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TrajetĂłrias uma breve reflexĂŁo sobre nossas matrizes culturais 2018


Presentes “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.” Carlos Drummond de Andrade.

Nas culturas tradicionais cabe às gerações mais velhas preservar e transmitir códigos, valores e saberes essenciais para o bem comum. Na falta de modelos educativos formais, esses exemplos de autoridade inspiram uma conduta a ser seguida. Para esses indivíduos - e sociedades - a perda da memória coletiva poderia ser um golpe devastador, pois embotaria as referências de identidade e unidade construídas pela comunidade. No mundo contemporâneo, os lugares e papéis sociais tornaram-se mais flexíveis e intercambiáveis. A despeito de certa hegemonia das mídias de massa, uma pluralidade de vozes alcançou representação, produzindo discursos, questionando valores, experimentando novos arranjos e possibilidades de interagir no mundo. Diante das complexidades em disputa, os mais velhos foram sendo marginalizados; contudo, respeitar suas vivências, e se beneficiar de suas experiências e contribuições, denota uma atitude de convivência e cooperação entre os diversos grupos sociais. É nesse sentido que o Sesc realiza o projeto Trajetórias, com curadoria do jornalista Romualdo da Cruz Filho, que promove um espaço de compartilhamento entre idosos, protagonistas em suas áreas de atuação, e a comunidade piracicabana, tendo como ponto de partida aspectos da vida profissional dos convidados, o cotidiano e a dimensão pública que os colocam em sintonia com as gerações atuais e as questões instigantes da contemporaneidade. A questão do acelerado envelhecimento da população mundial enseja reflexões e transformações urgentes. Envelhecer é um processo natural que começa assim que se nasce. Assim, ao promover a cultura do envelhecimento por meio da valorização de idosos atuantes na comunidade, revelam-se inusitadas pistas de presente, a servir como bússolas, nessa aventura que é viver. Sesc São Paulo


Trajetórias Valorizar sua “gente”, que é sua identidade e a força motriz de uma cidade aberta a novas influências, mas que, ao mesmo tempo, busca preservar seus valores tradicionais como centro irradiador de uma cultura caipira, seja pela diversidade étnica, sotaque específico, pelo rio, pela sua posição geográfica, pelo acaso, pela força política, ou por todos esses fatores somados e misturados. A proposta é promover encontros com pessoas que se dedicam ao mundo do conhecimento e da arte e participam ativamente da dinâmica cultural e social da cidade, refletindo sobre a riqueza do material que produziram ao longo da vida e o valor que ainda preservam como fontes de pesquisa; e avaliar o significado desse longo processo e suas implicações pessoais, pensar sobre o processo de envelhecimento e as lembranças que marcaram o tempo. Os homenageados desta edição são referências em: artes plásticas, arquitetura, música e meio ambiente; escolhidos a partir dos seguintes critérios: reconhecimento público, vasta produção em suas respectivas áreas de especialidade e idade. Os encontros possuem uma estrutura flexível e interativa, com um entrevista ao vivo, complementada por esquetes e intervenções teatrais e musicais. Na conversa com o jornalista, cada convidado poderá falar sobre sua formação, os caminhos trilhados, os artistas e pensadores que os influenciaram, o resultado do seu trabalho e a relação com o seu processo de envelhecimento. Os encontros, dinâmicos e instigantes, realçam o protagonismo social do entrevistado e a importância do seu trabalho para se compreender a sociedade e a “Cultura Caipiracicabana”. O objetivo é provocar o convidado para que surjam histórias ainda pouco conhecidas pelo público em geral e que merecem ser compartilhadas, permitindo assim, um olhar caleidoscópio sob as matrizes culturais de uma cidade em permanente processo de transformação.


Umberto Cantoni Dia 18 de abril | às 19h

Natural de Franca é tradutor, poeta, regente de coral e professor. Sua formação musical aconteceu em São Paulo. Estudou órgão, piano, harmonia, composição e principalmente regência de coral nos Estados Unidos, em Nashville, Tennessee e no Westminster Choir College em Princeton, New Jersey. Membro da Igreja Metodista regeu o coro da Igreja Metodista Central por 16 anos e o Coral Evangélico em São Paulo por 40 anos. Regeu também os coros das Faculdades de Direito de São Bernardo do Campo, do Largo São Francisco, de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e do Coral Evangélico de Piracicaba (este como fundador). Dirigiu vários seminários de música sacra no Instituto José Manoel da Conceição em Jandira e na Chácara Flora, Santo Amaro, ambos em São Paulo. Lecionou na Universidade Metodista de Piracicaba. A convite do reitor Elias Boaventura, trouxe novas ideias sobre a prática musical para o meio estudantil, que foi aos poucos deixando de ter apenas uma função litúrgica, para assumir um caráter mais abrangente, que contemplava outros repertórios e variados estilos, com destaque para hinos e canções ligadas à Teologia da Libertação. Nos 22 anos de atuação na UNIMEP criou os seguintes corais: Coral Universitário do Campus Centro, Campus Taquaral, Campus Santa Bárbara D`Oeste, Coral do Movimento Negro e Grupo Regência Coral . Em 1987 auxiliou na criação do Núcleo Universitário de Cultura, o NUC, que envolveu também projetos com o teatro e o cinema como forma de educar. À frente do NUC realizou uma parceria entre os Corais Universitários e o Grupo de Teatro, que culminou na apresentação de “A Missa da Terra Sem Males”, de Pedro Casaldáliga e Martin Tierras, em vários palcos do Brasil e exterior, denunciando o massacre da população indígena na América Latina. Foi responsável pela criação do Festival Nacional de Canto de Piracicaba e Águas de São Pedro até 2010, na sua XIV edição.


Maria Elisabeth Elias Moraes “Beth Elias” Dia 20 de junho | às 19h Nascida em 1946, formada em economia pela UNIMEP, entrou para o mundo das artes plásticas muito cedo. Aluna de Alberto Thomazi, ainda menina, dedicou-se com afinco à aquarela e à pintura acadêmica, mas tinha um gosto especial pelo bordado e enveredou por acaso na linguagem naïf, a partir do ano 2000. Essa data, por sinal, marca sua trajetória como artista que sempre teve uma de suas obras escolhidas para as bienais naïfs, do Sesc Piracicaba, a partir de 2002. Essa aproximação com o Sesc levou-a a uma amizade de grande valor para sua nova fase criativa, pois foi durante as bienais que conheceu o consagrado artista naïfs Valdomiro de Deus, que se tornou seu amigo, hospedando-se em sua casa sempre que vinha à Piracicaba e cujas obras passaram a ser sua imensa fonte de inspiração. Ainda pelo Sesc, Beth Elias participou da exposição itinerante Futebol e Paixão, que partiu do Memorial da América Latina, em São Paulo e percorreu várias cidades do interior do estado. Em seus relatos, a artista gosta de dizer que no mundo da arte tudo aconteceu de forma surpreendente para ela. Pois nunca se considerou uma artista relevante e nunca nutriu qualquer vaidade, mas as coisas foram acontecendo de forma rápida e as pessoas passaram a procurá-la para saber de sua produção, impulsionando-a no trabalho. Beth tornou-se uma artista apaixonada pelas possibilidades criativas do estilo naïf. Paralelo a isso, no ambiente familiar, é conhecida pela sua facilidade de guardar elementos importantes da história social de Piracicaba, por isso, tornou-se fonte informal de informações para o seu irmão, o historiador e jornalista Cecílio Elias Neto, com quem sempre colaborou.


Paulo Leme Affonso Machado Dia 22 de agosto | às 19h É apontado como um dos grandes nomes do direito ambiental brasileiro e o doutrinador mais importante na área, pelas obras publicadas e a vida dedicadas à matéria. Em matéria ambiental, seus posicionamentos são sempre citados nos julgados do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. Nascido em São José do Rio Pardo, em 1939, ganhou o título de Cidadão Honorário de Piracicaba, pela Câmara Municipal. É autor de inúmeros livros, que se tornaram referência mundial na área. O professor colaborou com a Assembleia Constituinte de 1988 e vários dos muitos dispositivos constitucionais que versam sobre a questão ambiental são de sua redação. Seu currículo é extenso e expressivo: promotor de justiça aposentado pelo estado de São Paulo; mestre em direito ambiental pela Universidade Robert Schuman de Estrasburgo, na França; doutor em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; doutor honoris causa pela Universidade Estadual Paulista e pós-doctor pela Universidade de Limonges, também na França. Atualmente é professor titular da Universidade Metodista de Piracicaba. É professor visitante das Universidades de Quebec, no Canadá, de Milão, na Itália, de Bucareste, na Romênia, de Andaluzia, na Espanha, Lyon III, Córsega e Limoges, na França, além de pesquisador na Universidade de Louisiana, nos Estados Unidos.


João Chaddad

Dia 24 de outubro | às 19h Nasceu em 1935, em Piracicaba. Formou-se em arquitetura pelo Mackenzie, São Paulo, no início dos anos 60, período em que ingressou no serviço público, durante o governo de Luciano Guidotti. Além de ter participado da construção de quase duas dezenas de edifícios na cidade, foi responsável pelo projeto do Clube de Campo e do Cristóvão Colombo, bem como da construção e reforma de tantos outros patrimônios públicos, como a igreja da Vila Rezende, a Biblioteca Municipal e a Estação da Paulista. No final dos anos 60, foi presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Piracicaba. Na década seguinte, tornou-se professor de desenho técnico e arquitetura da Fundação Municipal de Ensino, período em que projetou o bairro Nova Piracicaba, chamado de Cidade Satélite. Durante a gestão de Antonio Carlos de Mendes Thame (1993 -1996), assumiu as secretarias de Trânsito e de Transportes e Obras. Foi vice-prefeito de Humberto de Campos (1997-2000) e de Gabriel Ferrato (2013-2016). Durante o governo Barjas Negri, comandou por oito anos o Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba. Filho de libaneses, seu pai era mascate na zona rural. Chaddad levou uma infância humilde, morou no distrito de Artemis, onde viu os trens de carga transportando cana para as usinas de açúcar. Aos 83 anos, mantém-se ativo na profissão.


Ermelindo Nardin Dia 28 de novembro | às 19h

Piracicabano nascido em 1940 é um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. De família de artistas, ainda muito jovem foi aluno de frei Paulo Maria de Sorocaba, no Seráfico São Fidelis, onde vivenciou momentos da arte pictórica, o que o estimulou a dar sequência aos estudos no campo da estética, se destacando como professor e pintor. Estudou na Escola de Belas Artes de São Paulo entre 1957 e 1962 e, paralelamente, fez curso de história da arte com Wolfgang Pfeiffer, de desenho e pintura com Augusto Barboso, de história da estética com Renato Cirell Czerna, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand (Masp), onde tinha em Pietro Maria Bardi um amigo e admirador. Ministrou curso de xilogravura na Escola de Belas Artes de São Paulo, entre 1961 e 1962. Fez doutorado em Artes na Universidade de São Paulo em 2002. Foi professor titular da Universidade Estadual de Campinas e da Faculdade Santa Marcelina. Realizou, em 1968, sua primeira exposição individual no Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (MACC). Em 2005, realizou exposição no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), onde foi lançado o livro Nardin - Coleção de Artistas da USP. Foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como melhor desenhista de 1980. Em 1983 o Masp publicou o livro Retratos Imaginários de Ermelindo Nardin 1978/1983, com texto de Jacob Klintowitz. O reconhecimento da qualidade de sua produção o levou a realizar várias exposições nacionais e internacionais. Hoje, fazem parte do acervo de grandes colecionadores e de alguns dos principais museus do Brasil e do mundo. A crítica especializada sempre o tratou com muito carinho e consideração nas suas mais diversas fases criativas.


Foto: Gustavo Vitti

Romualdo Filho

Fotos: Thiago Altafini

Mediador e idealizador do projeto, o jornalista é mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, foi editor de cultura do Jornal de Piracicaba e repórter de A Tribuna Piracicabana. Na dissertação de mestrado analisou o quadro O Derrubador Brasileiro, de Almeida Júnior, com destaque à cultura regional, em especial a de Itu, para dimensionar o caipira representado na obra e seus múltiplos significados. Atualmente é assessor de imprensa da Prefeitura de Piracicaba.


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