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De 10 a 13 de Novembro de 2015



Com o aumento das ocorrências de violência no país e com as ondas dogmáticas manifestando-se em escala internacional, é necessário cautela e responsabilidade para que perigos iminentes não se transformem numa cultura do medo generalizado, que mantém a muitos num estado permanente de imobilidade, ignorância e submissão. Pelo contrário, cabe aos movimentos sociais encamparem as disputas que se abrem e acirram, historicamente, simbolicamente, defendendo os valores da liberdade e da livre expressão. Procurando contribuir com essa perspectiva, o Sesc São José dos Campos, em nova parceria com a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, órgão encarregado pela política municipal de cultura, propõe o projeto Intolerâncias – coexistência em conflito. Trata-se de um ciclo de encontros que intenciona refletir sobre o atual cenário sociopolítico das intolerâncias no Brasil por meio de um panorama histórico da violência no país, dos desdobramentos da mídia nesse cenário, de fatos envolvendo diversos temas como religiões, raças e sexualidades, além de pensamentos que constituem grandes narrativas em torno do futuro do humano diante da fragilidade dos contatos e dos afetos. Com essa ação educativa e cidadã, o Sesc se mantém em diálogo permanente com o tempo presente, buscando destacar a diversidade da produção de reflexões na atualidade, o debate das questões de fundo do cenário contemporâneo e o fomento tanto das experiências de formação e compartilhamento quanto do exercício do espírito crítico. Sesc São José dos Campos


A Fundação Cultural Cassiano Ricardo e o Sesc São José dos Campos realizaram no ano de 2014 o seminário “Lugares da Cultura” que possibilitou uma rica reflexão sobre o tema. Dando continuidade a essa parceria, agora realizamos o seminário com o tema Intolerância. Aliás, uma discussão necessária em tempos nos quais a diferença motiva guerras, agressões, estigmas, ameaça de toda ordem, humilhações e desumanização. Em uma sociedade hierarquizada como a nossa que lança um véu de invisibilidade a relevantes expressões individuais e coletivas, diversas manifestações e possibilidades de existência humana não podem ser impedimentos para coexistências entre as pessoas. Infelizmente, o que vemos é que questões étnico-raciais, religiosas, de gênero e da sexualidade humana são motivos para que verdades absolutas se aflorem e se tornem intolerância e, como decorrência, a violência, rotineira. A Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em consonância com a “Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais” de 2005 da UNESCO, pensa e executa políticas públicas diferenciadas no sentido de promover a igualdade de acesso a grupos com suas expressões culturais específicas e, consequentemente, ampliar a cidadania, contribuindo para a criação de um ambiente de coexistências pacíficas. Esperamos colaborar com o debate atual e, desta maneira, disseminar a cultura de paz, visando um mundo melhor para o nosso presente e para o nosso futuro. Fundação Cultural Cassiano Ricardo


Dia10/11 Terça - 19h

Origens das Intolerâncias

Paradoxos da intolerância Vivemos um aparente paradoxo no Brasil: no momento em que entra na vida política brasileira a primeira geração criada sob uma Constituição (1988) conhecida por seus dispositivos de proteção social, sob pleno regime democrático (1989) e de estabilidade econômica (1994), ganham força inédita intolerâncias de toda ordem. A intolerância é um fenômeno próprio da sociedade brasileira desde a sua fundação e atingiu o ápice ao longo dos séculos 19 e 20. No século 21, porém, a força da comunicação pela internet expõe, acelera e acirra os atritos e as batalhas culturais. Diversas militâncias políticas ganham protagonismo e poder de articulação, mas forças reacionárias de intolerância recebem igual impulso, sobretudo desde 2013, que se revelou uma espécie de “Maio de 1968” conservador. Ressurgem jargões, clichês e palavras de ordem da política dos anos 1960 (“reaça”, “não passará”, bandeiras do Brasil, camisas da Seleção etc.), no clima binário e maniqueísta dos antigos festivais de MPB. A geração dos festivais, esmagada pela ditadura que se consolidaria com o AI-5 em 1968, aprenderia nas décadas seguintes a ganhar o poder político num contexto de adversidade e tensionamento no debate. Exercícios de tolerância e convivência foram necessários para a conquista da redemocratização do país. Esse processo resultou numa sociedade conservadora do ponto de vista político e econômico, mas com perfil cultural marcado pelos valores da esquerda e liberal em comportamento. No momento atual, quais são as forças reguladoras (e desreguladoras) da intolerância? Em que medida a imposição do gosto da maioria ou da média – desejável no mundo dos negócios, porém desastrosa do ponto de vista político – tem sido usada como pretexto para esmagar a diferença, sem a qual não há chance para a tolerância? Paulo Werneck é jornalista, editor, tradutor de livros e curador da Flip.


Dia11/11 Quarta - 14h

Raças e etnias

A arte e a religião na guerra dos povos Os pontos determinantes da intolerância racial da escravidão até os dias atuais: • A arte e a religião na guerra dos povos; conceito de raça; nação, etnia, por um pensamento de Octávio Paz. • Escravidão e criminalidade. • Violência policial no Brasil e no mundo desde o tráfego de escravos até aos dias atuais. • A guerra cultural no Brasil no período pós-abolição da escravatura. Pré-modernismo. • A influência da migração europeia no período entre guerras (Primeira Guerra Mundial – de novembro de 1918 até a Segunda Guerra Mundial de 1945). • O indígena em comunhão com os africanos, pouco foi escravizado, porém excluído de todas as formas. • A luta dos artistas modernistas para incluir a cultura negra e indígena na formação da cultura brasileira: “Manuel Bandeira conversava com Heitor Villa-Lobos, Ernesto Nazaré, Jacob do Bandolim e Rui Barbosa sobre a música que se fazia na Pedra do Sal e em toda aquela região”. Depoimento de Donga ao MIS (Museu da Imagem e do Som). • A repressão do estado na cultura de origem africana no início do século até os anos de 1930. • Os produtores, jornalistas e intelectuais de toda sorte acompanhados da força da cultura africana: Arnaldo Guinle, Irineu Marinho, Frederico Figner, Hilário Jovino, Tute, Catulo da paixão Cearense, Jacob do Bandolim, Ricardo Albin, Santos Dumont, Mario de Andrade, Radamés Gnatali, Coelho Neto, Lauro Muller (que era ministro das relações exteriores), Floresta de Miran-da, Embaixador Morgan, Antonio Maria Passos, Irineu de Almeida. • Racismo e preconceito social fazem nascer a Umbanda dentro de um templo espírita em São Gonçalo Rio de Janeiro. • Evangélicos e criminalidade.


• Ataques às religiões de origem africana. • A violência policial do samba ao funk e ao hip hop. Paulo Lins é poeta, romancista, roteirista de cinema e televisão e professor de línguas Portuguesa e Brasileira da UFRJ.

Raças e etnias A intolerância, ou a incapacidade de entender e de aceitar as diferenças, corroborando a estigmatização e impondo a exclusão social do diferente, é uma marca latente do processo histórico de formação da sociedade brasileira. É uma marca cultural, um vício da cultura política. A gênese deste processo está na própria integração compulsória das Américas e de seus povos ao processo de desenvolvimento da economia mercantil do capitalismo. No caso brasileiro, foi com a conquista portuguesa e com a transformação do território em colônia de produção e de exploração dos produtos tropicais, portanto da imposição da plantation, do latifúndio, da cristianização, do extermínio e da escravização dos índios e dos negros, que se formataram as condições para a vigência da intolerância como uma forma fundamental dos relacionamentos político e social. O modo de produção escravista impôs como modelo para a acumulação a questão da superexploração do trabalho. A escravidão negra, instituição que se desenvolveu pari passu ao desenvolvimento do capitalismo agroexportador dos trópicos, importou na supressão da própria condição de igualdade como termo fundante do contrato social moderno. E nunca é demais lembrar que a ausência da igualdade como princípio do relacionamento social transforma o direito em privilégio de uns contra todos, diminuindo as possibilidades políticas da referência à humanidade como princípio universal, como o fundamental contraponto às diferenças. Foi negando a igualdade humana que a raça e a ideologia do racismo galgaram um espaço soberbo na marcação e na legitimação das hierarquias sociais. Um fetiche das elites


corroborando a violência e o arbítrio como forma efetiva de manutenção das relações de poder, isto muito para além da própria vigência histórica da escravidão. Quer se dizer que os efeitos desta disposição das coisas – que informam desde sempre os pressupostos de uma cultura política autoritária – têm o poder de percorrer o tempo, maquiando o seu caráter anacrônico na disposição de traduzir as mudanças sem mudar o que é essencial: a manutenção das hierarquias sociais. Sua conseqüência mais trágica é a permanência do arbítrio e do privilégio de certos segmentos minoritários da população sobre a ampla maioria, ou a produção de uma modernidade excludente, cujo fito é a revalidação das prerrogativas de poder de uns poucos sobre muitos. É a permanência das hierarquias em detrimento da expansão da cidadania, como eixo da dominação política, referenciando o racismo e a exclusão social dos negros, dos índios, dos mestiços, dos pobres, dos miseráveis, afinal, assim interessa a própria exploração econômica destes segmentos. A dominação, neste estado das coisas, requisita a violência institucional, o arbítrio policial e a negação do direito como forma sistemática do controle social. A intolerância torna-se a norma deste contato na mesma intensidade e proporção do seqüestro (ou da outorga pelo Estado) da noção de justiça pela autoridade policial, isto na sua ação cotidiana, de imposição da ordem nos ambientes ditos marginalizados. Enfim, estes marginais de sempre, os pretos e pobres, transformam-se em propriedades da polícia, como outrora seus descendentes foram propriedades de seus senhores. É neste sentido que a cultura da intolerância permeia a formação da nossa cultura política: como instrumento ou ideologia capaz de justificar a arbitrariedade e de conformar à deseducação, tão necessária à vigência das formas de exploração econômica e política que ratificam a acumulação em detrimento da distribuição social dos seus benefícios. Marcos Florindo é sociólogo e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.


Dia11/11 Quarta - 19h

A violência na mídia

A mídia e a espetacularização da violência Normalmente, o termo “espetacularização” remete a um imaginário configurado por cenas de grande impacto, grandiosas ou surpreendentes, extraordinárias. Mas esse é apenas um aspecto, talvez o menos importante do conceito. No sentido atribuído pelo intelectual, militante e ativista francês Guy Debord, no seu livro seminal A sociedade do espetáculo (1967), a “espetacularização” consiste num processo social, cultural, político e ideológico extremamente complexo, organizado e estruturado pela mídia, mediante o qual a produção infinita de imagens, notícias e mensagens publicitárias, bombardeadas incessantemente pelas emissoras de televisão e rádio, jornais e, hoje, os meios digitais, conduzem os seres humanos à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo capitalismo. O “espetáculo”, portanto, é uma narrativa totalizante, é o resultado e sustentáculo de relações sociais. Nessa perspectiva, a sociedade está contaminada pelas imagens, sombras simplificadas daquilo que efetivamente existe. Assim, por exemplo, a tragédia dos refugiados é apresentada como fruto da violência entre tribos africanas, entre grupos extremistas fanáticos islâmicos ou do atraso que impede que povos se organizem de forma eficaz contra tragédias naturais, como no caso do Haiti. Em todos os casos, a narrativa simplificadora apela ao preconceito de raça (povos negros da África e do Haiti), religioso (o Islã como uma crença que produz o fanatismo) e cultural (o Oriente atrasado e caótico em oposição ao Ocidente democrático, civilizado e “limpo”). Não se diz que a crise dos refugiados é, no plano histórico geral, um resultado da agressão bárbara aos povos da África e do Oriente Médio, submetidos a um selvagem processo de colonização que atravessa os séculos. Não se diz que a atual crise foi acelerada e ampliada pelo ataque ao Iraque, em 2003, orquestrado com base numa mentira – a de que Sadam Hussein, supostamente, tinha um arsenal de armas de destruição em massa, e era vinculado ao grupo Al Qaeda. Não se diz que a maioria dos grupos jihadistas hoje em ação receberam treinamento e armas dos próprios Estados Unidos.


Como nada se explica e tudo se mostra, ficamos impactados pelas imagens dos refugiados afogados no Mediterrâneo e, sem conseguir extrair qualquer sentido daquelas cenas, preenchemos as narrativas com nossos próprios preconceitos e emoções (por exemplo, sentimentos de compaixão), mas mantendo-nos passivos diante de algo que nos parece inevitável, quase que um dado da natureza. A violência surge como resultado óbvio e natural da vida, não como resultado da ação humana e, portanto, passível de ser transformada. Esse é o processo que coloca a própria mídia no lugar da organizadora da violência que ela própria se encarrega de transformar em espetáculo. José Arbex Jr é historiador, jornalista e professor da PUC-SP.

As carniças do século 21 O registro jornalístico e imagético de um jovem amarrado a um poste e surrado por um grupo de pessoas, ali mesmo, na rua, com as mãos atadas, sob a acusação de ser um bandido que inferniza um bairro de classe média, pode ter supostos reflexos sociais tão distintos, como causar uma onda de novos linchamentos ou provocar debates sobre a dignidade humana, a depender do tipo de narrativa aplicada ao fato e da maneira com que ele foi apresentado ao público. Uma briga de crianças na porta de uma escola pode significar, na ótica midiática, tanto a oportunidade de ganhar pontos de audiência diante de um “murro impressionante”, como pode abrir caminho para uma discussão a respeito da falta de segurança nas escolas. A multiplicação das maneiras de capturar cenas do cotidiano - sejam elas tragédias ocultas em presídios fedorentos ou flagras, até então, banais entre gangues de garotos -, impõe aos meios de comunicação aumento da responsabilidade de peneirar notícias, de garantir direitos, de apresentar fatos de relevância e repercussão legítimas. Embora a violência como espetáculo de mídia, em um recorte mais literal, esteja atrelada aos antigos


e resistentes formatos televisivos do chamado “espreme que sai sangue”, o potencial de fazer com que fatos policiais se tornem carniça para um público ávido de vingança, de prazer cruel, de justiçamento, é gigantesco com a acomodação de conteúdo fornecida pelas novas plataformas de comunicação. Diante dessa possibilidade da modernidade de multiplicar os videoclipes sangrentos e ou virulentos por meio das redes sociais, que dão rapidamente às publicações aura de notícia, de apuração jornalística, alargam-se também os atropelamentos de dignidade, de respeito às diferenças, de proteção mínima a valores humanos, de resguardar crianças e adolescentes. E nesse terreno fértil, o espetáculo da violência deixa de ter como protagonista apenas seus personagens mais convencionais, o jovem negro, o motoboy, e passa a abarcar elementos sociais que, de alguma maneira, estavam mais protegidos por razões culturais, éticas ou legais. O problema aí é a falta de uma condução mínima que garanta aos fatos (vídeos, fotos) expostos algum tipo de mediação construtiva, de elementos adicionais ao estrito ato de violência que agregue conhecimento, amplie valores humanos, descaracterize preconceitos e conceitos rasteiros. A multiplicação das manifestações de intolerância por meio de publicações regadas à violência não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da mídia tradicional, que tem seus ranços e vícios e que, muitas vezes, se apropria do que ocorre nas mídias mais modernas. As novas plataformas de comunicação ampliam liberdades, propiciam manifestações divergentes, mas jogam pólvora em lacunas de caráter, em extremismos e em fanatismos de toda ordem. Talvez um novo papel do jornalismo, da imprensa, seja atuar de maneira mais entusiasmada, incisiva e didática diante dos excessos sanguinolentos que “viralizam” na rede e engolem grupos, gêneros e diferenças diversas. Tudo isso, sem descuidar do próprio quintal. Jairo Marques é jornalista da Folha de São Paulo e autor do blog Assim como você.


Dia12/11 Quinta - 14h

Gêneros e sexualidades

As estreitas relações entre intolerância, diferenças e violência Racismos, sexismos, homofobias, muitas vezes articulados, de forma recorrente, operam na chave da “brincadeira”, uma forma de não levar a sério os significados das imaginações postas na produção cultural, mas principalmente uma forma de desresponsabilizar os autores pelos conteúdos, cada vez mais, propalados pelas redes sociais. Neste encontro, busca-se estabelecer um diálogo sobre a constituição dos discursos que se conectam para produzir identidades, refletindo sobre como variadas mídias se retraem na cobertura de determinados eventos, muitas vezes, silenciando sobre o cerne da questão: os estreitos limites entre intolerância, diferenças e violência. Preconceitos não são, e nunca foram, aceitos como “comportamentos corriqueiros”, mas talvez hoje os movimentos sociais, mais fortes e organizados, estejam mais atentos às violências corriqueiras que, se não vão à justiça, porque não configuram “crimes”, são passíveis de questionamento moral de seus divulgadores. E aqui não se trata de ser politicamente correto, mas de entender que a denúncia de quaisquer tipos de violência é um caminho certeiro para educar a sociedade em outros moldes, cujas diferenças – de sexo, de gênero, de raça/etnia, de sexualidade, de nacionalidade, entre tantas outras - não aloquem os sujeitos em posições sociais mais ou menos hierarquizadas, muitas vezes, utilizadas para explicar diferentes tipos de violência. Vivemos em um momento de acelerada sociabilidade em rede que propicia a denúncia de violências, de intolerâncias, mas que também estimula a proclamação de ódios. “Dizer tudo” sem pensar nas consequências, como disse Eliane Brum, passou a ser confundido com autenticidade e com liberdade. Iara Beleli é historiadora, professora e coordenadora do Núcleo Pagu da Unicamp.


Práticas de si, práticas da liberdade: arte contemporânea e a crítica cultural feminista Os papéis de gênero e as múltiplas vivências das sexualidades e dos corpos são historicizáveis e constitutivos do debate político contemporâneo sobre as multiplicidades e a pluralidade cultural. Nesse cenário, as categorias de sexo e de gênero vêm sendo profundamente desnaturalizadas e desconstruídas pelo pensamento feminista, evidenciando práticas culturais que subvertem a ordem estabelecida, seja na arte, nos movimentos sociais, em performances corporais transgressoras ou nas reinvenções das subjetividades espalhadas por todas as partes. Diante dos embates históricos existentes no Brasil entre a luta das mulheres e as violências simbólicas e sociais contra seus corpos, suas autonomias política e subjetiva, seus prazeres e desejos, nos perguntamos sobre as práticas de liberdade impulsionadas por subjetividades feministas na contemporaneidade, potentes, sobretudo, na imaginação criadora feminina. São linhas de fuga, espaços de resistência às normas e ao controle, aqueles gerados por obras de arte em nosso tempo, estimulando a reflexão sobre nós mesmos em um sentido dos afetos, das potências de vida e da empatia com o trauma. Quando a intolerância, muitas vezes em seu rosto mais cruel, veste sua face autoritária e submete as diferenças a uma vontade de poder, somos levados a refletir sobre os caminhos, avanços e impasses de nossas experiências de resistência. Um crescente antagonismo social é percebido em nosso cotidiano, ganhando tons fascistas nas redes sociais, nas inscrições misóginas ou racistas em banheiros públicos, em universidades, em violentos ataques coletivos aos “suspeitos” de nosso tempo etc. – indicando como muitas vezes o anonimato e o sentimento aparente de proteção propiciado pelas novas tecnologias ou pelas multidões fazem crescer tiranias e pequenos tiranos. Nesse ambiente falsamente politizado, todos parecem sentir-se no direito de opinar acerca das práticas, das escolhas, dos modos de vida e conduta dos demais, esquivando-se da difícil tarefa


de construção democrática dos consensos provisórios, do entendimento e diálogo penoso com as diferenças, apenas possível num face a face e na criação de subjetividades éticas e libertárias. Incitados pelo pensamento do filósofo francês Michel Foucault, sobretudo em seus escritos e cursos acerca das práticas de si, das subjetividades e sobre como os indivíduos constituem-se como sujeitos, problematizaremos essas práticas de poder cotidianas enquanto construções sociais, culturais e históricas – fortemente acentuadas em sua tonalidade violenta numa sociedade de controle que, incessantemente, como delineou Gilles Deleuze, nos demanda ser mais criativos, capacitados e flexíveis, em nome da competição do mercado. Por todos os lados vemos a imposição de papéis sexuais e de normas biopolíticas sobre os indivíduos que atacam a vivência livre de nossos corpos e desejos. Técnicas ainda mais cruéis e normalizadoras recaem sobre aqueles que ousam transgredir as supostas verdades médicas, religiosas ou científicas, ao que pagam, inúmeras vezes, com a violência sobre seus corpos e até mesmo com suas vidas, como afirma a pensadora feminista Judith Butler. Luana Saturnino Tvardovskas é historiadora e professora convidada da Unicamp.


Dia12/11 Quinta - 19h

Crenças e religiões

Desdobramentos das intolerâncias envolvendo crenças, religiões e pretensas verdades absolutas É na disputa entre religiões, ou entre facções de uma mesma religião, que se manifesta uma das agressões sociais mais odiosas do nosso tempo: a intolerância religiosa, que significa a rejeição de quem crê em outras verdades, cultua outros deuses ou segue outros profetas. Diferenças étnicas e de classes, posições políticas, orientações sexuais têm sido fontes de intolerância, mas é na religião que ela assume a forma mais aberta, porque a religião impõe ao fiel que suas verdades são absolutas, únicas, definitivas, imutáveis e excludentes. O oposto do que ocorre na ciência, em que as verdades são provisórias e sujeitas à prova empírica. Enquanto para a ciência a verdade se constrói na busca sistemática, que nunca se completa, para a religião a verdade nasce pronta e acabada, é um ato de fé, imposição de um dogma, em muitos casos revelação sobrehumana. No Brasil atual, não precisamos de lentes especiais para enxergar os casos de intolerância religiosa se multiplicando dia após dia. Casos que, na quase totalidade, resultam da perseguição sistemática e constante promovida por várias igrejas evangélicas contra religiões afro-brasileiras, institucionalmente mais frágeis que seus oponentes. É preciso entender para fazer cessar as causas e razões dessa guerra religiosa, invisível para a maioria, crescente e avassaladora, que pode mudar a face cultural do Brasil, apagando uma de suas fontes mais importantes, o nosso lado africano. Do contrário, exemplos do que nos espera lá na frente estão aí, fartamente expostos em cada noticiário internacional, em cada explosão de um homembomba, em cada menina em fuga lançada morta numa praia em terra estranha.


Acredita-se que a perseguição sofrida pelas religiões afro-brasileiras, antes promovida pela polícia e órgãos da imprensa, resultava da simples transferência do preconceito racial contra o negro para tudo que também tem a África na origem, caso da capoeira, do samba, da religião e tudo mais que fosse, no fundo, negro. Com o tempo, parte dessa herança cultural foi assimilada, as religiões deixaram de ser perseguidas e ganharam proteção da lei. Mas novos inimigos se levantaram entre pentecostais e neopentecostais e se fizeram mais determinados e implacáveis, legitimados pelas verdades de sua religião. A intolerância só mudou de mãos. Nessa questão de intolerância observada no Brasil, esse tipo de explicação baseado no preconceito racial que se estende dos homens às suas instituições faz sentido e deve ser considerado, porque é real e deletério, mas há também outras possíveis razões a se levar em conta, sobretudo a da velha diferença entre o monoteísmo e o politeísmo, que situa em opostos irreconciliáveis as religiões monoteístas evangélicas e as religiões politeístas afro-brasileiras. Concepções de aceitação e rejeição religiosas são muito diferentes entre religiões politeístas e monoteístas, desde os tempos antigos e clássicos. Vale a pena não deixar isso de lado quando olhamos para o que ocorre em nossa modernidade. Reginaldo Prandi é sociólogo, escritor e professor sênior da USP.

A intolerância religiosa e o Estado Laico no Brasil No caso do Brasil, algumas igrejas evangélicas têm sido ao mesmo tempo promotoras e vítimas da intolerância para além do campo estritamente religioso. O pentecostalismo tem-se tornado parte da paisagem das periferias. A forte presença, a visibilidade e a exposição dos pentecostais nas periferias e favelas das metrópoles implicaram mudanças no cotidiano das pessoas que ali vivem e está mudando também o modo de ser pentecostal. Se, até pouco tempo, era impensável qualquer forma de convivência de uma igreja pentecostal com o crime, hoje é possível encontrar traficantes que se dizem pentecostais. Ao mesmo tempo em que as igrejas estão nos territórios do crime, os criminosos estão nas igrejas. Esse é, talvez, o preço que o pentecostalismo paga pelo seu crescimento e pela luta na conquista de hegemonia religiosa nas periferias.


Nas periferias das grandes metrópoles brasileiras, a política, a religião e o crime organizado interagem entre si na composição do cotidiano local. Os moradores se vêm diante de suas opções religiosas e da necessidade de tornar a vida viável em áreas onde a presença do Estado é rarefeita ou, contraditoriamente, indesejada, e onde o crime faz e garante um tipo de ordem social. A realidade nas periferias é marcada pela presença rarefeita de um Estado que desde os tempos coloniais nunca se mostrou capaz de garantir o monopólio da violência, abrindo espaço para o surgimento de grupos que disputam a legitimidade no exercício do poder. Mas a presença evangélica não é notória apenas nas periferias das cidades. Ela é visível também nas instâncias maiores do Poder. Se o Estado está ausente nos territórios pentecostais, estes estão bem presentes nas estruturas estatais. Em ambas as pontas da ordem social os pentecostais são mal vistos e mal recebidos. Na ponta de baixo por modificarem o modo de ser do brasileiro, por eliminarem as manifestações folclóricas da cultura tradicional como o carnaval, o samba, as festas religiosas e mesmo os cultos afro-brasileiros. Na ponta de cima são criticados por agirem no Congresso de forma contrária aos interesses de uma classe média, ilustrada e bem pensante. Os pentecostais são sempre indesejados, com sua forma impositiva de vivência e experiência religiosa. Contra a atuação dos parlamentares evangélicos no Congresso, tem-se levantado o debate sobre o Estado Laico brasileiro. Esse é um assunto controverso, pois não se sabe exatamente qual deve ser o lugar da religião no ordenamento social de um regime que se pretende democrático. A ideia de laicidade acaba sendo usada como bandeira para aguçar o clima de intolerância e preconceito em nossa sociedade. A compreensão das raízes dessa situação, e das razões do comportamento evangélico, se torna necessária para abrirmos os caminhos para o convívio verdadeiramente democrático. Edin Sued Abumanssur é cientista social e professor do programa Ciência da Religião da PUC-SP.


Dia13/11 Sexta - 19h

O futuro do humano diante das intolerâncias

O futuro do humano e as intolerâncias do presente Em nossos dias, a direção do olhar é atraída para a imagem do mundo que emerge com o surgimento da física quântica e os avanços atuais da tecnociência na área da bioquímica, da biologia molecular, da genética, da neurofisiologia e da robótica. A figura formada por essa constelação parece a realização da sonhada supremacia humana sobre as demais criaturas do universo. Asseverando a crença do Iluminismo, o homem parece poder doravante tomar nas próprias mãos a planificação e o controle das condições de sua existência no planeta. Nessas condições, como herdeiros dessa tradição, a pergunta pelo futuro do humano não pode prescindir, em nossos dias, de uma reflexão aprofundada sobre as ciências e as técnicas, uma vez que com elas produziu-se não apenas a alteração substancial da cosmovisão, mas também uma mudança radical na autocompreensão ética da espécie humana. Nesse cenário, parece que enfrentamos hoje uma figura de intolerância diferente da tipicamente religiosa ou político-ideológica. Somos intolerantes para com tudo que não tenha a forma do aproveitamento ou da utilização. Sugiro dar a isso o nome de intolerância do inútil. Nossa cosmovisão científica hegemônica é essencialmente pragmática e utilitária, de modo que, para nós, unicamente o que é útil é importante e imprescindível. Sustentamos uma única exigência incondicional e imperativo categórico, formulado em termos de utilidade e aplicação prática. O que nos faz falta hoje em dia é uma retomada da humildade do pensamento, temos, mais do que nunca, uma urgente necessidade do inútil, como condição da liberdade. A liberdade talvez se apresente hoje como necessidade de assumir nossa própria indigência e pobreza, de transformá-las em plenitude e riqueza. Oswaldo Giacoia Jr é filósofo e professor da Unicamp.



Apoio:

Realização:

Sesc São José dos Campos

Av. Adhemar de Barros, 999 TEL.: +55 3904 2000 faleconosco@sescsp.org.br sescsp.org.br/sjcampos /sescsjcampos


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