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No tempo mais que perfeito


Jader de Oliveira

No tempo mais que perfeito


Copyright © 2009 Jader de Oliveira Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, do autor.

Título: No tempo mais que perfeito - vida e sonhos de Belo Horizonte nos anos 50 Autor: Jader de Oliveira Produção Editorial: Francisco Caram e Priscilla Pagani Produção Executiva: Associação e Desenvolvimento de Projetos – ADP Priscilla Pagani e Francisco Caram Projeto Gráfico: Sérgio Luz Revisão: Márcio Rubens Prado Ilustrações: Sílvia Aroeira

Ficha Catalográfica

O48e

Oliveira, Jader de. No tempo mais que perfeito : vida e sonhos de Belo Horizonte nos anos 50 / Jader de Oliveira . – Belo Horizonte : [s.n.], 2010. 278 p. : il. Inclui dados biográficos ISBN: 1. Belo Horizonte (MG) - História. I. Título. CDD: 981.511 CDU: 981(815.1)


N o t e m p o m a i s q u e p e r f e i to

Nota do autor Nesta segunda edição, a minha principal preocupação foi corrigir omissões involuntárias, havidas na primeira, inserir novas informações, e renovar ameus agradecimentos à Engesolo, empresa basilar na engenharia nacional, na pessoa do engenheiro e professor João José de Oliveira. Pelo apoio, patrocínio e estímulo dados à primeira edição deste livro. Onde deixei claro que a descrição de Belo Horizonte, da qual vivo distante há mais de 40 anos, e dos fatos ocorridos na década de 50, não poderia ter sido feita sem a ajuda de amigos, alguns dos quais já não estão mais conosco. Agradeço, de forma especial, a Márcio Rubens Prado, pela infinita paciência que teve para ler e reler os originais, que modifiquei numerosas vezes a fim de incluir novos trechos; a Silvinha Aroeira, pela beleza das ilustrações; e a Acir Antão, Afonso Celso Raso, Aníbal Fernandes, Carlos Alberto de Barros Santos, Danúbio Barbosa Lima, Delly Luttembarck de Oliveira Lima, Djalma Prado Filho, Edgard Melo, Édison Zenóbio, Élzio Costa, Flávio Araújo, Gabriel Pascoal Carvalho, Gervásio Horta, Gilberto Santana, Gil César Moreira de Abreu, Gílson Campos, Guy de Almeida, Hélio Faria, Helcio Nunan, Helvécio de Oliveira Lima, Ivan Lessa, Ivan de Vasconcelos Barros, Jairo Anatólio Lima, Jairo Severiano, João Claro Silveira, José Bento Teixeira de Salles, José Cabral, José Eduardo Lima Pereira, José Lino de Souza Barros, José Ramos Filho, Jupyra Vasconcelos, Léo Belico, Leopoldo Bessone, Levy Freire, Luiz Carlos Saroldi, Márcio Braga, Maurício Nunan, Mauro Santayana, Milton Colen, Nirez Azevedo, Osmar Frazão, Plinio Bossi Barreto, Ricardo Parreiras, Roberto Duarte, Roberto Franco, Ruy Viotti e Salomão Borges. É bem possível, ou mesmo provável, que alguns nomes de personagens importantes dos jornais, das emissoras de rádio, da televisão e de outros setores da vida da cidade tenham sido involuntariamente omitidos neste livro. Antecipadamente, peço desculpas.

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Sumário

Nota do autor............................................................................................................................. 7 Prefácio..................................................................................................................................... 11 Jader de todas as redações...................................................................................................... 13 O autor...................................................................................................................................... 14 Apresentação............................................................................................................................ 15 As montanhas e a beleza do infinito..................................................................................... 17 Os belos tipos faceiros............................................................................................................ 24 Automóveis, lambretas, damas-da-noite.............................................................................. 31 Da Martinica à Praça Sete...................................................................................................... 35 A Belle Époque na Avenida.................................................................................................... 39 Quando as moças sonhavam com doutores........................................................................ 49 Curral del Rey, nossa aldeia universal.................................................................................. 57 E o céu tão alto, tão alto!......................................................................................................... 61 As águas rolavam na Rua da Bahia....................................................................................... 71 O quê que eu vou dizer lá em casa?..................................................................................... 77 Divas de Hollywood na fila do aeroporto............................................................................ 85 Tem dó, seu juiz!...................................................................................................................... 89 — Por favor, não me tirem mais do trabalho!..................................................................... 93 A “Hora do Fazendeiro” começou com uma vaquinha.................................................... 101 A real história da sra. Valentim, ex-Hilda Furacão........................................................... 111

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Segurança? Coisa pra santos e pagãos................................................................................ 117 Boa noite, amor, é domingo!................................................................................................ 127 No ar... a alegria do rádio..................................................................................................... 135 Emergência cardíaca? Pixinguinha resolve........................................................................ 149 A Itatiaia abre os caminhos.................................................................................................. 153 Cuartito Azul, en Noches de Ronda................................................................................... 157 Reis do espalhafato, gênios da fantasia............................................................................... 165 Cá e acolá, desastres há......................................................................................................... 171 Amores caninos num arrastão em Varsóvia...................................................................... 179 Um perigoso partidário da paz............................................................................................ 195 Só pode ser conversa de telefone......................................................................................... 207 Luzes, câmeras, lembranças................................................................................................. 213 Pela pátria querida, eu darei minha vida............................................................................ 217 Válido para todos os países, exceto..................................................................................... 221 O retrato do Velho no mesmo lugar................................................................................... 225 Monteiro Lobato no poço do Visconde.............................................................................. 233 Chutaram o pinto da Arca de Noé...................................................................................... 237 Nos tempos de JK, o Brasil à nossa frente.......................................................................... 241 OPA, me dá um dinheiro aí!................................................................................................ 249 Tome cuidado, aí vem a vassoura!....................................................................................... 255 ¡Señor, eterno Dios, ruega por nosotros!........................................................................... 259 Alevando os alimites de Minas além-mar.......................................................................... 263 Ao paraíso, não vão moças feias.......................................................................................... 267 Campos de aviação, noturnos da Central.......................................................................... 271

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Prefácio Confesso que não sei bem quando conheci o Jader de Oliveira. Ele é atemporal, não é de hoje nem de ontem, é de sempre. Daí, a autoridade que possui em escrever um livro onde insiste em dizer que não é de memórias, mas que é essencialmente memorialista. E, como tal, Jader se revela um autor de aprimoradas qualidades. Legítimo autodidata, da estirpe de Eduardo Frieiro, cedo ainda se entregou, de corpo e alma, às funções de repórter, que lhe abriram as portas para uma vitoriosa carreira profissional, coroada agora com este seu primeiro livro. Outros virão, certamente, impulsionados pela sua vocação e competência. É evidente que, na elaboração deste seu No Tempo Mais Que Perfeito, Jader de Oliveira obteve, com o tino jornalístico que o caracteriza, os mais diversos dados e informações sobre os episódios narrados, para o que teve a colaboração de seus amigos, que não são poucos. Por outro lado, essa mesma intuição que inspirou seu trabalho levou-o a exaustivas pesquisas, principalmente em jornais e revistas, durante vários anos. Era de se ver a preocupação do Jader quando, em visita ao Brasil, procurava e obtinha sempre novas informações. Ele mesmo costumava dizer que o livro jamais seria concluído, pois a cada vez que vinha rever parentes e amigos levava sempre material inédito para ser acrescido aos originais já alinhavados. Acompanhei de perto seu trabalho. Pude avaliar, portanto, todo seu empenho e cuidado em redigir um livro fundamentado em dados precisos e diversificados. Percebe-se claramente que sua vocação e exercício profissional do jornalismo contribuíram, de maneira eloquente, para estruturar o planejamento e o próprio arcabouço redacional do livro. Todo ele ressumbra saudosismo de quem experimentou um dos mais intensos e sugestivos períodos da vida belo-horizontina: meados do século passado. Terminara a grande guerra e era natural que uma nova realidade, baseada no assustador desenvolvimento tecnológico, atingisse também o Brasil. Um clima de efervescência, insubordinação e ansiedades, brotando dos escombros do conflito mundial, caracterizava a geração da época. A hora, portanto, de sonhos e esperanças para um mundo de “paz e amor”, ganharia contornos mais nítidos e expressivos em uma capital ainda em formação. A luta antifascista explodiu com a redemocratização do País, enquanto na área cultural Belo Horizonte experimentava uma verdadeira revolução, com Guignard na pintura, Bosmans na música e toda uma exuberante geração que sonhava com a construção de um novo mundo. É nesse ambiente que Jader de Oliveira cresceu e viu se estruturar a sua personalidade dentro da melhor sabedoria mineira. Discreto e sóbrio – embora comunicativo e extrovertido –, Jader colocou-se à margem do processo, assistindo ao desenrolar da História com a visão arguta de observador inteligente e seguro. Esses atributos definiram o jornalista e o impulsionaram agora para a construção de um livro de memórias. De Jader, bem se poderia dizer – para usar uma simbologia tanto do seu agrado – 9


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que ele se manteve sempre distante da sinfonia clássica dos bajuladores nos salões dourados para se integrar ao ronco surdo da cuíca nas esquinas e nos bares da vida. Daí, a razão de ser da independência e autenticidade de seus textos. Acontecimentos e personagens da época são registrados com incrível precisão, como se o autor nos levasse, mãos ao ombro, para ver passar a vida “não anunciada” na turbulência das horas e nos sonhos do passado. Neste sentido, é impressionante como Jader de Oliveira retrata a nova Capital, com leves pinceladas de humor, dentro de um texto simples, mas correto e seguro – uma vez mais, os atributos de bom jornalista do autor. Mesmo sem a grandeza com que Pedro Nava descreve Belo Horizonte dos modernistas, também Jader traça um retrato fiel da capital em meados da década de 40. Coincidentemente, aliás, as duas fases se assemelham: os modernistas apresentando o programa de renovação das enquistadas estruturas sociais e literárias; e a chamada geração de 45 sonhando em busca do futuro, como se fosse “o poeta dos tempos que virão”, na expressiva mensagem de Rilke. Todo o livro é um rico painel de recordações belo-horizontinas. E nisso ele é antológico, no que tem a palavra de seleção de textos. Atraído talvez pela sua extraordinária paixão pela música popular brasileira, Jader às vezes ultrapassa as fronteiras de Minas e envereda pelos caminhos da radiofonia carioca. E assim procede com firme competência. A ressalva, contudo, não invalida a qualidade do livro, antes o enriquece com valiosos subsídios e fortalece, com vivas cores, o quadro exato da realidade passada. De tudo deve ser ressaltada ainda a prodigiosa memória de Jader de Oliveira que, em admirável processo mnemônico, gravou para a História tão preciso retrato de uma época. Em suma: ler este livro foi como se percorrêssemos, com o autor, um jardim florido de recordações, aspirando o suave perfume da saudade. José Bento Teixeira de Salles

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Jader de todas as redações Nestes tempos do assalto continuado do inglês ao nosso maltratado idioma, não é feio aplicar ao jornalista Jader de Oliveira o apelido de globetrotter. Termo muito usado até os anos 60, 70, quando as pessoas que viajavam, principalmente para o exterior, eram raras, e vítimas de rancorosa inveja dos provincianos sedentários. Guiado pelo culto e ferino Fortunato Pinto Júnior – não à-toa conhecido pelo picante pseudônimo de Malagueta – Jader começou a carreira beirando os 18 anos, num tempo em que, no Brasil, não havia escolas de jornalismo. Aos 19 anos, viajou pela Europa, para cobrir a vitoriosa excursão do seu amado América Futebol Clube. Tomou gosto. Pouco tempo depois, alegando “razões do coração”, foi parar na Argentina. Ali, trabalhou na redação do jornal Clarín, um dos ícones da imprensa portenha. De volta ao Brasil, decidiu completar, ou melhor, ganhar um salário decente. Partiu para a publicidade, onde alcançou novos sucessos. Primeiramente, na filial belo-horizontina da agência americana McCann Erickson. Transferido pela agência para o Rio, ali foi, entre 1963 e 64, supervisor do poderoso e lendário Repórter Esso, no rádio e na tevê. No começo de 1968, Jader deu uma reviravolta em sua vida profissional. Candidatou-se e foi contratado, por três anos, pelo World Service da BBC de Londres. O contrato foi prorrogado, ad aeternum, daí o fato de o Jader viver, até hoje, no sul de Londres, num belo cottage em Cobham, condado de Surrey. Ele trabalhou, simultaneamente, para numerosas publicações brasileiras, como Veja, O Globo, Placar, Exame, Claudia, Correio Braziliense e Estado de Minas. Operário contumaz das palavras, Jader, aposentado na BBC, continua na ativa, como correspondente da Globo News. É esse jornalista, produtor, redator, apresentador, locutor e carregador de (e)terno banzo de Belo Horizonte e seus aprazíveis botecos, que entrega aos leitores este No Tempo Mais Que Perfeito. Tão delicioso quanto uma isca de fígado acebolado com uma pinga da roça. De preferência, no Mercado Central. De Belo Horizonte, of course. Márcio Rubens Prado

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O autor Jader de Oliveira, mineiro de Belo Horizonte, teve, como primeira e única profissão, o jornalismo. Começou a carreira na cidade natal. Depois, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Londres – na BBC, onde trabalhou 31 anos. Aposentando-se em 1999, continua na ativa, como correspondente da Globo News. Ao lado de Nelly, sua mulher argentina, e dos filhos Marcelo e Eduardo, vive hoje nos arredores de Londres. Mais precisamente, em Cobham, no condado de Surrey.

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Apresentação “O passado é a única coisa morta com um cheiro agradável”, escreveu Edward Thomas, no seu poema Early one Morning (*). É aquele cheiro de saudade, como canta o Miltinho no samba de Djalma Ferreira e Luiz Antônio, que, em repentes inexplicáveis, reabre arquivos esquecidos na memória, valoriza ou avilta o presente, num processo que vai pervagando todas as órbitas do pensamento, algumas certamente menos perfumadas do que as outras. Drummond nos ensinou que “as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão”. Tristão de Athayde raciocinou da mesma forma: “O passado não é o que passou. É o que ficou do que passou”. E Antônio Callado afirmava uma verdade às vezes despercebida: “Não sentimos saudades apenas dos melhores momentos que vivemos, mas também dos momentos mais intensos”. Ele aludia à II Guerra, que o levou a testemunhar os episódios mais trágicos e, ao mesmo tempo, de grande solidariedade humana, na GrãBretanha da década de 40. Daí, as suas saudades dos acontecimentos que acompanhou, ao tempo em que trabalhava na BBC. Tudo isto me ocorreu quando, a pedido da diretoria do clube Quinze Veranistas, tentei descrever como eram Belo Horizonte e um pouco do Brasil, em 1951, o ano da criação do clube e do começo de uma década excepcional no país, em todos os aspectos. O primeiro relato – quatro páginas apenas – saiu publicado no jornal do Quinze, em 2001, na comemoração do seu cinquentenário. Mas, ao abrir a cortina do passado, teve início inevitavelmente um exercício sem fim de lembranças dos fatos, personagens e ambientes da Belo Horizonte dos anos 50, que decidi transformar em livro. São lembranças que não falam, mas dizem muito. Não se trata de uma tentativa de resgatar o passado histórico da cidade: simplesmente o relato, numa linguagem jornalística, de como vivíamos, o que fazíamos, o que acontecia e com que sonhávamos. Um reexame da linha do tempo que percorremos, obedecendo a súbitas e indisciplinadas variações da memória. A narrativa dos acontecimentos tornou necessário não só recuar mais de uma década, como ir bem adiante, para precisar aqueles anos que foram marcantes para a cidade, o país e o mundo. Os amigos acudiram com as suas lembranças; outros acrescentaram ideias. O resultado aí está. Mas o túnel da memória continua infinito.

(*) Edward Thomas (1878-1917) escreveu Early one Morning em fins do século 19. O verso mencionado é o ultimo dos sete que compõem o poema: The past is the only dead thing that smells sweet (…).

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As montanhas e a beleza do infinito

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elo Horizonte é das poucas cidades do mundo que tem uma data de nascimento e pode festejar, todos os anos, o seu aniversário. As cidades no geral não nascem. Elas surgem no caminho de exploradores ou à beira de águas navegáveis. Surgem na descoberta de riquezas, na ânsia de conquistas à força bélica, ou no reflorir de esperanças dos que saem à procura de uma vida nova. Todas, sem dúvida, dependem do aspecto humano na composição da sua pedra fundamental. Nascida da decisão política do governador Afonso Pena (Afonso Augusto Moreira Pena, 1847-1909) e projetada nas pranchetas, dizem que, na gênese de Belo Horizonte, nada faltou. Gente do interior; gente de outros Estados; e estrangeiros, à procura das oportunidades de uma capital recém-inaugurada, correram na direção do novo horizonte que se abria. Pena que à paisagem tenha faltado um rio mais caudaloso, pois os rios são importantes à feição geofísica das cidades. Ficamos, no entanto, com as montanhas e com a beleza do infinito. Era, então, o curral das riquezas minerais, que, ainda hoje, nas noites enluaradas, oferece silhuetas fascinantes, às vezes de feições sóbrias, intimidantes. Nesse curral, quando a lua sobe, passando para a parte interna dos seus limites, o que se vê são montanhas faiscantes, vagalumeando riquezas. Malacacheta, minério de ferro? Ou as furtivas pepitas de ouro que, em 1701, atraíram o bandeirante João Leite da Silva Ortiz, o primeiro a ver a beleza do lugar? Nessa moldura, a 858 metros sobre o nível do mar, latitude sul de 19.55, longitude oeste de 43.56, e sob o padroado de Nossa Senhora da Boa Viagem, a cidade se fez metrópole. No começo, bem antes da inauguração, os escassos moradores da capital tiveram, como esperavam, de conviver com as carroças e ferramentas que abriam as ruas e Avenidas desenhadas pelos seus planejadores. E se confraternizavam na calma noturna, que sobreviveria por décadas. Nada parece ter sido difícil ou penoso, exceto para a administração da nova capital. A cidade logo ganharia vida própria. Mas, nessa fase, entre a inauguração, em 1897, e 1909, Belo Horizonte teve nada menos de nove prefeitos – o primeiro deles, Adalberto Dias Ferraz da Luz, ficou somente 243 dias à frente da cidade. Essa alternância de administradores durou 30 anos. Apesar disso, já no segundo aniversário da transferência da sede do governo do Estado, Belo Horizonte bem sabia o caminho que tomaria, como escreveu Eduardo Frieiro: “Dois anos depois de inaugurada, a futurosa cidade contava 18 mil habitantes. Todas as repartições e serviços públicos se achavam em funcionamento. Estava montada a imensa máquina que é uma urbs moderna. Havia força e luz elétrica, seis hotéis, cinco

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hospedarias, oito pensões, vinte e sete açougues, dezesseis padarias, duas confeitarias, cinco tipografias, carros de praça, banda de música, um centro operário beneficente, duas papelarias e livrarias, uma biblioteca pública, seis tabacarias quase uma centena de botequins, três fábricas de macarrão, cinco de cerveja etc., etc.”. Mesmo com tanta pujança, ao chegar aos anos 50, a distância que Belo Horizonte se achava de ser uma metrópole, com as virtudes e mazelas dos grandes conglomerados urbanos, ainda era grande e nos fazia vê-la com olhos sempre zelosos. Parecia que queríamos protegê-la das agruras que acometiam o crescimento do Rio e de São Paulo. O estilo de vida sossegado, em que havia tempo para tudo, valorizava o dia-a-dia trivial. E era um trivial prazeroso. Víamos, então, um passeio pela Avenida Afonso Pena, ou a ocasião de um sábado à noite nas praças e adros de igrejas dos bairros, como se fossem uma festa, que requeria o terno bem passado e os sapatos engraxados. Embora estivéssemos na metade do chamado século do progresso, não havia muitas indicações da extraordinária arrancada científico-tecnológica que marcou os seus últimos anos. Transplantes de órgãos vitais, a fecundação de proveta, aviões supersônicos, exploração do espaço sideral e comunicações fáceis não ocupavam a nossa mente. E, ainda que fascinados, encarávamos com descrença os filmes futurísticos que nos levavam a galáxias distantes e, para nós, absurdas, embora estimulassem a nossa imaginação. Deleitávamo-nos, porém, com a história de Frankenstein, que Mary Shelley havia escrito há mais de 130 anos, em 1817; e com A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, leitura formidável para jovens e adultos, desde o seu lançamento em fins do século 19. Ou, ainda, com o Admirável Mundo Novo, que Aldous Huxley escreveu em 1932. Huxley, aliás, esteve em Belo Horizonte, em 1959. Depois, visitou as obras da construção de Brasília e, no ano seguinte, publicou Volta ao Admirável Mundo Novo. O cinema e a literatura, devassando o futuro da ciência e da tecnologia espacial, eram demasiado fantasistas. E nos mantinham distantes da perspectiva de um mundo em que as missões de foguetes tripulados se tornariam rotineiras, menos de 20 anos depois, como nos indicavam as aventuras de Flash Gordon, herói das histórias em quadrinhos. Tudo já andava bem depressa. Em 1954, voou o primeiro jato de passageiros, o Comet britânico, que teve um começo marcado por desastres fatais; um em São Paulo. Em fins da década de 50, já era estudada, em laboratórios norteamericanos, a criação de uma rede mundial de comunicações, a world wide web (o www da internet), que mudou o mundo a partir de 1996 (*). Com os pés bem na terra – terra promissora da nossa cidade –, éramos, no entanto, testemunhas de uma vibrante fase de desenvolvimento de Belo Horizonte, que já dispunha de profissionais renomados em todas as áreas; uma universidade famosa pelo rigor do ensino; 350 escolas primárias e 65 secundárias; 42 hospitais; homens públicos respeitáveis; vida cultural ativa; músicos aclamados; bancos prósperos; uma boa mídia; clubes de futebol, vôlei e basquete – temidos pelos adversários de outros lugares; transportes públicos eficientes; um parque industrial na sua vizinhança; e o senso de prudência jamais negligenciado pelo fato de se tratar de uma

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capital em expansão. Europeus e árabes haviam acrescido à vida local a sua experiência e a sua determinação de fazer fortuna, incrementando com isso a indústria e o comércio, estimulando o crescimento da economia da cidade e do Estado. Mas já não podíamos contar o número exato de bares e botequins, como Frieiro fez. Eram, sem dúvida, muitas centenas para satisfazer a população em crescimento, no centro e nos bairros da cidade. As fábricas de cerveja haviam sido reduzidas a apenas três. Uma delas, a Rhenania, fundada antes mesmo da inauguração da cidade, numa antecipação da sede cervejeira que engolfaria a nova capital. A Rhenania, cujas instalações originais se localizavam na esquina das ruas Sergipe e Timbiras, foi vendida a outra marca que se fez conhecida, a Polar. E esta, depois, comprada pela Antarctica. E já havia sido perpetuada na cera a primeira homenagem musical à nova capital, a valsa Belo Horizonte, composta e gravada por Américo Jacomino, o grande Canhoto, em 1915, após uma visita à cidade. Líamos as notícias do país e do mundo nos seis jornais diários que Belo Horizonte possuía. Eram cinco matutinos: Estado de Minas, O Diário, Diário de Minas, Folha de Minas e Tribuna de Minas – este, recém-lançado, com o formato de tablóide; e um vespertino, fechado em 2007, o Diário da Tarde. O mais antigo de todos era o Diário de Minas, que circulou pela primeira vez em 1899, dois anos depois da inauguração da nova Capital. No formato moderno, o jornal foi relançado em 1949. As notícias das atividades econômicas, incluindo a bolsa de mercadorias, empresas, balancetes e cartórios – tudo isso era encontrado nas páginas do Informador Comercial, criado e editado por José Costa, o atual Diário do Comércio. Jornais do Rio e de São Paulo chegavam com atraso e não podiam competir com os locais. Os matutinos não circulavam às segundas-feiras e, diferentemente das mudanças que viriam depois, o Diário da Tarde era mesmo da tarde, saindo às ruas por volta da 15 horas. Publicado de uma forma mais restrita, sem venda avulsa, o maçudo Minas Gerais atraía, como nos dias de hoje, a leitura dos interessados nos assuntos oficiais do Estado e no expediente forense. Para torná-lo mais interessante, o Minas Gerais lançou, nos anos 60, um suplemento semanal de arte e de literatura. A vida cultural da cidade tinha na revista mensal Acaiaca, dirigida por Celso Brant, o seu mais importante veículo. Celso destacava-se como um intelectual respeitado, de ideias nacionalistas arraigadas, que sustentou até a morte. A Acaiaca foi a sucessora da revista Edifício, editada em 1946 por um grupo do qual faziam parte Wilson Figueiredo, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos, Autran Dourado, Otávio Alvarenga, Francisco Iglesias, Fábio Lucas e João Etienne Filho. Já a arte cinematográfica era uma quase exclusividade do Centro de Estudos Cinematográficos, criado por jovens entusiastas, entre os quais Cyro Siqueira, que, aos 19 anos, já era um respeitado crítico, escrevendo no Estado de Minas. Ele foi o criador, também, algum tempo depois, da Revista do Cinema, com a ajuda de Jacques do Prado Brandão, Guy de Almeida e José Roberto Duque Novais, outros jovens críticos, que se fizeram rapidamente conhecidos.

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Uma vez por mês, circulava a revista Alterosa, lançada em 1933 por Miranda de Castro (**), e, durante muito tempo, dirigida por Jorge Azevedo. Uma revista que chegou a ter enorme circulação nacional. Apenas quatro estações de rádio disputavam a audiência da cidade e de grande parte do interior: Inconfidência, Guarani, Mineira e Itatiaia. A Inconfidência, como a Folha de Minas, pertencia ao governo do Estado. Enquanto a emissora não dependia de verbas oficiais, porque tinha uma grande audiência e excelente renda com os anúncios e patrocinadores, a Folha penava as dificuldades de ser um jornal de pequena circulação, sem robustez comercial. A grande novidade foi trazida pela Itatiaia, com a sua sede inicialmente em Nova Lima e, em janeiro de 52, transferida para Belo Horizonte. A Itatiaia foi fundada por Januário Carneiro, o primeiro a vislumbrar em Minas o futuro do rádio segmentado. Januário inspirou-se no estilo da Emissora Continental, do Rio (da qual era correspondente e que não existe mais); e da Panamericana, de São Paulo, colocando a Itatiaia no ar quando tinha apenas 23 anos de idade – um prodígio! Tínhamos também um “jornal da tela”, o Minas Filme, criado por José Cota Filho, que mostrava para a plateia dos cinemas da cidade os acontecimentos empresariais e oficiais – quase tudo pago pelos interessados na sua divulgação. O Rio é que nos mandava mais jornais da tela: Canal 100 e Jean Manzon Produções. O primeiro apresentado por Cid Moreira; e o outro por Luiz Jatobá; que, por si mesmos, atraíam interessados em ver as imagens que narravam. A maioria das reportagens que esses jornais mostravam era também paga. A década de 50 entraria para a história do jornalismo mineiro como um período de grandes oportunidades profissionais. Os jornalistas não dependiam de diploma para conseguir emprego. Mas tinham de provar que sabiam escrever e possuíam uma boa percepção do que valia como notícia. Estudantes de Direito eram os mais empregados pelas redações. Além da Tribuna de Minas, lançada com capital do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, mais tarde foi fundado o Correio do Dia, jornal de oposição, cuja redação era chefiada por Guimarães Alves, com José Aparecido de Oliveira editor de política. Mas o jornal teve vida curta. Aparecido cresceria rapidamente na própria política, servindo primeiro à prefeitura de Belo Horizonte, quando o prefeito era Américo René Gianetti; elegendo-se depois deputado federal; trabalhando como secretário particular do presidente Jânio Quadros; exercendo dois ministérios e o posto de embaixador em Lisboa. Ninguém do jornalismo mineiro cresceu tanto na arena política quanto ele. No início dos anos 60, foi criada a Última Hora mineira, sob a chefia de Hélio Adami de Carvalho, a primeira tentativa de fazer o que, em muitos países, sobretudo europeus, é bastante comum: um jornal ter edições regionais. No começo da década seguinte, veio o Correio de Minas, dirigido por Ennyus Marcus de Oliveira Santos. Jornal governista,

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que, como o oposicionista Correio do Dia, durou pouco. Depois, surgiram os semanários. Primeiro, O Debate, dirigido por Oswaldo Nobre, aproveitando um titulo que lhe foi doado por Paulo Pinheiro Chagas; o Binômio, de oposição, criado e editado por José Maria Rabelo e Euro Luiz Arantes; e o Jornal da Cidade, fundado e administrado por Joffre Alves Pereira. Belo Horizonte mal havia passado dos 50 anos e a sua população de 385 mil habitantes dava a impressão, toda ela, de ser vista diariamente andando pela Avenida Afonso Pena (Minas Gerais tinha pouco mais de oito milhões de habitantes, em 485 municípios e 1.215 distritos). A Afonso Pena foi durante muito tempo a principal vitrine da capital. Passávamos pela Avenida para saber como iam as coisas na cidade; para ver amigos; e ver as moças, que, ao virem ao centro, nunca deixavam de aparecer por lá. Cedo, bem cedo, nos anos 40, tivemos um mistério do além, fantasma causador de arrepios à mera narrativa dos que alegavam tê-lo visto. Era a “loira do Bonfim”, que atraía os homens com a sua extraordinária beleza, convidando-os à sua casa. Ao chegar ao portão do cemitério Nosso Senhor do Bonfim, ela dizia: “É aqui que eu moro”. Tornava-se etérea e desaparecia. Essa loira não era apenas belo-horizontina. Ela apareceu em outras cidades, com a mesma narrativa, o que a reduziu a mera lenda urbana, embora tivesse inspirado muitas reportagens na época. Mas era mesmo nosso o cientista que o país inteiro aclamou por ter descoberto um meio de fazer chover, acabando com o flagelo das longas estiagens. O professor Janot Pacheco ficou famoso com a sua fórmula pluviosa, que consistia em produzir nuvens carregadas com o emprego de gelo seco, lançado de aviões. Janot Pacheco foi glorificado no nordeste do país, onde conseguiu interromper a rotina das secas assoladoras na região e repetiu a sua genialidade no céu de Belo Horizonte, em 1953. A gratidão dos nordestinos a Janot Pacheco nunca teve limites. Em meados de 1951, o Diário de Pernambuco registrou o desembarque do cientista em Recife, escrevendo: “Procedente do Ceará, chegou a esta Capital o engenheiro Janot Pacheco, o já famoso ‘fazedor de chuvas’. Ele provocou, naquele Estado, ao todo sete chuvaradas, sendo que uma torrencial, com a duração de quatro horas”. Não se sabe a razão do fim do bombardeio do céu com gelo seco e do abandono do método de Janot Pacheco. Mas parece que os céus deixaram de ficar turvos e ameaçadores, como deveriam ficar, quando alvejados pelos petardos químicos do cientista. Quem não acreditasse no professor Janot Pacheco e quisesse se precaver contra secas, chuvas ou frio – quaisquer que fossem as variações dos elementos – podia recorrer às previsões da popular Folhinha Mariana, que, ainda hoje, indica aos agricultores quais as épocas ideais para obterem o melhor das suas terras. Dá conselhos também aos citadinos, dizendo-lhes, por exemplo, que a lua nova é a ocasião mais recomendável para cortarem o cabelo. Os conselhos são orientados pelo lunário perpétuo e nunca deixaram de ser seguidos pelos leitores desse respeitado calendário. É, porém, nas previsões do tempo, que cobrem semana por semana do ano, que a Mariana se consagra, usando

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pouquíssimas e – para os seus leitores – convincentes palavras e expressões, como tempo vário, brumoso, nuvens e água em abundância. A Folhinha é responsável pela escolha de nomes que muitas famílias adotaram, porque são dos santos que aparecem impressos ao lado de cada dia do ano. Foi por esse apego à liturgia que surgiu, no leste de Minas, a família Arceb da Cantuária. Mas a verdade é que o primeiro nome é apenas a abreviação de “arcebispo”. A palavra teve de ser abreviada, porque não havia espaço nas colunas da Folhinha. Faltou lugar até mesmo para o ponto que viria depois de Arceb. Isto não foi notado e o menino, que nasceu no dia de São Hugo, deu origem à distinta família Arceb da Cantuária, muito conhecida pelos lados de São Miguel y Almas de Guanhães. Depois de servir de consulta obrigatória para agricultores durante décadas, a Mariana perdeu prestígio com mudanças feitas na sua redação e, possivelmente, pelas bruscas variações do tempo, agora comuns. Dois personagens daqueles anos despertavam a atenção do país inteiro: o médium Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 1910-2002) e o milagreiro Zé Arigó (José Pedro de Freitas, 1922-1971), que, entre outras coisas, fazia operações de catarata com faca de cozinha. Chico nasceu em Pedro Leopoldo; e Zé Arigó em Congonhas. Os trabalhos psicográficos de Chico são extraordinários. Mais de 50 livros, escritos de ideias que ele recriava na leitura, segundo dizia, da mente de pessoas já mortas. E Zé Arigó – que, por exercer o seu saber paranormal da medicina, foi preso em 1962 e indultado pelo Presidente Kubitschek – atraía romarias de doentes a Congonhas, que confiavam no seu poder de cura. Diziam que ele reencarnava o espírito de um médico alemão, o Doutor Fritz. Nunca houve uma explicação para os dois fenômenos. Nos anos 40 e 50, no entanto, as grandes reverências científicas eram dirigidas à descoberta feita pelo Dr. Manoel de Abreu (1892-1962), médico paulista que revolucionou os métodos de observação das doenças do sistema respiratório, criando o processo de roentgenfotografia para o cadastro torácico. Esse processo ficou conhecido no mundo inteiro como abreugrafia – uma forma barata e eficaz de controlar a saúde dos pulmões da população. Em Belo Horizonte, e em outras cidades importantes do país, apareciam periodicamente furgões com o equipamento da abreugrafia, possibilitando a qualquer um o exame gratuito do tórax. O Dr. Manoel de Abreu transformou-se num herói da saúde pública e chegou a ser indicado para o Nobel de Medicina. (*) O inventor, de fato, da rede conhecida como w.w.w., o inglês Sir Tim Berners Lee, mostrou-se receoso dos rumos e do vulto que a internet tomou. Ele acha que as mudanças comportamentais provocadas pela descoberta são apenas o começo de uma transformação muito maior da sociedade. (**) A Alterosa foi modernizada no começo da década de 60, quando editada por Roberto Drummond. Mas, nesse momento muito promissor, as dificuldades que vinham de longa data forçaram o seu fechamento, em 1964. Depois da Alterosa, Roberto dedicou-se mais à literatura, embora escrevendo uma coluna diária de esportes.

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Os belos tipos faceiros

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ondes, que transitavam em todas as grandes cidades, são um capítulo especial da nossa história. Era o veículo mais popular e mais barato, mas, nos anos 50, já estavam condenados à extinção. Em Belo Horizonte, havia 15 linhas de destino final e a junção principal era a Praça Sete, então calçada com paralelepípedos, onde quase todos os bondes faziam uma volta, que chamávamos de circular, antes de iniciar a viagem para os bairros a que serviam. Na Afonso Pena, estavam os abrigos, cobertos e espaçosos, os pontos de chegada e partida para os diferentes destinos. Quem daquela época não se lembra? Ao longo de todas as horas, os bondes eram uma barafunda, indo do grave dos motores ao agudo desafinado do atrito das rodas com os trilhos, que os tornava polidos e reluzentes à luz do dia e nas noites enluaradas. Recorríamos aos trilhos para confirmar o princípio de geometria que aprendíamos na escola. E, se as linhas paralelas não se encontravam no infinito, é porque havia uma curva para comprometer a lição. Ao cair da tarde, o ruído se misturava à entonada sinfonia dos pardais pousados nos fícus da praça e da Afonso Pena. Em meados do ano, essa mixagem crescia no alvoroço das cigarras. Os bondes foram incorporados ao movimento da nova capital antes da sua festiva inauguração. A primeira linha, com locomotivas Baldwin impulsionadas a vapor, construída pela empresa Ramal Férreo Urbano, começou a operar no dia 7 de setembro de 1895. Essa linha ligava a estação ferroviária aos hotéis Romanelli e Lima, no que é hoje o velho centro de Belo Horizonte. Sete anos depois, também num 7 de setembro, Belo Horizonte passou a ser a quinta capital com bondes elétricos, trazidos pela General Electric. A empresa que os instalou, e a primeira a administrar esse serviço, foi a Ferro Carril de Bello Horizonte, dirigida por Eduardo Guinle, o representante da GE no Brasil. Mais tarde, veio a Companhia Força e Luz de Minas Gerais, uma subsidiária da GE. Os bondes mudaram de dono em 1912, passando para a Companhia de Eletricidade e Viação. E, em 1922, a Electric Bond & Share adquiriu não só os bondes, como também o serviço de ônibus. Só em 1959 a prefeitura assumiria totalmente a responsabilidade pelo transporte público, criando o Departamento de Bondes e Ônibus. Em setembro de 1902, a inauguração da primeira linha de bondes elétricos, que passava pela Rua da Bahia , foi programada para coincidir com a posse do chefe de governo do Estado, então chamado de presidente – presidente Francisco Salles. Nos anos 50, as linhas eram percorridas por 40 bondes: cinco fechados, que vieram à época da guerra; os outros, de tamanhos diferentes – o maior se apoiava em dois tru-

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ques. Os bondes fechados, confortáveis no inverno, abafados no verão, tinham assentos de palhinha. Nos bondes abertos, os assentos, para cinco passageiros, eram de ripas de madeira de lei, bem polida pelo seu uso. Senhoras ou senhoritas que subissem encontrariam sempre um cavalheiro para lhes dar o lugar. Muita gente viajava de pé, sem se incomodar com o desconforto. Nas laterais côncavas, emendadas ao teto de cada bonde, ficavam os anúncios em pequenos cartazes: Rum Creosotado; Antisardina (o segredo da beleza feminina); Pílulas de Vida do Dr. Ross (para a prisão de ventre, que é coisa atroz); Pomada Minâncora (para espinhas); Leite de Rosas; Aurisedina (para acabar com a dor de ouvido); Conhaque de Alcatrão de São João da Barra; Gelol (leniente para dores musculares, cuja propaganda se amparava na pergunta: “Olhou a boa e não viu o poste?”); Lavolho; Licor de Cacau; Phymatosan (acaba com a tosse e abre o apetite); Polvilho Antisséptico Granado; Guaraína (mata a dor e não ataca o coração); Melhoral (é melhor e não faz mal); Cera do dr. Lustosa (para dor de dente); Regulador Xavier (o remédio de confiança da mulher – número um, excesso; número dois, escassez); Hepacholan (a saúde do fígado)... a propaganda cobria todo o espaço comercial dos bondes. E era exposta também nas suas áreas externas. O condutor, que se encarregava de cobrar as passagens, tinha uma tarefa muito difícil, penosa mesmo, nas horas mais movimentadas. Ele se equilibrava no estribo, subia à altura do banco e esticava a mão para receber o dinheiro, dar o troco – quando necessário – e entregar a passagem, impressa em papel amarelo. Para cobrar, dizia apenas: “A passagem, façavor”. Os passageiros o entendiam e o ajudavam. Já o seu companheiro, o motorneiro, guiava de pé, com a obrigação de, vez por outra, repor a alavanca que transmitia a eletricidade para o motor do bonde. A alavanca, instalada sobre o teto de cada bonde, tinha no extremo uma roldana em contato com o cabo de eletricidade que, nos desvios, às vezes saía da sua posição. O bonde ficava às escuras e o motorneiro se esforçava para repô-la no lugar correto, como se fosse um atirador tentando o alvo. A tarefa era difícil e os passageiros mostravam impaciência. A maioria dos passageiros era muito honesta: quando um deles tinha de desembarcar antes da chegada do condutor, deixava o dinheiro com o vizinho ao lado para pagar a passagem. Que, com raras exceções, era honestamente paga. O passageiro puxava uma cordinha, que colgava de suportes metálicos das laterais do veículo, tocando uma sineta, indicando ao motorneiro que queria desembarcar no ponto seguinte. Puxava-se uma só vez essa cordinha, que retribuía o esforço com o som agudo “diiim”. O condutor liberava o bonde para mover-se de novo, puxando-a duas vezes. O uso da sineta inspirou os humoristas Alvarenga e Ranchinho, uma das duplas mais populares do país entre os anos 30 e 50, a comporem, de parceria com Herivelto Martins, a marchinha Seu Condutor, um sucesso do carnaval de 1938: . Seu condutor, dim, dim.

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Seu condutor, dim, dim. Para o bonde pra descer o meu amor. E o bonde da Lapa É cem réis de chapa. E o bonde Uruguai Duzentos que vai. E o bonde Tijuca Me deixa em sinuca. E o praça Tiradentes Não serve pra gente. (...) Em Belo Horizonte, o bonde levou o cantor e compositor Celso Garcia a criar um dos grandes sambas que a cidade conheceu nos anos 50: . Foi pra Santa Teresa que aquela beleza o bonde pegou. Foi pra Santa Teresa, com aquela beleza, eu juro que vou. Se a dona é boa e se dá bola pra mim, seja no Carlos Prates, Calafate ou Bonfim. se é de Lourdes, Renascença ou Santo André, vou correndo, sou maluco, vou correndo, vou a pé. Pois eu vou... O samba foi cantado no Rio, que possui também um bairro de Santa Teresa, servido por ma linha de bonde histórica, poupada das transformações do sistema de transportes da cidade, porque virou grande atração turística. Como as ruas de Belo Horizonte eram permeadas por postes de iluminação, os nossos bondes tinham uma barra de madeira no lado em que esses postes se achavam, a fim de evitar que os passageiros, viajando agarrados ao estribo, se colocassem na parte proibida, onde corriam o risco de acidentes. E a prancha do estribo era levantada, para dissuadir os imprudentes; mas, mesmo assim, houve muitos casos, alguns fatais, de passageiros que chocaram a cabeça contra os postes. Os bondes iam até a Pampulha, mas essa não era uma linha regular. A linha mais extensa, e a última a ser fechada, foi a do Padre Eustáquio, bairro que, antes de adotar o

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nome do milagroso sacerdote holandês, se chamava Progresso. Algumas linhas começaram a ser desativadas em 1952, substituídas pelos ônibus elétricos. Os quatro primeiros circularam em 51, importados dos Estados Unidos. Jorge de Freitas, ex-vereador e ex-diretor do órgão que controlou os transportes públicos a partir de janeiro de 1959, o Departamento de Bondes e Ônibus (DBO), e autor de O Bonde em Minas Gerais, observa um requinte que caracterizava esse serviço: o DBO colocava à disposição dos motorneiros e condutores, nas instalações que ficavam na Avenida Olegário Maciel, uma barbearia, pois ninguém podia trabalhar com o cabelo grande e a barba por fazer. Eles subiam aos bondes impecavelmente uniformizados, com paletó, gravata e boné. Os bondes de Belo Horizonte cumpriram sua missão esplendidamente, durante 60 anos. O último circulou no dia 30 de junho de 1963. No Rio de Janeiro, as linhas cobriam a cidade inteira, transportando centenas de milhares de passageiros. Em 1948, no Almanaque do jornal Correio da Manhã, a Light, empresa concessionária dos serviços, publicou um sugestivo e inteligente anúncio, que realçava a importância do bonde para os cariocas: “A volta ao mundo por Cr$ 1.333,00. (Tal seria o preço de uma viagem ao redor do mundo, se os bondes da Light não parassem em Cascadura...). Sete quilômetros por 30 centavos. 18 quilômetros por 60 centavos. O bonde, a condução coletiva mais barata do mundo, assegura todos os dias o transporte de 1.600.000 cariocas. E, apesar dos seis anos de guerra e das dificuldades de renovar o material, é mantida a conservação de 1.200 carros e de 467 quilômetros de linha”. Quatrocentos e sessenta e sete quilômetros de linhas! Fantástico, pelo menos nove vezes mais do que tínhamos em Belo Horizonte, cuja população era incomparavelmente menor que a do Rio. O Rio, aliás, foi a segunda cidade do mundo a adotar o bonde como meio de transporte público. Isto aconteceu em 1856! A primeira, onde o veículo nasceu puxado a cavalos, foi Nova York, quatro anos antes. Em São Paulo, o bonde começou a circular em 1871 e foi também, durante a sua existência, o transporte essencial para a população. A sua pintura alaranjada levou o povo a chamá-los de camarões. Os bondes e os ônibus nos ensinavam, em versos fáceis de decorar, que o “belo tipo faceiro, que tínhamos ao nosso lado, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado”. Mas seriam versos de Manuel Bastos Tigre, como se propalou? Em julho de 2000, no jornal O Estado de São Paulo, Millor Fernandes revelou que o filho do poeta, Álvaro Ferraz, negava que o pai fosse capaz de cometer um atentado à língua, escrevendo “e entretanto”, como ele afirma que se lê a certa altura da sextilha, o que não é verdade. O verso diz: “E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite...”. Mesmo não havendo atentado algum, a informação encontrada no livro “Bastos Tigre, Eclética Trajetória”, levou Millor a concluir que o verdadeiro autor tenha sido o poeta e teatrólogo Ernesto de Souza, que era, simplesmente, o dono do Rum Creosotado. Isso foi confirmado pela atriz

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e cronista Maria Lúcia Dahl, do Jornal do Brasil, neta dele. O verso é expressivo, fácil de decorar, e não se percebe atentado algum no “e entretanto”. Pena que nos registros conhecidos não haja referência ao mistério desse medicamento anunciado como salvador: quem o teria usado? Muitos produtos farmacêuticos populares tinham nomes de pessoas (alguns os mantêm ainda hoje). Além dos que apareciam no interior dos bondes e ônibus, havia o Grindélia de Oliveira Júnior, Senhora da Penha, Xarope São João, Elixir de Inhame Goulart, Colírio Moura Brasil, Leite de Magnésia de Philips, Magnésia de Orlando Rangel, Emulsão de Scott e Biotônico Fontoura, entre outros. O melhor do Biotônico era o almanaque, que nos fazia correr à farmácia mais próxima, todo janeiro, para implorar um exemplar. Havia outros almanaques muito disputados, como Capivarol, Bristol, Horas Marianas e Renascim Sarol, todos com um elevado sentido didático para as crianças. Não só na Praça Sete (até 1922, no centenário da independência nacional, chamavase Praça 12 de outubro), cujo pirulito foi um presente do povo de Capela Nova de Betim, havia frondosos fícus para embelezá-la. Eles estavam também em outras áreas da cidade, mas foram os da praça e de quase toda a Avenida Afonso Pena que mais marcaram as nossas lembranças. Esses fícus, plantados no começo do século passado, compuseram durante décadas uma das principais imagens da cidade. Não obedeciam à disciplina das estações do tempo e permaneciam frondosos o ano inteiro, favorecendo sombras e abrigando os pássaros. Os seus troncos de grande diâmetro, escurecidos pela poeira do asfalto, alinhavam-se na Avenida como pilastras harmoniosas e simétricas, que pareciam destinadas a durar eternamente. Não duraram porque, em nome das necessidades do trânsito, que já submergiam outros interesses, como os associados à estesia e à qualidade do ar, a Afonso Pena foi modificada na década de 60 para a abertura de novas

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pistas, o que levou ao sacrifício das belas árvores. Durante quase metade da sua existência, ou desde que foi inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897, a beleza do horizonte da cidade – até hoje não maculada pelo seu crescimento – requeria dois eles: Bello Horizonte. Parecia um capricho da gramática normativa, mas a capital ainda era franzina e a letra em dobro servia para frisar a suntuosidade do seu pôr-do-sol, o que aconteceu até à reforma ortográfica de 1943. O belo do horizonte nada perdeu com um ”l” só e continua resistindo à poluição dos dias de hoje; é um espetáculo de arrebóis e crepúsculos indescritíveis. Há mais a engalanar as nossas lembranças. A cidade nunca permitiu uma forma aferética para identificá-la, como o Rio de Janeiro, que pode ser apenas Rio. Belo Horizonte foi tratada durante longo tempo pelo seu nome completo, um cumprimento reverencioso à capital. Aliás, nunca nos ocorreu a curiosidade de saber o que havia além do horizonte que embeleza e alarga a nossa paisagem. São outros horizontes, diziam os meninos, mas não tão belos como o nosso. Vivíamos contentes com o que estava ao alcance da vista. O maranhense Aarão Reis, que traçou o plano original de Belo Horizonte, (muito parecido ao de La Plata, na Argentina, que, por sua vez, foi inspirado em Washington, a capital dos Estados Unidos), vislumbrou a beleza da futura capital nesta descrição sucinta e exata do que viu: “Apresenta em seus principais lineamentos topográficos a bela forma de um vasto anfiteatro aberto para o oriente, como para receber desde cedo os benéficos raios solares e, encostando-se ao sul, a serra do Curral que a protege contra os ventos frios e úmidos que nessa direção atravessam as serras de Ouro Branco e da Moeda”. Os registros da Secretaria da Cultura do Estado mostram que “a concepção urbanística de Aarão Reis era moderna e respeitava o aspecto da salubridade e visibilidade no projeto da cidade, a fim de atender aos anseios de uma sociedade baseada nos ideais da República que se instalara. A planta concebida por Aarão Reis e sua equipe tinha o setor urbano separado do suburbano pela Avenida do Contorno. Queria ele que a cidade, logo que tivesse o centro ocupado, fosse se expandindo para a periferia e que da periferia viessem todos ao comércio e ao lazer, na área central. Mas aconteceu justamente o contrário”. Uma pena, mas não há cidade planejada que tenha ficado dentro dos seus desígnios originais, como Goiânia, inaugurada em 1935, e Brasília, em 1960, também nos mostram. Por problemas de saúde, Aarão Reis não durou muito no cargo. Ficou de fevereiro de 1894 a maio de 1895, quando foi substituído por Francisco de Paula Bicalho, que fez modificações no projeto original, corrigindo, disseram à época, falhas que encontrou. Depois da inauguração de Belo Horizonte, Bicalho foi para o Rio, onde construiu a estrutura portuária da cidade e, ao morrer, virou nome de Avenida. Em Belo Horizonte, o seu nome é o de uma escola e de uma rua, no bairro Padre Eustáquio. Na cidade de São Paulo, há também uma rua Engenheiro Francisco Bicalho. Homenagens muito merecidas.

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Automóveis, lambretas, damas-da-noite

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as ruas e nas poucas estradas do Brasil, circulavam, no começo da década de 50, apenas 280 mil veículos motorizados (46.817 em Minas Gerais, 11.660 em Belo Horizonte), quase todos importados das fábricas norte-americanas. Os carros, nós os chamávamos de automóveis – automóveis Chevrolet, Pontiac, Ford, Buick, Dodge, Studebaker, Oldsmobile; nomes europeus raramente apareciam. Havia, sim, alguns Citroëns,da França; Austins, importados da Inglaterra; e um único e conhecido Jaguar, guiado pelo então estudante de engenharia Gil César Moreira de Abreu (um modelo 1948, que ele comprou na “feira de veículos” do Largo da Carioca, no Rio). Entre os carros americanos de luxo, o mais conhecido era o Cadillac do empresário Antônio Luciano, dono da maioria dos cinemas da cidade, do hotel e do banco Financial, dono de amplas terras, celebrizado como – diziam – sedutor de donzelas. Vez por outra, apareciam bem cuidadas, polidas e limpas as furrecas, que eram carros Ford da década de 20 ou 30. Carros mantidos com capricho por seus donos, que só vez por outra se arriscavam a trazê-los para o centro da cidade, apesar das ruas tranquilas e das estradas semidesertas. Na época, poucas pessoas tinham recursos para comprar um carro; a classe média constituía uma faixa mínima da população, no Brasil inteiro. Nos limites da área circundada pela Contorno, as Avenidas foram abertas com 35 metros de largura, à exceção da Afonso Pena, que tem 50. As ruas da zona urbana do planejamento original têm 20 metros e, as dos bairros periféricos, 14. Todas suficientemente espaçosas para comportarem um bom volume de tráfego; mas, por certo, não o deste começo de século. Sem surpreender a ninguém, as projeções foram rapidamente superadas. Em 1897, era mesmo difícil imaginar que a nova capital viesse a ter mais de 300 mil habitantes. Outro problema trazido pela rápida expansão de Belo Horizonte é o da disciplina urbana, que o progresso não pôde manter. Em fins dos anos 50, um veículo novo foi acrescido à movimentação das ruas e se tornou muito popular – a motocicleta pequena, leve e elegante, criada na Itália. Eram dois modelos, a Lambretta e a Vespa, vistos primeiro nos filmes passados na Europa, como “A Princesa e o Plebeu”, em que Gregory Peck coloca Audrey Hepburn na parte da frente do banco de uma Lambreta para ensiná-la a guiar pelas ruas de Roma. Os dois miniveículos chegaram rapidamente ao mundo inteiro, por serem baratos e darem um ar juvenil a quem os usasse. Ninguém distinguia a Lambretta da Vespa e quem as manejasse era chamado genericamente de lambreteiro, personagem que ficou comum na cidade. Todo adolescente sonhava em ter uma dessas motonetas.

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Belo Horizonte mesclava as suas ambições de se tornar um modelo de cidade de linhas urbanas harmoniosas com o jeito bucólico do interior – uma combinação nada difícil. E que ainda parecia destinada a permanecer contida nos limites que as áreas mais altas à sua volta impunham – os entornos da nossa cidade vistos de todas as partes. As casas residenciais ficavam tão perto do centro que, nas noites de verão, se sentia, pelas ruas que convergiam para a Praça Sete ou para a Afonso Pena, o perfume dos seus jardins frontais, exalado por manacás, magnólias e damas-danoite. Perfumes jamais esquecidos, perenizados pelo domínio da memória olfativa, pois, como dizia Winston Churchill, nada recorda o passado com tanta força quanto um cheiro. Ele repetia, assim, Edward Thomas, na sua poética referência aos tempos idos. Na amplidão desse domínio, sobressai, também, o cheiro de fritura nas ruas centrais da cidade daqueles tempos. O mais forte vinha da imensa panela com óleo fervente da pastelaria Campeão, à rua dos Carijós, quase esquina com a Praça Sete. É um cheiro ainda presente em muitas partes da cidade, mas que, na época, parecia exclusivo da área onde ficavam os pontos dos bondes Calafate, Gameleira, Carlos Prates e Padre Eustáquio. Do lado de fora, era uma constante curiosidade ver a fritura extremamente rápida dos pastéis. O óleo fervia borbulhoso, dourando em questão de segundos a massa muito gostosa, com quantidades exíguas do recheio, que variava entre carne moída, com lascas de batata, temperada com cebola e salsinha; queijo e palmito. Em certos horários, havia também o pastel de banana, sobre o qual era jogado açúcar cristal com canela em pó. À frente do quarteirão da pastelaria víamos, como nos dias de hoje, o muro pintado de cinza protegendo o imenso terreno do Banco Hipotecário e Agrícola, que parecia ocultar mistérios; mas, na verdade, ocultava um jardim, quase só desfrutado pelos funcionários da casa. Era naquelas imediações que os pastéis da Campeão nos apeteciam

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com a sua fritura. Mas isto desaparecia à altura da São Paulo com Amazonas, onde a Perfumaria Lourdes enriquecia o ar que respirávamos com variadas fragrâncias, sentidas muito além dos seus balcões atendidos por moças bonitas. A perfumaria não existe mais naquele local, sepultando nessa ausência um festejado capítulo da história da cidade, do qual resta a lembrança dos seus eflúvios. Belo Horizonte, com pouco mais de meio século de existência! O caminhar podia ser lento, por uma questão apenas de estilo. A pachorra parecia dar uma forma um tanto sedentária às nossas vidas, mas a rotina continha muita disciplina para garantir o progresso da cidade. É verdade, o tempo passava mais devagar, não havia tanta coisa para fazer, como nos dias atuais. E nós nos entregávamos ao lazer modesto que enriquecia os nossos sonhos. Vivíamos sob a custódia desses sonhos. Às quintas-feiras, a fonte colorida da Praça Raul Soares se iluminava e os jovens namoravam à sua volta. A Praça da Liberdade, cercada pela austera arquitetura de inspiração francesa dos edifícios do palácio do governador e das secretarias do Estado, oferecia retretas semanais no seu coreto com uma das bandas da Polícia Militar. Havia retretas em outras praças também, com tubas, bombardinos, clarinetas, cornetas e tambores, numa alegria que dava um aprazível sentido de vida de cidade do interior àquelas noites inesquecíveis. No Parque Municipal, o coreto sempre foi um marco respeitável, também usado para retretas. O coreto é histórico, porque foi nele que um grupo de adolescentes fundou o Clube Atlético Mineiro, em 1908. Mas, com o tempo e o crescimento da cidade, esse passado acabou reduzido à lembrança de poucos. O mais enlaçador esforço para recuperá-lo, no fim dos anos 60, veio da iniciativa de Édison Zenóbio, Mário Pataro, Roberto Drummond, Hamilton Gangana, Rubens Silveira e Armando Ziller Júnior, que criaram o Clube dos Amigos do Coreto (CAC), de vida curta, mas de duradoura lembrança. Na Afonso Pena, alguns fotógrafos faziam ‘flagrantes’ das pessoas que consideravam capazes de pagar pela foto instantânea, revelada e copiada rapidamente num laboratório das proximidades. Um papel impresso, com o endereço do laboratório e o número da foto, era imediatamente entregue ao possível interessado, a fim de que ele fosse buscá-la, pagando, em média, cinco cruzeiros. João Czenger era o dono do negócio, mas ia também fotografar nas ruas. O mais conhecido desses fotógrafos, porém, chamava-se Zenóbio José Leal e fazia ponto nas imediações da igreja de São José. Guardo uma foto dele, de fins da década de 50, na qual estamos juntos Fortunato Pinto Júnior, meu inesquecível mestre de jornalismo, e Mário Pataro. Na pressa da operação no laboratório, o negativo foi colocado do lado contrário e as placas do comércio vistas ao fundo estão escritas de trás para diante... O outro fotógrafo característico da cidade – como, aliás, de toda parte do país – era o lambe-lambe (*) com a sua caixa pesada, sustentada por um tripé, na qual, habilmente, fazia tudo tudo em questão de minutos: fotografava, revelava e copiava, enquanto o cliente esperava. Esse estúdio-laboratório era completado por um balde

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de água, necessário para a lavagem das fotos, depois de passadas pelo fixador. O Parque Municipal, a Praça Ruy Barbosa e a Praça da Liberdade eram os locais que eles preferiam. O lambe-lambe é um personagem do passado, ainda presente nas praças de algumas cidades brasileiras, inclusive no nosso Parque Municipal. A restauração da democracia transformou a Praça Ruy Barbosa, defronte ao que era a estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, em arena preferida para os grandes comícios políticos. Aliás, era mais conhecida como a praça da estação, que deveria ser tratada no plural, pois, além da EFCB, havia ali a estação da Rede Mineira de Viação. Só que, de carro, a da Rede não podia ser alcançada pela praça; era necessário contorná-la, indo por um dos dois únicos viadutos que a cidade possuía, o de Santa Teresa. Havia, sim, uma passagem subterrânea para pedestres, toda revestida de azulejos azuis, ligando as duas estações, mas acabou abandonada, por ter sido improvisada em fétido mictório. Recuperado muitos anos depois, o local é hoje o Museu de Artes e Ofícios. Outro ponto, muito usado para os comícios que atraíssem uma plateia modesta, ficava na confluência da rua Tupinambás com Avenida Amazonas, a chamada esquina da sinuca. A reabertura das instituições democráticas, como a Assembleia Legislativa, trouxe algum incentivo para o mercado de trabalho. Um dos empregos mais cobiçados na Assembleia – que ficava na antiga Casa d’Italia, na rua dos Tamoios, quase esquina com Rio de Janeiro – era o de taquígrafo. Os candidatos tinham de passar por um rigoroso concurso. Todos se preparavam nas escolas especializadas, que funcionavam no centro da cidade. E os jornalistas que sabiam taquigrafia (eram pouquíssimos) levavam uma grande vantagem sobre os colegas. Os gravadores de fita, que substituíram as anotações, só começaram a ser amplamente usados em meados da década de 60.

(*) Há pelo menos duas explicações para a origem do nome lambe-lambe. A mais aceitável o associa ao processo da ferrotipia. O fotógrafo lambia a chapa de ferro, que tinha uma camada de asfalto, e com isto a imagem se destacava do fundo preto, pela ação do cloreto de sódio da saliva. No seu ensaio O Fotógrafo Ambulante – a história da fotografia nas praças de São Paulo, Boris Kossoy explica também que lambe-lambe surgiu da lambida que o fotógrafo dava na placa de vidro para saber qual era o lado da emulsão.

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Da Martinica à Praça Sete

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s esporádicas manifestações de universalidade em Belo Horizonte não tiravam o toque singelo no dia-a-dia das nossas vidas; no apreço à forma modesta das diversões; e no estilo de vida que levávamos. E mantínhamos, sem dúvida, uma paixão idólatra pela cidade. Em 1960, o filósofo francês Jean-Paul Sartre passou por Belo Horizonte, a caminho de Ouro Preto, com a sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir. O casal era famosíssimo e a intelectualidade discutia as teses que Sartre pregava. Os dois tinham como cicerones Jorge Amado e sua mulher Zélia Gattai. Eu estava no mesmo avião em que eles embarcaram no Rio e acompanhei, sentado bem próximo de Sartre e Amado, o interesse do filósofo em aprender português. Lembro-me de uma pergunta que ele fez a Amado, depois de ver a palavra na manchete de um jornal: — O que é sumiu? Sartre, que professava o existencialismo e o relativismo moral, gerou fama e muita polêmica. Mas poucos pareciam interessados nos dois temas – os nossos conceitos eram os tradicionais e o Brasil ainda não havia abraçado, na prática infame, o seu próprio relativismo moral, que desgasta governos e as instituições democráticas. E quanto ao existencialismo, o que melhor sabíamos estava nos versos da marchinha carnavalesca Chiquita Bacana, de 1949, composta por João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, gravada por Emilinha Borba: . Chiquita bacana Lá da Martinica... se veste com uma casca de banana nanica (...). Não usa vestido, não usa calção, inverno pra ela é pleno verão. Existencialista, com toda razão, só faz o que manda o seu coração (...).

Além do existencialismo e do debate filosófico inspirado por Sartre, uma menina francesa que acabava de sair da adolescência, Françoise Sagan, balançou o mundo em 1954, sobretudo o mundo dos jovens, escrevendo um livro de sucesso imediato: Bonjour 33


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Tristesse. Françoise tinha apenas 18 anos. Escreveu outros livros, levou uma vida de controvérsias, com amantes dos dois sexos. Morreu em 2004, sem que os jovens da época atinassem para a importância que ela teve, quarenta anos antes. No ano em que Chiquita Bacana foi cantada nos salões carnavalescos, e pelo menos nas três décadas seguintes, o centro comercial e social de Belo Horizonte ficava na Praça Sete com a Afonso Pena e ruas confluentes. Encontros, namoricos, sonhos de conquistas impossíveis, bate-papos – tudo isto acontecia diariamente lá, com disciplina ritualística. E como era bom sonhar, depois de ver as meninas do Instituto de Educação (que, até 1946, se chamava Escola Normal) passarem pela Avenida, ao findar das aulas às 5h30 da tarde! Já para os encontros mais formais, muitos preferiam a esquina da Livraria e Papelaria Rex, também ali na Praça. Outros pontos para encontros marcados eram a Livraria Oscar Nicolai, a Laranjada Americana, os cafés Pérola e Nice, a Sapataria Bristol, Casa Sloper, Sapataria Clark, Livraria Oliveira Costa, Chapelaria Londres, O Grande Camiseiro, Ao Bem Vestir, A Dora Modas (ainda existente) e a Galeria Futurista (que criou com grande sucesso ‘o artigo da semana’). A chamada esquina dos aflitos, na Afonso Pena com Carijós, tinha passado a ser o mais frequentado ponto de encontro da cidade. Os aflitos de então encontravam ali um agiota sempre pronto a emprestar dinheiro a juros extorsivos. A esquina continua sendo um ponto de encontro, mas, me disseram, sem o domínio das aflições exploradas por agiotas. Havia, também na Afonso Pena, uma loja de nome único no comércio, cuja vitrine mantinha a discrição necessária aos produtos que vendia. Era A Cinta Moderna, porque muitas mulheres usavam cintas elásticas para comprimir os excessos do corpo e manter as suas linhas atraentes. Especializada em roupas íntimas para a mulher, a loja expunha os seus produtos sem jamais mostrá-los de forma que pudessem comprometer a seriedade do negócio. Há 50 anos, manter as linhas atraentes não significava a magreza que é exaltada nos dias de hoje como elegância. As elegantes da época tinham várias opções para fazer suas compras. Uma das mais conhecidas chamava-se A Sibéria, loja que ficava no edifício Acaiaca, na parte voltada para a rua Espírito Santo. Um nome curioso, que ajudava a compor o interesse de empresários pelos pontos extremos do planeta, pois, numa simplificação da geografia, A Sibéria ficava a apenas 200 metros do Polo Norte, bar histórico, também na Afonso Pena; e a uma distância semelhante de outro bar de nome incomum, o Pinguim, na Espírito Santo, que vendia os produtos da Antarctica, a fábrica de cerveja localizada na Avenida Oiapoque. Uma novidade, que encheu a cidade de orgulho, foi a construção do hotel que, durante anos, ocupou o lugar de melhor que tínhamos, o Normandy. Por ser moderno, o Normandy tomou a liderança do Grande Hotel, o mais importante da nossa história, demolido na década de 60 para dar lugar ao edifício Maletta. Apesar do luxo, o cardápio do restaurante do Normandy incluía, aos sábados, uma concorridíssima feijoada. O Mercado Central já era uma atração especial, mas, como ainda não tinha a cobertura de hoje, frequentá-lo nos dias de chuva trazia algum desconforto. A riqueza na

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oferta variada de produtos do Mercado o tornava único, incomparável. Boêmios costumavam terminar uma noitada ali, já com o dia a raiar, comendo abacaxi no espeto, eficiente solução para acabar com excessos de álcool no corpo e na cabeça. Os lautos tira-gostos dos bares do Mercado Central constituíam, como hoje, um grande prazer para os seus consumidores. Que maravilhosos acepipes! Rodelas de chouriço fritas na chapa; bifes de fígado acebolados e limpos de nervos; linguiça de porco; carne de boi (a picanha ainda não era tão usada ou conhecida por esse nome); lombinho; pastéis; bolinhos de feijão... o Mercado sempre atraiu uma esplêndida freguesia, cujo apetite era aberto pela cachaça, que, lá, era mesmo da mais honesta procedência, como diziam os rótulos de desenhos singelos, com suas cores berrantes. Tornando-se cada vez mais adulta, Belo Horizonte seguia os passos do Rio e de São Paulo em tudo. Já eram passos bem largos. A indústria se firmava, o comércio se aprimorava e os crediários estavam se tornando comuns. A loja de departamentos mais conhecida foi, durante longos anos, a Guanabara, na Afonso Pena, esquina com Espírito Santo. Outros estabelecimentos disputavam essa popularidade, como a Mesbla, as Lojas Americanas e, um pouco depois, a Ingleza Levy, além das sempre presentes Casas Pernambucanas. Na década de 60, veio uma grande cadeia de lojas do Rio: a Ducal (nome derivado do fato de cada terno vendido vir com duas calças). À mesma época, chegou também a Bemoreira. E depois surgiu a Pep’s, na Rua da Bahia , que logo ganhou popularidade, mas não durou muito. O dono da Guanabara, Carlos Vaz de Carvalho, fez-se admirado como um grande amigo das artes. Ele criou a Cultura Artística, que durante muitos anos foi uma das grandes referências da vida da cidade. A Guanabara promovia o fim dos seus estoques através de liquidações, com a retumbância dos anúncios no rádio e nos jornais. Claro, não havia sale, off, delivery, essa estranha e lamentável intromissão inglesa no vocabulário do comércio dos dias de hoje. E, nas repartições, a tarefa mais humilde era entregue a contínuos, não a office-boys, outro desprezo ridículo do vocabulário da língua portuguesa, hoje já assimilado por dicionaristas, que, sem pejo algum, incorporaram estas e muitas outras palavras inglesas ao nosso idioma, na sua grafia original. Apesar disso, já se usava comumente uma palavra de origem árabe, que nos chegou através dos idiomas francês e inglês como sinônimo de lojas de departamentos e revistas: as duas coisas eram conhecidas como magazines, definição ainda adotada na Europa e no Brasil. O absurdo está no emprego de palavras cujo significado existe em português, portanto sem necessidade alguma do seu uso em inglês, ou em francês... Não são como o football, jogo inglês que não existia no Brasil até 1894 (*), e que foi muito bem aportuguesado, virando futebol, assim como todas as outras palavras que o definem. Ou basketball, que virou basquete, e volleyball, que virou vôlei. Ou algumas expressões da informática, ainda sem uma tradução adequada no Brasil. Acompanhando a linha inovadora da Guanabara, o comércio da cidade tomou grandes iniciativas. O mais notável exemplo foi dado por Modesto Araújo, que, em 1909,

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fundou a Drogaria Araújo. O avanço inédito, 54 anos depois, veio com a criação do Drogatel Araújo, o serviço de entrega de remédios em domicílio, com os pedidos feitos por telefone. Esse conforto se transformou numa das características da cidade, hoje salpicada de drogarias com o nome Araújo. Em 1963, quando as entregas começaram, os empregados usavam bicicletas para levar os remédios de casa em casa. O sistema viria a ser adotado por muitas outras farmácias e drogarias em todo o país. Na Belo Horizonte dos anos 50, os acontecimentos pareciam menos dramáticos, mantendo-se na proporção do tamanho da cidade. Todos dormiam mais cedo, os boêmios eram sempre os mesmos, assim como bares, restaurantes e os seus garçons. E, como éramos adolescentes, o universo nos pertencia, embora seja difícil saber se o explorávamos bem. Nas suas reflexões de adulto amadurecido, George Bernard Shaw sentenciou que “a juventude é boa demais para ser desperdiçada com os jovens”. Pablo Picasso parece ter tentado ampliar esse pensamento, ao dizer, talvez tomando como exemplo a si mesmo, que “começamos a nos sentir jovens aos 60 anos, mas aí já é tarde”... E Nelson Rodrigues aconselhou, certa vez, os jovens a envelhecerem, pois, dizia, “os jovens têm os mesmos defeitos dos velhos, com uma agravante – a imaturidade”. Nós, sem dúvida, vivíamos a nossa juventude no formato que os conceitos e a cidade permitiam.

(*) No Times londrino, o cronista Rob Hughes escreveu que “um inglês levou a primeira bola de futebol para o Brasil. O problema é que os brasileiros jamais a devolveram...”.

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A Belle Époque na Avenida

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oêmios e intelectuais da cidade tinham no bar e restaurante Polo Norte, na Afonso Pena, ao lado do hotel Financial, um santuário. Esse Polo, onde o gelo só existia para esfriar as bebidas, fixou-se na história por ser um bar diferente, discreto, acolhedor e bem central. O jornalista Rodolfo Rocha, um dos frequentadores da casa, descreve, com a intimidade de uma longa convivência, como era o Polo Norte: “Wilson Fraiha, um tremendo boa-praça, era o dono da casa; mas, em 51, ele a vendeu para Ademar Silveira, gente também muito fina. O Polo Norte tinha um corredor comprido, com espelhos nas paredes e mesas dos dois lados, que ia dar num salão com mais algumas mesas e quatro ou cinco reservados. A iluminação fosforescente empalidecia ainda mais a face dos seus fregueses, pouco habituados à luz do dia. Era um bar e restaurante absolutamente igual a outros que existiam na época. Seu cardápio constava de uma lista repetitiva de filé com fritas, filé com ovos, filé com legumes, com a infalível guarnição de arroz e farofa. Para beber, cerveja, cachaça e refrigerantes. A cachaça era servida pura, ou com vermute, o que a tornava uma mistura avermelhada doce; ou com fernet, com coloração escura e gosto amargo. Os refrigerantes eram guaraná, coca-cola, água tônica e mineral. Duas misturas eram populares: coca-cola com rum e gelo, servida em copo grande e alto, chamada de Cuba Libre; quando se trocava o rum pela cachaça, era o Samba em Berlim. Bebia-se, também, gim-tônica. Ninguém bebia uísque ou vinho; e vodca ainda era desconhecida no Brasil”. A roda era heterogênea, mas não comportava ergófobos. Todos ali trabalhavam e davam duro, a partir do período da tarde, para garantir o direito de desfrutarem algumas horas de bom convívio à noite. Rodolfo Rocha diz também que, por não fechar nunca, o Polo Norte tornou-se o preferido dos jornalistas que trabalhavam à noite. Alguns eram assíduos, como Guálter Maciel, Milton Amado, José Morais, Marcelo Coimbra Tavares, Cypião Martins Pereira Gontijo, Valdir Lau, Milton Fernandes, José Inácio, José Sílvio de Carvalho, Orlando Cavalcanti, José Nicolau, Júlio Melo e tantos outros. Havia, também, o pessoal do rádio, representado por Miranda Júnior, Ibrahim Houri, com seu irmão Nagib, e Rômulo Paes, quase sempre com Henrique de Almeida, representante da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem) em Minas, e parceiro de Wilson Batista em Louco (Ela é o seu Mundo) samba-canção gravado primeiro por Orlando Silva, na Odeon, em 1943. Artistas, como Alberto da Veiga Guignard e João Ceschiatti, faziam parte da confraria do Polo Norte. E havia a figura singular de Walter Ribeiro de Andrade, rapaz educado

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e elegante, vestindo sempre ternos bem cortados e caros, que gostava de conversar com os jornalistas, defendendo as suas ideias comunistas. Citava Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Friedrich Engels e Karl Marx com a desenvoltura de ex-aluno da Faculdade de Filosofia. Durante o dia, ele era o Waltinho Gororoba, um poderoso banqueiro do jogo do bicho. O mais estranho dos fregueses do Polo Norte era o poeta José Bahia de Vasconcelos. Embora Bahia, como o chamavam, não fosse assíduo, quando aparecia batia recordes de permanência. Nunca ficava menos de três dias, concentrado num dos reservados, bebendo, fumando e escrevendo intermináveis poemas. Só deixava o reservado para ir ao banheiro. Sempre calado, não falava com ninguém e ninguém falava com ele, à exceção de Milton Amado, seu amigo. Quando, num simples gesto, os dois davam a entender que tinham de se comunicar o veículo era o verso. Milton iniciava esse diálogo poético: . Bahia de todos os santos, Bahia de Pitangui, Procuro-te por todos os cantos, Mas só te encontro aqui. A resposta de Bahia era imediata: . Traduzindo O Corvo, poema De beleza rara e extrema, Tão feliz o Milton foi, que chego a pensar pasmado, que o nosso Milton Amado é o próprio Corvo de Poe (*). Era assim o Polo Norte, sempre cheio por volta da meia-noite. Algumas mulheres de rosto alabastrino já chegavam acompanhadas; outras, à procura de companhia, circulavam entre as mesas. Guignard, o pintor, cavalheiro à moda européia, beijava a mão de todas. O modesto bar, cujos fregueses eram a sua maior atração, brilhava todas as noites, tal qual um salão da belle époque. Como tradutor do clássico O Corvo, Milton Amado entrou para um grupo seleto, que contava nada menos do que com Machado de Assis (1839-1908) e Fernando Pessoa (1888-1935). Mas a sua tradução, feita em 1943, é reconhecida, por muitos grandes críticos, a melhor de todas. Milton não viveu o bastante para ouvir os elogios que fizeram à sua notável interpretação do original, como se pode ver neste trecho: “Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary, Over many a quaint and curious volume of forgotten lore, While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,

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As of someone gently rapping, rapping at my chamber door. “‘Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door; Only this, and nothing more”. Ah, distinctly I remember, it was in the bleak December, And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor. Eagerly I wished the morrow; vainly I had sought to borrow From my books surcease of sorrow, sorrow for the lost Lenore. For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore, Nameless here forevermore (...)”. “Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria, a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais, e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído. Ah!, claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro, tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar. “É alguém” – fiquei a murmurar – “que bate à porta, devagar; sim, é só isso e nada mais”. E o fogo agônico animava o chão de sombras fantasmais. Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora. Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora, e nome aqui já não tem mais”. Colado ao Polo Norte, ficava o Simões, que também era um bar da noite. No outro lado da Avenida, o Cinédia, junto ao Cine Avenida, muito amplo, que servia um excelente pastel. Um ponto de jornalistas, entre os quais Plínio Barreto, Múcio Bonifácio Costa, Waldir Lau, Hégler Brant Aleixo, Fortunato Pinto Júnior e Edson Pinheiro. Entre os fregueses da Gruta Metrópole, histórico bar da Rua da Bahia , um dos mais lembrados é Orlando Cavalcanti, poeta conhecido não só pela verve, mas também pela elegância no vestir – ternos de fina casimira, camisas de seda, gravatas-borboleta. Irreverente, divertido, dele há o episódio literário-escatológico, lembrado pelo médico, professor de medicina e escritor Carlos Alberto de Barros Santos. Ao entrar na privada da Gruta Metrópole, Orlando ficou estarrecido com o aviso que o Jefferson, o dono do bar, colocou na parede: Favor não deffecar fora da latrina. Abraços, Jefferson. Lendo deffecar com dois efes, o poeta reagiu com grande irritação: . É bem letrado o mequetrefe, autor desta maravilha. Quem defeca com dois efes... limpa o cu com c cedilha.

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A cidade sempre teve muito espaço para os poetas, alguns mais discretos na divulgação da sua obra, como Austen Amaro, autor de Imaginária Hélade, e Antero de Alencar. E um grande trovador, Oswaldo Soares da Cunha, cuja quadra mais conhecida é repetida em toda parte: . Amigos são todos eles como aves de arribação. Se faz bom tempo eles vêm, se faz mau tempo eles vão. Um bardo popular era o Gentil Tomaz Tinano. Amigo dos jornalistas, ele visitava todas as redações e combinava a poesia com a venda de bilhetes de loteria para garantir o seu sustento. Tinano declamava os versos que escrevia para quem tivesse a paciência de ouvi-los e se tornava mais eloquente na sua obra-prima, A Moça da Padaria. O cartunista Borjalo (Mauro Borja Lopes), que trabalhou primeiro na Folha de Minas e no Diário de Minas antes de se mudar para o Rio, onde foi da Manchete e depois diretor da TV Globo, ficava em dúvida e insistia em perguntar ao poeta se a paixão dele era a moça da padaria ou a padaria da moça, de beleza também aclamada no poema... Voltando-se para as proximidades do Polo Norte, na mesma Afonso Pena, estava a Galeria Odeon, que introduziu, com enorme sucesso, duas novidades: a fruta triturada em liquidificador, logo batizada de vitamina; e o sanduíche misto-quente, feito de pão de forma, presunto, queijo e manteiga. O pão saía da tostadeira bronzeado pela manteiga, o queijo se derretia criando linhas que balançavam como os fios que movimentam uma marionete. A combinação de manteiga e queijo no calor da torradeira era aromática. O sanduíche tinha a sustância de uma refeição, mas o seu preço era alto: cinco cruzeiros. O pão de forma, cortado em fatias, ainda era uma novidade em Belo Horizonte, embora a sua invenção date de 1928, nos Estados Unidos. Muitos europeus a consideram uma das grandes invenções o século passado, mas entre nós nunca teve o mesmo sucesso. Mais adiante, na Avenida Afonso Pena, para os lados da Feira de Amostras, local da primeira sede da Rádio Inconfidência, ficava o Rei do Sanduíche. Ali, com pouco dinheiro, matava-se a fome num fim de noite, bebendo um chope inesquecível, atendido, não raro, pelo Márcio Braga, sempre generoso nas porções. Duas portas corrediças de aço, um balcão frigorífico no primeiro plano e, logo atrás, uma prateleira repleta de garrafas dos conhaques Palhinha, Castelo, Alcatrão de São João da Barra; cachaças Reis, Januária, Crioulinha e vinhos nacionais, que eram mais de adorno do que de consumo. Os sanduíches, muito fartos, variavam: de pernil, presunto e queijo, ou só queijo; e custavam 3,50 cruzeiros. Além de sanduíches, comia-se um excelente talharim com molho à bolonhesa, sentado em uma das 45 mesas do salão, cobertas com toalhas de xadrez vermelho. Os tira-gostos também eram populares: moelas e línguas de boi, que, de tão cozidas, quase se desmanchavam, enriqueciam o cardápio visual.

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O concorrente mais próximo desse reinado de noctívagos estava a pouca distância, na rua Tupinambás, defronte ao Hotel Santa Teresa – o bar e café Palhares. Aberto as 24 horas do dia, respeitando apenas um feriado, a Sexta-Feira da Paixão, o Palhares criou com sucesso o caol (cachaça, arroz, ovo e linguiça), ainda hoje muito popular. O nome, ou, na verdade, sigla, associava o prato a um produto de limpeza e polimento, chamado Kaol, mas naturalmente só encontrado nos armazéns. O ovo do caol, fritado com esmero, não tinha beiradas secas e a gema coberta por uma tênue camada branca abria-se com um leve toque do garfo, espalhando-se sobre o arroz, muito solto, e a linguiça, cortada em pedaços. Essa mistura coloria o prato, aguçava o apetite. Amigos do Minervino, o gerente noturno da casa, viam-se privilegiados na quantidade de arroz e linguiça (ovo era um só), antecedida por uma boa dose de cachaça, ao preço de 3,50 cruzeiros. E era muito popular também o pão molhado. Pão com molho apimentado de tomate, cebola e alho, retirado de uma tigela de aço inoxidável, na qual ficavam afogados os tira-gostos. O pão molhado era entregue enrolado num guardanapo de papel para evitar o inevitável – que algumas gotas salpicassem a roupa do seu consumidor, na sofreguidão da fome. Em frente à Feira de Amostras havia o “angu do Jesuíno”, uma delícia que ele próprio cozinhava num carrinho, à vista dos fregueses, cuja disposição para consumi-lo era incrementada pela cachaça bebida, como um ritual, no Bar do Adão, logo adiante, na esquina da rua Curitiba. O segredo do angu do Jesuíno, com molho de tomate, cebola e pimenta, cuja porção custava um cruzeiro, estava à vista de todos, mas ninguém jamais o captou. E depois que ele se mudou para um local formal, na Bahia com Carijós, até mesmo com garçom que usava gravata borboleta, o angu perdeu o gosto que tinha – o restaurante faliu! Na Afonso Pena, ficava também o Abissínio, com uma porta só, e que se estendia como um longo corredor, que o ligava ao Cinelândia, na rua Carijós, ponto boêmio, que jamais fechava. Na Lagoinha, o curioso Bar do Coelho só abria de madrugada, servindo bebidas e tira-gostos para os que haviam terminado a noitada em um dos cabarés ou nos hotéis da zona boêmia. O bar foi frequentado por grandes nomes da música popular, como Sílvio Caldas e Cyro Monteiro – todos pastoreados pelo Rômulo Paes. José Bento Teixeira de Salles lembra-se do prato principal do Coelho, conhecido como demócrata, porque “era uma mistura de tudo – arroz, feijão, ovo, batata e o que mais tivesse sobrado”. Nas lembranças de Plínio Bossi Barreto, outro frequentador do bar, o prato mais apreciado era o feijão tropeiro, mas havia também uma deliciosa sopa de cebola. Um bar pouco lembrado, conhecido pelos que apreciavam música, chamava-se Colúmbia, na Avenida Paraná esquina com Carijós. No Colúmbia, todas as noites, Oswaldo Pinheiro, um virtuoso do violão elétrico, e que era cego, recebia aplausos de uma plateia quase sempre pequena pelo que tocava de um palanque laqueado de verde claro, sobre um canto do salão. Em 1950, o bolero Jamais te esquecerei, de Antônio Rago,

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lançado em outubro de 47, foi o seu maior sucesso. O bolero ganhou depois letra – e em espanhol! – gravado pelo Ruy Rey, com tradução literal: Jamás te Olvidaré. O Colúmbia tinha o privilégio de ser um dos bares favoritos do mais elegante boêmio da cidade, o Doca (Deolindo de Oliveira). Doca, descrito como boêmio ubíquo, por ser visto em todos os principais bares da cidade, vestia-se impecavelmente de linho branco, todos os dias do ano. Louro, de olhos claros, pai de família, ele mais parecia um nobre sobrevivente de algum império extinto e que fez de Belo Horizonte a sua cidade. Tão elegante e cuidadoso no vestir que, não raro, tirava do bolso um lenço de cambraia para cobrir a cadeira do bar, se desconfiasse que ela não estivesse suficientemente limpa e pudesse comprometer a sua elegância. Ele o desdobrava num gesto rápido, preciso, que parecia bem ensaiado. Perto do Colúmbia, na Avenida Paraná, ficava o restaurante Rosário, muito popular entre radialistas, jornalistas e mulheres da noite. A especialidade da casa era a comida italiana, deliciosa, em especial o filé à parmegiana com arroz branco. Durante o dia, e até 10 da noite, o sanduíche de pernil da padaria Boschi, na esquina de Rio de Janeiro com Tamoios, provocava os maiores louvores à carne de porco bem temperada, com as suas fatias espremidas num pão quente, recém-saído do forno. Mas custava 4,50 cruzeiros! A Boschi manteve por muitos anos o prestígio de ser a melhor padaria da cidade. Formavam-se filas para comprar o pão, saído do forno à vista dos fregueses. O pão da Boschi, como o de todas as outras padarias de italianos, ou seus descendentes, era de sabor riquíssimo. Em diferentes horários, quente e crocante, havia a panhoca, de formato arredondado, cuja massa sovada, bem clara e consistente, era usada também para pães menores. Na rua Espírito Santo, eram vizinhos o Tip-Top, que ficava no quarteirão entre Afonso Pena e Carijós; o Pinguim; o Califórnia e, descendo um pouco mais, o restaurante Piccadilly. No primeiro, a tchecoslovaca Dona Paula, a proprietária, encarregava-se pessoalmente da salada de batata com salsicha, o prato forte da casa. No corte disciplinado da batata em rodelas pouco espessas, no tempero com maionese, cebola, salsinha e pimenta-do-reino, a salada, reforçada pela mostarda tipo Dijon, requeria o acompanhamento de chope, sempre muito bem tirado. A rua Espírito Santo abrigou também a última sede do Toniolo, restaurante especializado em massas e que já havia tido outros endereços. O Pinguim disputava a clientela com o Tip-Top, mas se fez mais conhecido pelo chope; e o Piccadilly oferecia aos seus frequentadores o que os demais bares (com exceção do Colúmbia, que não era bem um concorrente) não tinham: música ao vivo. Além disso, o Piccadilly mantinha uma boa parte da sua área para o que era muito comum à época – os reservados. As pequenas áreas cercadas com paredes de madeira compensada e a frente coberta por uma cortina de tecido geralmente estampado, onde casais comiam ou bebiam no sossego que assegurava intimidades imperturbáveis, sempre com a cumplicidade do garçom. Quando o garçom tinha de servi-los, aproximava-se fazendo barulho com os pés, ou fingindo limpar a garganta, para alertá-los da sua chegada... Para chamá-lo, bastava apertar um botão.

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Reservados muito disputados havia também no Lanterna Azul, que ficava para os lados da Cachoeirinha. Os seus fregueses davam preferência ao feijão-tropeiro, que chegava ao paladar com o gosto diferenciado da farinha de milho torrada, ao invés da farinha de mandioca. O melhor cardápio de peixes e frutos do mar era o do Casablanca, na Avenida Antônio Carlos, defronte ao que é hoje o Hospital Belo Horizonte. Popular era também o Pedro Rocha, no Padre Eustáquio, que oferecia uma lista variada de pratos. Havia muitos bares e restaurantes com reservados discretos, que criavam uma atmosfera pecaminosa bem desfrutada por seus usuários, ou para conchavos e reuniões sussurradas. Reservados sempre foram comuns na Europa e até hoje existem. Em alguns restaurantes, como o Masimann’s de Londres, os clientes dispõem de garçons exclusivos e absolutamente discretos. O cardápio incomum do Tavares, na rua Santa Catarina, perto do Mercado Central, ganhou fama nacional. Ali, no salão amplo, eram servidas carnes raras de caça, especialmente de paca, que se tornaram uma grande atração da cidade. Torresmos, feijãotropeiro, couve e farofa, além de uma excelente aguardente, faziam o complemento. A melhor pizza comia-se na Cantina do Angelo, à rua Espírito Santo. O Angelo começou num local pequeno e depois ocupou todo o segundo andar do prédio, na esquina com Tupinambás, até fechar as portas, em 2001, por temer a falta de segurança nas ruas próximas. O sabor especial da pioneira pizza do Angelo, que poucos concorrentes conseguiam igualar, estava na receita da massa, que envolvia não só os ingredientes habituais, como uma boa porção de banha de porco. A Cantina foi famosa também por outras massas, pelo frango assado e pelo risoto. A alguns quarteirões da Cantina ficava o restaurante Tagliatele, outro especializado em comida italiana. O Polo Norte manteve a condição de reduto preferido da boêmia intelectualizada nos anos 40 e começo dos 50; em 1957, assumiu esta posição o Mocó da Iaiá, aberto pelo João Silveira, na rua Carijós, quase esquina com Curitiba. O Mocó foi um bar e restaurante bem diferente de todos os outros da cidade. A entrada se dava por um corredor onde, durante o dia, havia outros negócios. O Mocó ficava à esquerda. Tinha um salão modesto, com 15 mesas e, por ficar escondido, longe do alcance da vista dos que passavam pela Carijós, bebíamos e namorávamos sem olhares de censura, ou, quem sabe, de inveja dos que não podiam frequentá-lo. Até fechar as portas, em 1965, o Mocó foi um ícone da vida noturna belo-horizontina. Não havia personalidade conhecida visitando a cidade que lá deixasse de ir. Alguns nomes: Ary Barroso, Sérgio Porto, Inezita Barroso, Joel de Almeida, Jamelão, Sylvinha Telles, Rubens Silva, Blecaute, Aldyr Blanc, Benjamin Cabello e o candidato à vice-presidência da República, Fernando Ferrari, o chamado “gaúcho das mãos limpas”, que morreu num desastre de avião em 1963. O Mocó destacou-se também pela cozinha de primeira que possuía. Todos os pratos eram preparados com banha de porco. O feijão-tropeiro encabeçava o cardápio como a grande atração da casa. Mas havia dois outros de muito agrado, com nomes estranhos e divertidos, dados por seus consumidores. Um, o roupa velha – tutu, torresmo, linguiça e couve rasgada. Foi o jornalista Celius Aulicus quem o batizou com esse nome. Tratava-se de uma adaptação, pois Roupa Velha era

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um prato já existente, de origem portuguesa, à base de bacalhau. Foi usado também para outros pratos, como os que aproveitam sobras do Natal. As noitadas do Mocó terminavam às primeiras luzes da manhã. E de lá saíamos cantando o nosso hino de felicidade: . Salve a alegria que chega nesta manhã tão bonita. Como é bom, como é bom, como é bom viver!!! A moreninha bonita vem me fazer um afago, a vida é longa e o pensamento é vago. Por isso mesmo, às vezes me embriago... Alguns clubes sempre se orgulharam dos seus restaurantes, como o Minas Tênis e o Automóvel Clube. Neste último, os que lá mais iam, ou os mais conhecidos, eram políticos, sobretudo da UDN, como Milton Campos, Pedro Aleixo, Abilio Machado Filho, José Monteiro de Castro. Mas as hostilidades partidárias não impediam a presença, certamente bem-vinda, do pessedista José Maria Alkmim. O restaurante era famoso por seu dourado assado, incorporado ao cardápio pelo dono da casa, o polonês Erlich (para cortar o cabelo e fazer a barba, os udenistas tinham um salão quase exclusivo – o Salão do Victor, na Avenida Bias Fortes, perto do Palácio da Liberdade). Outros restaurantes de prestígio na década de 50 eram o Bico de Lacre, na rua Carijós 150, edifício onde, no terceiro andar, se achavam a redação e a administração do Diário de Minas; o Alpino, na Tupinambás, com a música do conjunto de Túlio Silva; o Au Bon Gourmet; e o Aquarius, na rua Curitiba, criado por um antigo piloto comercial, o comandante Hipólito. Bebedores de cerveja dividiam a sua preferência entre a Brahma e a Antarctica, que tinham fábricas na cidade. A Antarctica era também a única fornecedora de gelo para bares e restaurantes. Apreciadores mais refinados de cachaça gostavam de misturá-la com um pouco de Underberg, quando tinham dinheiro para isto. Do contrário, colocavam algumas gotas de limão; mas a caipirinha ainda não havia chegado, embora as batidas já fossem populares. Nas noites de frio, nada melhor do que o traçado – cachaça e cinzano – este numa proporção menor. Bebedores de recursos preferiam a mistura de cinzano com gim, compondo o chamado “traçado de rico”. No começo dos anos 50, só havia uísque importado, o que circunscrevia o seu consumo às pessoas de maiores recursos, em cujas adegas o vinho de qualidade tinha de ser também importado, pois os nacionais ainda não possuíam qualidade. (*) O Corvo (The Raven) é reconhecido por muitos críticos como um dos mais belos poemas do século 19. Edgard Allan Poe (1809-1849), poeta, romancista, crítico norteamericano, o escreveu em 1845.

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Quando as moças sonhavam com doutores

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té fins dos anos 70, moças, à procura de candidato a marido que viesse a ostentar um título de doutor, iam dançar no Diretório Central de Estudantes – DCE –, à rua Gonçalves Dias, pouco abaixo da Bahia, hoje “Espaço Belas Artes”. Quando se chamava União Universitária Mineira, o DCE teve a sua sede na Afonso Pena; e, depois, na Sociedade dos Engenheiros, à rua Tupis. As horas dançantes do DCE eram um manancial de sonhos para as moças românticas da cidade. Todas iam lá na esperança de conseguir um namorado apaixonado. Elas não precisavam ser universitárias. Bastava requerer uma carteirinha, como se fossem sócias de um clube. Os rapazes tinham de ser universitários. Houve um momento na história sempre doce desses bailes estritamente familiares, em que a diretoria teve de tomar medidas severas para se livrar de frequentadoras que não pareciam atentas à disciplina da casa, demonstrando um comportamento excessivamente liberal no salão. Foi necessário recadastrar todas elas e o processo constou de ficha com os dados pessoais, escolarização, profissão e o abono de duas pessoas idôneas e de dois estudantes da Universidade de Minas Gerais. Mas tudo não passava de sofismas, diz o advogado Carlos Eduardo Vieira Martins, diretor social na época. A idéia mesmo era livrar o DCE das moças já mais velhas, menos atraentes. Os bailes nunca perderam a inteireza do bom comportamento. Não há uma estatística, mas talvez centenas de casamentos surgiram dos namoros iniciados nas horas dançantes do DCE, aos sábados, das 8 às 11 da noite; aos domingos, das 5 da tarde às 8 da noite. Acabavam cedo, porque os estudantes tinham de ir às aulas pela manhã, na segunda-feira. No DCE, ou em qualquer outro salão da cidade, os grandes bailes só eram mesmo grandes quando animados pela Orquestra de Delê (José Braz de Andrade). A Orquestra de Castilho (Oswaldo Castilho) competia com a de Delê. A terceira orquestra popular da época era a de Roberto Andrade. Maestros não faltavam. Na lista, há um lugar de destaque para o José Guimarães, que fazia arranjos orquestrais. No repertório que Delê apresentava no DCE, havia sambas-canções, boleros, sambões, valsas, mas ele raramente tocava um tango. Gilberto Santana, cantor da orquestra, lembra que El Dia Que Me Quieras (Alfredo Le Pera-Carlos Gardel) e Sin Palabras (Mariano Mores-Enrique Santos Discépolo), duas belezas do repertório portenho, eram tocados em ritmo de bolero, porque o tango ainda tinha a conotação de música de cabaré... Dois outros tipos de baile caracterizaram os anos 50 e 60: o chá dançante, adotado por muitos clubes, e a missa dançante, do Minas Tênis Clube, porque começava às 10 da

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manhã, todos os domingos, e durava três horas. A missa é uma curiosa e divertida passagem de Belo Horizonte dos anos 50. Mas começou em fins da década de 30, com um nome ainda mais jocoso e por iniciativa do primeiro presidente do clube, Ernesto Dornelles. A reunião matinal aos domingos foi originalmente chamada de “assustado” e o então estudante de medicina Manoel Luiz Martins Vieira recebeu a incumbência de organizá-la. Esta informação é encontrada no livro Minas TC – Tradição e Modernidade, de Cristina Ávila e Kátia Miranda, publicado em 1999. Passou a ser “missa” nos anos 50; mas não se sabe quem imaginou rebatizar a reunião matinal de forma tão inspirada. Moças bonitas e atléticas do clube a frequentavam com assiduidade, digamos, religiosa. A ‘missa’ era celebrada com a música do conjunto de Paulo Modesto. Ele no piano, Dico no violão, Alvarenga no baixo e Dário na bateria. Outro músico que animou a missa dançante foi o Célio Balona. Apesar do tom de pilhéria com que todos tratavam o baile matinal, a maioria dos que lá dançavam já havia mesmo ido à missa na igreja de Lourdes, a alguns quarteirões do clube. Diziam que a explicação para o nome teria surgido daquilo que os frequentadores desses bailes diziam aos seus pais: — Estou indo à missa... Essa inconfundível missa às avessas, que nos anos 60 foi ressuscitada pelo diretor social do clube, Pacífico Mascarenhas, podia não ser muito santa, mas pecaminosa tampouco o era. O DCE procurou também inovar e criou o vesperal dançante, que ia das cinco da tarde às oito da noite dos domingos, com a orquestra do Delê. E os vesperais e chás dançantes passaram a existir em toda a cidade. Fora do ambiente dos clubes, a Boate Acaiaca mantinha um vesperal que criou fama. A boate ficava na sobreloja do edifício Acaiaca e os bailes de fim de tarde possuíam uma imagem favorável, por serem ocasiões finas e respeitáveis. As moças iam acompanhadas pela mãe ou pela irmã mais nova. Os rapazes só entravam se estivessem bem vestidos. Cantores famosos, no auge da fama, como Gregório Barrios, se apresentavam lá. As emoções da vida dos universitários iam bem além da possibilidade de namorarem moças bonitas, que os procuravam para marido. Começavam com a aprovação no vestibular, celebrada com trotes e um desfile pela Afonso Pena, no qual os calouros apareciam com a cabeça e parte do supercílio raspadas – a marca inconfundível de sucesso nos exames. A outra emoção era a formatura, que requeria madrinha e um quadro de formatura, com fotos de todos os diplomandos, exposto na vitrine de um grande estabelecimento comercial central e conhecido. As vitrines mais procuradas eram as da Livraria Oscar Nicolai e da Guanabara, na Afonso Pena; e a Casa da Lente, na Rua da Bahia. Estudantes do nível secundário e até mesmo de curso primário também faziam questão de ter o seu quadro de formatura. E nunca faltou uma vitrine onde pudesse ser colocado. Ao final da década de 40, acabou um dos grandes acontecimentos anuais da vida estudantil: a Parada da Juventude, sempre na Avenida Afonso Pena, no dia 5 de setembro. As escolas se esmeravam para superar em garbo e disciplina umas às outras. Ano após ano, distinguia-se, entre todas elas, porque possuía uma banda de música própria, o Ins-

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tituto João Pinheiro, instalado na Gameleira e que se destacou como uma das melhores instituições para meninos de famílias pobres já criadas no país. A banda do João Pinheiro era invejável: harmoniosa, bem ritmada, os músicos adolescentes deslumbravam no desfile com seus instrumentos de sopro e o rufar de tambores, numa cadência impecável. O memorialista Gabriel Pascoal Carvalho atribui o fim dessa parada à atmosfera política da época. Como foi uma criação da ditadura de Getúlio Vargas, logo a associaram ao formato abominável dos desfiles da juventude fascista de Mussolini (Benito Amilcare Andrea Mussolini, 1883-1945, ditador da Itália entre 1922 e 43). A similitude era mesmo mais do que coincidência, mas os meninos que dela participavam não se davam conta desse conteúdo político-ideológico. Erguiam a cabeça e estufavam o peito para demonstrar que sabiam marchar com ritmo e disciplina militares. E, ao final, era uma festa de namoros, ou tentativas de aproximação das meninas que haviam participado do animado congraçamento juvenil. Outra escola, que marcou a vida da cidade ainda na primeira metade do século passado, foi a Alfredo Pinto, que ficava no Horto. Com o nome oficial de Oficina-Escola Alfredo Pinto, homenageava um advogado nordestino, que começou como promotor em Baependi, e depois foi ministro da Justiça e juiz do Supremo Tribunal Federal. A Alfredo Pinto era um estabelecimento correcional, para reabilitar meninos que tivessem cometido algum deslize e fossem levados às mãos da polícia. Lá, sob um regime de rígida disciplina, eram reeducados para a sociedade e resguardados de preconceitos. Aprendiam a ser alfaiates, sapateiros, carpinteiros ou mecânicos e recebiam assistência médica e dentária. A Alfredo Pinto, que pertencia à Secretaria do Interior, foi visitada em 1943 pelo Presidente Vargas, que tinha vindo a Belo Horizonte para inaugurar o conjunto arquitetônico da Pampulha. Nos bailes, ou nas grandes festas, a música tinha de vir de orquestras de muitos naipes, que estavam na moda – uma moda importada dos EUA. A mais famosa do país era, e continua sendo neste começo de século XXI, a Tabajara, do maestro Severino Araújo, um grande clarinetista, que se inspirou nos norteamericanos Benny Goodman e Artie Shaw. Baile com a Tabajara tinha sucesso garantido. Os seus arranjos, baseados em metais e voltados para o estilo das populares orquestras dos Estados Unidos, deram um rumo novo ao samba. Ele adotou também o chorinho, que já havia sido modernizado, a partir de 1945, pelo maestro Radamés Gnatalli. A orquestra foi organizada originalmente em 1934, em João Pessoa, pelo holandês Oliver van Sohsten. Severino assumiu a direção e a trouxe para o Rio em 1945, quando tinha 21 anos. Em 1952, a Tabajara enfrentou, numa competição no auditório da Rádio Tupi, do Rio, a famosa orquestra de Tommy Dorsey. Era uma versão especial das ‘batalhas das orquestras’, muito comuns nos Estados Unidos. O resultado foi politicamente hábil: deu empate, estabelecido por um júri constituído pelo aplauso da plateia. Severino respondeu ao solo de trombone de vara de Dorsey do belíssimo I’m Getting Sentimental Over You (Bassman-Washington) com o também belíssimo Um Chorinho em Aldeia (da sua autoria). Dorsey trouxe Bob London como seu solista; Severino tinha Jamelão (José Bispo Clementino dos Santos) e Dolores Duran (nascida Adiléa da Silva Rocha).

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A orquestra de Tommy Dorsey veio também a Belo Horizonte, apresentando-se no auditório da Secretaria de Saúde e Assistência, que ficava na Avenida Augusto de Lima e hoje é um centro de conferências. Outras orquestras brasileiras populares dos anos 50 eram as de Napoleão Tavares (e os seus Soldados Musicais), Lírio Panicalli, Eduardo Pathané, Maestro Fon-Fon, Maestro Cipó, Maestro Gaya, Maestro Chiquinho, Leo Perachi, Radamés Gnattali (com a Orquestra Brasileira, que criou na Rádio Nacional), Sylvio Mazzuca e a orquestra do trombonista Raul de Barros, com o solista Cauby Peixoto. E não são para serem esquecidos os gigantes da flauta – Pixinguinha, Altamiro Carrilho (com a sua formidável bandinha), Dante Santoro e Benedito Lacerda – todos também excelentes compositores, inspirados discípulos do mestre Patápio Silva (1880-1907). Pixinguinha, que nasceu no mesmo ano da inauguração de Belo Horizonte, é o autor de Rosa e Carinhoso (este com letra de João de Barro), ambos consagrados por Orlando Silva. Dominou a flauta, foi brilhante saxofonista, arranjador e maestro. Muito popular também era a orquestra formada por Roberto Inglez. Em 1953, pouco antes de vir para o Brasil, Roberto tocou no acompanhamento de Dalva de Oliveira em Londres, numa temporada que incluiu apresentações no luxuoso Savoy Hotel e uma audição na BBC. As músicas foram gravadas e lançadas num LP de enorme sucesso. Roberto Inglez – na realidade um escocês da cidade de Elgin – nasceu Robert Inglis e começou, em Londres, como pianista da orquestra de Edmund Ros, um especialista em ritmos latinoamericanos. Foi Ros que o convenceu a mudar de nome: em vez de Robert, Roberto; em vez de Inglis, Inglez, para fazê-lo parecer um latino-americano de verdade. Ros deve ter sido muito persuasivo, porque normalmente um escocês nunca aceitaria ser chamado de inglês, ou Inglez como passou a assinar. E este Inglez, tocando piano como se estivesse usando um só dedo, conquistou a plateia brasileira, permanecendo bastante tempo no país com a orquestra que formou, integrada por músicos do Rio e São Paulo. Vivíamos uma época de grandes pianistas, cujas gravações vendiam bastante no Brasil. Nomes como Eddy Duchin, Carmen Cavallaro, Liberace e José Iturbi ficaram conhecidos através do rádio ou do cinema, com um estilo pomposo, que nos impressionava. Do nosso lado, tivemos também pianistas renomados, como Waldir Calmon, Bené Nunes e Carolina Cardoso de Menezes. Em Belo Horizonte, aplaudíamos Maclerevsky, Mauro Coura Macedo, Paulo Modesto e Walter Gonçalves. Em fins da década de 50, as orquestras de dança já estavam sendo substituídas pelos grupos menores. Em Belo Horizonte, os preferidos eram os conjuntos de Gilberto Santana e Túlio Silva (um grande tecladista), ambos originários da orquestra de Delê; o de Paulo Modesto e o do Walter Gonçalves. Gilberto chegou a ter nada menos de oito integrantes no seu grupo, que alegrou inúmeras festas: dois dos seus irmãos, Bijoca (contrabaixista) e Gerson (ritmo); os outros eram o Hilário (guitarra); Jefferson (trompete); Ely e Haley (teclado); Tião (bateria); e Léo Belico, solista. Além de trompetista, Jefferson era também um ótimo violinista. Mais tarde, surgiu o conjunto de Célio Balona, no qual o baixista e

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violonista, de apelido Bituca, era nada menos do que o Milton Nascimento, ainda desconhecido como cantor. Uma noite, Celso Garcia o ouviu cantando e saiu dizendo para todo mundo que se tratava de uma voz excepcional, à espera de uma chance maior do que a da vida noturna. O primeiro a tomar conhecimento dessa opinião foi Élzio Costa, então diretor da Inconfidência. Élzio chamou o seu diretor artístico, Milton Sana, instruindo-o para ouvir a descoberta do Celso, na época cantor contratado da emissora. O bondoso Milton, sempre mais apegado à disciplina da programação, voltou com um veredicto peremptório: — Élzio, para mim, o tal de Bituca não canta coisa alguma! Milton Nascimento, como relata a história, não fez a sua estreia na Inconfidência... Ele viria a se consagrar no Brasil e no exterior numa escala fenomenal. Milton saiu do chamado Clube da Esquina, formado por um grupo de jovens muito talentosos, que se reuniam na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Teresa, e que ajudaram a dar uma nova face à música popular brasileira, nos anos 60. Primeiro se organizaram num conjunto chamado The Beavers (estranho nome para quem conhece um dos seus significados), lembrando certamente os Beatles, cuja música os influenciou. Depois, criaram o seu próprio caminho. E grande parte do Brasil os acompanhou. Além de Milton, eles tinham o ótimo letrista Fernando Brant, os músicos Marílton, que é também arranjador, e Lô Borges (filhos do jornalista Salomão Borges), Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga. Nos bailes ou em reuniões sociais os homens iam sempre de paletó e gravata, para se manter à altura da elegância feminina. Ficava muito bem para os homens usar o perfume Lancaster, trazido por algum amigo de Buenos Aires, que o produzia, ou comprado no contrabando. Isto durou alguns anos. O perfume era agradável e impressionava favoravelmente as moças. O salão mais fino da cidade sempre foi – e continua sendo – o do Automóvel Clube, desde 1929 no vetusto edifício da Afonso Pena, esquina com Álvares Cabral. O Automóvel Clube ganhou o apelido de britânico, ao ser visitado, no dia 4 de abril de 1931, por Edward, Duque de Windsor e Príncipe de Gales, e seu irmão, Príncipe George, protagonistas de uma inesquecível história da monarquia no formato ponderoso que a faz sobreviver. No AC, ambos dançaram, com o entusiasmo raramente esperado de um nobre inglês, no grande baile com que o clube os recebeu. Em janeiro de 1936, Edward assumiu o trono do Reino Unido da Grã-Bretanha, abandonando-o em dezembro do mesmo ano para ficar livre das restrições da Igreja Anglicana, a igreja oficial, e dos aborrecimentos do governo, e se casar com a mulher dos seus sonhos, a norte-americana Wallis Simpson. Foi uma das mais bonitas e até hoje comentadas histórias de amor da primeira metade do século passado. George o substituiu com o título de George VI. Esse rei morreu de câncer em 1952, o que possibilitou à sua filha mais velha, Elizabeth, se tornar rainha. A abdicação de Edward causou uma grave crise constitucional, fato sempre recordado como um dos piores momentos da monarquia britânica, no século passado. Wallis, além

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de duas vezes divorciada, era tida como uma aventureira, caçadora de fortunas. E fruía de uma lista de amantes, entre os quais o nazista Joachim von Ribbentrop, embaixador em Londres, depois ministro do exterior de Hitler; e um revendedor de carros Ford, Guy Marcus Trundle, de quem não se separou nem mesmo quando namorava o príncipe. Von Ribbentrop foi o primeiro criminoso de guerra executado, depois de condenado pelo tribunal de Nuremberg (*). Ele morreu na forca no dia 16 de outubro de 1946, dizendo que jamais se arrependera de ter servido a Hitler. As revelações dos amores de Wallis, contidas em documentos trancafiados em Londres durante longos anos, acentuaram a antipatia que ela criou entre os britânicos, por ter se aproveitado do coração volúvel de Edward. Muito antes disso, porém, Edward foi agraciado com o título de “presidente de honra” do Automóvel Clube, que ampliou a homenagem, dando o nome de Príncipe de Gales a um dos seus salões. Extraoficialmente, o Príncipe inspirou também o nome de um padrão de tecido, o xadrez cinza discreto, que passou a ser conhecido como Príncipe de Gales. Mas Edward, possivelmente, nunca ficou sabendo que Sílvio Caldas gravou o primeiro disco da sua carreira, na Brunswick, para saudá-lo. Foi o samba Quando o Príncipe Chegar, composto pelo próprio Sílvio, em fins de 1929, por coincidência o ano da inauguração do Automóvel Clube. Festas e homenagens à parte, a viagem dos dois príncipes a Belo Horizonte tinha como objetivo, talvez primordial, conhecer a mineração de ouro de Nova Lima, que pertencia à britânica St. John del Rey Mining Company e proporcionava excelentes rendas aos cofres do seu reino. Como inesperado rei, a expensas do coração do irmão, que o colocava acima das razões de Estado, George foi coroado em 1937 numa cerimônia que a BBC transmitiu para o Brasil com o mais inesperado dos narradores, o escritor e compositor Paschoal Carlos Magno, então adido cultural à embaixada brasileira em Londres. A BBC, que ainda não tinha transmissões regulares em português para o Brasil (estas foram iniciadas em março de 1938), procurou selecionar um locutor brasileiro capaz de cobrir a festa, mas não achou nenhum com as condições que requeria. Paschoal Carlos Magno apareceu como a melhor solução, fazendo um excelente trabalho, segundo as testemunhas das cerimônias, porque conhecia a fundo não só a história, como também o protocolo real. E entrou para a radiofonia como a primeira voz brasileira numa transmissão da BBC para o Brasil. O Duque de Windsor e o Príncipe George não foram os primeiros nobres a visitar Belo Horizonte, guiados pelos interesses das suas respectivas coroas. Belo Horizonte recebeu, em 1920, o Rei Alberto I, da Bélgica, e sua mulher, a Rainha Elisabeth Gabrièle. Atentos a negócios, a visita antecedeu a inauguração da Companhia Siderúrgica BelgoMineira, cuja principal usina foi construída em João Monlevade. (*) Entre 1946 e 49, Nuremberg foi sede do tribunal que julgou os crimes de guerra cometidos por chefes nazistas. Os russos queriam que o tribunal se reunisse em Berlim, mas a vontade dos americanos acabou prevalecendo. Dos 185 réus, 142 foram declarados culpados; 24 condenados à morte, dos quais 11 tiveram a sentença transformada em prisão perpétua.

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Curral del Rey, nossa aldeia universal

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s artes plásticas foram revolucionadas no Brasil, em 1951, pela I Bienal Internacional, realizada em São Paulo, com 1.800 obras de 21 países, que requeriam uma caminhada, calculada em sete quilômetros, de quem quisesse ver todas elas. Uma Bienal extremamente polêmica, porque envolvia influências políticas, consequentes da guerra fria. Mas o seu sucesso foi inegável, apesar de acusada, pela esquerda, de “máquina de corrupção e propaganda das classes dominantes”, retratando o clima criado pelo confronto ideológico do Ocidente, liderado pelos EUA, com o bloco de domínio soviético. Um dos participantes da Bienal foi Cândido Portinari, cujos trabalhos na igreja da Pampulha deram ainda mais esplendor à criação de Oscar Niemeyer. A construção da igreja foi concluída em 1945. Mas, só em 1958, o novo arcebispo de Belo Horizonte, dom João de Resende Costa, a reconheceu e consagrou como um templo digno do culto da religião. As arrojadas e inovadoras linhas arquitetônicas da igreja e as imagens de São Francisco, de Portinari, eram consideradas injuriosas à tradição da fé católica. A reação ao gênio e à ousadia de Niemeyer foi tamanha que alguns jornalistas da época chegaram a escrever que a forma da igreja, refletida na lagoa, lembrava a foice e o martelo do comunismo, ideologia que Niemeyer sempre seguiu. Outro nome ligado às artes de Belo Horizonte foi o pintor Alberto da Veiga Guignard, nascido no Estado do Rio, mas que se fez belo-horizontino por opção. Ele veio para a cidade em 1943, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, encarregado de criar uma escolinha de arte. A escolinha teve um período em que funcionou ao ar livre, no Parque Municipal, onde a Guignard se uniu Franz Weissmann, que passou dez anos em Belo Horizonte, orientando a formação de grandes artistas, como Amilcar de Castro, Farnese de Andrade e Mary Vieira. Guignard foi também o organizador da 1ª Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte, em 1944, no edifício Mariana, com a participação de grandes nomes da época, como Burle Marx, Portinari, Iberê Camargo, Djanira, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Alfredo Volpi. O poeta Oswald de Andrade foi um dos convidados para a abertura da exposição. Na história da arquitetura de Belo Horizonte, há um amplo espaço para dois grandes nomes: Luiz Signorelli, primeiro diretor da Escola de Arquitetura, autor de projetos como os dos belos edifícios do Automóvel Clube, ao estilo da época de Luiz XVI, na França, e do Grande Hotel; e o italiano Rafaello Berti. Foi Signorelli quem trouxe Berti para a cidade e ele jamais voltou à sua Itália. Morreu absolutamente belo-horizontino. Todos os seus projetos levam a marca sóbria da arquitetura européia da primeira metade

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do século passado, como pode ser visto nos prédios que desenhou e construiu. Berti é o responsável pelos projetos da sede da Prefeitura; do Minas Tênis, na Rua da Bahia ; do Palácio Arquiepiscopal, na Praça da Liberdade; do velho cinema Metrópole, na Goiás com Bahia; e do Teatro Manoel Franzen de Lima, de Nova Lima, com capacidade para 1.200 espectadores – obra excepcional para uma cidade então pequena, mais concentrada na riqueza da sua mina de ouro. Belo Horizonte só viria a ter um teatro de características semelhantes na década de 70. Berti é autor também do projeto da Feira Permanente de Amostras, no começo da Afonso Pena, à margem do Arrudas, lamentavelmente demolida para dar lugar à Estação Rodoviária. Revestido de pó-de-pedra, como outros dos seus projetos, o edifício da Feira possuía uma torre de 12 andares, com cinco na sua base ocupados pela Rádio Inconfidência. E era mesmo uma feira permanente, com amostras de minérios, madeiras e pedras preciosas – tudo de Minas. Ali funcionou o primeiro Tribunal de Contas do Estado, o Touring Club e a Sociedade de Orquidófilos de Belo Horizonte. Na área dos fundos, o complexo da Feira tinha um auditório (o Lakmé), usado pela Rádio Inconfidência; e um ginásio de esportes, sede por muito tempo do Paysandu, clube amador que teve vitoriosas equipes de basquete e futebol. Em todos os aspectos, a contribuição de imigrantes italianos e seus descendentes à vida de Belo Horizonte constitui capítulos importantes da nossa história. Como o da 56


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criação da Faculdade de Medicina, em 1911 (*). Um dos seus criadores foi o médico e professor Alfredo Balena (1882-1949). A formação de médicos para a cidade e para o Estado é consequência desse esforço. Com muita razão, o seu nome é o de uma Avenida de Santa Efigênia, conhecida também como Avenida dos hospitais. Nascido em Nápoles, Alfredo Balena chegou ao Brasil com apenas um ano e foi diretor da Faculdade de Medicina de 1928 a 33, e de 1935 a 39. Fora da esfera italiana, tínhamos Helena Antipoff (1892-1974), uma das mais influentes educadoras da cidade, do Estado, e de várias gerações do país. Russa de nascimento, Helena veio para Belo Horizonte em 1929, convidada do governo mineiro para participar da reforma do ensino estruturada pelos professores Francisco Campos e Mário Casassanta. Ela criou a escola da Fazenda Rosário, em Ibirité, e o Instituto Pestalozzi para crianças deficientes. Seu saber a tornou ouvida e respeitada em todas as partes. Em 1951, adquiriu a cidadania brasileira, o que fez Carlos Drummond de Andrade escrever: “Russa mais mineira não há, na assimilação plena de valores e características da gente mineira, em harmonia com o fundo eslavo que se abre para o sentimento do mundo sem distinguir limitações convencionais, e quer abarcar no mesmo amor todos os seres carentes de proteção e compreensão”. (*) Outros fundadores da Faculdade foram Antônio Aleixo, Olyntho Deodato dos Reis Meirelles, Otávio Machado, Cornélio Vaz de Mello, Zoroastro Rodrigues de Alvarenga, Cícero Ribeiro Ferreira Rodrigues,Eduardo Borges Ribeiro da Costa, Hugo Eiras Furquim Werneck, Samuel Libânio, Ezequiel Caetano Dias e Honorato Alves.

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E o céu tão alto, tão alto!

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ntelectuais mineiros sempre foram a glória nacional. Os governos, sobretudo o federal, não prescindiam deles para os seus programas culturais. Em 1934, o ministro da Educação, Gustavo Capanema, já havia levado para o Rio, quase que de uma só vez, Carlos Drummond de Andrade e Rodrigo Melo Franco, a fim de ajudá-lo. Capanema foi o autor de uma grande reforma do ensino. Mais tarde, Pedro Nava mudou-se também para o Rio, mas não para servir ao governo e, sim, para exercer a medicina e consolidar a sua literatura. Além de ministro, Capanema, mineiro de Onça do Pitangui, foi senador. Homem muito culto e conciliador hábil, ele dizia que “a arte de viver é criar afetos. O mais feliz dos homens é o que tiver sabido viver como mestre dessa arte”. Capanema viveu inteiramente de acordo com as suas palavras. Carlos Drummond de Andrade cresceu ainda mais no convívio com o Rio, de onde nunca voltou. Já mesmo em 34, ele publicou Brejo das Almas. Em 51, Claro Enigma, Contos de Aprendiz e A Mesa. E, naquele ano, já tinha ido para lá o quarteto que se celebrizou nos livros e nas páginas da imprensa: Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Paulo e Fernando ampliaram a sua obra no começo da década de 50, lançando, respectivamente, A Palavra Escrita (poemas) e Cidade Vazia, uma coletânea de crônicas escritas em Nova York. Em 1952, Fernando publicou A Vida Real. Cyro dos Anjos e Cláudio Cunha já estavam no Rio, quando para lá também emigraram Autran Dourado, Wilson Figueiredo e Alphonsus Guimaraens. Qual teria sido o mais notável do “quarteto de notáveis?” — O quinto – respondia Alfredo Bernardino Lima, da mesma geração, mas que optou pela política. Esse quinto era Marco Aurélio Matos, um intelectual de recursos infinitos, que também foi para o Rio. Marco Aurélio lia tudo que pudesse ler no original, fosse este em inglês, alemão, italiano, francês ou espanhol. Murilo Rubião, que começou com O Ex-Mágico (1947), prolongou sua pausa literária para ajudar o amigo Juscelino Kubitschek, no governo do Estado. Depois, ainda no governo de Juscelino, dirigiu a Rádio Inconfidência. E quando JK se elegeu presidente, Murilo foi mandado para Madrid, a fim de chefiar o escritório comercial brasileiro ali. Por ter sido redator do Diário da Tarde, do Estado de Minas e do Minas Gerais, na década de 30, o capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, Rubem Braga, era também considerado um tanto nosso. Em 1951, Braga publicou 50 Crônicas Escolhidas, coleção deliciosa de escritos que transcendem o andar do tempo. Já perto da morte (1990), ele escreveu estas linhas admiráveis, como toda a sua obra:

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“Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser, em voz baixa: — Eu sou lá de Cachoeiro...”. O Rio era o destino de muitos intelectuais, mas houve os que não se deixaram seduzir pela ideia de morar na então capital da República. No começo da década de 50, José Bento Teixeira de Salles que, como Rubião, nunca trocaria Belo Horizonte por qualquer outra cidade, se preparava para escrever a biografia de Milton Campos, de quem havia sido assessor. A biografia é uma das muitas obras de José Bento, entre as quais No Avarandado da Memória, um primoroso retrato de Belo Horizonte, dos seus bares, suas ruas, sua gente, toda a graça de uma cidade, pequena na geografia, imensa no fervor da acolhida. Outro que preferiu ficar em Belo Horizonte foi João Etienne Filho, sempre recordado como o preceptor do quarteto notável. Etienne, cujo talento se manifestou não só nas letras, no teatro e no jornalismo, como também nos esportes (no basquetebol foi técnico de clubes, da seleção mineira e juiz), passou uma temporada no Rio, onde trabalhou como secretário particular de Alceu Amoroso Lima, mas não resistiu e voltou. E há muitos outros que optaram pela vida mais calma de Belo Horizonte, como Oscar Men60


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des, Mário Casassanta, João Dornas Filho, Belmiro Braga, Lúcia Machado de Almeida, Hermenegildo Chaves, Milton Amado e Eduardo Frieiro. Nascido em Matias Barbosa, onde também morreu, em 1982, Eduardo Frieiro foi o último paciente operado pelo médico Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1940, Juscelino o operou de apendicite, no hospital São Lucas. Depois, esqueceu a medicina em benefício da sua carreira política. Da mesma geração de Drummond e Melo Franco, era muito atuante o professor Aires da Matta Machado, um douto da língua portuguesa, cujo saber se tornou popular nas páginas de vários jornais, principalmente no Estado de Minas. Foi nesse jornal que, em 1935, ele criou a primeira coluna de que se tem registro para ensinar e corrigir dúvidas do idioma. Chamava-se Escrever Certo. O primeiro programa cultural no rádio foi também criado pelo professor Aires, na Guarani, em 1936, logo depois da inauguração da emissora. A partir de 37, ele apresentou, durante 27 anos, na Inconfidência, Crônicas Leves, Vultos e Fatos da Nossa História e Consultas de Linguagem. Lá, entre os seus colegas, se achava nada menos do que o poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, que trabalhou na emissora de 1937 a 46. O diamantinense Aires da Matta Machado morreu em 1983 e, no dia 24 de fevereiro de 89, quando faria 80 anos, Carlos Drummond de Andrade o homenageou à sua maneira, publicando, no Estado de Minas, Em louvor de Mestre Aires: . O Aires dos ares bons, Aires da mata da linguagem e do machado que não mata, mas desbasta e aparelha a fina palavra diamantina; palavra certa que uma enlaçada e outra vai formando festa floral floresta de bem escrever (ou bem pensar). Aires faiscador das últimas pedras musicais do Tijuco. Aires dicionário sem empáfia, sem ares, mineiro, mineiro ladino, que soubeste ver no Tiradentes

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o único herói possível - herói humano e na fala do povo no mistério dos ritos no arco-íris das serras captaste o ar, a alma de Minas. Ó Aires da verde mata do machado de prata portuguesa legítima, onde se oculta um brilhante com todos os fogos tranquilos na sabedoria. Mestre Aires, recebe meus saudares. O trabalho pioneiro de Aires da Matta Machado abriu o caminho para outros programas culturais, que tiveram considerável prestígio no rádio. Um desses programas era o Vitrine Literária, que Jorge Azevedo apresentava na Guarani. Depois, o programa foi para a Inconfidência, sempre patrocinado pelo sal de frutas Eno. 1951 foi o ano da volta ao Brasil de João Guimarães Rosa, mais conhecido como escritor do que como diplomata. Ele servia na embaixada de Paris e essa volta, em cumprimento da rotina profissional de todo diplomata, o ajudou a concluir sua obra-prima, Grande Sertão Veredas, publicada em 1956. Também em 1956, Guimarães Rosa publicou Corpo de Baile. Poetas mineiros vivos e produzindo na década de 50 eram, e continuam sendo, uma conversa para longas horas. Tínhamos muitos e bons poetas. Emílio Moura era um deles. A imensidão de palavras escritas sobre Emílio Moura reflete muito bem a pessoa e a obra que deixou. Numa crônica publicada no O Diário, em dezembro de 1954, (e reimpressa na revista da Academia Mineira de Letras, em setembro de 2003), Rubem Braga fez assim sua apreciação de um encontro com o poeta: “Emílio Moura fala; ele é paciente como uma ladeira de Belo Horizonte de madrugada”. Falava pouco, escreve Pedro Nava, em Beira Mar: “Mas, quando o fazia, era bem e rápido; e não vagaroso, como sua vaguidão fazia supor. Tinha a voz bem sonante e, no fim, com a doença, vibrando fundo, como que reboando dentro do peito. Terminava, em cima, por longos braços e pelo extremo das mãos ossudas, delicadas, de pele fina. Embaixo, por infindáveis pernas pernaltas. Àquelas usava para esculpir, modelar, desenhar, pintar, escrever. E, infelizmente, para outras habilidades: sacar o rolete, a corda do fumo, manejar o canivete, cortando-o nos pedacinhos de cheiro agridoce, misturá-los bem na palma, dispô-los na palha que estava pendurada no lábio, enrolar o cigarrinho. Pitá-lo. Um depois do outro; ou entremeados dos manufaturados Pachola. Pitá-los e ir tragando um pouco de morte a cada baforada, que lhe abria nos

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pulmões o oco cada vez maior do enfisema”. Emilio Moura não precisava escrever muito para mostrar a força da sua poesia, como se pode ver em Misticismo: . O céu lindo da vila pobre! E a igreja pequenina, que se espicha toda na torre, com vontade de ver o céu. E o céu tão alto, e o céu tão alto! Embora tenha sido o rádio o veículo que mais tornou conhecido o seu nome, Bueno de Rivera é hoje visto como um dos grandes poetas mineiros. Em 2003, o crítico e também poeta Affonso Romano de Sant’Anna – que o descobriu quando trabalhou alguns anos no Diário de Minas, na década de 60 – fez uma seleção de poemas de Rivera. Publicada pela Editora Global, em sua apresentação Affonso informa que Vinicius de Moraes, Mário de Andrade e Hélio Pellegrino, entre outros, quiseram conhecê-lo pessoalmente, porque admiravam sua poesia. Vinicius conseguiu encontrar-se com ele, numa viagem a Belo Horizonte. Os dois conversaram longamente, por certo sobre poesia, no bar do Grande Hotel. Da obra de Bueno de Rivera são muitos os exemplos admiráveis, como o Adeus ao Mundo Morto: . Tempos de outrora, adeus! Não há mais a tísica na sala dos retratos, afogando o piano em lágrimas aflitas. Desapareceu a viúva dos escapulários, os sabiás morreram na varanda. Nem mais a lua se dissolve em flautas. A voz do contralto se perdeu nos fios. Perfuma os arquivos a lembrança vaga dos figurinos gordos de Paris. Agora, já raiou a aurora nas pupilas, todos procuram entender a alegria das flores. Tempos de outrora, adeus. A estrela de fogo chama os homens para a Era Humana. A força intelectual da cidade sempre a colocou numa posição de destaque em todo o país. Os movimentos liderados por jovens estudiosos eram identificados pelo nome das publicações que criaram. Todas de vida curta, mas que marcaram épocas admiráveis, fervilhantes de cultura. Depois das revistas Edifício e Acaiaca, foi criada a Vocação, em 1954, dirigida por Fábio Lucas Gomes, ensaísta e crítico literário. Três anos depois, a

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Tendência, lançada por Rui Mourão, romancista e ensaísta. Vocação durou três números e Tendência quatro. Fábio e Rui contaram com a ajuda do poeta Affonso Ávila, ligado ao movimento concretista e considerado como o maior especialista em barroco mineiro. Os colaboradores eram Fritz Teixeira de Salles, Adônis Martins Moreira, Maria Luiza Ramos, Laís Correa de Araújo e Ataliba Andrade Filho. Cyro Siqueira era o crítico de cinema; Wilson Vasconcelos o crítico de artes plásticas; e Amílcar de Castro o ilustrador. Mais adiante, ainda nos anos 50, uma nova geração de estudiosos contribuiu enormemente com as artes em geral. Era a geração Complemento, o nome da revista literária que os seus jovens integrantes editaram. Entre os fundadores desse grupo de vanguarda, achavam-se o economista e cientista político Theotonio dos Santos; o jornalista, poeta e professor de literatura Heitor Martins, que viria fazer uma brilhante carreira acadêmica nos Estados Unidos; o crítico de arte Frederico Morais, um dos mais importantes do país a partir dos anos 60; a mulher dele, a pintora Vilma Martins; os romancistas Silviano Santiago e Ivan Ângelo; a bailarina, coreógrafa e professora Angel Viana; o jornalista e escritor Argemiro Ferreira, um fino especialista em política internacional; Maurício Gomes Leite e José Haroldo Pereira, críticos de cinema. O grupo inspirou ou incentivou a criação do Teatro Experimental, dirigido por Carlos Kroeber; o Ballet Klaus Vianna; o Madrigal Renascentista, regido pelo maestro Isaac Karabtchevsky, cuja solista era Ana Lúcia Godoy, excelente tanto cantando obras clássicas quanto populares; e a Revista de Cinema. A revista Complemento circulou apenas três vezes, mas os que lá escreviam logo encontraram, no suplemento literário do Diário de Minas, editado por Wander Moreira, o espaço que precisavam para expor suas ideias e opiniões. As livrarias Itatiaia e Agir eram pontos de encontro habituais dos intelectuais da cidade. Mas havia outra livraria que ninguém deixava de frequentar, a Amadeo, à rua dos Tamoios, quase esquina da Rio de Janeiro. A exportação de intelectuais foi substituída, na década de 60, pela exportação de jornalistas. Jovens e brilhantes repórteres, recéminiciados na profissão, foram para São Paulo, a convite de Mino Carta, para trabalhar no Jornal da Tarde, que marcou uma nova fase das mudanças no texto e na cobertura dos fatos, iniciadas, mais de dez anos antes, pelo Diário Carioca. Além do Jornal da Tarde, Mino Carta é o responsável pelo lançamento de duas revistas que enriqueceram muito a imprensa brasileira: Quatro Rodas, em 1960; e Veja, em 1968. Certamente, pela sua placidez, que se estendeu pelo menos até à década de 50, Belo Horizonte atraía gente de muitas partes do país, à procura do sossego civilizado que tanto orgulhava os mineiros. Entre os que aqui começaram a sua carreira se achava o jornalista piauiense Carlos Castelo Branco, o Castelinho, que viria a ser, alguns anos depois, um dos melhores comentaristas políticos da imprensa brasileira. O primeiro jornal de Castelo Branco foi o Estado de Minas, onde, durante a ditadura de Getúlio Vargas, recebeu, a certa altura, a incumbência do próprio fundador e presidente dos Diários Associados, Assis Chateaubriand (Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo,

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1892-1968) de livrar a redação da presença molesta e humilhante de um censor. Castelinho desincumbiu-se brilhantemente da tarefa, como relatou na sua autobiografia. Quando o censor exigiu que lhe entregassem todos os originais das matérias que sairiam no dia seguinte, ele respondeu: — Espere até amanhã e compre o jornal. O censor vestiu o paletó e desapareceu. Outro que fez de Belo Horizonte o começo da sua carreira foi Sebastião Nery. Vindo da Bahia, ele deu os primeiros passos no jornalismo escrevendo no O Diário, a convite do chefe de redação, José Mendonça. E, na política, elegendo-se vereador, em 1950, pelo Partido Socialista. O mandato de Nery, um ex-seminarista, durou apenas cinco meses: foi cassado, acusado de comunista, algo inaceitável na incipiente democracia do país. Em todos os jornais e revistas, os grandes cronistas atraíam leitores que devoravam o que escreviam. E era uma época de gênios da crônica, como Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Antônio Maria, Elsie Lessa, Nelson Rodrigues, Mário Filho, Henrique Pongetti, Adalgisa Neri, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Vinicius de Morais, todos na imprensa do Rio. Os nossos eram Felix Fernandes Filho, Djalma Andrade (que escrevia em versos, no Estado de Minas, A História Alegre de Belo Horizonte, sob o nome de José Clemente), Franklin Teixeira de Salles, Moacir Andrade, Lucilo Mariano (pseudônimo adotado por Milton Amado), Razec (Cézar de Oliveira Faria) e Jair Silva, que durante muitos anos escreveu, semanalmente, no Estado de Minas, uma página intitulada Oropa, França e Bahia. Depois, ele a levou para O Diário. Outros vieram mais tarde, como Ivan Ângelo e Márcio Rubens Prado. Nas páginas de esportes, havia também bons cronistas: além de Fortunato Pinto Júnior, João Vianna de Oliveira, Salomão Borges, Carlos Etienne de Castro, Paulo Papini, Hugo Aroeira, José Flávio Dias Vieira, Afonso Celso Raso e, a partir dos anos 60, Roberto Drummond, Rodrigo Mineiro, Xico Antunes, J. Ferrari, Hélio Fraga e Rogério Perez. Paulo Papini era inspirado e divertido na crônica em que expressava, sem restrições, o seu amor ao América F. C. Chamava-se De Vez Em Quando, uma ideia do Fortunato Pinto Júnior, que o levou para o jornal. Ele a assinava com o pseudônimo de Cometa. Jovem e decidido, Papini queria mais do jornalismo e pediu ao diretor da redação, Guálter Gontijo Maciel, que lhe desse a oportunidade de levar o seu texto hábil e sagaz a outras áreas do jornal. Aí ocorreu um desastre, felizmente levado às gargalhadas. Guálter o destacara para cobrir o setor de abastecimento, que requeria um acompanhamento cuidadoso e íntimo dos fatos. Nos anos 50, havia a Comissão de Abastecimentos e Preços, a COAP, órgão estadual, que construiu uma imagem desfavorável desde o seu começo. A certa altura, ninguém queria presidir a COAP, tida como ineficiente e arruinadora de reputações. Mas eis que circulou a informação de que surgira um cidadão disposto a ocupar o cargo e Guálter mandou que Papini fosse entrevistá-lo, onde quer que o corajoso futuro presidente da COAP desembarcasse de uma viagem ao Rio. Papini

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não vacilou e a notícia apareceu impressa com uma linguagem incontestável: “O homem que se encarregará, daqui por diante, dos suprimentos e dos preços dos produtos de consumo na cidade e no Estado, desembarcou ontem, no aeroporto da Pampulha, confiante e resoluto, disposto a transformar as dificuldades do abastecimento e os abusos nos preços numa história do passado”. A verdade, conhecida quando o jornal já estava nas ruas, é que esse resoluto senhor havia desembarcado na estação ferroviária, irritado pelo atraso do trem da Central do Brasil, desmentindo tudo, dizendo que era sério, e chamando de irresponsável quem espalhou que ele estava disposto a assumir a COAP. Papini pediu “asilo” num bar distante do jornal, de onde foi retirado pela bonomia de Guálter, que não queria vê-lo fora da redação. Entrevistar gente famosa era bem menos complicado do que nos dias atuais, onde o contato é interposto por agentes, movidos por interesses por eles próprios desfrutados. Havia uma atitude diferente, menos voltada para preocupações promocionais. Em 1975, a mando da Veja, fui entrevistar, em Londres, o escritor Gabriel García Márquez (Gabriel García de la Concordia Márquez). O autor de Cem Anos de Solidão havia dito que não voltaria a escrever, enquanto quase toda a América Latina estivesse em mãos de violentas ditaduras militares. Pelo telefone, ele limitou a entrevista que me daria a apenas uma hora, muito pouco tempo para o texto que deveria ocupar o espaço das páginas amarelas da revista. O encontro foi marcado para as 8 da noite, no apartamento que García Márquez havia alugado à margem do Tâmisa, perto da ponte de Vauxhall, a poucos quarteirões do Parlamento. Cheguei à hora combinada, mas ele estava fora. Ao entrar, perguntou à mulher se el señor já havia chegado. Ela respondeu que eu o esperava na sala. Era o dia 25 de março e a manchete do vespertino londrino Evening Standard, que García Márquez trazia, informava sobre o assassinato do rei Faisal, da Arábia Saudita, pelo sobrinho Faisal bin Musad: — Teria sido obra da CIA? –, perguntou-me. Respondi-lhe que me parecia difícil. Por que a CIA estaria interessada em eliminar um amigo dos Estados Unidos? Ele respondeu: — Eh... pode ser. A entrevista, que deveria durar uma hora, já estava chegando às 2 da manhã, mas, ao invés de perguntas e respostas, a conversa havia se concentrado na vida de uma redação de jornal. Tudo sem gravador, pois García Márquez me confessou que microfones o deixam sem saber o que dizer. Ele falou muito da sua insubstituível paixão pela azáfama do jornal, a feitura diária do impossível. Eu achava a mesma coisa – emoção mesmo é fechar a edição de um jornal. Mas essa fase já havia passado para ele, ao optar pela literatura que, em 1982, lhe deu o prêmio Nobel. Teve de trocar a noite pelo dia, porque se sentia mais inspirado escrevendo de manhã cedo. — Começo o dia sem abrir um só jornal, sem ligar rádio ou televisão para não perder a

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concentração no trabalho. Ainda assim, costumo passar horas para escrever uma só linha. Quando eu disse que precisava voltar para casa, pois havia deixado só minha mulher com o nosso primeiro filho, que tinha apenas dois anos, ele comentou: — Da entrevista, pouco falamos. Mas você a invente, escreva o que quiser, porque não tenho o hábito de desmentir o que dizem que falei. Se precisar esclarecer alguma coisa, telefone-me. Não houve a necessidade de esclarecer qualquer coisa, pois a entrevista acabou engavetada. O ator de cinema e teatro Robert Morley era outro caráter singular, absolutamente imune a vaidades, simples e divertido, Um gigante de corpo gordo, olhar arregalado, Morley foi, no cinema, o coadjuvante que dominou os papéis, colocando-se na mesma altura das estrelas do filme. Quando o entrevistei no escritório do agente que possuía em Londres, no bairro do Soho, ele começou me perguntando se tudo que havia lido sobre o que acontecia na América Latina dos militares era verdade. Morley declarava-se socialista convicto, mas com afeições claras por uma das liberalidades do capitalismo – o jogo. — Sou um jogador, adoro um cassino – disse, candidamente. Ao comentar que a imagem dele era vista periodicamente em filmes exibidos na televisão, sua reação foi cômica: — Essas televisões insistem em me lembrar aquilo que bem sei: sou um mau ator de cinema. Sei mesmo é de teatro... mas teatro ninguém está filmando... É, de teatro, sei alguma coisa. Personagem de cinema fascinante e diferente é Steve Frears. Eu o conheci quando “My beautiful launderette”, o filme que dirigiu, ganhou um prêmio no festival do Rio de Janeiro. Frears me recebeu no apartamento muito modesto em que vivia num bairro central de Londres. Com o filho bebê no colo, mantinha a mão direita ocupada na preparação de um café solúvel que me serviu numa caneca de alça trincada. “Filmar para mim tem de ser em estúdio, onde posso fazer o que bem quiser. Dias de chuva, de sol... Não gosto de cenas ao ar livre, porque são muito arriscadas”, foi o que me disse. Richard (Dick) Attenborough, o ator e diretor de cinema, que entrevistei na festa de lançamento de “Um Grito de Liberdade”, conta histórias magníficas sobre seus longos anos à frente ou atrás das câmeras, que lhe deram dois Oscars. Em 1977, ele reuniu um grupo bem grande de superestrelas, como Gene Hackman, Sean Connery, Dirk Bogarde, Robert Redford, Maximilian Schell, Michael Caine, Anthony Hopkins, Liv Ulmann e Elliott Gould para um filme épico sobre um gigantesco fracasso militar dos aliados, durante a Segunda Guerra, chamado “Uma Ponte Longe Demais”. Havia outro ator, mais renomado por seus trabalhos no palco, que despertava a atenção de todos os demais. Era o notável Laurence Olivier, que tinha uma pequena participação no filme. Mas todos queriam vê-lo, queriam aprender um pouco com Olivier e se reuniram em torno do cenário. Tudo pronto para rodar a cena, quando Olivier gritou para Attenborough:

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— Dick, você bem sabe que de cinema eu nada entendo. Por favor, me dirija de perto e diga tudo que tenho de fazer. Este gesto de humildade causou admiração entre os atores que o cercavam. Eles sabiam que Olivier era grande também na tela. Entrevistar, ou conversar, com a Glenda Jackson, atriz inglesa ganhadora de quatro Oscars, também era fácil e prazeroso. Glenda sempre foi um modelo de simplicidade, talvez porque seja de origem muito humilde. Quando conversei com ela numa recepção na Embaixada Brasileira, em Londres, o tom das respostas foi marcado pela modéstia. Eleita deputada para a Câmara dos Comuns pelo Partido Trabalhista, foi ministra adjunta dos transportes, mas rompeu com o primeiro-ministro Tony Blair, por discordar da orientação que ele deu ao trabalhismo. Glenda foi também uma oponente da invasão do Iraque pela Grã-Bretanha. Sua integridade na política a manteve sempre dentro de princípios jamais negociáveis.

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As águas rolavam na Rua da Bahia

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s asperezas da vida podiam ser abrandadas, como de hábito, pela esperança da loteria... Sortes grandes? Campeão da Avenida e não se discute, dizia o anúncio. A casa procurava também atrair compradores dos bilhetes com um apelo poético: . Cansado de andar de tanga Um dia o homem se zanga E sai danado da vida. Mas logo cava dinheiro comprando um bilhete inteiro no Campeão da Avenida.

Quem investisse nos bilhetes do Campeão, era aconselhado a comprá-los num envelope fechado, que a casa fornecia, “para evitar mau olhado”. A Casa Giacomo, na Rua da Bahia, à direita da Afonso Pena, respondia com a frase: “Você ainda era criança e Giacomo já vendia sortes grandes”. Na verdade, a cidade era criança quando Giacomo não só vendia loteria, como também jornais e revistas. No início dos anos 50, a loteria mineira tinha dois prêmios – um de 800 mil e outro de um milhão de cruzeiros; a federal passou a sortear dois milhões. Na disputa para vender a sorte grande, entravam também a Sonho de Ouro, A Mão Feliz e muitas outras casas, além de cambistas de rua. A Rua da Bahia fez-se conhecida por seu comércio variado e por ser a predileta de intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, que por ela transitaram diariamente, na juventude. O poeta Paulo Mendes Campos a descreveu assim: “Todos iam para a Rua da Bahia . Todos a subiam ou desciam, disfarçando a ansiedade, na esperança dum olhar, um encontro, uma aventura, um pecado, o mundo. Pois pela Rua da Bahia desfila o tédio de Belo Horizonte, mas só o tédio que ainda reagia, o tédio vital de Madame Bovary, o tédio que aguarda o toque do anjo capaz de transformar esta “fade et morne existence” em deslumbramento e delícia. Desconfio que raras vezes o anjo deu o ar de sua graça na Rua da Bahia , a fim de arrebatar uma alma e levá-la numa euforia às esquinas celestiais”. Essa rua aclamada em prosa, e na música popular (*), era o caminho mais usado para se chegar, discretamente, ao centro do poder, o Palácio da Liberdade. Havia a João

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Pinheiro, mas sendo Avenida e muito imponente, indo parar na frente do palácio, parecia tolher os que pensavam em empregos numa secretaria; ou apenas respirar os ares promissores da atmosfera oficial da Praça da Liberdade, depurada por seu jardim e suas palmeiras. A Rua da Bahia é parte da história desde 1910, quando Ruy Barbosa trouxe para Belo Horizonte sua Campanha Civilista, como candidato à presidência da República. Ele disputava o cargo com o marechal Hermes da Fonseca, que foi o vencedor, graças ao apoio do presidente Nilo Peçanha. O marechal recebeu 403 mil votos, quase o dobro dos que foram dados a Ruy Barbosa. A intimidade da rua com grandes homens públicos e intelectuais prosseguiu em 1916, quando estudantes cobriram um quarteirão inteiro da Bahia com suas capas, a fim de que nelas pisasse o poeta Olavo Bilac (1865-1918). Foi um dos episódios mais significativos da história infindável da nossa rua.

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Em 1951, alguns vestígios da Rua da Bahia , toda calçada com paralelepípedos, por onde passava o bonde Santo Antônio, ainda restavam no patrimônio de saudades de Nava, Drummond, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Os velhos prédios resistiam à ofensiva da arquitetura moderna. O comércio continuava quase o mesmo. Mas a rua já estava mais agitada, com um incessante aumento de carros e bondes trafegando em duas mãos. No bonde, percebia-se um gesto automático de unção, quase sincronizado, no pequeno trecho defronte à igreja de Nossa Senhora de Lourdes: todos faziam o sinalda-cruz. Não era, logicamente, uma exceção. Os católicos não se esqueciam da mesma reverência diante das outras igrejas da cidade, por onde passasse qualquer transporte coletivo. Como a de São José, na Afonso Pena; ou a de São Francisco, no Carlos Prates. A igreja de Lourdes, cujo local foi originalmente usado pelo primeiro colégio da nova capital, o Santa Maria, parecia estabelecer o limite da área comercial com a residencial da Rua da Bahia . Nos quatro quarteirões até o templo, a partir da Afonso Pena, havia um comércio intenso, sem uma clara definição de liderança, mas onde sobressaía pela Casa da Lente, no edifício Parc Royal. Na sua vitrine eram expostas fotografias do principal jogo de futebol do fim de semana. A Casa Estrela. A confeitaria Elite, frequentada por moças de família e rapazes bem vestidos. O Colosso, de comida gostosa e barata. A Superball, do Edgard Leite de Castro. O Trianon, com os seus elogiados salgadinhos. A Charutaria Flor de Minas. A inefável Gruta Metrópole, que, ao final da tarde, irmanava bebedores das mais variadas profissões. O Hotel Metrópole. A Camponesa (possivelmente a precursora do pão de queijo em restaurantes). A Joalheria Pádua. A Bombonière Suíça. A Sorveteria Sibéria e o bar do Grande Hotel, de refinada frequência. O saudoso Cinema Metrópole, nascido Theatro Municipal, de linhas arquitetônicas austeras, é outra grande lembrança da velha Rua da Bahia . Aliás, quase todo cinema da cidade era “cine teatro”, onde o espectador recebia, ao entrar, um programa impresso em papel cuchê, com detalhes do filme a ser exibido e dos filmes futuros. De teatro, geralmente nada. O Metrópole foi o sucessor do Odeon, que ficava do outro lado, durante longos anos recordado pelos devotos da Rua da Bahia, como Drummond e Nava. Numa ode a esse Odeon, Drummond escreveu O fim das coisas: . Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia . Fechado para sempre. Não é possível, minha mocidade fecha com ele um pouco. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são, sendo de outrem, e até aplaudi-la, quando for o caso. (Amadurecerei algum dia?).

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Os cinemas dispunham, na plateia, de dois personagens inesquecíveis: um, o lanterninha, ou vagalume, cuja tarefa era encontrar poltronas vazias para quem chegasse depois de iniciada a sessão. De propósito, ou não, ele às vezes iluminava com a sua lanterna casais em carícias ousadas, que procuravam a discrição das fileiras de trás. O outro personagem era o baleiro, que, com a sua bandeja de metal niquelado, sustentada por uma alça de couro passada por trás do pescoço, oferecia uma variedade de balas e chocolates. Ser baleiro, trabalho disputado por muitos adolescentes, requeria agilidade nos cálculos da venda e na entrega do produto, durante o pouco tempo que havia para o exercício do seu comércio. Na Rua da Bahia , de tanta história ao longo dos seus 15 quarteirões, muitos casamentos começaram com trocas de olhares na Elite, ou nas missas da igreja de Lourdes. Nada a embelezava mais, como ainda embeleza nos dias de hoje, do que o edifício de torres góticas, na esquina com Augusto de Lima, local do primeiro conselho deliberativo ou assembléia municipal. É uma beleza que se impõe ao lado das edificações erguidas à sua volta e que dela nada extraíram, ficando na frieza do que é funcional, como exigido pelos tempos modernos. É o Palácio do Conselho Deliberativo, como era chamado o que foi Câmara Municipal, sua primeira função depois de inaugurado, em 1914. Esse lindo palácio de estilo manuelino (**) é um projeto do arquiteto Isidro Monteiro e a sua construção começou em 1909. O forro, trabalhado em madeira, foi desenhado por Gabriel Galante. A decoração – interna e externa - é de João Morandi. Na década de 20, o palácio foi sede da Semana Mineira de Arte Moderna e, depois, da Biblioteca Municipal, Instituto Histórico-Geográfico de Minas Gerais, de sessões da Academia Mineira de Letras, da Escola de Arquitetura da UFMG e do Museu de Mineralogia. Mas foi motivo de chacota da parte de Mário de Andrade (1893-1945), depois da visita que fez à cidade, em 1924. Mário escreveu o Noturno de Belo Horizonte, poema muito engraçado, debochando o esplendor do Palácio, que foi originalmente lido das escadas do Grande Hotel: . (...) Que luta pavorosa entre floresta e casas... Todas as idades humanas Macaqueadas por arquiteturas históricas. Torres torreões torrinhas e tolices Brigam em nome da? Os mineiros secundaram em coro: Em nome da civilização! Minas progride. Também quer ter capital moderníssima também... Pórticos gregos Do Instituto de Rádio Onde jamais Emédocles entrará...

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O Conselho Deliberativo é manuelino, Salão sapiente de Manuéis-da-hora... Arcos românticos de São José E a catedral que pretende ser gótica... Pois tanto esquecimento A terra se insurgiu (...). O palácio já abrigou muita coisa, inclusive o Centro de Cultura de Belo Horizonte. Mas um dos inquilinos mais populares dessa primorosa arquitetura, a partir de 1929, foi sem dúvida a Rádio Mineira, modestamente instalada no seu porão, com saída para a Augusto de Lima. O Brasil dos anos 50 se vangloriava do sucesso que Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha, 1909-1955) e Ary Barroso fizeram nos Estados Unidos. Carmen foi para lá em 1939, levada pelo produtor Lee Shubert, que a ouviu cantar no Cassino da Urca O que é que a baiana tem? (Dorival Caymmi). A sua estreia foi num musical de palco, que nada tinha a ver com o Brasil. Chamava-se As ruas de Paris. E o seu primeiro filme, em 1940, também nada tinha a ver com o Brasil. Foi Serenata Tropical (Down Argentina Way, que provocou protestos na Argentina pela forma com que o país foi mostrado). Em 1945, Carmen Miranda chegou a ser a artista mais bem paga dos Estados Unidos. Ela era única. Usava um turbante adornado com frutas, os balangandãs que a popularizaram, brincos enormes, roupa estampada, um sorriso irresistível. E tinha excelente voz. O seu nome chegou à Europa e, logo depois da guerra, ela veio a Londres para uma temporada de grande sucesso. A crítica foi excelente, mas o Times, lembrando que a Grã-Bretanha da época ainda se achava sob o rigoroso regime do racionamento, estendido até 1952, escreveu: “Miss Miranda usa na cabeça tudo aquilo que nós, para consumir, temos de permanecer longo tempo em enormes filas”. Carmen, apelidada pelo locutor César Ladeira de “a pequena notável”, morreu em Hollywood aos 46 anos, de uma doença cardíaca, e foi sepultada no Rio. Tal qual a Carmen, Ary Barroso foi para os Estados Unidos pelo seu talento. Contratado em 1944 para fazer a música do filme Brazil, ele voltou logo depois e ficou oito meses, período em que firmou o seu prestígio nos estúdios de Hollywood. O talento de Ary, como o de Carmen, foi gloriosamente explorado pelos produtores norteamericanos. Ambos foram usados também na “política da boa vizinhança” do governo do presidente Franklin D. Roosevelt, idealizada em 1933. Ary e Carmem - e a música brasileira especialmente - obtiveram ricos dividendos da experiência de trabalhar nos Estados Unidos. A boa vizinhança era uma defesa de interesses executada pelo subsecretário de assuntos interamericanos, Nelson Rockfeller, que tinha muitos negócios na América Latina. E foi através dessa política que o grande ator norteamericano Orson Welles veio ao Brasil em 1942, para filmar It’s All True (É Tudo Verdade). O filme jamais foi lan-

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çado, o que custou o rompimento de Welles com a RKO Radio Pictures, a companhia de Hollywood em que trabalhava. A passagem de Orson Welles pelo Brasil rendeu histórias e episódios extraordinários. No Rio, ele cunhou uma frase inspirada no que lhe serviram nos bares e boates da cidade: “O Brasil é o país onde se bebe o melhor uísque falsificado do mundo!”. Fez dois grandes amigos: o ator Grande Otelo (Sebastião Bernardes de Souza Prata) e o compositor Herivelto Martins. Welles esteve também em Belo Horizonte, foi ao cabaré Montanhês, passou uma noite no Polo Norte (onde escreveu uma mensagem na parede, mais tarde coberta pela redecoração do estabelecimento) e subiu num dos fícus da Praça Sete. Infelizmente, os registros dessa movimentada passagem do ator pela cidade são escassos e não correspondem à grandiosidade da sua arte e às coisas que fez, fora das obrigações profissionais. Em Fortaleza, onde foi filmar as primeiras cenas de It’s All True, Welles contribuiu para a consolidação de um dos grandes conjuntos vocais dos anos 50, os Vocalistas Tropicais. Orson havia levado para lá um pequeno estúdio de gravação e, ao pesquisar músicas e cantores cearenses para a trilha do seu filme, deu a grande oportunidade para os Vocalistas gravarem o seu primeiro disco, jamais lançado comercialmente, cujo nome é desconhecido (***). A forma com que os produtores de Hollywood se voltaram para o Brasil e outros países latino-americanos, no começo da década de 40, não era explicada apenas pela política da boa vizinhança de Roosevelt. Havia um amplo interesse comercial, porque o mercado da Europa (o melhor de todos, depois do próprio mercado norteamericano) estava quase totalmente fechado pela guerra. Isto levou à produção de uma série de filmes em que o Brasil e a América do Sul eram focalizados. E Walt Disney entrou também nesse esforço de captação de mercado, criando o personagem Zé Carioca nos seus desenhos animados, além de ter lançado um filme chamado Saludos, Amigos. (*) Em 1960, Gervásio Horta e Rômulo Paes lançaram a marchinha carnavalesca “Rua da Bahia ”, falando do Grande Hotel dos coronéis e cujo refrão dizia: “as águas já rolaram, na Rua da Bahia , mais que em Três Marias...”. A música foi gravada em São Paulo por Orlando Sales, na etiqueta Epique, uma subsidiária da Continental, porque não havia gravadora na cidade. (**) Dom Manuel, o Venturoso (1469-1521), rei português que deu grande incentivo à arquitetura, não poderia imaginar a influência que viria a ter. Ele foi responsável pela construção do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, do qual saiu a expressão “estilo manuelino”. (***) “A Saga dos Vocalistas Tropicais”, de Danúbio Barbosa Lima, um dos integrantes do conjunto.

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O quê que eu vou dizer lá em casa?

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carnaval de Belo Horizonte procurou atingir o mesmo nível de animação do Rio até os primeiros anos da década de 50. Isto não chegou a acontecer, mas esforço havia e a festa era muito concorrida, sobretudo na Avenida Afonso Pena e na Rua da Bahia. Para nós, o carnaval da cidade era muito bom. Blocos caricatos e escolas de samba desfilavam e participavam das batalhas de confete, com Rei Momo, princesas e lordes – a corte constituída da nobreza carnavalesca de divertida e aplaudida duração. As “batalhas” eram promovidas pelos Diários Associados, que, além do Estado de Minas e do Diário da Tarde, tinham também as rádios Guarani e Mineira; e, depois, as tevês Itacolomi e Alterosa; e pela Folha de Minas. Os seus organizadores eram os dois mais conhecidos nobres carnavalescos da imprensa: nos Associados, Geraldo de Oliveira Simões, o Lorde Faísca, que herdou, por direito estabelecido pela editoria do jornal, o cargo que pertencia a José Victor Lessa, outro cortesão do Rei Momo, o soberano habitualmente tratado como “primeiro e único”; na Folha, o cronista Ely Murilo Cláudio, ambos figuras queridas do jornalismo. Ely – 140 quilos de bondade e simpatia – morreu em 1963, depois de ter trabalhado também na Inconfidência, durante anos. Mais tarde, o Diário de Minas incorporou-se às promoções de carnaval, organizando uma batalha sob a direção do Lorde Boca de Anjo, apelido adotado pelo jornalista Alberto Cunha. No carnaval da Avenida, as moças deixavam a timidez em casa, cobriam-se com uma fantasia de gatinha, que lhes ocultava totalmente o rosto, disfarçavam até mesmo a voz, para evitar qualquer possibilidade de serem reconhecidas, e se dirigiam aos rapazes. Era divertido vê-las assim. A festa ficava melhor no ambiente dos clubes, dos mais chiques, como o Iate, Automóvel Clube e Minas Tênis, aos mais modestos: Clube Belo Horizonte, Associação dos Empregados do Comércio, Terrestre, Centro da Colônia Portuguesa, União dos Empregados do Comércio, Tremedal, Clube Belo Horizonte, Clube dos Bancários, Clube da Colônia Espanhola, Fluminense e muitos outros. Ninguém chegava a esses salões sem ter passado pelas ruas, para sentir o entusiasmo popular. A venda de lança-perfume era uma das características do comércio no carnaval. Jovens o cheiravam para ficar ‘altos’, o que era chamado tomar uma prise; ou o usavam para galantear as moças. Os mais ousados jogavam o lança-perfume nas partes mais sensíveis das carnavalescas, para vê-las se eriçarem no inevitável arrebatamento causado pelo cloreto de etilo em contato com o corpo. O lança-perfume foi proibido por Jânio Quadros, durante a sua desastrada passagem pela presidência do país, em 1961.

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Os momentos mais importantes nos dias que antecediam o carnaval eram as batalhas do Galo, da Folha de Minas, que começava na rua Curitiba e se estendia pela Afonso Pena; e a Real, organizada pelos Diários Associados. Esta última ocupava também os quarteirões centrais da Afonso Pena, e depois subia pela Bahia até à porta dos Associados, cuja sede ficava na rua Goiás. No início dos anos 50, os blocos mais conhecidos eram Os piores vêm atrás, de Nova Lima, com mais de 300 integrantes (campeão de 1951); os Bocas Brancas da Floresta; Unidos do Prado; Chiquita Bacana; Piru Glu-Glu; Domésticas de Lourdes; Leão da Lagoinha; Não Rapo Nada; Surpresa; Nacional; Remodelação da Floresta; Inconfidência Mineira e Estrela do Carmo. A lista dos que concorriam à aclamação popular é bem maior e realça a importância que a cidade e o seu povo davam ao carnaval. Os quatro dias de folia só terminavam na Quarta-Feira de Cinzas, à porta da delegacia policial que existia na rua Rio de Janeiro, perto da Praça Sete, quando era libertado o ‘bloco’ que o humor dos foliões apelidou de “O quê que eu vou dizer lá em casa?”, pois era “formado” pelos que foram detidos por terem se envolvido em desordens, sofrendo, como castigo, a prisão que os bania dos festejos. Às gargalhadas, centenas de pessoas se postavam à frente da delegacia para vê-los saindo: alguns cabisbaixos, outros erguendo os braços, reconhecendo a graça que causavam. Como mandava a tradição, que só acabou ao final da década de 60, o carnaval despertava o interesse de grandes compositores e cantores. Ano após ano, dezenas de marchinhas e sambas disputavam a preferência dos foliões. Em 1951, um ano privilegiado pela beleza do repertório à disposição dos carnavalescos, as composições preferidas foram Tomara que Chova (Paquito e Romeu Gentil), gravada por Emilinha Borba e também pelos Vocalistas Tropicais, e Zum Zum (Paulo Soledade e Fernando Lobo). Foram as mais cantadas no Rio, que era, simultaneamente, a capital da República e do carnaval. Outras músicas cantadas naquele ano foram: Madalena (Ary Monteiro-Ayrton Amorim), gravada pela Linda Batista; Sapato de Pobre (Luiz Antônio-Jota Júnior), com Marlene; Marcha do Caracol (Peter Pan-Afonso Teixeira), com os Quatro Ases e Um Coringa; Sereia de Copacabana (Nássara-Wilson Batista), gravação de Jorge Goulart; Papai Adão (Klécius Caldas-Armando Cavalcanti), com Blecaute; e Pra Seu Governo (Haroldo Lobo-Milton de Oliveira), um grande sucesso de Gilberto Milfont, que se destacava também como autor de inesquecíveis sambas-canção e como comentarista de corridas de cavalo. Em Belo Horizonte, compositores como Rômulo Paes, Jair Silva, Jadir Ambrósio, Aníbal Fernandes e Gervásio Horta esforçavam-se para independentizar musicalmente o carnaval da cidade. Eram obstados pela força das gravadoras, que colocavam os seus lançamentos com maior facilidade nas emissoras de rádio. Ainda assim, nos salões e nas ruas foram ouvidas, em 1951, pelo menos duas composições de Rômulo Paes: Mulher da Coreia e Saco de Confete. No carnaval de 1957, Aníbal Fernandes e Rômulo Paes conseguiram gravar, na RCA, duas marchas cantadas por Isnard Simone: Se Você Chorou e Aí Tá Certo. Ser aceito por uma gravadora de peso, e todas elas ficavam no Rio de Janeiro, era muito difícil.

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A beleza musical do carnaval dos anos 30, 40 e 50 foi marcada por uma competição tão forte, que cantores e compositores tiveram de se empenhar muito para levar as suas criações ao ouvido do povo. Em 1950, foram 41 as músicas lançadas, com General da Banda, Balzaqueana, Serpentina e Eu já Vi Tudo entre as mais cantadas. Em 1952, 43 sambas e marchas, com os foliões preferindo Sassaricando, Mundo de Zinco, O Doutor Não Gosta, Maria Candelária e Lata d’Água. Mas em todos esses carnavais de grandes criações, continuavam como sucesso algumas marchinhas, que ainda hoje animam o que sobrou do velho reinado de Momo, como Allah-lá-ô, gravação de Carlos Galhardo para o carnaval de 1941, ano que nos deu de herança também outra marcha de sucesso, Aurora (Roberto Roberti-Mário Lago), gravada pela dupla Joel e Gaúcho. As músicas eram gravadas e lançadas nos dois últimos meses do ano para que o povo já soubesse cantá-las no dia 31 de dezembro, a festa do réveillon, que era conhecida como “grito de carnaval”. Bem antes do governo militar, formado em 1964, e logo depois do fechamento do DIP com a deposição de Getúlio Vargas, em 1945, as preocupações oficiais com os versos da música popular tinham um tom bem forte. Em 1946, no primeiro carnaval da nova era democrática iniciada com a eleição de Eurico Gaspar Dutra, o governo usou da sua força para impedir a gravação de um samba que o país inteiro já conhecia, através do rádio. O samba era Trabalhar, eu não, composto pelo ator de teatro-revista e de cinema Almeidinha, cuja letra dizia: . (...) Eu trabalhei como louco Até fiz calo na mão O meu patrão ficou rico E eu pobre sem tostão. Foi por isso que agora Eu mudei de opinião: Trabalhar, eu não, eu não. Partiu do ministro do Trabalho, Octacílio Negrão de Lima, a iniciativa de suspender a gravação, que só viria a ser feita em maio, mais de dois meses depois do carnaval, por Onésimo Gomes. O ministro teria encarado o samba como uma conclamação à rebeldia e à vadiagem e recorreu à lei da censura, que só foi abolida dez anos depois, na presidência de Juscelino Kubitschek. A proibição em nada prejudicou a carreira política de Negrão de Lima, eleito no ano seguinte prefeito de Belo Horizonte, cargo que já havia exercido, por nomeação do governo federal, entre 1935 e 38. No seu segundo mandato, ele chefiou a prefeitura entre dezembro de 47 e fevereiro de 51. Dizer “não” ao trabalho era um pecado. Mas, falar da cor da pele aceitávamos como uma pândega. Ou éramos preconceituosos, ingênuos ou muito debochados, na apreciação dos tipos físicos que a música popular retratou desde o começo do século passado,

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até o fim das composições carnavalescas, na década de 70. Prefiro ficar com a terceira possibilidade – tudo não passava de brincadeira, zombaria a que os compositores se dedicavam sem pensar na ofensa. A correção política não era invocada e nos salões se ouviam referências a mulata, nêga, lourinha, escurinho, mulher do leiteiro, careca, barrigudo... a música popular dissecou a pigmentação humana, a infidelidade conjugal, as carências naturais do corpo humano sem protestos, reclamações ou queixas às autoridades da censura. Os compositores foram irreverentes também com Maomé, com Alá, com toureiros, espanholas, tirolesas, holandesas, escocesas, francesas – era um vale-tudo encarado com muito bom humor. A primeira menção carnavalesca à cor foi feita em 1906, quando Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre lançaram a marcha Vem Cá, Mulata. Os seus sucessores não deixaram por menos. No carnaval de 1931, Lamartine Babo e os Irmãos Valença (João Vitor e Raul do Rego Valença) compuseram “O Teu Cabelo Não Nega”, marcha que Castro Barbosa gravou na RCA. A letra é insultuosa, mas divertiu os salões onde foi tocada. E continua sendo cantada: . O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. Mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor (...). Em 1934, sem qualquer constrangimento, Antônio Nássara e Alberto Ribeiro escreveram letra e música de outra composição ainda mais injuriosa do que a que fala da cor não transmissível. Chama-se Tipo Sete e Francisco Alves, que a gravou, também na RCA, não se sentiu inibido com os seus versos: . O tipo claro é muito raro E é por isto mesmo que ele custa caro. O tipo louro vale um tesouro, mas perto do moreno é café pequeno. O tipo escuro, não dá futuro. É capital parado, Que não rende juro. Nássara e Haroldo Lobo são os autores da marcha que continua sendo muito cantada no que resta do carnaval do passado: Allah-la-ô. Nássara foi um campeão do humor na música popular e na caricatura (trabalhou no O Cruzeiro e no Pasquim). Em fins

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da década de 30, como locutor da Rádio Philips do Rio de Janeiro, Nássara encontrava soluções divertidas para promover qualquer produto. Um exemplo dessa criatividade é o texto que vendia as pílulas Manon: “Dei um automóvel Cadillac a ela: não fez efeito. Um apartamento dos maiores do Rio: também não fez efeito. No entanto, com duas pílulas de Manon purgativo, o efeito foi rápido e surpreendente!”. Em Belo Horizonte também, tivemos um divertido exemplo do que hoje seria chamado racismo. Em 1957, Rômulo Paes compôs, de parceria com Antônio Pedro, o samba “Maria e José”, que Linda de Souza gravou: . Toda preta é Maria, todo preto é José. Às vezes, quando varia, ele é José Maria, e ela é Maria José. O povo cantaria muitas outras composições de grande aceitação, indiferente ao toque racista que possuíam. Nega do Cabelo Duro, Nega Maluca, Linda Morena, Lourinha. E, fora do carnaval, a Aquarela do Brasil de Ary Barroso não deixa de fazer restrições ao mulato, chamando-o, ainda que carinhosamente, de inzoneiro. Tudo isso é agora coisa do passado. Mexer com negras – ou nêga, como nas letras –, brancas, lourinhas, mulatas, a infidelidade da mulher do padeiro, com o enviado de Deus dos muçulmanos, toureiros, espanholas, não é aceitável. E carnaval sem deboche, sem o desacato ao convencional, não pode ser carnaval na sua mais conhecida tradição. Em 1970, em pleno regime militar, o carnaval transformou-se numa preocupação política e passou a ser obrigatório o envio dos croquis das alegorias e fantasias à censura. O governo temia que os adversários se valessem da festa para mostrar a sua objeção à ditadura. Nesse clima, é bem possível que os grandes militares-compositores, que surgiram e cresceram rapidamente na década de 40, fossem banidos. Luiz Antônio e Jota Júnior, responsáveis por sucessos não só de carnaval, eram capitães do Exército. Três outros compositores muito conhecidos – Klécius Caldas, Armando Cavalcanti e Victor Freyre – também eram oficiais do Exército. Todos eles, à exceção de Cavalcanti, terminaram a sua carreira com o posto de coronel; Armando Cavalcanti, como general. Românticos, carnavalescos, os cinco expressaram na música as suas preocupações sociais. Luiz Antônio (Antônio de Pádua Vieira da Costa) compôs com Jota Junior (Joaquim Antônio Candeias Júnior) o grande samba Lata D’Água. Com Brasinha, compôs Zé Marmita; e, com Oldemar Magalhães, o clássico Barracão, que Elizete Cardoso gravou com uma interpretação maravilhosa. Como tenente, ele lutou na II Guerra, integrando a FEB. Klécius e Armando Cavalcanti são autores de Somos Dois, da fase áurea do samba-canção, gravado por Dick Farney, em 1948. E das excelentes marchas car-

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navalescas Maria Candelária, Maria Escandalosa, Papai Adão e Dona Cegonha, todas gravadas nos anos 50 por Blecaute. Freyre é o autor de Samambaia na Varanda, gravado originalmente por Sílvio Caldas e depois por Luiz Cláudio. Jota Júnior é o autor de uma das mais lindas linhas já cantadas no carnaval: “Confete, pedacinho colorido de saudade”. A marcha, com o nome Confete, é assinada também por David Nasser, mas Jota Júnior me contou que, sendo ele um principiante como compositor, era preciso ter um parceiro de peso para convencer algum grande intérprete a gravá-la. David Nasser gostou da letra e da música e a levou para Francisco Alves, que teve uma reação idêntica. Foi o último grande sucesso carnavalesco que ele gravou. A maior patente do rádio brasileiro, porém, era o cantor, produtor e apresentador de programas Henrique Foréis Domingues, o Almirante, que nunca passou de simples marinheiro. Ele ganhou o apelido de Almirante ao tempo em que prestou serviço militar na Marinha. Mas o Exército de fato contribuiu mais para a música popular. Além dos coronéis e do general, dá gosto ouvir a obra do agora ex-sargento Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila, que surgiu nos anos 60, compondo sambas como Disritmia e O Pequeno Burguês. A Força Aérea Brasileira – FAB – também teve um grande compositor, Paulo Soledade. Paulinho, como o chamavam, não ficou muito tempo na vida militar e optou pela aviação comercial, como piloto da Panair do Brasil. Mas a sua maior vocação era mesmo o jornalismo, a música e a vida noturna. Foi dono de boate, a Zum Zum, no Rio de Janeiro. Zum Zum é o nome de um dos seus grandes sucessos musicais. Ele é o autor também de Estão Voltando as Flores, Insensato Coração (de parceria com Antônio Maria), Poema dos Olhos da Amada (com Vinicius de Moraes), Calúnia e Estrela do Mar, ambas gravadas por Dalva de Oliveira. Sem qualquer dúvida, um ótimo músico e um notável poeta.

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Divas de Hollywood na fila do aeroporto

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os idos de 40 e 50, homens públicos desfrutavam da deliciosa liberdade de irem às ruas sem riscos de hostilidades sérias. Ainda ditador, Getúlio Vargas deixava o seu carro para fazer compras desacompanhado. Em 1941, ele foi visto entrando na loja A Primorosa, no Largo da Carioca, possivelmente para comprar algum disco, o produto mais conhecido do estabelecimento. Juscelino Kubitschek, como governador, andou várias vezes pela Avenida Afonso Pena e tomou cafezinho, de pé, no Café Nice, conversando com os circunstantes à sua volta. O governador Milton Campos ia sempre que podia à livraria Itatiaia. E as manifestações populares eram respeitadas pelos governantes. Certa vez, em 1948, Milton Campos não só permitiu que uma multidão, que gritava “arroz e feijão, leite, carne e pão!”, entrasse nos jardins do Palácio da Liberdade, como também que fosse recebida por ele próprio, no saguão principal. Calma e educadamente, como era do seu feitio, ele respondeu aos clamores, dizendo: — Dou-lhes a minha palavra de que tomarei providências para atender aos necessitados. Voltem para casa tranquilos. E todos saíram ordeiramente, aceitando a palavra do governador. Na década de 80, Tancredo Neves, quando governador do Estado, foi mais de uma vez à Petisqueira do Primo, à rua Aimorés, esquina com Santa Catarina, confraternizando-se ali com os frequentadores habituais, com quem bebeu cerveja e saboreou os salgadinhos da casa. O seu sucessor, Hélio Garcia, fez a mesma coisa. O vice-presidente José Alencar nunca deixou de ir ao Primo, quando as suas obrigações oficiais lhe dão folga. Os políticos não temiam cobranças do povo em tom áspero e revoltado, talvez porque as reservas de paciência do eleitorado ainda fossem consideráveis. Não temiam abusos verbais, por serem geralmente poupados de insultos incompatíveis com os postos que ocupavam. E eram beneficiados, também, pelo fato de a base social do país ser de melhor nível do que a deste começo de século. Esse benfazejo respeito mútuo tornou-se raríssimo. Não havia seguranças, como nos dias atuais. A proteção de quem quer que fosse era dada pela polícia. Ninguém pensava em firmas privadas para esse trabalho, hoje transformadas numa grande e próspera indústria no mundo inteiro. Só o governo federal brasileiro gastou, em 2004, dois bilhões de reais na terceirização da segurança. A violência era pequena, incapaz de afetar a liberdade de ir-e-vir, dando-nos o conforto de poder andar a pé, a qualquer hora do dia ou da noite, e o deleite da curiosidade, a alegria de descortinar as coisas que os olhos não veem na rotina das nossas obrigações.

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A inexistência de seguranças, que era quase universal, me levou a conhecer e a fotografar a belíssima Audrey Hepburn e seu marido Mel Ferrer, além de Rita Hayworth, também muito bela, em 1956. Local, o aeroporto Le Bourget, então o segundo em importância de Paris. Orly, o principal, começara a funcionar logo após o fim da guerra. Audrey e Mel se dirigiam ao balcão da Pan-American Airways – e eu estava com um grupo de jogadores do América F. C. como jornalista, esperando um voo para Varsóvia. Quem os viu primeiro e fez o contato foi o chefe da delegação, Wilson Gosling. Ao nos aproximarmos do casal, ninguém o protegeu, ninguém nos empurrou, não houve qualquer gesto de truculência. E quando pedimos para fazer as fotos, Mel Ferrer foi o primeiro a responder, falando em espanhol, possivelmente achando que essa fosse a nossa língua: — ¿Muchachos brasileños... como no? Audrey havia acabado de filmar Amor na Tarde, lançado em 57, e a imagem mais forte que guardávamos dela vinha de 1953, de A Princesa e o Plebeu, com Gregory Peck; e de Sabrina, filme de 1954, com Humphrey Bogart e William Holden. Que lindeza! O seu olhar vivaz, a elegância no andar e a pose aristocrática criavam-lhe uma auréola indescritível, o que nos levava a crer que estávamos ao lado da mulher mais bonita de Hollywood, como era reconhecida. O casal permaneceu pacientemente alguns minutos conosco, até o final da inesperada sessão de fotos. Mas eu, timidamente, não consegui abrir a boca para fazer uma só pergunta a ela. Tentei, mas nada saiu. Audrey percebeu a minha timidez e sorriu com simpatia. Não tinha a menor ideia do que ela havia feito em Paris e ficaria mais interessado nesse encontro se já soubesse do filme, porque Amor na Tarde é uma fina comédia com Gary Cooper e Maurice Chevalier, dirigida por Billy Wilder, rodada quase inteiramente no Ritz Hotel parisiense. Wilder foi também o diretor de Sabrina e, nos dois filmes, Audrey acaba amando solteirões riquíssimos (Humphrey Bogart e Gary Cooper). Amor na Tarde tem um detalhe interessante: o filme trouxe de volta a valsa Fascination, de 1904, (tocada o tempo todo pelo Gipsy Quartet), cuja autoria é atribuída a Dante Pilade Marchetti, mas que seria de fato do compositor clássico francês Maurice Ravel (1875-1937). Tinha letra em francês, de Maurice de Féraudy. A composição só viria a se tornar conhecida muitos anos depois. Vários letristas também se interessaram por Fascination, como o brasileiro Armando Louzada, autor dos versos da gravação de 1943 de Carlos Galhardo, na RCA, com o título traduzido literalmente: Fascinação. A música foi depois regravada por outros cantores, entre os quais Elis Regina e Agnaldo Timóteo. Nos EUA, com letra de Dick Manning, escrita em 1932, John Gary e Nat King Cole a gravaram nos anos 50. Alguns minutos depois de nos despedirmos de Audrey Hepburn e Mel Ferrer, surgiu, caminhando na mesma direção, Rita Hayworth. De novo a aproximação sem sermos obstados e mais um sorriso cordato, aceitando o convite para posar ao nosso lado. Rita estava acompanhada apenas por uma pessoa, o seu agente, que nos ajudou a fazer o grupo para fotografá-la. Nascida Margarita Carmen Cansino, a beleza de Rita era dife-

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rente, na sua mescla latina. Alta, esguia, calada, ela me pareceu uma mulher solitária, com um olhar distante, que revelava tristeza na alma, talvez aflição existencial. Nós nos referíamos a ela como Gilda, do filme magistral de 1946; ou como Salomé, de 1953. Aparentemente, Rita não estava em Paris a trabalho, pois em 1956 nada filmou. Como continuava de língua presa, não fiz qualquer esforço para entrevistá-la. Mas o olhar distante com que ela nos encarou criou em mim uma enorme vontade de ouvi-la, naquela inesquecível manhã de proezas inesperadas para um repórter mal chegado aos 19 anos. Para fotografar Audrey e Gilda, usei uma câmera Rolleicord, comprada dias antes em Zurique, e um flash de lâmpada, porque o eletrônico ainda não estava no comércio. Um mês depois desses encontros, vi Ava Gardner na boate Rendez-vous do hotel Castellana Hilton, de Madrid. Eu estava com o jornalista Célio Teodoro Assunção, que fazia o doutorado de Direito na universidade madrilenha. Ava, apaixonada pelo toureiro Luís Miguel Dominguín, parecia querer afogar as lembranças do romance fracassado bebendo sofregamente num canto discreto; levantou os olhos poucas vezes. Ninguém prestava muita atenção nos seus movimentos. Ela já havia sido riscada há tempos do caderno de endereços de Dominguín, casado na época com a atriz Lucia Bosé. Outras atrizes, como Maria Felix, Lana Turner, Rita Hayworth e Lauren Bacall – também tiveram romances com ele. A mesma liberdade de movimentos dos grandes nomes do cinema já não podia ser gozada pelos ídolos da música, principalmente nos Estados Unidos. Frank Sinatra, por exemplo, não saía às ruas sem estar cercado por guarda-costas, tamanha era a sua popularidade. E no Brasil mesmo, cantores como Orlando Silva e, depois, Cauby Peixoto, eram festejados às vezes excessivamente pelos admiradores, nas ruas de qualquer cidade onde estivessem. Fãs disputaram à força um pedaço do terno de Orlando Silva, quando ele desembarcou de um trem da Central em Belo Horizonte, em 1938.

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Tem dó, seu juiz!

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formidável década de 50, que começou com um desastre no futebol – a derrota do Brasil para o Uruguai, no Maracanã, na final da Copa do Mundo – teve também um fator de beleza para torná-la especial. Em 1954, em Miami, a brasileira Martha Rocha (Maria Martha Hacker Rocha) ficou em segundo lugar no concurso de Miss Mundo – então uma respeitável competição, que todos acompanhavam com interesse. Martha, baiana, loura de olhos azuis, moça de rara beleza, fez o Brasil inteiro se apaixonar por ela. A derrota para a norte-americana Miriam Stevenson ocorreu nas mãos de um júri que ignorou a brasileira, muito mais bonita, para escolher uma jovem local. A versão que justificou esse vice-campeonato altamente celebrado é tanto insólita quanto inacreditável. Martha foi derrotada, diziam, por ter duas polegadas a mais na cintura, em relação ao busto, ou seja, uma bunda de dimensões acima das reconhecidos como limites da beleza, nos EUA. Mas não foi nada disso. A história das duas polegadas não passou de uma invenção do fotógrafo de O Cruzeiro, João Martins, que cobriu o concurso, e aceita imediatamente pelo país inteiro. Quem esclareceu essa divertida passagem da história do Brasil dos anos 50 foi Aciolly Neto, durante muitos anos diretor de redação da revista, no seu livro Os Bastidores de O Cruzeiro. A explicação faz sentido, pois o júri de um concurso de beleza jamais justifica sua decisão. O concurso andava desmoralizado nos Estados Unidos e a eleição de Miriam Stevenson serviu para reabilitá-lo. No Brasil, a escolha da nossa miss era um grande acontecimento organizado pelos Diários Associados. Martha foi eleita no hotel Quitandinha, em Petrópolis, por um júri que contava com o poeta Manuel Bandeira e com o escritor Fernando Sabino. E se consagrou no Miss Mundo, algumas semanas depois do suicídio de Getúlio Vargas. O país constrangido e entregue às incertezas políticas encontrou na beleza de Martha um lenitivo para as suas preocupações. Ela era mesmo especial. Com Martha Rocha transformada na inesperada musa brasileira, os passos seguintes da sua carreira incluíram o rádio. Em 1955, ela gravou quatro músicas na Continental. O seu maior sucesso foi Duas Polegadas (Pedro Caetano, Alcyr Pires Vermelho e Carlos Renato). A letra dizia: . Por duas polegadas a mais... passaram a baiana pra trás. Por duas polegadas, e ainda nos quadris... Tem dó, tem dó, seu juiz (...). 87


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O lado A do disco era Rio, Meu Querido, também de Pedro Caetano e Carlos Renato. A dupla comporia outras duas músicas, que Martha gravou em 1955: o choro E Voltarás a Ser Meu e o samba Abraço Fraternal, que incluía um terceiro autor, Alcino Guedes. A carreira musical de Martha Rocha terminou aí, mas a sua beleza manteve os brasileiros contentes por muitos anos. Nelson Rodrigues (1912-1980) sumarizou esse sentimento: “O brasileiro é o narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Somos feios confessos. E uma brasileira tira, num concurso mundial de beleza, o segundo lugar. Deu-me vontade de sair gritando: “Somos lindos, somos lindos!”. Desde então, sempre que penso num elenco de “grandes homens” brasileiros, incluo Martha Rocha. Ela bem o merece. Tornou bonito o povo feio”. A popularidade de Martha Rocha jamais foi superada. Nem mesmo as duas ganhadoras do Miss Universo – Yeda Vargas, em 1963, e Martha Vasconcelos, em 1968 – fizeram o país se esquecer dela, que continuou sendo a favorita por longos anos. Os concursos de beleza eram imensamente populares em todas as partes. E tinham o pendor de revelar talentos para outras áreas. Na escolha da Miss Itália de 1947, as candidatas que terminaram no terceiro e quarto lugares – Eleonora Rossi Drago e Gina Lollobrigida – foram vistas por diretores de cinema que logo identificaram o potencial que possuíam para a tela. E ambas foram aclamadas alguns anos depois como grandes estrelas do novo cinema italiano.

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— Por favor, não me tirem mais do trabalho!

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ara os jovens e para os mais idosos, a música popular viveu, na década de 50, uma fase excepcionalmente rica. Os nossos ritmos populares, o samba e a marcha, eram ainda bem jovens, se levarmos em conta que a primeira gravação comercial reconhecida – a do samba Pelo Telefone, da autoria de Donga – havia sido feita há apenas 33 anos, em 1917. E que, dezoito anos antes, em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs Ô Abre Alas, cantado em todos os carnavais. A década foi marcada, principalmente, pela bossa nova. Na história da nossa música popular, entretanto, a primeira gravação comercial reconhecida não expressa a verdade – constatou o historiador Jairo Severiano. Oito anos antes, em 1909, foi gravado, com a etiqueta Columbia, o samba Quando a Mulher Não Quer. O cantor é identificado somente pelo nome Arthur, possivelmente Arthur Budd Castro, como pesquisou outro grande historiador da música popular, José Ramos Tinhorão. Em 1951, Elizete Cardoso consagrou-se com Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula (Saudade, torrente de paixão, emoção diferente...); Waldir Azevedo, que obteve enorme prestígio internacional, do qual pouca gente no Brasil ficou sabendo, lançou dois choros eternamente ouvidos: Delicado e Pedacinhos do Céu; Linda Batista explorava as suas notas altas, cantando “só vingança, vingança, vingança aos santos clamar” (Vingança, samba-canção de Lupicínio Rodrigues); Dalva de Oliveira impôs uma trégua na guerra conjugal-musical com o seu marido, Herivelto Martins, gravando a bela Ave Maria, de Vicente Paiva e Jaime Redondo. A briga começou em 1947, quando Herivelto compôs o samba-canção Segredo, seguido no ano seguinte de outro sucesso do mesmo ritmo, Caminhemos (o primeiro gravado pela própria Dalva; o segundo por Francisco Alves, entre outros), só terminou em 1952. Não houve reconciliação, houve desgaste natural desse conflito, que entusiasmou os ouvintes e agitou os auditórios. Entre os sucessos surgidos da disputa, estavam o bolero Que Será? (Marino Pinto-Mário Rossi), e os sambas-canção Errei Sim (Ataulfo Alves), Tudo Acabado (J. Piedade-Oswaldo de Oliveira Martins) e A Grande Verdade (Luiz Bittencourt-Marlene). O Trio de Ouro, do qual Herivelto era líder e onde Dalva também cantou até o fim do casamento, participou da inesquecível briga, gravando Vingança, logo depois do lançamento da música por Linda Batista.

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O interesse popular pela briga provocou uma constante corrida às lojas de discos. As vendas foram tão espetaculares que Dalva era chamada de a milionária do disco. E com esse sucesso, ela ganhou também os cognomes de Rainha da Voz e Rouxinol. Houve muito mais, para enriquecer aquela década musical. Jorge Goulart gravou a canção Falua, que se destaca no imenso rol de composições de João de Barro e Alberto Ribeiro. E o Brasil ficou conhecendo Dóris Monteiro que, aos 17 anos, logo caiu no gosto do público com o samba-canção de Peter Pan Se Você se Importasse. Mas um samba que não é para ser esquecido, lançado menos de oito meses depois da posse de Getúlio Vargas, é o composto e gravado pelo notável juiz-forano Geraldo Pereira (Geraldo Theodoro “Pereira, 1918-1955), com a parceria de Arnaldo Passos. Chama-se Ministério da Economia, um ministério que o presidente prometeu criar para ajudar a pôr fim às eternas asperezas dos pobres, o “fome zero” de 1951. A letra, sempre muito atual, diz no seu primeiro verso: . Seu Presidente, sua excelência mostrou que é de fato., Agora tudo vai ficar barato, agora o pobre já pode comer... até encher! (...).

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Geraldo Pereira entrou para a história da música popular como um dos raros casos de compositor que, à sua época, gravava as próprias criações. O mais comum, vigorando como lei tácita, era o compositor entregar a sua obra a um intérprete, ou seja, a um grande cantor. Duas importantes exceções são Ataulfo Alves, inigualável na interpretação da sua obra, e Dorival Caymmi, que, embora tendo muitos outros intérpretes, sempre cantou e gravou tudo que compôs. A primeira (O que é que a baiana tem?, 1937) foi posta em disco com a participação da Carmen Miranda. Geraldo Pereira cantava muito bem, mas suas composições só alcançaram sucesso de proporção nacional em vozes diferentes. O principal intérprete dos grandes sambas de Geraldo Pereira foi o Cyro Monteiro. Entre as gravações de Cyro, se acham os clássicos Falsa Baiana e Escurinho. Jorge Veiga e Moreira da Silva gravaram o divertido Acertei no Milhar, que Geraldo compôs com Wilson Batista. O ministério da Economia, louvado por Geraldo no seu samba, não passou da promessa. Getúlio criou, sim, a Cofap (Comissão Federal de Abastecimento e Preços), que não trouxe fartura alguma para a mesa dos pobres. Geraldo Pereira morreu numa briga com o famoso e valente Madame Satã (João Francisco dos Santos, 1900-1976), um homossexual de lendária passagem pela vida boêmia do Rio (*). Na briga, ele caiu, fraturando o crânio no meio-fio. Depois, ainda na década de 50, começo da de 60, surgiram outros compositores-cantores como Maysa, Dolores Duran, Tito Madi e, anos depois, o mais notável de todos, Chico Buarque de Holanda. Outros compositores-cantores de grande sucesso foram Edu Lobo, Geraldo Vandré, Jorge Ben, Gonzaguinha, Djavan, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na sua infinita criatividade, a música popular brasileira sempre refletiu episódios e observações notáveis. Em 1942, por exemplo, incorporou entre os seus parceiros o filósofo e matemático francês do século 17, Blaise Pascal, mas a isto nunca se fez menção. Pascal (1623-1662) entra como coautor do samba Aos Pés da Cruz, que Marino Pinto e José Gonçalves (o Zé da Zilda) compuseram, em 1942, para Orlando Silva gravar na RCA, com o seu aforismo sobre o sentimento humano: “o coração tem razões que a própria razão desconhece!”. E o letrista Marino Pinto acrescentou uma verdade pertinente: “faz promessas e juras, depois esquece...”. Outro grande parceiro da nossa música popular é bem anterior a Pascal, pois nasceu na segunda metade do século 16 e entrou para a história como o maior teatrólogo da língua inglesa: William Shakespeare (1564-1616). Em 1948, José Maria de Abreu e Alberto Ribeiro extraíram de Hamlet, que Shakespeare escreveu entre 1601 e 1602, o título e o mote do lindo samba-canção gravado por Dick Farney, na Continental: Ser ou não ser. Em 1966, Carlinhos Lyra e Vinicius de Morais compuseram o Rancho das Flores, música em cima de Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Na letra, Vinicius citou a escritora norte-americana Gertrude Stein (uma rosa é uma rosa uma rosa), cujo salão literário em Paris, na segunda década do século passado, foi frequentado por grandes eminências da literatura – de Ernest Hemingway a James Joyce. Carlinhos Lyra e Vinicius de Morais pertencem a uma notável geração de compositores,

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que deram um sentido inovador à música brasileira com a bossa nova. Outro grande expoente dessa geração foi Antônio Carlos Jobim, que ficou conhecido a partir de 1953, com a gravação de Incerteza, na voz de Mauricy Moura. A bossa nova teve, em 1958, sua consagradora estreia, com Chega de Saudade (Tom Jobim-Vinicius de Morais), que o país inteiro aprendeu rapidamente a cantar. Em duas gravações magníficas – uma da já veterana Elizete Cardoso e a outra de João Gilberto, cujo violão deu a batida especial que faz a diferença do novo ritmo com o samba tradicional. O sucesso de João Gilberto como cantor foi previsto por Jobim, num encontro com Gilberto Santana, no Rio. Gilberto Santana estava lá para gravar seis músicas do compositor Pacífico Mascarenhas. Levado por Luiz Cláudio, foi conhecer Jobim, que exultava com a interpretação do Chega de Saudade por Elizete, mas falava com grande entusiasmo também do novo cantor. “Vem aí uma sensação vocal” – disse ele a Gilberto Santana. Ainda em 1958, João Gilberto gravou outro enorme sucesso de Jobim (e Newton Mendonça), que foi Desafinado. Os Estados Unidos logo identificaram a nossa nova criação como uma expressão musical não só bonita, mas comercialmente promissora. E, de fato, a bossa nova interessou a muitos dos seus grandes cantores, entre os quais Frank Sinatra, que gravou dois elepês, com os maiores sucessos da época e fez dueto com Antônio Carlos Jobim, que com ele aparece numa capa. Ella Fitzgerald também gravou Jobim, no LP “Ella abraça Jobim”, com várias faixas em português. E quase sem sotaque, porque aprendeu a pronúncia com o padrasto português que a criou, no estado da Virginia, onde nasceu. Os críticos não se impressionaram com a incursão de Ella na bossa nova. Outros discos foram bem melhores, disseram. Mas houve muito mais. Em seu belo livro “Bossa Nova e Outras Bossas – A Arte e o Design das Capas dos LPs”, Caetano Rodrigues e Charles Gavin nos mostram 108 discos gravados nos Estados Unidos por gigantes do jazz, como Stan Getz, Dizzy Gillespie e por muitos cantores de grande prestígio. Mas, Sinatra à parte, uma das melhores gravações de bossa nova feitas nos Estados Unidos foi a do conjunto The Hi-Los. O elepê, mais tarde relançado como CD, contém versões de clássicos do ritmo, como O Pato (Jayme Silva-Neuza Teixeira) e Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim-Newton Mendonça). Algumas das versões até mesmo valorizam as letras originais. Músicos e compositores da bossa nova encontraram nos Estados Unidos um ótimo mercado de trabalho. Alguns jamais voltaram, como Airto Moreira, Sérgio Mendes e Walter Wanderley. A bossa nova, no entanto, não soube ou não pôde capitalizar a força internacional que criou através dos Estados Unidos e o que se ouve hoje, no exterior, é quase sempre o que se ouvia nos seus momentos originais. Foram muitos os compositores da bossa nova, mas os nomes de Vinicius de Morais, Antônio Carlos Jobim, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Newton Mendonça e os irmãos Valle (Marcos e Paulo Sérgio) são os mais luminosos na fachada desse estilo de samba. E entre os cantores haverá sempre um lugar especial para o Pery Ribeiro

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(Pery de Oliveira Martins) – excelente voz, grande intérprete, virtudes herdadas do seus pais, Herivelto Martins e Dalva de Oliveira. A primeira gravação de Garota de Ipanema, que Vinicius e Jobim compuseram em 1963, é de Pery, o que perpetua seu nome na história da bossa nova. Pouco citada no caudal criativo do novo ritmo, não deve ser desprezada a contribuição de Dorival Caymmi, autor de sambas-canção de parceria com Carlos Guinle, que ajudaram a formar a base da bossa nova. Em 1969, conheci Tom Jobim, em Londres, em circunstâncias especiais. Ele estava na cidade compondo a trilha do filme Os Aventureiros, com Charles Aznavour, filme que não fez sucesso. Eu dividia um apartamento no bairro de Kensington com Paulo Francis e Ivan Lessa, ambos amigos de Tom. Francis e Ivan resolveram fazer uma festa com algumas convidadas e chamaram Tom, que há tempos não viam. Tom chegou por volta das dez da noite, dando uma tremenda bronca com o seu charme habitual: – Vocês me tiraram do trabalho! Olha, tomo uma e vou-me embora e, por favor, não me tirem mais do trabalho. Ele saiu às 7 da manhã, mal se equilibrando sobre as próprias pernas... A bossa nova não surgiu sem críticas e reprovação. Numa entrevista a Acir Antão, no programa “Hora do Coroa” da Rádio Itatiaia, o cantor e compositor Moacyr Franco lembrou que houve muita gente que fez sucesso idêntico, ou talvez maior do que a bossa nova, em 1958 e anos seguintes. — A bossa nova é um ritmo de Ipanema, com muitos cantores desafinados, disse ele. Bem antes da bossa nova, as festas, os programas de rádio e as boates tocavam com muita aceitação o samba-canção, ritmo originalmente criado por Henrique Vogeler, Marques Porto e Luiz Peixoto, os autores de Ai Ioiô (Linda Flor), gravado em 1929 por Araci Côrtes. O seu revigoramento surgiu nos anos 40, com as gravações de Dick Farney, o ídolo consagrado em meados da década, cujo nome de batismo é Farnésio Dutra e Silva. Mas a história vai bem além, pois o ritmo cresceu, como se verá mais adiante, devido a uma forte influência do bolero. O Brasil voltou-se para o samba-canção com o mesmo entusiasmo com que adotou a bossa nova, é o que sugere uma estatística no livro Os Quatro Tempos da Música Popular Brasileira, de Jairo Severiano: entre 1º de janeiro de 1951 e 31 de dezembro de 1957, foram gravados no país 924 sambas-canção, o que dá a média anual de 132. O primeiro sucesso de Dick Farney, que era também um excelente pianista de formação clássica, foi Copacabana (João de Barro-Alberto Ribeiro), em 1946, na Continental. Até então, Dick só cantava e gravava em inglês, seguindo os três modelos de voz que adotou: Dick Haymes, Bing Crosby e Frank Sinatra. Foi João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga, também conhecido como Braguinha, 1907-2006) que o convenceu a cantar em português. A música havia sido composta para Lúcio Alves, mas como ele estava

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em Nova York, Dick foi a solução. Copacabana deu fama a Dick no país inteiro e um ano depois ele disputou com Francisco Alves, Nelson Gonçalves e com o próprio autor da música, Dorival Caymmi, um dos grandes sambas-canção de todos os tempos – Marina. Ele ganhou a parada. Em 1951, gravou dois outros sucessos: Uma Loura, de Hervê Cordovil; e Meu Erro, de Luiz Bittencourt e Gilberto Milfont. O rival de Dick no estilo romântico do samba-canção era Lúcio Alves (Lúcio Ciribelli Alves), companheiro dele na gravadora Continental e muito amigo, que deixou o conjunto Namorados da Lua para iniciar a carreira de solista. Lúcio, um mineiro de Cataguases, tinha mais voz e mais estilo que Dick, mas nunca contou com o mesmo volume de promoção. Reconhecido também como um dos criadores da bossa-nova, ele gravou, alguns anos antes, com sucesso instantâneo, Terminemos, de Paulo Soledade e Fernando Lobo; Talvez, de Gilberto Milfont e Marino Pinto; e Sábado em Copacabana, de Carlos Guinle e Dorival Caymmi. Para Lúcio, Dick Farney foi o verdadeiro precursor da bossa nova. — Ele gravou bossa nova antes do surgimento do ritmo – é o que dizia. De voz marcante, timbre de contralto, a carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira) nriqueceu o samba-canção a partir de 1951, depois de lançada no programa Fantasia Musical, da Rádio Tupi. Dois dos seus maiores sucessos, ouvidos no país todo, vieram no ano seguinte: Ninguém me Ama (Antônio Maria-Fernando Lobo) e Menino Grande (Antônio Maria). Nora fez-se famosa como cantora dos apaixonados-desprezados, pois o seu estilo sentimental voltado para a fossa tomou conta dos barzinhos da época. Na década de 70, ela e o marido Jorge Goulart (também um excelente cantor) vieram para Belo Horizonte e montaram o Feitiço da Vila, na Avenida Paraúna, hoje Getúlio Vargas. Era um ótimo restaurante, com a música a cargo dos donos, mas não durou muito. Na lista de sucessos que consagraram Nora Ney, incluem-se ainda Felicidade (Antônio Almeida-João de Barro) e Solidão (Antônio Fernandes-Antônio Carlos Jobim). Outros grandes intérpretes do samba-canção surgiram durante a década de 50: em 1952, Tito Madi (também excelente compositor); em 1956, Maysa (Maysa Figueira Monjardim Matarazzo), Dolores Duran, Ângela Maria e Sylvinha Telles. E, em 1964, Claudete Soares. O samba-canção, que acompanhou o samba mais sincopado desde o seu início, seduziu cantores da velha-guarda, como Orlando Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Nuno Roland, Albertinho Fortuna, Francisco Alves, Linda Batista, Helena de Lima, Elizete Cardoso e Jamelão – entre outros. Maysa e Dolores Duran asseguraram um lugar importante na história da nossa música popular. Além de grandes cantoras, compuseram alguns sucessos eternos. Ambas morreram muito jovens: Dolores aos 29 anos, de infarto, em 1959; Maysa, aos 40 anos, de desastre de carro, em 1977. Dolores compôs belezas como Estrada do Sol (com Tom Jobim) Pela rua, Ternura Antiga (ambas com J. Ribamar), A Noite do Meu Bem, Ideias Erradas, Castigo, Solidão e Noite de Paz. Por sua vez, Maysa será sempre lembrada por

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composições rapidamente transformadas em sucessos como Ouça, Meu Mundo Caiu, Tarde Triste, Resposta e O Que. Voltemos aos intérpretes e compositores estrangeiros da nossa música: se Farnésio Dutra e Silva adotou um nome inglês – ou americano, como seria mais conveniente à época – outros não ficaram atrás. E o Brasil dos anos 40, 50 e 60 possuiu os americanizados cantores Jimmy Lester (cujo nome de batismo era José Andrade Vilena Nascimento); Leny Eversong (Hilda Campos); Bill Farr (Antônio Medeiros Francisco); Julie Joy (Beatriz da Silva Araújo); Bob Nelson (Nelson Roberto Perez); o ator Cyl Farney (Cilênio Dutra e Silva, irmão do Dick); o compositor e cantor Johnny Alf (Alfredo José da Silva) e o saxofonista Bob Fleming, nascido em Cataguases, onde foi batizado como Moacyr Silva. Eles simbolizavam a grande influência que os Estados Unidos tinham sobre nós. Bob Nelson era o vaqueiro que usava o yodeling tirolês, valendo-se do seu agudo, para cantar iuroe-i-li. Talvez o único vaqueiro que se inspirou nas montanhas do Tirol... O bolero e o tango levaram também alguns cantores a adotar nomes que os identificavam como hispanos. Como ocorria no Brasil, cantor no exterior requeria igualmente adaptações. Quando Cauby Peixoto iniciou a sua carreira e foi levado para uma temporada nos Estados Unidos, com o objetivo de se fixar lá, espertamente o seu agente o rebatizou como Ron Coby. A carreira americana de Ron Coby foi curta. Mas, em 1959, ele voltou e foi chamado, pela revista Time, de Elvis Presley latino-americano. Cauby gravou nos Estados Unidos, em inglês, o samba de Dorival Caymmi Maracangalha, que recebeu o nome de I Go. Cauby só se realizou plenamente no Brasil, com o enorme sucesso que logo fez. Com um pouco de boa vontade, porque ele tinha um apelido e não um nome, poderia ser acrescido à lista o paulista, naturalizado carioca, Otávio Henrique de Oliveira, que não é outro senão o competente Black-out, ou Blecaute, campeão de vários carnavais.

(*) Belo Horizonte teve uma réplica do Madame Satã. Era o Cintura Fina (José de Arimatéia Carvalho da Silva), que bateu em muito valente, na zona boêmia, reagindo aos desacatos à sua sexualidade.

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A “Hora do Fazendeiro” começou com uma vaquinha

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história da Rádio Inconfidência, que chegou a ser declarada emissora padrão do continente, num congresso na Argentina, é incomum. Padrão do continente devido aos estúdios e à modernidade dos equipamentos que possuía. Tudo começou em 1935, quando o secretário da Agricultura, Israel Pinheiro (1896-1973), obteve do governador Benedito Valadares (1892-1973, governador de 33 a 45) a aprovação de uma ideia inédita: o Estado ter uma emissora de rádio. Aí veio a questão crucial: “E o dinheiro para a compra dos transmissores e equipamento dos estúdios?”. Israel encontrou a solução, dizendo que pediria a ajuda de todos os municípios do Estado, na época pouco mais de 400. A reação foi ótima, como seria de se esperar naqueles tempos, pois os prefeitos eram, então, nomeados pelo governador e não eleitos. O próprio Benedito Valadares era também nomeado. Foi Getúlio Vargas quem o escolheu. Assim, cada prefeito mandou o que pôde mandar e, desse esforço, nasceu a rádio com todas as suas instalações do mais alto nível nos 3º e 4º andares da Feira Permanente de Amostras, edifício muito conhecido do governador, que frequentava um restaurante de luxo instalado no prédio, o Restaurante da Feira. O dono desse restaurante era Mário Toledo, pai de Rosana e Maria Helena, que cantavam juntas, como as Irmãs Toledo. Maria Helena casou-se com um dos maiores violonistas (e compositor) do país, Luiz Bonfá. Rosana fez, depois, carreira como solista e teve sucesso nacional. O Restaurante da Feira era um luxo. Os comensais podiam assistir das suas mesas a programação da emissora. E viram apresentações históricas da soprano Cristina Maristany (1906-1966) e do pianista russo naturalizado francês Alexander Brailowsky (18961976), um grande intérprete de Chopin. Tudo isto logo depois que a emissora foi ao ar, no dia 3 de setembro de 1936. Francisco Lessa, trazido da Rádio Mineira, onde começou a sua carreira, foi o mestre de cerimônias na inauguração da Inconfidência, anunciando o discurso do governador. Como emissora oficial, a Inconfidência levou ao pé da letra o compromisso de exercer um importante papel educativo, sobretudo para o homem do campo. Tanto assim que pertencia à Secretaria da Agricultura. Israel Pinheiro, o seu titular, viria a ser, 29 anos depois, o governador eleito do Estado. Numa cidade que não havia ainda completado 38 anos, o papel da Inconfidência teve imediata repercussão.

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A influência exercida pela Inconfidência na vida do Estado, nos seus primeiros 25 anos, era tão grande que intelectuais de peso foram atraídos para administrá-la e produzir programas. Murilo Rubião, Celso Brant, Luiz de Bessa e Moacir Andrade ocuparam a direção; na redação, trabalharam Alphonsus de Guimaraens Filho, Hugo Vieira e Ayres da Mata Machado. José Aparecido de Oliveira - que viria a ser deputado federal, ministro da Cultura, embaixador em Portugal e governador de Brasília (1985-88) -; e Francelino Pereira, governador do Estado entre 1979 e 83, senador de 1995 a 2003 (ele começou a carreira política como vereador e foi deputado federal) também trabalharam como redatores da Inconfidência. À época de Murilo Rubião, seu assistente, ou vicediretor, era um jovem muito culto e amante do rádio, o Lomelino de Andrade Couto. Na festa do primeiro dia em que a emissora no foi ao ar, depois do discurso do governador Valadares, Francisco Lessa anunciou a programação musical, que incluiu Orlando Silva, Nuno Roland, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Sebastião Pinto e Moraes Neto. Oito carros trouxeram, do Rio, os cantores e músicos. Foi uma viagem muito longa, porque a estrada era de terra. E quase todos eles tinham a obrigação contratual de participar também da inauguração da Nacional, daí a alguns dias. Os que estiveram presentes ressaltaram que, estranhamente, Orlando Silva, que já havia gravado 100


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algumas das mais lindas valsas do seu rico repertório, como Última Estrofe e Apoteose do Amor (ambas de Cândido das Neves), não foi tão aplaudido como se esperava e só veio a ser consagrado pelo público mineiro dois anos mais tarde, quando voltou para uma temporada na Rádio Guarani, também inaugurada em 1936, quase um mês antes da Inconfidência. O primeiro programa da emissora foi a Meia Hora do Fazendeiro, produzido pelo agrônomo João Anatólio Lima e apresentado por locutores que marcaram o começo do rádio na cidade: Teófilo Pires e Helionice Rabelo Mourão. Um sucesso imediato, pois o programa respondia as consultas do homem do campo. Devido ao extraordinário volume de cartas, passou logo para uma hora, Hora do Fazendeiro. Nos anos 50, já era apresentado, sem qualquer exagero, como o mais antigo e o mais ouvido programa agrícola do rádio brasileiro. Estas palavras eram antecedidas (e continuam sendo) pelo dobrado Campo Belo, de Antenógenes Silva, marca inconfundível da própria emissora. A Hora do Fazendeiro é um marco da radiofonia brasileira. E gerou histórias folclóricas. Diziam que algumas consultas vinham totalmente desprovidas de rodeios e eram engraçadas: “Senhor agrônomo, o que devo fazer para evitar que as minhas galinhas continuem evacuando brasileiramente, isto é, verde e amarelo?”. A Inconfidência cresceu rapidamente e adaptou com muito sucesso o mesmo estilo de programação variada da Nacional. Tinha orquestras, conjuntos regionais, radioteatro, muitos cantores e locutores, jornalismo e esportes, dos quais fiz parte. A importância do rádio foi reconhecida por todo governo (*). Getúlio Vargas logo o adotou como meio eficaz de comunicação de massa, criando A Hora do Brasil. No dia 7 de setembro de 1935, chegou aos poucos receptores então existentes no país a primeira audição desse programa, com todas as emissoras obrigadas a ‘entrar em cadeia’ com o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP – para retransmiti-lo. Nenhum governo que veio depois de Getúlio Vargas se atreveu a acabar com a Hora do Brasil, hoje A Voz do Brasil. Ao contrário, a incrementaram, procurando torná-la mais interessante, mesmo sabendo que muita gente desliga o receptor, ao ouvir o seu prefixo de sempre, a abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes. Não eram exclusivamente as emissoras de rádio e os jornais que nos mantinham informados. Na Praça Sete, havia, durante as horas do dia, uma permanente aglomeração à frente do quadro negro de notícias dos Diários Associados, perto do Cine Brasil, onde se postavam os que queriam saber as manchetes do momento, escritas a giz. O quadro era amarrado ao tronco de um fícus e, às vezes, a chuva o apagava. Ali, o ruído constante dos bondes misturava-se à música e às vozes vindas de alto-falantes, também amarrados nas árvores, de uma ‘rádio’ que se identificava como a do centro da cidade, a Rádio City, cujo raio de alcance se circunscrevia à praça e áreas adjacentes. Pela Rádio City passaram os locutores que se transformariam nos mais conhecidos da cidade, como Oliveira Duarte e Roberto Márcio. Bons locutores, na verdade, existiam em todas as emissoras. Na Rádio Mineira, a mais antiga da cidade, inaugurada no

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dia 15 de novembro de 1929, brilhava Afonso de Castro, com um estilo inconfundível. Na Inconfidência, estavam os nomes mais famosos, os irmãos Francisco e Paulo Lessa, tidos e havidos – numa época em que os anúncios eram lidos, e não gravados – como os que jamais tropeçavam na leitura dos textos. Paulo, no entanto, entrou para a história daquela época de perfeição absoluta na leitura dos comerciais ao mudar, acidentalmente, o que dizia o anúncio de um produto para aliviar problemas do fígado. Ao invés de ler: “Comeu, bebeu, fumou demais?”, ele afirmou, com a autoridade que a sua bela voz lhe dava: “Comeu, bebeu, fumeu demais?”... O inesperado erro foi a grande piada do rádio, durante muitos anos. A programação da Guarani, mais popular, tinha também elogiável qualidade, embora sem os compromissos educacionais que eram a razão de ser da “emissora oficial” e que, na realidade, orientaram a radiofonia brasileira nos seus primeiros anos. A Guarani possuía um grande diretor, Ennyus Marcus de Oliveira Santos, e um excelente diretor artístico, a partir dos anos 40, Roberto Ceschiatti. A mais antiga, no entanto, a Rádio Mineira, foi uma iniciativa de Lindolpho Espechit, um extraordinário técnico e empresário. A rádio ganhou o apelido de Vovozinha, mas ela foi a segunda emissora de rádio do Estado, pois a primeira, e a décima de todo o país, a PRB-3, é de Juiz de Fora, inaugurada em 1926. A Mineira começou como Rádio Sociedade, igual a todas dos primeiros anos da radiodifusão no Brasil. A inauguração da Sociedade Mineira de Rádio teve discursos dos seus diretores, Alberto Deodato e Josafá Florêncio. O detalhe mais marcante, porém, é o da estreia, naquele dia, do primeiro cantor de rádio da história da cidade e possivelmente do Estado. Foi o bancário, depois médico, colecionador de discos raros e cultor da música tradicional brasileira, Zeno Santa Rosa. Não se sabe, porém, o que Zeno cantou. Os que o conheceram creem ter sido algum sucesso de Francisco Alves, que ele muito admirava. Foi também na Mineira que Noel Rosa (Noel de Medeiros Rosa, 1910-1937) cantou, em 1935, quando veio à cidade para tentar se curar da tuberculose que o mataria dois anos depois. O que Noel teria cantado com exclusividade para os ouvintes da PRC-7? Sabe-se que ele compôs, em Belo Horizonte, João Ninguém e Cansei de Pedir. E escreveu a letra de um dos seus mais bonitos sambas – Só Pode Ser Você; mas, como a música é do seu parceiro Vadico (Oswaldo de Almeida Gogliano, 1910-1952), os ouvintes da Mineira não tiveram o privilégio de ouvi-lo antes do resto do Brasil. Segundo a biografia de Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier (Noel Rosa – Uma Biografia), o lançamento de Só Pode Ser Você ocorreu no Rio, na rádio Guanabara, hoje sepultada pelo tempo, como a Mineira. Ao vir para Belo Horizonte, em 1935, Noel Rosa seguiu o mesmo caminho feito por centenas, talvez milhares, de tuberculosos que passavam temporadas na cidade, à procura do clima seco das montanhas, tido como uma parte fundamental do tratamento. Isso criou um problema para o Clube dos Bancários, que ficava na Avenida Paraná, pois correu a notícia de que muitos desses bancários eram doentes e haviam pedido transfe-

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rência para Belo Horizonte em busca da cura. As moças ficaram relutantes em frequentar o salão do clube. A convicção popular do poder de cura da tuberculose no clima das montanhas se desfez a partir de maio de 1951, quando o Diário da Tarde publicou como manchete da sua primeira página o desmentido da ciência: o valor terapêutico das montanhas não passava de um mito, que não resistiu aos estudos dos especialistas. As pensões-sanatório desapareceram. O papel pioneiro da Mineira é notável em muitos aspectos. Além de ter sido uma das poucas emissoras onde Noel se apresentou, foi a primeira que Dalva de Oliveira conheceu e cantou, abandonando o circo, literalmente o seu trampolim para a fama. Rômulo Paes ouviu Dalva – que, na época, ainda era Vicentina de Paula Oliveira - cantarolando no Hotel Metrópole, onde estava hospedada, e imediatamente a levou para a Mineira, que ficava a menos de cem metros. Em 1950, Dalva retribuiu essa ajuda decisiva, gravando o samba-canção Sebastiana da Silva, uma das melhores composições de Rômulo, sucesso nacional, gravado também por Acir Antão e Helena Penna. Foi ali também que o nosso Gilberto Santana cantou pela primeira vez num microfone, aos seis anos, de pé sobre uma cadeira. E quantas das suas belas poesias Bueno de Rivera não teria lido primeiro ao microfone da Rádio Mineira? Há mais para destacá-la na radiofonia da cidade. No dia 20 de novembro de 1932, a ineira fez a primeira transmissão de um jogo de futebol. O locutor era Emílio Curtiss Lima (tio do Jairo Anatólio). O jogo, no estádio Antônio Carlos – Atlético x Vasco da Gama – terminou num empate sem gols. As estrelas da tarde histórica foram o vascaíno Domingos da Guia e o atleticano Nariz. O Estado de Minas, do dia 22 daquele mês, deu a notícia do jogo, que ocupou quase uma página, sob o título: VASCO E ATHLETICO HEROES DE UM ZERO A ZERO SENSACIONAL Numa nota separada, o jornal informou sobre a transmissão radiofônica: Alcançou completo exito a irradiação do grande interestadual de domingo entre Vasco e Athletico feita pela Sociedade Radio Mineira, simultaneamente com a Companhia Telephonica Brasileira e a P.R.A.V. do Rio. Nenhuma referência ao fato de ter sido o primeiro jogo transmitido pelo rádio na cidade e, mais estranho ainda, a omissão do nome do narrador desse jogo – o narrador que não teve a oportunidade de gritar gol. Os ouvintes ainda lamentavam, em 1951, o fim inesperado de um dos mais originais programas que F. Andrade criou na Guarani. Ele e Maria Suely mantinham a cidade atenta à Conversa de Telefone, na qual, durante cinco minutos, discutiam um fato do dia como bons amigos, expressando opiniões, antes da Hora do Brasil. O programa era anunciado com um arranjo do clássico Mon Révèrie, de Claude Debussy, gravado em 1938 pela orquestra do norteamericano Larry Clinton, com a solista Bea Wain. Letra escrita pelo próprio Clinton, mas no programa eram ouvidos somente os trechos iniciais da música.

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Nas décadas de 40 e 50, a influência do rádio projetava os seus locutores quase na mesma escala dos cantores, radioatores e músicos. A lista dessas vozes, que a cidade admirava, é grande: Hermínio Machado, Jairo Anatólio, Teófilo Pires, Ibrahim Houri, Bernardo Grimberg, Anete Araújo, Agnaldo Rabelo (que era também cantor e produtor de programas), Paulo Scalabrini, Maria Suely, Giacomino Tomazzi, Milton Panzi, Januário Carneiro, Ulpiano Chaves, Levy Freire, Ramos de Carvalho, Rubem Tomich, Souza Júnior, Hégler Brant Aleixo, Áurea Margot, Leopoldo Bambirra, Cleto Campomori Filho, Lydia Sheyla, Orlando Pacheco, Miranda Júnior, Iracema Pierre, Hílton Renault, Paulo Nunes Vieira, José Junquilho, Helionice Rabelo Mourão, Bueno de Rivera, Aluízio Campos, Paulo Gonçalves, Nelson Thibau, Silva Filho, Alencar da Silveira, Roberto Márcio, Getúlio Milton Felicíssimo, René de Chateaubriand, Marcos Durães, Antônio Ribeiro, Lucélio Gomes, José Lino Souza Barros, Alair Almeida, Luiz Pedro Rodrigues(**), Fausto Carvalho, Jaime Gomide, Amaury Valério, Fausto Santana, Ana Lúcia Kattah e Rui Chaves, entre outros. Depois, surgiram Milton Colen, Gilberto Amaral, Dênio Moreira, Fernando Sasso, José Céu Azul Soares (narrador de esportes, que veio de Juiz de Fora para a Inconfidência), Erasmo Ângelo, Assad de Almeida (que foi diretor da Guarani e da Inconfidência), Alfredo Farah, Hamilton Macedo, Geraldo Porto Bonfim, Roberto Soares, Ângelo Resende, Enoque Passos, Antônio Augusto, Alair Almeida, Francisco Dolabela, Marco Antônio França, Luiz Pedro Rodrigues, Américo Vilhena e outros mais. Muitos deles eram a própria identidade de programas populares, como Giacomino Tomazzi, que por longos anos apresentou a Hora do Fazendeiro. Celso Garcia, Gilberto Santana, Leo Belico, Abílio Lessa, Geny Moraes, Flávio de Alencar, Nívea de Paula, Alaor Brasil, Eunice Fialho, os irmãos Zeno e Delfino Santa Rosa, Wilson Bistene (mais tarde rebatizado como Wilson Roberto), Neuzinha Queiroz, Souza Santos, Helena Ribeiro, Maria Marta, Ricardo Parreiras, Luís Cláudio, Otavinho da Matta Machado, Mabel Tolentino, César de Aguiar, Dayse Guastini, Helena Ribeiro, Rosana Toledo, Miriam Marquez, Isnard Simone, Paulo Marquez, Ieda Prado, Sinésio Silva, Carlos Hamilton, Dina Fernanda, Geraldo Alves, Neide e Nanci, Rogério Pacheco, Jackson Campos, Léo Bahia, e Geraldo Tavares eram os nossos melhores cantores. Nenhum conseguia viver exclusivamente do canto. Abílio Lessa era também compositor, locutor, poeta e pintor. Celso Garcia era óptico, além de compositor. Gilberto Santana, dentista da turma de 51. Alaor Brasil, Leo Belico e Zeno Santa Rosa eram bancários. Delfino Santa Rosa, irmão de Zeno, foi representante de laboratório e depois corretor de imóveis. Souza Santos e Ricardo Parreiras, comerciantes. Luiz Cláudio cursava a Escola de Arquitetura. Armando Alberto e Adelchi Ziller, funcionários da Previdência. Floriano de Paula, funcionário da Caixa Econômica. José de Souza Júnior, professor de português. Caio Lafetá, produtor da Inconfidência, trabalhava na secretaria da Agricultura. Geraldo Porto Bonfim, linotipista do Estado de Minas. Barroca Marinho, produtor da Guarani, também era funcionário público – todos procuravam ter uma atividade básica para o seu sustento, pois o rádio pagava muito pouco. Alguns outros exemplos: Teófilo

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Pires era médico e, mais tarde, político. Hégler Brant Aleixo dividia as suas longas horas de trabalho com o jornalismo e o cargo de secretário da Faculdade de Direito. O locutor e poeta Bueno de Rivera (Odorico Bueno de Rivera) criou o Guia Rivera, uma popular publicação anual, como a sua principal fonte de subsistência. O guia era um livro de mais de 400 páginas, com informações gerais sobre Belo Horizonte e os municípios do Estado – formato de todos os guias que surgiriam depois, no país inteiro. Esse perfil identificava os radialistas de todas as partes. A Nacional do Rio tinha dois médicos (Max Nunes e Paulo Roberto, cujo nome de batismo era José Marques Gomes) e um dentista, Jorge Curi. O locutor Luiz Jatobá era também médico. E Alberto Curi, protético. Manuel Barcelos e Saint Clair Lopes, advogados. Em São Paulo, o narrador de esportes Walter Abrahão conciliava as suas obrigações ao microfone com a advocacia e a política. Nicolau Tuma, o primeiro locutor esportivo do rádio paulista, foi advogado e também político. Osmar de Oliveira, comentarista de esportes na televisão, é médico ortopedista; Heródoto Barbeiro, âncora da CBN, é professor de História, fazendo jus ao seu homônimo, o chamado “pai da história”. José Carlos Araújo, narrador de futebol, é professor de geografia. E o compositor Fernando César, português nato, era o dono da fábrica de sabão Português. Nos anos 50, o cantor de Minas que mais gravou foi Luiz Cláudio (Luiz Cláudio de Castro), sobretudo depois de se mudar para o Rio. O seu primeiro disco, em 1952, tinha o selo Sinter: no lado A, Fim de Semana (Rômulo Paes-Nilo Ramos); e, no B, Primavera em Setembro (Kurt Weill, versão de André Rosito). Ele começou na Inconfidência, mas não como solista. Era integrante do trio Trovadores do Luar, em 1948. Quando se tornou solista, as suas primeiras apresentações foram em inglês. Como compositor, Luiz Cláudio alcançou a glória de ter como parceiros nada menos do que Carlos Drummond de Andrade, em Viola de Bolso, e Guimarães Rosa, em O Galo Cantou na Serra, versos que ele musicou e que estão no volume 2 da sua magnífica coletânea. Ser aceito por uma gravadora de peso, e todas elas ficavam no Rio de Janeiro, parecia quase impossível. Depois de Luiz Cláudio, quem lá esteve e fez um disco muito bom foi Gilberto Santana. Ele gravou, em 1954, na RCA, Mulata Imperial e Fantasia de Minas mGerais, sambas de Rômulo Paes e Delê, respectivamente. Em 1958, o compositor Pacífico Mascarenhas abriu um caminho até então desconhecido: foi ao Rio com o cantor Marcus Vinicius e o conjunto de Paulo Modesto para gravar o primeiro disco independente de que se tem notícia, com músicas exclusivamente da sua autoria. Foi a única maneira que Pacífico encontrou de romper as dificuldades enfrentadas pela maioria dos compositores que viviam fora do eixo Rio-São Paulo. Depois disso, a sua obra foi aceita pelas gravadoras de renome. No caso do primeiro disco, Marcus Vinicius era o Gilberto Santana, que não podia gravar com o seu próprio nome, porque tinha contrato com a RCA. Na década seguinte, a cidade ganhou a sua primeira gravadora, a Bemol. Foi o nosso som de independência, mas as dificuldades para

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tocar as músicas dos cantores belo-horizontinos nas emissoras de outros Estados eram imensas. O pioneirismo da Bemol não foi suficiente para firmar a presença dos nossos compositores e cantores em todo o país. Isto requeria morar no Rio, o que alguns fizeram. Outra etiqueta viria a ser inaugurada na cidade depois, a Palladium, enfrentando os mesmos obstáculos. Gilberto Santana recusou a possibilidade de fazer carreira no Rio e nunca se arrependeu. Isto aconteceu em 1944, quando Francisco Alves veio cantar na Guarani. Chico havia gravado para o carnaval de 1945 a marcha de Haroldo Lobo e Benedito Lacerda Verão no Havaí, que fez grande sucesso. A música tinha uma parte cantada pela Dalva de Oliveira, que não pôde viajar com ele para as apresentações em Belo Horizonte. Chico procurou uma voz feminina para substituí-la e não encontrou. Na hora do ensaio, o maestro Ruy Martinez pediu a Gilberto para cantar o trecho que a Dalva havia gravado. Ele fez o agudo da Dalva e Chico Alves ficou impressionadíssimo: — Menino, venha para o Rio. O seu lugar é lá. O rei da voz falava com o conhecimento de quem já havia aberto as portas do sucesso para outros cantores, um dos quais o Orlando Silva. Felizmente, Gilberto Santana continuou exclusivamente nosso. Os músicos, como os cantores e locutores, também dependiam de rendas extras para viver. Além do compromisso formal com as emissoras de rádio, tocavam em cabarés e bailes – todos tinham que se virar. O violinista Geraldo Goulart, que tocou nas orquestras da Inconfidência e na orquestra de Castilho, dividia a música com o seu consultório de dentista. Geraldo foi também das orquestras clássicas e ajudou a fundar a Sinfônica da cidade. O pandeirista Mário Vaz de Melo era o caso mais incomum. O sempre divertido Mário tocava pandeiro à noite na Inconfidência e no cabaré Montanhez e administrava o Cemitério do Bonfim, com horário integral, durante o dia. Ele chamava o Bonfim de “minha chácara”. Todos eles, sempre que podiam, se reuniam e trocavam ideias no que ficou conhecido como o “ponto dos músicos”, na Afonso Pena, em frente à Sapataria Americana. A imagem do radialista não era boa. Muitos os viam como boêmios irresponsáveis, que não pagavam suas contas e mantinham amantes. Mas todos se jactavam de ser gente de rádio, como diziam. Os radialistas que podiam usavam na lapela a miniatura dourada de um microfone, que os identificava onde aparecessem – uma identificação que atraía olhares e causava inveja. O rádio mineiro exportou para o Rio não só cantores e locutores. Em 1962, o humorista Mauro Gonçalves, da Inconfidência, foi para lá e fez grande sucesso como integrante de Os Trapalhões. Pouco antes, o radioator José Geraldo Pimenta, também da Inconfidência, foi contratado pela Rádio Nacional. A nossa contribuição ao rádio internacional tem sido considerável desde 1938, quando a BBC começou a apresentar uma programação especial para o Brasil, com o

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propósito de neutralizar a propaganda nazista transmitida para o nosso país por um locutor português. Ramos de Carvalho foi o primeiro profissional de Minas a ser contratado e isto aconteceu nos tempos difíceis da II Guerra. Ele abriu o caminho para muitos outros. Ramos de Carvalho foi diretor da Rádio Inconfidência e, depois, teve a sua própria emissora, a Rádio Jornal de Minas. (*) Em 1918, líderes da revolução bolchevique na Rússia pediram aos cientistas do país para criar um meio de comunicação de massa, destinando para isto parte do ouro que encontraram nos cofres dos czares. O rádio, no entanto, só viria a ser conhecido e popularizado a partir de 1922, nos EUA. (**) Luiz Pedro Rodrigues é o autor de “Show do Rádio”, um dos dois livros sobre a história do rádio mineiro. O outro é “Senhores ouvintes, no ar: a cidade e o rádio”, de Fábio Martins.

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A real história da sra. Valentim, ex-Hilda Furacão

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vida noturna de Belo Horizonte, como a de todas as outras cidades do país, era incrementada por uma feérica zona boêmia, que resolvia as necessidades de sexo dos maiores de 18 anos. O prestígio das zonas declinou com a grande revolução social dos anos 60, preconizada pela invenção da pílula anticoncepcional, que deu às mulheres uma liberdade até então inimaginável. Mas o sexo propedêutico de numerosas gerações foi ensinado na zona boêmia, território muito frequentado e, possivelmente, não tão boêmio como a sua definição indicava. Tendo a rua dos Guaicurus como principal vertente, a nossa zona deslumbrava os jovens com os encantos das suas mulheres nos hotéis ou pensões, onde os quartos cheiravam a incenso, as camas eram invariavelmente cobertas com edredons vermelhos e as paredes decoradas com quadros de São Jorge. Entre as mais populares anfitriãs das noitadas da Guaicurus se achava Hilda Furacão, pernambucana, baixinha, olhos amendoados, realçando a tez de mulata clara, bemeducada no trato com os clientes. Os clientes alfabetizados eram, às vezes, solicitados a escrever para ela cartas dirigidas à mãe, anunciando o envio de dinheiro. Filha dedicada, caiu na vida levada pelas circunstâncias, mas nunca abandonou a família. Em 1959, Hilda casou-se com Paulinho Valentim, jogador do Atlético, goleador pródigo, vendido ao Botafogo, três anos antes, por um milhão de cruzeiros. O Botafogo foi campeão carioca de 1957, vencendo o Fluminense por 6 a 2, cinco gols marcados por ele. Esses gols e, mais, o corajoso desempenho que teve no Sul-Americano disputado na Argentina, em 59, quando enfrentou no braço o time inteiro do Uruguai e depois marcou dois gols (Brasil 3 a 1), levaram o Botafogo a multiplicar o valor do seu passe, um ano depois. E Paulinho foi vendido ao Boca Juniors, de Buenos Aires, por seis milhões, iniciando ali a fase mais gloriosa da sua carreira. O casamento de Paulinho com Hilda (não se sabe quem a apelidou de Furacão, mas a razão é bastante óbvia), realizado em Barra Mansa, teve como um dos padrinhos o jornalista João Saldanha (João Jobim Alves Saldanha, 1917-1990), então técnico do Botafogo. E foi a culminância de uma bela história de devoção sentimental. A paixão de Paulinho por Hilda era pura e absolutamente despida de preconceitos. Paulinho seguiu o ditado popular e a força do coração, reconhecendo que “não há luar como o de janeiro, nem amor como o primeiro”. E a ela se dedicou com a ternura dos apaixonados, fazendo questão de se casar de acordo com as imposições da lei e da religião. Mas o casamento

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não passou sem um incidente protagonizado por Saldanha, como ele próprio me contou, durante uma visita a Londres, em 1979. Saldanha viu-se incitado a interromper o sermão do padre celebrante, que insistia em se referir ao passado de Hilda e à grande oportunidade que Deus lhe havia dado. — Chega, seu padre -, gritou Saldanha. – Por favor, case logo os dois. Esse aparte ganhou o aplauso imediato do pai do noivo, também ex-jogador do Atlético, o zagueiro Quim: — Muito bem, seu João — disse Quim, com a expressão fechada, de fúria. — Eu já ia mesmo “dar uma decisão” nesse padre…

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Conheci Hilda, ou Sra. Valentim, em Buenos Aires, em 1961, numa excelente casa do airro da Boca – a postura séria da esposa prendada, companheira inigualável. Diziam que, nos fins de semana, sentada na tribuna de honra do estádio conhecido como La Bombonera, Hilda era tratada como se fosse a primeira dama do clube, desfrutando das aclamações dirigidas a Paulinho, grande e inesquecível ídolo da torcida local. Era um casal muito feliz. Paulinho, tido e havido como um grande brigão, referia-se a Hilda como a sua salvação. — Não fosse ela, eu já estaria morto! No ano seguinte, voltei a visitá-los e os encontrei numa nova morada, um luxuoso apartamento na Calle Uriburu. Aí, num gesto que mais parecia uma confidência, os dois me deram a oportunidade de ver o dinheiro que acumularam em pouco tempo, esclarecendo, porém, que a maior parte da riqueza já havia sido investida na compra de imóveis no Rio. A caminho da salinha onde se achava a fortuna, passei pelo quarto de vestir, que tinha toda uma parede ocupada pelos guarda-roupas de Paulinho, com uns 30 ternos e um número talvez ainda maior de pares de sapato. Na outra parede, a mesma coisa com as roupas de Hilda, mas ela não as mostrou. Preferiu mostrar o dinheiro e o ouro que mantinham em casa: duas caixas de sapatos, tão cheias de notas de cem dólares que as tampas mal se equilibravam sobre a superfície irregular que o dinheiro formava; e duas caixas de charutos, repletas de moedas-ouro, ganhas por Paulinho do presidente do clube, Alberto J. Armando. Quando perguntei a Hilda por que não guardavam toda aquela fortuna na caixa-forte de algum banco, ela fez apenas um movimento de indiferença com o rosto, que interpretei como um voto de não confiança na proteção que pudesse ser dada ao dinheiro e ao ouro fora do seu apartamento. A história dos dois não terminou bem. Saldanha testemunhou uma das fases do declínio, depois dos anos faustosos em Buenos Aires: — Ao final da sua carreira de jogador do Boca, em 1965, Paulinho foi para o México. Já tinha perdido, na mesa de jogo, quase tudo que ganhara em Buenos Aires. Eu estava na Cidade do México e, por indicações de amigos, fui vê-lo em Acapulco, não como jogador, mas trabalhador braçal. Ao notar a minha presença, ele se esquivou, envergonhado da pobreza em que vivia. Queria voltar ao Brasil, mas não tinha recursos. Eu e o Pelé pagamos a passagem dele. Na própria versão de Paulinho, o que de fato aconteceu foi o colapso do seu negócio de postos de gasolina, no México, devido à alta do combustível. Ele se ofereceu para trabalhar no Atlético, mas não teve sorte. Depois, tentou e conseguiu voltar para Buenos Aires, reintegrando-se ao seu querido Boca Juniors, como responsável pelas divisões de base do clube, mas a sua saúde estava irreversivelmente debilitada. Morreu de tuberculose, em julho de 1984, aos 52 anos, e foi enterrado pelo Boca Juniors com as honras de

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herói do clube. Ao longo do féretro, a lembrança do grito da torcida que levava Paulinho a arrasar as defesas adversárias: “Tim-Tim-Tim! Valentim!”. De Hilda, nada mais se soube. O seu nome foi usado num dos mais populares romances escritos por Roberto Drummond, depois transformado em minissérie de televisão, com extraordinário sucesso. Apenas o nome, porque a história é fictícia. Cinco cabarés animavam a zona boêmia e as áreas mais próximas, que Hilda deixou para trás na grande guinada da sua vida. Cabarés, ou dancings, que, na verdade, ela raramente frequentou. O mais sofisticado, o Montanhez, mantendo neste “z” final a ortografia de outros tempos; o Chantecler; o Mariana; o Palácio e o Capitólio, os três últimos mais modestos, ao alcance de quem tinha de contar os trocados no bolso. No Montanhez, quem quisesse dançar ao som de alguns dos melhores músicos da cidade, como o pianista Mauro Coura Macedo, e os irmãos Prata (Bié na bateria, Olavo no contrabaixo e Ari no trompete), regidos pelo maestro Oswaldo Castilho, tinha de pagar pelo tempo que ficasse com a dançarina. Isto era registrado num cartão perfurado pelo fiscal do salão, de acordo com o número de músicas que o par tivesse dançado. As dançarinas ficavam à disposição dos frequentadores e não podiam namorar quem as tirasse. Podiam ser esfregadas, mas não namoradas. O fiscal, aliás, era uma figura especial. Vestido de paletó e gravata, quase sempre ostentando um bigode, ele era respeitado e não dava intimidade a ninguém. Exercia o seu trabalho com a sobriedade popular, em plena zona boêmia e, sim, no recinto sério de um salão paroquial. No Palácio, costumava tocar no piano da casa um jovem de vasta cabeleira, que, alguns anos depois, encantaria o país inteiro, compondo músicas como Palhaçada, Canção da Manhã Feliz, Moeda Quebrada, Tudo é Magnífico, Meu Nome é Ninguém, Notícia de Jornal, entre outras. Era o Luiz Reis, ou Luiz Cabeleira, o segundo maranhense ilustre na história de Belo Horizonte, que se consagrou nos anos 50, fazendo parceria com Haroldo Barbosa. Miltinho e Elizete Cardoso foram os melhores intérpretes das suas criações. Luiz Reis foi primeiro com a família para o Rio, quando tinha quatro anos. Veio para Belo Horizonte aos 17, onde aprendeu a tocar piano. Voltou ao Rio em 1944 e lá ficou até morrer, com apenas 54 anos, em 1980. O seu irmão, Humberto, foi vereador em Belo Horizonte, na década de 50. O fim do Montanhez, em 1972, levou o jornalista Marcelo Coimbra Tavares (19191978) a escrever um histórico ensaio. Ele aviva a lembrança da geração anterior à do Montanhez, salão que surgiu em 1930, dizendo que o famoso e histórico cabaré foi um sucessor da casa criada por uma mulher que dominou as noites boêmias de Belo Horizonte durante quase toda a primeira metade do século passado, a espanhola Olímpia Vasques, conhecida como Madame Vasques. Foi na sua época que começou a cobrança pelo tempo que um casal dançasse; mas, no Montanhez, o método já havia evoluído. Marcelo explicou: “Cada dança durava cinco minutos, a princípio; depois, três apenas. O cartão era marcado por um alicate. Daí nasceu a sinfonia dos alicates. As meninas se comportavam como

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donzelas em flor, saídas das páginas de Machado de Assis ou de Proust, já muito citado pelos gibis literários da época. Havia de tudo, até virgens que se perdiam de angústia em meio a tantos casanovas noturnos. A maior safra – digo com relação às bailarinas – vinha do empório de Montes Claros, fim de linha das garotas egressas do Polígono das Secas”. Cinquenta e uma dançarinas compunham o salão do Montanhez. Elas ficavam com metade do que os seus pares pagavam. Tudo funcionava com harmonia e disciplina. - Uma época inesquecível -, disse-me Irany Cordeiro da Cunha, a Santinha, que durante 12 anos foi dançarina do Montanhez. Entre os que com ela dançaram, estavam políticos importantes, um dos quais o então prefeito da cidade, Juscelino Kubitschek. “O salão ficava mais animado quando o maestro Castilho tocava Desde el Alma (*). Que alegria e, agora, que saudade...”. Santinha, e todos os que trabalhavam na casa, prestavam obediência ao gerente Fernandão, um gigante que incutia respeito absoluto: — Mas ele era uma pessoa boníssima, que sempre procurava nos ajudar. Fernandão representava o dono do Montanhez, que só conheci de ouvir falar, pois nunca o vi. Sei apenas que se chamava Joãozinho e morava em São Paulo. Na história do Montanhez, há uma bem inspirada reverência patriótica ao fim da II Guerra Mundial na Europa, no dia 7 de maio de 1945. Naquela noite, o entusiasmo tomou conta do salão, como escreveu Marcelo Coimbra Tavares: “O empreiteiro Levínio Castilho, em ruidosa mesa, exigiu que se tocasse a Marselhesa. Então, o filho do famoso escritor Georges Bernanos – Yves – delegou poderes a mim para falar em nome dos amigos da França. Depois, Jacqueline Rolland, cantora argelina, derramou lágrimas sonoras, através de músicas cantadas por Jean Sablon”. Que celebração supimpa! Recriava-se, ao nosso estilo, a atmosfera do Rick’s Café Américain, de Casablanca, o filme dirigido por Michael Curtiz, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains e Paul Henreid, lançado três anos antes, e transformado num sucesso eterno. A inesquecível história de amor embalada ao som de As Time Goes By, de Herman Hupfeld, na voz agradável de Dooley Wilson. No Rick’s, os frequentadores se levantaram cantando a Marselhesa, para abafar o canto atrevido de um grupo de oficiais nazistas, da força invasora que, conta a história, jamais entrou na capital do Marrocos, no ano que o filme retrata em imagens criadas nos estúdios de Hollywood. A capital marroquina estava tão a salvo dos nazistas que, em janeiro de 1943, Winston Churchill e Franklin Delano Roosevelt realizaram lá a primeira conferência dos aliados, onde discutiram o futuro da Europa, sem Hitler e Mussolini. No começo dos anos 60, a cidade ganhou mais um cabaré, num ponto bem central, o Almanara. Ficava na esquina das ruas Tupinambás e Rio de Janeiro, na sobreloja de um prédio onde funcionou, em fins da década de 40, a redação do Diário de Minas. Logo passou a ser o favorito dos jornalistas. Dois deles, Felipe Drummond e Afonso Estêvão Torres, o apelidaram de PAC (Pampulha Almanara Clube), numa burla ao luxuoso e moderníssimo Pampulha Iate Clube, o PIC, construído com a assinatura de Oscar

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Niemeyer, Cândido Portinari e Burle Marx, inaugurado em 1961. O mais divertido do Almanara era a apresentação do programa artístico pelo ator Ubaldino Guimarães, o mestre-de-cerimônias voluntário da casa. Algumas gafieiras da cidade eram muito populares, como a Elite, na avenida Bias Fortes, logo depois da rua Rio Grande do Sul; Aí Vem a Marinha, na rua Guarani; o Finca, na Santos Dumont; e a Original, na Avenida Brasil. A originalidade não se limitou à da Avenida Brasil. Havia uma outra Original, na rua Brito Melo, esquina com Avenida Augusto de Lima. E os fins de semana, para quem não dispunha de dinheiro, proporcionavam idas aos animados auditórios das rádios, onde sempre havia alguma estrela da música popular para ser vista e ouvida. Difícil, às vezes, era conseguir convites, geralmente distribuídos pelos patrocinadores comerciais do programa.

(*) A valsa Desde el Alma foi composta em 1911 pela uruguaia Rosita Melo, nascida Rosa Clotilde Mele. Muitos anos depois, ganhou letra de Homero Manzi e Victor Piuma Velez.

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Segurança? Coisa pra santos e pagãos

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té o fim dos anos 40, cabia à Guarda Civil o policiamento de Belo Horizonte. Havia a Guarda Civil em todas as capitais. A primeira foi criada no Rio, em 1904. Os guardas vestiam um uniforme de cor azul-cinza, portavam um revólver e um cassetete. A Rádio Patrulha estava subordinada a essa força. Policiais à paisana usavam gravata, paletó jaquetão e chapéu, como nos filmes norteamericanos. A disciplina do movimento de veículos nas ruas competia aos “inspetores de trânsito”, que usavam uniformes de brim cáqui, mais puxados para o amarelo. E um apito de som agudo e prolongado para convergir a atenção dos motoristas à sua ordem. No começo da década de 50, o policiamento ostensivo da cidade já estava entregue à Polícia Militar. Antes, a única unidade requerida para esse trabalho era a cavalaria, quase sempre para ajudar a polícia civil a dissolver manifestações de protesto contra a ditadura de Getúlio Vargas. Essas manifestações raramente levavam os seus participantes à prisão, como conta um deles, o escritor José Bento Teixeira de Salles, na época estudante de Direito. Aliás, o protesto político parecia, então, uma exclusividade dos estudantes de Direito e Filosofia. A Guarda Civil foi extinta em 1969 em todos os Estados onde existia, por decisão do governo militar. Em 1956, seguindo o exemplo do Rio, a PMMG criou as duplas para a missão de manter a lei e a ordem nas ruas. No Rio, elas foram batizadas de Cosme e Damião. Em Minas, eram Castor e Pollux, em homenagem aos filhos gêmeos de Zeus, da mitologia grega, mas que acabaram virando Cosme e Damião também, por serem os dois santos levantinos mais facilmente identificáveis. Quase não havia violência urbana. As páginas de ocorrências policiais destacavamse por notícias de acidentes, furtos domésticos, prisão de batedores de carteira, prisão de bicheiros, que, para fugir do flagrante, engoliam as listas de apostas; ou de vigaristas, que passavam o conto do bilhete premiado em vítimas incautas. De drogas, pouco se falava. Consumidores de maconha eram a baixa escória – farândola repulsiva que a polícia prendia e os jornais divulgavam. Mas Belo Horizonte já havia vivido as emoções de alguns crimes escandalosos, nunca elucidados. O primeiro foi o Crime do Parque, o assassinato do aposentado Luiz Delgado, de 60 anos, encontrado esfaqueado no Parque Municipal, no dia 4 de dezembro de 1946. O acusado, Décio Escobar, foi julgado e absolvido. Vinte e três anos depois, Décio morreu também assassinado, no Rio de Janeiro. O segundo crime que nunca levou o criminoso à cadeia foi o assassinato do motorista Marcha-a-Ré, o apelido de Francisco Isoni. O acusado, o médico Romualdo

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Neiva, estaria sendo chantageado pelo motorista, que sabia do romance dele com uma mulher casada. Mas as provas foram insuficientes e o julgamento, que a imprensa chamava de rumoroso, deu em nada. Na década de 50, o crime que agitou a cidade e levou a especulações diversas foi o assassinato do milionário libanês Aziz Abras, na sua luxuosa mansão da Avenida Olegário Maciel. De novo, ninguém foi condenado. A crônica policial da cidade descrevia em detalhe os entreveros verbais dos advogados mais conhecidos, que nunca ficaram de fora dos julgamentos de crimes famosos: Pimenta da Veiga, Amintas de Barros, Pedro Aleixo e, a partir de fins da década de 50, Menelik de Carvalho. Apesar da pequena e quase imperceptível violência nas ruas, três bandidos fizeram manchetes e colocaram áreas da cidade sob permanente vigilância. Dois agiam juntos – Zé Muniz e Ciganinho. Eles eram tão perigosos que a polícia decretou um toque de recolher na área da Lagoinha, em fins da década de 40, quando os dois ainda estavam soltos. Ciganinho morreu num tiroteio com a polícia. Seu parceiro foi preso. O outro bandido, que em 1947 enfrentou a polícia num intenso tiroteio, na rua dos Pampas, era conhecido como Sete Dedos. Acabou preso. Em todos os grandes casos policiais, aparecia o nome de Alfredo Zuquim, o mais respeitado detetive da cidade, o grande elucidador de mistérios, um faro notável. Alguns jornais o chamavam de “o nosso Sherlock Holmes”. E as grandes reportagens policiais eram assinadas por Miguel Chalup, do Diário da Tarde, um grande farejador de notícias. Em 1955, depois da exibição do filme Juventude Transviada, com James Dean e Natalie Wood, alguns jovens procuraram imitá-los, envolvendo-se em brigas. A expressão juventude transviada, ou jt, ficou popular. Malfeitores, meliantes, delinquentes, punguistas, larápios, lunfas, amigos do alheio, vigaristas, indivíduos repugnantes, decaídas, mundanas, meretrizes, marafonas, quengas (para prostitutas); e prisões de “indivíduos em atitude suspeita” faziam parte do noticiário policial, vocal e impresso. Um bordel era, na imprensa, uma “casa de tolerância”, prostíbulo ou lupanar, mas se evitava a palavra francesa rendez-vous. “Mal súbito” definia a causa de muitas mortes, clinicamente não esclarecidas para os ouvintes ou leitores da notícia. Os que morriam de tuberculose ou de câncer (doença pouco mencionada por esse nome na época) eram descritos como vítimas de um “mal insidioso”, ou pertinaz. Todos os textos eram longos, começando com aquilo que, no jargão jornalístico, chamava-se nariz de cera – uma abertura rebuscada, adjetivada, que apresentava o fato a ser descrito. Isto foi regra geral para todos os assuntos, até à chegada do lead, trazido pelo Diário Carioca (1928-1965). No noticiário de acontecimentos sociais, que antecedeu as colunas, saíam descrições como: “fulano não chegou ontem para os abraços, na comemoração do seu aniversário”. Ou, então: “Acha-se enriquecido o lar de Beltrano, com o nascimento de um robusto pimpolho que, na pia batismal, recebeu o nome de Ciclano”. A notícia informava, a seguir, que os jubilosos pais ofereceram

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a amigos e parentes “uma lauta mesa de doces e salgadinhos” para comemorar a chegada do rebento. Em tais ocasiões, mesa alguma deixava de ser lauta. Notícia de noivado era dada invariavelmente com o mesmo palavreado: “Contratou casamento com a srta...”. Com a paz que aprazia os bairros, as madrugadas podiam e eram, com frequência, enfeitadas por serestas. E como havia seresteiros em Belo Horizonte! Alguns mais afinados do que os outros, mas todos cantavam à janela dos seus amores, exprimindo sentimentos nunca manifestados no contato pessoal, por serem contidos pela timidez. Difícil, mas não impossível, era trazer alguma voz profissional para tais enlevos. Serenata com Flávio de Alencar, Abílio Lessa, Souza Santos, Gilberto Santana, Leo Bélico, Geraldo Tavares, Geraldo Alves – um privilégio raro e comentado. Algumas praças dos bairros da pequena Belo Horizonte de fins dos anos 40 foram transformadas em auditório do Cine Grátis, que atraía multidões. Foi ideia de um grupo de jovens, tendo à frente Márcio Quintino dos Santos. De domingo a quinta-feira, os filmes eram exibidos em locais fixos: praças da Liberdade, Benjamin Guimarães, Santa Teresa, Santa Efigênia e Raul Soares. Nos outros dias da semana, os locais variavam, atendendo a pedidos dos anunciantes.

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— Chegamos a ter plateias de até cinco mil pessoas, recorda Márcio Quintino dos Santos. Eram filmes de 16 milímetros e, na programação, incluíamos muito material de utilidade pública, pelo qual nada era cobrado. Os anúncios comerciais sustentavam o Cine Grátis, que durou ate 1960. Depois, foi levado para Brasília, onde ficou uns dez anos. O Cine Grátis era assistido em alguns locais de calçamento de pedras, ou pés-demoleque, pois o asfalto cobria uma área muito pequena da cidade. Pelo menos duas vezes por ano, as ruas e praças ainda não asfaltadas tinham de ser limpas da vegetação que nascia nos pequenos espaços criados pela irregularidade das pedras. Isso era trabalho para a turma do ferrinho, meninos de origem humilde, que passavam longas horas com a sua pequena ferramenta, semelhante a um enorme anzol de duas pontas, removendo o mato que havia crescido irrigado pelas chuvas. Outros meninos os viam com inveja, sobretudo à hora do almoço. Os da turma do ferrinho traziam de casa a sua marmita de alumínio, que, de tão bem lavada, brilhava como se fosse de prata. A marmita estava, no geral, cheia pela metade com arroz, feijão, couve e, quando possível, algum vestígio de carne. Um a um, eles a colocavam para ser esquentada numa chapa de metal, sustentada por pedras que as separavam do fogo feito por gravetos, compondo assim o mais rústico dos fogões. Os operários-mirins baixavam a cabeça, comiam silentes, como entregues a uma oração silabada no movimento da boca. A expressão de contentamento no rosto de cada um sugeria que eles comiam a mais fina das refeições. E, guardadas as circunstâncias, tratava- se mesmo da mais fina das refeições. Os olhares dos que os viam comer sugeriam inveja. Eu era um desses olhares. A turma do ferrinho, cujo trabalho foi em parte substituído por herbicidas, tinha uma incumbência refulgente, de resultados imediatamente visíveis. Ainda há turmas do ferrinho na cidade, mas com o asfalto se tornando comum, seu futuro parece pouco assegurado. Já as ruas asfaltadas eram lavadas pelo pomposo caminhão d’água. Os meninos corriam para sentir nos seus pés descalços o jorro higiênico, que removia de uma só vez o sujo, deixando o asfalto perfeitamente limpo. Todas as ruas dos bairros da cidade eram frequentemente percorridas pela carrocinha de cachorro, que nada tinha de carroça. Era, sim, um furgão de pequenas janelas laterais, com uma jaula onde ficavam os animais capturados. A porta de fundo desse veículo permanecia aberta, para facilitar a entrada à força dos cachorros. Não havia, na calma dos bairros, momento de maior aflição, quando não de lamentos, para quem acompanhasse o desempenho dos que dominavam a laço os animais vagando sem direção e que, diziam, podiam ser raivosos. Não eram, pois os meninos sabiam que os zangados babavam, andando com o rabo abatido entre as patas. Mas dois laçadores, cuja destreza parecia inspirada em Roy Rogers, faziam tudo para justificar o que ganhavam da prefeitura. A torcida para o cachorro os sobrepujava, porque todo mundo gritava, com alívio e entusiasmo, quando o animal se desvencilhava da investida do laçador; ou

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sofria com a expressão desolada dos enlaçados que, diziam, seriam logo levados à fábrica de sabão – um absurdo que só as crianças menores podiam acreditar. Alguns açulavam os cachorros contra os laçadores, na esperança de refreá-los pelo medo de uma mordida do animal supostamente zangado. Carrocinha era também o nome dado aos veículos da polícia. Isto durou até fins da década de 40, quando foi criada a Rádio Patrulha. Outra peculiaridade da época era chamar a ambulância de assistência. “Chamem a assistência do Pronto Socorro”, era o grito que se ouvia, no caso de um acidente. A música popular nos diz que, no Rio, e possivelmente em outras cidades do país, ocorria a mesma coisa (*). O principal centro social dos bairros era, sem exceção, o adro da igreja, ou a praça da igreja, onde igreja houvesse. Os jovens ali se encontravam e, quando conseguiam pôr de lado a timidez, que fazia parte dos condicionamentos da educação familiar, pediam licença para se aproximar das moças e consideravam, assim, a sua missão cumprida, causando inveja aos companheiros. O nosso mecanismo sentimental era ativado pelo acanhamento, sem dúvida recíproco, da parte das meninas. O olhar disfarçado e a pose expressando indiferença, que elas tentavam impor, ocultavam a vontade de reagir favoravelmente à aproximação de quem lhes caísse bem. Era assim o formato da vida que levávamos e que não merecia reparos. Mas quando ouvíamos falar das moças mais liberais – no geral, esta referência se relacionava às cariocas – aí dávamos asas à imaginação. O adro só ficava vazio quando, nas proximidades, estivesse um parque de diversões – geralmente parques muito modestos, de temporada limitada, com gangorras movidas a eletricidade; uma roda-gigante que, de gigante, nada tinha; barraquinhas e um serviço de alto-falantes para apresentar a música de discos que chiavam, de tanto que já haviam sido tocados. E que o locutor, geralmente sonhando com o microfone de alguma emissora de rádio, anunciava como oferenda paga por quem não sabia como revelar seus sentimentos a alguma das frequentadoras do parque. Por isso, ele se referia apenas à jovem de tranças, ou à moça mais bonita que aqui se encontra. As moças preparavam-se para ir ao cinema ou passear nos adros e praças com papelotes nos cabelos, a fim de torná-los anelados. Não havia ainda os rolinhos, que foram primeiro de papelão, depois de plástico; os papelotes eram essenciais. Botequins humildes; sapateiros com suas oficinas pequenas; um armazém modesto – ou venda; quitandas; armarinhos; e um indefectível salão de barbeiro constituíam o comércio básico dos bairros mais distantes. As barbearias, com duas ou três cadeiras de atendimento, possuíam quase sempre uma gaiola com passarinhos cantantes, que pareciam harmonizar os seus sons com o tilintar das tesouras cortando cabelos. E, ao fundo, outra peça indispensável: um rádio que, pela manhã, estava quase sempre ligado na Mineira, no programa Valsas e Mais Valsas: a alegria dos Strauss ou das composições de Ernesto Nazareh animando o começo do dia. Os bairros tinham também um comércio ambulante variado: prestamistas, muitos deles, ou todos, judeus refugiados da guerra, vendiam tecidos, joias, produtos de beleza,

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confiando na seriedade dos clientes, que pagavam em parcelas mensais ou semanais; vendedores de dobradinha, que as traziam em latas equilibradas na cabeça sobre rodilhas para suavizar o peso; e verdureiros, fruteiros e doceiros, oferecendo cocadas, pésde-moleque, canudinhos de doce de leite e geléia de mocotó; pipoqueiros; sorveteiros; compradores de garrafas vazias; e amoladores de faca, que se anunciavam com uma matraca. Fazia parte também do comércio ambulante dos bairros o vendedor de refrescos – de groselha ou de outros extratos de frutas. Eles raspavam uma barra de gelo com uma prancha, enchiam o copo com esse gelo, colocavam por cima uma pequena porção do xarope que escolhíamos e a completavam com água, criando uma bebida muito saborosa. Nos quintais, os meninos jogavam bolinha de gude nos espaços que sobravam dos canteiros com verduras. Todas as casas com algum quintal tinham uma horta. Couve, mostarda, repolho, chuchu, abóbora, tomate, alface – um alívio para as despesas domésticas. Nas noites de verão, cadeiras no passeio reuniam vizinhos para longas conversas, alguns escapando da Hora do Brasil, cujo palavrório não conseguiam digerir. Às vezes, aparecia um violão, um bandolim e a noite se fazia mais prolongada, mas jamais além das dez horas. Entre os bairros e o centro, a distância era, por certo, muito pequena na Belo Horizonte da década de 50. Ir ao centro significava ir à “cidade”, para quem preferia o comércio mais fino ou tinha negócios a resolver numa agência bancária. Esse centro, enfocado na Praça Sete e nos quarteirões vizinhos da Afonso Pena, ocupava uma área bem pequena. E ninguém se apresentava nas suas ruas sem estar bem vestido. Os homens não evitavam o paletó e a gravata. Alguns bairros, como a Floresta, Santa Teresa, Santo Antônio, Lagoinha e Calafate ganhavam vida própria, com comércio variado, transporte fácil e mercado de trabalho. Mas não se comparavam à pujança do Barro Preto, criada e estimulada por fatores variados, um dos quais a corrente migratória italiana. Entre os anos 40 e começo da década de 60, o Barro Preto teve: • dois cinemas (o Democrata e o São Sebastião, ambos na Av. Augusto de Lima) • dois grupos escolares, o Francisco Salles e o Caetano Azeredo, estranhamente construídos no mesmo quarteirão da rua Guajajaras • um clube de futebol profissional com estádio, Cruzeiro E. C. • um clube de basquete e voleibol, o Sirio-Libanês • a melhor escola secundária do Estado, e talvez do país, o Colégio Estadual, que, antes, se chamava Ginásio Mineiro • uma ótima escola de ensino industrial, a Escola Técnica de Belo Horizonte (foi lá onde estudei e aprendi a ler livros de literatura) • um regimento do exército, na época o 10º R.I. • um grande e bonito templo católico, a igreja de São Sebastião • a banda de música Furiosa, que tocava nas procissões do bairro

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• um templo do Racionalismo Cristão, bem atrás da igreja, na Guajajaras • uma igreja presbiteriana, na Av. Augusto de Lima • a sede de uma entidade comunitária, a União Síria, dirigida, na época, pelo mais renomado e querido imigrante sírio, Antônio Cadar • o Instituto Pestalozzi para crianças deficientes, na Ouro Preto • dois hospitais - o Felício Roxo e o Vera Cruz • duas fábricas de carroças, que pertenciam à família Chiari • uma fábrica de massas, da família Isoni • uma fábrica de sapatos, da família Grosso • uma fábrica de cigarros, da Companhia Souza Cruz • uma fábrica de móveis, a Minarte • uma indústria de equipamentos de precisão, a Nansen, na Avenida Barbacena com Juiz de Fora • uma fábrica da Coca-Cola • a fábrica de bebidas Paraguai, onde, em 1947, Luiz Torres de Oliveira criou o gostoso Mate-Couro • uma delegacia policial, o 3° Distrito, na rua Araguari • a Forjinha, fabricante de suspensão de veículos (que parava ao meio-dia e às 18 horas, para que todos os operários rezassem) • a indústria de laticínios Novo Horizonte, produtora de uma deliciosa manteiga • a Padaria das Famílias, na rua Juiz de Fora, famosa pela panhoca e pão de massa sovada, atraindo consumidores dos bairros vizinhos • um competente e dedicado farmacêutico, o italiano Romualdo Zaratini, dono da farmácia Santana (era ele, sem dúvida, o médico do lugar) • a Casa de Correção Antônio Dutra Ladeira, onde os presos trabalhavam e vendiam o que produziam para benefício próprio • uma gafieira, o Original Choros • um bar da fuzarca, o Flamengo, na Avenida Augusto de Lima • a Casa Lopes, notória fortaleza do jogo do bicho • dois randevus, o mais famoso o da Margarida, na discreta rua Uberaba, até hoje recordado com saudade pelos que foram seus clientes; o outro na rua Tupis (durante certo tempo, existiu um terceiro bordel, na Timbiras, fechado por pressão da vizinhança) • dois blocos de carnaval, o Rouxinol e o do sargento Dorval, este meio estranho, pois os seus integrantes saíam vestidos de mulher • o armazém do Aramuni, grande e bem sortido, cujo maior concorrente era o armazém do ‘seu’ Bené, sede do amador Jabaquara F. C. • três outros bares, hoje integrados à história do bairro: o Camisa Preta, reduto de italianos simpatizantes de Mussolini; o bar do Bento Cunha, sede do Sampaio F. C.; e o Casablanca, que, embora na Praça Raul Soares, era bem barropretano

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• transporte eficiente, com bondes e ônibus. Pelo Barro Preto passavam as linhas dos bondes Gameleira, Calafate e Prado. E muitas de ônibus (na época, eram os lotações, veículos menores). Faltava ao Barro Preto, sim, uma praça, mas a Raul Soares era tida como uma espécie de protetorado do bairro. A Souza Cruz levou um dos padres da igreja de São Sebastião a dirigir-se a uma beata, que acabava de se confessar fumante, com uma paródia da Ave Maria: . O meu coração pertence a Jesus. E o meu pulmão... é da Souza Cruz! Avê, Avê... Avê Mariá... Naquele Brasil distante e saudoso, ser elegante era, entre outras coisas, usar um terno de linho S-120, tecido importado da Irlanda. Nos atavios dessa elegância, os adultos raramente abandonavam a gravata. E, às vezes, a completavam com o chapéu de feltro ou panamá. Podia ser às vezes desconfortável, mas ninguém parecia se preocupar. Ter uma caneta-tinteiro Parker 51 era outra expressão de prosperidade. Terno de tropical brilhante Mohair, tecido vindo da Inglaterra, e óculos ray ban, acentuavam a elegância de quem podia tê-los. As colunas sociais começaram com Sérvulo Coimbra Tavares, irmão do Rômulo Paes e do Marcelo Tavares, que escrevia a Ronda Elegante no Diário da Tarde, com o pseudônimo de Cirano. Depois, veio o Wilson Frade, no Estado de Minas, que assinava Rohan (antes do jornalismo, Wilson foi cantor de rádio). Os dois desbravaram um tipo de colunismo adotado por todos os jornais da cidade. Ana Marina, Odin Andrade, José Maurício, Mário Fontana, Eduardo Coury, Paulo César de Oliveira e Roberto Elísio Filho são alguns dos seus sucessores. No começo dos anos 50, só com muita imaginação saía uma coluna diária que citasse apenas os nomes da sociedade local; uma sociedade ainda pequena e os seus personagens quase sempre os mesmos. O texto do jornalismo esportivo tinha peculiaridades. No futebol, por exemplo, um jogo era descrito como porfia, peleja, prélio, encontro, cotejo, confronto, embate, contenda, pugna... Nas tardes de tempo bom, os locutores se referiam às condições existentes como “ideais para a prática do esporte bretão…” E alguns escreviam match, como sinônimo de jogo, e coach para o técnico; os jogadores eram às vezes chamados de players; e o campo de field; mas o grande mistério era o uso de scratch, ou escrete, para a seleção nacional, estadual, municipal ou escolar. Tal palavra nunca é empregada no jornalismo esportivo inglês com esse sentido. Com certa boa vontade, escrete pode definir um combinado.

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Vivíamos uma época em que o tabaco, na sua forma mais popular, que é o cigarro, criava uma imagem de elegância e masculinidade; ou de independência, no caso das mulheres. O cigarro era chique, era romântico, hábito de gente determinada e convincente. Foi o cinema que nos ensinou a vê-lo assim. Os atores eram pagos pela indústria do cigarro para fumar nas principais cenas dos filmes. Nenhum ganhou mais de 10 mil dólares, que equivaleriam hoje a 12 vezes mais do que o valor original. Um dos que valiam 10 mil dólares foi Gary Cooper, que morreu aos 60 anos de câncer no pulmão. Não se sabe se honesta, ou desonestamente, fazia-se uma propaganda muito positiva das diferentes marcas e, ao mesmo tempo, competitiva. Cantores famosos eram contratados para promovê-las. Em meados da década de 40, Frank Sinatra foi o grande nome dos Old Gold Shows, programas de rádio transmitidos nos Estados Unidos. Além dos cigarros Old Gold, Sinatra promoveu também o Lucky Strike e o Chesterfield. Outro cantor popular, Perry Como, foi aproveitado para promover os cigarros Chesterfield. A campanha publicitária baseava-se numa pesquisa médica de dez meses, enfatizando que os fumantes da marca não sofriam qualquer efeito adverso na garganta, no nariz e nos sinus! Um segundo estudo tido como científico sobre a relação do tabaco com o câncer, feito em Londres, em 1950, concluiu que, entre os pesquisados em 20 hospitais, a única coisa em comum era o prazer de fumar... Quer dizer, o cigarro era saudável! Na II Guerra, muitos comandantes aconselharam os soldados a fumar, para acalmar os nervos, um benefício que, afinal, podia ser descrito como terapêutico. E a nossa heróica Força Expedicionária adotou como símbolo o desenho de uma cobra e um cigarro, com a legenda: A cobra vai fumar! A música também deu grande força à tese da validade do cigarro como um hábito de felicidade: em 1922, com as transmissões de rádio recém-iniciadas, Juan Viladomat Masanas e Félix Garzo compuseram um dos grandes tangos de todos os tempos, Fumando Espero. Gravado primeiro pela uruguaia Olga Delagrossi, La Dama del Tango, a letra diz: . Fumar es un placer genial, sensual; fumando espero al hombre a quién yo quiero (...). Os homens que o gravaram, como Roberto Fugazot, Rodolfo Lesica e Argentino Ledesma, trocavam “al hombre” por aquella. No Brasil, tivemos a versão escrita por Eugênio Paes, que Ângela Maria gravou. No nosso cancioneiro, o cigarro foi mencionado, sem as louvações de Fumando Espero, por Nora Ney, que gravou De Cigarro em Cigarro, de Luiz Bonfá; e por Nelson Gonçalves em Pensando em Ti, de Herivelto Martins e David Nasser, cuja letra diz: “No cigarro que eu fumo, te vejo nas espirais...”. No samba-canção Tudo é Magnífico, gravado

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por Elizeth Cardoso no selo Copacabana, o letrista Haroldo Barbosa enaltece o cigarro logo na primeira linha: ”Magnífica é aquela tragada puxada depois do café”. Há outras composições populares que falam do cigarro, mas sem dizer que fumar es un placer, genial, sensual... Nas últimas décadas do século passado, o cigarro foi condenado sem reservas. Uma legislação da União Européia, proibindo totalmente a sua propaganda, serviu de exemplo para outras partes do mundo. A vilania foi descoberta, mas, apesar dos riscos para a saúde, o tabaco continua sendo consumido por milhões, sobretudo nos países em desenvolvimento. (*) No samba Faustina, que compôs em 1936 e gravado por Almirante, Oswaldo Chaves Ribeiro, o Gadé, usou a palavra assistência para identificar ambulância. A letra desse delicioso samba, gravado também por Moreira da Silva e Jorge Veiga, diz: “É minha sogra. Mas tenha paciência, ela não passa de uma jararaca. Meu sogro foi de maca pra assistência, com o corpo todo retalhado a faca...”.

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Boa noite, amor, é domingo!

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as casas, em qualquer cidade, o fogão a lenha impunha-se como um monumento. Era de ferro, no geral tinha quatro trempes e o forno, na parte de baixo, com o mesmo formato dos fogões a gás, que já o substituíam nos anos 50. As partes externas, com as maçanetas de aço inoxidável gancheadas, não podiam ser tocadas sem as mãos protegidas, pois ficavam quentíssimas. Dos pés que o sustentavam, os dois da frente, de formato arredondado, pareciam as patas de um animal. Tinha também, sob a grade onde a lenha era queimada, um depósito de cinzas, que se estendia, como uma gaveta, por toda a área do fogo. Nas laterais da fornalha, ficava a serpentina, como eram chamados os canos sempre cobertos pela fuligem, que se alongavam fazendo o contorno de um enorme esse, de uma ponta à outra, para o aquecimento da água da casa. A remoção das cinzas requeria cuidados para não sujar o chão – quase sempre de ladrilhos de duas cores, limpos com pano molhado em água mesclada com um pouco de creolina. Sobre o fogão, havia barbantes amarrados em pregos nas paredes, para dependurar cascas de laranja, que, secas, ajudavam a acender o fogo. Ali, eram também deixadas a linguiça para ficar defumada, ou a carne de porco salgada. O café passava por um coador de pano, sustentado por uma argola de arame. Já o bule do café permanecia em banhomaria numa lata que havia sido de goiabada, pessegada, de qualquer doce, pronto para ser oferecido a alguma visita inesperada. E geralmente era servido já adoçado. Havia sempre biscoitos de polvilho para dar mais fartura à acolhida. Outro componente da cozinha era a máquina de moer carne, fabricada de ferro gusa, em três tamanhos. A de tamanho médio, identificada como número dois, servia muito bem às necessidades de uma família numerosa. Era fixada na borda da mesa da cozinha por duas hastes com espirais e parafusos de orelha, que a mantinham firme, pois a firmeza era necessária para evitar que se movesse, quando a carne, geralmente de segunda, ou terceira, empacava a manivela. A máquina de moer carne acabou sendo substituída pelos modelos elétricos que os próprios açougues possuíam, para os quais não havia carne dura. O soquete de alho, de madeira torneada, integrava a lista de componentes indispensáveis da cozinha. Com um pequeno pilão, o alho descascado era ali colocado para ser amassado e misturado com sal – temperos para o arroz, feijão, carne... para toda a comida, enfim. O feijão e o arroz tinham de ser catados para retirar as impurezas que, naquela época, eram comuns. No caso do feijão, mesmo os melhores vinham com fragmentos de pedras

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e grãos partidos ou perfurados por algum tipo de praga. O arroz, ainda que beneficiado em indústrias especializadas, tinha de ser limpo dos “marinheiros”, nome dos grãos que resistiram à retirada mecanizada da casca. Um instrumento já então abandonado, mas mantido como decoração da cozinha, era o pequeno moinho de café. Na década de 40, ainda havia muita gente que comprava o café torrado em grão para moê-lo em casa. O visitante servido com esse tipo de café sentia-se excepcionalmente bem recebido. As casas com crianças menores, principalmente as de mães com bebês, incluíam um fogareiro a álcool entre as peças imprescindíveis. Com o fogareiro, as mamadeiras eram esquentadas, ou até mesmo refeições ligeiras, de forma a evitar a trabalheira de ter de acender o fogão a lenha. Em todas as casas, cozinhava-se com banha de porco, porque colesterol era um vocábulo desconhecido, ou talvez debilitado pela força do paladar – e os óleos não tinham muita aceitação. Mas o azeite-doce, como chamávamos o de oliva, constituía um fino complemento de qualquer mesa, por se tratar de um produto importado, geralmente de Portugal. O que mais expressava a opulência de uma refeição era o azeite Gallo. Já a banha vinha do armazém ou da panela, quando produzida pelo toucinho comprado nos açougues, partido em pedaços que, uma vez fritos, se transformavam em deliciosos torresmos. Para cozinhar, panelas de ferro ou de pedra – as últimas dando mais gosto ao feijão, ao arroz e ao bife. O leite, comprado em garrafas de um ou meio litro da CCPL (Cooperativa Central dos Produtores de Leite), fervia numa leiteira de alumínio, com uma tampa de aberturas amplas e circulares para evitar que transbordasse ao chegar ao ponto de ebulição. A qualquer descuido, o leite derramava, levando, inclusive, a tampa. O bife caseiro, fino, quase transparente, temperado com cebola e alho, produzia um caldo para ser derramado comedidamente sobre o arroz, já no prato. A carne tinha de ser batida com um martelo de madeira, com uma superfície de dentes de metal, uma espécie de clava doméstica. À sua falta, o cabo de metal de uma faca o substituía muito bem. O feijão adquiria um gosto melhor quando cozinhado com um pedaço de pele do toucinho, que havia sido transformado em banha. Retirava-se a pele, enquanto os grãos cozidos eram refogados com banha, alho e sal, esmagados com um pilão e de novo recebiam a água em que foram fervidos, formando um caldo grosso que cheirava pela casa toda. Esse apetitoso cheiro ainda é parte do dia-a-dia da cidade, pois em Belo Horizonte o hábito de almoçar em casa jamais foi abandonado. Cheiro do meio-dia, um cheiro de saudades. Outro modelo comum de fogão a lenha era o montado sobre uma base de tijolos, tal como um palanque sólido, com as trempes enfileiradas. Havia uma pequena área ladrilhada, defronte à porta da fornalha, onde as panelas repousavam. No inverno, sentava-se defronte ao fogão para quentar fogo. Qualquer que fosse o modelo, sem a lenha em chamas não podia haver água quente no chuveiro. Depois da refeição, a mesa da cozinha era a usada para passar roupa, lavada no tanque da casa, afogada de molho em bacias com anil, secadas no quintal. O ferro elétrico já havia substituído o de brasa. A roupa era passada sobre a mesa forrada com um

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cobertor velho. O ferro descansava sobre uma lata vazia de marmelada, quase sempre da marca Colombo, que era retangular, melhor, portanto, para sustentá-lo. Nos banheiros, o desodorante feminino variava entre o Leite de Rosas e o Leite de Colônia. O masculino era quase sempre o Lysoform. Nas casas que mantinham o piso dos cômodos encerado, geralmente com cera Parquetina, havia um instrumento indispensável – o escovão. De ferro, pesado, com um cabo de madeira longo, o escovão servia não apenas para o polimento, como também para passar a palha de aço, usada de quando em quando, raspando o sujo que ficasse agarrado ao assoalho. Na periferia, até meados da década de 40, ainda havia casas sem eletricidade. Nessas casas, a iluminação vinha de lampiões; mas, à época da guerra, houve racionamento do querosene que os alimentava. Para adquiri-lo, formavam-se enormes filas. De refrigerantes, quase só sabores nacionais; nos apertados orçamentos domésticos, o que saía mais em conta era o refresco de groselha, cheiroso e saboroso; ou limonada de limão galego. A garrafa de groselha, sempre da marca Dubar, continha um litro, e no seu rótulo havia menções a prêmios ganhos em exposições por nós desconhecidas, mas certamente mais do que merecidos. Guaraná, Mate-Couro, Guarapan e Paladin às vezes apareciam nos ajantarados dos domingos. O Mate-Couro, uma ótima combinação do sabor de folha de chapéu-decouro com mate, Os ajantarados, quase sempre, uma macarronada acompanhada por frango ensopado, ou uma posta de carne assada, com batata dourada na panela e impregnada do tempero, arroz e salada, davam à mesa um aspecto incomum de fartura. A sobremesa era caseira – doce de leite; de abóbora; doce de mamão verde, ralado ou em lascas; bananada; ou, numa alternativa muito comum, goiabada e queijo. Às vezes, salada de frutas. O doce de leite caseiro não se repetia com frequência no cardápio dominical, porque fazê-lo dava um enorme trabalho. Os braços sempre descansados das crianças às vezes eram requeridos para revirar o leite, em ritmo lento e disciplinado, sustentando a fervura em nível baixo, sem que subisse ao extremo do tacho de cobre ou alumínio. E impedir que, ao se tornar uma massa consistente, ficasse agarrado no fundo da vasilha – algo quase sempre impossível. Havia uma compensação para esse paciente esforço: com o doce declarado pronto, podíamos rapar o que sobrava, no próprio tacho. Nas casas mais voltadas à religião, rezava-se antes das refeições. Na sala, as paredes tinham reproduções dos quadros da Santa Ceia e do Sagrado Coração de Jesus. Comer aos domingos constituía um ritual, entremeado pelo que se ouvia de melhor no rádio. Comia-se por volta da uma e meia da tarde; mas, ao meio-dia, quem tinha um receptor de onda curta, ligava para a Nacional, onde a locutora Lúcia Helena anunciava: “Ao soar do carrilhão dando as 12 badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no programa Luiz Vassalo, se encontram com sua majestade, o Rei da Voz, Francisco Alves!”.

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Francisco Alves cantava, então, o verso final de um dos seus maiores sucessos, A Voz do Violão (dele mesmo e de Horácio Campos). Despedia-se, ao final da meia hora do programa, cantando um trecho de outro grande sucesso – Boa Noite, Amor (José Maria de Abreu-Francisco Matoso). E ninguém fazia reparos por ouvi-lo cantando ‘boa noite’ ao aproximar-se a uma da tarde... Terminada a refeição, a sintonia do rádio ia para o futebol. Só se desligava o rádio no caso de chuva com trovoadas. Primeiro era preciso desligar a antena externa, cujo fio, vindo do telhado, passava por um pequeno interruptor que tinha uma lâmina fina, protegida num extremo por um cabeçote de louça, mais tarde baquelita. Esse interruptor era fixado na parede, perto do rádio. A lâmina ligava o fio da antena com o fio do rádio e bastava levantá-la para interromper o circuito. Tudo muito simples, mas necessário para evitar que correntes elétricas dos raios queimassem as válvulas e o próprio aparelho receptor, como os rádios eram também chamados. Geladeira nas casas mais pobres ainda era uma raridade no começo dos anos 50. Carnes já cozidas podiam ser conservadas na banha. A bilha de barro estava em todas as cozinhas para matar a sede com uma água, que, ao contrário da definição, parecia saborosa. Ao final dos anos 50, o primeiro instrumento elétrico, depois da geladeira, começou a fazer parte das cozinhas, mesmo as mais modestas. Foi o liquidificador, geralmente Walita, que não custava muito e dava um ar de invejável progresso à casa.

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O segundo monumento doméstico era a máquina de costura – Pffaf ou Singer – de onde saíam as roupas vestidas pelos filhos da casa. A parte de baixo da máquina tinha um pedal grande e retangular, com a correia trilhada numa roda que impulsionava toda a engrenagem – um cilindro pintado de preto, com a marca da máquina em letra dourada, lembrando o contorno de uma locomotiva a vapor. Cabia às crianças da casa colocar a linha na pequena abertura da agulha – a mãe já tinha a vista cansada, os olhos às vezes irritados pela fumaça do fogão que ela acendia soprando forte, quando nem a casca de laranja ajudava, porque a lenha estava úmida. A máquina era fechada levantando-se o cilindro, o que permitia que as bases móveis fossem recolhidas. Depois, o cilindro também descia e a operação se concluía com a tampa de madeira que a cobria. Uma capa de chita para protegê-la da poeira, uma jarra com flores feitas de massa de pão – e a máquina se transformava numa mesinha bem decorada. O móvel tinha quatro gavetas, numa das quais as donas de casa guardavam o ovo de madeira para cerzir as meias de algodão, que furavam facilmente. Banho de banheira em água esperta, com a infusão de folhas de eucalipto, curava o resfriado das crianças, e, além disso, deixava um ótimo cheiro. Cataplasma feita com angu quente servia para limpar os brônquios. Aliás, o cuidado com a saúde da família levava os pais a obrigarem os filhos a ingerir, uma vez por ano, quase à força, o temido e horrendo Óleo de Rícino, para livrar os intestinos de vermes. A massa pastosa e baça escorregava devagar do vidro, aumentando a nossa agonia, que podia ser às vezes suavizada por um pouco de açúcar cristal, colocado na mesma colher de onde tomávamos o intolerável vermífugo. Era preciso segurar a respiração para não sentir o seu gosto abjeto. Na idade escolar, as crianças eram submetidas a um reforço do organismo com uma colher diária da Emulsão de Scott. Outro sabor terrível, que nos fazia odiar o personagem do rótulo que identificávamos como o dono do remédio – aquele pescador com um barrete a cobrir-lhe os cabelos, carregando nas costas um enorme bacalhau. Como no caso do óleo de rícino, precisávamos parar a respiração para ingeri-lo, a fim de suavizar o gosto nauseante que nos estragava o paladar por certo tempo. Mais por curiosidade do que por ódio, comecei, nos anos 70, bem antes das facilidades trazidas pela internet, a pesquisar a identidade do homem do barrete. Entrei em contato com os Laboratórios Beecham, em Londres, donos da patente desse horrendo tônico para o paladar, falei das minhas razões e, polidamente, me mandaram ligar para a sucursal norte-americana, que era a responsável pela comercialização da Emulsão de Scott na América Latina. Depois de muito explicar, acabaram me contando que, na Segunda Guerra, um bombardeio alemão contra Londres destruiu importantes arquivos da empresa, onde se achavam detalhes do rótulo detestado pelos meninos da minha época. O argumento mais convincente que utilizei foi dizer à secretária norte-americana que a popularidade do nome Emulsão de Scott havia levado Enrique Santos Discépolo a compor, em 1929, o tango Victoria, gravado por Carlos Gardel, cuja letra diz:

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. (...) Gracias a Dios que me salvé de andar toda la vida atao llevando el bacalao de la Emulsión de Scott (...). Mas a identidade do pescador passou a ser um mistério eterno. Já os adultos não se livravam do penoso sacrifício de tomar Sal Amargo para regularizar o funcionamento dos intestinos. E muitos, ao chegarem aos 40 anos, decidiam extrair os dentes, substituindo-os por dentaduras, a fim de evitar o risco de infecção causada por algum dente podre. O comportamento das mulheres ao chegarem aos 40 anos era estranho e humilhante. Mulher de 40 anos devia considerar-se velha e agir de forma compatível. Assim, elas mudavam o penteado – às vezes enrodilhando os cabelos num coque, que acrescentava anos à idade de fato – e usavam vestidos sóbrios. Uma injustiça, coitadas. As casas de Belo Horizonte e de todo o país tinham de abrir a porta da frente para a entrada do “mata-mosquito”, o agente sanitário. Ele vinha com o seu uniforme cáqui, gravata e, às vezes, boné. Fixava uma bandeirinha amarela à entrada, para assinalar a sua presença geralmente bem-vinda, e identificar assim um domínio territorial da boa higiene. Depois, com o seu exterminador de mosquitos à mão, ia às áreas do quintal ou do jardim suspeitas de abrigarem óvulos de alguma reprodução perigosa, mas ainda não havia o dengue. Pernilongos eram os inimigos da cidade e de um bom sono e não se sabia de doenças trazidas por mosquitos – o combate liderado pelo mata-mosquito dava resultados. Em todas as casas, havia um borrifador feito de lata, com uma pequena alavanca de empuxe, no qual se punha um inseticida líquido, que ajudava a impedir, sobretudo no verão, a presença de pernilongos. Era a bomba-flit, inventada em 1923. Não havia supermercados e os armazéns vendiam fiado, anotando as compras na caderneta do freguês, geralmente um pai de família de recursos limitados. A conta tinha de ser paga no fim do mês. Não havia também a poluente sacola de plástico, mas sacos de papel. Eram usados quando o que se comprava, por exemplo, verduras, não podia ser embrulhado em jornal. E tampouco garrafas de plástico e bebidas em lata. Comprava-se a granel, porque alimentos como arroz, feijão, açúcar, banha e manteiga – quase tudo enfim – não tinham embalagens para venda em pequenas quantidades. Sacos de linhagem com arroz, feijão, ou outros alimentos secos, ficavam expostos, com as suas bordas viradas para baixo. Na superfície, ficava uma lata com o formato de um cone, de onde o vendedor retirava a quantidade pedida, colocando-a num saco de papel de cor parda, para ser pesada na balança sobre o balcão. Os armazéns e outros estabelecimentos mais modernos tinham quase sempre uma balança Filizola. Outros, no entanto, ainda mantinham a balança de pesos variados, pequenos blocos de cobre, de cem gramas a até um

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ou mais quilos, colocados sobre um prato, enquanto no outro era posta a mercadoria. O equilíbrio dos dois pratos tinha de ser perfeito. A outra balança da época, a balança de gancho, foi muito usada nos pequenos negócios, principalmente de vegetais, ou nas feiras. O vendedor erguia o gancho, no qual era dependurada uma sacola com o produto que vendia, e mostrava ao freguês o quanto a escala indicava. A manteiga e a banha vinham em latas de 20 quilos. A da manteiga em uma lata redonda, a da banha, quadrada. Retirada com colheres de pau e colocada num papel impermeável e opaco para a pesagem, que podia ser feita em qualquer das balanças. O governo subsidiava os alimentos, vendendo-os em entrepostos, onde o essencial custava menos. Cartões de crédito ou de compras ainda não existiam. O dinheiro de plástico foi uma invenção norte-americana, conhecida em 1951. O primeiro cartão, o do Diners Club, só servia para restaurantes, assim mesmo num número limitadíssimo. Em menos de 60 anos, porém, o cartão, de compras ou de crédito, transformou-se num riquíssimo negócio internacional. Na sociedade conservadora e repleta de preconceitos comportamentais da época, manter a boa imagem familiar era um dever hereditário. Os católicos seguiam, com maior fidelidade, a orientação superior da Igreja, ditada do Vaticano pelo Papa Pio XII. Todos iam à missa com assiduidade e, possivelmente, com mais devoção. Ainda não tinham surgido as denominações cristãs alternativas, o evangelismo professado em diferentes igrejas. Pio XII, de controvertida passagem pelo trono de São Pedro, morreu em 1958 e foi substituído pelo reformista João XXIII. A posição de Pio XII durante a guerra, quando, como cardeal Eugenio Pacelli, representava o Vaticano na Alemanha, provocou desairosos comentários. Seus críticos dizem que ele encarou com indiferença o destino de milhares de judeus capturados e massacrados pelos nazistas. A imagem de Pio XII melhorou, quando, num reexame dos episódios mais marcantes da guerra, alguns historiadores reconheceram que ele se preocupou, sim, com os judeus. Aliás, uma vez entronado como Papa, ele não hesitou em criticar o comando militar nazista de Bruxelas que, sem razões conhecidas, fechou a Nunciatura Papal de lá. O Papa jamais esqueceria ou perdoaria essa humilhação. O lado bom da atmosfera familiar, que borbotava naturalmente, estava na disciplina. Um dos grandes benefícios dessa atmosfera, que borbotava naturalmente, era a disciplina imposta sem pressões. Éramos mais disciplinados e comedidos em todos os aspectos. Nas escolas, tratávamos o professor, ou a professora, de senhor e senhora. Em sinal de respeito, levantávamos à sua entrada na sala. Ninguém conversava durante as aulas. Por sua vez, não havia professor ou professora que não se vestisse de acordo com as normas da época. Os homens com paletó e gravata. O respeito era recíproco. Lembrome muito bem do excelente e rigoroso professor Mário de Oliveira, grande mestre da Matemática, tratando-me como senhor, durante o breve período em que fui seu aluno no Colégio Estadual. Eu tinha apenas 13 anos! Mário de Oliveira, aliás, revelar-se-ia um

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ótimo escritor de memórias, como nos mostra o seu Tico Tico, Um Senhor Mendigo, editado pela Gráfica Editora Fundac-BH (1998). O respeito vinha de casa, onde tratávamos também os nossos pais de senhor e senhora. E pedíamos a sua bênção, na hora de ir para a escola. Os filhos mais velhos, quando passavam a trabalhar, viam como uma obrigação natural ajudar nas despesas da casa. E, nas famílias da classe média alta, não se falava em mesada ou em ajuda financeira que fosse além dos trocados necessários para a matinê do fim de semana. Nos colégios secundários, o programa de ensino incluía higiene, etiqueta, economia doméstica e educação cívica. A etiqueta ensinava os meninos e meninas a darem o lugar no transporte público a qualquer passageiro adulto que embarcasse sem encontrar um assento. Para as meninas, principalmente as de famílias de menores recursos, havia, na Avenida Amazonas, esquina com Tamoios, a Escola Profissional Feminina. Ali, elas aprendiam um bom português, matemática básica, noções de inglês, francês, história e dedicavam grande parte do horário de ensino ao aprendizado de datilografia, escrita contábil, taquigrafia, higiene, bordado, corte e costura e administração do lar. Não só nas famílias católicas, como na maioria das outras também, as moças geralmente se casavam virgens. O grupo escolar era a primeira escola que conhecíamos. Éramos matriculados aos sete anos para o curso primário, que durava quatro. Logo, logo, aprendíamos a ler e a escrever. Havia cartilhas de grande eficiência, como O Livro de Lili, que a educadora Anita Fonseca lançou em 1940, numa edição da livraria Francisco Alves, na Rua da Bahia . Os outros, que ensinavam as crianças a ler e a escrever com a mesma eficiência, A Bonequinha Preta e O Bonequinho Doce, da autoria de Alaíde Lisboa de Oliveira, foram lançados em 1938. Outra excelente contribuição ao ensino primário foi dada pelo escritor João Lúcio Brandão, autor de O Livro de Elza, Os Bonecos de Violeta, O Livro de Violeta, O Livro de Ildeu e O Livro de Zezé, adotados não só em Minas, mas em outros Estados também. Nos grupos escolares, recebíamos lições de caligrafia e aprendíamos a escrever a tinta, com canetas que tínhamos de enfiar em tinteiros de vidro que fixávamos nas carteiras, em espaços redondos, que os mantinham firmes. Ainda assim, os pequenos tinteiros frequentemente caíam, sujando tudo. Eram vidros de tinta azul Sardinha, em cujo rótulo vinha impresso o versinho: . Que letra bonita tem a Zizinha, porque só escreve com tinta Sardinha. Eram mesmo outros tempos, eternizados pelas indeléveis lembranças da infância.

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No ar... a alegria do rádio

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ivertíamo-nos com muito pouco. Passeios em praças públicas, bailes em clubes ou casas de família, bares, cinema e esportes eram mais do que suficientes para nos manter felizes. Em plena expansão, o rádio transformou-se numa parte essencial do nosso cotidiano, a grande diversão caseira, e não se considerava luxo ter um receptor, embora nem todos dispusessem de recursos para adquirir o modelo que captasse as ondas curtas (em 1952, um rádio Douglas, com as duas faixas, custava até 1.300 cruzeiros). Muitos aparelhos ainda vinham em elegantes caixas de madeira; mas a baquelita já estava sendo preferida pelas fábricas, devido ao seu custo mais baixo. Alguns tinham o nome de “capela”, devido ao formato triangular da caixa. Outros, de rabo quente, porque não tinham um transformador para protegê-los de súbitas variações da voltagem, capazes de queimar as válvulas. Os mais sofisticados ostentavam um “olho mágico”, para ajudar na sintonia, e outros o nome imponente de radiola, ou radiovitrola, quando, num mesmo móvel, havia um toca-discos acoplado. Os programas de rádio eram motivo de conversas em toda parte e nenhuma das emissoras das décadas de 40 e 50 – a primeira fase de ouro do rádio – superava a Nacional do Rio de Janeiro, PRE-8. A Nacional acabou com o domínio da PRA-9, Rádio Mayrink Veiga, inaugurada em 1926, outra grande emissora, cujo papel na história do rádio foi abruptamente encerrado pelos militares que tomaram o poder em 1964 (a rádio foi fechada em dezembro de 1965 sob a acusação de subverter a opinião pública, ao dar espaço aos opositores do regime). Dois anos depois da inauguração da Nacional, a Mayrink continuava líder de audiência, porque tinha como cantores contratados Francisco Alves, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Aurora Miranda, o Bando da Lua, Luiz Barbosa, Jorge Fernandes e um radioteatro, cujo elenco incluía Plácido Ferreira e Cordélia Ferreira. Tinha também um grande humorista, o Silvino Neto, conhecido como Pimpinela e Anestésio, dois personagens que criou. Em 38, ainda vestindo o uniforme de aluno do Colégio Pedro II, lá estreou o cantor Roberto Paiva. Quase todos se mudariam, depois, para a Nacional, que já tinha, desde a inauguração, Orlando Silva. A grande vantagem da Nacional começou com a inauguração dos transmissores de ondas curtas, em 1942. Com um extraordinário poder de alcance, a Nacional logo passou a ser um admirável traço de união do país. E os seus programas fizeram história, cobrindo todas as áreas: Gente Que Brilha; Jerônimo, o Herói do Sertão; Museu de Cera; Tancredo e Trancado; PRK-30; Nada Além de Dois Minutos; Obrigado, Doutor; As Aventuras d’O Anjo; Um

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Milhão de Melodias (*); No Mundo da Bola; Gente que Brilha; Curiosidades Musicais; Honra ao Mérito; e Festivais GE, estes últimos apresentados pela sinfônica da emissora, regida por Leo Perachi, com 120 músicos. Aos sábados, às duas da tarde, ninguém queria perder o Programa César de Alencar, uma grande festa de auditório. Os maiores rivais de César estavam na própria Nacional. Eram o Domingo Alegre, de Paulo Gracindo (Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo, 1911-1995), e o Programa Manoel Barcelos (Manoel Barcelos, 1911), às quintas-feiras, durante o dia. O César de Alencar fixou-se no gosto (e hoje na memória) dos ouvintes por ter sido mais criativo. Tinha um quadro chamado Romário, o Homem-Dicionário. Romário Porto de Oliveira Júnior (1908-1986), natural de Magé, era coronel da Polícia Militar do Distrito Federal, autodidata, homem de uma memória excepcional. Sabia o significado de qualquer palavra. Ficou conhecido no país inteiro e o seu nome foi dado a muitas crianças, algumas nascidas tempos depois do seu programa na Nacional. Como o Romário, campeão do mundo de futebol. No auditório do César de Alencar, alguém sorteado perguntava ao homem dicionário o significado de determinada palavra. Se ele não soubesse, o autor da pergunta ganhava um prêmio de 10 cruzeiros. O curioso, ou mesmo misterioso, é que o quadro do programa em que Romário exibia o seu extraordinário conhecimento do vocabulário do nosso idioma era chamado A Tendinha do Ali. E ele o abria dizendo duas palavras em árabe: Allah Kibir, Deus é grande. A popularidade do programa César de Alencar era tanta que a festa do décimo aniversário, em 1955, foi realizada no Maracanãzinho, com mais de 23 mil pessoas presentes. Muito bem administrada e dispondo de recursos financeiros trazidos pela maciça publicidade atraída pela programação que possuía, a Nacional chegou a ter 15 maestros: Radamés Gnatalli, Romeu Fossati, Severino Filho, Zimbres, Lyrio Panicalli, Moacyr Santos, Eduardo Patané, Alberto Lazzoli, Gustavo de Carvalho, Francisco Duarte (Chiquinho), Romeu Ghipsman, Leo Perachi, Alexandre Gnatalli, Ercole Vareto e Francisco Sergi. A ordem do governo federal fazia com que todo dinheiro faturado fosse reinvestido na própria emissora. E era muito dinheiro! Ao longo dos seus melhores anos, a Nacional apresentou de todas, Em Busca da Felicidade, do cubano Leandro Blanco; mas a maioria foi escrita por sua própria equipe. “Para os que viveram a Era do Rádio, tão bem recriada por Woody Allen em seu filme, falar da Rádio Nacional do Rio de Janeiro significa reabrir uma janela de nostalgia sobre os programas de auditório, as rainhas do rádio e o Rei da Voz, as notícias lidas por Heron Domingues, as emoções das novelas” – escreveram Luiz Carlos Saroldi e Sônia Virgínia Moreira na apresentação do seu excelente Rádio Nacional, o Brasil em Sintonia, livro publicado em 1984 e relançado em 2006. Na Tupi do Rio, que foi inaugurada antes da Nacional, em 1935, os programas produzidos por Almirante concorriam e, às vezes, ganhavam da Nacional, como é o caso do Incrível, Fantástico, Extraordinário, transmitido às quintas-feiras, com histórias do sobrenatural contadas pelos ouvintes, que a emissora teatralizava sob a direção de Almi-

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rante. A Nacional não queria perder esse veio e criou o Difícil de Acreditar, também com episódios misteriosos de almas do outro mundo, de relatos incríveis. A rádio Tupi contava com uma boa audiência e até chegou a superar a Nacional em alguns quando transmitia novelas e um programa rival de O Anjo, que era o Capitão Atlas, de Péricles do Amaral e Luiz Quirino. Possivelmente, o maior sucesso da Tupi, no começo da década de 50, tenha sido o Pausa Para Meditação, que incorporava a oração da Ave Maria, apresentada por Júlio Louzada, às seis da tarde. Como Louzada dava conselhos aos seus ouvintes, logo começaram a chegar milhares de cartas, à procura de solução para as suas crises matrimoniais e agonias sentimentais. A quantidade de cartas criou um problema para a emissora – achar espaço onde guardá-las e tempo para respondê-las. O programa foi lançado na Tamoio, mas, ao se dar conta do volume da audiência, a Tupi resolveu transferi-lo para a sua frequência. As grandes mexidas na programação da Tamoio e da Tupi foram obra do diretor artístico José Mauro (1916-2004), que exerceu o mesmo posto na Nacional a partir de 1940 e, nos anos 60, na Guarani. Como o Almirante e o Paulo Tapajós, José Mauro entrou para a história como um dos gênios do rádio. Júlio Louzada contou por algum tempo com a colaboração de Aguinaldo Rabelo, que passou uma temporada no Rio, antes de seguir para Washington, onde trabalhou na Voz da América. 135


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O prestígio de Louzada foi bem explorado no carnaval de 1953, com a Marcha do Conselho, composta por Paquito e Romeu Gentil, gravada por Roberto Paiva, que começava falando de um caso de infidelidade conjugal: . A mulher do meu maior amigo me manda bilhete todo dia... Desde que me viu, ficou apaixonada, me aconselha, seu Júlio Louzada.(...). Além de sucessos carnavalescos, Roberto Paiva conta a seu crédito o lançamento da dupla de compositores Vinicius de Moraes-Tom Jobim, ao gravar um elepê na Sinter com músicas como Se Todos Fossem Iguais a Você e Canção do Orfeu. A popularidade de Pausa Para Meditação inspirou um dos maiores compositores da época, Wilson Batista, a se unir a Américo Seixas, para criar um samba, gravado por Déo, que tinha o nome do programa. A letra dizia: “Depois de cair na lama, lembrou-se do Pausa Para Meditação”. De São Paulo, a rádio que mais ouvíamos era a Record, onde Blota Júnior foi, durante muito tempo, o grande criador de programas populares. Um desses programas se chamava Não Diga Alô. Um telefone sorteado na hora deveria ser atendido sem que interlocutor dissesse alô. Apesar de extremamente criativo, o rádio da época tinha também esses exemplos de singeleza. Em termos de audiência, porém, emissora alguma superava a Nacional, que foi modelar, criando programas que todas as outras do país queriam fazer igual. Na Guarani, por exemplo, havia o Vesperal da Alegria, aos sábados, no estilo do César de Alencar. E não era somente a programação artística da Nacional que servia de modelo. A Inconfidência criou a Hora da Ginástica, todas as manhãs, com o professor Antônio Macedo, repetindo o que a Nacional fazia. Lá, o ginasta apresentador do programa era o professor Oswaldo Diniz Magalhães, muito popular no país inteiro. Tal como a Nacional, a Inconfidência distribuía, de graça, para os ouvintes que pedissem por escrito, um cartaz com os desenhos das variações dos exercícios da ginástica matinal. A força do rádio era tão grande que muita gente fazia seriamente a ginástica ordenada pelo seu apresentador, ao ritmo de um piano. A Nacional foi ao ar nove dias antes da Inconfidência. São duas grandes emissoras, hoje um tanto esquecidas, mas ainda lutando para acompanhar a concorrência e as transformações da mídia, após a chegada da televisão. A Nacional foi recuperada no seu aspecto material, graças à ajuda recebida da Petrobras, que reconstruiu as suas principais instalações, inclusive o histórico auditório, que causava emoção no Brasil inteiro nos anos 40 e 50, e o estúdio de rádioteatro. O maestro responsável pela maioria dos arranjos ouvidos nos discos dos cantores mais populares era Radamés Gnattali, da Nacional. Esses arranjos, feitos entre a segunda

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metade da década de 30 até fins dos anos 50, estão ligados para sempre à história da música popular brasileira. Ainda que sem a mesma projeção de Radamés Gnattali, a Inconfidência tinha dois grandes maestros arranjadores: Moacyr Portes, cujo trabalho equivalia ao de diretorgeral das orquestras da emissora; e José Torres. Portes criou a orquestra melódica, de fato uma sinfônica, pois incluía oboé, fagote e tímpanos, para tocar música popular com arranjos sofisticados. Havia também o maestro Djalma Pimenta, cuja orquestra se apresentava nos programas populares, como os de auditório. A preocupação em fazer um rádio do mais alto nível, dando grande dimensão também à música erudita, levou a Inconfidência a formar uma orquestra com os músicos da cidade dedicados ao clássico, regidos pelo italiano Mario Pastore (que havia sido da Guarani). No país inteiro os cantores eram anunciados com um cognome. Entre os mais conhecidos, Francisco Alves, o rei da voz, uma criação do locutor César Ladeira, que criou ainda a pequena notável para Carmen Miranda e, para Carlos Galhardo, o cantor que dispensa adjetivos ou o rei da valsa. O narrador de futebol Oduvaldo Cozzi consagrou Orlando Silva como o cantor das multidões; Silvio Caldas era o caboclinho querido; Jorge Veiga, o caricaturista do samba, uma invenção do Paulo Gracindo, que o lançou no rádio; e Deo, nascido Ferjalla Rizkalia, o ditador de sucessos, cognome inspirado por algum getulista. Afinal, foi ele quem gravou, em 1940, O Sorriso do Presidente (Alberto Ribeiro-Alcir Pires Vermelho). Emilinha era a minha, a sua, a nossa favorita. Marlene, a que não perde a majestade. Isaurinha Garcia, a personalíssima; Elizete Cardoso, a divina; João Petra de Barros, a voz de 18 quilates. Em Belo Horizonte, Gilberto Santana era o garoto que canta sorrindo, como o apresentava o Rômulo Paes; Otavinho da Matta Machado, o cantor das mil e uma fãs, o mesmo cognome de Ciro Monteiro; e Flávio de Alencar, o nosso seresteiro. No auge do seu sucesso na Argentina, Leo Belico foi apresentado como el muchacho del Brasil. O rádio mineiro (e o do país inteiro) guiava-se sempre pelo carioca. Seguindo a Tupi, onde o locutor Carlos Frias apresentava todas as noites uma crônica com o formato de editorial, chamada Boa Noite Para Você, a Guarani tinha a Roda da Vida, celebrizada na década de 40 pelo seu criador, Álvaro Celso da Trindade, o Babaró, e pelo apresentador, Orlando Pacheco. Ninguém, aparentemente, procurou saber por quê, mas o programa começava ao som de guitarras havaianas. Babaró foi também um dos mais famosos narradores de futebol de todos os tempos. Quando ele morreu, em 48, Roda da Vida passou a ser escrita por Orlando Cavalcanti e, durante certo tempo, por Pedro Aguinaldo Fulgêncio, então redator do Estado de Minas (no começo da década de 50, foi lançado O Nome do Dia, crônica escrita e apresentada por Teófilo Pires). Talvez o programa desse gênero mais popular no país inteiro tenha sido A Crônica da Cidade, na Nacional. Escrita por Genolino Amado, e às vezes por Giuseppe Ghiaroni, lida por um dos mais famosos locutores de todos os tempos, César Ladeira. A crônica ia ao ar às 13h, logo depois do Repórter Esso.

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Líder indiscutível do rádioteatro, a Nacional lançou, em 1951, O Direito de Nascer, do cubano Felix Caignet. Líder também do humorismo, e com a saída para a Mayrink Veiga de um dos mais divertidos programas de que se tem notícia, a PRK-30, a Nacional criou outro grande sucesso, o Balança, Mas Não Cai, escrito por Max Nunes, com Brandão Filho e Paulo Gracindo, entre outros. E virou um bordão popular aquilo que Gracindo, fazendo o papel de um primo rico e sovina no quadro mais conhecido do programa, dizia a Brandão, o pobre: “Primo, você é que é feliz”. A popularidade do Balança, Mas Não Cai em Belo Horizonte levou o povo a adotar o nome para um edifício então decadente e mal frequentado, na Avenida Amazonas, esquina com Tupis. O humor no rádio possuía uma característica indefectível: os programas que nos faziam rir à solta não continham qualquer insinuação pornográfica. A PRK-30 abriu uma das suas ‘transmissões’ com os geniais Otelo Trigueiro (Lauro Borges) e Megatério Nababo d’Alicerce (Castro Barbosa) dizendo: — No ar, a PRK-30, falando do segundo andar, porque o primeiro ainda não foi construído...É por isso que estamos no ar! Lauro Borges (Laurentino Borges Sáes, 1901-1967) era paulista; Castro Barbosa (Joaquim Silvério de Castro Barbosa, 1905-1975), mineiro de Sabará. Começou como cantor, em 1932, e teve bastante sucesso. Seguindo outro exemplo da Nacional, todas as grandes emissoras possuíam elencos de rádioteatro. Em Belo Horizonte, o da Guarani era dirigido por F. Andrade; o da Inconfidência, por Seixas Costas. Vicente Prates e sua mulher, Lea Delba, também estiveram à frente das produções teatrais da Inconfidência. As duas tinham programas de humorismo e, entre os mais ouvidos, se achavam O Lado Pitoresco da Vida e Arca de Noé, que Élzio Costa produzia e apresentava na Inconfidência. A linha criativa era a mesma, sem qualquer referência a situações que pudessem caracterizar o afastamento do humor puro e inocente – mas divertidíssimo – que chegava aos nossos ouvidos. Tudo que vinha do rádio do Rio possuía uma auréola de encantamento indescritível. E, quando possível, era retransmitido pelo rádio mineiro. Um dos programas populares da década de 50 chamava-se Balcão de Melodias, produzido por Antônio Maria, com o conjunto de Waldir Calmon. Waldir, que tocava mais ou menos na mesma tecla de Roberto Inglez, saiu de Rio Novo e criou um estilo que o popularizou no país inteiro, não só no Balcão de Melodias, como também nos jornais do Canal 100. O programa não saía de uma emissora de rádio, pois a sua produção era independente, sustentada pelo patrocinador, o Colírio Moura Brasil. E o que realmente causava maior admiração era a narração de Luiz Jatobá, que, com César Ladeira, Sinclair Lopes, Carlos Frias, Aurélio de Andrade, Corrêa de Araújo e Reinaldo Dias Leme, entre outros, marcou o rádio com a sua voz excepcional. Em 1951, Roberto Duarte sucedeu a Antônio Maria na produção do Balcão de Melodias, que era ouvido pelos belo-horizontinos, através da Rádio Guarani. Depois, Roberto

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veio para Belo Horizonte, onde durante anos foi o diretor artístico da Inconfidência. Na década de 60, assumiu a direção geral da emissora. Nos dois cargos, ele transformou a rádio, injetando as ideias que trouxe da sua prolífera experiência no Rio. Como diretor artístico da Inconfidência, Roberto Duarte contratou o Almirante (de quem fora discípulo) para enriquecer a programação que criou. Almirante passou uma temporada em Belo Horizonte para o lançamento da série No Tempo de Noel Rosa, transmitida primeiramente pela Tupi do Rio, narrada por ele próprio. A Inconfidência viveu um grande período, dirigida por radialistas. Antes de Roberto, o diretor foi Élzio Costa, que usou todo o seu talento para enfrentar a devastadora concorrência da televisão, e do jornalismo avançado da Itatiaia, dando força ao rádio eclético. Durante a administração de Élzio, César Ladeira foi outro nome maiúsculo que a Inconfidência contratou, através de Levy Freire, para fazer aquilo que o popularizou no Rio, ou seja, ler uma crônica. César leu, durante um mês, a crônica do programa Variedades Bemoreira. Do lado histórico, ele era, até então, a voz mais importante do rádio, por ter sido, em 1932, o locutor da Revolução Constitucionalista, irrompida em São Paulo contra Getúlio Vargas. Nos anos 70, a grande voz da democracia foi a de Osmar Santos, o locutor das diretas já. — Eu estava na rádio – lembra Levy – quando me disseram, da portaria, que César Ladeira queria falar comigo. Achei que fosse brincadeira, mas era mesmo o César, que se oferecia para trabalhar por um mês, enquanto durasse a temporada que a sua mulher, a atriz Renata Fronzi, fazia no Teatro Francisco Nunes. Élzio aprovou a oferta e ele foi imediatamente contratado. As duplas de cantores tinham um excelente público. A mais famosa no país era a formada por Joel e Gaúcho. Depois, vinham a Verde e Amarelo, Zé e Zilda, Henricão e Carmen Costa, Francisco Alves e Mário Reis, Cascatinha e Inhana. Em Belo Horizonte, Neide e Nancy, irmãs do ponta-direita Neivaldo, jogador que surgiu no Asas de Lagoa Santa e brilhou no Botafogo carioca, foram contratadas pela Guarani, onde começaram na Gurilândia, e depois se transferiram para a Inconfidência. Mas as duplas caipirashumoristas e duplas sertanejas tinham também grande sucesso: Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Palmeira e Piraci, Tonico e Tinoco, Barreto e Barroso, entre outras. O rádio mineiro não ficou atrás e lançou Xerém e Bentinho, Ximango e Compadre Belarmino (Belarmino era o nome artístico do médico Vicente Vono), Caxangá e Sanica, Toninhoe Tonhão, estes últimos anunciados como “os príncipes da música sertaneja”, o que dava um inédito toque nobiliárquico ao sertão. Caxangá era um extraordinário repentista, mas, por ser disléxico, não conseguia ler os textos comerciais dos programas que apresentava. Ele resolveu o problema pedindo a alguém que os lesse, a fim de decorá-los. Após ouvi-los uma só vez, Caxangá os repetia no ar, sem perder uma só palavra. Ele foi contratado pela Inconfidência por decisão de Francisco Lessa, a quem se apresentou, cantando o verso que inventou na hora:

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. Seu doutô Francisco Lessa, homem de bom coração. Vim aqui pedi emprego, no bolso nem um tostão. Preciso matar a fome, Deus é que vai te ajudá. Dê trabalho a esse artista, que se chama Caxangá. As emissoras tocavam pouquíssimas músicas em inglês. O comum eram as versões de sucessos consagrados em filmes e o cantor que mais se interessou por elas foi Francisco Alves. Cento e trinta e sete, das 987 gravações da sua carreira, são versões. O número teria certamente aumentado, não fosse a sua trágica morte num desastre de carro, no dia 27 de setembro de 1952, quando regressava ao Rio, depois de ter cantado em praça pública, em São Paulo. A última versão que ele gravou, em 1950, foi A Estrada do Bosque (Nisia, Bixio, Rusconi), adaptação de Humberto Teixeira. A música norte-americana sempre exerceu uma influência muito forte sobre nós. Da mesma forma como surgiram as bandas de rock a partir dos anos 50, na década de 30 foram muitos os compositores que se interessaram em compor foxes. Joubert de Carvalho (1900-1977) compôs, em 1931, o fox Príncipe, gravado por Francisco Alves. Custódio Mesquita e Evaldo Rui compuseram foxes de grande sucesso, como Nossa Comédia, gravado por Nelson Gonçalves. Custódio fez a música e Mário Lago a letra de um dos maiores sucessos de Orlando Silva: Nada Além. Roberto Martins compôs Adeus, com Mário Rossi, gravação de Gilberto Alves. Os foxes marcaram as décadas de 30 e 40. Não se pode dizer que os americanos ignoraram a nossa música. Há alguns exemplos formidáveis de que isso jamais aconteceu: Bing Crosby gravou em fins da década de 40 um grande sucesso carnavalesco, a marcha de Jararaca e Vicente Paiva Mamãe eu Quero., que em inglês se chamou I Want My Mama. Esta marcha, composta para o carnaval de 1937, foi gravada também pelas Andrew Sisters e por Carmen Miranda, que a canta no filme de 1940, Serenata Tropical. Houve muitas outras gravações de músicas brasileiras por cantores americanos, antes da Bossa Nova. Mas nenhuma fez o sucesso de Aquarela do Brasil, ou apenas Brazil, na versão em inglês gravada por muitos cantores, entre os quais Frank Sinatra e Bing Crosby. Bing Crosby gravou também Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro. A morte inesperada de Francisco Alves deu início a uma corrida para substituí-lo no horário nobre do Programa Luiz Vassalo da Rádio Nacional. Segundo o jornalista Adelchi Ziller, Orlando Silva foi o escolhido, graças à intervenção de Juscelino Kubitschek. A pedido dos amigos de Orlando, entre os quais o próprio Adelchi e outro jornalista, Antônio Tibúrcio Henriques, Juscelino telefonou ao diretor musical da Nacional, Paulo Tapajós, dizendo que gostaria de ver o cantor das multidões ocupando a vaga de Fran-

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cisco Alves. Louvável respeito, pois, ao invés de se dirigir à presidência da República, invocando a sua condição de governador de Minas, Juscelino preferiu obedecer à hierarquia, indo à direção artística da Nacional. Orlando Silva ocupou o horário até 1955, quando o programa acabou. Em termos de voz, o herdeiro de Francisco Alves, porém, foi o João Dias, que jamais teve a mesma projeção, mas que, na verdade, possuía uma interpretação melhor do que a do seu mestre. Orlando, como Chico Alves, gravou também versões, mas, na entrada dos anos 50, a música estrangeira que mais se ouviu não veio na garupa de qualquer filme, não teve uma imediata tradução para o português e nem era do domínio norteamericano. Foi C’est si bon (Andrez Hornez e Henri Betti), gravação de Yves Montand. Mais tarde, Ivon Cury gravou-a também, mas numa versão sumária, com apenas três dos sete versos do original em francês. O Brasil só descobriu C’est si bon quatro anos depois do seu lançamento, em 1947, com duas versões: uma para cantor e outra para cantora (esta gravada por Eddy Mitchell). E todos tentavam imitar o som de, pelo menos, algumas linhas: . C’est si bon, De se dire des mots doux De petit rien du tout Mais qui en disent long. Mambo Jambo e Mambo nº 5 (ambos do cubano Damaso Pérez Prado) eram também muito tocados e dançados, assim como o tema do filme O Terceiro Homem (do húngaro Anton Karas). Além disso, os bailes da época ouviram as primeiras gravações de um novo ritmo, o chá-chá-chá, inventado por Enrique Jorrín, que acompanhou o sucesso dos mambos de Pérez Prado. E um ritmo afrocaribenho criado em fins do século 19, o calipso, reapareceu no mundo inteiro, com novos sucessos gravados pelo norteamericano de origem jamaicana Harry Belafonte. Artista de grande talento, gravou dezenas de composições, foi ator, produtor e ativista dos direitos civis nos EUA. Seu grande sucesso inicial, em 1952, foi Banana Boat Song. A música brasileira seguiu a moda e criou um novo ritmo, em 1946, quando Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira lançaram o baião. Nos anos que se seguiram, as emissoras e as orquestras de baile tocaram o baião como um estilo que tivesse vindo para ficar. Não ficou, porque faltaram compositores para substituir os que se foram. Ou os que perderam o entusiasmo pelo ritmo. A composição de maior sucesso, que se chamava exatamente Baião, foi gravada pelo autor, Luiz Gonzaga, e pelos 4 Ases e 1 Coringa. Que grande sucesso! Não havia quem não soubesse a sua letra, muito fácil: . Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião,

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e quem quiser aprender é favor prestar atenção (...). O baião conquistou plateias e transformou-se em sucesso internacional no filme italiano Anna, com Silvana Mangano, dirigido por Alberto Lattuada, lançado em 1951. Silvana, tida como a atriz mais sensual do neorrealismo italiano, foi quem consagrou o Baião de Ana (F. Giordano-Vatro), cantado e dançado no mundo inteiro. Em Belo Horizonte, na época, Anna foi visto no cine Arte Palácio, na rua Curitiba, um dos poucos que incluíam regularmente na sua programação as produções vindas da Itália e da França. A música popular nas décadas de 40 e 50 destacou-se pelos grandes nomes que sacudiam o país inteiro e também pelos conjuntos vocais, inspirados na escola dos norteamericanos, como The Ink Spots, Mill Brothers, Pied Pipers; Four Freshmen; Four Hits and a Miss (que cantavam com Dick Haymes); The Modernaires, estes conhecidos como vocalistas da orquestra de Glenn Miller; Andrew Sisters e o conjunto de Mel Tormé, os Mel-Tones. A fase mais admirada dos nossos conjuntos coincidiu com o começo do declínio dos norteamericanos. Os mais populares eram os 4 Ases e 1 Coringa, Vocalistas Tropicais (ambos vindos do Ceará para o Rio); Anjos do Inferno; Os Cariocas; Demônios da Garoa; Diabos do Céu; Estrelas do Ritmo; Os Pinguins; Titulares do Ritmo; Vagalumes do Luar; As Três Marias; Trio Madrigal, Garotos da Lua (um dos quais o João Gilberto); Quitandinha Serenaders; Trigêmeos Vocalistas; Trio de Ouro; Trio Melodia; Bando da Lua; Trio Nagô; Namorados da Lua e o Trio Irakitan. Do ponto de vista internacional, o conjunto de maior sucesso foi o Bando da Lua, o primeiro a ser formado no Brasil (1929), inspirado pelos Mill Brothers, que se consagrou nos Estados Unidos, acompanhando a Carmen Miranda, no começo da década de 40. Com tanta lua, luar, inferno e demônios, sobressaiu, desde a sua estreia na Rádio Nacional, em 1946, o então quinteto Os Cariocas. O seu vocal americanizado, com uma excepcional primeira voz aguda, e arranjos muito avançados, fizeram logo a diferença. O conjunto depois se firmou como quarteto, enquanto os demais ficavam na formação de quinteto. As quatro vozes mantiveram a mesma harmonia vocal baseada nos exemplos norteamericanos. As quatro vozes mantiveram a mesma harmonia, baseada nos exemplos norteamericanos. Desde a estreia na Nacional, os Cariocas tiveram várias formações. Em 1961, foi incorporado ao grupo, como solista, Luís Roberto Gomes, o Luís Violão, como era conhecido na sua cidade natal, Visconde do Rio Branco. De lá, ele veio primeiro para Belo Horizonte. Foi aprovado num teste e entrou na Rádio Inconfidência, apresentado pelo Élzio Costa, seu conterrâneo. Além de ótimo cantor, dispunha de recursos que iam além da média: era bom de violão e de contrabaixo. A Inconfidência foi uma escala decisiva para o alcance da meta principal de Luís Roberto, que era cantar no Rio de Janeiro. Num encontro casual no aeroporto de Guarulhos, em 1993, Emanuel Barbosa Furtado, o Badeco da formação original de Os Cariocas, contou-me que, ainda menino, em Rio

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Branco, Luís Roberto ouvia a Nacional e sonhava em ser uma das vozes do grupo. Sonho concretizado, ele foi um dos melhores solistas da história de mais de 60 anos do conjunto, até morrer de repente, em setembro de 1988, quando se preparava para entrar no palco, numa apresentação no Rio. Luís Roberto foi também produtor musical de sucesso. No estilo de Os Cariocas, vieram depois o MPB-4 e o Quarteto em Cy, este inteiramente feminino. Nos anos 60, a música gospel inspirou a formação de um grupo de muito sucesso: Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano. Em Belo Horizonte, os irmãos Silva juntaram as suas vozes no Quarteto de Ouro. O Instituto São Rafael, a grande instituição para deficientes visuais que ficava na rua Guarani, já havia nos dado os Titulares do Ritmo. A carreira desse magnífico sexteto no rádio foi iniciada na Inconfidência, no dia 3 de setembro de 1945, na festa do 9º aniversário da emissora. Com um arranjo do líder do conjunto, Francisco Nepomuceno de Oliveira, cantaram o samba de Wilson Batista e Haroldo Lobo Como se faz uma cuíca. A gravação original desse samba foi feita pelos Anjos do Inferno, um ano antes. Os Titulares logo conquistaram fama no país inteiro e acabaram indo para São Paulo. Eles foram a primeira grande expressão popular de uma instituição que só permitia a música clássica no seu recinto. Havia ainda o Terceto Aymoré (Leo Belico, Vladimir e Bolivar), mas, com a ida do Leo para Buenos Aires, em abril de 51, o conjunto se desfez. Leo viajou à Argentina, de férias, com um grupo de cantores mineiros, entre os quais as irmãs Neide e Nanci. Numa noite, no Tabaris, boate elegante que ficava na Avenida Corrientes, ele foi apresentado pelos companheiros como um grande cantor de música popular. Subiu ao palco e cantou sob aplausos. Na plateia, estavam dois casais de brasileiros e um se aproximou do Leo para cumprimentá-lo e saber se ele não se interessaria em tentar o rádio na Argentina. — Tenho um amigo que é diretor da rádio El Mundo – disse-lhe o novo admirador. — Procure-me na embaixada brasileira, onde trabalho. Leo levou a sério a oferta. Foi à embaixada e de lá saiu com um cartão, apresentandoo a um almirante que dirigia a El Mundo (era a época de Perón, que colocou militares em várias funções civis). Fez um teste na emissora e, aprovado, ficou 11 anos na Argentina, cantando com enorme sucesso lá e em outros países sul-americanos. O nome do seu benfeitor era Arthur da Costa e Silva, então adido militar em Buenos Aires e, entre 1966 e 70, presidente-ditador do Brasil. Em 1954, Leo participou do filme argentino Romeu y Giulida, uma comédia dirigida por Enrique Carreras, no qual aparece cantando. Quando Leo deixou o Terceto Aymoré, os conjuntos vocais ainda estavam bem na moda. Em fins da década, havia o quinteto Caídos do Céu, que cantava na Guarani. A réplica dessa formação celestial não tardou a aparecer, embora sem qualquer compromisso de se tornar profissional. Foi o também quinteto Despencados do Purgatório, organizado no bar Mocó da Iaiá. Os cinco Despencados eram Antônio Papini, Raul Marinuzzi, Mário Lúcio Amaral, Lúcio Touro Cardoso e o quinto, modéstia à parte, eu, o solista.

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Na Guarani, cantava, às vezes, o incomum e divertido Trio Horizontino, sob a proteção do violonista Hilário Washington, que ajudava os seus integrantes na formação do vocal. Que ‘trio’ diferente, pois, ao anúncio do locutor, entravam não três, mas nove artistas no palco, tendo à frente o Chiquinho Motorneiro, que, mal saído do bonde, às vezes nem tempo tinha de tirar o boné que compunha o seu uniforme de trabalho. Como visto no exemplo de Luís Roberto, o ideal de todo radialista mineiro e, certamente, de outros pontos do país, fosse ele locutor, cantor, radioator ou produtor de programas, era ir para o rádio carioca. Meta difícil, dada a enorme concorrência. Alguns foram bem sucedidos, como os cantores Abílio Lessa e Luiz Cláudio e, mais tarde, Paulo Marquez, Aguinaldo Timóteo, Rosana Toledo e Sílvio Aleixo. Mas a cantora que se consagrou em todo o país, na década de 60, foi Clara Nunes, descoberta por Jadir Ambrósio e lançada no rádio por Aldair Pinto. Aldair foi também o responsável pelo lançamento de Agnaldo Timóteo, cuja carreira é simplesmente excepcional. O antigo torneiro mecânico, que chegou menino a Belo Horizonte, vindo de Caratinga, tinha em Cauby Peixoto o seu modelo de voz. Mas depois adquiriu um estilo próprio e grande popularidade. O lado incomum está no reflexo dessa popularidade, numa área com a qual possivelmente ele jamais havia sonhado, a política. Em 1982, foi eleito deputado federal com a maior votação de todos os tempos no país; em 1964, elegeu-se de novo para a Câmara Federal. Depois, sucessivamente, foi eleito vereador no Rio e em São Paulo. Não há nada comparável ao sucesso eleitoral de Agnaldo Timóteo no mundo artístico. Com exceção da Itatiaia, que se voltou mais para a reportagem geral e a cobertura esportiva, embora apresentasse também programas musicais com gravações, as demais emissoras tinham pelo menos um conjunto regional, o nome então dado ao grupo de músicos de instrumentos básicos que acompanhava os cantores da casa. O da Mineira era liderado pelo Dico (Raimundo da Mata); além de músico, era barbeiro, trabalhava durante o dia no seu Salão Da Mata, na galeria do edifício do Cine Brasil. O conjunto incluía o cavaquinho do Urzi e o pandeiro do Jair Silva e, por certo tempo, a flauta de Nicodemos, que depois se transferiu para a Inconfidência. Além do regional, a Mineira possuía o pianista Silva Araújo. O regional de Temístocles Araújo, com o violonista Delson Almada (sempre de terno de panamá branco) e o clarinetista Dedé, abafava na Guarani. Dedé ocupou o lugar que, até 1943, pertenceu ao grande Abel Ferreira. Mal saído da adolescência, a Guarani foi a primeira emissora em que o autor de Chorando Baixinho e Doce Melodia trabalhou, depois que deixou Coromandel, onde nasceu. O rádio era mesmo especial e sofisticado, satisfazendo todos os gostos e todo tipo de público. Até 1948, a Guarani deu-se ao luxo de ter dois auditórios no edifício Belo Horizonte, à Rua da Bahia com Álvares Cabral: o número 1, mais tarde Cine Guarani; e o número 2, o mais popular, no terceiro andar. No número 1, ninguém entrava sem paletó gravata. Mas a Inconfidência se gabava de ter o maior auditório de rádio da cidade, com capacidade para 1.500 pessoas. Além de várias orquestras e maestros, a Inconfidência chegou a ter três conjuntos regionais. Um era o do Bento de Oliveira, a quem se uniam,

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com a força idêntica de excelentes músicos, Hilário Washington, Zinho do Cavaquinho, Juvenal Dias, um grande flautista que se alternava entre o popular e o clássico, e o pandeirista Mário Vaz de Melo. O outro regional era liderado pelo violonista Milton Motta, com o Nico da Flauta; o terceiro era o regional do Genaro Cruz, que incluía o hoje famoso cavaquinista Waldir Silva. A Inconfidência tinha outros músicos de alto nível, como o celista Pedro Quintão e os violinistas Offir Mendes e Geraldo Goulart. Já não existem mais os conjuntos regionais, mas a música popular continua mantendo abnegados cultores. Belo Horizonte é hoje um templo do chorinho, com numerosos conjuntos e uma entidade oficial, o Clube do Choro, criado e presidido pelo bandolinista Jonas Cruz, coronel aposentado da Polícia Militar, que reúne músicos do mais alto nível. E há também, para gáudio dos admiradores do ritmo, o bar Pedacinhos do Céu, de um dos grandes virtuoses do cavaquinho, Ausier Vinicius. Lá ele se apresenta com um grupo notável, mas há outros excelentes conjuntos de choro na cidade. Um é o já veterano Flor de Abacate, cujas gravações merecem acolhida em qualquer discoteca. Todos os demais – 40 e tantos – são muito dignos de menção. Alguns com nomes divertidos, como Rapa do Tacho, Sovaco de Cobra, Rabo de Saia e o Pão de Queijo. E, de uma forma mais sisuda, o Grupo de Choro da Escola de Música da UFMG e o Sarau Brasileiro. No palco de aclamação desse ritmo, há um lugar muito importante para Waldir Silva e seu conjunto de choro. O reconhecimento é feito por Marco Flávio de Aguiar Freitas, no estudo que fez para a pós-graduação da Escola de Música da UFMG. Nesse trabalho, intitulado O Choro em BH – Aspectos Históricos, Compositores e Obras, ele afirma: “Waldir Silva é unanimemente apontado, por músicos e diletantes do choro, como o primeiro músico de Belo Horizonte a se firmar nacionalmente como instrumentista e compositor de choro por meio de gravações. Waldir, que diz ter gravado mais de vinte discos de cavaquinho-solo, ficou conhecido, em todo o Brasil, com sua música “Telegrama Musical”, considerado o hino dos telegrafistas brasileiros. E teve também dois choros seus escolhidos para a trilha sonora da novela Pecado Capital, da Rede Globo de Televisão: “Quatro Cordas que Choram” e “Castelo de Amor”, tema da personagem Emilene.

(*) Um milhão de Melodias foi apresentado também na Inconfidência, em 1952, com a orquestra da emissora regida por Radamés Gnattali, o responsável pela direção musical do programa na Nacional, com a narração de Jairo Anatólio Lima e Lídia Shiela. A Coca-Cola, que patrocinava o programa, participou, assim, da inauguração do novo transmissor de 50kw da Inconfidência.

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Emergência cardíaca? Pixinguinha resolve

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música erudita em Belo Horizonte tinha um bom público, não só entre os ouvintes da Inconfidência, acostumados às audições regidas por Mário Pastore. As outras emissoras não ficavam de fora e ofereciam programas especiais, com gravações dos grandes nomes do gênero. A Guarani, por exemplo, tinha um programa dedicado ao bel canto, uma seleção de gravações de cantores de ópera italianos. E a construção do Teatro Francisco Nunes, inaugurado em setembro de 1950, foi um incentivo especial aos espetáculos clássicos. O teatro foi construído pelo prefeito Negrão de Lima como um auditório de emergência. E Teatro de Emergência ficou sendo o seu nome, até o batismo formal como Francisco Nunes, uma homenagem ao criador do Conservatório Mineiro de Música. Mas o primeiro espetáculo ali apresentado foi teatral: Melodia da Saudade, de Walter Cardoso, com Otávio Cardoso, Dora Serpa, Clarisse Bretz e Maria Helena Mucelli. A partir de meados da década de 50, o palco do Francisco Nunes foi Nagasaki, na montagem de Madame Butterfly, de Giacomo Puccini; e Paris, da época de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Os personagens – Pinkerton, Sharpless, Goro, Butterfly ou Violetta Valéry, Alfredo Germont e o Marquês d’Obigny pisaram a sua madeira humilde. Eles compunham um elenco misto, com artistas locais e outros vindos do Rio e São Paulo. O maestro da orquestra de todas as óperas era Sergio Magnani, um nome respeitado no país inteiro. A temporada das óperas foi mantida por muitos anos. O lado ruim da construção do Francisco Nunes é que ela deu início ao processo de mutilação o Parque Municipal, que, desde então, perdeu outras porções do seu terreno para a construção de edifícios públicos. Que abandono horrível. O parque foi projetado para ser como o Central Park de Nova York ou o Regent’s Park de Londres. Era bonito, mas muito dessa beleza acabou nas obras que as autoridades municipais e estaduais imprudentemente decidiram fazer ali, indiferentes aos prejuízos que causaram à natureza. Do parque original, hoje resta pouco mais de uma terça parte. A voz mais conhecida, entre os cantores líricos, era – e continua sendo – a de Maria Lúcia Godoy. E tínhamos outros cantores de projeção, como Wilson Simão, Zilda Lourenço, Edson de Castilho, Herman von Thiesenhausen, Genuína Pinheiro, João Décimo Brescia, Pery da Rocha França (que, além de cantor, era piloto-instrutor do Aero Clube de Minas Gerais), Aimoré Tomagnini, Julinha Sampaio, William Lima e Murilo Badaró, que adotou o nome artístico de Ricardo Villa. Entre os músicos, o pianista Arnaldo Marchesotti, o flautista Juvenal Dias e o violinista George Marinuzzi. Na temporada de

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óperas, que se repetiu durante vários anos, o teatro lotava. A música em Belo Horizonte contava também com o professor Flausino do Valle, celebrizado como violinista, compositor e folclorista. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, que se apresentava no Francisco Nunes para um grande público amante da música clássica, era conduzida por Arthur Bosmans. A orquestra ensaiava no auditório da Rádio Inconfidência. O balé ocupava também um bom espaço na vida cultural da cidade, graças ao esforço pioneiro de Carlos Leite. Ele foi o responsável pelo surgimento de alguns grandes nomes dessa arte, então vista sob a suspeita de atrair apenas homossexuais, o que sempre foi uma grande mentira. Entre as estrelas do balé, surgidas da dedicação de Carlos Leite, se achava Klauss Vianna, que mais tarde criou a sua própria escola. Carlos Leite foi, sem dúvida, o grande passo inicial. As raízes que ele firmou ajudaram o surgimento do grupo O Corpo, uma referência do balé moderno em qualquer parte do mundo onde já se apresentou. O Corpo é uma das duas grandes expressões da arte brasileira surgidas em Belo Horizonte. A outra é a companhia teatral Galpão, também sucesso internacional. Em 2002, em Londres, o Galpão encenou, no Teatro Globe, um dos clássicos de Shakespeare: Romeu e Julieta, escrito por volta de 1595. A crítica o aplaudiu tanto quanto o público, que lotou o Globe por dias seguidos. No começo da década de 50, surgiu o coral que foi, durante longos anos, o mais harmonioso e famoso do país, o Madrigal Renascentista, dirigido pelo maestro Isaac Karabichevsky. O grupo incluía Maria Lúcia Godoy como voz principal e fez muitas temporadas no exterior. Não existe mais, mas deixou uma obra prima, uma joia preciosa da música popular, o LP Antologia da Modinha Brasileira, gravado no começo dos anos 70, na Philips. Um trabalho de fato antológico. Outros grupos corais logo apareceriam com sucesso dentro e fora do país, como o Ars Nova e o Júlia Pardini. Belo Horizonte transformou-se numa fonte invejável de música coral. Belo Horizonte começava a dar pressa ao seu crescimento, expandindo fronteiras em todas as direções. E a influência política e financeira de Minas Gerais aumentava na mesma proporção. Políticos, financistas, intelectuais e jornalistas eram finos produtos de exportação para outros Estados. A cidade escolhia as suas figuras mais queridas e reverenciadas. Uma delas, e desde que se mudou para a cidade na década de 30, era José Ramos Filho, diretor de banco, sempre pronto para socorrer as aflições dos que precisavam de empréstimos. Mais tarde, nos anos 60, José Ramos foi presidente do Atlético. E até às vésperas da sua morte aos 85 anos, em fevereiro de 2006, ele centralizava, com o seu amplo conhecimento de música popular brasileira e literatura, as rodas que frequentava na Petisqueira do Primo e no Tip-Top. Outro nome conhecido e admirado na cidade foi o do advogado e escritor José Cabral, que morreu em 2008 aos 97 anos. Além de grande mestre do direito trabalhista,

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foi deputado estadual e secretário de Estado. Os dois Josés – Ramos e Cabral – amigos da vida inteira, se transformaram em acervos das lembranças da cidade, dividindo o seu amor ao Atlético Mineiro, do qual Cabral foi também presidente. Ambos sempre proporcionaram aos que tiveram a boa sorte de com eles se sentarem à mesma mesa a alegria de um convívio magnífico e didático em relação a tudo, principalmente os aprendizes das coisas que fazem o nosso dia-a-dia. O conhecimento da música brasileira que José Ramos armazenou desde cedo foi inteligentemente usado pelo dr. Carlos Alberto de Barros Santos, num domingo de 2004, quando ele se sentiu mal à mesa do Tip-Top e foi levado, como medida de precaução, a um hospital de emergências cardíacas. Depois de tratado, o médico de plantão fez-lhe uma série de perguntas, para se certificar que ele havia recobrado a plena consciência. Foi quando o Carlos Alberto, que assistia ao tratamento sem nada dizer, resolveu intervir. — Um momento –, disse Carlos Alberto, — posso participar deste teste final? Então, voltando-se para o paciente, lhe perguntou: — José Ramos, qual o nome de batismo do Pixinguinha? A resposta veio em tom forte e inconfundível: — Alfredo da Rocha Viana Filho. E o dr. Carlos Alberto: — Podem liberá-lo. Ele está ótimo! José Ramos foi amigo do grande compositor de Rosa e Carinhoso. Como qualquer outra cidade, Belo Horizonte sempre possuiu locais de encontro, que constituem confrarias duradouras. A Rua da Bahia, a Afonso Pena, rua Carijós, bairros como Santa Teresa, Barro Preto, Floresta – em toda parte, os pontos de encontro são numerosos. Alguns sobrevivem ao tempo, como o Tip-Top e a Petisqueira do Primo. O Mercado Central, embora funcionando só de dia, é um notável polo, para onde convergem amigos de copo e boa conversa. Há muitos locais ali, mas nenhum tão singular como a loja Rei da Feijoada, onde os encontros ocorrem por inspiração e pela simpatia do proprietário, João Dias. Forma-se ali um universo diferente, onde eminentes desembargadores da justiça, engenheiros, médicos, coronéis reformados da policia militar, jornalistas e outros amigos do dono se confraternizam em exemplar harmonia; é o sodalício de todos os sábados – um abençoado retrato da cidade.

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A Itatiaia abre os caminhos

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rádio da cidade tornava-se mais completo, explorando todos os caminhos que pudessem atrair uma boa audiência. Crescia, e rapidamente, o radiojornalismo. Nesse setor, a Guarani levou vantagem por muito tempo, porque contava com o Adelchi Ziller, que era o melhor repórter do rádio mineiro. Ziller fez reportagens notáveis, porque, além do faro da notícia, tinha um bom improviso e sabia criar imagens que reforçavam a sua narração dos acontecimentos. Em abril de 1954, quando a represa da Pampulha se rompeu, inundando o aeroporto e áreas próximas, ele descreveu a cena dramática, dizendo: “Os paralelepípedos saltam levados pela força da água como se fossem confetes de carnaval”. Depois, em 1961, conseguiu localizar em Buenos Aires o advogado Leopoldo Heitor, acusado de um crime misterioso, o assassinato de uma mulher bonita e rica, Dana de Tefé, cujos restos jamais foram encontrados. Nascida na Tchecoslováquia, Dana veio para o Brasil escapando da perseguição nazista aos judeus, na Segunda Guerra. Leopoldo era o advogado dela, com uma procuração para administrar todos os seus bens e isso levou à suspeita de que ele a havia matado. A entrevista, na qual Leopoldo fez o esperado, isto é, defender-se, foi um furo nacional de Ziller. O rompimento da Pampulha mobilizou a imprensa brasileira. O Diário Carioca mandou o repórter Gilson Campos para cobrir o grande desastre. No seu relato, ele explorou a notícia que correu a cidade: um formigueiro teria sido a causa do afrouxamento da barreira... Se houve alguma contestação a essa versão, que beira ao absurdo, não se sabe, mas, ao que tudo indica, nunca mais se ouviu falar de formigas comprometendo a integridade da engenharia. A grande mexida no radiojornalismo, ocorrida com a chegada da Itatiaia, começou em 1952, quando se realizaram em Belo Horizonte os Jogos Universitários Brasileiros. Com uma equipe de repórteres, que ainda não havia chegado aos 20 anos, treinada pelo próprio Januário Carneiro, a Itatiaia impôs-se no terreno da notícia e da reportagem, estabelecendo uma liderança que jamais seria perdida. Entre os jovens lançados pela Itatiaia, que logo conquistaram um lugar de destaque como narradores ou repórteres, estavam Waldir Rodrigues, Moreno Neto, Avelino Sobrinho, Aulus Safar, Dirceu Pereira, Ulysses do Nascimento, Fábio Martins e Abgar Santiago. A Itatiaia contou também com a experiência e o conhecimento de veteranos já consagrados, como os comentaristas esportivos Ulpiano Chaves, Jaime Rigueira e Edson França; os narradores José Céu Azul Soares, Dênio Moreira e Hamilton Macedo; e os locutores Hermínio Machado, Oliveira Duarte, José Junquilho e Jair Dabian. Mas a nova emissora não explorou somente a

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notícia e sempre manteve programas musicais. Chegou a ter até mesmo um programa de auditório, o Trem da Alegria, apresentado em fins da década de 50 por Aldair Pinto. Como a rádio não tinha um auditório, usou o do cinema Leão XIII, na rua Guarani. Hoje, mantém programas musicais que dividem a audiência com o esporte e o jornalismo. A primeira transmissão esportiva internacional da Itatiaia, no dia 28 de março de 1957, foi marcada pela singularidade da iniciativa, imaginada e articulada pelo Januário Carneiro. Os narradores foram Paulo Nunes Vieira, que não era da emissora, e Jaime Rigueira, que já havia trabalhado lá. O comentarista, Afonso Celso Raso, improvisado para a tarefa. E o jogo, Nacional de Montevidéu x América, no Estádio Centenário da capital uruguaia. Quando Januário ficou sabendo da ida dos três como convidados do clube, ocorreu-lhe fazer a transmissão. A linha foi estabelecida e o jogo, vencido pelos uruguaios por 2 a 1, entrou para a história da Itatiaia como o início de uma sequência de coberturas logo reconhecidas como das mais completas do país. Ampliando a audiência e tornando-se cada vez mais popular, a Itatiaia consolidou o compromisso assumido com a reportagem em algumas iniciativas de grande arrojo. Em 1957, José Lino de Souza Barros sentou-se na garupa da motocicleta da trupe de equilibristas austríacos Zugspitzartisten, colocada sem os pneus, num cabo de aço, que ia de um lado a outro da Avenida Afonso Pena, do topo do edifício Clemente de Faria ao topo do edifício Acaiaca. O repórter fez o trajeto para descrever aos ouvintes as emoções da aventura muito arriscada. Quando não iam de motocicleta, os Zugspitzartisten caminhavam no cabo de aço para mostrar a sua coragem assombrosa. Mas a audácia do José Lino mereceu exaltações, por ter sido igualmente extraordinária. Foi a primeira e única vez que alguém atravessou a Avenida de uma forma tão original... Dois anos depois da inédita reportagem de José Lino, Oswaldo Faria viajou à penitenciária de San Quentin, nos EUA, para entrevistar Caryl Chesmann, apelidado “o bandido da luz vermelha”, condenado a morrer na câmara de gás por uma série de assassinatos, que ele negava com a veemência dos inocentes. Oswaldo não falava inglês, mas isto não foi obstáculo. A entrevista correspondeu ao que se espera de um bom repórter – uma das últimas que Chessmann deu, quando já se achava no corredor da morte, o caminho geralmente

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irreversível da execução da sentença. A Itatiaia acertou em cheio, deixando as emissoras concorrentes para trás, porque soube explorar a polêmica incomum causada pela condenação de Chessmann. Ele havia se celebrizado como escritor e os seus livros foram um grande sucesso de vendas. O primeiro – Cell 2455, Death Row – vendeu mais de 500 mil exemplares. Depois, escreveu The Kid Was a Killer, The Face of Justice e Trial by Ordeal. Muita gente conhecida pediu clemência para Chessmann. Entre os que não queriam que ele fosse executado se achavam Aldous Huxley, Pablo Casals, Norman Mailer, Billy Graham e a viúva do presidente Roosevelt, Eleanor Roosevelt. Nenhum dos apelos impressionou a justiça que o condenou. Chessmann foi executado na câmara de gás da prisão de San Quentin, no dia 2 de maio de 1960. O debate que Chessmann provocou foi encarado com muito humor pelo cantor e compositor Celso Garcia, que escreveu, em cima da perna, uma marchinha falando da comentada execução. Mas Celso não se declarava autor da música. Chegava imitando os gestos do Rômulo Paes, a mão esquerda apoiada na barriga e a direita semifechada, erguida com o polegar dobrado sob a palma, movendo-a ritmadamente e cantava: . O Chessmann era um bom rapaz... Mas teve de morrer na câmara de gás! Morreu em paz... Quando todos caíam na gargalhada, Celso saía da roda, deixando a impressão de ser mesmo uma composição do Rômulo, que, ao saber da brincadeira, fechou a cara. Rômulo também não perdia a oportunidade de debochar de algum amigo. Quando, em 1959, Fidel Castro conquistou o poder em Cuba, Rômulo e Henrique de Almeida compuseram a marcha Formosa Cubana, para o carnaval do ano seguinte, que Isnard Simone gravou. A letra: . Vamos todos cantar Cuba libre tomar. Foi hasteada a bandeira no mastro Vitória do barbudo Fidel Castro. Vem Lolita, Lolita formosa cubana, Vem, vem pra festa E deixe a Sierra Maestra.

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Com Fidel se aliando a Moscou, foram cobrar do Rômulo uma explicação para a homenagem ao líder, logo rotulado de traidor dos ideais democráticos cubanos. Segundo Gervásio Horta, que testemunhou a cobrança, Rômulo não se abateu: – Não fui eu, não. Foi aquele “comunista” do Henrique de Almeida… Nas décadas de 50 e 60, com raras exceções, os locutores que obtiveram contratos nas emissoras do Rio acabavam voltando. Um dos poucos que ficaram foi Marcos Durães, que trabalhou na Nacional. A mesma coisa aconteceu com Marco Antônio França. Abílio Lessa, que foi cantor da Nacional, teve uma longa passagem pela Agência Nacional, como locutor da Voz do Brasil. Este programa foi apresentado também por Francisco Dolabela. O sucesso no Rio não dependia da passagem por uma emissora de Belo Horizonte. De Caxambu, por exemplo, a Rádio Caxambu contribuiu diretamente com nada menos de quatro grandes nomes: os irmãos Jorge, Alberto e Ivon Cury (Jorge e Ivon na Nacional, e Alberto na Tupi) e o narrador de esportes, produtor e apresentador de programas Ruy Viotti (Ruy Villara Viotti), que se consagrou na televisão. Edgar Melo saiu da Rádio Tiradentes de São João Nepomuceno, “a voz da liberdade”, para apresentar o jornal falado da Rádio Tupi do Rio, ouvido em todo o país. O outro locutor desse jornal era o Jece Valadão, que depois deixou o microfone para se transformar num dos mais populares atores do cinema nacional. Entre os que saíram de Belo Horizonte, possivelmente o nome de maior projeção no Rio e depois em São Paulo seja, ainda nos dias de hoje, o do narrador esportivo José Silvério, que trabalhou na Itatiaia e na Inconfidência. José Silvério é atualmente o principal narrador da Rádio Bandeirantes. Locutores daquela época eram também chamados de speaker, ou ispíquer, na versão aportuguesada. De onde teria saído o uso da palavra não se sabe, mas speaker na GrãBretanha, ou nos Estados Unidos, é o presidente de uma câmara legislativa, o orador de uma cerimônia, ou, ainda, o alto-falante, jamais o locutor de rádio. O rádio dava tanto prestígio que, entre os locutores da década de 30, se achava Carlos Lacerda, então jovem estudante de Direito. Ele não parece ter gostado da experiência, pois ficou muito pouco tempo lendo os anúncios do Programa Cazé, lançado por Adhemar Cazé, um pioneiro, na Rádio Philips. Lacerda apareceu como solução de última hora, porque o locutor titular, José de Carvalho, ficou doente e não pôde trabalhar durante certo tempo, foi o que apurou o historiador do rádio Osmar Frazão.

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Cuartito Azul, en Noches de Ronda

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uy Martinez, além de principal maestro da rádio Guarani, tinha ali uma orquestra de tangos, ou orquesta típica porteña, que acompanhava o Alaor Brasil. Ruy adotou Martinez em lugar do seu sobrenome de batismo, que era Martins, e liderava o grupo como bandoneonista. Compunham a típica os violinistas Vicente Manzano e Toninho Lupergi, o pianista Herasto Meniconi e o contrabaixista Jacaré. O sucessor de Ruy Martinez na interpretação musical do tango foi Roberto Blasco, argentino nato, tanguero de estirpe, com passagem pela orquestra de Francisco Canaro (que era uruguaio). Blasco veio ao Brasil, em 1945, para uma temporada de Canaro, que se estendeu ao Cassino da Pampulha. Ele caiu de amores pelo país e acabou se fixando em Belo Horizonte, trazendo, naturalmente, o seu bandoneón. E, em Belo Horizonte ficou pelo resto da vida, tocando não apenas na Guarani, mas também em clubes, bares e no Chantecler, casa noturna rival do Montanhez. Foi um grande acompanhador de Alaor Brasil, cujos sucessos, em 1951, incluíam Percal (Domingo Federico-Homero Expósito) e Sín Palabras (Discépolo-Mores). A Inconfidência não ficou atrás e também mantinha o seu conjunto de tango, cujo maestro era o pianista Mauro Coura Macedo. E os seus cantores foram o próprio Alaor Brasil, contratado nos anos 60, Maria Helena e Juan Moreno, pseudônimo do coronel da Polícia Militar, Waldir Paschoal. Eram todos ótimos tangueros. Juan Moreno cantou muito tempo acompanhado por seu próprio conjunto. Enquanto Alaor, Juan, Maria Helena e Eunice Fialho cantavam de acordo com o original vindo da Argentina, no Rio Albertinho Fortuna dedicava-se a versões, a maioria escrita por Giuseppe Ghiaroni (*) e Haroldo Barbosa, ambos dividindo a música com as obrigações que tinham na Rádio Nacional. Albertinho e Nuno Roland, que também cantava tangos, eram acompanhados pela típica do maestro Eduardo Pathané. Pathané, aliás, compôs alguns tangos, com letra de Floriano Faissal. Houve outros cantores de grande prestígio que se dedicaram ao tango – Orlando Silva, Carlos Nobre, Nelson e Francisco Alves, este último gravando não só versões, mas também em espanhol. Em espanhol, Francisco Alves gravou, entre outros, Adiós Muchachos (Julio Sanders-Cesar Vedani), Esta Noche me Emborracho e Yira... Yira (ambos de Discépolo). O seu sucessor, João Dias, também gravou numerosos tangos. Entre as mulheres, Dalva de Oliveira, que trouxe de Buenos Aires um elepê, em que canta acompanhada da orquestra de Canaro; Ângela Maria; Núbia Lafayete; e Rosita Gonzalez eram as mais conhecidas adeptas do tango. O sucesso do tango abrasileirado foi

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tão grande que só Albertinho Fortuna gravou três elepês, todos relançados em CDs pela etiqueta Revivendo. O tango possuía muitos admiradores. Música urbana, com inspirados letristas, foi ouvida primeiramente em bordéis de Buenos Aires, em 1880, com um traço nítido de extração africana: Tan-go, batida rítmica do candomblé, que teria sido a sua raiz. Em fins do século 19, o tango era visto como coisa de gente baixa, que não podia ser tocada nas casas de família. As restrições foram superadas pelo enriquecimento da música, com a inclusão do bandoneón, do piano, violino e contrabaixo, e, também, pela poesia das letras. O primeiro bandoneón do tango tem uma história curiosa, contou-me em Londres, em 1985, Astor Piazzola: chegou a Buenos Aires no fim do século 19, trazido por um marinheiro inglês, que o adquiriu na Alemanha, onde o instrumento foi inventado para servir de órgão portátil. Na década de 30, ouvia-se tango regularmente nas emissoras de rádio brasileiras. Até hoje, nos programas de fim de noite, há espaço para gravações de velhos sucessos. Nos anos 50, na Rádio Tupi do Rio, Collid Filho (Collid Mamud Ether Filho) apresentava, de segunda a sexta, o Salão Grená, em que, antes de rodar o disco, lia em escorreito espanhol os versos da composição a ser ouvida. O Salão não era exclusivamente de tango, mas é muito bem lembrado pelos sucessos desse ritmo. O programa começava com Saludos, do mesmo compositor de Percal e autor também de Al Compás del Corazón e Yuyo Verde, para citar apenas alguns dos mais conhecidos no Brasil dos anos 50. E dos tangos que Collid Filho antecedia com a leitura dos versos, o predileto dos jovens da época era o já velho Cuartito Azul, que, em 1924, marcou a estreia de Mariano Mores como compositor, aos 16 anos. Cuartito Azul (“azul”, contou Mores, porque havia sido pintado com anil) só viria a fazer sucesso em 1939. Collid caprichava na pronúncia, ao ler as primeiras linhas da letra escrita por Mario Batistella: . Cuartito azul, dulce morada de mi vida, fiel testigo de mi tierna juventud. Llegó la hora de la triste despedida, yá no vés todo en el mundo es inquietud (...). No terceiro e último verso, Batistella mostrou o seu conhecimento literário, dizendo que, no cuartito, sollozó la amada mia, recitándome los versos de Chénier (André), o grande poeta francês do século 18. Através quase que somente do rádio, a música brasileira dominava as audiências. Mas alguns ritmos importados também tinham os seus seguidores, por serem apaixonantes, como o tango e, depois, o bolero, cuja origem é polêmica. Para alguns, surgiu na Espanha como uma variação do danzón. Outros creem que foi em Cuba, em 1887, consolidando a sua popularidade através do México, que se considera o dono do ritmo.

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O fato indiscutível é o papel de Cuba no aprimoramento dessa música romântica e de ampla aceitação. O bolero chegou ao Brasil pela voz de Pedro Vargas, no começo dos anos 40. E, por ter letras sempre em espanhol, todos achavam fácil cantar algumas linhas dos grandes sucessos. Mas a sua aceitação no país inteiro se deu com o sucesso do filme mexicano Santa, o Destino de uma Pecadora, com Ricardo Montalbán e Esther Fernandez, lançado em 1943, e que só foi exibido no Brasil em 1945, ficando 27 semanas em cartaz. O bolero Santa, de Agustín Lara, marcou o filme. O bolero influiu positivamente no nosso samba-canção, que, como já se viu, incorporou um toque mais sentimental a partir, também, de meados da década de 40. A melhor fase do bolero durou até fins da década de 60, embora alguns espetáculos e velhas gravações ainda tenham admiradores nos dias de hoje. Além do mais, é fácil de dançar: dois passos para um lado e dois para o outro, um pouco de aprumo no corpo, para demonstrar conhecimento da música. Bailes em casas de família (onde ninguém dançava de rosto colado, mas os rapazes iam de paletó jaquetão para ocultar as excitações), animados por um barril de chope e sanduíches de mortadela, tinham os boleros de Gregorio Barrios (Gregorio Barrios Villabriga, 1911-1978), gravados em 78 rpm na Odeon, como grande atração. No começo dos anos 50, Gregorio – espanhol naturalizado argentino e que viveu a parte mais fecunda da sua carreira no Brasil – gravou apenas Siboney, de Ernesto Lecuona. Ele teve de dedicar muito tempo a cinco filmes argentinos, quase todos dirigidos por Kurt Land, nos quais fez o que de melhor sabia fazer, cantar. Os filmes são: Campeón a la fuerza, Piantadino, Hoy canto para tí (os três em 1950); ¡Qué hermanita! (1951) e A Dupla do Barulho (1953). Mas os seus discos continuaram rodando em todo o Brasil. Venganza, de Alfredo Parra; Quizás, Quizás, de Osvaldo Farrés; Pálida Canción, de Don Fabián; e Fué en Buenos Aires, de Tito Ribero e Juan Clauso, todos lançados em 1947. Com exceção deste último, em 1948, eram os favoritos. Havia ainda Dos Almas (Don Fabián); Luna Lunera (Tony Fergo); Quizás, Quizás (Osvaldo Farrés) e Hipócrita (Carlos Crespo). Gregório Barrios inflamou as paixões de adolescentes e adultos da época, o coração batendo forte, todos ouvindo os seus discos em 78 rotações por minuto. Hipócrita foi originalmente sucesso na voz de Fernando Fernandez. Quase ao mesmo tempo, Fernandez atraiu uma grande audiência para um bolero chamado Suicídio, do mesmo autor de Hipócrita. Este bolero terminava com Fernandez dizendo em tom desolador: “adiós, vida ingrata”... Em seguida, ouvia-se o estampido de uma arma de fogo! Além de Gregorio Barrios, o Brasil da década de 50 aplaudiu em sucessivas temporadas o cantor chileno Lucho Gatica. Desde o seu começo, o bolero teve intérpretes e compositores de diferentes nacionalidades. Só o Chile produziu dois excelentes cantores: além de Lucho Gatica, Antonio Prieto. Da Argentina, Roberto Yanés, Leo Marini e dois ótimos compositores e cantores: Mario Clavell e Chico Novarro. E havia ainda os cubanos Fernando Albuerne,

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Olga Guillot, José Antonio Mendez, Bienvenido Granda, Pablo Milanés, Bola de Nieve (Ignacio Jacinto Villa Fernandez, pianista e compositor também) e Vicentico Valdés; os portorriquenhos Bobby Capó e Tito Rodriguez; a nova-iorquina Eydie Gormé; o colombiano Carlos Ramirez; a espanhola Sarita Montiel e Nat King Cole, que gravou dois notáveis elepês com alguns boleros clássicos. Todos eles competiam diretamente com os mexicanos Pedro Vargas, Tito Guizar, Fernando Fernandez e o Dr. Alfonso Ortiz Tirado – doutor mesmo, pois era um médico que exercia a profissão e, por isso, usava o nome completo nas suas apresentações e gravações. Foi, aliás, um dos melhores intérpretes das composições de Agustín Lara. Mais tarde, viriam o mexicano Armando Manzanero, um grande compositor e intérprete, os espanhóis Dyango, Julio Iglesias e Luís Miguel. O bolero notabilizou-se por ter atraído mulheres compositoras, que criaram alguns dos seus mais notáveis sucessos. A maior de todas foi a mexicana María Grever (18941951). Nascida María Joaquina de la Portilla Torres, María Grever compôs música e letra de dezenas de boleros, entre os quais Cuando vuelva a tu lado, Te quiero, dijiste e Ya no me quieres. A outra grande compositora, também mexicana, foi Consuelo Velazquez (1916-2005). A composição que perpetuou o seu nome no mundo inteiro foi, de fato, a primeira – Bésame mucho – estreada em 1941, numa gravação de Emilio Tuero, um barítono espanhol e ator de cinema. E Pedro Vargas escolheu o Cassino da Urca, no Rio, em 1943, para cantá-lo pela primeira vez na sua carreira. Pedro familiarizou-se tanto com o Brasil, que foi convidado e aceitou ser compadre do locutor César Ladeira e da sua mulher, Renata Fronzi. Batizou um dos filhos do casal. Além disso, decidiu homenagear o país que o acolhia gloriosamente, dando o nome do presidente da época a um filho recém-nascido. Foi assim que o México passou a ter um Getúlio Vargas. Voltando às compositoras, havia ainda María Theresa Lara, irmã do grande Agustín Lara, apelidado El Flaco de Oro, que compôs uma das mais belas criações do gênero, Noche de Ronda. Alguns historiadores do bolero garantem que María Theresa apenas assinou os títulos, de fato compostos por Agustín. A outra compositora reconhecida entre as melhores do bolero é a cubana Isolina Carrillo, autora de Dos Gardenias. O Brasil também tinha grandes vozes do bolero. Altemar Dutra foi o mais famoso, mas, talvez, por sua longa convivência com cantores e compositores como Gatica, Mario Clavel e Prieto, Léo Belico transformou-se num excelente intérprete, cantando sempre em espanhol. Destacavam-se ainda Anísio Silva e o Trio Irakitan, há anos muito popular no país inteiro. E entre os conjuntos musicais, deve ser sempre citado o de Waldir Silva, cuja admiração pelo bolero o levou a gravar vários CDs. Houve cantores que adotaram nomes hispânicos para caracterizar mais fortemente o seu vínculo com o bolero e outros ritmos centro-americanos. No Rio, a Nacional tinha duas cantoras batizadas artisticamente de forma mais adequada ao seu repertório. Uma era Rosita Gonzalez, carioca, nascida Jussara de Melo Vieira; a outra Juanita Castillo, uma lisboeta cujo nome de batismo requeria muito fôlego para ser dito sem pausa: Clarisse Maria Luiz de Menezes Cardoso e Silva de Noronha Vasconcelos Porto. Ela começou

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num programa da Nacional, produzido por Renato Murce, chamado Em Busca de uma Cantora Mexicana, o que demonstra o interesse que o bolero despertava. E, para parecer mesmo mexicana, trocou de nome. Nós, em Belo Horizonte, aplaudíamos Eunice Fialho, bolerista e tanguista, voz privilegiada, que sempre usou o nome de batismo. Entre os cantores, o Rio tinha Ruy Rey (nascido Domingos Zeminian), Roberto Luna (Valdemar Farias) e El Cubanito (Álvaro Francisco de Paiva). Fazia enorme sucesso na época uma extraordinária cantora, que impressionava pelo seu grave sensual. Era a mexicana (legítima) Elvira Ríos, cujas gravações, ouvidas nos anos 50, incluíam o clássico Vereda Tropical (Gonzalo Curiel), No te importe saber (René Touzet) e Mi carta (Mario Clavel). Mas o bolero foi sempre interpretado por muitas outras cantoras, como María Luisa Landin, Eva Garza, Ana María Gonzales, Carmen Delia Dipini, Toña la Negra, Adelina García e, mais recentemente, as suas sucessoras, a cubana Celia Cruz, a peruana Tania Libertad e a argentina Cecilia Milone. Elvira esteve em Belo Horizonte e despertou paixões incontroláveis entre os freqüentadores do Cassino da Pampulha, que tudo fizeram para seduzi-la. Alguns, talvez por pura fanfarronice, disseram que a bela mexicana não havia resistido aos seus avanços e que com ela passaram horas de inesquecível prazer. Era tudo mentira, mas a bazófia não durou muito, porque, algum tempo depois, foi noticiado que Elvira Ríos era um travesti. Ninguém procurou confirmar a informação, que era falsa. Todos imediatamente se dissociaram da conquista, dizendo que as histórias que contaram não passavam de uma brincadeira. Entre os que renegaram o caso de amor com Elvira Ríos houve um, logo apelidado de “lava a boca”... Um dos maiores impulsos à popularização do bolero foi dado pelo Trío Los Panchos, cuja história é singular. O trio, que cantou várias vezes no Brasil, não foi formado, nem começou no México, que viria a ser, depois, a sua base. Os Panchos organizaram-se e estrearam em Nova York, em 1944. Eram dois mexicanos – Chucho Navarro e Alfredo Gil – e um porto-riquenho, Hernando Áviles Negrón, radicados lá. Chucho e Alfredo lutaram na II Guerra, como voluntários do exército norteamericano. A história, no entanto, registra o Trio Matamoros, de Cuba, como o primeiro grupo que se formou para cantar o bolero. Antes dos Panchos, o México já tinha o Trío Calaveras; depois vieram Los Tres Ases, Los Tres Diamantes, Los Tres Caballeros, Los Tres Reyes, Los Tariacuri, Trio América e Los Tecolines. A certa altura, quase toda cidade mexicana possuía um trio cantando boleros. Belo Horizonte figura na letra de um bolero que os Panchos gravaram depois da sua primeira e longa temporada no Brasil, em 1948. Chama-se Cristo do Rio, composto por Alfredo Gil. Começa falando das belezas do Rio e depois menciona as de outras capitais brasileiras. Os bailes do começo da década de 50 contavam ainda com a animação das gravações dos Lecuona Cuban Boys, a orquestra de Ernesto Lecuona, feitas, quase todas, 15 ou 20 anos antes. Entre as mais tocadas, se achavam Cubanacán (Chamilleury-Moi-

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sés Simons-Sauvat); Cachita (Raphael Hernández-Bernardo C. Sancristóbal); Rumba Blanca e Rumba Azul (ambas de Armando Oréliche), com o solista Alberto Rabagliati e a sua bela interpretação falseteada; Panamá e Para Vigo me Voy (composições de Ernesto Lecuona), gravadas por Agustín Bruguera. E as gravações da orquestra de Xavier Cugat passaram a ser muito ouvidas desde o seu sucesso nos Estados Unidos, tocando ritmos latinoamericanos – sobretudo boleros e rumbas. Ele resolveu abreviar o seu nome, porque, se as emissoras tivessem de anunciá-lo por inteiro, isto tomaria um bom pedaço da programação: o espanhol Xavier Cugat (1900-1990) foi batizado Francisco de Asís Javier Cugat Migall de Bru y Denfoleo. Nos bailes, entre as suas gravações mais tocadas, estavam Aquellos Ojos Verdes (Utrera-Menendez) e Acércate Más (Osvaldo Farrés), tendo Carmen Castillo como intérprete. O colombiano Carlos Ramirez e o mexicano Pedro Vargas estiveram em Belo Horizonte à época do Cassino da Pampulha (o cassino foi fechado em 1946, com a proibição do jogo). De Ramirez, eram ouvidos, nos anos 50, Para qué Recordar e De Donde (ambos de María Grever) e Mala Noche (Alberto Domingues). Pedro Vargas tinha, entre as suas gravações preferidas do público, Perfidia (Alberto Domingues) e Toda Una Vida Estaria Contigo (Osvaldo Farrés). Famoso era também Bienvenido Granda, que se formou na lendária orquestra Sonora Matancera, de Cuba. Outros grandes nomes, como Leo Marini, Bobby Capó, Celia Cruz, o pianista Perez Prado e Vicentico Valdés, também integraram o grupo. O bigodudo Bienvenido conquistou muitos admiradores no Brasil por seu estilo peculiar. Ele era apresentado como “o bigode que canta”. As suas gravações de sucesso incluíam Angustia (Orlando Brito), La Copa del Olvido (Delfino-Vacareza) e o bolero Señora, do cubano Orestes Santos, que teve uma versão brasileira feita por Lourival Faissal, gravada por Gilberto Milfont, em 1952. Como a letra contava a história de uma mulher casada, mas que era “mais perdida do que as que, perdidas, precisam viver”, Gilberto conta que ficou embaraçado, quando, numa temporada no Maranhão, pediram que cantasse o bolero, que era então o seu grande sucesso, dedicando-o à mulher do governador... Ele o cantou, mas sem se referir à homenagem solicitada, pois, justificou, “era a música que não podia ser oferecida a mulher alguma”. Os anos 50 e 60 foram realçados por outros privilégios para os apreciadores de música. Era um deslumbramento ouvir a soprano peruana Yma Sumac, cuja voz agudíssima, que alcançava mais de quatro oitavas, podia trincar uma peça de cristal. Yma, batizada Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo, nasceu em 1922 e morreu em 2008. Ela se dizia descendente do imperador inca Atahualpa e adotou um nome que, na linguagem indígena quéchua, significa “Que Linda”. Os seus momentos mais gloriosos foram na década de 50. Eu a conheci, no começo dos anos 60, viajando no mesmo avião de Montevidéu para Buenos Aires. Com ela se achava Frei José Mojica. Além de olhares, não trocamos uma só palavra.

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Uma cantora que marcou os últimos anos 50 e, sobretudo, os da década seguinte, foi Miriam Makeba, a “imperatriz da canção africana”. A história de Miriam, nascida Zenzile, é comovente. Começou como empregada doméstica, lutou pelos direitos civis na África do Sul, onde nasceu em 1932. Perseguida pelo criminoso regime do apartheid imposto pela minoria branca entre 1948 e 1990, ela teve de sair de lá para fazer a sua carreira. Conheceu o cantor Harry Belafonte, em Londres, e daí por diante foi reconhecida no mundo inteiro. Seus maiores sucessos foram Pata, Pata (dela mesma) e The Click Song (adaptação do folclore). Os Estados Unidos a aplaudiram entusiasticamente. Ela foi a primeira cantora africana a ganhar o Grammy e a entrar na lista das mais ouvidas no país. Miriam Makeba teve dois modelos de voz: as americanas Ella Fitzgerald e Nina Simone. Ela foi proibida de voltar à África do Sul à época do separatismo racial e, a certa altura, proibida também de voltar aos Estados Unidos, porque havia se casado com Strokeley Carmichael, um dos líderes do movimento Black Panther. Morreu em Caserta, na Itália, em novembro de 2008, logo depois de um concerto. Ouvíamos também, e muito, a bonita chilena Rosita Serrano, que se consagrou na Alemanha, cantando Babalu, de Marguerita Lecuona. E não perdíamos a oportunidade de ver a cubana María Antonieta Pons nos filmes mexicanos exibidos no cinema Candelária, na Praça Raul Soares. Em 1953, María Antonieta veio ao Brasil para participar de Carnaval Atlântida, ao lado de Oscarito, Grande Otelo, Cyl Farney, Eliana, José Lewgoy e Renato Restier, entre outros. As músicas foram apresentadas por Bené Nunes, Blecaute, Nora Ney, Dick Farney, Francisco Carlos, Bill Farr, Chiquinho e sua orquestra. Emprestar discos a amigos ou conhecidos para serem tocados num baile de família parecia ser uma rotina. Mas quem os emprestava sempre alertava para o risco de estragos irrecuperáveis, se não fosse mudada a agulha que já houvesse passado pelos sulcos de dez gravações. Nos bailes, tinha que haver alguém atento a esse limite. Os discos de 78 rpm começavam a ser substituídos, em 1951, pelos de longa rotação, os elepês. Os elepês começaram a ser comercialmente gravados em 1948, nos EUA. A princípio, tinham dez polegadas e o primeiro que se ouviu no Brasil, do selo Sinter, incluía somente músicas de carnaval, uma das quais a Marcha do Gago (Klécius CaldasArmando Cavalcanti), com Oscarito.

(*) Giuseppe Alditori Ghiaroni foi um dos gênios da Nacional. Escreveu 27 novelas, criou o programa de humorismo Tancredo e Trancado, produziu musicais, escreveu crônicas e uma bela obra poética.

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Reis do espalhafato, gênios da fantasia

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lém de capital da República, o Rio de Janeiro servia também como capital cultural do país. Os melhores teatros, os melhores salões de artes, os melhores jornais e revistas – o Rio era a corte. Ninguém fazia sucesso no âmbito nacional sem primeiro fazer sucesso lá. Cantores de prestígio vinham, na sua quase totalidade, do rádio carioca, sobretudo da Nacional, cujos poderosos transmissores de onda curta ajudavam a consagrar as músicas que apresentavam nos programas da emissora. Para compensar os salários baixos, as temporadas fora do Rio ou espetáculos exclusivos lhes davam rendas invejáveis. Eles eram também os que faziam maior sucesso no carnaval. Um número bem grande de preferidos do público de todo o país: Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Gilberto Alves, Nuno Roland, Carlos Galhardo, Deo, Ataulfo Alves, Cyro Monteiro, Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Jorge Goulart, Blecaute, Francisco Carlos, Zezé Gonzaga, Alcides Gerardi, Marlene, Roberto Silva, Carmen Costa, Elizete Cardoso, Adelaide Chiozzo, Leny Eversong, Moreira da Silva, Rosita Gonzalez, Cauby Peixoto, Linda e Dircinha Batista, Mário Reis, Roberto Luna, Jamelão, Heleninha Costa, Núbia Lafayete, Ruy Rey, Helena de Lima, Jorge Veiga, Emilinha Borba, Marlene, Joel e Gaúcho, Roberto Paiva, Carmélia Alves, Araci de Almeida, Marília Batista, Odete Amaral, Gilberto Milfont, Albertinho Fortuna, Augusto Calheiros, Isaurinha Garcia (esta, um sucesso exportado por São Paulo), Agostinho dos Santos, outro grande nome vindo de São Paulo, entre os que mais se destacavam e mais vendiam discos. A lista deve ser acrescida dos conjuntos musicais da época: os de Altamiro Carrilho, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Carolina Cardoso de Menezes, Jacob do Bandolim e Fafá Lemos. E solistas, como o Edu da Gaita. A gloriosa exceção, porque não tinha contrato com rádio alguma, era o cantor que se fez famoso como a voz orgulho do Brasil: Vicente Celestino (Antônio Vicente Felippe Celestino, 1894-1968). A popularidade de Vicente Celestino superava até mesmo a de Orlando Silva ou a de Francisco Alves. Ele lotava qualquer tipo de auditório: do mais luxuoso teatro do Rio à mais modesta arquibancada de um circo do interior. E, durante longos anos, o filme que projetou Vicente na tela, O Ébrio, escrito e dirigido por sua mulher, Gilda Abreu, manteve os cinemas de qualquer parte do país repletos de um público que vertia lágrimas copiosas ao longo das duas horas e seis minutos de sua duração. O Ébrio era um dramalhão baseado numa música do mesmo nome, composta e gravada por Vicente em 1936 – um dos seus maiores sucessos de todos os tempos.

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Mais de quatro milhões viram o filme. Em 1951, ele foi o astro do segundo filme escrito e dirigido por sua mulher, que, como O Ébrio, tinha o nome de outra das canções de sucesso que gravou: Coração Materno. Vicente Celestino fez também algumas incursões no radioteatro da Rádio Tamoio, sempre guiado por sua mulher. Neste nível de popularidade, Vicente Celestino teve em Waldick Soriano um sucessor à altura. Waldick começou nos últimos anos da década de 50, apresentando-se no interior do país, vendendo os discos que gravava por conta própria. Viveu em Belo Horizonte durante algum tempo, onde fez grande amizade com Gervásio Horta. Ao morrer, em 2008, ampliou a sua história de popularidade, porque, pela primeira vez, dois grandes clubes de futebol, o Cruzeiro e o Vasco da Gama, e toda a torcida, guardaram um minuto de silêncio para homenageá-lo. A história dos estádios brasileiros foi assim reescrita na noite inesquecível de apreço a Waldick Soriano. Rio e São Paulo eram, aos nossos olhos e de acordo com os recursos de há mais de 50 anos, cidades distantes, que fecundavam, ou mesmo subvertiam, a nossa imaginação provinciana. O Rio sobrepunha-se a São Paulo como a cidade das praias, mulheres lindas – lugar para se ir em qualquer época do ano. As colunas da imprensa nos levavam a admirar os seus locais nobres, como a Pérgola e o Golden Room do hotel Copacabana Palace. Ouvíamos falar também dos restaurantes mais bem frequentados de lá, que eram o Bife de Ouro e o Le Bec Fin, com os seus opíparos cardápios. E a noite carioca na década de 50 oferecia alternativas magníficas. Eram muitas as boates e bares. Havia a boate Drink, onde tocava o Djalma Ferreira, o dono da casa; e a boate Arpège, animada pelo conjunto de Waldir Calmon. As duas eram parte de qualquer programa noturno dos poucos que conseguiam viajar ao Rio. Djalma, o lançador do solovox, tinha vários e bons vocalistas, como Miltinho, Luiz Bandeira, Helena de Lima e Jair Rodrigues.

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Ditoso era também quem conseguia ver alguma apresentação do violinista e assobiador Fafá Lemos (Rafael Lemos Júnior) e do seu Trio Surdina, que incluía Garoto (violão) e Chiquinho (acordeom). Fafá teve também a sua boate, a Boate do Fafá, na rua Ronald de Carvalho. Mas ele era mais do rádio e deixou estupendas gravações, algumas com a pianista e compositora Carolina Cardoso de Menezes. A boate mais falada do Rio de Janeiro, entre 1946 e 1955, chamava-se Vogue, criada por Max Stukart, nobre austríaco (era barão), que veio para o Brasil fugindo da Guerra. Ficava no andar térreo do número 23 da Av. Princesa Isabel, um edifício de oito andares, onde havia também um hotel. Os seus frequentadores caminhavam pelo salão de entrada, que se reduzia a um corredor, indo até o final do edifício. E tinham o privilégio de ver os espetáculos de todos os grandes nomes da música popular brasileira. A boate consagrou Dolores Duran. Foi lá que ela estreou como cantora. Tinha apenas 16 anos, e ainda não havia adotado o nome artístico que a tornou conhecida no país inteiro, como compositora e cantora. Cantava em inglês, francês e espanhol, idiomas que aprendeu sozinha. A boate transformou-se no ponto chique do Rio. Alguns dos seus frequentadores, como o colunista Jacinto de Thormes, eram recebidos ao som da música que mais apreciavam, tocada pelo pianista Sacha Rubin, outro refugiado. Para Thormes, Solitude (Duke Ellington-Eddie Delange-Irving Mills), valorizada por uma linda gravação de Billy Eckstine. O cardápio era assinado pelo russo Gregoire Belizanski, outro refugiado de guerra. Belizanski acrescentou ao nosso paladar pratos como estrogonofe, picadinho à brasileira e frango à Kiev. A cozinha do Vogue era tão famosa que a Varig, nos anos 50, incluiu o que ela tinha de melhor no serviço de bordo das viagens para Nova Iorque. Depois, não só nas viagens para Nova Iorque, feitas em SuperG Constellations, como para qualquer outro destino. Nenhuma companhia do mundo tratava melhor o passageiro do que a Varig. O Vogue teve um fim trágico: um incêndio o destruiu em agosto de 1955, causando a morte de duas pessoas, uma das quais o cantor que se apresentava na casa, o norteamericano Warren Hayes. Em dezembro de 2008, o jornalista Luís Nassif escreveu sobre o Vogue: “Não era mero local de recreação, mas ponto obrigatório de troca de informações, em que se confabulava sobre operações cambiais, financeiras, advocacia administrativa e prevaricação”. O Rio nos impressionava pelos nomes que figuravam nas colunas sociais, como os multimilionários Jorginho Guinle e Baby Pignatary, conquistadores de lindas e famosas mulheres, sibaritas ou playboys, definição mais comum naqueles anos, que levavam uma vida invejável. Uma inveja plenamente fundamentada. Jorginho, um baixinho que não chegava ao ombro das atrizes norte-americanas que convidava para temporadas no Copacabana Palace (hotel da sua família, inaugurado

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em 1923), ou para visitar o apartamento que tinha em Nova York, dispunha de milhões de dólares para atraí-las. E com esse poder de sedução entreteve na sua cama as atrizes de Hollywood Heddy Lamar, que dele pediu um quadro de Picasso avaliado em 70 mil dólares (Jorginho desconversou o pedido); Marylin Monroe; Rita Hayworth; Veronica Lake; Lana Turner; Anita Ekberg; e Jayne Mansfield, entre outras. Baby, por sua vez, foi notícia no mundo inteiro, quando se casou com a princesa Ira von Furstenberg, de 24 anos de idade, descendente do bispo de Estrasburgo e filha de uma senhora de sobrenome Agnelli, a riquíssima família italiana que controla a Fiat e outros grupos industriais. Ela era jovem, porém experiente, pois já havia tido um casamento faustoso com outro playboy, o príncipe hispanogermânico Alfonso de Hohenlohe-Langenburg, aos 15 anos! O casamento durou somente duas semanas. Baby Pignatari a seduziu e a trouxe para o Rio. E no Rio eles se casaram. Mas foi um casamento que não passou do segundo aniversário. Baby Pignatari, sobrinho do magnata Francisco Matarazzo, conseguia ser playboy e grande administrador de empresas. Possuía minerações e fábricas, e foi um pioneiro da aviação, construindo os aviões Paulistinha, em cuja pequena nacela se formaram numerosas gerações de pilotos comerciais. O primeiro voou em 1943, projetado e construído pela Companhia Aeronáutica Paulista, que Baby havia fundado apenas um ano antes, em Santo André, São Paulo. Baby Pignatary morreu com apenas 61 anos e a sua fortuna acabou desaparecendo. A mesma coisa, aliás, aconteceu com a riqueza de Ira von Furstenberg. Em 2005, o hotel Royal Monceau, de Paris, levou-a à justiça para receber uma conta de 122 mil euros. Humilhação absoluta. Advogados do hotel a acusaram de ter escondido jóias e outros pertences de valor, para não perdê-los no ajuste de contas. Nos anos 90, Ira vivia como convidada remunerada de festas que necessitavam cobertura da imprensa; mas o interesse pela sua presença foi ficando reduzido na medida em que os anos se passaram e ela já não despertava mais a admiração de outros tempos. No auge da sua fama, Baby Pignatari – que integrava o lendário Clube dos Cafajestes – namorou a atriz norte-americana Linda Christian, ex-mulher do ator Tyrone Power. Ele a convidou para passar uns dias no Rio, mas o romance não durou. Brigaram e a briga foi exposta pela imprensa. Uma briga divertida, comentada por todos, porque, em março de 1958, Baby organizou uma manifestação de protesto contra a presença de Linda no Rio, com a ajuda do seu Clube. À porta do Copacabana Palace, podiam ser vistos cartazes com os dizeres: Linda, go home. Mas ao invés de viajar de volta aos EUA, ela tomou o destino de Cuba, onde outro namorado, ou simplesmente admirador, a esperava. Linda Christian criou a imagem, bem justificada, de ser uma caçadora de fortunas e algumas das suas possíveis presas, como Baby Pignatari, logo se deram conta de que um romance com ela ficava caríssimo. Mais famoso do que Jorge Guinle e Baby Pignatari foi o dominicano Porfirio Rubirosa, considerado o conquistador número 1 das Américas, o playboy de amavios infini-

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tos. Porfirio tinha fama de haver nascido fisicamente muito bem dotado. E as mulheres queriam conhecê-lo, pelo menos por curiosidade. Porfirio conquistou algumas das mesmas mulheres, que se viram atraídas pela fortuna de Jorginho. Mas ele fez mais para tornar a sua imagem insuperável: pilotou aviões, carros de alta velocidade, participou da corrida de Le Mans, buscou tesouros perdidos no Caribe, e não se sentiu envergonhado quando aceitou um convite do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo, para integrar o corpo diplomático do país, no posto de embaixador. Trujillo era sogro de Rubirosa. Ele se casou cinco vezes, a primeira com Flor de Oro Trujillo. Na lista de conquistas de Porfírio, achavam-se, entre outras, Ava Gardner, Jayne Mansfield, Veronica Lake e Dolores del Río. Duas de suas mulheres legítimas estavam entre as mais ricas do mundo: Doris Duke e Barbara Hutton. Ele acabou morrendo num desastre de carro, em 1965. Líamos todas as histórias que vinham do Rio com admiração e muita inveja. Nada nos parecia mais deslumbrante e inalcançável do que os fabulosos bailes de carnaval do Teatro Municipal, cujos frequentadores obedeciam, inevitavelmente, às regras estampadas no convite: traje a rigor ou fantasia rica. Por traje a rigor entendia-se a roupa de gala para os homens e vestidos compridos para as mulheres, em que pese o calor da época. Quem preferisse a fantasia rica, podia competir no concurso que o país todo conhecia, vencido durante muitos anos por Clovis Bornay, um gênio do espalhafato. As suas fantasias estrambóticas requeriam dezenas de metros de tecidos e levavam nomes que nada significavam, além da curiosidade popular. Coisas como “Catedral Submersa no Espaço” ou “Oceano da Imaginação Inalcançável”. Os seus maiores rivais – Mauro Rosas e Evandro de Castro Lima – não ficavam muito distantes em estilo, criatividade e nomes tão loucos quanto. Outro nome popular e comentado nos carnavais da época, e na verdade o ano todo, era o da naturalista, ou existencialista, Luz del Fuego, o apelido de Dora Vivacqua. Antes de ser Luz del Fuego, Dora – que, como Rubem Braga e e o cantor Roberto Carlos, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim(*) – morou duas vezes em Belo Horizonte, onde nunca se conformou com o estilo de vida calmo e mais disciplinado da cidade. Ao se mudar definitivamente para o Rio, ela abandonou as roupas, como sempre quis, posando nua, enrolada em cobras, exibindo o seu corpo escultural e muito cobiçado. Aliás, a afeição de Luz Del Fuego por ofídios começou numa visita que ela fez, ainda menina, ao Instituto Ezequiel Dias, na Gameleira. A amizade com as cobras só cresceu, desde então. Na Ilha do Sol, onde depois foi morar, lá criando um território nudista, Luz del Fuego tinha uma coleção de jibóias amestradas, com as quais convivia em festiva harmonia. A ilha exercia uma atração especial. Atores como Erroll Flynn, Ava Gardner, Lana Turner, Tyrone Power, Glenn Ford, Cesar Romero e Steve McQueen lá estiveram, ou tentaram entrar, porque, quem se recusasse a ficar nu, era barrado. Luz del Fuego morreu assassinada em circunstâncias misteriosas, em 1967. Ela fundou um partido político para defender o naturalismo, que foi posto fora da lei pelos militares.

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A expressividade do carnaval carioca não se circunscrevia ao baile do Municipal. Havia os bailes do João Caetano, High Life, Bola Preta, Copacabana Pálace, Hotel Quitandinha, Lido e Cassino Atlântico, que a cobertura fotográfica de O Cruzeiro, da Manchete e da Fatos e Fotos nos fazia sapatear de inveja. Passar férias no Rio, então uma raridade, rendia longos comentários, às vezes repletos de bravatas nunca comprovadas. De viagem à Europa, nem se falava. Aos Estados Unidos, já havia jovens que se aventuravam. Na década de 50, porém, universitários em fim de curso começaram a organizar excursões à Europa, celebrando a formatura. Eles levantavam dinheiro através de rifas e organizando bailes com convites pagos. E de lá voltavam contando histórias que nos encantavam, criando naqueles, que viam o velho continente como galáxia inimaginável, uma espécie de sonhoduto. As primeiras excursões universitárias foram feitas de navio. A viagem internacional mais factível nos anos 50 era a Buenos Aires, mas ainda assim somente para os que tivessem rendas acima da média. Havia também as viagens ao Uruguai, sobretudo para divórcios. Durante muito tempo, o Uruguai foi o único país da América do Sul que incluía o divórcio na sua legislação. Homens e mulheres separados podiam obter o divórcio e se casar de novo numa visita a Montevidéu. E, dessa forma, se purificarem perante uma sociedade extremamente conservadora, que reagia com murmúrios de desaprovação e com falso moralismo à notícia de que alguém havia se separado; ou que vivia em regime de concubinato, pecando perante a religião e ignorando a lei. (*) Os compositores Raul Sampaio (cuja obra é interpretada por grandes nomes da música popular), Carlos Imperial e o ator Jece Valadão são outros cachoeirenses famosos.

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Cá e acolá, desastres há

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seleção brasileira, devastada pela derrota para o Uruguai, no dia 16 de julho de 1950, na final da Copa do Mundo, ficou mais de um ano sem fazer um só jogo. Uruguai 2 a 1 foi trágico, inesperado e desmoralizante. A voz angustiosa de todos os narradores ribombou no país inteiro, que a ouviu em silêncio compungido: — Gol de Ghiggia, gol do Uruguai! Faltavam onze minutos para o fim do jogo. Não foram minutos de esperança, mas de agonia. Depois de vencer, sucessivamente, a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1, tão certo estava o Brasil da vitória final que o jornal A Noite já tinha uma edição especial impressa, sem o resultado do jogo, mas com primeira página ocupada pela foto da equipe e a manchete: Brasil Campeão. A glória elusiva foi um desastre, deixando marcas que o tempo não conseguiu desfazer. O lamento pelo fracasso histórico impôs um compreensível recesso à atividade internacional do Brasil. Mas, em 1952, a seleção foi campeã pan-americana, em Santiago. Vencemos o Chile, na final, 3 a 0. As pendengas do futebol brasileiro com o uruguaio vinham de bem antes da triste Copa do Mundo. Vinham da Copa Rio Branco, um dos três torneios bilaterais que envolviam os maiores adversários continentais da seleção. Com a Argentina, era disputada a Copa Roca; com o Chile, a Copa O’Higgins. Mas todas acabaram sendo retiradas do calendário. A última Copa Rio Branco foi em 1976, com a vitória do Brasil por 2 a 1 nos dois jogos da competição, um em cada país. A última Copa Roca, em 1971, teve dois empates, ambos em Buenos Aires: 1 a 1 e 2 a 2. O título foi dividido entre os dois países. Tão desesperadora como a derrota do Brasil para o Uruguai, na final da Copa de 1950, foi a eliminação da Inglaterra, no dia 29 de junho, no estádio Independência, construído especialmente para abrigar os jogos do campeonato mundial. A presença norteamericana ocorreu pela não existência, na época, de eliminatórias. Os Estados Unidos foram convidados a participar da Copa no lugar da França, que não quis vir, por discordar do local onde seriam os seus jogos (Recife). Sem nenhuma tradição, sem mesmo um time organizado, os jogadores dos EUA se “concentraram” no bar do Grande Hotel e, no dia seguinte, venceram a Inglaterra por 1 a 0. Foi o primeiro resultado inesperado da competição. Um desastre sempre recordado pelos ingleses e, em 2005, transformado em filme pelos americanos, que recebeu o nome de A Game of Their Lives. A humilhação se tornou maior ao ser constatado que um jogador da equipe vencedora entrou em campo usando luvas, a fim de se lembrar que não podia tocar na bola com as mãos. E se apro-

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veitou disso para fazer cera, após o gol milagroso: a cada vez que ia bater o tiro de meta, deixava uma das luvas cair no gramado e a recolocava com uma lentidão que levava os ingleses à loucura. Ele tinha sido recrutado do futebol americano. Em meio à descrença e ao choque dos 30 mil torcedores e jornalistas que foram ao Independência, o gol da vitória dos Estados Unidos sobre os mestres ingleses foi marcado por John Gaetjens, um haitiano, que vivia em Nova York como lavador de pratos. Alguns anos depois da Copa, Gaetjens voltou para o Haiti e lá foi assassinado pelos Tontons Macoutes, um bando de criminosos identificado como a ‘polícia política’ do ditador Papa Doc (François Duvalier, 1907-1971). Os ingleses haviam se concentrado nas instalações da Saint John Mining Company, em Nova Lima. E lá, ao invés de praticarem futebol, preparando-se para enfrentar os norteamericanos, passaram mais tempo jogando críquete, outro popular esporte inglês. Embora tivessem dominado inteiramente o jogo, num único ataque os Estados Unidos os venceram. Foi a primeira vitória dos norteamericanos em sete jogos internacionais, nos quais os adversários haviam marcado 45 gols e eles apenas dois. Durante longos anos, Belo Horizonte foi a cidade mais mencionada no noticiário das tristezas do futebol inglês. Quatro anos depois, na Suíça, o futebol tinha outros ídolos – os húngaros do clube Honved, de Budapeste. Jogavam brilhantemente, marcavam gols numa escala incomparável e tinham em Ferenc Puskas o seu principal nome. Nas quartas-de-final, o Brasil sentiu a força dos húngaros e foi eliminado por 4 a 2. O jogo, realizado na cidade de Berna, terminou em briga, logo batizada de a batalha de Berna. O técnico Zezé Moreira explicou que os húngaros ofenderam o Brasil e ele defendeu a honra nacional com uma chuteira transformada em luva de boxe. A Copa terminou com a inesperada vitória da Alemanha sobre a Hungria por 3 a 2, depois de estar perdendo por 2 a 0. Em 1956, o invejável futebol húngaro se desintegrou. O Honved, clube do exército húngaro, fazia uma temporada no exterior, que incluiu a América do Sul, quando a Hungria se revoltou contra o domínio da União Soviética. Foi uma luta sangrenta. Alguns dos melhores jogadores do clube preferiram ir para a Espanha: Zoltán Czibor e Sándor Kocsis foram contratados pelo Barcelona e Puskas, o mais famoso, que tinha a patente de major, jogou até o fim da carreira no Real Madrid. Desde o crepúsculo dessa excepcional geração de jogadores, a Hungria não conseguiu mais formar um time respeitável. Até fins da década de 50, o grande jogo do futebol mineiro era Atlético x América. O locutor Álvaro Celso da Trindade, o Babaró, batizou-o de clássico das multidões. Transmitia as partidas com um vozeirão que ecoava por todo o estádio. Virou vereador e, depois, rua, a lendária Alameda Álvaro Celso da Trindade, que ladeava o estádio do América. Este, por sua vez, virou supermercado. Em tempo: as multidões do clássico nunca passavam de cinco ou seis mil torcedores. Muitos jogadores e radialistas da época se tornaram políticos: Haroldo Lopes da Costa, Kafunga, Afonso Bandejão, Aldair Pinto, Fernado Sasso, Dirceu Pereira, Toninho Cerezo, Vilibaldo Alves, Wilson Piazza (tricampeão mundial em 70; vereador; presi-

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dente da Ademg; secretário municipal de Esportes), José Lino, Ziza Valadares... a lista é imensa. A rivalidade entre atleticanos e americanos transparecia também no tratamento dispensado pela imprensa aos dois grandes clubes da cidade, com toques de bom humor. O Atlético, fundado em 1908, contava com o maior grupo de jornalistas-torcedores. Mas o América, fundado em 1912, às vezes levava a melhor na forma engraçada com que os jogos eram descritos pelos seus adeptos nas redações. Certa vez, na Folha de Minas, o jornalista João Viana de Oliveira, o Barão de Barbabela, como assinava uma coluna diária (e que reaparecerá mais adiante em outro divertido episódio da sua carreira), deu ao resultado de um dos jogos o seguinte título: “O América abriu e fechou o marcador do clássico”. Era verdade; mas faltou dizer que o jogo terminou com a vitória do Siderúrgica por 5 a 2... João Viana só se referia ao Atlético como Camineiro. Explicava que esta era a identificação oficial adotada pela Federação Mineira de Futebol que, nas tabelas datilografadas do campeonato, não escrevia o nome do clube por extenso e, sim, C. A. Mineiro. Os campeonatos tinham dois turnos, com os respectivos campeões (quando os havia) se enfrentando numa melhor de três para definir o título principal. Todos os jogadores calçavam chuteiras de couro preto e as bolas tinham duas cores: as de jogos diurnos, eram marrom-claras; para os noturnos, eram brancas. E um clube para ser bi, tri ou tetracampeão, tinha de acumular a conquista consecutiva dos títulos, jamais a salteada, como se passou a admitir nos últimos tempos. O América, por exemplo, foi decacampeão, porque chegou em primeiro lugar, consecutivamente, de 1916 a 1925. Nessa lógica, que sempre foi respeitada, o Brasil seria visto apenas como bicampeão mundial (1958-62) e não como penta. América, Atlético e Cruzeiro tinham estádios bem centrais – todos com pequena capacidade de público e com nomes de políticos benfeitores do clube. O do Atlético, na Avenida Olegário Maciel, que acomodava seis mil torcedores, chamava-se Antônio Carlos. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada foi da época em que o Estado tinha presidente, cargo que ele exerceu entre 1926 e 1930. O do Cruzeiro, para 5.500 torcedores, era o Juscelino Kubitschek de Oliveira, prefeito de Belo Horizonte de 1940 a 45; governador de 1951 a 55; e presidente da República de 1955 a 60. E o do América homenageava o prefeito Octacílio Negrão de Lima. Depois de reformado com a ajuda de Negrão de Lima, o estádio passou a receber 15 mil torcedores. Podia-se entrar em qualquer jogo quando faltavam dez minutos para o apito final. Não raro, dez minutos decisivos. Os meninos, porém, às vezes entravam bem antes. Para isso, era preciso, primeiro, agarrar a bola que caísse na rua, apesar de haver, por trás dos gols, uma imensa tela de arame, a fim de mantê-la dentro do estádio. Alguns chutões tortos garantiam o direito de entrar no estádio a quem fosse capaz de superar a concorrência, no que mais parecia ser uma cena de rugby, ou bola militar, como também era chamado esse corpo-a-corpo para conquistar a bola-ingresso. Isso durou até que os disputantes da posse da bola concluíram que, se a

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vendessem a algum necessitado clube da várzea, o dinheiro apurado daria para comprar vários ingressos... Para esse ludibrio, os clubes nunca encontraram resposta e tinham de aceitar o sumiço da bola. Próximas dos portões de todos os estádios ficavam estacionadas carrocinhas de vendedores de laranja, de refrescos, picolé e pipoca. A laranja era descascada numa máquina, acionada por manivela, produzindo fios que lembravam as serpentinas de carnaval. Depois, o vendedor as colocava sobre gelo, à espera dos compradores. Consumida, o seu bagaço virava a arma poderosa com que torcedores revoltados manifestavam a sua hostilidade ao juiz – então tratado respeitosamente pelos comentaristas de sua senhoria – aos bandeirinhas ou ao jogador responsável por alguma ação condenável ou que lhes houvesse infligido a amargura do resultado adverso. Afora tais reações, o comportamento das torcidas era quase sempre muito bom. As transmissões esportivas, notadamente do futebol, davam às emissoras de rádio as maiores audiências, como ainda acontece nos dias de hoje. A Inconfidência, a Guarani, a Mineira e a Itatiaia disputavam a preferência do público. Durante muito tempo, a Inconfidência levou vantagem. Isto se devia a Jairo Anatólio Lima, que, embora muito jovem, talvez fosse o único narrador em todo o país que, de tão ágil e preciso, gritava “gol” antes da explosão da torcida. No campeonato de 1951, decidido no ano seguinte (no domingo, 27 de janeiro), ele gritou o gol do Vaduca contra o Atlético, que deu o título de campeão mineiro ao Villa Nova, no maior estádio da cidade, que era o Independência, com capacidade para 30 mil torcedores, mais algumas dezenas no vizinho morro do Pitimba (que, naturalmente, nada acresciam às rendas dos jogos). Na vitória do Villa, a renda foi de 211 mil cruzeiros. Prão (José Henrique Custódio) era o técnico do campeão e Yustrich (Dorival Knipell) o do Atlético. Além de derrotado no campeonato, o Atletico perdeu também para o Santos (2 a 0), na final do Torneio de Belo Horizonte daquela temporada. Os campeonatos do Rio e de São Paulo, acompanhados pelo rádio e pela imprensa, tinham interessados em todo o país. Seus grandes clubes possuíam torcidas enormes – e a maioria desses torcedores nunca os tinha visto em ação. O grande artilheiro do campeonato carioca no começo dos anos 50 era uma criação nossa, o Carlyle Guimarães, que jogava no Atlético (na conquista do campeonato carioca pelo Fluminense, em 1951, ele marcou 23 gols). Ao retornar a Belo Horizonte, na década de 60, Carlyle foi lançado pelo Jairo Anatólio Lima como comentarista da Rádio Inconfidência. Dele, a lembrança mais forte que guardo é o necrológio do Heleno de Freitas, que escreveu e leu na Inconfidência. Um texto brilhante e emocional. Heleno, jogador inesquecível por muitos motivos, morreu no hospício de Barbacena, em novembro de 1959. Nos anos 50, ainda havia o Campeonato Brasileiro de Seleções, que desde a década anterior excitava os ânimos dos torcedores e quase sempre vencido por paulistas ou cariocas, mas o último desse torneio, disputado em 1963, foi de Minas Gerais. A seleção mineira, dirigida por Mário Celso Abreu, o Marão, venceu a carioca por 2 a 1, no

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Maracanã. Era formada por Marcial, Massinha, William, Procópio e Geraldino; Hilton Chaves e Rossi; Luiz Carlos, Marco Antônio, Amaury e Ari. A seleção seguiu o modelo do Brasil em 1958 e levou um psicólogo para manter o moral da equipe no mais alto nível. Esse psicólogo era o dr. Antônio Ribeiro, que, enquanto estudava, foi locutor da Inconfidência. Os novos campeões representaram o Brasil no Sul Americano realizado na Bolívia. Chegaram à final, mas perderam para a seleção local por 2 a 1. A vitória de Minas Gerais no Campeonato Brasileiro foi o despertar de uma nova e formidável era do futebol de Belo Horizonte. E representou mais uma justificativa para que tivéssemos o Mineirão, cujas obras estavam em andamento. Erguido em pouco menos de seis anos, o estádio foi o resultado de um esforço inicial de estudantes universitários, tendo à frente Gil César Moreira de Abreu, então presidente da Federação Universitária Mineira de Esportes. Eles pensaram, primeiramente, num estádio universitário, nos terrenos da UFMG. A ideia evoluiu para um estádio oficial, útil a todos. O governador da época, José Francisco Bias Fortes, aprovou a lei que autorizava a sua construção. Gil César, já formado engenheiro, recebeu a incumbência de dirigir as obras. Tinha apenas 27 anos, mas, sendo um líder nato, não teve dificuldades para cumprir a sua missão, que envolveu 7.200 operários. O projeto arquitetônico é de Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto. E a supervisão geral da sua execução foi do engenheiro Luiz Pinto Coelho. O custo da obra: 10 milhões de cruzeiros. A construção ocorreu quase toda durante o governo de José de Magalhães Pinto. Ele próprio não se interessou, a princípio, pelo que viria a ser o segundo maior estádio do país e um dos maiores do mundo. Disse numa audiência, à qual compareci como jornalista, que o estádio não era uma prioridade do seu governo. Mas depois, vendo a importância do futebol para as suas ambições políticas, mudou de ideia e deu força absoluta ao projeto, financiado através de uma iniciativa do então deputado Jorge Carone Filho. Carone foi o autor da lei 1947/59, que autorizou a aplicação dos recursos da Loteria Estadual para a construção do estádio. Essa lei facilitou também a construção da sede atual da Assembleia Legislativa. A recompensa que Magalhães Pinto teve ao redescobrir a importância do futebol foi ver o estádio batizado com o seu nome. Para o torcedor, no entanto, será sempre Mineirão – apenas isso. O Mineirão foi inaugurado no dia 5 de setembro de 1965, com um jogo entre a seleção mineira e o River Plate de Buenos Aires, vencido pelos mineiros por 1 a 0, gol de Bougleux (José Alberto Bougleux), ou Buglê, como a torcida do seu clube, o Atlético, o chamava. Ele entrou para a história como o primeiro a provocar um grito de vitória no novo estádio. O estádio marcou uma época de mudanças no nosso comportamento e colocou a cidade numa posição mais próxima de São Paulo e do Rio, em todos os aspectos, do econômico

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ao artístico. O estádio transformou-se na grande referência da cidade. Os jogos tinham as maiores rendas do país e todos queriam jogar lá. O Mineirão fez com que nos sentíssemos mais adultos, mais maduros e orgulhosos das repercussões que a obra trouxe para a cidade. Já éramos, de fato, uma metrópole. O Mineirão coincidiu com o surgimento de uma fabulosa geração de jogadores no futebol mineiro, em especial no Cruzeiro, dirigido na época por Ayrton Moreira, que, como Telê Santana, foi um dos mais íntegros e competentes técnicos do futebol mineiro em todos os tempos. Sob a sua direção, o Cruzeiro conquistou a Taça Brasil (antecessora do atual Campeonato Brasileiro e idealizada por Benedicto Adami de Carvalho, que foi presidente da Federação Mineira de Futebol) em 1966, vencendo o poderoso Santos por 6 a 2, no Mineirão; e por 3 a 2, no Pacaembu. Pelé, Mengálvio, Lima e Pepe, os grandes nomes do Santos, nada puderam fazer para superar o talento de Tostão, Dirceu Lopes, Evaldo, Natal, Wilson Piazza, Hilton e Raul, entre outros. Dirceu, aliás, figura entre os melhores meio-campistas que o Brasil teve em todos os tempos, embora nunca tenha sido feliz na seleção. O time do Cruzeiro fez o melhor que podia ser feito para garantir o futebol mineiro na agenda das competições internacionais. Outro grande benefício trazido pelo Mineirão foi tornar o futebol mineiro independente da venda de jogadores aos clubes do Rio e de São Paulo. Nenhum grande jogador ficava nos clubes locais, que precisavam do dinheiro da venda dos seus passes. O Botafogo do Rio foi o maior importador de jogadores de Minas. Para lá foram, a partir da década de 30, Perácio, Zezé Procópio, Caieira, Bibi, Geninho, Braguinha, Neivaldo, Pampolini, Paulinho Valentim, Neivaldo, Vinicius, Sebastião Leônidas – entre outros. O Fluminense importou Nariz, Brant, Said, Telê Santana, Carlyle, Chiquinho e Escurinho. O Corinthians comprou um dos melhores zagueiros do Atlético, o Murilo Silva. Anos depois, contratou o atacante Buião. Minas era o chamado celeiro do Rio e de São Paulo. O artilheiro Genuíno, do Bela Vista, fez sucesso no futebol carioca jogando pelo Vasco da Gama. Mas por pouco tempo. Não suportou o banzo e, numa tarde de clássico, largou o Vasco em pleno Maracanã e voltou para o volante de seu caminhão em Sete Lagoas. Do futebol mineiro, o Botafogo contratou também um dos maiores técnicos de todos os tempos, Ítalo Fratezzi, o Bengala, que dirigia o Cruzeiro. Bengala foi para o Rio em fins em 1944 e lá ficou duas temporadas, realizando um excelente trabalho de reestruturação do clube. O Botafogo foi vice-campeão em 44 e 45. Ele era um técnico que tinha o poder de analisar qualquer esporte coletivo. No Cruzeiro, Bengala dirigiu não apenas a equipe de futebol; dirigiu a equipe de basquetebol, cujo departamento foi criado por ele. E trabalhou, sempre com grande entusiasmo, na criação do departamento de vôlei.

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Amores caninos num arrastão em Varsóvia

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ogo depois de inaugurada, a TV Itacolomi já colocava câmeras para a cobertura dos jogos nos estádios, por narradores vindos do rádio: no início, Cleto Filho; e, depois, Milton Colen, Dênio Moreira e Fernando Sasso. No começo, a chegada da televisão não reduziu o público de rádio. A Rádio Mineira tinha contratado, para tentar superar a audiência que o Jairo Anatólio Lima trazia para a Inconfidência, o locutor do gol diferente, o paulista Armando Alberto. O gol do Armando era diferente, porque ele já fazia aquilo que todos fazem hoje – o grito prolongado e vibrante, até o extremo do fôlego, de um gol. Armando teria sido o seu criador, embora outros digam que a moda foi lançada, no rádio paulista, por Marques Rebelo. Não havia ainda repórteres de campo. O narrador acompanhava da sua cabine todas as jogadas, sem qualquer ajuda instantânea. Mas os comentaristas já estavam em ação e há muito tempo. O da Inconfidência era Ulpiano Chaves e, depois, Jaime Rigueira; o da Guarani, Hégler Brant Aleixo; e a Mineira tinha Euclides Santos e Cleto Campomori Filho, que depois trocou o rádio pela televisão. Muitos outros vieram depois: Edson França, Benedito Adami de Carvalho, Tancredo Naves, Carlyle Guimarães, Kafunga e Sérgio Ferrara. A cobertura de jogos no interior era uma dificuldade imensa. Não havia mais do que uma linha à disposição das rádios e elas faziam um rodízio, cada uma cobrindo o jogo que lhe coubesse mediante esse sistema. Na Copa do Mundo de 1950, por exemplo, a única linha existente para a cobertura do jogo Inglaterra x Estados Unidos, no Independência, foi disputadíssima, mas acabou ficando com a agência de notícias Reuters, então absolutamente inglesa. Ao conhecer o correspondente da Reuters no Hotel Financial, o repórter Ruy Viotti, que trabalhava na Rádio Tamoio, o convenceu, no bar, após alguns bons goles, a permitir que a linha fosse usada para os boletins que teria de fazer. Foi assim que Viotti deu o furo do gol inesperado e trágico, que naufragou a esquadra inglesa no terreno seco do Independência, deixando a emissora irmã e rival, a Tupi, em desespero, porque o repórter que mandou ao Independência, Antônio Maria, não teve a mesma sorte. Maria, como o tratavam, era também um ótimo narrador. Mas ele deixou os esportes para se concentrar na música, no jornalismo e na produção de programas de televisão, coisas que fez com enorme sucesso. Cobrindo esse jogo estava também o recém-ingressado na imprensa esportiva Célio Teodoro Assunção, que trabalhava para O Diário. O editor de esportes do jornal, Januá-

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rio Carneiro, o instruiu para escrever sobre a goleada que a Inglaterra aplicaria nos EUA. Com o resultado inteiramente inesperado, o texto ficou difícil, mas Célio não se intimidou e escreveu: O mundo do futebol internacional tenta, em vão, entender o que se passou no estádio Independência. Quem diria, mas os EUA, meros diletantes do futebol, muito mais interessados em baseball, basketball e outras balls, de nós desconhecidas, derrubaram a mais respeitada equipe do mundo! O futebol de meados do século passado era bem menos profissional do que o dos dias de hoje, o que não significa que os seus grandes nomes fossem tecnicamente inferiores aos atuais. Muitas famílias tentavam convencer os filhos a se aplicarem simultaneamente aos estudos, na busca de uma carreira que substituísse com maior solidez a do futebol. Isto acontecia no país inteiro. E foi assim que tivemos jogadores que acabariam sendo médicos, dentistas, advogados, economistas, engenheiros. No Atlético, primeiro foi o Nariz, que jogou no clube entre 1931 e 32, e depois foi para o Fluminense, cuja camisa usou na maior parte da sua carreira. Ele jogou também no Botafogo e na seleção brasileira, em 1938. O Nariz era o dr. Álvaro Lopes Cançado, ortopedista. O exemplo dele foi seguido por Mário de Castro, por Oswaldo (Perigoso) Costa, um dermatologista, e, depois, Haroldo Lopes da Costa. Outro grande jogador do passado, que defendeu o Atlético e o Fluminense antes de se formar em Direito, foi o Said Paulo Arges. O sempre lembrado Zé do Monte (José do Monte Furtado Sobrinho) era arquiteto. Amaury de Castro, do América, e depois do Cruzeiro, é médico; Amaury Horta, primeiro do América e depois do Atlético, economista; Paulo Venâncio Guimarães, o Gibi, titular do Atlético e do Cruzeiro, formou-se em Letras; Mussi Assad, do Cruzeiro, é médico; Rubem Silva, o Lulu do América, é dentista; Afonso Celso Raso, o Afonsinho, também do América, é advogado e professor de Direito. Afonsinho e Gibi sempre foram amadores. O nome mais famoso, porém, é o do dr. Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, médico e professor de Medicina, depois jornalista, escrevendo uma das melhores colunas sobre futebol da imprensa brasileira. Tostão, campeão do mundo em 1970, dedicou-se à Medicina depois que a sua carreira terminou muito cedo, devido a um descolamento da retina, provocado por uma jogada. Da mesma geração do Tostão, há o goleiro Marcial (Marcial de Melo Castro), que, além do Atlético, jogou no Corinthians e no Flamengo. O dr. Marcial é ortopedista. No Rio, Otávio de Moraes, do Botafogo, arquiteto e poeta; Heleno de Freitas, do Botafogo, formado em Direito. Outro médico era o Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, que jogou no Botafogo, Santos, Olaria e América Mineiro. Antes dele, o baiano Pedro Amorim, jogador do Fluminense. E, mais recentemente, o paulista Sócrates (Sócrates Sampaio de Souza Vieira de Oliveira), que já era médico formado quando jogou na seleção, nas Copas de 1982 e 86. Muitos trabalhavam como bancários e funcionários públicos. Havia também policiais. No Rio, por exemplo, o zagueiro do Vasco, Ely do Amparo, pertencia à Polícia Especial; em Belo Horizonte, o zagueiro José Gaia, do América, à polícia civil.

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A seleção brasileira de 1938 tinha um agente de polícia, que jogava no São Cristóvão. Era o Afonsinho, que a torcida apelidou de Delegado. Com os juízes nunca foi diferente. Mario Vianna, nos anos 50 o mais famoso apito do país, foi, como Ely, da Polícia Especial. O Rio ainda era a Capital da República e não tinha uma polícia militar. Em Belo Horizonte, Geraldo Fernandes foi oficial do Corpo de Bombeiros. Alcebíades de Magalhães Dias, o Cidinho, trabalhava na Imprensa Oficial e, antes de adotar o apito, tentou o jornalismo, como repórter da Folha de Minas. Joaquim Gonçalves da Silva, motorista de praça, ou taxista, como seria chamado nos dias atuais. Raimundo Sampaio, um dos nomes mais respeitados do futebol mineiro, foi durante anos motorista do prefeito Otacílio Negrão de Lima. Francisco Trindade, construtor. E havia o Luiz Pereira da Silva, conhecido como Luiz Guarda, porque era da Guarda Civil. Luiz Guarda ficou famoso nos anos 50 quando a revista americana Life publicou uma foto em que ele aparecia no campo do Vila Nova ostentando um revólver, a fim de desencorajar os torcedores locais, que queriam agredi-lo. Ficou a dúvida se Luiz Guarda seria mesmo capaz de apertar o gatilho, pois o que o conheceram diziam que era uma pessoa avessa a violências. Mário Vianna foi o protagonista de muitas histórias divertidas. Logo depois da Copa do Mundo de 1950, houve em São Paulo uma competição universitária e ele escolhido para apitar o jogo da seleção brasileira contra a uruguaia. A derrota na final da Copa continuava sendo imensamente ressentida e mesmo se tratando de um jogo entre jovens universitários, era, antes de mais nada, o Brasil de novo contra o Uruguai. Mário Viana apita e começa a oportunidade de vingança. Mas o Uruguai tinha um time forte, com um ponta direita ágil, driblador, que já havia deixado pra trás dois brasileiros e se aproximava do lateral esquerdo. Esse lateral era o Hélio Faria, Zu no futebol. O ponta serelepe não teve qualquer chance: Hélio entrou pra valer e o pobre do uruguaio caiu. Mário Viana fechou a cara, correu na direção de Hélio e disse aos gritos: — Baixe a cabeça e ponha os braços pra trás. E ouça: da próxima vez, bata com mais força nesse cara. Tire ele do jogo! Mas não faça nada disso dentro da área… Em 1981, o narrador da Rádio Globo, Waldir Amaral, me contou, em Londres, outra história divertida do Mário Vianna, que já havia deixado o apito, tornando-se, com bastante sucesso, comentarista de rádio e tevê. Na Televisão Continental, deram a ele a tarefa de entrevistar um jogador, ainda juvenil, que estava aparecendo como uma grande promessa. Segundo Waldir, o diálogo de Mário com o entrevistado teve um desfecho divertido. O programa era patrocinado pelos cigarros Mistura Fina. — Meu filho –, disse Mário, — sei que você treina diariamente com muito entusiasmo. Que segue à risca as instruções do técnico e que fora do campo não bebe e é bem comportado. Você não fuma, fuma? — Fumo não, seu Mário. — Não fume jamais, porque o cigarro é um veneno para qualquer atleta. Nisso, a produção do programa interveio, lembrando a Mário o tipo de patrocinador

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que o programa tinha. A princípio ele nada entendeu, mas quando se deu conta de que estava comprometendo o futuro do contrato publicitário, logo encontrou a solução. — Você não fuma, já sei, mas tem uma coisa: se fumar Mistura Fina, esse é especial, é pra lá de bom. Fume pelo menos um maço por dia, meu filho… Dos juízes mineiros, Alcebíades de Magalhães Dias, o Cidinho, era possivelmente o mais querido, pelo menos da torcida do Atlético. Ele ganhou o apelido de Cidinho Bola Nossa porque, ao ser indagado pelo zagueiro Afonso, do Atlético, de quem era a bola que havia saído pela lateral, ele teria respondido, firmemente: --- É nossa! Onde isto teria acontecido é o aspecto um tanto obscuro da história. Para uns, no campo do América. Para outros, no campo do Cruzeiro, no jogo Atlético x Botafogo, do triangular que marcou a inauguração de novas dependências do estádio, em 1949. Afonso continua sendo personagem dessa versão, mas quem espalhou a resposta “bola nossa” teria sido o ponta-direita botafoguense Santo Cristo. Nunca houve uma fonte independente para confirmar ou desmentir o que se tornou um eterno, e talvez injusto, estigma para o juiz. O próprio Cidinho sempre se defendeu, dizendo que a resposta que deu ao Afonso foi clara e inconfundível: “A bola é do Atlético”. Entre os jogadores-estudantes, pelo menos dois resistiram à tentação de se tornarem rofissionais. Yustrich, certa vez, chamou Afonsinho Raso e Amaury, prometendo-lhes a posição de titulares no América e um contrato vantajoso, se ambos abandonassem os estudos para se dedicar inteiramente ao futebol. Afonsinho recusou a oferta e Amaury a aceitou, mas voltou aos estudos algum tempo depois. O calendário do futebol incluía o Torneio Início, uma grande festa de apresentação das equipes aos torcedores, reintroduzida em 2006, depois de 23 anos abandonada. O jornalista e historiador do futebol, Plínio Barreto, recorda que os jogos, envolvendo todos os participantes da primeira divisão (Atlético, América, Cruzeiro, Sete de Setembro, Siderúrgica, Vila Nova, Meridional e Metalusina), começavam ao meio-dia, duravam 30 minutos e, quando terminavam empatados, eram decididos de duas formas: o vencedor seria o que tivesse a seu favor mais escanteios; ou, se o empate ainda continuasse, o que vencesse na cobrança de pênaltis. Em 1951, no estádio Independência, houve um participante extra, o Itaú, convidado especial por ter sido campeão amador. Na final de 40 minutos de duração, o Siderúrgica venceu o Metalusina por 1 gol e dois escanteios. O que significa que o Metalusina também marcou um gol, mas não teve escanteio algum a seu favor. O fator emocionante era um clube pequeno conquistar o primeiro título da temporada. Ser campeão desse torneio requeria uma excelente condição física. Os jogos eram invariavelmente disputados sob um calor que os narradores definiam como senegalesco, embora não fosse necessário ir ao outro lado do Atlântico, numa das esquinas da África, para fazer a comparação, pois o calor do Piauí sempre foi tão sufocante como o

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do Senegal. Os jogadores da época tinham de assinar a súmula do jogo antes de entrar em campo. Todo jogador era obrigado a esse exercício burocrático, escrevendo o seu nome completo; apelidos não eram aceitos. Uma mesinha era colocada no gramado, com caneta e tinteiro, na posição exata da linha que divide o campo, e, um por um, iam assinando o comprovante de que estavam mesmo ali para jogar. Aliás, a súmula era um requerimento de todos os esportes coletivos. Os estádios da cidade tinham numa das suas esquinas o placar dos Diários Associados, informando sobre os jogos da rodada em andamento. Quando o encarregado do placar se movia, assinalando com isto que havia sido marcado gol em algum outro campo, sentia-se o rumor da expectativa do público, que se transformava em vaias ou aplausos, de acordo com a importância do resultado. O placar tornou-se redundante em fins dos anos 50, com o surgimento do receptor de rádio transistorizado portátil, que muitos torcedores levavam para o estádio. Por ele, os resultados chegavam imediatamente, através de qualquer das emissoras que cobriam os esportes. Inventado em 47, o receptor transistorizado, que revitalizou o rádio, diante da concorrência cada vez maior da televisão, só chegou ao nosso comércio no final da década de 50. E o seu lançamento apressou a época em que as comunicações já estavam ficando mais fáceis. Foi do grande cartunista Fernando Pierucetti, o Mangabeira, a ideia de dar aos clubes mineiros a identidade de animais. O Atlético passou a ser o Galo, em 1945. O Cruzeiro, a Raposa. Depois, vieram o Coelho (América) e o Leão (Villa Nova). Mas nenhum desses apelidos caiu melhor no gosto dos torcedores do que o do Atlético. Na pia batismal do entusiasmo popular, o Atlético passou a ser muito mais Galo do que Clube Atlético Mineiro. O maior goleiro do futebol mineiro em 51 (e um dos maiores do Brasil em todos os tempos, ao lado de Kuntz, Barbosa, Castilho, Batatais, Tadeu, Walter, Armando e Gilmar), era o Cafunga, titular do Atlético durante 21 anos. A origem do curioso apelido de Olavo Leite Bastos, que depois de encerrada a carreira em campo se transformou num bom comentarista de rádio e tevê, sempre permitiu especulações. Alguns o escreviam com K, outros com C. A história e os fatos se inclinam para a segunda grafia. No século 19, Cafunga era um escravo cubano libertado, que se fez conhecido. O nome servia também para uma bebida rala, que os escravos cubanos faziam da borra do café servido aos seus senhores do campo. Duas referências nada plausíveis, em relação ao grande goleiro. Mas Cafunga é também o nome de uma conga de Armando Oréfiche, gravada pelos Lecuona Cuban Boys. O apelido poderia ter surgido daí, devido ao interesse que ele tinha pela música em espanhol, especialmente tangos. Aliás, na Rádio Itatiaia, Cafunga apresentou um programa de músicas do passado, chamado “Cafunga de Todos os Tempos”. A explicação mais aceitável, no entanto, é a de Jairo Anatólio Lima, responsável pelo lançamento de Cafunga no rádio, em 1955. Ele disse certa vez ao Jairo que, quando criança, fungava muito, o que lhe teria rendido o apelido de Funga. Depois,

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um tio passou a chamá-lo “vem cá, funga”. Daí a Cafunga, conjugando o verbo cafungar, foi um pulo. No tempo do Cafunga, goleiro algum usava luvas. E todos pareciam pegar a bola com mais firmeza do que nos dias atuais, embora fosse uma bola que pesasse muito, quando molhada. Era o modelo que tinha a marca da costura que a fechava, bola um tanto lenta quando comparada às atuais. No começo da década de 50, cientistas ingleses já estavam à procura de uma solução para o problema. A nova bola, sem costura alguma, que eles produziram, era de couro plastificado, o que a mantinha impermeável e, por isto, com o mesmo peso, quaisquer que fossem as condições do campo. O seu fabricante não levava o nome de uma firma internacional, como é comum ver-se hoje. Era a indústria Stuart Surridge, de Londres. Depois de testada numa catapulta, ficou provado que, quando bem chutada, a nova bola ia quase sete metros mais distante do que a costurada. Isto foi logo visto como um grande presente para jogadores tecnicamente superiores aos rivais. Não há dúvida que foi, pois, na estreia oficial dessa bola, a Copa de 1958, na Suécia, o mundo inteiro ficou maravilhado com a seleção campeã do Brasil e com a sua nova estrela de 17 anos, Pelé. É claro que não foi a bola sem costura e plastificada a razão do histórico sucesso do Brasil, mas ela ajudou a mostrar a classe dos novos campeões. O sucesso do futebol brasileiro na Copa da Suécia foi um dos grandes acontecimentos que acentuaram a importância da década de 50 para a vida do país. A Suécia viu uma das melhores equipes do Brasil de todos os tempos. A vitória se repetiria na Copa seguinte, a do Chile. E, em 1970, quando a competição passou a ser realmente do mundo, porque a televisão levava a imagem dos jogos para todas as partes, disseram que aquele Brasil foi o melhor da história do futebol. Mas a seleção de 58 continua sendo a preferida da maioria dos historiadores do esporte. A conquista da Copa de 1958 ocorreu em circunstâncias incomuns. Como não havia dinheiro para cobrir os gastos, a seleção fez dois amistosos na Itália, a caminho da Suécia, o que causou protestos. Como uma equipe nacional poderia jogar contra clubes? Mas os dois jogos foram realizados nos dias 29 de maio, contra a Fiorentina, e no dia 1º de junho, contra a Internazionale, com a vitória brasileira em ambos pelo mesmo placar de 4 a 0. O dinheiro recebido dos dois clubes possibilitou à delegação chegar ao seu destino. O goleiro Gilmar (Gylmar dos Santos Neves) contou-me em Cardiff, em junho de 1983, quando era assistente do técnico Carlos Alberto Parreira, que o tesoureiro da delegação, Adolpho Marques Junior, guardou todo o dinheiro numa maleta – eram dólares – e assim mesmo embarcou, sem poder pensar nem mesmo nos riscos de um assalto. João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (não havia ainda a CBF), ampliou a história num depoimento que fez para mim em Zurique, na sede da FIFA, em 1994: — Consegui um financiamento para a compra de ouro que seria transformado em medalhas comemorativas. A Casa da Moeda concordou em cunhá-las de graça. As moedas foram vendidas pelo dobro do valor do ouro. Assim, conseguimos uma grande parte do

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dinheiro para a viagem. Os dois amistosos completaram as nossas necessidades financeiras. Como presidente da FIFA, cargo que exerceu de 1974 a 98, Havelange revolucionou as finanças do futebol internacional, com as ricas verbas dos patrocinadores e as taxas cobradas da televisão e do rádio. Às custas da entidade, as seleções finalistas viajam hoje na classe executiva dos aviões, são hospedadas em hotéis cinco estrelas, têm ônibus e carros à disposição - não há mais necessidade de qualquer expediente extra-esportivo para assegurar a viagem até a sede de uma Copa. Outros esportes viveram também longos períodos de dificuldades para atender a compromissos internacionais. Em 1955, a delegação brasileira aos Jogos Panamericanos realizados no México viajou por cortesia da FAB, em aviões C-47, de configuração obviamente militar. Não havia poltronas e todos tiveram de viajar sentados em bancos de metal, nas laterais da cabine. Muito lentos, os aviões demoraram três dias para chegar ao México. Não se ouviram muitas reclamações. Eram tempos do amadorismo puro e a importância de representar o país sobrepujava o desconforto da viagem. Nos anos 50, o futebol mineiro descobriu a Europa. A primeira excursão, em 1950, foi do Atlético, que jogou na Alemanha, Áustria, Luxemburgo, Bélgica e França. Perdeu apenas duas vezes; ganhou seis e empatou duas. Ao regressar festivamente, ganhou o título de Campeão do Gelo, porque muitos dos seus jogos, disputados entre novembro e dezembro, foram em campos cobertos de neve. Em 1956, o América atravessou o Atlântico para jogar na Polônia, Bélgica, Alemanha, França e Espanha. Outra temporada bem sucedida, seis vitórias e quatro empates, em 14 jogos. Na excursão do América, convivi durante três meses com um campeão do mundo, o uruguaio Schubert Gambetta. Profissional como poucos, vendo-o a gritar em campo, inconsolável nas derrotas, entendi como o Uruguai venceu o Brasil na final do Maracanã. Gambetta, que já tinha 36 anos, não aceitava perder nem treino. Muito respeitado por todos, integrou-se à equipe sem problemas, porque era também uma excelente pessoa. Foi campeão uruguaio dez vezes, sempre no Nacional de Montevidéu. Morreu em 1991, aos 71 anos. A história das viagens à Europa mudou em 1959, quando o nosso futebol continuava sendo aclamado pela conquista da Copa do Mundo. O Bela Vista F. C., de Sete Lagoas, entrou para o folclore esportivo como a antítese dos atributos com que a imprensa internacional se referia aos novos campeões. Foi o primeiro clube a viajar à Europa depois da conquista da Copa. Começou perdendo por apenas 2 a 1 para o poderoso Real Madri e esse resultado assegurou a sua contratação para outros jogos. Enquanto a equipe estava organizada e inteira, as derrotas que se seguiram não foram tão vexaminosas como as que ocorreram depois que o técnico Orlando Rodrigues e a principal estrela da equipe, o meio-campista Genuíno, deixaram a delegação, dispensados por alegada indisciplina. O Bela Vista perdeu para os holandeses do Blan-Wittamsterdan por 6 a 0; e, fechando a temporada na Inglaterra, foi vencido pelo Birmingham por 5 a 0; pelo Newcastle por 12 a 1; pelo Middlesbrough por 4 a 0 e pelo Sheffield United também por 4 a 0. O chefe

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da delegação, o jornalista Rubens Silveira, nada pôde fazer para impedir o desastre. O fragor causado pela temporada era temperado pelo deboche. Dos 21 jogos que fez, o Bela Vista venceu apenas dois e empatou outros dois. Levou 64 gols e marcou 17. Uma campanha tão desastrosa como essa jamais se repetiria. Se cobrir jogos de futebol no interior de Minas requeria muita paciência para resolver as dificuldades criadas pelo número limitadíssimo de linhas, os problemas não eram menores no exterior, sobretudo do leste da Europa. A precariedade das comunicações e as restrições políticas da guerra fria tornaram extremamente difícil a cobertura dos jogos do América na Polônia, em setembro-outubro de 1956. Eu havia sido sorteado pela Associação Mineira de Cronistas Esportivos para acompanhar a delegação. Sendo muito jovem, mal saído da adolescência, surgiram dúvidas sobre a minha capacidade de cumprir a tarefa. Tinha a meu favor conhecimentos básicos de francês e inglês – mas nenhuma experiência internacional, como, aliás, era o caso da maioria dos jornalistas esportivos da época. O representante da France Press em Belo Horizonte, Willer Silva, ofereceu-me a franquia da agência, em troca da publicação do material que eu mandasse em todos os jornais-clientes da agência. A proposta era excelente, pois o meu nome apareceria assinando as notícias. Tudo combinado, quando cheguei a Paris confirmei o arranjo com o editor responsável pela América Latina, com quem me encontrei na sede da AFP, na Place de la Bourse. Mas ele me alertou que, na Polônia, as dificuldades seriam imensas. A France Presse não tinha um escritório em Varsóvia e possuía apenas uma pessoa lá – uma jornalista de uns 50 anos – cujo trabalho estava sujeito às condições da época. Lembro-me do dia em ela foi falar comigo no hotel MDM, onde eu me hospedara com a delegação. Veio trazendo um cachorro ladrador e valente e me pediu para segurar a corrente que o mantinha sob controle, enquanto fazia anotações. Nisso passou nas proximidades uma cachorrinha de rabo empinado e eu fui arrastado uns 20 metros pelo cachorro, no seu arroubo de conquista amorosa, provocando gargalhadas dos que me viram em apuros. Quando me dei conta das dificuldades que teria para simplesmente informar sobre os jogos, decidi ir à legação brasileira (não havia embaixada, devido ao rompimento decretado pelo presidente Dutra, mas as relações já haviam sido parcialmente restabelecidas) e encontrei a solução. Com muita dificuldade, expliquei ao motorista de táxi que precisava ir à chancelaria brasileira, que ficava no número 2 de uma rua chamada Rudawska. Lá, o ministro-conselheiro responsável pela legação, Frank Moscoso, ofereceu-se para receber o texto que eu ditasse a ele por telefone, onde quer que eu estivesse. O texto seria vertido ao francês por ele próprio, que, valendo-se da condição de diplomata, o passaria, também por telefone e sem os embargos do regime, à sede da France Press, em Paris. A cobertura dos jogos pôde assim ser feita com a urgência requerida. Moscoso foi um grande diplomata. Nos anos 50, principalmente no começo da década, as comunicações ainda dependiam muito do código Morse, que o americano Samuel Finley Breese Morse inventou,

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em 1842. O código consistia de sinais gráficos e sonoros. O noticiário das emissoras de rádio, que era predominantemente gerado do Rio de Janeiro, tinha de ser captado por hábeis telegrafistas, através de uma frequência especial. Era assim, por exemplo, o Repórter Esso, transmitido pela Rádio Inconfidência. Com fones no ouvido, os radiotelegrafistas Jônatas Gomes de Oliveira e José Ferreira iam escrevendo à máquina o que captavam pelo código Morse. O texto saía impecável, pronto para ser lido. Já em fins da década de 60, tudo fora mudado, os métodos modernizados. O código deixou oficialmente de ser usado no dia 31 de dezembro de 1997, superado pelo grande avanço da tecnologia de comunicações. A década de 50 fez história em outros esportes também. No voleibol, a seleção mineira feminina foi campeã brasileira em 1958, em Santos, vencendo São Paulo por 3 a 2, numa final inesquecível. O título vinha sendo tentado desde 1946. A equipe dirigida por Hélcio Nunan jogava de uma forma espetacular. As titulares eram Marta, Celma Carvalho, Selma Resende, Juracy Leal Paixão, Silvinha de Castro e Lia de Freitas. No banco, estavam Santinha, Carminha, Beatriz, Stela, Marly e Silene. Marta, Celma, Selma e Lia foram eleitas as melhores do campeonato. O voleibol masculino terminou em segundo, perdendo a final para os paulistas. Nesta final, houve um gesto altruístico, raro, que passou a ser sempre citado, como exemplo de honestidade: o jogador mineiro Raul acenou para dizer que havia tocado numa bola que o juiz não viu. Raul, juntamente com Urbano Brochado Santiago e Nelson Bartels, ficou entre os melhores da competição. No plano interno, o Atlético foi hexacampeão masculino da cidade e do Estado, com uma equipe formada por Maurício Nunan, Paulo Augusto, Vicente Pinheiro Chagas, Jonas de Souza, Mário Lopes, Waldir Andrade, Álvaro Benício e José Pinheiro, sob a direção de Manuel Gualberto. Mas, no campeonato feminino, o título ficou com o Minas Tênis Clube, cuja equipe, dirigida por Leôncio Chagas, tinha jogadoras como Celeste, Margarida Bossi e Virgínia. Minas TC, Olympico, Paysandu e Cruzeiro eram os maiores rivais do Atlético no setor masculino. No feminino, havia o Mackenzie, com uma equipe poderosa, o América, o Cruzeiro, Atlanta e Caiçaras – este um clube de equipes exclusivamente femininas. Esta estrutura incomum levou o saudoso jornalista Zezinho Bonifácio Costa Filho a escrever, no Diário de Minas, sem atinar para o outro significado da frase: — O Caiçaras é um clube de mulheres que não admitem homens no seu seio! Verdade, na época, irretorquível... O Brasil conquistou o I Campeonato Sul-Americano de Voleibol Feminino e Masculino, disputado no Rio de Janeiro. A seleção masculina, dirigida por Paulo Azeredo e Adolfo Guilherme, teve cinco jogadores de Belo Horizonte: os irmãos Nunan (Mauricio e Hélcio, este do Olímpico); Tite (Cecivaldo Bentes), Álvaro Benício Paiva e Paulo Augusto. Nenhum deles teria lugar em qualquer equipe dos dias de hoje, porque, mesmo

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sendo tecnicamente excelentes, eram de baixa estatura. O vôlei moderno exige grandalhões, embora a altura da rede seja a mesma dos tempos inesquecíveis em que tamanho não era documento. O Brasil voltaria a ser campeão sul-americano várias vezes. O longo domínio do América no basquetebol da cidade e do Estado terminou em 1951, com o Ginástico campeão – o começo do fim de uma inesquecível equipe, que tinha jogadores como Fábio, Flexa, Oto, Tião, Joãozinho, Dute, Silvinho, Stropiana, Baldonedo e Dalmo Assunção (que começou no Paissandu), sob a direção de José de Oliveira Vaz. O Ginástico foi campeão com Ladeira, Tuca, Helvécio, Dinho, Zé Luiz e Barbi, entre outros. O técnico era Antenor Horta, que depois se transferiu para o Minas Tênis Clube. Ginástico e Minas alternaram-se no domínio do basquetebol mineiro nos anos que se seguiram. A natação vivia sob a hegemonia do Minas Tênis Clube, que tinha quatro grandes campeões: os irmãos Pavan (Míriam, Wilson e Fernando) e Danilo Magnavacca; e, um pouco antes, Sânzio Valle Mendes e Paulo Quintino dos Santos. Fernando foi o que mais se destacou. Nas Olimpíadas de Helsinque, em 1952, ele chegou à final dos 100 metros, nado de costas. E mesmo terminando a prova no sexto lugar, foi um feito extraordinário para quem sempre treinou em Belo Horizonte, sem dispor dos recursos oferecidos pelos estágios de aperfeiçoamento nos centros mais avançados fora do Brasil, que são comuns nos dias de hoje. Quando Pavan assumiu o lugar de número um da nossa natação, Minas Gerais já havia feito história, ganhando nada menos de onze campeonatos brasileiros na categoria infanto-juvenil. Isto começou nos anos 40, mas um número relativamente pequeno de campeões mirins conseguiu fazer sucesso na categoria adulta. As competições nacionais para infantis foram abolidas quando a idade dos campeões adultos baixou incessantemente. Muitos dos campeões já eram grandes nadadores aos 13 ou 14 anos. A piscina do Minas, de dimensões olímpicas, sempre se destacou no conjunto inaugurado em 1935, por iniciativa do governo de Benedito Valadares. Mas houve necessidade também de dinheiro privado para a execução das obras. O terreno, na sede original da Rua da Bahia, foi uma doação da Prefeitura e a construção contou com a ajuda de 300 cotistas, ou donos de quinhão, que pagaram um conto de réis (aproximadamente 10 mil reais nos tempos atuais) pelo direito de serem sócios fundadores do clube. Ao longo da construção, houve muito debate para decidir se o clube deveria, ou não, ter quadras de tênis. Newton Wanderley, um dos donos de quinhão, recorda que a oposição às quadras tinha um argumento forte, mas acabou vencida: uma quadra de tênis ocupa muito espaço e o esporte só pode ser praticado, no máximo, por quatro pessoas de uma só vez. Mesmo assim, quatro quadras foram construídas e o clube hoje ostenta numerosos títulos de campeão, justificando o nome de batismo: Minas Tênis Clube (originalmente, o tênis do Minas mantinha a grafia em inglês, com dois enes). Projetado para ser uma praça de esportes ao alcance de todos, o Minas durante longos anos não conseguiu evitar a sua transformação num clube de elite, por ter sido

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construído num ponto da cidade habitado pela classe média alta. Primeiro, o local foi sugerido para ser um zoológico, mas o prefeito da época, Octacílio Negrão de Lima, ponderou que não ficaria bem manter animais numa área tão residencial da cidade. Hoje, o Minas é uma entidade sem paralelo no país: tem 70 mil sócios e nada menos de quatro sedes. Funciona como uma próspera e bem administrada empresa. A outra característica do Minas Tênis Clube é ter servido de modelo para o amplo programa de construção de praças de esportes que o governo Valadares executou no interior e que viria a ser seguido pelos seus sucessores. Com poucas exceções, todas essas praças têm também o Tênis no nome. Fora do Minas Tênis Clube, poucos nomes se destacavam nas competições de natação realizadas em Belo Horizonte e outras cidades mineiras. Entre os mais conhecidos, estavam Vicente de Paula Lima, do Uberlândia TC; e Iracy Eterovik, do Iate TC, ganhadores de medalhas nos estilos livre, peito e mariposa. A natação mineira foi incorporada ao calendário nacional por uma iniciativa de grande sucesso, a Travessia da Lagoa Santa, realizada pela primeira vez em 1936, e vencida por Adherbal Senna. A segunda travessia, em 1940, foi vencida por Orlando Martins Vieira; mas os que chegaram em segundo e terceiro lugares viriam a se tornar internacionalmente conhecidos por razões diferentes: Fernando Sabino, então já mais voltado para os livros do que para os esportes; e Ivo Pitanguy, que certamente ainda não podia imaginar o seu futuro como um dos mais famosos cirurgiões plásticos do mundo. O extraordinário é que Fernando nadou de costas! Em 1952, a terceira e última travessia trouxe nadadores de outros Estados, entre os quais Tetsuo Okamoto, imbatível nas distâncias de 800 e 1500 metros, que a venceu. Foi organizada com o apoio do comandante do Parque de Aeronáutica da Lagoa Santa, coronel Dirceu de Paiva Guimarães, que havia se tornado conhecido como fundador do Asas, clube de futebol profissional, na própria sede do Parque de Aeronáutica (ali ele criou também o Aero Clube de Lagoa Santa). Okamoto, o vencedor da travessia, chegou a Lagoa Santa depois de ter conquistado, nos 1500 metros, a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Buenos Aires (1951) e a de bronze nas Olimpíadas de Helsinque – a primeira medalha olímpica da natação brasileira. O segundo lugar ficou com Danilo Magnavacca. Okamoto era natural de Marília, cidade que o Brasil inteiro ficou conhecendo graças ao seu sucesso. Como gratidão, o povo de Marília quis dar a ele um carro, mas o presente foi recusado. Okamoto achava que o presente acabaria com a sua condição de amador, o que seria mesmo inevitável. O esporte era totalmente diferente dos dias de hoje. A partir dos anos 70, as Olimpíadas começaram a aceitar profissionais, perdendo o encanto do amadorismo. A sanha do dinheiro frequentemente envergonha as competições, porque muitos atletas tomam estimulantes proibidos para obter bons resultados, transformando rapidamente o sucesso em dinheiro. Até a chegada do profissionalismo, os que praticavam os esportes considerados especializados eram amadores e não esperavam outra compensação por seus esforços nas quadras, pistas e piscinas que não fosse a glória de uma medalha. Rumores havia de que,

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no Rio e em São Paulo, o amadorismo era marrom, com os grandes nomes assinando contratos de gaveta; mas essa prática só chegaria a Minas muitos anos depois, nas vésperas da chegada da profissionalização oficializada. Antes de Okamoto, os maiores nomes olímpicos da natação foram os de Piedade Coutinho e Maria Lenk, que participaram, respectivamente, dos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, e dos de 1936, em Berlim: nestes, Maria Lenk introduziu o estilo borboleta – originário da forma personalíssima do seu nado de peito. Não trouxeram medalhas, mas foram o grande incentivo para outras nadadoras. Os esportes, no geral, contavam com o trabalho de muitos dirigentes, que nada ganhavam, mas se dedicavam a funções administrativas, e às vezes técnicas, com grande empenho. O faz-tudo da natação mineira era o diretor-técnico da Federação, Manoel Luiz Martins Vieira. Médico de profissão, ele dedicava as suas horas livres à elaboração de calendários para as competições dentro e fora do Estado; organizava as eliminatórias para torneios mais avançados; escolhia os técnicos; formava as delegações; escalava os juízes; escolhia até mesmo a música que era tocada nos intervalos das competições; mantinha a harmonia entre os clubes e cidades que participavam dos torneios; e, como se não bastasse, encarregava-se também de dar o tiro de largada das provas. Nas pistas, tínhamos um atleta admirável, que era o Juvenal Santos. Especialista nos cinco e dez mil metros, Juvenal foi também maratonista. Ele correu até bem depois dos 50 anos de idade. Era humilde e educado, e foi sempre obrigado a fazer enormes sacrifícios pessoais para treinar e se manter como um dos grandes fundistas do país. No plano internacional, entretanto, a adoração absoluta era por Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico e recordista mundial do salto triplo, com 16,52 metros. Ele ganhou a primeira medalha em Helsinque, em 1952, e repetiu o seu sucesso em Melbourne, na Austrália, quatro anos depois. Na escolha do nome brasileiro mais conhecido no exterior, fora do futebol, o vitorioso é, sem qualquer dúvida, o de Maria Esther Bueno, que dominou o tênis durante muitos anos, vencendo o Torneio de Wimbledon três vezes e outras grandes competições. Entre 1957 e 67, ela foi campeã individual 65 vezes nas mais importantes quadras do mundo, além de ter conquistado 90 títulos de duplas, e 15 de duplas mistas. Fora do Brasil, ganhou, ao todo, 170 títulos! Um fenômeno, mas, infelizmente, vimos pouquíssimas imagens dela em ação, porque, além do tênis não estar entre os esportes favoritos, devido ao elitismo que caracterizava a sua prática, não havia a abundância de recursos nas comunicações, como nos dias atuais. Maria Esther é eternamente chamada em Wimbledon de Queen Maria. Alguns esportes tinham pouca cobertura por serem muito sofisticados para o leitor comum. Isto não impediu que surgissem grandes nomes em duas especialidades pouco divulgadas. No tiro ao alvo, tivemos Edmar Salles, que integrou a equipe olímpica brasileira em 1968, no México, além de ter participado dos Jogos Panamericanos de Chicago, em 1959. A lista dos sucessos de Edmar é formidável. Ele conquistou títulos em Caracas,

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Winnipeg, Buenos Aires, Melbourne e Copenhague. No xadrez, o nosso gênio chamava-se Eugênio Maciel German (1930-2001). Nasceu em Ubá e conciliava o xadrez com as suas obrigações de engenheiro eletricista. Em três olimpíadas consecutivas de xadrez, Eugênio foi um dos representantes brasileiros. Nos anos 30 e 40, o nome maiúsculo do automobilismo brasileiro era o de Chico Landi. Ainda não havia autódromos e a corrida anual, equivalente a um grande prêmio, realizava- se no Circuito da Gávea, no Rio. Além de Chico Landi, outro grande vencedor desse circuito foi o italiano Carlo Pintacuda. Fora do Brasil, o máximo que Chico Landi conseguiu foi um sexto lugar no Grande Prêmio da Argentina, em 1955. Houve uma tentativa de trazer o automobilismo em Belo Horizonte com a “Volta da Pampulha”, em fins da década de 40, envolvendo uma porção de “baratinhas de corrida”, como os meninos chamavam os carros de competição. Mas foi também um acontecimento trágico, suspenso pelo chefe de polícia, coronel Campos Cristo, depois que um piloto português morreu num desastre e um espectador ficou seriamente ferido. Era fácil prever as dificuldades que os pilotos teriam, correndo numa pista de ruas calçadas com pedras disformes, o chamado pé-de-moleque, tornando-as inseguras para as altas velocidades. O automobilismo internacional tinha um supercampeão, que o dominou por cinco temporadas, o argentino Juan Manuel Fangio. Até hoje, dizem que nenhum piloto conseguiu superá-lo em técnica e domínio das pistas. Fangio, que morreu em 1989, aos 84 anos, contou-me, numa entrevista em Londres, em 1974, que sempre foi muito ajudado pela sorte. E, repetindo o princípio de Napoleão Bonaparte, ele insistiu: — Eu sabia guiar, sim; mas, sem sorte, não teria chegado a lugar algum, pois sobrevivi a desastres muito sérios, com a cabeça protegida apenas por um capacete de palhinha. Seja no automobilismo, ou em qualquer outro esporte, a diferença com os dias de hoje é enorme. As delegações femininas não saíam sem uma acompanhante – a mãe de uma das jogadoras. Três dessas acompanhantes se fizeram logo populares e muito queridas no voleibol: dona Conceição Carvalho, mãe da Celma; dona Horizontina Miraglia, mãe da Marta; e dona Irene Coutinho Leal Paixão, mãe da Juraci. A acompanhante tinha a missão de manter a atmosfera de harmonia e respeitabilidade das equipes. Sem elas, não seria diferente, mas a acompanhante servia também de companhia agradável e vigilante, que sabia filtrar os olhares interesseiros voltados para as jogadoras, que sempre atraíram muitos admiradores. Técnicos de quase todos os esportes praticados, sobretudo de natação, voleibol e atletismo, eram militares formados no Departamento de Instrução da Polícia Militar, hoje Academia da PMMG, no Prado. Eles trabalharam não somente em clubes, como em escolas também. Alguns nomes sempre lembrados no voleibol: Adolfo Guilherme, Manuel Gualberto, Mário Lopes e Paulo Augusto dos Santos. Adolfo sempre foi estudioso e imaginativo e taticamente muito avançado. Alguns grandes nomes do voleibol brasileiro na década de 60 foram preparados por ele, como Urbano Brochado Santiago, Celma Carvalho e Marta Miraglia. Fora da formação militar, havia muitos técnicos civis,

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entre os quais Sílvio e Lincoln Raso, Carlos Turner, Hélcio Nunan, Herbert Dutra, Fernando Furtado, Mário Magalhães, José Barroso e Leôncio Chagas. No basquete, Antenor Horta, Gerson Sabino, Rubem Mendes, João Bento, Humberto Ladeira, Antônio Dantas Campos, Helio Coutinho, Helion Vargas, Ademar Castilho e José de Oliveira Vaz, que, durante longos anos, conciliou o basquete com a direção do Departamento Comercial dos Diários Associados. Mas o DI foi o responsável pelo sucesso que os esportes amadores de Belo Horizonte, e de todo o Estado, tiveram até a criação da Escola de Educação Física, na segunda metade da década de 50. Da Polícia Militar, saíram também alguns atletas formidáveis, como os jogadores de vôlei Paulo Augusto, Jonas Souza e Mário Lopes. A Polícia Militar foi tão fundamental para os esportes mineiros que até mesmo massagistas forneceu. O mais popular e bem-sucedido de todos eles, o Wilton de Oliveira, o Bolão, que trabalhou por longo tempo no América e nas seleções mineira e brasileira de futebol. Na época, o massagista tinha quase a mesma obrigação de um médico. A medicina esportiva só começou a ganhar a importância dos dias de hoje nos anos 50, com o dr. Abdo Arges, do Atlético; e, depois, com o dr. Annibal Bonifácio Costa, primeiro no vôlei e no basquete, depois no futebol do Cruzeiro. Outro grande nome viria mais tarde, o dr. Neilor Lasmar, médico da seleção brasileira dirigida por Telê Santana. Presidentes de clubes não precisavam ser ricos. “Até certo ponto”, observou, em crônica, Paulo Papini: “Devem ser pelo menos remediados, terem carro, porque não fica bem o presidente chegar ao clube de bonde…”. Na década de 50, as presidências de América, Atlético e Cruzeiro foram exercidas por médicos renomados. Eles eram, respectivamente, os doutores Ubaldo Pena, Fábio Fonseca e José Grecco. Conciliavam perfeitamente as obrigações profissionais com os interesses dos clubes. Antes de ser médico, o doutor Fábio foi soldado na II Guerra, integrando a FEB. Havia, certamente, outros médicos ligados aos esportes, que iam muito além do sentimento de torcedor, como os irmãos Jair e Jacy Roiz Pereira, que atuaram no América por muitos anos. E o dr. Adelmar Cadar, cujo bisturi, diziam, deu mais força aos gritos de “galo, galo”, porque ele operou a garganta de centenas de torcedores, que o procuraram para extrair as amígdalas doentes. A área do DI, conhecida originalmente como Prado Mineiro, tem outras ligações intrínsecas com a história da cidade. Ali, no dia 17 de abril de 1912, desceu o primeiro avião visto no céu de Belo Horizonte – um acontecimento que atraiu quase toda a população. Até então, ninguém havia visto um avião no ar, mas os belo-horizontinos já conheciam Santos Dumont, entusiasticamente aclamado no centro da cidade, na visita histórica que fez dez anos antes. O biplano Bleriot era pilotado pelo intrépido Ernesto Dariolli, que, dias depois, comoveria os belo-horizontinos porque ficou seriamente ferido num desastre durante uma decolagem. Outras referências históricas do Prado Mineiro: ali foram disputados os jogos do primeiro Campeonato Mineiro de Futebol, em 1915; e as primeiras corridas de cavalo da cidade, nos anos 30. Mas nós nunca demonstramos apego ao turfe. Uma segunda

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tentativa de implantar o esporte, na década de 60, também foi frustrada por essa falta de apetite. O hipódromo Serra Verde, nas cercanias da cidade, começou bem, mas o entusiasmo que marcou os seus primeiros passos não durou muito. Na área do hipódromo desativado está em construção o Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais. A importância da Polícia Militar na vida da cidade e do Estado é notável não apenas nos esportes. A contribuição da PMMG à música é, sem dúvida, maior, por ser contínua. Se nos esportes os técnicos acabaram sendo substituídos por civis, na música a história, originada em 1895, ano da formação da primeira das 19 bandas mantidas nos dias de hoje, continua com grande brilho. Trata-se da única instituição militar, em toda a América Latina, que possui uma orquestra sinfônica. Foi fundada em 1948, com músicos trazidos das suas unidades. Naquele ano, foi também criada a Escola de Formação Musical da PMMG, ou simplesmente Escola de Jequitaí, o apelido do seu criador, coronel Egídio Benício de Abreu. A escola é para meninos de 13 a 15 anos, que ali recebem todo ensinamento básico e saem músicos para integrar as bandas, a sinfônica, ou a orquestra show, outra agrupação que realiza concertos públicos. Dos grandes nomes da música originados da Polícia Militar mineira, sobressaem os do professor e coronel Sebastião Viana, que foi assistente do maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959); do professor Ney Parrela; e do saudoso maestro Dolarino Pereira da Rocha, que tocou também em todas as grandes orquestras da cidade.

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Um perigoso partidário da paz

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udo que os jornais e rádios do Rio faziam, os nossos procuravam fazer também. O crescimento da mídia, marcado em Belo Horizonte pela Tribuna de Minas e pela Itatiaia, ocorria em todas as partes. No Rio, a televisão deu o seu primeiro passo com a estreia, em 1951, da TV Tupi, a segunda do país (a primeira foi a Tupi de São Paulo, oficialmente inaugurada em setembro de 50, mas que já havia mostrado a sua imagem meses antes, apresentando o frei-cantor mexicano José Francisco de Guadalupe Mojica (1896- 1974), que a abençoou. Antes de entrar para o sacerdócio, ele se chamava Crescenciano Abel Exaltación de la Santa Cruz de Jesus Mojica Montenegro y Chavarín. Mojica ficou conhecido no mundo inteiro e a sua música mais ouvida por nós era Dime que Sí (Fernando García). A Tupi carioca lançou a primeira telenovela da nossa história – Sua Vida me Pertence, de Walter Forster – com apenas dois capítulos semanais. Ninguém imaginava, àquela altura, que a novela viesse ser a característica mais forte da televisão brasileira. Também no Rio, em 51, circulou pela primeira vez a Última Hora, criada por Samuel ayner, com a ajuda de Getúlio Vargas, com o objetivo claro de neutralizar as críticas pesadas da Tribuna da Imprensa ao presidente. A Última Hora era o único jornal do país impresso com mais de uma cor. Tornou os textos mais ágeis, criou seções, mantendo o tom renovador iniciado pelo Diário Carioca, até hoje uma referência de estilo e substância. O Diário Carioca, que tinha como lema “o máximo de jornal no mínimo de espaço”, foi o primeiro a utilizar o lead adotado na imprensa norte-americana, com todos os textos informando, logo no primeiro parágrafo, as cinco questões básicas da notícia: o quê, onde, quando, como e por quê. Foi também pioneiro na abertura de espaço para o colunismo, com nomes como Armando Nogueira, Jacinto de Thormes (o Maneco Muller, o pai da moderna crônica social, cujo nome de batismo era Manuel Bermudez Muller), e J. E. de Macedo Soares. Jacinto de Thormes criou o baile de debutantes, que o país inteiro acompanhou e repetiu, com festas onde houvesse meninas fazendo 15 anos. Ao morrer, com 82 anos, em dezembro de 2005, a criatividade de Maneco foi bem lembrada pelo jornal O Globo: “Maneco misturava as futilidades do grande mundo com informações em forma de notas curtas e ágeis, introduzindo boa dose de jornalismo com estilo ímpar de escrever num espaço antes visitado, quando muito, por juízes de paz. Na fonte do seu pioneirismo, beberam colunistas que se tornaram tão importantes quanto ele, como Ibrahim Sued (com quem teve uma rivalidade que começou com uma encenação e que, depois,

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resvalou para uma séria disputa para ver quem era o mais influente nas altas rodas) e Zózimo. Cunhou um bordão que o escusava de relatar os detalhes mais fúteis dos regabofes que o dever profissional o obrigava a frequentar: em vez de descrever o vestido de uma deslumbrada grã-fina ou de se derramar em elogios a nós de gravata, ele se limitava a dar o mote na coluna e completá-lo com a expressão ‘depois eu conto’”. Entre as coisas novas trazidas por Jacinto de Thormes, uma era a lista das dez mais elegantes do Brasil. Esta lista saiu pela primeira vez na revista Manchete, no começo da década de 60. Depois disso, o cronista Ibrahim Sued, de O Globo, aderiu à ideia e criou a lista dos dez homens mais elegantes. A popularidade das colunas sociais inspirou o compositor Miguel Gustavo a criar um samba sempre lembrado, que Jorge Veiga gravou: Café Soçaite. Era um deboche à vida dos personagens das altas rodas da sociedade carioca: . Doutor de anedota e de champanhota, Estou acontecendo no café soçaite. Só digo enchanté, muito mercy, all right, Troquei a luz do dia pela luz da Light (...). Osmar Frazão, da Rádio Nacional, conta que o samba foi proibido na boate do Copacabana Palace, porque Jorginho Guinle, da família proprietária do hotel, não gostou da letra falar de “Teresas e Dolores”, num dos versos. Teresa Sousa Campos era amiga do milionário e Dolores Sherwood foi a primeira das três mulheres com quem se casou. Cá em Minas, nomes que marcaram época no colunismo social foram os de Wilson Frade, o Bitô; Eduardo Curi e Humberto Barbi – este escrevia a coluna Grand Monde, com o pseudônimo de Enfant Gaté. Na Última Hora, Samuel Wainer procurou, igualmente, dar uma nova dimensão aos seus colunistas e muitos compravam o jornal exclusivamente para ver as histórias escritas por Nelson Rodrigues na sua coluna “A Vida Como Ela É – Amor, Farsa, Drama, Comédia”. Traições conjugais, tragédias passionais, amores impossíveis, paixões incontidas – Nelson Rodrigues escrevia sobre tudo isso com um estilo Castro fez a seleção dos melhores trabalhos de Nelson, que foram publicados em dois volumes. Além desses livros, Castro escreveu uma biografia de Nelson Rodrigues (O Anjo Pornográfico). Como o irmão, Mário Filho, Nelson foi um cronista de futebol muito popular. A sua coluna À Sombra das Chuteiras Imortais, que escreveu durante anos no Globo, atraía um número extraordinário de leitores. Foi Nelson quem criou para o Telê Santana o apelido fio de esperança, dada a capacidade do ponta do Fluminense de reverter o resultado à última hora, com gols salvadores. O apelido veio do filme The High and the Mighty, de 1954, com John Wayne no papel principal, e que, em português, se chamou O Fio de Esperança. Outro jornal do Rio, que circulou pela primeira vez em 1951, foi O Dia, então dedi-

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cado à cobertura de ocorrências policiais. O capital desse jornal veio, em parte, das bem nutridas reservas de Adhemar de Barros, que as investiu, simultaneamente, na Tribuna de Minas. A cobertura ampla dos episódios violentos do Rio deu ao O Dia uma inesperada liderança, em termos de tiragem diária. Já o sucesso histórico do Diário Carioca não apaga uma mudança para pior que, por ironia, partiu do seu grande diretor, Pompeu de Souza: a mutilação da língua portuguesa, com o abandono do artigo nas manchetes, dando a todos os títulos uma linguagem telegráfica, a fim de ganhar espaço. A prática foi logo adotada por toda a imprensa, e, de forma ainda mais lamentável, pelo rádio e pela televisão. Em vez de um estilo coloquial, ouvíamos do rádio e da televisão uma forma de expressar que não é a natural, já que ninguém conversa desprezando o artigo. Mas o hábito sobrevive até hoje. A imprensa do Rio tinha grande influência sobre a imprensa mineira. Era o modelo a ser seguido, em todos os aspectos. De acordo com esta acepção, em Belo Horizonte a Tribuna de Minas procurou dinamizar a cobertura política e destacou o repórter Helvécio de Oliveira Lima para cobrir também o Hotel Normandy, onde se hospedavam todos os políticos de passagem pela cidade. Certo dia, um dos entrevistados – que não pertencia propriamente à vida político-partidária – foi o polêmico almirante Carlos Penna Botto, da extrema-direita, que via sempre o dedo sinistro do comunismo russo em qualquer coisa ou fato que não fosse do seu agrado. Com um terço ostensivamente enrolado na cabeceira da cama, o baixinho Penna Botto recebeu o Helvécio demonstrando desagrado no rosto, pois um alcaguete da polícia mineira, que sempre o acompanhava, já havia lhe dado a “ficha” do entrevistador que, na verdade, era membro atuante do raquítico Partido Socialista Brasileiro. A conversa entre os dois começou fria e seguiu arrastada, sem calor e simpatia: o repórter, formal e distante; o almirante, inquieto, nervoso, talvez já arrependido de haver concordado com aquele encontro. Quase no final da entrevista, depois de denunciar a infiltração comunista na política, no clero e no exército, muito agitado, o almirante afirmou: — Esta Terceira Guerra é inevitável: se a Rússia não declarar guerra aos Estados Unidos, os Estados Unidos terão que declarar guerra à Rússia –. E completou: — Só assim salvaremos o mundo desse desgraçado sistema bolchevista... Bem seguro de si, o Helvécio, sem o menor cuidado, numa linguagem quase íntima, resolveu doutrinar o almirante: — Almirante, não seria mais sensato o Brasil e outros países não diretamente envolvidos nessa Guerra Fria darem à ONU maiores poderes?... E não pôde completar a frase... O almirante, que aspirava comunismo até numa rosa vermelha, ficou lívido, histérico, levantou-se da cama onde estava assentado e começou a andar pelo quarto, gritando: — O quê? Assustado com tão descabida reação, o Helvécio só conseguiu dizer: — Sim, sou contra a guerra e acho que não temos mais nada para conversar...

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Muito perturbado e voltando à cama onde estivera assentado, Penna Botto apanhou o rosário que estava na sua cabeceira, enfiou a mão por debaixo do travesseiro e sacou um revólver. Brandindo no ar a arma e o terço, gritava, apoplético: — Dou esta entrevista por encerrada e, por favor, suma da minha frente... Ao chegar à redação, bastante contrariado, o repórter narrou todo o incidente ao secretário João Vianna de Oliveira, o Barão de Barbadela, que já havia saído da Folha. E exigia, agora, uma atitude agressiva do jornal para com o atrevido almirante. O João riu, pois achou muita graça em toda aquela história. Orientou o jovem repórter para que colocasse no papel só as opiniões radicais do almirante, omitindo naturalmente, as cenas do terço, do revólver e da expulsão – justificando que era “para não valorizar demais a explosão paranóica do Penna Botto”. E o próprio João titulou a matéria, associando a atitude de Penna Botto à do senador norteamericano Joseph McCarthy, empedernido anticomunista: “O almirante é de briga – o ‘McCarthy’ botocudo é favorável à terceira guerra mundial”. No grande esforço para acabar com a liderança do Estado de Minas, todos os jornais procuravam ampliar as coberturas, inovando o que pudesse ser inovado. Nenhum conseguiu ultrapassar o Estado, mas o Diário de Minas foi o que mais ameaçou a sua liderança. Montou uma ótima redação chefiada por Guálter Gontijo Maciel. Entre os grandes nomes dessa redação se achavam Urias Pires Botelho, Marcelo Coimbra Tavares, Rubens Pontes, Milton Fernandes (mais tarde diretor de redação), Fortunato Pinto Júnior, o cartunista Borjalo, Juracey Barros, Ivan de Vasconcelos Barros, José Maria Rabelo, Vicente Guimarães, Oscar Nonato, Waldir Lau, Mauro Santayanna, Hugo Aroeira, José Bonifácio Costa Filho e Cypião Martins Pereira. Em meados da década de 50, Mauro internou-se no Instituto Raul Soares, de Belo Horizonte, para provar que ali havia loucos morrendo em consequência de maus-tratos. Durante cinco dias, ele se misturou aos loucos de fato, mas o sacrifício foi altamente compensador em termos jornalísticos. As suas reportagens provocaram uma ampla investigação para apurar responsabilidades e corrigir as falhas denunciadas. Todos os jornais possuíam bons repórteres. Na Tribuna de Minas, destacavam-se Felipe Hanriot Drummond e Afonso Celso Raso. Felipe foi depois para o Diário da Tarde e Afonsinho deixou o jornalismo em favor da carreira de advogado. Mas, antes de ser jornalista, ele foi um excelente atleta: além de futebol, jogou nas seleções mineiras de basquete juvenil, jogou vôlei e nadou pelo América. Nenhum dos comentaristas esportivos da época ostentava o conhecimento e a experiência de Afonsinho para analisar quatro esportes com tanta autoridade, especialmente em sua corrosiva coluna Esquina dos Aflitos (que virou livro, lançado em 2006). O Diário, jornal católico subordinado à Cúria Metropolitana, tinha como melhor repórter José Flávio Dias Vieira, também responsável pela coluna “Cronometrando”. que depois se transferiu para o Diário de Minas. Hugo Aroeira, com o pseudônimo de Tesou-

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rinha, assinava a coluna esportiva “Cama de Gato”. O Diário tinha também homens de grande cultura, como João Etienne Filho, Milton Amado (que escrevia a coluna Quadro Negro), José Mendonça, Aires da Mata Machado, João Camilo de Oliveira Torres, Oscar Mendes, Antonio Augusto Mello Cançado, Frei Martinho Burnier, Guy de Almeida (colunista de economia), Mozart Meniconi (responsável pelo Diario Forense, que orientava advogados com a melhor jurisprudência) e Mário Casassanta, dentre outros. Foi ao lado de José Flávio, que iniciei a minha carreira, no cargo, hoje inexistente, de repórterauxiliar do Diário de Minas. Essa experiência rendia lições diárias de bom jornalismo. O Estado de Minas mantinha a sua liderança com a maior equipe da cidade, chefiada por Geraldo Teixeira da Costa. Ao lado dele estavam Hermenegildo Chaves, Theódulo Pereira, Pedro Aguinaldo Fulgêncio, Wagner Sachetto, Salomão Borges, Fábio Doyle, Ney Octaviani Bernis, entre outros. Mais tarde, vieram Virgílio de Castro Veado, Toninho Drummond, Dídimo Paiva, Geraldo Magalhães, Cyro Siqueira e Roberto Elísio Castro e Silva. Cyro e Roberto foram, durante longos anos, diretores de redação. O Estado tinha também excelentes colunistas: o professor e advogado Alberto Deodato; Jair Silva, com a bem-humorada coluna semanal Oropa, França e Bahia; José da Rocha Paixão, o Rochinha, que explorava a área parlamentar com a sardônica “Do plenário às galerias”; e Djalma Andrade, com a“História alegre de Belo Horizonte”, onde ironizava os acontecimentos com divertidíssimos comentários em versos. Com uma equipe separada do Estado, o Diário da Tarde contava com Fábio Doyle, Francisco Antunes, Afonso de Souza, José Perdigão, Édison Zenóbio e Antônio Silveira. Mais tarde, Cyro Siqueira assumiu a chefia da redação, trazendo Guy de Almeida, Maurício Gomes Leite, Carlos Wagner, Heitor Martins, Celius Aulicus, Frederico Morais, Ênio Amaral e Afonso Estêvão Torres. Lá já estavam outros jornalistas de grande experiência, como Francisco Antunes e Carlos Denis. Na década de 60, Guy de Almeida assumiu a direção do Diário de Minas, depois de ter organizado a redação do Correio de Minas. Seu talento foi além do jornalismo. Ao tempo em que governou Brasília, José Aparecido de Oliveira o chamou para chefiar o seu gabinete. Guy desempenhou-se tão bem que, diziam, exerceu de fato a administração da cidade. Guy, hoje aposentado, foi também professor universitário e mestre indiscutível de dezenas de jornalistas. E a Folha, apesar de nunca ter causado grande impacto, era feita por alguns jornalistas de peso, como Cid Rebelo Horta, Sinclair Bernardes, Wilson Figueiredo, Fernando Reis, Jair Rebelo Horta, João Viana de Oliveira e Célio Horta. No começo, contou também com Fortunato Pinto Júnior. Era uma redação formidável, com gênios do jornalismo, entre os quais sobressaía Jair Rebelo Horta. Foi nesta Folha, onde dois cartunistas, que se fizeram famosos no Brasil e no exterior, iniciaram a carreira: além de Borjalo, Ziraldo. Estes, dois inconfidentes, que abriram o caminho para outros notáveis chargistas - Oldack Esteves, Nani, Henfil (Henrique de Souza Filho) e Raf (Rafael Siqueira). Os Diários Associados formavam o maior e o mais poderoso grupo de comunicações do país, com um toque pioneiro em quase tudo. Isto

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se devia ao arrojo de seu fundador e dono, Assis Chateaubriand. O império da mídia que ele formou foi o resultado de um trabalho totalmente seu. Esse sucesso gerou polêmicas. Chateaubriand era acusado de ter crescido a qualquer custo, sem escrúpulos. Os Associados chegaram a ter 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal e outra mensal. Como dono, Chateaubriand procurava acompanhar tudo de perto, mas ele confiava plenamente na equipe de colaboradores para administrar as empresas do grupo. Às vezes, ele próprio ia visitar as redações. Eu trabalhava no Diário da Tarde, quando uma dessas visitas aconteceu. Chateaubriand percebeu que nós estávamos muito ocupados, fechando a edição do dia e procurou não nos interromper. Ainda assim, foi de mesa em mesa para apertar a mão de todos os repórteres e redatores. Até fins dos anos 50, jornalismo não passava de um bico para muitos que chegavam às redações; não era uma profissão definida. Queriam ganhar algum dinheiro, enquanto estudavam, mas, ainda assim, houve não poucos que acabaram ficando. Os salários eram baixos, mas muitos arranjavam empregos públicos, quando não sinecuras, que completavam a renda miúda que tinham como repórteres e redatores. O mercado de trabalho, porém, era muito bom, com os seis jornais diários que Belo Horizonte chegou a ter. O Correio de Minas, como o Estado, tinha sede própria, construída na Avenida Olegário Maciel, em apenas sete meses, pelo arquiteto Luiz Augusto Batista de Oliveira, o Gutinho. Ele recordava aqueles tempos dizendo que, para os jornalistas do Correio, o que talvez tivesse marcado mais fortemente a vida curta do jornal foi a Furna da Onça, botequim das imediações, refúgio de fim de expediente. Havia ainda a sucursal da revista O Cruzeiro, chefiada durante anos por Eugênio Silva; e os repórteres José Franco, José Nicolau, Luiz Alfredo, Oswaldo Amorim, Fernando Brant e Fernando Richard. O que certamente fazia a diferença era o ambiente de solidariedade das redações. No capítulo que escreveu para o livro Jornalismo Político, compilado por Roberto Seabra e Vivaldo de Souza, lançamento da Editora Record, Mauro Santayanna ilustra essa solidariedade, ao mencionar um episódio extremamente doloroso para mim e minha família: a morte de um irmão, num desastre de avião entre o Rio e Belo Horizonte, às vésperas do Natal de 1955. A informação foi recebida primeiramente pelo jornal e coube ao Mauro levá-la à minha casa. Ele chegou ao apartamento onde morávamos, mas se sentiu tolhido pelas circunstâncias, pois de nada sabíamos. Mauro me levou para a redação, na rua Carijós, onde me deram a notícia. — Fechamos, de qualquer forma, a edição do dia seguinte –, relata Mauro – e os solteiros saímos cabisbaixos para não festejar coisa nenhuma. Estou certo de que os que tinham família tampouco tiveram uma noite feliz. Estávamos também de luto. Essa solidariedade servia também de compensação afetiva, que nos ajudava a carregar nas costas os dramas cotidianos do mundo. Os jornalistas dos anos 50 puderam ampliar as suas oportunidades de trabalho com a inauguração da TV Itacolomi, dos Diários Associados, que tinha todas as dependên-

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cias, inclusive o transmissor, no edifício Acaiaca. A sua estreia no dia 8 de novembro de 1955 sacudiu a cidade. A curiosidade em torno do novo meio de comunicação fez criar a expressão “televizinho” – aquelas pessoas que não possuíam um aparelho em casa e iam à casa ao lado para ver os programas. A produção local era modesta, como modestos eram os recursos existentes, mas feita com extraordinário entusiasmo por uma equipe pioneira. Havia teatro, esportes, jornalismo e as “garotas-propaganda”, que promoviam produtos e o comércio da cidade. Um dos maiores sucessos de audiência foi o Teatro Lourdes, que apresentava espetáculos que superavam claramente as limitações técnicas da época. A direção era do casal Vicente Prates-Léa Delba, ela também atriz. O elenco tinha Elvécio Guimarães, Lázaro Ramos, Ary Fontenelle, Ricardo Luiz, Antônio Augusto, Wilma Henriques, Glória Lopes, Ana Lúcia Kattah, Antônio Naddeo, Vânia Elisabeth, Otávio Cardoso, Clausy Soares, Orlando Pacheco Jr., Ubaldino Guimarães, Renê Almeida, Anaíde Martins, Lady Francisco, Palmira Barbosa, Wilma Miranda, Mauro Gonçalves e Heloísa Mallard. Além do Teatro Lourdes, havia a Garrafa do Diabo, produzido por Vinicius de Carvalho, que adaptava fatos e episódios literários conhecidos. Era tudo transmitido ao vivo, com o cenário preparado por um artista muito talentoso, o Gerson Caetano. Nos esportes, Milton Colen foi durante longo tempo o principal narrador. Colen veio para o jornalismo com a experiência de ter jogado no Sete de Setembro e no Atlético. Passou uma longa temporada na Bahia e no Rio, antes de fixar-se definitivamente em Belo Horizonte. No jornalismo, a Itacolomi teve três programas marcantes: o Repórter Esso, o Repórter Real e o DT na TV, criação de Afonso Torres, então subeditor do Diário da Tarde, que usava a equipe do jornal para a produção do programa. O DT na TV, apresentado por Milton Colen, ia ao ar por volta do meio-dia, no mesmo horário em que o jornal circulava. Havia ainda os dubladores, que gesticulavam e abriam a boca como se estivessem cantando a música que o público ouvia numa gravação. A programação foi melhorada com a introdução dos gravadores e reprodutores de fitas – o videotape, nos anos 60. Mas, na Copa do Mundo de 58, as imagens dos jogos vinham em filmes e só chegavam 48 horas depois, ainda assim um feito extraordinário! A chegada da televisão mudou a cidade e o jornalismo. Foi uma época muito especial. Lembro-me de quando a Itacolomi começou a apresentar o Preto no Branco, um programa trazido do Rio, com uma equipe numerosa. Repórter que era do Diário da Tarde, em 1959, eu me voluntariei para entrevistar os grandes nomes do programa. Um deles, o Pixinguinha, que fui encontrar no restaurante Califórnia, à rua Espírito Santo. O grande compositor reclamou da indiferença das emissoras de rádio com a música brasileira: — Só tocam coisas que vêm de fora -, foi o que ele me disse, com muita simpatia e humildade. Então eu mencionei a chamada Lei Humberto Teixeira, que exigia um percentual nacional, sem saber no que estava mexendo: — O quê, meu filho? -, interrompeu-me, com um olhar de desprezo pela pergunta. — A lei do compositor e deputado Humberto Teixeira...

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— Olha, pra mim, esse moço nada sabe de música, porque ele é adêvogado... Humberto Teixeira, no entanto, entrou para a história da música como um dos criadores do baião. Talvez porque as opções de lazer fossem comparativamente pequenas, todos liam e liam muito. Livros, jornais, revistas – o que fosse. A leitura mais popular era a revista semanal O Cruzeiro, editada no Rio. O Cruzeiro, lançado em 1928 e fechado 50 anos depois, pertencia aos Diários Associados. Chegava a Belo Horizonte às terças-feiras pela manhã (um dia depois do lançamento), distribuído pela Agência Siciliano, avidamente aguardado por leitores que ajudavam a garantir a sua excepcional tiragem – só nas bancas eram vendidos 800 mil exemplares semanais. Foi mesmo um fenômeno editorial num Brasil que tinha menos da terça parte da população atual! E o interesse principal eram as reportagens da dupla, na época, mais famosa da imprensa brasileira: David Nasser e Jean Manzon. Mas, antes, os leitores abriam as últimas páginas para ver o Amigo da Onça, um mau caráter, de aparência suave, muito engraçado, invenção do desenhista Péricles (Péricles de Albuquerque Maranhão), que caiu no gosto público. E a expressão que inspirou Péricles a criar o personagem tornou-se popular: “Você é meu amigo, ou amigo da onça?”. A figura do Amigo da Onça foi baseada no rosto do grande e inesquecível cômico Mesquitinha. O humor no O Cruzeiro ocupava várias páginas; umas delas pelo Pif-Paf, assinado por Emmanuel Vão Gogo, pseudônimo de Millor Fernandes. Havia também o Seu Macarra, divertido personagem surgido da imaginação e da pena de Carlos Estêvão. Outra página muito popular era a das belas e elegantes Garotas do Alceu (Alceu Penna, mineiro de Curvelo), desenhos de meninas bonitas, mostrando a moda da época, com versinhos como legenda, da autoria de Millor Fernandes, embora ele não os assinasse. O encanto dessas garotas fictícias, que exerceram tanta influência no comportamento das jovens da época, levou Ziraldo (Ziraldo Alves Pinto) a escrever, em 1983, na apresentação da exposição dos trabalhos de Alceu, no Palácio das Artes: “Durante anos, todas as moças bonitas deste país – dos fins das tardes nas calçadas da praia de Icaraí, em Niterói, e das filas do cine Metro, no Rio, aos footings das pracinhas do interior – se sentavam, gesticulavam, sorriam e se vestiam como as Garotas do Alceu”. A revista irmã de O Cruzeiro era A Cigarra, que circulava uma vez por mês, orientada para o público feminino. Depois, o nome A Cigarra passou a ser o de uma revista literária editada em São Paulo. Em abril de 1952, também no Rio, onde ficava a sede de O Cruzeiro, foi às bancas o primeiro grande concorrente da revista, a Manchete, da Editora Bloch. Impressa com o mesmo formato de O Cruzeiro, a Manchete procurava ser diferente no texto, porque atraiu uma porção de gente famosa, como Vinicius de Morais, Henrique Pongetti, Orígenes Lessa, Fernando Sabino, Marques Rebello, Ligia Fagundes Telles, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos, Antônio Callado, entre outros. A Manchete conseguiu contratar vários profissionais de O Cruzeiro, um deles o fotógrafo Jean Manzon. A revista não

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chegou ao final do século passado, porque as dificuldades, sobretudo financeiras, foram se acumulando, sem soluções. Sobreviveu, entretanto, uma edição especial de carnaval, caracterizada pela ousadia e indiscrição da cobertura fotográfica. Outras revistas populares, no começo da década de 50, eram Fon Fon, Vida Doméstica (que publicava em papel cuchê fotos e notícias de acontecimentos sociais), A Carioca e Para Todos. E havia também a revista literária Vamos Ler?, que publicava resenhas de livros e trechos escritos pelos melhores escritores da época. Para os adolescentes, e muitos adultos, a grande leitura semanal era o Gibi, que saía com três edições no Rio, às segundas, quartas e sextas, mas só no dia seguinte chegava a Belo Horizonte. O Globo Juvenil, outro sucesso, circulava também três vezes por semana, 24 horas depois do Gibi. Ninguém queria perder as histórias em quadrinhos do Fantasma; Mandrake; Zorro; Ferdinando e a Família Buscapé; Praxedes Porcalhão; Capitão Marvel; Pafúncio e Marocas; Tocha Humana; Príncipe Submarino; Capitão César e o Tubinho – alguns dos personagens inesquecíveis para muitas gerações, todos importados dos EUA (as primeiras histórias em quadrinhos chegaram ao Brasil em 1934). Os nossos desenhistas especializados eram Calixto, Raul Pederneiras, Guevara, J. Carlos e Carlos Zéfiro, cujo nome de batismo era Alcides Aguiar Caminha. Zéfiro fez-se conhecido nas décadas de 50 e 60 por desenhar e escrever histórias pornográficas. A segunda publicação popular para adolescentes chamava-se Era Uma Vez e circulava mensalmente. E, para os interessados em histórias policiais – autênticas ou fictícias – saía, uma vez por mês, a revista Meia Noite. Com o formato de um pequeno livro, ela tinha como grande atração as histórias em quadrinho do agente X-9, uma criação dos norteamericanos Dashiell Hammett e Alex Raymond. Nas casas e, sobretudo, nas barbearias, não faltava a Careta, revista de leitura ligeira e divertida, dirigida, desde a sua fundação, em 1905, por J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha), que também ilustrava as suas principais histórias. J. Carlos trabalhou, ficou conhecido no país inteiro como o melhor cartunista da sua geração. Ele ilustrou muitas publicações, entre elas uma revista infantil imensamente popular, O Tico-Tico, onde criou figuras adoradas pelos meninos, como Lamparina, Goiabada, Jujuba, Bolão, Azeitona, Reco-Reco e Carrapicho. Eram adoradas também as figurinhas, que encantaram os meninos, e alguns adultos, nos anos 50. As Balas Futebol vinham enroladas com imagens de jogadores e clubes; o mercado era imensamente competitivo, porque tinha, entre outras marcas, as Estampas Eucalol... ah que saudade!; as Balas Fruna, quatro álbuns com fotografias de artistas de cinema; as Balas Ruth, com imagens da história; e, bem antes de todos estes nomes, as Balas Hollandezas, com as figurinhas de plantas e flores. Monteiro Lobato foi também adepto dos álbuns de figurinhas, criando dois que ficaram bem gravados na sua própria história. Um se chamava A Aventura do Barão de Munchausen e o outro Um Sonho de Caverna. Veio dessa época saudosa a expressão “figurinha difícil”, que definia alguém que fosse mesmo difícil de ser visto, ou que se julgava como tal. Disputávamos as figurinhas

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jogando “tampão”, batendo num movimento rápido da mão concavada numa pilha de figurinhas colocadas com a ilustração voltada para baixo. Era preciso umedecer com cuspe a palma da mão, a fim de assegurar vantagem e ganhar a figurinha, nesse jogo divertido. As figurinhas foram banidas através de um decreto do governo militar, publicado em 1971. Não foram dadas maiores explicações para a medida. Uma grande fonte de conhecimentos para os jovens era a coleção Thesouro da Juventude. Um privilégio possuí-lo, presente inesquecível de Natal para toda a família, presente de aniversário para os que podiam dá-lo. Os ouvintes de rádio tinham várias publicações para conhecer as programações. A mais popular era a Revista do Rádio. A outra ampliava a sua cobertura e se chamava Cine- Rádio-Jornal. Mantinha anúncio no rádio, que dizia: “Não há sábado sem sol, domingo sem missa, segunda sem preguiça, terça não há nada de anormal, mas quarta tem o Cine-Rádio Jornal”. O cinema era a nossa diversão número um. Viviam lotados, formavam-se filas para a compra do ingresso. Todo bairro possuía o seu próprio cinema, mas vir ao centro a uma das muitas salas mais confortáveis que existiam era o passeio completo dos sábados ou domingos. O histórico Cine Brasil mantinha a posição de número um da cidade, com uma sessão das 22 horas e, semanalmente, uma da meia-noite. Em 1951, alternou, com o Metrópole e o Acaiaca, a exibição de “Sinfonia em Paris”, com Gene Kelly; “Uma rua Chamada Pecado”, com Marlon Brando; e “Uma Aventura na África”, com Humphrey Bogart e Katherine Hepburn, filmes premiados com o Oscar. Pacto Sinistro, com Farley Granger e Robert Walker, outro grande sucesso da época e um dos melhores de Alfred Hitchcock, foi exibido no Metrópole. Mas, como os demais filmes que Hitchcock dirigiu, não mereceu a glória de um Oscar. E os meninos da década de 50 não podem se esquecer do espetacular desenho de Walt Disney, baseado no clássico de Lewis Carrol: Alice no País das Maravilhas. Ao todo, a cidade possuía 26 cinemas, quase todos de quatro companhias: Cinemas e Teatros Minas Gerais (que tinha 13), Companhia Mineira de Diversão, Cinemas S. A. e o Cine Arte. Do lado da produção cinematográfica nacional, então marcada pelas comédias, o que nos fez rir em nos anos 50 foi “Aí vem o Barão”, de Watson Macedo, com José Lewgoy e Oscarito, um espanhol nato, batizado com sete nomes e sobrenomes: Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz. Lewgoy, ator com formação na Academia de Arte Dramática de Yale, onde foi colega e amigo de Paul Newman, conformavase em fazer papéis que nada tinham a ver com o seu excepcional talento. E, em 1971, em Londres, ele me disse resignado, quando fomos apresentados por um amigo comum, o Ivan Lessa: “Precisava ganhar a vida”. Lewgoy participou de outros quatro filmes lançados em 1951: Barnabé, tu és meu; Areias Ardentes; Maior que o Ódio (no qual atua ao lado de Ivan, Agnaldo Raiol, Ilka Soares e Anselmo Duarte); e Aviso aos Navegantes, este último parte da rotina pré-carnavalesca da Atlântida, a maior companhia de cinema que

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o Brasil já teve. Foi criada em 1941 e faliu em 1962, depois de ter produzido 61 filmes. Aviso aos Navegantes, volta e meia exibido pela televisão, é uma espécie de programa de auditório filmado. Os cantores que aparecem no filme são Emilinha Borba, Ivon Curi, Adelaide Chiozzo, Cuquita Carballo, Dalva de Oliveira, Elvira Pagã, Francisco Carlos, Jorge Goulart, 4 Ases e 1 Coringa e Ruy Rey com a sua orquestra. Apesar de descritos como chanchadas, sem nenhuma valia artística, ano após ano os cinemas lotavam com as comédias carnavalescas da Atlântida, que eram, aliás, a grande chance de o público conhecer melhor os seus ídolos do rádio. Havia outras três companhias cinematográficas no Brasil na década de 50. Elas eram a Vera Cruz (que, em 51, estreou Ângela e Terra é Sempre Terra); a Maristela, com dois filmes naquele ano, Presença de Anita e O Comprador de Fazendas; e a Multifilmes. Na Afonso Pena, o cinema Glória não tinha uma sessão da meia-noite, como o Brasil, mas era igualmente popular. E, como o Brasil, estava ao lado de uma excelente banca de jornais e revistas, a agência Santana. A do Brasil era a agência Riccio. O Glória, inaugurado em 1927, ficava num velho edifício à direita no primeiro quarteirão depois da Praça Sete, na direção da Serra; o seu interior conservava o estilo de teatro, como o de outros velhos cinemas do centro. Nos bairros, alguns exibiam seriados regularmente, que acompanhávamos com emoção: Flash Gordon no Planeta Mongo, Buck Rogers no Século XXV (os dois com o ex-campeão olímpico de natação Larry “Buster” Crable) e ainda Buck Jones, Hopalong Cassidy, Super Homem, O Dragão Negro, entre outros. O capítulo do seriado, que não passava de 20 minutos, antecedia o filme principal. Larry ‘Buster’ Crable não foi o único campeão olímpico aproveitado no cinema, nem o mais famoso. Mais conhecido do que ele era Johnny Weismuller, o Tarzan em numerosos filmes. Celebrizou-se no mundo inteiro com o seu grito que expressava intrepidez, diante de perigos nas selvas africanas, muitas vezes para salvar a sua companheira Jane de ser morta por um animal ou de ser levada por algum selvagem mal intencionado. E ele contava com a ajuda da chimpanzé Chita, uma alegria para os meninos, que se divertiam com as suas extravagâncias. Outro Tarzan de origem olímpica foi Lex Baxter. Hollywood soube aproveitar não só nadadores, mas também uma linda nadadora olímpica, Esther Williams, que, para nós, era o mais belo corpo do cinema. Esther celebrizou-se em Escola de Sereias (1949), mas fez vários outros filmes de sucesso. Embora selecionada para disputar as categorias de nado de peito e nado livre, ela viu o seu sonho olímpico se desfazer, com o cancelamento dos Jogos de Tóquio, em 1940, porque os Estados Unidos entraram em guerra com o Japão. Mas isto não roubou dela a condição de nadadora olímpica. E de musa para seus admiradores.

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Só pode ser conversa de telefone...

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a calçada do Glória, no burburinho das manhãs e do final do dia, sobressaíam as vozes um tanto roucas, metálicas e afirmativas de dois camelôs. Um oferecia com convicção: “Pomada Balena para calo, cravo e espinha”. O outro gritava: “Gillette – mil e quinhentos a caixinha”. Eram 1500 réis, já inexistentes, porque foram substituídos pelo cruzeiro no dia 1º de janeiro de 1942, mas sobrevivendo nos cálculos dos mais antigos. Ouvia-se também o sorridente Lourival Imbuzeiro, anunciando em alto tom e com a certeza dos bons produtos que vendia no seu pequeno negócio: “Requeijão e doce de leite!”. Ele alongava a pronúncia da primeira sílaba da palavra doce, como se o seu doce contivesse mais açúcar do que o normal. Lourival transferiu-se depois para o Mercado Central, onde continuou vendendo requeijão e doce de leite até morrer, em 1993. O edifício de dez andares do Cine Brasil (o primeiro edifício moderno de Belo Horizonte e que deu começo ao crescimento vertical da cidade) abrigaria mais tarde outro popular estabelecimento no seu subsolo: o Bandejão, restaurante que servia comida barata e gostosa, mas só duas bebidas – água e leite, ambas desprezíveis para quem preferisse forrar a tripa com o incentivo de alguma aguardente. A rede desses restaurantes populares começou com o que foi instalado no conjunto da Feira Permanente de Amostras. Não era servida pimenta nas mesas do Bandejão e, no caso dos clientes do que ficava no edifício do Cine Brasil, quem quisesse o tempero passava antes no bar do Wilson Fraiha, na galeria do mesmo edifício, para beber um aperitivo, geralmente cachaça, e justificar o pedido de alguns grãos de malagueta, que ele dava sem nada dizer. O bar do Fraiha, com saída para a Carijós, era pequeno e pouco discreto, mas formidável para quem quisesse beber de pé e comer um apetitoso sanduíche de lombinho (a carne, em pedaços pequenos, cozida num cheiroso molho de tomate e cebola). Os nossos domingos eram um tanto limitados, em termos de diversão, mas tínhamos de aceitá-los, porque, afinal, faltavam alternativas. Matinês (alguns cinemas tinham sessões matutinas, começando às 10, para as pré-estreias, ou, como se dizia, avant premières); futebol à tarde; e os auditórios de rádio completavam o dia. Os grandes clubes campestres ainda não haviam surgido. Uma das boas opções da parte da manhã era o programa Gurilândia, do Rômulo Paes, na Rádio Guarani. Mas, em 1951, já começava a declinar, porque os cantores não eram mais guris e, sim, juvenis. E a renovação que o caracterizava não ocorria na escala que mantivesse a sua continuação.

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Na Gurilândia, das dez ao meio dia, o auditório e os ouvintes tomavam conhecimento de um certo Lactargil, o tônico das futuras gerações, um dos patrocinadores do programa. A descrição das virtudes do remédio, que não se sabe se convencia os pais a obrigarem os filhos a tomá-lo, era levada ao público pela voz do Hégler Brant Aleixo, o locutor comercial do horário. Hégler desafiava a elegância habitual de todo radialista e, no palco, apresentava-se quase sempre de camisa esporte, pelo que foi muito elogiado. E com muita elegância lia o texto: . Não quer se alimentar o menino Choraminga, faz beicinho, Inventa desculpas mil... Não hesite, senhora, Dê-lhe logo o Lactargil! Do programa saíram cantores como Gilberto Santana, Flávio de Alencar, Neide e Nancy, Vilma Leal Arnault e Maybe Terezinha Victor. A Inconfidência competia com a Gurilândia, também aos domingos, com o Programa do Pinduca, apresentado por Floriano de Paula, no qual a principal atração era o Bando dos Cariúnas, do professor Elias Salomé, conhecido como “o homem dos sete instrumentos”. E a Mineira tinha A Hora do Garoto, dirigida pelo Afonso de Castro, também aos domingos. Todos concorriam, como se vê, com a Gurilândia, que atraía o maior auditório do gênero. Vivíamos, como se percebe, tão cativos do rádio como o são, hoje, os que ficam em casa para assistir os programas de televisão. Famoso e respeitado desde a cobertura da II Guerra Mundial, o Repórter Esso manteve-se como o mais ouvido e mais sério noticiário de rádio no país a partir de 1941 até desaparecer, em 1967. Ia ao ar quatro vezes por dia, em audições de cinco minutos. Começou na Nacional, apresentado por Rubens Amaral, que depois trabalhou na BBC. Ninguém queria perdê-lo. Começava ao som de uma fanfarra, que expressava urgência e deixava o país inteiro atento às notícias. Foi o maestro Carioca, da Nacional, que a compôs e foi um dos executores da música, tocando trombone. Tão respeitado era o noticiário que as pessoas costumavam mentir dizendo “deu no Esso”, para autenticar uma informação posta em dúvida por quem a recebia. A consagração do programa veio com a contratação do gaúcho Heron Domingues para apresentálo. O estilo de Heron o diferenciava de todos os outros locutores de notícias; Heron dramatizava a narrativa dos fatos, antecipando certas notícias com a chamada “e atenção, atenção!”, para enfatizar a importância do que iria ler. Heron era um devorador de livros de história, porque queria entender melhor o mundo que descrevia diariamente ao microfone. Em 1949, ele apresentou o programa de Washington, cobrindo a visita oficial do presidente Eurico Gaspar Dutra aos EUA. Transferindo-se nos anos 60 para a televisão, Heron morreu de um infarto, depois de ler, com muita emoção, a notícia

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da renúncia de Richard Nixon, que foi presidente dos EUA entre 1968 e 74. A carreira política de Nixon acabou sepultada pelo escândalo do Watergate, como foi chamada a espionagem da sede do Partido Democrata, num hotel com aquele nome, em Washington, durante a campanha eleitoral que o reelegeu. Em Belo Horizonte, o apresentador do Esso era Aluízio Campos, na Inconfidência. Diferente de Heron, Aluízio, um crítico musical na imprensa, esteve envolvido na própria guerra antes de entrar para o rádio, como tripulante de um navio que patrulhava a costa brasileira. Em 52, a televisão adotou o Esso, mas uma só vez por dia, às 20 horas, com a duração de 15 minutos. Começou na Tupi de São Paulo, com Kalil Filho. A fase melhor do programa na televisão foi na TV Tupi do Rio, com Gontijo Theodoro. Na segunda metade da década de 50, o Esso da televisão já estava na TV Itacolomi, tendo Luís Cordeiro como o seu apresentador. No dia-a-dia, o Repórter Esso identificava-se como “o primeiro a dar as últimas”; mas, quando havia um grande acontecimento, a abertura mudava para “testemunha ocular da história”. Num mundo tão polarizado como o da época da guerra fria, o nome Esso sugeria, para a esquerda, domínio econômico, interesses políticos e falcatruas no formato das notícias. A verdade é que isto não acontecia. Mesmo com a televisão conquistando terreno e assegurando audiências, naqueles anos do começo da década de 50 o domínio do segmento popular do rádio pertencia aos programas de auditório. Os seus “animadores” não eram muitos, porque a tarefa requeria excepcional habilidade. Depois de Orlando Pacheco, os de maior sucesso foram Aldair Woyames Pinto, que começou em 1951, e trabalhou na Guarani, Itatiaia e Inconfidência; e Levy Freyre, exclusivo da Inconfidência. Outros grandes animadores de auditório de rádio foram Bernardo Grimberg, Waldomiro Lobo, Agnaldo Rabelo, Seixas Costa, Álvaro Alvim, Luiz de Carvalho, Dênio Moreira e José Céu Azul Soares, os dois últimos narradores de esportes também. Luiz de Carvalho vinha uma vez por semana do Rio, a fim de apresentar, juntamente com Levy Freire, o Só Para Mulheres, com grandes nomes do rádio carioca. Na Guarani, não havia apenas o Orlando Pacheco. Havia também o Waldomiro Lobo, que se valeu da popularidade que o rádio lhe deu para entrar na vida pública, elegendo-se vereador e deputado estadual. Aldair Pinto eleger-se-ia vereador, na década de 60. O rádio, aliás, era uma excelente fonte de votos. Orlando Pacheco elegeu-se vereador; Teófilo Pires, deputado federal; na década de 60, Dênio Moreira elegeu-se deputado estadual e ocupou a Secretaria do Interior. José Lino Souza Barros foi vereador e Hélio Costa, ex-repórter da Itatiaia e da TV Globo, elegeu-se sucessivamente deputado estadual, deputado federal e senador. Há muitos outros exemplos de profissionais do rádio ou da tevê que asseguraram mandatos com a popularidade obtida junto a seus ouvintes e telespectadores. Como é o caso de Sérgio Ferrara, nos anos 70 e 80. Comentarista de

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futebol da Rádio Inconfidência, Sérgio cresceu em popularidade, elegeu-se vereador, deputado estadual e federal e, em 1985, prefeito de Belo Horizonte. Como trabalhar no rádio garantia fama e admiração, apesar dos baixos salários, muitas emissoras tinham programas para candidatos a cantor, locutor ou ator. No Rio, o mais popular era o Calouros em Desfile, do Ary Barroso, na Tupi, onde Lúcio Alves e Elza Soares foram descobertos. Na Nacional, porém, Jorge Cury assumiu a liderança com a Hora do Pato, na qual, quem não agradasse, era interrompido por um quem-quem insistente, na verdade a imitação humana de um pato. Ângela Maria é uma das revelações do programa. E havia ainda o Papel Carbono, de Renato Murce, também na Nacional, programa que foi a passagem inicial de Os Cariocas para o sucesso, em 1942. Em Belo Horizonte, a Guarani tinha, aos domingos, a Hora do Recruta, apresentada pelo Orlando Pacheco. Nesse programa, o candidato era reprovado com um gongo. O responsável pela gongada, a mando do pianista Adolfo Maclerevsky, chamava-se Homero e ganhou de Orlando o apelido de “carrasco Homero”. Maclerevsky era conhecido como o mago do teclado e se fez popular na Gurilândia. Bem antes das comunicações se tornarem fáceis, e da popularização da televisão, uma das características das emissoras de rádio era o radiobaile. Músicas conhecidas tocadas sob a animação do locutor, que dava ao operador de som o título de maestro, pois era ele que punha as gravações no ar. O mais famoso desses programas era o Cassino do Chacrinha, na Rádio Tamoio. Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, 191788) revolucionou a comunicação pelo rádio, criando uma serie de expressões divertidas e bem ao gosto dos ouvintes. Ele fez enorme sucesso também como apresentador de televisão. No rádio, o primeiro emprego do Chacrinha foi o de cobrador de faturas dos patrocinadores do Domingo Alegre, do Paulo Gracindo, na Rádio Nacional (ao seu lado, trabalhava Jorge Veiga, que era o contra-regra do programa, ainda à espera da oportunidade de cantar). Em Belo Horizonte, como em outras partes do país, os radiobailes iam ao ar no fim da noite – as emissoras terminavam as transmissões entre meia-noite e uma hora, voltando ao ar às cinco da manhã. Os apresentadores tinham o hábito de mandar recados para as “alegres meninas”, que os ouviam nos mais frequentados bordéis da cidade. Eles anunciavam a sua chegada, daí a pouco, para as “celebrações habituais”. E eram mesmo habituais. Foi numa ocasião como essa que se passou o mais divertido dos episódios do rádio da cidade. Embora se discuta quem foi de fato o personagem central da história, Levy Freire confessou a mim ter sido ele que ruboresceu ouvintes e a direção da rádio Inconfidência, numa noite tranquila de um dezembro distante. Havia um concurso, promovendo um remédio para males hepáticos chamado Urudonal, em que o apresentador, no caso Levy Freire, ligava para um telefone escolhido aleatoriamente e fazia a pergunta: — Olá, como se sente? Clima quente, rim doente? A resposta, para ganhar cem cruzeiros, deveria ser: “Tomo Urudonal e vivo contente!”.

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Mas, nessa noite, o telefone ligado foi o de um bordel onde Levy era imensamente popular. E o que todos ouviram deixou o apresentador mudo e, talvez, os ouvintes também: — Ah, Levy, deixa de bobagem. Olha, chegaram umas meninas novas do Uruguai, que estão aqui à sua espera... Aos bordéis de Belo Horizonte só podia ir quem já estivesse bem encaminhado na vida profissional e que, por isto mesmo, dispusesse de um bolso fundo, porque as mulheres cobravam bem mais do que as da zona boêmia. Eram também populares entre os que visitavam a cidade, todos situados em locais ermos, discretos, aonde ninguém chegava a pé. Entre os mais conhecidos se achavam o já mencionado “da Margarida”, à rua Uberaba, entre Guajajaras e Augusto de Lima; o da Zezé, na Avenida Francisco Sales com Tocantins; e o da Marieta, na rua dos Pampas. Seguindo o formato dos bordéis europeus, havia garçons para vender bebidas aos clientes.

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Luzes, câmeras, lembranças...

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om a sua invejável prosperidade, os Estados Unidos daquele passado nos encantaram também pela música, orquestral ou vocal. As gravações de Bing Crosby, Frank Sinatra, Nat King Cole, Mel Tormé, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Dick Haymes, entre outros, tinham um público considerável. Além do fox, do blue dolente e do jazz tradicional, havia o beguine, de inspiração caribenha, que Cole Porter criou em 1935 para o seu musical Jubilee, sob o título Begin the Beguine; mas que só virou sucesso mundial depois de uma gravação da orquestra de Artie Shaw, em 1938. O que na realidade acontecia era uma admiração infindável que tínhamos por tudo que vinha dos norteamericanos. Todos concordavam, sem reservas, com as opiniões positivas e superlativas do país. Hollywood, com uma enorme força persuasiva, a tecnologia avançada e as artes americanas faziam a nossa cabeça. A música vinda dos Estados Unidos, que se tornou mais popular no Brasil, a partir do começo da década de 40, foi, no entanto, a da orquestra de Glenn Miller (Alton Glenn Miller), cuja combinação de cinco saxofones com uma clarineta (na mesma oitava), criou o som que encantou o mundo inteiro. A orquestra de Glenn Miller passou a ser um sinônimo de romance para milhões de pessoas à volta do mundo. Nos bailes, a gravação do seu maior sucesso, Moonlight Serenade, que compôs em 1939, tinha de ser tocada quantas vezes fosse possível. O nome original desse fox era Now I Lay Me Down To Weep e tinha versos escritos por Eddie Heyman. Mas tudo mudou com a chegada do letrista Mitchell Parrish, que, além de escrever novos versos, persuadiu Glenn a dar outro nome à música. Glenn Miller, no entanto, jamais gravou Moonlight com um vocalista. Mas vários cantores, entre os quais Frank Sinatra, a gravaram. E os Modernaires, o conjunto vocal que compunha a orquestra de Miller, também a gravaram com o acompanhamento de outros músicos. Foi no arranjo de Moonlight Serenade que ele “descobriu” a harmonia que se tornou a marca de todas as outras gravações que fez. Entre fins dos anos 40 e começo dos anos 50, nos bailes, sobretudo em casas de família, era tocadíssima a gravação histórica, lançada em 1942 e que vendeu, em poucas semanas, 800 mil discos. É a música que evoca a grande orquestra para os saudosistas da era mais gloriosa da música norte-americana. O filme sobre a história do maestro e da orquestra – Música e Lágrimas – lançado em 1953, com James Stewart no papel principal, o fez ainda mais admirado, realçando o prestígio que marcou a sua carreira tragicamente encerrada durante a guerra. Muitos dos outros sucessos de Glenn Miller eram dançados no Brasil, como Pennsylvania 6-5000 (J. Gray-

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C. Somen) e In The Mood (J. Garland). No Brasil, os Titulares do Ritmo gravaram uma versão de Moonlight Serenade, escrita por Ariovaldo Pires. O disco foi lançado em 1953. E oito anos antes, em março de 1945, Orlando Silva gravou uma versão de Begin the Beguine, escrita por Haroldo Barbosa. A morte de Glenn Miller nunca foi oficialmente esclarecida e, por isso, inspirou uma extraordinária variedade de versões. Ele servia com o posto de capitão da Força Aérea dos Estados Unidos e levou a sua orquestra, a fim de entreter os soldados lutando na Europa. Para organizar uma dessas apresentações na França, seis meses depois do Dia-D (*), Glenn embarcou na costa da Inglaterra num pequeno avião, na manhã do dia 15 de dezembro de 1944, com a visibilidade reduzida pelo forte nevoeiro. O avião nunca mais foi visto. A explicação de que o piloto teria se perdido no mau tempo durante a travessia do canal da Mancha se desfez no começo dos anos 90, com a descoberta de outras circunstâncias. O que provavelmente aconteceu foi um acidente raríssimo. Aviões bombardeiros, que também haviam saído para atacar posições dos alemães na França, tiveram de retornar devido à falta de visibilidade. Mas, para descer, foram obrigados a desfazer da sua carga de bombas. Uma das bombas teria atingido o avião de Miller, que voava a menor altitude, sobre o canal. Esta versão, porém, é também especulativa, embora coerente com as circunstâncias. A orquestra, que sucedeu à de Glenn Miller na preferência dos que dançavam ao som de gravações, foi a de Ray Connif, criada em 1955, com um estilo inconfundível: ele incluía vozes masculinas aos trombones e vozes femininas aos trompetes (vozes que não emitiam palavras, mas apenas sons); foi um sucesso inesquecível. Ray Connif, que era trombonista, acumulou grande experiência tocando nas orquestras de Artie Shaw e Harry James. A sua primeira gravação, It´s Wonderful, feita em 1956, vendeu aos milhões. Rapidamente, Ray Connif alcançou sucesso internacional, porque todos queriam dançar ao som que inventou. Ele esteve no Brasil na década de 60 e aqui organizou um coral idêntico ao seu original norteamericano, com vozes brasileiras para arranjos de Aquarela do Brasil, Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu) e alguns dos seus sucessos originais. As suas viagens ao Brasil se repetiram várias vezes. A música pop, com o formato que dominou quase o mundo inteiro, frequentemente relegando a um segundo plano os ritmos dos países por ela invadidos, ainda era desconhecida. Em meados da década de 50, surgiu o rock’n roll, calcado nas criações também norte-americanas conhecidas como ‘rhytm and blues’ e ‘country’, que eram tocadas apenas em pequenas estações de rádio. Depois, viriam os grandes nomes, que deram dimensão internacional ao estilo: Chuck Berry; Elvis Presley, que gravou, na sua cidade de Memphis, My Happiness e That’s when you heartaches begin; Bill Halley (e os seus Cometas); Bo Diddley, Little Richard, Fats Domino, Buddy Holly e Everly Brothers. A fusão com o estilo menos extasiante do início dos anos 60, glorificada pelos Beatles, começou com o inglês Cliff Richard, em 1957. A conquista territorial do novo ritmo é muito discutida. De um lado, os que dizem não ter sido o resultado de um inocente assédio cultural. O que aconteceu, insistem,

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foi uma premeditada e bem estruturada invasão corporativa para fazer dinheiro, porque os Estados Unidos já estavam bem conscientes da força do mercado destinado aos jovens – o mais intenso mercado consumidor em qualquer parte do mundo. E a música era um dos seus principais elementos. Com a indústria cinematográfica e as maiores etiquetas de discos nas mãos dos americanos, foi fácil consolidar o domínio do ritmo pop, com músicas de letras que pouquíssimos brasileiros, ou sul-americanos no geral, são capazes de entender. Outros, porém, dizem que não foi bem assim. O estilo agitado simplesmente caiu bem nos ouvidos de todos os povos – do Japão ao Brasil. Foi só isso. Qualquer que seja a explicação, o fato incontestável é que a invasão garantiu posições, foi habilmente diversificada em versões locais e continua rendendo dinheiro para as gravadoras de onde vêm os originais. Nós nos guiávamos pelo que víamos dos EUA nas telas dos cinemas. Casas lindas e confortáveis, sorrisos sadios e profícuos, beleza física e magistral, músicas enternecedoras, carros espetaculares – tudo isto causava inveja, principalmente quando visto em filmes a cores. Mas tal riqueza material não nos poupou do choque indescritível, quando tomamos conhecimento dos conflitos raciais no sul daquele país. E da ação de uma seita tenebrosa, a Ku-Klux-Klan, um bando de criminosos perseguindo negros e judeus, sob o argumento de falar em nome de uma civilização branca e cristã. E depois, na década de 60, vieram os assassinatos brutais do presidente John Kennedy, do seu irmão, Robert, e do pastor Martin Luther King. Assassinatos misteriosos, mal esclarecidos. Era impossível entender episódios tão desonrosos na mais vistosa democracia do mundo. Tudo isto nos chocou profundamente, porque só conhecíamos o país pelo cinema e pelo rádio. Os Estados Unidos, para nós, eram a perfeição. Até mesmo as histórias de criminosos lendários, como Al Capone, pareciam parte da auréola de encantamento que nos deslumbrava, porque haviam sido bem aproveitadas pelo cinema. O segregacionismo no sul era um crime que minava os alicerces da democracia americana. Havia coisas incríveis. O cantor Nat King Cole não podia falar com os frequentadores das apresentações que fazia em clubes e auditórios exclusivamente para brancos. Nos transportes públicos, racismo ostensivo regulamentado. Como estudante da universidade de Baton Rouge, Louisiana, Ivan Lessa embarcou num ônibus para ir ao centro da cidade e se sentou na poltrona do fundo. O motorista imediatamente o advertiu: “Aí, não. Aí é só para os negros. Venha para frente”. E se um branco encontrasse o ônibus lotado, um negro sentado teria que lhe ceder o lugar. Isto em 1952! (*) Os soldados brasileiros lutavam na Itália, assunto do capítulo seguinte, quando, a 6 de junho de 1944, o Dia-D, as tropas aliadas concentradas na costa inglesa iniciaram a operação para libertar a França. O plano consistia no desembarque de 120 mil soldados americanos, britânicos, canadenses, franceses e poloneses nas praias da Normandia, antecedido por bombardeios de saturação e descida de pára-quedistas por trás das linhas inimigas. D-Day é expressão tirada da primeira guerra mundial. Na verdade, a letra d é também para Day.

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Pela pátria querida, eu darei minha vida

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a década de 40, com os Estados Unidos diretamente envolvidos na II Guerra, o presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) procurou revigorar a política da boa vizinhança, criada em 1933, aproximando-se mais dos países do continente. Era uma nova abertura para as relações exteriores norte-americanas, quase sempre guiadas por interesses comerciais. Roosevelt visitou o Brasil em 1942. Não pelo amor à política da boa vizinhança, mas para garantir as graças do nosso governo aos planos dos Estados Unidos de criarem uma grande base aeronaval, capaz de controlar o movimento de navios e submarinos alemães no sul do Atlântico, o que era do interesse brasileiro. A base foi instalada em Natal e, como compensação, Getúlio Vargas obteve créditos, equipamento e a tecnologia para a siderúrgica de Volta Redonda, nascida de um decreto de 1941, que havia despertado o interesse da Krupp alemã, indústria associada ao militarismo nazista. Roosevelt assegurou também a participação do Brasil na guerra, a partir do ano seguinte. O Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha de Hitler no dia 28 de janeiro de 1942. Outros países fizeram a mesma coisa. Em consequência, Hitler ordenou que submarinos passassem a operar no Atlântico sul, com a missão de afundar navios mercantes usados no transporte de suprimentos para os aliados. Entre os dias 15 e 17 de agosto, cinco navios mercantes brasileiros foram afundados. Outros 27 também foram torpedeados, causando a morte de 972 tripulantes e passageiros. A reação popular de fúria e indignação foi sentida no país inteiro. Era exigida a entrada do país na guerra. Em Belo Horizonte, como em outras capitais, populares apedrejaram e saquearam lojas e indústrias pertencentes a descendentes de italianos e alemães, que nada, absolutamente nada, tinham com o conflito e acabaram como vítimas dos patriotas que queriam revidar os ataques acintosos. A violência foi marcada por injustiças gritantes. Excelentes famílias, que participavam e contribuíam para o progresso da cidade, viram os seus negócios destruídos por multidões furiosas. Apenas um caso de espionagem foi na época constatado na cidade: um alemão, que ostentava o título de barão, acabou degredado para a Ilha das Enxadas, no litoral fluminense, onde ficaram todos os simpatizantes do eixo Alemanha-Itália. Em 1943, o Brasil começou a mandar tropas para a Itália. Único país sul-americano na guerra, essa participação ajudava a imagem política de Getúlio – ironicamente, um ditador, a certa altura acusado de simpatizante do nazifascismo, defendendo a democracia. Além de unidades de infantaria, totalizando 25.334 soldados (muitos do 10º

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Regimento de Infantaria, com sede em Belo Horizonte), divididos em três escalões, foi também a Força Aérea, com quase 500 homens, e um grupo de aviões de combate. A Marinha, por sua vez, recebeu a missão de proteger as frotas de cargueiros no Atlântico. O embarque dos pracinhas, como eram chamados os nossos soldados, na estação da Central do Brasil, foi um dia de emoção e orgulho patriótico. O contingente, que havia sido especialmente treinado para o combate na Itália, desceu a rua Brito Melo com a banda tocando a hino “Décimo, Meu Regimento” e os soldados cantando “... pela Pátria querida / eu darei minha vida”. Na saída do trem que os levou ao Rio de Janeiro, ouviuse a Canção do Expedicionário, uma composição de Guilherme de Almeida, com seis longos versos, um dos quais usando duas linhas da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: . Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá. Nas laterais da rua, uma multidão os saudava. Havia muito choro também. A Rádio Guarani transmitiu o embarque, mas o locutor Orlando Pacheco teve de ser ajudado, porque não conteve as lágrimas ao se despedir do irmão, o soldado José Fialho Pacheco, que, muitos anos depois, na década de 60, viria a ser um dos melhores repórteres de polícia da imprensa mineira. A ida dos nossos soldados para a guerra sensibilizou tanto a opinião pública que grã-finas da cidade iniciaram um movimento para serem madrinhas dos pracinhas. E foram. A ajuda maior, porém, foi inspirada, em 1942, pela mulher do presidente Getúlio Vargas, dona Darcy Vargas, que criou e dirigiu a Legião Brasileira de Assistência – LBA. Quando a guerra terminou, a Legião passou a ser um programa de assistência social para os pobres e carentes (*). Na sua campanha, o Brasil capturou mais de 22 mil soldados inimigos e perdeu 470, mortos em ação. A FEB e a FAB deixaram o campo de luta após a consumação da vitória aliada sobre os nazistas, em maio de 45. Todas as histórias da segunda guerra nos impressionavam, certamente porque o Brasil esteve diretamente envolvido no conflito. No começo da década de 40, quando rangiam as batalhas para extirpar o nazifascismo, e já se sabendo da ida de tropas brasileiras para a frente de batalha na Europa, o entusiasmo popular inspirou campanhas de apoio aos aliados, que atraíam velhos e jovens. Em Belo Horizonte, como nas outras capitais, formaram- se as pirâmides da vitória, onde se depositava tudo que fosse de metal e que já não tivesse mais utilidade para o seu dono. O metal seria reciclado e entregue à indústria de equipamento bélico. Ao lado das pirâmides, era comum aparecerem oradores inflamados, em conclamações ao sacrifício pela vitória. As pirâmides recebiam também borracha usada para ser reaproveitada. No Rio, houve pelo menos um cinema que permitia entrar de graça quem tivesse contribuído para a pirâmide colocada à sua porta. O esforço de guerra envolveu a substituição da gasolina pelo gasogênio – produzido

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à base de carvão. O gasogênio mudava a aparência externa dos carros e dos ônibus, pois requeria um ou dois cilindros verticais de metal de uns 40 centímetros de diâmetro, que tinham a função do cano de escape dos motores a gasolina. Eles foram úteis por alguns anos e só acabaram quando não havia mais restrições à importação de petróleo. O fervor patriótico foi notável e mexia com todos. Muitos usavam na lapela um escudo no formato de V – o v da vitória. Os meninos colocavam um arame dobrado como um v nos trilhos dos bondes, para que fossem amassados pelas rodas pesadas do veículo. E depois o exibiam da forma que pudessem. Aí estava a vitória infantil. Quando a guerra terminou, ex-pracinhas brasileiros eram festejados, onde quer que aparecessem contando suas histórias, ouvidas em silêncio e admiração. Outros aspectos da II Guerra causaram surpresa. A decisiva solidariedade dos Estados Unidos, mandando milhares de soldados para se incorporar às forças aliadas, tem uma nuança estranha: para resistir à ofensiva nazista, a Grã-Bretanha precisava do equipamento moderno e eficiente dos norteamericanos. Embora a causa pró-democracia fosse uma causa comum, os Estados Unidos impuseram um preço a essa ajuda. O equipamento bélico foi, de fato, vendido ou alugado a um custo calculado, nos dias de hoje, em 21 bilhões de dólares. A última parcela do pagamento só ocorreu em 2006. A assistência norte-americana foi cobrada também de outros países. O Canadá adotou a mesma política para ajudar os seus aliados. (*) Dona Darcy Vargas criou também a Casa do Pequeno Jornaleiro, um programa de amparo às crianças pobres.

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Válido para todos os países, exceto...

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os anos 50, os nossos pensamentos variavam entre o formato prosaico da vida que levávamos e o mundo dividido e repleto de incertezas, polarizado pelo comunismo e pelo capitalismo. Esse conflito ideológico levou a uma perigosa e caríssima corrida armamentista – a “guerra fria”, liderada, de um lado, pelos Estados Unidos, e, do outro, pela União Soviética, sob a mão forte e impiedosa de Joseph Stalin (Joseph Vissarionovich Djugashvili Stalin, 1878-1963). Os dois lados gastaram somas absurdas no aprimoramento das suas armas e deram a impressão de que todo o esforço para criar um fórum de debate, a Organização das Nações Unidas, fundada em 1945, havia sido inútil. Stalin foi responsabilizado, pelo Ocidente, de ter deflagrado a guerra fria, ao impor o bloqueio de Berlim, em 1948, ameaçando de fome os 2,5 milhões de residentes do lado ocidental da cidade. O leste estava sob ocupação soviética, desde a derrocada do nazismo. O bloqueio foi em resposta à decisão dos EUA, Grã-Bretanha e França de criarem uma moeda própria para a área sob seu domínio, a fim de apressar a recuperação da economia, depois da dizimação da cidade na Segunda Guerra. A restrição durou de junho de 48 a maio de 49, período em que os berlinenses foram alimentados por uma gigantesca ponte aérea. Em 1956, Nikita Kruchov, que sucedeu a Stalin, o denunciou como “déspota brutal”. Embora fosse o começo de uma segunda década consecutiva de confrontação política e de luta armada, nós nos mantínhamos infensos, em nossa inocência párvoa, às agonias que agitavam o hemisfério norte e grande parte da Ásia. A divisão geopolítica da Europa, trazida pela guerra, se consumava, com claras esferas de domínio. Uma Europa que, livrada do nazismo e do fascismo, ainda tinha ditaduras brutais, como as de Francisco Franco, na Espanha; e Oliveira Salazar, em Portugal. E as outras que surgiram no mundo comunista. O controle político e econômico da União Soviética sobre o leste europeu criou o que Winston Churchill chamou, num discurso, de “a cortina de ferro”. Era a linguagem da guerra fria. A África libertava-se do domínio colonialista, que nada acrescentou ao espoliado continente, além da ablação das suas riquezas naturais. Os africanos ficaram sabendo, durante a guerra, que as potências coloniais eram muito vulneráveis: viram a França e a Bélgica serem invadidas e dominadas pela Alemanha nazista; e viram a Grã-Bretanha perder a colônia de Cingapura para o Japão. Os africanos contribuíram com quase 350 mil homens nas campanhas militares dos aliados do Sudeste da Ásia. Ao mesmo tempo em que o sentimento de independên-

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cia se tornava maior, pois os países de onde vieram os senhores que tomaram as suas terras, sob a justificativa ignóbil de civilizá-los, haviam sido humilhados pela força nazista invasora, ou pela força do Japão. Mesmo distantes do que se passava na Europa e na Ásia, líamos as notícias que paralisavam as expectativas de paz nos dois continentes, com ansiedade. Os rogos e promessas ouvidos, a partir do fim da II Guerra, em 1945, de um mundo livre do belicismo selvagem da primeira metade do século, não deram em nada, pois já estava em andamento outra guerra cruenta, a da Coreia. Esse conflito, que foi o primeiro subproduto da guerra fria, durou de 1950 a 53, envolvendo nada menos de 12 países. A ONU já era, então, um organismo impotente, mas servia para manter o diálogo, enquanto fosse possível conversar e evitar o pior. Dos países mais envolvidos na guerra da Coreia, os Estados Unidos, que politicamente eram os mais interessados, foram os que menos baixas sofreram. Ainda assim, os seus mortos somaram mais de 54 mil, enquanto o total de coreanos dos dois lados e chineses, que se alinharam com os comunistas, chegou a 1,8 milhão. As baixas maiores foram, como de hábito, de civis. Era uma guerra que não entendíamos. Talvez não a entendessem também os cinco jovens brasileiros (dois de Belo Horizonte) que nela lutaram, incorporados compulsoriamente ao exército dos Estados Unidos, porque estavam em Nova York, tentando ganhar a vida. Um deles, o Jorge Mussi, escreveu belas cartas contando as suas experiências numa luta com a qual nada tinha a ver, e que o Diário de Minas publicou. As cartas vinham sempre com divertidos post-scriptum. Em uma, Jorge perguntava, num tom aflito, que o distanciava dos percalços do conflito: — Quem venceu o último Cruzeiro x Atlético? Os cinco foram os únicos brasileiros que participaram da luta, já que o Brasil recusou um pedido das Nações Unidas, instadas pelo presidente dos EUA, Harry Truman, para mandar tropas. A guerra da Coreia acontecia numa área muito distante dos nossos interesses e a recusa caiu bem na opinião pública. Truman argumentava que não estava atacando o comunismo, mas, sim, procurando contê-lo, posição que ficou conhecida como a Doutrina Truman. O Brasil, aliás, já havia feito a sua parte nessa campanha, abjurando qualquer vestígio de simpatia com Moscou. E dando um sentido prático ao seu alinhamento com Washington, o Brasil, presidido pelo marechal Eurico Gaspar Dutra, rompeu relações diplomáticas com a União Soviética; e, em 1947, reduziu o status dessas relações com os países-satélites de Moscou, depois de uma visita de Truman. Além disso, o governo fechou o Partido Comunista, que havia sido posto na legalidade havia apenas dois anos. A liberdade democrática restabelecida no país em 1945, seguindo-se a longos anos de ditadura, sofria, assim, um retrocesso. A pressão dos EUA era irresistível. As relações com a União Soviética estiveram cortadas desde a vitória da revolução

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bolchevique e o consequente colapso do império russo, em 1917, até 1945. A repulsa ao comunismo foi realçada durante a chamada intentona de 1935, liderada pelo coronel do exército Luiz Carlos Prestes, para impor o regime ao país. Os comunistas o chamavam de cavaleiro da esperança. Getúlio Vargas manteve o seu governo distante de Moscou e isto ajudou a sustentá-lo na presidência por tanto tempo. De 1947 até 1961, quando o Brasil reatou as relações diplomáticas com a União Soviética, quem requeresse um passaporte para viajar à Europa o recebia com um carimbo em que se lia: “Válido para todos os países, exceto para a URSS”. No mesmo carimbo, nome por nome, apareciam os outros países sob governos comunistas, com os quais o Brasil reduzira o nível das relações diplomáticas. Truman, cuja visita ao Brasil foi também para participar da Conferência Interamericana da Manutenção da Paz, realizada em Petrópolis, aceitou a negativa do Brasil em mandar tropas e convidou o presidente Dutra para visitá-lo em Washington, que fica a 7.675 quilômetros do Rio de Janeiro, em linha reta. Convite aceito, Dutra embarcou em 1949 num DC-3 da FAB, que levou mais de um dia para chegar ao seu destino, pois voava a somente 274 quilômetros por hora com os seus dois motores a hélice; e tinha um raio de alcance, ou seja, um voo sem escalas, de apenas 1650 km. Isto significa que só esse percurso durava mais de seis horas! Nosso presidente levou Guaraná Antarctica a bordo, na doce e borbulhante esperança de que os norteamericanos se sentissem interessados em importar a nossa deliciosa bebida. Mas tudo ficou apenas na esperança. 221


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O presidente dos Estados Unidos foi prudente na campanha coreana. Depois de ter entrado para a história como o primeiro e, até hoje, único líder de um país a fazer uso de armas de destruição em massa, ao atacar com bombas atômicas Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em agosto de 1945, quando a II Guerra estava praticamente vencida pelos Estados Unidos. Quem o convenceu a evitar um novo bombardeio nuclear foi o então primeiro-ministro britânico, Clement Attlee. O argumento de Attlee era o de que um novo ataque nuclear levaria muitos outros países a tentar produzir a bomba para se fazerem respeitados. Assim, Truman preferiu limitar-se às estratégias convencionais. Os bombardeios nucleares no Japão, cinco anos antes do conflito coreano, mataram 105 mil pessoas, feriram outras 94 mil, levando o Japão a render-se incondicionalmente às forças norteamericanas. Até hoje se discute por que os EUA atacaram também Nagasaki, quando o Japão já estava batido. O conflito da Coreia, que terminou com um acordo oficializando a partilha do país em duas nações independentes, foi o prenúncio do mais longo e desastrado envolvimento militar dos Estados Unidos numa crise político-ideológica, na segunda metade do século passado. Desta vez, ocorrida na Indochina, o nome da região que compreendia o Vietnã, o Laos e o Camboja. A partir de 1955, os Estados Unidos iniciaram uma maciça intervenção no Vietnã, que culminou com a ampliação da guerra herdada da França. Isto durou até o começo de 1973. A certa altura, havia mais de 600 mil combatentes norteamericanos em ação. As perdas humanas foram imensas: dos Estados Unidos, morreram quase 58 mil soldados e outros 303 mil ficaram feridos, muitos terrivelmente mutilados. As baixas entre os vietnamitas, entretanto, foram muito maiores – 900 mil combatentes e um milhão de civis mortos. Em termos financeiros, a guerra custou aos norteamericanos quase 200 bilhões de dólares e um imensurável desgaste político, dentro e fora do país; com os americanos derrotados, o Vietnã inteiro caiu sob o domínio comunista. O medo da força soviética levou a Grã-Bretanha e a França a enveredarem pelo caminho da nuclearização dos seus sistemas de defesa, a fim de manter o equilíbrio militar na Europa; mas, hoje, o chamado clube nuclear inclui a China, Paquistão, Índia e Israel – este último sem admitir oficialmente que disponha de armas atômicas. Todos, aliás, começaram com negativas eloquentes. O fechadíssimo clube nuclear insiste que outros países não tenham qualquer acesso à tecnologia que os leve à construção de bombas. Criaram os sócios desse tenebroso clube o tratado de não-proliferação, que estimula a criação de “zonas livres de armas nucleares”, pressiona e ameaça os que procuram sair da disciplina não armamentista. Mas esses países não falam em acabar com os seus arsenais e, na verdade, os ampliam e aprimoram, numa abusada distorção da lógica, que reflete, sem dúvida, o seu desejo de manter o domínio político-militar das fatias do mundo sob a sua influência. Vivíamos mesmo num mundo confuso e perturbador, incapaz, porém, de envolver a nossa platitude. Em Belo Horizonte, nos sentíamos bem a salvo das tormentas internacionais.

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O retrato do Velho no mesmo lugar

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m fins dos anos 40, a política nacional estava agitada e o país democratizado aceitava e respeitava os entrechoques verbais, que extravasavam sentimentos reprimidos à época da ditadura de Getúlio Vargas, encerrada em 1945. O debate era exacerbado, principalmente pelos três maiores partidos surgidos naqueles anos. Em maio de 45, já prevendo uma inevitável abertura democrática, Getúlio Vargas criou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Depois, vieram o Partido Social Democrata (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN), esta a principal força oposicionista. Havia também, com menor influência, o Partido Democrata Cristão (PDC); o Partido Social Progressista (PSP); o velho Partido Republicano (PR); o Partido Socialista Brasileiro (PSB); o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e o Partido Comunista (PCB). Getúlio foi deposto num golpe incruento, no dia 29 de outubro de 1945, e substituído pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, com a missão de administrar o restabelecimento da democracia. A intenção do movimento que depôs Getúlio era pura, sem qualquer projeto continuísta, pois as eleições para a escolha do primeiro governo democrático, desde 1937, foram confirmadas e realizadas no dia 2 de dezembro, ou seja, um mês e dois dias após a derrubada do regime ditatorial. Eleições de fato democráticas, nas quais o Partido Comunista também apresentou seu candidato, o engenheiro Yedo Fiuza. Quem, originalmente, chamou o povo às urnas foi o próprio Getúlio; mas, por achar que ele tivesse em mente um golpe, a fim de continuar na chefia do governo, a oposição moveu, com sucesso, a campanha “Todo poder para o judiciário”. Getúlio, entretanto, conseguiu eleger o candidato que apoiou, o marechal Eurico Gaspar Dutra. A candidatura de Dutra, que havia sido ministro da guerra de Getúlio, foi endossada pelo PTB e pelo PSD. Os trabalhadores seguiram fielmente a conclamação do seu líder para votar no marechal. Getúlio não abandonou a política um só instante e se elegeu senador para a Assembleia Nacional Constituinte de 1946, representando o Rio Grande do Sul e São Paulo. Ele foi o único parlamentar que se recusou a assinar a nova Constituição. Dutra exerceu a presidência com dignidade, mas sem brilho. Quando assumiu, os cofres públicos estavam abarrotados. Era uma reserva cambial de um bilhão de dólares, acumulada pelas exportações de produtos de base, durante a II Guerra. O dinheiro foi usado, em boa parte, para a importação de supérfluos, e isso caracterizou negativamente o mandato do marechal-presidente.

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Como na época não havia a suspensão de direitos políticos que marcou a tomada do poder pelos militares em 1964, Getúlio pôde voltar ao poder, em janeiro de 1951, democraticamente eleito. A oposição, que tanto o combateu, viu-se mais uma vez frustrada, porque o seu candidato, o brigadeiro Eduardo Gomes, não conseguiu fazer o eleitorado esquecer o passado de líder trabalhista de Getúlio. As forças armadas não estavam unidas nas eleições de 1945 e tiveram dois candidatos. Além de Dutra, do PTB-PSD, o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Derrotado por Dutra, Eduardo Gomes foi de novo lançado em 1950 e vencido por Getúlio Vargas. Esse rechaço à oposição se repetiria até 1960. Nas eleições de 1950, tudo era diferente. Depois de um exílio voluntário na fazenda que possuía perto da cidade de Itu, no Rio Grande do Sul, Getúlio voltou ao poder aclamado por um eleitorado saudosista e agradecido. Quando ele tomou posse, o país inteiro já conhecia a marcha carnavalesca Retrato do Velho, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, gravada por Francisco Alves, uma referência ao contentamento popular que a vitória de Getúlio causou. A letra dizia: . Bota o retrato do Velho outra vez. Bota no mesmo lugar... O sorriso do Velhinho faz a gente trabalhar. A marcha ganhou o primeiro lugar no concurso da prefeitura do Rio e o entusiasmo de Marino Pinto, o autor da letra, com a volta de Getúlio, rendeu-lhe um emprego de censor do Departamento Federal de Segurança Pública. Mas o próprio Getúlio não gostou de ter sido chamado de “velho” e de “velhinho” e se afastou de Marino Pinto numa recepção no Catete, quando o apresentaram ao compositor. Com o grande sucesso que foi Retrato do Velho, Francisco Alves parecia estar tentando se reabilitar perante o Velhinho, que tinha 68 anos, pois, em novembro de 1946, ele gravou o samba, também carnavalesco, Palhaço, de Herivelto Martins e Benedito Lacerda, interpretado como um deboche à derrubada, em 1945, do então ditador: . Eu assisti de camarote o teu fracasso, palhaço, palhaço. Quem gargalha demais, sem pensar no que faz, quase nunca termina em paz (...). É um engano que o país inteiro cometeu, achando que Francisco Alves tinha em

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mente se reabilitar junto a seus admiradores getulistas, por ter gravado Palhaço, pois, apesar da impressão de que ele, Herivelto Martins e Benedito Lacerda estivessem pensando em Getúlio, a verdade é outra. — “Herivelto Martins jamais hostilizaria Getúlio, de quem era amigo – conta o historiador da música brasileira, Jairo Severiano. – Quem caiu do camarote e inspirou o samba foi o presidente da Sociedade Brasileira de Compositores, Oswaldo Santiago. Herivelto não gostava dele. Como a letra do samba falava de queda do poder, todos logo pensaram em Getúlio. O próprio Herivelto fez essa correção, num depoimento que gravou para mim. No dia da posse de Getúlio, as paredes do país inteiro ainda estavam pintadas com as palavras que guiaram a campanha petebista: “Ele voltará”. A razão da paixão das classes trabalhadoras por Getúlio Vargas relacionava-se às decisões que ele tomou antes e ao longo do período ditatorial. Getúlio impôs o limite de oito horas para a jornada de trabalho; o salário igual para homens e mulheres, no caso de tarefas iguais; a licença de maternidade de um mês; e deu às mulheres o direito de voto (*). Criou também a carteira profissional para todo trabalhador. Como se vê, medidas democráticas para quem governou sem oposição, sem parlamento para contrariá-lo. E tampouco eleições que permitissem a aplicação das mudanças que fez no código eleitoral, que ele mesmo inseriu na legislação do país, em 1932. Getúlio Vargas teve o apoio maciço dos ‘marmiteiros’, como passaram a ser chamados os trabalhadores, depois que o brigadeiro Eduardo Gomes declarou, em discurso, que não precisava dos votos da ‘malta de desocupados’ partidária do seu adversário. Conta o jornalista e historiador da política brasileira, Sebastião Nery, que esse arroubo, ou descuido verbal, o empurrou para a derrota. Pois a palavra malta foi deliberadamente interpretada por um dos líderes da campanha getulista, Hugo Borghi, no seu significado mais derrogatório (conjunto ou gente de condição inferior). Uma referência aos operários que iam para o trabalho levando a marmita debaixo do braço, que eram também chamados de queremistas, por quererem a volta de Getúlio. O celibatário brigadeiro recebeu, a princípio, a solidariedade das mulheres, porque, numa campanha paralela, elas diziam: “Brigadeiro, brigadeiro, é bonito e é solteiro”. Esse coro desapareceu quando circulou a informação de que, na violenta supressão à Rebelião dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, contra a vitória de Arthur Bernardes para a presidência da República (sucedendo a Epitácio Pessoa), Eduardo Gomes saiu ferido, ficando com a sua genitália irrecuperavelmente mutilada, mas isso jamais foi confirmado. Na época tenente, ele era um dos rebeldes. Na sua segunda presidência, Getúlio havia programado novos rumos para o processo de industrialização, mas o torvelinho político que desintegrou o seu governo impediu a execução dos programas anunciados. Exaurido política e emocionalmente por uma série de escândalos, a que o jornalista e deputado federal Carlos Lacerda deu o nome de mar de lama, Getúlio matou-se com um tiro no coração na manhã de 24 de agosto de 1954. No lugar de Getúlio, assumiu o vice-presidente João Café Filho.

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A oposição contundente a Getúlio era feita, além da UDN, pela Tribuna da Imprensa, que Carlos Lacerda (Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 1914-1977) fundou em 1949, depois de sair do Correio da Manhã e ter sido, por algum tempo, diretor da agência Meridional, dos Associados. Durante a campanha que elegeu Getúlio, Lacerda fez uma declaração que o distanciava da redemocratização do país: — Ele (Getúlio) não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar. É bem possível que a democracia que Lacerda defendia se acabasse onde as outras ideias colidissem com a sua ambição pelo poder. Eleito Getúlio, Lacerda argumentava que impedi-lo de assumir a chefia do governo era uma obrigação de todos. 226


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Teria havido mesmo um mar de lama transbordando do Palácio do Catete? — Não havia mar de lama algum – garantia o jornalista João Pinheiro Neto, ministro do governo do Presidente João Goulart, na década de 60. – Houve, sim, um ardil do exterior para acabar com o governo nacionalista de Getúlio, de que o famigerado Lacerda se serviu. João Pinheiro Neto foi um dos autores da reforma agrária, que nunca chegou a ser concretizada, e que era então vista como uma proposta satânica, de interesse de comunistas contrários à propriedade privada. Mas a iniciativa nada tinha de arriscada e foi depois reconhecida como um programa sensato. A crença de que houve uma trama de fora alimentava todos os petebistas, embora Getúlio contasse com a simpatia de uma forte corrente militar nacionalista. Lacerda, no entanto, conseguiu atrair a ala jovem das forças armadas, tenentes e majores – principalmente da FAB – que assumiram a afronta, sentida pelo jornalista e deputado federal, com a volta ao poder, pelo voto, do homem que havia desprezado a democracia, ao governar o país como ditador de 1937 a 45. Getúlio reconheceu que havia um rio de lama nos porões do Catete, no qual o chefe da sua guarda pessoal, o tenente Gregório Fortunato, flutuava livremente, abusando do poder que possuía. Mas o leitor precisa levar em conta que, nesse rio de ondas sujas que solapava a nova democracia, não se sabia de ninguém do governo que pusesse a mão no caixa. Ninguém se saciava com os cifrões dos escândalos que se tornariam comuns, a partir das duas últimas décadas do século passado e que prosseguiram no atual. O episódio que deu à oposição a força de uma avalanche foi o atentado contra Lacerda executado por um pau-mandado de Gregório Fortunato, na rua dos Toneleros, no Rio, no dia 5 de agosto de 1954. O mandante não foi Getúlio; uns afirmaram que a ordem partiu do seu irmão, Benjamin, que nenhum cargo exercia no governo, e que teria se locupletado à sombra da força do presidente. O filho de Getúlio, Lutero, também era visto como suspeito, mas o responsável direto foi mesmo Gregório Fortunato, que contratou o sicário Alcino João do Nascimento para disparar contra Lacerda. O jornalista saiu ferido no pé, mas o tiro fatal errou de alvo, atingindo o major da força aérea Rubem Vaz, integrante da guarda especial que a Aeronáutica havia criado para ele. Depois disso, foram abertos dois inquéritos para apurar a responsabilidade dos crimes. Além do policial, houve o dos militares da Aeronáutica, no que ficou conhecido como a República do Galeão. Na base aérea do Galeão, na ilha do Governador, os militares lacerdistas colocaram-se acima do poder presidencial, mandavam e desmandavam como queriam. Lacerda recusou-se a entregar à polícia o seu revólver 38, com que se defendeu atirando na direção de onde vinham os disparos de Alcindo. Isto gerou conjecturas de que Lacerda teria acidentalmente matado Rubem Vaz, mas entregar a arma à polícia do governo que ele combatia seria a maneira mais fácil para a confirmação das versões que davam um contorno diferente aos acontecimentos. O atentado apressou o fim do governo de Getúlio Vargas. No dia 9 de agosto, na Câmara dos Deputados, o líder da UDN, Afonso Arinos de Melo Franco, pediu em

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vibrante discurso que Getúlio renunciasse, passando a administração do país para os militares, até novas eleições. Afonso Arinos era um belo-horizontino culto e respeitado, autor de uma lei histórica de 1951, proibindo a discriminação racial e que ficou conhecida como “Lei Afonso Arinos”. O fim do governo Vargas foi antecedido por uma onda de boatos. Um dizia que Lacerda não havia sido ferido, que foi ao hospital e pediu que lhe enfaixassem a perna. — Este tiro (o que atingiu Lacerda) foi disparado nas costas do governo – disse Getúlio. – Só morto sairei do Catete. Dito e feito. Dezenove dias depois, Getúlio suicidou. Quando a notícia chegou a Belo Horizonte, divulgada pelo rádio, trabalhadores, tendo à frente condutores e motorneiros de bonde, organizaram imediatamente uma passeata silenciosa pela Afonso Pena – todos com uma faixa negra no braço. Essa reação pacífica de pesar antecedeu outra bem violenta. Um grupo de getulistas foi até a sede do jornal udenista Correio do Dia, que ficava na rua Itapecerica, na Lagoinha, para apedrejá-la. A última visita oficial que Getúlio fez, antes do fatídico 24 de agosto, foi a Belo Horizonte, no começo daquele mês. Ele esteve na cidade para inaugurar a Companhia Siderúrgica Manesmann, na Cidade Industrial. E, em abril, foi a Ouro Preto, onde discursou nas comemorações do Dia de Tiradentes. Cumpriu o protocolo já sabendo que os seus dias na chefia do governo estavam contados. Ouro Preto tinha uma importância nostálgica para Getúlio. Ali ele estudou, vindo de São Borja, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1892. À véspera do suicídio, Getúlio recebeu em audiência o jornalista e escritor Augusto Frederico Schmidt que, num longo artigo, contou o que ouviu dele, quando já tudo estava perdido e o governo que chefiava irreversivelmente à beira do precipício. É um depoimento significativo, histórico, no qual há a seguinte afirmação: — Não me faço ilusões sobre o momento. Conheço a gravidade de tudo, mas estou assim mesmo tranquilo. Eu sei o que devo fazer e para onde vou e é por isso que lhe digo que estou tranquilo. Vou numa só direção e para frente. Parece claro que Getúlio já havia decidido pôr fim à própria vida. De todos os governadores, só Juscelino Kubitschek compareceu ao enterro dele. Vinte anos depois do discurso na Câmara dos Deputados, Afonso Arinos de Melo Franco reconheceu que Getúlio nada teve a ver com o atentado sofrido por Lacerda. Ele corrigiu o que disse em duas entrevistas – uma ao Jornal do Brasil e a outra à Tribuna da Imprensa. E mudou também a opinião que tinha de Getúlio, a quem chamou de gigante solitário. O Brasil do começo da década de 50 tinha 53.888.000 habitantes, cuja expectativa de vida não ia além de 50 anos (o que justifica o tratamento de velhinho dado a Getúlio), espalhados nos 21 estados e três territórios da divisão geográfica da época. Os longevos eram raros, pouquíssimos. O envelhecimento precoce parecia inevitável. As estrias vincavam o rosto dos homens antes dos 40 anos, as dobras senis assinalavam a proxi-

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midade do fim, aos 50. E os recursos médicos eram muito limitados. Mas o número de habitantes do país talvez fosse maior, se levarmos a sério o que a música popular fez o povo acreditar em 1942, sob o incentivo do primeiro governo de Getúlio Vargas. Naquele ano, Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira compuseram o samba Isso Aqui Tem Dono, gravado por Nelson Gonçalves na RCA, com um dos versos afirmando: “É grande, é rica, é bonita, pertence a 50 milhões...”. A não ser que o Departamento de Imprensa e Propaganda do Governo Vargas (DIP) tivesse inflado os cálculos, a população do país, de acordo com as contagens oficiais, era de 43 milhões. E, se já fôssemos mesmo 50 milhões em 1942, como na letra do samba, dez anos depois deveríamos ser mais do que o número oficialmente reconhecido. Getúlio Vargas sempre cortejou os cantores e compositores. Ao DIP, então dirigido pelo intelectual Lourival Fontes, a música popular brasileira deve o estímulo que levou alguns dos seus melhores compositores a criarem sambas-exaltação de grande beleza. Era preciso tornar o povo ufano da sua terra – todo ditador necessita de enlevos da natureza, de louvores ao céu azul, aos rios e florestas, mascarando com esse entusiasmo o lado nada musical das suas decisões arbitrárias. Aquarela do Brasil, a composição que melhor identifica a obra de Ary Barroso (Ary Evangelista Resende Barroso, 1903-1964), colocada em disco por Francisco Alves, foi primeiro lugar num concurso promovido pelo DIP, em 1939. Apesar dos registros, a família de Ary, por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento, que se estenderam por grande parte de 2003, veio a público para negar que tenha sido essa a origem do grande samba. A história da eficiência do DIP nem por isso foi afrontada. Outro exemplo dessa eficiência é o samba Canta Brasil, que, como a Aquarela, recebeu aplausos em todas as partes com a gravação, de 1941, de Francisco Alves, cuja voz era a preferida para esse tipo de música. O autor da letra de Canta Brasil foi o combativo jornalista David Nasser, cujo ardor polêmico nas reportagens que escrevia em nada o identificava com o toque romântico da sua grande contribuição ao cancioneiro popular. O parceiro de Nasser em Canta Brasil, Alcyr Pires Vermelho, compôs a música. Tão popular era Getúlio entre cantores e compositores que nada menos de 43 músicas foram compostas sobre ele (**). (*) O primeiro país a dar às mulheres o direito de votar foi a pequenina Nova Zelândia, em 1893. Na América Latina, foi o Equador, em 1929. E, no Brasil, a líder feminista mineira Elvira Komel trabalhou muito a favor do direito de voto para as mulheres, a partir da revolução de 1930. (**) “Getúlio Vargas e a Música Popular”, Jairo Severiano, Fundação Getúlio Vargas, 1983.

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Monteiro Lobato no poço do Visconde

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ma vez empossado, em 1951, como presidente do Brasil democratizado, Getúlio propôs ao Congresso, logo nos primeiros meses de governo, a legislação que criou a Petrobras, dois anos depois. Ele deixou ao próprio Congresso a decisão final de estabelecer, ou não, um monopólio estatal; a importância estratégica do petróleo impôs o monopólio. E a emenda que o criou foi apresentada por um deputado da UDN mineira, Olavo Bilac Pinto, que, apesar dessa manifestação nacionalista, seria visto, depois, como um entreguista. Esse capítulo crucial da história da Petrobrás não é simples. Ao contrário, bem intrincado, como testemunhou o jornalista Ivan de Vasconcelos Barros: “O projeto de criação da Petrobras estava no Congresso, abrindo a oportunidade para que a iniciativa privada também pudesse explorar o ainda invisível petróleo brasileiro, na região de “Monteiro Lobato”, na Bahia. A esse tempo, discutia-se, também, o projeto da “Hileia Amazônica” – que concedia autorização para a instalação de indústrias e de atividades madeireiras na região. Assim como Bilac Pinto defendeu o monopólio do petróleo, incluindo a cláusula na lei de autorização de criação da Petrobras, assim também Arthur Bernardes opôs-se contra o tal projeto da Hiléia, que foi, no final, sobrestado até esse tempo. Como Bilac era sobejamente conhecido por sua autoridade jurídica, ninguém se opôs à sua emenda, que foi encampada pelo PTB, com Danton Coelho e Barreto Pinto apoiando e levando a vantagem do maior número para a aprovação da emenda. A proposta inicial de Getúlio Vargas, para a criação da Petrobrás, estava calcada na permissão às multinacionais de participarem na exploração do petróleo brasileiro. Ele “sabia” que a oposição iria contraditar o projeto com a presença das multinacionais, à vista de já ter sido elaborado, àquele tempo, por Odilon Braga, um “Estatuto do Petróleo”, com a permissão para que as multinacionais pudessem participar da exploração com 40%. Porém, ainda naquela ocasião, Vargas tinha compromissos com os americanos que compravam do Brasil material estratégico (bauxita, colombita, etc.) por acordo ainda patrocinado por Roosevelt. Assim, Vargas ficaria muito bem diante dos americanos com o projeto híbrido de exploração do petróleo brasileiro (a exemplo do que já ocorria no México), permitindo às multinacionais se engajarem também na exploração. Talvez ele, Vargas, já tivesse previsto que os udenistas (oposição) implicariam com essa participação e tentassem modificar seu projeto. Não é que não deu outra? Aí, surgiu Bilac Pinto com e emenda “nacionalista” de que “O Petróleo é Nosso” – devidamente enfatizada pelos militares e pelos comunistas. Bilac Pinto teve o apoio ostensivo do PTB, especialmente do paulista Eusébio Rocha e do gaúcho Danton Coelho. No final (e até hoje), quem foi e ainda é o “Pai da Petrobras Nacionalista” é mesmo Getúlio Vargas!”(*).

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A Petrobras substituiu o Conselho Nacional de Petróleo, criado pelo próprio Getúlio na época ditatorial, absorvendo todo o seu acervo. O CNP produzia apenas 2.700 barris diários, extraídos do subsolo. Na época, o Brasil consumia 170 mil barris. A nova companhia foi uma iniciativa original no seu molde nacionalista, mas requereu um esforço político e a movimentação popular para assegurar direitos exclusivos nas suas operações. Em 1948, o presidente Dutra criou o projeto do Estatuto do Petróleo, pelo qual o refino poderia ser feito por outras empresas, o que levou a protestos. Quando começaram a discutir a Petrobras, o Brasil já havia tido uma empresa com o mesmo fim, a Companhia Petróleo Nacional, fundada, em 1932, por Monteiro Lobato (José Bento Monteiro Lobato, 1882-1948), o mais admirado escritor de histórias infantojuvenis da literatura brasileira. O autor de Emília no País da Gramática, Reinações de Narizinho, entre muitos outros livros, era um notável patriota. Em 1936, ele escreveu, para os adultos, O Escândalo do Petróleo Nacional, livro em que conclamava as forças armadas e o povo a pensarem na dependência que todos tinham do petróleo, criando assim uma forte camada da opinião pública disposta a exigir medidas do governo para procurar o óleo cru no país. E, para as crianças, sobre o mesmo assunto, escreveu O Poço do Visconde. O brado literário atingiu os objetivos do seu autor. A expressão “o petróleo é nosso” nasceu, precisamente, no Clube Militar, no Rio de Janeiro, e foi levada às ruas pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, fundado no mesmo ano em que o Presidente Dutra propôs a admissão da iniciativa privada no refino do óleo cru encontrado no país. Mas, para chegar até aí, Monteiro Lobato passou três meses preso, em 1941, a mando de Getúlio Vargas, por razões que são encontradas na obsessão que tinha por ideias nacionalistas e por combater a ditadura. À época de Monteiro Lobato, entretanto, a ideia dominante era a de que não havia petróleo algum sob o solo brasileiro. E a verdade é que todas as grandes reservas hoje exploradas se encontram ao largo da costa. Outra empresa, antecessora da Petrobras, foi a Companhia de Petróleo Baiano (Copeba), que contava também com o apoio de Monteiro Lobato. A Copeba chegou a levantar capital através da venda de ações ao público, mas as suas atividades tiveram vida curta.

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Ainda que, por alguma razão relegada pela história, nenhum dos esforços de que Monteiro Lobato participou tenha dado certo, a sua ideia nacionalista, como se vê, foi bem aceita e vingou. Nos dias atuais, o petróleo não é totalmente nosso, mas a Petrobras continua sendo. O monopólio acabou em agosto de 1997. Em abril de 2006, a empresa – agora uma das quatro maiores do mundo no setor de energia – anunciou que o Brasil se tornou autossuficiente em petróleo. Esse importante avanço foi alcançado não só pela exploração das reservas que descobriu e explora, como também pela redução da dependência do óleo cru, graças ao uso do álcool como combustível, a partir dos anos 70. A tecnologia desenvolvida por técnicos brasileiros é reconhecida no mundo inteiro como alternativa ideal para os recursos fósseis, que não são eternos. Outra invenção brasileira, o biodiesel, atrai capitais e o interesse oficial em países que buscam uma saída idêntica para as crises periódicas no abastecimento de petróleo. Além da Petrobras, o novo governo de Getúlio Vargas inaugurou a primeira usina da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, aproveitando a cachoeira de Paulo Afonso para eletrificar uma enorme área do país. As obras começaram em 1950, no governo do Presidente Dutra, cumprindo a lei passada por Getúlio, anos antes da sua deposição. Diziam, até então, que (a cachoeira de) Paulo Afonso estava rouca de tanto gritar pelos engenheiros do Brasil. As necessidades de eletrificação da área fizeram esse apelo chegar ao governo e, no começo deste século 21, a Companhia Hidrelétrica já possuía mais de 18 mil quilômetros de linhas de transmissão em alta e extratensão, servindo a cinco estados do Nordeste. Fala-se muito, mas não se sabe exatamente o que a criação de indústrias e a exploração de recursos naturais significaram para a qualidade do meio ambiente. A refinaria Presidente Bernardes (**), inaugurada em abril de 1955, em Cubatão, foi, a certa altura, um incontrolável foco de poluição. Antes dela, havia a pequena refinaria Ypiranga, inaugurada em 1937, no Rio Grande do Sul, com capital brasileiro, argentino e uruguaio. A sua produção não dava para satisfazer o comparativamente pequeno consumo nacional. Além disso, durante a Guerra, a refinaria quase parou, por falta de petróleo. A Ypiranga foi absorvida pela Petrobrás em 2007. Apesar da arrancada para a ampliação do parque industrial do país, no vocabulário da imprensa, nas preocupações com as nossas condições de vida, raramente se via ou se ouvia qualquer referência à existência de poluição, ainda que já se constatasse algum comprometimento do ecossistema pelos hábitos modernos. E, em Belo Horizonte, havia, sim, peixes no rio Arrudas, como lembra o compositor Gervásio Horta no seu samba Bela Belô, gravado por Acir Antão e, mais tarde, por Serginho Beagá. Outra campanha nacionalista que agitou a opinião pública foi em defesa das areias monazíticas existentes no litoral do Espírito Santo. Os Estados Unidos tinham um acordo com o Brasil para importá-las a preço irrisório. Essas areias possuem elementos indispensáveis à energia nuclear e setores nacionalistas brasileiros achavam deploráveis

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os termos do acordo que os americanos fizeram com o governo brasileiro – governo de Getúlio Vargas. O movimento nacionalista ganhou mais força em 1956, quando Juscelino Kubitschek assumiu a presidência e fundou a Comissão Nacional de Energia Nuclear. Além da importância para a tecnologia, as areias monazíticas são também benéficas para a saúde, porque revigoram as juntas do corpo, os ossos e os músculos. A praia de Guarapari ficou muito popular, porque era deste tipo. Tão popular que Pedro Caetano compôs, em 1951, a “Valsa de Guarapari”, gravada por Nuno Roland, na etiqueta Todamérica. Pedro virou nome de rua em Guarapari e, ampliando a homenagem, a prefeitura doou-lhe um terreno. O terreno ficou valorizado, ele o vendeu e veio com a mulher à Europa em 1972. Quando o casal me visitou no bairro de Islington, em Londres, fiquei sabendo de muitas outras músicas que Pedro compôs, inspiradas na beleza das praias capixabas e das suas areias monazíticas. No baião “Guarapari na onda”, de 1956, – que ninguém gravou, mas consta do livro de Pedro “Meio Século de Música Popular, o que fiz, o que vi” – o bom humor dele está bem claro no segundo verso: . Pescaria o dia inteiro Caranguejo, camarão Lá tem radioatividade Até na pinga com limão, oi. Mas as praias monazíticas criaram também uma imagem ruim, que amedrontou muita gente: diziam que, quem tivesse uma composição genética suscetível ao câncer, logo contrairia a doença, depois de se expor às suas areias. Era simplesmente uma imagem criada pela coincidência de alguns casos de câncer surgidos depois de férias passadas lá.

(*) Durante o seu regime ditatorial, Getúlio criou também a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a Fábrica Nacional de Motores e o Ministério da Aeronáutica. (**) Arthur da Silva Bernardes (1875-1955) foi presidente da República de novembro de 1922 a novembro de 1926. Grande nacionalista, em abril de 1948 ele disse, em discurso no Clube Militar: “A distribuição do combustível em nosso país acha-se praticamente em mãos das grandes companhias estrangeiras, que importam petróleo refinado, oriundo em geral de seus próprios campos petrolíferos e usinas no estrangeiro, ao preço do mercado mundial, sobre o qual são incluídos lucros extremamente elevados”.

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Chutaram o pinto da Arca de Noé

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normalização da atividade política e das suas instituições prosseguia na virada da década de 50, consolidando os anos de restauração da democracia do governo Dutra. O reencontro com a democracia, a partir das eleições de 1945, foi, em quase todos os aspectos, tranquilo. No interior, o coronelismo tradicional aceitava a nova realidade, porque, afinal, não havia mais ambiente para a sua existência. Apesar disso, os velhos coronéis ainda exerceriam, por algum tempo, a sua força no destino de muitos candidatos. O coronelismo, de tanta influência na vida política da Velha República (que durou de 1889 até a revolução de 1930), era um resíduo da Guarda Nacional, criada pelo Regente (e padre) Antonio Diogo Feijó, em 1831, para cindir a força do exército, que se intrometia muito na vida do Império. Os coronéis de patentes, ganhas ou compradas, caracterizavam-se pela riqueza: senhores de terras, donos de fortunas e de votos, todos de grande poder político. Eram os barões, de poder e de riqueza indiscutíveis. Obter a sua simpatia, ou negociar essa simpatia, tornava-se às vezes imprescindível para assegurar uma vitória eleitoral. Mas tal força só podia ser aplicada havendo eleições e, durante a ditadura Vargas, os coronéis ficaram um tanto inativos, mas não desprestigiados. Patentes da Guarda Nacional, compradas ou ganhas, nada continham de original. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a compra de títulos da nobreza (ou concessão como gratidão da corte) data de 1616. E até hoje continuam dizendo que o governo do dia recomenda a quem estiver no trono a outorga de galardões nobiliárquicos para pagar favores, como o financiamento de campanhas eleitorais, apesar de uma lei de 1925 proibir tal prática. Os nossos coronéis da Guarda Nacional formavam uma plutocracia, que funcionava com sucesso, principalmente no interior do país. Os coronéis mineiros, ao vir a Belo Horizonte para conchavos políticos ou simplesmente se divertir com a discrição que a sua posição requeria, hospedavam-se, quase sempre, no histórico Grande Hotel, na Rua da Bahia . E, naqueles tempos, quem tivesse a ventura de se casar na família de um coronel, era visto como feito na vida. Em todas as cidades, em todos os confins, as câmaras municipais, que deixaram de existir durante o regime de Vargas, já haviam sido restauradas. No seu tempo de prefeito de Belo Horizonte (1940-45), no entanto, Juscelino Kubitschek superou a falta desse parlamento criando conselhos de bairros, que recebiam as reivindicações dos seus moradores, antecedendo com isso o que é hoje comum em muitas grandes cidades: as administrações regionais.

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Cinco anos depois da volta das câmaras municipais, os vereadores ainda não tinham um salário (e tampouco ricas aposentadorias). Eles se contentavam com uma gratificação, o jeton, por comparecimento às sessões. E, no geral, o eleito, qualquer que fosse a câmara a que pertencesse, era visto, antes de tudo, como um voluntário da causa pública, indiferente às vantagens pecuniárias, que, no caso dos vereadores de Belo Horizonte, não eram ruins: a gratificação pelo comparecimento a todas as sessões do mês equivaleria, hoje, a uns dois mil reais – uma pequena fortuna para os legisladores da nossa urbe. Quando o salário foi criado, com base na Constituição de 1946 que o deixava a critério das municipalidades, houve um movimento de rebeldia na Câmara Municipal, liderado por João Franzen de Lima, da UDN, que considerava um absurdo vereadores serem remunerados. Ele próprio jamais compareceu à tesouraria para receber o que a lei nova lhe dava. Em 1965, o governo militar proibiu, através do Ato Institucional 2, todo e qualquer salário ou gratificação para os vereadores. A proibição foi anulada com o fim da era militar. Como em outras partes do mundo, a remuneração formal dos homens públicos foi criada para evitar que eles se deixassem corromper. E, no Brasil dos anos 40 e 50, um vocábulo pouco usado na imprensa era corrupção. A exceção desfaçada teria sido o governador de São Paulo, Adhemar de Barros (1947-51 e 1963-66), a quem se atribuiu a jaça de uma frase ímpar na história dos homens públicos de então: — Eu roubo, mas faço! Em 1956, Adhemar teve de fugir para a Bolívia, depois de condenado a dois anos de prisão, numa ação movida por ordem do seu sucessor no governo do Estado, Jânio Quadros. Dois anos depois, ele voltou em triunfo, conseguindo se eleger mais uma vez governador de São Paulo e, depois, se candidatar à presidência da República. Há ainda políticos que acham um absurdo o salário, porque se consideram voluntários. Um desses políticos é a britânica Margaret Thatcher. Como deputada, ministra da Educação e primeira-ministra, Thatcher jamais passou pelo caixa para receber o que tinha direito. Seus críticos diziam que essa generosidade para com os cofres públicos se apoiava na riqueza do marido. A partir do momento em que o Brasil começou a respirar ares democráticos, com a derrubada de Getúlio Vargas, a afeição pela integridade das instituições infundia rigores que não podiam ser de forma alguma conspurcados. Foi na defesa de um desses rigores

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– o decoro parlamentar – que o deputado federal do PTB, Edmundo Barreto Pinto, um ex-diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro – ou Theatro como foi batizado – acabou expulso do Congresso e teve o seu mandato cassado, porque a revista O Cruzeiro, então a de maior tiragem no país, publicou, na sua edição de 29 de junho de 46, quatro fotos em que ele aparecia, da cintura para cima, vestido com uma casaca; e, para baixo, apenas de cuecas. Sem explicar por que não vestiu as calças antes de posar, o deputado defendeu-se, dizendo ter sido enganado pelo fotógrafo Jean Manzon, que prometeu enquadrá-lo apenas na parte em que o decoro parlamentar permanecesse incólume. Poucos acreditaram nessa versão, mas, ao ser afastado da Câmara, em maio de 1949, Barrreto Pinto não teve os seus direitos políticos suspensos. Disputou as eleições de 1950 e voltou à Câmara, como suplente, em 1952, 54 e 55. O decoro parlamentar, parte do direito constitucional legislado, é o resultado de uma emenda da autoria do deputado baiano Aliomar Baleeiro, da UDN, que integrou a Assembleia Nacional Constituinte de 1946. O episódio, extremamente bizarro, rendeu música de carnaval, como bem convinha ao humor popular. Em outubro de 1949, Aracy de Almeida gravou, na Odeon, a marchinha de Haroldo Lobo e David Nasser “Chutaram o Pinto”, cujo refrão dizia: . Só porque o pinto fez qué-qué-queré... Chutaram o pinto lá da arca de Noé! David Nasser foi também o autor do texto da reportagem que desmoralizou Barreto Pinto. Um comportamento que não aceitava posturas conciliatórias se relacionava à atitude do homem público como chefe de família. Não havia divórcio, que só foi introduzido, por uma emenda constitucional, no dia 27 de junho de 1977. Os conflitos conjugais eram mantidos em sigilo, para que não ganhassem os ouvidos do público. Às escondidas, porém, os casos de figuras da política que possuíam amantes chegavam ao conhecimento pelo menos dos jornalistas, que não ousavam divulgá-los por temerem se envolver na vida privada de um homem público. Um exemplo dessa atitude de comedimento, ou autocensura, tem como personagem Getúlio Vargas. Só muitos anos depois da sua morte, o povo ficou sabendo que ele havia sido amante da atriz de teatro-revista Virgínia Lane (a revelação foi feita por ela própria). E que tentou namorar, ou mesmo namorou, a cantora Linda Batista, de quem era fã confesso. Mas nada disso pôde ser confirmado por alguma testemunha ocular. A redemocratização brasileira propiciou o aparecimento de algumas figuras insólitas como Tenório Cavalcanti, deputado federal eleito pela UDN, em 1951, representando a Baixada Fluminense. Era a versão fluminense de Dom Quixote (*) que, por ser moderno, trocou a lança do original por uma metralhadora Lurdinha, mantida sob a capa negra

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que usava, fazendo ou não frio. Tenório dizia que sobreviveu a vários atentados contra a sua vida porque, como o herói criado por Cervantes, usava uma armadura. No seu caso, um colete à prova de balas, mas as suas versões eram ouvidas com desconfiança, como as do próprio Quixote. Ele se popularizou nos anos 50 por jactar-se defensor, de público, do tenente-aviador Alberto Jorge Franco Bandeira, condenado pelo assassinato de um bancário, no que ficou conhecido como o Crime do Sacopã, no Rio. Esse crime teve como figura central uma mulher, Marina Andrade Costa, de coração volúvel, que abrigava várias paixões simultâneas. Bandeira foi acusado de ter matado o seu rival, o bancário Afrânio Arsênio de Lemos, cujo corpo apareceu num carro Citroën preto, como eram quase todos os modelos dessa marca, na Ladeira de Sacopã, no domingo, 6 de abril de 1952. Tenório convenceu-se de que Bandeira era inocente e tentou, sem sucesso, desfazer o arrazoado das testemunhas invocadas pela acusação. Depois de cumprir oito anos da sentença de 15, Bandeira obteve a liberdade condicional, em 1960; e foi reintegrado à FAB, chegando ao posto de coronel. Em Belo Horizonte, nas eleições municipais de 1958, o radialista e político Nelson Thibau candidatou- se à prefeitura, prometendo colocar um navio na Lagoa da Pampulha. Era um apelo formidável para as crianças, um navio de verdade, que não se sabe de onde viria e quanto custaria. O professor de Direito Alberto Deodato, prócer da UDN, nordestino muito querido, reagiu à ideia, dizendo que um navio na Pampulha seria uma injustiça para a cidade que melhor o acomodaria, a nossa Mar de Espanha. E o escritor Fábio Lucas classificou a promessa como a coisa mais louca desde a lendária mulata Chica da Silva, a grande amante do português João Fernandes de Oliveira, o contratador de diamantes na Diamantina do século 18. Mas Thibau não cometia uma bizarrice inaceitável. Ele prometeu colocar um navio na lagoa onde já existia – e existirá para sempre – um Iate Clube, com um concorrido Baile do Marinheiro em todo carnaval e, desde os anos 60, um Pampulha Iate Clube... Thibau, que perdeu as eleições para Amintas de Barros, voltou a candidatar-se quatro anos depois. Apareceu, dessa vez, com outro apelo envolvente, criado por Rômulo Paes: “Thibau eleito, povo satisfeito!”. Isso não bastou. Seu adversário, Jorge Carone, foi o vitorioso, com outra frase-apelo excelente, criada pelo publicitário Paulo Venâncio: “Carone realiza mesmo!”. Ele concorreu e ganhou a prefeitura, de onde foi tirado pelos militares por razões nunca conhecidas, depois de ter sido um excelente deputado estadual, criativo e autor de numerosos projetos de interesse do povo e do Estado, entre eles o que possibilitou a construção do estádio “Mineirão”. (*) O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, escrito a partir de 1602 por Miguel Cervantes y Saavedra (1547-1616), criou fama além da literatura, ao atrair muitos grandes artistas para ilustrá-lo, como Gustavo Doré, Salvador Dali e Pablo Picasso, entre outros.

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Nos tempos de JK, o Brasil à nossa frente

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elo Horizonte viveu, em 1951, o começo da grande transformação econômica do país, com a ascensão política de Juscelino Kubistchek. Em outubro de 50, já com os olhos fitos na presidência (na sucessão de Getúlio Vargas), Juscelino, médico de formação profissional, prefeito nomeado da capital entre 1940 e 45, foi eleito governador como candidato do PSD, substituindo o jurista Milton Campos (UDN). Ele derrotou o udenista Gabriel Passos, prometendo o binômio de obras Energia e Transporte para o Estado, criando novas bases do que viria a ser, ao eleger-se para a presidência, em 1955, a revolução industrial que mudou o país. O seu vice era o médico e professor Clóvis Salgado. No ano seguinte ao da posse, Juscelino criou a Cemig (Centrais Elétricas de Minas Gerais) e já havia dado início ao programa de construção de rodovias, como prometido na sua plataforma eleitoral. Ao deixar o governo do Estado, estavam em andamento as obras da Usiminas, que se transformaria na maior produtora de aço plano da América Latina. A sua criação se deveu ao bom senso de aproveitar as gigantescas reservas de minério de ferro de Minas Gerais. Foi inaugurada em 1962 e privatizada, sob protestos, em 1991, porque, mesmo com todas as falhas do Estado, era lucrativa. Mas a venda da empresa para o capital privado deu certo e os lucros aumentaram ainda mais. No começo deste século, o grupo Usiminas era um dos 20 maiores do mundo. Longe da vituperação udenista desfechada contra Getúlio, a oposição feita a Juscelino, ainda como governador do Estado, ganhou um formato irreverente, divertido, um ano depois da sua posse, no semanário Binômio, que circulou pela primeira vez, com quatro páginas, no dia 17 de fevereiro de 52. As manchetes do Binômio (cujo “binômio” era Sombra e Água Fresca) faziam rir o próprio Juscelino. E se transformaram em referência cômica da história do jornalismo brasileiro. Quando ele trouxe o incorporador e empresário da noite Joaquim Rolla para levar adiante o projeto do conjunto JK, na Praça Raul Soares, o Binômio o celebrizou na primeira página, afirmando, com a força impactante de letras enormes: Juscelino põe Rolla na Praça Raul Soares. Uma outra: Juscelino vai para Araxá e leva Rolla. O Binômio cresceu, ampliando as suas editorias e se transformou num respeitado jornal de oposição. Jornalistas jovens queriam fazer parte da sua redação e, em fins da década de 50, eu fui um desses jornalistas, trabalhando na editoria de esportes. Em 1963,

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uma das muitas reportagens investigativas que o jornal publicou causou um sério incidente. Denunciado como colaborador do fascismo ao tempo em que era interventor no Espírito Santo, o general Punaro Bley, que exercia um comando em Belo Horizonte, foi à redação tomar satisfações com o José Maria Rabelo. Seguiu-se uma briga corporal, na qual José Maria o atingiu com um violento soco na cara. Com o país já agitado pela oposição e os militares articulando a tomada do poder, o Binômio foi empastelado e destruído numa operação que envolveu um pelotão de soldados bem armados. Alguns meses depois, com os generais formando o governo, José Maria Rabelo teve de fugir para o exterior, exilando-se, durante 16 anos, na Bolívia, no Chile e na França. Escapou disfarçado de padre. —Éramos muito mais contra o servilismo da imprensa mineira ao governo do que à pessoa do governador – disse José Maria Rabelo, um dos fundadores do jornal. Com o prestígio que conquistou, o Binômio rendeu música, uma marcha cantada pelo conjunto Caídos do Céu: . Você andou fazendo trapalhadas por aí... Eu quis lhe dar conselho, você começou a rir. Mas eu quero ver você rir na hora que o repórter do Binômio descobrir (...). Enquanto o PSD elegia o governador, a prefeitura de Belo Horizonte era ganha pelo candidato da UDN, o engenheiro Américo René Gianetti. Ele entrou no lugar de outro engenheiro, Octacílio Negrão de Lima (PSD-PTB), tido como o homem que anteviu o da Pampulha. O primeiro passo nesse sentido foi dado no restaurante do Grande Hotel, onde Juscelino, então prefeito, reuniu-se com Oscar Niemeyer para traçar os planos que fizeram nascer o bairro da Pampulha. No governo do Estado, Juscelino deu sequência à democracia iniciada em 1946 e consolidada por Milton Campos. A sua popularidade se estendeu para o país inteiro e, ao candidatar-se à presidência da República, foi, desde o princípio, o favorito. Mas ele foi eleito com apenas 33,8% dos votos (3.077.411) e assumiu o poder com o país ainda estremecido por uma tentativa de golpe, articulada por militares inspirados por Carlos Lacerda. Apesar desse começo difícil, Juscelino mudou o humor do Brasil. No clima de otimismo que dominou o comportamento do povo, nada parecia haver que estorvasse o nosso progresso. Foram anos admiráveis de grande confiança no futuro. “O futuro era amanhã de manhã. O Brasil estava à nossa frente, tínhamos de correr atrás dele”, disse o cineasta Cacá Diegues sobre os anos de JK. Embora Getúlio Vargas também se interessasse pela industrialização do país, tendo criado, no seu primeiro governo, a siderúrgica de Volta Redonda, o Brasil até a che-

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gada de Juscelino à presidência ainda era visto como “um país essencialmente agrícola”. Definição nascida na era imperial, no qual o espaço para a indústria de produtos acabados quase não existia, pela falta de iniciativas e de investimentos. Aliás, o país continua sendo fortemente dependente da agricultura. Mesmo com a criação de um grande parque industrial, graças ao aporte de capitais e empresas estrangeiras, trazidos primeiramente por Juscelino, o campo ainda é um esteio das finanças públicas, sobretudo com a sua modernização, a partir de fins da década de 70 (*). Antes de assumir a presidência, Juscelino viajou aos Estados Unidos e à Europa, onde conseguiu convencer grandes grupos industriais a investirem no Brasil. Foi o passo inicial para a fabricação de automóveis no país. Getúlio já havia tomado uma iniciativa importante nessa direção, criando a Fábrica Nacional de Motores. Juscelino, logo no primeiro ano do seu governo, criou o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística). O primeiro carro fabricado no país foi um Romi-Isetta; depois, vieram os modelos DKW. Em 1958, Volkswagens montados em São Paulo começaram a ser vistos nas ruas do país inteiro. Os investimentos multiplicaram-se e a indústria se expandiu com extraordinária rapidez. Na busca de investidores, Juscelino esteve em Londres e impressionou favoravelmente os que o conheceram. Eugênio Silva, que o acompanhou como repórter de O Cruzeiro, recordou o que o Daily Mail londrino escreveu sobre a ida de Juscelino à sede do governo britânico, em Downing Street: — Passar alguns instantes com o presidente eleito do Brasil é uma experiência agradável, pois ele é encantador como homem público e muito bem-humorado – diz um parágrafo da notícia. A política mineira tinha características inerentes, que a tornavam muito especial. Udenistas podiam atacar verbalmente os oponentes pessedistas, mas, no fundo, mantinham uma atitude de confraternização, como aquela de os bêbados que se abraçam ao final de uma briga. Juscelino era concunhado de Gabriel Passos, por ele derrotado nas eleições estaduais, e compadre de Pedro Aleixo, grande líder da UDN. José Maria Alkmim era o centro de atenções, quando se reunia com udenistas. Não havia ódios nem situações incorrigíveis. A imagem de Minas era esta, marcada pela prudência da conciliação e do perdão. Amabilidades de lado, udenistas e pessedistas mantinham um duelo de insultos e diz-que-diz, que ainda refletia a nova liberdade de expressão, surgida com o fim da ditadura Vargas, seis anos antes. Era uma admirável e prazerosa liberdade, que se expandia de forma mais intensa, às vezes até mesmo conflituosa, no interior. Na primeira metade da década de 50, tudo que se relacionasse ao passado dos anos ditatoriais era alvo do opróbrio das forças políticas, consolidadas pelo clima de liberdade surgido a partir da deposição de Getúlio. E Juscelino, sem dúvida, estava ligado àquele passado, embora fosse genuinamente democrata. Carlos Lacerda, no entanto, valeu-se dos antecedentes do presidente eleito para desfechar a sua campanha que tinha por obje-

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tivo impedir a posse dele, com a anulação das eleições. Lacerda foi vereador no Rio, em 1947, e eleito deputado federal, também pelo Rio, em 1954, com a maior votação da cidade, representando a Aliança Popular contra o Roubo e o Golpe. Foi também o primeiro governador eleito do Estado da Guanabara, criado em 1960 com a transferência da capital da República para Brasília. Fez uma administração excelente. Ironicamente, porém, nos comentários hoje em dia lidos e ouvidos sobre a passagem dele na política e na vida administrativa do país não há, com as exuberâncias atribuídas a Juscelino Kubitschek (para quem Lacerda era o homem mais inteligente do Brasil), referências que o definam como um grande democrata. Na campanha que moveu para anular a eleição de Juscelino, ele dizia que impedir a posse era uma obrigação, porque ele não tinha obtido a maioria absoluta dos votos. Isto, porém, não estava previsto na Constituição. Lacerda argumentava que, além do baixo percentual de votos, Juscelino havia contado com o apoio dos comunistas proscritos da vida pública. Juscelino foi eleito com mais de 5% de votos acima do segundo colocado, o general Juarez Távora, da UDN (28,7%); e Adhemar de Barros, 24,4%. Primeiro, os opositores da posse do ganhador tentaram convencer as autoridades eleitorais da necessidade de reconhecerem a maioria absoluta para anular a sua vitória; depois, apelaram para o golpe. A tentativa de subverter a ordem constitucional, em novembro de 1955, acabou em farsa. Começou com João Café Filho, o vice-presidente que assumiu depois que Getúlio se matou, sofrendo um ataque cardíaco, que, na época, muitos interpretaram como uma invenção, ou parte da trama. No seu lugar, sentou-se o presidente da Câmara dos Deputados, o mineiro Carlos Luz, do PSD. Luz foi convencido pelos golpistas a aderir a um movimento que impedisse a posse de Juscelino, sob a justificativa de que, além de ter sido eleito com uma votação que ficava longe da maioria absoluta, a sua subida ao poder representaria uma volta aos tempos de Getúlio. A primeira coisa que deveria fazer era substituir o ministro da Guerra, general Henrique Duffles Teixeira Lott, que era um homem apegado à ordem constitucional, por um general golpista. Isto não deu certo. Carlos Luz, Lacerda e alguns comandantes militares golpistas tiveram de procurar abrigo no navio de guerra Tamandaré, transformado num navio de fuga, e o golpe foi frustrado a algumas centenas de milhas do Rio de Janeiro, de onde eles regressaram derrotados, porque foram contidos pela mão forte e legalista do ministro da Guerra. A chefia do governo do país foi entregue a Nereu Ramos, presidente do Senado, até a posse de Juscelino. O singular do argumento da maioria absoluta é que, se houvesse um dispositivo constitucional que a exigisse para referendar vitórias nas urnas, Lacerda não teria chegado ao governo da Guanabara em 1960, pois recebeu apenas 30% dos votos. Ao voltar-se contra a eleição de Juscelino, Lacerda levantou a hipótese de uma rebelião em que o povo recorresse às armas para impedir a sua posse. Além de artigos na Tribuna da Imprensa, ele tinha acesso à TV Tupi, onde expunha os seus argumentos a favor da violência para tornar a presidência inacessível a JK. Embora poderosa, a sua oratória

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não sensibilizou a maioria e ele teve de aceitar a realidade das urnas. Carlos Lacerda foi o maior polemista que o Brasil teve na segunda metade do século passado. Brilhante, ágil no raciocínio, arrasador nos ataques verbais ou textuais aos seus adversários, ele foi temido e destruiu imagens e reputações com a rudeza inteligente com que avançava contra quem não estivesse nas suas graças; ou quem não rezasse pela sua cartilha. Mas ele era também um homem cativante, que se valia da sua enorme cultura e boa prosa para conquistar simpatias e amolecer desafetos. Em 1967, na fazenda da Caieira, cercanias de Ouro Preto, Juscelino Kubitschek contou ao então jovem aspirante à vida pública, Leopoldo Bessone (**), que, quando Lacerda o contatou em Lisboa em 1966, onde o ex-presidente estava exilado, para propor a formação de uma frente ampla contra a ditadura militar (com a qual Lacerda rompera, ao perceber que os comandantes estavam tentando perpetuar-se no poder, colocando o general Arthur da Costa e Silva na presidência), houve enorme oposição da família Kubitschek. Dona Sarah e as filhas Márcia e Maristela ameaçaram bater a porta na cara dele, mas Juscelino as persuadiu a mudarem de ideia, devido à gravidade da situação política no Brasil. E o encontro aconteceu. Depois da longa conversa, Lacerda dirigiu-se a dona Sarah e às filhas, que, embora ressabiadas e frias com o odiado visitante, logo se encantaram com a prosa que se seguiu. E, ao final de duas horas, começava a consolidar-se uma amizade. Lacerda, que morreu em 1977, aos 62 anos, destruiu Getúlio, não aceitou a sua volta à presidência pela forma democrática, mas não conseguiu bani-lo do sentimento popular. Getúlio é um capítulo único da nossa história. O seu magnetismo pessoal superava a imagem do ditador. E o país inteiro nunca deixou de reverenciá-lo, dando o seu nome a praças, ruas, Avenidas, bairros e instituições diversas. Lacerda jamais recebeu o mesmo tratamento. Na carta que deixou para explicar por que se matou, Getúlio falou de ‘forças ocultas’ que conspiraram contra o seu governo. É admissível que essas forças, que seriam externas, tivessem seduzido muitos militares e civis para afastá-lo do poder. Ele entrou para a história sem a pecha de ladrão, o que, na vida pública brasileira, como bem se sabe, é quase sempre uma louvável exceção. O paulista Adhemar de Barros, insistente candidato à presidência do país, ficava no lado oposto. Quando concorreu às eleições de 1955, o Correio da Manhã, então um dos melhores jornais do país, publicou um editorial sob o título: — Ladrão, não! Adhemar reagiu com fúria, ameaçando levar o jornal à justiça. Mas o Correio não se intimidou e, indiferente à irritação de Adhemar, publicou outro editorial corajoso: — Ladrão, sim! O candidato calou-se. Adhemar deu motivo também a muitas histórias. Falavam na “Caixinha do Adhemar”, forrada com dinheiro surripiado dos cofres públicos para seduzir eleitores. Com uma farta burra criada à sua maneira, ele, inteligentemente, aproveitou a imagem ruim

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da “caixinha” e pediu (ou teria contratado) os compositores Herivelto Martins e Benedito Lacerda para criarem a marchinha lançada no carnaval de 1955, que transmitia uma imagem altamente positiva da “Caixinha do Adhemar”: . Quem não conhece, Não ouviu falar, Na famosa “caixinha do Adhemar”, Que deu livro, deu remédio, deu estrada? Caixinha abençoada (…). Deixa falar toda essa gente, maldizente, Deixa quem quiser falar (…). Enquanto eles engordam tubarões, A caixinha defende o bem-estar de milhões. No folclore que a sua vida pública inspirou, contavam da reação de um popular, quando o ouviu dizer que, no seu bolso – e ele o apalpava para dar mais força às palavras – nunca havia entrado qualquer dinheiro roubado. — É porque o senhor está com uma calça nova – gritou-lhe o aparteador irreverente. Duas semanas depois da posse, em janeiro de 1956, passados apenas dois meses do fracassado golpe branco do grupo que escapou no Tamandaré, Juscelino e o seu vice, João Goulart, do PTB, tiveram de enfrentar uma tentativa de motim militar. A Rebelião de Jacareacanga, como ficou conhecida, foi deflagrada por dois capitães da Força Aérea, que, depois de deixarem um manifesto na Tribuna da Imprensa denunciando Juscelino e Jango, foram para Santarém, no Pará. De lá, avançaram para a captura de Jacareacanga, Belterra, Itaiutuba e Cachimbo, onde ficaram à espera da adesão dos principais comandantes militares do país. Enganaram-se, pois, distantes que estavam do centro do poder, o plano fracassou e eles foram presos; mas Juscelino os perdoou, dizendo que “não se governa sem mártires e sem caprichos”. Acusado de ter sido um dos articuladores do complô, Lacerda acabou não aderindo à ação dos capitães. Além disso, o movimento não despertou a admiração popular e Juscelino fez um dos governos mais democráticos da história do país, embora muitos não concordem com esta definição. Os jornalistas Hélio Fernandes, Millor Fernandes e o próprio Carlos Lacerda foram proibidos de falar na televisão durante longos anos, por criticá-lo. Ainda que a ideia dessa censura não tivesse partido do próprio Juscelino, ele a aprovou. O repúdio à rebelião de Jacareacanga não aquietou os golpistas. No dia 3 de dezembro de 1959, a paz foi abalada pela Rebelião de Aragarças, sufocada em apenas 36 horas, e que começou com o sequestro de um avião de passageiros da companhia comercial Panair do Brasil – o primeiro sequestro da história da aviação no país. Eram os mesmos militares do movimento anterior, com a adesão de um grupo bem maior. Os rebeldes

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denunciavam as intenções do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, mas o movimento era em revide à decisão de Jânio Quadros de abandonar a sua candidatura à presidência – decisão que não foi mantida. Muitos dos rebeldes fugiram para a Argentina e lá ficaram até serem de novo perdoados por Juscelino, que estava em fim de governo. Voltaram e foram reintegrados aos seus postos.

(*) O ministro responsável por esse avanço, Alysson Paulinelli, foi internacionalmente reconhecido pelo seu trabalho, recebendo o prêmio máximo da World Food Prize 2006, juntamente com outro grande técnico brasileiro do setor, Edison Lobato. (**) Leopoldo Bessone foi eleito deputado federal em 1978 e reeleito quatro vezes. Foi secretário estadual nos governos de Tancredo Neves e Hélio Garcia, e ministro do presidente José Sarney.

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OPA, me dá um dinheiro aí!

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urante os cinco anos em que foi presidente, Juscelino Kubitschek levou as suas ideias políticas para além das fronteiras do país, ao propor, em 1958, a Operação Pan- Americana (OPA). Era, sem dúvida, uma boa iniciativa, um sucedâneo mais dinâmico e sem os interesses unilaterais da política da boa vizinhança lançada por Roosevelt. O que levou Juscelino a propor a Operação Pan-Americana, 13 anos depois do fim da guerra e com a economia norte-americana impondo um fator insuperável de dependência para o mundo inteiro, principalmente na Europa, reabilitada pelo Plano Marshall (*), foi a violenta recepção dada ao vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (vice de Dwight Eisenhower), na Venezuela, naquele mesmo ano. Nixon e a sua mulher, Pat, quase foram linchados em Caracas por uma multidão furiosa, que se opunha à avassaladora política dos Estados Unidos para os seus vizinhos latinoamericanos. Nixon havia representado os EUA na festa da posse de Juscelino. Ele trouxe uma oferta de crédito que ajudou o novo presidente a dar a arrancada do seu programa administrativo. Os norteamericanos dominavam economicamente a América Central e se envolviam com sucesso na do Sul, por serem grandes investidores na região. Eles sustentavam os ditadores que os apraziam, facilitando os interesses de grupos que exploravam as terras e outras riquezas desses países. Como era a época da guerra fria, chamavam de comunistas os que se rebelavam contra o seu domínio. Havia, sem a menor dúvida, comunistas interessados em explorar as injustiças que se avultavam e, em 1958, Fidel Castro e seus guerrilheiros avançavam para a conquista de Cuba, então presidida pelo corrupto e atrabiliário Fulgencio Batista. Juscelino estava bem a par de tudo isso. Mas, ao sentir que a hostilidade latino-americana aos Estados Unidos era uma poderosa arma de dizimação, ele decidiu apelar para um diálogo franco, um tratamento digno, um realinhamento político de maneira a respeitar a legitimidade dos interesses nacionais. E pediu ao escritor Augusto Frederico Schmidt, seu assessor, para escrever o texto da proposta pioneira. “Expus a Schmidt o que tinha em mente, e o fiz com a maior veemência, declarando que havia chegado a hora de o Brasil indicar o caminho de uma nova política. Iria mobilizar o continente inteiro para uma cruzada de redenção econômica”, disse Juscelino. Juscelino não pregou em vão. O próprio Eisenhower, num exercício de simpatia política, veio à América do Sul em 1960, visitando o Brasil. Em fevereiro, no Rio, que ainda era a capital, discutiu os problemas continentais com Juscelino, fez promessas, sorriu e agradou aos que dele puderam se acercar. A sua imagem continuava mais relacionada ao papel heróico de general comandante-supremo das forças aliadas durante a guerra

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na Europa do que a de presidente dos EUA. Falando em nome dos grandes grupos de petróleo do seu país, Eisenhower pediu a Juscelino que revisse a lei que criou a Petrobrás e que estabelecia o monopólio estatal. Juscelino foi simples na sua resposta: não alteraria o que havia sido legislado. O presidente norteamericano o ouviu em silêncio. A viagem de Eisenhower foi também marcada por uma tragédia. O avião DC-4 da Marinha norte-americana que transportava a banda militar que o acompanhava se chocou, no céu do Rio, com um DC-3 da Real Transportes Aéreos. Só houve um sobrevivente, das 64 pessoas a bordo dos dois aviões – um músico americano, que estava no toalete, no momento da colisão. O desastre foi causado pelo piloto americano, que não obedeceu às instruções da torre de controle. O lado divertido da vinda de Eisenhower ao Rio surgiu de uma fotografia em que o presidente brasileiro aparece de braços abertos, sorrindo, como a suplicar-lhe um favor. Imediatamente associaram essa imagem à marcha que foi sucesso no carnaval de 1960 – Me dá um dinheiro aí -, composta pelos irmãos Homero, Gláucio e Ivan Ferreira e gravada por Moacyr Franco nada tinha a ver. A música foi inspirada no Mendigo do programa cômico da televisão Praça da Alegria, que o próprio Moacyr interpretava. A Operação Pan-Americana levou as suas raízes ao governo que sucedeu a Eisenhower, Ainda que tenha sido um pouco tarde. Em 1961, quando Cuba já estava sob o domínio de Fidel Castro, que logo aliou o seu regime a Moscou (**), o presidente John Kennedy criou a Aliança para o Progresso. Essa aliança possibilitou a formulação dos acordos internacionais do café, do açúcar, cacau e de outros produtos agrícolas, dos quais dependiam não só as economias latinoamericanas, como também as de outras regiões carentes. Embora muito bem-sucedidos, os acordos acabaram sendo prejudicados, a partir de fins da década de 80, pela adoção da economia neoliberal, a economia de mercado. Não foram abandonados, mas reduzidos a peças sem maior importância, porque as suas cláusulas econômicas deixaram de vigorar, criando dificuldades seriíssimas para os produtores. Em fins de abril de 1959, cinco meses após a conquista de Cuba, Fidel Castro fez a sua primeira visita ao Brasil. Ele era aclamado como o campeão das esquerdas do mundo inteiro. Foi recebido por Juscelino e disse que Cuba seria uma verdadeira democracia, mas depois mudou de ideia. O medo de que outras Cubas se formassem no continente levou ao grave retrocesso político ocorrido não só no Brasil. Mas também na Argentina, Uruguai, Bolívia e no Chile, durante as décadas de 60 e 70, sob o incentivo dos EUA, com a instalação de violentas ditaduras militares, em nome do combate ao comunismo. Uma operação guerrilheira para cubanizar o sul do continente foi frustrada nas selvas da Bolívia, sete anos depois da tomada da ilha por Fidel Castro. A Bolivia oferecia a topografia e o perfil social adequados a essa campanha, mas o líder da tentativa revolucionária, o médico argentino Ernesto Che Guevara, que se tornara lugar-tenente de Fidel Castro, não conseguiu levar

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adiante a luta nas selvas para converter a população campesina ao seu ideário político. Ele foi capturado por tropas bolivianas, com a ajuda dos serviços secretos norteamericanos, e executado no dia 8 de outubro de 1967. Passou a ser, desde então, um herói folclórico. Durante a sua curta passagem pela presidência, Jânio Quadros condecorou Guevara, em Brasília, com a mais importante comenda do país, a Ordem do Cruzeiro do Sul, o que causou reações de revolta de militares e políticos direitistas. O que Jânio queria demonstrar não se sabe: independência dos EUA? Ampliar o seu poder de barganha com Washington? Ou simplesmente mostrar que sabia ser birrento? A importância das iniciativas de Juscelino, no plano internacional, não se compara à grandiosidade da construção de Brasília, para ser a nova capital do país. Construída em tempo recorde, Brasília foi inaugurada em abril de 1960, sem muito endividar o país, apesar de todas as alegações de roubo e de corrupção ao longo das obras. As alegações persistiram, embora o Tribunal de Contas da União tivesse aprovado a contabilidade da Novacap, a empresa estatal que construiu a cidade. A Novacap teve como presidente o então deputado Israel Pinheiro, que era do PSD; e, como tesoureiro, o guanhanense Guilherme Machado, da oposicionista UDN. Houve também um inquérito parlamentar, instaurado durante o governo de Juscelino e concluído depois, que investigou as contas da Novacap durante mais de dois anos, sem descobrir irregularidades nas finanças das obras. Apesar disso, a imagem de corrupção criada pelos adversários durante a construção da nova capital foi imensamente explorada. Nunca atingiram, porém, o presidente da empresa estatal que construiu a cidade, o engenheiro Israel Pinheiro, que era um homem íntegro, incorruptível. Morreu pobre e o governo do estado de Minas Gerais teve de autorizar, por lei, uma pensão para o sustento de sua viúva. Numa reportagem que publicou no Correio Braziliense, em julho de 2002, o jornalista Luiz Alberto Weber aborda o depoimento que o ex-embaixador dos EUA no Brasil,

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Lincoln Gordon, prestou ao congresso do seu país. Ele declarou que Brasília custou 1,6 bilhão de dólares e “o resultado foi o sofrimento do povo com os efeitos da inflação provocada pela necessidade de imprimir dinheiro para financiar a nova capital”. Gordon, que foi acusado de ter sido um dos articuladores do golpe militar de 1964, é contestado por Luiz Vaitsman, autor de Quanto Custou Brasília, para quem o preço foi dez vezes menor – sem incluir os juros e os efeitos da inflação. À época da construção de Brasília, não era fácil ou comum a obtenção de créditos internacionais. E, no caso do Brasil, ao recusar a ortodoxia do Fundo Monetário Internacional, Juscelino acabou rompendo com a instituição, o que lhe valeu uma imagem de valentia incomum. Ele queria terminar Brasília, sem dar ouvidos a conselhos externos sobre a prudência da obra, inspirados nos seus custos. Quando Juscelino assumiu o governo, a dívida externa do Brasil era de US$ 1,792 bilhão. Quando entregou o poder a Jânio Quadros, em janeiro de 61, havia aumentado apenas US$ 752 milhões, apesar do extraordinário volume de obras públicas que marcou a sua administração. Transposta para os dias de hoje, a dívida equivaleria a uns 20 bilhões. Esse endividamento, pequeno pelo que representou em obras, foi para financiar o Plano de Metas, que envolvia energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação. Nos cinco anos da presidência de Juscelino, a economia do país cresceu à média anual de 8,3% – algo simplesmente extraordinário. O plano de metas não fazia parte das promessas eleitorais de Juscelino. Foi imaginado depois da sua posse por Lucas Lopes e Roberto Campos, segundo esclareceu um dos seus assessores, o escritor Autran Dourado, numa entrevista ao jornalista Luís Nassif publicada no sitio eletrônico La Insignia, em fevereiro de 2006. Dourado não foi o único intelectual a integrar o círculo do presidente. Juscelino sentia-se bem ao lado deles. O final da década de 50 foi especial, em muitos e significativos aspectos. “O futuro era amanhã de manhã. O Brasil estava à nossa frente, tínhamos de correr atrás dele”, disse o cineasta Cacá Diegues sobre os anos de JK. O que Juscelino não pôde conter, e o seu governo ajudou a aumentar, foi a inflação. Era, em 1956, de 13,5%; em 1960, já havia saltado para 30%. Foi acusado também de ter dado início ao endividamento interno, mas, nas suas memórias, ele afirma que emitiu somente 134 milhões de cruzeiros para custear as obras: “Isto quer dizer que toda aquela pletora de desenvolvimento representou, na realidade, o sacrifício de dois cruzeiros novos, em cinco anos, para cada um dos 60 milhões de brasileiros. Alguém seria capaz de fazê-lo por menos dinheiro?”. Em 1973, à época do regime militar, o crescimento do produto interno bruto chegou a 11% ao ano – um resultado que deu ao Brasil a posição de oitava maior economia do mundo. Mas isto aconteceu à custa de um pesado endividamento, acumulado pela facilidade com que os bancos internacionais concediam créditos. Esses bancos estavam abarrotados dos chamados petrodólares, a fortuna rapidamente obtida pelos países produtores de petróleo, consequente de várias crises no setor. Um barril de petróleo custava,

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até então, 2,9 dólares. Com a crise de 1973, surgida da guerra do Yom Kippur entre Israel seus vizinhos árabes, a Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP), fundada em setembro de 1960, em Bagdá, aumentou o preço para 14 dólares. Outra crise do petróleo, esta em 1979, causada pela deposição de Reza Pahlevi, o Xá da Pérsia, puxou o custo do barril para 30 dólares. Quando os militares deixaram o poder, em 1985, a dívida externa brasileira já ia a mais de 84 bilhões de dólares. E o aumento se tornou incessante, porque, em muitas operações, o Brasil optou por juros flutuantes, que, a certa altura, eram de 21% ao ano. A vida política de Juscelino Kubitschek de Oliveira, alvo de uma perseguição cruel e nunca justificada da parte do governo militar, terminou de forma melancólica. Depois da presidência, elegeu-se senador por Goiás, mas foi cassado em agosto de 1964, indo para o exílio. Ele pensava em voltar à chefia do governo, sucedendo a Jânio Quadros e, quando passou a faixa presidencial, já ia longe a campanha “JK 65”. Os militares temiam que ele se elegesse, porque era muito mais querido do que o candidato civil que queriam ver triunfar, Carlos Lacerda. Juscelino terminou o seu mandato mais benquisto do que o assumiu – coisa incomum em qualquer parte do mundo. O povo acreditava de fato que a sua ação representou “50 anos em 5”, como dizia a propaganda governista. Para os militares, a extraordinária popularidade de Juscelino era o problema. No exílio, muitos dos amigos o esqueceram. Na primeira escala da sua vida fora do Brasil, Juscelino viajou para Nova York. Ali, no entanto, ele foi confortado por um abraço de solidariedade recebido não de um correligionário, mas do udenista José Cabral, que, como deputado estadual, foi um crítico incessante do então governador. Juscelino chorou de emoção e gratidão. Cabral conta essa passagem na sua autobiografia Minha Vida, publicada em 2005, pela Editora Del Rey. “Você não imagina que bem me faz a sua visita de apoio. Principalmente porque parte de um adversário político, porém bom amigo, enquanto meus antigos correligionários fogem de mim. Muitos dos quais a quem eu fiz o que pude para ajudar, sob todos os modelos, às vezes até sob a dúvida se me seria possível ou não praticar o ato de benemerência”, disse Juscelino a José Cabral, como relatado no livro de memórias. Vivendo fora com a ajuda financeira de velhos amigos, o ex-presidente voltou ao Brasil em mais de uma ocasião, através de concessões feitas pelos militares. Numa delas, pôde ficar apenas 72 horas para acompanhar o enterro de sua irmã, Naná. Quando regressou de forma definitiva, os militares o prenderam por alguns dias. A humilhação era absoluta. Em 1975, já reinstalado no país, morando na fazenda que tinha em Goiás, mas sempre proibido de participar de atos públicos, Juscelino esteve em Belo Horizonte e foi à Casa do Baile para assistir a uma apresentação de Elizete Cardoso. A casa estava cheíssima e quando Elizete anunciou a presença dele foi o delírio. Durante uns cinco minutos, de pé, todos o aplaudiram. Juscelino nada disse, apenas ergueu os braços em sinal de agradecimento e continuou dançando. Dançou até o fim do baile. Juscelino morreu no dia 22 de agosto de 1976, aos 74 anos, sem deixar fortuna pes-

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soal, num desastre na rodovia São Paulo-Rio, onde seu carro se chocou com um ônibus da Viação Cometa. Foi uma comoção nacional. A revista Veja, da qual eu era o correspondente em Londres, encarregou-me de obter opiniões sobre o ex-presidente. Muita gente, em diferentes partes do mundo, se recusou a abrir a boca, temendo uma reação desfavorável dos militares no poder. Mas o embaixador Roberto Campos, que havia sido ministro do governo de Juscelino, ignorou as possíveis consequências da sua opinião, ditando-me uma declaração elogiosa, embora contendo algumas críticas à política econômica, que foi inserida com destaque na edição especial que a revista publicou sobre a morte do ex-presidente. — Sei que os militares não vão gostar disso, mas não importa – disse-me ele.

(*) O Plano Marshall foi idealizado e proposto, em junho de 1947, pelo então secretário de Estado, George Marshall (1880-1959). Ex-chefe do estado maior conjunto dos EUA, o general Marshall conseguiu a aprovação de 16 bilhões de dólares (equivalentes a mais de quatro trilhões nos dias de hoje) para um programa de recuperação econômica e social da Europa Ocidental, que, como recompensa, deu ao seu país uma influência permanente na região. (**) Entre 16 e 29 de outubro de 1962, o mundo ficou bem perto de uma guerra nuclear, quando os EUA descobriram que Fidel Castro havia autorizado a instalação de uma base soviética de mísseis nucleares em território cubano. Foi imposto o bloqueio naval da ilha e a crise acabou sendo resolvida, porque Washington concordou em retirar os mísseis nucleares que havia instalado nas suas bases, em território da Turquia, apontados para alvos soviéticos.

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Tome cuidado, aí vem a vassoura!...

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ra o que dizia, em 1959, a música promovendo a candidatura de Jânio Quadros, político com uma carreira fulminante. Ele explorou muito bem a imagem de corrupto que a oposição criou para Juscelino com a construção de Brasília e isso galvanizou a opinião pública. Apesar disso, Juscelino era imensamente popular. Mas o candidato a quem apoiou, o general Lott, um homem correto, não conseguiu, como ele, sensibilizar o eleitorado, porque não era político profissional e não possuía carisma algum. Jânio Quadros foi eleito com uma grande maioria de votos (5.671 milhões para ele; 3.824 milhões para Lott; e 2.190 milhões para Adhemar de Barros), na primeira vitória da oposição para a presidência, desde 1945. Embora não tivesse disputado as eleições como candidato da UDN, Jânio Quadros contou com o apoio desse partido, que continuava sendo a maior força oposicionista do país. Ao assumir a presidência, adotando como símbolo da sua campanha uma vassoura, com a qual varreria do país a desonestidade administrativa, Jânio Quadros trouxe esperanças que logo desapareceram. Impulsivo, incapaz de controlar as suas emoções e o gosto pela bebida, seis meses e 25 dias depois de empossado ele abandonou inopinadamente o posto, num gesto nunca explicado, criando uma crise que se estenderia por muito tempo. Mas, antes disso, Jânio tomou algumas decisões que o expunham como um alienado das questões mais sérias do país: proibiu as rinhas de galo, o lança-perfume e o uso de biquíni nas praias. Após alguns anos no ostracismo, Jânio retornou à política e elegeu-se prefeito de São Paulo; mas a imagem de homem sério que possuía foi destruída pelas alegações de que mantinha uma conta bancária secreta na Suíça. Com Jânio viajando para a Europa, deixando o país conturbado, o vice-presidente João Goulart, que estava visitando a China, só o substituiu depois de superada a oposição militar. Jango, como ele sempre foi conhecido, era vice-presidente pela segunda vez. Na sua primeira eleição, em 1955, obteve mais votos do que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Afilhado político de Getúlio Vargas, os militares o identificavam como perigoso esquerdista, capaz de criar uma república sindicalista no Brasil, ou mesmo de facilitar a cubanização do país, embora fosse ele latifundiário, dono de fazendas no território brasileiro e no Uruguai. Eu pude acompanhar um dos capítulos dessa crise em Buenos Aires, onde trabalhava como colaborador do jornal Clarín. Jango declarou-se disposto a assumir o cargo que lhe era de direito. Em Porto Alegre, o seu cunhado, Leonel Brizola, movimentou a opinião pública, através do rádio, criando a Rede da Legalidade. Na redação do Clarín, fui informado que Jango, para evitar cair na mão dos militares, preferiu

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fazer a última etapa da sua viagem de regresso pelo outro lado do mapa da América do Sul, a rota do Pacífico, a caminho de Montevidéu, onde aguardaria o desfecho da situação. Isto implicava numa escala em Buenos Aires. Fomos todos para o aeroporto de Ezeiza, mas quem lá chegou primeiro foi uma delegação militar vinda de Brasília, representando as três armas, com o propósito de persuadir o vice-presidente a desistir da presidência. Os três militares, todos de alta patente, desceram de um DC-4 da FAB e esperaram, não muito tempo, pelo jato da Braniff, em que Jango embarcara numa das muitas escalas que teve de fazer, desde a sua saída de Pequim. Os argumentos da missão militar eram frágeis diante da realidade democrática. Jango lhes disse não; e, depois de um longo aceno das escadas do avião para o grupo no terraço do aeroporto (a maioria, exilados paraguaios), prosseguiu viagem rumo à capital uruguaia. Ninguém do governo argentino, então chefiado pelo civil Arturo Frondizi, foi ao aeroporto recepcionar ou oferecer solidariedade a Jango. Uma descortesia, ou pusilanimidade, que muitos argentinos não perdoaram. João Goulart assumiu a presidência, através de negociação que envolvia a criação de um sistema parlamentar no Brasil, com o governo de fato exercido por um primeiroministro, uma solução que não continha qualquer novidade, pois o Brasil já havia tido nada menos de 22 primeiros-ministros, começando por Manuel Alves Branco, em 1847. A volta da democracia parlamentar, na emenda constitucional que possibilitou a posse de Jango, trouxe para o poder, no dia 8 de setembro de 1961, Tancredo Neves, do PSD. Eram tempos de incerteza, apreensão e de caprichos de políticos ambiciosos. O governo não tinha consistência. Havia pressão para um plebiscito, em que o povo se definisse a favor ou contra o sistema. Nesse clima, Tancredo foi substituído, menos de um ano depois, no dia 12 de julho, pelo gaúcho Francisco de Paula Brochado da Rocha, que ficou apenas dois meses e seis dias, entrando para o seu lugar o baiano Hermes de Lima. O parlamentarismo durou até janeiro de 1963, quando a vasta maioria do povo votou, num plebiscito, a favor da restauração do sistema presidencialista. Aí teve início a ruína da nossa democracia de então, pois o populista Jango, simpático e agradável, mas incapaz como presidente, acabou sendo deposto pela rebelião militar iniciada no dia 31 de março e vitoriosa no dia seguinte, 1º de abril. João Goulart já havia superado uma trama para acabar com a sua carreira política, quando foi candidato à vice-presidência, em 1954. A Tribuna da Imprensa publicou uma carta supostamente escrita pelo deputado argentino Antonio Jesus Brandi, com data de 5 de agosto de 1953, na qual denunciava contatos secretos de Jango com o general Juan Domingo Perón, quando este ainda se achava na presidência da Argentina. Dizia a carta que ambos discutiram a criação de uma república sindicalista no Brasil. A carta revelava também a existência de contrabando de armas argentinas para criar um exército sindical, coisa que o peronismo já havia feito para os seus próprios sindicatos, trazendo fuzis e metralhadoras da Bélgica.

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O país foi abalado pela revelação; a oposição udenista sustentou o alvoroço, exigindo a apuração detalhada da denúncia. Mas o inquérito policial-militar, presidido pelo general Emílio Maurel Filho, concluiu que a carta havia sido forjada – tudo falso. Em 1964, a história mudou de rumo, numa enorme cambalhota. Jango foi simplesmente banido da vida pública. Exilado no Uruguai, ele teve um breve momento de retorno à política, quando o seu outrora inimigo Carlos Lacerda, o homem que publicou a carta falsa, o visitou para integrá-lo nas forças da Frente Ampla destinada a acabar com a ditadura militar. E nada mais aconteceu na vida do homem visto como o herdeiro político de Getúlio Vargas. Jango morreu de um ataque cardíaco, enquanto dormia, na noite de 7 de dezembro de 1976, em Mercedes, na Argentina.

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¡Señor, eterno Dios, ruega por nosotros!

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esde meados da década de 40, o Brasil via a Argentina com desconfiança, sobretudo quando o ditador, general Juan Domingo Perón (1895-1974), propôs a formação da aliança ABC (Argentina, Brasil e Chile). Na época, só havia democracia no Chile. As rivalidades entre Brasil e Argentina, até então mais expostas no terreno esportivo, foram trazidas para a frente política. Perón foi um dos muitos generais que passaram pela presidência argentina, através de golpes e contragolpes; mas o único que deixou o nome na história por razões não ligadas à brutalidade da maioria dos outros soldados que ocuparam o poder. O sucesso de Perón, que, como Getúlio Vargas, introduziu uma legislação avançada, pela qual os trabalhadores passaram a ter direitos e assistência nunca antes imagináveis, foi devido, em grande parte, a Eva Duarte Perón, com quem ele se casou em 1945. Figura única na história sul-americana, Eva talvez tenha sido a mulher mais poderosa do mundo à sua época. Empurrada por ela, o general adotou a temática de Getúlio Vargas, embora entre os dois nenhuma relação sólida tivesse surgido. Perón não encontrou muita dificuldade para implantar o seu programa assistencial, porque assumiu a presidência quando a Argentina era riquíssima. Possuía reservas de ouro tão abundantes que não havia espaço, nos cofres do Banco de la Nación, o BC do país, para guardá-las. As barras de ouro ficavam empilhadas nos corredores do banco. Parte dessa riqueza era o resultado da posição de neutralidade da Argentina, durante a II Guerra Mundial e da venda de alimentos para um mundo extremamente necessitado. Eva, de origem bastarda, abriu caminho na política através do rádio. Ela deixou Los Toldos, a sua cidadezinha no interior da província de Buenos Aires, mudou-se primeiro para Junín de Los Andes, e foi para a capital, aos 16 anos, a fim de ser radioatriz. Dizem que, no afã de projetar-se, ela se entregou, num trem, ao cantor de tangos Agustín Magaldi, conhecido como la voz sentimental de Buenos Aires. E uma vez na cidade grande, encontrou o caminho que buscava, valendo-se da sua razoável beleza e inegável carisma. Os seus defensores, no entanto, contestam tal versão. “Eva não se deixou seduzir por Magaldi”, é o que garantem. O argumento desses advogados sobre a honra da mulher, ainda hoje vista como a grande amiga dos não privilegiados, é o da inexistência de qualquer registro da temporada do cantor na cidade de Junín de Los Andes, na época em que ela teria viajado. Além disso, Magaldi raramente saía só; a sua mulher nunca o deixava.

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Os detalhes são irrelevantes para a biografia dela, pois o que realmente pesa é que, entre 1945 e até morrer de câncer, em 1952, com apenas 33 anos de idade, Evita – como a tratavam – dominou a Argentina. Ministra da Saúde e do Trabalho do seu marido, ela criou programas de assistência aos pobres, e, com isso, a imagem de uma santa. Organizava espetáculos beneficentes exigindo a presença de artistas, que não ousavam lhe dizer não. A não ser Libertad Lamarque (1908-2000), que foi colocada numa lista negra e se mudou para o México, onde já havia participado de filmes. O caso de Libertad foi uma exceção, porque, no geral, os artistas participavam graciosamente dos programas que Evita organizava. Muitos simplesmente a adoravam. Este é o caso do notável compositor Enrique Santos Discépolo (1901-51). O autor de Cambalache, que compôs em 1934, era um peronista convicto (*). E também é o caso do famoso cantor e não tão famoso ator Hugo Del Carril (1912-89). Cantores estrangeiros eram igualmente convocados para participar de espetáculos em benefício das obras sociais criadas por Eva. Leo Belico participou de três espetáculos e foi recompensado com uma medalha. A presença mais notável teria sido a do mexicano Miguel Aceves Mejía (1915-2006) e ocorreu quando Eva já havia morrido. O general Perón achava-se presente no Teatro Colón de Buenos Aires, quando o chamado rei dos mariachis cantou, de joelhos, Ruega por Nosotros, composta por ele mesmo: . Señor, eterno Dios ante tu altar estoy aquí de hinojos. Ella se fué y yo quiero morirme. Perdónanos, Señor, y ruega por nosotros. O general chorou. Em 1959, com a intermediação do Leo Belico, fui entrevistar Hugo del Carril em Buenos Aires. Ele só me recebeu quando se certificou de que eu não trabalhava para os Diários Associados, pois, na revista O Cruzeiro, o jornalista David Nasser havia exposto o luxo em que Eva vivia e isto irritou os peronistas ferrenhos. Se a entrevista tivesse sido solicitada alguns meses depois, del Carril a negaria, porque, levado pelo Cyro Siqueira, fui para o Diário da Tarde. O corpo de Eva Perón – ou Santa Evita, como a apelidaram – foi embalsamado, a fim de que se perpetuasse a imagem santificada que criou. Mas um complicado desdobramento acentuou a sua história inusitada: o corpo desapareceu da Argentina depois da deposição de Perón, em 1955. Reapareceu na Itália e foi entregue ao seu marido, em Madrid, em 1971. Perón o trouxe de volta para a Argentina, onde foi sepultado no

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mausoléu da família, no cemitério de La Recoleta, quando o processo de embalsamento estava deteriorado pela falta de cuidados. Com a morte de Eva, começou a ruir a estrutura política do general Juan Perón. As classes mais poderosas da Argentina odiavam o rumo populista do seu governo. E as forças armadas ficaram divididas. A primeira manifestação de rebeldia aconteceu em julho de 1955, quando 34 aviões da aviação naval bombardearam a Plaza de Mayo, onde fica a sede do governo. O ataque durou quatro horas e todo esse tempo não foi suficiente para que os pilotos acertassem o alvo. Os bombardeiros mataram 364 pessoas, e feriram quase oitocentas, quase todas transeuntes que se achavam na praça, no dia mais violento da atribulada história do país. Algumas semanas depois, Perón não resistiu à pressão dos adversários e abandonou o poder, fugindo, primeiro para o Paraguai, e, depois, se asilando na Espanha, na época sob o regime do ditador Francisco Franco. Em 1973, os militares argentinos no poder reconheceram que não conseguiriam conviver com a permanente exaltação popular peronista. Assim, permitiram que um homem da confiança de Perón, Raul Cámpora, se elegesse presidente, com o arranjo pré-estabelecido de que, logo depois da volta do general, ele renunciasse, a fim de que novas eleições fossem marcadas. Isso determinou o retorno triunfal do líder das massas. Perón voltou, mas o movimento peronista estava cindido entre correntes da esquerda e da direita. O desembarque do general, no aeroporto de Ezeiza, em junho daquele ano, transformou-se numa batalha sangrenta. Perón durou pouco, pois, com a saúde já enfraquecida, morreu um ano depois. A sua terceira mulher, Isabel, assumiu o poder para o qual não tinha a menor competência; e a Argentina mergulhou no caos da guerra interna do peronismo. Em 1976, Isabel foi deposta pelos comandantes militares, o que marcou o início da fase mais sombria da história do país, só encerrada em 1993. Nesse período de violência, calcula-se que umas 30 mil pessoas desapareceram, assassinadas pelos militares e seus

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asseclas. Numa escala bem menor, militares e governistas também foram mortos por grupos de extremistas. Em 1987, violaram a sepultura de Perón no cemitério de Chacarita, em Buenos Aires. As suas mãos foram cortadas e ninguém jamais ficou sabendo onde estão. Foi uma nova manifestação do espírito mórbido que durante muito tempo caracterizou a vida da Argentina. Com a Argentina estremecida em todas as suas bases culturais, até o tango sucumbiu à paralisia criativa da época trágica dos governos militares. Mas ganhou aplausos no exterior, através de longas e bem organizadas temporadas de orquestras e bailarinos. O pior da passagem de Perón pelo poder, na década de 40, com Evita ao seu lado, foi a simpatia por ele demonstrada ao eixo Alemanha-Itália. O general-presidente só declarou guerra ao nazifascismo quando a derrota de Hitler, seguindo-se à de Mussolini, era inevitável. Perón ajudou no que pôde os fugitivos de alta patente do nazifascismo a se instalarem na Argentina. As embaixadas argentinas na Europa negociavam a concessão de vistos para ex-integrantes das forças de choque do nazismo, assassinos de judeus e de outros inocentes; ou servidores da Alemanha de Hitler em países como a Bélgica, França e Holanda. Episódio vergonhoso, muito bem documentado no livro The Real Odessa (**) do jornalista e historiador Uki Goñi. Perón vendeu os vistos para criminosos de guerra. Um deles, Adolf Eichmann, assassino de judeus, acabou sendo preso pela polícia secreta israelense nos arredores de Buenos Aires, em 1960, e levado secretamente para Telavive, onde foi julgado, condenado e executado.

(*) Em “La Novela de Perón”, Tomás Eloy Martinez diz que Juan Domingo Perón definia Cambalache como uma “rapsódia ética da alma argentina”. Mas, ao tentar cantar o tango em Santiago do Chile, durante uma recepção oficial, ao tempo em que era adido militar à embaixada do seu país, Perón errou a letra e foi socorrido por Arturo Alessandri, o presidente chileno. (**) Odessa, em alemão “Organisation der ehemaligen SS-Angehörigen”, ou Organização de Ex-Membros da SS, a mais violenta unidade do exército nazista, responsável por crimes de guerra inenarráveis. A Odessa tinha um plano de fuga dos seus principais oficiais para a América Latina. A maioria foi para a Argentina, outros para o Paraguai. E um dos que foram para a Argentina, Josef Mengele, acabou em São Paulo, onde foi descoberto depois de morto acidentalmente, por afogamento, em 1972.

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Alevando os alimites de Minas além-mar

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s décadas de 50 e 60 foram absolutamente contrastantes. Quando os militares derrubaram João Goulart, em março de 1964, o chefe do novo governo, marechal Castelo Branco, convidou o então senador Milton Campos (1900-1972) para ser o seu ministro da Justiça. Para surpresa de muitos dos admiradores de Milton, um grande democrata, o cargo foi aceito. Milton representava tudo de mais puro e honesto que se deve esperar de um homem público. O choque foi grande. As explicações variavam, mas o jornalista Ivan de Vasconcelos Barros obteve do próprio senador a versão correta da sua entrada e da sua saída do governo militar, durante um encontro na casa do escritor José Bento Teixeira de Salles: — Nós todos da crônica política de Belo Horizonte nos sentimos mais confortáveis quando, quinze dias após o início da revolução, demos a notícia do convite que Castelo Branco havia feito a Milton Campos -, disse Ivan. – É que Milton nos representava a garantia do respeito ao cidadão. No ministério, ele trabalharia pela manutenção do estado de direito – ainda que fosse um estado de direito sob ‘manu militari’, mas respeitando a pessoa humana. Por isso, não me constrangi em perguntar-lhe sobre a sua saída do ministério. A resposta, tão singela quanto simples, foi: não tinha mais condições, por sua formação e temperamento, de continuar respondendo pelo compromisso de que a revolução, democraticamente, mudasse a realidade brasileira. Muitos anos depois, em 2005, Ivan procurou reproduzir a íntegra da resposta que ouviu de Milton Campos “com todo e o maior respeito, embora a distância do tempo possa ter nela introduzido minha alegria por vê-lo como sempre o havia visto: um homem íntegro e sem máculas na seara política”. Ivan, com a meticulosidade de grande repórter da política, nada esqueceu do que ouviu do senador: — Minha atitude em relação à revolução, eu disse ao presidente, era a mesma que lhe havia oferecido, quando dele recebi o convite para o ministério. Minha resistência a ideias, planos e projetos, que não se ajustassem aos meus ideais democráticos, não me faria o melhor intérprete da revolução. Assim, por formação e por temperamento, não me via capaz de aceitá-la. Não era ele quem me convocava, mas o momento político e, à sua insistência, fiz-me seu ministro, com as ressalvas de meus princípios e de minha formação, mas tive o cuidado de lhe afirmar que “a minha convocação fora feita pelo Presidente!”. Assim, ao lado da missão que deveria cumprir, era a ele a única pessoa a quem devia responder. Milton Campos contou também a Ivan, durante o encontro esclarecedor na casa de José Bento, que “sentiu certa ponta de melancolia no presidente Castelo Branco, na hora

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de lhe conceder a exoneração, porque ele, Castelo, não poderia deixar a presidência, pois havia assumido perante o país a responsabilidade que o congresso havia colocado em suas mãos. Eu posso pedir a minha exoneração a V. Exa. – disse-lhe Milton – mas V. Exa. não tem a quem pedir a sua exoneração”. Os militares queriam a presença de civis de alto prestígio e indiscutíveis credenciais democráticas para se tornarem mais aceitáveis perante a opinião pública. A primeira escolha foi a de José Maria Alkmim, eleito, pelo congresso, vice-presidente do primeiro governo militar, chefiado por Castelo Branco. Ele concluiu o mandato em 1967. Mas o vice-presidente que o sucedeu, o professor Pedro Aleixo, recebeu um tratamento humilhante, quando deveria assumir a presidência, porque o sucessor de Castelo Branco, general Arthur da Costa e Silva, havia adoecido e teve de deixar o posto. Os ministros militares não permitiram que Pedro Aleixo ocupasse a presidência. No folclore político consta que, ao ser barrado da presidência, ele se afastou dos militares no poder com um bilhete em que dizia simplesmente: — Nada fiz, nada deixo. Assinado, Pedro Aleixo. O temor da expansão do comunismo causou desdobramentos surpreendentes, mesmo nos Estados Unidos, que lideravam as campanhas internacionais para desmoralizar e enfraquecer o sistema centrado em Moscou. Lá surgiu o macarthismo, como foi batizada a cruzada anticomunista lançada pelo senador Joseph McCarthy. O jornalista Argemiro Ferreira, que se dedicou ao assunto e escreveu o livro Caça às Bruxas, recorda que chegaram a falar até mesmo num macarthismo internacional: 262


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“O primeiro alvo do macarthismo nos EUA fora, exatamente, a diplomacia. A 12 de fevereiro de 1952, Dia de Lincoln, McCarthy discursou em Wheeling, na Virgínia Ocidental, denunciando a existência de 205 comunistas no Departamento de Estado – número que depois mudaria para 57, 116, 207, 121, 106, 81 ou apenas três, sempre conforme o auditório. Nascia assim a “técnica da mentira múltipla”. Embora McCarthy, no embalo da guerra fria, também se voltasse depois contra as mais altas autoridades do governo (como os secretários George Marshall e Dean Acheson). E até contra os presidentes Truman e Eisenhower (este, republicano como o senador), os EUA ainda tentaram exportar o macarthismo, inclusive para o Brasil e a América Latina. Era o tempo da Cruzada Anticomunista do almirante Pena Boto, barulhenta e bem financiada, e da pregação lacerdista, que revigorou o discurso na campanha do mar de lama, até o suicídio de Vargas, em agosto de 1954. Por causa das denúncias feitas então, Antonio Houaiss, que só seria cassado em 1964, e o poeta João Cabral de Melo Neto passaram anos em “listas negras” tupiniquins. Até 1952, McCarthy fora apenas um senador obscuro, em primeiro mandato. A cerimônia do Lincoln Day em Wheeling é que fez a diferença. Exibindo um papel, ele disse que tinha na mão a prova de que o Departamento de Estado estava sob o controle de uma rede de 205 diplomatas-espiões. Ninguém conseguiu ler o que estava na mão dele, mas o discurso o lançou na mídia nacional. Só mais tarde um de seus biógrafos iria definir a técnica da mentira múltipla – uma “mentira com tantas particularidades, com tantas partes intercambiáveis e em mutação, tantas engrenagens minúsculas e barras de ligação, que a razão se esgotava no esforço para combatê-la”. No caso da América Latina, culpe-se também a guerra fria pelo apagão ocorrido na democracia do continente. Até fins da década de 70, futurólogo algum poderia prever que, em 1989, o comunismo soviético chegasse ao fim, com a desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e do regime nos seus países-satélites. O colapso do comunismo na Europa foi simbolizado pela derrubada do muro de Berlim, durante 29 anos o grande divisor político do mundo, onde se achavam as principais vitrines dos dois sistemas – o comunismo, no leste da cidade; e o capitalismo, no oeste. O muro de 45 quilômetros foi construído em outubro de 1961, isolando os setores americano, britânico e francês da cidade. E começou a ser derrubado no dia 9 de novembro de 1989, com o fim das restrições à passagem de um lado para o outro. Fiz várias viagens a Berlim antes e depois do Muro. O leste, que já era depressivo (embora riquíssimo culturalmente), ficou ainda pior com a separação material. E era estranho, após excursões turísticas pelos seus museus e centros de arte, ver os ônibus que vinham de lá serem inspecionados por guardas, que usavam espelhos para ver se não havia alguém fugindo, agarrado de qualquer forma sob a carroceria do veículo. Em Minas, tivemos também a nossa própria guerra fria, marcada por palavras quentes e intimidações bélicas. Foi, possivelmente, o acontecimento mais dramático na vida de Minas Gerais, durante longas décadas. A crise nas relações com o vizinho Espírito Santo, causada por uma disputa territorial, tornou iminente um conflito armado. Era um

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problema insolúvel de idas e vindas, explorado por políticos, que exortavam o povo a se opor ao que era chamado, por um lado, de usurpação das suas terras; e, por outro, o de Minas Gerais, de defesa da sua integridade. Havia uma área reclamada pelos capixabas, na região de Mantena, Aimorés e Conselheiro Pena, onde, mais de uma vez, os ânimos foram de tal forma exacerbados por políticos, com boa cobertura dos jornais, que tropas da Polícia Militar tiveram de ser mandadas para a área, a fim de manter a paz e impedir a consumação de ameaças. Em Belo Horizonte, no entanto, a crise era tratada com escárnio. Já ninguém se lembrava, àquela altura, da sangrenta guerra do contestado entre Santa Catarina e Paraná, que durou dois anos e dois meses, a partir de dezembro de 1913, com um número de baixas calculado entre cinco e oito mil homens e mulheres. Uma guerra que poderia se repetir entre mineiros e capixabas, porque o motivo era o mesmo. O conflito entre Minas e Espírito Santo foi mais civilizado, apesar das ameaças de violência partidas de lado a lado. Deu margem a histórias que não se sabe se são folclóricas ou legítimas. A mais divertida é a de dois coronéis da região, ambos com títulos da Guarda Nacional. O coronel Zé do Calhau, da cidade de Conselheiro Pena, de valentia vocal e física, deixou claro, numa só frase, a sua disposição para qualquer embate. Dirigindo-se ao então presidente do Estado, Arthur Bernardes, em 1920, ele afirmou, com a confiança de grande estrategista: — Me arranje um tenente, um sargento, um cabo e 40 praças (da Polícia Militar) e eu alevo os alimites de Minas até o mar! Esse destemor era rivalizado pelo de outro coronel de patente adquirida, o coronel Bimbim, de Aimorés. Mas, no auge das divergências, na fúria verborrágica que caracterizava os desaguisados com os capixabas, não houve baixas humanas ou políticas. A disputa foi definitivamente encerrada em fins da década de 40, durante o governo de Milton Campos, que tinha uma longa e respeitada experiência em leis. Como advogado geral do Estado, Milton solucionou a favor de Minas, nos anos 30, uma crise com São Paulo, também de origem territorial. O foco era a cidade de Camanducaia, que os paulistas diziam estar em suas terras. Com paciência e competência, ele provou que a área contestada era bem mineira e os paulistas se calaram.

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Ao paraíso, não vão moças feias

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omo poucos em Belo Horizonte tinham telefone, quase não se percebia que as telecomunicações eram muito deficientes. As primeiras linhas foram instaladas em 1894, antes da inauguração da nova capital, mas somente em 1907 a prefeitura colocou um posto na avenida Paraopeba, onde havia também toaletes. Na década de 40, só os “pontos de carros de praça” tinham direito a obter, sem demora, um aparelho. E muitos dos motoristas faziam da cessão do telefone ao público uma fonte de renda extra. As linhas eram ruins. Uma ligação para o Rio requeria paciência e sorte, porque, ao ser completada, nem sempre era possível entender o que o interlocutor dizia. A dificuldade era muito grande. No começo da década de 60, trabalhando para a United Press International, recebi do chefe do escritório da agência, no Rio, a instrução de mandar os textos das notícias via Radional, que tinha um escritório em Belo Horizonte, na Rua da Bahia , para a sede da agência em Nova York. Junto ao texto ia a minha instrução, a fim de que a notícia fosse reendereçada para o Rio. Tive de me valer desse recurso várias vezes. A Radional usava cabogramas, mas era pela radiotelegrafia que as mensagens saíam de Belo Horizonte. A companhia certamente dispunha de circuitos prioritários até o Rio, onde ficava a base dos serviços via cabo. Ter telefone em casa era um privilégio, pois não havia linhas. Em Belo Horizonte, todos os números começavam com os prefixos 2 e 4. Muitos telefones ainda eram fixados na parede. O fone era um tubo, com a extremidade no formato de boca de sino. O bocal onde se falava, necessariamente aos gritos, movia-se para cima, para baixo e para os lados. Conseguir uma linha era quase sempre um tormento, ou um milagre. A publicidade engatinhava, mas já produzia excelentes anúncios, ou melhor, reclames. Quatro grandes profissionais são identificados como precursores da propaganda impressa: os desenhistas Antônio Rocha, Tenente (Guilherme Apgaua), Rodolfo Marques e José de Oliveira Vaz, que era o diretor comercial dos Diários Associados. Os dois últimos criaram a primeira estrutura de uma agência, como as que passaram a existir nos anos 50. Um quinto publicitário a quem se deve muito pela criação da base hoje sólida é Heráclito Ortega. Tenente desenhou numerosos rótulos de cachaças e acompanhou o mais famoso oftalmólogo do país, o doutor Hilton Rocha, que era mineiro e radicado em Belo Horizonte, numa viagem ao exterior, com a missão de desenhar com todos os detalhes o “fundo de olho” de pacientes que sofriam de glaucoma. Hélio Faria, que começou aos 13 anos trabalhando com Rodolfo, identifica José de Oliveira Vaz como o mais importante dentre todos eles:

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— O Zé Vaz montou uma pequena agência nos Diários Associados para atender os anunciantes do Estado de Minas e do Diário da Tarde. Foi ele quem sentiu a necessidade de uma equipe de arte organizada para a execução dos anúncios. No grupo de arte dos Associados estavam Ildeu Moreira, José Lara e Celso Siffert. Os anúncios vocais ou impressos se caracterizavam por uma sinceridade ingênua. Falavam da debilidade dos produtos sem atinar para as consequências. “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal”. Isto era o reconhecimento de possíveis efeitos colaterais que o comprimido poderia causar à saúde de quem o consumisse. “Guaraína mata a dor e não ataca o coração” – outra forma de dizer que analgésicos podiam ser prejudiciais aos seus consumidores. A propaganda das companhias de aviação falava em segurança dos aviões, o que deveria ser uma condição essencial, que não precisava ser ressaltada. Mas isto nunca foi levado em consideração pelos que viajavam ou que recorriam aos comprimidos para curar as suas dores. O rádio, na década de 40, já estava bem mais à frente e a criatividade dos anúncios se devia aos próprios radialistas. Havia coisas muito interessantes, mas nem todos os seus criadores foram identificados. O narrador de futebol Paulo Nunes Vieira, que em 51 trocou a Inconfidência pela Guarani, dizia, quando a bola saía de jogo: . Aymoré fabricou, a galinha ajudou, todo mundo gostou: Talharim com ovos Aymoré, a massa que o povo em massa exige!”. Ou então: “Chapéu Sarkis, um chapéu para quem tem cabeça!”, frase criada por alguma das agências já existentes no Rio ou em São Paulo (o rival do Sarkis era o Ramenzoni, que anunciava, sem a força do seu rival: “Na cidade e no campo, sempre a mesma marca”). Eram textos exemplares. A sapataria Coral, na rua do Acre, esbanjava criatividade de uma forma jocosa: “Coral, a que cobra menos”. O c de Coral era o desenho de uma cobra... Na rua São Paulo, esquina com Afonso Pena, a Casa Abreu, especializada em canetas, avisava ao público que “se bem não escreveu, não foi Abreu quem vendeu”. E da fábrica de tecidos Peri-Peri, nas vizinhanças de Matozinhos, recebíamos a mensagem: “Belos padrões e perfeito acabamento em um pano que não se acaba. Casimira Peri-Peri – à venda nas boas casas”. Para os lados do Calafate e Gameleira, havia a Casa Dois Irmãos, que se promovia sob o lema: “Se um já vendia barato, imagine dois!”. Na Inconfidência, no programa Bentinho no Sertão, o próprio Bentinho, o da dupla com Xerém, criou a publicidade sensacionalista e divertida, dizendo para a sua enorme audiência: — Milaaagre, milaaagre!!! Aconteceu um milagre em frente à Igreja da Floresta. Milagre!

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E depois de uma pausa para aumentar a expectativa, a mensagem era concluída: — A Colchoaria Boa Noite está vendendo colchões a preços baratiiinhos, baratiiinhos!... A ideia era chamativa, mas sugeria que, sem o anunciado milagre, os preços da Boa Noite seriam o oposto... A publicidade musicada em Belo Horizonte, tão bem consolidada por Celso Garcia a partir da década de 60, tem uma história que começa entre 1939 e 41, testemunhada por José Bento Teixeira de Salles. O primeiro anúncio cantado que se ouviu no rádio mineiro foi composto por Hervé Cordovil, pianista, regente e compositor consagrado (autor de Sabiá lá na Gaiola, Pé de Manacá, Jangada, Cabeça Inchada, entre outros sucessos) e que trabalhou na Guarani em 1936 e 37. A letra dizia: Ao Paraíso, não vão moças feias, só vão sereias, louras e brunetes. O paraíso de que eu falo é o das meias, na Afonso Pena... Aí entrava o locutor: Sete, um, sete! O Paraíso das Meias ficava ao lado da Casa Sedan, outra conhecida loja da época. O grande impulso da publicidade em Belo Horizonte ocorreu ainda na década de 50, com o maior aproveitamento dos talentos locais, entre os quais Hélio Faria, Adão Pinho, Orlando Junqueira e Huáscar Terra do Valle. Em fins de 1951, Hélio, que ainda não tinha chegado aos 25 anos, foi incumbido de ilustrar todos os anúncios comemorando o primeiro aniversário do governo estadual de Juscelino Kubitschek. Depois, as grandes agências abriram escritórios na cidade para aproveitar o crescimento da economia do Estado. Em 1956, Edgar Melo chegou a Belo Horizonte, vindo do Rio, para dirigir o escritório da McCann-Erikson. A McCann, agência americana, havia se instalado no Brasil para atender clientes como a Esso e a Coca-Cola, que cresciam no mercado do país. A ele se uniu o Hélio. Juntos, em 1963, criaram a Asa Publicidade. Antes da Asa, o mercado publicitário de Belo Horizonte já se achava em grande expansão, com agências como a Starlight, Standard e Denison. Esse crescimento fez surgir também excelentes redatores retirados dos jornais, como Paulo Venâncio, Ivan Angelo e Márcio Rubens Prado.

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Campos de aviação, noturnos da Central

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o final da década de 40, o “campo de aviação da Pampulha” foi elevado à categoria de aeroporto. A região já era muito famosa no país inteiro e esta fama ia ao exterior levada pelas obras arquitetônicas de Oscar Niemeyer e pela arte de Candido Portinari, vindas do tempo de Juscelino Kubitschek como prefeito da cidade. Ao novo aeroporto só se chegava de carro de praça – os taxímetros ainda não haviam sido autorizados em Belo Horizonte. O que talvez poucos se lembrem é que, em dezembro de 2004, o aeroporto recebeu o nome de Carlos Drummond de Andrade, homenagem digna, porém estranha. O nosso grande poeta merecia, e sempre merecerá, bem mais do que o aeroporto que nem tem uma linha para a sua Itabira. Um aeroporto cujos usuários não conseguiram adotar o novo nome, que chegou muito, muito tarde. Até fins dos anos 50, quem viajasse pelo ‘avião da carreira’ tinha o seu nome publicado na terceira página do Estado de Minas. Os nomes de passageiros ilustres do noturno da Central do Brasil com destino ao Rio também apareciam na mesma página. A Panair do Brasil era a maior empresa de aviação comercial da América Latina. Usou, a partir de 1946, aviões quadrimotores a hélice, Constellation, nas suas rotas internacionais, o primeiro avião de passageiros com a cabine pressurizada; e, nas viagens dentro do país, bimotores Douglas DC-3, que eram sobras americanas da II Guerra. Nasceu norteamericana, em 1929, com o nome Nyrba, as iniciais de New York-Rio-Buenos Aires. Foi comprada pela Pan American em 1930, ano em que passou a ser Panair do Brasil. A empresa norteamericana a vendeu para um grupo brasileiro. Panair, aliás, surgiu do endereço telegráfico da Pan American. Foi a primeira a fazer a ligação RioBelo Horizonte, que começou em 1937, com aviões Lockheed L-10 Electra, um pequeno bimotor. Seis passageiros ocuparam as poltronas do PP-PAS, no primeiro voo da Panair, que saiu do recém-inaugurado aeroporto Santos Dumont, na manhã do dia 23 de março de 1937. De fato, seis ilustres passageiros, cujos nomes apareceram na edição seguinte do Minas Gerais, como relatado no livro Aeroporto da Pampulha – BH Nas Asas do Progresso, escrito por Lígia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria, com pesquisas de Elaine Meire Vilela, Eliane Lima Siqueira e Flávia Queiroz Carvalho. Eram figuras conhecidas, a saber: Dr. Trajano Furtado Reis, diretor da Aeronáutica Civil; deputado Pedro Aleixo, líder da maioria na Câmara Federal; deputado Noraldino Lima, líder da bancada mineira e senhora; e o deputado Carlos Luz. O voo durou uma hora e 20 minutos. O avião voltou vazio ao Rio para trazer o segundo grupo de convidados especiais. Os seis novos passageiros eram outros notáveis: o representante do presidente Getúlio Var-

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gas, Roberto Pimentel; o ministro da Viação, Marques dos Reis; o ministro da Agricultura, Odilon Braga; o comandante da Aviação Naval, Raul Bandeira; e o major Henrique Fontenele, representando o diretor da Aviação Militar, general Coelho Neto. A Europa começava a ficar mais perto do Brasil para quem dispunha de recursos muito acima da média. As viagens internacionais num Constellation eram um grande luxo. Uma passagem Belo Horizonte-Londres, ida e volta, custava 1,200 dólares. Ida e volta ao Rio, 660 cruzeiros. Para Londres, eram 24 horas de voo, com pelo menos quatro escalas. Roberto Franco, o gerente da Panair durante mais de 20 anos, conta que a primeira passagem internacional vendida pela companhia em Belo Horizonte foi uma ida e volta a Beirute, a capital do Líbano. E o mercado de passagens para a Europa logo cresceria rapidamente. Os que viajavam pelas rotas internacionais da empresa se sentiam privilegiados quando o comandante era Luiz Tenan, o mais famoso piloto da aviação comercial brasileira da época pioneira da Panair. No seu livro sobre a experiência de pilotar aviões de passageiros (*), ele descreve o cuidado que antecedia a decolagem: uma longa reunião preparatória com os tripulantes, na qual eram aventadas todas as possibilidades do voo. Os cuidados tinham de ser redobrados, pois o Constellation fazia a travessia do Atlântico com o seu navegador se orientando por um sextante, instrumento inventado, em 1757, para as viagens marítimas! O comandante Gilson Firenzano, daquela fase inesquecível da aviação comercial, lembra que havia certa apreensão quando nuvens encobriam as estrelas. Mas o sextante era o único instrumento para guiar o avião no rumo certo sobre o oceano. As margens de erro variavam de dez a cem milhas, o que jamais colocou em risco o avião e seus passageiros, pois o destino sempre foi alcançado calmamente. Para os passageiros, uma viagem de 24 horas assegurava novas amizades, possíveis romances e confraternização sem fim. E, às vezes, incorriam também em ameaças hepáticas, tantas horas havia para beber. Um Constellation, que acomodava no máximo 64 passageiros, saía do Rio, fazia escala em Recife, depois Dakar, Lisboa, Roma e Paris; em todos os aeroportos, os passageiros podiam desembarcar e andar à vontade, porque o período de permanência em terra era longo. E, aparentemente, ninguém reclamava. Ao contrário de hoje, quando as imprecações são comuns contra a absurda falta de conforto, de espaço. Principalmente na classe chamada “econômica” dos grandes jatos. Embora as viagens durem menos, os passageiros chegam exaustos pelo formato opressivo, promíscuo das viagens modernas. Pelo menos até o começo da era do jato, foi mantida uma tradição que vinha dos primeiros voos internacionais: os passageiros recebiam um diploma assinado pelo comandante, atestando que eles haviam atravessado a invisível linha do Equador, indo para a Europa ou para a América Central e EUA. A Panair foi arbitrariamente fechada pelo governo militar no dia 10 de fevereiro de 1965, sem qualquer explicação aceitável. A ordem partiu do então Ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes. Diziam que o seu dono, o empresário Mário Wallace

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Simonsen, estava fazendo contrabando de café, o que causou gargalhadas. Simonsen possuía amplos negócios, entre os quais uma companhia cafeeira, e os aviões levavam café torrado e moído para os escritórios da empresa na Europa e na América do Sul. Esses escritórios eram o ponto de encontro dos poucos brasileiros que se achavam no estrangeiro. Os que lá iam, eram servidos de cafezinho e de jornais. Um ambiente ótimo. Lembro-me bem da agência da Panair em Paris, na Avenida Montaigne, aonde, ao tempo em que passei na cidade, ia diariamente. A empresa trazia os meus textos e fotografias da viagem do América F. C. e os entregava pontualmente na redação do Diário de Minas. Além da história do café, disseram que a empresa estava insolvente, mas todos os seus funcionários foram indenizados de acordo com a lei. Outra versão mais exequível para justificar a violência contra a Panair é que a empresa não teria contribuído para as articulações militares que levaram à derrubada do presidente João Goulart. A Varig e a Cruzeiro do Sul, ao contrário, forneciam passagens de graça para facilitar a movimentação dos conspiradores, é o que diz o ex-líder do Sindicato dos Aeronautas, comandante Paulo de Mello Bastos, autor de A Caixa Preta do Golpe de 64 – A República Sindicalista Que Não Houve. A Panair inspirou também música, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, com o nome Conversando no Bar (Saudade dos Aviões da Panair), gravada pelo próprio Milton e por Elis Regina. “A primeira Coca-Cola foi, eu me lembro bem agora, nas asas da Panair”, diz a letra. Da minha parte, o primeiro suco de tangerina que tomei foi como passageiro de um Constellation, entre o Rio e Belo Horizonte. Nenhuma outra companhia jamais me serviu de novo esse suco delicioso. A Aerovias Brasil, a Varig, a Vasp, a Cruzeiro do Sul, a Real e a Nacional Transportes Aéreos competiam com a Panair, mas não voavam para a Europa. A Nacional, fundada em Belo Horizonte, onde tinha a sua base de operações, cobria quase o país inteiro com os seus DC-3, cujo leme vertical era pintado com a cor laranja, bem visível num céu descoberto. De Belo Horizonte para Salvador, a viagem era feita com oito escalas, mas uma delas – a de Januária – só acontecia se o campo estivesse em condições, como informavam os anúncios que publicava. Empresários não precisavam de muito dinheiro para iniciar uma companhia de aviação comercial. Os Estados Unidos vendiam a preços muito baixos os DC-3, ou Dakotas, como eram mais conhecidos, que sobraram da guerra. Na Califórnia, foram fabricados 10.650 e na Rússia, sob licença, 4.937, com o nome Lisunov Li-2. Até os anos 50, o avião era um transporte tão elitista e requintado que todos viajavam de paletó e gravata; as mulheres escolhiam um vestido bem na moda. Só quando as viagens, com a era do jato, ficaram mais curtas e ao alcance de mais pessoas, o formalismo do vestuário foi abandonado. Antes de embarcar num DC-3, os passageiros tinham de subir à balança ou dizer o quanto pesavam. A bordo, recebiam um pequeno envelope com algodão para os ouvi-

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dos, devido ao ruído muito forte dos motores. E um envelope de papel impermeável com pastilhas de hortelã para mastigarem, aliviando os efeitos da altitude nos ouvidos. Quem quisesse, podia pedir um protetor de caneta-tinteiro, com o formato de um tubo e forrado com papel impermeável. Isto impedia a caneta de, ao vazar, porque as cabinas não eram pressurizadas, manchar a roupa do passageiro. Embora a caneta esferográfica tenha sido inventada em 1938, em Buenos Aires, pelo jornalista húngaro Lazlo Biro, a sua comercialização foi feita, primeiro, na Inglaterra, onde a força aérea, a RAF, a adotou como solução para os pilotos que tinham de fazer anotações em voo, na II Guerra. Biro mudou-se para a Argentina fugindo da perseguição nazista aos judeus e foi lá que requereu a patente da sua invenção, o que facilitou comercializá-la no mundo inteiro. A caneta esferográfica é a mais popular invenção de todos os tempos. Mesmo sem cabine à prova de altitude, o DC-3 era muito confortável. Levava 28 passageiros em poltronas amplas, com muito espaço para as pernas e, por ser lento, garantia uma boa visão da paisagem, quando não havia nuvens. A introdução do Constellation nas rotas internacionais foi um avanço gigantesco. É, até hoje, reconhecido como um dos aviões de passageiros de linhas mais bonitas já criadas nos EUA. Ainda que o número de aviões e de viagens fosse muito menor do que o atual, havia muitos desastres fatais. Os recursos técnicos e de navegação limitavam a segurança dos voos e os acidentes se repetiam. O mais dramático de todos, em 1952, foi o de um Stratocruiser, da Pan American, nas selvas próximas a Carolina, no Maranhão. O avião, fabricado pela Boeing, era o maior da época e tinha até camas para o conforto dos passageiros. Mas os seus motores não correspondiam e dois pararam, provocando a queda e o incêndio, que causaram a morte de todas as 50 pessoas a bordo. O pior desastre da década de 50 ocorreu um ano antes, nos arredores de Porto Alegre, onde um Constellation da Panair chocou-se com uma elevação, matando os seus 52 ocupantes. O comandante do avião era o lendário Eduardo Henrique Martins de Oliveira, o Edu do Clube dos Cafajestes do Rio de Janeiro. Foi a sua morte que levou o compositor e ex-comandante da Panair, Paulo Soledade, a criar, com Fernando Lobo, um dos maiores sucessos do carnaval de 1951, a marcha Zum Zum, gravada por Dalva de Oliveira, com o refrão: . “Oi zum-zum-zum-zum-zum, zum-zum...tá faltando um!”. Tanto a Panair quanto a Varig usaram muito o rádio como patrocinadoras de excelentes programas. Vibrávamos com o estilo e as músicas de Pelas Asas da Panair, na rádio Mayrink Veiga, que chegava a todos os pontos do país para promover a empresa. Na década de 60, ouvíamos A Varig é a Dona da Noite, este produzido localmente por

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muitas emissoras, uma delas a Itatiaia, onde o seu apresentador era o Roberto Abras. Para os meninos, o avião oferecia as mais diferentes emoções. Vê-lo em terra era dar asas à imaginação viageira de toda criança. Acompanhar a sua sombra esperta, subindo e descendo rapidamente as montanhas, o desenho animado que ia ou vinha do Rio – uma graça. Havia, como ainda há, embora sem as premências do passado, uma linha aérea que servia às pessoas carentes sem cobrar, ligando os mais distantes pontos do país num trabalho heróico, de grande sentido social. É o Correio Aéreo Nacional, unidade da Força Aérea criada pelo então coronel Eduardo Gomes. Transportava enfermos, necessitados, correspondência, remédios – transportava esperança. Os seus aviões C-47 desciam em pistas remotas e arriscadas, cumprindo uma missão humanitária indispensável num Brasil de comunicações e estradas ruins. Os vilarejos de então, hoje cidades prósperas, homenageiam os denodados tripulantes do CAN, em ruas e praças que levam o nome de muitos deles. A Panair participou desse esforço de integração na região da Amazônia. No alto do bairro Padre Eustáquio, o Aeroclube de Minas Gerais já se destacava como uma das melhores escolas de aviação civil do país. Como nos demais aeroclubes, os alunos aprendiam a voar em aviões Paulistinha. Ali ficava a sede da principal empresa de táxis aéreos do Estado, a Organização Mineira de Transportes Aéreos, ou simplesmente OMTA. A sua principal rival, a Aero Sita, tinha sede também lá. Quem preferisse o trem para ir ao Rio, viajava pelo Vera Cruz, introduzido em 1949, com vagões de luxo Budd importados dos EUA, cujas paredes externas eram de alumínio e as poltronas muito confortáveis. Mas a viagem durava nada menos de dez horas, ideal para recém-casados iniciando a lua de mel, que viajavam no carro-leito, mas não para quem tinha assuntos urgentes para resolver. O sistema ferroviário era estranho na sua estrutura, com linhas construídas para trens de bitolas diferentes. Os da Rede Mineira de Viação, que possuía a maior malha do Brasil, com 3.989 quilômetros cobrindo uma ampla área do interior do Estado, trafegavam sobre trilhos separados por uma distância inferior à dos trilhos da Central do Brasil, que tinham a largura de 1,60m. Em 1952, a Rede transportou 3,5 milhões de passageiros. Em 1953, por iniciativa de Juscelino Kubitschek, que nunca se interessou muito por ferrovias, a Rede foi entregue ao governo federal. Os passageiros dos modestos trens da RMV, sigla cuja lentidão era parodiada como “ruim, mas vai”, necessitavam da proteção de um guardapó, porque as locomotivas movidas a vapor expeliam cinzas, às vezes em brasa, do carvão; ou da madeira queimada nas suas fornalhas. Deve-se, no entanto, à lentidão dos trens da Rede a criação de um dos mais populares sambas carnavalescos da década de 40: “É com esse que eu vou”, de Pedro Caetano (Pedro Walde Caetano), gravação dos Quatro Ases e Um Coringa, sucesso em 1948. Primeiro, esse episódio da extraordinária carreira de compositor de Pedro Caetano falava do samba “Onde estão os tamborins?”. Mas ele conta, num depoimento gra-

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vado, que, viajando pelo interior de Minas num trem da RMV, procurou acabar com o tédio da lentidão da composição, criando a letra e a música do que viria a ser um sucesso repetido em muitos carnavais: . É com esse que eu vou sambar até cair no chão. É com esse que eu vou desabafar na multidão. Se ninguém se animar eu vou quebrar meu tamborim, mas se a turma gostar, vai ser pra mim... A Rede deixou de existir possivelmente ignorando esse papel importante na música popular brasileira. O guardapó era requerido também nas rodovias de terra batida, que viravam lamaçais quando chovia, nas quais se viajava de jardineira, veículos bem menores do que os ônibus de hoje, pouco confortáveis (alguns tinham bancos de madeira), em que a bagagem tinha de ser colocada sobre o teto. Em janeiro de 1951, um dólar valia 18,60 cruzeiros no oficial e 31 no paralelo, mas isto não era notícia de jornal. Ninguém se preocupava com o mercado cambial (poucos viajavam ao exterior ou importavam produtos pagos em moeda forte), porque a sua relação com o custo de vida parecia imperceptível, embora não o fosse. A inflação, no entanto, havia disparado, chegando, ao final do ano, a 19,8%. Em 1952, caiu para menos de 11%, ressurgindo na casa dos 20%, em 53. O aviltamento do cruzeiro não o abalou como poderia ter abalado. Até a nota de um cruzeiro – com as imagens do sisudo almirante, ou melhor, Marquês de Tamandaré, de um lado, e a da Escola Naval, do outro – parecia um dinheiro sólido, não sujeito aos destemperos do mercado cambial. As nossas cédulas, quase todas de tom azulado, eram adornadas por figuras públicas de barbas e bigodes brancos: a de dois cruzeiros tinha, de um lado, o Duque de Caxias e, do outro, uma vista aérea da Escola Militar de Rezende; a de cinco, o Barão do Rio Branco e a reprodução de uma pintura chamada ‘Conquista do Amazonas’; a de 20 homenageava o marechal Deodoro da Fonseca; a de cem, D. Pedro II; e a de 200, D. Pedro I. A de dez cruzeiros fazia a diferença, pois, além de impressa com um fundo verde, a imagem estampada era a de Getúlio Vargas, que nunca ostentou barba ou bigode. No verso, uma arte ironicamente denominada ‘Unidade Nacional’. O papel-moeda do Brasil era todo produzido em Londres, pela Thomas de la Rue. O PIB ficava abaixo de 20 bilhões de dólares (em 2007, alcançou US$ 1,803 trilhão). O novo salário mínimo decretado por Getúlio Vargas, no dia 24 de dezembro, para entrar em vigor no primeiro dia de 1952, era de 1.200 cruzeiros. O decreto número 30.342 veio junto à decisão de indexar o salário ao custo de vida. Em outras palavras, o mínimo seria

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reajustado todos os anos, uma aposta permanente no crescimento da inflação, ou seja, do custo de vida. O salário mínimo, criado por Vargas em 1940, começou valendo 240 mil réis. Mas entre 40 e 51 foi modificado apenas duas vezes, o que deixou quem o recebia em sérias dificuldades. Em 1943, era de apenas 380 cruzeiros, um valor muito distante das pressões inflacionárias e das necessidades básicas de quem tinha de viver com tão pouco dinheiro. O presidente Dutra havia sido aconselhado a manter o salário intocável, não somente por considerar um aumento inadequado à política econômica que desenvolveu, mas, acima de tudo, porque o salário personalizava a política do governo ditatorial. Quando Dutra entregou a presidência de volta a Getúlio, a inflação parecia fora de controle. Getúlio segurou o que pôde e, quando sentiu que os seus eleitores operários estavam sendo muito sacrificados, escolheu a véspera do Natal de 51 para anunciar o novo nível do salário mínimo de 1.200 cruzeiros, que foi adotado no dia 1º de janeiro. No começo de 51, entretanto, o custo de vida ainda se achava bastante controlado. Tanto assim que um filé à brasileira custava, no restaurante da boate Acaiaca, 20 cruzeiros; e uma garrafa de cerveja sete cruzeiros. Em maio, o aluguel de uma casa de sala, dois quartos, copa e cozinha, no Prado, era oferecido a 1.200 cruzeiros. Uma copa, ou um dormitório de imbuia, valiam 2.250. E uma copa laqueada, que era a moda, ficava por menos de dois mil. Belo Horizonte tinha abandonado, há longos anos, o confinamento urbano da Avenida do Contorno. Os bairros cresciam rapidamente na periferia. O centro limitado ela Contorno já estava exaurido de espaço. A Barroca, o Prado, Calafate, Gameleira, Carlos Prates, Horto, Santa Efigênia, Floresta, Lagoinha, Santa Teresa e grande parte da Serra já iam muito além dos limites de uma cidade supostamente calculada para não crescer como cresceu. Mas as montanhas à sua volta ficavam ainda muito distantes do centro urbano e permaneciam completamente descobertas, sem casas e sem o tapume formado pelos arranha-céus, que começaram a surgir nos anos 70. Apesar da população pequena, as favelas já existiam ao pé dos morros, ou nos entornos de alguns bairros, com nomes que bem descreviam o que eram: Buraco Quente (entre o Alto do Menezes e a Lagoinha); Caixote em Pé (entre a linha da Central e Santa Teresa); Cabeça de Porco (no alto de Santa Efigênia); Morro do Carapuça (entre o Horto e Pompéia); Morro das Pedras (perto do Sanatório Marques Lisboa); Pau Comeu (depois do São Lucas); Pau Comeu do Matadouro (perto do Matadouro Modelo); Pedreira Prado Lopes (entre a Lagoinha e Santo André); Pindura Saia (no alto do Cruzeiro); Vila dos Marmiteiros (para os lados da Gameleira) e Vila dos Urubus (entre a linha da Central e a Avenida dos Andradas). Poucos se atêm, talvez, ao sentido das homenagens nos nomes das ruas, Avenidas e praças da cidade: as maiores tribos indígenas que os nossos descobridores portugueses encontraram; os rios mais importantes e os Estados dividem o centro e alguns bairros,

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em paralelas e diagonais, com as Avenidas dos homens públicos – lá estão os Caetés, os Tamoios, Aymorés, Tupinambás, Guajajaras, Tupis, Emboabas, Guaicurus, Guaranis, Carijós, juntamente com Afonso Pena, Getúlio Vargas, Augusto de Lima, João Pinheiro, Olegário Maciel, Francisco Salles, Antônio Carlos, Bias Fortes... Paraná, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Sergipe. As riquezas minerais ficaram nos bairros, em ruas como Rubi, Esmeralda, Safira, Turfa, Topázio, Turmalina, Platina, Ouro, Chumbo, Níquel... Em Santa Teresa, há mais de uma dezena de ruas com nomes de minerais, como Mármore, Cristal, Bauxita, Amianto, Itacolomito. Os intelectuais e heróis da Inconfidência Mineira são ruas próximas do centro do poder, a Praça da Liberdade. Os santos foram poupados para homenagens mais extensas, porque deram o nome a muitos bairros: Santo Antônio, Santo André, Santo Agostinho, Padre Eustáquio, Santa Teresa, Santa Efigênia, São Pedro. A independência do país é reverenciada na praça mais popular, a Praça Sete. Nomes de cidades mineiras aparecem nas placas que identificam ruas afastadas do centro; e os países vizinhos são homenageados nos bairros novos, surgidos da captura das áreas altas, na constante ampliação das fronteiras da cidade. As homenagens têm um sentido ainda mais expressivo quando são nomes de família ligados à construção ou à história da cidade, como as praças Vaz de Melo e Savassi. As ruas cercadas pela Avenida do Contorno mudam de nome quando a ultrapassam. A Bahia passa a ser Carangola; a Levindo Lopes vira Leopoldina; a Alagoas se transforma em Viçosa; e a Pernambuco é beatificada, assumindo o nome de Padre Odorico. A exceção é a Itajubá, que se mantém com o mesmo nome em toda a sua extensão além Contorno. Tendo sido a primeira cidade brasileira especialmente projetada como capital, ou, antes disso, para ser cidade, sua disciplina urbanística, prejudicada mais tarde pelo extraordinário crescimento, não incluía becos. Sobrou espaço apenas para um, o Beco São Geraldo, pouco falado, que começa na rua Síria e vai até a Silva Jardim. Houve a preocupação, desde o começo, de reservar grandes espaços para eternizar, nas áreas públicas, as homenagens que os seus planejadores prestaram num momento de inspiração. Assim, Belo Horizonte se fez e prosperou. Um relato apenas episódico, mas ilustrativo da cidade e dos seus encantos noturnos, é o que aconteceu, em 1947. Apparício Torelly, o Barão de Itararé, veio a Belo Horizonte para participar do Congresso Nacional de Escritores, o primeiro a se realizar após a ditadura de Getúlio Vargas. Foi um congresso de grande repercussão intelectual e política, que, naturalmente, levou os seus participantes a explorarem tudo que a cidade podia oferecer. O saudoso Orígenes Lessa, também participante do congresso, contou-me, em 1969, numa visita a Londres, que encontrou o Barão nas imediações da rua Guaicurus: — Barão, o que você está fazendo por aqui? E ele: — Estou à procura de uma bela horizontal...

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A cidade pequena, simples e devagar, foi tragada pelo progresso rápido, quase sempre afoito, que a transformou em metrópole de vida intensa – um dinamismo incontido, às vezes pouco civilizado, que nos faz sentir saudades daquele passado, quando éramos jovens! Filosoficamente, T. S. Eliot resumiu as emoções do transcurso do tempo, desse olhar para trás que nos comove, com uma análise poética: . O tempo presente e o tempo passado Talvez estejam ambos presentes no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Ou a sabedoria consoladora de Luiz de Camões: . Tudo passei; mas tenho tão presente a grande dor das cousas, que passaram. E nós procuramos tornar a nossa memória seletiva, ao evocar, sempre que possível, o que de melhor o passado nos deu, pois o passado é quase sempre parte do presente.

(*) “Memórias de um Piloto de Linha”, Edições O Cruzeiro, 1954.

Jader de Oliveira Cobham, Inglaterra

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No tempo mais que perfeito  

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