árvores amovíveis, gladiadores e até a realização de naumaquias, batalhas navais em que se inundava a arena central … Panem et circenses. Au revoir Bisou n


SetĂşbal Revista

9


VIAGENS

Viajando por Xangai | China com a Sofia Martins

S

ão muitos, mesmo! Mais de 20 milhões de habitantes em Xangai, naquela que é a maior cidade da China e uma das maiores do mundo, uma imensidão de pessoas, principalmente na Rua Nanjing onde se concentram as lojas e centros comerciais. Foi a primeira vez que pedimos um transfer para nos transportar do aeroporto ao hotel porque tivemos algum

Sofia em Viagem Após um acidente de viação, no qual ficou paraplégica, Sofia passou a deslocar-se em cadeira de rodas. O facto de fazer algumas viagens e as dificuldades que encontra, desde o planear até à viagem em si mesma, levaram-na a partilhar as suas experiências com o objectivo de inspirar ou facilitar essa tarefa a outras pessoas. É no blog JustGo by Sofia que o faz, sendo, também, um espaço de divulgação e promoção de boas práticas de turismo, em termos de acessibilidades, para pessoas com mobilidade reduzida. http://justgo.com.pt

10

Setúbal Revista

receio, que se veio a revelar desnecessário. A rede de metro funciona muito bem, com sinalética em inglês, e todas as estações têm elevador e indicações para cadeira de rodas. Assim que o descobrimos, não usámos outro meio de transporte. A maior parte das pessoas não fala inglês. No entanto, nos espaços comerciais há sempre alguém que fala ou facilita a comunicação. Na rua, quando


VIAGENS necessitamos de alguma informação o melhor é recorrer aos mais jovens pois a maioria já fala inglês. As placas das ruas estão, também, em inglês o que torna fácil a orientação através de mapas. Mesmo perto do nosso hotel ficava a zona de City God ou Chenghuang Miao, onde se encontram o Yuyuan Garden e Bazzar. Não visitámos o jardim pois, pelo que vi, não tinha bons acessos para a cadeira de rodas dada a quantidade de degraus. Andámos, então, pelo Yuyuan Bazaar que, como lhe chamou um natural de Xangai que conhecemos, era a “chinatown” de lá. É uma zona turística, com ruas estreitas de arquitectura antiga típica chinesa e lojas, principalmente de produtos chineses, em que se vende de tudo. De um lado do rio Huangpu temos Puxi, o centro histórico de Xangai, e do outro, Pudong, um dos maiores centros financeiros e comerciais da China. A partir do Bund, a zona ribeirinha de Puxi, podemos apreciar a fachada de prédios de vários estilos como Art Deco ou Neoclassica, da época colonial, contrastando com os arranha céus de Pudong, no lado oriental, . Na zona da antiga concessão francesa, podemos andar e esquecermo-nos que estamos na China porque a maior parte das pessoas são turistas ou estrangeiros que lá vivem. Está repleta de lojas e restaurantes ao estilo ocidental e a arquitectura muito europeia remonta ao inicio do século XX.

Setúbal Revista

11


VIAGENS A passagem por Xangai teve o melhor momento da viagem à China. Deu-se a grande coincidência que durante um dos dias, em que lá estivemos, o meu irmão estar de passagem em viagem de trabalho. A parte melhor foi que conseguimos encontrar-nos no meio de uma das ruas mais movimentadas do mundo, a Rua Nanjing. Claro que foi ele que nos encontrou pois apesar dos milhares de pessoas que por ali passavam eu era das poucas em cadeira de rodas!! Andar de cadeira de rodas em Xangai não é diferente de qualquer outra cidade europeia pois nas zonas mais recentes está tudo muito adaptado com passeios rebaixados e rampas de acesso aos edifícios. Nas zonas mais antigas tudo se torna bastante mais complicado pois não há acessibilidades. Não se sente qualquer tipo de intranquilidade em passear na rua, tanto de dia como de noite. É uma cidade muito segura! As pessoas são distantes, mas se pedimos auxílio, revelam-se muito

12

Setúbal Revista


VIAGENS

prestáveis. Seguimos para Pequim de comboio. Fizemos a reserva e o pagamento dos bilhetes via internet, no site Ctrip, e recolhemos os bilhetes na estação, antes da viagem, tendo corrido tudo muito bem. Para se conseguir fazer a reserva pela internet há que ter o passaporte em dia. Escolhemos primeira classe de Xangai Hongqiao para Beijing South por uma questão de conforto pois as carruagens eram mais espaçosas e o número de passageiros bastante mais reduzido. Ficámos hospedados no Renaissance Shanghai Yu Garden Hotel que tem uma boa localização e excelente atendimento. As adaptações do quarto estão muito bem conseguidas porque permitem que nos desloquemos com todo o à vontade dada a sua amplitude. O mesmo se pode dizer da casa de banho, onde tudo está concebido para nos facilitar a vida. JustGo!! Ano da viagem: 2016 n Setúbal Revista

13


OPINIÃO

Novos rumos? MARIA DO CARMO BRANCO Vogal do Conselho de Administração da UNISETI (Universidade Sénior)

A

s novas gerações têm preocupações diferentes das que caracterizaram as gerações anteriores, do após guerra, as quais tanto tiveram que lutar para conquistar as verdadeiras democracias. Assim, as novas gerações têm ao seu dispor instrumentos que, anteriormente, não existiam. É certo que têm de enfrentar novas

14

Setúbal Revista

causas, adquirir novos conhecimentos e viver novas situações para as quais têm de estar bastante atentas e preparadas. As Novas Causas obrigam a uma posição de conflitualidade, onde os valores e os princípios têm de ser entendidos e avaliados, dada a diferença que passa a existir em relação ao que se estava habituado. A situação criada

entre a Direita (conservadora) e a Esquerda (progressista), numa luta entre o privilégio e a equidade, cria uma evidente deturpação nos valores que cada um defende. A morte das ideologias após a sociedade industrial, não pode levar-nos a concluir que a ideologia desapareceu, ela apenas foi abalada por vários fatores que foram surgindo, tais como: a


OPINIÃO

não sindicalização (devido ao trabalho temporário, a concorrência entre trabalhadores, novas normas de trabalho), as emigrações, as crises económicas, desemprego, etc. Em Portugal, o debate ainda está focado em famílias políticas que há mais de 40 anos dominam a cena política. No entanto, com o surgimento de novos partidos que defendem a xenofobia, que são contra as etnias e contra os emigrantes, tem de haver uma união de esforços entre os partidos que lutaram pela Democracia, para desmascarar esta nova ameaça. A história está cheia de atitudes inesperadas e de criadores de ilusões que originaram as suas páginas mais negras, impensável de se repetirem. Ninguém poderá evocar a sua superioridade moral para vencer este combate. Tem de se ter sempre em conta o

respeito pela dignidade humana, pelas liberdades, direitos fundamentais e pluralismo. Só uma sociedade tolerante, mas atenta, poderá levar-nos à escolha livre de novas reformas em nome da justiça e da equidade. Os cidadãos têm de ser olhados como pessoas e a sociedade como um conjunto de homens livres. É preciso que as novas gerações estejam aptas a desenvolver e a aprofundar um diálogo em nome do pluralismo, da liberdade e da modernidade, tendo sempre em conta que a dignidade envolve direitos tantas vezes esquecidos. A cultura deve proporcionar um maior aperfeiçoamento das sociedades democráticas, com redistribuição de riqueza, que possa promover a igualdade, tão ligada à equidade. Isso não pode ser esquecido, porque

senão os excluídos tendem a acumular descontentamentos, que levam à revolta, e, desiludidos, votam nos tais partidos de ultradireita, que se aproveitam desse descontentamento e provocam o conhecido populismo de direita. Os valores éticos devem ser vistos como instrumento regulador no domínio da economia e dos direitos sociais. Dessa forma, a Democracia não cairá nas mãos da mediocridade e no domínio de “massas” duvidosas. Hoje, o papel fundamental dos meios de comunicação e a sua influência não é o mesmo que há trinta anos. Há uma aceleração dos acontecimentos e muitas vezes o que conta é a notoriedade e não o pensamento. Esta tendência tem de ser contrariada, pois de outra forma perdemos um jornalismo de qualidade. n Setúbal Revista

15


CULTURA

ISABEL OLIVEIRA MARQUES Poema Sobre Imagens Fotografia de MAIRA e BIANCA (Projecto Dança Paninho de Iolanda Rodrigues)

Dois olhares sobre...

“O lugar onde a fotografia e as palavras se encontram”.

20 20 Chegaste à hora certa com nome de balada e o mundo levantou brindes e fogos à chegada Aninhei-te nos meus braços ansiosa por te conhecer e te sorrir Bem vindo sejas ao meu colo para o bailado dos dias Aconchego-te

e ensaio contigo os primeiros passos peito com peito pele com pele mas os dias crescem na voragem escapam-me das mãos e quero prender-te desejar para ti tanto e tanto que exagero nos movimentos que te colam a mim ingenuidade a minha devia saber que trazes asas e has-de voar num piscar de olhos fugir-me do colo livre intenso curioso imenso

16

Setúbal Revista

Quero-te homem, cristo, gandi que as tuas mãos sejam verde natureza o teu coração vermelho apaixonado ardente e o olhar azul de um céu feito de mar (desejo tanto e só posso desejar) serás o que fores em liberdade e apenas uma gota na imensidão dos séculos (que um dia sejas lembrado com saudade) Por agora (tão bom) somos ainda UM SÓ no bailado dos dias...


CULTURA

Setúbal Revista

17


SER PORTUGAL- BRASIL

SÓIRA SOLEDADE A. CELESTINO Correspondente do Brasil SER Portugal-Brasil

Os caminhos de Jacinto

O

s últimos raios de sol deslizaram suavemente, acariciando os verdes campos em doce e terna despedida. Nós éramos a plateia encantada por tamanha beleza, assistindo aquele adeus em profundo silêncio e absortos em pensamentos. A noite, então, deixou cair levemente o seu véu como a cortina que encerra o espetáculo, um pouco tímida e envergonhada, pedindo desculpas por interromper nosso momento de êxtase e contemplação. O patriarca da família que me acolheu, ajeitou o chapéu e descansou a mão novamente na bengala. Com a serenidade e gentileza que lhe são peculiares, rompeu o silêncio e contou-me histórias locais. Dentre elas, que o escritor Eça de Queirós estava sepultado no pequeno cemitério que ficava a poucos metros da igreja, e, que mais acima na serra, estava a casa de sua família, Tormes. Ele, com uma expressão divertida no rosto ao ver meu espanto, aconselhou-me a visitar estes locais. Surpresa com as peças que a vida nos prega, dei-me conta que minhas andanças por Portugal, por conta de um projeto literário, conduziram-me ao encontro de um ícone. No dia seguinte à descoberta, minha caminhada vespertina teve destino certo. Salvo jazigos em forma de capela, não vislumbrei no pequeno e bem cuidado cemitério, nenhuma daquelas grandes obras de arte tumular que usualmente são construídas para homenagear figuras ilustres. Desconcertada, resolvi buscar por alguém que

18

Setúbal Revista

pudesse me auxiliar. Um senhor que visitava o jazigo de sua família, indicou-me que no fundo do lado direito do cemitério, eu encontraria o túmulo coberto por uma grande pedra cinza. Agradeci entusiasmada por ter uma direção. Algumas florezinhas lilás foram depositadas em um vaso metálico, única peça ornamental existente na singela e grande pedra cinza. Uma árvore que cresceu fora do cemitério, estendeu seus galhos para fazer sombra no local onde repousam tranquilamente, os restos mortais do escritor. A simplicidade do jazigo deixou-me um pouco desapontada. Mas afinal de que valem as honras que recebemos após a morte ou um jazigo ricamente ornado com esculturas es-

culpidas por renomados artistas? Mais vale ser honrado em vida, e, principalmente, deixar um legado que irá perdurar pela eternidade. Aquela pedra, fria e dura como a morte, fez-me lembrar o verso final de um poema que escrevi por ocasião da morte do meu pai: “Imortal mesmo só, o amor que devotemos”. Com certeza Eça de Queirós amou sua escrita e atingiu seu propósito. Tornou-a e tornou-se imortal. Em meio à tal reflexão, fui abordada por um casal que com sua filha, buscavam o túmulo do escritor. Incrédula por tamanha coincidência, apontei o lugar. Naquele dia, ele recebeu a visita de outros brasileiros admiradores de sua obra. Fernando, Ana e Fernanda queriam co-


SER PORTUGAL- BRASIL nhecer Tormes e perguntaram-me se eu já havia visitado a casa. Diante da minha negativa, gentilmente me convidaram para acompanhá-los. Fiquei imensamente feliz e não hesitei em aceitar. O carro percorreu lentamente as serranias que nos brindavam com cenários deslumbrantes. Olhei na direção da casa que me hospedava e consegui distinguir o lugar onde eu estive sentada no dia anterior, contemplando o pôr do sol. O coração aqueceu. Em Tormes, lamentavelmente, chegamos quando já havia encerrado o horário para visitação do interior da casa, nos restando, somente, a oportunidade de caminhar pela propriedade. Eu detive-me por algum tempo apreciando a vista. As amadas serras de Eça que inspiraram sua obra “A cidade e as serras” e que cativaram o coração do personagem principal, Jacinto. Na obra, Jacinto faz uma viagem de Paris até a estação de Arêgos. A partir dali é que percorre seu caminho para felicidade em Tormes. O caminho de Jacinto está lá em Santa Cruz do Douro, freguesia do concelho de Baião, em meio às suas plantações, à sua riqueza culinária, cultural e religiosa, à sua gente acolhedora, leal, amiga, honrada e trabalhadora, entre a exuberância de suas serras e do rio Douro. Pena ele não ter tido a oportunidade de degustar o premiado vinho verde da Casa do Moninho, ricamente produzido pelo Sr. Adão Monteiro e família, com uvas da casta Avesso, que certamente seria imortalizado no clássico. Permitam-me, no entanto, fazer a revelação de outra descoberta. A verdadeira história do personagem da obra começa e termina no Brasil, na cidade de São Paulo. Os senhores leitores esbravejarão dizendo: Blasfêmia! Isto nunca foi citado no livro! Pois aqui é que a história ganha um contorno interessante e como a descobri é de fato muito surpreendente! No Cemitério da Consolação, em São Paulo, estão sepultadas ilustres figuras históricas cujos túmulos foram ornados com esplêndidas obras de arte tumular, conferindo ao local um grande acervo artístico. Por este motivo, ele tornou-se um ponto turístico da cidade. A despeito disso, meu principal motivo de visitá-lo é porque meu pai

está sepultado lá. Quando retornei da minha viagem à Portugal, fui visitar o jazigo de minha família. Ao percorrer as ruas do cemitério, uma pedra cilíndrica com o sinal de ter sido cortada ao meio, chamou minha atenção. O túmulo, em questão abriga, os restos mortais de Eduardo Paulo da Silva Prado. Ao pesquisá-lo, descobri que ele foi um jornalista e escritor brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras e filho de uma tradicional família paulista. Além disso, o fato mais surpreendente para mim, foi saber que ele possuía estreitos laços de amizade com Eça de Queirós, tendo acolhido o escritor e sua família na residência dos Prado em Paris. A família Prado era detentora de tão grande fortuna que Eça de Queirós inspirou-se no amigo para criar o personagem Jacinto, o jovem milionário que enfastiado pela opulência, modernidade e confortos da civilização, encontra na quietude e beleza das serranias portuguesas de Tormes, a verdadeira motivação para viver. Portanto, senhores, apresento-vos, Jacinto, imortal personagem de “A cidades e as serras”! A vida, no entanto, não imitou a arte. Diferente do personagem fictício, Jacinto, que terminou seus dias gozando

de paz e felicidade, casado e com filhos, Eduardo Prado faleceu jovem e solteiro, não usufruindo das benesses da vida do personagem que inspirara. Eis que o nosso Jacinto nasce e morre em São Paulo, sem jamais ter vivenciado a felicidade em Tormes. Considerando todo o contexto do clássico, penso que Eça de Queirós, não somente pretendeu buscar no amigo brasileiro o modelo do homem refinado, mas, principalmente, quis mostrar a ele e aos leitores, que a felicidade está na beleza das coisas simples e verdadeiras da vida. Por sorte, tive a grata felicidade de percorrer os caminhos de Jacinto e gozar da mesma felicidade que o ilustre escritor sentia naquelas serras. Para os que estão em Portugal, indico fortemente que se aventurem no caminho de Jacinto, degustem do excelente vinho verde da Casa do Moninho enquanto assistem ao pôr do sol embalados pela canção da Ave Maria que toca em alguma igrejinha distante. Ao final, estou certa de que poderão desfrutar da mesma felicidade que eu e Jacinto encontramos naquela região do Douro. E voltem de lá inspirados para escrever um clássico, um artigo. Talvez uma canção, como fez a cantora lusobrasileira Fátima Fonseca. Mas essa já é uma outra história. n Setúbal Revista

19


CENAS DA VIDA FAMILIAR

JORGE SANTOS FORRETA Médico cenasdavidafamiliar.blogspot.pt

O Ervilha nunca falha., Nasci em sessenta, tenho vinte e nove em cada perna, mais coisa menos perna. Os meus pais eram casados, Cada um à sua maneira... A pílula chegou a Portugal em sessenta e dois, a coisa aqueceu, falhou o método da temperatura: àqueles tempos, filho ilegítimo e é legal, três quartos da pequenada nascia no outro quarto da casa. Cresci com a farinha 33 e a gemada com vinho do Porto ao pequeno-almoço, cuidassem os meus pais e tinha mais do metro e oitenta e três, Desafio: ver quem faz mais longe, Tocar às campainhas e fugir na noite, limpar o ranho às mangas e ralhar com os miúdos por fazerem o mesmo, Sete e quinhentos no barbeiro do Rio da Figueira, colado à olaria e voltava pelo canavial, com o novo comando para a televisão, A gaita do amolador, as vasilhas do leite, vendido à porta. A Twiggy rabicurta e a rabuda do Guedes, corados a pedir-lhe mais vinis para nos virar costas, o mundo na View Master, a Garganta Funda e o pau espetado no meio do Casino Setubalense, Gazcidla, light my fire, je t'aime moi non plus... Ie-ié, ia a pé para a Academia, lápis de cor da Grão Vasco e reguada, o jogo do burro e o Mikado, a chave-palito da conserva de sardinha e que bem que sabia com o feijão-frade, Laranjina C e Bussaco, a Volta, O meu tio Agostinho, a carica e o Eddie Merckx, uns Sanjo e três toques na chicha e já era o pé esquerdo do Jota Jota, o Ruth Malosso a fintar os lagartos, o químico do totobola e o 13, O trevo da sorte e Brancanes, a fugir, serra abaixo, de aranhas venenosas e

20

Setúbal Revista

O Infalível Método da Temperatura...

perigosas lagartixas, O Zé dos Gatos, a Pantera e o Franjinhas, a Eurovisão e a Miss Cavalo de Pau, tainha do Sado, Os saquinhos de serapilheira do carnaval e o Finura, a Popular e o Castelo Fantasma, os santos e os saltos na fogueira, o Judas e os rebuçados mal amanhados da taberna, O escudo, as pesetas e os caramelos de Badajoz, o anis escondido e o whisky martelado de Sacavém que as visitas juravam verdadeiro... Verdade ou consequência, os beijos inocentes e as cartas de amor... A Bic, os furos e as bolinhas às cores, o bronzeador e a cenoura da praia, os rolos de fotografias, os telefones de disco, os discos e o mata-fome, A carcaça aquecida ao domingo, Os pratos e os talheres desencontrados e aproveitados, a RTP TV rural, o caetano e as conversas em família sem ele, a alcatifa e as paredes de cor garrida, os guaches da Viarco. O meu pai era o Prof. Karma quando apontava o mindinho, o dedo que adivi-

nhava! e eu caía que nem um patinho... Que sova quando roubei os carrinhos no Pão de Açúcar, ele e eu sem pena! Bem dada, levei para contar, é o que faço, Mussitei um calão, queria assinar mas saía-me o seu rabisco, envergonhava-me o pé grande e não ser bonito, Quem o feio ama, o Anglia lhe parece, mais o Renault 10 que o velho insistiu cor de café com leite, o meu irmão a dar à língua para sacar o catálogo do NSU, A bola, vira-se o bico ao prego e esconde-se a fisga, o Natal de 69 e a bicicleta mais rápida do que a CB 750, Omo lava mais branco, o preto às voltas com a cadeira e o Paulo com as notas, fechavam os bancos e a torneira à sexta, Fim de semana, Torralta e paixonetas, a Casa das Manteigas e as esculturas de banha no talho do Palmela, Óleo de fígado de bacalhau, lâminas de cortar a barba e a respiração, a esperança de morte aos sessenta: nada é Definitivos, Paris e o Último Tango sem filtro, o catálogo do Solnado, a amigdalite e a seringa que metia medo ao susto, está lá é da guerra?, adeus, até ao meu regresso, talvez com o magala deitado E a malta queixa-se... Nasci com o cu virado para a lua. Havia Madalena Iglésias, ele é bom rapaz e a Simone, outro galo cantava, Quem faz um filho, fá-lo por gosto... Falos e temperaturas à parte, Sem proveta e com proveito, Alguém por baixo e alguém a saltar para cima e - Lá vai alho!, A vida era assim... Aos meus pais, MUITO OBRIGADO. n


ENTREVISTA

MAFALDA CASMARRINHA “A música faz-me sonhar e lutar por aquilo em que acredito” Setúbal Revista

21


ENTREVISTA

A

pianista e empresária alentejana Mafalda Casmarrinha dirige vários projetos na área da música, com destaque para a Classic Art Piano Academy, uma escola de música, com sede na Quinta do Anjo, que conta com uma parceria com duas das mais prestigiadas instituições de Londres: a ABRSM e a Rockschool. O ano passado, a pianista e o empresário Pedro Amaral fundaram a Classic Ceremony Music Academy, que junta música, dança, teatro, solidariedade e ensino especializado. Mafalda Casmarrinha, 40 anos, sempre foi fascinada pelo instrumento de piano. Mas foi ao som do órgão e acordeão, seguindo o sonho dos seus pais, que deu os primeiros passos nas festas e romarias de Montemor-o-

22

Setúbal Revista

“O meu projeto na música começou como um grande sonho dos meus pais”

Novo, onde nasceu. Quando veio tirar o curso de Educação Musical, na ESE de Setúbal ficou a morar na região e começou a lecionar a disciplina extracurricular de piano, no Colégio Internacional St. Peters School, entre outras atividades. Afirma que a música é o seu “refúgio nas situações mais difíceis do dia a dia”. Onde nasceu?

Nasci em Montemor-o-Novo, no Alentejo. Sempre teve o gosto pela música? Sim. Comecei a estudar música (órgão e acordeão), aos quatro anos, na Academia de Música Eborense, em Évora. Com 12 anos participei em centenas de bailes de coletividades, festas e romarias da região, que eram muito populares na altura, onde tocava órgão e acordeão.


ENTREVISTA Optei por tirar o curso de piano e formação musical na Academia Eborense. Aos 16 anos fui convidada para dar aulas num polo da Academia Eborense, em Montemor-o-Novo. Quando acabei o 12.º ano vim fazer a licenciatura em Educação Musical, na ESE de Setúbal e fiquei a morar na região, desde 1997. Criei também um projeto nas igrejas de São Lourenço e São Simão, em Azeitão, que era o coro juvenil e o coro sénior. Tocava na igreja e dirigia os dois coros, dando uma nova vida musical à paróquia. Em 2000 passei a dar aulas particulares de piano a famílias já com tradição de ensino do instrumento. No mesmo ano fui convidada a trabalhar no prestigiado Colégio Internacional St. Peters School, em Palmela, lecionar a disciplina extra-curricular de piano, actividade que desenvolvo até hoje com muito orgulho. No mesmo ano comecei a trabalhar no Externato Nossa Senhora da Penha de França, em Lisboa, onde lecionei Educação Musical e simultaneamente era a presidente da assembleia de sócios até 2018. Qual o seu compositor favorito? Sempre tive uma grande paixão por Mozart e Beethoven, não só pelas músicas mas também pelo percurso de vida deles. Quais os seus principais projetos? A Classic Art Piano Academy começou em 2004, com aulas particulares em

“A Classic Art Piano Academy começou em 2004, com aulas particulares em casa. “

casa. Só mais tarde, em 2010, é que foi criada a sede na Quinta do Anjo. Ainda que as vertentes de ensino mais fortes sejam o piano e a guitarra, também temos aulas de canto, saxofone, bateria, flauta transversal, flauta de bisel, órgão, violino e trompete. Em paralelo, estamos a desenvolver novos projetos ligados à musicoteraSetúbal Revista

23


ENTREVISTA

“O objetivo da Classic Art Piano Academy é que a música signifique muito mais do que um simples conjunto de notas com ritmo”.

pia, consultas de psicologia e teatro musical. Os géneros lecionados na Academia vão desde a música erudita, pop, rock e rap à música portuguesa e até chinesa. Quando entram na nossa escola, os alunos podem escolher entre o ensino profissional e o livre, sendo que este último se aplica a pessoas que querem aprender a tocar apenas por prazer e não profissionalmente. Nesse sentido, e com base num estudo em Londres, criei um método de ensino mais rápido, que permite que os alunos de qualquer idade aprendam a tocar por pauta, sem seguir as regras do solfejo. Com este tipo de metodologia, o nosso objetivo é tornar a música mais significativa, mais do que um mero conjunto notas e ritmo, acima de tudo que seja construtiva, que permita sentir e consequentemente dê prazer. Em termos de currículo, quais as principais vantagens dos alunos da Classic Art Piano Academy? A nossa grande preocupação na Academia é o currículo dos alunos, dando-lhes a possibilidade de obter certificados internacionais. Por isso, temos uma parceria com as instituições ABRSM e a Rockschool, ambas com sede em Londres. A ABRSM é uma reunião de cinco conservatórios clássicos e a Rockschool, uma escola mais voltada para o jazz e rock. Ou seja, quem fizer o currículo na Classic Art Piano Academy fica com um diploma e certificado válido em todo o mundo.

24

Setúbal Revista


ENTREVISTA Atualmente enquanto uma das representantes em Portugal desta parceria internacional, um dos exemplos que mais destaco é a aluna Maria Carolina Ferro, uma das primeiras jovens a ingressar neste projeto, com resultados acima da média, a nível vocal pela Rockschool. O seu mais recente projeto é a Classic Ceremony Music Academy. Que vertentes envolve? Sim, a Classic Ceremony Music Academy nasceu o ano passado e integra todos os novos projetos, desde música, dança, teatro, solidariedade e ensino especializado. Abrimos o novo espaço, na Avenida 22 de Dezembro, em Setúbal, em parceria com o centro de estudos Aluno Top, para que os estudantes tenham uma formação mais completa e integrada. Que projetos tem para o futuro? O meu projeto na música começou

como um grande sonho dos meus pais. Eles adoravam música e gostavam que seguisse a carreira musical, o que por coincidência, acabou por acontecer, tornando o sonho deles numa realidade. Tal como os meus pais tiveram este sonho, também eu gostaria que, pelo menos, um dos meus filhos, que já estudam piano, dessem continuidade ao que construí, porque tudo o que fiz foi a pensar neles. Em relação à Classic Art Piano Academy e Classic Ceremony Music Academy, o meu sonho é continuar a elevar estes projetos mais além, a nível nacional e internacional, valorizando sempre as pessoas e continuando a lutar por aquilo em que acredito. Tenho ainda a acrescentar que para levar em frente este tipo de projetos é necessário ter na família uma base sólida. E em todo o meu percurso a família sempre me deu um apoio incondicional, em especial o apoio que recebi e recebo dos meus pais. Presentemente fundei, com o meu marido, Pedro Amaral, a classikceremony Music Academy, um novo projeto e um longo desafio para mais uma caminhada juntos. n

Setúbal Revista

25


CULTURA

Memórias no tempo EUGENIA CANITO Professora

O

Rev. Padre Manuel Marques nasceu a 23 de abril de 1921, na freguesia de Paialvo, Tomar. Foi ordenado presbítero em 29 de junho de 1944. Iniciou o seu ministério sacerdotal no Seminário de Almada, como perfeito e professor. Foi Pároco de Amora e, mais tarde, de Almada. Foi professor de Religião e Moral. Foi capelão sucessivamente do santuário de Cristo Rei, da Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra, do Sanatório Ortopédico do Outão, do Hospital São Bernardo e da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Fundou 2 jornais (Tribuna do Povo e jornal de Almada). Fundou o Corpo de Voluntariado da Liga dos Amigos do Hospital São Ber-

26

Setúbal Revista

PADRE MANUEL MARQUES 1921 -2007

nardo. Entre 1976 e 1993 foi o primeiro Vigário Geral da Diocese de Setúbal. Faleceu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal no dia 22 de fevereiro de 2007. Quem, como eu, percorre os corredores por vezes silenciosos, invariavelmente mergulhados numa meia-luz, do Hospital São Bernardo, sabe que circulou por ali um homem alto e magro envergando uma batina branca que, conscienciosa e humanitariamente levava uma palavra amiga, um gesto de carinho e amor aos doentes ali internados e que aguardavam, esperançados e ansiosos o fim dos seus problemas, mais concretamente, uma cura definitiva de todos os males que os afligiam. Era justamente aquele homem, diga-se de passagem sempre sorri-

dente, com um brilhozinho especial nos olhos que tanta coisa já tinham visto, com o ar mais natural do mundo, acercava-se dos doentes, caso por caso, cama por cama, e estabelecia o que se poderia e deveria chamar um diálogo informal mas que muitas vezes, dadas as circunstâncias, nada mais era senão que um monólogo, sem resposta, sem retorno, derivado às condições mais que evidentes do estado de espírito, ausência de ânimo e de saúde do doente. E então para minorar tanto sofrimento e ansiedade, surgia quando menos se esperava, a presença sempre tão benéfica, do padre capelão, tentando incutir o mínimo de otimismo e resignação. Era um homem de coração magnânimo que se entregava, de corpo e alma, ao exercício de distribuir pala-


CULTURA vras e gestos de amor e solidariedade entre pessoas que provavelmente nunca tinha visto. O Padre Marques era sobejamente conhecido entre todos ligados ao hospital, e não só, e, acima de tudo, pelos doentes que ali buscavam alívio para as suas mazelas. Mas antes, muito antes, teve uma experiência, única, rica e invejável, vivendo durante vinte e oito anos no Convento da Arrábida. Foi o que se pode dizer quase um autêntico ermitão. Identificou-se com o ambiente magnífico que lá existe. A Serra Mãe, como lhe chamava Sebastião da Gama, de quem foi grande amigo, chegando mesmo a celebrar o casamento do poeta, não tinha segredos para ele. Quando o sol começava a tocar de ouro as copas do cerrado arvoredo, já o Padre Marques, após o frugalíssimo dejejum, se encontrava percorrendo caminhos e veredas, habitat preferido de coelhos e raposas que provavelmente já não estranhavam a presença daquele homem, quase um émulo de S. Francisco. Não sei se na Arrábida há lobos. Raposas e coelhos existem, com certeza. Uma coisa é certa! O Padre Marques, dono de uma alma tão nobre e tão generosa era incapaz de armar ratoeiras aos pássaros que voam livres e felizes na Arrábida ou em outro qualquer sítio. Pois se ele além de Carmelita, foi o principal dinamizador do Corpo de Voluntariado no Hospital de Setúbal. Foi ele que há 33 anos, criou e fundou a maravilha que é o núcleo dos Voluntários no Hospital da cidade do qual me orgulho de fazer parte.

NA ARRÁBIDA A ermida escancarada É refúgio de animais; A que tem porta fechada Tem Jesus e nada mais. Trás-me isto ao pensamento O portão do Conventinho Onde devo ser atento À lição de Frei Martinho. Guarda sempre com cuidado Olhos, boca e ouvidos Que sai Deus, entra pecado, Se abusas dos sentidos. Padre Marques n Setúbal Revista

27


CULINÁRIA

Bife Wellington

A

E mais um ano a começar, é incrível como o tempo voa! Desta vez, para começarmos o 2020 de uma maneira diferente, vamos partilhar uma receita salgada e que vai por à prova os seus dotes culinários. Aproveite um domingo, daqueles em que não apetece saír de casa, para se desafiar e preparar uma refeição mais elaborada para a família. Esta receita exige tempo e organização, mas compensa o esforço e vai ver que todos vão adorar. Bom apetite!

Ingredientes: 1 kg de lombo de carne de vaca 3 colheres de sopa de azeite 250g de cogumelos 50g de manteiga 1 raminho grande de tomilho fresco ou alecrim 100ml de vinho branco 12 fatias de presunto 2 embalagens de massa folhada retangular 2 gemas batidas com 1 colher de chá de água

Com o apoio de Merengue & Chocolate email: merengueechocolate@gmail.com

28

Setúbal Revista


CULINÁRIA Modo de preparação Pré-aqueça o forno a 220C / ventilador 200C / gás 7. Coloque a carne num tabuleiro, pincele com 1 colher de sopa de azeite e tempere com pimenta. Asse durante 15 minutos, se pretender a carne malpassada, ou 20 minutos se quiser a carne média. Quando a carne estiver ao seu gosto, retire do forno e deixe arrefecer e, em seguida, leve ao frigorifico durante 20 minutos. Enquanto a carne arrefece, pique os cogumelos o mais finamente possível. Pode usar um processador de alimentos, mas não pique em demasia para não ficarem em pasta. Aqueça 2 colheres de sopa de azeite e as 50g de manteiga numa frigideira grande e frite os cogumelos em fogo médio, com o raminho de tomilho, cerca de 10 minutos, mexendo sempre, até obter uma mistura amolecida. Tempere a mistura de cogumelos a gosto, junte o vinho branco e cozinhe mais 10 minutos ou até que todo o vinho tenha evaporado. Retire os cogumelos da frigideira para arrefecer e descarte o tomilho. A quando da montagem do bife todos os ingredientes devem estar frios. Coloque papel vegetal sobre uma tábua grande e disponha as fatias de presunto por cima, ligeiramente sobrepostas, em fila dupla. Espalhe metade dos cogumelos sobre o presunto, depois coloque a carne por cima e sobre esta os restantes cogumelos. Com a ajuda do papel vegetal, enrole o presunto à volta da carne por forma a criar um rolo. Deixe ficar o papel vegetal em volta de modo a criar um embrulho. Refrigere a carne, durante 1 hora. Coloque a massa folhada na bancada. Retire o papel vegetal da carne e no centro da massa folhada, coloque a carne. Bata as 2 gemas com 1 colher de chá de água e pincele as bordas da massa, a parte superior e as laterais da carne. Coloque agora a outra massa sobre a carne, pressionando bem as laterais. Apare as junções deixando uma margem com cerca de 4 cm. Sele com a ponta de um garfo ou colher. Pincele toda a massa com gema de ovo e, usando a parte de trás de uma

faca, marque-a formando longas linhas diagonais, tendo cuidado para não cortar a massa. Refrigere pelo menos durante 30 minutos. Aqueça o forno a 200 ° C / ventilador 180 ° C / gás 6.

Pincele o Wellington com um pouco mais de gema de ovo e leve novamente ao forno até dourar e ficar crocante - 20 a 25 minutos para carne malpassada e 30 minutos para média. Deixe repousar 10 minutos antes de servir em fatias grossas. n Setúbal Revista

29


PSICOLOGIA

SILVIA SILVA Psicologa, Psicoterapeuta Torres Vedras psicologa.silviasilva@gmail.com

N

unca houve tanta preocupação com a saúde como nos dias de hoje. Nutricionistas que aconselham dietas do paleolítico, jejuns intermitentes ou retirada de carnes vermelhas e de hidratos de carbono. Consequentemente os ginásios multiplicam-se e estão sempre cheios. O que faz as pessoas irem ao ginásio é muito mais que exclusivamente a sua condição física. Escolhe-se o ginásio pelos mais diversos factores: porque o ginásio tem melhores condições; porque se destina a uma elite correspondente à imagem que se quer fazer passar; pelas pessoas que sabemos que o frequentam, principal-

30

Setúbal Revista

Para quando ginásios mentais?

mente se forem nossos amigos, ou então se desejarmos que venham a sê-lo. Mas acredito que, a par da preocupação pela saúde física, há também o desejo de socializar num ambiente descontraído em que à partida todos se identifiquem com o mesmo objectivo que é o de estarem em forma. Até aqui é possível apontar os benefícios de ir ao ginásio que, além dos físicos, são também sociais e até psicológicos. Mas é preciso muito mais relativamente a este último aspecto. É preciso que nos trabalhemos psicologicamente. Que nos gimnastiquemos mentalmente. Até porque, como tão bem sabemos, a saúde física e a psicológica estão tão interligadas,

estão tão entranhadas que é impossível estar-se bem numa das áreas da saúde se não estivermos bem na outra. Sabemos também que por exemplo a obesidade, que tanto se tenta combater nos ginásios, afecta tanto ou mais a nossa saúde psicológica como a física, e que quase sempre só se inicia o processo de cura quando há também tratamento emocional/psicológico. O que nos leva à questão essencial: “porque não ginásios mentais?” Ou reformulando: “para quando ginásios mentais?” É urgente que se comece a praticar ginástica mental!! O sedentarismo não diz respeito apenas a ficar sentado


PSICOLOGIA num sofá. Quase sempre traz com ele a inércia de não se pôr a cabeça a pensar. Lêr um livro, jogar um jogo de tabuleiro, fazer palavras cruzadas ou jogar às cartas parece coisa do século passado, literalmente. No entanto, é este tipo de exercícios, entre outros, que impede que surjam dificuldades, ou num estágio mais elevado: perturbações a nível cognitivo. Há doenças inevitáveis, sim. Sabemos que indivíduos que sempre tiveram modos de vida extremamente saudáveis não ficam cem por cento imunes a ficarem doentes. Mas o que é certo é que estatisticamente isso é muito menos provável. Tal como os restantes músculos do corpo que precisam de ser estimulados e trabalhados para potenciarem as suas funções, também o cérebro precisa de ser estimulado e trabalhado para que não se dêm atrofios, ou pior: inactividade e perda neuronal. Então vejamos, existem determinados exercícios aparentemente muito simples que estimulam áreas especificas do cérebro: fazer contas ou escrever com caneta e papel são apenas dois pequenos exemplos. Tão simples e importantes para a estimulação do nosso músculo mental, como raros nos dias de hoje. O excesso de informação cansa e diminui a nossa capacidade de concentração e faz com que ao fim de duas linhas de um texto no computador ou telemóvel, desviemos a nossa atenção e demos por concluída a tarefa. O facilitismo da informação toda concentrada num só “lugar virtual” impede-nos de ir à procura em espaços físicos como pesquisar numa biblioteca. Trabalhamos por isso muito menos a nossa capacidade de reflexão, de seleção e de tolerância à frustração, bem como acabamos por nos impedir de descobrir outras coisas paralelas ao nosso objectivo, o que aconteceria se fizéssemos um trabalho não exclusivamente online. O sedentarismo físico, o mental, a má qualidade da alimentação e o stress são algumas das razões que levam não só à não activação do cérebro de uma forma saudável, mas também propiciam a possibilidade de morte neuronal. Não só de uma forma naturalmente progressiva, mas porque estas mesmas razões potenciam doenças físicas, tais como hipertensão e aumento de risco de acidentes vas-

culares cerebrais que terão consequências, obrigatoriamente negativas, no saudável funcionamento do nosso cérebro. Então para que serviria um ginásio mental? Como qualquer outro “ginásio físico”, serviria para avaliar o indivíduo nas suas potencialidades e maiores dificuldades nas mais diversas áreas: memória; atenção; linguagem; percepção ou funções executivas, e através desse diagnóstico prevenir situações de dificuldade ou perturbação cognitiva. Em situações mais graves, trabalharia o indivíduo de uma forma mais específica, tal como se faz em situação de personal trainer, no sentido de o estimular e fazer regredir a sua dificuldade. Este treino, tal como o físico, não deve ser adiado. Quanto mais tarde o fizermos, mais nos sujeitamos a perder funções de forma definitiva, ou pelo menos de muito difícil recuperação. Quando se fala de estimulação cognitiva, a maior parte das pessoas associa este tipo de “treino” aos idosos. Façamos então

uma pequena reflexão: “Quantas vezes alguém o cumprimentou, sabe que conhece a pessoa mas não se lembra de onde a conhece, ou não se lembra do nome dela, ou não se lembra de ambas? A partir de que idade sentiu necessidade de apontar numa agenda física ou pôr lembretes no telemóvel, porque percebeu que alguns detalhes lhe começavam a escapar? Quantas vezes teve que fazer refresh na sua cabeça de um compromisso importante para não correr o risco de se esquecer? Sabe de cor os números de telefone/telemóvel das três primeiras pessoas a quem ligaria em caso de urgência? “ Depois deste pequeno exercício, acha ou não que seria importante exercitar-se, não só física, mas também psicologicamente? Sabe-se hoje que não há uma idade limite para nascerem novos neurónios. Mas é essencial que trabalhemos a plasticidade neuronal de modo a permitirmos que esse nascimento aconteça. n Setúbal Revista

31


LIVROS E LEITURAS

SARA LOUREIRO Mestre em Ciências da Educação Mediadora de Leitura Produtora Cultural Co-fundadora da PLUS Academy

O

canto dos pássaros sempre fascinou o Homem. Ao ponto de o querer só para si, em exclusividade, passando a confundir a dolência de trinados aprisionados com gorjeios de poética alegria. Multiplicam-se os contos, resgatados, muitos deles, da tradição oral, mas não apenas, que têm como actantes os pássaros, tendo estes presença recorrente também na poesia e, algumas vezes, não tantas, na música. Estes “Músicos de Deus” como lhes chamou o francês Maurice Messiaen (19081992) - um dos mais marcantes músicos do séc. XX, também um ornitólogo apaixonado e apaixonante, cuja ”(...) paixão pelos pássaros era tal que povoou a sua música com os seus cânticos.(...)” - muito dificilmente permitem a transcrição do seu canto, sendo humanamente impossível reproduzi-lo em instrumentos acústicos. Messiaen iniciou, por volta dos 15 anos de idade, um trabalho singular de recolha do canto de aves, num esforço sem paralelo, alimentando-se e crescendo com esta sua paixão, mais tarde partindo destes esboços e dos cantos gravados na natureza para compor as suas obras (de que é exemplo “Catálogo dos Pássaros”, obra para piano). Contudo, por mais espectacular que este seu trabalho seja , não há como ultrapassar uma realidade indesmentível: o canto dos pássaros é inimitável. Será esta “intangibilidade” que nos torna cativos de tão inauditos músicos? De entre os pássaros, o rouxinol sem-

32

Setúbal Revista

O que pode o coração de um pássaro

pre mereceu, na literatura, amplo destaque pela beleza do seu canto poético, pois, dizem os estudiosos e os entendidos, o rouxinol é capaz de cantar durante duas horas sem repetir uma única vez a mesma sequência. A variedade e a criatividade do seu repertório de assobios, trinados e gorjeios fazem da pequena ave um dos principais símbolos dos poetas e da poesia, do amor e dos enamorados, ave tímida, que prefere (en)cantar as noites e as madrugadas, alimentando e apaziguando as almas e os corações. E foi pelo rouxinol que aqui chegámos. O que pode o coração de um pássaro? Eis a pergunta de partida. Os caminhos a percorrer poderiam ter sido vários, mas a opção foi no sentido da revisitação do conto “O Rouxinol e a Rosa”, de Oscar Wilde. Trata-se de um pequeno conto de um autor que não requer apresentações e que aborda, como é apanágio das grandes obras dos grandes autores, uma temática universal e intemporal: o sacrifício e o desprendimento de uns, contrapondo-se à frivolidade e ao egoísmo de outros. Partindo de um rouxinol e de uma rosa, personagens centrais com forte carga simbólica associada, numa inequívoca alusão aos seres humanos, Oscar Wilde urde, com douta mestria, o conflito vivido pelo protagonista, o rouxinol, e pela sua antagonista, a rosa. A fim de conseguir alcançar o seu desiderato, tendo em vista a satisfação do desejo do jovem estudante, personagem secundário, o rouxinol aceita sacrificar a sua vida em prol da obtenção de uma rosa

vermelha, com a qual o estudante deseja agraciar a sua amada e conseguir dela alguma atenção. Compassivo, genuíno, altruísta, o pequeno pássaro, músico do amor, dispõe-se a acatar as condições ditadas pela roseira e, assim, ajudar o jovem estudante na luta por alcançar uma rosa vermelha, símbolo da paixão, aceitando sacrificar a própria vida para a conseguir, fazendo feliz o apaixonado jovem: “Se queres realmente uma rosa vermelha, disse a Roseira, terás de fazer uma usando a música que cantas ao luar, (...). Deves cantar para mim, como o teu peito encostado a um espinho. (...) [este] deverá perfurar o teu coração e o sangue que te dá vida deverá escorrer para as minhas veias e assim tornar-se meu.” (Wilde, 2017:46). Em troca, o rouxinol reclamava, apenas, que o estudante, profundo conhecedor das coisas dos sábios e dos livros (não tanto da vida), fosse um fiel amante, lembrando-lhe que “ (...) o Amor é mais sapiente do que a Filosofia, por mais sabedoria que haja nesta, e mais forte do que o Poder, por mais força que haja neste.” (Wilde, 2017:47-48). Nas suas obras em geral e nesta em particular, de forma mais subtil ou mais explícita, Oscar Wilde espelha a sociedade da sua época, pondo a nu os vícios que nela grassavam, nomeadamente o egoísmo, a vaidade, a superficialidade e a hipocrisia que inundavam a época vitoriana, um período de falsos moralismos, de aparências, de aceleradas mudanças e contrastes, de discriminação e desuma-


LIVROS E LEITURAS

Foto 1 Mafalda Pires da Silva Rosa cor de Amor Fotografia Digital ©Mafalda Pires da Silva

nização crescentes. Porém, confrontanos, igualmente, com os dilemas intemporais inerentes ao próprio ser humano, com os seus limites, as suas lutas, as suas contradições, os seus erros, o sentido da sua existência. E constata-se que há aspectos que, por inerência ao Homem, permanecem, ainda hoje. O ser humano vive e luta por entre dualismos e ambivalências, nele coabitando o racional e o irracional, o bem e o mal, a atracção e a oposição, a vitória e a derrota, o prazer e o desprazer, a força criadora e a força destrutiva, a vida e a morte. Eros e Thanatos, por outras palavras. Eros, como pulsão de vida, Thanatos, como pulsão de morte, coexistindo, mais complementares do que opostos. Estas duas dimensões também lá estão, presentes, marcantes, no conto “ O Rouxinol e a Rosa”. A morte para dar mais sentido à vida. Mas Oscar Wilde, nesta sua abordagem, vem mostrar que nem todas as vidas têm o mesmo valor, que algumas vidas valem mais do que outras e que, acima do bem da vida, há o bem do amor que nos deve/devia unir:

“(...) o Amor é melhor do que a Vida, e o que vale o coração de um pássaro quando comparado com o coração de um homem?” (Wilde, 2017:47). Dá que pensar. A atitude de empatia e abnegação por parte do rouxinol não teve eco no estudante, desvalorizando-a, tão enredado estava no seu egoísmo e nas teorias que vêm nos livros: “ (...) o rouxinol é como a maior parte dos artistas; todo ele é estilo sem sinceridade. Não se sacrificaria a si mesmo pelos outros.” (Wilde, 2017:50). Porém, os factos que vão sendo narrados não podiam ser mais contrários ao pensamento do estudante. E enquanto este nada faz para conseguir a tão almejada rosa, o rouxinol, por sua vez, dá o canto e o sopro da vida para lhe propiciar a satisfação de um fugaz desejo. Oscar Wilde põe em evidência a dimensão do amor altruísta, da abnegação, da entrega incondicional, algo que não tem correspondência entre os humanos. Para isso, cria a figura do pequeno rouxinol, que se torna vítima de um estudante caprichoso, de uma rapariga fútil

e de uma roseira implacável e gélida e diz-nos que, para alcançar o seu desiderato, a pequena ave “Cantou durante toda a noite, enquanto o espinho se afundava cada vez mais no seu peito, e logo o sangue que lhe dava vida foi abandonando o seu corpo.” (Wilde, 2017:51). Ao mesmo tempo, a rosa, que fora branca, enrubescia... Na manhã seguinte, ei-la única e pronta para ser colhida. Para quê? Alegria fugaz, afinal, como fugaz e frouxo fora o desejo de quem tão pouco sabia da vida e da verdadeira essência da arte do amor. Longa é a arte, tão breve a vida (“Querida”, Tom Jobim). Referências Bibliográficas O Príncipe Feliz, O Rouxinol e a Rosa e o Gigante Egoísta Oscar Wilde Ilustrações: Charles Robinson Tradução: Frederico Pedreira Revisão: Ana Matoso Relógio d’Água Editores Design de Capa: Carlos César Vasconcelos Abril de 2017 74 páginas n Setúbal Revista

33


34

SetĂşbal Revista


CULTURA

JOSÉ NOBRE Ator

S

into-me totalmente gratificado, como se tivesse conseguido alcançar o sétimo céu ainda em solos terrenos: Os nossos meninos aprendizes de teatro já são chamados a trabalhar. A escola da vida, a verdadeira e única, acabou de despontar para eles — o tão ansiado, temeroso e desejado, mercado de trabalho. Quão bons irão eles ser? Só o tempo o dirá, mas posso assegurar-vos que serão imensamente, intensamente,

O primeiro voo

profissionais, apesar da tenra idade, daqueles sorrisos meigos, daquele olhar que arrebata o mundo todo pela inocência, pelo fascínio que encontramos no seu observar voraz que tudo assimila a uma velocidade estonteante, registando bem e reproduzindo melhor... Ah, os nossos meninos, os nossos passarinhos no ramo bamboleante e alto, provocados quiçá pelo vento inconstante da estação, arriscam o voo primeiro. Caindo, esbracejando, como se se

afogassem no ar, mas eis uma corrente quente trazida pelo acaso (o "acaso", a quem alguns chamam a mão de Deus) e eis que já rolam sobre si desenhando cornucópias, perfumando o amplexo do ar com os seus chilreares felizes. E eu, passaroco mais velho, de penas já desgastadas pelas esquinas do vento, pelo longo sopro do tempo, de lágrima pronta, assisto embevecido, terminando este grasnar com um agradecimento ao céu. Que sem ele, não poderíamos voar. n Setúbal Revista

35


SAĂšDE

CRISTINA PINHO MĂŠdica Gastroenterologista / Homeopata cristinapinhomedica@gmail.com

Microbioma humano

O

MICROBIOMA HUMANO ĂŠ a soma de todos microrganismos que residem nos tecidos e uidos humanos. Composto principalmente por bactĂŠrias tambĂŠm inclui alguns fungos, archaea e vĂ­rus. Cada local anatĂ´mico (pele, boca, intestino, vagina...) possui seu microbioma (M) especĂ­ďŹ co. No ano 2000, Joshua Lederberg introduziu o termo “microbiomaâ€? para deďŹ nir a “comunidade ecolĂłgica de microrganismos comensal, simbiĂłtica e patogĂŠnica que, literalmente, partilha o nosso corpo e funciona como um determinante da saĂşde e da doença". Assim, o microbioma humano refere-se Ă comunidade de microrganismos que vivem em todas as partes do corpo e desempenham papĂŠis fundamentais quer na saĂşde, quer na doença humanas. O reconhecimento cientĂ­ďŹ co da importância do M para a saĂşde humana iniciou-se com os estudos de Louis Pasteur que aďŹ rmou, em 1877: "Os microrganismos sĂŁo necessĂĄrios para uma vida humana normal". Em 1886, outro conhecido cientista, Theodor Escherich, aďŹ rmou que "a interação entre o hospedeiro e as bactĂŠrias ĂŠ muito importante" e que "a composição do microbioma intestinal ĂŠ essencial para a saĂşde e bemestar do ser humano". No entanto, foi o cientista russo Elie Metchnikoff, vencedor em 1908 do PrĂŠmio Nobel de medicina/ďŹ siologia conjuntamente com Paul Ehrlich, que se dedicou ao estudo da importância dos probiĂłticos na alimentação e sua relação com a saĂşde humana. A necessidade de compreender a diversidade das comunidades microbianas nos diferentes ambientes da anatomia humana e a sua relação com a saĂşde do ser humano deu origem ao Projeto Microbioma Humano do National Institutes of Health em 2007. Este projeto tem

36

SetĂşbal Revista

como objetivo estudar o microbioma humano nos diferentes ambientes para que possa ser utilizado como ferramenta de diagnĂłstico mĂŠdico e terapĂŞutico e conduzir a uma otimização da saĂşde do indivĂ­duo. Em 2015 a cientista britânica Alanna Collen publicou um livro chamado “10% Human: How Your Body's Microbes Hold the Key to Health and Happinessâ€?. O corpo humano ĂŠ “habitadoâ€? por bactĂŠrias cuja população ĂŠ dez vezes superior ao nĂşmero de cĂŠlulas humanas. A maioria dessas bactĂŠrias encontra-se no trato gastrointestinal humano. Estima-se que o corpo humano contenha cerca de 10 triliĂľes de cĂŠlulas e que seja portador de aproximadamente 100 triliĂľes de bactĂŠrias, fungos e vĂ­rus. Ă€ nascença saĂ­mos de um meio estĂŠril atravĂŠs do canal de parto (cheio de lactobacilos e biďŹ dobacterium) para a primeira respiração e aqui começa a aventura do nosso sistema imunitĂĄrio (SI) e da sua maturação. Toma contacto com estas bactĂŠrias, estĂ­mulo mais precoce e mais intenso do SI, e começa a criar anticorpos e imunidade celular. A composição do nosso M depende do M da nossa mĂŁe em primeira instância, depois do que comemos/bebemos, medicamentos que tomamos, higiene pessoal,

toxinas ambientais, etc. Uma das caracterĂ­sticas mais importantes da relação do SI com o M ĂŠ a TOLERĂ‚NCIA IMUNOLĂ“GICA. Aprendemos com as bactĂŠrias a nĂŁo reagir aos antigĂŠnios apresentados como comida, etc, mas o aspeto mais importante da tolerância imunolĂłgica ĂŠ a auto tolerância para que nĂŁo se desenvolvam doenças autoimunes. Sempre que o equilĂ­brio do M se altera o SI ďŹ ca confuso e adoecemos! As funçþes principais do M sĂŁo: DigestĂŁo de alimentos, produção de nutrientes (vitaminas), desintoxicação, proteção fĂ­sica contra vĂ­rus e bactĂŠrias, modulação do sistema imunolĂłgico, diminuição do risco alĂŠrgico, efeito regulador do trânsito intestinal. Por tudo isto percebemos que sem M ďŹ camos doentes logo Ă nascença e corremos o risco de morrer pouco depois. Se temos a sorte de nascer de parto eutĂłcico e ser amamentados, os nossos microbioma e sistema imunitĂĄrio começam a desenvolver-se de forma saudĂĄvel e evitamos muitos problemas. E se, ao longo de toda a vida, tivermos o mĂĄximo respeito pelo nosso M as hipĂłteses de permanecer com corpo/mente saudĂĄveis e lĂşcidos sĂŁo muito maiores, o que nos permite viver com energia e alegria. Atualmente a causa principal de alteração do M ĂŠ a toma de medicamentos nomeadamente antibiĂłticos. Se lhe forem prescritos pondere, muito bem, a sua necessidade. E se os tomar acompanhe sempre essa medicação com PRÉ e PRĂ“BIĂ“TICOS. Peça ao mĂŠdico ou ao farmacĂŞutico (se o primeiro nĂŁo se adiantar) para lhe indicar os mais adequados para si consoante a situação clĂ­nica em que se encontra. Vai evitar muitos problemas de saĂşde subsequentes se proteger o seu MICROBIOMA đ&#x;˜Š n


SAÚDE

Setúbal Revista

37


CONSULTÓRIO JURÍDICO

NUNO CASTRO LUIS Advogado

Autoridade, autoritarismo e respeito – as agressões intoleráveis a médicos, professores e juízes

Q

uando, em criança, entrava na sala de aula da escola primária nº7, no Montalvão, ficava em pé, ao lado da carteira, tal como todos os outros miúdos da turma, até que a professora entrasse. Era sempre a última a entrar na sala e, quando o fazia, um coro de alunos dizia em uníssono: «- Boa tarde, Senhora Professora Dona Manuela.» Fazíamo-lo como sinal de respeito, imposto é certo, com castigo em caso de recusa, mas que mesmo para uma criança simbolizava mais, muito mais, do que a veneração àquela professora. Quando era miúdo e ia ao médico, a minha avó verificava se a minha roupa estava impecavelmente limpa (tarefa bem difícil, à data), se os sapatos estavam bem engraxados e se o cabelo estava bem penteado. Ia ao senhor doutor, alguém cujo conhecimento e reputação mereciam estes cuidados prévios. Na época em que fiz o meu estágio de advocacia, quando nos deslocávamos ao Tribunal, um dos aspetos que o meu patrono nunca se cansava de me transmitir (tal como aos seus constituintes) era a importância de se estar perante a casa da Justiça. A toga dos advogados, a beca dos juízes, a capa dos funcionários, o ritual de entrada dos magistrados (os últimos a entrar na sala de audiência, enquanto toda a gente se levantava em sinal de respeito) tudo nos fazia lembrar a importância daquele local. Nada significava especial consideração para com o Juiz A ou o advogado B, mas tudo era demonstração, a demonstração possível, do respeito para com a Lei e para com a sociedade que a impunha. Sei que todos estes exemplos se passaram no século passado, mas era assim que a maior parte das pessoas atuava.

38

Setúbal Revista

A sociedade mudou e, para muitos, a postura demonstrada nos casos que apresentei era muito subserviente, própria de uma época, de um tipo de respeito que já hoje não se usa. Possivelmente terão razão. Há poucos dias fomos confrontados com notícias sobre agressões, numa escola de Lisboa, a uma professora grávida, infligidas pela mãe de uma aluna, após ter dado uma reprimenda à discente. Poucos dias depois ouvimos falar de vários casos de agressões a médicos, um deles nas urgências do Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Por fim, veio a público a agressão a uma juíz, durante uma audiência, em pleno Tribunal. Sem conhecer aprofundadamente os casos em concreto, o que, para esta crónica, pouco importará, será interessante analisar que razões poderão ter levado a que isto aconteça. No caso da professora poder-se-á sempre invocar o menor prestígio que, aparentemente, esta profissão tem vindo a

merecer. Reflexo disso é o resultado de um estudo recentemente efetuado no PISA (Programme for international student assessment), que concluiu que apenas 1% dos jovens portugueses admite querer vir a ser professor, o que, não sendo caso único, é uma das médias mais baixas da Europa em termos de intenção de vir a ser docente. Esta tendência é confirmada pelo menor interesse em cursos superiores ligados a formação de professores que, no ano letivo de 2018-2019, apenas preencheram metade das vagas disponíveis. Poder-se-á falar, igualmente, nas difíceis condições físicas e humanas existentes nas escolas, onde os professores consideram-se (e são) mal pagos, têm muitos alunos, muitas tarefas não letivas, poucos apoios de auxiliares, etç., etç., que conduzem a que a profissão acabe por ser menos considerada. Mas mesmo que tal seja verdade, será razão suficiente para a violência exercida, quer por alunos, quer por encarregados


CONSULTÓRIO JURÍDICO de educação, sobre os professores? Ainda que se dissesse que sim, no caso dos médicos não o poderíamos afirmar, pois continua a ser uma das profissões mais desejadas pelos jovens estudantes. O curso superior de medicina continua a ser muito procurado, onde só entram os alunos com as melhores médias e até onde há um grande número de universitários dispostos a sair do país para conseguir obter uma licenciatura na área. É, pois, uma profissão muito prestigiada e, pese embora as constantes críticas à falta de condições do serviço nacional de saúde e à inerente limitação da atividade dos médicos, continua a ser uma das profissões mais consideradas. Contudo, este prestígio não tem sido condição suficiente para impedir as violentas agressões por parte dos pacientes, nomeadamente durante as consultas. Se há profissão que condiciona a vida dos outros é a de juiz. Se outra razão não houvesse, seria a bastante para continuar a ser uma das profissões de grande prestígio, visível no número de candidatos a procurar entrar no Centro de Estudos Judiciários, responsável pela formação de magistrados. É bem verdade que quase todos os dias ouvimos reivindicações e queixas sobre as deficientes condições de funcionamento dos tribunais, dos muitos processos e respetiva morosidade, da falta de recursos, mas também isso não parece afetar o prestígio da magistratura. O único denominador comum aparente entre estas três situações poderá ser, pois, a falta de condições no desempenho da atividade, a qual poderá ser propícia a menor capacidade no exercício das atividades e de maior pressão relativamente a todos os intervenientes. Poderíamos ficar satisfeitos com esta conclusão, limitando-nos a considerar que a solução para tudo seria obter mais recursos. Mas, provavelmente, a mesma poderá ser pelo menos escrutinada, se compararmos com as condições que existiam há três décadas atrás: será que as condições de trabalho eram, há trinta anos, realmente melhores? Os casos de violência contra professores, médicos e juízes eram certamente menores (ou até mesmo exíguos). Voltando aos exemplos iniciais, o que moldava o comportamento dos alunos nas escolas, dos pacientes nas consultas, dos cidadãos nos tribunais, era a

imagem de respeito perante aquelas profissões que detinham, em si mesmas, uma simbologia de autoridade. Autoridade enquanto sinal de poder, legítimo e reconhecido. A conduta que todos nós tínhamos perante a professora primária, perante o médico ou perante o juiz era, não só, uma consideração por se estar perante aquela pessoa em concreto, mas, essencialmente, por lhes ser reconhecida uma especial significância: o conhecimento, a sapiência, a vocação, a justiça. Nas últimas décadas parece existir um receio em reconhecer que alguém detém autoridade, como se isso fosse um atentado à liberdade e à igualdade de quem não a detém. Quando se afirma que um terceiro é merecedor de respeito por ser uma autoridade, parece existir uma imediata reação, como se o simples exercício de poder fosse contrário aos direitos fundamentais dos restantes. De tal maneira é assim que a defesa de uma autoridade, ou a respetiva imposição de limites, é imediatamente associada a posições ideológicas contrárias. Os pais, invocando o seu direito pleno sobre os filhos, reagem imediatamente contra os professores se algum comportamento não corresponder exatamente ao que consideram, pessoalmente, como correto, como se cada um fosse o mais sabedor sobre a conduta que um professor deve ter numa sala de aula. O doente que pretende uma renovação da sua declaração e situação de baixa médica, e que se vê confrontado com uma decisão médica distinta, entende-a imediatamente como um afrontamento, como se quem efetivamente soubesse não fosse o médico, mas quem o consulta. Daniel Innerarity, reputado professor internacional de filosofia política e social,

diz que subsiste hoje uma ideia de desnecessidade de intermediação. Cada qual acha que não precisa de intermediário para saber o que é certo, levando a uma desconsideração imediata pelo saber dos outros quando não coincidente com o seu (ou com o que dele espera). Na verdade, este fenómeno conduz a uma ausência de sentido de comunidade, a qual passa a ser vista como um mero conjunto de posições individuais. A autoridade é fundamental para que se mantenha o respeito, quer pelas suas próprias opiniões, quer pelas dos restantes. Autoridade não se confunde com autoritarismo (este sim, resultando muitas vezes de um esvaziamento da autoridade), sendo antes um instrumento fundamental para a existência de uma democracia. Não reconhecer a autoridade de um professor, de um médico, de um juiz, leva a que cada um se possa tornar, potencialmente, aplicador da lei do mais forte. As agressões contra os professores, médicos, juízes, para além do terrível exemplo para os jovens, que passam a ter na violência mais um argumento à sua disposição, testado e ratificado pelos seus pais, são muito mais do que ofensas físicas. O Código Penal tipificaas como qualificadas, por serem exercidas contra alguém no exercício de uma determinada atividade, tratando-as como uma agressão e ofensa ao próprio interesse público na realização da Educação, da promoção da Saúde e da Justiça, tornando-as mais intensas na sua ilicitude e na sua culpa. Em suma, autoridade não deve ser confundida com autoritarismo, respeito não deve ser visto como diminuição da sua individualidade. É por isso que as agressões conhecidas aos professores, aos médicos e aos juízes são intoleráveis. n Setúbal Revista

39


SIMPLES ASSIM

PEDRO SOARES Terapeuta motivacional Desenvolvimento Pessoal

- Para onde vais? - Vou para a festa na aldeia. - Não vás. Nesta festa vai haver muita confusão, muitos serão feridos e tu serás apanhado pelo meio. Estou aqui para te alertar que é melhor não ires. Volta para casa. - Mas quem és tu? Eu espero todo o ano por este dia e tu achas que vou desistir da festa só porque um estranho que encontro sentado no caminho me manda para casa? Nem pensar. Eu vou a essa festa. A aldeia estava animadíssima e a festa também. Assim do nada, e de repente, duas pessoas começam uma acesa discussão, e tal como um incêndio numa mata de eucaliptos, a discussão alastra-se e abrange mais pessoas e em pouco tempo a violência tomou a festa de assalto. A violência foi brutal e muitos foram os envolvidos entre coisas que voavam e navalhas que iam desferindo golpes em várias pessoas. A festa terminou de imediato, os feridos foram atendidos nas urgências ou enviados para as suas casas. No regresso, ferido por ter sido envolvido, o habitante cruza-se no mesmo sítio com a mesma pessoa. - Então que te aconteceu? - Olha que não sei como, mas tu tinhas razão. Foi uma desgraça completa e eu fui atingido com socos, pontapés, uma facada num rim e outra no pescoço. Sabes? São coisas do diabo! - Minhas…? Então eu não te disse para não ires à festa?! Quando descobrimos em nós valores, dons ou qualidades mais ou menos acima do comum, há em nós uma tendência natural para dizermos que somos assim tão bons e especiais por-

40

Setúbal Revista

Ele, há coisas do diabo!


SIMPLES ASSIM que nasceu connosco. Por outro lado, quando somos incapazes de limar ou trabalhar defeitos, alguns deles graves, que precisam de coragem para serem ultrapassados, estes nunca são nossos, nunca são dons e tampouco nascemos com eles. Se somos bons, é ADN. Se não somos, foi a nossa difícil infância, a nossa sociedade retrógrada, a violência a que fomos sujeitos durantes muito anos e muitas vezes em tenras idades. Claro, como não pode estar aqui a origem dos meus defeitos?! Excetuando raríssimas exceções, no geral, nós somos por tendência seres de acusação e raramente seres de defesa. Seres perfeitos que não aceitam sugestões nem chamadas de atenção mesmo quando vindas de pessoas que sabemos claramente quererem o nosso bem. Somos animais racionais, emocionais e com enormes doses de instintos como a sobrevivência, resistência e autodefesa. Até na nossa perfeição anatómica, sendo que o nosso corpo é sem dúvida a arquitetura mais perfeita alguma vez conhecida, até ela, está preparada para nos chamar a atenção e sempre com pequenos nadas. Quando apontamos o dedo a alguém por exemplo, a articulação natural da nossa mão “obriga” a que apontemos 3 para nós e apenas um para o nosso semelhante. Mas nós raramente nos damos conta do que não nos agrada. O EU (ego), está para nós como o “diabo” que estava sentado na esquina da rua, para alertar o homem que não fosse à festa. Mas nós somos peritos ignorar sugestões que não venham ao encontro dos nossos desejos. Só conhecemos um pronome pessoal: EU Somos mais ou menos assim: o meu patrão, o meu filho, o meu aeroporto, o meu país, o meu carro, o meu Ex., o meu clube, o meu cancro e etc, etc e etc… Se EU lá estivesse, e EU tivesse ouvido se eu tivesse sabido… e nada é realmente nosso! Se partirmos do principio neuro-comportamental que o Eu é igual a Ego, então, vou estar constantemente a enviar variadíssimos sinais à minha mente critica e racional que eu possuo muitas coisas que na realidade não existem. E leva-nos a atitudes do tipo: tu falas

muito alto, tu comes muito rápido, esta televisão está altíssima, esta comida está salgada, vestes mal, ou andas muito devagar. O japonês diz que quem se distrai, trai-se. E assim vamo-nos traindo por acharmos que quem tem a velocidade certa, o andamento perfeito, a paladar correto, fala de forma equilibrada e por aí fora… somos nós. E é, com base nestas, que criticamos os padrões dos outros. Nós chegamos sem nada. Não iremos levar nada. E pelo meio (durante a vida) discutimos por algo que não trouxemos nem iremos levar. Partilhando um pouco de mim, que nasci na ilha de São Miguel nos Açores, vai fazer meio século, numa época em que a pobreza era quase generalizada e muitas vezes roçava o miserável. Onde eram escassas as luzes nas ruas e nas casas mais raras ainda. Onde as “estradas” eram de terra batida e essa mesma terra era o chão da nossa “casa” uma cavalariça improvisada de casa e dividia em duas assoa-

lhadas com frágeis frontais feitos em pobres madeiras, sem na ilha haver ainda chegado a televisão, nascido no seio de uma família com 21 irmãos onde dormíamos aos seis e aos sete na mesma “cama”… Para temperar tudo isso, um pai que passou ao lado deste mesmo papel, violento e muitas vezes temperado a álcool, e dizia que nunca íamos ser nada nem ninguém. A fome foi muitas vezes connosco para a cama e para a escola. Não tenho medo nem vergonha desse passado de tantas limitações e dificuldades. Foi e é tudo isso que me anima e faz com que, há muitos anos, eu tente e procure aprender, não a cumprir as “profecias” de infância, mas com isso, transmutar-me, fazer diferente, procurando incessantemente trabalhar todos esses “diabos” e padrões em mim. Não sei se consigo. Mas sei, que Faço o meu trabalho de casa todos os dias. E como alguém disse um dia: Todo aquele que tenta, mesmo que nada consiga, já vale mais do que aquele que nada tentou! n Setúbal Revista

41


SOLIDARIEDADE

MARIA DO ROSÁRIO BARARDO História e Património Investigadora - Estudos sobre a Mulher CICS.NOVA - Universidade Nova de Lisboa Vice-Presidente da União Soroptimist De Portugal

E

sta primeira rubrica apresenta o Clube Soroptimist Internacional a sua histórias e a sua finalidade.

HISTÓRIA O Primeiro Clube da Organização Soroptimist International foi fundado na Califórnia, em Oakland, em 1921, e juntou 24 mulheres que, durante a I Guerra Mundial, tinham ocupado postos de trabalho que os homens deixaram vagos, devido à mobilização. Terminada a guerra, mesmo com o regresso dos homens, as mulheres continuaram a trabalhar e formaram então o primeiro Clube

42

Setúbal Revista

Soroptimist International (SI)

Soroptimist. A organização teve e sempre tem o objetivo de criar uma vasta rede de mulheres representando diferentes áreas profissionais, a fim de promover um espírito de serviço e incentivar padrões éticos, quer nas profissões, quer nos negócios. A sede da Soroptimist International encontra-se em Cambridge, no Reino Unido. Presentemente a SI reúne cerca de 75.000 membros distribuídos por cerca de 3.000 clubes em mais de 60 países e territórios, em todo o mundo, e está estruturada em quatro Federações: • Soroptimist Internacional Américas (SIA)

• Soroptimist Internacional Europa (SIE) • Soroptimist International Pacífico Sudoeste (SISWP) • Soroptimist Internacional Grã-Bretanha e Irlanda (SIGBI) Soroptimist Internacional da Europa (SIE) Pouco a pouco a Organização Soroptimist internacionalizou-se até à Europa, onde Suzanne Noël, uma proeminente cirurgiã plástica francesa, iniciou em 1924, em Paris, o primeiro Clube Soroptimist Internacional, inspirando a criação de muitos outros clubes pela Europa, dando origem, em 1930, à primeira Fe-


SOLIDARIEDADE deração Soroptimist que, por razões históricas engloba também partes da África, do Médio Oriente e das Caraíbas. O Secretariado Europeu Permanente da Soroptimist Internacional está sediado em Genebra.

• Saúde e Segurança Alimentar • Violência contra as Mulheres • Empoderamento das Mulheres • Educação

MISSÃO

São todas estas ações e muito mais que definem a Soroptimist Internacional da Europa (SIE), que, através do seu Estatuto Consultivo como Organização Não Governamental (ONG) nas Nações Unidas, tem status consultivo no Conselho Económico e Social (ECOSOC), status participativo no Conselho da Europa e no Lobby Europeu da Mulher e contribui com o seu o trabalho na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). As Soroptimistas participam regularmente de vários fóruns de ONG’s que lidam com questões de mulheres, nos níveis nacional e internacional. A Soroptimist proporciona relações bilaterais entre os vários clubes, tanto a nível nacional como internacional. Estes contactos entre as soroptimistas encorajam as permutas culturais e os projetos comuns.

A Soroptimist Internacional da Europa, a maior das quatro Federações Soroptimist Internacionais, representa atualmente cerca de 34.000 mulheres que atuam em todo o seu território. Os Clubes Soroptimist Internacionais da Europa iniciam, apoiam, financiam e implementam mais de 4.000 projetos, por milhões de euros. Os membros SIE trabalham dentro e fora das suas comunidades para fornecer ajuda prática a mulheres e meninas. Os serviços voluntários são prestados por empresas e mulheres profissionais, cujos membros incluem mulheres de todas as idades, representando uma grande diversidade de profissões, que têm essa missão de ajudar a construir o desejável mundo melhor para as mulheres e meninas, em todo o mundo. Esta rede global de membros – Soroptimistas – inspiram ações e criam as necessárias oportunidades proporcionando ambientes seguros e saudáveis, aumentando o acesso à educação e desenvolvendo liderança e apetências práticas para um futuro sustentável. Tem como áreas em foco: • Sustentabilidade

RELAÇÕES INSTITUCIONAIS

CLUBE SOROPTIMIST DE SETÚBAL O Clube Soroptimist de Setúbal está integrado na Federação Soroptimist da Europa (SIE), a maior Federação com mais de 1250 clubes, distribuídos por 61 países. Existem 24 Uniões na Federação Sorop-

timist da Europa. Em Portugal os 9 Clubes Soroptimist formam a União Soroptimist de Portugal (SIUP). Os seus membros constituem um leque de mulheres com profissões e aptidões diversificadas e orgulham-se por continuar a contribuir com as mais diversas ações para a Comunidade. O Clube Soroptimist de Setúbal, fundado em 10 de abril de 1994, tem desenvolvido, ao longo destas décadas, vários programas em vertentes diversificadas, sobretudo em prol da Comunidade local, mas também noutras comunidades a nível nacional e também além-fronteiras, nas seguintes áreas: • Intervenção social • Economia • Saúde • Educação • Ambiente • Atribuição de prémios a mulheres • Organização de workshops (profissões no feminino) PRINCIPAIS PARCEIROS O Clube Soroptimist de Setúbal tem desenvolvido vários projetos solidários com a colaboração de membros SI e da comunidade local e em parceria com entidades e organizações locais e regionais, em que têm estado envolvidos como parceiros, entre outros: SEIS (Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social), Alliance Française, Santa Casa da Misericórdia de Azeitão, CEDACE (Centro Nacional de Dadores de

Setúbal Revista

43


SOLIDARIEDADE

SIMBOLOGIA DO SOROPTIMIST INTERNACIONAL Células de Medula Óssea), Centro Paroquial D. Manuel Martins, Refúgio Aboim Ascensão, QUERCUS (Organização não Governamental de Ambiente), Rotary Club de Setúbal, Conservatório Regional de Setúbal, Casa Ermelinda de Freitas, Médicos do Mundo, Casa da Baía - Centro de Promoção Turística, Classic’Art Piano Academy - Setúbal, Revista “SER SETÚBAL”-, Hotel Art Rio – Setúbal, Quinta dos Moinhos São Filipe, Setúbal, entre muitas outras parcerias realizadas. PRINCIPAIS DESTINATÁRIOS Caritas Diocesana de Setúbal, AAFIM (Associação de Ajuda Fraterna à Ilha de Moçambique), Santa Casa da Misericórdia de Azeitão, Restaurante Social da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, “Para Elas Com Amor” do Movimento “Vencer e Viver” - Liga Portuguesa Contra o Cancro, Maternidade do Centro de Saúde Urbano de Macurungo, na cidade da Beira, no âmbito da operação “Embondeiro por Moçambique”. A mais recente ação solidária realizou-se

44

Setúbal Revista

em dezembro de 2019 e destinou-se a angariar donativos, em jantar solidário, para compra de artigos de puericultura de primeira necessidade para a causa “Pequena, Grande Mãe”, do Centro de Apoio à Vida - grávidas e mães adolescentes da Caritas Diocesana de Setúbal, perspetivando-se outras ações que muito brevemente irão ser concretizadas. Estes foram e são alguns dos inúmeros destinatários das ações realizadas pelo Clube Soroptimist de Setúbal, desde a sua fundação, cujos membros continuam a consagrar muito do seu tempo possível a lutar pelos objetivos da Organização. São grandes as expectativas, para este ano, de recrutamento de novos membros, a convite da presidente Maria João Ferro, que contemplam um relevante leque de atividades muito representativas no contexto local. n Bibliografia: • Fisher, Lillian E. (1983). Violet Richardson Ward: Presidente Fundador da Soroptimista . Vantage Press . ISBN 0533055636. • Haywood, Janet (1995). A História da Soroptimista Internacional . Internacional Soroptimista. ISBN 0952378809

Soroptimist deriva do latim soror, que • https://www.facebook.com/pg/SoroptimistIntersignifica irmã, e ótima, que significa nationalofEurope/posts/?ref=page_internal • http://www.soroptimisteurope.org/ melhor, comummente interpretado como “O MELHOR PARA AS MULHERES” em todas as esferas de suas vidas.

O logótipo Soroptimist Internacional mostra uma mulher de braços abertos, com o sol por detrás, rodeada de folhas de louro (que representam o sucesso) e de carvalho (símbolo da força para trabalhar), que significa: “A MULHER ESTÁ DE BRAÇOS ABERTOS PARA O MUNDO “


SetĂşbal Revista

45


AVENTURAS E RODAS

JOSÉ MORGADO Presidente do BMW Motoclube Portugal

Almoço das Motas BMW Clássicas Torrão – Janeiro 2020

P

ara iniciar bem o Ano, tirámos as Motas BMW Clássicas das garagens e fomos com Elas apanhar Ar. Logo pela manhã cedo, o ponto de encontro foi a área de serviço da BP do Seixal, na A2. Depois de alguma conversa e boa disposição, andámos alguns quilómetros na AE, mas saímos logo no Fogueteiro, para a N10. Em Brejos de Azeitão foi o encontro com os que vinham de Setúbal. Aqui virámos para o Parque Nacional da Arrábida que, apesar do muito Sol, estava com uma temperatura ambiente bastante fresca. Parámos num Miradouro, com uma vista esplendorosa para o Estuário do Rio Sado. Toda a N379-1, que serpenteia os cumes e encosta Sul da Serra da Arrábida é magnífica de percorrer. Em muitas ocasiões, conseguimos ver, dum lado o Oceano Atlântico e a Península de Troia, do outro, Lisboa e a Serra de Sintra, espectacular. Descemos depois até Setúbal, percorrendo toda a Av. Luísa Todi, até ao Cais de Embarque dos Ferry’s para Troia. A espera foi curta e, privilégio das Motas, fomos os primeiros a embarcar no barco que entretanto chegou. O Sol de Inverno começava a aquecer e o leito do Rio estava muito calmo, pelo que foi uma agradável e sossegada viagem pelo Estuário do Sado, até Troia. As nossas Motas BMW despertavam a curiosidade de todas as pessoas que estavam a bordo.

46

Setúbal Revista

Mais uma vez, privilégio das Motas, fomos os primeiros a entrar no cais de desembarque e a seguir viagem. O destino agora era a Comporta, com as suas zonas lagunares e os exten-

sos arrozais. Logo a seguir à povoação, na primeira oportunidade, virámos à esquerda, desta vez, em direcção a Alcácer do Sal, para onde seguimos numa estrada


AVENTURAS E RODAS ladeada de grandes pinheiros. A chegada a Alcácer do Sal faz-se pelo Sul, pelo antigo IC1, a “Estrada do Algarve”, atravessando nós dessa forma a característica ponte levadiça de ferro, ao estilo Eiffel, que transpõem naquele local o Rio Sado. Em pouco tempo, era a segunda vez que o estávamos a passar. A paragem em Alcácer do Sal foi curta, não havendo a oportunidade para visitar uma das Cidades mais antigas da Europa, com a sua fundação, documentada pelo Fenícios, muito anterior ao ano 1.000 a.C. Mas o nosso objectivo era o Almoço no Torrão e o tempo passava depressa. Seguimos em direcção ao interior, pela N5, passando pela Herdade da Barrosinha e ao lado da Barragem de Vale do Gaio. Foi já com algum apetite que, antes de chegarmos ao Torrão, desembocámos na famosa N2, uma das estradas mais extensas da Europa e atravessámos o Rio Xarrama, afluente do Sado. O local por que todos já ansiávamos fica logo na entrada da Vila, na própria N2, e era o Famoso Restaurante o Tordo. Rapidamente estacionámos as Motas, mais uma vez na N2, e nos desequipámos. Arrumámos os capacetes e as luvas num local próprio no restaurante e tomámos os nossos lugares na mesa que estava à nossa espera, reservada antecipadamente. O Almoço foi muito animado e saboroso, terminando já tarde, com a visita às instalações de Alojamento Local adjacente e à Garagem, repleta de Velhas Máquinas que andaram pelas nossas estradas e competições automóveis. Quando saímos do Tordo, ainda fomos até ao Convento de São Francisco, para tirar uma Foto e regressámos já com o Sol de Inverno a esconder-se rapidamente, provocando uma rápida descida da temperatura ambiente. A viagem já foi feita quase de noite, com temperaturas bastante baixas, típicas de Inverno. Foi um Excelente Passeio, em Óptima Companhia, por Estradas muito Interessantes, com Máquinas de Outros Tempos, cheias de Carisma e Estilo. Todos Adorámos. n Setúbal Revista

47


Profile for Setúbal Revista

Setúbal Revista Nr. 20  

Não perca a primeira edição da Setúbal Revista de 2020. Porque a proximidade é o nosso lema.

Setúbal Revista Nr. 20  

Não perca a primeira edição da Setúbal Revista de 2020. Porque a proximidade é o nosso lema.

Advertisement

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded