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PERCURSO EDUCATIVO INFINITO VÃO

VISITA EM

10 OBRAS


“ÉRAMOS A TELA IMPRESSIONISTA, TROPICAL, LATINOAMERICANA” CÉU, VARANDA SUSPENSA


Saudações! A exposição INFINITO VÃO propõe um panorama de noventa anos da arquitetura brasileira, a relacionando a um contexto mais amplo das manifestações culturais e dos contextos políticos e sociais no país. Esses roteiros de percursos propõem visitas temáticas, sugerem caminhos que podemos trilhar na exposição, partindo de um conjunto de perguntas norteadoras. Vamos explorar algumas especificidades das práticas arquitetônicas no Brasil? Boa visita!


PERCURSO VERDE É evidente que uma suposta “identidade brasileira” será sempre um espaço de disputas

narrativas. A busca por um conjunto de representações “genuínas” ou “autenticamente” brasileiras ocupou o imaginário de parte da elite intelectual nacional, sobretudo a partir da Proclamação da República. Que imagens representam o Brasil como cultura e sociedade? A fauna e flora exuberante, celebrada pelas expedições artísticas e científicas europeias? A representação idílica das populações indígenas? A imagem do

brasileiro interiorano e de sua pacata vida rural? As marcas ibéricas de nosso legado colonial? O mito da democracia racial, ancorado na noção de miscigenação? O samba, o pandeiro, o futebol, o carnaval?

Muitas foram as representações que, ao longo do tempo, constituíram o imaginário

acerca da “brasilidade”, e muitos foram os apagamentos que essas representações produziram. No início do século XX, os ciclos mais progressistas se interessam em propagar uma imagem do Brasil como um país cosmopolita, industrializado, arrojado, em amplo desenvolvimento e com ambições internacionalistas. Por outro lado, outros grupos defendiam a legitimidade de uma identidade mais regionalista, ligado ao passado histórico colonial, na arte academicista e na experiência rural-campesina.


É justamente neste ambiente polarizado que os primeiros efeitos das vanguardas

artísticas europeias se fazem sentir no Brasil. Não é, portanto, surpreendente que as inovações estéticas modernistas tenham causado controvérsia e tenham sido atacadas e defendidas de forma particularmente passional. Se, por um lado, grupos mais tradicionalistas fossem críticos a adoção perniciosa de certos modismos europeus, alguns artistas almejavam justamente na experiência moderna, superar esta dicotomia, adotando as inovações expressivas das vanguardas europeias associando-as a

repertórios locais, sobretudo valorizando elementos da cultura popular brasileira.

No caso da arquitetura, havia uma acirrada disputa entre os defensores do estilo

neocolonial e do ecletismo. Aqui, também, o discurso e a prática modernista tentam conciliar o impasse entre o pretérito e a euforia progressista, entre o supostamente

universal e o local.

O que seria um modernismo à brasileira? democracia racial | vanguarda artística | cultura popular brasileira | estilo neocolonial | estilo eclético


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9

8 7 6 5

1 2 4 3


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Desenho Le Corbusier.

Tupi or not tupi, that is the question Oswald de Andrade

Desenho sem título Tarsila do Amaral, 1925. Como uma das mais emblemáticas artistas do movimento modernista brasileiro, ao longo da década de 1920, Tarsila do Amaral desenvolve sua expressividade, alinhando elementos de uma figuração póscubista com o exuberante repertório da cultura popular brasileira. É em meio aos ciclos modernistas parisienses que ela identifica que são justamente estes elementos culturais, exóticos ao imaginário europeu, que constituem uma potência única do movimento modernista no Brasil. Essas percepções

são, então, consolidadas nas publicações do livro Pau Brasil e do Manifesto Antropofágico com Oswald de Andrade. Por sua vez, Le Corbusier é um dos maiores expoentes da arquitetura moderna e, sem dúvida, àquele que causou o maior impacto entre os arquitetos brasileiros. O desenho selecionado pela curadoria faz parte de um conjunto de esboços da Baía de Guanabara, uma sequência de imagens que parece se afastar da paisagem, revelando um homem, confortavelmente sentado em uma poltrona, apreciando a vista. Em um dos desenhos, uma fachada se interpõe entre o sujeito e a paisagem e é possível ler “Uma moldura ao redor. Os quatro oblíquos de uma perspectiva. Seu quarto instalado de frente ao local. Toda paisagem em seu quarto. O pacto com a paisagem foi selado”. A primeira visita de Le Corbusier ao Brasil se deu em 1929 e causou-lhe um grande impacto. Naquele momento, já era anedótica a máxima de que nenhuma arquitetura poderia concorrer com a exuberância da natureza brasileira. Todavia, o arquiteto via nas especificidades dos biomas brasileiros um desafio único à arquitetura, cujas respostas pareciam-lhe promissoras e inventivas.

movimento modernista brasileiro | cubismo | pau brasil | manifesto antropofágico | arquitetura moderna


Jardim da Casa Forte Roberto Burle Marx, 1930.

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Falando na “exuberância da natureza brasileira”, nossa próxima parada é o Jardim

da Casa Forte, localizado na cidade de Recife, projeto paisagístico de Burle Marx; de fato, sua primeira experiência com um jardim público. Celebrado como um dos mais influentes paisagistas do século XX, a obra de Burle Marx é bastante conhecida pela ênfase no uso de plantas nativas brasileiras. No caso do Jardim da Casa Forte, fica claro o compromisso não apenas plástico de Burle Marx, mas com a educação de seus frequentadores, com espécimes fornecidos pelo Jardim Botânico do Rio e pelo Jardim Botânico de Dahlem, o projeto do jardim organizava as plantas ornamentais em três grupos representando distintos biomas: uma parte dedicada à plantas brasileiras, uma parte especificamente à plantas amazônicas e uma parte a espécies exóticas, oriundas de outros continentes.

moro num país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza Jorge Ben, País Tropical


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Casa Na Rua Itápolis Gregori Warchavchik, 1930. São Paulo, SP. Considerado um marco do movimento moderno no Brasil, a Casa da Rua Itápolis é um projeto do ucraniano-brasileiro Gregori Warchavchik, construída ao longo de 1929 e inaugurado em março de 1930 em São Paulo. Em 1925, Warchavchik publica seu texto/ manifesto “Acerca da Arquitetura Moderna”, no qual propõe que a prática da arquitetura se liberte não apenas de estilos do passado, mas da própria noção de estilo, produzindo uma arquitetura pautada na “racionalidade” e na “lógica”, de modo que a beleza da edificação resulte justamente de seus parâmetros da funcionalidade e não de ornamentações. O texto se conclui clamando: “Abaixo as decorações absurdas e viva a construção lógica, eis a divisa que deve ser adotada pelo arquiteto moderno”. A “Casa Modernista” foi inaugurada com uma exposição que contava com obras de Tarsila do Amaral e Victor Brecheret, além da própria casa, aberta a visitação pública. Sua realização proporcionou uma materialização dos ideais da arquitetura modernista no Brasil, sendo tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1986 como um exemplar e precursor da arquitetura moderna brasileira.

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Arquitetura funcional | IPHAN


Flávio De Carvalho Experiência Número 3, 1956. Rio De Janeiro, RJ.

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Pintor, desenhista, dramaturgo, cenógrafo, escritor, jornalista, engenheiro, arquiteto e um dos precursores da performance no Brasil, Flávio de Carvalho produziu alguns instigantes projetos arquitetônicos ao longo de sua vida, porém sua participação na exposição é com uma de suas célebres experiências artísticas: a “Experiência número 3”, de 18 de outubro de 1956.

Nesta ocasião, Flávio de Carvalho desfila pelas ruas do centro de São Paulo, onde matinha seu ateliê, com o protótipo de seu “Traje Tropical”, um vestuário masculino mais apropriado ao clima tropical. O conjunto era composto por uma blusa, saia, meia arrastão e sandálias, de forma a aumentar a ventilação do corpo. A ação, que reuniu uma aglomeração de curiosos perplexos e que produziu um grande interesse na mídia, fora, de fato, antecipada pela publicação de croquis e de ensaios sobre história da moda em jornais da época. Há anos o artista vinha se dedicando a pesquisa da relação entre formas curvilíneas e retas paralelas na moda, bem como a aproximação perceptível (segundo ele, inevitável) entre a indumentária feminina e masculina. Assim, defendia que seu modelo era, efetivamente, uma dedução lógica dos desdobramentos da moda, bem como uma recuperação de soluções de vestimentas de populações antigas que viviam em condições análogas ao clima brasileiro.

Carmem Miranda A “Pequena Notável” participou de 14 filmes nos EUA entre as décadas de 1940 e 1950. Ao longo de sua carreira de sucesso, ficou associada ao exotismo latino-americano, sendo por vezes criticada por suas personagens caricatas e inautênticas. Todavia, teve uma contribuição ímpar para a divulgação da música brasileira no exterior e lançou tendência na moda em Nova Iorque. Foi a primeira artista latino americana a ter sua estrela na calçada da fama.


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Pós-tudo Augusto De Campos, 1964-2016. Com Décio Pignatari e seu irmão Haroldo de Campos, Augusto de Campos é um dos precursores do Movimento Concreto no Brasil. No mesmo ano em que Flávio de Carvalho apresentava seu “traje tropical”, o Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugurava a Exposição Nacional de Arte Concreta. No final da década de 1950 serão lançados o Manifesto da Poesia Concreta (1956) e o Plano Piloto da Poesia Concreta (1958) em que apresentavam as diretrizes conceituais do movimento, sobretudo a sua intenção de produzir uma nova linguagem literária, por meio de formulações poéticas compostas de elementos visuais, sonoros e verbais, produzindo uma estrutura gráfico-espacial que

possibilitava leituras verticais, horizontais e diagonais.

Max Bill O designer, arquiteto, pintor e escultor suíço foi um dos mais notórios e influentes teóricos do design no sécúlo XX. A partir da premiação de sua escultura Unidade Tripartida na 1ª Bienal de Arte de São Paulo, Max Bill começa exercer uma grande influência sobretudo em São Paulo, culminando no estabelecimento do movimento concretista, bem como das bases da formação em desenho industrial no Brasil. Max Bill era especialmente crítico à arquitetura moderna brasileira, acusando-a de formalista e

antimoderna.

Era sobretudo avesso ao que identificava como uma megalomania dos arquitetos modernos brasileiros, que, segundo ele, rompiam a proporção humana em seus projetos, desconectados das questões sociais locais. Também identificava uma barroquismo na arquitetura brasileira, um apego por elementos decorativos, como a insistência do emprego da azulejaria decorativa e da pintura mural. Era sobretudo crítico a Niemeyer, com suas curvas, que considerava caprichosas e gratuitas.

concretismo


Tropicália Caetano Veloso, 1968. “Tropicalismo” ou “tropicália” designa um movimento artístico cultural brasileiro originário da segunda metade da década de 1960, portanto, sob o contexto da ditatura militar. Um movimento sobretudo musical, contou com expoentes como Torquato Neto, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé e José Carlos Capinam, todavia, foi também relacionado à obra de Hélio Oiticica, ao Cinema Novo e ao teatro do Grupo Oficina. Influenciados pelos movimentos da contracultura, os artistas da Tropicália buscavam uma composição complexa de elementos da cultura popular brasileiras e internacional, como o rock (considerado imperialista por parte da intelectualidade nacional, o que gerou diversas críticas à Jovem Guarda); dialogando com a cultura de massa e com a poesia concreta, recorriam muitas vezes aos jogos de linguagem e codificação para exprimir suas posturas de resistência política ao golpe de 1964 e seus efeitos sociais, de modo a evitar os mecanismos de censura vigentes. A música “Tropicália”, de Caetano Veloso, que abre o módulo “Contra os

Chapadões Meu Nariz”, teria sido influenciada pela obra homônima de Hélio Oiticica: um conjunto de penetráveis que compunham uma instalação exposta no MAM RJ em 1967. Nela, imagens de araras, areia e plantas, estereótipos do imaginário brasileiro, não sugeriam uma síntese identitária; em sua música, Caetano concebe esse conjunto de representações incongruentes de uma identidade nacional como a construção de um “monumento”, na qual convivem os elementos arcaicos e modernos, o entusiasmo desenvolvimentista e as desigualdades sociais, a cultura popular e erudita. Deste modo, a tropicália parece atualizar o projeto antropofágico modernista.

6 Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh Bat Macumba ê ê, Bat Macumba Bat Macumba ê ê, Bat Macum Bat Macumba ê ê, Batman Bat Macumba ê ê, Bat Bat Macumba ê ê, Ba Bat Macumba ê ê Bat Macumba ê Bat Macumba Bat Macum Batman Bat Ba Bat Bat Ma Bat Macum Bat Macumba Bat Macumba ê Bat Macumba ê ê Bat Macumba ê ê, Ba Bat Macumba ê ê, Bat Bat Macumba ê ê, Batman Bat Macumba ê ê, Bat Macum Bat Macumba ê ê, Bat Macumba Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá Bat Macumba, Gilberto Gil e Caetano Veloso

cinema novo | contracultura | ditadura miliar | grupo oficina | censura


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Lygia Clark O Bicho, O Antes E O Depois, 1963. Lygia Clark foi uma das fundadoras do Grupo Neoconcreto. O Neoconcretismo nasce de uma ruptura dentro do movimento moderno, especificamente entre os construtivistas paulistas e cariocas. Os artistas neoconcretos denunciaram o que compreendiam como uma radicalidade racionalista e um dogmatismo geométrico e defenderam um resgate aos valores subjetivos e expressivos da arte, bem como

uma incorporação do público como participador da obra. Em 1959, Lygia Clark realizou sua série de “casulos”, estruturas de metal dobrado que antecedem e que a conduzem a série de Bichos (realizada entre 1960 e 1964). Os Bichos são esculturas que exigem a participação do público; estruturas metálicas geométricas articuladas por dobradiças, que, conforme manipuladas, tornassem-se volumes “vivos” em seu processo de transformação e reformulação dos planos. A ideia de um objeto vivo, instável, implicava em uma relação existencial entre dois agentes, público e obra, na qual não haveria possibilidade de passividade. Os bichos são hoje considerados pioneiros da arte participativa e ganharam o prêmio de melhor escultura nacional na VI Bienal de São Paulo.

O concreto já rachou! Brasília... Plebe Rude, O Concreto já Rachou

neoconcretismo | hélio oiticica | arte participativa


Palácio Do Itamaraty Oscar Niemeyer, 1962, Brasília, DF.

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Como sede do Ministério das Relações Exteriores, o Palácio do Itamaraty tem a função simbólica, fruto de sua vocação diplomática, de apresentar a cultura brasileira a visitantes estrangeiros. Projetado por Oscar Niemeyer, com cálculos de Joaquim Cardozo e a colaboração do embaixador Wladimir Murtinho, o conjunto arquitetônico do Ministério das Relações Exteriores busca conciliar a função cerimonial, de recepção de chefes de estados e autoridades estrangeiras, e burocrática, o trabalho do Ministério. Assim, o Palácio se dedicaria a solenidades, contemplando também a sala do Ministro de Estado e do Secretário Geral,

o Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

enquanto a maior parte das atividades ministeriais estariam concentradas

no edifício anexo. Associado à arquitetura, o acervo do Palácio conta com produções representativas da cultura brasileira, como peças de mobiliário, tapeçarias e obras de arte de Rubem Valentim, Maria Martins, Alfredo Volpi, Athos

anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato

Bulcão, Sérgio Camargo, Tomie Ohtake, Frans Krajcberg, Franz Weissmann, Mary Vieira, Iberê Camargo, Ione Saldanha, além do paisagismo de Roberto Burle Marx e da escultura “Meteoro” de Bruno Giorgio, que simboliza o laço

entre os cinco continentes.

vai entrar no cuscuz, acarajé e abará

Diferente dos palácios da Alvorada e do Planalto, com sua estrutura em caixa de vidro entre lajes de concreto, o Palácio do Itamaraty e cercado por colunas em arco pleno. Destaca-se o vão livre interno no hall do palácio.

na casa branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá Brasil Pandeiro, Assis Valente


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SESC POMPEIA Lina Bo Bardi, 1977. São Paulo, SP.

Localizado no bairro Vila Pompéia, em São Paulo, o Centro de

A pequena rua que dava acesso aos caminhões até a fábrica

Lazer Fábrica da Pompeia, hoje conhecido simplesmente como

foi mantido e reformulado como um eixo de organização dos

SESC-Pompeia, é um projeto de Lina Bo Bardi.

fluxos dos frequentadores, sendo exclusivo para pedestres. No restaurante foram instaladas mesas coletivas, para estimular a conversa.

O complexo tornou-se paradigmático para a arquitetura brasileira na década de 1980, ao suscitar uma série de debates acerca da revitalização e intervenções em edifícios históricos.

Foram incorporados azulejos de Rubens Gerchman, representando elementos da fauna e flora brasileiras e tapeçarias de Edmar de Almeida. Há uma clara predileção por

Em pesquisa preliminar, descobriu-se que a estrutura fabril que

materiais e repertórios arquitetônicos nacionais, como os

existia no local, a antiga fábrica de tambores, era , na realidade,

pisos feitos de caco de azulejos, o mobiliário de cabriúva ou as

um projeto de François Hennebique, um dos pioneiros do uso do

treliças de madeira, o muxarabiê, técnica árabe trazida pelos

concreto armado. Desta forma, optou-se por recuperar a estrutura original, retirando o reboco e intervenções posteriores, e incorporá-la ao projeto.

Lina idealizou o local como um espaço democrático de encontro

portugueses. Assim, a transformação de um espaço do trabalho fabril ao centro de lazer não se deu no apagamento do passado histórico, mas sua valorização.

Contrastando com a horizontalidade destes equipamentos, a

entre diversas idades e classes sociais (um posicionamento

verticalidade dos edifícios no fundo do terreno atende ao

ético que acompanhou seu trabalho como arquiteta). De fato,

programa previsto para a unidade. Ali encontra-se a

passou a defender a reformulação da noção de Centro Cultural e Desportivo em favor da concepção de um Centro de Lazer, enfatizando a convivência e a atividade recreativa como alternativas à cultura institucionalizada e ao esporte competitivo.

plasticidade das janelas das edificações, pulverizadas pela fachada em um e com cortes irregulares, “buracos de caverna”, no outro. A caixa d’água, com seu padrão quase rendado substitui a antiga chaminé e as torres são interligadas por passarelas de concreto.

revitalização | concreto armado | reboco | muxarabiê



Galeria Adriana Varejão

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Tacoa Arquitetos, 2008. Brumadinho, MG

A artista plástica Adriana Varejão tem uma vasta produção artística que investiga a iconografia do passado colonial brasileiro. Sua prática pictórica explora, sobretudo, a violência dos processos de assimilação e dominação cultural que subsistem nas narrativas históricas hegemônicas, mostrando, como ferida aberta, nosso passado colonial, evangelizador, escravocrata...

A Galeria Adriana Varejão está localizada no Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, e integra o conjunto de galerias independentes intercaladas pelo paisagismo

Como um espaço planejado especificamente para receber a obra da artista, o edifício coloca em questão a autonomia do projeto arquitetônico e sua

local. Projetado pelo escritório Tacoa Arquitetos Associados, a

indissociabilidade do projeto artístico que abriga. O fato

edificação foi concebida especificamente para abrigar obras da

de que a obra de Varejão tenha uma qualidade

artista que integram a coleção.

arquitetônica (não apenas no que diz respeito a escala de alguns trabalhos, mas a referência a determinados elementos arquitetônicos, sobretudo barrocos)

A construção ocupa um terreno irregular aonde, antes, havia um depósito de containers. No declive, foi produzido um bloco de concreto armado inserido na encosta. O acesso é dado pela travessia de uma rampa associada a um espelho d’água que conduz

potencializa essa relação. A arquitetura responde a qualidades da obra e, por sua vez, a artista propôs novas intervenções, provocada pela constituição do espaço arquitetônico.

a uma fachada de vidro. O fluxo de visitação se dá de forma ascendente em espiral e conecta os dois níveis do parque. O resultado é uma plasticidade de clara referência modernista, um edifício atravessado e articulador de um imenso léxico sobre a eminência de construção e colapso dos discursos identitários nacionais.

iconografia | assimilação cultural / dominação cultural | narrativa hegemônica | fluxo | arquitetura barroca


elemento construtivo:

Ladrilho hidráulico estrela/ Paulo Mendes da Rocha Com sua produção artesanal, o Ladrilho Hidráulico, de origem bizantina, foi trazida ao Brasil pelos imigrantes italianos na década de 1920 e passa a ser incorporado em diversos projetos arquitetônicos, como a renovação da Pinacoteca, em 1990 e o piso da Casa Gerassi, em 1989, ambos projetos de

Paulo Mendes da Rocha. Para a Casa Gerassi, como em outros projetos, o arquiteto escolheu o padrão Estrela. Deste modo, o produto passou a ser associado ao arquiteto, sendo, então renomeado “Modelo Estrela Paulo Mendes da Rocha”.


Glossário: Arquitetura Barroca

O Barroco foi o principal estilo arquitetônico do período colonial, introduzido por missionários jesuítas. Tem estilo dinâmico, contrastante e ornamental. No Brasil, o Barroco ganha feições próprias. Os modernistas brasileiros e intelectuais do início do século XX se engajaram num processo de resgate e valorização do Barroco brasileiro.

Arte Participativa

A Arquitetura Eclética foi o estilo arquitetônico predominante no Brasil entre meados do séc. XIX e primeiras décadas do séc. XX. O ecletismo misturava características de diferentes estilos arquitetônicos associados aos avanços da engenharia do período.

Arte participativa refere-se a uma variedade de práticas artísticas contemporâneas na qual a obra de arte é ativada pela participação do público, de modo cooperativo. A arte participativa questiona as noções tradicionais de autoria artística. Suas origens remontam às vanguardas artísticas europeias, sendo desenvolvidas nas práticas contemporâneas, tais como os happenings de Allan Kaprow, diversas práticas Situacionistas, em atividades do grupo Fluxus, no Teatro do Oprimido de Augusto Boal e as práticas descritas e expressas teoricamente na Estética Relacional de Nicolas Bourriaud. No Brasil, essa modalidade foi teorizada por Hélio Oiticica e relacionada às experiências neoconcretas.

Arquitetura Funcional Arquitetura Funcional é aquela pautada

Assimilação

Arquitetura Eclética

pelo princípio do funcionalismo, ou seja, na qual as características de uma edificação devem ser estipuladas exclusivamente por sua funcionalidade. De modo geral, é antiornamental, uma vez que ornamentos não cumprem funções práticas, e parte do pressuposto que a beleza arquitetônica está na simplicidade e engenhosidade das soluções plásticas.

Arquitetura Moderna Arquitetura Moderna é a designação para

um conjunto de movimentos produzidas ao longo do século XX; de forma geral a arquitetura moderna é marcada pela rejeição à ornamentação, relacionado aos estilos históricos, o funcionalismo, emprego de formas geométricas básicas, evidência dos materiais utilizados, valorização da função social das edificações, janelas amplas etc. Segundo Le Corbusier, em seus cinco pontos da Nova Arquitetura, suas características morfológicas fundamentais seriam: Fachada Livre, Janelas em Fita, Uso de Pilotis, Terraço Jardim e Planta Livre.

Arquitetura Neocolonial

Arquitetura Neocolonial Brasileira é um movimento eclético que buscava o resgate e valorização dos motivos decorativos típicos do período colonial ibérico como estilo genuinamente brasileiro contraposto ao ecletismo.

Cultural/

Dominação

Cultural

Assimilação Cultural ou Social é o processo no qual indivíduos ou grupos sociais adquirem características culturais de outro grupo. Dominação cultural é o processo por qual uma sociedade, por meio de estratégias políticas e influência econômica, impõe elementos de sua cultura a outras sociedades. Assim, a dominação cultural relaciona-se aos conceitos de imperialismo cultural (processos pelos quais uma sociedade é induzida, pressionada ou forçada a moldar suas instituições sociais de modo que elas correspondam a valores estruturais de um centro dominante) e aculturação (fenômeno de interação social que resulta na sobreposição de valores de uma cultura sobre a outra).

Censura

Censura é a desaprovação e cerceamento de conteúdos (informação, mensagem jornalística, emissão de opinião, expressão artística etc.) ou sua remoção da circulação pública por motivação crítica, política ou moral, geralmente com o intuito da proteção de estado, grupo social ou indivíduo, contrariando o princípio da liberdade de expressão. A Ditadura Militar no Brasil é conhecida por seus mecanismos de censura que visavam o controle da opinião pública, a desmobilização popular e identificação, perseguição e repressão de dissidências políticas.


Glossário: Cinema Novo movimento cinematográfico brasileiro

que buscava uma estética capaz de traduzir a realidade nacional. Sobretudo crítico às desigualdades sociais e influenciado pelo Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague, foi proeminente entre as décadas de 1960 e 1970, e teve em Glauber Rocha seu cineasta mais notório e influente.

Concretismo Movimento artístico e literário da década de 1950 que

explorava a organização plástica-gráfica-visual do texto, ambicionando a fusão entre forma e conteúdo. No Brasil, foi um movimento sobretudo paulista e teve alguns de seus expoentes em Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que fundaram a Revista Noigandres em 1952.

Concreto Armado

Sistema estrutural de construção civil que utiliza armações metálicas, oferecendo tração ao concreto que é particularmente resistente à compressão. Seu emprego é associada a arquitetura moderna.

Contracultura

movimento libertário de mobilização e contestação social da década de 1960 e 1970, se opunha a cultura dominante vigente, contrariando padrões sociais em postura de ativismo político em favor da cultura marginal, produções alternativas e underground. É associado a diversos grupos que buscavam a transformações das consciências, valores e comportamentos, como o movimento Hippie nos EUA e o movimento punk na Inglaterra.

Cubismo

movimento artístico do século XX caracterizado pela recusa da representação fidedigna da natureza em favor de volumes e planos geométricos que apresentam simultaneamente vários ângulos de um objeto. Ao longo do movimento, ele é dividido em duas fases: o cubismo analítico e sintético.

Democracia Racial

Estado de plena igualdade entre as pessoas independente de identidade etino-racial. No Brasil, Gilberto Freyre identificou a miscigenação como elemento essencial da identidade brasileira e propôs o estabelecimento de uma relação cordial entre senhores e escravos. Essa tese não se sustenta, e foi rebatida por diversos teóricos contemporâneos, tendo em vista as violências produzidas pela colonização e o regime escravagista no Brasil e seus reflexos no racismo estrutural; sendo referida usualmente como “o mito da democracia racial”.

Ditadura Militar Período de 1 de abril de 1964 à 15 de março de 1985, após o golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart e institui sucessivos governos autoritários militares.

Fluxo

termo que define as rotas de circulação de pessoas ou veículos em um espaço construído.

Grupo Teatro Oficina

Originalmente fundado em 1958 com José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles, Amir Haddad, Caetano Zamma, Fauzi Arap e Ronald Daniel, o Oficina é uma influente companhia teatral experimental.

Hélio Oiticica

[Rio de Janeiro, 1937-1980] artista plástico e teórico carioca. Propôs a superação do objeto de arte tradicional e propôs o público como participador do exercício experimental da liberdade.

Iconografia

repertório de imagem próprio de um artista, gênero artístico ou período histórico.

Manifesto Antropófago Cultura Popular Brasileira

Cultura popular é o conjunto de meios expressivos, crenças, hábitos, morais, linguagens, tradições, folclore, lendas, costumes e artesanato que produzem a identidade de uma comunidade sociocultural.

Manifesto literário de Oswald de Andrade de 1928 no qual fundamenta o movimento antropofágico. Reivindicava o uso de uma língua literária não catequizada, propondo a deglutição do legado europeu e digeri-lo sob a forma de uma arte tipicamente brasileira.


Glossário: Movimento modernista brasileiro

Amplo movimento cultural da primeira metade do século XX a partir do impacto das vanguardas europeias, principalmente do Cubismo, Futurismo, Dadaísmo e Surrealismo. Essa inovações foram sendo integradas a um repertório nacional. Os efeitos iniciais do modernismo brasileiro se deram sobretudo em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

Muxarabiê

Balcão protegido por treliça de madeira afim de assegurar ventilação e sombra. Influência árabe na arquitetura ibérica.

Narrativa hegemônica

Hegemonia é a supremacia de uma sociedade sobre outra por meios bélicos ou culturais. As narrativas hegemônicas são aquelas que se operam através da invisibilização de outras identidades (culturais, raciais, de gênero, sexualidade etc.). É o caso dos discursos estruturantes da branquidade, masculinidade, heterocisgeneridade etc.

Neoconcretismo

Movimento artístico surgido no Rio de Janeiro no final da década de 1950 como reação ao concretismo paulista. Propunham uma recuperação dos valores sensíveis, expressivos e subjetivos para a arte e a incorporação efetiva do observador.

Pau Brasil

[1924] O Manifesto da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade argumenta por uma cultura de exportação, uma poesia revolucionária, não apenas autônoma em relação a cultura europeia, mas, de fato, capaz de influenciá-la positivamente. Propõe uma

poesia revolucionária.

Reboco

Camada de revestimento de argamassa aplicada a paredes

e tetos.

Revitalização

Refuncionalização estratégica de áreas com valor patrimonial e de elementos que permaneceram inalterados no processo de transformação urbano de modo a promover uma nova dinâmica social.

Vanguarda Artística

Do francês avant-garde, termo militar que designa a guarda avançada, passou a ser usada no início do séc. XX para descrever o pioneirismo em diversos campos, sobretudo, artístico. As vanguarda europeias, ou vanguardas históricas, foram manifestações artísticas que buscavam romper com a tradição cultural europeia e seus padrões representativos. Alguns exemplos são o Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo, Suprematismo e Construtivismo, entre outros.


Material educativo elaborado por Matias Monteiro

INFI NI T VÃO


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