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Ílhavo naquele tempo (Colaboração) Naquele tempo, Ílhavo ostentava um torreão com a sua cúpula arabesca, purpúrea e, o mercado, ribombava num gorgolejar de vozes que mercadejavam hortaliças, fruta e galeota, até aos confins dos ínfimos tostões. As mulheres envoltas em eternos xailes negros, agasalhavam sobre o ventre maletas de palha, afadigando-se no regateio, interpelado por uma voz conciliatória e melada que anunciava: " Venha cá, oh freguesa, ainda hoje não me estreei, leve lá a dúzia das laranjas pelo cinco mi réis". A vendedeira enfiava as mãos numa interminável algibeira, pendente da cintura, a galinhos--de-barcelos-debruada, zangalhava as moedas, tacteando-as em busca de trocos, enquanto lançava já o olhar no endireito de uma outra que, de soslaio e fingindo desinteresse, rolava os olhos, fitos de desejo, sobre aquelas reboludas e luzidias laranjinhas de umbigo. Decifrando-lhe o interesse, a vendedeira, melíflua, clamava: "venha cá, oh freguesa, venha cá... " e o dia consumia-se donairoso e leve neste incessante regatear. Sob um telhado em arcaicas telhas abrigado, de traves expostas, onde se anichavam vetustos casulos de teias de aranha enegrecidos, uma chusma de vozes riscava o ar de pregões e, a galeota (1) enchia minúsculas maquias que eram manipuladas com ambidestreza, na estridência dos regateios, enquanto as velhotas, embiocadas nos seus eternos xailes negros, franziam as rugas, no manejo dos fugidios tostões. As peixeiras, eternizavam o luto em suas negras vestes e, distinguiam-se pelos gestos azougados , a leveza no falar, o atar do lenços na nuca, a voz leve, flutuante, no seu in-término algaraviar. A dois passos, sob o mesmo abrigo, quedavam-se as padeiras de Vale de Ílhavo, mulheres precavidas na fala e nos gestos, estampavam na face o rosáceo das labaredas nos fornos. Vestiam-

Ílhavo naquele tempo  

Senos da Fonseca