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INFORMATIVO SEMANAL JORNAL PONTE GIRATÓRIA # EDIÇÃO 4 # MAIO 2013


JORNAL PONTE GIRATÓRIA   Edição Valmir Santos (MTB 22.457/SP)   Textos Clarissa Falbo e Paula Melo

Revisão Renata Pimentel   Projeto Gráfico Rafa Mattos   Apoio Assessoria de Comunicação do Sesc PE Contato: pontegiratoria@gmail.com www.sescpe.com.br O Jornal Ponte Giratória é uma ação integrada ao 7º Festival Palco Giratório Recife, realização conjunta do Sesc PE e do Departamento Nacional do Sesc. Os artigos opinativos não refletem, necessariamente, o ponto de vista da publicação.

SATISFEITA, YOLANDA?

www.satisfeitayolanda.com.br O blog das jornalistas Ivana Moura e Pollyanna Diniz colabora com o festival na recepção crítica aos espetáculos.

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www.sescpe.com.br/palcogiratorio

Ninguém cria no lugar do outro

Leandro Lima/Sesc PE

Presidente Josias Silva de Albuquerque   Diretor Regional Antônio Inocêncio Lima   Diretor de Administração e Finanças Wladimir Paulino Vilela   Diretora de Atividades Sociais Sílvia Cavadinha   Diretora de Educação e Cultura Teresa Cristina Ferraz   Gerente de Cultura José Manoel Sobrinho   Coordenadora do Festival Palco Giratório Recife Galiana Brasil   Assessora de Comunicação Maíra Rosas

PENSATA

SESC PERNAMBUCO

PENSATA

Expediente

Encenador e professor observa o quão o ato de extrema solidão na arte pressupõe consciência individual Por José Manoel da Silva Sobrinho Dezoito horas e trinta minutos. Numa sala ampla, aos poucos, um a um os alunos-bailarinos vão chegando, cuidam para que seja preservado o silêncio nervoso de um primeiro encontro com o novo professor. Nem o tempo consegue prescrever o comportamento de um aluno em seu primeiro dia de aula. São instáveis os minutos que antecedem o início da primeira abordagem. Com esse grupo não é diferente. É o meu encontro com a turma do Curso de Formação do Intérprete Pesquisador em Dança, realizado pelo Acupe Grupo de Dança, com recursos do Funcultura/Governo de Pernambuco. Repito o ritual da minha primeira aula desde 1977, quando fui iniciado neste universo, e procuro entender o que se passa na cabeça de um jovem que pretende entrar no jogo dinâmico da criação artística. Percebo que prevalece a fantasia ingênua de o que seja aventurar-se por esses caminhos. É muito longe o estado de consciência crítica. Estágio oportuno para a provocação, para o primeiro problema, para pensarmos coletivamente acerca do lugar do criador na arena da atualidade quando os espaços estão dissolvidos, as experiências estéticas levam a arte a lugares de extrema vulnerabilidade, a imagem em movimento prevalece subvertendo o sentido de temporalidade, a visão turva dos territórios revigora o sentido de cultura. A imagem fixa antes responsável pela delimitação das fronteiras, das divisas e dos limites, agora muda de significado. Afinal, o que é esse jeito pessoal de se fazer arte hoje? Uma das características mais fortes do jeito de se fazer teatro, dança e circo era a sua natureza coletiva, um trunfo, quase um elemento de defesa nos embates com as políticas constituídas. Eram as artes coletivas os principais inimigos do Estado autoritário, autocrático e hegemônico. As lutas coletivas fizeram surgir categorias que, mobilizadas, criaram suas estratégias de defesa em busca das liberdades corroídas e mutiladas. Mas não é este o principal mote da questão agora, estamos querendo falar de processos criativos e todos sabem que criar é um ato de extrema solidão e pressupõe tomada de decisão por parte do indivíduo. Afinal, ninguém cria no lugar do outro. Promove-se naturalmente certo isolamento, quase um voltar-se para dentro de si, uma individualização. Por mais que prevaleça o preceito de coletividade, criar tem a mesma dinâmica de nascer e morrer: cada um é por si, pelas vias da respiração.

Cena em processo de Cara da mãe, dirigida por Luciana Lyra A esta altura dos acontecimentos, com o caminhar das aulas, o aprendiz já deve ter percebido que a escrita poética do corpo é um ato de extrema solidão; que o desafio de estar só diante do público é uma forma de desnudamento, uma forma de devastação do território fixo e confortável. Estar criando é colocar-se na zona de evidência das contradições, e dói. A sua ética é que lhe auxiliará. Nesta etapa, ele, o bailarino-aluno, começa a entender que é um poeta da dança, que dançar é um ato poético, que a dança é a sua língua poética e ressignificadora. E para tal mergulha no caos com a coragem dos desbravadores em mares desconhecidos. Decidir-se pela condição de criador representa reconhecer-se como gestor de sua própria caminhada. É um ato de protagonismo político assumir o seu próprio caminho. É a afirmação do criador-intérprete como protagonista na sua estrada. E, por fim, constata o desafio que é conduzir-se mantendo o estado de indivíduo que cria para afirmar-se no grupo. Raciocínio similar aplica-se ao público, coletivo que é constituído por indivíduos, também criativos, com escolhas próprias, preferências, orientações diversas. Mas sobre este assunto cabe uma pausa, uma reserva para o futuro, não sem antes lembrar que se trata de públicos, no plural. As aulas continuam, sucedem-se outras, as intimidades vão brotando de modo que, a cada dia, as barreiras reduzem os limites, surgem evidências, conexões vão sendo articuladas. Ilhas em conexão, pontes que giram para dar vazão aos fluxos, às ideais, do mar ao rio ou do rio ao mar. É o rio que vai ao mar, provoco. A performance é da água doce corrente que mergulha para o precipício salgado sem receio de ser desfigurada, salobra, outra água. Seria a arte uma espécie de água salobra, mistura forjada na fusão “riomar”, águas que se fundem, transversalmente, em invisível e indivisível? Seria a arte um átomo desmobilizador que instaura incertezas e faz o coração fluir como uma paixão avassaladora e que promove medos? Se for assim, é bem capaz que os bailarinos-alunos do Acupe estejam sofrendo do coração. Queria ver como é a dança do coração! Queria saber como é o lugar onde termina o rio e começa o mar. Lá existe dança, habita arte, provavelmente.

José Manoel da Silva Sobrinho é gerente de cultura do Sesc PE, encenador e professor.


Anderson Freire/Cena Fotô

Os atores Ivo Barreto e Andrezza Alves conversam com o chef César Santos antes de provarem a receita; detalhe de O beijo no asfalto, escondidinho de camarão e macaxeira

Cozinhando Escondidinho

Um beijo no asfalto, por favor! O chef César Santos evoca a peça de Nelson Rodrigues junto a atores de montagem pernambucana Por Paula Melo É Nelson Rodrigues quem está à mesa. Apesar de pouco acomodado ao clima olindense, não lembra se esteve por lá em alguma visita ao seu Recife natal, o que fez poucas vezes na vida. César Santos, chef do restaurante Oficina do Sabor, o recebe. Trocam figurinhas, já que o dramaturgo tem uma de suas obras como inspiração do cardápio criado especialmente para a Cena Gastrô, projeto paralelo ao Festival Palco Giratório, com seus 46 espetáculos apresentados no mês de maio. O prato se chama O beijo no asfalto gratinado. É um escondidinho de macaxeira e camarão, coberto com coco ralado e queijo de coalho gratinado com maçarico. Nelson também viu outra obra sua, Vestido de noiva, virar coreografia pelas mãos (e corpo) de Otávio Bastos. E ainda uma receita em outro restaurante, Cozinhando Escondidinho, do chef Rivandro França. Nelson gostou do que viu e provou em dois dos recantos gastronômicos mais prestigiados de Olinda e Recife. Sai de cena Nelson, a ficção. Entram, no cenário paradisíaco do Oficina do Sabor, um ator, uma atriz e um diretor. Ivo Barreto é Amado Ribeiro, um repórter sensacionalista que colhe os louros da fama ao transformar um ato de misericórdia – homem beija um sujeito atropelado e quase morto, que lhe suplica uma última afeição – em crime que vai abalar as estruturas de certa família suburbana, trazendo à tona segredos que envolvem paixões inusitadas e preconceito contra a homossexualidade. Andrezza Alves é Selminha, mulher do homem solidário, e Claudio Lira, o diretor da última montagem recifense da peça O beijo no asfalto, produção de Andrezza e Renata Phaelante. As expectativas são postas na mesa, como toda vez que alguém adentra um teatro ou restaurante: o espetáculo estará à altura de seu criador? O prato dialogará com os sentidos daquela tragédia carioca, como imaginaria o autor? Pois sim. Quando o chef César Santos pronuncia-se ao grupo, há um espanto geral. Ele criara o prato perfeito para uma homenagem a Nelson Rodrigues: um escondidinho. Para os não-iniciados em gastronomia nordestina, escondidinho é uma receita preparada em camadas e coberta de forma a esconder o ingrediente principal. No caso, o camarão. Já para os não-iniciados no dramaturgo, suas tramas são feitas de segredos, de paixões veladas, de pensamentos obtusos e reações indiretas. Nelson é mestre na arte de esconder. E César Santos acertou mais uma vez no ofício que ele escolheu na adolescência - aliás, o Oficina comemora 21 anos em 2013. A essa altura, Nelson volta à mesa. Precisa ouvir do artista das panelas a explicação para tão perfeito casamento entre o seu teatro e uma cozinha. “Quando vi o nome, pensei que tinha que ser algo quente, porque asfalto derrete mesmo. Aí, imaginei que usar o maçarico daria essa ideia, seria o beijo do fogo no queijo”, afirma o chef. Já o conceito do escondidinho surgiu por pura intuição. “Não li a peça, apenas vi a sinopse.” Os três artistas celebram com entusiasmo a criação. Para Andrezza, foi uma transposição perfeita. Ivo emenda: “A peça versa, o tempo todo, sobre um assunto velado”. O diretor faz outro ponto de ligação. “O beijo no asfalto tem um ritmo frenético. As pessoas vão se esvaindo, assim como acontece com os ingredientes do prato, que estão misturados, mas não ligados. Todo mundo fica sozinho no final”, diz Claudio. É a deixa para o senhor do drama brasileiro girar nos calcanhares, abrir a porta do restaurante, celebrar sozinho o encantamento geral e pensar: “Em se tratando de comida, nem toda unanimidade é burra”. Os cardápios especiais para a Cena Gastrô ficam em cartaz até o dia 31 de maio nos seguintes restaurantes, além do Oficina do Sabor: Cozinhando Escondidinho, Restaurante-Escola do Senac, Nossa Casa, Kovacic: A Arte de Cozinhar e La Pasta Galleria.

Rua Conselheiro Peretti, 106, Casa Amarela Telefones: (81) 8618-6781 e (81) 9669-3924 Horário de funcionamento: quar. a dom. 12h/16h; sex. e sáb. até 22h Cartões: V, M, H, D

Kovacic

Rua Dom Pedro Henrique, 153-A, Boa Vista Telefone: (81) 9612-7776 Horário de funcionamento: qua. a sáb. 12h/15h e 20h30/3h (fecha de dom. a ter.; qua. apenas jantar) Não aceita cartões Funciona apenas com reserva, pelo Facebook “Kovacic A Cozinha” e pelo telefone

La Pasta Galleria

Avenida Herculano Bandeira, 77, Galeria Joana D’Arc, Pina Telefone:(81) 3328-3848 Horário de funcionamento: ter. a qui. 19h/0h; sex. e sáb. 19h/1h; dom. até 0h Cartões: M, V

Nossa Casa

Avenida Oliveira Lima, 784, Boa Vista Telefone: (81) 3032-4408 Horário de funcionamento: 12h/15h (fecha sáb. e dom.) Cartões: M e V

Oficina do Sabor

Rua do Amparo, 335, Olinda Telefone: (81) 3429-3331 Horário de funcionamento: ter. a sex 12h/16h e 18h/0h; sáb. 12h/1h; dom. 12h/17h; fecha seg. Cartões: H, D, A, V, M Site: www.oficinadosabor.com

Restaurante-Escola do Senac

Avenida Visconde de Suassuna, 500, Santo Amaro Telefone: (81) 3413-6691 Horário de funcionamento: 12h/15h (fecha sáb. e dom.) Cartões: V, M, A, D Site: www.pe.senac.br

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PENSATA

Silêncio total, aí vem o espetáculo Ministrante da oficina Cena Fotô escreve sobre as particularidades de fazer fotografia cênica

Raíssa Moraes/Cena Fotô

Por Ivan Alecrim A fila está grande? Enorme. Espero que não sente na minha frente. Vixe. Você está no fim da fila? Será que vai chover? Eita, olha aquele menina. Quanto custa a entrada? Pipoca, pipoca doce e salgada. Mãe, quero chicletes. Com manteiga de garrafa? Anda, anda, anda. Menino, não corra que você cai. Olha o batente, minha senhora. Eita, bexiga, pisaram no meu pé. Empurra não danado. Olha a fila. Tu vais para onde? Aqui é o banheiro? Minha cadeira é a 18B. Será que o ar vai estar muito gelado? Menina, esse espetáculo é ótimo. Eu soube que no ano passado ele errou o texto. É de dança? É nada, ele já interpretou até Macbeth. Foi Ariano? E então, Nelson Rodrigues. Isso tudinho? E aquele povo ali de preto? É urubu, é? Olhe para isso, fotógrafo é uma miséria. Será que essa câmera é silenciosa? Encontrei meu acento. Vixe, o vento bate mesmo aqui. Esse fotógrafo está bem no meu ouvido, vou pedir para tirar ele daqui. Que horas são? Silêncio total, aí vem o palhaço!

Xiiiiiiiiu. Clique.

Xiiiiiiiiu. Clique. Esse fotógrafo atrapalha muito. Câmera barulhenta da gota. Não sei para quê tanta foto. Se fosse para não ver ao vivo eu iria ao cinema ou via TV em casa. Mulher, visse o jornal de hoje? Vi nada. Olha aquele espetáculo que a gente foi ontem. Eita, menina, era bonito assim mesmo, olha como a luz era linda. Nessa hora eu fiquei toda emocionada. Aqui na foto dá para ver bem direitinho o movimento que ele fez. Eu até posso ouvir o que ele falou. Era um texto lindo. E assim vai a relação do fotógrafo, com sua fotografia e o teatro. O fotógrafo é um ser estranho neste movimento. É um ambiente onde as pessoas não fazem barulho, estão atentas apenas ao espetáculo. E nesse mundo de silêncios sepulcrais existe um ser com uma máquina ruidosa e que acende uma luz brilhante o tempo inteiro. Seria este um sujeito inconveniente e indesejado? Se o fotógrafo é um alienígena enorme, com tentáculos preguentos, baba gosmenta escorrendo de suas cavidades, com olhos esbugalhados, enquanto o espetáculo é um planeta imaculado e pacífico que pouco combina com essa criatura e que terá suas construções barulhentamente destruídas por esse ser, por que ele está sempre presente? A resposta é fácil. Porque ele é importante. Mas importante por quê? Aí é o complicado. Um dos motivos é que a fotografia vai servir como fundamento ou auxílio da memória para remontar as experiências vividas durante o espetáculo. É do cientista e escritor norte-americano Oliver Wendell Holmes (1841-1935) a definição extremamente feliz da fotografia como “um espelho com memória”. A fotografia tem um caráter social tão poderoso que é capaz de deslocar o pensamento de um pedaço de papel plano e frio para um ato real, quente e munido de vários artifícios cênicos. Somos capazes de acreditar que uma mera “3x4” de uma pessoa é tão legítima como instrumento que é capaz de representar plenamente o sujeito retratado. Os aspectos documentais e ilustrativos são apenas uma parte bem limitada do trabalho que ela desenvolve. Muito mais relevante é a contribuição constitutiva que deriva, para a credibilidade do ato, do poder análogo, de indício e de simulação, expressos pela fotografia. Dessa forma, não podemos negar que a fotografia de espetáculo, de fato, representa um lugar virtual no qual nós, antecipadamente, tentamos verificar certas experiências vividas em nossa realidade. Apreciar uma boa foto de cena pode fazer com que o espectador quase veja a peça novamente.

Otávio Bastos (PE) em O alfaiate de livros

É neste entendimento que o fotógrafo de espetáculo deve interpretar bem o conteúdo de uma obra, saber como ela vai se desenrolar, quem dela faz parte e qual o papel deste sujeito dentro da apresentação. Saber como a luz foi planejada para transmitir determinada emoção e as temperaturas escolhidas para isso. O fotógrafo não vai ter o clima do teatro em sua foto para favorecer sua narrativa; ele não


Rodrigo Ferreira/Cena Fotô

Apresentação de Insone, com o Grupo Z de Teatro (ES)

terá a fala nem o silêncio para fundamentar seu argumento. Os espetáculos podem durar vários minutos ou horas para construir uma ideia. O fotógrafo tem uma fração de segundo para isso. No intervalo de 250 partes de segundo – claro que pode variar –, ele tem que contar a mesma coisa que o ator teve uma peça inteira para fazê-lo. Um poder de síntese que todo jornalista gostaria de ter. Assim, é importante maior domínio técnico e sensibilidade. É de extrema importância que o fotógrafo não seja notado dentro do teatro. E isso só vai acontecer se ele fotografar pouco e nos instantes corretos.

Rafa Mattos/Cena Fotô

Assim, fica bem mais claro porque um ET vive presente nos espetáculos. A fotografia surge como uma tábua de salvação para que não se perca na memória o objetivo da obra. Emocionar. Como bem argumenta o fotógrafo, crítico e historiador italiano Claudio Marra: “Tudo o que, de algum modo, se perde pela ausência do corpo físico pode-se recuperar no corpo virtual apresentado pela fotografia”. Ivan Alecrim é cofundador do Instituto Candela de Fotografia, arte com a qual lida desde 2001. Atuou em jornais do Recife e foi professor de graduação na Universidade Católica de Pernambuco.

Cena Fotô, um ajuste de contrastes

Maíra Almeida no camarim de Divinas

Veja nossa galeria de fotos em: eulin.co/cena_foto

Por Anderson Freire e Rafa Mattos No encontro “O C.A.S.A. Discute Cena”, realizado em janeiro de 2013 no Centro de Articulação de Sabres Artísticos e articulado pela atriz, diretora e produtora Virginia Brasil, do núcleo Labô-Espetáculo, o professor Ivan Alecrim desenhou com luzes a cena fotográfica para um público fã dessa fusão de artes – cena e foto. Papo vai, papo vem, apó a troca de algumas ideias surgia aquela que hoje chamamos de Oficina Cena Fotô, nascida da necessidade de se ajustar o contraste entre a postura do fotógrafo e o respeito pela apresentação de palco. Não basta que a fotografia seja boa, ela tem de ter trazido em sua alma o respeito por todos os envolvidos naquela apresentação, principalmente o público e os atores. Após treinamento técnico específico num bate-papo descontraído, ocorrido nos dias 27 e 28 de abril, no mesmo CASA, os 15 escolhidos, já fotógrafos excelentes, inauguraram seus registros no dia 3 de maio durante a apresentação de Divinas no Teatro Barreto Júnior. De lá pra cá, e enquanto este jornal está sendo impresso, já se foram mais de 20 sessões numa cobertura especializada para fotografia cênica jamais vista em Pernambuco, com imagens belíssimas, sempre orientadas pela sensibilidade do olhar e respeito ao captar. Para o estúdio Dois Ciclos, na figura dos autores deste artigo, monitores da Cena Fotô, é um enorme prazer participar desse projeto inovador. Não apenas pela fotografia, mas por poder prestar um serviço pelo amor à arte e à expressão – as bases do teatro. Estar ainda ao lado de profissionais ora experientes como o Ivan ora talentosos como os “alunos” (que de alunos não têm nada!), é um grande aprendizado. Feito de recompensa e inspiração constantes. Perceber a sensível evolução de alguns, a fina lapidação de outros e o crescimento profissional de todos é enriquecedor. Não apenas para os fotógrafos, mas para a cena teatral pernambucana, que em breve saberá em quem confiar a eternidade de seu labor artístico.

Anderson Freire é fotógrafo no estúdio Dois Ciclos e articulador do C.A.S.A., cicloativista e estudante de enfermagem Rafa Mattos é fotógrafo no estúdio Dois Ciclos e articulador do C.A.S.A., designer e artista gráfico

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CRÍTICA

Metade homem e metade boi SerTão Teatro Infinito Cia. (GO) subverte dualidades em encenação pouco lapidada Por Clarissa Falbo

A adaptação da novela escrita por Miguel Jorge, mato-grossensedo-sul radicado em Goiás, para o solo Boi, interpretado por Guido Campos Correa, ressalta dualidades. Homem e bicho, feminino e masculino, bem e mal, vermelho e negro, consciente e inconsciente. O ator corporifica os opostos a um só tempo, adultera suas essências e, ao amalgamar disparidades, subverte o dual. Duas cabeças de boi são adereços centrais ao coroar o figurino despojado e acentuar a dramaticidade em momentos distintos. Quando dispostas no tablado, essas cabeças adquirem status de objeto cênico. Uma delas é usada na tradição portuguesa da cavalhada. A alusão ao folguedo, que simula a disputa entre cristãos e mouros, soma-se às facetas dicotômicas do espetáculo. Duas malhas, uma vermelha e outra preta, enroladas e sobrepostas ao corpo do ator, diferenciam as personagens. Outros elementos mais sujam e destoam que adicionam em significado e estética, como o calçado tipo crocs, trajado por Guido no início do espetáculo. Também está deslocado da dramaturgia o berrante, cuja sonoridade bela e imperativa surge desmerecida, e as bandeirolas juninas distribuídas ao público para a promessa de um ápice interativo, o qual se revela vazio de sentido e inexpressivo. A questão sobre quais procedimentos se buscam e que reações podem de fato ser alcançadas nos instantes de interação com a plateia se evidencia.

Rodrigo Ferreira/Cena Fotô

Quando a cisão irreconciliável entre o humano e o animal é posta em xeque pela relação simbiótica entre o vaqueiro José Argemiro e Dourado, o seu boi de estimação, o incômodo se instala. A liberdade de que Argemiro dispunha em menino para restar-se imerso na natureza é tolhida pela mãe, que o empurra para um casamento, e cerceada pela mulher, Das Dores, acometida por um venenoso ciúme do boi.

Guido Correa interage com a plateia O brusco rompimento da ação para uma espécie de bate-papo, no qual o ator incita espectadores a rememorar tópicos da narrativa, impede que o fluxo poético se consolide. É como se, ao entendimento da história temporal, do conteúdo mesmo da novela adaptada, fosse atribuída demasiada importância em detrimento das imagens impregnadas de um bucolismo idílico criadas pelo ator, da espécie de dança mundana que executa ao migrar de personagem a personagem, do balbucio de aboios com que sonoriza as falas, entre outros ícones menos cartesianos, mas não menos fundamentais. Cortes indevidos e incompletudes sinalizam para uma direção dispersiva e displicente com alinhavos e acabamentos.

O sertão, referência cara à companhia, que o carrega em seu nome de batismo – SerTão Teatro Infinito –, é um lugar indefinido na montagem, transcende às geografias e culturas, torna-se o limbo onde os códigos mitológicos contidos na dramaturgia se manifestam. O espetáculo dirigido pelo uruguaio Hugo Rodas, radicado em Brasília desde a década de 1970, é o segundo da companhia fundada em Goiás em 1995.

Rodrigo Ferreira/Cena Fotô

JPG • EDIÇÃO 4 • RECIFE, 24 DE MAIO DE 2013

Guido Correa domina corpo e voz, dividindo-se e multiplicando-se em personagens que, não raro, contracenam. Tamanho vigor o faz perder a dose em muitas passagens, ofuscando nuances mais delicadas da interpretação e, sobretudo, sacrificando o princípio da verdade na mediação do ator entre suas figuras/personagens e o público.

O trabalho inaugural foi uma incursão pelas veredas de Guimarães Rosa em A terceira margem do rio, com direção assinada pelo bailarino goiano Henrique Rodovalho, da Quasar Companhia de Dança. A ideia é gestar uma nova encenação, desta vez dirigida por um cineasta, para dar fecho ao que virá a ser uma trilogia.

Clarissa Falbo é jornalista, foi repórter de teatro e dança da revista da Folha de S.Paulo e da Continente, participou da comissáo julgadora do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos em 2011 e atualmente trabalha como freelancer.

Boi é a segunda parte de trilogia com ator goiano


Companhia de dança gaúcha questiona visões da sexualidade humana, como a fixação na bunda e o mito da liberação sexual do brasileiro Por Valéria Vicente

CRÍTICA

Explicitamente sutil Uma das tarefas pertinentes à arte contemporânea é colocar em cena questões que muitas vezes nos escapam. Sensações de estranhamento e incômodo e reações de repulsa ou ridicularização são comuns por assinalarem não somente um possível desconforto, mas, muitas vezes, o reconhecimento de nossas potências ou fragilidades. A dança contemporânea dá corpo à sensibilidade do artista diante do mundo justamente porque o corpo é a questão e o ambiente dessa arte. Mas a cena só ganha efetivamente corpo através do nosso corpo de espectador: é remexendo na cadeira, sonorizando ou petrificando que assimilamos, aceitamos e rejeitamos as diferentes visões de mundo e de arte.

Rodrigo Ferreira/Cena Fotô

Diferentes visões da sexualidade humana foram postas em cena pela Eduardo Severino Cia. de Dança (RS) em dois trabalhos coreográficos apresentados no Teatro Capiba. Diante de criações como DarkRoom, da Cia. Etc., e Negro de estimação, de Kleber Lourenço, para citar espetáculos locais com pontos temáticos em comum, os trabalhos podem soar por demais singelos. No entanto, a sutileza conforma um ambiente respeitoso com os possíveis limites da plateia para dar corpo a questões importantes.

Tempostepegoquedelícia tem como elementos organizadores as transformações na corporalidade dos dois intérpretes em cena que, ao retirar e colocar adereços e figurinos, alteram a leitura da sua identidade sexual. A utilização de grandes falos dá ênfase à questão homoerótica, à masturbação e ao ato da cópula. Certa sutileza e comicidade são evocadas em todo o trabalho. O discurso movimentase entre a simples apresentação de situações e uma abordagem crítica. Se na camada da movimentação as sexualidades são provisórias, nas músicas que as encenam, a predominância é da relação homem-mulher, sendo esta sempre o objeto do desejo e do prazer masculinos, explicitados em frases como “O que foi que você deu meu bem?” (na voz de Carmen Miranda) e “Ai se eu te pego” (Michel Teló). As sugestões ficam mais explícitas sob o som de Wando. “Quando tão louca me beija na boca e me ama no chão” é o refrão da música em que o casal se despe mimetizando um clichê de urgência sexual ao mesmo tempo em que rola de um lado a outro do palco até ele e ela ficarem totalmente despidos e cansados. A nudez sexualizada do final exige do espectador lidar de forma concreta com as questões evocadas e seu próprio pudor diante do sexo. Nessa hora, os mitos de liberação sexual do brasileiro, mesmo diante da relação hétero, parecem cair por terra, deslizando até os pés das pessoas na plateia, onde cada um individualmente sente onde afeta no próprio corpo. Em seguida, o trabalho Bundamor, bundaflor apresenta dois homens e uma mulher com a parte de trás das roupas abaixadas para dar foco às suas nádegas. Esse jeito de deixar a bunda exposta é inteligente, pois, ao mesmo tempo em que diminui a carga sexual dada a essa parte do corpo, amplifica suas características engraçadas. Em tempos de “quadradinho de oito”*, talvez fosse de se esperar que artistas da dança contemporânea trouxessem abordagens de movimento inusitadas para as nádegas. Mas não é isso que acontece. As habilidades glúteas demonstradas são muito próximas ao padrão normal. Apesar de não fazer feio no rebolado, não chegam nem perto da soltura e variedade desenvolvidas em danças como o samba, o cacuriá, o funk ou a suingueira.

As evoluções coreográficas são aparentemente simples e utilizam as mudanças espaciais e do tempo para dilatar e manter interessante a apreciação das bundas. As bundas vão ganhando identidades próprias e se mostram engraçadas, fofas, poderosas, horrorosas. Com tempo para olhar, sentir e reagir às sensações, o público pode pensar: por que mesmo que se dá tanta atenção à bunda? Por que mesmo ela é um símbolo sexual tão cultivado? Por que será que o diabo não ter nádegas é um sinal de sua fraqueza, como reza a crença popular? É assim que, sem desbunde ou acrobacias, a companhia gaúcha deixa a sua marca nesse Festival Palco Giratório Recife, abordando temas que são sempre urgentes e particulares diante das nossas dificuldades de sentir e lidar com o próprio corpo como lugar de afirmação e de mudança.

* Dança difundida com sucesso nas redes sociais em que as dançarinas, de cabeça para baixo, seguem o funk com movimentações da bunda. Valéria Vicente é coreógrafa, pesquisadora e passista. Atualmente coordena o curso de licenciatura em dança da Universidade Federal da Paraíba e atua no Acervo Recordança.

07 Guilherme Veríssimo/Cena Fotô


Por Clarissa Falbo É provável que você nunca tenha ouvido falar de um sujeito chamado Wilton Alves de França. Mas, caso você ainda não tenha ouvido a voz do cantor Rubi, vá no dia 31 de maio à sede do Coletivo Angu de Teatro para a festa de encerramento do Festival Palco Giratório Recife. Com três discos lançados e parceiros como Chico César, Ceumar e Tata Fernendes, Rubi, que é ator há 25 anos, personifica com seu timbre raro canções escolhidas pelo crivo da poesia. As primeiras referências vieram da música popular que ouvia no rádio: os Agnaldos Timóteo e Rayol, Jerry Adriani, entre outros representantes do gênero que se convencionou chamar de brega, e música sertaneja de raiz. Na casa onde morava, não havia aparelho de televisão e o rádio reinava absoluto no cotidiano da família. O cantarolar da mãe, enquanto fazia as tarefas domésticas, também definiu sua sensibilidade artística: “Até hoje, já idosa, ela tem uma voz linda e afinadíssima”.

Rubi, uma joia de voz Cantor goiano naturalizado em São Paulo faz show de encerramento do Palco Giratório

Antes de abraçar a arte como profissão, Rubi foi seminarista. Veio para Pernambuco servir na Ordem do Carmo. Morou em Camocim de São Félix e em Recife, trabalhou com as comunidades eclesiais de base e, claro, cantou e fez teatro. Os passeios que fazia à Casa da Cultura e ao Convento do Carmo, onde viveu, são suas referências afetivas da cidade. Mas a vontade de fazer arte fermentou e a vida religiosa, que parecia direcionar suas energias para um único foco, a espiritualidade, não era o bastante. “Não me fechei para a espiritualidade, mas decidi abraçar as possibilidades que a arte traz.” De volta a Brasília, foi fazer curso e faculdade de teatro. Formou com alguns amigos a primeira banda, chamada Ovelha Negra, e deixou que o Rubi cantor nascesse. “Queria fazer um show solo recitando poesias de um dos meus amigos mais próximos, o Mário Ribeiro. Mas precisava de uma persona para subir ao palco, não queria que o meu eu cotidiano estivesse ali. Mário então sugeriu que eu me tornasse Rubi. O nome era uma homenagem a uma amiga em comum muito querida, a Rúbia. Hoje deixei de ser o Wilton e sou mesmo o Rubi o tempo todo.” Apesar de três discos lançados – Rubi (1998), Infinito portátil (2006) e Paisagem humana (2007) –, ele não se considera cantor. Escolheu estudar artes cênicas porque o chamado do teatro em sua vida sempre foi o mais forte. O canto é a sua forma de interpretação e os recursos do ator, assimilados ao longo da formação e dos anos de trabalho, aparecem no seu jeito de vivificar as canções. A mistura fina entre música e teatro permeia a carreira do artista desde Aldeia dos ventos, musical de 1986 dirigido por Oswaldo Montenegro, do qual participou no Rio de Janeiro, até os trabalhos com a Banda Mirim. É nesse coletivo sediado em São Paulo que, há nove anos, Rubi trabalha com outros atores e músicos para criar espetáculos infantojuvenis premiados e cheios de canções. Em O fantasma do som, musical mais recente do grupo, Rubi é o empertigado porteiro de uma emissora de rádio à beira da falência.

Ândrea Possamai/Divulgação

É a verve teatral que faz com que a palavra seja sempre a grande estrela das canções que cura para o seu repertório. “Primeiro preciso me interessar pelo que é dito, pelo que minha boca vai pronunciar, pelo discurso. Depois a melodia tem que ser suficientemente rica para dar força àquelas palavras”, explica. Gero Camilo, Ceumar, Itamar Assumpção, Tata Fernandes, Luiz Gayotto e Chico César estão entre os compositores que mais o instigam. As músicas autorais ainda são poucas. “Componho muito timidamente.” Para o pocket show em Recife, Rubi e os m��sicos Estevan Sinkovitz e Olívio Filho buscam a justaposição entre canções inéditas e composições que marcaram suas trajetórias. Cazuza, Lhasa de Sela, Paulo Ricardo, canções já gravadas por Rubi em seu primeiro disco, uma versão sua para o clássico Ne me quitte pas e inéditas do brasiliense Marco Michelângelo estão incluídas no setlist. “Gosto do vigor da música inédita, de ter toda a liberdade para interpretá-la sem excesso de referências. Adoro pinçar coisas boas e mostrá-las.”

Festafestival Show de Rubi e DJ Pepe. Sexta-feira, 31/5, às 23h. Sede do Coletivo Angu de Teatro (r. Tomazina, 199, Bairro do Recife) R$ 20 e R$ 10

Rubi apresenta pocket show na Festafestival


Jornal Ponte Giratória - 4ª Edição