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joรฃo รกlvares fagundes

um homem dos descobrimentos SENOS DA FONSECA


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05

APRESENTAÇÃO

introdução

Teoria do Segredo

P.5

P.13

P.33

02

06

O salto PARa Ceuta…

Mas o «segredo» poderá ser bem maior do que em meados do Séc. XX se «desconfiava». Novos apports a confirmar. O Almirante Zeng He.

Sumário

P.17

03 Viagens na costa africana P.27

04 As navegações no espaço Atlântico P.32

P.36

07 O que saberia Colón? P.40

08 O Mapa de Piri Reis P.44


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Especulações ou indícios fortes

viana do castelo séc. xv/xvi

Fagundes lembrado em Viana

P.48

P.79

P.120

10

14

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Efeito da viagem de Colòn

A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes

Morte de João Álvares Fagundes

P.51

P.87

P.123

11

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A Exploração do Noroeste

A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI

Documentos de Mercês

P.59

P.97

P.124

12

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João Álvares Fagundes

As rotas de Fagundes

Os Descobrimentos no tempo de Fagundes

P.72

P.105

P.142

BIBLIOGRAFIA P.146


APRESENTAÇÃO

4 01. INTRODUÇÃO


U

ma das grandes figuras histórias de Viana do Castelo e da sua história ligada ao mar é Álvares Fagundes. Imortalizado numa estátua hoje instalada junto ao Navio Hospital Gil Eannes, memória eterna da nossa ligação ao mar e aos mares do Norte, esta figura é tema de um notável trabalho de Senos da Fonseca, que aqui se debruça sobre o “capitão da Terra Nova e descobridor das Ilhas do Bacalhau”. Este destemido navegador vianense, que ficou conhecido como um dos primeiros exploradores da Terra Nova, no Atlântico Norte, foi alvo já de diversos estudos, sobretudo os que tentaram reconstituir o seu itinerário com dados cartográficos, todos eles com o objetivo de perceber como conseguiu explorar o sul da Terra Nova numa viagem que haveria de valer a Portugal direitos sobre aquela que é ainda hoje uma importante zona de pesca do bacalhau. Nesta edição, o autor leva-nos pela história de “Um homem dos Descobrimentos”, apresentando teorias e teses sobre esta figura mas também a envolvência histórica, de uma forma única a que nos habituou. Senos da Fonseca, conhecedor dos mares e da arte naval, tem vários livros e estudos publicados e, em todos eles, apresenta novas formas de ver a história do Mar. O mar, o mesmo que nos levou e nos trouxe riqueza, é um dos nossos desígnios do nosso concelho e até mesmo do país e ficará mais uma vez eternizado nesta edição mas também no museu instalado no navio que, outrora, percorreu os mesmos mares que o nosso João Álvares Fagundes.

O Presidente da Fundação Gil Eannes José Maria Costa

5 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Saldando «dívida» antiga…


Q

uando colocado perante o honroso convite para realizar uma abordagem à figura de João Álvares Fagundes, um dos egrégios pátrios, pelos feitos e pelo legado histórico deixado, recaía então, sobre a minha mesa de trabalho, imensa quantidade de tarefas com prazo de entrega já há muito fixado. Hesitei pois, em corresponder ao convite. Mas… Facto é que para além do carinho que sempre nutri pelos tão maus estudados «Descobrimentos do Oeste Atlântico», com os quais perdi (ganhei!), horas e horas de discussão com meu pai, historiador, a tentar esclarecer se teria ou não havido a arquitectada e cumprida política do segredo, discussões onde encaixava, perfeita e ajustadamente, o «feito» de João Álvares Fagundes, era porém certo que, para além disso, tinha uma dívida singular para com Viana «a Linda».

Continuo um impenitente amante desta cidade encantadora. Não me canso de aqui vir matar saudades; gosto de percorrer o seu mundo histórico, sentir à noitinha o bafo da maresia do seu remansoso Lima, deambular pelas suas estreitas ruelas, outrora de mareantes famosos, parar extasiado a olhar a caravela esculpida na casa do Pêro «Galego», ou rendido à beleza arquitetónica das frentes graníticas do seus palacetes, a afirmarem longo e púrpuro historial. E de erguer o olhar para a Santa Luzia e sua cúpula a ressair do verde fresco da montanha, convidando à visita… Passei em Viana vários períodos quando, oficial da Marinha, assistia à reparação do «meu navio» nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tanto gostei da cidade e das suas gentes que, logo depois, iniciei a minha vida de profissional de engenharia nos referidos estaleiros. Recordo por lá bons amigos, excelentes profissionais, que me marcaram. Mas…

7 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Mas esses quiseram, e fez-se, dan mundo ao A verdade é que, hoje ainda, mantenho com vianenses, para lá de «nós» familiares - «os ílhavos» fizeram parte do historial de Viana, e a ligação entre gentes de uma e de outra, tornou-se umbilical – laços que cerzi de fortíssima amizade, que resistiram ao tempo e às voltas da vida. Dito isto… deitei mãos ao trabalho.

Tarefa árdua para tão pouco tempo, tentando clarificar muitos pontos, da ainda enevoada vida do «homem bom», do mercador de fartos cabedais, que não hesitou colocar em risco para cumprir seu desígnio, do descobridor que foi dos primeiros a cumprir a missão de «encontrar» e, logo depois, iniciar o povoamento da Terra Nova. A figura de Fagundes que foi tudo isso(!), podemos hoje afirmá-lo com maior convicção e certeza, é deveras cativante e merecedora de aprofundado trabalho. Foi pois gratificante o esforço. E triste fico, se a minha pena descolorida não estiver à altura da dimensão do homenageado e lhe não souber desenhar o feito a corpo inteiro. Se tal acontecer que se me releve a intenção e me perdoe o atrevimento.

Os mares da Terra Nova, mares longínquos e temerosos, frios e de cariz carregado e ou enevoado, «guardavam» uma riqueza enorme (inesgotável)» do fiel amigo. Se tivéssemos tido força para resistir às lutas franco inglesas e tivéssemos podido controlar aqueles mares, teríamos tido ali um outro «Brasil», inesgotáveis que eram as riquezas daquelas águas.

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01. INTRODUÇÃO


Homens e Portugal ndo novos Mundo. João Álvares Fagundes é um dos poucos que não ficou perdido nos hiatos históricos, meandros onde tantos soçobraram ainda que gente de contributo grandioso para o bem pátrio. Em Portugal e por todo o mundo que estuda essa grandiosa aventura que foram os Descobrimentos, o nome de Fagundes é referido como um dos que maior contributo deu para o conhecimento (e entendimento) dum novo mundo. Para melhor definir o seu feito, decidimos enquadrar Fagundes na época, nos trabalhos e nas decisões primeiras, em que ir mar fora era aventura grandiosa. Voltar ou não voltar, era tão só fruto do saber, de arrojo e capacidade de sofrimento dos intimoratos nautas. Entregues a si próprios, ou quando muito dados ao divino, procuravam algo de que apenas havia, então, ténues indícios. Era procurar agulha em palheirão.

Mas esses Homens quiseram, e Portugal fez-se, dando novos mundos ao Mundo. Pátria (tão) pequena demais para Homens de tanto génio, Portugal cumpriu-se então… chore o poeta a afirmação.

Quem não se cumpriu, foram todos aqueles que pensaram que navegar já não era preciso.

Senos Fonseca janeiro 2017

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joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


joรฃo รกlvares fagundes

um homem dos descobrimentos SENOS DA FONSECA


2017

introdução

P

or entre o véu da história que cobre, e deixa, pouco a pouco, descobrir factos novos, surgem figuras que, sem polémica ou contestação, ocupam, já de há muito, lugar de relevo no proscénio onde se alinham os maiores de um tempo em que, como disse Camões:

(…) Que pelo mar, que já deixais sabido Virão fazer varões de peito forte…

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Que pelo m já deixais Virão faze de peito fo Nem sempre, contudo, a história ou os episódios da história, são claros ou agradam a todos. E por isso, por vezes, uns tendem, à falta de prova documental comprovativa, extrapolar interpretações diferentes, e puxar a brasa para o seu desígnio, na exultação da figura tratada. Já assim o fizeram os diversos «cronistas» reais, correspondendo às mercês concedidas por quem lhes encomendara os trabalhos. Tratar a informação consiste em destrinçar entre fontes diferentes e estabelecer raciocínios em análise cuidadosa. Ora hoje, nos novos tempos da sociedade tecnológica, existem muitas assumidas «fontes» que nada têm de rigor. Pecando por pouco criteriosas, podem, facilmente, confundir o leitor em procura informativa.

Por vezes, dá-se demasiada importância à datação factual do acontecimento, sem esclarecer os passos dados para o concretizar, ou até mesmo determinar, com exactidão, qual o facto produzido. E assim se esquecem ingloriamente, «muitos» dos que estiveram na sua génese, em convergência de esforços ou iniciativas várias, sem os quais o acontecimento não teria lugar ou sucesso. Na História de Portugal e, em particular na dos Descobrimentos, encontram-se figuras de relevância indiscutível e inquestionável pela reconhecida evidência dos feitos e das obras praticadas mas, para além destas, muitas outras existem que ficaram “esquecidas”, desconhecendo-se a sua real importância no desenrolar dos acontecimentos.

João Álvares1 Fagundes é um desses protagonistas, com feito conhecido, provado, cuja importância foi fundamental para o período em que, numa primeira fase, Séc. XV/XVI, Portugal ombreou com a Inglaterra, França e com os Bascos, na exploração dos mares do Norte.

1 Deve desde logo aqui se deixar claro que, na documentação da época, o nome escrevia-se Joam Álvarez Fagundes.

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01. INTRODUÇÃO


mar, que sabido er varões orte… A Europa do Séc. XV viveu um período de grande privação, com graves problemas de abastecimento alimentar. Mutações profundas nas temperaturas e correntes marítimas teriam provocado uma fuga das espécies das costas de Inglaterra. O arenque, ele também um peixe de águas frias, muito expandido, por vezes em massas compactas, pelas águas do Atlântico setentrional, foi até certa data, a espécie mais comum pescada na costa do norte europeu. Mas era claramente insuficiente para dar solução ao problema de alimentação a uma população crescente. Por razões climáticas esta espécie concentrou-se ao sul das latitudes da Bretanha. Procurou-se perceber para onde as baleias se teriam deslocado, depois de desaparecidas do golfo de Biscaya. E se para os bascos aquela espécie era a de maior interesse, a mais procurada, aos portugueses que os acompanharam, o que lhes mais interessava era encontrar os tão «falados» cardumes de bacalhau. Logo os pescadores, que frequentavam aquelas paragens, os bascos e os portugueses, foram no encalço dos cardumes não hesitando em se embrenharem nos mares profundos e desconhecidos do Atlântico Norte. Encontraram-nos coalhados de uma espécie piscícola, o bacalhau, de particular importância para a dieta que, as populações obedientes à lei da Igreja Católica, estavam obrigadas a cumprir a preceito (a dieta incidia em quase metade dos dias do ano!). Este peixe, cedo se percebeu, era rico em proteínas, com aproveitamento quase total. Com elevada aptidão à salga, podia aguentar longos tempos de utilização. A sua capacidade reprodutiva, notável, permitia (parecia) manter inalterável o stock praticamente inesgotável. A quantidade capturada facilitava a prática de preços acessíveis aos parcos recursos de grande parte da população, tornando-o tão popular que recebeu a alcunha de fiel «amigo». Do Séc. XVI ao Séc. XX, o bacalhau esteve presente em todos os lares dos portugueses, com mais frequência e intensidade na razão indireta das suas posses, sendo uma constante do regime alimentar português.

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joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Ao princípio as viagens naqueles mares gelados3

Imagem do Mundo segundo Ptolomeu Séc. II a.c.

Para melhor se compreender e situar a figura de João Álvares Fagundes2, teremos de revisitar o princípio da aventura da expansão portuguesa e enquadrá-la nessa odisseia do «começo». A ousadia de navegar por mares e lugares até então desconhecidos foi, entre muitas outras, a vertente da estratégia geopolítica de então (Séc. XV), um acto de profunda mutação civilizacional. 3 Mas na verdade, como disse António Sérgio, foi enorme, incalculável, o concurso dos Descobrimentos para o surto do espírito europeu moderno, para o desenvolvimento do humanismo (…) para o lento progresso do homo sapiens… em frente à tirania do4 homo credulus... Teve laivos de um feito porque, de facto, se bem que os esforços levados a cabo em terra para lhe dar um cunho de saber, de modo a que as viagens não fossem totalmente realizadas às cegas, o certo é que o conhecimento e o tratamento de dados nos centros de estudo lisboetas, a compreensão da traçagem de novas rotas, o domínio das correntes, de mares e de vento, etc, andavam mais devagar do que o desenrolar de «novos encontros».

Os dados sobre Fagundes, procurados quer na Biblioteca Nacional, Torre do Tombo e Biblioteca da Universidade de Coimbra, são terrivelmente escassos.

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3

Landstom, Bjorn - «A Caminho da Índia».

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Sérgio, António – «Breve Interpretação da História de Portugal» - Ed. Sá da Costa, 1979.

16 01. INTRODUÇÃO


O salto PARA Ceuta…

E

tudo começou olhos postos em Ceuta…

Ceuta e o planeamento, cuidado, do empreendimento, elaborado pelo vedor da fazenda, João Afonso, foi inicialmente considerado «um jogo de guerra». Para se mudar esse aspecto, logo se encontrou um modo de lhe dar uma nova roupagem, donde ressaísse um papel activo, com ares de uma cruzada ao serviço da dilatação da fé, para isso combatendo a moirama na sua própria casa.

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Tal iniciativa irá ser o pontapé de saída para outras mais longínquas aventuras, as quais, na ideia de alguns, seriam bem menos custosas, trazendo menos danos e males. E bem mais gratificantes. Ainda que, logo nos primeiros passos da aventura, se enveredasse pela escravatura como meio de pagamento de esforços e enriquecimento da coroa e dos maiores, sempre a «empresa» foi acompanhada pela bênção papal, em reconhecimento pela ação de levar a fé cristã aos indígenas daquelas terras desconhecidas. Sobre o Infante D. Duarte que, desde 1412, esteve associado a funções governativas, recaiu toda a decisão do ir ou não ir tomar Ceuta. O país, a braços com crises cerealíferas repetidas que provocavam a fome, exangue com a desvalorização da moeda, vivia um momento de incitamento expansionista, como forma de atenuar as suas dificuldades. Havia duas formas de ver esse alargamento. Uma, proposta por uma casta de Senhores da Guerra, que após terem conquistado e apaziguado o Algarve se viram a braços com a dificuldade, cada vez maior, de manterem as suas casas feudais e os seus exércitos senhoriais. Outra, defendida por uma recém instalada casta de mercadores, senhores aparecidos com um novo espírito renascentista, que pretendia indicar o caminho da descoberta de novas rotas marítimas, para a criação de riqueza interna. Seria no decurso desta, afirmavam, que poderíamos dinamizar as trocas comerciais, ou até, obter e trazer riquezas provindas de países desconhecidos que, porventura, pudéssemos atingir e civilizar. D. Duarte estava pois no epicentro de uma luta entre classes: uma pretendia a guerra e a ocupação territorial, para, em golpes de mão, ataques a zonas povoadas ou outras (pilhagem, tributos, resgates, etc.) obter sustento para as suas «casas»; a outra, aplaudida por uma burguesia de comerciantes e mercadores, muitos deles estrangeiros a quem a coroa dava acolhimento e benefício (fiorentinos, venezinos, menorquinos, aragoneses, etc.) acreditavam que, tomada Ceuta, se in-

18 02. O SALTO PARA CEUTA...


terromperia o monopólio árabe das trocas entre Ocidente e Oriente, passando a serem feitas através de Lisboa. A expedição parecia garantir que o lucro chegaria às cidades e aos cidadãos e, por isso, estas duas classes que muita influência detinham, foram determinantes para darem ao Rei a razão justificativa da expedição. No dealbar do Séc. XV, a burguesia, constituída por armadores e comerciantes, estava no auge. E pedia mais sítios, mais mercados, mais rotas, para aumentar os seus lucros. O Infante D. Duarte, que na altura detinha já poderes governativos, decidiu, certamente com aquiescência de seu pai, o Rei, sensatamente, ouvir as opiniões dos que o rodeavam, antes de tomar a decisão de consentir na empresa. Curioso é perceber-se que, de entre as ideias recebidas por D. Duarte, sobressaem as dos seus irmãos. E, no comentário do Infante D. Henrique, notar que logo nesta arrancada expansionista, nos aparece com ideias que muito colidem com o imaginário que a história oficial virá a fazer, desta tão proeminente como controversa figura histórica. D. Henrique põe em cima da mesa uma proposta clara: a expedição deveria, no fundamental, ser a prática de uma alegria do corpo um gozo que a atividade guerreira deveria satisfazer. E se a mesma, no caso, fosse para salvação da alma, tanto melhor. Logo ali ficou espelhada uma imagem de D. Henrique que a História tentou esbater: indivíduo brigão, pouco assisado e cauteloso, pondo, no gozo do escorrer de sangue infiel, uma razão imperiosa para a expedição. O príncipe D. Duarte, sagaz,

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Ceuta


logo notará esta característica na personalidade do irmão. E na carta de Regimento dada a D. Henrique, de como deveria proceder no ataque a Ceuta, D. Duarte é claro: Irmão. Como prazendo a Deus chegardes a Ceuta logo me escrevei(….), D. Duarte mostra estar preocupado com o cumprimento das instruções, serenas e sensatas, noções estratégicas de modo a não abrir o leque do ataque mantendo firmes as posições5. Mas indo mais além, D. Duarte não se inibe de dar ao irmão, o Infante, notas, conselhos específicos de procedimento: Destas cousas vos disse segundo meu juízo que vos cumpria muito avisar escrevais brevemente porque por vosso bom juízo e lembrança (…), parecendo, assim, duvidar da qualidade de procedimento do irmão, quando envolvido no teatro da guerra. E vai mais longe: a de pôr termo, antes no que haveis de fazer, salvo quando mui certo fordes que sem duvida se cumprirá o que disserdes (…). Assim, mostrando as suas reticências sobre as qualidades de mando do seu irmão. Foi-lhe ainda reprimindo, censurando, chamando-lhe a atenção para que não querais mais prazer aos homens que quanto com vossa verdade, justiça e toda maneira virtuosa o puderdes fazer. E recomenda que façais vossos feitos em boa ordem e não vivais em comer, dormir e ouvir missas, indo ao ponto de advertir para maus caminhos, exigindo por isso boas práticas no cuidado de buscar dinheiro, que assim sempre sejais avisado de o fazer por justo e direitos caminhos. Certamente poucos conheciam as virtudes e os defeitos do Infante como seu irmão. Por isso, as dez recomendações feitas por D. Duarte, para lá da Carta de Regimento, são uma espécie de o tentar «amarrar» ao estrito cumprimento da missão. Muito diferente a posição do outro irmão, Infante D. Pedro (e também a do Infante D. João), a do primeiro, muito embora não transmita a D. Duarte um não à expedição a Ceuta, levanta as mais sérias reservas quanto ao balanço entre as despesas e os benefícios que a mesma trará, para além de discordar que a «guerra de Ceuta» fosse serviço de Deus.

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Pina, Ruy de – «Crónica de D. Duarte» – cap. XXI

20 02. O SALTO PARA CEUTA...


E justifica que a ida ou não, resultaria do balanço entre os danos e males e os benefícios que ocasionará. Homem de mais larga visão, não deixa de insinuar a seu irmão a necessidade de se ter uma perspetiva mais ampla e profunda do propósito da possível expansão portuguesa, adiantando que não bastava tomar praças fortes, Ceuta é mui bom sumidoiro de gente, de armas e de dinheiro, mas sim, que as expedições deveriam integrar-se nos países incivilizados, na tarefa de procurar e cativar as gentes para aproveitar as suas qualidades, ou até a sua experiência, em cultivo de riquezas, alimentares e outras, que o país necessitava. D. João I, obtendo o assentimento do Senado, decide pela ida a Ceuta, que é facilmente tomada, 21 de Agosto de 1415. Ceuta que Zurara6 descreve: E isto é uma cidade de África que é mui notável cidade e mui azeda para se tomar. O problema subsequente foi a sua manutenção. Ceuta, num aspecto, teria importância. Praça forte situada na garganta do Mediterrâneo, permitia a impunidade aos corsários e piratas magrebinos no ataque que levavam a cabo a todo o transporte comercial, nas rotas de e para o norte da Europa. A tomada desta praça, e de outras, sitas na beirada, em frente de Gibraltar, poderia abrir as portas ao corso português, e o domínio desta actividade marítima, consentida ou até impulsionada pelas coroas europeias. E certamente, entre muitos «ganhos» que nos poderia trazer a empresa, este seria um bem maior, que justificaria as pretensões de «muitos outros senhores da guerra» que defendiam não bastar somente a tomada das praças fortes, mas sim, se deveriam conquistar terras interiores. Depois de Ceuta seguir-se-ia a tragédia de Tânger.

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Zurara – «Crónica da Tomada de Ceuta» – cap. IX

21 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Tomada de Ceuta


Certo porém é que a corrente burguesa que defendia a procura de novas rotas comerciais parece ter, nestes atos, incitamento suficiente para obter confirmação régia da decisão de procura de novas terras, e se possível, colocar pé em ilhas atlânticas, de que há muito se vinha falando em surdina. Ainda a campanha estava apenas iniciada, e haveria já navios, milha após milha, dirigindo-se para sul da Costa Africana, dando temerosamente os primeiros passos. É possível que as conquistas das praças fortes costeiras, algumas já viradas para o Atlântico desconhecido, tenham proporcionado aos portugueses preciosas informações sobre o princípio da Costa Africana. As grandes aptidões dos marinheiros árabes teriam, por pretensão assumida ou por condições adversas que os levaram a afastar-se da costa, proporcionado avistamento de ilhas semeadas no Atlântico. Sob o ponto de vista geo-político, pouco interesse teriam para aqueles povos, tais ilhas, muito mais interessados nas rotas das sedas do Mediterrâneo e Índico. Para os portugueses e seu desígnio, era fundamental saber o mais possível sobre as mesmas. D. Henrique mostrara cedo a estratégia com que pretendia abordar o problema financeiro que as descobertas provocariam. E num capítulo da Ordem, realizado em Tomar, assume o cargo de Mestre. Pretendia o Infante colocar a Ordem de Cristo ao serviço da Pátria, encaminhando-a para o que parecia ser a sua missão inicial: a de conquista da Ásia, através das viagens marítimas, que a própria ordem financiou. Para que isso ficasse bem nítido, as embarcações das descobertas logo apuseram a Cruz de Cristo a adornar e identificar as velas das caravelas. E desde logo, através de bulas do Papa Nicolau V e do Papa Calisto III, concedidas em 1454 e 1456, respetivamente, é concedido ou dada obrigação à Ordem de Cristo de estabelecer o direito espiritual sobre todas as terras descobertas, como territórios nullius diocesis, sendo sua sede diocesana a Igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar.

22 02. O SALTO PARA CEUTA...


Os ideais da expansão cristã com que se pretendiam justificar os actos que mais tarde se iriam verificar não o serem, na verdadeira acepção da palavra, desde cedo ficaram manifestamente esquecidos, com o excesso de saque ocorrido na aventura de Ceuta e outras. Como também no acto, desde logo iniciado, do tráfico de escravos, cuja venda reverteu em grande monta para a Ordem, e para saciar o apetite do seu Mestre, a nível pessoal. Mandados mar adentro, logo em 1415 se enviaria uma expedição às Ilhas Canárias, comandada por João de Castro. A esta ilha «afortunada», seriam enviadas expedições para a sua tomada e controle, ao longo dos anos 1425, 1427 e 1437. De há muito corriam rumores, desde a antiguidade, de terem estas ilhas sido abordadas, quer por cartagineses, quer, seguramente, pelos romanos que as baptizaram de «Ilhas Afortunadas». Depois da queda do Império do Ocidente, teriam sido visitadas por espanhóis e portugueses que as reivindicaram antes de 1336 (frota de guerra comandada por Fernando Pessanha7, marinheiro genovês trazido para Portugal para chefiar a sua Armada). Só que o Papa Clemente VI resolveu atribuir a sua pertença ao reino de Castela, apesar do protesto diplomático de Afonso IV de Portugal, por carta de 12 de Fevereiro de 1345. Ao Santíssimo Padre e Senhor Clemente pela Divina Providência Sumo Pontífice da Sacrossanta e Universal Igreja, Afonso rei de Portugal e do Algarve, humilde e devoto filho Vosso, com a devida reverência e devotamento beijo os beatos pés. (...) Respondendo pois à dita carta o que nos ocorreu, diremos reverentemente, por sua ordem, que os nossos naturais foram os

Pessanha, Almirante genovês trazido por D. Dinis para comandar as armadas portuguesas e preparar tecnicamente os nossos marinheiros.

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Mar adentro...


primeiros que acharam as mencionadas Ilhas [Afortunadas]. E nós, atendendo a que as referidas ilhas estavam mais perto de nós do que qualquer outro Príncipe e a que por nós podiam mais comodamente subjugar-se, dirigimos para ali os olhos do nosso entendimento, e desejando pôr em execução o nosso intento mandámos lá as nossas gentes e algumas naus para explorar a qualidade daquela terra. Abordando às ditas Ilhas se apoderaram, por força, de homens, animais e outras coisas e as trouxeram com muito prazer aos nossos reinos. Porém, quando cuidávamos em mandar uma armada para conquistar as referidas Ilhas, com grande número de cavaleiros e peões, impediu o nosso propósito a guerra que se ateou primeiro entre nós e El-Rei de Castela e depois entre nós e os reis Sarracenos. (...)

Medindo a altura

Foi tempo de se pretender pôr termo às discussões que a anterior decisão papal há muito produzia. Estrategicamente poderá parecer que a posse destas ilhas era fulcral para as incursões na costa de África. Certo porém é que aquela já teria tido lugar antes de 1424, pelo que as últimas tentativas parecem ter mais a ver com a pretensão de se ter posse de uma base militar que pudesse travar as veleidades de Castela em se lançar em gesta expansionista. Em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira, em viagem exploratória da costa de África, são afastados por tormenta, levados para o largo. Aportam a uma ilha, Porto Santo, o qual nome eles puseram porque os segurou do perigo que nos dias da fortuna passaram8. Regressados são enviados, em 1420, acompanhados por Bartolomeu Perestrello9, a «reconhecer» a ilha da Madeira10, despovoada. E desde logo tratam de

Barros, João de - «Décadas da Ásia» - Vol. I (1552), Vol. II (1553), Vol. III (1563), Vol. IV (1615) –Versão digital.

8

9 Fidalgo do Infante D. João (Barros cit). A filha de Bartolomeu, D. Filipa, viria a casar com Colòn. 10 O estudo do Atlas Medecis de 1370 onde se representam as Canárias, mas e também a Madeira, indica que aquelas paragens eram já navegadas, e conhecidas, por aquelas alturas. Marques, Pinheiro - «Origem e Desenvolvimento da Cartografia Portuguesa na Época dos Descobrimentos»

24 02. O SALTO PARA CEUTA...


a povoar, como o afirmará11 D. Henrique: comecei de povoar a minha ilha da madeira ora trinta e cinco anos. Hoje é perfeitamente aceite que desde a segunda metade do Séc. XIV, se navegava pelas costas africanas e talvez mais!... Haveria, pois a certeza, na coroa portuguesa, da existência das ilhas ocidentais atlânticas12 mais para ocidente. Para este fim, e para tratamento gráfico da costa africana, o Infante, a troco de muitas mercês, mandará vir para Portugal o judeu maiorquino Mestre Jacomè13, reputado cartógrafo14 o qual (mestre) as ensinou a fazer àqueles os que em nosso tempo vivem aprenderam.

Pormenor da carta de Valseca (1439) contendo as ilhas açorianas

Em 1427, ou 1432, Diogo de Silves terá descoberto os Açores, achado que durante longos anos foi um caso muito problemático de se ter a certeza (data e navegador), o que apenas foi esclarecido pela carta catalã de Luís Valseca (1439). Numa legenda do portulano de Valseca, pode ler-se: “Aquestes isles foram trobades p diego de ??? pelot del rey de portugal an lay MCCCCXXVII” “Estas ilhas foram achadas por Diogo de Silves (ou Sunis?) piloto de El-Rei de Portugal no ano de 1427”.15

Carta de Battista Beccari (1435)15 11

Barros, João de – «Década da Ásia» – livro I, cap. XII.

12

A execução da carta de 1424 é prova disso.

13

Mestre Jacomè de Maiorca, cartógrafo do Infante, Biblos, 1930, vol VI. nºs 3-6

Albuquerque, Luís –«Introdução à História dos Descobrimentos» - ed. Imprensa Nacional, pg.70.

14

15 Carta que se supõe ser uma das primeiras a representar os Açores, possivelmente datada de 1435

25 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Supõe-se que desde a antiguidade, navegadores teriam já tocado nestas ilhas. E até, pela descoberta de umas moedas na ilha do Corvo, se terá admitido lá terem desembarcado os fenícios. «O Livro do Conoscimiento» de 1350, da autoria de um frade catalão, parece referir-se ao arquipélago, ou pelo menos a oito das nove ilhas do mesmo. Duarte Leite e Jordão de Freitas põe em dúvida essas conotações. Mas parece ser indiscutível que os Açores aparecem com muita regularidade em várias representações náuticas do tempo.

Açores (Cosmógrafo Real Luís Teixeira 1584)

26 02. O SALTO PARA CEUTA...


Viagens na costa africana

A

liás, é certo que a partir de 1420, ou antes, já se teriam iniciado as viagens visando conhecer as costas africanas. Assim, em 1434, estaria dobrado o Cabo Bojador.

Foi chegada, pois, a altura para o regente D. Pedro, em nome de seu tio D. Afonso V, ter concedido a D. Henrique o monopólio da navegação e guerras para além daquele cabo: (…) fazemos saber como o Infante D Henrique, meu muito prezado e amado tio, entendendo que fazia serviço a Nosso Senhor de Deus e a nós, se meteu a mandar seus navios a saber se havia lá povoação ou não, porque até então não havia ninguém na cristandade que disso soubesse parte, nem sabiam se havia povoação ou não, nem direitamente nas cartas de marear nem em mapa mundo não estavam debuxadas, senão a prazer dos homens que as faziam(…).16

16 Silva, Marques –« Descobrimentos Portugueses» – ed. Instituto Alta Cultura, 1944, Lisboa. tomo I, pág. 435.

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Azores

Lisbon

Portugal

Dieppe

Madeira Canary

Spain Ceuta

Cape Bojador Cape Verde Islands

Cabo Bojador - As primeiras incursões

D. Henrique dava assim plena satisfação às pretensões de uma camada burguesa de mercadores, sediada em Lisboa, onde pontificavam Judeus. As certezas, poucas, e as dúvidas extrapolaram-se quando, já no Séc. XX, se encontrou uma carta náutica datada de 1424, descoberta e estudada nos anos novecentos por Armando Cortesão17. Esse estudo viria a provocar forte polémica, pois veio trazer representações que colocavam em causa factos anteriormente aceites como história. Até porque, por essa altura, já diversos historiadores estrangeiros tinham entrado no assunto dos Descobrimentos Portugueses, trazendo novos apports e participando em sérias discussões (H. Harrise e outros). A carta de 1424 continha já uma representação do Atlântico até ao sul das Canárias, e incluía ainda as representações: 1. Da costa noroeste de África, até ao Cabo Bojador. 2. De ilhas que se poderiam identificar com os Açores. 3. De duas grandes ilhas (com nomes aportuguesados) Antília e Satanazes. E duas mais pequenas, Saya e Ymana. 4. E, de pasmar(!), parte da costa americana. Logo A. Cortesão concluiu: A historiografia dos Descobrimentos teria de ser reequacionada, pois esta carta vinha tornar claro: Que teria havido uma fase anterior à que comummente era aceite, em que os portugueses se tinham engolfado profundamente no Atlântico, tendo chegado à América muito antes de Colòn.

17 Publicada pela Universidade de Coimbra sob o título «The Nautical Chart of 1424 and the Early Discovery and Cartographical of America», em 1954. Posteriormente, em língua portuguesa, em «Esparsos», A. Cortesão, vol. II AUC, 1975.

28 03. Viagens na costa africana


Estas ideias de A. Cortesão foram muito contestadas, quer cá dentro, no país, quer no estrangeiro, já que o primeiro trabalho sobre a carta foi, como dissemos, publicado em inglês, permitindo acesso imediato e fácil, por muitos historiadores. E até seu irmão, Jaime Cortesão, pareceu não estar de acordo, se bem que, se a carta fosse verdadeira na datação, se confirmava em absoluto, a sua teoria do segredo. Só muito mais tarde, Jaime Cortesão parece recuperar a teoria do irmão, tendo vindo a admitir algumas das considerações expostas nos seus referidos trabalhos. Segundo A. Cortesão, as ilhas eram a representação das Antilhas de Colòn, com nomes aportuguesados, o que vinha ao encontro do mito das Sete Cidades.18

18 Este problema das Antilhas sempre foi referido nas histórias fantásticas, e referenciado na lenda que lhes dava suporte de existência. (Ver Antília and Antilles - Geographical Review vol. IX, nº2, 1920, pag.109 a 124).

29 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Carta de 1424 ou de Pizzigano


Haveria uma outra hipótese: a de ser uma representação fantástica, recriada por um delirante cartógrafo, muito embora seja inquestionável, até àquela altura, pois que se tratava da primeira representação do Atlântico. Ou seria uma representação venezina, sob informações portuguesas, provindas do grupo de trabalho de Jaime de Maiorca?19

A Carta náutica de Pizzigano (1424)

O desaparecimento deste Mapa e as especulações daí geradas, acerca do seu verdadeiro conteúdo, continuam hoje sendo um quebra cabeças, pois muitas coisas se explicariam se ele pudesse ser confrontado. A Carta Náutica de 1424 que muitos autores consideram ter sido mandada executar com elementos de origem portuguesa, os conhecimentos que lhe estiveram na base, teria sido elaborada por Pizzigano, e teria sido muito importante para os planos de procurar incessantemente o cabo do fim de África que, transposto, daria acesso ao Índico.

19

Cartógrafo maiorquino trazido para Portugal para criar uma escola cartográfica.

30 01. INTRODUÇÃO


“Adi 21 . hoctubr . 1457 . che io ho dado contad a Frar Mauro per pagar uno Scriptor a lavorado over scripto su il Mapamundi zorni 17 . a raxon di soldi 12 al zorno monta lire 17 soldi 4 val a soldi 124 per ducato” (Pagamento de serviços a Fran Mauro 20 )

20

Silva, Marques – «Descobrimentos Portugueses» ant. citado.

31 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

O Planisfério de Fra Mauro


04

As navegações no espaço Atlântico

A

nós parece-nos que a carta de Pizzigano teria sido importante para incitar ao esclarecimento do que estaria para Ocidente, para lá das anti-ilhas (Antilias). E por isso, potenciadora de acções que esclarecessem as explorações do Atlântico, para noroeste, ao tempo em que se continuava com a «quase» certeza de que era para sul, contornando o continente Africano, que se chegaria à Índia. Mas não deixava de ser importante saber o que estaria para ocidente. E deve ter mesmo sido isso que aconteceu. Datam de 1424 as tentativas portuguesas de ocupar as Canárias. Mas, por razões de deriva provocada pelas condições do tempo, foi Diogo Teive quem, numa dessas investidas, descobriu o grupo ocidental dos Açores em 1427. E foi o mesmo Teive quem avistou a Terra Nova e deu azo a uma navegação intensíssima para aquelas paragens, na demanda do bacalhau. No dizer de J. Cortesão, Portugal tomava assim a consciência do espaço atlântico, nas suas relações com o desconhecido.


Teoria do Segredo

C

onvém aqui abordar, ainda que muito sucintamente, a questão que fez correr muita tinta, na qual uns se batiam pela sua existência, com Jaime Cortesão à frente, enquanto outros sempre contestaram a sua «real» existência, não a negando contudo em certos momentos. A teoria do segredo consistia em saber se a coroa guardava, e não anunciava, resultados de certas viagens exploratórias. E se deixava escapar datas propositadamente erradas, no sentido de confundir Castela. Verificaram-se muito posteriormente, desacertos entre o que era oficialmente reconhecido, mas «negado», nas cartas náuticas que se iam mandando fazer. Desde tempos muito anteriores, vários países, ou organizações de mercadores, com a finalidade de manterem o monopólio das suas atividades, e logo os lucros, teriam exactamente utilizado «o segredo» como sistema e prática corrente.

05


As rotas comerciais sempre, desde a antiguidade, coincidiam com os rumos que permitiam acesso aos locais onde se poderiam encontrar bens alimentares, produtos manufacturados, matérias primas, metais nobres, etc. Desde o tempo dos Romanos que é conhecida, e discutida, a célebre viagem a Punt, à procura do âmbar, trajeto este efetuado de barco, cuja finalidade era a de substituir o camelo por este meio de transporte. Terá sido levado a efeito em 2500 a.c., no tempo do faraó egípcio Sature.

Punt

Aí teriam sido carregadas 80.000 medidas de mirra. Facto é que a localização exata de Punt, ainda hoje se não sabe com certeza, sendo objeto de diversas especulações. Conjecturase ter sido a viagem, conforme supra reproduzida feita em embarcações que não andariam longe da imagem seguinte.

Navio da expedição a Punt

34 05. Teoria do Segredo


Os fenícios, por sua vez, foram exímios na sua política segredista. Ocuparam parte da história com as suas viagens ao sul da península ibérica, demandando as ilhas britânicas em procura da cassiterite. E como referimos acima, neste trabalho, o aparecimento de umas moedas nos Açores (Ilha do Corvo), poderá querer dizer que por lá teriam aportado, errantes, à procura daquele mineral, fonte principal para produção de estanho, muito embora não haja conhecimento da sua existência no arquipélago… As fontes de riqueza de Cartago foram «as cassiterites» da Cornualha, o ouro do Sudão, e a prata do sul de Espanha»21 A Confederação das Cidades Marítimas do Norte– Hansa22– usaram o segredo, interno e externo, como política de manutenção do monopólio do comércio com capitais próprios e por sua conta, obrigando os estrangeiros a não entregarem ou a não venderem a nenhum outro comprador, e até a não receber outro fornecedor23. E também os venezinos usaram o exercício do segredo para protegerem dos vizinhos genoveses, e até de nós, portugueses, as rotas do seu comércio com o oriente para delas colherem benefício monopolista. Em 1402, Veneza irá criar uma Chancelaria Secreta, visando manter o segredo internamente sobre todas as informações, gerindo o que se passava para o exterior24. No desenvolver do projeto dos Descobrimentos Portugueses, há inúmeros hiatos, omissões, deturpações, casos de dúvidas nunca esclarecidos, informações deliberadamente dadas de um modo errado, de que o achamento do Brasil dado à coroa Espanhola, será uma das maiores trapaças. Estas atitudes podem, seguramente, dar aceitação à existência de uma política de segredo, logo iniciada ainda no tempo de D. João I, e que terá sido depois continuada, e até exacerbada, pelos reis D. João II e D. Manuel I.

21 Histoire Anciène de l’Afrique du Nord, Paris 1913 a 1929, citada por Jaime Cortesão em -«História dos Descobrimentos Portugueses» - ant. cit. 22

A Hansa dominou, no Séc.XV e XVI, todo o comércio do Báltico.

23

Worms, E – «História Commerciale de la ligue Hanseátique» – pg. 257.

24

Cortesão, Jaime, ant. cit.

35 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Embarcação Fenícia


06

Mas o «segredo» poderá ser bem maior do que em meados do Séc. XX se «desconfiava». Novos apports a confirmar. O Almirante Zeng He.


C

omeça muito recentemente a ser divulgada toda uma parte importante da História da China, com a abertura recente deste país à era da globalização, permitindo a consulta, por parte de especialistas, da documentação existente nas suas bibliotecas e palácios imperiais. Permitindo ainda, verificações arqueológicas que têm posto a descoberto segredos inesperados. Sabe-se hoje, generalizadamente, da importância de Zhu Di, Imperador da época Ming, que tomou o poder, aliando-se para isso aos eunucos da corte, verdadeiros guardas imperiais, olhos e ouvidos do grande Senhor, existindo em grande número. Sobre eles recaía, por serem castrados, a grande missão de guardarem os milhares de concubinas do imperador. Ora de entre estes, um, de nome Maeh, depois mudado para Zheng He, foi parar ao palácio imperial. Zheng era um muçulmano convicto. Era um homem com figura imponente, mais de dois metros de altura, um soldado extraordinário, rapidamente reconhecido como o «Grande Eunuco». Apesar de nunca ter visto o mar, Zheng foi nomeado comandante de toda a frota. Uma armada cujas dimensões, em embarcações e homens, são hoje inimagináveis. O imperador Zhu Di, a quem se deve a reconstrução da Grande Muralha, pretendeu criar um império: os seus anteriores, e até depois, os seus sucessores admitiam que a China era tão grande que não era necessário procurar nada para lá do seus limites geográficos. Para tal desígnio determinou construir uma armada. Criou um estaleiro próprio, em Lonjiang, onde se construíram portentosos juncos de nove mastros com mais de 130 metros de comprimento! e muitas outras embarcações: 250 navios do tesouro e mais 3500 de diverso tipo, dos quais, 400 cargueiros para transporte de cereal, água e cavalos, destinadas a cumprir o seu grande objetivo. Até então nunca a China terá atingido dimensão maior, e projeção tal, no mundo oriental, como as que foram mostradas aquando da inauguração da Cidade Proibida, Pequim, com o seu Palácio Imperial. Aos seus navios, determinou: navegar por todos os mares do mundo e deles elaborar os respectivos mapas.

37 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Imperador Zhu Di


Pretendia o Imperador submeter todas as nações ao tributo chinês. E para isso, começou a enviar os seus navios aos países vizinhos, no sentido de controlar a rota da seda que percorria toda a Ásia Central. Zhun Di reuniu os astrónomos e encarregou-os de estudarem a orientação pelas estrelas, tendo sido registadas mais de 1400, chegando ao ponto de determinarem eclipses, solares e lunares, com grande rigor. Insistindo em comparar e corrigir o desenho das estrelas guias, mandou «notícia» a obter, para tal trabalho, o contributo dos reis de países vizinhos. Internamente, foi Di que mudou a capital de Nanquim para Pequim, como se refere acima. Para alimentar a população deslocada, mandou alargar o grande canal, de modo a criar uma rede de transportes para norte, obra das mais célebres e maravilhosas do mundo antigo. A rota vai de Pequim até Tangou, na costa, perto de Xangai e nela chegam a ser referidas, circularem, à data, mais de três mil barcas de fundo chato. Foi no seu reinado que se imprimiram centenas de livros, citando os grandes filósofos. Isto, dezenas de anos anteriormente a Guntenberg ter editado a sua Bíblia na Europa. Tendo convidado chefes estrangeiros a visitarem a «Cidade Proibida», proporcionava-lhes recepção faustosa, impressionando-os com vitualhas deliciosas, tanto ao paladar como à simples vista, ao tempo em que milhares de concubinas especializadas proporcionavam aos convivas prazeres celestiais. Se quisermos ter uma ideia do fausto programado para a inauguração da cidade proibida, ficamos a saber que, para tal acto, foram convidados cerca de trinta mil embaixadores e altos dignitários dos países vizinhos. Para um termo de comparação, saibamos que, ao tempo, no casamento de Henrique V de Inglaterra com Catarina de Valois, em 1401, apenas estiveram presentes seiscentos convivas. Os grandes senhores foram, findas as inaugurações, levados aos seus países por cinco armadas, do Tesouro, comandadas por Zheng He que, antes da partida, mandou gravar pedras comemorativas. Durante as grandes viagens, provavelmente seis ou sete, foram deixadas em vários locais. Como adiante referiremos, Zengh tinha ordens expressas para acompanhar as

38 06. Mas o «segredo» poderá ser bem maior do que em meados do Séc. XX se «desconfiava». Novos apports a confirmar. O Almirante Zeng He.


esquadras até ao Índico e depois voltar para trás, para a China, onde a sua presença era indispensável. Todos os comandantes das esquadras tinham a particularidade de serem eunucos. Têm sido muitos os autores, investigadores e arqueólogos, que vêm seguindo, e trazendo achegas para esta nova visão do problema. Recentemente, Gavin Menzies25, um comandante de submarinos da Royal Navy, extraordinário e experimentado navegador26, escreveu um livro polémico e até algo provocatório: «1421: The Year China Discovered the World», já traduzido e editado em Portugal. É em todas as circunstâncias um livro que deve ser lido. Apaixonante. Estamos em presença de um extraordinário homem do mar que dedicou anos da sua vida, percorrendo todos os pontos possíveis por onde as Armadas do Tesouro poderiam ter passado, tentando procurar vestígios da sua presença.

Imperador Zhu Di

No livro, prova muitas coisas, mas deixa outras envoltas em polémica, e outras em suspenso, aguardando argumentação científica: ADN, testes de carbono etc., para que as dúvidas sejam retiradas, já que o feito, a confirmar-se, muda por completo a História. No entanto merece ser lido e objeto de reflexão e estudo. Desde logo, a referida obra levantou acesa discussão internacional. Por todo o lado se vão recolhendo novos elementos, novos indícios que parecem confirmar estas extraordinárias viagens da China, encontrando-se em estudo aprofundado, vestígios seus no continente americano. Se essas viagens forem confirmadas muitas interrogações encontrarão resposta. Em todas as circunstâncias, a tal suceder, em nada fica beliscado o grande capítulo da história mundial escrito pelos portugueses. O «mundo» descoberto pelos chineses 25

Menzies, Gavin – 1421 The Year China Discovered the World» -2002.

26

Menzies percorreu, para as estudar, as Rotas de Magalhães e James Cook.

39 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


O que saberia Colòn?

07


Barcos da Armada do Tesouro

Da Conti descreveu os barcos da armada do Tesouro, como embarcações com cerca de 2000 ton., com cinco velas e muitos mastros (…) tendo três camadas de madeirame no casco, que por isso seriam resistentes a qualquer tempestade (…) tendo compartimentos separados (anteparas estanques). Admite-se pois, agora, que o homem de Catay, descrito ao Papa Eugénio VI (1431-1477) por Toscanelli27, referenciado na sua carta a Colòn (Colombo), seria este Da Conti que, entretanto, voltaria à China por encomenda, isto é, ao serviço do referido Papa. Mapa enviado por Toscanelli a Colòn

“Also in the time of Eugenius one of them [of Cathay] came to Eugenius, who affirmed their great kindness towards Christians, and I had a long conversation with him on many subjects, about the magnitude of their rivers in length and breath, and on the multitude of cities on the banks of rivers. He said that on one river there were near 200 cities with marble bridges great in length and breadth, and everywhere adorned with columns. This country is worth seeking by the Latins, not only because great wealth may be obtained from it, gold and silver, all sorts of gems, and spices, which never reach us; but also on account of its learned men, philosophers, and expert astrologers, and by what skill and art so powerful and magnificent a province is governed, as well as how their wars are conducted.” (Extrato da primeira carta de Toscanelli a Colòn)

27 Paolo dal Pozzo Toscanelli (1397 – 10 Maio de 1482) era um astrónomo italiano, matemático e cosmógrafo.

41 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


E até hoje se especula sobre se o infante D. Pedro, pretendendo, antes de regressar a Portugal, ouvir de viva voz, o próprio Da Nicola, não o terá mandado buscar ao Cairo, propositadamente. Assim, segundo esta tese, os mapas,recebidos de Da Conti, teriam sido recolhidos e trabalhados por Fra Mauro, e depois enviados ao rei Português, via D. Pedro. Se tal for provado, este parece ser, afinal, o grande segredo que Portugal escondeu das restantes potências estrangeiras. Aqui coloca-se outra grande interrogação.

Mapa «Piri Reis»

Esse mapa, ciosamente guardado, teria sido visto, ou copiado, sabendo o copista que corria o risco de pena de morte28. Haveria alguém disposto a correr esse risco, alguém especialmente interessado nele? Esse alguém só poderia ter sido Bartolomeu Colombo, irmão do almirante, cartógrafo de méritos reconhecidos em Lisboa que, pelo exercício do mester, teria tido acesso ao mapa, depositando-o depois nas mãos de seu irmão, Cristóvão Colòn(?!) Certo é que o mapa de 1428 se dizia perdido. Hoje, pretendese uma nova interpretação. O grande almirante turco, Piri Reis, tê-lo-á recolhido de um espanhol, tripulante de Colòn, integrando-o num dos seus célebres trabalhos cartográficos. Ao que se admite, esse mapa mostra toda a costa sul do continente americano, incluindo o estreito que se viria a chamar de Magalhães, e encontra-se, hoje, guardado no Museu Serai, em Istambul.

Na prática, a teoria do segredo impunha que quem desviasse mapas, cartas ou informações relevantes, a potências estrangeiras, pagava com a vida, tal acto, considerado de traição.

28

42 07. O que saberia Colòn?


O aparecimento deste mapa que já tão minuciosamente (?!) descreve toda a costa sul do continente americano, levanta a questão de se saber quando teriam sido recolhidas as informações nele contidas. Em que viagem e de quem? Se Colòn tinha dele cópia, teria de ser anterior a 1492. Seria de facto parte do célebre mapa, carta náutica, de 1424, descrito ao mundo por Armando Cortesão? Se o fosse, como hoje alguns o admitem, então será bem certo que não teriam sido os europeus quem primeiramente teriam pisado o continente americano. E mais, Bartolomeu Dias, e muito particularmente, D João II, saberiam da existência do cabo. E mais ainda, Fernão Magalhães saberia antecipadamente do estreito que tomou o seu nome, pois, a ser provada a datação do mapa que depois foi transcrito por Piri Reis, a passagem já era conhecida há muito. O relato de Gabriel Pigafeta29 começa hoje a ser olhado, e interpretado, de modo bem diferente. A historiografia dos Descobrimentos em Portugal foi pobre, naturalmente com honrosas excepções. Hoje, parece não restar mais do que acompanhar as novas descobertas que utilizam meios e processos tecnológicos só ao alcance de alguns, poucos, países. Voltamos a ter em cima da mesa uma questão nacionalista, fechando os olhos a realidades, que explicam o que nunca conseguimos explicar? A confirmarem-se, estas novas teorias obrigariam, inevitavelmente, a repensar de novo, a história da grande aventura marítima portuguesa que, em todas as circunstâncias, não há que diminuir, mas sim exaltar. O que se sabia, ou não, era tão pouco e tão incerto, que não têm grande significado estas novas achegas.

António Pigafetta, escolar veneziano que acompanhou Fernão Magalhães, tendo regressado com Sebastião d’Elcano.

29

43 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


O Mapa de Piri Reis

08

E

stas viagens (?) ao continente americano, a terem acontecido, foram no mínimo intrigantes. Aparecem documentadas no mapa, hoje conhecido por mapa de «Piri Reis, navegador e cosmógrafo turco. Tudo começou quando o historiador, e navegador, português, um tal António Galvão30 (1490–1557), em meados de quinhentos, ter referido um mapa mundi que o Infante D. Pedro teria trazido das suas viagens a Veneza, em 1428.

30 Galvão, António – Tratado dos Descobrimentos – 4ª ed. Livraria Civilização, 1987. 1ª Ed. Lisboa Occidental, 1731.


Tratado dos Descobrimentos - António Galvão

Ora a verdade é que, de facto, o Infante D. Pedro, uma figura de extrema importância na História de Portugal, irmão de Henrique, foi um grande viajante na época medieval, tendo percorrido, durante 12 anos, toda a Europa (Inglaterra, França, Alemanha e Terra Santa(?)31, e daqui regressado a Itália, via Roma e Veneza. Nesta cidade, centro da cartografia europeia da época, D. Pedro teria adquirido um Mapa Mundi, e o livro de Marco Pólo, mapa esse que continha descrição de todas as «partes do universo»(?!) como refere Galvão.

31

Hoje colocam-se dúvidas quanto à visita de D. Pedro à Terra Santa.

45 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


O Mapa de Fra Mauro (desenhado)

Que relata ainda, para que não haja dúvidas, que tal mapa estaria depositado no Mosteiro de Alcobaça, e que por ele parecia que nos tempos antigos se tinha descoberto tanto ou muito mais do que está agora. Este Galvão (Séc. XVI) tem intrigado muitos dos grandes historiadores peninsulares. Uns crêem nas suas afirmações, outros colocam sérias dúvidas. Ora, os que duvidam, parecem apenas fazê-lo por uma questão de conveniência para demonstrarem as suas teses, mais coerentes com a correnteza geral que exalta a supremacia peninsular, portuguesa e catalã, no acto das descobertas. Facto é que Fra Mauro, cartógrafo de Veneza, teria entregue, exactamente a D. Pedro, para quem se diz, trabalhava, um mapa, de que hoje existe uma cópia na posse da Biblioteca Veneziana, onde estava desenhado o cabo da Boa Esperança com a nota de que em 1420, um junco vindo da Índia, (…) teria ultrapassado o Cabo Diabo, continuando até à Ilha de Cabo Verde. Inclusive, no referido mapa, junto do extremo sul africano, no cabo, aparece a silhueta de uma embarcação em que, dizem os especialistas, se identifica perfeitamente um junco chinês. Intrigante foi o saber como teria o conhecimento de tal cabo, e a informação das costas africanas, chegado a F. Mauro (?!). Ou talvez não tão intrigante assim!...Vejamos… Da China chegam novas notícias. Voltemos um pouco atrás.

46 08. O MAPA DE PIRI REIS


Muitos historiadores, quase todos, chegaram a afirmar quão importante teria sido o facto de D. Pedro ter trazido para Portugal o livro de Marco Pólo. E de ter sido este o livro que teria aberto luzes para se conhecer uma indicação aproximada da posição das Índias. Ora hoje, à luz do que se sabe, o importante que D. Pedro trouxe para a corte, terá sido o Mapa que Fra Mauro enviou ao Rei, via conde Roriz, determinante para o arranque da preparação da descoberta, pelos portugueses, do caminho marítimo para a Índia, dobrando o cabo. Parece então que os factos que compõem a História podem ter outra leitura. Generaliza-se o consenso de que, quem forneceu a Fra Mauro as indicações para o desenho do mapa, terá sido um tal Nicolò Da Conti (1395-1469), veneziano que após «os Polos», voltou à China em viagem por mar, tendo visitado e relatado32 hábitos, costumes e a geografia da região, tendo assinalado, com extremo rigor, os locais33 por onde teria passado a «Armada do Tesouro» de Zheng He. De facto, Nicolò terá contatado com os escribas Ma Huan34] em 1433 e Fei Xin em 1436, que acompanharam o grande almirante com o fim de registar os acontecimentos notáveis da viagem. Isso é indiscutível.

32

Galvão. A –«Tratado dos Diversos e Desvayrados Caminhos», Lisboa 1563.

Relatos absolutamente coincidentes com o que um dos maiores escribas chineses terá feito, no mesmo período, e nos mesmos locais. 33

34

Ma Huan escreveu «A vista geral das praias do Oceano» em 1433.

Comparação entre o Mapa de Fra Mauro (esq.) e o Kangnido (dir).

Ilustração de Barco da Armada


09

Especulações ou indícios fortes

P

esquisas recentes levaram a que se encontrasse uma carta sino-coreana, conhecida por mapa de KANGNIDO - Honil kangni Yoktae Kuktu Chi To, mapa das regiões e das Capitais dos Estados integrados ao longo do tempo, que combina o conteúdo do Shengjiao Guangbei Tu, mapa do vasto alcance dos ensinamentos morais da China, mapa-mundo produzido pelo cartógrafo chinês Li Zemin c. 1330, entretanto perdido, e do Hunyi Jiangli Tu, mapa das regiões integradas da China, peça cartográfica dos finais do século XIV, da autoria de Qing Jun.


Kangnido Map

Esta carta, oferta do embaixador da Coreia ao Imperador ZHU DI, data de 1403, e terá, possivelmente, sido alterada, e atualizada, em 1424. Trata-se de um mapa de grandes dimensões (1,7m/1,6m), pintado sobre seda, no qual se permitia conhecer o mundo sem sair de casa. Contém referências à Europa (nele a Alemanha é referida por Alemanha; a Espanha é apresentada com o estreito de Gibraltar, a sul, e nele se inclui o Norte de África). Mas desde logo, o que este mapa tem de espantoso é que nele se pode ver representada toda a costa ocidental de África, com grande rigor se comparada com o que é hoje incluindo, espantosamente, o cabo, ao qual os portugueses só iriam chegar, cerca de 60 anos depois.

49 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Comparação entre o Mapa de Kangnido36 37 e a realidade

Foi uma cópia deste mapa e quadros representando a Armada do Tesouro que o nosso particular amigo, Cheng35, nos mostrou no Museu Nacional de Taipé, num dia dedicado a conhecer a história do «seu mundo», incluindo a grande marcha, mas com que pretendeu provar-nos que «eles», os Chineses, tinham sido grandes navegadores. Tanto ou mais do que nós, portugueses. Isso e muito do que observámos depois, frotas de incontáveis juncos, navios cruzando-se a velocidades loucas em Hong Kong, juncos pequenos sem mastro movimentando-se a velocidades inacreditáveis em Singapura, impulsionados por longas varas motoras, num trânsito marítimo caótico, onde a toda a hora se esperava o pior. Criou-nos tal expectativa e espanto, que só um bom par de anos mais tarde, começou a explicar-se, quando diversas publicações, revistas de história e livros, fizeram chegar até nós a confirmação dos factos que na altura nos pareceram ousados demais para serem verdadeiros. A abertura da China ao Mundo, deixou que a curiosidade dos estudiosos fosse satisfeita com a permissão de consulta dos manuscritos encerrados nos seus museus. Este mapa, veio então confirmar a verdade sobre as viagens dos Navios do Tesouro que, sob o comando do grande Almirante Zheng He, tinham, em 1420, saído da China e viajado até à Índia (Malaca), e depois à costa leste de África. Malaca restou colónia chinesa, funcionando como entreposto avançado da China. Tais viagens teriam começado em 1405, e foram registadas, pelo menos, seis (há quem refira uma sétima…)3637

35

Visita guiada ao museu Imperial, Taipè.

Uma das acusações sobre a fidelidade deste mapa, é precisamente o rigor da representação de África quando comparada com o mundo próximo da China. 36

Revista Bibliográfica de Geografia Y Ciências Sociales, (Série Documental de Geo Crítica, Universidade de Barcelona).

37

50 09. Especulações ou indícios fortes


10

Efeito da viagem de Colòn

O

s preparativos da viagem de Colòn mereceram, da coroa portuguesa, uma negação à proposta apresentada pelo genovês.38 Era sua convicção, séria ou pretendida, de que, navegando diretamente para oeste, encontraria as «índias». Ou, na pior das hipóteses, encontraria as terras, ilhas, que serviriam de salto fácil para atingir a Índia, por ocidente. O mapa de Toscanelli mostrava Cipango, claramente. Colòn ficaria desiludido com a resposta dada, em 1484, de D. João II, à sua empenhada sugestão. Colòn acreditava ser um navegador experimentado e com conhecimentos que poucos teriam então. E deveria ter-se perguntado o que saberia D. João, que ele, Colòn, ainda não sabia? E porque teimava D. João em afirmar-se, pleno de convicção, arredio de qualquer outra hipótese: o «único» caminho para a India seria pelo sul, pela volta da África?

Recentemente pretendeu-se dar a nacionalidade portuguesa ao navegador, facto sem sucesso mas justificando um pretensioso trabalho de Mascarenhas Barreto.

38


De facto, D. João II sabia já, pela equipa que o apoiava e lhe dava informações, ser certo que, «relativamente» perto, a uns milhares de milhas, a oeste, se encontravam, de facto, terras, mas estas não eram as «índias». Em Castela ainda havia cosmógrafos que duvidavam da esfericidade da Terra. Quando negociou o Tratado de Tordesilhas, D. João conhecia esses factos de há muito, pelo que, nessa discussão longa, os portugueses sempre pareceram baralhar os espanhóis. E conhecia até, aproximadamente, onde ficaria o meridiano oposto à chamada linha de Tordesilhas que definia a «posse de terras». Interessava, isso sim, a D. João II, manter Colòn convencido na dimensão que este teria, do valor do grau, já que isso o manteria iludido. Estranho este erro, já que todo o conhecimento náutico de Colòn, e do seu irmão Bartolomeu, era de origem portuguesa:

Bartolomeu Dias

Foi em Portugal que o Almirante começou a pensar que, se os homens poderiam ir tão longe pelo sul, também se poderia navegar por oeste e encontrar terras (...) diz seu filho, Fernando, em «Vita de l’Almraglio». Colòn viveu na Madeira, tendo casado com Dona Isabel Moniz Perestrello, filha do Capitão da ilha, Bartolomeu Perestrello. E em Lisboa, desde 1470, frequentou os meios onde se espionavam novas notícias, ideias e conhecimentos sobre novas paragens. Mas principalmente, Colòn terá feito parte de uma expedição conjunta luso dinamarquesa, em 147739, aos mares do norte. Admite-se que João Corte Real também terá estado embarcado nesta viagem que atingiu Thile (Thule), navegando pela Islândia, a poucas milhas da Gronelândia. Das informações recolhidas por estas terras, há muito contactadas pelos normandos, esta expedição constatou a certeza (?) de que a oeste haveria um outro continente que se prolongaria para sul.

Thile

39

A data precisa merece algumas reservas, como veremos.

52 10. Efeito da viagem de Colòn


Colòn 40

Sobre as informações dadas por Colòn nesta viagem, aparecem várias incongruências que poderão ser um indício da pouca precisão, ou até saber náutico, do futuro almirante: a questão do número de braças (25) que indica para as marés naquela zona; a latitude de Thile que indica ser 73º, quando na verdade a correta é 63º. Salvo que os números indicados pretendessem impressionar as pessoas, a indicações são erradas e deixam muito a desejar.40

40 Não há nenhum retrato do Almirante feito em vida. Há pois claras diferenças entre muitos feitos após seu desaparecimento (Foto Michel Lequennes – «Chistophe Colomb Lámiral de l’a mer Océane», ed. Gali, Madrid, 1991.

53 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Complicando mais esta história, Sofus Larsen retirou da «História Insular» de António Cordeiro (1717)41, a ideia de que, nesta viagem, teriam também embarcado, como acima referimos, João Corte Real e Álvaro Martins Homem que o autor considera, os descobridores da Terra Nova em 1472-1473.42 Em 1482, Colòn irá mesmo navegar até à Mina, situando-a na linha equinocial, o que constituiria um erro de 5º, em relação à linha equatorial. Desta viagem lhe virá o erro do valor do grau traduzido em milhas. Erro que sempre o levou a considerar estar mais perto do seu objetivo, das «índias», do que, na verdade, estava…

Tratado Toledo em que Portugal obtém a exploração das terras a sul das Canárias

De tal erro se terá de imediato apercebido D. João II. Por isso, e porque das vizinhanças do Cabo, a sul, lhe vinham notícias de que, o dobrar do mesmo era questão de meses, o Príncipe negou apoio às ideias do futuro almirante em 1484. Não sem que, durante o tempo de decisão, não tenha ordenado a saída de navios para verificar a possível validade da proposta de Colòn. À cautela… Em 1487, Bartolomeu Dias dobra o cabo. Certamente D. João mostrou, ou Colòn já conhecia, o mapa da autoria de Henricus Martellus, datado de 1489, inserido no Insularium Ilustratum Henrici Martelli Germani, de que se conhecem quatro cópias presentes no British Museum, na Biblioteca da Universidade de Leiden, no Musée Condé de Chantilly, e na Biblioteca Laurenziana de Florença.

António Cordeiro, casado com Maria Espinosa, aluno brilhante, formado em Canones pela Universidade de Coimbra, escreveu «História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas no Oceano Ocidental» (1717).

41

42

Peres Damião ant. cit.

54 10. Efeito da viagem de Colòn


Este mapa, baseado em informações provindas de Portugal, contém elementos sobre a última viagem de Diogo Cão, e foi terminado já depois do contorno do Cabo, por Bartolomeu Dias. Existe assim uma distorção: o Continente Africano desvia-se para leste e prolonga-se mais do que a realidade. Distorções deliberadas (?)… ou falta de tempo para desenhar as linhas de contorno de um modo perfeito e exato? Sobre esta parte da viagem há omissões que parecem deliberadamente cometidas para resguardo do que, ainda, há tão pouco tempo se sabia.

55 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Martellus 1489


Propositadamente (ou não), o terminus da África, junto ao Cabo43, prolonga-se na carta demasiadamente para sul e com um desvio de inclinação para sueste muito exagerado. Em fins de 1484, Colòn iria oferecer-se aos reis Católicos, Fernando e Isabel. Ainda não iam decorridos quatro anos, e já D. João envia mensagem44 a Colòn, convidando-o, ou respondendo a uma missiva sua, a vir a Portugal, para de novo se analisar a possível expedição, dando-lhe todas as garantias de protecção.

Astrolábio

Assinatura de D. João II

Colòn, conhecendo o feitio do rei português, e o modo pragmático como resolvia as questões, sem olhar a meios, receou D. João, e não veio. Mas este possível (?!) arrependimento de D. João II, provocaria, com certeza, os reis católicos a, finalmente, decidirem-se a concordar com o financiamento da viagem, e com a concessão de benesses notáveis concedidas ao navegador, em caso de achado. Em 3 de Agosto de 1492, uma pequena frota de três navios: «Santa Maria», «Pinta» e «Nina», largaram de Pallos.

Admite-se que estes desvios teriam sido propositadamente transmitidos dentro da política de segredo praticada e extremada por D. João II para fazer crer que o caminho do contorno do Cabo era muito mais longo do que se pensava e assim dissuadir Castela a tentar o empreendimento. O desvio atingia quase 5º.

43

44

Ou terá respondido afirmativamente a uma carta de Colòn.

56 10. Efeito da viagem de Colòn


Còlon, depois de escala nas Canárias, ruma, proa a oeste, embrenhando-se no mar dos Sargaços. E a 11 de outubro desse ano, o marinheiro Rodrigo de Triana, vigia na proa da «Pinta», avista terra. Tinham-se passado 36 dias!

Réplicas «Santa Maria e Pinta» em Pallos

Durante algum tempo, Colòn acreditará que, se não chegou a Cipango, a cidade de tectos d’ouro, como afirmara Marco Pólo, estará muito perto de lá chegar. Esta era uma das primeiras ilhas que admitira encontrar, antes de chegar às «índias». Não imaginava quão longe estava, e que por ali nunca passaria ao «outro mar». Um equívoco que se apressará a disfarçar na visita que fez a D. João II, aquando do regresso, aportando primeiramente em Lisboa, antes de chegar com a boa nova, a Espanha.

«Pinta»


Como Colòn imaginava o mundo

Conta Ruy de Pina:45 no ano de mil quatrocentos e noventa e três, no lugar de Val de Paraíso, (...) por causa das grandes pestança (…) a 6 dias de Março, arribou arrestelo em Lixboa, Christovam Colombo, Italiano, que vynha do descobrimento das ilhas de Cipango e d’ Antilia (…) da qual terra terá trazido consigo as primeiras mostras de gente (…). E sendo o El Rey logo disso avisado, ho mandou hir ante si, e mostrou por isso receber nojo (…) por crer que o dicto decobrimento era fecto dentro dos mares, e termos de Senhorio (…) e com quanto El Rey foi cometido, que ouvesse por bem d’ho ali matarem. (…) porque com sua morte o prosseguimento desta empresa (…) cessaria (…) Mas El Rey como era Principe muy temente a Deus, nom somente o defendeu, mas antes lhe fez honra e muita mercee, e co ela o despediu. Que pretenderia Colòn provar ao rei D. João II durante o encontro solicitado, que D. João já não soubesse? A rota portuguesa estava a seguir a toda a força, em direcção ao caminho certo que Portugal considerava ser o mais natural e apropriado.

Diário 1ª Viagem de Colòn 45

Pina, Ruy – «Crónica s’el Rey D. João II – Atlântida Editora, 1950, Coimbra, pg. 184.

58 10. Efeito da viagem de Colòn


A Exploração do Noroeste

D

urante muitos anos, percebeu-se mal a estratégia da coroa, relativamente às terras que ficavam a ocidente no hemisfério norte.

Claro que era evidente que todos os esforços, quer fossem de avistamento, quer de manter segredo do que ia sendo observado, dirigiam-se prioritariamente ao Brasil. Pedro Álvares Cabral limitou-se, certamente, a fazer o «achamento» oficial do Brasil, depois da negociação árdua de Tordesilhas. Acordo conseguido de modo a que Portugal ficasse senhor daquelas terras, ricas só de ver as suas florestas. Convinha deslocar a linha divisória tão para ocidente, quanto possível, de modo a ficar com aquela imensidão deslumbrante.

11


O que foi mantido em segredo absoluto, foi a política seguida já, desde o tempo do Infante, determinado em fazer o descobrimento dos Açores. Intencionalmente, ou por razões certamente de arrastamento pelos ventos e condições de navegabilidade, numa zona nada fácil de marear, as ilhas teriam sido avistadas. Tais ilhas dariam para desconfiar que um outro continente, ou até as ilhas misteriosas, se encontrassem situadas mais para noroeste. Melhor base para desvendar o grande mistério não poderíamos desejar. Vinha muito detrás a ideia da existência de terras, continentais ou ilhas misteriosas, sitas no Atlântico ocidental, que uns chegavam a pensar, poderem ali estar as terras do Oriente. Propagandeavam essa ideia, o Tratado da Esfera de Sacrobosco (meados Séc. XIII)46 ou o Imago Mundi do cardeal d’Ally (1350 -1420).

Tratado da Esfera

46

Tractatus de Sphera (Tratado da Esfera), Jonhannes de Sacrobosco, Séc XIII.

60 11. A Exploração do Noroeste


Imago Mundi

Foi mesmo nesta última obra que Colòn se terá inspirado, ou convencido, que era verdade: entre Espanha e as «índias» o caminho era curto e a viagem seria fácil feita num mar calmo, pacífico (?) pensava Colòn. A carta náutica de 1424, anteriormente citada, claramente do conhecimento dos portugueses, ou até feita de acordo com as instruções provindas de navegadores ao serviço do rei português, ao registar terras num novo continente no noroeste, que se poderia identificar como terras da Florida, levanta claramente a hipótese de navegações feitas também a noroeste dos Açores, para lá da descoberta para sul da costa africana, em tempos coincidentes. Quem poderia ter dado tais informações sobre as terras e mares do noroeste?

61 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


É sabido que o descobridor das ilhas mais ocidentais do arquipélago açoriano, ilhas Flores e Corvo, terá sido Diogo Teive. Ora, no livro «Le Histoire de la Vita e dei Fatti de Cristoforo Colombo», da autoria de seu filho, Fernando Colombo (Veneza 1571), livro que desapareceu mas que felizmente foi traduzido por Bartolomé de Las Casas47, na História da Índias, pode ler-se: (…) andou também à procura desta ilha (Antilia ou ilha das Sete cidades) um certo Diogo Teive, cujo piloto era Pedro de Velasco (espanhol) nativo de Palos)… que disse ao Almirante em Santa Maria da Arrábida, que partiram do Faial e navegaram mais de cento e cincoenta léguas na direcção do sudoeste e ao regressar descobriram as Flores48, à qual foram guiados por muitas aves que viram naquela direcção, pois que sendo tais aves terrestres e não marinhas, pensaram que só podiam repousar em terra; e depois caminharam tanto pelo Nordeste (?) que tomaram o Cabo da Clara na Irlanda pelo oeste, na qual paragem encontraram grandíssimos ventos do Poente. Mas porque já era entrado o mês de Agosto, não quiseram voltar à ilha com medo do Inverno . Las Casas ao afirmar o acima reproduzido diz que tal teria acontecido quarenta anos antes que tivessem sido descobertas as nossas Índias. Se tal fosse confirmado em absoluto, Teive teria andado muito perto da Terra Nova. Certo que não desembarcou, pois como é dito, as condições de tempo o não aconselhavam. Mas este será um dos maiores incitamentos a Colòn, aquele que lhe criou a «certeza» que haveria terras a ocidente, cuja distância era relativamente pequena. No planisfério de La Cosa (1500) que terá sido feito no seguimento da viagem de Colòn, aparece já uma linha continental que vem da Gronelândia à costa norte do Brasil, vendo-se claramente reproduzidas as Antilhas.

47 Bartolomé de las Casas (Sevilha, 1474 - Madrid 1566) foi um frade dominicano espanhol, cronista, teólogo. Defendeu a tese de que todos os homens, são criados à imagem de Deus e, portanto, a escravidão deveria ser rejeitada. Escreveu a «História das Índias».

Cortesão, Jaime -«A viagem de Diogo Teive e Pero Vasquez de la Frontera ao Banco da Terra Nova em 1452», Separata do Arquivo Histórico da Marinha vol. I, nº 1 Lisboa 1933.

48

62 11. A Exploração do Noroeste


Mas o que é hoje conhecido, o célebre Mapa de Cantino, realizado em Portugal, roubado ou comprado(!), por um mercador, Cantino, que o ofereceu ao amo, Duque de Ferrara, Ercole D’ Este, muito tardiamente encontrado a fazer de cortina numa salsicharia, representa já muito claramente a Gronelândia e a Terra Nova. A pergunta que então se colocou, aquando do aparecimento deste mapa, foi a de quem teria fornecido aqueles dados e a que viagem se referia. Teria sido a dos irmãos Corte Real? Seria que o pai49, João Corte Real, ao solicitar a carta de mercês, ao rei, teria efectivamente lá viajado, ao contrário do que na generalidade se pensa? Afinal João Corte Real teria estado com Colòn, na viagem organizada em 1473/7650, por acordo entre o rei D. Afonso e do rei Cristiano I da Dinamarca, expedição chefiada pelos navegadores alemães Didrik Pinningh e Poidthorsth51, para estabelecer e renovar antigas ligações da Dinamarca com a Gronelândia. Desta expedição luso-danesa, é interessante ler a carta do burgo mestre de Kiel para Cristiano III, relatando o acontecido na vigem, em tempo de seu avô Cristiano I52: (...) da presente dignar-se deducir a V Alteza Real que as Terras da V S em Groenlândia se estendem por ambas as duas partes para o Novo Mundo, e cara as ilhas atopadas pelos portugueses e espanhóis, pelo que é possível chegar a elas desde a Groenlândia (...) no penedo de Wydthszerk diante da Groelândia, mesmo defronte de Sniefeldsiekel de Islândia, ergueron um grande marco virado para o mar (...)

49 João Corte Real era, desde 1472, senhor da ilha de S. Jorge. Em 1474 obtém da Infanta D. Beatriz, Duquesa de Viseu, a capitania da Angra do Heroísmo.

Na História Insulana (1717), António Cordeiro chega a referir que nesta viagem, esteve não só João Corte Real ,como ainda Álvaro Martins Homem.

50

51

Um filibusteiro sem rival, assim era Didrick considerado.

52

Vilar, Xoan Bernández - «A Etapa Portuguesa de Colòn», Ed. Galaxia, Vigo 2002.

63 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

João Corte Real


Viagem João Corte Real

Teria João Corte Real organizado expedições ou outras viagens que o terão levado até à costa da América do Norte?53 Adão da Fonseca é peremptório ao indicar as seguintes viagens: 1452, Diogo Teive; 1462, João Vogado e 1472, João Corte Real. Mas não é o único… Mas se assim fosse, Corte Real, pai, teria chegado à América 19 anos antes de Colòn (!). E seria que a corte portuguesa iria deixar de assumir tal desiderato? Ou teriam as notícias provindo das viagens de seus filhos, Gaspar e Miguel, o primeiro em 1501 e a do segundo em 1502? O planisfério anónimo, dito de Cantino, insere toda uma série de anotações que não deixam dúvidas de que as informações terão provindo da viagem de Gaspar Corte Real. E assim, Gaspar Corte Real teria, ou não, feito a viagem antes de 1500, a qual alguns atribuem a seu pai? O Tratado das Ilhas Novas e dos Portugueses, que foram de Viana e das Ilhas dos Açores a Povoar a Terra Nova do Bacalhao vai em sessenta anos (seriam 70!), do que sucedeu o que adiante se trata, Ano do Senhor de 157054 relata:

Fonseca, Luís Adão – «The Discoveries and the Formation of the Atlantic Ocean» – ed. Comissão Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Séc. XIV - Sec XVI, Lisboa, 1999.

53

54

2ª Edição aumentada,1884 Ponta Delgada, Arquivo dos Açores.

64 11. A Exploração do Noroeste


Haverá 45 anos ou 50 que de Viana se ajuntarão certos homens fidalgos e pela informação que tiveram da Terra Nova do Bacalhao se determinaram a ir povoar alguma parte dela como de feito foram em uma nau e uma caravela, e por acharem a terra muito fria, donde iam determinados correram para a costa Leste - Oeste até darem na de Noroeste – sudoeste e aí habitaram, e por se lhes perderem os navios não houve mais notícias deles, somente por via dos biscainhos, que continuam na dita costa a buscar e a resgatar muitas coisas que na dita costa se dão estes homens informação e dizem que lhes pedem digam cá a nós outros como estão ali, e que levem sacerdote, porque o gentio é domestico e a terra muito farta e boa como largamente tenho as informações e é notório aos homens que lá navegam; e isto é no cabo Bitrão logo na entrada da costa que corre ao norte em uma formosa baía donde tem grande povoação; e há na terra coisas de muito bom preço e muita noz castanhas, uvas, e outros fructus por onde parece ser a terra boa e assim nesta companhia foram alguns casais da ilha dos Açores que de caminho tomaram como é notório: Nosso Senhor queira por sua mesericordia abrir caminho como lhe vá a socorro (…) Se considerarmos certo os 50 anos, estaremos a falar das viagens, uma? ...duas?, de João Álvares Fagundes, como veremos adiante, com toda a probabilidade. É admitido, por outro lado, que, dentro do secretismo necessário, porque Portugal estava a negociar o Tratado de Tordesilhas em 1494 tornando-se necessário ter todo o cuidado, pois tais terras ficariam, com toda a probabilidade, no hemisfério pertencente a Espanha. Se, de facto, tivessem sido realizadas outras viagens a seguir a Teive, elas levariam ao interesse de João Corte Real e família. Já referimos a posição de Adão da Fonseca.

65 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Ratificação do tratado de Tordesilhas feito por D. João III, assinado por D. Isabel e D. Fernando, reis de Castela, Leão e Aragão, e por seu filho, o príncipe D. João.

Terão sido realizadas outras mais: Teles em 1474, e Ulmo em 1486, sem deixar de falar da secreta viagem de Duarte Pacheco, um dos peritos do rei português nas negociações com Castela. E, certamente, muitas outras mais. A viagem era, apesar de tudo, simples: à ida a favor dos ventos de que se sabia lá dominarem. A volta seria pela latitude dos Açores, com os conhecidos ventos do oeste que garantiam a volta das naus da Mina.55

55

Coutinho, Gago – «A História dos Descobrimentos» – ed. Quipu, Lisboa 2001, pg. 23.

66 11. A Exploração do Noroeste


Mas facto é que o «Planisfério de Cantino» regista muitas bandeiras de Portugal com legendas que, traduzidas para a linguagem atual, referem: «Esta terra é descoberta por mandado mui excelentissimo príncipe D. Manuel rei de Portugal». E embora se refiram como terras da ponta da Ásia, o equívoco virá, segundo Duarte Leite, do facto de as terras se suporem prolongamento da Escandinávia, onde figuraria a designação, Parte da Ásia. Junto à Terra Nova insere-se o seguinte: Esta terra é descoberta por mandado de mui alto excelentíssimo príncipe D. Manuel Rei de Portugal, a qual descobriu Gaspar Corte Real, cavaleiro da casa do dito Príncipe, o qual quando a descobriu mandou um navio com certos homens e mulheres que achou na dita terra …ele fico com outro navio e nunca mais veio, crê-se que é perdido aqui há muitos anos.56

Planisfério de «Cantino»

Guerreiro Inácio – «Reflexos Carto Geográficos das Navegações no Atlântico Noroeste, no século XVI» - Ver Oceanos.

56

67 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


A Terra Nova (Terra del Rey de Portugall) no Planisfério de Cantino

No dito planisfério, a Terra Nova está deslocada para oriente, com a finalidade de, assumido o facto, restar na posse de Portugal, antes de ser ratificado o tratado de Tordesilhas. Ficou, assim claro que, antes de 1502, os portugueses já teriam descoberto a Groenlândia e a Terra Nova. Na carta, já aparece a designação do Cape Breton, e até, da Florida, sem qualquer referência à visita de espanhóis, só verificada em 1513.57 Logo em 1504 surge a carta de Pedro Reinel:

Pedro Reinel (1504)

57

H .Harrise - «The Discovery of North America», 1897.

68 11. A Exploração do Noroeste


Uma e outra carta, no referente à Terra Nova, não diferem substancialmente. Assim, os historiadores, mesmo os estrangeiros como Harrisse, aceitam, como inquestionável, ter sido Gaspar Corte Real o descobridor da Terra Nova. Na carta de Reinel, aparece claramente a designação de «Terra dos Bacalhaos», e no território, a norte, pode ler-se o nome de «Lavrador».58 Estas designações serão constantes nas cartas que daí em diante irão aparecer em todo o Século XVI. Duarte Pacheco afirma no «Esmeraldo de Situ et Orbis» (…) que era do conhecimento português a existência de um continente que ia da latitude norte de 78º, até aos 28º sul, sem lhe conhecer o fim. Terras achadas pelos navios de D. Manuel em 1498, muito antes, portanto, de Colombo ter desistido de descobrir por entre as Antilhas, passagem para o que julgava ser Ásia, cita Gago Coutinho na «História dos Descobrimentos».59

58 João Fernandes Labrador, lavrador da Terceira, foi quem deu em Bristol, a Henrique VII, conhecimento das terras que tinha avistado, e visitado, juntamente com Pedro de Barcelos em 1491. Depois de obter privilégios, «Labrador» partiu, financiado pela associação de mercadores Anglo -Portuguesa, novamente para essas terras, em 1501 -1 502. Terras que ficaram para sempre designadas por «Terras do Labrador». 59

Coutinho, Gago – «História dos Descobrimentos» ed. Quipu, Lisboa 2001.

69 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Viagens de Gaspar Corte Real

Primeira Viagem em 1500 Provável rota da última viagem em 1501


Um dos seis mapas que constituem o Atlas Miller

Depois de Reinel, muitas outras cartas foram sucessivamente surgindo, baseando-se, no fundamental, no que aquele mostrava. Os «Reineis», Pai e Filho, desenharam, a convite do Rei Venturoso, e depois de D. João III, um Atlas que deslumbra pelas suas iluminuras, o qual é conhecido por «Atlas Miller», por ter sido este o seu último proprietário, aquando do seu achado. It is undoubtedly the most lavish work of its genre, which suggests that King Manuel commissioned it as a state gift, although it is not known for whom. It can even, to a certain extent, be deemed to be propaganda for Manueline imperialism, tinged with messianic airs 60 Referiremos agora, e para o nosso objectivo, apenas mais um cartógrafo, Diogo Ribeiro. Sendo português, trabalhou ao serviço de Carlos V, com Jorge Reinel. São quatro planisférios, além de uma carta, os trabalhos que se conhecem da sua autoria, executados, os planisférios entre 1525 a 1529, e a carta em 1532. Diogo Ribeiro terá tido conhecimento das viagens de Álvares Fagundes que partiu, como iremos ver adiante, para a Terra Nova, com carta régia concedida por D. Manuel I.

Atlas Miller commentary volume by Alfredo Pinheiro Marques (University of Coimbra, Director of the “Centro de Estudos do Mar - CEMAR”) and Prof. Luís Filipe F. R. Thomaz (Director of the Institute of Oriental Studies of the Universidad Católica.

60

70 11. A Exploração do Noroeste


E se Cortesão afirma «categoricamente»

Atlas Miller

Não temos dúvida de que Fagundes e outros navegadores portugueses exploraram não só as partes meridionais da costa da Terra Nova e o Golfo de São Lourenço, mas e também o estreito de Belle Isle. Harrisse, já citado, vai mais longe ao atribuir a Fagundes a exploração do Golfo de São Lourenço, o litoral da Nova Escócia, e a costa sul da Terra Nova.

71 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


João Álvares Fagundes

12

N

em tudo é claro ou está devidamente esclarecido, no que se refere a João Álvares Fagundes. Por exemplo, não é totalmente conhecida a data do seu nascimento, para a qual se aponta o período entre 1450 e 1460. Sabemos sim que pertencia a uma ilustre família de Viana do Castelo. Alguns dos biógrafos dão-lhe a proveniência de uma família de clérigos que teria vindo para Viana, acompanhando o administrador de Entre-Lima-e-Minho, D. Afonso Ferraz, bispo eleito de Ceuta.61

61 Moreira, Manuel António Fernandes, seu maior biógrafo - «O Porto de Viana do Castelo na época dos Descobrimentos».


Fagundes «visto» por Couto Viana

João Álvares Fagundes era filho de João Pais Fagundes62 e de Catarina Dias. Em primeiras núpcias casou com Maria Gonçalves Maciel63 e, em segundas, desposou Leonor Dias Boto64,65 que enviuvara de Fernandes Rodrigues do “Cais”, tendo deste, à data que casou com Fagundes, em 1504, já diversos filhos.

João Pais Fagundes foi filho de João Pais “O Tabelião”. Autores referem que João Pais Fagundes, era também conhecido por Álvaro Pais (ou Álvaro Annes)?

62

63

O casamento com D. Maciel, quase passou despercebido, ou até propositadamente ignorado.

No livro de registo das Covas, é registado «jaz nella Lionor Dias, mollher que foi de Joham Alvares Fagundez»

64

65

Esta D Leonor Dias Boto, está sepultada na Igreja Misericórdia de Viana (24.08.1538).

74 12. João Álvares Fagundes


Na Corografia Portuguesa66, o Padre Carvalho da Costa faz referência, a propósito da Freguesia de S. Julião de Moreyra: Nesta freguesia é a casa do Outeiro, solar dos Fagundes, cuja família tem dado pessoas grandes de que descendem muitos fidalgos, e foram os primeiros que com gente de Viana descobriram a Terra Nova, e que nella tiveram fortificação de que eram senhores, e por sua conta corria a pesca do bacalhau em quanto Inglaterra a não tomou. João Álvares está intimamente ligado a duas instituições emblemáticas de Viana: o Mosteiro de Santa Ana, instalado em 1510 por «homens bons» da localidade, destinado a acolher filhas deserdadas. E depois surge, ocupando lugar de vereador, na Câmara da Villa. Armas de «Fagundes»

João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, refere os «Fagundes» do seguinte modo: Dameyufes naturais / são o fagundes honrados / em Viana os há tais / nos outros tempos passados / foram muito principais. Da sua condição de nobre cavaleiro, deriva o direito de solicitar isenção da «finta» especial, pretendida para a construção da ponte sobre o Guadiana. E, mais tarde, evoca de novo esse direito, em 1521, escusando-se a pagar ao Marquês de Vila Real, os impostos requeridos para a contribuição da defesa de Ceuta. Era ainda vereador, no ano anterior à sua morte, 1522, pois é lavrado no livro de actas que por ser fal falecydo o dicto joham Álvares, foi emlygido Martym Fernandez para servir de vereador. Da sua segunda mulher, Leonor Dias, temos relato de uma escusa de pagar certo imposto na Câmara por ser de sua casa (Fagundes) a Capitania: (...) em 1533 pretendendo a câmara de Viana lançar tributo na Villa, provaram algumas pessoas a sua nobreza, para serem escusas do seu pagamento (...) entre ellas (...) Leonor Dias mº (mulher) de João Álvares Fagundes (...) mostrando ser (seu marido) Cavalleiro, e que é de sua casa a Capitania de todas as ilhas que se descobrissem (…)

66 Costa, P. António Carvalho da – «Corografia Portuguesa» - ed. Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses

75 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Tem gerado polémica saber se a filha única de João Álvares Fagundes, era D. Violante, provinda do casamento com D. Leonor, e que casará com João de Sousa, fidalgo. Outros estudiosos da sua vida, reconhecem que só Catarina (?) Fagundes67 «a Fagunda» era a sua verdadeira filha, casada com Gonçalo Afonso Cerqueira. Que haveria uma só filha é indiscutível. Parece correcta essa certeza, porquanto na Carta de Doação, dada por D. Manuel I a Fagundes, 1521, pode ler-se: (…) Don Manuel, por graça de Deus Rei de Portugal e (…) a quantos esta carta virem, façam saber que nós demos a João Álvares Fagundes, Cavaleiro da nossa casa, um Alvará (…) e assim nos prazia, porquanto ele não tinha filho macho, senão uma filha (…) que a dita sua filha e todos os seus sucessores (…) possam herdar a dita Capitania68 (…) Ora, D. Violante terá nascido após 1504. Numa manda testamental que João e Sousa Magalhães e sua mulher, D. Violante, fizeram, em 16.4.1548, regista-se ser esta, filha de Álvares Fagundes. No «Tratado das Ilhas Novas»69, são referidos os termos dessa manda, feita em 16 de Abril de 1548: (…) em nome de Deus (...) saibam quantos esta manda e testamento virem como nós João e Sousa, e Violante (...) mandamos que quando Nosso Senhor se aprouver de levar nossas almas que nossos corpos sejam enterrados na Igreja desta Vila (Viana do Castelo) na Capela do Cruxifixo: Eu João e Sosa no moimento no arco que parte com a Capela–mor onde está a campa do meu sogro e eu Violante, no outro moimento que está contra a sacristia de Jesus (...) E assim sucedeu…

67 Moreira, Manuel António - «Os Vianenses na Construção do Novo Mundo», ed CM VC, 2008, pg.182. refere numa sisa despachada por João Álvares Fagundes, de 10 varas de panos, e um outro despacho de Maria Fernandes, «sua filha», que despachou 11 varas de pano. 68

Tradução da carta inserida por Moreira, Manuel António livro ant. citado.

69

Sousa, Francisco – ed. Arquivo Açores, 1884, pg. 32.

76 12. João Álvares Fagundes


Sepultura dos «Fagundes»

O facto de D. Violante ter herdado, e só ela, a capela mandada erigir por João Álvares, parece apagar qualquer outra hipótese. Na manda, adiante, refere-se: que nosso Pai João Álvares Fagundes, fez a manda muito tempo antes do seu falecimento em o qual manda tomava para si todo Val-Verde (propriedade perto de Viana, lugar de Arquinha) e outros prazos e que deixou isto à Capela do Crucifixo (…) e que depois de estar o dito testamento feito foi descobrir a Terra Nova, em que fez muita despesa e tomou dinheiro emprestado, do que ficaram muitas dívidas, e mais o nosso casamento assim, que quando veio por, além do nosso casamento e dos dinheiros se pagaram sua morte e dos dinheiros que se pagaram, cousa nenhuma por onde se pudessem fazer nenhum cumprimento que ele mandava e deixava que lhe fizesse na dita Capela (...) porém nos dizemos que nós outros tomamoso dito Val-Verde com a sua horta e casa, (...) o qual tomamos para sempre (...) Poucas dúvidas restariam. Mas, no opúsculo «Ensaio sobre a origem medieval dos Boto»70, Soveral, ao acrescentar a carta de Filipe I de 2 de junho de 1589 para Damião Sousa, fidalgo de sua casa, mandando-lhe pagar a avultada soma de 2.000 cruzados pelos direitos dos impostos cobrados na Terra Nova, resultantes do «descobrimento» de seu avô João Álvares Fagundes, fecha claramente as dúvidas, se ainda as houvesse. E de onde é que elas viriam?

70 Soveral, Manuel – «Ensaio sobre a origem medieval dos Boto» texto inserido no livro «Donas Boto de S João da Pesqueira». «Origens e novos ramos» de Albano Chaves, 2005.

77 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


João Álvares terá feito vários levantamentos de mercadorias na Alfândega de Viana71 e Caminha. Pela sua condição de nobre estaria isento do pagamento de imposto de sisa. Ora, num desses levantamentos, em Caminha, regista-se ter sido feito o mesmo em nome de uma sua filha «Maria Fernandes» que, por isso, é isentada da sisa. Esta aparição poderá não ter consistência, nem muito menos provar nada, pois que Fagundes havia muitos na altura em Viana, sabemo-lo. E por isso, a evocação do nome no registo poderia ser uma «habilidade» para facilitar o levantamento, possivelmente, para João Álvares. Acrescentamos um documento que pensamos encerrar a questão sobre a «filha de Fagundes». Assim na Torre do Tombo encontrámos este testamento: Colecção Armário Jesuítico e Cartório dos Jesuítas Documentos referentes a “Títulos de propriedades” do Colégio de Santo Antão de Lisboa e do Colégio de Angra do Heroísmo Documento composto “Testamento de Catarina Álvares Fagundes e codicilo em que deixa o Colégio de Angra por herdeiro” Datas de produção 1651-01-27 / 1651-03-12 Existência e localização de cópias Cópia microfilmada. Portugal, Torre do Tombo, mf. 5344. Ora esta Catarina Fagundes, dita «a Fagunda», era pois a filha de Damião Sousa72 (este o filho de João Sousa e de sua mulher D.Violante), logo bisneta de João Álvares Fagundes.

Citado por Peixoto, António – «Casa da coroa :livro das Sisas dos Panos da Alfândega de Caminha 1519», folha 266 e 274. 71

72 Este Damião Sousa era neto de João Álvares Fagundes, filho de João e Sousa e D. Violante e a que Filipe I legara o crédito das capitanias da Terra Nova, de seu avô.

78 12. João Álvares Fagundes


viana do castelo séc. xv/xvi

F

agundes, como outros, representava uma alta burguesia vianense. Elementos que se aproximaram dos mareantes, vindo habitar e construir suas casas na parte junto ao rio, dentro das portas da cidade, possuindo embarcações suas ou fretadas, com que acompanhavam a mercadoria, iam ao norte Europeu, ou ao mediterrâneo, adquirir os mais diversos produtos. Eram já habituais as visitas aos mercados de Inglaterra, de La Rochele, Calais, Bruges, Roterdão, Barcelona, Veneza etc., levando e trazendo, negociando os cereais o sal, vinho e muitos outros mais, importando panos, peixe, madeira, material para construção naval, ferraria, etc.

13


Forte de S. Lourenço

Viana da Foz do Lima era a via de acesso para uma região carente de muitos bens, e com um relativo, bom, poder de compra. O porto de Viana, sendo a primeira porta de entrada para o país, era extremamente procurado, requerendo abastecimento que gerava uma movimentação permanente de stocks. A permanência de embarcações em espera e os armazéns a abarrotar, tornava Viana muito propícia ao ataque da pirataria e do corso, francês e inglês, habituais na época. Em 1573 foi, por isso, decidido construir o forte de São Lourenço para se ordenar fortaleza na dyta villa e dar outras ordens para defesa desta villa dos franceses pelos dyas passados serem saqueados, pois que ainda em 1538, duas naus e uma barca de França teriam atacado, e tomado, onze(!) navios de Viana, e outros que se encontravam no seu porto.

Casa de Pêro Galego

Na Villa, aproximando-se e até interligando-se com os mareantes, que foram durante muitos anos os senhores daquela área vizinha do mar, instalaram-se os mercadores, quer fossem de grosso, importadores, senhores de frotas de trazer e levar ou retalhistas. Como em outras áreas dos portos vizinhos, começava uma aproximação da burguesia aos mareantes, para a qual era fundamental o comércio com o exterior. E logo os mercadores passaram a fazer parte do poder político local, superando a presença daqueles, cuja postura cívica era a de ligar pouca importância aos problemas de administração da Villa. Por iniciativa própria ou pelo tipo de ocupação, os mareantes mantinham-se como que alheados do poder local.

80 13. Viana do Castelo - Séc. XV/XVI


Foi preciso que os mesteirais obtivessem de D. João III, em 1534, a concessão do direito de terem dois representantes na administração camarária, homens que saibam requerer bem e com toda a temperança das couzas do povo, para despertar os mareantes, o grupo de habitantes de maior representatividade. E só, em 1567, estes habitantes de Viana requereram ao rei, q(ue) lhes mande passar provisão q(ue) eles entrem no governo desta Villa, yguallmente, como os homens da terra, como se faz em Caminha, Vila do Conde, Porto, Aveiro e Buarcos. Despachou favoravelmente esta petição, D. Sebastião os mareantes da Villa de viana que tiverem as naus suas, próprias, sejam admitidos a serem vereadores (...) mas não possão dous mareantes serem, juntamente, vereadores em hu ano (...) E vai mais longe a provisão: os mareantes que fossem pilotos ou mestres de navios e naus, e que fossem casados e vivessem limpamente, poderiam ser eleitos oficiais de almoçatés e procuradores do concelho (...) gozando dos privilégios que aqueles usufruíam (1569). Deve aqui dizer-se que esta concessão não foi pacífica. Pleitos atrás de pleitos foram dirimidos contra estas prerrogativas reais, concedidas73. A proximidade de Viana à Galiza, tornava intensas as trocas entre as comunidades. Em Viana chegou a existir o cais74 dos «galegos», o que indica a pretensão de uma política de aproximação e acolhimento, no sentido de aumentar as trocas comerciais, cuja sisa constituía uma excelente receita para os cofres da Igreja e do Senhorio. A importação do peixe galego, sardinha e outro, era substancial, pois descarregado em Viana, o peixe era conduzido para o interior do Minho e até para Trás os Montes. O rio Lima era uma via privilegiada de transporte até ao interior minhoto. Depois, os almocreves, faziam chegar o peixe mais para o interior e para as zonas vizinhas.

73

ADVC pasta 13, Livro de Privilégios.

Data de 1304 (no sentido 13 de Outubro) uma petição a D. João I, onde se afirmava que da dyta villa era mui necessário fazer um caes para navyos que ahi viessem seguros. E para isso, mandou o rei lançar finta e talha até... certa quantia.

74

81 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Tanta e tão diversa mercadoria levou ao trabalho de construção de cais de atracagem, em locais defronte dos armazéns de grosso que se iam fixando. D. Manuel autorizou a compra de terrenos públicos junto do embarcadouro dos caleiros, para alargamento das construções navais, que ocupavam já toda a margem direita do rio, a partir do ermitério de São Bento, refere José Rosa de Araújo75. No Atlas d’El Rey Planeta de Teixeira Albornaz, efectuado por solicitação de Filipe II, da representação de todos os portos da Península, o porto de Viana aparece assim desenhado, com características tão peculiares daquele cartógrafo. A representação sugere uma vista em perspectiva. Parece que, em 1634, a atenção de Albornaz se deteve num esquiço de cais que já se alinhava na margem esquerda do Lima. São do Séc. XVI, o conhecimento de três cais: mais perto da barra, o cais dos pescadores; no centro, o cais comercial e para nascente destes, o «cais das calles», isto é, o cais onde se descarregavam e despachavam as mercancias para subir o rio. Os mareantes que até quatrocentos, eram a única fonte do poder na Villa, viram, a partir de quinhentos, chegar os mercantéis. E logo perceberam que aqueles, misturando-se com as suas famílias, iriam lenta mas inexoravelmente, colher e dominar o poder. Em 1567, D. Sebastião reconhece o facto, e exara despacho onde diz os mareantes da Villa de Vyana da Foz do Lyma, q a dita villa de princypio da sua fundação sempre foi governada e dirigida pelos seus antepassados q foram mareantes, q ora, de poucos anos a esta parte os senhores da Terra os têm relegado. A classe dos mareantes, por todo o país, solicitou e obteve da coroa, as mais diversas facilidades, concessões e isenções. A exemplo do que se passava lá por fora, pelos diversos países europeus, em que, aos mareantes, eram concedidos privilégios muito especiais. Assim iam sendo isentos de «comedeoria e aposentadoria», o que significava, ficarem livres de alimentar ou dar guarida, pernoita, a tropas ou comitivas régias, que ocasionalmente,

75

Araújo, José de Rosa - «Quem era Álvares Fagundes?» Ponte Lima, 1988.

82 13. Viana do Castelo - Séc. XV/XVI


vinham defender a Villa do ataque dos piratas ou corso (ou visitar em trabalho régio). E como Viana, para lá da sua fortificação era muralhada, e com três portas que se fechavam à noite, sendo proibido aos mareantes, andar fora delas depois de encerradas. Mas dado o seu tipo de actividade, com chegada ou largada fora de horas, foi concedida a isenção de respeitar tal determinação. Uma outra diz respeito a não lhes ser obrigatório, acompanhar preso ou dinheiro, libertando-os da tarefa de fazer parte de comitivas de guarda, no sentido de fazer frente a salteadores ou actos de força para a libertação dos detidos (D. Manuel 1502). Mas terá sido no séc.XVI, e a exemplo do que pelo país as estruturas dos mareantes iam instituindo, que foi dado um passo de «alforria» de afirmação da classe social dos mareantes, ao ser fundada em 1504 a Irmandade (ou Confraria) dos Mareantes (ou de Jesus dos Mareantes). Esteve desde o ínicio implantada na Igreja Matriz76.

Moreira, Manuel António, ant.cit «O Porto de Viana do Castelo na Época dos Descobrimentos –, pg 145/6

76

83 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Porto de Viana em 1756


defesa dos i comuns, pa apoio em ca pobreza, d Organizações corporativas (mareantes e ou familiares) de auxílio mútuo, de assistência, beneficência e salvação das almas, recriadas sob a chancela das chamadas Confrarias, eram estruturas sócio-religiosas, mas e também económicas, que tiveram papel activo de destaque na transição do tempo medieval para os tempos modernos. Estruturadas, nuns casos sob o nome de Confrarias, noutros mais prosaicamente ditas Irmandades (se bem que estas não tivessem, por norma, nos seus fins, o apoio mútuo, tendo apenas mais um carácter de união religiosa em torno de santidade ou orago) tinham como ponto básico de congregação o carácter eminentemente religioso (ligadas às estruturas de uma capela vizinha). As confrarias laicas ou corporativas, eram assim, associações, tendo como finalidade a assistência mútua dos associados mas e também a defesa dos interesses comuns, para lá do apoio em caso de pobreza, doença e velhice, bem como o sepultamento e sufrágio das almas dos confrades.

Ao assim proceder estaria garantida a salvação colectiva. A associação dos indivíduos a estas corporações foi a necessidade que estes sentiam de obter a maior quantidade possível de intercessores no mundo celeste para conseguirem garantir a protecção divina na sua vida quotidiana e a salvação das suas almas após a morte.77 A entrada nestas organizações era também uma das formas dos novos irmãos poderem assegurar o auxílio dos outros membros em eventuais momentos difíceis dos seus percursos de vida, tais como os tempos de pobreza, fome, epidemia, doença, cativeiro, etc. Em 1521 por alvará concedido por D.Manuel, datado de Lisboa em 3 de Julho, o governo e administração da Confraria passaram a constituir direito exclusivo do «mareantes», privilégio confirmado por D.João III78 em 1528.

77 Penteado, Pedro - «Confrarias Portuguesas da Época Moderna: Problemas, Resultados e Tendências da Investigação» * 78

Moreira, ant.ctd, pg. 147.

84

13. Viana do Castelo - Séc. XV/XVI


interesses ara lá do aso de doença A Confraria foi então isenta do pagamento de sisa referente às esmolas79 recebidas. Esta Confraria virá a ter conflitos sérios com as forças da Vila, entre as quais a Misericórdia, e com a Confraria do Espírito Santo. À medida que crescia e ganhava corpo e acolhimento na sociedade, a Confraria, foi servindo de apoio para as lutas por obtenção de benefícios (quase sempre ligados á taxação das pesca) ou mercês régias (que abordamos) ou até na oposição aos mais fortes da urbe, nas lutas travadas pela aquietação entre grupos sociais emergentes (caso dos mercadores à medida que se foram avizinhando da beira rio, assumindo um papel importante no mando da villa. Em 1561 por limitações impostas à Confraria acima80 referida, especificamente pelo facto de à mesma só poderem pertencer «mareantes», o nome foi alterado para Irmandade do Nome de Jesus, cujo rol constitui o Livro da Irmandade do Nome de Jesus por iniciativa do Frei Estevão Leitão, com autorização régia de D. Catarina. Uma outra questão que refere a obtenção de privilégios, pela classe que se assume merecedora de «privilégios», está patente na autorização régia, de que responde ao pedido (1566) da criação de um açougue que funcionasse especificamente para fornecimento de carne e derivados, à classe, em situação de privilégio no referente a impostos. Como noutros pontos do país estes açougues funcionavam, por vezes, excedendo o fim para que teriam sido criados, fornecendo a preços inferiores, as mercadorias às populações. É referido que, em 1613 dava quatro bois em cada sábado e dois por semana, por haver muyta gente nela hestrangeira e do norte q acorriam todo o ano ao porto desta villa.81 Certo é que com os mareantes e mercadores, por vezes, quando atingida grande dimensão de uns e outros, as duas classes parecem confundir-se.

79

Esmolas na maior parte provindas de ex-votos.

Serra, Manuel Cunha -«As duas Confrarias da Misericórdia e as Duas Confrarias de Viana da Foz do Lima do Séc XVI» - Centro de Estudos Regionais de Viana do Castelo.

80

81

Moreira – «O Porto de Viana do Castelo na Época dos Descobrimentos» -, ant.cit. pg 145.

85

joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


O mercador, atingida determinado nível de contatos, criadas bases sólidas de «cabedais» próprios ou com recurso fácil a alheios, ia, ele próprio, procurar e negociar as suas mercadorias, mesmo ao estrangeiro (onde já existiam banqueiros, cambistas e letras de crédito!). E quando assim acontecia, a esse nível, o mercador tornava-se um mareante sem mais delongas. Precisava para isso de ser um homem ilustrado, com capacidade de mando, conhecedor das técnicas de navegação e manipulação de cartas de marear, de ter domínio das mesmas (muito embora não dispensasse o seu piloto de confiança), ao tempo que precisava de conhecer os mercados e as origens do que pretendia (diversificação de contactos, domínio do linguajar), os melhores preços, o saber negociar (hábitos e culturas estranhas), as fontes creditícias, etc. Rapidamente o mercador tornar-se-ia uma personagem essencial na passagem do tempo medieval para um novo tempo. Ao lado dos humanistas, os mercadores foram os grandes responsáveis pela Construção da Idade Moderna, pela criação de um novo mundo. E com eles irá aparecer uma nova classe a burguesia. O transporte por mar, meio de excelência do comércio internacional de então, vai fazer a riqueza dos grandes mercadores. Ainda mais, quando «próximos» do poder acabam por obter privilégios que lhes permitem (a si e família) monopólios específicos em certas áreas. Aqui chegados os interesses de uns e de outros identificavamse. Só que na verdade o mercador ansiava pelo poder, ou pelo ou controle do poder local. E isso foi o que sempre distinguiu essas duas classes: uns procuravam o benefício imediato. Os outros queram réditos duradouros, transmissíveis.

86 13. Viana do Castelo - Séc. XV/XVI


14

A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes

N

a abordagem anteriormente feita, ao dar um relance sobre a problemática das viagens e descobertas para as terras a ocidente, insistimos na complexidade de análise quando chegados àquilo, que Harrisse considerou, estar a descoberta do norte da América, envolta em secretismo, em omissões, e até em sobreposições, não permitindo uma abordagem completamente segura sobre os «factos». João Álvares Fagundes, depois de uma viagem a suas expensas, realizada em 1520, obtém do rei D. Manuel, Carta de Privilégio.


Ao contrário do sucedido com outras cartas de privilégio, caso da concedida a João Fernandes Labrador em 28 de outubro de 1499, ou da facultada a Gaspar Corte Real em 12 maio de 1500, a carta de Fagundes é a única onde se referem as ilhas e/ ou terras já descobertas por Fagundes. De facto, na carta de Álvares Fagundes82 é dito: saibam todos quantos este instrumento virem (...) que aos 22 de mês de Maio (1520), em a praça da Vila de Viana do Lima lhe fazer, nos praz que indo ele descobrir terras, lhe darmos e fazermos mercê, de todas aquelas ilhas e terras que ele descobrisse (...) a terra que se diz firme (...) as três ilhas na baía da Aguada na Costa de Nordeste e Sudoeste, e as três ilhas a que ele pôs o nome de São João, São Pedro, Santa Ana, Santo António (...) e as ilhas deo arquipélago de S. Pantaleão, com a Ilha Petiguom, e as ilhas do arquipélago das Onze Mil Virgens (...) e a ilha Santa Cruz, que está no topo do banco. É uma «carta» que especifica, claramente, ter Álvares Fagundes visitado aquelas terras, e ter-lhes, já, atribuído nome. Ora, a João Labrador, John Ernandes, born in the isleof Surays (terceira) Açores under the obeisaunce of the king of Portugal83 , a «carta» pouco ou nada especifica. Aliás, esta viagem patrocinada pelo rei de Portugal, e dita suportada pelo rei inglês, Henry VII, é perturbante. Parece querer significar que, estando naquela data a ser negociada a linha de Tordesilhas, não conviria ao rei português abrir uma guerra com Castela. E, por isso, «oficialmente», ter a viagem sido atribuída a uma comissão de mercadores de Bristol.

82

Ver pública forma em anexo – documentos.

83

Carta do rei inglês Henry VII.

88 14. A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes


Logo na carta de privilégios seguinte, concedida a Miguel Corte Real, em 1500, referem-se locais onde Gaspar teria feito diversas visitas(?) anteriores, sem especificar quais seriam. E por isso, as viagens dos Corte Reais ainda hoje estão envoltas em forte controvérsia, pois não se consegue claramente saber, com exactidão, em que terras desembarcou, se é que de facto desembarcou84.

As várias «andanças» na representação da linha de Tordesilhas

Fernandes Labrador e Corte Real navegaram pelo norte oeste, acima dos 50º de latitude Norte, acima de Notre Dame Bay. Se de Labrador existem poucas dúvidas, de Corte Real podemos inferi-lo quando relata huma terra que por ser muito fresca e de grandes arueros (...) lhe pôs o nome de Terra Verde. De facto, descreve a paisagem que por aqueles sítios se costuma apreciar em Agosto. Porque teriam estes navegadores viajado para o noroeste acima daquelas latitudes, em terras tão frias e geladas?

84 A «história» da pedra de Dighton encontrada no Rio Tauton, Massachusetts, faz parte de uma recriada hipótese de visita dos Corte Reais (Miguel).

89 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Viagem de Gaspar Corte Real


Damião que sugere os 49º e os 55º de latitude N, e esclarece que, Corte Real se propôs ir descobrir para Norte porque para sul, tinham já outros descobertas muitas.85 A questão é pertinente. Porquê ir para norte se a zona sul e a entrada do Golfo de São Lourenço começavam já a ser frequentadas por navios de pesca bascos, ingleses e franceses, mas, e também portugueses? Asher afirma the portuguese after the the time of Corte Real, continue there surviveys of the northern oest most likely for no other purpose they seem to have to discover slowly step by step. E de facto, os mapas (cartas) feitos debaixo da orientação e com as informações dos portugueses que permitem conhecer, não só a configuração daquelas terras, como a sua nomenclatura, provam-no à evidência.86 Terão sido por isso, certamente, feitas muitas outras tentativas de viagens, procurando perceber-se onde se situavam terras ou ilhas, para se verificar (?) se estariam situadas no domínio português (ou dar como consumada a sua ocupação). Isso não obstou que Cabot, navegador veneziano, não tenha proposto ao rei de Inglaterra procurar uma passagem pelo Norte, capaz de superar a ideia de Colòn. Henry VII, rei inglês em cuja corte não se falava em outro feito que não o de Colòn, assina a concessão e o financiamento a Cabot, em 1496, de um pequeno navio que deveria levar dezoito tripulantes, o qual só veio a partir em Agosto do referido ano. Navegando sempre para oeste, Cabot encontrou terra na latitude de 51-15ºN. E, de seguida, anda costeando 300 léguas, encontrando o mar pejado de peixe. o mar é coberto de peixe o qual prendemos não só com a rede ,mas como cesto(…) tanto peixe que este país (Inglaterra) não tem necessidade da Islândia87 (…)

85

Goes, Damião – Crónica de D. Manuel, fl. 65.

Espanha parece ter tido, até tarde, a noção errada de que a linha de Tordesilhas estava muito mais para ocidente, do que na verdade estava. 86

87

Harrisse, Henry ant cit. pág. 9.

90 14. A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes


Voltando a Inglaterra, Cabot pede novos privilégios e parte de novo. Desta vez, parece fazer a viagem por latitudes mais baixas, na nova Escócia, saindo em Maio/Junho de 1498. Cabot continua obcecado com a questão – para ele a única! – de encontrar uma passagem para as «índias». E afirma determinado que continuará a sua procura de uma passagem para ir encontrar Cipango. O mapa de La Cosa com muitas bandeiras inglesas mostradas na costa da Florida, reporta(m) a viagem de Cabot.88

88 Cartógrafo catalão. O seu mapa é o primeiro a mostrar o «Novo Mundo» (a verde). O «Velho Mundo» está incolor.

91 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Mapa Juan de La Cosa 88


As viagens de John Cabot

Primeira Viagem em 1497 Segunda Viagem em 1498-1499 (?)

92 14. A Viagem (ou viagens?) de Ă lvares Fagundes


Deste relato, fica desde já clarificado que a Nova Escócia não seria, em 1500, de todo desconhecida. Gago Coutinho refere as seguintes viagens ao Atlântico Norte, no Séc. XV: Teive (já referido) 1452, Vogado 1472, Teles 1474, e Ulmo em 1476. Não seria, pois, uma viagem muito complicada, se escolhida uma boa altura, navegar 700 /1000milhas nas latitudes baixas a favor dos ventos leste.89 Dos elementos recolhidos foram dadas informações aos cartógrafos que trabalhavam na representação do novo continente e, depois da viagem de Colòn, tal foi um imperativo. Representado o Brasil e as Antílias, havia que perceber o que estaria para Norte.

Mapa Juan de La Cosa (pormenor)

Excerto mapa Pedro Reinel (1504) 89

Coutinho, Gago –«História dos Descobrimentos» – ant. cit.

93 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Da primeira viagem (segundo uns) ou de adendas feitas com as informações vindas da 2ª viagem de Gaspar Corte Real, surge, em 1500, uma carta de Pedro Reinel, já acima referida. Esta carta mostra já claramente a Terra Nova, e parte da Nova Escócia. É a primeira carta onde já é representado o Novo Mundo e contém uma particularidade. No canto direito, apresenta uma escala adicional, oblíqua, destinada a compensar as variações crescentes da latitude, muito sensíveis naquela região do noroeste Atlântico. Mas logo de seguida surge a carta de Lopo Homem (Pedro Reinel, Jorge Reinel e António da Holanda), onde nos aparecem perfeitamente esboçadas as designadas Terras de Corte Real.

Pormenor mapa Sebastião Lopes

94 14. A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes


Em 1520, data em que se refere ter, João Álvares Fagundes realizado a primeira viagem (?), aquelas paragens seriam já bem conhecidas. Em primeiro, coloca-se a questão de saber se João Álvares terá realizado, como muitos autores sugerem, viagens para aquelas paragens, em negócios de aquisição de bacalhau, como mercador que, certamente, negociava aquela espécie tão fundamental para alimentação de populações, a quem, uma dieta imposta pela Igreja, obrigava a determinados dias de severa dieta de carne, durante o ano. Acrescia a tudo isto, a óptima aptidão da espécie para poder ser conservada, se salgado o peixe, durante largo período, facto importantíssimo à época. João Álvares manteria fortes relações com mercadores açorianos. Cremos mesmo, com fortes laços de ligação aos Corte Reais. Em algumas referências, chega-se a falar de um possível piloto que Álvares teria cedido aos Corte Reais.90 Também é certo que depois do desaparecimento de Gaspar e Miguel, e na não autorização de o irmão, Vasqueanes, ir em sua demanda, são referidas umas viagens feitas por navegador desconhecido (?) em procura dos desaparecidos. Poderá então colocar-se a hipótese de João Álvares ter participado em alguma dessas viagens. Aliás, existe uma outra referência que permite consolidar esta conjectura. As viagens de Fagundes terão sido feitas à sua custa, mas terá havido comparticipação financeira da família Corte Real. O que é natural. Era importante encontrar os irmãos Corte Reais desaparecidos, e fixar os direitos concedidos que, sem eles, não teriam qualquer valor.

90

Não desprezamos alguma divergência que poderia sugerir o contrário.

95 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


É pois claro que em 1520, quando Fagundes se dirige ao seu Rei, solicitando-lhe carta de concessão da Capitania das terras descobertas, os aspectos de como fazer a viagem não lhe seriam (de todo) desconhecidos. Ele conhece que tem de ir buscar os ventos a latitude baixas e depois rumar para NO. Mas o que pretendia o rei D. Manuel ao dar publicamente conhecimento das ilhas e terras «descobertas» por Fagundes? Provavelmente, os cartógrafos do Venturoso, ter-lhe-iam assegurado que aquelas terras estariam a leste da linha divisória de Tordesilhas. Sabendo-se que era já intensa a actividade de pesca naquela área, D. Manuel entende entregar essas terras e ilhas a Capitão soberano português, com a finalidade de, assim, cobrar os impostos das pescarias realizadas. Era um valor em crescendo, nada negligenciável, para suportar as despesas que o país vinha fazendo com o esforço das descobertas. O que quereria, pois, D. Manuel, era «povoar» aquelas ilhas (ou terras), fazendo delas bases de pesca controlada, de modo a, desse modo, poder cobrar o imposto que já impusera em Portugal, como veremos. Álvares Fagundes talvez fique, então, mais bem apodado como «colonizador» daqueles sítios do mar do Norte.

96 14. A Viagem (ou viagens?) de Álvares Fagundes


A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI

N

os finais do Séc. XV, e mais intensamente a partir do Séc. XVI, eram já muitas, e provenientes de vários países europeus (Inglaterra, França, Bascos e Portugueses), as embarcações a irem aos «mares dos bacalhaus». Crê-se terem sido os bascos os primeiros que, devido a mutações climáticas que afastaram a pesca da baleia das costas irlandesas, foram no seu encalço. Deram com elas nos mares da Terra Nova, e encontraram um mar prenhe de bacalhau. Foram logo seguidos na emposta (ou em simultâneo), pelos portugueses.

97 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

15


D. Manuel que já tinha instituído a cobrança da dízima nos portos de Aveiro e Viana (1506), pretendia também cobrar esse imposto às pescas vindas daqueles mares longínquos. Mas, para tal, era necessário criar bases ali sediadas, fixas, com força suficiente para regular essa cobrança. Há mesmo referências a uma primeira colónia ali estabelecida que uns julgam ter acontecido em 1506 (demasiado cedo em nossa opinião), outros em 1544 (Morrison), composta de gentes de Aveiro e Viana, todavia certamente consequência das Capitanias concedidas a Álvares Fagundes e seus descendentes. Fernando de Sousa91, no «Tratado sobre Ilhas Novas», referindo a colónia perto do Cape Breton afirma: (…) haverá 45,40 anos que de viana certos homens fidalgos e pela informação que tiveram da Terra Nova do bacalhau se determinaram a ir povoar parte dela como de facto foram (…) uns (n) vuma não e uma caravella e por acharem a terá muito fria correram para a costa leste-oeste até darem na nordeste-sudoeste e ali habitaram (…). Curiosamente a palavra «bacalhau» terá sido dada pelos Bascos ao referirem uma espécie de peixe, por BAKAILU, daí derivando para BACALLAO. Esta espécie era já pescada pelos portugueses nas costas inglesas, depois de 1327-1377, na sequência de um acordo negociado por Afonso Martins «o Alho», com a coroa inglesa. Num atlas de Andrea Bianco92 já teria aparecido, numa zona do Mar a oeste das ilhas britânicas, a palavra stock-fis, de onde derivará stockfish: peixe seco ao ar sobre cordas (em francês estoc).

91

Sousa, Francisco de -«Tratado das Ilhas Novas» - 1577

O chamado “Atlas de Andrea Bianco” (1436), atualmente na British Library em Londres, é composto por dez folhas em pergaminho.

92

98 15. A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI


Andrea Bianco

Desde 1470 os portugueses de Viana e Aveiro já visitavam aquelas paragens. Acompanharam-nos os franceses de Honfleur (1506), bretões de Breah 1508, de Dahouet em 1510, e os bascos. Não pararam de aumentar as frotas, especialmente a francesa. Só os arquivos de La Rochelle e Bordéus registaram, então, frotas de 150 navios. Em 1580, estimam-se 350 a 380 embarcações a pescar nos mares da Terra Nova. Os Portugueses utilizaram nestas primeiras viagens a célebre caravela pescareza, logo adaptada pelos Bascos.

Um dos primeiros esquiços de caravela (sigla de construtor)

99 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Embarcação «de excepcionais qualidades marinheiras, embarcação esbelta, bolineira, exígua de porte, muito veloz, vocacionada para a pesca em zonas longe da costa»93, foi especialmente desenvolvida no norte do País (Aveiro, Gaia, Esposende e Viana). A tonelagem, expressa em tonéis, variava, podendo ir dos 30 aos 100, ou até aos 120 tonéis. A travessia, aproveitando os ventos do turbilhão norte, demorava em média 2 meses. Pela cor das águas, sabiam os demandantes estar sobre os bancos. Era então tempo de sondar, até encontrar fundos de 20,30 ou 40 braças. Tempo de arriar o mastro de popa e deixar a embarcação ir à deriva, pescando os tripulantes à borda, enfiados numa barrica protectora, com anzol (ou zagaia) na ponta da linha.

Pesca errante (pormenor toldo protector)

93

Fonseca, Quirino - «A Caravela Portuguesa» - ed.

100 15. A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI


Pesca à deriva (rep. de Nelson Cazells)94

Havia um toldo esticado na borda que protegia o pescador do vento gelado. Recolhido o peixe, cortada a língua que ia para uma celha ao lado (para efeito de contagem), era depois escalado de um modo que se manteve séculos fora. Esventrado, retirada a cabeça, as vísceras e a espinha, era espalmado, depois salgado e acamado no porão.94 Cada pescador poderia pescar até 100 bacalhaus por jornada. Por regra, cada embarcação levava 10 a 12 homens. Este peixe trazido para os portos europeus, era o chamado bacalhau verde.

Pesca a bordo Séc.XVI

94

Cazells, Nelson – «Cinq siécles de peche à la Morue, ant. citado.

101 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Aspectos da pesca na Tera Nova (siècle XVI)95

95

Cazeilles, Nelson ant. citado.

102 15. A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI


Ao tempo procurava-se o grande Banco, plataforma imensa de altos fundos, de forma triangular, situado ao Sul e Sudeste da Terra Nova, com uma superfície total que se aproxima dos 112.000 km2, e com uma profundidade entre os 40 a 90 metros. A Terra Nova é assim como que “o grande barco amarrado no oceano, perto dos bancos de pesca” e torna-se, assim, uma cripto colónia multinacional.96 Um outro tipo de pesca –sedentária – foi praticada desde muito cedo (início de 1500). As embarcações chegavam à costa da Terra Nova, sendo fundeadas nos havres abrigados das ilhas. Uma vez o barco desarmado, iam pescar em chalupas nas zonas vizinhas, lançando as linhas a algumas milhas da costa. Linhas que chegavam a ter 10km.97 A outra parte da equipagem desembarcava em terra, e constituía a base da instalação para preparação e secagem, ao ar, do bacalhau. Eram as «échafauds», as secas portuguesas, com a diferença que o peixe era exposto ao sol, colocado sobre as pedras roladas da costa. Rapidamente estes locais transformaramse em colónias, para onde eram trazidos familiares, constituindo aglomerados de pequenas construções em madeira. Estes locais eram escolhidos em função do resguardo da baía, condições de vento, correntes e marés, área para a secagem, e existência de correntes de água doce para lavagem do peixe.

96

Fonseca, Senos –«Nas Rotas dos Bacalhaus» – ed.autor, 2005.

97

Caseils, Nelson – «Cinq Siècles de Pêche à la Morue»– ed Ouest France, 1997.

103 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


A base em terra98

Colónia de pesca99

O critério essencial era, naturalmente, a facilidade de acesso aos bancos de pesca (Pol. Chantraine).98 99 Terá sido a intenção de Fagundes, e o desejo de D. Manuel, face à intensidade de pesca já patente no início de quinhentos, mandar verificar as ilhas que se encontravam dentro do domínio português, para aí instalar colónias fixas de pesca, com controle sobre a pesca efectuada, imposto.

98

Ilustração de Cosmographie Universalle de Thevet, 1575.

99

Gravura do livro «Terres Neuvas» ed Chase Marèe, ed. Glenat, pg. 49.

104 15. A Pesca do Bacalhau no Séc. XVI


As rotas de Fagundes

A

carta de mercês concedida a Fagundes, começa por ser, à primeira vista, confusa, quando grande parte de tradutores especialistas a leram, como foi o caso de A Bettencourt100: Estas terras decobrio Joam alvarez por um seu piloto que eles….. capitães da Madeira . Parte dos estudiosos entendeu que Fagundes teria levado um piloto dos Corte Reais. Houve até autores que chegaram a colocar em dúvidas, se, na viagem, teria ido Fagundes, e não só um seu piloto. Pedro Coutinho101 dedicou particular atenção, e cuidado, à leitura desta parte. E concluiu: 1ª linha – Estas tªs descobrio jm alvrz102 p hu seu piloto q elle dse ter ido sahir e com os corterrais…

100 Bettencourt, E A –«Descobrimentos e Guerras e Conquistas dos Portugueses em Terras do Ultramarinos Séc XV e XVI –pg. 132-135. 101

Coutinho, Pedro ant cit. pg. 36.

102

Nos documentos (carta) o segundo nome é, de facto, Álvarez.

16


«coloniza «povoador» terá sido t um «desco 2ª linha – D…q ouverão as suas Iªs os capitães da Ilha da madr… Coutinho desdobrando abreviaturas e vertendo para a atualidade, afirma ser:

Estas terras descobriu João Álvares por um seu piloto que ele disse ter ido sair e ser com os Corte Reais. De maneira que houveram as suas ilhas, os Capitães da Ilha da Madeira.

Se esta leitura está correcta, e a nós parece-nos perfeitamente a mais correcta, isto vem confirmar o que já insinuámos acima: João Álvares terá viajado para a Terra Nova antes dos Corte - Reais, e estes (Gaspar) teriam levado um piloto de João Álvares, consigo. E nesse caso, mais do que «colonizador» ou «povoador», Fagundes terá sido também um «descobridor». E tal parece-nos muito provável. O lugar que Fagundes ocupa no galarim dos Descobrimentos Portugueses, onde o nome de tantos foi «apagado» ou «não inserido», parece querer dizer que foi um notável do seu tempo. E se dos Corte Reais nunca nada se soube do que, na verdade, descobriram, de Fagundes sabe-se exactamente, o quê. Que foi subscrito pelo rei, publicamente.

106

16. As rotas de Fagundes


ador» ou », Fagundes também obridor» Estranha-se a razão porque Fagundes só obteve a carta das mercês das Capitanias, muito mais tarde que as dos Corte Reais. Facto estranho para a hipótese que vimos desenvolvendo, que tem a apoiá-la o escrito no «Tratado das Ilhas Novas» acima referido. Em que se regista ter Fagundes já navegado por aquelas paragens, em 1496. Mas terminadas com mau fim as viagens dos Corte Reais, só à medida que as pescarias se intensificaram, o Rei português tomou a decisão de planear a «descoberta e atribuição de nome», às ilhas e terras, para fazer valer o que pensava serem os seus direitos. Terá sido a partir de 1506, que o bacalhau da Terra Nova começa a entrar nos portos nacionais, ano após ano, sempre em crescendo a quantidade descarregada. Fagundes, certamente com larga experiência de visita àquelas paragens (a negociar bacalhau), era quem reunia as melhores condições para concretizar a operação de afirmação.103 Há que notar uma questão que terá passada despercebida aos estudiosos, e pode ter grande significado.

As viagens de Labrador e Corte Real, fizeram-se, costeando de noroeste para sudoeste (descendo em latitude). Ora o lógico seria fazer a procura e identificação do domínio português, navegando de sudoeste, subindo em latitude, pois para nornordeste, mais certeza era as ilhas (ou terras) estarem na área portuguesa. Foi isso que fez Fagundes, como veremos adiante.

103 Já referimos acima ser provável terem sido feitas diversas tentativas depois do desaparecimento de Gaspar e Miguel Corte Real.

107

joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


16-1

A interpretação da carta de patente

O

documento que serve de base ao estudo provável da viagem de João Álvares, reside na redacção da carta de mercês e na sua interpretação .

Vejamos. Onde se lê (...) a terá que se diz ser firme quehe des a demarcaçam de Castella que parte da banda do sull com a nossa demarcação atee viir partir com a terra que os Corte Reaes descobriron que heeda banda do norte as tres ilhas na bayad’Aguadana costa de nordestee sudueste e as ilhas a que elle poz nome Fagundas sam estas,a saber –Sam Joam e Sam Pedro e Santa Anae Santo Antonio, e as ilhas do arcepelleguode Sam Pantelioncom a ilha de pitiguoem e as ilhas doarcepelleguo das onze mil vergens. E a ilha de Santa Cruz que está no pee do banco. E outra ilha que se chama também de Santa Ana que foy vista e non apadroada? …


Harrisse104 chama a atenção para a «defective punctuation» do documento original, e a ambiguidade de palavras importantes (several), o que o torna obscuro. Sugere Harrisse a seguinte interpretação (leitura): (…) and a where as Fagundes has shown by the testimony of credible witnesses, that he has discovered the following landes and islands, vis: the land, said to be continental, commencing at the boundary of Castille – wich boundary is south of our own – and extending as far as the land discovered by Corte Reals, wich latter land lies at the north. Also, the three islands in the Bay of Aguada, wich Bay is on the north-eastern and south-western coast: Also, the isles wich he has named Fagundes, viz: Saint John, Saint Peter, Saint Anna, Saint Anthony, and the islands of the archipelago of the Eleven Thousand Virgins; Also, the Island of the Holy Cross, wich is near the bank; Also, another Island, like wise called Saint Ann, wich was sighted but where no balize has been placed. Now, all these lands and islands hereby Grant unto him(…). (Tradução) (…) e enquanto Fagundes revelou, confirmado por testemunhas credíveis, que tinha descoberto as seguintes terras e ilhas, a saber: A terra, dita ser continental, começando no limite de Castela –cujo limite é a sul do nosso – e prolongando-se até à terra descoberta pelos Corte-Reais, cuja última terra fica a norte. E ainda, as três ilhas na Baía de Aguada, tal baía fica na Costa Nordeste e Sudoeste; E ainda, as ilhas que foram chamadas de Fagundas, a saber: São João, São Pedro, Santa Ana, Santo António, e as ilhas do arquipélago das onze mil virgens; E ainda, a ilha de Santa Cruz, que fica perto do banco; E ainda, outra ilha, chamada também de Santa Ana, que foi assinalada, mas na qual não foi posto qualquer Padrão. Assim, todas estas terras e ilhas Nós por este meio lhas doamos(…).

104

Harrise, Henry – «The Discovery of North America – ant. cit. pg. 183.

109 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Vejamos como se terá processado essa viagem de «descoberta» e baptismo das ilhas e terras junto aos bancos da Terra Nova, reunindo mapas (cartas) do tempo onde se identifique a nomenclatura acima referida. 105

«Terra dos Bacalhaus»105

A viagem, sabia-se há muito, era realizada indo buscar as latitudes baixas no Atlântico, ao nível dos Açores, no sentido de apanhar o turbilhão de vento, que levasse os navios a navegar amurados a largos, em rumos mais fáceis.

105

Do Atlas de Vaz Dourado, 1530.

110 16-1. A interpretação da carta de patente


Curvas de ventos Atlânticos à ida e à volta106

Sempre deixando em aberto que o reconhecimento poderá não ter acontecido numa viagem, mas em outras viagens, poderíamos traçar um roteiro se considerássemos apenas uma, a viagem àqueles mares. Nada nos prova, contudo, essa hipótese. 106

Mapa de Freire 1564

106

Cortesão, Jaime, ant. citado.

111 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Mapa Sebastião Lopes 1565

112 16-1. A interpretação da carta de patente


Fagundes irá chegar às imediações do Cape Breton, o que sugere já ali se terem fixado os bretões que, como referimos, tinham já uma frota desde 1505 a pescar naquelas águas. Encontra e baptiza as três Ilhas em frente daquele cabo. Ruma então para o estreito de Cabot. Esta seria pois a terra continental descrita (sublinhada) na carta de mercês. Num velho manuscrito pode ler-se Joam Alvarez Fagundes discovered Terra Nova, the country now called Cabo Bretão,wich the King (Manoel) granted to him, and where he established codfisheries, wich became a large source of profit to Portugal.107 No Tratado das Ilhas Novas, Francisco Sousa escreve em 1570: certos senhores: homens fidalgos, recebendo informação provinda da Terra Nova do Bacalhão, decidiram ir colonizar uma parte do país. Isto depois das descobertas de Álvares Fagundes. Arriba a uma baía que, por certamente por aí ter feito um desembarque para meter água a nomeia, de Baía da Aguada. Tem sido factor de discussão a situação desta «Baía», concedida por D. Manuel a Fagundes. Dita na carta de mercês, situada na costa nordeste-sueste. Será com certeza a Aguada Bay, na foz do S. Lourenço. Isso, a acontecer, indica que, afinal, Fagundes, ao contrário do que se supôs, ter-se-à engolfado, profundamente, como nenhum outro, até ali, no Golfo de S. Lourenço.108 Fagundes volta à costa sul da Terra Nova. Ruma para leste e costeia a costa sul da Terra Nova, com ligeiras incursões nas baías encontradas, explorando-as, e regressando sempre a rumo leste, cerca da latitude 45ºN. Poderá ter acontecido logo nesta viagem (ou na volta) que encontra as ilhas das Onze Mil Virgens (no nosso entender terá sido, efectivamente, neste primeiro contacto).

107

Comunicado por Francisco do Canto.

108

E este facto vem dar razão a Harrisse (Golfo S. Lourenço) e a Jaime Cortesão (Belle Isle).

113 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Placência Bay109

De seguida engolfa-se na baía de Placência, percorrendo-a, baptizando um conjunto de ilhas por arquipélago de São Pantalião com a ilha de Pentigouem voltando a costear para leste. Chegado ao cabo Race, contorna-o. Ruma a nor-nordeste. Vai encontrando, e baptizando, ilha atrás de ilha. Subindo em latitude vai dando nome, conforme calendário, a várias ilhas: São João, Santo António, São Pedro, Santa Ana, Santa Cruz (ilhas Fagundes?).109

Ilhas de João Alvarez (Fagundas?)

Autores referem que a «ilha Fagunda», a ilha João Esteves e a ilha de Santa Cruz, seriam, afinal e só, uma ilha, a actual ilha de Sable. Não é essa a nossa opinião.

109

Actual Placência Bay - Pierre Detecheveny, 1689.

114 16-1. A interpretação da carta de patente


Ilha de Sable

Mapa de 1635

Referem-na, contudo de um modo incorrecto, até a colocando no Golfo de S. Lourenço. Ora esta ilha, que ainda hoje conserva o nome, fica a leste da Nova Escócia, a distância razoável. Seria de todo ilógico que Fagundes fosse ali estabelecer a sua Capitania, longe dos rumos de saída . Ora num mapa de 1635, não só nos aparece representada a ilha de Santa Cruz, ao Norte, como a procurada ilha Fagunda. Outra dúvida que percorre a opinião dos autores que abordaram esta questão, reside em saber onde se situavam as Ilhas das Onze Mil Virgens. Cremos que o mapa que apresentamos desfaz todas as dúvidas. 110

Onde se lê «onze mil virgens»110 110

Claramente na costa sudoeste

115 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Assim cremos, estar agora, em condições de estabelecer com alguma certeza, relativa, a viagem de João Álvares Fagundes:

116 16-1. A interpretação da carta de patente


Viagem de João Álvares Fagundes 1. Cabo Bretão 2. Baía da Aguada 3. Estreito Belle Isle 4. Ilha das Onze Mil Virgens 5. Arq. S. Pantaleão 6. Ilha de São João 7. Ilha de São Pedro 8. Ilha de Santa Ana 9. Ilha de Santa Cruz 10. Ilha Fagunda 11. Ilha de Sable

Rota de Ida Rota de Volta

Provável rota da viagem de João Álvares Fagundes

117 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


A Terra do Labrador que descobriu Joam Álvares (Lázaro Luís 1563).

Uma outra questão que nos parece ter sido ignorada, é a de, Fagundes, quase com toda a certeza, ter sido o primeiro navegador a percorrer o estreito de la Belle Isle, isto muito antes do francês Le Cartier (1534). Jaime Cortesão tinha razão. Aliás das viagens de Cartier a documentação foi perdida. E os franceses são os primeiros a reconhecer que Fagundes estabeleceu sobre a costa oriental da Nova Escócia, diversas bases de pesca, tentando colonizá-las, o que foi anotado nas cartas de origem portuguesa do tempo. Fagundes estabeleceu-se na entrada da costa meridional do golfo de S. Lourenço, e costeou ao longo da Nova Escócia. Resta responder: onde afinal se encontra a parte de terra continental, atribuída a Fagundes? Ora a primeira carta que a fixa é a de Lázaro Luiz, mostrada em Lisboa, em 1563.nessa carta,sobre a parte correspondente à Nova Escócia, e segundo a escala do cartógrafo, entre 46 e 54º de lat.N pode ler-se: La terra doo Labrador, que descobriu Joaom Alvarez.

118 16-1. A interpretação da carta de patente


De refeir que as ilhas baptizadas por Fagundes aparecem-nos em representações muito anteriores, como veremos. E mais: quando a França toma poder sobre aquela zona, as traduções que faz, renomeando as ilhas, indicia que na base esteve a terminologia portuguesa. Uma facto é indiscutível: de entre os primeiros descobridores que navegaram por aquela complicada zona, de frio e ventos inclementes, muito sujeita a nevoeiros cerrados, com montes de ilhotas, ou pequenos cabos a sugerirem ilhas, João Álvares Fagundes é aquele que mais consistente e conscientemente aborda aquelas paragens. Fá-lo assim muito mais pormenorizadamente que Labrador, depois Corte-Reais, Cabot e mais tarde Cartier, de quem pouco ou nada se sabe em concreto. Por isso a sua constante citação pelos estudiosos daquelas paragens, para os quais é fundamental relevar os trabalhos de Fagundes, dando-lhe importância maior.

119 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


17

Fagundes lembrado em Viana

C

om lugar marcante na história Pátria, Fagundes não poderia deixar de ser lembrado na sua Terra natal, Viana do Castelo. Recordado às gerações vindouras como exemplo de «homem bom» sempre interessado e participativo nas iniciativas solidárias levadas a cabo naqueles tempos, onde eram comuns pestilências, lepra e muitas outras calamidades na saúde publica. Figura maior de Viana, exemplo de tenacidade, arrojo e larga visão empreendedora, mercador de grande «fato», que não hesitou arriscar na ideia de servir a pátria e El Rey, Fagundes apostou na descoberta e ocupação de longínquas terras, onde, para a elas chegar, necessário era defrontar a inclemência de mares tão tenebrosos.


Um seu patrício Álvaro Feijó definiu-o com poética citação que aqui reproduzimos: “Há dentro de Mim, como num búzio A voz do mar… - Fui lenho nele, mas amanhã, Serei, com ele, vaga do mar,“ António Moreira111, anteriormente citado, fez uma cuidadosa recolha de importantes cargos desempenhados por Fagundes, que se podem resumir: 1502 – D. Manuel fez mercê a João Álvares dos ofícios de cevadeiro e escrivão das Sisas da Alfândega. Que até ali tinham pertencido a seu cunhado Pero Gomes do Lago. 1506 – 2 de Junho - João Álvares apresenta-se como procurador de seu irmão Diogo Pais. Foi fundada a Capela dos Mareantes. 1510 – 2 de Julho - não assistiu ao mandar fazer o Mosteiro de Santa Ana. 1512 – 6 de novembro - assinou o acordo na Câmara, em que esta passaria a deter o Padroado do Mosteiro de Santa Ana. 1513 – 3 de dezembro - como Juiz, cargo para que tinha sido eleito a 24 de Junho, assistiu ao pagamento ao mestre do 1º Chafariz do Campo do forno. 1515 – 11 de Abril - nomeado de novo Juiz 1516 – 26 de Abril - era juiz na Câmara com Gonçalo da Rocha. 1522 – Substituído no cargo de Vereador por sua morte. Em Halifax (Nova Escócia), um obelisco recorda o feito do navegador português:

Moreira, António –«O Porto de Viana do Castelo e as Navegações para o Noroeste Atlântico» - ant. cit. pg. 77 a 99.

111

121 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos

Álvares Fagundes Monumental Halifax


Decisão Camarária para erguer a estátua

E em 1956,um pouco tarde, é certo, a Câmara Municipal de Viana deliberou mandar erigir uma estátua a João Álvares, para o que foi constituída uma Comissão de Honra, que encomendou o trabalho ao mestre João Barbosa. Em 1958 foi a estátua inaugurada, colocada no Jardim Público (Praça Gago Coutinho), até que, em 1991, foi colocada bem perto do Rio Lima (no local onde hoje está a Biblioteca Municipal). Não ficaria aqui, definitivamente. Em 2004 é colocada no local onde está hoje. Fronteira ao navio emblemático Gil Eanes, que em boa hora veio para a cidade do seu berço, e na qual hoje, recuperado e mostrado para memória futura, é porta de entrada de visitas à cidade.

122 17. Fagundes lembrado em Viana


18

Morte de João Álvares Fagundes

S

abemos que terá acontecido em 1522, pela sua, já referida substituição do cargo vereador que vinha exercendo. Mas onde terá falecido? Mais uma vez, aqui, não há certezas. A vida e a acção de Álvares Fagundes está repleta de casos omissos. Vários autores, entre os quais Coutinho que se debruçou com cuidado e valioso estudo sobre Fagundes112, são confusos e fogem a afirmação assertiva. Por exemplo Coutinho refere: Como os pelouros da eleição eram metidos na Arca da Câmara de 3 em 3 anos, podemos aventar que João Álvares Fagundes embarcou para a Terra Nova, pela última vez, depois de 21 de Março de 1521, e morreu nessa viagem de regresso... em 1522. Com esta curiosa explicação Coutinho parece resolver o imbróglio: João Álvares teria morrido no regresso dessa viagem. O corpo terá sido trazido para Viana, e a referência feita na manda do seu genro, D. João e Sousa, de querer ser sepultado ao lado de João Álvares Fagundes, estaria, pois, correcta. Os restos mortais de João Álvares Fagundes estarão, assim, sepultados em Viana. Pelos feitos… da lei da morte se libertando.

112

Coutinho, Pedro Magalhães – «Fagundes e a Descoberta do Canadá» – ant. cita, pg. 17.


Documentos de MercĂŞs

19


19-1

MercĂŞs a Fernam Telles da Ilha das Flores descobertas por Diogo e JoĂŁo Teive (28 Janeiro 1474)


126 19-1. MercĂŞs a Fernam Telles da Ilha das Flores descobertas por Diogo e JoĂŁo Teive (28 Janeiro 1474)


19-2

MercĂŞs a FernĂŁo Ulmo das ilhas e terras que descobrir (1486)


128 19-2. MercĂŞs a FernĂŁo Ulmo das ilhas e terras que descobrir (1486)


19-3

Resposta a reclamação de Pedro Barcelos (1495)


130 19-3. Resposta a reclamação de Pedro Barcelos (1495)


19-4

MercĂŞs a Gaspar Corte Real (1500)


132 19-4. MercĂŞs a Gaspar Corte Real (1500)


133 joĂŁo Ă lvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Carta Mercês a João Alvarez Fagundes

19-5


135 joĂŁo Ă lvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


136 19-5. Carta Mercês a João Alvarez Fagundes


137 joĂŁo Ă lvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Pública Forma da Carta de Mercês

138 19-5. Carta Mercês a João Alvarez Fagundes


139 joĂŁo Ă lvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


140 19-5. Carta Mercês a João Alvarez Fagundes


141 joĂŁo Ă lvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


20

Os Descobrimentos no tempo de Fagundes


1459

Embaixadores de D. Afonso V, visitam Toscanelli

1460

Morre em Sagres D. Henrique

1460

António Nolli descobre uma das ilhas de cabo Verde

1461

Portugal abando as Canárias

1462

Diogo Gomes calcula pela primeira vez altura do Polo

1467

Notícia de embarcações de Bristol na Islândia

1471

O Príncipe D João toma a direcção dos «trautos» da Guiné.

1471

Os portugueses com 400 embarcações , comandados por D Afonso V, tomam a praça de Arzila

1474

Fernando Martins pede a Toscanelli informações sobre se era possível chegar à India por ocidente.

1474

Toscanelli responde afirmativamente a Fernão Martins

1474

Concessão de isenção de direitos a todos os portugueses que construíssem navios com mais de cem tonéis.

1474

Combate de corso nas costas S Vicente. Colòn chega a Portugal

1477

Viagem luso dinamarquesa a Thile; nela embarcam João Corte Real e Colòn

1478

Colòn comercializa com a Madeira

1479/83

Colòn reside na Madeira. Nasce seu filho Diogo.

1480

Acordo Toledo com a paz em Alcaçovas. Portugal institue Mar «Clausum»

1481

Morre em Sintra Afonso V

1481

Colòn troca correspondência com Toscanelli

1483

Viagens de Colòn à Guiné. Visita forte S. João da Mina

1482

Morte de Paolo Pozzo Toscanelli

1483

Execução em Évora do Duque de Bragança

1483

Reunião entre D João II e Colòn na «Junta dos Espertos»

1483

Carta régia de D. João II a favor de Diogo Cão, chegado com a crença de ter dobrado o Cabo

143 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


1484

O cartógrafo Behaim instala-se nos Açores, criando laços familiares com João Corte Real

1484

João II apunhala em Setúbal o cunhado Duque de Viseu

1485

O Mestre Vizinho toma a altura do sol em África

1486

Colòn expões aos reis católicos os seus planos de ir às Indias

1486

Conhecido o erro de Diogo Cão.

1486

Enviado Pero da Covilhã e Afonso Paiva em demanda de Prestes João

1486

Viagem de Ferdinand Olm à Lagoa das Sete Cidades (?)

1486

Carta de D João II a Colòn, em resposta à missiva deste

1488

Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança

1491

Chegada de notícias enviadas por Pêro da Covilhã

1492

Assinatura da capitulação, concedendo título de Almirante a Colòn e Governador perpétuo de tudo que encontrasse

1492

Discutido plano de viagem de Pêro de Barcelos e Jhoam Fernandes Lavrador»

1493

Colòn chega aos Açores com a «Nina»

1493

Colòn chega ao Restelo e procura D João II, antes de chegar a Espanha.

1493

Chegada triunfal de Colòn a Pallos.

1494

Assinado o Tratado de Tordesilhas: o mundo dividido a meio por uma linha 370 léguas a ocidente de Cabo Verde, a leste pertença Portugal; oeste de Espanha

1495

Morte de D. João II

1497

Vasco da Gama parte a sua grande viagem

1498

Vasco da Gama chega a Callicut

1499

Retorno de Vasco da Gama a Lisboa

1500

Gaspar Corte Real chega ao sul da Groenlândia

1500

Álvares Cabral «descobre» o Brasil.

1501

Gaspar Corte Real desaparece nas águas geladas dos mares de?

1502

Miguel Corte Real desaparece nos mares da Terra Nova

144 20. Os Descobrimentos no tempo de Fagundes


1506

Morre Colòn

1506

É publicada a Relação do Piloto anónimo

1506

Criação da Cidade do Funchal

1509

Parte do Tejo a esquadra de Diogo Lopes

1509

Convenção luso espanhola sobre a demarcação das terras conquistadas até ao Bojador

1510

Conquista definitiva de Goa por Afonso de Albuquerque

1511

Primeira expedição portuguesa ao Pacífico

1512

Livro I das Ordenações Manuelinas

1512

Crónica de D. Duarte

1513

Livro II das Ordenações Manuelinas

1513

Viagem de Malaca à China por Jorge Álvares

1513

Embaixada enviada ao Papa Leão X, em sinal de obediência

1513

Parte de Lisboa a armada de D. Jaime de Bragança para tomar Azamor

1514

Edição completa das Ordenações Manuelinas

1514

Livro de Marinharia de João Lisboa

1514

Crónica d’ El rei D. Afonso III

1515

Morte de Afonso de Albuquerque

1516

Crónica dos Senhores Reis de Portugal de Cristovão Acenheiro

1518

Casamento de D. Manuel com D. Leonor de Castela.

1519

Partida de Fernão de Magalhães para a viagem de circum-navegação ao serviço de Espanha

1520

Travessia do Estreito de Magalhães

1520

Entrega em Viana do Castelo da carta de mercês a João Álvares Fagundes

1521

Morte d’el Rei D. Manuel I

1522

Chegada da frota que fez a circum-navegação

145 joão Álvares Fagundes - Um homem dos descobrimentos


Bibliografia

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Título João Álvares Fagundes Um Homem dos Descobrimentos Autor Senos da Fonseca EDIÇÃO Fundação Gil Eannes rev. de imagem Rui Bela Revisão de texto Maria Helena Malaquias Design Rui Carvalho Design Impressão Felprint Local e Data de Edição Viana do Castelo, janeiro de 2017 Tiragem 1000 exemplares ISBN 978-989-20-7297-5 Depósito Legal 420167/17


Jafagundes livro edt  

Onde se fala deste Descobridor do SécXV/XVI,das suas viagens,das Descobertas a Ocidente,carreando factos novos para a História.

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