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Wislawa Szymborska, pequenos detalhes


Traduzido do polonês ao espanhol por Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia Soriano e do espanhol para o português (livre) por Pedro Fernandes de O. Neto. Via El País, 5 de dezembro de 2009.


Pergunta: Ao escrever este livro pensava na morte? Resposta: Para mim a vida é uma aventura com data de validade. Quando estava na escola morreu uma professora e teve consciência da morte como algo natural. Com 86 anos penso igual que com 8. P. E isso influi quando escreve? R. Eu não escrevo sobre a morte. É uma das coisas mais fáceis de fazer em poesia. E não é verdade que tenha um poder ilimitado. Não se consegue tudo o que quer e quando quer. É certo que há poemas boníssimos sobre a morte, mas em geral, é fácil porque desperta sentimentos e emoções fáceis, a ternura e todo o resto. P. O amor também é um tema fácil? R. Ah, esse já não é tão fácil. E o mais difícil é o erotismo, que de fato é tocado muito pouco em poesia. Nunca li um poema que seja capaz de traduzir o que sucede entre duas pessoas. Falo do erotismo puro, não do amor como sentimento, que sim é mais fácil de expressar.


© AKPA Com o prêmio Nobel


P. Há mais literatura nos amores difíceis. R. Talvez, mas eu tive a grande sorte de viver alguns amores, e me recordo são muito fáceis. Mas não falemos de mim, que tudo isso já está nos poemas. P. Há palavras que trata de evitar especialmente quando escreve? R. As arcaicas e as grandiloquentes. Mas há palavras que utilizo raramente e com certas dúvidas. Quando tento descrever algo como “belo”, por exemplo. A beleza é uma ideia relativa, que depende da tradição e dos costumes e sobretudo dos gostos pessoais, que o leitor pode não compartilhar. Para mim, as catedrais românicas são mais bonitas que as góticas, a cerâmica mais bonita que a mais refinada das porcelanas e a boneca de pano com que na minha podia falar qualquer coisa, mil vezes mais bonita que essa horrorosa Barbie. Porque, a ver, sobre o que pode falar com uma dessas Barbies? Bom, talvez sobre trapos e esmalte para as unhas. P. Seus poemas falam dos grandes temas, mas parecem fugir das abstrações. R. Qualquer poema bom se converte de alguma maneira em algo abstrato. Mas sempre tem que ver com a realidade, com a vida do poeta ou com a vida dos outros. as coisas belas têm também algo de metafísicas... Não lhe vejo muito de acordo. P. Eu quis dizer que no poema Metafísica fala você do macarrão com tocinho. R. É que tudo termina sendo metafísico. Mas, mais que pelos grandes temas, a poesia se salva pelos pequenos detalhes. Há poemas antigos que hão sobrevivido graças a um só detalhe. Mas, temo que estou generalizando... sobre os detalhes [risos] P. O humor lhe serve para escrever sem vergonha sobre temas mais sérios? R. É minha forma de ser. Desde menina tive tendência a dar voltas a um assunto e buscar-lhe a parte cômica. Há questões, sem dúvidas, que


nem fazem rir, nem me hão feito nunca graça, nem me farão: o ódio, a violência, a estupidez agressiva. P. Quando menina lia poesia? R. Não. Em minha casa havia apenas dois livros de poemas do século XIX. E tampouco os lia. Sempre quis escrever romances grandes. No começo acreditava que se alguém aspirava ao título de escritor tina que se autor de romances de vários tomos e centos de páginas. Não passei dos contos medíocres. Um dia escrevi um poema, horroroso, e o passei aos que trabalhava comigo no jornal. Perguntaram-me: mas tu, que lês? Resultou que não conhecia os poetas contemporâneos. Havia lido muita narrativa, Thomas Mann, Proust, Dostoiévski, mas poesia, nem ideia. Eu tinha que me formar um pouco. P. Aprendeu algo como poeta escrevendo seus Leituras não obrigatórias? R. Minhas Leituras não obrigatórias não são realmente prosa séria. São uma espécie de artigos, às vezes sérios, às vezes divertidos, em ocasiões, inclusive, parecidos com a minha poesia. Embora, como lhe disse, comecei escrevendo contos. Mas isso foi depois da guerra. P. Como recorda a guerra? R. O melhor que posso dizer é que sobrevivi. Recordo a fome, o frio. Tive que trabalhar fazendo trincheiras na rua. Meu pai foi inteligente: muita gente fugiu de Cracóvia e se foi para Lvov, na atual Ucrânia, e passaram a formar parte da ocupação soviética. Sobrevivi, sim. Mas foi muita gente morta. P. Que função cumpre a poesia ante a crueldade do mundo? R. O mundo é cruel, mas merece também outros qualificativos mais compassivos. Se unicamente fosse cruel, a gente há muito tempo que não estaria aqui. Haveria aqui e ali alguns escombros e cresceriam algumas plantas. Plantas anônimas, porque não havia nada a que lhe desse nome.


Š Wislawa Szymborska. Paisagem com maletas.


Š Wislawa Szymborska. Menina na paisagem.


© Wislawa Szymborska. Homem caído com frase. “Pensa demasiado” ou “Pensamentos demasiados”, assim se traduz a ambígua frase dessa colagem.


© Wislawa Szymborska. Leão encima do carro. Da coleção do amigo Ryszard Matuszewski, que em 2008, publicou um volume de 100 páginas com todas as colagens que durante anos a poeta havia lhe enviado. Era costume seu enviar ao invés de postais, trabalhos dessa natureza.


Š Wislawa Szymborska. Dedo e mulher.


Š Wislawa Szymborska. Homem em banheira.


P. Que pensa da ideia de Adorno de que não se pode escrever poesia depois de Auschwitz? Suponho que para uma escritora polaca que vive a 70km desse campo de concentração a frase tem um significado especial. R. Adorno não tinha razão, e isso posso comprovar pessoalmente, porque vivi todavia mais de vinte anos depois de terminar a guerra. Nesse tempo foram feito poetas nada desprezíveis que escreveram poemas nada desprezíveis. Se esse trabalho houvesse carecido de sentido para que haveria servido? P. E pode um poeta escrever sobre a história? R. Embora seu desejo de não escrever sobre ela seja muito grande, é impossível evitá-la. Há poetas para quem a história é uma fonte direta de inspiração. Para mim os melhores nesse aspecto são Kaváfis [Konstantínos Kaváfis, poeta grego] e Zbigniew Herbert. Mas mesmo a poesia que não carece de qualquer referente histórico se inscreve para sempre escreve para sempre na história, já que utiliza uma linguagem que determina de forma exata onde e quanto nasce. A poesia supratemporal é uma ilusão idiota. P. A política estar destroçando a linguagem? R. Sempre tem destroçado. A linguagem dos políticos só serve para ocultar e não para expressar pensamentos. Mas alguns políticos não intentaria convencê-los de que foram sinceros: poderia dar-se o caso de que não houvesse nada a ocultar. P. Recorda o dia em que caiu o muro de Berlim? R. Estava em Cracóvia e foi um momento maravilhoso. Foram uns tempos inolvidáveis. A gente de Solidariedade era maravilhosa. Logo isso mudou e começaram a surgir coisas desagradáveis, mas então eram jovens e belos. Estávamos todos eufóricos ... Bom, agora perguntou eu: Está você casado? Tem filhos? De que parte da Espanha és?


P. É verdade que estou espanhol? R. Claro. Ia à aula com um professor que tenho a impressão de que se aprendia de memória o que ia dizer porque não sabia muito. Numa época em que entendia algo me empenhava em ler Cervantes com dicionário. E só recordo algumas frases: Hasta la vista! Me parece uma língua muito bonita. Um latim belamente mimado. P. Agora que lê? R. Sempre tenho lido pouca poesia. Nunca fui capaz de ler um livro de poesia desde o início até o fim. E falo dos bons. O que faço é ler um poema e deixá-lo. Logo retomo o livro, é assim. Como se pode imaginar, às vezes continuo em falta com gente que me manda seus livros porque tardo um ano em contestar-lhes com minha opinião, mas essa é minha forma de ler. P. E escreve? R. Como tenho pouco talento, necessito um silêncio de vários dias: sem ligações, sem visitas. Conheço pintores que podem trabalhar enquanto levam conversa. Em poesia isso é absolutamente impossível. Pensei que quando passasse o Nobel o tráfego se reduziria, mas não. P. E suas colagens? R. Inventei esses postais precisamente para que todo o mundo receba algo pessoal sem que eu tenha que escrever. E já terminamos? P. Creio que sim. R. Não se vá sem terminar a taça. Por certo, não me perguntou pelo feminismo. É que sempre me perguntam se sou feminista ou não. P. Você é feminista? R. Eu me nego a ter alguma etiqueta, mas na Polônia as feministas têm muitíssima razão e muitas coisas porque que lutar: por seus salários,


por direitos que têm a ver com seu corpo, porque sempre há questões reacionárias na igreja... Sonho com o momento em que as feministas não sejam necessárias. P. A Polônia mudou com a entrada para a União Europeia? R. Passou tão pouco tempo que é cedo para avaliar. Há problemas, claro está, porque inclusive em pais desenvolvidos que o nosso os há. Aqui temos problemas com a Igreja, precisamente, que já não segue o passo do desenvolvimento da ciência e da democratização da sociedade. Para mim, o dia em que a Polônia entrou na União Europeia foi um dia feliz. Estava só em casa e não tinha com quem brindar o futuro. Mas me servir de um taça de conhaque e passei por todas as fotografias das pessoas queridas que tenho em casa, e que não me chegaram a ver nesse dia.


Útima entrevista com Wislawa Szymborska  

Entrevista concedida a Javier Rodríguez Marcos com traduzido do polonês ao espanhol por Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia Soriano e do espanh...

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