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Textos em versos publicados no blog “Palavras...”

Sérgio Araújo

Verso I


Poesia

Poesia Idéia vaga Presente, ostensiva Grata. Vertente literal primária Inconsolavelmente refratária Poesia Grata inerte Verte Refrata A lítera morte que lhe tecem! Dos cânones da língua, pioneira, poemassiva. Poesia, forma tão ativa Híbrido cânone, linguitísica Bossal, cinestésica total Cafetina, teleeletroniconcretina.


Efeméride

Do alto dos seus últimos andares A cidade passeia tranquilamente. Sob as cortinas, sobre os altares, Em seus vales, - silos de serpentes Repousam frios em seus azares Generais intransigentes, Bundas e bustos, infernos capilares, Bostas de pombo – renitentes Salpicadas no bronze esverdeado dos Cézares. Braços de boneca, Bola de gude no asfalto, Alguém morreu ali na esquina colega! Um cafezinho por favor! Táxi! E esse ônibus que não vem, que horror Catarro nas frestas de uma avenida ensolarada. No chão da cidade, A cidade passeia tranquilamente!


Splat Plek

Splat plek tam tam tam a máquina comeu a poesia ao óleo Você sonha dissonha e atarraca o dedo na CATRACA Plek Splat Tam tam tam castração castra ação do dedo que não mais indica codifica Mas saque do coldre empoeirado um poema QUENTELOMÉTRICO para ler entre limalhas cuidado Levanta e corre correcorrecorrecorrecorrecorre que a esteira não morre PARA! PEGA! PAGA! Splat! Plek! A máquina comeu!


A contragosto

A contragosto, Desgosto dos traços e troços Da minha vida útil. Desinventando memórias, Destroçando histórias, Malamanhado em terras alheias. Sons inaudíveis movem e renovam A volatilidade da minha alma vasta Redesenhando trilhas, Segredando versos nas margens do dia.


Um poema

Um poema Não nasce do nada É tempo e espada Um poema Nasce na rua Que não é minha Nem sua É pau e pedra Na vida do poeta


XXXII

Deixarei Que os espaรงos Todos preenchidos Sejam solavancos Em meu corpo de avestruz E em minhas pernas O que reluz Nestes espaรงos, espaรงos todos Sejam espaรงopernas Que perneem Preenchendo mundos.


Recife

Por cima uma ponte Por baixo S a l t a m Cocas tamanho famĂ­lia E entopem Com tampinhas As malhas da rede Enredada E atada Por nervos ponte-agudos Enquanto foge por ali Um casal de apitos Na avenida boa vista Saqueadores de caldo de cana E um velho poste No ponto da torre cinza arcaica DaĂ­ em diante Ausente O sol De par a par Pardo Pardeja


Em lĂ­vidos olhos de janela. Fria Como a ĂĄgua matinal (a janela da casa verde) pinga cacos de vidro fosco.


O menino

Em vagas manhãs Por onde o tempo recorta silhuetas de papel Nuvens jovens Percorrem os caminhos dos pássaros. Em tardes infinitas O menino sonha Os sonhos de vento Rasgando as copas das árvores Numa melodia anônima. Numa noite intensa O poeta vê o invisível código A trama íntima Ao desenhar manhãs Com tintas de tarde E noites profundas.


XXI

Volver aos arcos do n贸 Revirar As tralhas Respirar Entulho Tronco Trambolho Inocente certame do olho Na fria agonia Da Q U E D A.


A lua e a estrela

A lua e a estrela N茫o cabem num ponto Nem alfa Nem 么mega Apenas o tempo Como as cartas de um baralho Embaralhado Embaralha tudo Num ponto Entre a lua e a estrela


Navegantes

Senhores navegantes, Parem o barco! O perfil cinético das borboletas azuis Circunavega seus corações intranquilos. Adeus Cordas soltas à maré! Atlas, contas do mar, sol, anzol Rebrilham nos olhos de peixe E óleos ancestrais. Canibal à praia! Âncora veloz ao fundo azul. Senhores navegantes, Olhai o fundo fosco da maré azul e Rasgai papiros ilustrados, Mapas E restos semânticos De bulas pós-ardidas. Senhores navegantes, Libertai as palavras-coisas E surgirão versos andantes e rimas-remo Na cara suja da normalidade.


IX

De todos os ventos daquela tarde, um era tímido e o outro velava a morte do sol nas sombras de um muro branco. Um cachorro vadio dava voltas em torno de si enquanto um vento não trouxesse o odor das latas de lixo. Era um perfeito dia de sol e sombras. Dia do vento libertador e seu pégaso afoito, agitador, infalível em sua missão de escancarar portas e janelas esquecidas pela rotina dos dias. Vento que arrasta consigo a luoca dança da poeira dos cantos que impávida como a sombra de uma árvore projetada nas escadas vazias, retorna espalhada sobra a calçada lisa. Foi assim em todos os espaços que os ventos conquistavam. Nas esquinas, correndo e cantando entre ruas e buracos de parede até partir, para retornar agora suavemente e contar as histórias das tardes e dos ventos.


Rápido

Lá está, em meio à multidão e eu a vejo como num tape, com seu sorriso ensolarado. Rápido me perco e te encontro a passar... Acho que foi naquele automóvel novinho em folha e lá se foi mastigando bichinhos de açúcar.


Salinas

Vida de sal e sol que adentra a aurora e o mar sereno. Vida que imprime o rumo, que infla o pano, que apruma o leme e deixa ao vento as sinas soltas sobre a espuma. Vida de pescador que na bruma leve carrega o barco ligeiro nas águas plácidas das Salinas. Vida de coragem, orgulho e fé; de ver no mar a mãe que ensina, mãe que cuida, mãe menina. Vida de pescador. Vida de todos os sonhos e conquistas, Vida vivida, atrevida Docevida, Margarida.


Verdades e mentiras Assim como o tempo que não esconde os restos dos dias, eu não uso óculos escuros para ver os trolhas com seus trapos divinos e suas teses truculentas traçando o destino dos cordeiros empastelados no rush sanguinário, metropocêntrico. Assim como a história que se repete, carrasca. Eu vou de bonde pra não ver os becos em que te escondes. Assim como o gene ancestral eu passo mal de ver a cara suja de um peixe podre a proclamar mentiras glaciais, a acender fogueiras virtuais que não queimam os ossos mas abrem fossos. Mr. Bishop, tenha dó. Assim não dá. Eu não te aguento mais!


Metáforas Enquanto a faca do horizonte, Distante, Corta a carne crua De uma estrela nua, O dia sorri na neblina Estonteante Como um copo de blues A transbordar sonoro, Metáforas soltas Na transparência efêmera Que o dia I r r a d i a.


Meninos invisíveis Quando chove na rua dos meninos invisíveis Um galo canta ao meio-dia Fazendo arrelia do vigia das madrugadas. Eles sabem que as flores mais bonitas São as margaridas das queridas irmãs Marias. Saltam, correm, Buscam borboletas nos bosques E os postes são palitos pelados que brilham nas noites frias. Quando brilha o sol nos bicos dos bules Nas manhãs gulosas das mães Marias, Os meninos invisíveis Saltam dos chinelos Comem, bebem E guardam restos de mesa para o vigia do dia. Quando a noite chega Com suas meias e ceias, Os meninos invisíveis se apagam Em sonhos de gigantes, Zé-come-lata, Homem meleca, Unha do cão, Rapa tição.


Nietzscheanas nº 1

Eu olhava para aquelas sombras Que constantemente dançavam em torno de mim E o conforto que sentia Era a solidão, A distância que de mim se fez constante E me conservava intacto, Delirante. Por muito tempo eu olhei para o abismo E enfrentei seus monstros itinerantes Salpicados de realidade E pesados Sobre os ombros dos atores ideais. E aquilo era mau. Transbordava o peso das correntes E asfixiava como um nó na garganta. A voz calada, A palavra não dita, A desdita. Em torno de mim Selvagens discursos; Profusão de olhos laterais. Escolhos, Que nada viam, eram vistos. Há luz... Há luz... E no solstício o solo primeiro percebe Quem desce para matar a sede de liberdade E libertando-se Ainda há tempo De tocar a réstia, De dizer a frase, De ascender infante A tatear rotinas.


Nietzscheanas nº 2 Estupefata a civilização de pátrias molestadas Reclama que do alto dos picos E das cinzas dos abismos Ouça-se a voz intempestiva a apontar barbáries. Eis o cálice ditirâmbico! Quem ousa ultrapassar o círculo ilusório Que aprisiona, intimida e fere? Quem, dentre as ovelhas reticentes Vê o demiurgo que sangra Em incomensuráveis convicções E apriorismos imberbes? Lá está o homem novo! Eu o vejo Num dèjavu embriagado de séculos A irradiar potência numa espiral infinita, Impregnada das páginas de Kafka, Nietzsche, Dostoiévski E Augusto dos Anjos. Mestres da modernidade, Dilacerados em seu tempo, Anjos e demônios, Ventres abertos para o infinito.


Bar Continental De quanto tempo disponho Para viver congelado na íris estreita Desta janela vesga? Pouco me resta obter Sem optar por constrangedora aquarela Pateticamente posta Sobre a marquise de ferro fundido Do bar continental. Não sei por onde anda aquela disponibilidade sempre presente. Não sei dispor de um tempo Fundido em aquarelas, janelas e íris de marfim. Não sei Se louco ou santo É o sonho abissal Congelado sobre a marquise Do bar continental.


Qualquer dia Quando sair na chuva Qualquer dia Desses dias de sair Dia de ser Dia desses... Eu então direi O que ouço O que sei Direi da estante Cheia de livros Dos ingressos antigos Daquele bilhete de viagem Já te falei da carta? (que não enviei) Do cartão da turma? Tua foto no panfleto Um manifesto Meu poema de protesto Volta e meia Ainda saio na chuva Quem sabe Te vejo de novo Olho no olho Escrevendo versos silábicos Incertos Secretos Concretos.


Teu tema Parece que foi ontem O teu braço em minhas mãos O relógio E você sorri O teu rosto Uma rima O teu oposto Você ainda me vê? Eu ainda sou o teu dilema O teu tema Ainda te vejo Breve Nas luzes coloridas Na noite que te esconde Num bilhete Onde?


Minha mão poética Minha mente concreta Não desliza no papel, Salta. Saculeja indomável Sobre pautas paralelas. Minha pena discreta Sobrevoa palavras Já escritas Bafejadas pelo tempo, Desvendando ritmos e dimensões. Minha mão poética Tem vontade própria, Gosta de espaços infinitos E tinta preta.


Na porta

Parada Na Porta Suporta Ereta Beija O Vento Que Te Lanรงa Pra Dentro Suposta Seja A Porta Que A Lanรงa Nรฃo Importa Ventania Adentra Suplica Que Te Beije Na Porta


À sombra do vento

Fala dessa história Que gira o sol do girassol. Diz que à sombra do vento, Como um espelho de duas faces Um ser é um nada, Clandestino! Com a cabeça na terra E os pés no espaço. E nos lábios, Um sorriso descontrolado. Dia-a-dia À procura de um raio de sol Numa esquina, Num disco de rock Ou num livro de Jack London. Conta em que janela se passa essa história, Para que eu possa dizer-te Que danças sobre pedras quentes Com braços e pernas de serpente. E a felicidade É um pêndulo, Pendente Como a espada de Dâmocles.


Versos novos Perdão pelo poema que não escrevi! Quem sabe, seja a noite Com suas sombras esquálidas, Talvez seja o dia que me prende Em seus espaços retalhados. Perdão! Pois navego como tantos No mar de fragmentos, Frases, fontes e formas. Perdão, enfim, Por antever que amanhã Poderão perdoar-me Pelo não dito E que, apesar disto, Nascerão livres de toda a tristeza, Versos novos e sonoros Salpicados de fantasia.


Decifra-me ou devoro-te

Vê essas tardes? Que desprezo exalam Nestas folhas sonolentas, oscilantes; Neste céu, Metálico céu. Ouve estes sons? Quão falsos soam. Que terrível prisão Nos acolhe em seu seio de pedra. Quisera Voar Com os pássaros E, súbto, precipitar-me ao chão Para num sorriso De corpo inteiro Fundir-me à terra Numa manhã de sol.


Silêncio

O tempo escoou E eu estou longe Não te observo mais Andando descontraida pela calçada Ou deitada no chão Com um olhar perdido Imaginando utopias Silenciosa ilha.

O tempo passou E eu estou sozinho Pensando em você Sonhando, deitado no chão Observando O quadro na parede Minha utopia.

Pensei num tempo Andando com você No caminho do mar Na trilha das pedras


Sem tempo E sem espaรงo Descalรงos no fim do dia.


Súbito Súbito Surge assim Como quem rouba Um pedaço de dia Num instante qualquer Rasgando fantasias sonorizando frases Vociferando melodias Para mostrar-se Claro Como um poema de Emily Dickinson Atravessando séculos Num Daguerreótipo country Com pássaros E gotas de chuva A tilintar Na cobertura espessa da minha cabeça Assim Súbito


Palavrascoisas

Nada Um vazio Onde outrora havia palavras Palavras coisas Cantantes Sonoras Como uma flauta doce Saltitante Palavras moventes Movediรงas Palavras lisas Cordilheiras lexicais Transmentais Nada Um vazio Vaso Um Verbo Ao acaso!


36º

Um papel Um recado Um recibo rasgado Quinze mil cruzeiros Em outubro de 84 Um cigarro Um cinzeiro Populares de Cuba (Fumar daña su salud) Rio de Janeiro Eu não fui pra Aruba! Li Artaud e Baudelaire Chutei urna no palco Meu poema silábico Você lê se quiser Sua voz embargada Na hora marcada Você diz o que quer Dança e protesta Manifesta! Lê aquela brochura


Ainda há Ditadura Nós queremos diretas! Mas ficou no papel Agora rasgado Um recibo solitário De um sonho sonhado Registrado No CPF e RG Cadê Você?


Quem sabe um dia Quem sabe um dia Eu te mostro a lua Com sua luz metálica Numa noite fria. Quem sabe amanhã A estrada é deserta A noite é prata A relva é vasta E tua voz é leve Como uma navalha Cortando o silêncio. Quem sabe não esqueço Teu endereço E a luz da lua Nos teus cabelos. Talvez! Num desespero de solidão Na escuridão Eu possa te ver Como na primeira vez Naquela noite Na imensidão prateada da lua.


Cavaleiro torto Um cavaleiro torto De silhueta neogótica Percorre o caminho, sorrateiro Na lama putrefatalenankin Filho da arca pulga tricha Esbilte pilotron sanguessuga Mimética solução humanóide Lesa-forma vil vivente Um cavaleiro de longa esfera Filho da arca sila troncha Caminha indeciso Na prima lama dicotômica Cata tenso, na orla empolada Finos fios de palavraspontes Para dizer fundante O que nunca fora antes. Um cavaleiro torto Pouco Só Intrépido arcanjo rococó Arremata a vida num poema Como laço ou como nó.


Tempo curto

O tempo é curto O tempo é mudo O tempo não cabe no meu mundo. Eu curto o tempo Mudo num segundo Meu mundo não cabe no tempo.


Esquina

Agora que estamos sós Juntos, mas distantes Como numa esquina Sem um ponto de encontro Vejo passar o tempo Olho pro céu Gotas de memórias Molham meu rosto E não há nada que eu possa fazer Nem ontem Nem hoje Eu quero estar com você Naquela praça Depois da esquina Eu não sei... O tempo diz não E mesmo que o desejo Seja a bola da vez Eu não te enconto Depois da chuva Com o sol no rosto Naquela esquina.


Elisa

Parou no meio da ponte. Elisa! Chicoteou-le uma lembrança. Por que ela? Logo ela, tão fugaz... Embrulhado na chuva fina, As mãos flácidas, O olhar perdido. Flutua. Não sente o chão, Não sente o corpo, A mente ausente, Apenas repete: Elisa! Elisa!


Estrangeiro

Eu bebo o futuro Como um copo de água fresca No calor intenso do presente. Não me apetece o sorriso fácil Do aqui e agora. Falsa saída, Panacéia improvável. O futuro me pertence Nos versos silábicos que escrevo. Eu canto E minha canção tem pernas longas. Ela verá os próximos séculos E mostrará meu espanto, Não do futuro Que ainda é distante a cada momento. Mas do presente Que nunca existiu. Cantando sigo Indecifrável, perdido de mim, Estrangeiro em minha terra.


O olho de Sócrates

Foi no silêncio da noite, No lapso do tempo Que toda a dor se foi. Do pensar, Do ser como sou, Da natureza de mim Refletida no fundo plano Da rocha. Uma tocha! Inglória figura arquetípica. De resto, o vazio O dia é eterno No tempo que o consome E some!


Um caminho nas nuvens

Na estrada Uma pergunta escondida Juntos buscando um caminho nas nuvens Num céu dourado Numa chuva colorida Que só eu vejo Mas entendo o seu jeito De me dizer com os olhos Nós somos pura história! Com os pés descalços Com o sol no rosto Uma inteligência de óculos D. Juan, Lobsang, Aonde estamos indo? Não importa Eu não fechei a porta Ainda sonhamos Que somos crianças Brincando com o vento Dançando sem tocar os pés no chão Invisíveis, eu juro!


Rock and Roll PĂŠtalas Piras Sim!


Sabe quando você tem certeza?

Sabe quando você tem certeza E ninguém parece se importar com a solução? Quando todos emperram E só você é ação? Quando dizem acabou Você ignora porque sabe alcançar? Entende o motivo da estranheza Mas caminha, mesmo que devagar? Ontem me disseram não haver amanhã. Não da forma como eu queria. Janelas não se abrirão para um céu azul, João não beijará Maria, Canteiros inteiros, estilhaços no chão. Sabe? Hei de apurar minha visão, Conspirar, conjurar, subverter, revolucionar; Lançar palavras num balão, Letras inteiras num muro intocável. Sabe, quando você tem certeza Não está só. Há uma rede clandestina Esperança, confiança Seja qual for o nome da trama, A gente não se engana Se suja, se fere, aposta tudo E sorri pro céu azul Sorri pra Maria, sorri pra João...


Monólito

Eu reconheço este perfume que, de tão íntimo, Abre janelas na minha previsível singularidade. Vagando em nuvens de palavras, Rostos e pedaços amorfos, Estruturas e monólitos, A saudade indecifrável. Teu rosto no rosto de pedra, Minhas mãos no teu rosto de seda. Tristeza e alegria. Parcos ângulos obtusos Silêncios redondos Rodopiam na valsa confusa da memória. Pinçar retalhos de certezas completas Que já não valem mais Brinquedos, são o que são. Afasto agruras, Deixo passar o beijo, o olhar de desejo, A noite eterna E o dia submerso na maciez da pele. Falas, Amigos,


Um futuro distante que hoje é presente E a gente nem sente. Deixo aberto o portal antropofágico, A desordem, O exatamente inverso do que sou Para soar humano Na natureza caótica do meu corpo E na coerência do sonho.


Nuvem

O código expresso Impresso Virtual Sem identidade Só me reconheço No discurso possível Passível Inautêntico corpus Generalizador O que eu tenho a dizer Arranha o disco rígido do meu computador Eu me estranho Eu não sou eu Sou aquilo que me generaliza Nuvem Neblina Perspectiva.


No meu caderno O brilho das cores, festival. A garota bonita e sua sobra no muro. Aonde vai? O cadarço do meu sapato, O Cérebro do poeta, A tabuleta que anuncia: Compro, vendo, troco, Não me importo. Ligue pra mim! O telefone caminha a seu lado. Hoje voaremos sobre a avenida Repleta, solene na valsa dos rostos, em cubos. Quero te achar Depois da partida sem despedida, Dando voltas com os olhos E tudo o que gira Está sob o céu de ontem, Dentro do meu caderno de capa verde Que agora é seu. É meu pretexto Pra continuar te encontrando Nos textos que escrevo.


Leste

Extenso e estático pórtico Genérico, caótico. Guardião do mar, insular. Do leste o vento dourado. Céu mais lindo, Matutino na primavera. Barro secular Escravo no tempo e no lugar. Erodido em arquitetura evolutiva, Cativa, Cooperativa. Ostra, astro rasteiro Certo, Na incerteza dos dias.


Inventando a esperança

Ontem sonhei com uma criança Que na sua dança Inventava a juventude. Sonhei com a terra que, amiúde, Era toda a gente do mundo. O mar não era profundo E o céu era o teto da casa Pingando estrelas esparsas. Sonhei contigo A procura de um abrigo Sonolenta na relva fresca. Sonhei que ontem era amanhã Que toada doença era sã. Sonhei que era criança Inventando a esperança.


Paisagem

Tarde quente de outubro: Silenciosa, テ…ida. Sem sombras na rua deserta e abrasiva. Acolテ。, O azul marinho pinta o horizonte E revela uma poesia de bossa nova. O vento liberta um pテ。ssaro veloz, Ascendente Que respinga gotas sutテュs No meu rosto Quente como a tarde.


Sem lei e sem ordem

Não seria nenhum pesadelo Perdido, sem lei, Sem ordem, Só com minhas lembranças E pretensões. Andando no meu caminho, Ou Parado De frente para mim. Assim... Com coração e mente. Apenas um, Que, de tão contente, Bastasse o vento. Sem tempo Sem.


Homens Simples

Homens simples Homens que nascem com o sol Todos os dias, Que brilham e ficam tristes, Pedem paz e olham-se nos espelhos de casa Todas as manhãs. Com que caras irão para as ruas molhadas pela chuva? Amam o sol da tarde morna, Sonham sob um céu de claras contas. Homens simples! São crianças, o que eu vejo Por trás da cortina fria da melancolia, Além do olhar grave, Da incerteza esperta, São crianças sem brinquedos. Simples crianças; Aprendizes itinerantes Com seus olhos rasos. Não se enxergam na simplicidade do dia. Homens simples! Como talvez seja o mundo,


E o tudo e o nada, O SubterfĂşgio E a gota d'ĂĄgua que hora pinga [Insistente] No meu rosto sorridente.


Silenciosamente

Como slides sem as cores vivas do presente, Eu os vejo, rostos que nunca envelhecem. Sensações perdidas, sorrisos francos. Sombras na memória, deslizam velozmente E me aquecem Suavizando meu pranto. Preciso de tudo isso, mas por enquanto, Vê se me esquece! Perdido e inconsequente, Vou aos trancos e barrancos, Revivendo as cores que esmaecem Silenciosamente.


Correnteza

Na estrada, seguindo estrela Caminhando devagar Cruzando a vida, feiticeira Com vontade de ficar

De todo feito pra vingar Nessa estrada sorrateira Siso pouco, muito amar Solução se faz primeira

Construí casa de cera Castelos à beira mar Muros, ponte, ribanceira Para ver tudo passar

E o que passa vai voltar Quer queira ou não queira Tudo tem o seu lugar No meio da correnteza


Polaroid

Aqui, onde estou, Posso diluir-me num verso Para caber no espaço do teu riso. Posso colher mil maneiras de te amar, Sonhar em cinemascope Nosso beijo lírico de domingo. Rabiscando agora, Nesse velho caderno colegial, Sou ciência humana transitória. Sou saber perdido na tua memória, Fotografia em preto e branco Da minha antiga Polaroid. Aqui, onde estou, Posso construir meus versos em silêncio Para exibir estático numa tela, Posso fazer uma fotonovela E colher o teu sorriso breve Para fazer figura leve No espaço cênico do poema.


Singular

Apenas um instante E condensado todo o amor gerado na vida Explodir no infinito Sobre o futuro Além do tempo e do espaço. Um momento singular Um salto e solto no ar Flanar Com meu corpo inteiro Minhas sílabas certas E meu sorriso de criança.


Devaneio

Acordou cedo. Olhou em volta e não viu ninguém. Não viu a nova máquina, O olho que lhe vê. Sua conta na rede, Seu retrato na parede. Ele não viu você. Não viu o dinheiro dos outros, O sangue na cidade; Ele não viu a maldade. Não viu os cabelos dela, Seu visual progressivo, A conta em cima da mesa, A lata de cerveja. Não viu o herói da tela, As algemas no bandido; Não viu a fita amarela, Nem o choro, nem a vela. Não viu que não via algures, Enfiou-se na escuridão do sono E sonhou contente.


Sonhou com aguardente, Recitou seus poemas de cor e salteado, correu sobre os telhados. Não viu que podia ver, Onde está você, Aonde vai o rio E sua correnteza. Não viu que, deveras, a sua riqueza, Era agora a sua cegueira, Sua nobre visão no devaneio.


Utopia

Eu quero a utopia! Não a ilha, Mas a certeza do incerto, A prova do improvável. Eu quero Vênus, Marte e Júpiter, Quero a Terra no futuro Sem leis e sem grades, Sem fome, crime e dinheiro; Sem políticos, sem trapaça, Sem a ilusão da religião. Eu quero esta utopia. Sem início e sem fim; Sem crença e sem esperança. Eu quero uma utopia Como um poema de Emily Dickinson, Como um pássaro que se equilibra num fio. Eu quero utopia, Literatura, Poesia. Quero sentir a tez da tela, O odor das formas


E a cor do vento. Quero Heráclito, Nietzsche e Foucault, Quero a historia do porvir Tatuada pela máquina de kafka Numa esquina da Névski. Macunaíma na Bahia, Castro Alves e John Donne Numa Lanhouse de periferia. Eu quero o aço, o vidro e o carbono, Supermáquina, Gadgets, widgets e applets. Quero androide na minha porta Com a pizza da madrugada. Andar se pagar passagem, Sem o meu, sem o teu, Leaves of grass! Quero os loucos na praça, E os generais como privada de pombos. Eu quero o ócio criativo, A escolha digitada. Eu quero o silêncio E o barulho do vento nas copas das árvores. Quero Rock, Blues


E um samba de Batatinha. Quero utopia, texto, melodia E não me incomoda a tua censura. Se “é proibido sonhar…”, Eu escrevo pra me vingar.


Soneto

Não serei meu vulto na janela, emoldurado, Quando a clara lua derramar seu leite. Prefiro ser nas tardes dos campos dourados Com os olhos pálidos e as mãos silentes.

Como num suspiro célere, num lamento, Como em noite crua de beijos e abraços, Num instante é brisa, no outro evento Espargindo luzes na solidão dos espaços.

Eu, na vastidão mecânica do meu corpo, Sou nada aflito na superfície, solto Na imaterialidade efêmera do pensamento .

Silêncio! Agora que a luz se esvai em flocos No vazio intenso dos meus sonhos loucos, Sou pluma envolta no lençol dos ventos.


Casamata

Esta noite na casamata Toda branca, enfeitada: O céu iluminado, O chão silencioso, Espumas e risos. Sangue e gritos Na fumaça delgada. Pão enfiado goela abaixo, Circo mambembe para a mente crente. Ninguém aguenta! Prefiro uma ressaca de vodka Na segunda-feira.



Poemas I