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ACONSELHAMENTO PASTORAL EM CRISES E CONFLITOS CONJUGAIS

Sérgio Henrique Zilochi Soares1

RESUMO Esse trabalho apresenta uma abordagem sobre crises e conflitos conjugais. Tem como objetivo mostrar como o Aconselhamento Pastoral é importante para ajudar os casais a identificarem as principais causas de crises e conflitos no casamento. Busca explicar a forma e os motivos que podem levar a estes desentendimentos e como trata-los através de orientações sob a luz das Sagradas Escrituras. Para tanto, o seguinte questionamento norteou a temática: Como o conselheiro deve lidar para ajudar casais em crise? Através da identificação dos pontos conflitantes, o conselheiro, lançando mão do método noutético, ajuda os casais, por si próprios, detectarem e tratarem seus erros com maturidade. No processo de investigação, utilizou-se à pesquisa bibliográfica com a seleção de autores que abordam o assunto de Aconselhamento Pastoral com propriedade, dentre eles destacam-se: Maldonado (2005), Janzen (2007), Schineider (1998), Clinebell (1998), Collins (2004). Através deste artigo será possível observar que por mais que haja compreensão e amor entre duas pessoas, mais cedo ou mais tarde os conflitos acabarão aflorando. Esses conflitos indicam onde o relacionamento não está harmônico devendo ser tratado como uma oportunidade de crescimento e aproximação entre o casal, mas, nunca como fator ensejador de uma separação conjugal. O aprendizado da conjugalidade demanda de ingredientes necessários como: amor, carinho, companheirismo, projeto em comum. Esses ingredientes auxiliam no fortalecimento do casal, permitindo que juntos ultrapassem as dificuldades que possam surgir. Palavras Chave: Aconselhamento. Casamento. Crise conjugal.

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Militar. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Sete Lagoas. Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário de Maringá. Professor no Centro Educacional Teológico das Assembleias de Deus no Brasil - CETADEB e no Seminário Bíblico Mineiro (Unidades em Sete Lagoas/MG). E-mail: sergiodireito7@yahoo.com.br


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1 INTRODUÇÃO O presente trabalho cuidará da análise das crises conjugais no casamento e abordará aspectos básicos à respeito de sua estrutura, tais como: origem do casamento, amor e crises conjugais. O trabalho não se preocupa em oferecer receitas para a vida dos casais, não obstante, propõe através das argumentações e reflexões que serão apresentadas, uma humanização, valorização e compreensão dos relacionamentos, além de um preparo para o enfrentamento de uma nova vida. Uma nova caminhada que, sem sombra de dúvidas, é muito difícil, árdua e cheia de tropeços, entretanto, uma fase que oferece oportunidades de crescimento, encontro, felicidade, partilha, amizade e respeito. Casamento é muito mais do que uma formalidade legal e religiosa, é um processo no qual as engrenagens vão se ajustando ao decorrer do tempo em que o casal encontra-se lado a lado. A maioria das pessoas imaginam que casamentos bem sucedidos são aqueles que não enfrentam dificuldades, entretanto, não existe casamento dessa natureza. Nenhum casal está isento dos ventos fortes e das tempestades no casamento (COSTA, 1975). A geração atual assiste de braços cruzados o desmoronamento das relações conjugais. A famosa frase sempre dita no altar “até que a morte os separe”, na maioria das vezes, não passa de mera formalidade. Essa frase tem se tornado apenas parte do ritual de celebração, e não uma meta para aqueles que estão acabando de se casar. O tempo, a cooperação, o empenho e o contínuo zelo do casal são elementos indispensáveis para ter-se um casamento maduro e satisfatório. Marido e esposa devem ser empenhar-se em compartilhar, amar, ouvir, doarse e perdoar. Um casamento bem sucedido precisa ser constantemente monitorado, ajustado e fortalecido. Este é o propósito principal deste trabalho, fornecer meios para compreensão e ajuste do relacionamento conjugal (MANENTI, 1991).


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2 A VISÃO BÍBLICA SOBRE O CASAMENTO Deus é o grande idealizador, o arquiteto, o edificador, o protetor e o galardoador do casamento. Por isso, o casamento nasceu no céu, e não na terra. Essa bendita instituição nasceu no coração do Santo Deus, e não no coração do homem pecador. O casamento foi a primeira instituição divina, ele é anterior ao Estado e até mesmo à própria Igreja. O casamento, embora não seja um sacramento, é uma aliança de amor e um compromisso de fidelidade, onde Deus se apresenta como a suprema testemunha (LOPES, 2005). A visão do nosso Senhor que esta contida na Bíblia é de que o casamento trata-se de uma aliança. Essa união estabelecida por Deus fala de unidade, fidelidade e edificação de gerações. Aos olhos do Pai, o casamento é a proteção para a família e para a futura geração. Segundo o modelo de aliança o casamento é indissolúvel, indivisível e completamente interligado a Deus. Isso é o que diz a Palavra do Senhor: “Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança” (A BÍBLIA SAGRADA, 1993, Malaquias 2.14). O casamento para Deus é algo de extrema importância, sendo que o Apóstolo Paulo chegou a usá-lo como exemplo da união entre Cristo e a Igreja. O casamento é um voto e, quebrar esse voto, é um assunto muito sério. Ao rompê-lo também é rompida a comunhão com Deus. No versículo acima citado Deus expressa sua visão acerca da fidelidade com o voto do casamento. O voto realizado junto ao altar é uma coisa muito séria. O casamento trata-se da união de duas pessoas imperfeitas, comprometidas entre si através de uma instituição perfeita, que é concretizada com um voto proferido por pessoas imperfeitas, contudo, torna-se um voto perfeito porque é feito diante de um Deus. (LOPES, 2007) O casamento pode ser considerado como a pedra fundamental da sociedade humana. Ele é a célula mãe da sociedade. O casamento pode ser a ante-sala do céu ou o porão do inferno; um largo horizonte de liberdade ou uma sufocante prisão; um abrigo seguro ou uma arena de brigas, contendas e intermináveis discussões (LOPES, 2005).


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A Bíblia diz que digno de honra entre todos seja o matrimônio e o leito sem mácula. Esse é também o entendimento do saudoso teólogo João Calvino (1985, p. 168): Pois que o ser humano foi criado com esta lei: que não viva uma vida solitária, ao contrário, usufrua de um recurso a si adjudicado. Ao depois, pela maldição do pecado, mais adjungido foi a esta necessidade. Neste aspecto, quanto era de mister, socorrido nos há o Senhor quando instituiu o matrimônio... De onde fica evidente que diante dele não só é maldita toda e qualquer outra união fora do matrimônio, como também essa própria união conjugal foi ordenada como um remédio de necessidade para que não nos atiremos a desenfreada concupiscência. Portanto, não sejamos complacentes para conosco, quando ouvimos que não pode um homem coabitar com uma mulher fora do matrimônio, sem a maldição de Deus.

A palavra grega básica para “casar” ou “casamento” é gameo, que provem da mesma raiz da palavra “gem” em inglês, em nosso idioma essa palavra significa pedra preciosa, joia. Literalmente, a raiz dessa palavra significa fundir. A fusão de diferentes elementos em um só descreve o processo por meio do qual as pedras preciosas e as joias são formadas nas profundezas da terra. Esse processo é uma bela descrição para o casamento (MUNROE, 2009). Definir o casamento de forma acertada é uma tarefa difícil, contudo, Florio tenta assim defini-lo: “[...] o casamento é um relacionamento peculiar entre um homem e uma mulher, através do qual ambos procuram dar e receber a satisfação de suas necessidades e desejos sadios” (FLORIO, 1986, p. 17). 3 CRISES E CONFLITOS NO CASAMENTO Por mais que haja compreensão e amor entre duas pessoas, mais cedo ou mais tarde os conflitos acabarão aflorando. De certa forma, são de grande importância que aconteçam, para que assim exista a possibilidade de indicar onde o relacionamento não está harmônico e, assim, ser corrigido. Cada conflito deve ser, portanto, uma oportunidade de crescimento e de aproximação entre o casal. Em relação à crise, Maldonado define como um estado temporal de transtorno e desorganização que se caracteriza por incapacidade do indivíduo


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ou da família para resolver problemas usando métodos e estratégias costumeiras e também, um potencial para gerar resultados radicalmente positivos ou negativos (MALDONADO, 2005). Segundo o autor acima citado a crise é uma ruptura no interior de relações que exige uma busca de novas formas de funcionamento, melhor adaptação à nova situação por ela criada. Em razão disso, por um lado as crises produzem situações que ameaçam a estabilidade do casamento e, por outro, pode apresentar uma excelente oportunidade para que casal mude para uma melhor convivência. Diante dessa argumentação, torna-se de fundamental importância não se confundir uma crise com problema ou tragédia. Isto porque existem vários problemas que podem surgir na vida conjugal sem que, necessariamente, sejam levados a uma grave crise matrimonial. Já em relação ao conflito Janzen (2007) alega que é uma disputa que surge sempre que as ações de uma pessoa interferem nos objetivos de outra. Na vivência do mundo o conflito pode ser identificado quando duas partes ou mais, descobrem que suas posições são incompatíveis e que, se um lado alcançar seu objetivo, bloqueia os objetivos da outra parte. Não se pode descartar o fato de que as pessoas que passam a conviverem juntas possuem personalidade e objetivos diferentes que podem resultar em tensões originando conflitos. O modo como o casal reagirá a eles é que vai fazer a diferença, devendo-se separar sentimentos de ações. A cultura dominante em nossa sociedade, demonstrada através dos meios de comunicação, vêm promovendo o reducionismo, o materialismo e o secularismo, controlando os valores éticos/cristãos e a família. Influenciados por esse meio, os casamentos, geralmente, tendem a ser superficiais e passageiros, em que os cônjuges buscam apenas satisfazer os próprios interesses. Dessa forma os casais estão tornando, cada vez mais, as pessoas em objetos e não como sujeitos de sua existência (ULTIMATO, 2005). Com sua visão imediatista, o modernismo é marcado por uma ausência completa de um projeto pessoal familiar e produz uma nova forma de relacionamento entre o homem e a mulher, grandemente marcado pelo individualismo, pela fragilidade e pela insegurança. Hoje não há mais aquela preocupação com o futuro e tão pouco com uma felicidade estável, trazendo


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grandes males à estrutura familiar. Constantemente ouvimos frases como essa: “Se não der certo a gente separa” (CHESSER, 1990). Quem entra em um casamento hoje querendo, realmente, que dê certo, necessita superar o egocentrismo e o egoísmo, sentimentos que recusam a vida em comum em busca de conforto e comodidade pessoais (BOWLBY, 1990). Existem fatores que, significativamente, contribuem para as separações conjugais:

dificuldades

financeiras,

diferenças de

educação,

formação

profissional, estilo e objetivos de vida, problemas sexuais, infidelidade, estética, nascimento de filhos, personalidade, problemas psicológicos, diferenças de credo e fé, entre outros (BOWLBY, 1990). Não existe definida uma regra específica que determine quais os fatores que levam à separação de casais, no entanto, a vontade de se cuidar para o outro e tentar compreendê-lo sempre estimula o interesse pela união e deixa de lado a vontade de separar-se. Porém essa vontade não impera em todos os casais. A solução do problema geralmente vem através da separação, pois para muitos é mais fácil descartar do que gastar tempo concertando (STEPHENS, 2014). O divórcio tem sido estimulado como solução. Entretanto, divórcio não é uma solução inteligente para casamentos em crise, apenas um sério agravante que, na maioria das vezes, traz somente um profundo sofrimento e uma imensa frustração. As pessoas divorciadas estão cada vez maiores dentro das comunidades evangélicas. Não há como se negar que existem também muitos líderes religiosos enfrentando divórcio. Contudo, o divórcio não é a solução divina para a crise do casamento, conforme abstraímos das Sagradas Escrituras. Não é sensato fugir do problema em vez de enfrentá-lo (STEPHENS, 2014). 4 O ACONSELHAMENTO PASTORAL NAS CRISES CONJUGAIS Aconselhamento Pastoral vem do inglês “pastoral counseling”, e esse termo para muitos denota ideia de que o aconselhamento seria apenas uma atividade do pastor. Em virtude disso, segue interligado a esse conceito a palavra “poimênica” (do grego poimen) a qual se define como o ministério de


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ajuda da comunidade cristã para os seus membros e para outras pessoas que a procuram na área da saúde através da convivência diária no contexto da igreja enquanto que aconselhamento pastoral é definido como “uma dimensão da poimênica que procura ajudar através da conversação e outras formas de comunicação metodologicamente refletidas” (SCHNEIDER, 1998, p. 291). O principal objetivo do aconselhamento pastoral é ajudar as pessoas que se encontram em conflitos a viverem de maneira consciente e sadia em suas relações com Deus, consigo mesmas e com o próximo. Os Pietistas foram os que desenvolveram a forma de aconselhamento de conversação livre, ou seja, a pessoa podia relatar seus problemas independentemente da situação de penitencia, caracterizando-se pela fé pessoal, nas experiências de conversão e na santificação. Nesta ocasião é que surgiram capelães hospitalares que visitavam e acompanhavam doentes, mas visando apenas a conversão, sem levar em conta a sua situação física, familiar e social. De acordo com Schineider (1998), somente com o racionalismo é que o aconselhamento: [...] rompeu essa tradição, entendendo a conversação pastoral como diálogo entre amigos em que o pastor tinha a tarefa de animar pessoas, procurar melhorá-las moralmente, consolá-las e fornecer ajuda concreta através de conhecimentos de medicina e psicologia. (SCHNEIDER, 1998, p. 301).

Nas décadas de 1920 e 1930, ocorreu nos Estados Unidos uma cooperação de pastores e médicos que ficou conhecida como: “movimento da Clinica pastoral”. Este movimento visava promover aconselhamento terapêutico e uma formação clínica de teólogos. Anos mais tarde, na década de 1960, os europeus uniram esse movimento com a psicologia pastoral. Tal união promoveu a recepção de conhecimentos psicológicos e psicoterápicos no aconselhamento e hoje se encontra em diversos países um sistema de formação clínica e teórica para obreiros da igreja em aconselhamento pastoral. (SCHNEIDER, 1998). O pastor costuma estar presente em diversas fases da vida das famílias: quando alguém nasce, adoece, morre, casa, faz aniversário, forma na escola ou universidade, tem filhos, sofre acidentes, etc. Seja nos momentos felizes ou difíceis das pessoas ali está pastor e, portanto, possui uma estreita relação


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com os familiares, o que possibilita acesso a muitos sistemas familiares além de gozar da confiança das pessoas que o procuram em situações de crises. É dessa forma que Clinebell (1998) explica: Pastores e as pastoras são procurados/as diariamente para ajudar pessoas através do processo de acompanhamento e aconselhamento em momentos de crises. Mesmo com os enormes progressos e crescimento das áreas psicológicas e médicas, bem como proliferação de gurus e filosofias de auto-ajuda (CLINEBELL, 1998, p. 38).

O enriquecimento matrimonial e aconselhamento em casos de crises e conflitos conjugais deve ser uma preocupação constante para todos os pastores. O pastor é quase sempre procurado para intervir e ajudar casais em diferentes níveis sociais ou culturais. Isto ocorre porque o pastor faz parte de uma rica tradição de cuidado poimênico e acompanhamento a pessoas em meio a crises e conflitos (COLLINS, 2004). Dentro dessa perspectiva é que este artigo cientifico exalta a técnica não diretiva e utilização do método noutético2 no Aconselhamento Pastoral para casais em situação de crises e conflitos (COLLINS, 2004). O aconselhamento através do método noutético trata de uma espécie de admoestação em que o objetivo principal trata-se de uma orientação para uma vida correta diante de Deus. O Novo Testamento indica que todos os cristãos, e não somente os pastores, devem ocupar-se no ensino e confrontar-se mutuamente (A BÍBLIA SAGRADA, 1993, Rm 15.14). Todavia, a prática noutética caracteriza-se principalmente como parte integrante do ministério pastoral, isso porque o Apóstolo Paulo ao se despedir dos presbíteros de Éfeso (Atos 20.31), os exortou a continuarem a desenvolver entre o povo a mesma atividade que desenvolvera enquanto estivera com eles. O termo “nouthetéo” é utilizado com muita frequência nos escritos paulinos. Sempre que o termo aparece, está estritamente associado a uma intenção pedagógica (Atos 20.31, Romanos 15.14, 1 Coríntios 4.14, Colossenses 1.28 e 3.16, 2 Tessalonicenses 3.15 e Tito 3.10). Pode-se afirmar, 2

A palavra noutésis (noutesis) pode ser entendida como a arte de “admoestar”, “exortar”, “ensinar”, “por sentido em”, “aconselhar”. Considerando a riqueza do termo original grego, Jay Adams optou por transliterá-lo, por julgar que as definições mencionadas não dão conta do sentido pleno da palavra.


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também, que a teoria noutética se baseia na confrontação de Natã com Davi, depois do pecado que este cometeu contra Urias e Bate-Seba (2 Samuel 12). De acordo com a noutética, o aconselhamento se dá em confrontação com a Palavra. Visando não apenas uma mudança comportamental, ele vai um pouco mais fundo e visa a transformação da cosmovisão, dando as “lentes da Escritura” ao aconselhando. O objetivo da noutética é levar o homem à viver em conformidade com a Lei do Senhor (OLIVEIRA, 2014). 5 LIDANDO COM AS CRISES NO CASAMENTO Casamento é uma maravilhosa bênção que Deus criou, entretanto, não existe casamento sem problemas. Isso não é porque Deus falhou e sim porque homem e mulher são seres imperfeitos. Todo casamento exige renúncia, adaptação e perdão. Mesmo ocorrendo notoriamente o aumento do divórcio, à luz das Escrituras, esta não é a solução divina para a crise do casamento, não é sensato fugir do problema em vez de enfrentá-lo. Muitas pessoas hoje discutem e procuram divorciar antes de entender o que as Escrituras ensinam sobre casamento, que não é uma união experimental. A aliança conjugal não termina quando as crises e os conflitos chegam. As mudanças que ocorrem na vida profissional, pessoal e familiar, podem acarretar problemas e, estes não significam deterioração e sim necessidade de redirecionar o desenvolvimento pessoal, de um grupo que se faz parte ou do casamento. Saber lidar com as mudanças e transformações é um desafio inquietante, pois requer amadurecimento, capacidade de lidar com a frustração, resistir a fuga, lidar com a ansiedade e conviver com o imprevisível. Cabe ao conselheiro pastoral ajudar o casal a desenvolver estas habilidades e competências. É fundamental no casamento aprender atitudes de expressar as emoções e pensamentos de maneira a sustentar o diálogo. Muitas pessoas tem muita dificuldade em dialogar, por isso o pastor deve cuidar de seu rebanho aconselhando os nubentes a praticarem a prática da conversa sadia para resolverem seus conflitos. Agindo dessa forma, o casal obterá um clima de confiança e intimidade com respeito à dignidade do parceiro(a). Permanecer


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fechado diante dos problemas ou desabafar agredindo o parceiro rompe o equilíbrio da relação. O casal deve sempre demonstrar reconhecimento das atitudes positivas do conjugue, valorizando pequenas atitudes que no dia a dia ficam no esquecimento da rotina. Através do cuidado poimênico o pastor deve praticar o counseling de forma pedagógica (nouthetéo) para que o casal viva de maneira consciente e sadia (COMETTI, 1981). O grande objetivo do homem e da mulher, ao desejarem ficar juntos, deve ser criar oportunidades para ter um espaço, onde possam desenvolver a capacidade de viver a dois, buscar soluções criativas, à medida que os obstáculos apareçam, e aprender a desfrutar todas as formas de viver com amor (SHINYASHIKI, 1995). Dentro deste contexto, o que significa a felicidade conjugal? Segundo Florio (1986), pode ser definida por fatores indicadores, que precisam manifestar-se no casamento para que os casais sintam que o relacionamento está feliz: a) Um forte laço emocional de afeição, carinho mútuo pelas necessidades um do outro, inclusive a disposição de se sacrificar em benefício um do outro; b) o fato de um gostar da personalidade do outro como companhia, implicando em muitos interesses e alvos que ambos compartilham; c) respeito um pelo outro como indivíduos; d) atração sexual e um padrão mutuamente satisfatório de expressar amor e dedicação através do ato sexual; e) sentimento de estabilidade no casamento; f) ter convicção da relação conjugal como sendo instituída por Deus e, por isso, tendo a adicional dimensão dos valores espirituais. (FLORIO, 1986, p. 19).

O papel do pastor conselheiro é ajudar o casal a atingir essa felicidade conjugal. Através da sua influência e autoridade, concedidas por Deus e reconhecida pela igreja, o pastor deve agir de forma a produzir uma mudança comportamental do casal em confrontação com as Sagradas Escrituras, levando-os a viver em conformidade com a Lei do Senhor. Para isso, é indispensável que o aconselhamento possa levar o casal a alcançar um nível de maturidade que inclui disposição para assumir responsabilidades, prontidão vocacional, capacidade de ganhar a vida e prover de forma adequada as necessidades da família que deseja constituir. Os jovens que desejam unir-se matrimonialmente devem ser maduros o suficiente compreender as motivações de seus atos e controlar seus procedimentos. A pessoa que vive à mercê dos


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sentimentos torna-se ameaça para si mesma e para as pessoas que a cercam. Adquirir auto-compreensão antes do casamento envolve informações e razões e isso faz com que a pessoa entenda a si mesma. Conhecendo seus pontos fortes, deve desenvolvê-los; conhecendo seus pontos fracos, deve corrigi-los; conhecendo as duas coisas vai se tornar uma pessoa mais feliz e autoconfiante, atraindo o cônjuge para ajustar o relacionamento, tornando-o mais estável e permanente. Segundo Prado (2004), o aprendizado da conjugalidade demanda de ingredientes necessários como o amor, carinho, companheirismo, projeto em comum, o que auxilia no fortalecimento do casal, permitindo que ultrapasse as dificuldades que possam surgir. O contínuo aprendizado que o contato íntimo proporciona, fortalece a cumplicidade do casal, não importando como socialmente ele se apresente, pois ao terem característica de unidade, adquirem força para crescerem. A felicidade no casamento não é uma coisa fácil de se conquistar nem muito menos alcançada no primeiro dia do casamento ou na lua de mel. É um processo bastante delicado que evolui durante a vida a dois. Não se pode excluir, de forma alguma, as reais possibilidades tristezas e momentos de crises, provações e incertezas. Por isso, é bom ter em mente que as diferenças individuais não se constituem impossibilidade para um bom relacionamento, pois até, se bem administradas, podem enriquecer e proporcionar o amadurecimento do casal. O aconselhamento noutético deve levar o casal a compreender que, de fato, não existe casamento perfeito. Não há casamento sem problemas. Todo casamento exige renúncia e adaptação. Segundo Schiwingel (1994) os conflitos são coisas naturais da vida e devemos aprender a lidar com eles: Não precisamos casar para ter conflitos. Estes são eventos naturais da vida. Por menos que os queiramos, estão presentes - não os escolhemos. No entanto, compete-nos escolher a forma de lidar com eles. Enfrentar e lidar com conflitos e impasses é sinal de maturidade, fortalece e dá sabedoria. Dá a sensação de sobreviver a eles (vida), e não de sucumbir (morte). (SCHWINGEL, 1994, p. 10).

A confrontação pastoral, de acordo com as Sagradas Escrituras, deve ser a de mostrar ao casal que nenhum casamento sobrevive sem perdão e


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restauração. Muitas pessoas hoje estão discutindo e procurando divorciar antes de entender o que as Escrituras ensinam sobre casamento. Casamento não é uma união experimental. A aliança conjugal não termina quando as crises e os conflitos chegam. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Um casamento feliz e bem sucedido não acontece por acaso. O objetivo deste trabalho foi demonstrar que, como qualquer outra coisa em nossas vidas, o segredo é buscar o conhecimento necessário e planejar previamente. O papel do conselheiro pastoral é de ensinar aos casais que as pessoas que passam a conviverem juntas podem ter personalidade e objetivos diferentes, e isto pode resultar em tensões originando conflitos. Ensinar-lhes que o modo como o casal reagirá a essas tensões é que vai fazer a diferença, devendo-se separar sentimentos de ações.

O trabalho noutético do

conselheiro deve mostrar que a afetividade, a cumplicidade e a comunicação, são palavras essenciais para o casamento. Buscar conhecimento e compreensão propicia confiança plena entre os parceiros, fazendo prevalecer a fidelidade, o carinho, a arte do ouvir e do dialogar. O casamento é uma instituição que possui o potencial do amor de Deus no seu mais pleno nível possível na terra. Este é um amor altruísta no qual marido e mulher “submetem-se um ao outro por temor a Cristo” (Efésios 5:21) e o marido ama sua mulher assim como cristo amou a Igreja e entregou-se por ela. O casamento não exige perfeição, contudo, deve ser lhe dada prioridade, pois é uma instituição povoada exclusivamente por pecadores e encontra sua maior glória quando eles vêm a forma de Deus conduzi-los através de seu principal plano de amor e justiça.


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REFERÊNCIAS A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. ADAMS, Jay E. Manual do conselheiro cristão. 5. ed. São José dos Campos: Fiel, 2000. BOWLBY, J. Trilogia apego e perda. São Paulo: Martins Fontes, 1990. v. 1-2. CALVINO, João. As institutas ou tratado da religião cristã. Traduzido por Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985. v. 2. CHESSER, Barbara Russell. O mito do casamento perfeito. São Paulo: Mundo Cristão, 1990. CLINEBELL, Howard. Aconselhamento pastoral: um modelo centrado em crescimento e libertação. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1998. COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século 21. Tradução Lucília Marques Pereira da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2004. COMETTI, Pedro. Amar não é tão fácil. São Paulo: Paulinas, 19816. COSTA, Luíz Gonzaga. Comunidade de vida e amor. Petrópolis, Vozes, 1975. FLORIO, A. Preparação para o casamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1986. JANZEN, E. W. Conflitos: oportunidade ou perigo? Curitiba: Livraria Evangélica Esperança, 2007. LOPES, Hernandes Dias. Casamento, divórcio e novo casamento. São Paulo: Hagnos, 2005. LOPES, Hernandes Dias. Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória [entrevista]. Revista Lar Cristão, Vitória, 2007. MALDONADO, J. E. Crises e perdas na família. Viçosa: Ultimato, 2005. MANENTI, Alessandro. O casal e a família. São Paulo: Paulinas, 1991. MUNROE, Myles. O propósito e o poder do amor e do casamento. Belo Horizonte: Bello Publicações, 2009.


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OLIVEIRA, Thiago. Noutética: Confrontando o homem com a Palavra de Deus. 06 jun. 2014. Disponível em: <http://bereianos.blogspot.com.br/2014/06/nouetica-confrontando-o-homem-com.html#. VIxLA3uK4R0>. Acesso em: 13 dez. 2014. PRADO, Luiz Carlos. Amor e violência nos casais e nas famílias. Porto Alegre: UFRGS, 2004. SCHNEIDER-HARPPRECHT, Cristoph. Teologia prática no contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal, 1998. SCHWINGEL, Ruth M. Aprendendo a ser família. São Leopoldo: Sinodal, 1994. SHINYASHIKI, Roberto T. Amar pode dar certo. São Paulo: Gente, 1995. STEPHENS, Ray. Adultério na igreja: uma abordagem preventiva. Tradução de Solano Portela. 2014. Disponível em: <http://www.monergismo.com>. Acesso em: 17 mar. 2011. ULTIMATO. Transformações de ontem e de hoje roubaram a beleza e a autoridade da igreja. Sexualidade transformada em licenciosidade. Ultimato, jul./set. 2005.

ACONSELHAMENTO PASTORAL EM CRISES E CONFLITOS CONJUGAIS  

Artigo Teologico

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