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A Capela das Almas Em 1911 foi desmantelada a Capela das Almas. Tratava-se de um lugar de culto, um oratório construído pelo Prior João dos Santos, sagrado em 1771. Pretendeu o referido prior – homem de muitos defeitos mas de grande expediente e muito activo, inclusive no negócio do bacalhau(!) – construir ao lado da mesma capela um hospital. Tendo ainda iniciado a sua construção, esta ficou, apenas e só, por uns muretes de que o Conselheiro Ferreira da Cunha nos deixou nota. Também conhecido, o templo, pelas «Almas da Toira», porquanto na sua frente ficava uma casa com um painel de barro na fachada, representando as almas, casa essa que pertenceria à «ti Toira». Era oratório onde, consta a tradição, se fariam muitos milagres e, por isso, o seu «altar» teria vultuoso rendimento. Para lá das imagens dos S Franciscos - admiráveis e venerandos -, hoje espólio do Tesouro da Matriz, o oratório albergava, ainda, o «amoroso» Stº Ivo, e a imagem da Stª Clara que se dizia muito milagreira e sob cujo andor engrinaldado das mais belas, viçosas e perfumadas flores, as mães passavam ao colo os filhinhos, para que a santa intercedesse e lhes desse um boa «fala, clara e breve». O oratório tinha a forma hexagonal, muito em voga em outros lugares de culto de Aveiro (N.Srª das Barrocas, Senhor dos Aflitos), e em S.Jacinto, na Srª das Areias, entre outros.


A Capela das Almas

Em 4.01.1911,a seguir à implantação da Republicas, é requisitada pela C.M.I, uma vistoria ao Director de Obras Publicas Distritais sobre as condições de segurança da Capela,sita na praça do peixe, que se dizia serem precárias. A vistoria explicita a situação de ruína e a Câmara de Abel Regalla, António Paradela, Carlos Santos Marnoto, José Simões Ramos, Júlio Carvalho, Domingos Gago, decidem colocar em «Praça» a sua demolição, questão que levantaria forte polémica e criaria um vivo mal estar entre as populações. O preço ajustado para a demolição foi de 341$000 réis (acta de 18.01.1911),tendo-se ainda deliberado proceder à venda dos bens existentes na Capela(?!) Hoje a «razão» evocada parece não convencer. Porquanto a Capela tinha sido construída em pedra vermelha de Eirol e, tendo pouco mais do que um século, nada de especial para um templo, não seria de esperar que o seu estado fosse assim tão mau como se apregoou. A sua arquitectura hexagonal conferir-lhe-ia, ainda e provavelmente, um acréscimo extra de estabilidade. A questão foi, clara e inquestionavelmente, de índole politica, pois o regime nos primeiros passos, pretendeu desde logo limitar a influência do clero «reaccionário», a quem culpava do estado de ignorância em que se mantinha a população, com o fito ultimo de assim melhor lhe extorquir os parcos rendimentos que iam engordar as fortunas dos párocos, corruptos e de gula material desenfreada, como era voz corrente. E se esta noticia posta a circular percorreu o país de lés a lés após a implantação do regime republicano, as reacções populares fizeram-se sentir, especialmente no norte. Ílhavo não escaparia à onda. Facto é que, sabemo-lo hoje bem, eram muitos os clérigos na Vila, possuidores de bons rendimentos, alguns, senhores de verdadeiras fortunas, adquiridas sem explicação convincente, muito impróprias da sua função pastoral. Uma das maiores teria sido precisamente a do construtor do oratório – que foi também o da edificação da nova Igreja Matriz – o referido Prior João Martins dos Santos, senhor de opulentos rendimentos que legou a seu sobrinho e sobrinhas, uma das quais viria a casar com o Cap.Mór de Ílhavo, Manuel Maia Vieira. A questão da Capela das Almas, a que se somaria a fuga das Irmãs da Caridade (de Calais) do Convento da Srª do Pranto, iriam ser, em Ílhavo, os casos maiores da opróbrio republicano aos símbolos da igreja considerada retrógrada e reaccionária, engajada com os trauliteiros miguelistas, a quem, na região, se votava um ódio de monta desde os tempos da revolução liberal e das suas consequências, com as execuções barbaras de figuras queridas da região. Voltando à «Capela das Almas». A quantidade de pedra que ficou depois do desmantelamento do oratório, era tão grande e de tanta utilidade, que nasceu nova polémica para saber quem iria ficar com a mesma. A entidade eclesiástica acabou por perceber que não tinha meios para a retirar do local e resoveu cedê-la à Câmara desde que esta lhe desse fins de utilidade pública(acta de 28.06.1911). E por isso, a Câmara, decidiu utilizá-la na construção «de aquedutos


Na estrada que liga a rua Serpa Pinto a Alqueidão. Andámos intrigados com estes «aquedutos». Não se tratava dos célebres pontilhões que ligavam Alqueidão à Matriz, pois esses teriam sido feitos por Maia Vizinho, com o intuito de permitir à sua família aceder á Matriz para assistir à missa dominical, num balcão especialmente construído no interior daquela, de modo a que ficasse isolada e independente dos restantes assistentes. Ao referido balcão tinha-se acesso por um túnel vindo Passal, propositadamente construído de modo a que os senhores nunca fossem importunados pelo povo. Só recentemente dei com a fotografia abaixo, onde se pode ver com clareza um aqueduto, executado em pedra (vermelha), já com indícios de princípio de derrocada. Poderá ter sido aqui que foi empregue a pedra proveniente da Capela das Almas. Ou simplesmente para os «aquedutos que permitiram substituir os referidos pontilhões..é assunto não totalmente esclarecido.

Aqueduto O referido «aqueduto» era aquele em que o engenho enorme assente em quatro pilares, existente por detrás dos quintais dos senhores Maias, vinha, com os seus alcatruzes mergulhar no poço do rio da Vila, para dele alçarem a água para a levar para outros locais da Vila, de cota mais elevada. Deste engenho temos ainda perfeita imagem, pois muitas foram as vezes que brincámos, em miúdo, no rio da Vila, ali navegando com os barquinhos de carqueja, o entretém do rapazio a imitar os maiores. Voltando ao terrado onde estava implantada a «Capela das Almas»,


Cúpula da Capela vista da Praça Mouzinho de Albuquerque

referimos que no terreiro contíguo, pensava o Prior Santos construir um Hospital. Não o fez. O terreiro foi então utilizado pelos crianças, viúvas, e velhos para se colocarem à saída da Capela, mão estendida à caridade, à espera que depois da reza os visitantes do oratório, com o banho de cristandade, fossem mais pródigos na espórtula àqueles desgraçados que por ali faziam bicha.

Era aqui, que a boa senhora, a D. Henriqueta Maia, vinha, semanalmente, trazer esmola e agasalho aos pobres, sentados e alinhados em bicha para receber das mãos da benemérita senhora, algo que lhes permitisse matar a fome, ou agasalho, para si ou para os seus, rotos no corpo e na alma.

A Capela vista do actual Alto-Bandeira

Este gesto de benemerência foi muito semelhante, na intenção e na prática, ao da Condessa de Almeidinha,D.Maria Benedita de Sousa Queiroz Bizarro,que na capela do seu Solar de


Alqueidão, dava, diariamente, uma sessão de esmolas aos mais necessitados. E a dada altura, quando uma pandemia dizimava o gentio mais pobre encafuado nos becos da Vila, lá de Alqueidão, sem condições higiénicas que lhe permitisse resistir às pestilências, a Condessa acreditou que só um milagre os poderia salvar. E de joelhos, prostrada no altar da sua Capela, prometeu à Srª da Nazaré «o melhor chão da sua propriedade» se a intervenção divina se lembrasse daqueles infelizes, libertando-os da praga infecciosa. O certo é que o «milagre» se deu, e a Romelha, o melhor chão dos Almeidinhas, foi parar à Igreja com a obrigatoriedade de o seu rendimento ser (integralmente) distribuído, anualmente, aos mais necessitados. Assim nasceu a história do «Chão dos Pobres». Ora anos decorridos, era ainda bem presente na memória das gentes aquele gesto da Condessa. A prática da caridade e benemerência da D.Henriqueta, em tudo muito semelhante, entrou para a história local. E o terrado contíguo à «Capela da Almas» foi, ele também, designado por «Chão dos Pobres», o que por vezes confundiu muita gente, desconhecedora dos pormenores. Na «Capela das Almas» funcionava o Sino da Ronda. O seu toque era o aviso para o encerramento das vendas e para os menores se recolherem a casa, e,ainda a chamada, ao povo, para a reza diária, vindo esta determinação dos tempos de El-Rei D.Manuel que concedeu o Foral a Ílhavo.

O Sino da Ronda

No local onde esteve a Capela das Almas, em 1914, foi instalado o «Mercado das Hortaliças».


O Mercado das Hortaliças

, Essencialmente era constituído por um telheiro exterior e outros interiores, estes entre muros, já vedados; ao centro uma espécie de torre circular, posto de cobrança das taxas. Mais tarde foi decidido, em 1922, substituir aquele por um verdadeiro Mercado Municipal. No lugar do referido casinhoto, no fecho sul –poente do novo mercado, esplêndido, amplo e monumental, ergueu-se o bonito Torreão, encimado por uma cúpula que parecia pretender evocar a da «Capela das Almas».

O Mercado com o Torreão

Esta construção do novo mercado originaria uma outra polémica. Daremos registo da mesma, proximamente.


O Mercado (fachada sul)

Senos da Fonseca (Julho 2008)

A Demolição da Capela das Almas  

Senos da Fonseca