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RUY BELO


RUY BELO


O QUE PROCURO EVITAR A TODO O CUSTO É REPETIR UM LIVRO, SE POSSÍVEL UM SIMPLES POEMA OU PROCESSOS POR MIM JÁ LEVADOS PORVENTURA ATÉ À EXAUSTÃO. CADA LIVRO MEU, QUERME A MIM PARECER, É UM LIVRO DIFERENTE DO ANTERIOR. RUY BELO


Poemas manuscritos de Ruy Belo


Manuscrito do poema “Relatório e contas”, de Ruy Belo


ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas é junto ao mar ao longo da avenida ao sol dos solitários dias de dezembro Tudo ali pára como nas fotografias É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar És tu surges de branco pela rua antigamente noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher (E nos alpes o cansado humanista canta alegremente) «Mudança possui tudo»? Nada muda nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas Deus anda à beira de água calça arregaçada como um homem se deita como um homem se levanta Somos crianças feitas para grandes férias pássaros pedradas de calor atiradas ao frio em redor pássaros compêndios da vida e morte resumida agasalhada em asas Ali fica o retrato destes dias gestos e pensamentos tudo fixo Manhã dos outros não nossa manhã pagão solar de uma alegria calma De terra vem a água e da água a alma o tempo é a maré que leva e traz o mar às praias onde eternamente somos Sabemos agora em que medida merecemos a vida


DECLARAÇÃO DE AMOR A UMA ROMANA DO SÉCULO SEGUNDO

Um dia passarão pelos meus versos como eu agora passo por diante destas esculturas que não merecem mais que um apressado olhar Mas na tua presença eu tenho de parar dama desconhecida com certeza mais viva mais aqui que no segundo século em roma onde viveste Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar decerto expressamente para que uns dezoito séculos mais tarde te pudesse encontrar quem mais que tu morreu mas te ama ó mulher perdidamente Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo sei que te conquistei e libertei de qualquer compromisso que tivesses Ninguém sabe quem eras nem eu próprio não tens sequer um nome uns apelidos nada se sabe acerca do teu estado civil Sei mais que tudo isso porque sei que atravessaste séculos na forma de escultura só para um dia nós nos encontrarmos Tenho mulher e filhos sou de longe a lei é rígida e severa a sociedade Não te importes mulher deixa-te estar não penses não te mexas podes estar certa de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar pois para ser diferente de quem era bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar


POEMA QUOTIDIANO

É tão depressa noite neste bairro Nenhum outro porém senhor administrador goza de tão eficiente serviço de sol Ainda não há muito ele parecia domiciliado e residente ao fim da rua O senhor não calcula todo o dia que festa de luz proporcionou a todos Nunca vi e já tenho os meus anos lavar a gente as mãos no sol como hoje Donas de casa vieram encher de sol cântaros alguidares e mais vasos domésticos Nunca em tantos pés assim humildemente brilhou Orientou diz-se até os olhos das crianças para a escola e pôs reflexos novos nas míseras vidraças lá do fundo Há quem diga que o sol foi longe demais Algum dos pobres desta freguesia apanhou-o na faca misturou-o no pão Chegaram a tratá-lo por vizinho Por este andar... Foi uma autêntica loucura O astro-rei tornado acessível a todos ele que ninguém habitualmente saudava Sempre o mesmo indiferente espectáculo de luz sobre os nossos cuidados Íamos vínhamos entrávamos não víamos aquela persistência rubra. Ousaria alguém deixar um só daqueles raios atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas? Mas hoje o sol morreu como qualquer de nós Ficou tão triste a gente destes sítios Nunca foi tão depressa noite neste bairro


TEORIA DA PRESENÇA DE DEUS

Somos seres olhados Quando os nossos braços ensaiarem um gesto fora do dia-a-dia ou não seguirem a marca deixada pelas rodas dos carros ao longo da vereda marginada de choupos na manhã inocente ou na complexa tarde repetiremos para nós próprios que somos seres olhados E haverá nos gestos que nos representam a unidade de uma nota de violoncelo E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura com os ao longe por muito tempo estudados perfis do monte mário ou de qualquer outro monte o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Montagem com fotos de Ruy Belo em diversas ocasi천es de sua vida.


Créditos Os dois primeiros poemas estão em O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor Os dois seguintes em Aquele grande rio Eufrates As imagens aqui reunidas, incluindo a da capa estão blog Cidade infinita.

Letras in.verso e re.verso <http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/>

Assinatura de Ruy Belo.



Ruy Belo amostra poética