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SEAMUS HEANEY poemas


SEAMUS HEANEY poemas


Interrupção Letiva Passei toda a manhã na enfermaria do colégio Contando os sinos a repicarem o fim das aulas. Às duas os vizinhos me levaram para casa. Na varanda encontrei meu pai chorando — Ele sempre enfrentara enterros sem se perturbar — E Big Jim Evans dizendo que era um revés terrível. O bebê rulava, ria e embalava o carrinho Quando entrei, e fiquei desconcertado com os velhos Que se levantavam para me apertar a mão E falar que tinham "pena do meu penar". Cochichava-se aos estranhos que eu era o mais velho, Em colégio interno, e minha mãe segurava minha mão Na dela, a tossir suspiros de cólera sem lágrimas. Às dez horas a ambulância chegou Com o corpo lavado e enfaixado pelos enfermeiros. Na manhã seguinte subi ao quarto. Fura-neves E velas serenavam a cabeceira; via-o Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido. Agora, com um calombo na têmpora esquerda, Jazia no caixão de quatro pés como no berço. Sem sinal que se visse, o pára-choque o pegou sem engano. Caixão de quatro pés, um pé para cada ano.


Cavar Entre o dedo e o dedão a caneta Parruda pousa; como arma pega. Sob minha janela, um som raspante e claro Quando a pá penetra a crosta de cascalho: Meu pai, cavando. Olho para baixo. Até seu dorso reteso entre os canteiros Encurvar-se, brotarem vinte anos atrás Dobrando-se em cadência nos batatais Onde estava cavando. A chanca aninhada no rebordo, o cabo Alçado contra o joelho interno com firmeza. Ele extirpava talos altos, fincava o fio luzidio Para espalhar batatas novas que colhíamos Adorando a fresca dureza nas mãos. Por Deus, o velho sabia usar uma pá. Tal qual o velho dele. Meu avô cortou mais turfa num dia Do que qualquer outro homem no pântano de Toner. Uma vez levei leite numa garrafa Mal rolhada com papel. Ele aprumou-se Para bebê-lo, e em seguida pôs-se a Talhar e fatiar com precisão, lançando Torrões nos ombros, indo mais embaixo atrás Da turfa boa. Cavando. O cheiro frio de barro de batata, o chape e o trape De turfa empapada, os curtos cortes de um fio Nas raízes vivas despertam em minha cabeça. Mas pá não tenho para seguir homens como eles. Entre o dedo e o dedão a caneta Parruda pousa. Vou cavar com ela.


A ilha evanescente Mal presumimos ter-nos encontrado para sempre Entre as colinas azuis e essas praias sem areia Onde passamos nossa noite esvairada em prece e vígilia, Mal colhemos madeira flutuante, fizemos lar E penduramos nosso caldeirão qual firmamento, A ilha quebrou-se debaixo de nós qual uma onda. O solo a nos suster parecia manter-se firme Somente quando o abraçávamos in extremis. Tudo o que creio lá ter ocorrido foi uma visão.


Norte Retornei a uma longa praia, a curva batida de uma baía, e só encontrei os seculares poderes do trovão atlântico. Encarei os convites não mágicos da Islândia, as colônias patéticas da Groelândia, e súbito aqueles incursores fabulosos, os que jazem em Orkney e Dublin, mediram forças com as longas espadas ferrugentas, aqueles na sólida barriga de navios de pedra, os talhados e cintilantes nos calhaus dos veios em degelo, eram vozes que o oceano sufocou prevenindo-me, erguidas de novo em violência e epifania. A língua nadadora da nau flutuava em retrospecto – disse que o martelo de Tor pendeu para a geografia e o comércio, obtusas ligações e vinganças, os ódios e os pelas-costas do Parlamento, mentiras e mulheres, exaustões nomeadas paz, memória incubando o sangue derramado. Disse: “Deite-se na lavra-palavra, escave a espira e o brilho do seu cérebro sulcado.


Componha na treva. Espere aurora boreal na longa pilhagem mas não cascata de luz. Conserve o olho claro como a bolha do sincelo, creia na sensação do tesouro nodoso que suas mãos conheceram”.


Limbo Ontem de noite em Ballyshannon Pescadores pegaram na rede Uma criança com o salmão. Uma desova legítima. Um pequenino devolvido Às águas. Mas estou seguro, No que ela se achava no baixio A imergi-lo com ternura Até os gelados nós dos pulsos Ficarem mortos como o cascalho, De que ele era um guaru com ganchos Que a dilaceravam. Ela avançou sob O sinal de sua cruz. Ele foi impelido com os peixes. Agora o limbo será Um frio fulgor de almas Por zona longínqua e salobra. Mesmo as palmas de Cristo, incuradas, Pungem e lá não podem pescar.


A Isca Assim nova similitude nos é dada E dizemos: a alma é comparável A uma isca que uma criança descobre Sob a tampa corrediça de um porta-lápis, Vislumbrada uma vez e imaginada a vida toda À tona e livre e enrolando-se de parte alguma Uma estrela cadente voltando às trevas. Escapa dele e o queima sem prévio aviso Como a gota simples que o Rico implorou Precipitando-se num grande abismo. A seguir sai, o elmo polido de herói Exposto a meia-nau sobre as águas agitadas. Sai, alternativamente, luz de brinquedo Puxada através dele rio acima, a prender nada.


Sonhos de osso I Osso branco achado na pastagem: a rude, porosa linguagem do toque e a amarelenta, estriada impressão na relva— um miúdo navio-túmulo. Inerte como pedra, sílex-sina, pepita de greda, toco nele de novo, meto-o na funda da memória para atirá-lo contra a Inglaterra e seguir-lhe a queda em campos estranhos. II Osso-casa: um esqueleto nos velhos cárceres da língua. Rechaço de dicções, dosséis elisabetanos, estratagemas normandos, as eróticas flores de maio de Provença e os latins cobertos de hera de clérigos


até o zangarreio do bardo, o lampejo férreo de consoantes dividindo o verso. III Nas encofradas riquezas da gramática e das declinações acho ´han-hus´, sua lareira, seus bancos, caniçada e caibros, onde a alma adejou um pouco no forro do teto. Havia um pequeno pote para o cérebro, e um caldeirão de gerações volteava no centro: amor-covil, sangue-bosque, sonho-caramanchel. IV Retornam passadas filologia e fórmulas poéticas, reentram na memória onde o covil do osso é um ninho de amor na relva. Seguro a cabeça de minha dama como um cristal e ossifico-me contemplando: sou seixos em suas escarpaduras, um gigante de greda


esculpido em sua chapada. Logo minhas mãos, no fosso submerso de sua espinha, avançam rumo às passagens. V E terminamos nos embalando entre as bordas de uma trincheira. Enquanto aprecio por prazer o calçamento de suas juntas, os degraus giratórios de seus cotovelos, o valo de seu supercílio e o longo postigo da clavícula, começo a percorrer o Hadrian´s Wall de seu ombro, sonhando como Maiden Castle. VI Certa manhã em Devon achei uma toupeira morta ainda com orvalho em rosário. Imaginara a toupeira uma sega ossuda, mas lá estava ela miúda e fria como o aço de um cinzel. Disseram-me:– Sopre, sopre de volta o pêlo à cabeça. Aqueles pontinhos Eram os olhos.


E apalpe os ombros.– Toquei Peninos pequenos e distantes, uma pele de grama e grão fluindo para o sul.


CRÉDITOS Poemas copiados de HEANEY, Seamus. Poemas. Tradução de José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Letras in.verso e re.verso <http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br>


Seamus Heaney - poemas  

Catálogo com poemas do poeta irlandês Seamus Heaney.

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