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Trajetória Analítica (Coletânea)

Técnicas V


Apostila elaborada por: Profº Drº. Sérgio Costa. Supervisão: Prof. Dr. Sérgio Costa

5. O Par Analítico A figura do Par Analítico ( e não casal ) surge em decorrência da analisabilidade. Se os requisitos para a situação analítica não forem atendidos, certamente que paciente e psicanalista formarão uma dupla de estranhos. Queremos afastar desde já a idéia de que o par analítico engloba aspectos transferenciais. Não engloba, mas predispões ao surgimento da mesma. E se não ocorrer a transferência, o trabalho será inútil, não


haverá cura. Assim, para entender o mesmo, temos que considerar se um determinado paciente vai responder melhor a um analista do que a outro, ou que um analista pode tratar melhor uns pacientes do que outros. Par analítico, é, portanto, o melhor analista para determinado paciente e paciente adequado para determinado analista. Vale ainda considerar que essa figura não surge com imediatismo, sendo necessário um tempo determinado de contato para se ter idéia de sua medida. Isto torna fundamental as entrevistas. Pode-se assegurar que, quanto mais exigência tem o paciente para escolher o analista, mais difícil vai ser sua análise, porém isso depende de sua psicopatologia, não do par.

5. Passos do Processo Psicanalítico

5.1.

O Ambiente Do ponto de vista metodológico, ambiente não faz parte do processo. Entretanto, se precisamos dele para tal, não podemos


ignorar a sua importância. É claro que existe ambiente e ambiente. Também sabemos que as pessoas se sentem melhor em função de certas disposições, cores, etc.. Assim, pensemos um pouco sobre um ambiente adequado para a prática psicanalítica.

Disposição de um consultório ou gabinete: A sala não deve ser pequena em demasia; Deve possuir os móveis apenas necessários; Não deve ter decoração com o fim de embelezar; Não deve ter nas paredes nada que chame a atenção; Deve ser ambiente de pouca claridade; A cortina deve ser de cor neutra; Deve-se evitar enfeites sobre a mesa ou coisas que pareçam ostentação; Se tiver estante, nela devem ter apenas livros;


Deve ser ambiente afastado de ruídos sistemáticos; A limpeza e disposição dos móveis e demais pertences deve ser rigorosa; O divã deve ser confortável e suficientemente largo para acomodar quaisquer pacientes; A cadeira do analista deve estar disposta por detrás do divã, de maneira que o analista não seja visto pelo paciente enquanto livremente associa; Não deve ter telefone nem campainha que soe dentro dessa sala, etc.; Deve existir uma ante-sala levemente decorada. O ambiente deve oferecer ao paciente oportunidade de bem estar. Ele deve ter a sensação de que aquele local é o mais agradável possível para os 50 (cinqüenta) minutos a que tem direito.

5.2.

Anamnese


Em Psicanálise, anamnese não é entrevista. Reservamos para a entrevista um caráter formal de oportunidade para termos uma visão anímica do paciente. A anamnese é o primeiro, ou segundo contato. É a ocasião em que o paciente chega ou é trazido, e neste caso já temos uma forte contraindicação para a análise. O ideal é que o paciente venha de livre e espontânea vontade. S e bem que às vezes necessite de apoio, do encorajamento de alguém, da família ou não. Na anamnese, primeiramente ouvimos as razões de nossa procura, e, em certos casos já podemos refugar um paciente neste estágio, se constatarmos tratar-se de psicótico, de alguém que já conhecemos, já tivemos algum tipo de negócio com o mesmo, enfim. Mas como proceder na anamnese? Fazer a ficha do paciente. Esta ficha deve ter: nome completo; data de nascimento; filiação;


estado civil; nível cultural; condição sócio-econômica; condição sócio-econômica e cultural da família (pais); número de irmãos; relação com os irmãos; desempenho escolar; como se relaciona na sociedade; religião e como pratica essa religião; grau de conhecimento da psicanálise; enfermidades que possui; enfermidades que padeceu, inclusive as doenças próprias da infância; lesões provocadas por enfermidades; acidentes que padeceu; quantidade de amigos;


hábitos; passatempo preferido; medos, etc.. De posse dessas informações e outras que poderão ser obtidas com as respostas a certas perguntas do chamado “interrogatório forçado” , o psicanalista terá uma visão da analisabilidade e das possibilidades de formação do par analítico bem como das condições econômicas que darão sustentação ao processo. Na anamnese o psicanalista não deve prometer nada, além de suja boa vontade para com o caso, se bem que isto é mais teórico do que prático.

5.3.

Entrevista Já disse que em Psicanálise anamnese não é entrevista. Entrevista é um termo reservado para algum encontro de tipo especial, não para contatos regulares. Trata-se portanto, do que se faz antes de empreender um


tratamento psicanalítico. Sua finalidade é, do modo mais amplo que na anamnese, decidir se a pessoa que consulta deve realizar um tratamento psicanalítico ou de outra natureza. Também nela se terá uma visão profunda das contra-indicações. Na entrevista devemos facilitar ao entrevistado a livre expressão de sues processos mentais, o que nunca se consegue com um enquadre formal de perguntas e respostas, embora durante a mesma possamos submeter algumas perguntas ou pedir que o futuro paciente fale sobre algo específico. Algumas considerações resumidas sobre a entrevista: Tanto melhor será o campo da entrevista quanto menos participe o entrevistador; É comum observarmos pacientes com forte dose de ansiedade e/ou angústia já na entrevista;


O analisando deve ser informado que a entrevista tem a finalidade de responder a uma consulta sobre sua análise mental e seus problemas, para ver se necessita de tratamento; A entrevista se realiza sempre face a face e o uso do divã está formalmente afastado; A entrevista não se baseia nas regras de Livre Associação , embora já se inicie uma espécie de ensaio da mesma; O psicanalista deve influenciar com atitudes não verbais; O psicanalista deve anotar ao máximo, de modo elegante e não ansioso, tudo que interesse à decisão quanto a analisabilidade; O psicanalista não deve interpretar nem fazer diagnósticos durante a entrevista. Suas palavras devem induzir apenas; O psicanalista não deve recorrer a procedimentos que evitem a ansiedade, como o apoio ou a sugestão, e tampouco resolve-la com o instrumento específico da interpretação;


No fim de cada entrevista já predomina a angústia de separação, que será fortalecida no curso da análise; O “instrumento” do psicanalista é sua mente, de modo que na entrevista nós vamos investigar de que forma o entrevistado se conduz frente a seus semelhantes, sem perder de vista que nós mesmos somos o semelhante com o qual essa pessoa tem que se relacionar; Uma atitude reservada, mas cordial, contida e continente, mas não distante, faz parte do papel do entrevistador; A entrevista deve ter tempo limitado, como duas, três ou mais sessões, não deve ser arrastada indefinidamente; Deve ser distinta do processo de psicanálise formal, de maneira que o paciente saiba onde terminou uma e começou a outra; A entrevista informa sobre fatos fundamentais, não como objeto de análise, mas como para definir se será ou não possível o trabalho de análise;


Na entrevista, também o paciente poderá chegar a conclusão de que esse psicanalista não lhe é indicado, sem contudo abrir mão do tratamento com um outro (é comum pacientes que vão de analista em analista, até encontrar um indicado, embora isso já pode ser estudado como uma busca de um profissional que satisfaça suas fantasias à priori), etc. 6.4. O Contrato Analítico Vamos tomar um termo das relações civis para designar certo procedimento necessário à prática psicanalítica. Antes de definirmos o contrato analítico, precisamos entender que uma das estratégias da entrevista é preparar o futuro paciente para subscrever o metafórico contrato analítico . Esta expressão deve ficar circunscrita ao jargão dos psicanalistas, sem conotações legais. O contrato psicanalítico é um acordo sobre as bases ou as condições do tratamento.


Vale a pena assinalar, também, que o contrato psicanalítico não só implica direitos e obrigações, mas também riscos, os riscos inerentes a todo o empreendimento humano.

Generalidades sobre o Contrato Analítico Não é um documento formal, escrito; Deve incluir os elementos tradicionais, que veremos, bem como a possibilidade de sua alteração; Deve prever uma certa flexibilidade que não comprometa o andamento do processo nem do tratamento; Deve frisar bem a responsabilidade do psicanalista ; Deve esclarecer que tudo o que o paciente faça, não faça, falte, etc., será objeto de interpretação, etc.;


Segundo Freud, configuram as cláusulas fundamentais do contrato analítico, enquanto aponta à regra fundamental, o uso do divã e o intercâmbio de tempo e dinheiro, isto é, freqüência e duração das sessões, ritmo semanal e férias.

Principais Itens do Contrato Analítico A Questão das Anotações Devemos informar ao paciente que temos o direito de anotar elementos colhidos da livre associação que consideramos necessários para interpretações futuras ou para dirimir dúvidas quando de resistências contumazes apresentadas pelo paciente. Mas é preciso constar que as anotações não são obrigatoriedade, uma vez que há psicanalistas que simplesmente não anotam nada. Aconselhamos, contudo, que todos anotem determinadas coisas, porque a pura e


simples postura audível, por melhor que seja a memória do psicanalista, poderá provocar uma sensação de inutilidade das suas palavras, com acentuado descrédito pelo nosso trabalho. 6.5. O Uso do Divã O divã não é um sofá, onde o paciente senta se quiser. Trata-se de um instrumento do nosso trabalho. Entretanto, não devemos impor ao paciente como algo obrigatório, com pena do osso contrato tornar-se autoritário, o que deve ser evitado. Devemos, isto sim, esclarecer quanto a sua utilidade, o seu emprego histórico desde o mestre, Freud.

Qual a razão do divã?


Alguns conselhos de Freud, que ele pensava serem eminentemente pessoais, como a de pedir a seus pacientes para que se deitassem para não terem que suportar seu olhar, chegaram a ser indispensáveis para nossa técnica. Freud o concebeu para possibilitar o maior relaxamento possível ao paciente enquanto fala. Ele tem por objetivo tirar o paciente da rotina de atividades musculares, diminuir as tensões, afastar as responsabilidades com equilíbrio e outras que consomem bastante energia. O divã é fundamental também porque permite ao psicanalista posicionar-se em relação a ele de modo a ficar menos exposto, diminuindo assim a carga transferencial e o constrangimento dos olhares insinuativos, que são responsáveis pela contra-transferência, fenômeno que pode ameaçar todo o trabalho. No contrato deve ficar claro que o divã é para o psicanalista como a cadeira do equipo de um dentista, e tantas outras. Sem divã, fazemos


vários tipos de psicoterapias, menos psicanálise. 6.6. Intercâmbio de Tempo e Dinheiro O dinheiro da psicanálise tem uma função econômica por excelência. Pode parecer absurdo esta afirmação, uma vez que dinheiro é sempre fator econômico. Só que o termo econômico em psicanálise tem outro significado. É uma carga de valores que domina uma relação. O dinheiro tem aqui uma importância diferente dos demais atendimentos médicos ou paramédicos. É tanto assim que empregamos o nome sessão em vez de consulta. Além do mais, o paciente de psicanálise gasta muito mais e durante muito tempo, do modo como não despende recursos quaisquer outros pacientes, excetuando os casos de internação e cirurgias. Deve ficar claro que o paciente precisa do analista para resolver os seus problemas e este tem um preço e uma competência que lhe


coloca ao dispor. O psicanalista deve ser rígido na questão dos honorários, não atendendo de graça, sob nenhuma hipótese. E por que? Quem não pode pagar pela análise também não será beneficiado por ela. Sem falar nos complexos que seriam plasmados, dentre eles o de inferioridade, o de devedor eterno, etc.. O psicanalista informará que aqueles 50 (cinqüenta) minutos lhe pertencem (ao paciente) e deve pagar por eles. Quanto à questão do valor, é inversamente proporcional aos problemas enfrentados e às dificuldades deles advindos. No contrato, o psicanalista deve fixar o seu preço, o modo de pagamento, podendo ser por sessão, semanal ou mensal, sendo este o preferido. Podemos também ter preços diferenciados, de acordo com as condições do paciente e a quantidade de sessões semanais. Entretanto, que nunca um paciente saiba o quanto os demais estão pagando. Não devemos ter uma tabela de preços afixada. Finalizando, o psicanalista não deve dar a mínima para as alterações financeiras do


paciente, ter pena, ou mesmo trocar idéias sobre tais problemas. Quanto a isto, ouvimos, como a qualquer outro problema. Não nos esqueçamos de que tudo deve ser interpretado. 6.7. Freqüência e Duração das Sessões Freud psicanalisava com 05 (cinco) sessões semanais, dando folga apenas nos fins de semana e feriados. Com o passar do tempo as condições econômicas e do próprio tempo que se dispões tem mudado. Nos últimos anos temos encontrado uma situação intermediária que satisfaz – três sessões por semana. Mesmo assim é muito difícil encontrar quem possa arcar com tamanha despesa. E por causa desses complicadores, tem-se optado por duas sessões e, não havendo outra maneira, uma sessão. Mas seria isto um barateamento da psicanálise? Não. É uma adaptação da ciência de Freud aos tempos bicudos que vivemos. Mas


não enganemos os nossos pacientes – é muito difícil trabalhar assim. A psicanálise acaba virando uma psicoterapia comum, com pequeno alcance de material reprimido. O que fazer? O psicanalista precisa, ao menos neste caso, forçar um pouco para que o paciente entenda a necessidade de uma freqüência mais amiúde, pelo menos duas vezes por semana, mesmo que isto sacrifique suas economias e obrigue uma mudança radical nas suas contas pessoais. Quanto à duração das sessões, é igualmente histórico e comprovado que um período de 50(cinqüenta) minutos é o adequado. É tempo suficiente para o paciente relaxar e começar a falar. Não devemos diminuir o tempo com a desculpa de abaixar o preço. Não devemos aumentar igualmente por qualquer hipótese. Vale a pena tomar cuidado com certas correntes modernas de psicanálise que pregam a possibilidade de gasto de tempo menor.


6.8. Tempo Provável de um Tratamento Embora haja psicoterapias rápidas, algumas até com fundamentação psicanalítica, vale lembrar que psicanálise não se preocupa com o fator tempo. Não podemos submeter ao tempo fatores ponderáveis e que dependerão de circunstâncias mil para virem à tona. O próprio processo psicanalítico está sujeito a vai-e-vens que cada caso determina. Além disso, existe o problema potencial da relação: neurose – profundidade – conseqüências – personalidades – caráter – psicanalista – questões do par analítico – intensidade da transferência – complicação da contra-transferência – inteligência do paciente – idade – RTN , etc. Tudo isto acena para a impossibilidade de fixação de prazos. Contudo, a experiência tem mostrado que, em média, um tratamento completo dura cerca de cinco anos. Pode ir até dez anos. Em alguns casos é interminável.


Quando falamos na possibilidade de uma análise interminável, quase sempre causamos um bom susto. Mas não é difícil argumentar. Basta lembrar que muitas enfermidades somáticas são mais ou menos assim: cardiopatias, diabetes, neuropatias, reumatismo, etc., tem que ser tratadas a vida toda. Não há cura do ponto de vista do banimento da enfermidade do organismo. Sem falar nos casos renais crônicos que obriga o paciente a hemodiálise três vezes por semana, permanecendo ali cerca de quatro horas. E ninguém desiste por causa disto. 6.9 FÉRIAS O psicanalista deve contratar também o seu período de descanso semanal, aos feriados e anual. Estas férias devem atender também as necessidades de descanso financeiro do paciente quanto de um período de cessação de trabalho, que funciona bem para realimentar as


esperanças e fortalecer a transferência, quando for o caso. Podemos optar por 30 (trinta) dias corridos ou dois períodos de 15(quinze) dias. Entretanto, esses períodos devem ser fixados de antemão. Muito raramente se admite alteração nessa cláusula. Trabalhar direto, é contraindicado por todos os motivos. 6.10 Regra da Livre Associação No contrato fixamos também que o nosso trabalho tem uma metodologia rígida, não por questão de intransigência, mas de princípio, de doutrina. A regra áurea é a livre associação de idéias, psicanálise é isto. Fora dessa regra o que existe é método catártico, apoio, papoterapia, condutoterapia, menos psicanálise. Nosso objetivo, o da psicanálise, é tornar o inconsciente, o Id, consciente. Pretendemos e conseguimos trazer todo o material recalcado no Id para a superfície, para o consciente, para o ego. Uma vez à tona, interpretamos e o próprio


paciente se dará conta dos problemas, suas causas e aprenderá a conviver com tais, e se for o caso, promoverá a catarse. Naturalmente que o paciente não se envolverá tão facilmente assim. Leva algum tempo para entender e conseguir falar o que vai passando pela mente. Durante bom tempo ele vai tentar dialogar com o psicanalista, o que evitamos, com o silêncio absoluto. Será necessário uma ligeira palestra do psicanalista ensinando ao paciente o que é livre associação. Pode ser recomendável que se dê alguma coisa a respeito para o paciente ler. Podemos fazer certos exercícios que introduzam no método, etc.. De qualquer maneira, tratamento psicanalítico não é um papo em dias, horas e local marcados.

6.11 Pagamento das Faltas


Embora este critério não seja exclusivo da psicanálise, tem para nós uma importância capital. O paciente às vezes foge das sessões por motivos conscientes ou inconscientes. De qualquer maneira tais motivos são resistência. Mesmo quando diz que não tinha dinheiro, razão pelo que optamos pelo pagamento mensal, para evitar esta desculpa. Deve ficar claro que a sessão agendada é dele e ele paga, quer compareça ou não. Isto aumenta a responsabilidade do tratamento. Devemos ser rígidos nesta cláusula, dado a fenomenologia presente e intensa. Não devemos entender também o aumento inesperado de sessões semanais, fora do que se contratou, a não ser por motivos bem claros e discutidos, pois pode se tratar de necessidade transferencial que não deve ser alimentada ou fortalecida. O processo deve ter a necessária rigidez, porque tudo é tratamento. 6.12 Mudança de Horários


É bastante comum ser solicitada em pacientes fóbicos, ansiosos ou limítrofes (especialmente esquizofrênicos). Não deve ser de tudo proibida nem incentivada. Damos bom exemplo quando subordinamos toda a nossa vida aos compromissos da psicanálise. Se o psicanalista hoje e amanhã troca horário das sessões por motivos fúteis, é claro que o paciente vai se sentir no direito, isto nos é adverso.

6.13 Material Onírico Psicanalista que se preza não pode fugir dos sonhos nem possuir deles idéia mística, fantástica, sobrenatural, religiosa ou banal. O sonho é o melhor material que a mente fornece. No sonho as informações são completas e livres de bloqueio. Vêm, contudo, revestidas de simbolismo aparentemente instransponíveis.


O que fazer com os sonhos? Interpreta-los à luz da técnica freudiana. Não se interpreta sonhos sob a ótica da astrologia, ou do jogo do bicho. CUIDADO! Lembremos também que os sonhos são reconhecidos até mesmo na Bíblia como material merecedor de crédito. Todo sonho é a satisfação de uma necessidade. É claro que não estamos falando dos sonhos proféticos, mas daqueles produzidos pelo inconsciente para romper a barreira do superego, das censuras. A interpretação dos sonhos será estudada à parte. 6.14 Regra da Abstinência Por abstinência entendemos o não envolvimento do psicanalista com os afetos, os problemas do paciente. É claro que existe a


contra-transferência que cada analista terá que trabalhar, embora não ocorra com a mesma intensidade com todos os pacientes, e nem mesmo durante toda a nossa vida. CUIDADO! É de Freud esta máxima “se quisermos que alguém nos abra o coração, devemos começar por abrir o nosso”. Ela serve para tudo, menos para a prática psicanalítica. A primeira vista poderia parecer justo que o psicanalista permitisse, da parte do paciente, a visão de seus próprio defeitos e de seus próprios conflitos anímicos, abrindo a sua vida íntima aos olhos do analisado. Mas esse modo de proceder não acarreta nenhuma vantagem ao tratamento, pelo contrário. Incapacita o paciente no sentido de vencer as suas resistências profundas, provocando-lhe, cada vez mais e mais, uma curiosidade incansável, chegando mesmo a encontrar na análise do psicanalista encantos e atrativos bem mais interessantes que a sua própria análise. Sem falar no fato de que o analista informaria sobre a sua contra-transferência, seus afetos, pelo paciente.


Nessa linha de raciocínio, também o psicanalista não se interessa pelo paciente. Não existimos para satisfazer o paciente. Não temos como satisfazer e não nos deve interessar, nem mesmo como é que o paciente o conseguirá. 6.15 Postura do Analista O psicanalista não deve provocar distanciamento com a máscara de semideus ou super-homem. Deve ser uma figura natural, que inspire confiança e não provoque especulação além das fenomenológicas naturais. O psicanalista deve vestir-se bem, sem ostentação. Não deve usar roupas anacrônicas nem modismo demasiado. Deve, contudo, ser uma pessoa agradável, quer pela indumentária, quer pela higiene geral. Precisa ouvir sem manifestar susto com o conteúdo comunicado. Não pode manifestar escrúpulo nem qualquer espécie de julgamento.


Na recepção do paciente, deve estenderlhe a mão para um bom dia, boa tarde ou boa noite, sem exageros. Nada de beijinhos ou tapinha – essas coisas serão interpretadas pelo paciente como afetividade e favorecerá ou fortalecerá a transferência. Quando o paciente falar algum gracejo, devemos rir de leve. Se não o fizermos provocaremos o constrangimento inibitório. Não devemos rir às gargalhadas com o paciente – o paciente é quem está em análise, não nós. Não podemos dar ao paciente a idéia de que a sessão no interessa d modo pessoal, que nos sentimos bem com ele, etc.. E quando de encontros fora do consultório? Cumprimentamos sem fazer qualquer referência a condição de paciente e psicanalista. Não devemos apresentar o paciente a outros como tal. Não devemos “nos abrir” , nem mesmo nesta situação. Paciente é paciente, em qualquer lugar que esteja.


7. Livre Associação 7.1. Definição Como definição, podemos dizer que é o casual de idéias que se relacionam entre si e que são verbalizadas sem preocupação lógica ou estilo. A livre associação é parte fundamental do processo psicanalítico. Sem ela não existe psicanálise, porém, monólogo ou diálogo. O processo psicanalítico não consiste em um paciente falando o que consegue lembrar ou simplesmente ocupando os ouvidos do analista. Na livre associação fala-se do que vem naturalmente à cabeça e não daquilo que procuramos no material mnético. Podemos afirmar que leva algum tempo para um paciente associar livremente. Quando no muito, começa falando desembaraçadamente, o que não é o mesmo. Para a livre associação é fundamental o uso do divã. Ali o paciente encontra uma posição de conforto que favorece essa manifestação do


inconsciente mais naturalmente. Lembremos que todo material recalcado ao inconsciente está ali como que colado, arraigado. Não é fácil desprende-lo. Certas condições mínimas são necessárias. A mais eficiente é aquela em que o indivíduo é convidado para falar em uma posição que normalmente não utiliza para tal, e sim para dormir. Há uma predisposição mental ao relaxamento próprio do sono e a capacidade de verbalizar. 7.2 O Processo da Livre Associação É indiferente o tipo de material que se tenha, que o paciente apresente: pode ser a história do analisado, as recordações infantis ou mesmo a história de enfermidades. Não é um interrogatório nem um diálogo travado entre psicanalista e paciente. Algumas vezes fazemos perguntas, mas não sistematicamente. Aliás, procedemos melhor quando as nossas perguntas induzem uma compreensão. É verdade que tal libertação é, de


certa forma, um pouco de aplicação do método catártico. Outrossim, quem traz à tona tais idéias latentes é o paciente, não o analista. O psicanalista não é escafandrista, um mergulhador. No máximo atua dando cordas à imaginação mnética. O paciente escolhe o ponto de partida d sua conversação. Entretanto, cabe ao psicanalista perceber se sua conversa não passa de “ um contar do dia-a-dia”. Às vezes o paciente fala muito exatamente para não falar o pouco que deve. A conversa funciona muitas vezes como bloqueio, resistência. Desse modo, o psicanalista pode alentar sobre a improdutividade do material verbalizado, mas isto com muito cuidado. Devemos ensinar que o paciente deve falar o que apareça sem esforço de recordação na mente, e não falar por falar. O paciente não deve raciocinar sobre o que está dizendo, quando ocorre o raciocínio, o que há de fato é uma seleção, como se o paciente pudesse definir o que é importante e o que não é. Na base dessa seleção é encontrada a resistência. Uns dizem: “Lembrei de algo, mas isso não é


importante, não tem nada a ver”. É exatamente aí que temos que trabalhar e fazê-lo entender a presença de uma resistência, de um bloqueio. O paciente não deve se preocupar com o que está dizendo. Deve agir como que estando a “pensar em voz alta”. Transmite todas as idéias que forem surgindo,mesmo que sejam agressivas, pareçam vergonhosas, banais, conflite com os seus costumes. Aliás, uma das coisas mais responsáveis pelo recalque é exatamente o “pensar de um modo e falar de outro”. Isto é cometido pelos padrões culturais e pela hipocrisia das religiões, etc. Sintetizando: “Coloque-se diante do psicanalista como um passageiro olhando da janela de um trem, em velocidade, e, vá narrando o que se passa na tela da sua imaginação”. ( Dr.Gastão Pereira da Silva)


7.3 Uma Aula Sobre Como Trazer à Tona as Idéias Recalcadas Obs: O conteúdo que incluímos sob este título foi extraído do livro de J. Ralph, “Conhece-te pela Psicanálise”. Vou ensinar ao aluno como se deve pescar. E não só como pescar, mas também, o lugar bom para uma boa pescaria. Mas não se trata de peixes; trata-se de pescar idéias. Não as alheias, mas as suas próprias idéias. É verdade que, sob certas condições precisamos pescar as idéias dos outros; mas, comumente não há necessidade disso. Há muitos indivíduos, com efeito, que com a maior sofreguidão, no oferecem as suas, graciosamente, sob a forma de convicções com sua última atitude mental; e com que energia procuram demonstrar que suas idéias são próprias, espontâneas e desinteressadas. Não, o que pretendo agora é ensina-lo a pescar as próprias idéias. Naturalmente, elas lhe interessam muito. Mas vai uma grande distância


entre interessar-se por uma coisa e possuí-la, goza-la integralmente. De nada nos vale uma ótima coisa, que apreciamos muito e pela qual muito nos interessamos, se não podemos utiliza-la justamente, quando e como queremos. E se o não podemos fazer, é porque a coisa não nos pertence de fato, e, se por acaso consideramos nossa, somos, positivamente,vítimas de uma ilusão. Nesta pescaria, que empreenderemos juntos, vamos adotar um anzol mental. Será uma pesca extremamente prática e de grande proveito para a sua personalidade. Quero ensina-lo a trazer a consciência (de modo a que se possam confrontar) as idéias responsáveis pelo seu temperamento: as boas e as más, as fortes e as fracas. Nas profundezas do inconsciente há um grande sortimento de idéias e lembranças que a gente supõe serem próprias, originais; na realidade a natureza e as tendências do procedimento consciente são condicionadas por estes elementos mentais submersos.


Poucas, entretanto, são as pessoas que tem a noção exata de suas próprias reservas mentais, ou uma noção inteligente dos alicerces inconscientes sobre as soterradas (idéias). E, quando afluem, escolhemos as que são utilizáveis, rejeitando as restantes para as profundidades do espírito. O nosso equilíbrio mental depende do critério de seleção: se o critério na escolha é bom, será o nosso benefício; se é mau, o nosso bem estar sofrerá os prejuízos resultantes. Há, ainda, uma outra maneira de pensar, a que devemos referir, de passagem: é um sonho acordado, o devaneio. É um modo de pensar que não dá vantagens ao indivíduo na luta pela vida. Com efeito, a atenção, em vez de se dirigir, intencionalmente, a um objeto mental definido, é atraída, nesse caso, pelas idéias – desejos. Representa esforço para alcançar uma via imaginária a que não se consegue na vida real. Sendo um meio de se fugir às realidades da vida, constitui uma espécie de ópio mental, que devemos, portanto, evitar a todo custo. O que o aluno vai conhecer agora é uma outra atitude mental, onde a atenção não é, nem


dirigida, nem atraída, mas existe, por um espectador passivo, aos desfiles das idéias que, sob certas condições, aparecem no horizonte da consciência. Essa atitude é conhecida, tecnicamente, sob o nome de livre associação de idéias. Na livre associação as idéias fluem e se sucedem sem intervenção consciente, sejam agradáveis ou desagradáveis, importantes ou não, na aparência. O que não significa que basta levantar a tampa do caldeirão do inconsciente para que transborde uma variada procissão de idéias e, com isso, se obtenha um resultado proveitoso. Não. O resultado pode ser inteiramente outro. Sabemos que toda a idéia que surge na consciência tem suas raízes nas profundidades do espírito; e sabemos, também, que se pudéssemos seguir essas raízes, desde a consciência até as suas origens no inconsciente, haveríamos de chegar à origem dessas idéias, isto é, às lembranças soterradas de que ele não é mais do que a expressão. Tomemos uma determinada idéia; coloquemo-la, como se fosse uma isca, na consciência; abstenhamo-nos de qualquer análise consciente; afastemos de toda a crítica todo o juízo, toda a


condenação, enfim, toda e qualquer forma de intervençãoconsciente; deixemos que outras idéias venham juntar-se à primeira, que faz o papel de isca, apenas por uma associação puramente simpática, que entre elas possa existir. Vamos obter, assim, uma livre associação de idéias. Nesse processo, a idéia que ocupa em um determinado momento o campo da consciência, liberta, atraindo-a para si, a idéia imediata, exclusivamente em virtude de uma associação simpática que as une. Não entra no processo nenhuma interferência intelectual. O pensamento consciente, ao contrário, é um processo essencialmente de seleção; somos nós que atraímos as idéias para a consciência e, então, depois de analisa-las julga-las, medi-las, retemos as que nos convém e rejeitamos as que não nos interessam. Para se obter uma boa associação de idéias é necessário afastar completamente esses esforços intelectuais e assumir, perante a consciência, a atitude de simples espectador do que vai acontecer. Deve-se assistir à procissão de idéias sem interpor nenhuma influência intelectual.


Essa atitude mental não é difícil de se obter. É antes uma questão de habilidade. E, uma vez conseguida, basta um pouco de prática para repeti-la, sempre que se entender ser útil e necessária. Lembre-se sempre que uma idéia sempre penetra na consciência por ação do acaso. Toda idéia que, mesmo que seja por um tempo mínimo, ocupa o centro da consciência, aí não entrou por acaso. Ou foi empurrada pelas influências subjacentes, ou foi atraída pelas condições de superfície. Se, no exemplo da idéia – isca, nos abstivemos de qualquer influência intelectual sobre ela, vai se operar uma associação livre de idéias, constituídas das lembranças que são as suas próprias raízes; e deixando que essas associações se realizem livremente, nem fluxo ininterrupto e contínuo, a consciência há de se reconhecer, por fim, a lembrança exata que constitui a sua origem. Na livre associação, a idéia estimuladora (isca), que se encontra na consciência está presa, por laços bem definidos, a ser um conjunto de lembranças localizado em algum ponto da vasta região do inconsciente; e se pudéssemos seguir a


linha das associações que une entre si, estes dois fatores, haveríamos de conhecer, rápida e nitidamente, a influência que as memórias soterradas exercem sobre nossa conduta consciente. E isso porque teríamos assim conseguido ligar o efeito à causa . RESUMINDO: A livre associação de idéias é a VIA RÉGIA que condiz à compreensão do processo pelo qual a conduta é controlada pelo espírito inconsciente; se o método for bem aplicado, pode-se, mesmo, reconstruir a personalidade consciente, abrindo-se aos nossos olhos perspectivas de maravilhosas possibilidades.


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Livro Técnica V  
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