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INFORMATIVO SEMANAL JORNAL PONTE GIRATÓRIA # EDIÇÃO 3 # MAIO 2013


Presidente Josias Silva de Albuquerque   Diretor Regional Antônio Inocêncio Lima   Diretor de Administração e Finanças Wladimir Paulino Vilela   Diretora de Atividades Sociais Sílvia Cavadinha   Diretora de Educação e Cultura Teresa Cristina Ferraz   Gerente de Cultura José Manoel Sobrinho   Coordenadora do Festival Palco Giratório Recife Galiana Brasil   Assessora de Comunicação Maíra Rosas  

JORNAL PONTE GIRATÓRIA   Edição Valmir Santos (MTB 22.457/SP)   Textos Clarissa Falbo e Paula Melo

Revisão Renata Pimentel   Projeto Gráfico Rafa Mattos   Apoio Assessoria de Comunicação do Sesc PE Contato: pontegiratoria@gmail.com www.sescpe.com.br O Jornal Ponte Giratória é uma ação integrada ao 7º Festival Palco Giratório Recife, realização conjunta do Sesc PE e do Departamento Nacional do Sesc. Os artigos opinativos não refletem, necessariamente, o ponto de vista da publicação.

SATISFEITA, YOLANDA?

www.satisfeitayolanda.com.br O blog das jornalistas Ivana Moura e Pollyanna Diniz colabora com o festival na recepção crítica aos espetáculos.

COMPARTILHE NOSSA VERSÃO ON-LINE JPG • EDIÇÃO 3 • RECIFE, 17 DE MAIO DE 2013

www.sescpe.com.br/palcogiratorio

Vá ao cinema, mas não me chame Pesquisador reflete sobre o trabalho do espectador ao se permitir correr riscos como cocriador

PENSATA

SESC PERNAMBUCO

Guilherme Veríssimo/Cena Fotô

Expediente

Por Luís Augusto Reis Na década de 1980, espalhou-se pelo Brasil, a partir do Rio de Janeiro, uma camiseta em que se lia: “Vá ao teatro, mas não me chame”. Criada, salvo engano, pela talentosa turma da revista Casseta Popular e do tablóide O Planeta Diário – que se transformariam no programa televisivo Casseta & Planeta, Urgente!. Mas qual era mesmo a graça dessa camiseta? Podese argumentar que, naqueles derradeiros anos da ditadura militar, a irreverência estava muito na moda. O besteirol, que prosperava no terreno aberto pelo charme e pela inteligência do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, parecia zombar de quem encarava uma ida ao teatro como sinal de refinamento cultural ou de consciência política. Natural, portanto, que um chiste como esse tenha angariado imediata simpatia de um número expressivo de pessoas, aficionadas ou não do teatro. Nesse raciocínio, não parece descabida a suspeita de que, contraditoriamente, a popularização do “Vá ao teatro, mas não me chame” talvez tenha contribuído, em alguma medida, para a própria divulgação dessa arte. No entanto, o sucesso de uma piada dificilmente pode ser explicado em uma linha única de argumentação. Certamente, a imediata aceitação dessa brincadeira pode suscitar discussões sobre diversos aspectos do fenômeno teatral. Aqui, neste comentário, propõe-se uma breve reflexão sobre o trabalho do espectador no teatro. Deixando de lado especulações mais sofisticadas, testa-se uma hipótese bem pragmática, embora irremediavelmente superficial: a camiseta criada pelo pessoal do Casseta & Planeta fez sucesso pelo fato de que, no teatro, o espectador pode, em geral, ficar constrangido de se retirar da sala de espetáculo, caso não esteja satisfeito com o que lhe está sendo apresentado. A presença dos atores, ao vivo, está no cerne desse embaraço. Há muitos séculos, pelo menos desde o Renascimento, a ideia hegemônica de teatro costuma ser associada à noção de “civilidade”, ou de “civilização”. Seria, portanto, uma grosseria, uma deselegância, retirar-se da plateia enquanto a apresentação está em andamento. No teatro, a decisão de interromper o pacto com a representação parece sempre impor alguma cautela. Afinal, mesmo um espectador de primeira viagem é capaz de antever que sua retirada terá repercussão imediata, não apenas na apreciação dos demais membros do público, mas, sobretudo, no trabalho dos

O prestidigitador Rapha Santacruz na primeira noite do Cena Bacante

atores. No limite, imaginem uma apresentação oferecida a um único espectador: será que os artistas seguiriam com espetáculo caso ele resolvesse deixar o teatro? Com o uso de arquiteturas teatrais alternativas, marca frequente da criação cênica há décadas, a situação por vezes se torna mais complicada. Não raramente, negando-se a “solução burguesa” do palco à italiana, encontram-se espetáculos cuja configuração espacial praticamente impede a saída de qualquer espectador antes do encerramento da récita. Tem-se a impressão de que, involuntariamente, alguns desses criadores parecem querer garantir, de antemão, a “adesão” da plateia, impedindo-a de abandonar a sala. Nessas horas, ganha força a intuição de que ir ao teatro requer, antes de tudo, coragem e disposição para algum sacrifício. Portanto, se não quero correr riscos, nem tampouco estou disposto a trabalhar como cocriador de nenhum acontecimento artístico, digo: “Vá ao teatro, mas não me chame”. Fico em casa, zapeando por 200 canais de televisão. Melhor que isso, navego horas a fio pelas vastidões da internet. Ou então vou ao cinema, de onde posso sair na hora que quiser, sabendo que o meu gesto em nada afetará o trabalho dos atores. Vou ao cinema, torcendo para que não haja muita gente naquela sessão, a fim de que eu possa ficar bem à vontade, mudando de poltrona quantas vezes achar necessário – curioso: será que alguém vai ao teatro torcendo para que a plateia esteja vazia? Vou ao cinema, onde nem sequer preciso aplaudir. E na saída, recebendo todos os aromas de uma ruidosa e cintilante praça de alimentação, caio direto no meu fast food favorito.

Luís Augusto Reis é professor e pesquisador de teatro vinculado ao Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE.


Rivandro França catalisa a cena em apresentação de menu a artistas do Palco Giratório O restaurante Cozinhando Escondidinho encontrava-se às escuras por alguns instantes na noite do segundo domingo de maio. Cerca de 20 comensais ocupavam as mesas na expectativa do próximo prato, O miolo da estória, como foi batizada a criação gastronômica em homenagem à Santa Ignorância Cia. de Artes (MA), um dos grupos que se apresentam no Palco Giratório e um dos cinco em que os respectivos espetáculos são contemplados com a inventividade do chef Rivandro França.

Inversão de papéis no Escondidinho

Ainda sob a penumbra, outras cinco pessoas adentraram o restaurante somando-se aos demais. Num arroubo de improviso, o chef que comandava a cena também as embarcou naquela viagem pelos sentidos, pedindo que fechassem os olhos. “Chegaram atrasados, por isso não vão me ver. Apenas vou botar um copinho na boca de vocês”, falou feito repentista. E serviu a entrada Alimentadeira da alma, uma evocação à peça No caminho das alimentadeiras, do Coletivo Trippe (PE): um copinho de chocolate meio amargo, recheado de crocante de calabresa defumada e cachaça.

Anderson Freire/Cena Fotô

Rivandro entoou outro verso, enquanto dava conta da turma que já atendia: “Pra não deixar vocês sozinhos, Tia Miséria vai ficar com vocês”. A pereira da tia miséria, espetáculo homônimo do Núcleo Ás de Paus (PR), é um petisco de queijo de coalho e hortelã fritos, tomate seco e mel de engenho picante flambado na cachaça. Nesse momento – a casa ainda estava às escuras –, dava-se o clímax da noite. Com um maçarico culinário, ele derretia queijo por queijo às vistas de cada um dos participantes. Todos ficaram tocados. Aos gritos de “É um artista!”, Rivandro se recolheu como se no entreato de uma representação. Não demorou a retornar e bater panelas inaugurando outra fase. O prato principal era servido. E com ele chegavam aos ouvidos da audiência histórias demasiado humanas de um certo Rivandro França, que “nasceu pelos pés” e acredita que veio ao mundo “para fazer diferente”. Agora as mesas recebiam a preparação Viúva, porém honesta, referência à peça de Nelson Rodrigues montada pelo Grupo Magiluth (PE). A receita traz o filé de tilápia dourado na manteiga de garrafa, servido com arroz de azeitona preta e purê de banana da terra. A inspiração veio do apelido do fruto da oliveira em Alagoas, “brinco de viúva”. Em seguida, o foco estava na sobremesa servida pelo chef com uma das mãos, enquanto a outra despejava um tantinho de coco ralado na iguaria. Sobre um pequeno aparo de ardósia, entrava em cena o Colchão de noiva se apresenta a pingos e pigmentos, homenagem dupla à também rodriguiana Vestido de Noiva, criação cênica de Otávio Bastos (PE), e à intervenção {pingos&pigmentos}, do Coletivo Construções Compartilhadas (BA). O bolo de rolo frito vira um palco com cortinas de chocolate meio amargo, sorvete, cocada, queijo e mel de engenho. E, como se fossem membros da plateia, despontam os pingos de doce de leite e de chocolate. Metalinguagem certeira para fechar o menu em grande estilo. Em vez de colher os louros, o protagonista solicitou à equipe que deixasse a coxia, ops, cozinha. “Esses são os artistas que ficam por trás do palco”, disse, apresentando-os um a um: Samantha Melo, Joaes Júnior, Juan, Carlos e Socorro França. “As comidas saíram na hora certa, com apresentação perfeita. A brigada foi essencial para que o meu trabalho desse certo.” O elemento surpresa pautou a experiência de todos. “Era um jantar para conhecer o nosso prato. Acabou se tornando um espetáculo. Amamos!”, conta Rita Aquino, integrante do Construções Compartilhadas. Eduardo Rosa, outro artista do núcleo, pensa a intuição dramática de Rivandro: “Era um solo com um texto cheio de experiências de vida. Ele partilhava suas conquistas com a gente através da gastronomia.” Além do talento para a cozinha, Rivandro revelou-se um improvisador nato com sua verve de comediante popular. A apresentação teatral do chef acontece nas noites de sexta-feira e sábado. É possível fazer reserva para outros dias. Por Paula Melo

O chef Rivandro França e a sobremesa Colchão de noiva se apresenta a pingos e pigmentos

Cozinhando Escondidinho

Rua Conselheiro Peretti, 106, Casa Amarela Telefones: (81) 8618-6781 e 9669-3924 Horário de funcionamento: qua. a dom. 12h/16h; sex. e sáb. até 22h Cartões: V, M, H, D

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Um recorte ocasional rascunha a audiência que gira ao redor dos palcos e ao ar livre Por Clarissa Falbo O palco gira e translada os artistas que comporta de norte a sul de um país-continente, e quem espia do outro lado? Quem desfruta, na penumbra da plateia, ou na turba ao ar livre, do carrossel de espetáculos que é o Palco Giratório? Em Recife, onde o público tem por costume encher teatros durante festivais, espectadores de perfis bem diversos se avizinham à frente das cortinas ou de espaços não convencionais. Aficionados por artes cênicas, criadores à cata de referências e pessoas experimentando o choque estético inicial compõem a claque formada ao acaso a cada sessão. Em uma tarde de sábado, os frequentadores do parque Dona Lindu, em Boa Viagem, deparam-se com duas figuras de aspecto sujo, arrastando andrajos e bugigangas. Não havia no espaço nada que indicasse que ali seria encenada uma peça antes de surgirem os entes misteriosos. “Pensei que fosse de verdade e corri de medo”, conta Caroline Pereira, 9 anos, que vai ao parque todos os fins de semana com a tia. Passado o susto, a garota não perdeu nenhum momento de Júlia, espetáculo de rua do Grupo de Teatro Cirquinho do Revirado (SC). Depois de ver encenada a história da mulher, mistura de mendiga,

artista popular e charlatã, e Palheta, seu fiel escudeiro, Caroline foi cumprimentar os atores Yonara Marques e Reveraldo Joaquim e aproveitou para anotar o endereço da página do grupo no Facebook. Reveraldo conta que é comum receber solicitações de amizade na rede social de pessoas que os assistem e querem continuar interagindo de alguma forma. “Estivemos na Bahia e uma moradora de rua disse que nos procuraria no Facebook porque queria manter contato. Achamos estranho, mas, para nossa surpresa, ao abrir o Face, ali estava ela interagindo novamente.” Sobre a recepção do público, o artista diz que, apesar de a peça ser a mesma e feita da mesma forma, as respostas são diferentes em cada cidade do circuito do Palco Giratório. “A cultura, o nível social, a liberdade e o calor humano de cada região são fatores que fazem as reações serem diferentes. Isso não quer dizer que as pessoas gostam mais ou gostam menos, apenas reagem de forma diferente para uma mesma ação feita pelos personagens.” O professor aposentado e microempresário José Frutuoso da Silva, 72, é frequentador assíduo dos espetáculos apresentados

Raíssa Moraes/Cena Fotô

Público capturado pelo espetáculo de rua Amores por anexins, do Grupo Teatro Cirquinho do Revirado (SC)

MOSAICO DE ESPECTADORES


no Teatro Marco Camarotti, no Sesc Santo Amaro. Em uma concorrida sessão de São Manuel Bueno, mártir, do grupo Sobrevento (SP), com a plateia ocupada majoritariamente por artistas e gente ligada ao teatro local curiosa para ver o trabalho com objetos e bonecos para adultos da trupe paulistana, Frutuoso e sua mulher garantiram seus lugares. “Não conhecia o grupo e gostei muito. Moro perto e venho sempre. Leio nos jornais e me programo.” Um trabalho da faculdade de design de moda motivou a ida ao teatro da estudante Maria Carolina Maia, 25, para ver Propriedade condenada (BA). Em uma disciplina do curso, a professora vem trabalhando a peça do americano Tennessee Williams (1911-1983) como mote para que os alunos elaborem um editorial de moda. “Ler o texto é bem diferente de assistir à peça. Eu imaginei muita coisa de um jeito diferente da encenação”, diz Carolina, que tinha ido pela última vez ao teatro há dois anos para ver uma comédia do grupo Os Melhores do Mundo (DF). Bem menos acidental como espectador, o montador cinematográfico João Maria Araujo se autodefine um viciado em teatro. Ele assiste a todas as montagens que consegue e tem um apreço especial pelo Palco Giratório. “A curadoria do festival vai buscar coisas que nunca teríamos chance de ver. São trabalhos quase pessoais garimpados em vários lugares do Brasil. Nada de espetáculos grandiosos e sim pequenas pérolas.” Ele lembra a encenação de Aqueles dois, da Cia. Luna Lunera (MG) como uma dessas joias. A democracia de fazer o palco girar ao redor do país e permitir que pessoas que moram em lugares diferentes vejam o mesmo espetáculo é outro ponto alto da iniciativa segundo o montador. “Posso conversar com colegas do interior ou de outros Estados sobre uma mesma peça que todos assistimos cada um em sua cidade.” João Maria gosta até das longas filas que se formam nas bilheterias durante o festival: “É quando converso e encontro gente de verdade, ‘on-real’ e não ‘on-line’”, diz.

Apresentação de Topografias do feminino, do Coletivo Lugar Comum (PE) Guilherme Veríssimo/Cena Fotô

A atriz catarinense Yonara Marques em cena de Júlia Nathália Carvalho/Cena Fotô

De olho na recepção No livro História do teatro brasileiro, volume 2: do modernismo às tendências contemporâneas (ed. Perspectiva, 2012, direção de João Roberto Faria), a pesquisadora Nanci Fernandes anota questões instigantes quanto à recepção do espetáculo, campo que versa sobre um componente essencial do teatro, o público, e pede olhar mais atencioso. O seu capítulo Primeiras tentativas de modernização examina o panorama das duas primeiras décadas do século XX e lembra como os críticos sistematicamente manifestavam estranheza ao deparar com o enorme sucesso de espetáculos feitos por atores ainda vinculados ao chamado “velho teatro”. Cita, por exemplo, uma retrospectiva histórica que fala do longo calvário vivido pelo comediógrafo maranhense Artur Azevedo (1855-1908) ao sentir-se na obrigação de defender o teatro que escreveu visando o grande público. “Não seria esse aspecto motivado pela incompreensão do papel do espectador como parte integrante e indissociável da obra de arte teatral?”, provoca. A pesquisadora defende uma postura mais coparticipante ao se buscarem as razões que norteiam o público de ontem e de hoje: “(...) será que não nos esquecemos, à luz do deslumbramento da cultura teatral europeia, de atentar para a essência do que ficou soterrado nos escombros do ‘velho teatro’? Melhor dizendo: o público brasileiro, quando aplaudia vigorosamente obras consideradas ‘menores’ ou ‘ultrapassadas’, não estaria, na verdade, nos mandando um recado? Será que esse recado não ficou submerso nas análises estéticas que procuravam, em vão, um sentido mais ‘elevado’ desse repertório permeável somente à psicologia do grande público brasileiro?”. Dá o que pensar. Por Valmir Santos

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CRÍTICA

Elogio da teatralidade circense Solo de Heinz Limaverde, da Cia. Rústica, equilibra memória e qualidade de presença em cena

Limaverde na pele da vedete inspirada na gaúcha Eloina Ferraz

Em quase dez anos de produção em Porto Alegre, a Companhia Rústica tem-se caracterizado pela combinação de linguagens em plataformas como o tablado e o espaço público. Suas pesquisas implicam dramaturgia própria em processos colaborativos invariavelmente dirigidos por Patricia Fagundes, professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Quem assiste às “infiltrações poéticas” de Desvios em trânsito (2010) por ruas, praças e calçadões nota a capacidade dos artistas desse núcleo de gerar campos autônomos de ações coletivas e celulares, capturando a cidade em flagrantes performáticos, deslocando o transeunte dos seus sentidos normatizados. E quem assiste a O fantástico circo-teatro de um homem só (2011), sob o teto do edifício teatral, mas transmitindo a sensação de pisar a serragem do picadeiro, não associa facilmente que o projeto pertence ao mesmo tronco daquele realizado ao ar livre. Ou, por outro, entende que o guardachuva cênico da Companhia Rústica é maior do que sonha a vã imaginação – não por acaso, adota o epíteto “teatro em estado de encontro”.

JPG • EDIÇÃO 3 • RECIFE, 17 DE MAIO DE 2013

O solo de Heinz Limaverde rememora uma alma brasileira interiorana distante da modernidade dos grandes centros urbanos. Um tempo não muito longe, nas décadas de 1970 e 1980, em que mesmo as capitais tinham seus terrenos baldios ou campinhos de futebol ocupados de quando em quando pelas companhias mambembes que ali armavam suas lonas. Ou, retroagindo à virada do século XIX para o XX, um tempo capitaneado pelas figuras dos palhaços Benjamin Oliveira, Piolin e seus pares. Heinz encapsula esses tempos destituídos de apelos velozes e faz o público sentir-se aninhado e transportado, mesmo que jamais tenha conhecido de perto a arte do circo. A dramaturgia que o ator coassina com a diretora entremeia narrativa épica e lembranças ou sonhos de um palhaço que está no camarim paramentandose, maquiando-se, transmutando-se – e nem sempre por meio do nariz vermelho.

Kiran Federico León/Divulgação

Por Valmir Santos

No encontro olho no olho com a plateia, o ator demonstra conhecer profundamente aquilo sobre o que conta. Transparecem as reminiscências pessoais de sua infância e juventude no interior do Ceará, antes de migrar para o Rio Grande do Sul. O roteiro trilha por certa nostalgia à la filmes de Chaplin ou Fellini. Mas não se prende ao saudosismo: dosa-o graças à qualidade de presença emanada do intérprete que arrasta simpatia já pelo tipo físico, o gordo brincante, e tampouco se deixa seduzir por tal obviedade. Heinz solta o imaginário com passagens sutis entre a delicadeza e a traquinagem, o palhaço e o mágico, o circo e o cabaré. Um dos momentos culminantes é quando ele surge metido nos figurinos e adereços (por Daniel Lion e Paloma Hernandez) que remetem a uma vedete veterana, requebrando e soltando o vozeirão em referência ao teatro de revista, mais um aceno de generosidade para com aquela expressão deveras popular da cultura. Uma cortina de retalhos ao fundo serve como recuo para as metamorfoses. Quando o ator se dirige até lá, cuida em não quebrar a energia conquistada com o espectador, explorando certo suspense que também é da natureza circense. A cenografia de Juliano Rossi circunscreve o picadeiro no palco sugerindo, a um só tempo, os lados de dentro e de fora do circo, ao que o desenho de luz de Lucca Simas compõe cinematograficamente com suas luzinhas no fio do poste, na moldura do espelho e na linha da ribalta à boca de cena. Esse Fantástico circo-teatro de um homem só é singular na disponibilidade de o ator, mãos dadas com a diretora, expor o relato pessoal de modo proativo, construindo técnica e poeticamente uma teatralidade circense que respeita essas artes coirmãs e as celebra com dignidade, tornando a experiência do admirável público um mergulho afetivo no curso da vida sob a lona ou sob o céu.


O Filho eterno, da Cia. Atores de Laura (RJ), desvela as camadas da difícil construção do pai

CRÍTICA

Raíssa Moraes/Cena Fotô

Em nome do pai, do filho e do distanciamento Por Clarissa Falbo Um relato autobiográfico do escritor Cristovão Tezza, catarinense naturalizado em Curitiba, está nas páginas de O filho eterno (2007), livro ganhador do Prêmio Jabuti, entre outras honrarias, e escolhido pela Companhia Atores de Laura (RJ) como dramaturgia para a primeira incursão em monólogo do grupo fundado em 1992. Um escritor em início de carreira (Charles Fricks), já assombrado com a ideia do exercício da paternidade pela chegada de seu primeiro filho, é soterrado com a notícia de que a criança é portadora de síndrome de Down. Uma mecânica similar à do distanciamento brechtiano é conseguida pela natureza da adaptação assinada por Bruno Lara Resende somada à direção de Daniel Herz. É clara e bem explorada a dissonância entre a narração na terceira pessoa – tal como escrita por Tezza – e a interpretação das emoções e situações pelo ator que narra. O efeito quase épico insinua incompletudes e convida o espectador a ligar os pontos e terminar a criação da persona de quem se fala e a quem se observa, mas que, a rigor, não tem voz própria. Com registro vocal potente, Fricks transita pela gama de figuras que cruzam a vida de pai e filho: da mãe à diretora da creche, dos parentes aos médicos. Os secundários surgem em caricatura proposital como a que se usa ao contar um causo de malogro combatendo com ironia e deboche a autopiedade. Uma rotunda branca, uma cadeira e a iluminação servem à cenografia minimalista que se revela grandiosa pela síntese. O desenho de luz de Aurélio de Simoni se divide entre tons azulados a incidir no ciclorama, o qual, em dado instante, materializa a citação do céu curitibano, perdidamente azul e frio a pesar sobre as cabeças de pai e filho, e os traços quase geométricos que edificam ambiências diversas, geográficas e psicológicas. No contexto do monólogo, a luz demarca ainda, ao incidir perpendicular ao corpo do ator e talhar sombras em seu rosto, momentos que remetem a solilóquios, quando as vozes das personagens incidentais se vão, e a narração volta-se para as mais íntimas reflexões do escritor. A simbiose entre luz, jogo cênico e texto evidencia-se na passagem

Cenáro mínimo e movimentação de Charles Fricks preenchem a cena

Plateia do Teatro Apolo após sessão de O filho eterno

em que a má notícia sobre a saúde do recém-nascido é compartilhada. Enquanto recita o rosário de sintomas e indícios da trissomia do cromossomo 21 na fala da equipe médica, o ator gradativamente modula e reduz o volume de voz, é completamente iluminado em tons solares e vive a estupefação. Fricks se move com desalinhada destreza em uma quase-coreografia. Arrasta a cadeira por vezes ruidosamente, como em um complemento sonoplástico à música incidental e intermitente. Corre de um ponto a outro para delinear a organização em camadas da narrativa. Sai de uma marca no palco onde interpreta com mais envolvimento o que o texto descreve e se desloca em rompante para um lugar de observador, no qual encarna a reflexão e a análise sobre a situação que acaba de encenar, para em seguida se deslocar rapidamente de volta e dar prosseguimento à ação interrompida. É como se víssemos materializado o mecanismo do próprio pensamento humano, que, em um átimo, se distancia, abre parênteses e dá voltas helicoidais em torno de si. A interpretação exagerada e quase histriônica do início da montagem, quando o escritor espera ainda o nascimento de Felipe, o seu primogênito, e ao ser surpreendido pela condição da criança, conota o status do pai ainda não forjado, que tenta entender o arremedo de filho que chega. As intenções se contêm e são internalizadas à medida que o personagempai se cunha. O processo se completa na cena final, quando se preparam para assistir a uma partida de futebol e o ator se reparte no diálogo entre os dois. Felipe é corporificado e, consequentemente, o seu pai também. Afinal, um filho eterno necessita, pressupõe e define o pai eterno.

07 Mitsy Queiroz/Cena Fotô


Grupos Experimental e Peleja criam obras inspiradas em memória pessoal e pesquisa de campo Por Valmir Santos Dois núcleos significativos das artes cênicas contemporâneas do Recife e de Olinda elegem a memória pessoal e a pesquisa de campo como procedimentos-chave ao conceber suas criações mais recentes. São eles o Grupo Peleja no solo Tu sois de onde?, com Lineu Gabriel e direção convidada de Ana Cristina Colla, do Grupo Lume (SP), e o Grupo Experimental em Compartilhados, dirigido por Mônica Lira.

Renata Pires/Divulgação

Interface natureza e cultura

É a primeira vez que o ator-dançarino vai à cena sozinho em quase dez anos do Peleja, sediado num casarão de Olinda. “Todo o repertório do grupo é autoral. Nossas criações sempre partem da necessidade de suprir anseios como artistas”, afirma. Autocrítico, Lineu pondera “deficiências” em sua formação como um dos vetores problematizados durante as etapas de pesquisa, treinamento, ensaio e agora das apresentações. “O solo também é um lugar para que eu possa me desenvolver enquanto artista em um nível muito diferenciado do que acontece em uma criação coletiva.” Ao buscar conexões com sua subjetividade, ele, que estudou em Campinas (SP) – graduado em antropologia e mestre em artes pela mesma instituição, a Unicamp –, foi prospectar o campo fértil, complexo e sofisticado das manifestações tradicionais da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Formas e conteúdos de Tu sois de onde? são atravessados pela questão da identidade a partir das corporeidades e sonoridades do maracatu de baque solto, resultado de residência artística apoiada pelo Funcultura e realizada entre 2011 e 2012 no município de Condado, junto aos artistas populares do Leão de Ouro, sobretudo os cabeças de lança. “Trato de questões que são minhas, mas ao mesmo tempo já existiam quando nasci, são universais e compartilhadas por meio de uma costura de fragmentos (e reinvenções desses fragmentos, já que estamos falando de arte) de minha história pessoal, afetiva”, diz o intérprete-criador. O desejo é evitar superficialidade na abordagem das expressões artísticas tradicionais. “Essas expressões são extremamente dinâmicas, são reinventadas, atualizadas cada vez em que seus atores as realizam. Até ouso dizer que em muitos casos o ‘rigor da invenção’ é muito mais latente nesse ‘lugar’ do que no teatro ou na dança contemporânea.”

O ator-dançarino Lineu Gabriel, do Grupo Peleja, em Tu sois de onde? pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna –, aportado agora em Compartilhados (2012) e prestes a alcançar Pontilhados, com desdobramento para a geografia e a gente do bairro do Recife Antigo. Do arquipélago ao bairro central é também a linha de tempo e de espaço que Mônica diz cumprir em sua jornada de artista e cidadã, já que o grupo que faz 20 anos em 2013 tem sua sede localizada na mesma região da cidade. “Fui impulsionada a criar Ilhados a partir da relação com minha filha [Rafaella Trindade], seria uma espécie de prólogo, um momento meu, mas evoluiu como espetáculo. Ao acessar todo o material que tinha, percebemos que era muito assunto para tratar em único trabalho”, diz a coreógrafa.

Além da atriz-criadora do Lume, núcleo referencial no país quanto ao treinamento de ator-dançarino (desde 1985), Lineu firma parceria, entre outros pares, com Helder Vasconcelos e Tainá Barreto como assistentes de direção em seu quintal estético, ético e afetivo.

“Em Compartilhados, e por isso o nome, está essa relação de as pessoas do grupo irem até lá [Fernando de Noronha] e se encontrarem, a partir de todas as entrevistas de campo, então o eu de cada um está entranhado na obra, mesmo sendo a princípio uma proposta minha, vinda da minha memória.”

No Experimental, Mônica toma sua cena de origem, o nascimento em Fernando de Noronha, onde viveu os primeiros seis anos de existência, como embrião da proposta aos integrantes do grupo para rastrear o território e as lembranças de quem lá vive, chega ou passa, considerando ainda tais verbos no pretérito. Esse percurso é plasmado na trilogia aberta com Ilhados – encontrando as pontes (2010) – pesquisa contemplada em 2009

Para o terceiro momento, Pontilhados, desfecho da trilogia que também contempla a interface cultura e natureza, o Experimental irá se debruçar sobre o Recife Antigo, ele também uma ilha, suas tensões e fluências cercadas por águas.

Sobrado 423/Divulgação

Dançarinos do Grupo Experimental em Compartilhados, direção de Mônica Lira


Jornal Ponte Giratória - 3ª Edição