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Sén i or n media Estudo da literacia mediática do público sénior

Isabel Figueiredo Soraia Freitas Raquel Ribeiro


Isabel Figueiredo & Soraia Freitas & Raquel Ribeiro

SĂŠnior in Media


título original: Sénior in Media direitos reservados por: Isabel Figueiredo Soraia Freitas Raquel Ribeiro Instituto Superior de Ciências Sociais Universidade do Minho edição n.º 1 Braga - Junho de 2011


Índice

Agradecimentos ................................................................................ 6 Prólogo .............................................................................................. 7 Idoso. Eu? .......................................................................................... 9 Horas in media ................................................................................ 15 Alfabetizar mediaticamente é incluir .............................................. 26 Os idosos portugueses e os media .................................................. 31 Educar para os media - a realidade portuguesa .............................. 42 Projectos de intervenção................................................................. 50 Spot publicitário de sensibilização............................................... 50 Formação na Universidade Sénior de Gondomar ........................ 52 Outras acções de intervenção possíveis .......................................... 70 Conclusão ........................................................................................ 77 Bibliografia ...................................................................................... 80


Agradecimentos Num trabalho longo e cuja realização estendeu-se por mais de três meses, foram inúmeras as pessoas que atenciosamente nos receberam nos seus lares e espaços pessoais, alterando as suas rotinas e acedendo ao nosso pedido para participar num projecto que tantas vezes implicou dar a conhecer hábitos pessoais e percepções íntimas sobre a realidade. Por essa razão, no momento dos agradecimentos cabe-nos em primeiro lugar lembrar todos os idosos que gentilmente trocaram impressões connosco sobre o tema do nosso trabalho. Não iremos enumerar todos os nomes pois a lista seria extensa, mas a todos eles, um Muito Obrigado. Agradecimentos igualmente cordiais, aos profissionais que acederam conversarem connosco a propósito desta temática, partilhando a sua visão profissional sobre o assunto. Falamos sobretudo da Dr.ª Isabel Tracana e da Enfermeira Maria Rosa Figueiredo com a ajuda de quem traçamos um entendimento mais claro sobre as especificidades da realidade mediática dos idosos. Não esquecemos também a Dr.ª Cristina, Directora do Centro Social da Paróquia de Rio Tinto, pela disponibilidade em abrir as portas desta Instituição para que entrevistássemos utentes aí institucionalizados, e o Professor Edgar Dolgner da Universidade


Sénior de Gondomar pela simpatia com que colocou ao nosso dispor a sua aula de Cidadania para que tivéssemos a oportunidade de aí realizar a nossa formação. Por último mas não menos importante, agradecemos ao Professor Luís Santos e ao Professor Manuel Pinto, docentes da Universidade do Minho e mais concretamente das unidades curriculares Laboratório 2 – Produções Mediáticas e Teorias e Práticas da Educação para os Media, respectivamente, pela ajuda prestada nos momentos solicitados, pelo incentivo nas horas de maiores dúvidas e pelo apoio concedido no enquadramento teórico do trabalho.


“O homem chega inexperiente a cada idade da vida” Sébastien Roch-Chamfort

Prólogo

P

rescrutando empiricamente a realidade mediática dos idosos portugueses, caímos muitas vezes na tentação de traçar um conjunto de pressupostos que tomamos como

certos e que mais não são do que estereótipos e ideias-feitas, que trabalhando na facilitação do nosso entendimento da realidade acabam, não raras vezes, por embaciar a nossa percepção tornando-nos mais permeáveis aos engodos e à inacção. Com este booklet “Sénior in Media”, concebido no seguimento do trabalho realizado no âmbito do Mestrado de Comunicação, Cidadania e Educação da Universidade do Minho, pretendemos dar um pequeno passo no desmontar da realidade que coloca lado a lado os idosos portugueses e os media. Com o trabalho de campo realizado, tivemos a oportunidade de ir ao encontro de diferentes idosos, entrando em contacto com variadas realidades, mas também consultando alguns trabalhos que se debruçam total ou parcialmente sobre esta temática. Através dessas fontes primárias e secundárias de informação fomos conhecendo abordagens, despertando curiosidades e abrindo os

[7]


olhos para o manto de complexidade que envolve o nosso objecto de estudo. Depois de meses de trabalho, parece prevalecer um duplo sentimento. Por um lado, consideramos que o nosso objectivo ficou cumprido na medida em que nos foi possível realizar um exercício de recolha de informações que traz um pouco de luz a um campo que consideramos ainda pouco estudado em Portugal. No entanto, damos por finalizada esta etapa com a certeza de que fica ainda muito trabalho por fazer, sobretudo no campo das acções reais e concretas no terreno. Com sinceridade admitimos que não é nossa pretensão esgotar o assunto nesta publicação, apenas ir pintando um quadro onde as formas e os modos de acesso, usos e compreensão dos media por parte dos idosos, ganhem significado num vasto conjunto de acções que possam suscitar a discussão e a reflexão do assunto junto do público em geral.

[8]


Idoso. Eu?

T Para

ermo usado para definir as pessoas que pertencem a uma determinada faixa etária, o conceito “idoso” encontra expressão na definição da Organização Mundial de Saúde.

este

organismo

internacional,

um

idoso

pode

ser

cronologicamente definido como todo aquele que tem mais de 65 anos de idade nos países desenvolvidos e que atingiu os 60 anos de idade em países em vias de desenvolvimento. A faixa etária dos idosos cresce em significado e expressão não só em Portugal, mas também em termos mundiais e para esse facto concorrem concomitantemente factores que se prendem não só com a redução da taxa de natalidade, mas igualmente com o progressivo aumento da esperança média de vida. Analisar o progressivo aumento do número de idosos, é perceber o envelhecimento enquanto processo activo e universal inerente à condição dos seres humanos e que tem o seu início logo a partir do momento de concepção do indivíduo. Conceito complexo e com múltiplas

dimensões

envelhecimento

pode

possíveis ser

de

entendido

análise, na

o

sua

processo

de

dimensão

de

envelhecimento biológico ou físico, envelhecimento social e/ou envelhecimento psicológico.

[9]


Com efeito e no que ao envelhecimento biológico diz respeito ainda não existem mecanismos possíveis de retardar a sua evolução em termos efectivos. No que ao envelhecimento psicológico concerne, existem vários elementos que quando utilizados de modo concertado podem potencialmente trabalhar na minimização dos efeitos dessa forma de envelhecer. Não esquecendo que o envelhecimento pode ser analisado sob duas grandes perspectivas a saber: a individual (o envelhecimento assenta na maior longevidade dos indivíduos) e colectiva (o envelhecimento demográfico define-se pelo aumento da proporção das pessoas idosas na população total (INE, 2000), seguimos no nosso trabalho a classificação proposta por Lidz, que considera o envelhecimento um processo contínuo que abarca três fases sucessivas. Estas três fases, apesar de globalizantes não se excluem entre si mas também podem ser atingidas em simultâneo. A primeira destas fases denomina-se de “Idoso”. Neste momento da vida são evidentes grandes alterações sobre o ponto de vista orgânico, mas são sobretudo visíveis as mudanças no modo de vida introduzidas pela reforma e com a potencial maior disponibilidade de tempo que esta acarreta. Nesta fase da vida, o indivíduo ainda se sente capaz de satisfazer as suas próprias necessidades. A segunda fase denomina-se de “Senescência”. Nesta fase da vida ocorrem as alterações de natureza física o que conduz naturalmente

a

uma

maior

dependência

dos

outros.

Tem

correspondência directa com uma velhice mais avançada.

[10]


Por último, o idoso pode atingir a chamada fase da “Senilidade”. Nesta fase, o cérebro já não consegue executar as suas funções de modo eficaz e o indivíduo vê a sua dependência em relação aos outros a crescer de modo muito significativo. Estes três momentos possuem correspondência directa com um progressivo envelhecimento biológico do ser-humano, pelo que no âmbito do nosso trabalho vamos tentar perceber de que modo o campo dos media pode ser utilizado com o objectivo de reduzir os efeitos potencialmente nefastos decorrentes do envelhecimento psicológico e social do ser-humano. Não esqueçamos que com o declínio progressivo das suas capacidades, sobretudo no que no domínio físico diz respeito, os hábitos e as rotinas do idoso vão-se alterando, sendo o seu dia maioritariamente ocupado por actividades que exigem menor esforço físico. Neste leque de actividades possíveis, o consumo dos media possui um lugar de destaque. Tendo como pressuposto esta percepção desenvolvemos um trabalho de pesquisa e recolha de iniciativas que no contexto nacional dão enfoque à questão da educação mediática do público com mais de 65 anos. Neste trabalho, no entanto, um entendimento maior sobre a condição do idoso foi-nos dada a conhecer. Por meio do contacto directo com profissionais das áreas da geriatria e gerontologia percebemos, antes de mais, que são erradas as tentativas de alguns em aglomerar os idosos num grupo homogéneo e indiferenciado.

[11]


Com efeito, no seguimento daquilo que são os tópicos, ditos, refrões e demais etiquetas ou adjectivações que as pessoas de modo geral utilizam para definir um idoso, encontramos a tentativa recorrente quer nos meios de comunicação social, quer mesmo na sociedade em geral, de categorizar estas pessoas integrando-as num grupo mais ou menos homogéneo. Esta situação que ao mesmo tempo favorece a classificação, permite a formulação de conclusões potencialmente passíveis de serem estendidas à totalidade desse grupo, pecando pela sua imprecisão e pela incapacidade de evidenciar a verdadeira riqueza da natureza humana. Efectivamente, concordamos com Castro quando este defende que “ …o mundo social e humano, dificilmente se nos apresenta, na sua crua realidade objectiva e objectual, sem possuir adjectivações (frequentemente precisamente

estereotipadas),

uma

percepção

porque

o

estereótipo

é

extremamente

simplificada

e

geralmente com ausência de matrizes” (Castro et al, 1999). Deste modo o estereótipo afirma-se como “uma representação social sobre os traços típicos de um grupo, categoria ou classe social” (Ayesteran e Pãez 1987) e caracteriza-se por ser um modelo lógico para resolver uma contradição da vida quotidiana servindo sobretudo o propósito de explicar o real. Assim, a par com a raça e com o sexo, o ser humano usa frequentemente a idade como factor de classificação dos outros. Refira-se que destas três categorias, esta é a única em que o grupo que classifica, isto é, os mais jovens, irá eventualmente juntar-se ao [12]


grupo discriminado, ou sejam, os idosos. Essa discriminação tantas vezes

denunciada

em

expressões

e

comportamentos

de

discriminação e marginalização em relação ao idoso, tende a materializar a sua existência real naquilo que é a definição dos idosos como grupo. Ideia tão massificadoramente veiculada, estes estereótipos tendem a criar raízes de tal maneira profundas na sociedade, que chegam mesmo a criar estigmas junto daqueles que já atingiram essa condição. De facto, são muitas as pessoas que possuindo mais de 65 anos, recusam ser chamadas de idosos, pois pessoalmente olham para o “conceito” de modo também ele formatado pelos estigmas e pré-conceitos sociais. Este movimento circular é na opinião de alguns profissionais da área da geriatria, a causa para a manutenção de certos estigmas sociais. De facto, de acordo com a psicóloga geriátrica Isabel Tracana, muita da falta de entendimento que possuímos sobre a realidade dos mais velhos na sociedade portuguesa actual, surge da incapacidade quase generaliza de olhar para o público sénior de modo individualizado e diferenciado. Relembra esta profissional, que não podemos dizer que exista um perfil de idoso português, mas antes uma panóplia diversificada de pessoas que têm proveniências, gostos, preferências e percursos de vida muito diferentes e que de modo muito recorrente são colocadas todos num mesmo grupo. Esta tentação de agrupar é também evidente em outras faixas etárias como a das crianças ou a dos adolescentes/jovens, prossegue a profissional, no entanto a mesma é muito mais

[13]


preocupante no que aos mais velhos diz respeito, reitera Isabel Tracana. Assim, podemos dizer que evolução da idade é o resultado da natural evolução da condição do ser-humano no tempo, o que leva as

pessoas

tendencialmente

a

distinguirem-se

e

não

a

homogeneizar-se. Lembremos que a cada idoso corresponde uma realidade própria e inconfundível. Os diferentes níveis de formação (analfabetos, literatos), as diferentes proveniências (ambientes urbanos e citadinos) e as experiências profissionais, entre outras, são apenas exemplos práticos de dimensões em que é possível distinguir a pessoa humana. Tendo como enquadramento teórico a concepção de Isabel Tracana ao afirmar que “… a visão que os idosos possuem dos media vai depender do entendimento que já possuíam antes de atingir os 65 anos de idade”, apresentamos a nossa argumentação. O pressuposto em cima do qual trabalhamos é o de que em questões de percepção da realidade, inclusive da realidade mediática aqui objecto de estudo, a idade é apenas uma questão de pormenor.

[14]


Horas in media

Q

uando empiricamente olhamos para o panorama mediático dos idosos portugueses, o senso comum leva-nos a identificar um determinado conjunto de traços distintivos.

Superficialmente e mais uma vez com a visão turva pelos estereótipos que recebemos e assimilamos como

verdades

incontestáveis,

televisão

identificamos

a

importância

que

a

desempenha na vida dos mais velhos, ao mesmo tempo que abusivamente enunciamos razões pelas quais os media configuram, de modo geral, um campo tenebroso para os mais velhos, formulado da tendência dos idosos para se deixarem facilmente ludibriar pelas mensagens mediáticas que recebem. Na tentativa de trabalhar num entendimento o mais fidedigno possível desta realidade, é admissível recorrer a estudos estatísticos promovidos por empresas credíveis que a despeito de tomarem pulso ao consumo concreto dos media pelo público sénior, vão sempre cair na tentação das generalizações. Ainda assim e porque é importante conhecermos melhor o panorama que serve de contexto ao nosso trabalho, olhemos com atenção para alguns dos mais recentes estudos efectuados no nosso país e que reflectem sobre a problemática do consumo dos media por parte das pessoas com mais de 65 anos.

[15]


Desta forma, atentemos em parte do estudo da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação) publicado em 2008, que se debruçou sobre os residentes em Portugal com mais de 65 anos com o objectivo de interpretar quantitativa e qualitativamente o consumo que estes fazem dos meios de comunicação. Os meios analisados foram: a televisão, a imprensa escrita a rádio e a internet. Em relação à televisão, refira-se que de acordo com este estudo, 99% dos idosos de ambos os sexos, vêem regularmente televisão, sendo que dessa percentagem total 90% fâ-lo diariamente. Em termos de género, as mulheres (94,9%) parecem, no entanto, preferir mais este meio do que os homens (89,7%).

Tabela 1- Períodos de visionamento de televisão

[16]


Os períodos de maior visionamento são os do almoço (40,1%) e do jantar (54,7%) para os homens e o da tarde (42,7%) e o do depois do jantar (45%) para as mulheres. Ambos os sexos consideram a televisão como o meio de informação mais importante (74,8% dos homens e 69,3% das mulheres).

Gráfico 1- Programas de Televisão visionados pelos idosos

O género “Informação” é indicado como o mais visto (mais de 98% dos inquiridos), não se verificando aí grandes diferenças em relação ao total da população.

[17]


Tabela 2- Hábitos de consumo mediático dos idosos

Relativamente

aos

hábitos de

discussão

dos programas

visionados na televisão por parte do público com mais de 64 anos, o estudo conclui que isso não configura um hábito comum. Quando realizado, a família é preferida em detrimento dos amigos e colegas para comentar e discutir conteúdos a que tiveram acesso a partir da televisão.

[18]


Gráfico 2- Evolução do tempo médio despendido pelos idosos a ver televisão

O estudo da ERC vem no seguimento de um outro publicado no mesmo ano pela Marktest que dá conta do aumento do consumo da televisão por parte dos idosos portugueses. No ano de 2008, o consumo ascendia já às 5h30m de visionamento diário de televisão, representando essa situação um aumento de quase uma hora em relação a 2005 (4h48m).

[19]


Gráfico 3- Hábitos de consumo da imprensa escrita pelos idosos

No que respeita à imprensa escrita, os dados apontam no sentido de um progressivo afastamento do público sénior em relação a este meio de comunicação. Destaque-se o facto de mais de 50% dos homens e 80% das mulheres, com idades superiores aos 64/65 anos não lerem jornais. As razões predominantemente apontadas são que não podem ou não lhes interesse a leitura dos mesmos. Entre aqueles que consomem este meio, as secções de informação preferidas são igualmente idênticas. No caso dos homens (75,9) e das mulheres (73,9), as rubricas de Diversos, relacionados com crimes e acidentes de estrada são os preferidos.

[20]


No caso dos homens a secção do desporto (73,5%) também se destaca com elevadas percentagens de leitura.

Gráfico 4- Funções procuradas nos media

Em relação ao media rádio, a tendência de progressivo afastamento por parte do público sénior é igualmente evidente. Ainda assim, depois da televisão a rádio é o meio de comunicação mais utilizado. Neste caso, os homens parecem destacar-se (61,8%) em relação às mulheres (49,8%). No contexto da rádio, verificamos que o mesmo é um media procurado sobretudo pela informação que veicula. A Rádio Renascença, a TSF e a Antena 1 são as emissoras às quais este público atribui maior credibilidade na informação veiculada. [21]


Finalmente, em relação à internet, os dados apontam para um consumo muito incipiente em relação a este media por parte de homens (6%) e mulheres (2%). Por meio da análise destes dados, ocorre-nos algumas considerações. Em primeiro lugar o facto de se comprovar o fascínio que a “caixinha mágica” continua a exercer sobre o público em geral e muito em particular sobre o público sénior. Neste caso em concreto podemos dizer que esse fascínio justifica-se pela sua acessibilidade e ao facto de não colocar grandes restrições ao seu consumo por parte de todos os públicos. Assumindo-se como a banda sonora do dia-a dia, o público em geral com maior disponibilidade de tempo vêem na televisão um importante meio de comunicação para se manterem entretidos e informados. A esse propósito não poderemos ainda esquecer todos aqueles que por questões de limitações físicas têm dificuldades de mobilidade e tantas vezes sozinhos nas suas casas e/ou em lares de acolhimento, utilizam a televisão como a fiel companhia. Os números do consumo de televisão são ainda interessantes de analisar à luz do reduzido hábito denunciado pelo público inquirido em discutir aquilo que vê com familiares, colegas e amigos. Esta situação é denunciadora da reduzida prática existente no diálogo dos conteúdos dos media, o que poderia configurar uma acção importante

no

desmontar

dos

discursos

mediáticos

e

no

esclarecimento de alguns conceitos e dúvidas que suscitadas pelo consumo dos media, parecem permanecer na maior parte das vezes

[22]


sem resposta. Deste modo, ocorre-nos perguntar: os idosos ligam à televisão, mas será que a televisão liga aos idosos? Outro elemento interessante que ressalta do estudo da ERC anteriormente referido, é o enfoque cada vez mais reduzido que é dado à imprensa escrita. Para essa situação, concorrem certamente factores

que

se

associam

com

os

elevados

níveis

de

analfabetização, que ainda são nota dominante junto de uma dada faixa etária, mas também questões que se prendem com as limitações visuais, a dificuldade em ler um tipo de letra que é tão pequeno e ainda a questão do custo. Com efeito, na auscultação que promovemos junto de vários idosos, apercebemo-nos das suas crescentes reticências em consumir jornais, justificando essa situação pela sua incapacidade para comportar esse custo diário. O fascínio pelo media rádio é também um dos traços distintivos deste estudo. Com efeito, são muitos os idosos que continuam a constituir audiência radiofónica, procurando-a sobretudo pela dimensão informativa e utilizando-a muitas vezes em conjunto com a televisão. A este propósito, refira-se sobretudo a prevalência de determinadas estações, como sejam a Antena 1, a Rádio Renascença e/ou TSF que se destacam sobretudo pela sua componente informativa. No âmbito da internet, o estudo leva-nos a concluir que no contexto português, o seu uso por parte do público sénior é ainda muito pouco significativo. Anuímos assim com Mcnut quando este nos diz que “Ao mesmo tempo que a internet e outros meios e tecnologias de informação e comunicação têm o potencial de [23]


aumentar o capital humano, promovendo um melhor acesso à educação e à experiência, por outro lado, e para outros que não têm suficientes recursos ou experiências, a mesma é razão de uma crescente exclusão do capital social e cultural” (Macnutt, 1998). Assim, na função directa em que “As tecnologias de informação e comunicação (especialmente a internet) se vão tornando cada vez mais centrais na vida social e económica (…) é também cada vez mais evidente que certos grupos como – pobres, domésticas, os mais velhos, os deficientes, os analfabetos – são sistematicamente excluídos” (Torenli, 2006). De acordo com Van Dijk (1999), são inúmeros os factores que se afiguram como obstáculos no que ao uso de novos media se refere. Entre esses destaca o autor “as pessoas, sobretudo as mais velhas ou menos preparadas sentem-se intimidadas pela tecnologia ou tiveram uma primeira má experiência com ela, inexistência ou dificuldades em aceder a computadores ou redes de internet, a inexistência de sistemas operativos “amigos dos utilizadores” ou com um estilo de utilizador pouco atractivo ou ainda a falta de significado atribuído às potencialidades deste meio...”. No contexto português, poderíamos ainda acrescentar o analfabetismo, a baixa escolaridade, as limitações físicas e os elevados custos inerentes ao acesso à internet, como as condições que melhor explicam esta situação. Assim, neste ponto em concreto, é premente entender a progressiva transformação social que está a ocorrer socialmente pela difusão e crescente utilização de tecnologias de informação e [24]


comunicação (a e-transformação de acordo com Nurcan Torenli), responsável por uma crescente e cada vez mais evidente situação de exclusão social de certos grupos, idosos incluídos, para, a partir daí, avançar com medidas de literacia mediática que possam de modo eficiente contornar essa situação.

[25]


Alfabetizar mediaticamente é incluir

N

o decorrer deste booklet, já por diversas vezes nos referimos ao conceito de educação para os media ou literacia mediática, mas o que de facto significa educar para os media?

De acordo com a Directiva 2007/65/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 11 de Dezembro de 2007, a Educação para os media pode ser entendida como a tarefa que “visa as competências, os

conhecimentos

e

a

compreensão

que

permitem

aos

consumidores utilizarem os meios de comunicação social de modo eficaz e seguro. As pessoas educadas para os media são capazes de fazer escolhas informadas, compreender a natureza dos conteúdos e serviços e tirar partido de toda a gama de oportunidades oferecidas pelas novas tecnologias da comunicação. Estão mais aptas a protegerem-se e a proteger as suas famílias contra material nocivo ou atentatório”. Tendo em atenção a definição proposta pelo Parlamento Europeu,

facilmente

verificamos

que

é

urgente

alfabetizar

mediaticamente o público, trabalhando na empreitada de formar cidadãos mais esclarecidos e capazes de intervir de modo mais consciente e activo naquilo que é sociedade e na qual se integram. No entanto e no que ao segmento de análise do nosso trabalho de [26]


investigação diz respeito, algumas dúvidas parecem subsistir. Uma delas emerge no campo da investigação destas temáticas e interroga-se sobre a pertinência de constituir uma política de alfabetização mediática para os mais velhos. Não são as crianças os elementos mais indefesos perante os media, pela sua menor idade e consequente reduzida experiência de vida? A discussão não é linear e tem vindo a ser alvo de inúmeras reflexões. De facto, a escolha do público sénior como enfoque do nosso trabalho efectivou-se tendo por base três realidades socialmente importantes. A primeira diz respeito ao progressivo e marcado envelhecimento da população mundial e em especial da sociedade portuguesa. Esta situação claramente influenciada pela realidade social e geográfica de redução das taxas de natalidade e aumento da esperança média de vida, teve como efeito imediato uma alteração daquilo que é a composição e perfil da pirâmide demográfica portuguesa. A este propósito não esqueçamos os dados de um estudo da Marktest do ano de 2008 que dá conta da existência de aproximadamente 1,8 milhões de idosos portugueses, isto é, pessoas com idade igual ou superior aos 65 anos, o que corresponde já a cerca de 17% do total de habitantes nacionais. Socialmente relevante, o envelhecimento da população levanta questões várias em sectores diversos como o económico, o político, o cultural e também o mediático, que carecem de estudo. A segunda ordem de razão materializa-se na relação peculiar que coloca lado a lado o público sénior e os media. Dentro desta [27]


grande questão levitam ainda problemáticas que se evidenciam na relação amor/ódio que os idosos possuem relativamente aos media tradicionais e aos chamados novos média. Finalmente e associada a estas duas razões apontadas anteriormente, encontra-se uma terceira que se prende com a premência em dotar os mais velhos de conhecimentos formais, técnicos e conceptuais, para que movimentando-se numa sociedade da informação e da comunicação, sejam capazes de acompanhar as revoluções mediáticas que acontecem a grande ritmo e velocidade e contrariarem a infoexclusão. Deste modo, a sistematização do nosso trabalho de pesquisa estruturou-se em dois momentos fundamentais. Em primeiro lugar a pesquisa de informação, boas práticas e exemplos nacionais e internacionais passíveis de ser replicados. Depois, por meio da proposta de algumas acções concretas, que trabalhem em conformidade para combater a infoexclusão tantas vezes associada a este estrato etário e por outro e contribuam para um envelhecimento mais salutar e activo do público sénior. Por meio da recolha de dados coube-nos a busca de respostas para as questões: Quem? Quando? O quê? Onde? Porquê e Como? Trabalhamos no sentido de conhecer a realidade mediática dos mais velhos, investigando daquilo que é o valor simbólico, afectivo, emocional que os mesmos atribuem aos diferentes media. Este trabalho, que se integra já num segundo momento, implicou uma abordagem mais pessoal e directa ao público-alvo, entrevistando-o e tentando perceber as suas motivações, os seus desejos e as suas [28]


necessidades mediáticas. A técnica da entrevista individual foi privilegiada pelo facto de consideramos que a mesma é aquela que melhor serve as nossas necessidades de mais do que recolher factos, contar histórias. Nesse contexto e para que a história fosse o mais diversificada possível, entendemos como fundamental procurar pessoas com as mais variadas proveniências e gostos, na tentativa de traçar uma imagem o mais próxima possível da realidade portuguesa. O registo sonoro das entrevistas foi capturado e as fotografias foram tiradas com o objectivo de constituir fragmentos do momento, utilizadas como espelho da história que tentamos contar. No nosso trabalho demos voz aos idosos. Desafiamos as probabilidades, contrariamos o senso comum e dispusemo-nos a escutar o que tinham a dizer sobre os media. De facto, anuímos com Maria Rosa Figueiredo quando esta se referia à importância de educar para os media, porque é importante perceber que neste campo “nem tudo é preto e nem tudo é branco, existem inúmeros cinzentos”. É precisamente nesses cinzentos, onde as acções são menos claras e as realidades menos percebidas que nos dispusemos a trabalhar. Educar para os media o público sénior é, portanto, admitir a realidade de pessoas que viveram em tempos de sociedades desmassificadas mediaticamente e cuja vida acompanhou em paralela a evolução dos meios de comunicação. Com efeito, para muitos, as memórias de uma vida estão associadas à censura que presenciavam nos jornais no tempo do Estado Novo, ou à afirmação [29]


da rádio Emissora Nacional. Muitos deles acompanharam toda a evolução da televisão em Portugal. Desde os primórdios em que o preto e o branco representavam todas as cores e o único canal tinha hora de abrir e de fechar, até ao surgimento da televisão colorida e ao advento da televisão privada. Os idosos portugueses de hoje são eles próprios o arquivo da evolução dos media em Portugal. Muitos pensam que já viram tudo e que nada mais os poderá surpreender. A nós, parece-nos que aí reside precisamente o maior perigo.

[30]


Os idosos portugueses e os media o entendimento necessário ao lançamento das bases da

N

educação para os media junto do público sénior, perceber de que modo os idosos se relacionam diariamente com os meios de comunicação, é condição fundamental.

Tendo em mente esse objectivo, partimos para o terreno e estabelecemos contacto directo com vários idosos que em ambientes tão diferentes como a sala de aula da Universidade Sénior de Gondomar, a sala de estar de um lar de acolhimento ou o conforto da própria casa, nos confidenciaram os contornos e especificidades da sua relação com os meios de comunicação. Na busca de elementos que nos permitissem olhar para a realidade mediática dos idosos com a experiência do contacto directo, procedemos à selecção de pessoas com experiências de vida diversas, contextos de acção heterogéneos e percepções da realidade diversificadas. Através da aplicação de um guião de perguntas, mais ao menos linear, foi-nos possível averiguar alguns traços caracterizadores desta dinâmica mediática e ao mesmo tempo descortinar algumas ideias estereotipadas que pudessem subsistir. Ricas

em

permitiram-nos

abundância ainda

e

comparar

diversidade, perspectivas

estas

entrevistas

concordantes

e

[31]


dissonantes em relação aos media e à sua influência na sociedade. Mais do que uma simples recolha de material, estas entrevistas configuram pedaços de histórias de vida, fragmentos e realidades que importa conhecer para melhor traçar o panorama mediático dos idosos portugueses.

Fotografia 1 - Centro Social da Paróquia de Rio Tinto

Fotografia 2 - Universidade Sénior de Gondomar

[32]


Assim e desde logo, um aspecto que desejamos ressalvar é o discernimento com que a maior parte dos idosos entrevistados fala dos media e do papel destes na sua vida. De facto, apesar de prevalecerem algumas dúvidas no que a determinados conceitos específicos diz respeito, lembremos a observação de António Silva de 75 anos que no final da nossa conversa, nos questionava sobre o que eram os media, concluindo dizendo que “…pensava que era um partido particular…”. Contudo, a maioria sentia-se muito à vontade para falar do tema e da influência deste no seu quotidiano.

Fotografia 3 - António Silva, 77 anos (Centro Social da Paróquia de Rio Tinto)

Recordamos com interesse as palavras do Sr. Aristides de 69 anos, que nos confidenciava que “…antigamente dizia-se que algo [33]


era verdade porque vinha no jornal, agora a situação é completamente diferente…”. Concluía ainda que “…a leitura deve ser feita, mas sempre de olhos abertos”. Ideia semelhante era partilhada pelo Sr. Mário Ferreira de 73 anos para quem “os jornais vendem o seu peixe (…) e o público não está ali para dizer ámen”.

Fotografia 4 - Mário Ferreira, 73 anos (Universidade Sénior de Gondomar)

Relativamente

ao

consumo

dos

media,

as

preferências

estabelecem-se em torno da televisão, da rádio e de alguma imprensa escrita. Em relação a esta última, a crítica do Sr. Manuel de 84, era lacónica “o jornal que eu leio todas as semanas é o jornal do Lidl e a Dica, porque são gratuitos. O Jornal de Notícias gosto de ler, mas é muito caro…”. Para outros, no entanto, o interesse do jornal resumia-se à página de necrologia “…eu todos os dias o que procuro nos jornais é a página dos mortos, quero ver se estou lá”,

[34]


dizia com piada Edgar Dolgmer de 65 anos, natural da Serra da Estrela.

Fotografia 5 – Edgar Dolgmer, 65 anos (Universidade Sénior de Gondomar)

Quando questionados sobre o que não gostavam nos media, as opiniões foram quase unânimes “ eu não gosto da programação da televisão”, dizia Maria Aragão de 67 anos que frequenta a Universidade Sénior de Gondomar “ …depois do telejornal à noite, que é quando quero ver televisão, a programação é só novelas em todos os canais (…) os bons filmes só passam de madrugada quando Fotografia 6 – Maria Aragão

eu estou a dormir”.

[35]


Já para a D. Celeste de 77 anos, o que mais gosta de ver na televisão “…é o telejornal (…) gosto de saber o que se passa em Portugal e no mundo”, prosseguia “ …há muita pessoa que nem sabe ler e os media não explicam. Se o povo não souber, para eles é melhor”. Essa ideia sobressaiu também das palavras do Sr. Manuel Rocha de 84 anos “…certos programas não falam para a raia miúda…”. E da boca do Sr. Armando de 87 anos, ouvia-se o seguinte “…eles andam ali apenas para ganhar a malga!”.

Fotografia 7 – Celeste Rocha (Centro Social da Paróquia de Rio Tinto)

Fotografia 8 – Manuel Rocha (Centro Social Paróq. Rio Tinto)

Fotografia 9 – Armando (Rio Tinto)

[36]


Para a D. Augusta de 89 anos, residente em Viatodos - Barcelos, quando não gosta da televisão “…até me faz doer a cabeça (…), como não sei ler não percebo aquelas palavras…”.

Fotografia 10 – Augusta Fernandes, 89 anos (Viatodos – Barcelos)

Os programas pelos quais repartem a sua atenção na televisão também se distribuem de modo muito linear. Os telejornais, os filmes, as telenovelas e os programas de entretenimento foram os mais mencionados, sendo que por vezes quando se referiam a estes últimos, reconheciam-nos mais pelos seus apresentadores do que pelo seu nome “… eu gosto de ver o gordo”, dizia-nos a D. Celeste, enquanto o gosto do Sr. Manuel era pelo João Baião em primeiro lugar “…eu prefiro ver o João Baião, que é um comedor que está sempre a provar a comida (…), gosto de ver o Goucha e o Fernando

[37]


Mendes para me rir…”. O futebol foi também um dos géneros de programas

mencionados,

desta

feita,

por

parte

do

público

masculino. Relativamente ao media rádio, os gostos repartiram-se entre aqueles que aí gostavam de procurar informação, ouvir música e ainda escutar o terço. Porém, também em relação a este media sobressaíam algumas críticas “…de informação na rádio temos pouco, na hora do

noticiário

dão

mais

música do que notícias …”, notava o Sr. Jorge Pinheiro com 68 anos, para quem a rádio é o media preferido, muito

pela

condição

de

Fotografia 11 – Jorge Pinheiro (Centro Social Paróq. de Rio Tinto)

invisual que lhe condiciona o uso de outros meios de comunicação. No consumo radiofónico, as emissoras com pendor mais informativo, a saber, a TSF e a RR, são as mais referidas, seguidas de perto pela Rádio Festival, muito mencionada pela facto de passar música portuguesa. Tentando explorar igualmente a relação dos mais velhos com os novos media, sobretudo a internet e os telemóveis, questionamos os entrevistados se tinham alguns destes meios e se os consideravam úteis na sua vida.

[38]


Falando do telemóvel, a maioria dos entrevistados referiu que o usava com frequência, sendo que aqueles que não o tinham ainda assim mencionavam as suas vantagens. Achamos pertinentes os comentários acerca do telemóvel, do Sr. Armando que nos disse “O telemóvel é uma coisa boa”, ou o que o Sr. António da Silva, de 78 anos e residente em Barcelos proferiu “…é excelente mas é para trabalhar”.

Fotografia 12 – António da Silva, 78 anos (Viatodos – Barcelos)

Relativamente à internet, as opiniões recolhidas não foram tão unânimes “ …na minha casa não entra a internet…” (Mário Ferreira, 72 anos); “…eu não mexo porque tenho medo de estragar”, confidenciou-nos a D. Celeste; “…isso já não é para mim (…) eu já estou na reserva” (Sr. Armando 87 anos); “…eu ouço na rádio a falar

[39]


da internet, mas não sei bem o que isso é (…) é uma televisão com m computador, não é? Perguntou-nos o Sr. António Silva. Por outro lado, alguns dos entrevistados reconheceram que exploram já um pouco as potencialidades deste media.

“Eu desde os 60 anos que comecei a usar a internet

(…)

sobretudo

para ver as notícias e para consultar o e-mail” (Aristides

Oliveira,

69

anos). Fotografia 13 – Aristides Oliveira, 69 anos (Universidade Sénior de Gondomar)

“…eu não sou burro nenhum e

como

não

sou

burro

nenhum sempre gostei de tecnologias sobretudo

(…) de

gosto procurar

coisas no Google Maps …” (António

Figueiredo,

69

anos). Fotografia 14 – António Figueiredo 69 anos (Vila Real)

[40]


Mais do que uma mera recolha de dados, estas entrevistas foram importantes pelo contacto directo e imediato que estabelecemos, o que favoreceu o estabelecimento de laços de proximidade que trouxeram verdade e credibilidade às opiniões e respostas que obtivemos. Uma nota conclusiva para a técnica metodológica utilizada, isto é, a entrevista aberta. Com efeito e a despeito de termos elaborado um guião de perguntas que nos servisse de orientação, adoptamos propositadamente um estilo informal de conversa com os nossos entrevistados, o que favoreceu as reacções mais espontâneas. Só por meio desta técnica foi possível recolher factos e identificar os traços pessoais e individuais, que justificavam determinados hábitos de consumo mediático. A riqueza dos dados recolhidos reflecte-se nas histórias da D. Augusta de 89 anos, para quem o aparecimento da televisão revestiu-se de grande mistério e medo ” …não percebia como havia pessoas lá dentro daquela caixa”, disse-nos divertida, ou então, perceber o fascínio do Sr. Armando pelas histórias que ouve todos os dias na rádio “…eu gosto de ouvir histórias na rádio, para depois ter o que conversar com os outros…”.

[41]


Educar para os media - a realidade portuguesa

O

lhando

para

a

realidade

mediática

portuguesa,

constatamos o reduzido número de experiências que podemos considerar que se integram na ampla questão da educação para os media do público sénior.

Com efeito, a lacuna não é exclusiva no público mais idoso pelo que consideramos que, sob o ponto de vista estrutural, uma medida que se afiguraria válida seria a implementação a título nacional de um Plano de Literacia Mediática capaz de definir medidas concretas de educação para os media, adaptadas não só às diferentes faixas etárias, mas também às especificidades decorrentes de usos e práticas diversificadas. Atender de modo sério a estas questões dentro de portas, é também perceber as diferenças inerentes às várias dimensões possíveis de estudar neste contexto da literacia mediática, a saber: as dimensões do acesso, dos usos, da compreensão e da participação. Sobre este propósito ocorre-nos observar dois traços característicos do contexto mediático português. Em primeiro lugar a tendência para associar a educação para os media no público sénior ao acesso e uso capaz dos chamados novos media ou novas tecnologias de informação e comunicação, como sejam os telemóveis e a internet. Para além de extremamente [42]


redutora, esta abordagem desconsidera a importância de estudar e melhorar a relação que o público com mais de 65 anos estabelece com os chamados meios de comunicação tradicionais, como sejam a televisão, a imprensa escrita ou a rádio. Um segundo traço característico da realidade mediática que coloca lado a lado os idosos e os media, é o especial enfoque dado às dimensões do acesso e do uso, relegando para segundo plano de importância as dimensões da compreensão e da participação, consideradas de especial relevância numa sociedade que se quer mais democrática e aberta, onde os seus membros têm voz activa e crítica em relação às suas instituições e poderes, inclusive o poder dos média. Desta forma, traçando um esquema representativo do quadro da educação para os media no contexto nacional e com especial destaque junto dos mais velhos, um adjectivo se destaca e esse adjectivo é incipiente. Com efeito, as acções são pontuais e pouco concertadas entre si, o que justifica tantas vezes a sua pouca visibilidade ou insuficiente impacto na sociedade em geral. Apesar desta situação podemos identificar algumas acções pontuais, que podem inscrever-se no âmbito da educação para os media do público sénior. Assim e em primeiro lugar, torna-se importante destacar a importância

desempenhada

neste

campo

pelas

chamadas

Universidades Seniores portuguesas. Embora se encontrem amiúde vedadas na maior parte das vezes por motivos de ordem económica - as grandes franjas da população sénior - a verdade é que a sua [43]


existência confirmada em organismos como a RUTIS, ou mesmo o projecto IPL 60+, são de extrema relevância na aproximação do público sénior à realidade mediática portuguesa.

Figura 1 – Site Universidade Sénior Virtual (http://www.seniorvirtual.net/)

No caso da RUTIS (Rede de Universidades da Terceira Idade), instituição de utilidade pública e representativa das Universidades Seniores Portuguesas, o trabalho desenvolvido na promoção de um envelhecimento mais activo, integra importantes iniciativas de educação para os media por meios de acções, como a promoção do computador Sénior Virtual, ou mesmo o espaço da Universidade Sénior Virtual, no qual os alunos seniores inscritos podem utilizar

[44]


chats, galerias de imagens e sons, jogos, salas de aulas virtuais e plataformas de e-learning. No que ao IPL 60+ se refere, destacamos o aspecto inovador deste projecto que abrindo as portas do Instituto Politécnico de Leiria à frequência universitária de pessoas com mais de 60 anos de idade, configura uma oportunidade para vários seniores entrarem em contacto com novos saberes, também nas áreas dos media, multimédia e cidadania. Refira-se a título exemplificativo, a possibilidade dos alunos com mais de 60 anos se inscreverem em cadeiras de Comunicação Social e Educação Multimédia e ainda participar em projectos inovadores como o projecto Teclar.

Figura 2 - Logótipo do Projecto Teclar

O projecto Teclar apostando na partilha do saber inter-geracional e colaborativo, decorre do contacto e interacção entre idosos e

[45]


crianças do primeiro ciclo e estimula não só a partilha de saberes, mas também o aprendizado em conjunto o que torna mais divertido aprender e explorar as potencialidades das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação).

Figura 3 - Exemplos de aulas no âmbito do Projecto Teclar

Mas, não é apenas no domínio das Universidades Seniores, que podemos encontrar algumas iniciativas que se integram no âmbito das preocupações da educação para os media do público sénior. Um outro exemplo que remete para a questão de aplicação de iniciativas

que

pretendem aproximar os mais idosos das novas tecnologias, comercialização

é

a no

mercado nacional de um telemóvel especialmente concebido para idosos. Figura 4 - Exemplo de telemóvel concebido para o público sénior

[46]


Em Portugal, são já várias as operadoras que se lançaram no mercado com estes telemóveis adaptados ao público sénior e que se caracterizam por oferecer um conjunto de funcionalidades, como sejam os teclados com maiores dimensões, o som amplificado e de alta definição para pessoas com problemas auditivos e ainda uma tecla SOS que pode ser activada em situações de emergência, auxiliando sobretudo aqueles idosos que vivem sozinhos. De facto são cada vez mais os idosos que possuem telemóvel, sendo que como lembra a Enfermeira Rosa Figueiredo “…a maior parte dos idosos tem telemóvel mas mais por descanso dos filhos do que por vontade própria (…) a maior parte nem sabe bem como utilizá-lo”. Daqui se apreende que mais uma vez o trabalho de educação para os media fica pela metade, uma vez que dando preponderância ao acesso, olvida a formação de competências que permitam a sua utilização consciente. Esse crescimento exponencial é também visível na preocupação denunciada por empresas, como a Deco Proteste, em fornecer informações úteis aos idosos que lhes permitam adquirir o aparelho mais adaptado às suas necessidades e ao menor custo. De acordo com este organismo, as soluções de telemóveis para seniores são dispendiosas e limitadas, pelo que a opção deve passar pela aquisição de outros mais simples, mas também mais baratos “user friendly” e adaptados às limitações físicas dos mais velhos e às suas necessidades. Esta informação encontra-se disponível no site da Deco Proteste e configura também ela e neste domínio uma importante medida de educação para os media.

[47]


Considerando as potencialidades dos telemóveis, são inúmeras as iniciativas que têm vindo a ser promovidas em Portugal no sentido de favorecer o acesso do público sénior a esta tecnologia. Lembremos, por exemplo, a iniciativa levada a cabo pelo Governo Civil de Braga, em 2007, que permitiu distribuir cerca de 10.000 telemóveis no âmbito do programa ISM – Iniciativa de Segurança Maior, para o combate ao isolamento e ajuda para colmatar a ausência de familiares ou de vizinhança. Os beneficiários deste programa são idosos com mais de 65 anos, que recebem o Complemento Solidário para Idosos, ou que “de alguma forma, vivem isolados”. Os telemóveis oferecidos permitem ligar e falar livremente até ao limite de 1.000 minutos mensais com um familiar ou vizinho escolhido pelo idoso, com o posto da GNR e/ou da PSP, com um Centro de Saúde ou com a IPSS que gere o Centro da Saúde da localidade. Outras iniciativas que podemos enquadrar na dimensão da literacia

mediática

implementação

de

dos

idosos

acções

englobam,

por

exemplo,

materializadas

em

serviços

a de

teleassistência para idosos. Este serviço tem vindo a ser implementado em vários municípios como o de Abrantes. Com o objectivo de combater a solidão e o isolamento, a nossa pesquisa permitiu ainda identificar a acção desenvolvida pela PSP, denominada de LARES. Esta iniciativa materializou-se na criação de uma linha de telefone gratuita e de acesso directo para todos os agentes reformados da Polícia de Segurança Pública, com o objectivo de permitir uma maior interacção dentro da Instituição com [48]


aqueles que já lá trabalharam. A linha foi inaugurada no início do mês de Março último e tem servido os propósitos de apoio, resposta e encaminhamento dos seniores aposentados da PSP. Finalizando, fale-se também a título exemplificativo do portal de comunicação para idosos “TIO”. Este portal que existe desde 1999, é um bom exemplo de uma iniciativa online que visa aproveitar as potencialidades de difusão de informação a grande escala da internet, configurando um importante repositório de informação potencialmente útil para os idosos portugueses. As iniciativas atrás apresentadas, são apenas exemplos pontuais de acções que abarcam a questão da educação para os media junto do público sénior português. Da sua análise podemos concluir que apesar de serem cada vez em maior número e com maior impacto mediático, a verdade é que de maneira geral pecam por colocar os meios ao alcance dos mais velhos, descurando a aplicação de medidas que permitam o seu uso eficaz.

[49]


Projectos de intervenção

C

onhecer para agir, este foi o pensamento que norteou o nosso

trabalho

de

investigação.

Em

sequência,

apresentamos algumas das acções que desenvolvemos

em concreto no âmbito deste trabalho e com o objectivo de promover a literacia mediática dos seniores portugueses.

Spot publicitário de sensibilização Porque consideramos não só importante como também urgente a aposta na literacia mediática dos idosos, desenvolvemos de raiz, um spot publicitário de sensibilização. Este spot que pode ser visionado no nosso blogue alojado no endereço seniorinmedia.blogspot.com, foi elaborado tendo em vista a exploração de um dos temas que mais questões levanta no domínio da literacia mediática, isto é, a falta de preocupação dos media em explicar muitos dos conteúdos que veiculam. .

Fotografia 15 – As protagonistas

[50]


Deste modo, tomando como ponto de partida um assunto que se encontra tão presente na sociedade portuguesa, tentamos chamar à atenção para o facto dos media tantas vezes veicularem conteúdos e conceitos, presumindo o seu entendimento por parte do público no geral, mas sem a preocupação dos esclarecer. Desta forma e para além de afogados em informação, o público está também cada vez mais exposto a novas e desconhecidas realidades que pelo reduzido conhecimento

encaram

com

excessiva

preocupação

ou

desvalorizam perigosamente.

Fotografia 16 – Gravação do spot publicitário

Fotografia 18 – Celeste Fotografia 17 - Daniela

[51]


Baseado em factos reais, este spot publicitário aborda ao de leve o tema da pedofilia, um tema que pelos piores motivos se encontra muito presente na sociedade portuguesa, desde que rebentou o escândalo Casa Pia. Desde essa altura, meados do ano de 2002, os media começaram a utilizar de modo tão recorrente o conceito de “pedófilo”, que presumem que todas as pessoas conhecem o seu significado. No entanto, averiguamos por experiência própria que isso não é verdade. Quando interrogado sobre o conceito de ”pedófilo” que se encontrava recorrentemente na notícia que estava a ler no jornal, o idoso responde “é um homem que trata dos pés”. Esta pronta resposta dada pelo interlocutor, tem tanto de anedótica como de preocupante. Sendo apenas um exemplo que não tem necessariamente que ser generalizado, haverá porventura idosos esclarecidos sobre essa matéria e capazes de a discutir com lucidez e propriedade. A verdade é que este é apenas um exemplo que tentamos que fosse o mais extremo possível, de modo a alertar para o importante papel que os media devem exercer no esclarecimento da população.

Formação na Universidade Sénior de Gondomar No dia 19 de Maio de 2011 e integrada em mais uma acção de educação para os media junto do público sénior, realizamos uma sessão de formação na Universidade Sénior de Gondomar, sob o tema “A Urgência da Literacia Mediática – Estratégias, Processos e Necessidades” (consultar anexo 1).

[52]


Nesta formação que decorreu no âmbito da unidade curricular de Cidadania daquela Universidade, tivemos a oportunidade de promover um debate em torno de algumas questões que se prendem com a complexidade do conceito de media, o debate sobre o estado dos media em Portugal e de que forma o público pode ter um papel activo junto da esfera mediática. A sessão de formação teve início por volta das 9h30m e teve uma duração aproximada de duas horas. A metodologia seguida intercalou momentos de exposição teórica e exercícios práticos, que favoreceram a interacção e imprimiram maior dinamismo (consultar anexo 2). A primeira abordagem, como nota introdutória de quebra-gelo, materializou-se no visionamento de um spot publicitário referente à TDT (Televisão Digital Terrestre). A escolha deste spot publicitário deveu-se a dois factores fundamentais de ordem diversa. O primeiro factor relaciona-se com a sua notariedade. Esta é consequência directa do facto desta questão se encontrar na ordem do dia, influenciando

grande

número

de

portugueses

e

implicando

alterações importantes ao nível da recepção do sinal televisivo. Um segundo factor prende-se com o próprio anúncio em si, no âmbito das suas dimensões formais e de conteúdo. Desta forma, tentou-se estimular o diálogo em torno do modo como a televisão era representada, mas também se ao nível do conteúdo a mensagem conseguia chegar sem interferências e ruídos ao público, afirmandose pela sua legibilidade. [53]


Figura 5 – Anúncio publicitário da TDT

Desde logo, reflectiu-se sobre o impacto deste exercício no nosso grupo de formandos. A dimensão do conteúdo do anúncio foi aquilo que de imediato se alcançou e inclusive alvo de crítica por parte de alguns dos formandos mais interventivos no decorrer de toda a sessão. Um deles referia-se mesmo ao facto do anúncio ser pouco esclarecedor, não fornecendo as informações de que as pessoas verdadeiramente precisam e conduzindo-as concomitantemente para o erro e para a dúvida ainda maior. Um outro formando, afirmou ainda que o entendimento que possui sobre a TDT e sobre o novo contexto de recepção de sinal audiovisual, decorre apenas do esclarecimento que recebeu de familiares próximos que trabalham na área das telecomunicações.

[54]


Em relação à forma, isto é, relativamente ao papel de protagonismo atribuído à televisão, todos facilmente consideraram que neste anúncio a televisão era representada como um elemento central na vida familiar das pessoas. O exercício que teve uma duração de cerca de cinco minutos, serviu ainda de base introdutória para a proposta seguinte de análise de alguns dados referentes a estudos promovidos pela Marktest (consultar anexo 3). Estes gráficos, ilustrando a evolução do consumo mediático do público sénior, concretizaram mais uma oportunidade de conhecer o entendimento dos nossos formandos sobre os media e averiguar se os mesmos se reconheciam nos dados apresentados. O exercício que havia sido concebido no sentido de permitir em primeiro uma análise individual e posteriormente uma discussão colectiva, acabou por configurar apenas uma acção de discussão colectiva, uma vez que os formandos denunciaram algumas dificuldades em ler a informação dos gráficos apresentados. A título genérico, os gráficos abordavam a questão da evolução crescente do tempo médio de consumo de televisão por parte do público com mais de 65 anos, dando conta daqueles que eram os momentos do dia em que esse consumo televisivo se evidenciava mais significativo. Por último, os gráficos permitiam ainda conhecer o perfil do espectador televisivo português, concluindo-se que de acordo com os dados da Marktest o mesmo caracteriza-se por domiciliar-se sobretudo no Sul do país, pertencer à classe D, ser do sexo [55]


feminino e ter mais de 64 anos. Esta análise permitiu-nos, ainda, interrogar os nossos formandos se sentiam que esses dados representavam os seus hábitos de consumo televisivo. Note-se que a maior parte descartou de imediato a possibilidade de passar tanto tempo diário a ver televisão, mas em alguns casos e de modo quase contraditório, concluíam que possivelmente visionariam ainda mais horas em média do que o total de 5h30m que figura nas estatísticas.

Fotografia 19 – O grupo de Formadoras

Fotografias 20 e 21 – Momentos da Sessão de Formação

[56]


Relativamente ao período a que normalmente consomem televisão, a maior parte vê-se representado nos horários do almoço e do jantar, embora houve quem referisse a late night, como o momento em que vê mais televisão, por causa das dificuldades em adormecer.

Fotografia 22 – Realização do exercício de análise de gráficos

Finalizado estes dois exercícios e na continuidade

dos

mecanismos de quebra-gelo, mas desta feita com o objectivo de tomar pulso aquilo que era o nível em que se encontravam os formação, recorremos ao método activo por meio da realização de uma actividade de brainstorming ou tempestade de ideias. Tendo por base o conceito de media, convocamos todos os formandos a referir expressões, conceitos ou pequenas frases que na sua opinião melhor explicitavam aquilo que eram os media. A riqueza desta actividade concretizou-se na diversidade de conceitos referidos entre os quais destacamos alguns como futebol, [57]


notícias, informação, propaganda, publicidade, debate, desporto, política, cinema, necrologia, entre outros. Realça-se que os conceitos associados ao termo media, referemse sobretudo a géneros televisivos, tipos de programas e ou funções passíveis de se encontrar na comunicação social, como sejam as funções de entretenimento ou a função informativa. Destaque ainda para a associação feita com os conceitos de publicidade e de propaganda, que são utilizados de modo diferenciado entre si e cuja presença também é visível por estes formandos nos meios de comunicação social que consomem diariamente.

Fotografia 23 - Exercício de brainstorming

[58]


Concluída mais esta tarefa foi tempo de pegar nalgumas das ideias que foram referidas, de modo mais ou menos organizado, por parte dos formandos e a partir daí criar uma ponte com os conteúdos que previamente havíamos planeado transmitir. Estas primeiras actividades foram fundamentais, na medida em que nos permitiram conhecer um pouco melhor o público com quem estávamos a comunicar e a partir daí realizar os necessários ajustes na nossa forma de apresentação. A sessão configurou dois momentos essenciais. Num primeiro momento, foram esclarecidos alguns conceitos importantes relativos aos media e às suas variadas dimensões de análise. Deu-se particular relevo à questão da complexidade do conceito de media, que envolve não apenas os meios de transmissão em si mesmo, isto é, as tecnologias, mas todos os demais conteúdos, profissionais e até mesmo o mercado dominado pelas leis da concorrência e da obtenção do lucro no qual os media se movimentam e o público que alimenta toda a máquina mediática. Enquanto realidade complexa e que pode ser perspectivada tendo em atenção diferentes ângulos de abordagem, expusemos e debatemos a questão do contexto mediático. Assim, partindo do pressuposto de que os media não possuem existência no vazio, referimos todos os elementos sociais/pessoais e até mesmo culturais e políticos, que influenciam a dinâmica mediática, condicionando a sua função, o seu espaço de intervenção e os usos e gratificações que diferentes audiências retiram dos seus conteúdos. [59]


Na alusão à complexidade dos media, notamos alguma dificuldade da parte dos formandos em concretizar a ideia. No entanto, a partir do momento em que começamos a dar exemplos, de modo geral todos os intervenientes denunciavam a correcta percepção de que os conteúdos dos meios de comunicação devem ser lidos com a preocupação de os integrar num determinado contexto e como produto de um determinado conjunto de interesses. As empresas mediáticas são apresentadas por um dos formandos intervenientes como “coisas diabólicas (…) que servem influências”. A este propósito concluem ainda que o público tem “o país, os jornalistas e os media que merece…”, aludindo à inacção da maior parte do público em relação à crítica construtiva dos conteúdos dos meios de comunicação. Nesta primeira fase de pendor mais expositivo, foi ainda introduzido o conceito de educação para os media. Por meio da apresentação de tentativas de aproximação ao tema, o conceito de educação para os media foi transmitido na sua valência de conceito novo, que nomeia um campo de estudo não menos recente e que surge do cruzamento de disciplinas jovens e plurais como as ciências da comunicação e as ciências da educação. Assim, tentou-se de modo simples e sem pretensões de excessiva profundidade, lançar as bases do entendimento da importância em apostar em acções concretas que coloquem em prática as questões da educação para os media. Deste modo, aludiu-se à existência de diferentes perspectivas de abordagem da educação

para

os

media

(perspectiva

estética,

protectora, [60]


tecnológica e capacitadora), passando a mensagem de que todas estas dimensões são válidas na abordagem que propõem, mas a mais útil no necessário processo de construção de cidadãos mais críticos e interventivos, é a perspectiva capacitadora. Esta concepção olha para as audiências como grupos activos e capazes de tomar entre mãos a empreitada de agir socialmente. Nesta dinâmica de apresentação, foi dada particular relevância à metodologia

interrogativa

que

favorecendo

o

contacto

e

a

interacção, permitiu identificar entre os formandos algum sentido de consciência

da

necessidade

em

participar

nos

ambientes

mediáticos. Entre os exemplos dados, destacámos aqueles que diziam participar com alguma assiduidade nos blogues de informação, comentando e discutindo notícias da actualidade. Outro exemplo apresentado foi o de um formando que com frequência ligava para as televisões “a ponto de já até saberem o meu nome de cor”, para que se corrigissem erros ortográficos frequentes nos rodapés dos telejornais. Este formando falava do mau exemplo que esta falta de cuidado configura para os mais pequenos “ (…) insistia na correcção também por causa do meu neto. Quantas vezes tinha-lhe ensinado a escrever correctamente uma dada palavra e ele depois estava a vê-la mal escrita na televisão”. Na actualidade perdeu esse hábito, confessa “ …agora já quase nunca ligo, com o novo acordo ortográfico, já nem sei o que está certo ou errado”, confidenciou. Depois de assentes alguns esclarecimentos teóricos seguiu-se um segundo momento onde a acção da formação centrou a sua [61]


atenção em exercícios práticos de distinção entre os conteúdos de publicidade, propaganda e jornalismo (consultar anexo 4), usando para o efeito três textos. A este propósito refira-se a relativa simplicidade com que a maioria dos formados identificou correctamente cada um dos textos apresentados, o que enquadra este grupo de idosos num grupo potencialmente apto a diferenciar as mensagens mediáticas e as suas diferentes funções.

Fotografia 24 – Discussão em contexto de sala de aula

Para concluir a sessão foram ainda lançadas para o grupo de trabalho um conjunto de questões pertinentes no campo dos media. Diversificadas na intenção que pretendiam averiguar, em comum tinham o facto de todas elas debaterem as questões que levitam em torno dos media. [62]


A dimensão empresarial dos media e dos grupos mediáticos, foi neste contexto abordada, verificando-se grande discernimento nessas matérias ilustrada por algumas afirmações dos formandos como “o homem do quiosque já sabe que capa do jornal vai vender nesse dia”, ou então “já lá vai o tempo em que se dizia que algo era verdade porque veio no jornal (…) agora é, fujam dos jornais”. Terminando a sessão foram apresentados aos formandos alguns links de instituições e organismos nacionais e internacionais, que se dedicam às questões da literacia mediática, colocando ao seu dispor caminhos que pudessem explorar no âmbito das matérias abordadas. A sessão de formação finalizou-se com a distribuição de uma folha de avaliação e controlo (consultar anexo 5) que nos permitiu conhecer a opinião pessoal dos formandos sobre a produtividade da formação, dando-lhes igualmente a oportunidade e o espaço de apontar os temas que destacavam da formação, bem como algumas questões no domínio da comunicação, jornalismo e media que gostariam de ver eventualmente abordadas em sessões futuras. Em seguida transcrevemos algumas dessas opiniões.

“Sim. Ajudou a entender algumas dúvidas sobre os media e a distinguir entre os vários objectivos que cumprem. Podia-se “discutir” e “aprofundar” os temas que se relacionem com o tipo de programas e os grupos etários para os quais são desenvolvidos.” Edgar Fritz Dolgner, 65 anos [63]


“Aprendi algo sobre os media que até ao presente não sabia bem definir o contexto. Também gostei da explicação sobre propaganda e publicidade. No cômputo geral foi muito útil e a aula foi bem orientada. Gostei. Para mim o tema do jornalismo deveria ser aprofundado é uma matéria interessante” Maria Aragão, 67 anos

“O debate sobre os media foi bastante interessante, dissecamos o mundo da comunicação, informação e passatempos, que nos é fornecido pelos media.” Mário Ferreira, 73 anos

“Porque fiquei a perceber melhor o que é os media.Tive vários conhecimentos que não sabia.” Ilídio Santos, 67 anos

“Foi produtiva porque o poder dos media têm uma enorme responsabilidade e o impacto significativo sobre a nossa sociedade, visto que cada vez mais pessoas, principalmente as crianças passam bastantes horas em frente da televisão. Em sessões futuras gostaria que houvesse mais estímulo a nível da formação para os jovens.” Donzília Peixoto, 68 anos

[64]


“Porque são temas da actualidade cuja análise pode ser subjectiva, redundaram, pela discussão que provocaram e pelas opiniões que os formandos apresentaram, formadoras,

num

sempre

enriquecimento

complementadas pelas

pessoal

de

todos

os

intervenientes.” Hélio Rodrigues 72 anos

Fotografia 25 – Os formandos

O feedback que recebemos da parte dos nossos formandos e a disponibilidade e vontade demonstrada em voltar a receber-nos, são denunciadores de dois aspectos fundamentais: o entendimento de que este é um tema importante e com implicações directas na sua vida e sobre o qual têm necessidade de explorar para melhor conhecer e mais eficazmente agir; porque manifestam perceber a grande

amplitude

destes

temas

e

a

abrangência

destas [65]


problemáticas impossíveis de serem esgotadas numa sessão de formação de apenas duas horas. Com efeito, relativamente à realização em concreto desta sessão de formação, o grupo partilhou de um duplo sentimento. Se por um lado sentimos que o esforço de sensibilização junto do público-alvo sénior foi possível, por outro notamos que haveria muitas mais dimensões que poderia ser interessante abordar, discutir e exercitar em contexto de aula. Logo no decorrer do planeamento da sessão, tivemos dificuldade em encontrar um foco de análise que nos permitisse concentrar esforços e acima de tudo não desmotivar os formandos com os quais estávamos a realizar um primeiro contacto. Isso tornou-se tanto mais difícil porque não conhecendo o nível de conhecimentos do nosso público-alvo, tentamos uniformizar conhecimentos partindo da base do elementar o que implicou explicitar alguns conceitos chave, como “media”, “educação para os media”, “jornalismo” “publicidade”, “propaganda”, “gatekeeping” e outros. Com isto pretendemos sublinhar que, acerca da importância desta formação, consideramos que a mesma só poderia ser capaz de dar verdadeiros frutos, se houvesse um esforço de continuidade que permitisse entrar em campos mais específicos de análise, o que a falta de tempo e os limites naturais deste trabalho nos quartou. Assim, são diversos os temas que consideramos que poderiam haver interesse em abordar em sessões futuras. Entre esses temas deixamos as seguintes sugestões:

[66]


Explanar os diferentes canais a partir dos quais o público pode agir de modo directo nos meios de comunicação social. Nesta sessão poder-se-á dar dicas úteis a propósito da figura do Provedor do leitor/telespectador, quais as suas funções e qual o âmbito das suas intervenções. Também neste contexto poderá ser interessante realizar uma sessão de contacto mais prática e dinâmica, que forneça aos formandos os conhecimentos necessários para elaborar um direito de resposta, por exemplo. Estas sessões iriam sobretudo privilegiar a dimensão prática da experiência, permitindo que os formandos simulassem este tipo de artigos.

Outro módulo de formação possível, poderia incidir sobre o jornalismo no seu geral e a notícia no seu particular. Proceder à análise de notícias e trabalhar no sentido de explicar o seu objectivo pode concretizar uma tarefa útil e potencialmente interessante para os formandos. Igualmente neste contexto poderá ser discutido de que modo se sistematiza uma agenda mediática e a sua maleabilidade perante os factos e o seu valor notícia. Neste caso em concreto, realizar uma sessão estilo conferência com um jornalista, pode afigurar-se interessante para conhecer através do relato na primeira pessoa os mecanismos de selecção e organização das notícias na agenda mediática. Neste

módulo

de

formação

dedicado

sobretudo

ao

jornalista, poderia ainda ser lançado aos formandos o [67]


desafio de construir nesse dia a primeira página de um jornal, a partir de um conjunto de notícias e imagens previamente providenciadas. 

Preparação de um módulo de formação especialmente dedicado à aquisição de ferramentas que permitam ler e desmontar os anúncios publicitários. Aproveitando alguns exemplos e exercícios de análise propostos por projectos como o Media Smart vocacionado para crianças, pode-se trabalhar em cima desse conhecimento no sentido de adaptar conteúdos e estratégias para o público sénior em contexto de sala de aula. A análise de anúncios publicitários torna-se ainda mais relevante quando observamos a crescente

publicidade

que

é

realizada

tendo

como

segmento-alvo os mais velhos. Um exemplo oportuno de referir e que se inscreve nesta temática diz respeito por exemplo à publicidade a medicamentos. 

Mais uma dinâmica de grupo que poderia configurar um módulo de formação, visaria estimular a análise das notícias em diferentes media como a rádio, a televisão e a imprensa escrita, verificando as suas especificidades. Em termos práticos, este exercício poderia usar de uma mesma nota informativa, que seria distribuída aos formandos que a partir dela teriam que elaborar uma notícia para rádio, televisão, imprensa escrita e internet. A definição das diferentes características de cada meio e ainda o modo como essas

[68]


características afectam a forma e o conteúdo da notícia, poderia configurar uma descoberta interessante. 

Outro exemplo de módulo de formação, poderia ser dedicado ao estudo dos diferentes grupos económicos e das relações que os mesmos possuem com os meios de comunicação social. Por meio da compreensão do poder de atracção dos media em relação ao grupos económicos, seria possível observar da tendência para a concentração mediática e domínio de um elevado número de publicações, estações radiofónicas e televisões, num reduzido número de empresa mediáticas. A partir desta percepção seria também possível aflorar a questão da linha editorial e de que modo esta pode também estar evidente ou implícita nos conteúdos de um determinado grupo de comunicação.

Estes são apenas um número reduzido de exemplos que nos ocorreram aquando do planeamento da nossa sessão de formação na Universidade Sénior de Gondomar, mas que por falta de tempo tivemos que eventualmente deixar cair em detrimento de outros conteúdos, que na situação em específico nos pareceram mais adequados. Apesar disso consideramos que estas sugestões poderiam facilmente ser replicadas por outros formadores no contexto de formação em Universidades Seniores, contribuindo de modo decisivo para a promoção da literacia mediática.

[69]


Outras acções de intervenção possíveis

N

o trabalho de pesquisa, recolha e reflexão da problemática que coloca lado a lado os idosos e os media, tivemos a oportunidade de desenvolver algumas iniciativas pontuais

que reportamos no capítulo anterior e que configuram um contributo singelo para a temática da literacia mediática do público sénior. Na continuidade desse trabalho, expomos em seguida demais iniciativas e projectos que consideramos que se aplicadas em concreto e no terreno de modo articulado, podem contribuir decisivamente na questão da literacia mediática dos idosos.

Criação de pontes de proximidade entre as empresas mediáticas e os idosos Esta iniciativa poderia realizar-se em experiências conjuntas que facultassem a abertura das redacções de jornais, rádios, televisões, a visitas guiadas a idosos. A título exemplificativo, poderíamos referir o projecto MediaLab do Jornal de Notícias, cujo público admitido a visitas já se estendeu aos alunos das Universidades Seniores que o desejem. Com

efeito,

consideramos

que

estas

iniciativas

quando

organizadas e promovidas não só no âmbito das Universidades Seniores, mas também por municípios, organizações públicas e [70]


privadas de acolhimento de idosos (lares, misericórdias, centros de dia), ou demais instituições de cariz associativo e com âmbito de trabalho nesta área, poderão ampliar de modo significativo o número de idosos que delas poderiam potencialmente beneficiar.

Estimular uma crescente investigação na área da literacia mediática dos idosos seguindo o exemplo internacional Atendendo à evolução observada na sociedade portuguesa actual em termos demográficos, podemos referir que são cada vez mais os estudos que se debruçam sobre esta área de estudo, dando particular realce às questões que se prendem com o envelhecimento activo e a necessidade de trabalhar no âmbito dos saberes geriátrico, para permitir uma qualidade de vida melhor para os idosos. Ora aproveitando esse crescente know-how e tomando também como exemplo a extensa investigação internacional, o âmbito das questões mediáticas que envolvem o público-sénior português deveria ser alvo de uma crescente análise e investigação. Assim e a título exemplificativo, poder-se-ia incentivar a prossecução de estudos que atendessem à representação dos idosos nos meios de comunicação social e/ou na publicidade, ouvindo empresas, meios de comunicação e ainda os próprios idosos no sentido de perceber as formas, os meios e as representações dominantes, bem como a percepção que cada um destes grupos possui relativamente a esse aspecto em particular. Outro exemplo de um estudo interessante que deste modo replicaria alguns já realizados no âmbito internacional, poderia ser a [71]


análise da importância dos novos media na vida das pessoas. Perceber que relação têm com ferramentas como a internet e/ou telemóveis,

que

funções utilizam regularmente

e

de

quais

normalmente preterem, poderiam ser algumas das variáveis possíveis de análise.

Defender a criação de uma Política Nacional do Idoso À semelhança daquilo que existe no Brasil, por exemplo, a existência de uma política especialmente concebida atendendo às necessidades dos idosos poderia ser relevante. Esta seria a oportunidade de colocar o sujeito “idoso” na agenda política e legislar no sentido de permitir uma resposta mais célere às suas necessidades, anseios e especificidades. No contexto desta política, as questões da literacia mediática poderiam encontrar um terreno fértil à sua reflexão e implementação social.

Criação de serviços itinerantes de Educação para os Media A ideia de criar viaturas (carrinhas) itinerantes que pudessem deslocar-se ao interior do país e às aldeias mais desertificadas onde o envelhecimento populacional é mais evidente, com computadores com acesso à internet, livros, revistas, filmes entre outro material mediático, poderia ser também uma oportunidade interessante. Nestas

carrinhas

itinerantes

poderiam

viajar

jovens

que

voluntariamente se oferecessem para dedicar um pouco do seu

[72]


tempo a ensinar os mais velhos, aprendendo também com eles e dando corpo ao designado saber inter-geracional.

Promoção de um Plano nacional de acesso a novas tecnologias por parte do público sénior Este plano seguindo a estrutura de outros já aplicados no domínio nacional, como o Plano Tecnológico, poderia trabalhar na criação de condições de aquisição favorável de computadores, telemóveis, TV Cabo (entre outros), por parte dos idosos. Esta medida cuja aplicação já encontra alguns exemplos pontuais em alguns municípios portugueses, como o município de Braga, deveria ser replicado em outros contextos nacionais, privilegiando mais uma vez a dimensão do acesso e do uso.

Promover acções de formação de curta duração nos municípios que aproximem os mais velhos das tecnologias Estas acções tendencialmente gratuitas e a cargo do poder local, poderiam

ser

importantes

na

criação

de

espaços

mais

democratizados de acesso do que o contexto das Universidades Seniores, permitindo estimular o contacto e ensinar os mais velhos a aceder a tecnologias diversas como o telemóvel, o computador ou até mesmo o microondas ou a máquina do multibanco.

Criação do cartão sénior

[73]


À semelhança do que acontece com o Cartão Jovem, a criação de um cartão nacional sénior poderia dar descontos especiais em eventos como o cinema ou o teatro, na compra de jornais, na aquisição de livros, na adesão a serviços de internet e/ou de serviços de TV cabo.

Estimular a criação de videojogos especialmente concebidos para idosos Aproveitando os efeitos benéficos que certo tipo de videojogos podem desenvolver ao nível da abstracção, memória, condição física e intelectual, a concepção de videojogos especialmente desenvolvidos para este target pode ser importante e inovador na área da educação para os media dos idosos, permitindo trabalhar ao nível da sua razão, memória e abstracção. No que concerne ao aumento da usabilidade da internet para o público sénior, recolhemos ainda as seguintes sugestões:

Instruir os mais velhos nas formas e modos em que a internet pode melhorar as suas vidas. A forma mais efectiva de realizar essa tarefa passa pelo cuidado em descreverlhes as funções usando uma linguagem simplificada;

Preocupação em apostar numa aprendizagem adaptada, paciente, por etapas e a longo prazo (Brian e Buday, 2007);

[74]


Promover acções que favoreçam uma maior proximidade dos idosos e da internet, por meio da disponibilização de computadores em espaços públicos como centros, lares de idosos e bibliotecas;

Atenção por parte dos organismos responsáveis pela literacia

digital

dos

seniores,

no

estudo

do

uso

individualizado que os utilizadores fazem deste media, os seus interesses e a sua história de uso da internet, o que pode ser útil na determinação das características e funções que os mais velhos estão aptos a desenvolver na sua formação com os computadores e a internet; 

A internet fornece igualmente muita informação para melhorar o nível de conhecimento e as atitudes em relação às questões de saúde. Por essa razão, sugere-se que os websites tenham a capacidade de facultar informação apropriada para os adultos mais velhos e com o fim último de melhorar a sua qualidade de vida;

Para todos aqueles idosos que se encontram a viver em lares de idosos ou centros de acolhimento, o uso da internet configura uma fonte importante na manutenção da relação com o mundo exterior. Assim, sugere-se que sejam colocados computadores nestes locais, providenciando também treino adequado para o seu uso por parte dos idosos. [75]


No campo da literacia mediática dos idosos parece-nos que a aplicação de medidas deste cariz, poderiam configurar um importante desbloqueador material capaz de potencializar a necessidade desta área de estudo em Portugal.

[76]


Conclusão

V

ivemos na actualidade numa sociedade da informação e da comunicação onde os meios de comunicação social não são apenas acessórios, mas apresentam-se como instrumentos omnipresentes e fundamentais.

Com o crescente poder e influência dos media, crescem em número e em significado as problemáticas e questões que envolvem directamente a relação que o público estabelece com os meios de comunicação social. Nunca antes como agora a educação mediática fez tanto sentido, mas ainda assim o seu exercício parece na prática constrangido pela reduzida percepção do público e sobretudo das autoridades oficiais sobre a sua relevância. No nosso trabalho abordamos a questão da literacia mediática, mas não só. Pretendemos traçar um caminho que cruze a urgência da mesma com um segmento alvo específico - o dos idosos. Atendemos portanto, não só ao incontornável fenómeno do envelhecimento populacional global e do português em especial, mas destacamos ainda

que o

mesmo

é

responsável

por

transformações importantes em diversos domínios da sociedade, entre eles o mediático. Com efeito, na relação do idoso com a sociedade tecnológica, o contra-senso parece ser o traço mais evidente. Se por um lado,

[77]


muito do sucesso de longevidade se associa às tecnologias mais eficientes: novos medicamentos, vacinas, técnicas terapêuticas e descobertas científicas, por outro, aquilo que são as tecnologias diariamente utilizadas, como caixas multibanco, meios de transporte e infra-estruturas culturais e sociais e instrumentos mediáticos, não se encontram, grosso modo, adaptadas às necessidades, usos e especificidades do público -sénior. De facto, parece-nos que a despeito de muito se ouvir falar das implicações do fenómeno do envelhecimento social e do seu impacto nas dimensões económico-político-sociais, pouco evidente é o esforço denunciado pelas autoridades competentes para adaptar o meio e o contexto envolvente (mobiliário, ambiental, ferramentas de trabalho, equipamentos e infra-estruturas de uso diário), às diferentes características e percepções da realidade por parte dos mais velhos. Apesar do esforço de pesquisa, recolha e cruzamento de dados, é nossa convicção de que este trabalho se encontra ainda em fase embrionária. O nível de desenvolvimento é equiparável às incipientes e pontuais iniciativas que no âmbito nacional evidenciam preocupação com a questão da educação para os media junto dos idosos. No entanto, mais do que recolher e pesquisar medidas já existentes, pretendemos trabalhar no âmbito da evolução da realidade, deixando sugestões e ideias de carácter prático que se aplicáveis podem constituir pequenos mas seguros passos na

[78]


construção de uma cidadania mais participativa, onde os mais velhos se possam envolver de modo mais activo também nos media. Finalizamos este pequeno exercício de estudo e reflexão com a consciência de que muito haverá para dizer e sobretudo fazer nesta área. Contudo, é também nossa convicção, que para que a literacia mediática do público sénior se torne uma prioridade para agentes e instituições e sobretudo para que se afirme pela sua urgência, é necessário em primeiro lugar estudar para depois agir. Nesse longo processo de necessário estudo inscrevemos o nosso pequeno contributo.

[79]


Bibliografia

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[82]


A N E X O S


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. i


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. ii


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. iii


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. iv


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. v


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. vi


Anexo 1 - Apresentação na Universidade Sénior

pág. vii


Anexo 2 - Plano de Sessรฃo

pรกg. viii


Anexo 2 - Plano de Sessรฃo

pรกg. ix


Anexo 3 - Exercício de análise de gráficos

pág. x


Anexo 3 - Exercício de análise de gráficos

pág. xi


Anexo 4 – Distinção de Notícia, Propaganda e Publicidade

pág. xii


Anexo 4 – Distinção de Notícia, Propaganda e Publicidade

pág. xiii


Anexo 4 – Distinção de Notícia, Propaganda e Publicidade

pág. xiv


Anexo 4 – Distinção de Notícia, Propaganda e Publicidade

pág. xv


Anexo 5 – Folha de avaliação da formação

pág. xvi


(CONTRA-CAPA)

Perceber a realidade mediática dos idosos portugueses configura um trabalho complexo que se impõe na sociedade da informação e comunicação em que nos movemos na actualidade. O livro “Sénior in Media” surge do trabalho de pesquisa e recolha de dados nacionais e internacionais, que permitem caracterizar a relação dos idosos portugueses com os meios de comunicação social. Tendo por base os dados e informações que recolhemos, foram dois os nossos objectivos fundamentais. Em primeiro lugar, despertar o público e autoridades oficiais e não oficiais, para a urgência da literacia mediática do público sénior. Posteriormente, trabalhar na formulação de acções em concreto que possam ser aplicadas no contexto da experiência real e que potenciem essa mesma literacia mediática. Este livro materializa o nosso singelo contributo na difícil tarefa de percepção da realidade mediática dos idosos portugueses.


Sénior in Media