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O QUE ESTAMOS ESPERANDO PARA AGIR? Nina Rosa - pag. 08

O sonho de uma civilização realmente planetária Leonardo Boff - pag. 02

Nutrindo Paz

Thich Nhat Hanh - pag. 04

O sofrimento de se libertar de todo o sofrimento Antonio Guinho - pag. 12

Além do antropocentrismo Marcelo Pelizzoli - pag. 14


Editorial por Ioná Ponce Partindo do princípio de que tudo está ligado, de que todos nós fazemos parte de um só corpo na plenitude e beleza de sua pluralidade, esta edição do Ganapati foca em vários aspectos das questões relacionadas ao ser humano e suas atitudes perante os outros seres que habitam este planeta, mas que pertencem a outros reinos. Só esse fato nos remete os temas centrais de nosso jornal, pois, de uma forma ou de outra, essas questões abordam a ecologia, o vegetarianismo, a ética e a espiritualidade – para não mencionar o amor em seu mais amplo sentido, a compaixão, o despertar para uma nova consciência, o vislumbrar um mundo curado e livre de tanta crueldade, ignorância e indiferença. Decidimos começar o Jornal Ganapati de maio/junho com Leonardo Boff e seu “Sonho de uma civilização realmente planetária” porque essa noção nos leva a sair de nosso pequeno mundo do cotidiano para abrir nossos olhos e nos fazer enxergar que somos parte deste planeta e que por ele devemos ser gratos e cuidadosos – ele somos nós e nós somos ele. Em seguida, o texto de Thich Nhat Hanh traz uma profunda reflexão sobre aquilo de que estamos nutrindo nossos corpos, mentes e espíritos. Afinal, somos aquilo que ingerimos – seja pela boca, pelos olhos, pelos ouvidos ou pensamentos... Assim, para termos paz, precisamos nos nutrir de paz. E, para nos nutrir de paz, precisamos semear a paz em todas as suas formas. Isso nos leva a questionar nossa cultura: ela expressa a paz? Nossos hábitos nos levam a uma harmonia sintonizada com o que nosso planeta e nossos irmãos dos outros reinos precisam ou esses hábitos revelam egoísmo, vaidade, gula, sadismo, crenças infundadas? E o que pensar da “ciência” que criamos? Poderíamos chamar de “ciência” (conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos, saber, instrução, conhecimentos vastos – Dicionário Priberam) uma coletânea de métodos que torturam outros seres até a morte, praticados por criaturas ditas “humanas”, “racionais” (logo, “superiores”) cuja insensibilidade é tamanha que são incapazes de se compadecer com tantos gritos, gemidos, olhos suplicantes e lágrimas de dor... Vamos parar por aqui para você continuar a leitura do Ganapati, mas, com Nina Rosa, perguntamos: o que estamos esperando para agir e sermos um com esse mundo tão maravilhoso e tão combalido em que vivemos? Produzido e publicado pelo Grupo Ganapati e-mail: grupo.ganapati@gmail.com | Blog: http://grupoganapati.blogspot.com Participam desta edição: Bárbara Bastos, Conceição Cavalcanti, Ioná Ponce, Marcelo Zenaide, Adriana Miranda, Romero Morais, Maria Lúcia Chiapetta, João Asfora Neto, Sérgio Pires e Simone Nassar. Para contato: (081)9697.6629 / jornalganapati@gmail.com

O sonho de uma civilização realmente planetária Leonardo Boff sonhos, um deles realizado ao criar e ser o primeiro reitor da Universidade da Paz, criada em 1980 pela ONU em Costa Rica, único pais do mundo a não ter exército.

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m parte, o desamparo atual que toma conta de grande parte da humanidade, se deriva de nossa incapacidade de sonhar e de projetar utopias. Não qualquer utopia. Mas aquelas necessárias que podem se transformar em topias, quer dizer, em algo que se realiza, mesmo imperfeitamente, nas condições de nossa história. Caso contrário, nosso futuro comum, da vida e da civilização, corre graves riscos. Temos, portanto, que tentar tudo, para não chegarmos tarde demais ao verdadeiro caminho, que nos poderá salvar. Esse caminho passa pelo cuidado, pela sustentabilidade, pela responsabilidade coletiva e por um sentido espiritual da vida. Valho-me das palavras inspiradoras de Oscar Wilde, o conhecido escritor irlandês que disse acerca da utopia: “Um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno sequer de ser espiado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo, em seguida, para uma terra ainda melhor…O progresso é a realização de utopias.” Pertence ao campo da utopia projetar cenários esperançadores. Vamos apresentar um, de Robert Müller, que por 40 anos foi um alto funcionário da ONU, chamado também de “cidadão do mundo” e “pai da educação global”. Era um homem de

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Ele imaginou um novo relato do Gênesis bíblico: o surgimento de uma civilização realmente planetária na qual a espécie humana se assume como espécie junto com outras com a missão de garantir a sustentabilidade da Terra e cuidar dela, bem como de todos os seres que nela existam. Eis o que ele chamou de “Novo Gênesis”: “E Deus viu que todas as nações da Terra, negras e brancas, pobres e ricas, do Norte e do Sul, do Oriente e do Ocidente, de todos os credos, enviavam seus emissários a um grande edifício de cristal às margens do rio do Sol Nascente, na ilha de Manhattan, para juntos estudarem, juntos pensarem e juntos cuidarem do mundo e de todos os seus povos. E Deus disse: “Isso é bom”.E esse foi o primeiro dia da Nova Era da Terra. E Deus viu que os soldados da paz separavam os combatentes de nações em guerra, que as diferenças eram resolvidas pela negociação e pela razão e não pelas armas, e que os líderes das nações encontravam-se, trocavam ideias e uniam seus corações, suas mentes, suas almas e suas forças para o benefício de toda a humanidade. E Deus disse:” Isso é bom.” E esse foi o segundo dia do Planeta da Paz. E Deus viu que os seres humanos amavam a totalidade da Criação, as estrelas e o Sol, o dia e a noite, o ar e os oceanos, a terra e as águas, os peixes e as aves, as flores e as plantas e todos os seus irmãos e irmãs humanos.


E Deus disse: “Isso é bom.” E esse foi o terceiro dia do Planeta da Felicidade.

E Deus disse: “Isto é bom.”. E esse foi o sexto dia do Planeta da Razão.

E Deus viu que os seres humanos eliminavam a fome, a doença, a ignorância e o sofrimento em todo o globo, proporcionando a cada pessoa humana uma vida decente, consciente e feliz, reduzindo a avidez, a força e a riqueza de uns poucos.

E Deus viu que os seres humanos instauravam Deus e a pessoa humana como o Alfa e o Omega de todas as coisas, reduzindo instituições, crenças, políticas, governos e todas as entidades humanas a simples servidores de Deus e dos povos. E Deus os viu adotar como lei suprema: “Amarás ao Deus do Universo com todo o teu coração, com toda tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas forças; amarás teu belo e esplendoroso planeta e o tratarás com infinito cuidado; amarás teus irmãos e irmãs humanos como amas a ti mesmo. Não há mandamentos maiores que estes”.

E Deus disse: “Isto é bom.” E esse foi o quarto dia do Planeta da Justiça. E Deus viu que os seres humanos viviam em harmonia com seu planeta e em paz com os outros, gerenciando seus recursos com sabedoria, evitando o desperdício, refreando os excessos, substituindo o ódio pelo amor, a avidez pela satisfação, a arrogância pela humildade, a divisão pela cooperação e a suspeita pela compreensão. E Deus disse: “Isto é bom.” E esse foi o quinto dia do Planeta de Ouro. E Deus viu que as nações destruíam suas armas, suas bombas, seus mísseis, seus navios e aviões de guerra, desativando suas bases e desmobilizando seus exércitos, mantendo apenas policiais da paz para proteger os bons dos violentos e os sensatos dos insanos.

E Deus disse: “Isto é bom.” E esse foi o sétimo dia do Planeta de Deus”. Se na porta do inferno de Dante Alighieri estavava escrito: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais” na porta da nova civilização na era da Terra e do mundo planetizado estará escrito em todas as línguas que existem na face da Terra: “Não abandoneis jamais a esperança, vós que entrais” O futuro passa por esta utopia. Seus albores já se anunciam.

Nutrindo Paz (Do livro “Calming the fearful mind” – 2005) Thich Nhat Hanh

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Buda falou sobre o caminho de emancipação em termos de consumo. Em O Discurso na Carne do Filho”, o Buda ensinou que nós consumimos quatro tipos de nutrientes. Se diariamente nós estivermos atentos ao que nós estamos consumindo e entendermos sua natureza, poderemos transformar o sofrimento dentro de nós e ao nosso redor. Consumir com consciência é essencial para acabar com o terrorismo. PRIMEIRA NUTRIÇÃO: O ALIMENTO QUE COMEMOS

O primeiro tipo de nutrição sobre a qual o Buda falou é o alimento que nós comemos. Ele nos aconselhou que comêssemos conscientemente de forma que a compaixão pudesse ser mantida em nosso coração. Os alimentos que nós comemos podem trazer venenos ao nosso corpo que podem destruir nossa compaixão. Eles podem causar sofrimento ao nosso corpo, nossa mente e ao mundo. Então, nós temos que saber o que estamos comendo e se o alimento que comemos está nos destruindo e destruindo nosso planeta. Para ilustrar isso, o Buda contou uma história de um casal jovem e o seu filho de três anos que tiveram que cruzar um deserto vasto para ir a outro país. No meio caminho pelo deserto faltou comida e eles sabiam que morreriam se não pudessem achar comida. No alto do desespero, eles decidiram matar o seu pequeno menino e comer a carne dele. Eles comeram um pedaço pequeno da carne e preservaram

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quinta-feira, 12 de maio de 2011 19:58:08

o resto levando nos ombros e deixando a carne secar ao sol. Toda vez que comiam um pedaço da carne do filho eles clamavam em desespero “Onde nosso filho amado está agora? “Eles bateram nos seus peitos e puxaram seus cabelos. Eles sofreram tremendamente. Finalmente, eles puderam cruzar o deserto e entrar na outra terra, mas continuaram sofrendo e lamentando. Depois de contar essa história, o Buda perguntou para os monges: “Queridos amigos, vocês pensam que o casal gostou de comer a carne do filho? “ Os monges responderam: “Não, como qualquer um poderia gostar de comer a carne do próprio filho?” O Buda disse: “Se nós não consumirmos conscientemente, nós estaremos comendo a carne de nosso próprio filho ou filha.” Para a maioria de nós, o corpo que recebemos no nascimento era saudável, mas se não consumirmos conscientemente e comermos comidas que provoquem doença em nosso corpo e mente, nós estaremos destruindo o corpo que nos foi dado. Nós seríamos indelicados com nossos antepassados. Nosso corpo nos foi dado por muitas gerações e nós não temos o direito de destruí-lo pelo modo que comemos e bebemos. Se usarmos drogas, bebermos álcool ou fumarmos cigarros, estaremos consumindo venenos que destroem nosso corpo e mente. Nós estaremos comendo a carne de nosso pai, nossa mãe e nossos antepassados. Nós também estaremos comendo a carne de nossos filhos e dos filhos de nossos

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filhos porque este corpo que estamos destruindo é o que nós passaremos a eles e às gerações do futuro. Pessoas tendem a pensar: “Este é meu corpo, eu posso fazer qualquer coisa que quiser. É minha vida.” Mas nosso corpo não pertence só a nós; pertence também a nossos antepassados, nossa família e nossos filhos. Seu corpo é a continuação de seus antepassados. Você tem que tomar muito cuidado com ele e assim poderá transmitir seu melhor para seus filhos e netos, seu parceiro e sua comunidade. Quando comemos carne e bebemos álcool, comemos a carne de nossos filhos. Até mesmo a produção de álcool cria sofrimento. Produção de álcool requer grãos que poderiam ser usados para alimentar as pessoas famintas do mundo. Fazer um copo de vinho de arroz leva uma cesta inteira de arroz que poderia alimentar crianças famintas. 80% do

milho e 95% por cento da aveia nos Estados Unidos são usados para alimentar animais criados para os humanos comerem. O mingau de aveia que os humanos

comem pela manhã é só cinco por cento da quantidade de aveia plantada nos Estados Unidos. Somente o gado existente no mundo consome uma quantidade de comida equivalente às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, mais que a população humana inteira na Terra. Há muitas pessoas que estão morrendo de fome no mundo. A UNICEF diz que diariamente 40.000 crianças morrem de desnutrição. Enquanto isso, muitos de nós no ocidente comem demais. Cinquenta e cinco por cento dos americanos são obesos. Obesidade está rapidamente se tornando uma epidemia nacional. Quando nós comemos demais, destruímos nosso corpo, o corpo de nossos antepassados e de nossos descendentes. Um economista francês me falou uma vez que, se países superdesenvolvidos no ocidente reduzissem seu consumo de carne e de álcool em cinquenta por cento, poderíamos resolver o problema da fome no mundo. A Faculdade de Emory informa o seguinte impacto ambiental devido à produção de carne norte-americana: Terra - De toda terra agriculturável nos EUA, 87% são usados para criar animais para abate. Isso é 45% o do total dos EUA. Água - Mais da metade de toda a água consumida nos EUA para todos os propósitos é usada para criar animais para abate. São necessários 2.500 galões de água para produzir uma libra de carne. São necessários 25 galões de água para produzir uma libra de trigo. Isso é 25 contra 2.500 galões de água. Uma dieta totalmente vegetariana requer 300 galões de água por dia, enquanto uma dieta baseada em carne requer 4.000 galões de água por dia. Poluição - Criação de animais para abate causa mais poluição de água nos EUA que qualquer outra indústria. Animais criados para abate produzem 130 vezes o excremento da população humana inteira, 87.000 libras por segundo. Muito do lixo das fazendas e de matadouros são jogados nos rios, contaminando fontes de água.

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Desmatamento - Cada vegetariano economiza um acre de árvores todos os anos. Mais de 260 milhões de acres de florestas norte-americanas foram clareados para cultivar colheitas para alimentar animais criados para abate. Um acre de árvores desaparece cada oito segundos. As florestas tropicais estão sendo destruídas para criar pastos para gado. Podem ser derrubados cinquenta e cinco pés quadrados de floresta tropical para produzir apenas um hambúrguer. As florestas são nossos pulmões. Elas nos dão oxigênio e protegem nosso ambiente. Se nós comermos carne, estaremos destruindo as florestas e estaremos comendo a carne de nossa Mãe Terra. Todos nós, inclusive crianças, temos a capacidade de ver o sofrimento de animais criados para abate. Nós podemos escolher comer conscientemente e proteger a felicidade e as vidas das espécies e da Mãe Terra.

Até mesmo o modo que nós comemos provoca guerra. A quantidade de recursos Quando comemos que usamos para fazer carne conscientemente, é imensa. As pessoas nos EUA são só 6% da população mantemos a consciência de nossa do mundo inteiro, mas os interdependência recursos que eles consomem com outros seres são 60% de todos os recursos e esta consciência usados em Terra. No ocidente, i v e m o s lu x u o s a m e nt e , nos ajuda a manter vcomendo muito mais do que a compaixão em precisamos, enquanto outros nosso coração. estão morrendo de fome. Nós comemos de tal modo que destruímos a Terra. Esta é uma grande injustiça, uma ofensa contra a raça humana inteira, como também aos animais, plantas, minerais e atmosfera. Essa desigualdade causa ódio e enfurece o mundo. Quando as pessoas se enfurecem e o ódio é reprimido, ele explode em violência. Nós temos a chance para parar a matança de animais e achar outros modos não violentos de produzir nossa comida. A comida pode ficar deliciosa sem que seja preciso usar a carne de animais. Quando comemos conscientemente, mantemos a consciência de nossa interdependência com outros seres e esta consciência nos ajuda a manter a compaixão em nosso coração. Quando nós comemos com compaixão, a felicidade surge. Um modo de nutrir nossa compaixão é discutir com nossa família como comer e beber com mais consciência. Outro modo é, como sociedade, olhar conjuntamente a maneira como nós produzimos e consumimos comida. A SEGUNDA NUTRIÇÃO: O ALIMENTO SENSORIAL O segundo tipo de comida sobre o qual o Buda falou são as impressões sensoriais. Nós comemos com nossos seis órgãos do sentido: nossos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. Um programa de televisão é comida; uma conversação é comida; música é comida; arte é comida; outdoors são comida. Quando dirige pela cidade, você consome e é penetrado por essas coisas sem seu conhecimento ou


consentimento. O que você vê, o que você toca, o que você ouve é comida. Esses O que você vê, o que artigos de consumo podem ser altamente você toca, tóxicos. Há música boa e há artigos de revista bons e programas de televisão o que você que nutrem compreensão e compaixão ouve é em nós. Nós os deveríamos desfrutar. comida. Mas muitos tipos de música, programas de televisão e revistas contêm desejo, desespero e violência. Os anúncios de televisão que você é forçado a assistir são a comida dos sentidos. O propósito deles é fazer você desejar os produtos que eles querem vender e despertar seu desejo. Nós consumimos esses venenos e permitimos que nossas crianças também os consumam, fazendo o medo e o ódio em nós crescer diariamente. Não é um problema de consumir menos ou mais, mas de consumo certo, consumo atento. Para ilustrar a importância do consumo atento pelos sentidos, o Buda usou a imagem de uma vaca com doença de pele. Uma vaca estava tão doente que ela perdeu virtualmente toda sua pele e era vulnerável onde quer que fosse. Quando a vaca encostava-se em uma árvore, parede ou quando entrava na água, criaturas minúsculas vinham e chupavam o seu sangue. A vaca não tinha nenhum meio de proteção. Se nós não soubermos consumir conscientemente, estaremos como uma vaca sem pele as toxinas de violência, desespero e desejo penetrarão diretamente no âmago de nosso ser. De acordo com a Associação Psicológica Americana, uma criança americana típica assistirá na sua vida 100.000 atos de violência e 8.000 assassinatos na televisão. Isso é muito. Quando os pais estão muito ocupados e não têm tempo para as crianças, a televisão se torna uma babá perigosa. Desde muito cedo, crianças já começam a consumir sons e imagens muito tóxicos. Elas se tornam as vítimas da violência e do medo. Há as pessoas as quais discutem que, embora elas tenham assistido filmes de cowboy quando eram jovens, não cresceram violentas. Mas os filmes de cowboy do passado não eram iguais aos filmes de hoje. Os filmes de uma geração atrás tinham um pouco de violência, mas muito menos que os filmes têm agora, e eles comunicavam algum senso de moralidade. Se alguém cometesse um ato de assassinato, iria para prisão. Pelo menos a pessoa que cometia violência não podia escapar. Os filmes agora frequentemente mostram violência sem consequência ou responsabilidade. Em muitos jogos de videogame, as pessoas recebem tiros e são mortas e então vivem novamente como alvos novos. Quando as crianças jogam esse tipo de jogo diariamente, fica fácil entender porque elas acabam trazendo uma arma para a escola e atirando nos outros. Esse tipo de jogo é infinitamente perigoso. Quando as crianças são pequenas, não podem distinguir entre o jogo e a realidade. Como as crianças consomem este tipo de comida dos sentidos diariamente pela televisão e videogame, constantemente estão alimentando a violência na sua consciência. A América está ficando com cada vez mais raiva a cada dia. Cada vez mais, nós estamos consumindo o tipo de comida

sensorial que traz violência e ódio para nossos corpos e mentes. A energia da violência está sendo nutrida nas pessoas em todos os lugares na vida diária. A violência nos subjuga e demanda uma saída. Nós podemos escolher a comida sensorial que nos cura e nutre ou a que nos envenena. Há certos tipos de livros e artigos que nos fazem sentir muito feliz e nos iluminam depois que os lemos. Certas músicas ou conversas também; enquanto escutamos, nos sentimos inspirados e felizes. Nós podemos escolher consumir artigos que trazem leveza, paz e felicidade em nossos corpo e mente. Uma conversa simples com outra pessoa pode levar-lo ao desespero extremo ou pode lhe dar esperança e confiança. Às vezes, depois de escutar alguém falar, você se sente muito deprimido. Conversações podem conter toxinas. Assim, nós temos que falar e escutar em plena consciência. Para evitar a solidão, você pode ser empurrado a falar com qualquer um. Mas se alguém estiver falando de um modo muito negativo, este tipo de conversação pode matá-lo. Só escute e fale com pessoas que nutram amor e entendimento em você, a menos que esteja falando com alguém com o propósito exclusivo de ajudá-lo a transformar o seu sofrimento e violência. O Buda disse que plena consciência é a capacidade de voltar ao que está acontecendo no momento presente. Nós podemos estar atentos ao que estamos consumindo. O modo que nós produzimos e consumimos nos está destruindo e também aos jovens e a nossa nação inteira. Todo mundo pode praticar plena consciência para mudar isto. Como pais, professores, diretores e jornalistas, nós temos que observar para ver se estamos contribuindo com o propósito de crescimento da violência pelo modo como vivemos nossas vidas diárias. Todos têm que compartilhar seu insight, para que nosso despertar coletivo possa nos ajudar a parar esse caminho de destruição. Nosso Congresso e nossa nação inteira podem praticar olhar em profundidade a natureza do que consumimos diariamente. Nós elegemos os membros do Congresso e podemos lhes pedir que façam leis para proibir a produção tóxica. Nós podemos falar com nossas famílias e comunidades e podemos nos comprometer a consumir de modo atento e inteligente comidas e artigos culturais. Consumir conscientemente é o único modo de proteger a nós mesmos e à nossa sociedade da violência que está nos subjugando. Quando consumirmos conscientemente, receberemos nutrição e cura em nossa vida diária que nos permitirão abraçar e transformar as nossas dores e violência. Então saberemos o que fazer para a Terra se tornar um lugar seguro para nós, nossos filhos e as outras crianças. Esta é a real prática de paz. Thich Nhat Hanh é monge budista vietinamita, poeta e ativista dos direitos humanos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King. É autor de mais de 60 livros. Mora em Plum Village, um centro de meditação na França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros na arte de viver em plena consciência.

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O que estamos esperando para agir? Nina Rosa amarrados em locais desabrigados de sol, chuva e vento, com falta de espaço, de alimentação, higiene, de atenção… enfim, de amor. Eles, que tão bem sabem amar. Todos nós andamos pelas ruas das cidades e é impossível não perceber o sufocamento das nossas irmãs árvores, cimentadas até o pescoço, transformadas em verdadeiras lixeiras por humanos menos educados, que depositam seus sacos de lixo, ou os dos dejetos de seus animais a seus pés. Será uma oferenda? É isso que queremos oferecer às amigas que nos dão sombra, ar purificado, beleza, frutos, flores e alegria? Centenas de árvores caindo, doentes, por falta de atenção, de cuidados, submetidas a podas em épocas inadequadas, vendo derrubados os ninhos de seus companheiros passarinhos.

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abemos dos holocaustos sem fim nos matadouros, sabemos dos confinamentos de vidas femininas submetidas à inseminação artificial ano após ano, tendo suas crias arrebatadas no primeiro dia de vida, sem ao menos poder amamentá-las, para que sobre mais leite para ser vendido. E sabemos que ao final de todo esse sofrimento e total privação da liberdade..., ainda virá o matadouro. Tanto para a mãe, como os filhos. Será aceitável que ainda existam matadouros? Sabemos que eles só existem porque nós os sustentamos. Sabemos dos horrores a que são submetidos nossos irmãos das águas na indústria da pesca, onde trilhões são mortos indiscriminadamente pelos navios frigoríficos. E na crueldade da chamada “diversão” nos parques aquáticos, pesca oceânica, pescarias de finais de semana, entre outros. Sabemos da crueldade que também sofrem nossos irmãos silvestres, raptados, engaiolados para sempre pelo comércio ilegal, imoral, mas tolerado e patrocinado por quem quer exclusividade no canto ou no lamento de um pássaro. Sabemos do terror dos nossos irmãos condenados a torturas inimagináveis, apenas por terem recebido da natureza uma linda e macia pelagem, pois, não contentes com as nossas, arrancamos as peles deles, por futilidade. Sabemos, se temos olhos para ver, da quantidade de sofrimento pelas ruas, becos, praças, estradas, de cães, gatos, cavalos, vagando magros, tristes, abandonados, com sequelas de atropelamentos, ou de espancamentos, ou de estupros, a que estão sujeitos como vítimas indefesas do desequilíbrio humano. Há ainda aqueles em verdadeiras prisões domiciliares, negligenciados ao extremo,

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E nossas irmãs águas, temos reparado nelas? Será que estamos valorizando esse líquido sagrado e precioso, será que estamos procurando nos atualizar sempre com novas ideias de como poupá-las, reutilizá-las? Estamos passando adiante esses conhecimentos? Nossas irmãs pedras, será que reconhecemos e respeitamos sua sabedoria milenar? Amigos, vamos nos desprogramar! Porque sim, fomos todos programados para continuar isso que está aí... e que já está claro que não serve para quem almeja evoluir. Vamos considerar tudo isso passado e acordar para uma nova realidade, onde não faremos mais parte da negação e da omissão. Há inúmeras oportunidades. Cada uma das situações horríveis que descrevemos acima significa uma oportunidade de equilibrar, fazendo o contrário. Participou ou testemunhou uma situação danosa? Faça o contrário. Faça o contrário! Se nos comunicarmos com os outros reinos além do nosso, nossa vida ganhará alegria, ganhará uma nova dimensão. Teremos amigos sábios, fiéis, gratos, com uma capacidade de irradiar amor que ainda não conhecemos entre humanos. Tudo isso está aí, à nossa disposição. E o que fazemos? Em geral ficamos no nosso mundinho, acalentando nossos pequenos problemas, até que pareçam enormes e tomem toda nossa energia. Então ficamos cansados demais para qualquer coisa, e amargamos frustração, porque nosso verdadeiro eu quer muito mais de nós… Vamos deixar de financiar assassinatos em matadouros. Vamos evitar ao máximo calçados e bolsas de couro e usar só os que não contém crueldade embutida; lembrar que trabalho escravo não é só contra os animais, como as vacas chamadas “leiteiras”, galinhas chamadas “poedeiras” ou ainda as cadelas e gatas chamadas “matrizes” para terem seus filhotes vendidos, mas há também trabalho escravo humano adulto e infantil em muitos artigos de origem chinesa, à venda no comércio por preços muito baixos, e que podem ter origem de trabalho escravo.


Então vamos combinar: casacos de peles ou golas de peles alheias, nem pensar. Pele, só a sua mesmo. Tapetes de peles de boi, estofamentos de couro natural nos assentos dos automóveis, repudie! Isso não é chique, isso demonstra inconsciência, egoísmo, futilidade. Vamos evitar ao máximo produtos testados em animais. Medicamentos ainda não existem, mas produtos de beleza sim, e os produtos de higiene da casa, podemos fazer em casa mesmo, sem química, e sem prejudicar nossos animais de estimação nem o ambiente. Vamos passar a enxergar e nos envolver compassivamente com os cães e gatos por onde transitamos. Há inúmeros deles precisando da nossa ajuda: adotar, prestar serviço voluntário, ajudar financeiramente quem os acolhe.

O que mais podemos fazer pelos reinos…

Podemos ajudar na rua um animal em situação de risco que esteja precisando de um olhar, uma palavra de conforto, alimento, atendimento médicoveterinário, ajuda para encontrar um novo lar. Alguma coisa sempre podemos fazer. Para ajudar os cães e gatos de maneira coletiva é necessário organizar controle populacional (castração), campanhas de educação e de adoção. Podemos trabalhar fazendo palestras em escolas, em centros comunitários, em favelas, exibindo ou oferecendo para exibição os filmes educativos do INR. Eles são produzidos com o propósito de apoiar esses trabalhos de sensibilizar, de educar em valores. Podemos e devemos denunciar maus-tratos quando presenciamos algum no site do Denunciar, é uma forma de valorizar a vida animal e de educar humanos. Circos, zoológicos, rodeios? Nem pensar! Precisamos é de santuários para abrigar os animais retirados desses locais que os exploram. Para os santuários de animais, são necessárias grandes áreas de terra, mas o mais difícil não é conseguir as terras, muito difícil é ter pessoas responsáveis e abnegadas que tenham como propósito de vida cuidar de um santuário. É trabalho para todas as horas do dia e da noite de uma vida inteira. Sem vida pessoal. É necessário muito, mas muito amor pelos animais, além de equilíbrio psíquico. Comprar objetos de marfim, andar de camelo, charrete, bodinho, aluguel de cavalos, tudo isso é sustentar a exploração. Comprar animais silvestres, domésticos, ou qualquer outro, é ser conivente com o abuso. Quem vive da procriação desses animais deveria procurar emprego, ao invés de explorar fêmeas e machos para proveito próprio. Se cada um de nós cuidar ao menos de uma só árvore, aquela que está em frente à nossa casa, ou estabelecimento comercial, indústria, do local onde trabalhamos, estaremos emanando não só exemplo positivo ao nosso redor, como também irradiando respeito e amor a todas as outras irmãs

árvores, por intermédio dos seus seres guardiães. Ao cuidar de uma árvore, esse amor se irradia, e que diferença podemos fazer no mundo, só com a energia dedicada ali: manter limpa do excesso de cimento, das impurezas, aguar, se necessário preencher de terra o espaço ao redor e plantar folhagens ou florzinhas para mantera umida e embelezar. Quando pensamos nos reinos da natureza, em geral pensamos numa divisão, mas quando nos referimos à VIDA, somos um só organismo e os reinos são interdependentes. Como seres pertencentes ao reino humano, o que nos diferencia dos outros reinos é exatamente aquilo que nos capacita a ser responsáveis por eles. Amigos, vamos deixar nossa consciência e o amor de nosso coração comandarem nossos egos. Vamos tomar a decisão interna de estar despertos para o Bem Geral. E se sentimos o impulso de ajudar, de alguma dessas formas, ou de outra, vamos sustentar esse impulso positivo, sair do plano das ideias e concretizar a ação. É necessário coragem para fazer o bem, vamos nos atirar, confiando na nossa intuição e amparados pelo nosso coração. Vamos parar de resistir àquilo que sabemos internamente que temos que fazer. Enquanto podemos. Vamos nos deixar inundar pelo amor, pela gratidão de ter perante nós tantas oportunidades de colaborar, contribuir – pois, para nós mesmos, não precisamos de nada, não é ? Vamos nos permitir a alegria de dizer sim, de aceitar servir, servir por servir, sem expectativas de retorno, com paciência, determinação, simplicidade, humildade e discrição. Vamos incluir outros reinos em nossas vidas e assim nos tornar mais completos. Vamos contribuir também com energia monetária, que pode ser tão útil para suprir necessidades básicas quanto para quem já está suprido delas… acumular para que? Vamos investir, sim, mas no Amor, na compaixão e na generosidade…

Confie na sua intuição!

Com simplicidade podemos ser pró-ativos para o Bem Geral. Para quem se interessa pelo material educativo em filmes, seja para se inspirar, seja para exibir como ferramenta educativa, pode encontrar no site do INR www. institutoninarosa.org.br. Nina Rosa - Criadora do Instituto Nina Rosa, organização independente, sem fins lucrativos, que desde de 2000 promove a conscientição sobre defesa animal, consumo sem crueldade e vegetarianismo.

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Entrevista com Quico Meirelles - Diretor de A Galinha que burlou o Sistema Bia Dantas

Entrevista realizada com Quico Meirelles, jovem diretor do filme curta-metragem A Galinha que Burlou o Sistema (2012). Quico nos fala sobre como decidiu fazer o filme, sobre vegetarianismo e sobre sua visão, da criação de animais para consumo. Quico, qual sua relação com a causa animal? Depois que comecei a pesquisar mais a fundo o assunto, a realidade da indústria de criação de animais para consumo humano me chocou muito. Com isso martelando na minha cabeça, achei que um bom jeito de tocar mais pessoas com o tema seria fazer um filme que discorresse sobre o assunto sem ser panfletário demais. Tentar construir um discurso emocionante no qual o espectador fosse informado, mas que também fosse prazeroso de assistir. Não participo de nenhum movimento social ativamente, porém, após a realização do filme, parei de consumir carne. O que me aproximou do tema do filme, a criação de frangos de maneira industrial, foi sua dureza, crueldade e a maneira como há uma espécie de véu entre consumidores e produtores, não chegando a nós, que somos quem sustenta essa indústria, a realidade sobre os fatos. A ideia de fazer um filme sobre galinhas surgiu a partir do livro Eating Animals, de Jonathan Safran Foer, que revela um grande e detalhado panorama de todos os métodos e absurdos que a indústria de produção de animais (de bois, porcos, peixes, frangos, leite, ovos etc.) criou e pratica todos os dias, costurado com muito bom humor e uma escrita envolvente. Seu pai também é vegetariano, certo? Ele teve alguma influência nisso? Sou vegetariano, assim como meu pai. Na verdade, foi o caminho contrário, depois que eu mudei os meus hábitos e comecei a conversar em minha casa sobre o assunto, meus pais também transformaram a dieta. Como foi que você decidiu fazer o filme? Como veio a ideia do roteiro? Essencialmente, a ideia do filme era trabalhar essa visão particular da galinha, que tem uma existência totalmente programada, horas de vida absolutamente contadas, refeições (recheadas de antibióticos) planejadas, tempo (curto) de sono calculado. Tudo segue um padrão. Nesse sentido, traça-se um paralelo com a humanidade (sutil e não explícito, através de ironias e imagens sugeridas, sem ela falar diretamente dos humanos nem para os humanos, tudo num tom mais de fábula) e o modo como estamos vivendo atualmente, levando vidas praticamente 08

tão inalteradas e sem mudanças quanto a dessa heroína inesperada. Estamos sempre em ambientes lotados, doentes em algum nível, estressados ou super-exigidos em outro. De certa maneira, o filme é um pouco pessimista. Ao mesmo tempo, o discurso da galinácea tem algum humor, não somente no conteúdo, mas também no ar de pretensão e super inteligência com que ela se vê. Apesar de ser de fato consciente e de ter um discurso muito crítico em relação ao mundo (não só o seu), esse distanciamento todo lhe dá um ar de prepotência que a leva até a se superestimar na cena final. Ali, ela simplesmente ignora a sua condição de galinha e planeja uma fuga triunfal voando céu afora. Havia também o jogo de tentar citar alguns autores interessantes que tenham algo a ver com o que é dito, como Carl Sagan e o seu “pálido ponto azul” ou a referência direta ao começo de Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais, quando a personagem repete “Eu vi o horror, eu vi… eu vi…”. Tem um momento que você coloca uma oposição entre galinhas felizes, as criadas soltas, e galinhas criadas em sistemas de confinamento. O que você acha do problema ético em consumir animais, ovos e laticínios, de animais criados soltos? O que a personagem quer é a liberdade, ela não quer ser “bem tratada”, ela quer voar. De fato não entrei muito na discussão das diferenças entre animais criados soltos e os que vivem nos sistemas industriais. Para mim, mais do que o dilema ético de consumir animais, o que pega e me deixa extremamente chocado/triste/desesperançoso é a maneira com que a indústria de produção de proteína animal (seja ela qual for) age atualmente. Desde os animais criados em confinamento até os peixes oceânicos pescados com longline ou rede de arrastão, tudo ali soa extremamente absurdo e perverso. Pra mim, é muito mais caro revelar essa crueldade, com a qual acredito que as pessoas podem se identificar mais facilmente, do que a discussão mais primordial entre matar ou não animais para consumo. No final do filme, a liberdade da galinha também é a morte dela. Vc pensou em fazer essa ironia mesmo, ou tem alguma outra ideia por trás desse final irônicotrágico? Quanto à liberdade da galinha ser a morte dela, não sei se concordo totalmente. Para mim, o final do curta é de certa forma aberto. Uma galinha que tem uma visão, fala e corre poderia muito bem conseguir sair voando, não? Acho que fica essa dúvida quando o filme acaba: ela realmente caiu ou conseguiu sair voando e se juntar aos patos migratórios? Claro que tudo não deixa de ser uma brincadeira também, mas com uma certa dualidade. FONTE: Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) (http://www.anda. jor.br/) Bia Dantas - Produtora de vídeo, roteirista e pequisadora de cinema animalista. Uma das fundadoras da Mostra Animal de Curitiba e atualmente coordena as atividades do Cine VEDDAS, a primeira mostra permanente de cinema pelos animais na cidade de São Paulo.


Somos Todos 269: colocando a nossa cultura em questão Lena Costa Carvalho

O objetivo de uma manifestação como essa é estimular reflexões, por isso vale a pena compartilhar com todos os ideais desse encontro.

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nossa cultura é cheia de concepções dualistas sobre as coisas. Um desses dualismos é o que estabelece uma diferenciação radical entre os humanos e os outros animais a partir de critérios como inteligência, linguagem, sensibilidade, consciência e capacidade de afeto. É nessa divisão radical entre nós e todas as outras espécies existentes que se sustenta a exploração aos animais não-humanos. Como todo dualismo, porém, essa divisão é instável e em todo canto surgem demonstrações de como as coisas não são tão simples. Começamos a criar um gato ou cachorro e descobrimos que eles são sensíveis, afetuosos, inteligentes e têm capacidade de sentir alegria e estabelecer comunicação. Assistimos a programas de televisão e descobrimos que os primatas, os grandes felinos e os golfinhos também possuem tais qualidades. Essas surpresas começam a abrir exceções em nossa forma de entender os animais, mas regra permanece – e a regra é que os animais em geral não possuem realmente uma vida. Bois, porcos, galinhas, bezerros são menos que humanos e até menos que animais. São bichos que apenas comem, defecam e dormem. Sendo tão entediante, essa vida não deve ter valor nem pra eles mesmos e, portanto, tanto faz se vivem ou morrem. Essa é a concepção dominante sobre os chamados animais de produção, sustentada por um conjunto de silêncios. Não temos contato com esses animais. Na infância brincamos com bonecos que mimetizam “animais de fazenda”, mas não os conhecemos de fato. Além disso, os veículos de comunicação só falam de porcos, bois, vacas, galinhas e perus quando demonstram as melhores maneiras de cozinhá-los. Enfeitamos a cozinha com assessórios e panos de prato estampados com vacas e galinhas sorridentes e naturalizamos o fato de que as vacas e as galinhas de verdade só entram em nossa cozinha mortas, decapitadas e retalhadas em badejas de isopor. Não estabelecemos nenhum tipo de contato pessoal com esses animais que possam nos sugerir que talvez eles não existam no mundo com o propósito de nos servir. Gostamos de pensar que

tudo na vida tem uma finalidade e que a finalidade deles é nos servir como alimento. Dificilmente descobrimos algo inesperado sobre esses animais porque eles só aparecem nas nossas vidas como bifes, fontes de laticínios, bacon, galeto, churrasco. Esse distanciamento garante que não nos sejamos surpreendidos com nada que contradiga os estereótipos difundidos sobre esses animais, pois não somos levados a refletir sobre o que a nossa sociedade faz com eles. Também não somos levados a pensar que talvez o grau de inteligência das outras espécies não seja tão irrelevante. Afinal de contas, se todos nós cobramos que pessoas com menor capacidade física ou intelectual sejam respeitadas, por que aceitamos que esse mesmo tipo de diferença sirva como justificativa para a exploração de animais não-humanos? Algumas pessoas assumem um tom agressivo quando falamos em vegetarianismo como opção ética. Sentemse ofendidas como se, ao assumir essa postura, nós estivéssemos apontando o dedo na cara do resto do mundo. Não estamos aqui pra isso. O movimento “Somos todos 269” existe simplesmente para incentivar mais pessoas a fazerem uma reflexão que as prateleiras do supermercado não despertam - porque produtos não são vidas. Uma reflexão que os programas de culinária não despertam porque vitela é apenas uma carne macia. Uma reflexão que o currículo escolar não desperta - porque aprendemos que o ser humano é um animal racional que evoluiu até alcançar o topo da cadeia alimentar. A reflexão sobre qualquer tipo de preconceito só pode acontecer quando nos permitimos abrir mão daquilo que consideramos óbvio e estranhar as nossas ações mais comuns. É dessa forma, olhando para nós mesmos de peito aberto, que percebemos como práticas cotidianas aparentemente inocentes ajudam a reproduzir todos os tipos de preconceito, inclusive o especismo. É o preconceito com base na espécie que permite que animais sejam numerados, confinados, torturados e mortos em nome do paladar humano e em prol de uma indústria que transforma vidas em cifras. Liberte seus escravos! Somos todos 269. Lena Costa Carvalho é vice-coordenadora do Projeto de Extensão Adote um Vira-lata (UFPE) e doutoranda em sociologia pela UFPE. Contato: lenacarvalho@gmail.com

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A crueldade dos testes em animais

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ste ano, de 20 a 28 de abril, ocorreu a Semana Mundial pela Libertação dos Animais de Laboratório (WLALW). No mundo todo ocorrem manifestações acerca do tema. Você já parou para pensar que enquanto lê este texto, milhões de animais pelo mundo afora estão morrendo em decorrência de crueis experimentos científicos, a pretexto de melhorar a vida do homem? Além de macacos, pássaros e roedores, animais como cães e gatos, que poderiam estar brincando no seu quintal ou deitados no tapete de sua sala estão agora em jaulas frias, não somente privados de uma vida digna, mas também com fome, sede, frio, sem afeto, sendo mutilados, eletrocutados, envenenados, sufocados, queimados e, finalmente, mortos, muitos deles sem sequer terem visto alguma vez na sua triste vida a luz do sol...

grande prova de que isso é uma verdade é a enorme gama de produtos que já estão no mercado e que não passaram pelos testes nos animais. Muitos cientistas se preocupam com a regulamentação das pesquisas científicas no que diz respeito à manipulação genética (transgênicos) e principalmente à introdução de células humanas em animais (gerando as chamadas quimeras), mas a grande preocupação na verdade se dá pelo fato de que ainda não se teria definido o percentual de células que garantiriam àquele ser vivo os chamados “direitos humanos”. Ora, e os direitos dos “animais nãohumanos”, onde ficam? Na verdade, esse deveria ser o ponto principal a ser discutido, mas, infelizmente, não é muito considerado. A ética, neste caso, torna-se um pouco deturpada.

A experimentação animal é uma realidade no mundo todo, a maioria dos produtos existentes (medicamentos alopáticos, produtos de higiene pessoal e limpeza, vacinas, cosméticos, entre outros) na sua elaboração passam pelos testes em animais. Mas, será que tudo isso é mesmo necessário?

O ser humano desrespeita, explora, ridiculariza e subjuga os outros animais (sim, também somos animais), menosprezando seus sentimentos. É um atraso continuar pensando que os outros animais existam simplesmente para servir aos humanos.

Há quem acredite que os animais nãohumanos que são submetidos a esse tipo de prática estão na realidade prestando um grande serviço à humanidade (“humana”), mas, na realidade, cada vez mais sabemos que esses experimentos não apresentam garantia de que darão certo, ou seja, de que serão efetivamente úteis, uma vez que a biologia e a fisiologia dos animais não-humanos é bem diferente da nossa e os resultados dos testes neles não necessariamente significam que serão iguais em nós. De acordo com a PETA, 92% dos novos medicamentos falham em ensaios clínicos - depois que eles já passaram por testes em animais. A primeira vacina contra pólio e contra raiva funcionou bem em animais, mas matou as pessoas que receberam a aplicação. As drogas Talidomida e DES foram lançadas no mercado depois de serem testadas em animais e sabemos que dezenas de milhares de pessoas sofreram com o resultado negativo, como mortes e nascimentos de pessoas com deficiência física.

Em alguns países, como na China, o respeito aos animais é nenhum. Empresas que quiserem entrar no mercado chinês devem realizar testes em animais, pois é obrigatório no país.

Os testes em animais não-humanos são, na realidade, um desperdício de tempo e dinheiro para as empresas. Albert Sabin reconheceu que o fato de haver realizado pesquisas em macacos Rhesus atrasou em mais de 10 anos a descoberta da vacina para a pólio. Sabe-se hoje que há métodos alternativos à experimentação animal, com o uso de computadores e tecidos artificiais, entre outros, que não causam o sofrimento e a morte de seres inocentes e ainda apresentam resultados mais eficazes. Portanto, muitos animais ainda têm a sua liberdade e dignidade cerceadas sem que para isso haja qualquer justificativa lógica e racional, e são submetidos a práticas que, além de anti-éticas, hoje estão comprovadamente atrasadas, diante das modernas técnicas da pesquisa científica mundial. A 10

Adriana Miranda

Essa discussão, apesar de não ser nova, é negligenciada pela comunidade científica, que no fundo tem a consciência de que os testes de laboratório causam sofrimento aos animais. O zoólogo e escritor Desmond Morris, em artigo publicado pelo jornal britânico The Sun, afirmou: “Preferimos fechar os olhos porque desfrutamos dos benefícios”.

Mas estamos avançando, ainda que a passos lentos. No dia 13 de setembro de 2011, foi assinado um termo de cooperação pela Anvisa, juntamente com a Fiocruz, que prevê a diminuição dos casos em que os testes em animais seriam considerados necessários e a validação das chamadas metodologias alternativas de experimentação. Essa é uma tendência que ganha força. Desde de 2004, a União Europeia rejeita o uso de cobaias no desenvolvimento de artigos cosméticos. Seguindo essa linha, produtos oriundos de países que ainda realizam os testes, incluindo o Brasil, não conseguem difusão no exterior. Preocupadas com isso, algumas indústrias brasileiras estão investindo na abolição dos testes com animais na produção de cosméticos. Aparentemente, então, a principal preocupação do Brasil não seria exatamente minimizar o sofrimento dos animais, mas sim garantir espaço de alguns produtos no mercado externo. Mais um ponto para o egoísmo humano. De qualquer forma, toda iniciativa que venha a ser positiva para os animais é válida, porque todos têm direito à vida e, principalmente, à dignidade.


E aí é que nós, amantes dos animais, entramos. Nossa responsabilidade enquanto consumidores é enorme, vai além da indignação. Uma vez que tomamos conhecimento da cruel realidade dos testes em animais, temos que, por obrigação ética, tomar alguma atitude e a melhor coisa a fazer é buscar adquirir produtos de empresas que não realizam testes em animais. Quanto mais pessoas passarem a boicotar produtos de empresas que realizam esses testes bárbaros (e desnecessários), mais as empresas sentirão

necessidade de modificar suas atitudes, a partir do momento em que perceberem a nova ‘tendência’ do mercado. Testes em animais para cosméticos já são proibidos no Reino Unido, Israel e em toda a União Europeia (UE), cabe a nós forçarmos para que o Brasil faça parte também. Adriana Miranda: médica veterinária e colaboradora do Ganapati

Reinventar a vida... “Mas, a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”. Cecília Meireles

Conceição Cavalcanti

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que seria de nós se não fossem os poetas? Se não fossem os loucos, os idealistas e os artistas que sonham e acreditam na utopia de um mundo possível, assim como sonhava o educador Paulo Freire e nosso amado D. Helder que dizia “É preciso acreditar no cavalinho azul”. Paulo Freire e D. Helder são referências necessárias de amorosidade, compaixão e respeito pela condição humana nos dias atuais. Inicio o texto de hoje com a poesia de Cecília Meireles e com o desejo de lhe convidar para sonharmos juntos. Reinventar é preciso. É urgente. É possibilidade de salvação. A barbárie chegou e se instalou. Insiste em se firmar como a ordem operante do terror, do medo, da violência. Os meios de comunicação certamente têm sua parcela na propagação da cultura do medo. Estamos envolvidos por muitos sentimentos, muitas vontades e a todo momento, através de comerciais, das linguagens apelativas, nossos desejos são ativados e o que não era necessidade passa a ser. E o impulso possuir tantos objetos ou aquele objeto em especial torna-se questão de vida ou morte. Corremos loucamente atrás de uma felicidade oferecida por muitas moedas de ouro. Pensar nessa tal felicidade e no que somos ou seremos capazes de fazer para conquistá-la faz-me lembrar do texto do escritor e autor do livro Guerra e Paz, Leon Tolstói: “Imagine que o único propósito da vida seja sua felicidade – então a vida seria uma coisa cruel e sem sentido. Você tem de adotar a sabedoria da humanidade. Seu intelecto e seu coração lhe dizem que o significado da vida é servir à força que o enviou ao mundo. E então a vida se torna uma alegria”. O que você acha dessa afirmação? Penso que, no mínimo, ela nos sacode e provoca a pensar sobre a busca da felicidade pelo prazer utilitarista, pelas relações fragmentadas, pelos relacionamentos da conveniência, pela felicidade individualista, em que o essencial é saciar instintos, vontades e necessidades, mesmo que para isso o outro se torne mero objeto de uso e de descarte. Nessa lógica do mercado das coisas e das “gentes” misturadas e trituradas – como a indústria tritura os pintinhos que nascem com alguma deformidade – o humano tem perdido sua identidade e arriscado sua validade em fazer parte desse universo. Tolstói sabiamente nos fala de que uma vida onde se busca apenas sua própria felicidade é uma vida cruel e sem sentido. Diante de tal reflexão, voltar ao poema que nos convida a reinventar a vida, a forma de ser e estar, o modo de amar e se deixar amar, a maneira como entendemos e queremos essa felicidade, na maior parte das vezes- uma felicidade com tamanho único, dita e vivida na primeira pessoa do singular “Eu” – é algo urgente a se fazer. Pois, de imediato, saberemos que para reinventar este mundo será preciso perguntar: e o nós onde fica? Onde podemos resgatá-lo? Coletividade, reinventar a vida para nela caber esta palavra carregada de significado e de espaço. Mas, é possível ser feliz de fato apenas existindo no Eu? Se você não existisse neste momento, para quem então escreveria? Se não houvesse o seu desejo e a sua disponibilidade de ler estas linhas, qual seria o sentido desta escrita? Entendo que o sentido se faz nessa partilha entre eu, você e o texto. Escrever é uma das formas que escolhi para reinventar o sentido da vida e resignificar a esperança. Para estar com “gente”, gente diferente de mim, mas, igual em nossa humanidade. E aqui poder lhe chamar para fazermos dessa nossa casa um lugar mais bonito, mais compassivo e acolhedor! Escreva para nós. Qual a sua ideia para reinventar a vida? Conceição Cavalcanti - jornalista e colaboradora do Ganapati.

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O sofrimento de se libertar de todo o sofrimento

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reinamento monástico. Cerca de uma dúzia de pessoas se reúne durante um mês em uma casa de uma movimentada avenida, ao lado de um ruidoso campo de futebol, no qual, havendo jogo, haverá batucada e vozerio o dia inteiro. A casa foi concebida para abrigar confortavelmente uma pequena família da classe média alta. Às vezes acolhe vinte, trinta ou cinquenta pessoas. Agora acolhe apenas cerca de doze. Nada da quietude e do silêncio de uma bucólica mata repleta de pássaros, borboletas, pequenos animais saltitantes, cachoeiras, trilhas sinuosas onde se desenrola um poético retiro Zen. Apenas automóveis, ruas e avenidas, milhões de buzinas tocando sem cessar. Aqui e ali, de tempos em tempos, um pássaro invade a exígua área verde para surpreender os provisórios habitantes da casa, com o seu harmonioso trinado. Acordar cedo e dormir tarde. Zazen (meditação sentado), kin’hin (meditação andando), cerimônias, estudos, costura dos mantos, palestras, pouco descanso e muito muito trabalho: lavar banheiros, aspirar o pó, fazer a comida, limpar o pátio. Lavar a própria roupa nas sobras forçadas de tempo. Tudo isso coroado por uma dormida em colchões organizados no chão da sala, premiado, às vezes, com a sinfonia da britadeira de um roncador. Masoquismo? A casa é um imenso pilão dentro do qual os grãos de arroz – monges e postulantes – se submetem ao doloroso esforço de se livrar do sofrimento. Sim, porque há um ganho secundário no sofrer. O sentir-se vítima, queixar-se, expor a carne viva do sofrimento neurótico, produz o indizível prazer de ser o centro das atenções e de receber um extra de afago no ego, perigoso usurpador das possibilidades de libertação de todo o sofrimento. Uma mão tão acolhedora e calorosa quanto enérgica e rigorosa é a mão do pilão. Sob a regência de uma Rôshi, uma venerável mestra que já fez o caminho antes, os grãos se atritam. A dura casca do ego resiste. E os interesses individualistas são arremessados uns contra os outros. Alguns esmorecem, outros adoecem, outros explodem. Um ou outro não suporta e cai fora do pilão. Os que voltam têm a oportunidade de se livrar – ou não – da casca que teima em aderir ao grão, uma segunda pele ou mesmo uma segunda natureza que grudou. Os que não voltam, passearão seus egos mundo afora em busca de gratificações imediatistas, geralmente provocadoras de sofrimento. Mas, quem pode julgar? Há, impregnado, um profundo senso comunitário. Sabe aquele predileto e maravilhoso chocolate? Nada o impede de usufruir de suas delícias, mas, longe do consumo indi-

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Antonio Guinho vidualizado, uma força interior o impele a partilhá-lo com toda a comunidade. O meu dá lugar ao nosso. Problema seu? Não, todos os problemas são nossos. Toda a alegria também é compartilhada. O sucesso ou o fracasso de um é o sucesso ou fracasso do grupo. Por mais que haja um estilo precípuo a cada um, é o time que ganha ou perde o jogo, embora, paradoxalmente, não haja aí nenhum ganhar ou perder. Não há, mesmo, sequer um jogo. A casca vai cedendo aos poucos. Surgem os insights, altamente gratificantes. Surgem as transformações. Algumas superficiais, outras radicais, no sentido de irem à raiz. É o prêmio pelo esforço – e mesmo sacrifício – concentrado e contínuo. Ainda que o treinamento fosse realizado no silêncio de uma bucólica mata repleta de pássaros, borboletas, pequenos animais saltitantes, cachoeiras, trilhas sinuosas, longe dos automóveis, ruas e avenidas, milhões de buzinas tocando sem cessar, mesmo assim haveria sofrimento porque, o que gera o sofrimento não é o esforço e nem mesmo o sacrifício, mas a mente que se nega a se erguer do lodo para se tornar a flor de lótus. Depois de tudo, o desejo de nunca mais retornar? Não, a pergunta de si para si: quando terei condições de voltar? Coisa de masoquista? Não, a consciência de que para se extirpar o furúnculo, necessariamente se tem que passar pela dor. Mas dor e sofrimento não são a mesma coisa. Bem, isso é assunto para o próximo Treinamento. Que será mesmo quando? Antonio Guinho: Psicoterapia dos Transtornos do Desenvolvimento

O Ensinamento de Sri Aurobindo (É realmente possível “explicar”, de forma clara e resumida, o denso e multifacetado ensinamento de Sri Aurobindo? Instado por discípulos, o próprio Sri Aurobindo aceitou o desafio – leia no texto abaixo o resultado. O texto foi escrito por ele na terceira pessoa.)

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ensinamento de Sri Aurobindo parte daquele dos antigos sábios da Índia, de que por trás das aparências do universo existe a Realidade de um Ser, de uma Consciência, um Si de todas as coisas, único e eterno. Todos os seres estão unidos neste Si e Espírito Uno, mas divididos por uma certa separatividade de consciência, uma ignorância de seu verdadeiro Si e Realidade na mente, na vida e no corpo. É possível, por uma certa disciplina psicológica, remover esse véu de consciência separativa e


tornar-se consciente do verdadeiro Si, a Divindade dentro de nós e dentro de tudo. O ensinamento de Sri Aurobindo afirma que este Ser e Consciência Único está oculto aqui na matéria. A evolução é o método pelo qual ele se liberta; a consciência surge naquilo que parece ser inconsciente e, ma vez que tenha surgido, é auto-impelida a crescer cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ampliar-se e a desenvolver-se em direção a uma perfeição cada vez maior. A vida é o primeiro passo dessa liberação da consciência; a mente é o segundo; mas a evolução não termina com a mente, ela aguarda a liberação em algo maior, uma consciência espiritual e supramental. O próximo passo da evolução deve ser em direção ao desenvolvimento da Supramente e do Espírito como o poder dominante no ser consciente. Pois só então a Divindade oculta nas coisas irá libertar-se inteiramente e tornar possível para a vida manifestar a perfeição. Mas, enquanto os passos anteriores na evolução foram dados pela Natureza, sem uma vontade consciente na vida vegetal e animal, no homem, a Natureza torna-se capaz de evoluir por uma vontade consciente no instrumento. Não é, contudo, pela vontade mental no homem que isso pode ser inteiramente realizado, pois a mente só vai até um certo ponto e, depois disso, pode apenas mover-se em círculos. Um conversão deve ser efetuada, uma mudança de consciência pela qual a mente tem que se transformar em um princípio mais elevado. Esse método deve ser encontrado através da antiga disciplina e da prática psicológica do Yoga. No passado, isto foi tentado por meio de uma retirada do mundo e um desaparecimento nas alturas do Si ou do Espírito. Sri Aurobindo ensina que é possível uma descida do princípio mais alto, o qual não irá apenas libertar o Si espiritual fora do mundo, mas libertá-lo no mundo, substituir a ignorância da mente ou seu conhecimento extremamente limitado, por uma Consciência-Verdade supramental, que será um instrumento efetivo do Si interior e tornará possível ao ser humano encontrar a si próprio tanto dinâmica quanto interiormente, e crescer a partir de sua humanidade ainda animal rumo a uma raça mais divina. A disciplina psicológica do Yoga pode ser utilizada para esse fim por meio da abertura de todas as partes do ser para uma conversão ou transformação através da descida e da operação do mais elevado princípio supramental ainda oculto. Isso, contudo, não pode ser feito de uma vez ou num curto período de tempo, ou por qualquer transformação rápida ou milagrosa. Muitos passos devem ser dados pelo buscador antes que a descida supramental seja possível. O homem vive de forma predominante em sua mente, sua vida e seu corpo de superfície, mas existe um ser interior dentro dele, com maiores possibilidades, para as quais ele deve despertar – pois é tão somente uma influência muito restrita desse ser interior que ele recebe agora e que o impele a perseguir sem cessar uma beleza, uma harmonia, um poder e um conhecimento cada vez maiores. Portanto, o processo inicial do Yoga é abrir as extensões desse ser interior e viver de dentro para fora, governando sua vida exterior por meio da luz e da força interiores. Assim fazendo, ele descobre em si próprio sua verdadeira alma, a qual não

é essa mistura externa de elementos mentais, vitais e físicos, mas algo da Realidade que se acha por trás deles, uma centelha do Fogo Divino e Único. Ele tem que aprender a viver em sua alma e purificar e orientar o restante da natureza dirigindo-a rumo à Verdade. Posteriormente, pode seguir-se uma abertura para o alto e a descida de um princípio superior do Ser. Mas, mesmo assim, não se trata ainda da plena Luz e Força supramentais. Pois existem diversas extensões de consciência entre a mente humana comum e a Consciência-Verdade supramental. Essas extensões intermediárias devem ser abertas e seu poder trazido para a mente, a vida e o corpo. Apenas então pode o pleno poder da Consciência-Verdade atuar na natureza. O processo dessa autodisciplina ou Sadhana é, portanto, longo e difícil, mas mesmo um pouco disso é uma grande conquista, porque torna a libertação e perfeição últimas mais possíveis. Existem muitas coisas pertencentes aos antigos sistemas que são necessárias no caminho – a abertura da mente para uma maior amplidão e para o sentido do Si e do Infinito, o emergir no que tem sido denominado de consciência cósmica, o domínio dos desejos e paixões; um ascetismo exterior não é essencial, mas a conquista do desejo e do apego, e um controle sobre o corpo e suas carências, ânsias e instintos são indispensáveis. Há uma combinação de princípios dos antigos sistemas: o caminho do conhecimento através do discernimento mental entre Realidade e aparência, o caminho da devoção do coração, do amor e da autoentrega, e o caminho do trabalho, afastando a vontade dos motivos de autointeresse e voltando-a para a Verdade e para o Serviço de uma Realidade maior que o ego. Pois todo o ser deve ser treinado para que possa responder e ser transformado, quando se torne possível que aquelas Luz e Força mais elevadas atuem na natureza. Nessa disciplina, a inspiração do Mestre e, nos estágios difíceis, seu controle e presença, são indispensáveis, pois seria impossível de outra maneira passar por isso sem muitos tropeços e erros – o que poderia impedir qualquer chance de sucesso. O Mestre é aquele que se elevou a uma consciência e a uma existência superiores, e ele é frequentemente considerado como sua manifestação ou seu representante. Ele não apenas auxilia por seu ensinamento, e mais ainda por sua influência e exemplo, mas pelo poder de comunicar sua própria experiência a outros. Este é o ensinamento e o método de prática de Sri Aurobindo. Não é seu objetivo desenvolver nenhuma religião ou misturar as antigas religiões ou fundar qualquer religião nova – pois qualquer dessas coisas poderia levar a um afastamento de seu propósito central. A meta única de seu Yoga é um autodesenvolvimento interior pelo qual cada um que o siga, pode, no tempo apropriado, descobrir o Si Uno em tudo e desenvolver uma consciência mais elevada que a mental, uma consciência espiritual e supramental que irá transformar e divinizar a natureza humana. Sri Aurobindo “On Himself ” (1972) – Page 95: “Sri Aurobindo’s teachings and method of sadhana” 13


Além do antropocentrismo “Dominai sobre todas as criaturas da Terra...” “E sereis senhores da natureza...” (Gênesis judeu)

(R. Descartes)

Antropocentrismo é um termo que remete à ênfase dominadora e especista (a espécie humana como “povo eleito” separada das outras) gerada pela cultura greco-europeia (ocidental) em relação à vida na Terra. Conjuga-se com outros acontecimentos como: aspectos antropocêntricos da filosofia grega; ênfase cristã na teologia da Salvação em detrimento da Teologia da Criação (Natureza, ecologia); Renascimento; advento do racionalismo e da ciência moderna (séc. XVII); Revolução Industrial na Europa e a noção de Progresso Material Ilimitado - ligados ao Liberalismo e ao Capitalismo. E com isso, temos a grave perda da dimensão do Sagrado da natureza, o qual passa a habitar apenas num espírito metafísico dentro da carne do homem. O antropocentrismo vem como anseio e motivação ocidental de tomar o lugar das divindades e das determinações da Natureza - que sempre foram desafiadoras e maiores que os seres humanos durante o período de afirmação do homo sapiens (100 mil anos) até o advento do ocidente. Metaforicamente, podemos dizer que o que sempre reinou foi um biocentrismo, em que a vida como cosmos, como campo e energia de desconstrução e renovação se impõe sobre cada ser. Com o advento da dimensão mítica e mística – a mais profunda significação que os seres humanos criaram para relacionar-se com a vida tal biocentrismo continuou e mesclou-se com tipos de teocentrismo politeísta. A secularização – afastamento do âmbito religioso e sagrado – da cultura ocidental gera então o antropocentrismo, o qual é genericamente a base do problema socioecológico atual. Mas minha tese é que no século XX, o processo de dominação objetificante ou reificante da vida foi tão intenso, que não apenas vivenciamos o “Deus está morto” (clamor antropocêntrico), como entramos na era do “o Homem está morto”, ou seja, o modelo de humanus do humanismo da cultura judaico-cristã e filosófica entra em processo de descaracterização, como bem mostram

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Marcelo Pelizzoli Heidegger, H. Jonas, Foucault e outros pensadores. Assim, estaríamos pagando o preço pela vontade egótica de domínio branco, racionalista, macho, imperialista, individualista, fundamentalista judaico-cristão, que desemboca num “objetocentrismo” irmão do “tecnocentrismo”. O feitiço volta-se contra o feiticeiro. Uma ótima metáfora para o anúncio dessa trajetória do ocidente está na Odisseia, de Homero, com a história do herói aventureiro, desbravador, matador de monstros (natureza, alteridade), Ulisses, que sai de sua ilha Ítaca e depois de vários anos retorna e toma posse novamente como rei, matando seus inimigos (diferente). Nesse processo de perda da transcendência da vida e do sagrado da natureza, em que o animal (anima = alma) perde a alma, e o humanus (humus = terra fértil) perde a terra, abalando profundamente sua alma (psique) e seu ânimo de vida, novos deuses são criados, à imagem e semelhança dos desejos humanos sem mais raiz. Exemplos: deus dinheiro, deus fama e sucesso, deuses objetos de consumo, parafernálias tecnológicas, cores e sabores de uma vida virtual; ideais de vitória e fama em esportes; heroísmos bélicos de guerra; “viagens” de drogadição, teologia da prosperidade etc. O Fundamentalismo atual – neurose dogmática de grupos santificados contra todos os outros diabolizados – é também uma reação irracional ao antropocentrismo e à objetificação moderna, em que infelizmente se reproduz estas mesmas disposições, na medida em que se expulsa o diferente, os mitos, a Natureza “decaída”, o corpo, o animal, a própria sombra humana. Um desafio enorme hoje é superar o antropocentrismo que expulsou a natureza e as expressões brutas do animal humano e da sacralidade de todos os seres. Mas também, superar a objetificação, os novos mitos negativos que alimentam a ideia paradisíaca do mundo mágico dos objetos, do virtual e artificial, para então (re)construir a mística biocêntrica, franciscana, cosmológica, como vemos na Ecologia. Mas também mística comunitária e libertadora, que agora pensa conjuntamente o social e o ambiental, bem expresso na ideia de sustentabilidade. Marcelo L. Pelizzoli – Pós-doutor em Bioética. Prof. da UFPE. www.curadores.com.br


23/03/2013 – Somos Todos 269 - Recife

Dicas do Ganapati Adriana Miranda http://www.vista-se.com.br/leite/ A página Leite, mantida pelo portal Vista-se, reúne diversas informações sobre os problemas relacionados ao consumo de leite de origam animal e derivados. Textos e vídeos explicam a crueldade que está por trás da produção leiteira, os males à saúde e mostram alternativas, que são os leites de origem vegetal, gostosos, nutritivos, saudáveis e livres de sofrimento. http://www.theanimalday.org/ The Animal Day é a página de Jon Amad, fotógrafo vegano brasileiro especializado em fotografia documental e investigativa. Jon vive em Madri, na Espanha, e dedica todo o seu tempo para a causa animal realizando trabalhos com diversas ONGs pelo mundo, entre elas a Igualdad Animal. O ativismo de Jon consiste em fotografar e gravar vídeos e expor para todos a crueldade que os animais não-humanos sofrem nas fazendas, matadouros, zoológicos, entre outros. Um belo trabalho de informação e conscientização. http://sobrebudismo.com.br/ A página Sobre Budismo traz conteúdos budistas como textos reflexivos, citações, dicas de livros, vídeos, links diversos, entre outros. Textos que explicam a história do budismo e vídeos de introdução à prática da meditação são os destaques. Interessante fonte de conhecimento para todos. https://www.facebook.com/SemCrueldadeCrueltyFree Você tem noção de quantos itens da sua lista de compras estão “livres de crueldade”? A partir de agora, que tal gastar um tempinho a mais no supermercado olhando os rótulos da embalagens? Podemos e devemos aprender quais as marcas estão ligadas ou não à cueldade. Nos links abaixo encontramos as diversas empresas que testam e as que não testam em animais. Vale a pena fazer uma lista de compras livre de crueldade, os animais indefesos e a sua consciência agradecem! http://www.vista-se.com.br/testes http://www.pea.org.br/crueldade/testes/naotestam.htm

EVENTOS Eventos Passados

Romero Morais

RESUMO DE NOTÍCIAS 20/03/2013 – A 5º edição do Cultura Veg organizado pelo grupo Recife da SVB contou com a palestra de Marcelo Pelizzoli, pós-Doutor em Bioética, professor dos Mestrados de Saúde Coletiva, Direitos Humanos e Filosofia, da UFPE. Foram discutidos os aspectos filosóficos de nossa relação com os animais, com nossas afinidades e diferenças.

No dia 23 de março ocorreu no Recife a manifestação “Somos Todos 269”. O evento de caráter mundial, ao qual 45 cidades espalhadas pelo mundo aderiram, contou com a presença de diversos ativistas e membros de grupos locais como Ativeg, SVB-Recife, Veddas, Ganapati, Adote um Vira-Lata e Sea Shepherd. A manifestação teve início no bairro de Piedade, em frente ao McDonald’s e terminou no bairro de Boa Viagem (pracinha) e contou com exibição de banners, vídeos e mini-palestras temáticas. Os ativistas também distribuíram panfletos, conversaram com a população e realizaram um ato simulando a marcação a ferro, que comumente ocorre nos animais de fazenda, com o número simbólico 269. O ato teve a intenção de sensibilizar e criar empatia para com os milhares de animais mortos e usados para “satisfazer as necessidades humanas”. Esta foi mais uma oportunidade na cidade do Recife para conscientizar e educar as pessoas, não apenas expondo a injusta escravidão e crueldade a que os animais estão sendo submetidos, mas também para mostrar que há alternativas. A escolha do veganismo como modo de vida demonstra que é possível praticarmos empatia, compaixão e justiça para com todos os animais não-humanos. O movimento 269 Life luta pela dignidade e o fim da escravidão dos animais, assim como por seus direitos à vida e à liberdade. reivindica o fim de uma sociedade que escraviza, violenta, humilha e explora outros seres vivos. Medo é medo. Sangue é sangue. Dor é dor. Escolha a vida: seja vegano! Junte-se a nós! Procure o grupo “Somos Todos 269 Recife-PE-Brasil” no Facebook. Faça parte você também! Saiba mais: http://www.269life.com/ 03/04/2013 – O grupo Recife da SVB apresentou a 6º edição do Cultura Veg, com o palestrante internacional filósofo e teólogo belga Pe. Luc Vankrunkelsven. O tema foi Produção de alimentos e globalização perversa: destruição aos dois lados do oceano. Além da palestra, houve uma sessão de autógrafos dos livros lançados em português. 06/04/2013 – O Projeto de Extensão Adote um Vira-Lata (UFPE), em parceria com o CVA/Recife, o Projeto Patinha e a ONG Brala, realizou o 15º Evento de Adoção de Cães e Gatos no Parque do Cordeiro. 20/04/2013 – 2º Jantar Vegano, organizado pela SVB Recife e Grupo Ganapati. Com temática árabe, o evento lotou o restaurante Papaya Verde. 28/04/2013 – III Manifestação Nacional Anti-vivissecção e Experimentação Animal. Organizado pelo Ativeg Recife, teve como objetivo conscientizar a população sobre as crueldades que acontecem nos biotérios em universidades e nas indústrias de cosméticos. O evento ocorreu no Parque da Jaqueira. Romero Morais - ativista e colaborador do Ganapati.

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Ganapati maio/junho