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PERCURSO EDUCATIVO INFINITO

VÃO VISITA EM

7 OBRAS


“PRA GENTE VER POR ENTRE OS PRÉDIOS E NÓS PRA GENTE VER O QUE SOBROU DO CÉU” O QUE SOBROU DO CÉU, O RAPPA


Saudações! A exposição INFINITO VÃO propõe um panorama de noventa anos da arquitetura brasileira, a relacionando a um contexto mais amplo das manifestações culturais e dos contextos políticos e sociais no país. Esses roteiros de percursos propõem visitas temáticas, sugerem caminhos que podemos trilhar na exposição, partindo de um conjunto de perguntas norteadoras. Vamos explorar algumas especificidades das práticas arquitetônicas no Brasil? Boa visita!


PERCURSO AMARELO Comecemos pelo “Vão”...

Na arquitetura e na engenharia vão é a distância entre dois apoios consecutivos.

Gilberto Gil, na música “Drão”, fará do vão estendido ao infinito a imagem do amor como análogo ao elemento arquitetônico, uma promessa de continuidade ininterrupta, um salto sobre o vazio. Todavia, esse mesmo recurso arquitetônico, na música “As Vitrines” de Chico

Buarque, é apresentado como risco de perda ou dispersão do objeto amado ao alertar que “a cidade é um vão”. Percebamos quão rico e polissêmico é o vão livre, esse desafio de engenharia, promessa de leveza tão cara ao modernismo.

Podemos radicalizar esse convite proposto pela exposição, e nos permitir localizar neste

vasto repertório uma coleção de vazios ? Afinal, o vazio arquitetônico e urbanístico foi profundamente ressignificado na experiência moderna: convertido em área verde, amplos espaços de circulação livre, espaços abertos na malha urbana como um convite ao convívio coletivo...

Há uma arquitetura do vazio nesse infinito vão?


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Ministério da Educação e Saúde Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Ernani Vasconcellos.,1936. Rio de Janeiro, RJ

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Comecemos com os Pilotis do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro. Em 1935, o Ministério abriu uma seleção para um projeto arquitetônico para sua nova sede. A escolha de um projeto eclético de Archimedes Memória e Francisque Cuchet desagradou o então ministro Gustavo Capanema, que desejava produzir um marco modernista. Assim, embora premiado, o projeto vencedor não foi executado. Capanema convidou, então, Lúcio Costa, já um importante defensor da arquitetura moderna, para formular um novo plano. Costa formou sua equipe, composta de jovens arquitetos, e convida Le Corbusier como consultor. O projeto integra alguns dos principais elementos da arquitetura moderna, como o uso de pilotis, planta livre, terraço em jardim, fachada livre e janelas horizontais, integração de espaços internos e externos, aproveitamento de luz e ventilação natural, bem como a inovação do emprego de brise soleil (quebra sol). Associado a obras de Candido Portinari, Alberto Guinard, Pancetti, Bruno Giorgi, Adriana Janacópulos e Celso Antonio Silveira de Menezes e com paisagismo de Burle Marx, o edifício, cuja construção inicia-se em 1937, é considerado um marco da arquitetura moderna brasileira bem como da arquitetura funcionalista na américa latina, sendo celebrado na exposição Brazil Builds antes mesmo de sua

Atrás do arranha-céu Tem o céu, tem o céu E depois tem outro céu Sem estrelas

inauguração oficial em 1945. O Térreo em pilotis conta com um pé direito de mais de nove metros permeável e desimpedido para o fluxo de pedestres.

Maracatu Atômico, Jorge Mautner e Nelson Jacobina

5 pontos da arquitetura moderna | brise soleil | brazil builds


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MUSEU DAS MISSÕES Lúcio Costa, 1940. São Miguel das Missões, RS Continuemos pelo vazio das ruínas. Em 1937, Lúcio Costa

produziu um relatório ao Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional acerca dos assentamentos missionários jesuíticos no Rio Grande do Sul. Sua sugestão foi a de concentrar o legado missioneiro em São Miguel, por ser este o sítio que apresentava o maior interesse arquitetônico. O projeto do museu, inaugurado em 1940, combinava elementos de formas construtivas tradicionais e recursos da arquitetura moderna. As paredes brancas ofertavam fundo às obras expostas enquanto o fechamento em vidro posterior permite uma continuidade entre o acervo exposto no interior e as ruínas ao ar livre. Uma intervenção arquitetônica que buscava amplificar a própria percepção do sítio e da paisagem.

Carta de Veneza A Carta Internacional para a Conservação e Restauro de Monumentos, elaborada no contexto do II Congresso Internacional de Arquitetura e de Técnicos de Monumentos Históricos, realizado em Veneza em 1964, estabelece as diretrizes de conservação de bens culturais, históricos, arqueológicos e artísticos. Fundamenta-se numa abordagem científica da conservação, e sublinha a necessidade de manutenção da autenticidade e da legibilidade do bem, defendendo a intervenção mínima, documentação detalhada dos processos de conservação e restauro e preservação da função física e cultural. Estabelece também que o objetivo do restauro não é a unidade, podendo manter-se modificações estéticas sofridas ao longo do tempo que tenham adquiridos relevância histórica. Há também a determinação que eventuais intervenções, embora devam harmonizar com o conjunto arquitetônico, devem distinguir-se claramente, de modo que não se produza um falso-histórico.

sphan | missões jesuítas | ruína


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Conjunto da Pampulha

Oscar Niemeyer, 1940 – 43. Belo Horizonte, MG Continuemos com as CURVAS DA IGREJA SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Inaugurada em 1943, a igreja faz parte do Conjunto Arquitetônico da Pampulha (composto pela Igreja, um cassino, uma casa de baile, um clube e um hotel localizados às margens da Lagoa da Pampulha) encomendado a Oscar Niemeyer pelo então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitscheck. A obra foi fundamental para a notoriedade nacional do arquiteto, bem como para o desenvolvimento de uma das mais célebres características de sua obra, as curvas permitidas pelo emprego do concreto armado. Com a colaboração do engenheiro Joaquim Cardoso, associado ao projeto paisagístico de Burle Marx e com obras de Candido Portinari e Alfredo Ceschiatti, a igreja é composta por arcos nos quais um único volume cumpre as funções de parede e cobertura, semelhante a solução empregada no hangar do aeroporto de Orly, em Paris, por Eugène Freyssinet. Com uma plasticidade escultórica, à época de sua inauguração, a igreja foi muito criticada pelas autoridades eclesiásticas por sua arquitetura bem como pelas representações de Portinari. A arquidiocese recusou-se a aceitá-la e ela só foi consagrada em 1959.

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Plano Piloto De Brasília Lúcio Costa, 1957. Brasília, DF Prosseguimos com a Escala Bucólica de Brasília. Embora as escalas urbanas de Brasília não sejam diretamente mencionadas no Plano Piloto de Lucio Costa, sendo conceituadas posteriormente à inauguração da nova capital federal, a identidade de Brasília é, hoje, indissociável das relações que se estabelecem entre suas escalas monumental, residencial, gregária e bucólica. Todavia, desde o princípio, Brasília é proposta como

A escala bucólica diz, portanto, dos vazios de Brasília, que

emolduram sua monumentalidade arquitetônica, que isolam os edifícios, que abrem espaços de livre circulação de pedestres e que convidam a apreciação contemplativa. Em consonância com o urbanismo moderno, a predominância de espaços não edificados é deliberada e um elemento composicional do projeto. Em Brasília, o espaço livre não é residual, mas protagonista e configurador da paisagem

uma “cidade-parque”.

urbana. É também, justamente, reiteradamente um ponto de

A escala monumental encontra-se em seu eixo monumental,

crítica ao projeto, acusado de converter-se em um elemento

concentrando as atividades administrativas; a escala residencial localiza-se ao longo do eixo rodoviário, composto pelas unidades

segregador que se oporia a vida orgânica comunitária das cidades tradicionais.

vizinhança, com suas superquadras que contém blocos, escolas, clubes, bibliotecas, igrejas, áreas polidesportivas e outros equipamentos urbanos; a escala gregária, se dá justamente no cruzamento destes dois eixos, onde situam-se os setores

Somada a restrição da elevação dos prédios residenciais, esses espaços fazem da malha urbana um mirante para o céu do planalto central, e originam o famoso “céu de Brasília”.

bancários, de autarquias, hoteleiro, comercial, de diversões e a plataforma da rodoviária; a escala bucólica, por sua vez, permeia as demais escalas, sendo formada pelas áreas livres e arborizadas, os gramados, o espraiamento, a orla do lago...

plano piloto | cidade parque


Esse imenso desmedido amor Vai além que seja o que for

Passa mais além do Céu de Brasília Traço do arquiteto Linha do Equador, Djavan


FAU-USP

João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, 1961. São Paulo, SP

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O espaço “vazio” como um convite a convergência e convivência nos remete ao Salão Caramelo da FAU-USP. Projeto de João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, o edifício da Faculdade de Arquitetura localizado no campus universitário da USP é um exemplo da arquitetura brutalista em São Paulo. O brutalismo é uma corrente arquitetônica funcionalista que privilegiava a apresentação de seus elementos

estruturais e a eliminação de elementos decorativos. No caso da FAU, inaugurada em 1969, o edifício constitui um volume de concreto de

Na vida, quem perde o telhado Em troca recebe as estrelas

faces cegas, com um hall aberto e pavimentos conectados por tampas e escadas em torno de um átrio central. Enquanto as atividades que envolviam visitantes casuais concentravam-se no subsolo, térreo e primeiros pavimentos (auditório, administração, cantina e biblioteca), os pavimentos superiores concentram áreas destinadas ao acesso exclusivo de estudantes e professores

Pra rimar até se afogar E de soluço em soluço esperar

(estúdios e salas de aula). Integrando esses espaços destinados a distintas atividades, há o Salão Caramelo, amplo pátio, organizado como uma praça coberta destinado à recepção, acolhimento e integração comunitária, podendo ser usada para assembleias, exposições e ações cerimoniais. Neste sentido, o espaço complementaria a função educativa do prédio, sendo um local de aprendizado político, no qual as decisões pedagógicas poderiam ser debatidas e decididas coletivamente.

O sol que sobe na cama E acende o lençol Só lhe chamando Solicitando Solidão, Tom Zé

átrio | pátio | usp


Era uma casa Muito engraçada Não tinha teto Não tinha nada

Ninguém podia Dormir na rede Porque na casa Não tinha parede

Ninguém podia Entrar nela, não

Ninguém podia Fazer pipi

Porque na casa Não tinha chão

Porque penico Não tinha ali

A Casa, Vinícius de Moraes


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MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO Lina Bo Bardi, 1957. São Paulo, SP Examinemos agora o monumental Vão Livre do MASP. Projeto de Lina Bo Bardi, o edifício do Museu de Arte de São

Paulo encontra-se no antigo Belvedere Trianon, na Avenida Paulista em São Paulo. Trata-se de um volume suspenso a oito metros do solo, produzindo um ambicioso térreo livre de 74 metros. Um museu flutuante, separado do solo, que se articula, por um lado, à Avenida Paulista e, do outro, à vista do túnel 9 de Julho. Aliado ao vão, suas amplas fachadas de vidro pretendiam integrar seu acervo à cidade, reforçando a missão de aproximar o público à produção artística, o espaço do museu e da vida urbana. O Vão Livre do Belvedere foi proposto como um ponto de encontro popular, uma praça pública sem jardins, espaço aberto

E quem vem de outro sonho feliz de cidade Aprende depressa a chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso Sampa, Caetano Veloso

ao uso da população, ponto de diálogo entre o museu e a rua, podendo expandi-lo por meio de exposições e concertos públicos.

Ao longo dos anos, o famoso ponto de encontro tornou-se um cenário para importantes eventos políticos e sociais na cidade de São Paulo.


7 MUSEU BRASILEIRO DA ESCULTURA Paulo Mendes da Rocha, 1986. São Paulo, SP O Museu Brasileiro da Escultura, ou MUBE, encontra-se em um lote triangular em declive no Jardim Europa, em São Paulo. Projeto de Paulo Mendes da Rocha, o museu compõe-se de uma construção semi-subterrânea associada à um jardim com paisagismo de Burle Marx, uma praça marcada pela emergência de uma grande vigamarquise que cria um vão de 60 metros e dá aceso à área interna do museu, como escultura inaugural. Seus múltiplos planos se relacionam com as vias públicas que o cercam, numa profusão de rampas, escadas e aberturas

zenitais e laterais. O museu abre-se em dois pavimentos, que formam uma ampla praça, espaço apropriado para a exposição de esculturas e para outras atividades do museu a se realizarem ao ar livre, mas também uma esplanada que articula os espaços internos do museu com a malha urbana. O museu confunde-se com o próprio território, com a esfera pública; acontece ao ar livre bem como nos seus interiores.


elemento

Cobogó

construtivo:

Elemento vazado, o cobogó é inspirado pelo muxarabi, treliças usados em sacadas em janelas na arquitetura árabe. Seu nome é a combinação dos nomes de Amadeu Oliveira Coimbra (CO), Ernst August Boeckmann (BO) e Antônio Góes (GÓ), que o patentearam em 1929. Os três implementaram o cobogó a seus projetos no Recife como forma de não vedar a entrada de ar no ambiente. Hoje, o cobogó é sobretudo conhecido por sua ostensiva aplicação nos prédios do Plano Piloto, em Brasília, Distrito Federal


Glossário: 5 Pontos da Arquitetura Moderna Em 1926 Le Corbusier publica seus cinco pontos da Nova Arquitetura. São eles:

Plano Livre: Livre locação de paredes que não exercem função estrutural. Fachada Livre: Com a separação entre estrutura e vedação, há uma maior liberdade no posicionamento das esquadrias. Pilotis: Sistema de pilares que eleva a edificação, desobstruindo o transito abaixo.

Missões Jesuíticas

Povoados indígenas criados e administrados por padres jesuítas na América colonial com a função de catequisar as populações indígenas.

Pátio Espaço aberto localizado no interior de uma edificação, geralmente para convívio de seus usuários.

Plano Piloto

Plano preliminar de um empreendimento

urbanístico.

Terraço Jardim: Projeção do solo ocupado na forma de jardins.

Ruína Resto ou vestígio de uma estrutura arquitetônica.

Janela em Fita: Relação direta com a paisagem

SPHAN

Átrio Pátios localizado no centro ou acesso de uma edificação.

Brise Soleil

Quebra-sol; dispositivo arquitetônico para controlar incidência de irradiação solar no interior de uma edificação.

Brazil Builds [1943] A exposição Brazil Builds: Architecture new and old, 1652-1942, realizada pelo Museu de Arte Moderna de Nova

Iorque propunha uma retrospectiva da produção arquitetônica Brasileira. Realizada por Philip L. Goodwin, trazia um vasto acervo fotográfico, de desenhos, croquis, plantas, mapas, e slides. A exposição é considerada um marco para a divulgação da arquitetura moderna brasileira.

Cidade-Parque A partir da década de 1930, Le Corbusier começa

a empregar o termo Ville Verte para defender um projeto urbanístico que não parta do binômio rua/edifício, mas de um novo binômio, edifício/parque.

[1937-1946] O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foi um órgão federal de proteção ao patrimônio brasileiro, hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Criado em 1936, a partir de determinação presidencial dirigida ao ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema.

USP

A Universidade de São Paulo é uma universidade estadual de São Paulo, fundada pela fusão das Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Escola Politécnica de São Paulo, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Faculdade de Medicina, Faculdade de Direito e Faculdade de Farmácia e Odontologia.


Material educativo elaborado por Matias Monteiro

INFI NI T VÃO


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