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Cor Capítulo 1 ou 2 ou 3 ou 4


A cor não tem existência material: é apenas sensação produzida por certas organizações nervosas sob a ação da luz – mais precisamente, é a sensação provocada pela ação da luz sobre o órgão da visão. Seu aparecimento está condicionado, portanto, à existência de dois elementos: a luz (objeto físico, agindo como estímulo) e o olho (aparelho receptor, funcionando como decifrador do fluxo luminoso, decompondo-o e alterando-o através da função seletora da retina). (PEDROSA, 2003: 17)

Inevitavelmente me questiono sobre como vemos, apreendemos e aprendemos sobre as coisas. Como percebemos o acontecimento cromático? Até me fazer esta pergunta, eu não sabia que estava entrando em um campo minado. Existem dezenas de teorias, cada uma com seu próprio ponto de vista para explicar as cores e como as vemos. Newton, por volta de 1670-1672, dedicou-se ao estudo da óptica e demonstrou claramente que a luz branca é formada por outras sete cores, que poderiam ser separadas por meio de um prisma (esse é o fenômeno da refração). Mesmo tendo lido os dizeres de físicos sobre a composição das cores, para mim, sua mistura nunca perde seu fator mágico. Como pode uma substância que se manifesta “amareladamente” somada 3


servar o fenômeno da refração, era necessário o uso de condições controladas da luz em câmeras escuras, coisa que Von Goethe negou-se a fazer, pois o isolamento do fenômeno nessas condições não considerava o observador e nem a natureza ao seu redor, dedicando-se à investigação das cores ao ar livre. Segundo Lilian Barros (2011: 275): Sua maior descoberta [de Von Goethe] para o conhecimento das cores, entretanto, não estava lá fora, à luz do dia, mas no interior do próprio observador do fenômeno: a descoberta de que as leis da percepção cromática resultavam de uma interação entre a natureza externa e interna do homem.

a outra que se manifesta azuladamente resultarem em uma terceira? Um verde-bandeira?! Isso só pode ser bruxaria! E não me apetece ficar explicitando que em nossos olhos temos receptores responsáveis pela percepção da cor (chamados cones) e outros para a percepção da luz (chamados bastonetes). Colocando alguns anacronismos de lado, digo que compartilho do mesmo sentimento que Von Goethe, que também não se satisfez com as respostas dos físicos, principalmente de Newton. Nos experimentos de Newton, para ob4

Levar em conta o sujeito e sua subjetividade me interessa. Parece-me insuficiente analisar somente a parte mecânica, tanto do objeto quanto do sujeito. Von Goethe foi responsável por ampliar o espectro do estudo cromático e fez isso com uma escrita bem peculiar, como aponta Giannotti (in VON GOETHE, 1993: 11): A Doutrina das Cores provoca incessantemente surpresas e indagações no leitor. Semelhante a um hieróglifo, esta obra parece se revelar somente por meio de fragmentos dispersos no texto. Talvez a principal dificuldade de interpretação decorra do próprio estilo, camuflado ora em rigoroso discurso científico, ora em refinada poética. 5


Tal ambivalência do texto é tão acentuada que Argan, na introdução à edição italiana, chega a dizer que ‘A Farbenlehre é o diário de um estudo prolongado e metódico, sendo tanto obra científica quanto literária, ou talvez ainda, segundo sua intenção, o modelo de um novo gênero literário, a literatura científica’.

Giannotti (in: VON GOETHE, 1993) explicita muito bem essa sensação que tenho ao ler A Doutrina das Cores. De fato sinto ter uma estranha experiência literária, que me agrada bastante. Muitos são os fragmentos que me chamaram atenção, impressionaram e impactaram durante a leitura. Optei por destacar alguns aqui para compartilhar essas minhas fortes impressões de seu trabalho. Os 19 fragmentos selecionados estão transcritos em sua íntegra, descrevendo suas experiências e apontamentos. Em cada um, indico apenas a página de onde foram extraídos, já que todos são da mesma fonte e a informação se perderia se fosse concentrada ao final, ou de outra forma. Escolhi preservar sua escrita porque percebi ter algumas afinidades com seu estilo (VON GOETHE, 1993): As cores são ações e paixões da luz. Nesse sentido, podemos esperar delas alguma indicação sobre a luz. Na verdade, luz e cores se relacionam perfeitamente, embora devamos pensá-las como pertencentes à natureza como um todo: é ela inteira que assim quer se revelar ao sentido da visão. (p. 35) 6

Quando se vê uma imagem ofuscante completamente incolor tem-se uma impressão profunda e duradora, cuja extinção é acompanhada por um fenômeno cromático. (p. 61) Conta-se que no verão certos tipos de flores quase brilham, se tornam fosforescentes ou emitem uma luz momentânea ao entardecer. Alguns observadores descrevem essa experiência com exatidão. Frequentemente procurei ver e mesmo produzir esse fenômeno mediante experimentos artificiais. (p. 66) Duas condições são necessárias para as sombras coloridas: primeiro, que a luz ativa projete algum tipo de cor sobre uma superfície branca; segundo, que uma contraluz ilumine num certo grau a sombra projetada. (p. 70) Durante o pôr-do-sol escolha o instante em que a luz do céu possa ainda projetar uma sombra que não seja totalmente anulada pela luz da vela, de modo que surjam duas sombras, uma vinda da vela em direção à luz do céu, e outra vinda da luz do céu em direção à luz da vela. Se a primeira é azul, a outra aparecerá com um amarelo intenso. Esse amarelo, no entanto, é propriamente apenas o brilho amarelo-avermelhado projetado pela luz da vela sobre todo o papel, que se torna visível na sombra. (p. 71) 7


Quando se pressiona um pouco o canto interno do olho, surgem círculos mais claros ou mais escuros. À noite pode-se perceber, às vezes sem pressioná-lo, uma sucessão de círculos, desenvolvendo-se uns a partir dos outros e absorvendo uns aos outros. (p. 77)1

se cinde em duas metades, e o homem se posiciona como sujeito ante o objeto. É ai que a experiência extenua o homem prático, e a especulação o pensador, ambos sendo desafiados a uma batalha que não terá trégua nem desfecho. (p. 91)

Por fim, é interessante notar que nações selvagens, povos primitivos e crianças sentem grande atração por cores vivas, que os animais se enfurecem com certas cores, e que homens sofisticados evitam cores vivas nas roupas e no ambiente que os cerca, procurando em geral delas se afastar. (p. 84)

As cores podem se fixar nos corpos com maior ou menor duração, de modo superficial ou penetrante. (p. 101)

O espaço, que concebemos como vazio, seria para nós uma propriedade inteiramente transparente. Ora, se é preenchido de tal forma que o olho não nota o preenchimento, surge um meio material transparente, mais ou menos corpóreo, que pode ser aéreo e gasoso, líquido ou sólido. (p. 88)

Tudo aquilo que é vivo aspira à cor, ao particular, à especificação, ao efeito, à opacidade até o refinamento infinito. Tudo aquilo que carece de vida tende ao branco, à abstração, ao clareamento, à transparência. (p. 109)

Em todo o mundo sensível, tudo depende em geral da relação dos objetos entre si, mas principalmente da relação que o objeto mais importante da terra, o homem, estabelece com o resto. Assim, o mundo 1

Nota da autora: Considero esta citação ainda mais especial, pois quando criança eu costumava fazer isso

à noite – enquanto não caía no sono, observava esses círculos irem sumindo.

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Os metais podem ser especificados mediante diferentes gradações e tipos de oxidação em diversos pontos do círculo cromático. (p. 104)

As cores podem ser extraídas de diversas maneiras dos corpos, quer as possuam naturalmente, quer as recebam de nós. Por esse motivo, temos condição de utilizá-las vantajosamente para nosso fim, embora frequentemente, e contra nossa vontade, se tornem fugidias. (p. 110) Assim como a cor encontrada na superfície da flor penetra até o fruto, assim também se espalha pelas partes restantes, pintando raízes e sucos do caule com essa cor rica e forte. (p. 115) 9


Encontramos insetos, entre os quais as conchinilhas, que podem ser considerados matéria cromática inteiramente concentrada, não devendo esquecer o modo como se instalam, se aninham nos vegetais, produz secreções de grande utilidade na fixação das cores. (p. 115) Observamos que as cores surgem facilmente e com rapidez em diversas condições. A sensibilidade do olho à luz, a reação legítima da retina contra ela, produz por um instante um leve jogo de cores. Qualquer luz moderada pode ser considerada colorida; ou melhor, na medida em que é vista, é lícito chamá-la de colorida. Em certa medida, luz e superfície incolores são abstrações raramente percebidas na experiência. (p. 121) As cores químicas atestam uma grande duração. As cores fixadas no vidro, por fusão, e nas pedras preciosas, pela natureza, resistem ao tempo e a toda ação contrária. (p. 126) Pois, sem uma visão do todo, nosso fim último não será atingido. O artista deve se aprofundar em tudo o que já foi exposto. De nosso atual ponto de vista, somente através da harmonia entre luz, sombra, modulação e verdadeira coloração característica é que a pintura pode se mostrar perfeita. (p. 162)

É lindo perceber que Von Goethe é tocado profundamente por esse 10

tema, que sua experiência estética o leva a um profundo estudo, e até mesmo a elaborar experimentos para recriar essas experiências que ele próprio teve ou que lhe foram relatadas. Porém, ele foi criticado por sua Doutrina das Cores, tanto por físicos como por filósofos, em relação a algumas de suas afirmações e experiências cujos resultados não seriam acurados. Já na introdução da Doutrina, Von Goethe (1993: 46) prevê desavenças com outros: Não podemos impor a ninguém tal modo de representar as coisas. Quem, como nós, considerar conveniente, o adotará com prazer. Pois tampouco pretendemos futuramente defendê-lo em lutas ou dissensões. Sempre foi algo perigoso tratar da cor, a ponto de um de nossos antepassados ter certa vez ousado dizer que “o touro fica furioso ao ver o pano vermelho, mas o filósofo se torna irado tão logo se fale da cor.

No século XX surgiu um touro, um filósofo “furioso” a atacar Von Goethe, seu nome é Wittgenstein. Ele diz que a Doutrina das Cores é pouco útil para um decorador e inútil para o artista; e que as cores são conceitos construídos e que existe, portanto, toda uma gramática para que esses conceitos permaneçam providos de significado. Quando digo, por exemplo, que tal ou tal ponto no campo visual é azul, não digo apenas isso, mas igualmente que esse ponto não é 11


Silva (1999, s/p2 ), que em sua tese de doutorado traduziu para o português A Gramática das Cores explica que: Cabe, pois, investigar o uso normativo das palavras para cores, porquanto, assim, pretende Wittgenstein uma descrição gramatical pode perfazer o que seria próprio de uma fenomenologia, na medida em que seu alvo nunca é a verdade da percepção, mas antes suas condições de sentido. A reflexão gramatical incide, então, sobre coisas que, paradoxalmente, perdem sua cor quando passam a ter cores, ou melhor, quando ter cores é estar determinado por padrões para o uso correto de expressões descritivas de nosso campo visual.

A gramática das cores é uma série de parágrafos desgarrados de anotações, aparentemente desconexos. Entrei em contato primeiramente com a produção de Wittgenstein, sendo muito intensa a leitura de alguns de seus fragmentos. Devo admitir que a maioria de seus dizeres permanece hieró2

Informação disponível em: <http://www.ulfs.br/nef/jcsalles.pdf>. Acesso em: 25 out. 2012.

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Ilustração do livro infantil “Minha primeira enciclopédia”. Década de 1960.

verde, nem vermelho, nem amarelo. Apliquei de uma vez toda a escala cromática. Pela mesma razão um ponto não pode ter, ao mesmo tempo, cores diferentes. (WITTGENSTEIN apud GIANNOTTI in: VON GOETHE, 1993: 23)

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glifos para mim, sua lógica extrema parece-me complicada demais, porém é o sentimento geral que tenho ao tentar compreender porque ele se dedica tanto às cores que me mantém na missão de tentar compreendê-lo. Igualmente como fiz com A Doutrina das Cores, optei por dar voz a Wittgenstein (apud SILVA, 1999) e transcrever alguns de seus parágrafos, que me foram importantes: Afirma Lichtenberg: só poucos homens teriam visto um branco puro. Assim, a maioria acaso emprega errado a palavra? E como ele aprendeu o uso correto? – Ele construiu, a partir do uso costumeiro, um uso ideal. E isto não significa um uso melhor, mas apenas refinado em certa direção e no qual foi exagerado. (p. 110) [...] um verde, uma vez produzido através de alguma espécie de mistura de amarelo e azul, não se torna por isso ao mesmo tempo azulado e amarelado. (p. 111) Os homens poderiam possuir o conceito de cor intermediária ou de cor mista mesmo que nunca tivessem produzido cores por mistura (em qualquer que seja o sentido). Seria possível em seus jogos de linguagem tratar-se sempre apenas de procurar, de escolher, cores intermediárias ou misturas já presentes. (p. 111) 14

Pode-se ou não um vidro transparente ter a mesma cor de um papel não-transparente? Se um vidro fosse representado em uma pintura, então as cores na paleta não seriam transparentes. Quiséssemos dizer que a cor do vidro seria transparente também na pintura, então precisaríamos nomear sua cor complexo de manchas coloridas que representam o vidro. (p. 114) Não queremos encontrar uma teoria das cores (quer uma fisiológica, quer uma psicológica), mas sim a lógica dos conceitos de cor. Esta, porém cumpre o que amiúde se espera, sem razão, de uma teoria. (p. 115) Eu não digo (como os psicólogos da Gestalt) que a impressão do branco se produz dessa ou daquela maneira. Antes a questão é, precisamente, o que seria a impressão do branco – qual o significado desta expressão, a lógica do conceito. (p. 118) Embora não haja fenomenologia, há decerto problemas fenomenológicos. (p. 120) As dificuldades que sentimos ao refletir sobre a essência das cores (e com as quais Goethe queria haver-se em sua Doutrina das Cores) residem já na indeterminação / do // de nosso // conceito de identidade de cor. (p. 121) 15


A doutrina goetheana da constituição das cores do espectro não é uma teoria que se mostrou insuficiente, mas realmente é teoria nenhuma. Por ela, nada se deixa prever. Ela é antes um vago esquema de pensamento, de gênero semelhante ao dos encontrados na psicologia de James. Tampouco há um experimentum crucis que posso decidir a favor dessa doutrina ou contra ela. (p. 124) Aqui há uma espécie de matemática da cor. (p. 132) Mas também o amarelo puro é mais claro que vermelho puro, saturado, ou que o azul. E é esta uma proposição da experiência? – Não sei, por exemplo, se o vermelho (isto é, o puro) é mais claro ou mais escuro que o azul; para poder dizê-lo, eu precisaria vê-los. E, entretanto, se eu o visse, então o saberia de uma vez por todas, como o resultado de um cálculo. Onde se separam aqui a lógica e / empiria // experiência //? (p. 132)

Descrição de um quebra-cabeça pela descrição de suas peças. Eu suponho que estas nunca deixem de reconhecer uma forma espacial, mas sim que nos pareçam como pecinhas planas mono ou policromáticas. Só quando composto algo se torna uma ‘sombra’, um ‘brilho’, uma ‘superfície monocromática côncava, ou convexa’ etc. (p. 140) Também não devemos esquecer que nossas palavras para cores caracterizam a impressão de uma superfície sobre a qual nosso olhar passeia. Elas estão aí para isso. (p. 143) Eu trato os conceitos de cores de modo semelhante a como trato os conceitos de sensação. (p. 144) Eu afirmo: Quem não pode jogar este jogo não tem este conceito. (p. 150)

Há uma ‘história natural das cores’? Em que medida ela é análoga a uma história natural das plantas? Não é esta temporal, enquanto aquela atemporal? (p. 133) Que vantagem teria, em relação a mim, alguém que conhecesse um caminho colorido direto entre azul e amarelo? E como se mostra que eu não conheça um tal caminho? – Não reside tudo nos jogos de linguagem a mim possíveis com a forma ‘...ado’? (p. 139) 16

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Josef Albers. Homenagem ao quadrado: Azul e Verde. 1950. Ă&#x201C;leo sobre compensado. 28 x 28 cm.

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O fato de Use, é lindo, eu garanto ser uma plataforma3 para experimentações cromáticas, me fez pensar nas afinidades com o trabalho do artista e professor Josef Albers (1899-1994), mais especificamente sua série Homenagem ao Quadrado. Durante 26 anos esse artista alemão dedicou-se a uma série de mais de 45 quadros, que iniciou aos 63 anos e deu continuidade até a sua morte em 1976. À primeira instância, pareceu-me estranho prestar uma homenagem a uma figura geométrica. Por que esse quadrilátero regular deveria receber particulares atenções? E o que também me pareceu bem inusitado: prestar essa homenagem durante 26 anos (!). Impossível relevar essa demonstração de admiração por essa figura que tem os quatro lados de mesmo comprimento e quatro ângulos de 90º. Com um pouco de pesquisa, achei uma frase do próprio Albers (apud BARROS, L., 2011: 216), dizendo que o quadrado é o palco e também é “o ator e a voz que representam o drama infinito das excitações da instrumentação das cores”. Albers dedica-se integralmente ao estudo desse drama, culminando no desenvolvimento de uma metodologia didática para o ensino das interações cromáticas e, em 1963, toda sua pesquisa como artista e professor resulta em um livro intitulado Interaction of Color. Josef Albers. Homenagem ao quadrado. 1970. Óleo sobre compensado. 40.64 x 40.64 cm

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Plataforma (Informática): estrutura e organização lógica de um sistema operacional.

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Albers (2006) sintetiza toda a experiência que teve como professor ao ensinar as relações cromáticas, criando um método próprio, mas seguindo a filosofia da Bauhaus (onde foi aluno e professor), de que é necessário – para atingir o real conhecimento – que o aluno melhor conduziria suas experiências a partir da percepção direta, e então melhor descobriria a teoria. O livro é composto por proposições de experiências que levariam ao entendimento das relações cromáticas, testes e (re)testes em sobreposições, intensidade, matiz, composições – justapondo, alterando e substituindo as cores –, um complexo jogo com fins construtivos. Sobre Interaction of Color, o próprio Albers (2006: 1) diz:

sições de micro-organismos, Albers debruçou-se sobre a figura do quadrado. Sobre Homenagem ao quadrado, John Gage (apud BARROS, L., 2011: 219) diz que os quadrados assumiam o papel de formas neutras, “particularmente estáticos: eles não possuíam movimento próprio até serem trazidos à vida pelas cores”. E é essa vida que Albers estuda. Assim como Albers que brinca animando quadrados e cores, também proponho uma brincadeira com esses dois elementos, criando meu próprio método sobre percepção dos fenômenos cromáticos, o meu próprio Interaction of Color.

Esse livro não segue uma concepção acadêmica de teoria e prática. Ele inverte essa ordem e coloca a prática na frente da teoria, a qual é, enfim, a conclusão da prática. [...] Nenhum sistema de cores pode desenvolver por si só a sensibilidade de alguém para as cores. Nenhuma teoria da composição por si só leva à produção da música ou da arte.

Insisto em mostrar essa forte relação de Albers com a experiência porque acredito que Homenagem ao quadrado seja sua experiência mais obsessiva, que somente foi interrompida com a sua morte. O artista mantinha a mesma forma (o quadrado) para diminuir o número das variáveis da equação, somente ficando com a variável COR. Assim como um biólogo que se debruça sobre suas placas de petri com seus devidos meios de cultura com estranhas compo22

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Assim como Newton e Von Goethe, o prisma me fascina. Tenho um prisma d`água no meu quarto, que é animado pelo sol no período das 14h às 16h. Observo fragmentos de arco-íris passearem pelo meu quarto. Pela mesa, cama, computador, livros e paredes enquanto escrevo, leio, descanso ou cochilo. Não me surpreende que Deus tenha enviado um arco-íris como sinal de aliança com os homens após o Dilúvio, como conta a Bíblia. Um lindo presente para a humanidade! 25


São vários os artistas que fazem alusão ao arco-íris durante a história da arte como Angelika Kauffmann, Andy Goldsworthy, Olafur Eliasson e Michael Elion.

Andy Goldsworthy. Rainbow splashes. 1980.

Olafur Eliasson. Your Rainbow Panorama (2006-2011). ARoS Aarhus Kunstmuseum, Denmark . 4 Angelika Kauffmann. Self-portrait as “painting” (1779)

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Informação disponível em: <http://www.olafureliasson.net/works/your_rainbow_panorama.html >. Acesso

em: 23 out. 2012.

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Filtrar o que está do outro lado? Não poder esconder nenhum segredo? Pareceme uma qualidade louvável e honesta. “A transparência me interessa. Quero ser transparente. Se as pessoas pudessem ver através de mim, não poderiam de deixar de me amar, de me perdoar. Qual a diferença entre as duas? Não há.” (BOURGEOIS, 2000: 132)

Michael Elion. Rainbow. Instalação na cidade do Cabo de 14 Set - 14 Out, 2012.

Não foi à toa a escolha do material para a criação de Use, é lindo, eu garanto. O acrílico, por ser transparente, permite que aconteça o fenômeno das sombras coloridas. Esse fenômeno me parece de extrema importância, pois comumente as pessoas, ao mexerem no trabalho, e se esse estiver exposto à luz do sol, poderão se ver como modificadores da composição das sombras coloridas, ou até mesmo como anteparo para as mesmas. Essa característica permite que uma parte da obra aconteça literalmente no corpo do sujeito que percebe a obra. Parece que quando é iluminado pelo sol, se anima (tanto a obra quando o sujeito). O que significa ser transparente? Pode ser visto através, como um filtro? 28

Interação com Use, é lindo, eu garanto. 2012

Interação com Use, é lindo, eu garanto. 2012

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Durante meus encontros com Von Goethe e Wittgenstein, ficava claro que procurávamos entender o que pensávamos das cores. Também me encontrei com outros estudiosos das cores, como Israel Pedrosa e John Gage, mas nenhum parecia cogitar o que “as cores pensam de nós”. Comecei a embarcar numa ficção: o que as cores pensam de nós? Elas têm vontade própria? Amam e se apaixonam? Se reproduzem? O meu ponto de partida para esse pensamento fictício foi uma frase de Paulo Leminsk: “O amor é um elo entre o azul e o amarelo”. O amor seria então verde? E não vermelho como supúnhamos? Posso pensar o verde como fruto dessa relação amorosa entre amarelo e azul? Podemos pensar então numa árvore genealógica das cores? Cheguei até mesmo a construir um romance, no qual é narrado o encontro dessas duas personagens5. Queria então consultá-las para saber qual é a verdade: como são, o que são e o que fazem. Pensei ter ficado louca até me deparar com uma fala do artista Olafur 5

Ver Apêndice.

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Eliasson em uma conversa gravada pela Associação Videobrasil, cujo trecho transcrevo aqui: De certa forma, fenomenologia, pra mim, é mais sobre como eu me sinto e faço algo então, para entender essa transformação de como um espaço se altera quando eu o sinto, fui um pouco além da fenomenologia e fui atrás de algo mais absurdo, como o animismo que pergunta como a cadeira se sente quando olho para ela. A cadeira sabe que veio de uma árvore? E ela sabe que, eventualmente, se não estiver totalmente contaminada, vai voltar a ser terra? Essa ideia que as coisas não são objetos, mas são relacionamentos. Andei pensando, e não tenho uma resposta. Mas até que ponto percebemos essa relação intersubjetiva ou interobjetiva entre a cadeira, a árvore e tal. E também entre o trabalhador que fez a cadeira, o trabalhador que cortou a árvore, a indústria, o vendedor, a área comercial, a área de design, a publicidade, o marketing? Foi exploratório? Teve recursos suficientes? Se vamos estabelecer uma relação com a crise climática precisamos entender não somente a situação atual, mas de onde veio e para onde ela vai. Se conseguirmos nos relacionar fisicamente com o futuro, desenvolveremos, coletivamente, um senso de responsabilidade. São essas transformações que me interessam. (ELIASSON in: VIDEOBRASIL, 26/10/20126) 6

Informação disponível em: <http://vimeo.com/32524939>. Acesso em: 26 out. 2012.

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Não é que eu pense que de fato as cores têm vida própria e que pensem por si, mas gosto de imaginar essa ficção, pois penso ser um meio de compreender a cor e a nossa subjetividade inerente a ela. Penso sobre essa vocação da cor, de ser uma plataforma para interações intersubjetivas e parece que não sou só eu, pois percebi essa intenção em outros artistas, como Lygia Pape, Cruz-Diez e Benet Rossell para citar alguns.

Lygia Pape experimentando as cores da Roda dos Prazeres

Experimentando as cores da Roda dos Prazeres

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Lygia Pape. Roda dos Prazeres. 1967. Porcelana, anilinas, sabores e conta-gota7. 7

Benet Rossell. Cérémonials: Rituel en quatre couleurs. 20 de maio de 1971, das 14h às 18h no Festival de Kürten. Informação disponível em: <http://www.lygiapape.com/pt/obra60.php?i=7>. Acesso em: 23 de out. 2012.

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Beber a cor laranja Hélio Oiticica

Cruz-Diez. Chromosaturation. 2011. Dream Forest Art Center, Sang Sang Tok Tok Gallery8.

Todos esses artistas trabalham com diferentes materiais como: anilinas, luzes neon, tecidos, bexigas e outros mais para tentar causar uma experiência cromática nos sujeitos. Criaram diferentes corpos cromáticos para se relacionarem com nossos corpos. 8

Ilustração do livro infantil “Minha primeira enciclopédia”. Década de 1960. Informação disponível em: <http://www.cruz-diez.com/work/chromosaturation/2010-to-date/?page=2>.

Acesso em 23 de out. 2012

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Sobre o caso da sopa de beterraba: Foi neste ano, 2012, que aconteceu. Estava na casa de uma amiga e era o momento do almoço. Família reunida: seu pai, mãe, irmã e irmão e até mesmo sua avó. Sua mãe decidira fazer sopa de beterraba, algo novo para mim, pois nunca tinha provado e nem visto. Quando a panela foi aberta eu vi! Vi o caldo cor-de-rosa mais inominável! Parecia um grande chiclete Bubbaloo. Ou um algodão-doce líquido. Ou que minha alma de menina tivesse sido liquefeita e posta à mesa, para ser saboreada. Nada de errado com isso, mas foi deveras intenso para mim – observar a todos sentados à mesa retangular tomando aquele líquido cor-de-rosa. Alguns colocavam mais sal ou queijo ralado. Tomei só metade da sopa. Não me entendam mal, pois ela estava deliciosa, mas não consegui terminar a refeição.

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Aqui não me refiro exatamente à cor (cor-de-rosa), mas sim a uma cadela que apareceu em minha vida

quando eu tinha 7 anos de idade, e que permanece habitando minha casa e coração até hoje.

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Ilustração do livro infantil “Minha primeira enciclopédia”. Década de 1960.

Por vezes sou visitada e revisitada pelas lembranças cromáticas que tive. Um livro infantil, roupas manchadas de amora colhidas no pé (que depois se transformaram em geleia), a primeira vez que avistei um mandruvá, que tomei sopa de beterraba e Rosa9.

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Receita de Sopa de beterraba da mãe da Amanda Ingredientes: 1 litro de água 4 beterrabas (descascadas) 1 cebola 1 dente de alho Sal a gosto Modo de preparo: Colocar todos os ingredientes na panela de pressão. Bater o caldo no liquidificador. Acrescentar 2 colheres de amido de milho, dissolvidas em meio copo de água fria e uma lata de creme de leite. Bom Apetite!

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Cor: em Use, é lindo, eu garanto  

Um dos capítulos da monografia: Use, é lindo, eu garanto. Bacharelado em Artes Plásticas/ 2012.

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