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Setembro/2011 - edição 54 sesctv.org.br

Videobrasil Um mergulho na arte contemporânea do Sul geopolítico

Naturalmente As múltiplas referências culturais no trabalho de Antonio Nóbrega 1

Dança A inspiração nos filmes do cineasta Jacques Tati


Instrumental Sesc Brasil

Wagner Tiso inĂŠdito Dia 26/09, 23h

s e s c t v . o r g .b r youtube.com/sesctv

@sesctv


Arte sem fronteiras

As inúmeras classificações e nomenclaturas que as manifestações artísticas recebem, a partir do momento histórico ao qual estão inseridas e de suas características próprias, podem sugerir certa segregação entre as artes. Não há, porém, uma arte isolada, ou seja, a arte pressupõe também um intercâmbio entre as mais diversas técnicas, que se recombinam, gerando novas propostas e sendo, assim, fonte infinita de inspiração. É o que pode ser encontrado, por exemplo, no trabalho do pernambucano Antonio Nóbrega. Música, performance e dança se fundem, com referências que vão das composições eruditas à arte popular brasileira, numa prova concreta de que não há limites para a criação artística. Neste mês, o SescTV exibe a aula-espetáculo Naturalmente: Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira, um misto de performance e conversa com a plateia, com coreografias solo, duo e trio, que traz como pano de fundo essa compreensão mais ampla e menos sistematizada sobre a criação artística. Antonio Nóbrega também está na edição deste mês da Revista SescTV, em entrevista em que fala sobre sua trajetória e suas inspirações. A reflexão sobre a arte que rompe fronteiras também é tema do Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil, que chega à décima sétima edição como um evento que apresenta a diversidade de linguagens de artistas do hemisfério Sul. O SescTV exibe, a partir deste mês, programas exclusivos que ampliam os conceitos sobre arte, a produção audiovisual e a televisão. A curadora do festival, Solange Farkas, assina o artigo desta edição da Revista, analisando as contribuições da TV no contexto das artes. São novos desafios que se apresentam para a TV brasileira, neste mês em que celebra seus 61 anos, e que geram frutíferos debates na sociedade, seja no contexto da programação ou na regulamentação de novos marcos legais, tais como o Projeto de Lei 116, aprovado pelo Senado em agosto, que regulamenta a TV por assinatura no País. Boa leitura!

Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc SP

destaques da programação 7 entrevista - Antonio Nóbrega 8 artigo - Solange O. Farkas 10

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Música e Dança

Foto: Divulgação

A miscigenação da dança

origina o samba, palavra derivada de semba, ou seja, umbigada, no dialeto africano banto; a dos cortejos, representados pelos moçambiques, caiapós e folias de reis; e a dos espetáculos populares, nos quais se incluemas manifestações de reisado, bumba-meu-boi e cavalo-marinho.“O vídeo com o qual abrimos esse espetáculo representa uma espécie de amostragem de passos, saltos, giros, quedas, volteios, procedimentos coreográficos que povoam o rico imaginário corporal popular brasileiro, fruto de uma miscigenação que dura séculos”, explica. O espetáculo é composto de coreografias de grupo, solo e trio, realizadas por Nóbrega, por Maria Eugênia Almeida e por Marina Abib, intercaladas por conversas de Nóbrega com a plateia sobre os princípios de sua dança. Oito instrumentistas tocam, ao vivo, versões de músicas populares e eruditas. O espetáculo que será exibido pelo SESCTV foi produzido e lançado em DVD pelo Selo Sesc. A direção é de Walter Carvalho, e fotografia de Walter Carvalho e Pedro von Krüger.

Não há limites nem fronteiras entre a cultura erudita e a popular. Este é um princípio que norteia o trabalho do músico e dançarino pernambucano Antonio Nóbrega. Sua trajetória nas artes constitui-se de um permanente diálogo entre essas duas frentes, numa mostra das inúmeras possibilidades de rearranjos de ritmos e estilos. Parte dessas experimentações Nóbrega realizou ainda na década de 1970, no Quinteto Armorial, grupo de música instrumental brasileiro que, criado por Ariano Suassuna, levava as tradições populares à música erudita. Nos anos seguintes, Nóbrega aprofundou suas pesquisas sobre a cultura popular, em especial a dança. “O Brasil é o espaço onde fragmentos de imemoriais heranças culturais se encontraram e deram origem a inúmeras manifestações marcantes de presença corporal”, afirma. Segundo ele, a dança brasileira sintetiza essa mistura de influências. “As nossas danças são, na verdade, resultado de fragmentos de danças que foram transplantadas para cá e se desmantelaram. Para nossa sorte, esse desmantelamento não foi capaz de impedir que os pedaços se colassem novamente, dando origem a novos dialetos de grande riqueza de potencial coreográfico”, opina. Em 2010, Nóbrega teve a ideia de criar uma aula-espetáculo, com a junção de performance e fala, tendo como tema central a dança brasileira de matrizes populares, a qual chamou de Naturalmente: Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira. Segundo ele, o espetáculo organiza a dança brasileira fundamentando-a na cultura popular a partir de três grandes famílias: a dos batuques – presente no coco de roda, no tambor de crioula, no jongo –, de onde se

Aula-espetáculo de Antonio Nóbrega explora as possibilidades da dança na mistura do erudito e o popular

Especial Musical Naturalmente – Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira Concepção e direção: Antonio Nóbrega Dia 10/9, às 21h

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Videobrasil na TV

As artes do Sul Foto: Divulgação Videobrasil.

“O Videobrasil não se abre a todas as manifestações artísticas por acaso, mas como resultado de um processo que vem acompanhando a mudança do papel das linguagens audiovisuais na produção contemporânea”, explica a curadora-geral Solange Farkas. Esta edição presta uma homenagem ao artista dano-islandês Olafur Eliasson, com a exposição Seu corpo da obra, primeira individual do artista a ser montada na América Latina. “A particularidade de Eliasson é trabalhar com questões trazidas pela ciência, pelo cinema, pela tecnologia, de uma forma que já não comporta qualquer limitação por linguagem e que se impõe como experiência sensorial”, afirma Solange.

Em sua 17ª edição, o Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil chega à televisão

Vídeo Metade da fala no chão_Piano surdo, sobre a obra de Tatiana Blass

O Videobrasil nasce em 1983, com a reunião de artistas, documentaristas e profissionais do audiovisual interessados em experimentar as inúmeras possibilidades do vídeo. Em 1992, passa a ser realizado em parceria com o Sesc, e ano após ano consolidase como um evento de diversidade de manifestações artísticas contemporâneas, que passam a explorar as mudanças tecnológicas em instalações, performances, obras interativas e intervenções. Nomes como Bill Viola, Nam June Paik, Gary Hill e Coco Fusco (EUA), Peter Greenaway (Grã-Bretanha), Marcel Odenbach (Alemanha), Akram Zaatari (Líbano), Fabrizio Plessi (Itália), Robert Cahen (França), além de brasileiros como Eder Santos, Chelpa Ferro, Waly Salomão, Detanico e Lain, Arthur Omar e Marco Paulo Rolla – já foram referência no Festival. Em 2011, o Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil chega à sua décima sétima edição, incorporando pela primeira vez a televisão como uma de suas plataformas de ação. A partir deste mês, até janeiro de 2012, o canal apresenta uma programação semanal exclusiva: Videobrasil na TV. Os episódios, com 24 minutos de duração, proporcionam uma reflexão sobre a arte contemporânea e a contribuição da TV como suporte da arte e espaço de criação. Os programas estruturamse em torno de três eixos: história e conceitos; produção contemporânea; e participação do público (confira programação completa no quadro). O festival está presente também em três espaços distintos: as unidades do Sesc Pompeia e Belenzinho, respectivamente nas zonas oeste e leste da capital paulista, e a Pinacoteca do Estado, na região central.

Videobrasil na TV Segundas, 22h

17º Festival: uma introdução - Dia 26/9   Especial Art Idol - Dia 3/10 Panoramas do Sul: Ateliê Aberto - Dia 10/10 Panoramas do Sul: natureza e cultura - Dia 17/10 Panoramas do Sul: paisagens políticas - Dia 24/10 Panoramas do Sul: cartografias do afeto - Dia 31/10 Panoramas do Sul: máquinas de ver - Dia 7/11 Panoramas do Sul: premiados - Dia 14/11 Olafur Eliasson: arte e cidade - Dia 21/11 Olafur Eliasson: Seu corpo da obra - Dia 28/11 Arte, educação e formação: parte 1 - Dia 5/12 Arte, educação e formação: parte 2 - Dia 12/12 Seminários Panoramas do Sul 1 - Dia 19/12 Seminários Panoramas do Sul 2 - Dia 26/12   Seminários Panoramas do Sul 3 - Dia 2/1

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Dança

Nos passos de Tati Foto: Divulgação

de uma visão do mundo moderno. Fomos buscar nas obras dele a oportunidade de desenhar a comicidade do corpo”, explica. O espetáculo Tráfego integra a trilogia Influência, lançada pela companhia em 2008, e que consiste em aprofundar os estudos sobre gêneros teatrais, do cinema e da literatura, apropriando-se dos conceitos e transformando-os em coreografias. Criada em 1996, a Cia. Nova Dança 4 trabalha com a técnica do contatoimprovisação, resultado do encontro de Cristiane Paoli Quito, que vinha do teatro, com a coreógrafa Tica Lemos. “Esse encontro artístico foi bastante feliz: quando a gente encontra alguém em quem a gente imediatamente reconhece nossas ideias e imagens, quando a gente encontra alguém que dá esse suporte, a gente cresce, ganha confiança no nosso próprio processo criativo e artístico”, comenta Tica Lemos. O SescTV exibe o espetáculo Tráfego no dia 21/09, às 24h. Ainda este mês, o canal apresenta os inéditos Objeto Gritante, de Maurício de Oliveira & Os Siameses, dia 07/09; (Depois de) Antes da Queda, da Cia. Perdida, dia 14/09; e Calunga/Elgar, da Cisne Negro Cia. de Dança, dia 28/09. Direção geral de Antônio Carlos Rebesco “Pipoca”.

Duas pessoas caminham corriqueiramente pela rua, quando cruzam com um ciclista em direção a sua casa. Dois vizinhos jogam conversa fora e encontram um velho amigo, que se junta ao grupo. Pessoas acordam e se espreguiçam vagarosamente, antes de começar mais um dia. Um homem varre cuidadosamente a calçada, recolhendo as folhas secas. Cenas rotineiras, nas quais aparentemente nada acontece, mas que apresentam costumes e culturas e servem como ponto de partida para compreender a sociedade do século 20. Esse é o universo dos filmes de Jacques Tati, cineasta francês que viveu entre 1907 e 1982 e que assina a direção de Meu Tio (Mon Oncle, 1958) e Playtime (1970), entre outras obras. A aparente simplicidade presente nas narrativas de seus filmes revela seu olhar crítico sobre a sociedade moderna ocidental, pelo apego às inovações tecnológicas e pela superficialidade das relações humanas. “Em Jacques Tati, você tem uma vida acontecendo, as coisas vão se delineando. É uma vida comum, bastante ordinária, em que não há nenhum grande fato que a transforme. Mas são pequenos encontros e desencontros, que vão fazendo um dia e uma semana de um personagem”, analisa Cristiane Paoli Quito, que concebeu e dirigiu o espetáculo Tráfego, da Cia. Nova Dança 4, cuja proposta foi traduzir, para a dança, o cinema francês de Tati. “No trabalho dele, a percepção do desenho gráfico é muito forte. Na verdade, é um grande crítico da sociedade ocidental,

Espetáculo da Cia. Nova Dança 4 leva para o palco coreografia inspirada nos filmes do cineasta francês Jacques Tati

Dança Contemporânea Quartas, às 24h

Objeto Gritante – Maurício de Oliveira & Os Siameses Dia 07/09

(Depois de) Antes da Queda – Cia. Perdida Dia 14/09

Tráfego – Cia. Nova Dança 4 Dia 21/09

Calunga/Elgar – Cisne Negro Cia. de Dança Dia 28/09

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Coleções

A rima como ofício Foto: Giros Produções/Divulgação

de 1960 pelo apelido de Poeta Repórter. “Cordel é uma forma de literatura popular muito do povo. É o jornal do analfabeto: antigamente, muita gente aprendia a ler pelo cordel”, conta Soares, que vive com a família no município de Timbaúba, no interior de Pernambuco. “O habitat é muito importante para o cordelista. Por isso, vim morar no interior”, justifica. A construção da poesia de cordel segue regras rígidas, que exigem habilidade e vocabulário apurado. “Os poetas trabalham geralmente em cima de duas modalidades: a sextilha – estrofe de seis linhas –, e a setilha – estrofe de sete linhas. Quanto aos gêneros repentistas, há uma diversidade maior para trabalhar”, compara Soares. Apesar da aparente liberdade de criação, o repente também obedece às normas gramaticais. “Tem de ser bem metrificada, bem rimada, bem coordenada, tem de obedecer à concordância gramatical: plural e singular”, explica o repentista Ivanildo Vila-Nova. Para ele, cantar de improviso é um dom. “Para cantar de improviso tem de nascer com o dom, assim como se nasce com o dom de pintar, de fotografar, de dançar, de esculpir, de ser poeta sonetista, de escrever. Você apenas aperfeiçoa, lapida”, define ele. Neste mês, o SescTV exibe o episódio inédito Mestres de Ofício: Cordel e Repente, da série Coleções. Também compõem a programação Ofícios Urbanos; Luthier; Capoeira; e Arte Circense. A direção geral é de Belisario Franca.

“Cordelista deve ser / xereteiro e enxerido / pra ouvir disse me disse / e conversa ao pé de ouvido / e poder falar sem rogo / à mulher que tocou fogo / no negócio do marido”. Habilidade de contar histórias em texto rimado e, muitas vezes, tendo o humor como linguagem – assim se caracterizam o repente e a literatura de cordel, práticas que são símbolo da cultura popular brasileira, presentes especialmente nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Os folhetos são expostos em cordas, explicando assim a origem do nome: Cordel. Além do texto em rimas, os cordéis trazem ilustrações feitas em xilogravura. Já o repente pode ser definido como um duelo amigável. Em geral, os repentistas apresentamse em duplas. Ao som da viola, um repentista canta de improviso, em tom de provocação. Ao final de seus versos, passa a vez para o colega, que responde. “O violeiro repentista cria o verso na hora, a partir de um mote. O cordelista é mais um poeta de bancada, como é o meu caso e como era o de meu pai. A diferença é essa: um poeta de bancada senta-se sobre uma banca com papel e uma caneta e faz o verso. Leva alguns minutos, até horas. E o poeta repentista faz na hora, ali, em questão de segundos”, explica o poeta cordelista e xilógrafo Marcelo Soares, que herdou esse ofício do pai, José Soares, conhecido na década

Símbolos da cultura popular nordestina, cordel e repente criam versos que retratam as histórias e a vida cotidiana

Coleções Quintas, 21h30

Mestres de Ofício: Cordel e Repente Dia 01/09

Mestres de Ofício: Ofícios Urbanos Dia 08/09

Mestres de Ofício: Luthier Dia 15/09

Mestres de Ofício: Capoeira Dia 22/09

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entrevista

Foto: Paulo Preto

‘Precisamos nos valorizar’

Quando desperta seu interesse pela música? Quem descobriu essa vocação foi meu pai. Quando eu era criança, tinha o hábito de ficar batucando na mesa, na hora das refeições. Ele pensou que eu levava jeito, acho que tinha razão (risos). Meu pai decidiu me pôr para estudar violino. Eu tinha uns dez anos de idade. Estudei na Escola de Belas Artes, que naquele período vivia um bom momento, com professores chegados da Europa, dentre os quais o espanhol Luís Soler. Mas nesse processo acabei abrindo mão de muitas atividades próprias dos meninos daquela idade, como jogar bola, porque às vezes eu me quebrava e isso poderia prejudicar os estudos.

Antonio Nóbrega é músico, compositor e dançarino. Estudou violino na Escola de Belas Artes de Recife e tocou na Orquestra Sinfônica de sua cidade, mas aos 18 anos de idade viveu uma reviravolta em sua trajetória, quando recebeu o convite de Ariano Suassuna para integrar o Quinteto Armorial, grupo de pesquisas musicais que misturava referências da cultura popular brasileira e da música erudita. A partir de então, Antonio Nóbrega faz uma imersão pelas raízes culturais brasileiras, rearranjando e reinterpretando essas referências em espetáculos de música e dança. Após apresentar a aula-espetáculo Naturalmente: Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira, publicada em dvd pelo Selo Sesc, ele se prepara para realizar um documentário de longa-metragem sobre sua carreira e o trabalho do Instituto Brincante, que ele criou.

O senhor tocou em orquestra e poderia ter seguido carreira na música erudita, mas envereda para a cultura popular. Como se deu essa mudança? Eu estudava violino, e

ao mesmo tempo fazia o colegial, e depois o préuniversitário. Queria ser diplomata. Por isso, cursei um pouquinho de Direito. Como gostava muito de ler, acabei estudando Literatura também. Além do estudo da música. Juntei um pouquinho de cada curso. O responsável por essa mudança foi Ariano Suassuna. Eu tocava na Orquestra de Recife, tinha uns 18 anos de idade. Um dia, ele me viu num concerto e me convidou para integrar o Quinteto Armorial, um grupo que ele estava montando para estudar a cultura brasileira.

” Eu não sou um artista popular. Nem por minha origem social nem por minha formação musical. Sou um artista que se identifica com ambas e que procura criar uma simbiose, porque me acordei para isso”

Hesitou em aceitar o convite? Aceitei na hora, mesmo

não sabendo nem o que era uma rabeca (risos). Esse convite me abriu para o acesso à cultura popular. Eu não conhecia o maracatu. Naquela época, a cultura

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popular era ainda mais afastada do que é hoje. Era um mundo à parte. Fiquei muito encantado e seduzido pelo que descobri. Comecei a estudar essas manifestações, num primeiro momento não de modo intelectual, mas para entender melhor a musicalidade presente no toque do tambor, no jeito de cantar, nos passos de dança. E tudo isso através da festa, do universo lúdico. Desde a década de 1970, venho vivendo as diferentes etapas de estudos sobre esse tema.

Como a TV poderia contribuir para ampliar a divulgação da cultura brasileira? Deveria ser prioridade divulgar

a cultura do Brasil. Para nos valorizar. Temos o que mostrar, por sermos jovens, por nossa riqueza cultural e de imaginação. A Europa vem de construções maravilhosas, de enorme contribuição para a humanidade, mas vai haver um momento em que ela vai se exaurir, enquanto nós estamos em processo de expansão. Mas não nos entendemos e não nos valorizamos. Nossa visão é incompreensiva desse estrato cultural. Aquilo que nos caracteriza enquanto identidade, como o tal jeitinho brasileiro, que é nossa generosidade, nosso envolvimento com os outros e predisposição para resolver as coisas, quando em exagero torna-se algo dispensável.

Em que grau sua passagem pelo Quinteto Armorial mudaria sua trajetória profissional? O Quinteto é a pedra

angular de tudo o que passei a fazer depois. Entre os anos de 1970 e 1980 tive meu período mais rico de convivência com a cultura popular. Além do mais, tive a oportunidade de estar num grupo que reinterpretava tudo isso e com a orientação de Ariano Suassuna. Os ensaios eram realizados na casa dele, eram um misto de sarau, estudo e festa. Minha formação teve influência masculina nas figuras de meu avô, que era escritor e tinha uma biblioteca, de meu pai, que me incentivou a estudar música, e do Ariano.

Como surge a ideia do espetáculo Naturalmente...? Ao criálo, o senhor cita que ficou na dúvida se ele daria certo, no conceito de aula-espetáculo. Como o senhor avalia hoje o resultado do projeto? O espetáculo deu certo.

Nas últimas apresentações, até mencionava isso para a plateia. E avalio esse resultado por alguns aspectos. Primeiro, porque hoje temos uma visão muito aberta sobre o que é espetáculo. Qualquer proposta pode ser chamada de espetáculo. A ideia de inserir falas entre as coreografias tinha de ser para dizer algo interessante, para fazer sentido para quem está lá sentado. A plateia mostrou-se muito interessada e atribuo isso ao desconhecimento que temos sobre a dança brasileira. Nesse sentido, esse projeto se mostra muito original e foi para mim uma surpresa ter recebido, com ele, prêmios que nunca tinha conseguido antes.

Em que momento da carreira o senhor passa a dedicarse também à dança? A dança entra de enxerida, sem

ninguém chamar (risos). Nessas incursões pelo universo popular, tive contato com muitos dançarinos. Exemplo: o Mateus, que é o palhaço do bumba-meu-boi. No teatro popular, diferentemente do teatro europeu, a palavra não tem tanta primazia, e há um imaginário corporal muito forte. A dança está presente no frevo, no pífano, na capoeira. Fui procurando assimilar esse vocabulário e, além da música, incorporar esse outro universo específico dos movimentos.

Naturalmente... é surpreendente, porque rompe com a dicotomia erudito versus popular... O ocidente nos deu

uma visão dicotômica: o erudito versus o popular. No caso da arte, esse conceito não pode reproduzir isso, porque a gente cria obras que não saberia dizer se pertencem a um ou a outro. Um exemplo é o choro de Pixinguinha, que guarda elementos dessas duas frentes, com toda a sua complexidade. Essa classificação é muito ocidental. A mídia sempre me colocou como um artista popular. Eu não sou um artista popular. Nem por minha origem social nem por minha formação musical. Sou um artista que se identifica com ambas e que procura criar uma simbiose, porque me acordei para isso. Nutri isso em mim. O que trago é o encontro entre duas linhas do tempo cultural: a da festa e a do rigor da forma e da clareza dos movimentos. Eu consegui criar um dinamismo entre essas duas heranças.

Em sua opinião, de que modo a mídia e a TV abordam a cultura brasileira? A gente nunca entendeu a cultura do

povo como um bem cultural cuja representatividade dá a ele o lugar que ele merece. Se a gente observa o que é considerado arte brasileira, ou seja, o samba, o baião, o choro e até a arte erudita, percebe que, sem a contribuição da cultura popular, nada disso existiria. A questão é que essa arte brasileira foi construída de maneira perversa, pelo modo como os negros chegaram ao Brasil, pela forma como os índios foram quase dizimados e pela razão da vinda dos imigrantes para cá. Mas dessa mistura nasce a riqueza de ter tanto a tradição da cultura europeia, com suas referências da arte erudita, quanto a da cultura dos negros e a dos índios. A mídia, tal como a vejo, acompanha o que a ordem vigente hegemônica determina. Está ligada ao poder da indústria cultural. Não existe, por exemplo, um veículo que coloque dentro dessa proporcionalidade de programas, toda a gama da cultura brasileira. Hoje você não ouve Pixinguinha no rádio. Nem Chico Buarque nem Chico César. E muito menos Antonio Nóbrega.

“A gente nunca entendeu a cultura do povo como um bem cultural cuja representatividade dá a ele o lugar que ele merece” 9


artigo

Vídeo, TV, Videobrasil Em 1983, o vídeo era um suporte novo e desafiador para artistas de todo o mundo, fascinados com as ainda inexploradas possibilidades da imagem eletrônica e de aparatos de captação e edição acessíveis. O Videobrasil nasceu nesse ano, com caráter pioneiro: foi um dos primeiros festivais no Brasil a abrir espaço ao então novo meio. Entre vídeos, performances e instalações, o Festival captou um tom geral de crítica ao monopólio da TV, terreno até ali fechado a essa nova arte. O vídeo – que ora se aproximava da videoarte, ora apontava na direção do cinema, ora tentava reinventar a sintaxe televisiva – ainda buscava um canal de exibição coerente com o que se anunciava como uma nova linguagem. Ao longo das edições seguintes, o Videobrasil se definiria como ponto de confluência, plataforma de lançamento e vitrine para uma nova geração de criadores brasileiros. Aglutinados em torno de produtoras independentes de vídeo, como Olhar Eletrônico e TVDO – das quais sairiam nomes como Fernando Meirelles e Marcelo Tas –, sua linguagem inovadora começava a conquistar público e a articular uma aproximação com a televisão. Esse movimento se fez presente no Festival para além do âmbito da mostra competitiva, na forma de uma cobertura televisiva própria, desenvolvida especialmente pela TV Abril – então um dos polos de absorção das ideias da nova geração do vídeo. Em 1988, o Festival abre sua programação a convidados internacionais e amplia o projeto de uma cobertura televisiva com o inovador Videojornal, realizado pela TV Cultura. Pela primeira vez, uma emissora aberta cobre o Videobrasil ao vivo, com inserções diárias na programação, e exibe os trabalhos premiados em sua grade. Nos anos 1990, o Festival assume a concepção e realização – sempre em parceria com novos criadores e produtoras – de making ofs, boletins, entrevistas e retrospectivas em vídeo, que se incorporam à programação, ainda sob o nome Videojornal. O caráter de cobertura prevalece em formatos variados, como um miniestúdio montado no espaço do Festival para colher impressões de artistas e público. Nos anos 2000, o Festival aproxima-se do campo das artes visuais, por meio de edições dedicadas a linguagens como performance e cinema, com segmentos expositivos importantes e convidados como o cineasta britânico Peter Greenaway e a performer norte-americana Coco Fusco. A intensificação desse diálogo está em sintonia com a inserção crescente do vídeo e da imagem em movimento

no circuito da arte contemporânea, em um contexto que favorece as contaminações entre as linguagens artísticas. Nesse período, a produção de registros do Festival, que prossegue, aprofunda seu compromisso com o experimentalismo, gerando formatos inovadores como o RG, série de miniperfis de artistas, participantes e convidados. Plataforma para a arte O 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC – Videobrasil no SESCTV, que acontece a partir de setembro, marca uma mudança importante: a abertura da mostra competitiva Panoramas do Sul a todas as linguagens artísticas. O movimento ajusta o Festival à natureza das práticas artísticas contemporâneas, numa tentativa de confrontar a enorme produção de representações que constitui o território da visualidade no mundo de hoje. Alinhada a esse norte, a programação Videobrasil na TV configura-se não mais como um registro, mas como plataforma adicional para a fruição dos conteúdos do Festival, ao lado do Sesc Belenzinho, do Sesc Pompeia e da Pinacoteca do Estado, onde acontecem as exposições Panoramas do Sul e Olafur Eliasson – Seu corpo da obra. A série de programas semanais, que se estende de setembro de 2011 a janeiro de 2012, afasta-se deliberadamente do conceito de cobertura para explorar as possibilidades de fruição da arte contemporânea na TV. Conteúdos exclusivos, concebidos e formatados para explorar as possibilidades específicas do meio televisivo, somam-se a um ambiente visual que adapta para a TV a direção de arte do 17º Festival, sublinhando a coesão conceitual entre suas várias plataformas. A proposta amplia o espectro do Festival, que passa a articular-se, também, a partir da percepção da TV como espaço de criação, reflexão e construção de sentidos em torno da produção artística contemporânea. Um sensível salto qualitativo em relação às produções televisivas anteriores do Festival, a programação Videobrasil na TV retoma e intensifica as aproximações criativas do evento com as possibilidades da televisão, para ampliar seu potencial de formação e difusão de conhecimento e ajudar a promover diálogos entre artistas, curadores, críticos e público.

Solange O. Farkas é curadora-geral do 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC – Videobrasil. 10


Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

último Bloco

SescTV na ABTa A versatilidade do violão

O SescTV participou, entre os dias 9 e 11 de agosto, da Feira da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura – ABTA, realizada no Expo Transamérica, em São Paulo. A feira reúne profissionais de televisão, operadoras de TV por assinatura e a indústria eletrônica, para fazer negócios, demonstrar novos serviços e produtos tecnológicos e discutir sobre o futuro dos meios de comunicação. Esta é a segunda vez que o SescTV participa do evento com um estande para exposição de conteúdos.

Virtuoses do violão apresentam a variedade de técnicas e estilos desse versátil instrumento na série Movimento Violão, que o SescTV exibe às sextas-feiras deste mês, sempre às 19 horas. Considerado um dos principais intérpretes da nova geração, Fabio Zanon destacase pela desenvoltura no violão clássico, como solista e músico de câmara. Tendo iniciado os estudos na cidade paulista de Jundiaí, em pouco tempo ele acumulou importantes títulos internacionais, como o Concurso Francisco Tarrega, na Espanha. Dia 16/09. Também serão exibidos episódios com o alemão Franz Halász, dia 23/09; e com o Brasil Guitar Duo, dia 30/09.

Preto no branco A artista plástica Ana Maria Maiolino costuma definir seus trabalhos como arte de contraste. “Eu sou preto no branco”, resume. Não por acaso, essa italiana, que cresceu na Venezuela, encantou-se pela xilogravura dos cordéis nordestinos quando, aos 18 anos de idade, veio para o Brasil. As gravuras estão presentes na primeira fase de sua carreira, na década de 1960. Nos anos seguintes, depois de uma temporada nos Estados Unidos, ela passa a trabalhar também com o metal e o papel. Dentre suas obras mais famosas está Arroz e Feijão (1979), uma mesa de jantar que traz, nos pratos, mudas desses dois alimentos. A instalação foi remontada na Bienal de Artes de São Paulo de 2010. A série Artes Visuais apresenta dois episódios inéditos com Ana Maria Maiolino, nos dias 21/09 e 28/09, às 21h30.

Receita para casar Diz a tradição popular de origem religiosa que uma moça interessada em se casar deve fazer simpatia para Santo Antônio. Na cidade cearense de Barbalha, distante 600 quilômetros da capital, a festa dedicada ao santo casamenteiro mobiliza toda a população entre os dias 1º e 13 de junho. A origem dos festejos remonta dos idos de 1860, época em que o padre Biapina pediu para hastear a bandeira do santo padroeiro no adro da igreja. O SescTV exibe, no dia 13/09, às 20h, o documentário O Sagrado e o Profano, com direção de Caio Quinderé, que relembra as origens da festa e suas tradições, como o martelo dos hereges e a Cachacinha do Senhor Vigário.

O SESCTV é credenciado pelo Ministério da Cultura como canal de programação composto exclusivamente por obras cinematográficas e audiovisuais brasileiras de produção independente em atenção ao artigo 74º do Decreto nº 2.206, de 14 de abril de 1997 que regulamenta o serviço de TV a cabo. Para sintonizar o SescTV: Aracaju, Net 26; Belém, Net 30; Belo Horizonte, Oi TV 28; Brasília, Net 3 (Digital); Campo Grande, JET 29; Cuiabá, JET 92; Curitiba, Net 11 (Cabo) e 42 (MMDS); Fortaleza, Net 3; Goiânia, Net 30; João Pessoa, Big TV 8, Net 92; Maceió, Big TV 8, Net 92; Manaus, Net 92, Vivax 24; Natal, Cabo Natal 14 (Analógico) e 510 (Digital), Net 92; Porto Velho, Viacabo 7; Recife, TV Cidade 27; Rio de Janeiro, Net 137 (Digital); São Luís, TVN 29; São Paulo, Net 137 (Digital). No Brasil todo, pelo sistema DTH: Oi TV 28 e Sky 3. Para outras localidades, consulte sesctv.org.br

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo

Presidente: Abram Szajman Diretor Regional: Danilo Santos de Miranda

A Revista é uma publicação do Sesc São Paulo sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social. Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Rua Cantagalo, 74, 13.º andar. Tel.: (11) 2227-6527 Coordenação Geral: Ivan Giannini Editoração: Andressa Gonçalves e Fabio Pagliuca Revisão: Maria Lúcia Leão Supervisão Gráfica e editorial: Hélcio Magalhães

Direção Executiva: Valter Vicente Sales Filho Direção de Programação: Regina Gambini Coordenação de Programação: Juliano de Souza Coordenação de Comunicação: Marimar Chimenes Gil Redação: Adriana Reis Divulgação: Jô Santina e Jucimara Serra sesctv.org.br atendimento@sesctv.sescsp.org.br

Este boletim foi impresso em papel fabricado com madeira de reflorestamento certificado com o selo do FSC® (Forest Stewardship Council ®) e de outras fontes controladas. A certificação segue padrões internacionais de controles ambientais e sociais.

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Movimento Atividades fĂ­sicas, esportes, consciĂŞncia corporal, bem-estar, qualidade de vida e cidadania.

Estreia em outubro

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Revista SescTV - Setembro de 2011