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Proféticas (Poema Dramático - Livro I)

Sérgio Lima

Vida, Do que se trata esta palavra? Alguns, poderiam dizer que é uma questão indefinível, esses impulsos, essas reações químicas naturais, esses sangues nas veias,


e que tudo é respeitável, meio místico, meio mágico. Alguns, poderiam dizer que é uma questão drástica, das lógicas que atrelam todas as ciências ocidentais. De uma lei física que rege todo o movimento do universo e encontrar aí a horizontalidade de toda relação existente. Porquê o movimento dos planetas afeta tudo que existe, como em mim. Achar as lógicas do movimento atômico na natureza de modo que isso se estruture na formação e possibilidades de meus sentimentos e pensamentos. Se estrutura prever e modificar tudo aquilo que existe, e assim, igualar-se ao que inocentemente chamam de Deus. Alguns, diriam que a lógica é uma farsa o pensamento racional uma ilusão. Nada existe que é como se estivéssemos assolados num eterno desconhecimento de tudo, e que portanto nada adianta fazer. Nada importa. Nem a vida, nem a morte. Alguns, utilizam-se dessas idéias quando convém, para continuarem vivendo. Alguns, nunca pensaram. Alguns, criam pensamentos absurdos, inimagináveis, que ao nos depararmos ou se aumenta a vida ou a morte.


E eu, onde eu estou? no meio disso tudo, o que é a vida? No momento sou atravessado por tudo aquilo que dizem da vida Meu corpo refrata cores e sons. Seria capaz de fazer qualquer coisa com a poesia. ela conectar e libertar todos os homens.

Um alvorecer. Um crepuscular. a transição de um para o outro, é o nascer dos primeiros dias. Há um rio uma curva de vento algum caminho, poeira e humanos. Há tempos estavam por ali, era uma tentativa. um animal esganiça de dor O espírito de uma mulher surge: _Esperam o que? Porque não se movem do que lhes consomem? Ouvem este animal? Acaso imaginam porque choram os animais?


O que esperam do mundo? e esse cansaço inútil e esses sorrisos inúteis e essa embriaguez inútil. Vocês são a vergonha estão mortos em vida e esperam a vida em morte. É isso que lhes respondo. Acaso conhecem vocês da morte? Eu conheço da morte eu sou um espírito de montanhas eu sei os segredos de outros mundos os que quase nenhum homem conhece eu já estou morta de vez. Se entretanto me vêm não é porque estou livre e transite por onde eu quero não é porque estou viva. Se estivesse viva não estaria morta. A morte é eternamente o desconhecido eu transito a dizer essas coisas que eu nem mesmo sei porquê, vocês pensam que eu sou um ser transcendental com função de ajudar na regulação das energias do universo, mas eu não passo de uma alma perturbada e perdida entre montanhas indiferentes ao sofrimento desses espíritos que em vida estiveram mortos e acharam que poderiam viver na morte. Vocês acham que eu conheço Deus? Nunca o vi. Já faz séculos que eu vivo por aqui perambulando entre homens e dizendo-lhes essas coisas. Não porque eu queira, não porque alguém me ordenou. _Senhora, Deus é piedoso, em algum momento poderá descansar. _Eu não estou cansada, não quero descansar. Você conhece Deus? _Sim, senhora. Deus é também a luz que dá aos olhos essas montanhas. _Eu não mais vejo luzes como em seus olhos. Vejam, meus olhos são outros!


Logo, os vampiros chegaram. _Os vampiros se aproximam, iludidos com a morte. Alertem! eles n達o sabem o que dizem.


Eletrocutação Conjunta Um Helicóptero ruge os céus desse descampado, um Ypé floresce sem forças, Ninguém me procura, nem me chama ou me vê. Importa somente que os ferros e as correntes arrastem e alastrem sobre o meu ser a faticidade de tristes manhãs de uma existência sem forças as impossibilidades do egoísmo Nunca houve “Eu”, Tudo o que foi criado pelo homem finda na preservação do próprio homem. Não existe isolamento, Isso é miséria, depressão, morte, Tolice mais pura. Para que serve o dinheiro senão para comprar gente? Pra que serve um Ypé senão para ser amado. Pra que serve você, senão para o resto do mundo! Vontade de comer terra, folhas, seiva de árvore, ver se me integro, se conecto em eletrocutação conjunta, Se posso viver, meu Deus! Se posso viver!


Prosa poética em Sol Maior (capitalismo pós-moderno) Hoje são todos bons, felizes, finalmente os burgueses se libertaram. Não há mais a onipresença do Estado, todos passaram a cuidar de tudo espontaneamente, como se entendessem a responsabilidade de suas funções. Tudo está magnífico. Ontem a tarde, parece que foi ontem, o presidente supremo de todos os estados do mundo anunciou que deixava o poder por livre vontade e plena certeza na fé de seu povo. Magnífico, os jornais continuam seus serviços prestando a informação para as sociedades, as moedas continuam trocadas por mercadorias, devido ao trabalho contínuo dos profissionais da economia, e as relações democráticas ainda existem. O apogeu do capitalismo, ora! Quem diria, o apogeu do capitalismo era o fim do Estado pelo curso maravilhoso das coisas. A exploração consciente das matérias primas geraria novas formas de consumo e as relações industriais, empresariais, comerciais se modificariam em nome de um novo mercado. Logo viria uma melhor distribuição da renda causada pelos novos padrões de consumo, que não mais toleravam explorações e pagavam sempre preços justos. O mundo necessitava de um novo capitalismo e não imaginava que ocorreria uma nova relação com os objetos, donde o luxo passava a ser o ecológico, o preço justo, a solidariedade. De toda forma, já não era mais possível produzir. O planeta já tinha sido devastado. crucial momento foi quando abandonaram as moedas, quando todos já viviam da mesma forma, tinham as mesmas condições. Não era mais preciso esconder nada, nenhum valor, nenhuma jóia, todos podiam ter o que quisessem, havia dinheiro suficiente para todos. Por isso abandonaram a moeda. As pessoas continuavam seu trabalho, no início, talvez por falta do que fazer. Depois, quando alguns viram que não era mais necessário trabalhar, abandonaram seus cargos e foram viver. Incrível sem o Estado, sem a presença de órgãos opressores, sem a moeda, como que tudo vai indo, todos são felizes e bons, querem sempre o melhor. As indústrias e empresas que ainda existem continuam seu trabalho normalmente, por pura vontade de seus operários. As novas responsabilidades dos produtores e as novas formas de consumo. O mundo vive uma outra organização social, que prometia ser a melhor dos últimos séculos e vangloria o capitalismo como sistema responsável por preparar a população humana para os tempos melhores. (Cansaço desse mundo que nunca vai existir. Cansaço dessa história fajuta de destrinchar informações de um novo mundo oriundo dessa organização medíocre. Cansaço dessa humanidade escondida nessa irrealidade racional, de explicações e métodos para tudo, mas que não vai pra frente, não sai do lugar. Não é possível o mundo acontecer da maneira que imagine, não é possível criar uma teoria capaz de reorganizar a vida diária. Eu poderia me sufocar em meio a livros e escritas de qualquer técnica existente, em meio a pensamentos dos mais exaustivos. Mas será em vão, pois é assim que a humanidade parece seguir um caminho de desgraças. E eu sempre rezo que não. Sempre peço e tenho esperanças, principalmente quando sigo qualquer rumo indefinido, que vejo das coisas que ficarão pra sempre guardadas, que sinto os amores das pessoas que me orientam. Sempre poderia ser possível esse mesmo mundo virar alguma coisa boa, de sorte que seja, mas é sempre ridículo também.)


Poética Baumaniana Leandrinho abriu os olhos e achou ter visto o mundo se abrir. Arrumou as malas, coisas de menor importância, saiu de casa o mais depressa possível. Antes deu beijo no pai, na mãe, na irmã, na vó, no irmão, foi embora. “Vou viajar!” Mas para onde meu Deus, esse menino perdeu o juízo. Perdeu nada, ganhou. Foi-se embora buscar alguma coisa que o mundo pudesse dar. Claro, não encontrou. Não encontraria, nem que desse várias voltas. Mas viajou, viveu, voltou cheio de histórias para contar. Passeou por lugares lindos, momentos históricos, difíceis, quando estamos sozinhos longe de casa, sem amigos, sem ninguém, dá um aperto, parece que engole uma bola de espuma, fica presa no peito. Isso é sentimento de verdade, essa bola de espuma comprime o peito, não queira sentir. Aliás, queira, queira! Saia por aí, você fica forte, acaba acostumando com você e aí fica bom. Pode-se curtir consigo, pode-se rir de si. É a delícia de viver, mas aí você encontra aqueles jovens juntos sorrindo, sobre o jipe sem capô, aí dá aquela saudade idiota, coisa mais lusitana, tristezinha, bobagem esse lamento, você continua seu caminho. É o mundo que se abre, partir é sempre melhor do que voltar. Não! Voltar, voltar é sempre melhor, quando tudo se realiza, quando as pessoas que conhece tanto passam a saber de sua história, quando você se multiplica. Parece que só, nada aconteceu, mas aí acontece, quando alguém que guarda um pouco de ti ouve, vê da suas fotos, vive também tudo o que viveu. Muitas vezes achei ter visto algum amigo passando por ali, mas não era. Nunca era. Em poucas palavras Eu definiria o mundo, Mas talvez você não queira ouvir. Você precisa que eu te afague a alma, que eu te lisonjeie, Você queria um poeta do amor, não da tristeza. Suporta-se o poeta duas ou três vezes no máximo, de resto, você precisa de esperança de beijinhos na boca, de amores mesquinhos de adjetivos mais suaves... Em poucas palavras você não precisa de mim, talvez de ninguém. Não se pode suportar a dor do mundo em alguém tão perto,


pois a poesia é a voz na sua alma, é a sua dor que dói quando ela te faz doer. pois as pessoas são a extensão na sua alma, Mesmo aquilo que se faz para si seu suicídio, seu desenvolvimento mental e espiritual. Você não é um poço sem fundo, uma patologia, um problema só seu, você não é você, você sou eu! Sozinho no mundo não encontrei ninguém. Continuei sozinho. Parece que eu nasci sozinho. Outros vi nessa inconstância, a procura de que? Não adianta sair para o mundo e achar que na esquina mais longe se encontra a resolução de suas tristezas. Esse mundo é mais cruel. Te surpreenderá com delicias rasas e achará bem maior que o que viveu. Não mãe, não mais vou sair pelos lugares em busca do que nunca achei aqui. Também não permanecerei em tua casa sob teus cuidados mofados. Em menor distância de ti, penso que preciso de mais amores, mais cumplicidade. Preciso ir para a próxima esquina e viver uma relação de amor e erotismo, sentir o cheiro dos corpos que existem. Como pode, mãe, haver tantos corpos e não ser possível senti-los. Esse é o problema do meu mundo, pode não ser do teu que pertencemos, mas no meu as pessoas querem os outros com intensidades reprimidas. Alguma coisa fecha-lhes as portas e ficam meio sem graças, meio distantes. Tu mãe, me entregaste para um mundo de portas e janelas fechadas, e eu aprendi isso, muito bem. Sei que no fundo, quando sentes das piores dores maternas, quando por minha falta ou de outro que amas como mãe, sabes que precisávamos de pessoas mais carinhosas. Entretanto fui criado para o egoísmo, aliás, entregue para as mãos do egoísmo. Se quero ser livre, arrumo as minhas malas e vou, sem olhar para trás ou para os que amo. Essa é a minha liberdade mãe, que a senhora me entregou. Digo isso porque passei grande parte do tempo de minha vida sabendo apenas do amor de ti e de papai. Grande parte do tempo, perto de vocês, confiando somente em vocês, então, quando quero ser livre, tenho que buscar universos que nunca estive, livre é mudar, corromper, não ser. Preciso então conhecer personagens que nunca fiz, dentro de casa é quase sempre eu. No mundo sou vários. Mas não posso confiar nem amar ninguém, pois todos são assim. O mundo, mamãe, precisava ter um pouco do melhor de ti e de mim livre, e todos sabem que voltar não é liberdade. Todos que voltaram sabem que poderiam ficar ou ir mais se as pessoas oferecessem o que tu podes oferecer para mim.


_Sim fugimos, não somos guerreiros. Preferimos sempre a paz, somos ascéticos é a mística que nos salva, temos interesse em ver crescer nossos filhos e com eles o ensinamento de uma vida mais pura. _A opção não existe. Homem, quer viver? Nem na morte! Algum poeta disse que podíamos esgueirar, haja amigos, haja distância dos outros, como fazemos. Mas a natureza não perdoa O homem não aprendeu tentar vencê-la a toa. É preciso também se debater da própria natureza, ela tão frondosa mimese de Deus é também infernal. _Não vivemos, é o que sinto agora. Fugimos do mundo com tudo do mundo que aprendemos e ainda não conseguimos. Voltemos!

_Olhem bem! Para onde quer que voltemos é onde engolimos choros todos os dias, onde prevalece a guerra, o dinheiro e a morte. Onde estamos chegam as piores energias dos homens, elas nos perpassam, mas estamos sóbrios não somos mais embebidos pelas suas convivências ásperas. Se eventualmente nos aparecem vampiros, feiticeiros, espíritos, profetas!


Deixem-nos, podemos suportá-los aos poucos. Se nos atordoam, como agora, lembremo-nos, podemos escorraçá-los. De toda forma, somos mais felizes aqui. _Não, eu não sou. Suporto essa estada. Já sou quase como essas almas, quase mortas. Entrego-me aos vampiros, se querem saber, sempre que posso, quando vejo algum ao longe nas trilhas, largo o que faço, corro do jeito que estou, descalça, nua, gozo gritando bem alto, queria ser atravessada por eles, sinto-me um mártir. Eles desaparecem nunca mais existirão. Eu volto cheia de vida certa recompensa da aniquilação dos vampiros. Mas tão logo eu seco de novo, passo a ouvir as lástimas de cada alma humana de suas companhias, solitárias, amuadas, em seus quartos escuros sedentas da energia roubada nas noites obscuras. As almas esganiçam de dor. Ouço o rinchar cada vez mais forte. Escutem! elas quase fazem em uníssono. Escutem! esses vales fazem ecoar. Agora,mais atenção! esse som mais abafado, mais agudo, silencioso, são as nossas almas quase mortas. _Vejam, se não é Zaratustra! Partiriam. Antes celebraram juntos pela última vez. Auxiliados pelos espíritos, realizaram uma forma de ritual herdado de povos distintos. Os vampiros espreitaram, mas foram convidados a entrar. Um espírito muito antigo, que vivia no alto das montanhas havia descido ao encontro desses homens para contar-lhes algumas histórias. Encontrou entre alguns amplos conhecimentos e compreendeu o que poderiam fazer. Logo pediu à outra alma que fosse buscar plantas de outros universos e que trouxesse contigo outras entidades. Fariam uma magia forte, ouviriam a voz de Deus. Era necessário. Esses homens que ali estavam chegaram a estados de consciência incríveis, há muito não se via a conjugação das filosofias


em elevações transcendentais tão profundas. Eram plenos na arte, na magia, no domínio das meditações, dos desenvolvimentos corporais, praticavam o silencio, a alegria, a tristeza, a orgia, o tantrismo, escapavam das dominações ideológicas, detestavam a maçonaria, os iluminatis, emanavam energias profundas em processos coletivos, numa tentativa de corrigir as situações à distância. Mas agora era claro que isso nunca daria certo. Aos poucos essas pessoas conheceram os mais diversos seres que existem. Assombraram-se muito com os vampiros e alguns feiticeiros que caminham errantes pela terra. A simples proximidade dessas criaturas os deixavam por dias prostrados, um silencio amargo corroia até mesmo as crianças. Mas aprenderam a fechar a casa quando esses cruzavam a trilha. Eram fracos ali. Mesmo isolados de tudo, tentando moldar a tessitura da vida, o mundo os apartava cruelmente com essas criaturas terríveis ou mesmo com o que há de negativo em si na natureza. Uma das crianças alcançava os maiores estados de consciência entre eles, por vezes desaparecia e voltava chorando. Ninguém entendia, pois que esse menino deveria ter ficado no lugar para onde havia ido, já que era para lá que todos desejavam ir. _Vocês não entendem, essa salvação não existe. Viver pode-se resumir a raros momentos de excitação da alma, daquilo que diz o homem ser a felicidade, o amor, a embriaguez, o prazer, a liberdade, a paz. Todas estas idéias relacionadas com um estado desejável na humanidade, a plenitude da existência. Não se sabe ao certo se isso seria possível, o homem existir diariamente em torno dessas possibilidades de vida, que poucas vezes provadas se parecem as melhores, até porque não houve pessoa alguma nesse mundo que vivesse em um estado de vida lancinante, em que esses termos transcendentais circundasse em todo o estar. Nossos segundos presentes são absorvidos com a realidade de um mundo feito por pessoas brutais, que não perdoam nem a própria existência, e temos em nossos vidas a afetação direta deste mundo. Se não se encontra no meio das poucas matas que ainda restam, e ali não houver casa, nem estradas, nem fios, nem antenas, tudo o que existe ao redor e em ti é todo presença humana. É uma idéia de sociedade que se faz diante de qualquer homem conectado na possibilidade dessa existência orgânica sob altos níveis de interdependências. Ainda que queira estar isolado, atravessarão em você, primeiramente, as ondas eletromagnéticas emitidas pelas aparelhagens de conexão, segundamente, as ondas energéticas (algumas também eletromagnéticas) emitidas pelas organicidades de conexão, terceiramente, a sua história, a sua construção de eu, essa inexistência em ti, que entretanto é existência com o outro. Também caminhará para o entendimento do que é a natureza, mesmo que não encontre nada, pois esse é o legado dela mesma, trancafiar-se sob mistérios profundos, fechar as portas da cognição humana, pelo menos por enquanto. Homem, algo que nunca parece ter percebido é que na sua história nunca os homens estabeleceram relações como as que prezam entre os homens. Percebe que nunca houve e nem há, liberdade, amor, paz, prazer, alegria, embriaguez, fruição, a não ser para alguns e em raros momentos, e que essas são as causas dos nossos maiores sofrimentos. Não percebe que isso se dá pelo nível de conexão e desconexão que esses homens mantiveram entre si. Hoje o homem inicia a sua existência diária um pouco baseada na aproximação com os outros, a comunicação entra no nível telepático e pode alcançar as mais diversas populações do mundo. Ele dá mais um passo rumo a transcendência, mas logo retrocede pela falta de consciência do mesmo processo. Junto disso ele inicia a criação de uma vida egoísta e diária numa virtualidade. Ele não faz dessa conexão veículo da transcendência geral, e nem das suas atitudes reais, performáticas, ele não faz uso disso, que seria uma poética da ação e da fruição cotidiana. Essa alma viva que vibra junto com o universo. Temos que lembrar do universo, de tudo que existe, não podemos nos afastar do que existe. Eu e você existimos e os meus dias passam de maneira esquisita, tristezas de todas as


ordens me afetam e me fazem sentir desânimo, preguiça, mas também me fazem sentir vontade de escrever, de falar dessas possibilidades, desses raros momentos de vida, desses momentos de morte, da vontade de viver, de estar no fluxo das idéias maravilhosas, de ter amigos, amantes, filhos, pais, mães, irmãos, de ter uma família mundial que me acolhe, me dá carinho e que transita, cria, modifica, que deseja estar viva na natureza estética que nos rodeia, e sorver toda a fruição possível, pois que esse é o legado da arte, e a arte é o legado do homem, e o homem é pertencente ao universo naquilo mesmo para que o universo existe, pela criação, pela estética, pela ética. Proféticas! Pronto! Faça-nos livres. Amor profundo, não temos tempo. Propuseram a tristeza e ficamos calados, somos a derrota do que não somos, sentimos a dor sem que houvesse sentido. Em nossos quartos perdemos o mundo. Paredes


Do Isolamento O isolamento humano passa por várias possibilidades. Acredito nenhuma delas existentes de fato, ainda que exista um relutar constante de conseguir alcançá-las. As pessoas sonham com um pequeno reduto dourado em que possam se afogar numa solidão sofisticada. Sonham com um mundo à parte construído por uma economia gerada de toda uma vida. Elas podem então viajar, conhecer os lugares mais remotos, ver pessoas diferentes e isto para elas vale mais que a vida toda confinadas em paredes de todos os tipos. Depois elas voltam para o lar e passam mais meses sonhando com a próxima viagem, solitárias e tristes dentro das suas caixas. Meses sem dar importância para o sol, as estrelas, meses sem se interessar por pessoas diferentes, pelas caminhadas aos ventos, pelos encontros, porque tudo isso coube numa cotidianidade que sempre os manteve em energias produtivas e agora, já desgastados pelo tempo, não sentem mais interesse nessas coisas ordinárias. É preciso sair do confinamento para um lugar muito longe, mas é preciso continuar isolado também, para que o mundo não lhes atormentem tanto. Paradoxo, vida e morte. Entretanto, se acaso lhe ocorre me perguntar o que é essa danada morte que tanto se redisse, é portanto essa vida de quatro paredes, mofada na existência das famílias e dos crimes do mundo. É a impossibilidade de se viver pelas tantas horas de trabalho, pelas soberbas alheias, pela infelicidade alheia. Falar da tristeza do mundo me dói tanto. Querer atestar na poesia a impossibilidade de viver é algo muito mais doloroso para mim. Não é passível que as pessoas continuem reproduzindo modelos falidos, que perpetuem por uma falta de vontade de viver, falta de iniciativa. Primeiramente as pessoas. Elas são o mundo, não você. Você é um meio pelo qual elas agem e existem. Se as pessoas são tristes, solitárias e mortas, você também é. Tratemos de nos integrar as outras pessoas, sentir em mim esses outros, qual é a beleza que gera entre nós, cheirá-los, lambé-los, criar juntos um presente pleno, dado pela absorção de tudo das coisas. Se nós nos empenhássemos nessa existência, pela conjunção do que é bom, caminharíamos para a vida. Mas isolados na família, ou nos diferentes tipos de grupos que existem, atribuindo-lhes os devidos valores somente a estes, aumentamos as impossibilidades. Impossibilidades espaciais, temporais, sentimentais e espirituais. E esses isolamentos e impossibilidades tornam-se também impossíveis e geram as guerras, as fomes, as doenças, os rancores, os cânceres. Acredita na capacidade criativa do homem reinventar a vida cotidiana, de criar sentimentos melhores, mais vivos, conceitos mais largos, mais abrangentes, que tornem a vida um sumo do amor, acredita nas capacidades dos homens que arfam por liberdade dessas amarras da vida tediosa e sofrida. Acredita nos apelos das artes em relação a vida sublime. Acaso não é reparável o empenho dos artistas em mostrar para os homens o terror e a beleza? Porque insistimos no terror e nunca na beleza? Porque o homem não é capaz de abandonar os terríveis preceitos das nossas sociedades em troca de viver? Tudo parece cada vez mais distante se penso então nas guerras santas do mundo afora, nas disputas comerciais, territoriais, e toda essa merda que persiste no mundo. E tem a merda da ONU, dos EUA, da China, ah meu Deus, a China! A merda das grandes empresas que vão cavucando tudo o que não é delas e não é de ninguém. Mas que merda de mundo é esse, tudo negativo, pessimista, que ninguém se preocupa mesmo, porque todos reproduzem sofridamente todos os dias tudo aquilo que não querem que continue existindo. Fora a política do nosso país, os reacionários, ah! que grande lixo é o que temos agora. Fora os nossos amigos, nossos pais, que ora ou outra nos decepcionam, ou perdem suas vidas, fora eu mesmo, que ora ou outra me pego soberbo, com raiva, ódio, desonesto, egoísta, perdendo a minha vida. Eu imploro por liberdade, IMPLORO! Que em cada um surja a necessidade da poesia, que em cada um ela se desenvolva! Experimente a poesia na sua vida com tudo que existe ao redor, desmanche-se no mundo, faça de ti a própria fulgurância do mundo, experimente beijar todas as bocas, abraçar todas as pessoas, recitar-lhes poemas rimados, cristalinos, amorosos, dormir na mesma cama com mais de três, doar tudo o que tem, tudo, até mesmo seu amor próprio,


que te façam pela arte o que bem quiserem, seja instrumento de cores universais, aprenda a voar, antes que tarde, asas só nascem uma vez na vida. Voe em manadas, faça migrações enormes em que muita vida nos atravessa. Leia as Proféticas! mas não as desperdicem, useas em si, leia em publico, nas reuniões de trabalho, de família, nos bares, nas igrejas, profanem mas não as esqueçam, eu imploro! IMPLORO, por liberdade! Não se esqueçam de mim, não se esqueçam do mundo!


Realizou-se o ritual. Espíritos do mundo inteiro trouxeram as prendas necessárias, flores, folhas, frutos, águas, de outros universos. Os pavorosos vampiros beberam um cálice de esperança e partiram, sem que fosse preciso maiores desesperos. O velho espírito que comandava o ritual vislumbrava sucesso, Venham, venham! Tragam todas as belezas para que Deus fique comovido! nunca antes havia encontrado no mundo homens de tamanhas proezas. As crianças por certo eram as mais impressionantes. Nunca antes havia imaginado o tamanho de suas compreensões, que de início relutaram a realização do ritual, mas cederam aos apelos. Após dias de jejuns, processos mentais, pequenos rituais mágicos que incluíam manifestações das energias terrestres, aparições de diferentes entidades e luzes e sons e ventos e sombras, realizaram a etapa final que consistia em entregar-se num sono por dias até que todos juntos presenciassem o recado de Deus, Todo Poderoso! *

*

*

Não se ouve nenhum som. esse silêncio quase não existe. A paz celestial deve ser próximo disso. essa sensação de órbita como se fosse o próprio movimento da vida. Todavia, não há ninguém sensação de que isso é a morte.

_ A morte não! Alguém me ajuda, me tira daqui! Agora vejo as brancuras e esses silêncios mórbidos. Afasto-me! Sinto meu corpo, sinto a terra, o cheiro, ah os cheiros, sim,


os sons, os grilos! pássaros gritam melodias vitais, o sol esquenta meu corpo, o vento fresco me apazigua, meus dedos perfuram a umidade da terra, a luz do mundo entra em meus olhos. Não há ninguém perto de mim, não ouço sons de conversas ou de músicas. Preciso achar alguém, porque não estão aqui? Encontro três pessoas na cozinha, estão caladas e cabisbaixas. Onde estão as crianças? _Não estão mais entre nós. _Onde estão as crianças? _Foram morar com os anjos. _Onde estão as crianças? _ Não respiravam quando acordamos. _Onde estão as crianças? _Estão mortas. _Onde estão as crianças? _Debaixo da terra. Deus não lhes deu provas de Sua existência ou do ocaso de suas vidas. O ritual não aconteceu. as crianças levantaram muito antes dos adultos e esperaram por meses que acordassem. Acabaram mortos por motivos diversos, fome, doença, tristeza. Não era obra de Deus, de qualquer forma. Nem o estado de letargia profunda em que se encontraram. Tanto que os próprios espíritos partiram quando perceberam o fracasso. Aquele que a todos guiou, Zaratustra, partiu antes que lhe coubesse a devida fúria. Tanto as crianças, quanto os espíritos tentaram por dias acordar essas pessoas, mas só se levantaram quando a morte os ameaçou. Agora a vida seria bem mais dura, mais amarga. Não esqueceriam nunca que as criaturas mais doces


morreram devido ao descuido e que não houve motivo maior, não houve magia não houve Deus não houve esperança... Houve?

_Eu queria ter enterrado meus filhos. Não é pedido muito alto vindo de uma mãe. Que tristeza, meu Deus, é como se os tivesse abandonado, como se ainda vivessem, e eu não me cansarei de procurá-los de vê-los brincando nos rios, correndo nos campos, já posso ouvir suas risadas, suas vozinhas dizendo mamãe, me carrega, me leva para conhecer o mundo, que eu sei que atrás dessas montanhas tem uma vida inteira que não vivi. Cobriria-lhes de beijos e diria que sim, vou levá-los, ainda que seja muito perigoso e triste vou levá-los às grandes cidades, aos zoológicos, ao mar, meu Deus, a praia, meus filhos não conheceram o mar, a praia...


Não há profecia em mim, o futuro me entedia os mais largados dias que virão e outras irresoluções iminentes. Eu sou solto frouxo me consome a doença da tristeza em lugar nenhum. Esses homens tanto fizeram e não venceram a fome e a tristeza. A noite me embebe numa nostalgia distante Parece que eu já estive na Lua Uma viagem noturna em que se sonha com o mar fundido no universo e entrega-se à impossibilidade de conhecer a Lua. Lá é sempre triste, desértico, pessoas incolores não se aproximam e não falam, Mas é a Lua poucas vezes se vai lá Poucas vezes entrega-se no infinito em seu próprio corpo sente-se a vertigem das quedas e subidas súbitas a atração dos astros celestes o real afastamento do lugar de onde veio. Não há nenhuma luz da Terra, nem do nosso deus Sol. Talvez não haja possibilidade de voltar e fique perdido na escuridão, quando avistar luz logo não é a Terra, não se vê gente.


Exasperações Poéticas _Tudo passa meio sem jeito. Eu queria poder dizer o que todos tentaram dizer. Não há jeito, mas eu não posso parar. Amanhã retomo o mesmo erro de olhar para a vida e isso me preenche de um prazer proximo do que é viver, mas viver não é ficar parado, pensar, escrever e fumar. Amanhã a vida continua e pode ter certeza que uma hora do dia eu vou parar para pensar no meu instante, de novo, de amanhã e de novo, tão novo, parado, parado, paredes... Amanhã nunca vai chegar e eu não tenho mais fé que os homens um dia viverão. _Tenha fé sim! o homem já vive, escondido atrás de seus sentidos. atrás dessas colinas mora um ser de sensações inimagináveis, capaz de utilizar o universo inteiro numa dança, de reavivar pontos de saturação, repintar as galáxias, comunicar numa linguagem de luz quase insuportável, e iluminar os buracos negros os planetas solitários, sem Sóis, de levantar poeiras cósmicas por puros efeitos cénicos, sinfonizar o som das órbitas dos astros Ah! quando abrirem os enormes portões da Terra... _E quando abrirão? Quem abrirá? Esses portões continuam tão fechados quanto há séculos atrás. O homem é cada vez mais sonso, mais ignóbil, ignora agora com muito mais vigor a vida que lhe é própria. Ninguém acredita em mais nada, no homem muito menos, não se pode manter esperança alguma a realidade espacial é mais concreta que as nossas delícias.


_Mas não deixe de acreditar em mim, que vou partir além da dor, reze, peça a Terra que eu me integre a ela, a seus filhos, o que eu pretendo aonde vou pode se abrir em vôo conjunto e alivio do peso sob a Terra. Implore sempre, onde estiver, sustente a minha alma com sua lembrança reaviva-lhe com a sua fé isso há de suprir minhas derrotas meus desesperos, há de me vibrar quando as correntes se aproximarem. Pelo amor de Deus! Tenha fé em mim! _ Sim, eu guardarei fé. com todas as minhas forças espero você em asas vir me buscar aonde estiver. Não volto jamais para a dureza do chão das cidades prefiro continuar morto em paz. Mas vai buscar sua vida, que aqui a tristeza não se eternize. Hei de sentir quando o homem começar a viver, não haverá um dia sequer sem que eu espere isso, porque até lá, eu me exilarei de todo o convívio com os homens, poucos verei, alguns que cruzarão minha vida, logo estarei em caminhos que não se vê, senão, almas. Muitas vezes, nem almas serão, caminhos tão desertos que nem se sabe mais se existe, e talvez aí eu me desvaneça, parta aos itinerários de outros mundos. Não serei feliz, decerto, um homem que some não será, senão, triste. _Um dia eu volto sim, voando sobre o cerrado, e quando me ver


há de entender tudo o que se passou conosco. Se eu não voltar, quem sabe nos encontramos em algum outro lugar, longe desta terra talvez, numa paz de morte. Mas agora volto para o mundo, encaro-o de frente, e não somente por amor, ou heroísmo, mas até por indiferença com a minha vida. Se morta permanecerei, que eu morra tentando viver. Não nos prolonguemos mais, se fico a te ouvir é capaz que te acompanhe nos desertos. Com muita tristeza te digo adeus, tudo que vivemos é prova da possibilidade de vida, tudo! mesmo quando nos entristecemos desolados nessas terras distantes. A saudade nunca me deixará e a impressão é que eu estico uma víscera se nos afastamos, um orgão do meu corpo dói. Querido, adeus! _Pelo amor de Deus! até a próxima, querida.

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