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semlegenda distribuição gratuita

dezembro de 2011 / ano 1 / edição

o melhor do cinema nacional

Mazzaropi O caipira mais famoso do Brasil vive em Taubaté

Independentes Humor, criatividade e uma claquete improvisada

Vai Que Dá Certo Os bastidores do filme produzido em Campinas

ZÉ DOCAIXÃO

O diretor vira personagem


carta ao leitor

a retomada continua O cinema brasileiro vive dias felizes. De 2006 pra cá, produções como Se Eu Fosse Você (2006), Tropa de Elite (2008), Cilada.com (2011) e De Pernas Pro Ar (2011) levaram milhões às salas de exibição do País inteiro. Várias outras alcançaram números que há alguns anos seriam o topo da audiência. As razões do aumento, dizem os especialistas, passam pelo bom momento econômico que o Brasil atravessa e pelos inves�mentos feitos no setor audiovisual. Foi pensando nessa onda de popularidade dos filmes brasileiros que surgiu a revista semlegenda. Aqui, no entanto, o cinema nacional não se restringe somente ao que é popular. Há espaço para os independentes, as animações, os curta-metragens, os documentários e outros gêneros, os quais, poucou a pouco, ganham as salas de exibição. A história também não é esquecida e na edição 00 é possível encontrar o “jeca” mais famoso do Brasil e o mais temido coveiro da sé�ma arte brasileira. Mais do que informar, a semlegenda quer levar você a conhecer o cinema brasileiro como ele é, com todas as dificuldades e par�cularidades que ele apresenta. Boa leitura! A redação


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A CASA DO JECA Na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, um museu preserva a história do caipira mais famoso do Brasil e de seu criador

Manuela Ceragioli

quem fez EDITORA

GRUA

semlegenda

dezembro de 2011 \ ano 1 \ edição 00 PRODUÇÃO Felipe Paronetto Guines, Heitor Mario de Freitas Freddo, João Eduardo Colosalle de Souza, Manuela de Oliveira Ceragioli, Mariel Ottati Marte ORIENTAÇÃO Prof. Marcel Cheida TIRAGEM 20 exemplares IMPRESSÃO Gráfica Paratodos DISTRIBUIÇÃO GRATUITA A revista semlegenda é parte do Projeto Experimental da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas.

Divulgação / Arquivo Pessoal / Manuela Ceragioli / Divulgação

Zé do Caixão e a cinebiografia


nesta edição

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Divulgação / Arquivo Pessoal / Manuela Ceragioli / Divulgação

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Carta do leitor

Polêmicas, elogios, críticas e opiniões dos leitores da revista e do site

No site

Mais fotos, reportagens, entrevistas e os trailers dos principais filmes

Tweets

Os pios de quem aparece na telona, ou por trás dela

Panorama

O número de salas de cinema deve aumentar nos próximos anos

Foto-bastidor

Nossa repórter e fotógrafa no cenário de Vai Que Dá Certo

Curta-metragem

Cineastas de Campinas fazem o que podem por trás das câmeras

Cinema independente

Criatividade, bom humor e improviso nas filmagens de um longa-metragem

Produção

O novo Polo Cinematográfico, em Paulínia, é pra poucos

Animação

Um spray de tinta na mão, uma ideia na cabeça e um curta animado

Na Poltrona

Billi Pig, com Selton Mello, e as estreias nacionais de dezembro

Cenas

Henrique e Frank Sinatra fizeram do jeito deles

CAPA: Montagem sobre foto de Manuela Ceragioli


Elogios, reclamações, sugestões e comentários podem ser enviados para revistasemlegenda@gmail.com

cartas

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dezembro de 2011 / semlegenda

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Divulgação

O HOMEM DO FUTURO Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Pellentesque vel rhoncus nisl. Aenean varius sapien lobortis mi ornare rutrum volutpat lacus interdum. Donec nisi nisi, congue non sodales sed, facilisis quis purus. Mauris massa velit, ullamcorper sed dapibus et, feugiat eu velit. Morbi auctor, nunc malesuada adipiscing tristique, metus erat varius tellus, ultrices varius sapien nulla at elit. Nullam at augue at ipsum facilisis. Curabitur lacinia commodo aliquam. João da Silva (Campinas)

Zé do Caixão promete causar polêmica entre os leitores FILMES ALTERNATIVOS Aliquam lacus lacus, consectetur eget dignissim id, congue in neque. In laoreet tellus eu tortor semper nec ornare dui adipiscing. Morbi at sapien ac enim ultrices convallis. Aliquam luctus, sem sed vestibulum vestibulum, tortor turpis ultricies magna, varius egestas enim libero at mauris. Donec sollicitudin elit sit amet nibh placerat at tristique nibh venenatis. Slavoj Zizek (Hortolândia) Proin nec metus est, sit amet sollicitudin nisl. Fusce at arcu massa, vitae dignissim tellus. Ut sollicitudin purus eget nisl bibendum blandit. Donec cursus, massa ac rhoncus convallis, libero est pulvinar massa, non fringilla nulla arcu nec enim.

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Por questões de clareza e espaço, semlegenda se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação na revista. Somente serão consideradas para publicação as cartas que informarem o nome e o endereço completo do remetente.


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.revistasemlegenda

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Cinema independente O grupo Ggnoski, personagem da matéria “Claquete Improvisada”, está também no nosso site, o www. revistasemlegenda.wordpress.com. Lá, você pode conferir o trailer do longa Para Onde Vão as Almas e a opinião dos integrantes sobre o momento vivido pelo cinema nacional. Clica lá!

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Siga a revista no Twitter! @semlegenda

no twitter

O cinema nacional nos tweets @bmazzeo

(ator, diretor e roteirista)

Com Emilio Orciollo e @marcelorubens fazendo laboratório pro próximo filme. Ano que vem nas telonas: E ai, comeu?

(diretora)

@LaisBodanzky

1930, RJ, um rapaz de 22 anos fez um filme q se tornou um marco na nossa cinematografia. Limite de Mário Peixoto. Veja no aud Ibirapuera!

@andruchaw

(produtor e diretor)

E viva a BALEIA , faço cinema por causa desta cadela .... Vidas Secas , FILME DO SECULO !

(diretor e roteirista)

@PauloHalm

Ser jurado é uma merda ( isso Páris já sabia). De cinema, então! Quem é premiado não te agradece e quem não é, vira seu inimigo eterno.

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! a


panorâmica

Texto e edição João Colosalle

Emancipação Mais salas (1) vira documentário A Medida Provisória 545/2011, A divisão entre Sumaré e Hortolândia, cidades da RMC (Região Metropolitana de Campinas), é parte do documentário Sumaré História Viva, produzido pela jornalista Ana Beraldo. O vídeo foi lançado em outubro e trata de temas históricos da cidade de Sumaré, entre eles, o Assentamento Rural 1, modelo de reforma agrária bem sucedida. O documentário, com duração de 40 minutos, traz depoimentos do prefeito de Hortolândia, Angelo Perugini (PT) , e do jornalista Josemil Rodrigues, autor do livro-reportagem Sumaré Por Inteiro. Divulgação

HORTOLÂNDIA Estação Jacuba, parte da história da cidade

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publicada no final de setembro, criou o Programa Cinema Perto de Você, com o obje�vo de expandir e descentralizar o parque exibidor brasileiro. O programa prevê, em especial, es�mular inves�mentos em regiões periféricas de grandes centros urbanos do Norte e Nordeste. Segundo o IBGE (Ins�tuto Brasileiro de Geografia e Esta�s�ca), a região Norte é a que possui menos salas de exibição, 75. O Nordeste tem 243 salas, inferior ao número da cidade de São Paulo, 292.

Mais salas (2) Os custos para implantar uma sala de cinema no Brasil vão cair 30% com a ins�tuição do Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da A�vidade de Exibição Cinematográfica, o Recine, criado pelo Governo Federal. De acordo com a assessoria de comunicação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), “as operações de aquisição no mercado interno ou de importação necessárias para a implantação ou a modernização de salas de cinema serão desoneradas de todos os tributos federais incidentes. Essa possibilidade envolve tanto equipamentos como materiais de construção”.


As

1a

5 primeiras Downtown Títulos: 5 Salas: 931 Público: 6,4 milhões Renda: R$ 54 milhões Cilada.com

2

a

Fox Títulos: 6 Salas: 479 Público: 2,1 milhões Renda: R$ 20,1 milhões Assalto ao Banco Central

3a

Imagem Títulos: 7 Salas: 706 Público: 2,4 milhões Renda: R$ 22,3 milhões Bruna Surfis�nha

4

a

Paramount/Universal Títulos: 5 Salas: 722 Público: 1,7 milhões Renda: R$ 17,1 milhões

panorâmica

Downtown lidera distribuição A distribuidora Downtown, com cinco �tulos, entre eles os campeões Cilada. com e De Pernas pro Ar, amealhou quase metade (42,07%) do público dos filmes nacionais. Ela teve uma renda de pouco mais de R$ 59 milhões, mostrando que no ranking das distribuidoras de filmes nacionais, quem lançou mais �tulos não teve, consequentemente, a maior audiência. Entre 31 de dezembro de 2010 e 6 de outubro de 2011, a Imagem (Bruna Surfis�nha) distribuiu sete �tulos, mas ficou apenas em segundo lugar nos quesitos público e renda. A Fox (Assalto ao Banco Central), com seis �tulos, ficou em terceiro. O relatório do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, da Ancine (Agência Nacional do Cinema) é feito semanalmente. A Downtown lidera o ranking desde a primeira semana do ano.

VIPs

5a

Disney Títulos: 1 Salas: 206 Público: 1,1 milhões Renda: R$ 10,6 milhões

Divulgação

Qualquer Gato Vira-Lata Fonte: Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisal - Ancine

SUCESSO Bruno Mazzeo e Cilada.com levaram a Downtown ao topo

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foto-bastidor

NÃO É QUE DEU CERTO?

Entre as ruas de um bairro campineiro surge uma nova comédia brasileira

Mariel Marte

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ram seis da tarde do dia 4 de outubro, uma terça-feira fria, e a equipe da produção do filme Vai Que Dá Certo chegava à rua Jaime Sequier, em Campinas. A casa, de número 167, fica entre as ruas Fernão Lopes e Fernão de Magalhães, a uma quadra do Parque do Taquaral. Os agentes da empresa responsável pelo trânsito da cidade, com cavaletes e placas de sinalização, bloqueavam a entrada dos carros. Moradores de casas vizinhas espiavam a quantidade de pessoas, car-

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ros, vans, caminhões e equipamentos que estavam ali, numa rua com casas de alto padrão. Parava um carro, três pessoas desciam e o motorista saía imediatamente. Poucos minutos depois uma van deixava duas pessoas ali. Outro carro, mais uma van e outras pessoas chegavam ao local de filmagem. Alguns passavam e davam boa noite apenas com a cabeça, outros (poucos) diziam “oi” e até ensaiavam um sorriso. Ninguém ali se preocupava com a minha presença. >>


DUAS TELAS O experiente técnico de som direto, Toninho Muricy, descansa entre uma cena e outra no set de gravação


CUIDANDO DO VISUAL O ator Greg贸rio Duvivier encara o espelho ap贸s receber os cuidados da maquiadora Simone Rosin


Perguntei por uma das pessoas responsáveis. Eram três nomes anotados no meu caderno, e, um rapaz de dreadlocks abaixo da cintura que andava de um lado para o outro, me ajudou. Enquanto ele tentava encontrar os responsáveis, reparei no número de fitas crepes, fitas amarelas, fitas vermelhas e muitas outras coisas que não conseguia enxergar no escuro, tudo pendurado na cintura dele. Mas em poucos minutos pude ver que o mais usado era o rádio: pessoas o chamavam a cada 20 segundos. Em pouco tempo percebi que o rádio comunicador era um dos equipamentos mais usados ali. Uma van com dezenas de peças de roupas, perucas, maquiagens, e muitas caixas chegou. Em um micro-ônibus, via um senhor de sessenta e poucos anos arrumando carinhosamente os cabos que seriam usados em mais uma noite de trabalho. Chegou um carro, espiei e vi uma perna que fazia algo como uma cambalhota, era do ator Fábio Porchat. Ele desce do carro, dá “oi” e beijinhos em todos, fala alto, faz piada e tenta se aquecer para as longas gravações da noite, que acontecem das 18h às 6h do dia seguinte. A maratona é longa. Em meia hora uma tenda de nove metros quadrados é montada. Atrás dela, uma mesa com frutas, chás, sucos, pãezinhos, bolachas, café e docinhos. Em pouco tempo o diretor e os assistentes se posicionam para gravar a primeira cena: ensaiam duas vezes, gravam quatro. Tentam mais duas. E a cena só tem 40 segundos. >>


O CHEFE O Diretor Maurício Farias em um dos quartos da casa que foi set das gravações em Campinas. Ele já digiriu filmes como Virgínia, A Grande Família e O Coronel e o Lobisomem


POR DENTRO Interior da casa que foi usada pela equipe por duas semanas para as ďŹ lmagens


CENÁRIO PRONTO A casa da rua Jaime Sequier, no Parque Taquaral, um dos principais palcos das filmagens


“Essa é a parte mais tranqüila”, conta o diretor de produção, Alexandre Carvalho. O roteiro do filme foi escrito pelo diretor Maurício Farias em conjunto com Fábio Porchat e Alexandre Morcilo, e, desde então, a equipe de produção trabalhava para conseguir os recursos que fariam o filme sair do papel. Carvalho fala ainda sobre os recursos para que o filme saísse do papel. “Todo o dinheiro da produção veio do Fundo Setorial do Audiovisual, do Prêmio Adicional de Renda, da Lei Mendonça e do Edital de Paulínia, sendo que esta cidade foi um dos palcos das gravações, além de Campinas”. Sem poder contar detalhes sobre o conteúdo da comédia, Alexandre não vai muito além do que está escrito nas sinopses do filme na internet. A história é sobre cinco amigos de infância que se reencontram com quase 30 anos e têm uma coisa em comum, além da amizade: nenhum deles conseguiu o sucesso que esperava para o “futuro”. Frustrados, eles decidem assaltar um carro-forte e tentar a sorte. São 60 profissionais de câmera, produção, iluminação, montagem, figurino e maquiagem. Somando os atores e figurantes, esse número chega a 130 pessoas. A previsão de lançamento é agosto de 2012. Até lá, a equipe ainda vai ter muito trabalho.

fotos Veja mais fotos dos bastidores da produção de Vai Que Dá Certo no site www.revistasemlegenda.wordpress.com


curta-metragem

O primeiro curta a gente nunca esquece Com a produção mais barata e a possibilidade de divulgar pela internet, o formato atraiu um grupo campineiro

Felipe Guines

O

diretor e a roteirista tinham ideias bem diferentes na gravação do curta-metragem Brincando de Deus, sobre um dono de pensão que começa a manipular os hóspedes como controla os peixes em um aquário. Rafael Marangoni, o diretor estreante, via no roteiro elementos para um terror psicológico com referências ao O Iluminado de Stanley Kubrick, já a roteirista Amanda Vadillo, psicológa, acreditava que a trama deveria se inspirar nos dramas de Gus Van Sant (Milk - A Voz da Igualdade, Um Sonho Sem Limites). O resultado acabou misturando a visão dos dois: passagens que exibem uma clara influência de Kubrick e flashbacks que explicam a motivação do protagonista. O curta foi produzido em três semanas e gravado durante um sábado, como finalização do curso de

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Como Se Faz Um Filme oferecido pelo Museu de Imagem e Som (MIS) de Campinas. Para dar conta de gravar tudo em um dia, os cinco integrantes do grupo tiveram que planejar locações que fossem próximas uma da outra. Outra dificuldade encontrada pelo diretor estreante foi orientar os atores, colegas dos produtores que toparam participar das filmagens. “O tempo de gravação era muito curto e não dava para ficar repetindo a cena, mesmo que o ator estivesse em marcação errada. Algumas cenas não ficaram da maneira planejada, mas não dava para ficar gravando tudo de novo”. Rafael começou a gostar das obras de Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios), Martin Scorsese (A Ilha do Medo), Stanley Kubrick (De Olhos Bem


O resultado acabou misturando a visão dos dois: passagens que exibem uma clara influência de Kubrick e flashbacks que explicam a motivação do protagonista.

BASTIDORES As gravações do curta foram feitas em um dia Fechados) e Alfred Hitchock (Psicose) no cursinho pré-vestibular que fez para prestar Ciências Sociais na Unicamp (Universidade de Campinas) em 2006. O estudante ficou tão encantado ao assistir Pulp Fiction de Tarantino que comprou os outros filmes do diretor e procurou as referências cinematográficas do diretor americano em outros filmes e livros sobre o assunto. O desejo de sair da poltrona do cinema e ir para a cadeira de diretor, entretanto, só apareceu no ínicio desse ano, ao assistir o curta de suspense Gato de Joel Caetano, gravado de maneira independente. “Percebi que era possível gravar um curta interessante sem precisar de tanto dinheiro ou de uma equipe muito grande”. Apesar das dificuldades, o resultado de Brincado de Deus agradou ao diretor, que planeja inscrevê-lo

em festivais na capital paulista, depois da exibição no MIS de Campinas e em um festival de curtas no Chile. Rafael até planeja seu próximo passo como diretor. “Penso em gravar um documentário sobre a prostituição em Campinas, com depoimentos das mulheres do bairro Itatinga”. O jovem diretor sabe que no mercado cinematográfico brasileiro o curta-metragem é a forma mais barata de aprender as técnicas cinematográficas e conseguir, posteriormente, patrocínios para a produção de um longa-metragem mais elaborado. “Estou começando agora nesse ramo, quero fazer outros curtas, de diferentes gêneros. A teoria ajuda, mas filmar é bem complicado, surgem vários imprevistos. É preciso ter experiência antes de produzir um longa-metragem”.

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especial

O adormece

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especial

cer da besta Zé do Caixão deixa a cartola de lado para virar José Mojica Marins em uma cinebiografia Heitor Freddo

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om unhas que chegaram a medir 20 centímetros, coberto pela capa preta e sob uma cartola de bruxo existe um cineasta revolucionário. Isso é o que pretende mostrar o filme O Maldito, que começa a ser rodado em janeiro de 2012. Para o público que se acostumou a ver Zé do Caixão, essa é a chance de conhecer José Mojica Marins, idealizador do personagem que, em 14 filmes, conquistou o público brasileiro como o dono de uma funerária na busca por uma mulher receptiva que lhe dará um herdeiro que siga a linhagem “de raça superior”. Baseado no livro homônimo de André Barcinski e Ivan Finotti, O Maldito é uma produção do Canal Brasil (emissora de televisão a cabo veiculada à GLOBOSAT, em que Mojica apresenta caracterizado o programa semanal de entrevistas O Estranho Mundo de Zé do Caixão). O longa metragem começa a ser rodado em janeiro de 2012 na cidade de São Paulo. >>

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Como se fosse o personagem de um dos mais que era perseguido por um homem de capa pr um cemitério, onde uma lápide informava a d empolgado, o cineasta anotou todos os detalhe O projeto será conduzido pelo grupo de cinema independente Deus Ex Machina, comandado pelo produtor executivo Edu Hentschel e pela atriz Luciana Vendramini – conhecida nos anos 90 por ter sido capa da revista Playboy quando tinha apenas 16 anos. O grupo foi apadrinhado pelo cineasta na condução do que eles chamam de “Novo Cinema Marginal”. Mas, para contar a história do paulistano de 75 anos que há 53 vive de cinema, os novos autores do terror brasileiro vão ter os olhares atentos do próprio José Mojica Marins.“É a minha biografia, então quero acompanhar de perto”. A cinebiografia pretende mostrar um apaixonado por cinema em busca de verbas e inspirações. A principal delas surgiu por acaso, em 1963, numa noite de pesadelo. Como se fosse o personagem de um dos mais tenebrosos de seus roteiros, Pesadelo Macabro (do filme Trilogia do Terror), Mojica sonhou que era perseguido por um homem de capa preta que o levava até uma tumba em um cemitério, onde uma lápide informava a data de sua morte. Assustado, porém empolgado, o cineasta anotou todos os detalhes do sonho antes de amargar a insônia. Assim nasceu o diabólico Josefel Zanatas – Satanás, de trás para frente – , mais conhecido pelo público como Zé do Caixão, que povoou o imaginário popular em seis longas-metragens. Mesmo quando o devorador de almas não esteve presente, o público pôde identificar em outros oito filmes de terror a assinatura e as características que

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fizeram brasileiros se arrepiar entre as décadas de 60 e 80: cenas de canibalismo, sadomasoquismo, necrofilia, violência, nudez explícita. Todas acompanhadas de trilhas sonoras com tons de suspense e diálogos macabros, que remetiam ao satanismo. Difícil é encontrar alguém que incorpore essa marca do cinema nacional, como conta José Mojica: “Ainda não foi definido quem vai me interpretar. Parte da minha produção tem alguns nomes, mas ainda não entraram na lista os nomes que eu quero. Todos são artistas consagrados”. A pedido do Canal Brasil, Mojica só poderá dizer quem são os pretendentes após uma coletiva de imprensa, ainda sem data agendada. Mas, para se tornar um marco, Zé do Caixão teve que superar preconceitos. Enquanto a intelectualidade brasileira vibrava com o auge do Cinema Novo, as histórias de terror eram vistas com maus olhos. Se em 1968 Glauber Rocha conquistou o mundo com o prêmio do Festival de Cannes como melhor diretor pelo complexo O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, José Mojica Marins apresentou O Estranho Mundo de Zé do Caixão, o primeiro dos filmes importados para platéias estrangeiras. Para o mundo, Zé do Caixão virou “Coffin Joe”. “A partir daí meus filmes passaram a ser considerados cults. Eu ainda viajo muito e vejo o quanto o pessoal gosta do Brasil, não só das suas matas, da sua música, mas também dos seus personagens folclóricos”.


ais tenebrosos de seus roteiros, sonhou a preta que o levava até uma tumba em a data de sua morte. Assustado, porém alhes do sonho antes de amargar a insônia.

Divulgação

CULT Nos Estados Unidos, Zé do Caixão é Coffin Joe

Mas a obra do cineasta não se resume a um personagem. José Mojica Marins iniciou em 1974 uma aventura pela pornochanchada em A Virgem e o Machão. Para isso, passou a assinar com o pseudônimo de J. Avelar. Em 1985 o diretor integrou o grupo Boca do Lixo, que filmava roteiros carregados de cenas de sexo explícito. O pai do terror nacional é também o autor de 24 Horas de Sexo Explícito e da continuação 48 Horas de Sexo Alucinante, que entre outras cenas tenebrosas, dignas de Zé do Caixão, mostra o fetiche de um homem em ser passivamente molestado por um touro enquanto está fantasiado de vaca. A volta de Zé do Caixão ocorreu em 1983 com O Despertar da Besta – Ritual dos Sádicos, filme que trará em O Maldito um dos momentos mais difíceis da carreira de José Mojica. “O filme foi proibido pela ditadura militar de ser exibido no cinema e ficou parado em uma gaveta por quase 20 anos (o filme foi rodado em 1969 e exibido em 1983). Eu mostrava na história os problemas que tinham em Brasília, os problemas que seguravam nosso cinema”. A luta de Mojica contra o Serviço Nacional de Informações (SNI) é um dos pontos mais polêmicos da cinebiografia, que tem previsão de lançamento em dezembro de 2012. “Esse assunto vai mexer com muita coisa. Mexe com o problema da nossa política, do passado que, queira ou não, atrapalhou essa política do presente.” >>

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VERSATILIDADE O jovem-guarda Roberto Carlos e e José Mojica, na década de 60

Livre dos cortes da censura, José Mojica Marins dirigiu e atuou em Encarnação do Demônio, o único dos 37 filmes que não teve os diálogos dublados na pós-produção. O longa entrou na disputa para ser o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas não conquistou a preferência do júri da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), que indicou O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger. A obra não foi finalista na disputa. Mojica diz que o Brasil está no caminho certo em busca de sua primeira estatueta dourada. “A gente já começou a dar os primeiros passos como adulto. Demorou muito tempo. Se seguirmos nessa linha, acreditarmos em nós mesmos e não fizermos plágios

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de filmes estrangeiros, como havia no passado, o cinema tem tudo para vencer no Brasil.” Se depender do otimismo do diretor que virou personagem, O Maldito será o próximo a integrar a lista dos grandes sucessos nacionais. “O sucesso nas vendas dos DVDs dos meus filmes (as duas primeiras edições já se esgotaram) mostra que Zé do Caixão ainda está vivo no imaginário popular. Eu garanto que o meu filme vai ser um sucesso”.

no site Assista aos vídeos e trailers do Zé do Caixão no site da semlegenda www.revistasemlegenda.wordpress.com


especial Divulgação

O filme que faltou O

Heitor Freddo

Manuela Ceragioli

público brasileiro esteve muito perto de assistir a um filme com os dois dos mais importantes personagens do cinema nacional. Uma co-produção era preparada por José Mojica Marins e Amácio Mazzaropi no início da década de 1980. Ela só não foi concluída em razão da morte do intérprete do caipira Jeca Tatu em 13 de junho de 1981, em decorrência de septicemia, uma infecção bacteriana que atacou o cineasta. À época, Mazzaropi também produzia o longa-metragem Maria Tomba Homem. José Mojica Marins conta como estava previsto o enredo do filme entre dois astros do cinema brasileiro. “O roteiro começaria no interior, com algumas cenas gozadas, bizarras. Teria o ‘Homem da Capa Preta’, que é o Zé do Caixão, que pegaria o Mazzaropi. Aí, viriam aquelas complicações dele. Seria bem perturbada, mas bizarra. Eu acho que iria agradar para a época. Pena que o Mazzaropi tenha morrido antes da hora.”

DESENCONTRO A morte de Mazzaropi (na foto ao lado) frustrou a coprodução com Zé do Caixão

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A busca p um herde

O cineasta Toninho do Diabo se considera substituto da obra de Zé do Caixão Heitor Freddo

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alar com Toninho do Diabo é quase uma tarefa de outro mundo. Foram pelo menos vinte tentativas de contato em sete dias diferentes, todos feitos pelo número do celular particular do cineasta que se intitula “o representante do diabo na Terra”. Em todas as vezes, o resultado foi a caixa postal. Quando finalmente houve o contato, a voz com sotaque de erre fortemente puxado disse apenas uma frase. “Agora estou no meio de uma gravação para o Pânico na TV (programa de humor escrachado veiculado no canal Rede TV). Me liga de noite (sic)”. Antes que Toninho desligasse, foi possível informá-lo que a ligação tratava-se de um pedido de entrevista. Foram apenas cinquenta minutos para ele retornar a chamada a cobrar. “O problema de entrevista é que antes você precisa falar com meu agente. Mas vai ser um prazer falar

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com vocês sobre meu trabalho”. Antônio Aparecido Firmino é o nome verdadeiro de um personagem folclórico do cinema brasileiro – mais pela sua megalomania do que por suas produções. Ao todo foram doze produções em que levou às telas o alter ego Toninho do Diabo, fundador da primeira igreja satânica no Brasil. O trabalho inaugural é o longa-metragem A Panela da Bruxa, de 1985, em que um câmera amador acompanha um grupo de jovens perseguido por uma bruxa. “Esse meu filme inspirou aquela produção americana, A Bruxa de Blair [lançada em 1999 pela Haxan Filmes, que arrecadou 250 milhões de dólares em bilheteria no mundo todo]. Eu sei que algumas pessoas fizeram o meu filme chegar até esses produtores, que disseram ter uma idéia original”.


especial Reprodução

por deiro SEM CHANCES Para Zé do Caixão, Toninho do Diabo não tem nada a ver com ele Nos anos seguintes foram mais três curtas e oito longas, incluindo O Ataque dos Pneus Assassinos e o mais recente filme, Farm Devil (Fazenda do Diabo em português). “Para esse filme eu fechei um acordo com uma produtora francesa, que está agora financiando meus projetos. Assim, eu deixo de ser aquele artista mambembe para ter um trabalho profissional. Mas eu continuo sendo brasileiro”. Quando perguntado sobre Zé do Caixão, Toninho do Diabo não poupa a modéstia. “Sou o segundo melhor brasileiro a fazer filmes de terror. O primeiro é o Zé”. Mas para José Mojica Marins, Antônio Firmino está longe de ser um discípulo do velho caçador de almas. “O Toninho tem algumas loucuras, como dizer que escreveu a bíblia do diabo enquanto ainda estava no ventre da mãe. Ele fala coisas sem nexo, totalmente confusas. Não tem nada a ver comigo”, critica.

Zé do Caixão conta ainda que há cinco anos iniciou um projeto para buscar um sucessor para interpretar o principal personagem de sua carreira, mas não obteve sucesso. “Fizemos testes com cerca de mil pessoas. Procurei mexer com o Brasil todinho. E dessas mil pessoas, nenhuma delas tinha dez por cento do que precisa para ser o sucessor do Zé do Caixão”. Ao fim da entrevista, Toninho do Diabo faz um pedido. “Se você puder me colocar na capa da revista ao lado do Zé eu ficaria muito feliz. E acho que vocês vão ganhar muito com isso”.

no site Assista aos vídeos e trailers do Toninho do Diabo no site da semlegenda www.revistasemlegenda.wordpress.com

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O caipira mais famoso do Brasil vive num museu na cidade de Taubaté, interior de São Paulo Heitor Freddo

B

runo não consegue entender qual a graça em tirar um foto dentro de uma casa que tem forte cheiro de mofo, de coisa antiga. O menino de oito anos aproveita a semana de feriado prolongado para trocar a sala de aula pelas brincadeiras em um hotel fazenda com a família. Mas o recreio foi interrompido pelo avô, Mário, que fez questão de apresentar ao neto um dos cenários mais conhecidos do Brasil na década de 1970. No quarto onde o garoto faz pose de caipira para que a mãe o registre, está a cama em que Jeca Tatu foi exorcizado em uma clássica cena do cinema brasileiro. O local é escuro e extremamente pequeno. Uma

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residência que mal suporta duas pessoas. Difícil imaginar o malabarismo para colocar os enormes equipamentos de filmagem dentro desse minúsculo set de gravação. Panelas usadas em cenas gravadas na pequena casinha ocupam um espaço no canto da casa, misturando-se a peças encaixadas para passar ao turista um clima de época. A casa do Jeca, o caipira mais famoso do Brasil, personagem visto por mais de oito milhões de pessoas no cinema e adaptado da obra de Monteiro Lobato, é um dos cenários que permanecem vivos na Fazenda Mazzaropi em Taubaté, a 190 km de Campinas. A área de 150 mil metros quadrados pertenceu a Amácio Ma-


história

zzaropi (1912-1981), cineasta brasileiro que em seus 33 filmes arrastou multidões às salas de exibição. Foram nove longas-metragens atuando e 24 em que acumulou também as funções de diretor e produtor por meio de sua empresa, a PAM – Produções Amácio Mazzaropi, período em que Mazzaropi foi visto por 206 milhões de espectadores – segundo dados do site oficial da produtora. A coordenadora cultural do Hotel Fazenda Mazzaropi, Pâmela Botelho, conta que o público já conhecia o cronograma de lançamento das obras do caipira. “Todos os anos Mazzaropi lançava um filme no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo

e feriado municipal. A expectativa para a data era enorme, chegando muitas vezes a ofuscar as comemorações oficiais”. O local foi construído em 1970 e recebeu da imprensa da época o apelido de Hollywood caipira. O título foi merecido: a até então apenas Fazenda Mazzaropi era o maior estúdio da América Latina, servindo tanto de set de filmagens como de hotel para todo o elenco e produção das obras. Ao todo foram rodados na fazenda cinco longasmetragens: Jeca Macumbeiro (1974 – 3 milhões de espectadores), Jeca Contra o Capeta (1975 – 2 milhões de espectadores), Jecão... Um Fofoqueiro No

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história Manuela Ceragioli

CASA DO JECA O local foi construído em 1970 e recebeu da imprensa da época o apelido de Hollywood caipira

queiro No Céu (1977 – 453 mil espectadores), Jeca e Seu Filho Preto (1978 – sem dados de bilheteria), A Banda das Velhas Virgens (1979 – sem dados de bilheteria) e O Jeca e a Égua Milagrosa (1980 – sem dados de bilheteria). Em outra parte do Hotel Fazenda está instalado o Museu Mazzaropi, onde estão guardados os mais modernos equipamentos da época em que foram gravados esses filmes. Enormes câmeras e a mítica cadeira do diretor se misturam a objetos simples mas de um grande valor histórico, como as inseparáveis espingardas do caipira Jeca, suas roupas típicas e objetos que compunham cenários simples de uma vida cabocla. Pendurados no teto, cartazes de clássicos de Mazzaropi como O Corinthiano e O Vendedor de Linguiça levam o público a um passeio pela história de seu povo retratado em preto e branco ou technicolor nas telas de cinema. Material que, segundo Pâmela Botelho, serve também de inspiração. “Por ano, nós recebemos 15 mil visitantes. São desde curiosos que estão hospedados no hotel até estudiosos, críticos de cinema e novos cineastas que tentam entender o fenômeno da cultura de massa chamado Amácio Mazzaropi”, conta a coordenadora cultural do hotel fazenda. O pequeno Bruno ainda não consegue entender a importância dessa visita. Para o menino, correr atrás das galinhas que circulam ao redor da casinha é muito mais interessante, afinal, há uma justificável ignorância histórica por parte dele. Mas parece que Mazzaropi já previa isso e fechou sua obra fantástica com uma frase de livre interpretação para ser usado como mantra nesses casos: “Vou pra minha querida Bahia, pedir pra Mãe Menininha do Cantuá tirar você do meu caminho”.

fotos Veja mais fotos do Museu Mazzaropi e do caipira mais famoso do Brasil no site www.revistasemlegenda.wordpress.com

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independente

Claquete imp Grupo campineiro de cinema independente supera as dificuldades de filmar um longa-metragem com muita criatividade e bom humor Felipe Guines

O

significado de morte no Dicionário da Lingua Portuguesa Aurélio é cessação definitiva da vida. Pena capital. No figurativo, destruição, perdição, ruína. No Tarot, a definição é diferente: a carta Morte é o décimo terceiro Arcano Maior e quando aparece numa consulta significa uma grande transformação na vida do consulente. Foi isso que aconteceu na vida da cineasta e professora de Letras e História da Arte Silvia Cipriano. Depois de sofrer com a perda súbita da mãe e do sobrinho em um curto período de tempo, ela percebeu que tinha material para o primeiro longa-metragem. Silvia Cipriano havia trabalhado o roteiro em um curta-metragem de quatro minutos para concluir a pós-gradução de Multimeios na Unicamp (Universidade de

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Campinas), mas sentia que aquela história sobre três famílias que tinham que lidar com adversidades e superar diferentes problemas de relacionamentos poderia ser melhor explorada em um longa. Mais do que isso, a produção do longa representava uma oportunidade de superar seu momento pessoal de luto. Para conseguir tirar o filme do papel, Silvia chamou duas antigas colaboradoras: as produtoras Carol Costa e Cássia Belini, que haviam trabalhado com a diretora na produção do média-metragem Desaparecidos, resultado da primeira oficina de cinema e vídeo com os alunos do Cursinho do Sindicato. Na busca por um grupo comprometido com o cinema e que aceitasse realizar um filme independente, mesmo que isso signi-

ficasse perder alguns finais de semana, Sílvia Cipriano encontraria o editor de imagens Bruno Torato na turma em que dava aula de redação no cursinho. Com debates sobre cinema em classe, a professora logo percebeu o interesse do rapaz pelo assunto e a vontade que ele tinha em participar de uma produção cinematográfica. O convite para de Para Onde Vão as Almas? foi aceito pelo estudante que, hoje, trabalha com edição de imagens. Em 2004 estava formado o grupo Ggnoski e a claquete estava pronta para ser batida. Entretanto, alguns imprevistos surgiram. A primeira dificuldade da produção seria reunir pelo menos metade dos R$ 15 mil que o longa custou com patrocínios e investimentos pessoais. A diretora sabia que arrecadar fundos para filmes


mprovisada Arquivo Pessoal

INDEPENDENTES O ator Rafael Belle� e a produtora Carol Costa, nas gravações de Para Onde Vão as Almas?

independentes é uma tarefa complicada, lição aprendida durante o curso na Unicamp. Como o maior gasto era com a alimentação das 64 pessoas que participaram do longa, a diretora decidiu pedir patrocínio em produtos para uma

grande rede de supermercado. Silvia se diverte ao lembrar do dia em que foi pedir ajuda ao sub-gerente. “Entrei na cara-de-pau e fui direto falar com o gerente sobre esse projeto do filme. Expliquei que iria demorar para finalizar,

mas que um dia ficaria pronto. Perguntei se ele daria patrocínio ou não, porque se ele não ajudasse eu arranjaria outra pessoa que toparia”. Com a ajuda do supermercado, a primeira dificuldade parecia resolvida.

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independente Durante 2004, o grupo se reuniu em finais de semana para gravar as cenas do longa e tiveram que superar outras dificuldades com criatividade: os cenários eram casas abandonadas decoradas com sucatas, a falta de câmera era dribladas com busca de novos ângulos de filmagens e a iluminação mais utilizada era a luz do Sol, que obrigava a equipe esperar horas até ter a luz da maneira idealizada. CINEMA SOBRENATURAL? Cinema independente não é fácil, ainda mais quando envolve “forças paranormais” durante as filmagens. O grupo Ggnoski se diverte ao lembrar dos momentos em que filmavam em uma casa abandonada e diziam sentir uma presença sobrenatural no local. A chácara era alvo de comentários de toda a vizinhança que acreditava que a construção abandonada era, na verdade, uma casa mal-assombrada. Silvia que dificilmente demostra irritação ou medo, hoje em dia ri da história, mas revela que pensou em desistir de filmar no local depois que descobriu a “fama” da residência. Se realmente existem fantasmas no local, eles devem gostar de cinema, já que o grupo lembra de bons momentos dentro da casa. A produtora Carol Costa conta que era mágico: “Precisávamos de um objeto de cena, alguma ajuda e dias depois elas apareciam”, Bruno interrompe com uma cara fechada enquanto o grupo se diverte com a história,

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“mas que era um lugar estranho, isso ele era”. Algumas cenas acabaram cortadas na sala de edição por problemas técnicos ou por não se encaixarem na narrativa do restante do longa. Bruno explica que a edição foi um momento de descobertas para o grupo e que foi preciso deixar de lado o medo de errar. “Algumas cenas foram filmadas novamente no começo desse ano, mas outras passagens mesmo com problemas técnicos acabaram fi-

cando. Utilizamos alguns efeitos sonoros e visuais e transformamos os defeitos em diferenciais”. Silvia Cipriano cita os filmes de Lars Von Trier (Dogville, Anticristo e Melancolia), como a inspiração dessa edição mais “ousada”. A maior dificuldade do grupo, entretanto, surgiu com o longa já finalizado: encontrar locais para a exibição do filme no ano que vem. Sem a verba de divulgação das grandes produções, o grupo planeja se inscrever nos princi-


Manuela Ceragioli

CINEASTAS DO GGNOSKI Cássia Belini, produtora execu�va, Silvia Cipriano, diretora, Carol Costa, produtora, e Bruno Torato, editor

“O cinema brasileiro atualmente está melhor, mas ainda é juvenil, e para que ele cresça são necessárias mais salas de exibição, mais distribuidoras, distribuidoras mais abertas aos novos gêneros e uma maior diversidade de patrocínio. O cinema tá na boca do povo!” Silvia Cipriano, diretora

pais festivais de cinema do País como forma de divulgar o trabalho e, quem sabe, até conquistar algum prêmio. Em Campinas, o Museu de Imagem e Som (MIS) e o cinema Topázio do Shopping Parque Prado (reduto tradicional das produções alternativas na cidade) foram os únicos locais que manifestaram interesse em exibir o longa e realizar divulgação. Sílvia Cipriano defende mudanças no atual sistema do cinema brasileiro. “O cinema brasileiro atu-

almente está melhor, mas ainda é juvenil e para que ele cresça são necessárias mais salas de exibição, mais distribuidoras, distribuidoras mais abertas aos novos gêneros e uma maior diversidade de patrocínio. O cinema tá na boca do povo!”. Durante esses sete anos de produção de Para Onde Vão as Almas?, o grupo ainda fez curtas-metragens, realizou oficinas de história da arte, fotografia e cinema, além de começar a produção do docu-

mentário sobre a Escola Galego em Campinas, em fase de finalização com estreia prevista para o primeiro semestre de 2012. Agora, com o filme finalizado, o grupo planeja a produção de um novo roteiro para longa-metragem. Para a diretora, o cinema só se pode aprender na prática, com a realização de obras independentes. “Todos devem ter seu primeiro filme, com erros e acertos. A partir daí você vai descobrir qual é o caminho que deve ser seguido”.

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Um sonho para


produção

a grandes

Em Paulínia, não basta ter apenas uma ideia na cabeça. É preciso uma empresa profissional nos bastidores Mariel Marte

P

PARA POUCOS Seleção dos filmes é comparada a um processo licitatório

aulínia é atualmente um dos maiores polos de produção do cinema nacional. Mais de 40 longa-metragens já foram gravados nos estúdios da cidade, localizada na Região Metropolitana de Campinas. Com esse crescimento, no ano de 2007, a Secretaria de Cultura criou um departamento responsável por avaliar todo o material de filmes que buscam financiamento e apoio, e selecionar as produções que vão receber o incentivo do Polo Cinematográfico da cidade. De acordo com o diretor do departamento Film Comission, a seleção dos filmes é comparada a um processo licitatório. “O filme é inscrito para concorrer aos incentivos como um longa, por exemplo, então ele precisa estar necessariamente ligado à uma produtora. Essa produtora, por sua vez, precisa ter um histórico”, conta Marcos Kimura. Ou seja, não é todo filme que consegue o incentivo. >>

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Os longa-metragens são divididos em três categorias que variam de acordo com o tempo de produção e gravação: de 12 a 24 meses. E a verba varia da mesma forma. No ano de 2010 foram aprovados 25 longas pelo edital de Paulínia, sendo que cada uma das produções varia entre R$ 1,4 milhões e R$ 7 milhões. Ao todo o município investiu R$26 milhões de reais só esse ano. Os projetos de curta-metragem entraram na lista de selecionados no edital de 2010. No primeiro ano em que a categoria foi criada, e engloba projetos independentes, 292 projetos de curta-metragens foram inscritos. Cada projeto vai receber R$ 50 mil. Ainda não foi definido o número de vencedores nessa categoria.

26 milhões de reais

é quanto a prefeitura de Paulínia investe por ano nas produções

NÃO É BEM ASSIM Paulínia dá o suporte para que as produções saiam do papel. Mas ao mesmo tempo que a cidade investe em cinema, os longas-metragens só podem concorrer se houver uma produtora renomada nos bastidores. Para Marcos Kimura, a explicação é lógica. “Precisamos investir o dinheiro público em um empresa idônea. No caso dos longas, a produtora por trás do filme é o que nos dá segurança, não tem jeito, é a lei da selva”, aponta. Mas isso soa contraditório se comparado à campanha que o Festival anual de Cinema da cidade faz sobre a divulgação e o incentivo ao cinema nacional. A solução é restringir as ideias e roteiros a 15 minutos.

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produção LABIRINTO Verbas, editais, categorias... Gravar nos estúdios de Paulínia não é para qualquer produtora

Divulgação

O TAL JOÃO DO SANTO CRISTO Faroeste Caboclo, a canção composta por Renato Russo, em 1979, está sendo adaptada aos cinemas. Depois de gravar em Brasília (DF), onde ocorre a maior parte da história, a equipe de produção foi até os estúdios do Polo Cinematográfico de Paulínia para continuar o trabalho. Na cidade, uma das locações das filmagens foi o sítio de um casal que sequer havia assistido a um filme numa sala de cinema. Eles ajudaram na produção e, como retribuição, foram convidados para a estreia, em janeiro de 2012. Em Faroeste Caboclo, estarão os atores Fabrício Boliveira (foto), como o protagonista João do Santo Cristo, Ísis Valverde, como Maria Lúcia, e Felipe Abib, como o vilão Jeremias. Ainda estão no elenco César Trancoso e Antonio Calloni.

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animação

Do muro as telas de cinema

Artista das ruas e da computação gráfica conta a semlegenda como mistura esses mundos tão diferentes no cinema de animação Manuela Ceragioli

Arquivo Pessoal

“Um spray de tinta na mão e uma ideia na cabeça”. A adaptação da frase de Glauber Rocha, um dos líderes do Cinema Novo, foi seguida por Fabio Biofa. Os objetos utilizados foram diferentes do citado pelo criador de Deus e o Diabo na Terra do Sol, em vez de usar a câmera, Biofa além do spray, usou softwares e um computador para criar o curta-metragem Descolado. O artista plástico, ilustrador e videografista de 29 anos chegou a final do Anima Mundi 2011 - 19º Festival de Animação Mundial do Brasil - na categoria Web e Celular. A produção de curtas começou quando Biofa precisava de uma linguagem diferente na exposição Dois Mundos com o grafiteiro Pixote Mushi na capital paulista. Com a ajuda de amigos, o paulistano do Tremembé, bairro da Zona Norte, captou as imagens e finalizou o primeiro trabalho “Stickers Mundo Biofa”. SEM LEGENDA | COMO FUNCIONA A MISTURA DO GRAFFITI DE RUA COM COMPUTAÇÃO GRÁFICA? FABIO BIOFA | Foi na linguagem de arte urbana (Graffiti) que formei meu estilo e desenvolvi minha linha de desenho. Depois de um tempo, comecei a trabalhar com web, desenvolvendo websites e depois motion graphics e 3D. A mescla das linguagens foi automática porque em ambos os suportes eu sempre tentei e tento até hoje, adaptar ao estilo Biofa (risos).

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O QUE É O ESTILO BIOFA? É uma forma de liberar minhas idéias e sonhos sem que eu tenha que seguir regras. O estilo é livre e isso me possibilita sempre tentar enriquecer fazendo o melhor que eu posso. COMO E QUANDO SURGIU A IDEIA DO DESCOLADO? Quando comecei a trabalhar com vídeo em produtora de cinema publicitário, logo enxerguei meus


Manuela Ceragioli

CRIADOR E CRIATURA Biofa troca de lugar com o personagem Descolado no curta de animação

Descolado Biofa, ao colar um de seus personagens no muro de uma casa abandonada, dá vida a Descolado, um personagem lambe-lambe (colagem) que sai do seu mundo plano (muro) e encara o mundo tridimensional, no caso, o mundo real. A experiência de Descolado no mundo real é de muita curiosidade, onde algumas atitudes dão certo e outras não. Quando tudo parece ter acabado, Descolado se depara com um rolo de tinta e quem passa a fazer parte do mundo plano (muro) é Biofa.

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Trailer Assista ao trailer no site www.revistasemlegenda. wordpress.com

personagens com vida. Fui convidado para grafitar o muro da produtora na época (Trattoria di frame) e quando terminei o desenho, um amigo falou: “Imagina esse boneco descolando do muro em 3D”. Isso ficou na minha cabeça por muito tempo, até que um dia eu resolvi concretizar a ideia experimentando todos os suportes que eu trabalhava até o momento e o mais legal de tudo, no vídeo consegui inverter os papéis, onde o criador vive o mundo do seu personagem e o personagem vive o mundo do criador. COMO FOI SER FINALISTA DO ANIMA MUNDI, O MAIOR FESTIVAL DE ANIMAÇÃO DA AMÉRICA LATINA? Foi uma das minhas maiores conquistas. Eu sempre

quis ser um dos participantes do maior concurso de animação mundial! QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS TRABALHOS? Acabei de participar do primeiro Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU) e também de um editorial de moda no qual produzi as roupas, o cenário e o vídeo. Estou produzindo um curta-metragem em que estou mesclando tudo. Em breve, vão poder conferir. Acaba sendo um grafiti digital, só que para ser considerado de verdade tenho que arrumar uma forma de ser veiculado na rua. Estou bastante ativo na área do grafiti, e tenho certeza que logo mais minha mente não vai conseguir segurar muito minhas ideias com movimento.

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na poltrona

Legenda Data de estreia

o que vem por aí nos cinemas Divulgação

Billi Pig Comédia

30/12/2011

O que era pra ser uma tenta�va de mudar de vida do casal Wanderley (Selton Mello) e Marivalda (Grazi Massafera) acaba se tornando uma aventura para con�nuarem vivos. Ele, um corretor de seguros falido, e ela, uma aspirante a atriz, se juntam ao padre Roberval (Milton Gonçalves) para conseguir dinheiro, mas encontram no caminho uma missão complicada. Terão de salvar a filha do chefe do tráfico, Boca (Otávio Müller), baleada num �roteio durante uma festa em São Cristóvão. Uma bela recompensa está em jogo. O longa tem direção de José Eduardo Belmonte e foi filmado e tem como cenários os bairros cariocas de Copacabana, Recreio, Gávea e São Cristóvão.

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Divulgação

Quebradeiras Documentário

02/12/2011

O documentário dirigido por Evaldo Mocarzel mostra a cultura das quebradeiras de coco de babaçu, na região da fronteiriça entre os estados do Maranhão, Tocan�ns e Pará. Apesar de já ter sido exibido em fes�vais e conquistado prêmios importantes, como o de Melhor Documentário no 22º Reencontres du Cinema d’Amerique La�ne, na França, em 2010, Quebradeiras chega às salas de cinema trazendo simplicidade, qualidade esté�ca, a música, os ruídos e a ro�na paciente e repe��va do trabalho das mulheres do Norte.

Divulgação

E aí, Hendrix? Documentário

16/12/2011

Documentário homenageia os 40 anos de morte do lendário guitarrista Jimi Hendrix. Durante uma viagem na capital inglesa, os diretores Pedro Paulo Carneiro e Roberto Lamounier, captaram depoimentos exclusivos de contemporâneos do ídolo e ar�stas brasileiros como Pi�y, Frejat, Pepeu Gomes, Rober�nho de Recife, Davi Moraes e George Israel. O filme mostra histórias e curiosidades dos 27 anos de vida de Hendrix, além das famosas apresentações nos Fes�vais de Monterey (1967) e Woodstock (1969).

Divulgação

As Aventuras de Agamenon , o Repórter Comédia

06/01/2012

Criado por Marcelo Madureira e Hubert Aranha, o falso documentário conta momentos marcantes da história brasileira e mundial, com a par�cipação do colunista Agamenon, do jornal O Globo, invenção dos criadores. O roteiro do filme traz personagens inspirados em outros dois célebres da história do cinema: Zelig, criado e vivido por Woody Allen, e Forrest Gump, intepretado por Tom Hanks. No elenco, Luana Piovani, Marcelo Adnet, João Barone e Pedro Bial. semlegenda / dezembro de 2011

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cenas

Henrique Henrique mora sozinho num dos 276 apartamentos do edifício carioca. Por vezes, caminha e vai à praia de Copacabana. Os cabelos grisalhos ainda lhe ocupam uma boa parte da cabeça. A voz é firme, mas a visão, nem tanto. Ao diretor, ele conta que um acidente recente, ao chegar em casa, escorregar no ladrilho da entrada e desmaiar, quase o matou. Foi salvo por um vizinho. Estados Unidos - A ideia de ir para os EUA surgiu aos 17 anos, contra a vontade da família. Um tio me arrumou um certificado de 18 anos, peguei o passaporte e com 200 reais fui sem conhecer ninguém. Num certo dia, no aeroporto de Idlewild, um funcionário perguntou se era porto-riquenho. Respondeu que não, mas o fato de falar português garantiu-lhe um emprego na companhia de aviação Pan Am. O diretor, então, lhe pergunta: - Depois de ter vivido nos EUA, trabalhando numa grande empresa, por que o senhor vive no Brasil, num apartamento pequeno? Ele abaixa a cabeça, olha para o chão, e volta a encarar o diretor. - Eu não juntei muito dinheiro. Tudo o que tinha, dei para meus filhos. Tenho minha aposentadoria dos Estados Unidos, mas não é grande importância. É o suficiente pra viver aqui – explica. Frank Sinatra - Quando os astronautas voltaram da Lua, houve uma recepção em Houston e eu fui uma das pessoas convidadas. Eu estava sentado na arena e ele a umas quatro, cinco cadeiras além de mim. Eu cheguei pra falar com ele e disse: ‘How you doing, blue eyes?’. Ele riu, apertou minha mão e começamos a conversar. Sem pestanejar, Henrique disse a Sinatra, o grande cantor americano da época, que a música que mais gostava era My Way, um dos hits do The Voice. “Então você vai subir no palco comigo e cantar dois versos”, teria dito o cantor. Henrique foi.

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My Way - Por que My Way? – pergunta o diretor. - Porque é minha vida. A letra em si é minha vida. Diz que ele fez tudo que podia ser feito, viajou para o oeste, para o east... mas fez da maneira dele, certo ou errado. Eu acho que, em comparação, eu fiz a mesma coisa. Num dos poucos cômodos do apartamento, onde televisão, sofá, mesa de jantar e um microsystem dividem o espaço, Henrique senta-se numa cadeira, apoiado na mesa onde repousa a letra de My Way. - Dois sábados por semana, eu ponho a música pra turma lá de fora ouvir. - Dois sábados por semana? - Dois sábados por mês, desculpa – corrige. Aperta o play e as primeiras notas da canção começam a soar. - And now, the end is near and so I face the final curtain... Henrique acompanha, ainda que sem o mesmo ritmo de Sinatra. Canta a música inteira e, ao chegar ao último refrão, ele leva os punhos cerrados ao alto, como alguém que comemora um gol. - And did it myyy waay – brada e aponta aos céus. Mirando a letra na mesa, ele parece estar com a cabeça fora daquele apartamento e sequer se atém às câmeras e às pessoas que o filmam. - É isso aí, meus senhores, a voz poderia ser melhor mas... isso foi sessenta anos atrás. Henrique enxuga as lágrimas e revela: - Eu fico muito emocionado com essa música. Me dá shivers – e passa a mão pelos braços, como se tivesse arrepios. - Parou?

no site Assista à cena no site e descubra qual é o filme desta edição. www.revistasemlegenda.wordpress.com


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