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VOCÊ VAI LER... 1 HÁ UM DOM EM VOCÊ O que houve com Timóteo? O que está acontecendo conosco? A natureza do dom Como reavivar o dom 2 O PRIVILÉGIO DA PARTICIPAÇÃO A igreja como projeto de Jesus Por que não participamos? Como devemos participar 3 QUANDO COMPLETAM

CRISTO

E

A

IGREJA

A comunidade da fé A comunidade do amor A comunidade dos capacitados pelo Espírito A comunidade da plenitude

SE


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4 OS DONS DO EDIFICAÇÃO DA IGREJA

ESPÍRITO

PARA

A

Equívocos e acertos em relação aos dons e conseqüentes prejuízos A natureza dos melhores dons Uma classificação dos dons espirituais Como descobrir meu(s) dom(ns)? Um convite a uma vida com dons espirituais PALAVRAS FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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1 HÁ UM DOM EM VOCÊ Por esta razão te lembro que despertes o dom de Deus, que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos deu o espírito de covardia [timidez], mas de poder, de amor e de moderação. Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa comigo dos sofrimentos do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho, do qual fui constituído pregador, apóstolo e mestre (2Timóteo 1.6-11). Este texto integra a última obra de Paulo. Nele, o apóstolo faz um resumo do Evangelho, e recomenda a Timóteo manter-se forte numa civilização em colapso.


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Em certo sentido, nosso contexto é o mesmo. Estamos tendo o privilégio de viver numa sociedade onde convivem tensamente o velho, que se esgotou, e o novo, que nos assusta por não sabermos em que vai dar. Timóteo era uma pessoa de saúde fraca, física e emocionalmente. Ele sofria de dores no estômago (talvez uma gastrite ou algo mais grave) e de desânimo, talvez por sua pouca idade e pela enormidade dos desafios. Os cristãos não são super-homem, sem problemas. Nós estamos sujeitos às mesmas dificuldades que os outros. Em nome da defesa do Evangelho, vendemos uma imagem (felizes, tipo sorriso colgate) que não condiz com a realidade de nossas vidas e muito menos com a natureza do Evangelho. Há muitas pessoas que sofrem por causa deste estoicismo estranho à Bíblia. Paulo mesmo, ao longo de suas cartas, fala naturalmente de seus sofrimentos. Jesus não escondeu sua angústia ante à iminência da morte. Questões como essas produzem gente cansada de igreja. Gente que esqueceu o primeiro amor. Gente que não sabe para onde vai, nem mesmo se ainda quer ir. Timóteo estava cansado, bem como outras comunidades cristãs da época de Paulo. Para


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eles, este grande apóstolo trabalhou em vários momentos o assunto da igreja e sua caminhada pelo mundo. Durante as próximas páginas, vamos estudar três destes momentos. Nossa busca é por revigoramento. Das pessoas e das próprias igrejas. O QUE HOUVE COM TIMÓTEO? O que estava acontecendo com Timóteo? Paulo não apresenta detalhes, mas estava preocupado. Pelo que sentia, Timóteo precisava reavivar o dom que recebera de Deus. O verbo aqui empregado (despertar/reavivar; desperte/reavives) significa manter a chama do fogo incandescente. Para despertar seu dom, Timóteo precisava reacender o fogo que estava se apagando. Por alguma razão, ele estava se esquecendo de que o Espírito Santo habitava nele (verso 14). O dom de Deus, simbolicamente transmitido pela imposição de mãos, estava sendo esquecido. Como nos esquecemos da alegria de nossa conversão! Como nos esquecemos da felicidade do batismo! Como permitimos que essas lembranças prazerosas, feitas de risos ou lágrimas, se apaguem, às vezes completamente, de nossas memórias. Não


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sabemos por que isto aconteceu com Timóteo. Talvez a sua saúde frágil o tenha enfraquecido globalmente. De tanto lutar contra suas dores no estômago, talvez estivesse cansado de viver. Talvez, nos momentos de crise, ele tenha orado para que Deus viesse em seu socorro e pusesse fim à sua aflição; e, como Deus não lhe respondesse do modo como queria, talvez estivesse desanimado, quem sabe decepcionado, com Deus. Uma adolescente brasileira foi passar um ano nos Estados Unidos como parte de um programa de intercâmbio, e sua família ficou muito feliz porque seus hospedeiros eram cristãos. Quando ela chegou lá, soube de algo trágico: a única filha deles tinha morrido. Daí em diante, aquela família brigou com Deus. Toda manhã de domingo, daquele ano inteiro, seus pais hospedeiros a levaram até à porta da igreja deles, mas não entraram. Recentemente, uma família carioca perdeu a sua filha em circunstâncias trágicas. Uma senhora crente foi consolar o pai dela. Sua resposta foi: – Eu não quero saber de Deus. Tudo o que Deus podia fazer pela minha filha, que era preservar a sua vida, Ele não fez. Agora, nada mais interessa, nem mesmo Ele. Há muita gente decepcionada com Deus.


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Paulo estava preocupado com Timóteo, temeroso de que seu filho adotivo estivesse entrando num processo de desânimo ou que já estivesse desanimado. Por isso, o apóstolo lhe pediu que não esquecesse, fossem quais fossem as circunstâncias, que o Espírito Santo habitava nele. A recomendação vale para cada um de nós. O Espírito Santo habita em você. Por isso, você pode guardar o depósito da fé em Deus até o final de sua vida. O QUE ESTÁ ACONTECENDO CONOSCO? E nós: por que permitimos que o dom se apague? Por que nos esquecemos de que o Espírito Santo habita em nós? Certas coisas acontecem conosco – o desânimo, a descrença, a falta de compromisso com a santificação, a falta de envolvimento no projeto de Deus para o mundo – porque nos esquecemos de que o Espírito Santo mora em nós. Ah! se nos lembrássemos! Nossas vidas seriam mais felizes! Que religião é esta em que o Deus – que nas outras religiões habita em lugares diferentes e exige tantas voltas no acesso a ele – habita com e nas pessoas? Será que Ele é um Deus fácil demais? Será que não


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estamos querendo um Deus difícil, ao qual, por exemplo, só se pode ter acesso uma vez por ano, e não a toda hora, ou a todo domingo? Então, comecemos por oferecer algumas respostas a esta pergunta: o que tem apagado o nosso dom, que está precisando ser reaceso? Eis quatro respostas: As pressões da vida Não tem sido fácil viver. Os pobres, os da classe média e os jovens têm sido muito sacrificados. Os pobres têm sofrido com a indigência dos serviços públicos básicos nas áreas da saúde, da educação e da segurança, bem como com as crônicas dificuldades de alimentação e de moradia. Os da classe média têm perdido acesso a bens e serviços, com seus salários congelados, diante de preços que continuam subindo em áreas que lhes são importantes. Pagar todas as contas no mês em que vencem é privilégio de poucos. As maiores vítimas – e isso tem muito a ver com Timóteo – são os adolescentes e os jovens. Eles têm um mundo para conquistar, mas não conseguem emprego. Quando conseguem um estágio remunerado, que deveria ser automático em suas vidas, soltam foguetes, que


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espantam os que ficaram de fora na fila. Para muitos, o horizonte é sair do país. Nessas condições, somos chamados a dar testemunho acerca do poder de nosso Senhor (verso 8). Nós, que estamos precisando de alento, é que temos de confortar os outros. Nós, que queríamos ver esse poder, é que temos de falar dele. Vem destas circunstâncias parte de nosso desânimo, especialmente quando vemos o que o salmista viu: a prosperidade do ímpio (Salmo 37). Ai! Como dói ver o incrédulo prosperar! Essas pressões vão além do plano material e alcançam o plano moral. Penso, de novo, nos adolescentes e jovens. Uma menina, feliz com seus pais, anda triste porque não tem um namorado. Falta algo em sua vida. Na igreja não tem ninguém que se interessa por ela e ela não se interessa por ninguém. Ela tem amigos na escola, mas não participa dos seus programas. Então, ela resolve se aproximar um pouco mais. Os garotos também se aproximam. As conversas são um pouco estranhas, mas ela se mantém firme nas suas convicções. Um encontro aqui, outra festa ali, um passeio em outro dia. Um rapaz chega mais perto. Ela até o leva em sua casa. Ele, então, se abre: não fala em amor, mas fala em sexo. Ela se afasta, mas a história se


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repete com outro rapaz. Moral da história: ela não faz parte da turma. Não seria melhor fazer parte? Será que ficará sozinha para sempre? Será que está certa nos seus valores? A pressão é enorme e, às vezes, apaga o dom, e isto se aplica aos solteiros e às solteiras que querem construir uma família; aos viúvos e às viúvas que não querem ficar sozinhos; aos separados e às separadas que querem recompor suas vidas afetivas. A solidão machuca, abafa e abala. Os sofrimentos da vida Nosso dom se apaga quando experimentamos aquilo que consideramos o silêncio de Deus, quando oramos e não ouvimos a resposta. Por algum tempo nos consolamos com o ensino de que Deus tem o seu tempo. Depois, nos cansamos de esperar. Sabemos que precisamos orar pelo nosso filho afastado de Deus, mas por quanto tempo? Um dia desses, ouvi a história de uma filha que nunca desistiu de orar pelo seu pai, afastado da família e de Deus. Ela orou muitos anos seguidos. Posteriormente, eu me encontrei com este homem. Ele pediu perdão aos seus e ao seu Senhor e está sinceramente disposto a começar a viver e a permitir que sua família também viva em harmonia. Sabemos


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que precisamos orar pela saúde das pessoas queridas, mas até quando? Oramos pela saúde de pessoas e elas morrem. Oramos pela recuperação de pessoas e elas continuam sofrendo. Isso nos cansa e nos debilita. Afinal, nossa fé é para todas as áreas da vida. Deus não é só para a vida religiosa, mas para a vida toda. A pergunta inevitável é: vale a pena servir a um Deus deste? Paulo, que sofria a prisão, como que para testar seu filho-na-fé, faz-lhe um convite: vem sofrer comigo, Timóteo (verso 8). O cansaço da igreja Por vezes, na igreja sobram línguas para criticar destrutivamente, e faltam braços para fazer. Qualquer que seja a necessidade da igreja, quando alguém resolve fazer a obra, não faltarão aqueles que dirão que fariam diferente, os mesmos que nunca se apresentaram para fazer. Os que estiverem fazendo terão que ter muita convicção para não permitirem que o dom seja apagado. Em casos como este, precisa-se de pessoas que se alistem no grupo, que usem seus braços para trabalhar, nunca a língua para destruir. Por vezes, na igreja sobram dedos para apontar os erros dos outros, e faltam ombros para sustentar os que querem


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ficar firmes. A tendência humana competitiva também grassa na igreja, de modo que o fracasso de um é discretamente comemorado. Quando se confirmam as direções dos nossos dedos, em lugar de chorar, preferimos dizer: "não falei?". A queda é uma possibilidade na vida do crente. Mas é triste saber que há pessoas que têm de trocar de igreja para recomeçar suas vidas. Deus já as perdoou, mas, muitas vezes, nós não perdoamos. Por vezes, na igreja sobram olhos para ver as brechas, e falta disposição para tapar uma só delas. Em outras palavras, por vezes, na igreja sobram ligeiras pernas para escorregar dos compromissos, e falta vigor para se pôr a caminho. Nós somos capazes de fazer belos diagnósticos, identificando os problemas da igreja. No entanto, nós nos esquecemos de que, quando não nos empenhamos em solucioná-los, nós somos os problemas. Precisamos de fiéis que se disponham a se pôr na brecha, para serem usados por Deus, para reparar a iniqüidade (Ezequiel 22.30). Por vezes, na igreja sobra cérebro para discutir temas irrelevantes, e falta inteligência e criatividade para encontrar soluções novas para um tempo novo que tem as carências de sempre. Como perdemos tempo com coisas sem importância!


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Enfim, em alguns momentos, na igreja sobram palavras, palavras de compreensão e entendimento, e faltam ações, ações de compreensão e entendimento. Jesus recomenda (Mateus 18.15) que, quando tivermos alguma informação sobre um irmão, nós temos que ir a ele, para saber o que está acontecendo e ajudá-lo, se for possível. No entanto, achamos que a maneira de ajudar este irmão é espalhar a informação que temos dele a um amigo mais íntimo, que o divulga para outro irmão mais íntimo, que pede oração a um grupo íntimo. Quando o irmão-vítima fica sabendo, ele esclarece que não é nada daquilo, mas já não é mais possível recolher as penas lançadas do alto da montanha. Este irmão, certamente, será um que terá que lutar muito com Deus para que o dom não seja apagado por um cristianismo teórico demais nas intenções boas e prático demais nas realizações más. Por isso, e por outros fatores, há muita gente cansada de igreja, gente que logo ficará cansada de Deus, gente que logo se afastará de Deus, às vezes, irremediavelmente. Há gente cansada porque fez muito e acabou sufocada pela incompreensão e pela crítica. Há gente cansada por não ter feito nada. Há gente que se cansou


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de sua própria acomodação. Há gente cansada de esperar atitudes coerentes. O cansaço de Deus Há gente cansada de Deus, embora raramente o confesse, porque o acesso a Ele é fácil demais. Nosso Deus está disponível 24 horas por dia. Não há qualquer exigência para se falar com Ele. Não há um local especial em que se fale com Ele. Jonas falou de dentro de um peixe. Elias falou com Ele do interior de uma caverna. Moisés falou com Ele do centro de um deserto. Não há uma posição para se falar com Ele. Pode ser em pé. Pode ser deitado. Pode ser ajoelhado. Pode ser com as mãos para cima. Pode ser com as mãos para baixo. Podemos falar com Ele olhando para o céu. Podemos falar com Ele olhando para o chão. Banalizamos Deus por ser Ele gracioso demais! Que contra-senso, como se preferíssemos um deus aterrador e pavoroso! Isso alcança os convertidos em idade adulta e alcança os que nasceram no Evangelho, com o passar do tempo. Parece que alguns que nasceram no Evangelho sentem saudade de um tipo de vida que


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nunca tiveram. Há quarentões ou cinqüentões adolescendo! É ridículo, mas acontece. Há gente esquecida de sua salvação e de sua santa vocação (verso 9). Há muita gente triste com a sua salvação, por estranho que pareça. Se somos salvos e estamos cansados, é porque esquecemos que somos salvos ou porque a salvação produz tristeza em nós. Na verdade, na linguagem do salmista, falta a muitos a alegria da salvação (Salmo 51.12), alegria que produz uma adoração vibrante, alegria que produz uma vida ativa porque cheia do dom. Devemos parar de banalizar a Deus. Precisamos vivê-lo como um Deus compassivo e zeloso da sua santidade e da santidade dos seus seguidores. A NATUREZA DO DOM Que dom é este, de que fala o preocupado apóstolo Paulo? Esta é uma pergunta que não pode ficar sem resposta. Dom e espírito Há aqui duas palavras essenciais no texto: dom e espírito. O dom (carisma) é uma concessão (dádiva) de


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Deus ao homem. É a transferência de parte de seu caráter ao ser humano. Nós temos o carisma de Deus. Este dom nos capacita com o espírito de poder, amor e moderação. Espírito, aqui, sempre no singular, não tem nada a ver com um certo uso, em que se fala em "espírito da preguiça" ou "espírito da doença". A palavra espírito (pneuma) se refere ao sopro de Deus sobre nossas vidas, capacitando-nos para fazer aquilo que o dom de Deus necessita para se exercitar em nós. O apóstolo Paulo fala também em imposição de mãos, experiência pela qual Timóteo passou havia alguns anos. Não foi um gesto mágico, a partir do qual o rapaz passou a ser outra pessoa. Ao contrário, mesmo tendo recebido o dom, este dom precisava ser reavivado. Os gestos formais são apenas símbolos do que acontece no interior. Todos quantos aceitaram a Cristo como Senhor e Salvador têm o dom de Deus, dom que pode ter se transformado num carvão apagado ou num fogo incandescente. O dom que nós queremos Há uma contradição entre o poder, o amor e a moderação que o dom de Deus nos sopra (pneuma) e o poder, o amor e a moderação que nós queremos que


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Ele sopre. O poder que nós naturalmente queremos é o poder de fazer Deus fazer o que nós queremos, não o de fazermos o que Ele quer. Religião não é magia. Nós podemos orar, mas não podemos fazer o que só Deus pode fazer. Um dia desses, fui procurado por uma pessoa com um agudo problema de saúde. Ele queria que eu o curasse. Chegou a oferecer dinheiro, o quanto fosse necessário, para que ficasse bom. Eu, então, lhe disse: – Eu não posso curá-lo. Eu posso pedir a Deus que o cure. Eu não tenho poder para curá-lo. O poder é de Deus. É Ele quem decide. Já pensaram se eu tivesse este poder? No domingo seguinte, eu chegaria na minha igreja, todo falsamente humilde, e diria: – Devemos dar graças a Deus porque Ele operou na vida de uma pessoa que me procurou. Eu orei e a pessoa foi curada. Louvado seja Deus, irmãos. Eu diria assim, mas no fundo, eu pensaria: "Como eu tenho poder!". Os irmãos pensariam de mim: "Como eu gostaria de ter este poder que o nosso pastor tem!" Se eu tivesse esse poder, minha igreja iria transbordar de gente. Mas, graças a Deus, eu não tenho este poder de fazer Deus fazer. O amor que nós naturalmente queremos é o amor centrado em nós, não aquele de Jesus, auto-esvaziado de si mesmo.


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Pensamos neste dom do amor como o dom de sermos amados, nunca como o dom de amar. Sempre pensamos no amor como uma flecha que vem em nossa direção. Como é bom saber que somos amados por Deus. Esta é uma verdade que ninguém nos pode tirar, nem mesmo a tristeza. Ele nos amou tanto que tomou a decisão de morrer por nós numa ridícula cruz mal trançada de madeira vagabunda, sobre um morrinho de nada. A morte dele não foi, como deveria ser, uma superprodução. Ele não contratou Steve Spielberg para produzir sua morte. Ele morreu longe dos holofotes, para poder alcançar nossos corações. Como é bom saber que somos amados por Deus, que nos dá o seu Espírito para ser nosso intérprete e consolador. Por causa deste amor, podemos até não saber pedir, que Ele transforma nossos pedidos mal formulados em pedidos claros. É por causa deste amor que o Espírito habita nos nossos corações. Que verdades cheias de calor! Este é o amor que queremos, mas este amor só vai funcionar quando ele for uma usina que gere energia para fora de nós. A retenção deste amor faz com que ele vá se apagando, às vezes na velocidade da luz de uma estrela.


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A moderação que nós naturalmente queremos é a moderação de sermos julgados pelos outros, não a de os julgar. Queremos ser julgados como amigos, mas queremos julgar como se julga a inimigos. Para nós, exigimos moderação. Em relação aos outros, nós nos sentimos livres para exercer nosso juízo sem moderação. Agimos como na frase de um político mineiro: – Para os amigos, tudo; para os adversários, a lei. O espírito de poder (dunamis) que Deus nos dá é o poder para viver, apesar das adversidades, e para testemunhar, apesar das pressões e de nós mesmos. O dom de Deus nos capacita com o poder de enfrentar as ondas de dificuldades da vida. O poder de Deus não se manifesta necessariamente em tirar os problemas de nossa frente, mas principalmente em nos fazer triunfar sobre eles. O dom de Deus nos capacita com o poder de superar nossas próprias limitações, principalmente a limitação da covardia, do medo e da timidez. Os tímidos, inclusive no plano psicológico, precisam receber o poder de Deus para explodir. Enquanto não receberem esta dinamite espiritual, não vão sair das cavernas que são suas vidas, para os montes que deveriam ser. O dom de Deus nos capacita com o


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poder da coragem para ousar o que deve ser ousado, tanto no plano espiritual quanto no plano profissional. Não tenhamos medo. Isto não provém de Deus. Muitos crentes têm medo de usar seus dons, e assim testemunhar de Deus, porque receiam o ridículo, a zombaria, a crítica, a oposição e a violência. Deus nos equipa e seu equipamento não inclui o medo. Se estamos ansiosos, se estamos apavorados, estes sentimentos não vêm do Deus a quem chamamos de "Pai". O Espírito Santo nos infunde o espírito do poder quando começamos a testemunhar (viver por ou para Cristo), nunca antes. Para que serviria o poder, se não há o testemunho de Cristo? O poder vem à medida que o silêncio acerca de Cristo se vai. O espírito de amor que Deus nos dá é o amor-agape, que surge na mente e na vontade e se realiza nas emoções. Este tipo de amor é um dom de Deus. Porque só Ele o tem naturalmente, nós o recebemos dele sobrenaturalmente. Só Ele o tem, mas Ele no-lo dá. Sua primeira manifestação, portanto, é receptiva. Deus nos dá o espírito de ser amado por Ele. A timidez age aqui também sobre nós, impedindo que aceitemos este amor. Este amor em nós é produtivo, no sentido que nos impulsiona para fora de nós mesmos, em


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direção a Deus e ao outro. O amor que Deus nos dá é o amor que se esvazia de si mesmo, como seu Filho fez. É o amor que não existe na troca (dar-receber). Este tipo de amor não faz parte da nossa natureza. Está contra os nossos genes. É este amor-entrega a Deus que faz o servo de Deus se dispor a sofrer as conseqüências do poder do Evangelho em sua vida. É este amor-autoesvaziado que nos impulsiona a amar as pessoas, mesmo os inimigos. Se alguém pudesse me interromper, gritaria: – Alto lá. Você está sendo teórico demais, poético demais. Pois eu respondo que, apesar de não estarmos amando deste modo, nós temos o poder de amar assim, porque Deus no-lo deu. Não é Ele o teórico: somos nós. Só não somos práticos porque temos medo, embora saibamos que o Pai não nos legou com o espírito da covardia. Não precisamos ter medo de amar, porque temos o dom de amar como o Pai nos ama, como seu Filho nos ama, como seu Espírito nos ama. O espírito de moderação (sofronismou) que Deus nos dá pode ser pensado em muitas direções. Temos a força e temos o amor. O que nos falta? Seria a saberdoria, para pôr o poder e o amor em ação? Não falta mais, porque Deus também nos deu este espírito


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de sabedoria, moderação, equilíbrio. Ser moderado é controlar as emoções, quando devem ser controladas; é liberar as emoções, quanto devem ser liberadas. Ser moderado não é ser contido, mas ser equilibrado. Ser equilibrado não é ser fechado, fleugmático, para dentro; é ser aberto; é ser capaz de caminhar por entre os extremos. Moderação também é a capacidade que Deus nos dá para julgar os outros do mesmo modo que queremos ser julgados. Como gostamos de julgar! Como achamos corretos os nossos julgamentos! Como gostamos de não ser julgados! Como achamos que os julgamentos dos outros sobre nós não são corretos! Por isso, precisamos do espírito de moderação. Moderação é ainda a capacidade que Deus nos dá para discernir o tempo e as coisas, de modo a poder decidir e agir com prudência, na hora certa e sem precipitação. Como é difícil a moderação! Como é fácil falar na hora de calar! Como é fácil comprar na hora de poupar! Como é fácil calar na hora de falar! Como é fácil guardar na hora de gastar! Precisamos do espírito de moderação. Moderação é também a capacidade que Deus nos dá para persistir nas causas que abraçamos, sejam elas profissionais, familiares ou eclesiásticas. Na cultura do


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fácil, desistimos quando o bom é difícil e duro, esquecidos de que o melhor é sempre o mais difícil. Precisamos de disciplina própria, que nos faça ter método e paciência para alcançar os alvos que elegemos para nossas vidas. Graças a Deus que Ele nos dá o espírito da moderação. Assim, quem tem poder (força), amor (que é derramamento) e moderação (que é sabedoria de vida), do que mais precisa? COMO REAVIVAR O DOM Em relação aos dons, há três tipos de crentes: Os que mantêm o entusiasmo do dom (no original antigo, significa ter Deus dentro de si). Estes cristãos têm o dom, sabem que têm o dom e vivem segundo o poder deste dom. Os que diminuíram a força do dom. Estes cristãos têm o dom, sabem que têm o dom, mas têm mantido o fogo do dom em chama branda. Seu calor é o calor de uma estrela distante, da Lua noturna, nunca do Sol radiante. Os que permitiram que o seu dom fosse apagado. Estes cristãos têm o dom, mas já não


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sabem que o têm. É como se não o tivessem mais. Quem está com o dom aceso ore para que Deus mantenha o seu calor, como uma usina que gera energia e luz. Quem está com o dom em banho-maria ou apagado peça a Deus que seja reaceso. O crente não pode deixar que seu fogo se apague. Como reavivar o dom? Há dois tipos de compromissos para a manutenção do nosso dom. Um no plano da memória e outro no plano da disposição. Projeto-memória No plano da memória, precisamos: Lembrar que um dia recebemos o dom de Deus (verso 6). Quando nos salvou, Deus nos deu parte do seu caráter. Na conversão, nós fomos separados para viver segundo a vontade de Deus, não mais segundo a nossa. Isto não aconteceu por causa de nossas ações, mas apesar delas. O dom nos foi concedido segundo o propósito e a graça de Jesus Cristo (verso 9). Não foi


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algo que conquistamos e de que podemos abrir mão. Nós é que fomos conquistados por quem não abre mão de nós. Deus se manifestou em nossas vidas pelo aparecimento de nosso Salvador, Cristo Jesus, o qual destruiu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo Evangelho. Não podemos nos esquecer disto. Se esquecemos, permitimos que o dom se apague. Se lembramos, permitimos que o dom continue aceso. Lembrar o conteúdo deste dom, que é de poder, amor e moderação (verso 7). Quando nos sentirmos fracos, lembremos que temos o espírito de poder (força) de Deus, apesar dos escombros dentro de nós e ao nosso lado. Quando nos sentirmos sós, lembremos que temos o amor desinteressado de Deus por nós a nos fazer companhia. Quando nos sentirmos desorientados, lembremos que temos o espírito de moderação, que nos capacita à caminhada na vida, em meio a tantas decisões graves e urgentes. Projeto-disposição No plano da disposição, precisamos:


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Nos dispor a viver intensamente a vida cristã, pois esta é a nossa santa vocação (verso 9). Todos somos chamados ao testemunho. Timóteo era pastor. Paulo era pregador, apóstolo e mestre (verso 11). E você, é o quê? A maioria dos crentes não conhece os seus dons. Por isso, precisam ler e praticar o ensino de Paulo, como indicado em Romanos 12.3-8, 1 Coríntios 12.411 e Efésios 4.7-16. Nesses textos, temos várias listas, nunca exaustivas, nem conclusivas, todas para lembrar que sem o exercício dos dons não há dons. No Novo Testamento, aprendemos que os dons espirituais são os instrumentos com que o Espírito Santo equipa o crente para seu ministério no mundo. Qual é o seu dom? Quais são os seus dons? O que você tem feito com ele? Se você é um crente, você tem pelo menos um dom. Trate de descobri-lo e aceitá-lo, como um dever e um privilégio. Nos dispor a trabalhar pelo Evangelho, que é a forma de experimentarmos o poder de Deus. O convite do apóstolo ao seu filho na fé foi preciso: Timóteo, participa comigo dos sofrimentos do


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evangelho segundo o poder de Deus (verso 8). É como se Paulo lhe estivesse passando a tocha olímpica. Por isso, posso perguntar aos mais velhos: Que Cristianismo estão passando aos mais jovens? Posso também perguntar aos mais jovens: Que disposição têm vocês para levar a tocha do Evangelho de Cristo? Nos dispor a mudar de um estilo apagado para um estilo vibrante; de um estilo dependente de si mesmo, para um estilo dependente de Deus. Como escreveu C. S. Lewis, não existe felicidade e paz independentes de Deus. A vida cristã tem que ser um brado de vitória. Ela começa com o brado de vitória sobre as trevas, trazendo-nos a luz; com o brado de vitória sobre a morte, trazendo-nos a imortalidade (verso 10). Não podemos permitir que as trevas e a morte cantem vitória sobre nós. Ser cristão significa que somos pregadores de Deus, isto é, mensageiros de uma mensagem que não é nossa, mas divina. Anulamos o nosso dom, quando passamos a proclamar um euvangelho, não o Evangelho. Nosso fracasso decorre em esquecermos que somos portadores do poder de Deus, não do nosso. Nossa vitória decorre de


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depender de Deus, nunca de nós mesmos, jamais dos valores correntes do nosso tempo. Ser cristão significa que somos enviados a pessoas que nós não escolhemos, mas que Deus escolheu. A igreja fracassa quando ela se envia a si mesma, quando foi constituída para ser enviada por Deus ao mundo. Uma igreja em que os seus membros trocam gentilezas e servem uns aos outros não é uma igreja. É um clube. E clube ruim, porque envergonhado. Ser cristão significa que somos comissionados como mestres, prontos a ensinar com dedicação, nunca com superficialidade, acerca do poder de Deus. Um evangelho superficial, que não incomoda os crentes e não desafia os descrentes, não é um evangelho. É uma filosofia. E filosofia ruim, porque desviada de sua rota e longe de sua raiz. Permita-se incomodar pelo Espírito Santo, seja para ser convencido do pecado, seja para ser capacitado por Ele a ser testemunha do poder de Deus. Se você não está usando o dom de Deus, está desperdiçando sua vida.


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2 O PRIVILÉGIO DA PARTICIPAÇÃO Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho! Se o faço de livre vontade, tenho galardão; mas, se constrangido, é, então, a responsabilidade de despenseiro que me está confiada. Nesse caso, qual é o meu galardão? É que, evangelizando, proponha, de graça, o evangelho, para não me valer do direito que ele me dá. Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar


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alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele. Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado (1Coríntios 9.15-27). Por que é baixo o grau de participação dos membros da igreja nas suas atividades, especialmente naquelas fora das celebrações litúrgicas ou dos cultos regulares? Para a maioria das funções que ela desenvolve, há escassez de recursos humanos, embora sobrem membros nas listas e nos bancos durante os cultos. Chego a pensar que seria bom se não houvesse igreja. Estaríamos todos em casa ou em alguma atividade de lazer, fruindo a vida que Deus nos deu, em lugar do compromisso de freqüentar cultos. Afinal, nossa salvação já está garantida mesmo, desde o momento em que passamos a fazer parte do reino de


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Deus, quando nos arrependemos e cremos no Evangelho! Quando esta visão começa a nos seduzir, precisamos parar e refletir sobre a natureza da vida cristã, mesmo que precisemos ir às ultimas conseqüências. É o que faremos, com a ajuda do belo texto que Paulo escreveu aos Coríntios. A IGREJA COMO PROJETO DE JESUS Paulo ensina que temos a obrigação de pregar o Evangelho (verso 16). A palavra é muito dura para os termos modernos. A idéia soa ainda mais estranha quando o apóstolo diz que lhe era um encargo (verso 17; conferir 4.1). Este termo ("encargo"; "responsabilidade de despenseiro") lembra o intendente romano, que era um escravo que não recebia qualquer salário por seu trabalho. Se somos escravos, não há pagamento a reclamar. O salário de Paulo era não receber nenhum salário! Esta obrigação decorre da nossa própria salvação. O "ai de mim" é menos medo do castigo e mais um ardor que vem de dentro. O peso é para quem já experimentou o Evangelho. Fazer conhecida a graça é uma tarefa de todos que já a conheceram. Afinal, o que está em jogo é o destino eterno das pessoas (verso 22).


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Na obra da salvação, somos cooperadores de Deus (verso 23). A coroa é a salvação dos outros, a mesma que a ação de outros permitiu que alcançássemos. O apóstolo faz uma comparação entre o atleta dos jogos ístmicos (realizados nas cidades costeiras do mar Egeu), disputados três vezes ao ano, e o atleta cristão. Aquele corria por uma medalha, que era uma coroa de pinho, que não durava até a próxima competição. Este corria por uma coroa eterna. Muitos de nós preferimos as medalhas humanas, que são corroídas pelo tempo, em lugar de medalhas divinas, feitas para durar a duração da eternidade. Esta é a tarefa da igreja, sobre a qual devemos fazer um necessário interlúdio. A igreja é o projeto de Jesus para ligar e desligar pessoas no céu (Mateus 16.19). Liga-se no céu quem ouve o Evangelho e responde ao seu convite. No entanto, como as pessoas vão ouvir o Evangelho se ninguém lhes anunciar? A geração dos pós-igreja dirá que a tarefa da proclamação do Evangelho é pessoal e que cada um de nós a fará sem a igreja. Em teoria, o raciocínio está correto. Na prática, mesmo ouvindo dominicalmente que precisamos evangelizar, quantos o fazemos? Sem a igreja, Deus não teria com quem contar para arrebatar pessoas para o


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seu regaço. A igreja é, portanto, o lugar onde somos lembrados de nossa missão pessoal e intransferível. A igreja é o projeto de Jesus para manter as pessoas ligadas no alvo da vida, que é crescer em direção à perfeição, ter a mente de Cristo, pensar nas coisas que são de cima e ter a estatura de Jesus Cristo. Neste mister, ela compete com uma série de outras organizações, formais e informais, que buscam nos seduzir com a mensagem contrária: o ser humano é a medida de si mesmo, deve viver para realizar seus desejos e sua liberdade é o seu maior bem (liberdade que, sabemos, somente Jesus torna plena). A igreja, portanto, é o projeto de Jesus para permitir que as pessoas sejam estimuladas a viver da sua Palavra no caminho da maturidade doutrinária e emocional. A igreja é o projeto de Jesus para sustentar as pessoas, por meio do interesse de uns pelos outros, interesse esse manifesto no amor fraternal e na oração intercessória. Eu não saberia viver num mundo em que ninguém orasse por mim e que eu não orasse por ninguém. Esse é o mundo sem igreja. Não consigo imaginar um cristianismo em que eu orasse apenas por mim ou, no máximo, por minha família. Isso não seria cristianismo. A igreja é um projeto de Jesus. Ou será


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que Ele estava errado? Paulo achava que não. Sua vida foi transformada por um encontro pessoal com Jesus. Inserido na igreja, foi por ela ensinado. A ela dedicou toda a sua vida, com a fúria típica dos visionários. Paulo não era apenas um homem. Era um homem-com-uma-visão. Sua visão era o mundo todo alcançado pelo Evangelho, dobrando seus joelhos diante de Deus, confessando que Jesus Cristo é o Senhor. Por esta visão, Paulo combateu ao longo de sua vida. O apóstolo sentia que se não vivesse de modo coerente com sua visão e deixasse de anunciar o Evangelho, ele seria um miserável. POR QUE NÃO PARTICIPAMOS? Esta seção de 1Coríntios é sobre o modo como Paulo via o exercício do seu ministério. Inscreve-se numa dimensão autobiográfica, mas é, ao mesmo tempo, a biografia daquela e da nossa Igreja. Ao falar de si, Paulo falava de nós. Paulo participava do projeto de Jesus, chamado igreja, de um modo apaixonado. Há entre nós apaixonados e desinteressados. Aos apaixonados, cabe apenas desafiar: prossigamos,


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mesmo porque ai de nós se não continuarmos aquilo que começamos. Aos desinteressados, cabe advertir: ai de quem não anuncia o Evangelho. Ou perguntar: sabe como você veio a ser salvo? É porque algum apaixonado o anunciou a você. Quantos, por seu intermédio, têm alcançado a salvação que o alcançou? Os desinteressados de hoje, um dia, mesmo que por pouco tempo, foram apaixonados pela causa de Cristo. Por que hoje mudaram de lado? Quero apresentar algumas respostas. Talvez uma delas se encaixe na sua biografia. Há alguns que estão cansados das lutas da vida. A vida de muitos cristãos, por circunstâncias diversas, é uma sucessão de problemas. Falta-lhes tempo para lutar por Cristo. Falta-lhes disposição para anunciar o Evangelho. A estes quero recordar que a vida de Paulo era muito atribulada. Para começar, não tinha família. Por causa de sua fidelidade a Cristo, foi preso, acorrentado, açoitado. Enfrentou até naufrágios. Sua vida era tão dura que orou muitas vezes para que Deus lhe tirasse um sofrimento (o espinho na carne de 1Coríntios 12, cuja natureza é ignorada). Há alguns que estão cansados das críticas que recebem precisamente por servirem a Cristo. Só não é


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criticado quem não faz nada. Quem passa os anos lustrando os bancos da Igreja não é criticado. Quem se dispõe a fazer, seja cantando, regendo, tocando, ensinando, pregando, aconselhando, evangelizando, introduzindo, liderando, este é criticado. Sempre tem alguém que faria melhor, embora nunca tenha feito nada. A estes recordo que Paulo escreveu esta seção para se defender. Ele era um missionário de tempo integral. Em Corinto, como conhecia aqueles crentes, não quis receber nada. Ele queria evitar a crítica de que estava sendo "pesado" para a igreja. Até mesmo esta disposição era objeto de crítica. Em lugar de desistir de fazer, receba a crítica, peça orientação a Deus. Talvez haja alguma maneira melhor de fazer. Se houver, melhore. Se não houver, continue fazendo o seu trabalho. Ele não é feito para agradar aos homens, mas àquele que o chamou. Há alguns que estão desinteressados por um entendimento inadequado do que seja a vida e o trabalho cristãos. No versículo 26, Paulo nos lembra que a vida com Cristo exige decisão e empenho. Temos que esmurrar nosso corpo, fazendo-o caminhar contra sua própria vontade ou contra nossa preguiça. Muitos querem fazer o trabalho do Senhor, desde que não dê


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muito trabalho. A estes Paulo insiste que vale a pena o esforço, porque a meta é a conquista de uma coroa incorruptível, a salvação das pessoas. Este é o nosso galardão: ver pessoas sendo tiradas das trevas e lançadas no centro do foco da luz do reino de Deus. Este é o prêmio do cristão: ver pessoas experimentando a graça de Deus. Deus nos usou para levar sua graça aos outros. Há recompensa maior? Há alguns que estão desinteressados em anunciar o Evangelho porque descobriram que não podem controlar a obra do Senhor. É desanimador pregar quando não há resposta. É doloroso trabalhar quando não há progresso. O apóstolo Paulo disse que tudo fazia, inclusive contra si mesmo, para "salvar alguns". Seu desejo era que todos fossem salvos. Ele sabia, no entanto, que isto não dependia dele. Quando tentamos controlar a obra do Senhor, é menos pelo Senhor, é menos pelos alcançados e mais por nós mesmos. No final do capítulo (verso 27), Paulo disse que não queria ser desqualificado; isto é, ele não queria fazer a obra de Deus com recursos próprios e para a glória própria. O primeiro grande equívoco de quem serve a Deus é pensar que pode fazer por si mesmo, prevendo até os resultados da obra que é dele. O segundo grande erro é


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querer tirar proveito próprio da obra do Senhor, em termos de poder, dinheiro ou prestígio. Se você acha que se pode esconder atrás dos seus problemas, saiba que Deus quer você assim mesmo. Ele precisa de você assim mesmo. Mesmo com suas limitações, você pode participar do projeto de Jesus, que é a Sua Igreja. Se você acha que não pode conviver com as críticas, saiba que é melhor ser criticado por fazer do que se esconder e ficar privado das bênçãos de servir ao Senhor. Se você não quer encarar o fato de que o trabalho cristão é, por vezes, pesado, saiba que Jesus já pagou o preço maior. Nossas tarefas estão dentro de nossas possibilidades. Além disso, a causa vale a pena, porque os resultados da participação são visíveis e invisíveis, mas sempre incorruptíveis. Se você quer ser reconhecido pelo que vier a fazer na igreja, continue sem fazer nada. Você não fará nenhuma falta. Antes, peça a Deus que converta o seu coração. Dobre perante Jesus os seus joelhos e venha para a sua seara. Se você tem feito a obra esperando retorno humano, pare com isso. Importe-se apenas com o galardão que Deus dá. Mesmo sem saber qual é, o certo é que grande alegria inunda a terra e os céus quando mais um filho entra na igreja de Deus.


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COMO DEVEMOS PARTICIPAR O apóstolo Paulo nos ensina como deve ser feito o trabalho do Senhor, que genericamente chama de anúncio do Evangelho. Nossa participação no reino de Deus deve ser feita de livre vontade (verso 17). Paulo sentia um alto grau de satisfação e conforto por pregar o Evangelho. O aplauso não lhe importava. Sua glória era promover o Evangelho. Quando deixava de pregar, deixava de ser ele mesmo. O exercício desta tarefa encontrará uma graciosa recompensa de Deus, desde que feita com prazer, sem relutância. É um dever que devemos desenvolver com prazer. Um missionário médico entre enfermos, que viviam em péssimas condições, contava aos irmãos de sua igreja como era seu ministério. Uma pessoa, então, comentou: – Você deve amar demais aquela gente. A resposta foi: – Não. Isto não é amor. É muito difícil amar alguém que sofre dores assim tão horríveis. – Então, o que é? – É compromisso. Nossa participação no reino de Deus deve ser desenvolvida com a consciência de que fazemos para Deus (verso 19) e não para os homens. Sucumbimos diante das críticas, quando nos esquecemos de que nossa participação é para Deus,


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não para aqueles que procuram defeitos naquilo que fazemos. Nossa participação no reino de Deus deve contar com a nossa inteligência (verso 20). Esta consciência fez Paulo fazer-se judeu entre os judeus, escravo entre os escravos, livre entre os livres. O maior desafio para os cristãos de hoje é falar aos homens de hoje. Como fazêlo? O conteúdo é o mesmo. No entanto, como iremos comunicar este conteúdo? Este é um desafio que requer inteligência. A igreja, por exemplo, não é o melhor lugar para o exercício da obra da evangelização. As pessoas não gostam de igreja. Nós temos que ir aonde elas estão. Fácil? Não, porque a maioria das pessoas também não nos quer receber onde está. Temos preferido ficar em nossos templos, lamentando o fato que o mundo não nos quer ouvir, em lugar de buscar estratégias de alcance. Como podemos alcançar os vizinhos de nossas igrejas? Acho que não sabemos, mas precisamos buscar as respostas, tentando o melhor, partindo do pressuposto que nós os queremos alcançar para Deus. Nossa participação no Reino de Deus deve ser cheia de flexibilidade (verso 22), visando a um fim claro: a salvação. Há muitas pessoas, que, esquecendo o alvo do seu trabalho, tornam-se inflexíveis, apro-


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priando-se de uma inadequada idéia: se o trabalho não for feito do "seu jeito", também não o fará de "jeito nenhum". Como ensina o apóstolo em sua comparação final (verso 25), o envolvimento na vida da igreja implica aprendizagem, que nos leva a mudar o que deve ser mudado. Se a mensagem para o mundo não muda, o mundo da mensagem muda; se queremos mudar o mundo, temos que mudar a forma de alcançá-lo.


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3 QUANDO CRISTO E A IGREJA SE COMPLETAM Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (...), para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida (Efésios 1.15-23; 3.10).


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Não há como não ficar impactado por este poema paulino sobre a singularidade de Cristo e sobre a natureza da sua igreja. Depois de se alegrar com a fé no Senhor Jesus e com o amor vivenciado pela comunidade dos cristãos, o apóstolo ora ao Pai e pede que Ele conceda aos cristãos toda a capacitação necessária para uma vida eivada de esperança, repleta de riqueza e plena de poder, exatamente como foi a jornada entre nós do seu Filho. Jesus Cristo é apresentado como a força total de Deus, demonstrada na sua ressurreição e na sua volta ao trono divino para governar sobre todo o cosmo. Durante sua vida na Palestina, Ele abriu mão voluntariamente deste poder, restabelecido a partir da ressurreição. Desde então, estão sujeitos a Ele todos os poderes deste mundo, tanto aqueles que conhecemos como aqueles que não conhecemos: sejam eles principados (que podemos pensar como todos os tipos de governo, federal, estadual ou municipal), sejam eles potestades (que podemos pensar como todo tipo de organização não-governamental com impacto sobre as nossas vidas), sejam eles poderes (que podemos pensar como todo tipo de corporações financeiras, que determinam nosso ir e vir pela face da terra, ditando preços e prioridades),


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sejam eles domínios (que podemos pensar como formados por todos os tipos de sistemas de educação, comunicação, ideologia e lazer), sejam eles nomes (que podemos pensar como todos aqueles indivíduos que, pela força ou pela sedução, controlam as nossas vidas). Todas estas forças estão debaixo dos pés de Jesus Cristo e só não vemos esta realidade se realizando porque só conseguimos enxergar o microcosmo, nunca o cosmo todo. Aquele que tudo vê já sujeitou estes poderes todos, embora eles ainda se agitem nas grades onde estão presos. Se isto nos parece forte demais, soa ainda mais forte ler, nesta mesma oração, que este poderoso Jesus foi dado à igreja, para que ela torne pleno o poder deste poderoso Jesus. A igreja recebeu o poder de Jesus Cristo para continuar a Sua obra de submissão do cosmo ao Seu poder. Tremo em ler que a igreja é a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. Em outras palavras, a igreja é a plenitude de Cristo! Jesus transferiu seu poder à igreja. Suas palavras finais foram precisamente a escritura desta doação: Todo a poder me foi dado no céu e na terra. Portanto, ide fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que


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vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos (Mateus 28.18-20). Ao longo da história, muitos líderes eclesiásticos têm entendido equivocadamente a natureza do poder da igreja, a ponto de agirem como o grande inquisidor de Dostoievski, expulsando Jesus da igreja, como se Ele não fosse o seu Senhor, transformando a tradição em senhora, o sistema em senhor. A organização passa a ser senhora, e o líder passa a ser o senhor da igreja. Muitos líderes de igreja têm confundido seu poder. O poder de um pastor é o poder de servir. O pastor não tem que ser presidente de igreja. Sua liderança é apenas uma das dimensões do seu serviço. O pastor não é Jesus Cristo, mas servo dele. Diante daqueles que acham que o pastor, por ser ungido de Deus, não pode ser criticado, não pode ser contestado, não pode ser desobedecido, lembremos que, no Antigo Testamento, sacerdotes (Êxodo 30.30, etc.), profetas (1Reis 19.16, etc.) e reis (1Samuel 16.1-13, etc.) eram ungidos, isto é, tinham uma porção de azeite derramada sobre as suas cabeças. Davi não matou Saul porque não quis tocar no ungido de Deus. Muitos pastores têm aplicado esta expressão para si mesmos,


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utilizando-se delas até para se protegerem do pecado do autoritarismo e de outras manifestações do mal. Há uma grande distância entre os ofícios de sacerdote, profeta e rei antigos e o ofício de pastor, como aprendemos no Novo Testamento. Ungido, no final do Antigo, e em todo o Novo Testamento, é uma expressão exclusiva ("o Messias", no hebraico; "o Cristo", no grego) para Jesus, cujo título deixa evidente que Deus o escolheu para Ser o Salvador da humanidade (cf. João 1.41; Atos 4.26-27). O Ungido não pode ser criticado, contestado, desobedecido, porque é o nosso Senhor. Todo cristão, seja ele líder ou não, deve ser ouvido, atendido e seguido se sua palavra estiver em consonância com a Palavra de Cristo. Ele pode ter estilos diferentes, porque esta é uma questão de preferência, mas não pode estar contra a Palavra de Deus, que deve ser lida, interpretada e aplicada. A autoridade final sobre uma comunidade é a autoridade da Palavra de Deus; fora disto, restam o personalismo e o autoritarismo. O poder de um líder é o poder do serviço. A força de um líder é a força do seu exemplo. A autoridade de um líder está na sua obediência à Palavra de Deus.


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Agora, se uma comunidade não quer viver sob a autoridade da Palavra de Deus, o líder deve fustigar, incomodar e denunciar esta comunidade, mesmo sob o preço de ser deposto. O Senhor do líder é o mesmo Senhor da igreja e do mundo: Jesus Cristo. Não cansemos de repetir: Jesus é o Senhor da nossa igreja. É na submissão a Ele que a prática da unidade e da diversidade pode ser celebrada. O prazer do cristão é submeter-se a Jesus. O poder da igreja é o poder de servir, não de ser servida. Sua força se exerce no serviço ao mundo, não em ser servida pelo mundo. Quando a igreja quer ser servida pelo mundo, ela se torna parte dos inimigos a quem Cristo sujeita pela força sob os seus pés. Jesus transferiu seu poder à igreja. É por meio dela que Ele domina sobre a Terra. Precisamos, neste caso, ter muito claro para nós o que é a igreja e sua natureza. É sobre isso que nos debruçaremos nas próximas linhas. A COMUNIDADE DA FÉ A igreja é a comunidade dos que têm fé em Jesus Cristo (verso 15). O apóstolo conhecia a fé que havia entre os efésios. Eles criam em Jesus como o Senhor.


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Como os efésios, não devemos ter fé uns nos outros, nem no líder da igreja e nem em nós mesmos. Porque criam em Jesus como o Senhor, os integrantes daquela comunidade cristã oravam uns pelos outros (verso 16), esperando que Jesus intercedesse por todos diante do Pai. Jesus Cristo é o Senhor (versos 20-22a), mas só reconheceremos este senhorio se deixarmos que o Espírito Santo ilumine os nossos corações. Há muitos senhores disputando a nossa fé e, às vezes, renunciamos a fé em Jesus, para a darmos aos príncipes deste mundo. Enquanto nos deixarmos seduzir pelas luzes deste mundo, sejam os prazeres ou as ideologias, os sistemas ou os ídolos, é atrás do seu facho que iremos, em lugar de mirarmos o farol de Cristo. Se queremos fazer parte da igreja, precisamos ter fé em Jesus Cristo como nosso Senhor, Senhor da igreja, Senhor do mundo. Precisamos renunciar todas as outras fés. A igreja é a comunidade dos que têm fé em Jesus Cristo, só em Jesus Cristo. A COMUNIDADE DO AMOR A igreja é a comunidade dos que se amam, a partir da fé em Jesus (verso 15). O amor na


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comunidade é conseqüência da fé em Jesus Cristo. Paulo escreveu aos efésios para externar sua alegria diante da sua fé em Jesus e do seu amor uns pelos outros. O apóstolo sabia que fé e amor são como duas faces de uma cédula de dinheiro. Fé sem amor é como uma nota impressa só de um lado, sem valor algum. Uma nota de R$100,00, impressa só de um lado, não compra sequer um pãozinho francês, de alguns centavos. Amor sem fé é como um cheque preenchido, mas não assinado. Escrevendo também aos filipenses, aos colossenses e aos tessalonicenses, o grande escritor reconheceu o dom supremo do amor entre eles. Como os colossenses (Colossenses 1.4 e 8), amamos todos da comunidade, de modo que as pessoas de fora o notem? Se Paulo nos conhecesse, mereceríamos as mesmas palavras que anotou sobre os tessalonicenses, quando escreveu: Recordo-me, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo (1Tessalonicenses 1.3)? Já imaginamos uma igreja assim, operosa na fé em Cristo, dedicada no amor uns pelos outros e firme na esperança em Jesus? Por isso, como igreja é o somatório de cada um de nós, precisamos personalizar a pergunta-chave. Se


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Paulo lhe escrevesse pessoalmente, diria o que disse a Filemon, quando apontou: estou ciente do teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus e todos os santos (Filemon 1.5). Como pastor de uma igreja, sonho com uma comunidade acolhedora. Não devemos ser acolhedores para "ganhar" as pessoas. Devemos ser acolhedores porque gostamos das pessoas. Como demonstrou uma pesquisa feita com 1000 igrejas em 32 países dos cinco continentes, as comunidades tendem a se achar o máximo neste quesito. Segundo os autores, em muitas igrejas se formam “panelinhas” fechadas, que são consideradas muito agradáveis pelos participantes. No entanto, esses cristãos não percebem as dificuldades que pessoas de fora têm para conseguir acesso a essas "panelas". Eles se consideram "calorosos" e "abertos" em relação aos novos, mas comunicam de forma não-verbal, em geral involuntariamente, a seguinte mensagem: "Vocês não pertencem ao nosso grupo". Precisamos de pessoas que tenham interesse por pessoas. Que tal começar interessando-se pelos nomes das pessoas? Que tal chamá-la para a sua "panela", seja o seu coro, seu grupo de oração, sua equipe de louvor, seu lugar no banco? Siga o conselho de Paulo aos


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filipenses. Peça a Deus que aumente o seu amor (Filipenses 1.9). Faça a sua parte, para que todos que entrem na sua comunidade cristã sejam acolhidos e continuem integrados. Se você for uma pessoa acolhedora, sua igreja também será. A COMUNIDADE DOS CAPACITADOS PELO ESPÍRITO A igreja é a comunidade dos que recebem do Senhor Jesus Cristo o "espírito de sabedoria e de revelação" (verso 17), para poder viver (verso 18), e a capacitação do Espírito Santo, para atuar no mundo de que é parte (verso 19). Sem o espírito de sabedoria e de revelação, a igreja tenderá a seguir o espírito deste mundo, que é predominantemente oposto ao de Cristo. As expressões "sabedoria" e "revelação" não estão no texto por acaso. Podemos pensar que são complementares. Jesus confere à sua igreja o "espírito de sabedoria", isto é, um jeito de ser segundo a sua mente, jeito aprendido por meio de uma vida de leitura da Bíblia e da oração. Pensando em termos de dom e fruto, o "espírito de sabedoria" é o fruto do Espírito, que se manifesta em


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termos de alegria, amor, benignidade, fidelidade, generosidade, mansidão, paciência e paz (Gálatas 5.22,23). Jesus confere também à sua igreja o "espírito de revelação", isto é, uma manifestação específica de Deus, orientando-a em como falar em situações dramáticas, conduzindo o louvor a Ele para que seja puro e chamando-a para atuações específicas no seu reino. O espírito de revelação ultrapassa a nossa própria compreensão dos fatos, mas nos ajuda a agir. Quando enviou seus discípulos ao mundo, Jesus lhes recomendou que não ficassem apavorados quando enfrentassem situações difíceis, porque o Espírito Santo lhes ensinaria, naquela mesma hora, as coisas que deveriam dizer (Lucas 12.12). Eles receberiam o espírito de revelação, como vem acontecendo com os cristãos ao longo dos tempos. Num domingo à noite, pedi à igreja de que participo para orar por mim, porque no dia seguinte, às nove da manhã, eu visitaria um irmão bastante enfermo. Eu queria que Deus me desse palavras inspiradas. A igreja orou por mim e eu recebi a revelação de Deus. Não me lembro de tudo o que disse, mas as palavras fluíram naturalmente, os versículos bíblicos vieram de cor, a oração saiu profunda. Esta é uma experiência que Deus promete a


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todo cristão como fruto da oração, própria e dos outros. Jesus confere, ainda, à sua igreja a suprema grandeza do seu poder (verso 19), grandeza necessária para viver com inteireza a sua vocação de comunidade voltada para o futuro (esperança) e para fora (chamamento) e para fruir desde já a riqueza da sua herança. Não há poder na igreja, mas há força no poder do Senhor da igreja. Sem esta capacitação, a igreja não consegue realizar sua missão. O poder da igreja é o poder do Senhor da igreja. Esta certeza nos adverte contra toda a empáfia. Não há privilégio neste poder, mas apenas uma imensa responsabilidade. Por sua natureza, a igreja é a organização mais importante do mundo, precisamente porque não busca seu próprio bem-estar, mas o das pessoas que não a integram, estejam onde quer que estejam. O mundo, no entanto, não está nem aí para a igreja, nem mesmo para sua dimensão institucional (seus cultos, sua propriedade). Em parte, não está nem aí para a igreja por causa do seu orgulho ensimesmado. Temos nos comportado mais como João Batista, que esperava que os pecadores fossem ao seu encontro, e menos como Jesus, que ia ao encontro das multidões.


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Este conflito só pode ser resolvido com a humildade do serviço. Se a igreja quer ser relevante, deve lavar os pés do mundo, não se colocar num pedestal esperando que o mundo lhe engraxe as bases sobre a qual está erigida. A COMUNIDADE DA PLENITUDE A igreja é a comunidade da plenitude de Cristo. Eis o que diz o apóstolo: Deus pôs todas as coisas debaixo dos [seus] pés e, para ser o cabeça sobre todas [est]as coisas, deu [Cristo] à igreja, [igreja que] é o seu corpo, a plenitude dAquele que a tudo enche em todas as coisas (versos 22,23). Uma forma de entender esta afirmação é que Cristo precisa da igreja para que Sua plenitude fique completa. A igreja é o corpo de Cristo e Cristo é a cabeça da igreja. Cristo e igreja formam uma unidade. Cristo completa a igreja e a igreja completa Cristo - Sem Cristo, a igreja não tem cabeça. Cristo completa a igreja ao se dar para a salvação de todos aqueles que cremos. Sem a redenção, isto é, sem o seu oferecimento para extinguir a nossa culpa, estaríamos todos ainda condenados. Condenados vivem em prisões, nunca na liberdade da fé e da adoração, nunca numa comunidade de redimidos, isto é, nunca numa


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comunidade de salvos. Cristo completa a igreja ao estar com ela. A promessa final de Jesus continua a nos encher de esperança: Ele está e estará conosco até o fim dos séculos. Quando a igreja está vazia, é porque dispensou Jesus dos seus alvos. Quando eu estou vazio, é porque dispensei Jesus da minha experiência diária. Quando você está vazio, é porque dispensou Jesus da sua vida. Não há como estar com Jesus e estar vazio, porque Ele ilumina os nossos olhos e preenche os nossos corações. Temos colocado tanta mobília no interior de nossas vidas que Jesus não cabe mais. Quando o aceitamos, nós o colocamos na sala. Depois, em nome da intimidade, nós o levamos para o quarto. Em busca de mais espaço, nós o transferimos para um quartinho qualquer, bem escuro, para que não o vejamos. A promessa da presença de Jesus continua viva. Não houve nenhuma mudança em Deus. Se estamos vazios, é porque houve mudança em nós. Temos multiplicado o tempo do nosso dia. Quando o aceitamos como Senhor e Salvador, passávamos muito tempo com Ele. Ainda lembramos daquele momento? Depois, Ele foi deixando de ser uma companhia assim tão agradável, que fomos trocando por outras presenças. Nossas horas


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com Ele se tornaram em minutos, os minutos em segundos, os segundos em ausências. Podemos medir o tempo que gastamos com Ele pelo tempo que passamos na igreja. Segundo uma ampla pesquisa, feita nos Estados Unidos, apenas 56% dos evangélicos americanos vão à igreja pelo menos uma vez por semana.1 Não temos semelhante pesquisa no Brasil, mas podemos fazer nossas inferências. Penso que, sem uma congregação que compareça aos seus cultos, uma igreja não consegue vitalidade, porque membros de igreja que não se ajuntam para ouvir ao seu Deus não dão prioridade ao Senhor que dizem servir, não levam a sério o Senhor em quem dizem crer. Igreja é comunidade. Sei que eu sou igreja onde eu estou, mas, se estiver sozinho, eu serei fraco. A comunidade é uma providência de Deus para o meu crescimento. Cristo completa a igreja ao edificá-la. Sua promessa inicial foi: "eu edificarei a minha igreja" (Mateus 16.18). Para que Ele edifique a igreja, a igreja precisa, pelo menos, se reunir. A igreja não está dada, porque é edificada... edificada por Jesus. É por isto que A National and International Study of Congregations. Disponível em http://www.uscongregations.org. Acessado em 18.8.2002. 1


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Paulo chama a igreja de lavoura de Deus, edifício de Deus (1 Coríntios 3.9), indicando bem que estamos em construção. Todos os dons que Ele entrega aos cristãos são para o crescimento da igreja, não para o crescimento do cristão em particular. Uma leitura aberta de Romanos 12.6-8, 1Coríntios 12.7-11, Efésios 4.11 e 1Coríntios 12.27-31, associada com outros textos, autoriza-nos a pensar que os dons espirituais são de quatro tipos: motivacionais (que nos motivam em nossos ministérios como um estilo de vida), manifestacionais (habilidades sobrenaturais dadas pelo Espírito Santo para uma ação que supere os limites da razão), funcionais (que requerem preparo específico e tempo prioritário para o seu exercício) e voluntários (que não são indispensáveis, como o martírio). São sempre dons para os outros, dons para a edificação. A igreja completa Cristo e Cristo completa a igreja -- Sem a igreja, Cristo não tem corpo. A igreja completa Cristo quando se deixa ser a comunidade de Cristo. Quando ela sabe que pertence ao Senhor, ela completa Cristo. Ela completa Cristo quando se transforma numa espécie de coração onde Cristo pode habitar, sem sustos, sem ameaças de expulsão. A igreja tem que ser a casa de Jesus. O meu coração tem que ser


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o santuário de Jesus. Quando esteve pela Palestina, Ele não tinha onde reclinar a cabeça. Agora, no entanto, minha vida é a sua casa. Este é o meu desejo, que deve ser o de todo cristão. A igreja completa Cristo quando está conectada à mente de Cristo. Se o meu computador não está ligado ao provedor, não tenho como acessar as informações que a internet tem. Como corpo, a igreja precisa estar ligada à cabeça. A vontade da igreja tem que ser a vontade de Jesus. O desejo da igreja tem que ser o desejo de Jesus. Uma pergunta, a esta altura, é se o cristão tem que renunciar a pensar por si mesmo para pensar com a cabeça de Cristo. Somos livres para pensar, mas não devemos usar a nossa liberdade para desobedecer, para fazer o que achamos ser o melhor. Paulo nos ensina que as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão (2 Coríntios 10.4-6). Em termos tecnológicos, somos livres para nos conectar ao provedor Jesus Cristo. Em termos filosóficos, somos livres para desenvolver os postulados que Jesus Cristo


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nos lega. Pôr os nossos postulados ao lado ou acima dos de Cristo é altivez, que precisa ser destruída. O cristão alcança sua plenitude quando está conectado a Cristo. A igreja completa Cristo quando estende a abrangência geográfica e demográfica da Sua obra redentiva. Sem a igreja, a morte de Jesus ficaria restrita ao primeiro século. Graças a Deus, os limites do espaço e do tempo foram rompidos, e o Evangelho chegou até nós. O futuro daqueles que ainda vão nascer depende do compromisso da igreja em estender o alcance da graça para além do presente. O preocupante é saber que 54% dos membros de igreja (nos EUA) não convidaram sequer uma pessoa para ir à sua igreja no ano anterior à realização da pesquisa mencionada. O Evangelho transforma as vidas, mas só a partir do ouvir a Palavra de Deus. Quem não quer obedecer ao "ide" de Jesus não precisa deixar a igreja, porque já a deixou na prática. Quem apenas quer reter de Deus as suas bênçãos ainda não entendeu a extensão da riqueza dos tesouros de Deus. A soberania do Pai quis que sejamos seus cooperadores, como nos ensina Paulo em outro lugar (1 Coríntios 3.9). Jesus foi dado à igreja, para que a igreja o desse ao mundo, para que este fosse salvo.


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Quero desafiar você, então, a firmar pelo menos seis compromissos com a sua igreja: Participar de, pelo menos, um culto por semana na igreja. Preservar a unidade e a diversidade da igreja. Cooperar para que a igreja seja acolhedora, para que não fique ninguém "de fora". Ser dizimista. Integrar-se a, pelo menos, um ministério da igreja. Orar (sozinho ou em grupo) pelo menos 15 minutos por dia. Ler pelo menos 15 capítulos da Bíblia por semana.


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4 OS DONS DO ESPÍRITO PARA A EDIFICAÇÃO DA IGREJA Entretanto, busquem com dedicação os melhores dons. Passo agora a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente (1Coríntios 12.31). 2 Os dons que Jesus Cristo concede à igreja por meio do Espírito Santo podem ser classificados em quatro grupos: motivacionais, manifestacionais, funcionais e voluntários2. O seu exercício, sempre para a edificação, tanto da igreja como de quem os recebe, demanda fé em Cristo como Senhor e a prática do amor em decorrência dessa fé. No Novo Testamento grego, a palavra mais comumente usada para dons espirituais é “cárisma” 3 Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas são extraídas da Nova Versão Internacional (NVI). Sou grato, aqui, ao prof. Ruben Marcelino, pela colaboração neste capítulo. 3 A palavra “doréa” significa “dom”, “dádiva”, “presente”. Aparece no Novo Testamento grego com os seguintes sentidos: 1) O Espírito Santo como dom: At 2.38; 8.20; 10.45; 11.17; Ef 3.7; 4.7; Hb 6.4. 2) A redenção: Rm 5.15,17; 2Co 9.15. 3) A vida eterna: Jo 4.10. 4) Algo 2


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(singular) ou “carísmata” (plural). Ela vem de “cáris” (graça). Um dom espiritual é, então, uma oferta da graça. Assim, o dom espiritual é uma capacidade dada por Deus para o ministério (serviço) cristão, para a edificação da igreja, que assim se capacita para cumprir a sua missão. Um dom espiritual é uma habilidade espiritual, transitória ou permanente, dada a alguém pelo Espírito Santo para ser usada na igreja local, visando a edificação dos crentes. Trata-se, portanto, de algo diferente de uma habilidade natural. Cantar, tocar, pregar são habilidades naturais. Qualquer pessoa que tenha essas competências pode realizá-las. No entanto, só edifica realmente a igreja quem recebe um dom espiritual. Mesmo que a habilidade natural seja pequena, a habilidade espiritual faz que o seu uso se torne excelente, não para arrancar aplausos, mas para edificar, o que implica, no caso dos dons publicamente manifestos, apontar para Jesus Cristo, e não para quem tem o dom.

recebido gratuitamente: Mt 10.8; Rm 3.24; 2Co 11.7; Ef 3.7; 2Ts 3.8; Ap 21.6; 22.17. 5) Uma ação sem motivo: Jo 15.25; Gl 2.21.


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EQUÍVOCOS E ACERTOS EM RELAÇÃO AOS DONS E CONSEQÜENTES PREJUÍZOS Sem a intenção de desenvolver o tema dos equívocos que temos cometido em relação aos dons, vou apenas fazer uma lista de nossas atitudes equivocadas, para, em seguida, enumerar os comportamentos corretos. Atitudes equivocadas Noto quatro atitudes que devemos evitar: Mau uso dos dons (fins pessoais, autopromoção) Desinteresse acerca dos dons Desconhecimento do que sejam os dons Medo de ter dons Compreensões equivocadas Estas atitudes nascem de algumas visões teológicas equivocadas, que relaciono a seguir: O racionalismo, segundo o qual o Espírito Santo não dá mais dons a ninguém. O resultado é o


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cessacionismo (Deus cessou com os dons, dados para uma determinada época, não mais para hoje). O sacerdotalismo ensina que o Espírito Santo dá dons só aos sacerdotes (pastores, ministros). O carismatismo prega que o Espírito Santo concede dons a “algumas” pessoas, além dos sacerdotes. Prejuízos As conseqüências desses ensinos são terríveis, e menciono algumas delas: Manutenção de uma crença num Deus ausente (num quase deísmo, a crença antiga de que Deus é como um relojoeiro que deu corda no mundo e se ausentou dele, para que cada um se vire como puder). Consumo dos dons dos outros (do pregador, do cantor, do profeta etc.). Nesse caso, os crentes tristemente se consideram ou são considerados os beneficiários dos dons que os portadores de carismas têm.


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Falta de prazer na salvação e na vida cristã. É a vida sem poder, essa tragédia da igreja (como escreveu Tozer). Acertos em relação aos dons e seus benefícios Uma boa teologia acerca dos dons precisa reafirmar três verdades: O Espírito Santo ainda concede dons. O Espírito Santo concede dons a todos. O Espírito Santo concede dons a todos os que os buscam. Os benefícios são evidentes: Conhecimento pessoal de que o Espírito Santo não mudou (“... sem sombra de variação” – Tg 1.174). Deus é presente e atuante. Alegria com o fato de que o Espírito Santo trabalha por meio das pessoas. Deus é um Deus

Versão Revisada da tradução de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego (MT). 4


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que se relaciona, que coopera e pede cooperação (cf. 2Co 6.1). Experiência de uma vida cristã no Espírito Santo (excelente, na busca dos melhores dons). O dom é exercício. O exercício dos dons é o oxigênio da vida cristã. A NATUREZA DOS MELHORES DONS Leiamos a recomendação paulina: Entretanto, busquem com dedicação os melhores dons. Passo agora a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente (1Co 12.31). A instrução não é dirigida a uma pessoa (“busque”), mas à igreja (“busquem”). Como igreja, devemos desejar com “dedicação” (ou com “zelo”5) que os melhores dons se manifestem entre nós.6 E quais são Versão Revisada da tradução de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego (MT); Edição Revista e Atualizada da tradução de João Ferreira de Almeida (ARA). 6 A Bíblia de Jerusalém (Nova edição, revista – 1985) traz: “Aspirai aos dons mais altos. Aliás, passo a indicar-vos um caminho que ultrapassa a todos”. 5


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esses melhores dons? O critério de valor é o grau de edificação da comunidade. Quanto mais um dom edifica a igreja, mais elevado (mais digno de ser buscado) ele é. Entendemos melhor essa hierarquia quando lemos a segunda parte do versículo: “Passo agora a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente” (1Co 12.31b). Os melhores dons são aqueles que edificam a igreja. Devem todos ser desenvolvidos no caminho do amor, que permite a unidade. O caminho mais excelente tem como realização maior o fruto do Espírito.7 Como escreveu Ray Stedman, “há uma grande diferença entre os dons do Espírito e o fruto do Espírito. O fruto do Espírito é aquilo que Deus busca, ou seja, o caráter de Cristo se formando em nós. Os dons são dados para nos capacitar a alcançar, crescentemente e por meio do exercício mútuo, o fruto do Espírito”.8 Os dons são os trilhos pelos quais viaja o fruto do Espírito. Não por acaso, os dons estão no “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5.22,23, ARA). 8 STEDMAN, Ray C. How the body works. Disponível em: http://www.pbc.org/dp/stedman/1corinthians/3597.html. Acessado em 30.1.2004. 7


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plural, porque são múltiplos, e o fruto está no singular, porque é a meta única de todo cristão. A hierarquia, portanto, está dada: o melhor dom é o que mais contribui para a edificação da igreja. Uma igreja sem dons é como um cadáver. A vida da igreja são os seus dons. É por isso que não é possível haver um crente sem dons. Não pode haver um crente sem que nele habite o Espírito Santo. Nossa vida cristã será mais saudável quando entendermos, na doutrina e na prática, que o Espírito Santo nos ministra por meio dos dons, que são vários. UMA CLASSIFICAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS O Novo Testamento nos apresenta várias relações de dons espirituais. Ei-los, segundo uma classificação que pode nos ajudar a compreendê-los, para os buscar. Os dons motivacionais (Rm 12.4-8) Base bíblica principal: Rm 12.4-8 O dom motivacional é uma característica que integra de modo profundo a nossa personalidade,


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transformada pelo Espírito Santo, e nos motiva em nossos ministérios,9 constituindo-se no nosso estilo de vida. Todos devem ter cada um desses dons, mas em alguns cristãos eles são um estilo de vida. Profecia expositiva Ensino Encorajamento Liderança Contribuição financeira Serviço Misericórdia Socorros Hospitalidade (1Pe 4.9) Os dons manifestacionais (1Co 12.7-11) Base bíblica principal: 1Co 12.7-11. O dom manifestacional é uma habilidade sobrenatural dada pelo Espírito Santo para uma ação que supere os limites da razão.10 9

KORNFIELD, David. Desenvolvendo dons espirituais e equipes de ministério, p. 45. 10 bid., p. 175.


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Profecia circunstancial Palavra de conhecimento Palavra de sabedoria Fé Operações de milagres Dons de curas Discernimentos de espíritos Variedades de línguas Interpretação de línguas Intercessão Exorcismo Os dons funcionais (1Co 12.27-31; Ef 4.11) Bases bíblicas principais: 1Co 12.27-31; Ef 4.11. Habilidades que integram vários dons e que requerem preparo específico e tempo prioritário para o seu exercício. O dom é sempre dom para o outro. Apostolado Profecia proclamadora Evangelização


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Missões (At 11.19-26) Pastorado Ensino coletivo (Professor) Administração Arte (Êx 31.1-11) Os dons voluntários (1Co 7.7; 13.3a, b) Bases bíblicas principais: 1Co 7.7; 13.3a, b Celibato (1Co 7.7) Pobreza (1Co 13.3a) Martírio (1Co 13.3b) Os dons motivacionais Base bíblica principal: Rm 12.4-8 O dom motivacional é uma característica que integra de modo profundo a nossa personalidade, transformada pelo Espírito Santo, e nos motiva em nossos ministérios,11 constituindo-se no nosso estilo de vida.

11

KORNFIELD, David. Op. cit., p. 45.


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Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros. Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria (Rm 12.68). Os dons da palavra organizada Profecia expositiva (Rm 12.6) – “profetéia”. Expressa-se no interesse em comunicar (expor de forma apropriada) uma mensagem tomada da Bíblia, de modo que gere entendimento, correção, 12 arrependimento ou edificação. A forma por excelência da profecia é a pregação. Ensino (Rm 12.7; 1Co 12.28; Ef 4.11) – “didaskalia” É marcado pelo gosto por explicar a Bíblia, 12

Deve ser distinto das suas dimensões funcional (pregação) e manifestacional (palavras dadas para momentos específicos).


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de modo claro e relevante, a fim de que haja aprendizagem e aplicação. A forma por excelência é a aula ou o estudo bíblico. Encorajamento (“exortação” [ARA]; Rm 12.8a; 1Ts 2.11-12; 4.18) – “paráklesis”. Caracteriza-se por uma inclinação para abençoar pessoas por meio de palavras e ações de ânimo, estímulo ou elogio; encorajar é pôr-se ao lado de alguém como “parácleto” para confortar, aconselhar, exortar, ajudar. Pode incluir a exortação no sentido de admoestação, correção, disciplina. Barnabé tinha o dom do encorajamento (At 4.36; 9.26-30; 15.36-41). É um dom indispensável para quem quer atuar no ministério de aconselhamento. Liderança (“presidir” [ARA]; Rm 12.8c; 1Ts 5.12; 1Tm 5.17) – “prohístemi”13. Mostra-se no empenho em levar a igreja a perceber os propósitos de Deus e motivar e mobilizar pessoas para a sua realização. Liderar é ter e passar uma visão. Tito talvez tenha exercitado o dom da liderança (Tt 1.5). 13

Nas passagens citadas, “prohístemi” aparece em formas do particípio, portanto como adjetivo: Rm 12.8c – “hó prohistámenos”, “o-presidindo”, “aquele que preside”, “o presidente”; 1Ts 5.12 – “tus prohistaménus”, “os-presidindo”, “aqueles que presidem”, “os presidentes”; 1Tm 5.17 – “hói proestôtes”, “os-presidindo”, “aqueles que vêm presidindo”, “os presidentes”.


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Os dons das mãos estendidas Contribuição financeira (“repartir” [MT]; Rm 12.8b) – “metadídomi” 14. É o compromisso em entregar generosa e alegremente (empregar, investir, repartir, compartilhar) recursos financeiros para a promoção do Reino de Deus por meio da igreja. Quem tem este dom não pergunta: “Quanto devo dar ao Senhor?”, mas “De quanto preciso para me sustentar?”. É para ser exercido por quem tem muitos e por quem tem poucos recursos. Todos devem se comprometer a compartilhar seus recursos, mas alguns têm um dom especial para atuar nessa área. Quem tem esse dom sabe que o que possui pertence a Deus, portando-se como um administrador. Quem tem este dom não vive apenas para acumular para si mesmo. Quando acumula, é para abençoar. Quem tem esse dom não é ansioso quanto à vida material. É o caso da viúva pobre (Mc 12.42), que não se preocupou com o fato de ficar sem... Serviço (“ministério” [ARA]; Rm 12.7; 1Pe 4.11) – “diakonia”

14

Rm 12.8b –“hó metadidus”, “o-repartindo”, “aquele que reparte”.


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É ter prazer em identificar e suprir necessidades da comunidade (não de indivíduos) por meio de projetos pessoais ou sociais (diaconia, ação social, ministério). Quem tem esse dom dedica-se mais à ação do que à palavra. Esse dom foi demonstrado por várias pessoas no Novo Testamento (At 9.36-39 – Dorcas; Rm 16.1-2 – Áqüila e Priscila; 1Co 16.15-18 – oferta dos coríntios para a comunidade cristã de Jerusalém). É um dom difícil porque a diaconia não tem fim. Os pobres, disse Jesus, sempre teremos conosco (Mt 26.11), não como desejo dele, mas como realidade que devemos combater. Demanda indignação. Exige discernimento. Um exemplo é Dorcas: Em Jope havia uma discípula chamada Tabita, que em grego é Dorcas, que se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas. Naqueles dias ela ficou doente e morreu, e seu corpo foi lavado e colocado num quarto do andar superior. [...] Pedro foi com eles e, quando chegou, foi levado para o quarto do andar superior. Todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrandolhe os vestidos e outras roupas que Dorcas tinha feito quando ainda estava com elas. Pedro mandou que todos saíssem do quarto; depois, ajoelhou-se e orou. Voltando-se para a mulher


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morta, disse: “Tabita, levante-se”. Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se (At 9.36-40). Misericórdia (Rm 12.8d; Gl 6.10) – “éleos”. Desejo de se identificar (demonstrando empatia ou compaixão) com as carências das pessoas individualmente em situações de aflição, ajudando-as a se superarem por meio de uma doação (de dinheiro, gênero ou emprego), sem esperar retorno. Todos os cristãos devem ser misericordiosos (Tg 2.15-16), mas quem tem esse dom é capacitado para ajudar pessoas em situações de miséria, aliviando o seu sofrimento, visitando enfermos, animando os idosos, apoiando deficientes físicos e mentais, ajudando presos, desassistidos e solitários. Um dos maiores exemplos na Bíblia é Onesíforo: O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; ao contrário, quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar. Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor! Você sabe muito bem quantos serviços ele me prestou em Éfeso (2Tm 1.16-18). Socorros (“socorros” [ARA]; “prestar ajuda” [NVI]; 1Co 12.28) – “antílempsis”.


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Evidencia-se pelo gosto em colocar seus talentos (“nos bastidores”) a serviço de outra pessoa (individualmente), que é assim liberada para desenvolver seus dons. Tem prazer em fazer as coisas da rotina, atribuindo-lhes um valor espiritual. Há secretárias que têm a habilidade do secretariado, mas não têm o dom do socorro; por isso, são apenas razoáveis, falta-lhes o espírito de amor e o prazer da disposição. Durante décadas, por exemplo, Billy Graham teve um “segundo” que lhe permitiu realizar o ministério que desenvolveu. Quem tem esse dom é marcado por um estilo mais de fazer do que de falar (Kenneth Gangel). A palavra “socorro” significa originalmente tomar o peso (ou carga) de alguém, o que lhe dá um sentido amplo, inclusive ao chamado serviço do diaconato. Um exemplo notável na Bíblia é Febe, mencionada como diácono da igreja em Cencréia. Eis o que dela diz o apóstolo Paulo: Recomendo-lhes nossa irmã Febe, serva [diácono] da igreja em Cencréia. Peço que a recebam no Senhor, de maneira digna dos santos, e lhe prestem a ajuda [assistência] de que venha a necessitar; pois tem sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para mim (Rm 16.1-2). O missionário Paulo não chama Febe de diaconisa, mas


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de “diácono”, como a indicar não um título, mas uma atitude de vida. Em outras palavras: “socorram-na da mesma forma que ela tem socorrido a tanta gente, inclusive a mim mesmo, Paulo. Socorram-na, porque ela é uma socorredora”. Febe talvez não tivesse um cargo, mas levava as cargas dos outros ao socorrê-los em suas necessidades pessoais. Quando teve de ir a Roma para resolver algum problema pessoal, Paulo a recomendou aos romanos. Precisamos de mais Febes em nossas igrejas, homens e mulheres que não se sintam felizes apenas quando forem eleitos para alguma função que lhes dê alguma honra. Precisamos de pessoas que, quando precisarem, possam ser recomendadas: “assistam a esta pessoa, não apenas porque este é um dever cristão, mas porque a biografia dela a recomenda”. Uma pessoa com esse dom detesta estar no palco, porque prefere atuar nos bastidores de uma igreja eficaz. Há muitas tarefas invisíveis desenvolvidas na igreja que são realmente feitas por pessoas com esse dom. Essas pessoas preparam materiais para os professores da escola bíblica, e ninguém sabe quem são elas; tomam conta de serviços ligados ao culto (como


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som, ornamentação, filmagem), mesmo que ninguém saiba seus nomes e, logo, nunca agradeçam; fazem doações generosas (não burocráticas, do tipo desencargo de consciência) e muitas vezes anônimas de dinheiro (para pagar os remédios de alguém que não sabem quem é) ou gêneros alimentícios (para alimentar quem não conhecem). São essas pessoas que levam adiante o cristianismo ao levarem as cargas dos outros. Hospitalidade (1Pe 4.9) – “filoxenia”.15 O dom da hospitalidade se torna claro na alegria em prover abrigo (inclusive hospedagem e alimento, se for o caso), recepção e comunhão calorosa a alguém, criando um ambiente em que as pessoas se sintam valorizadas. Uma pessoa com o dom da hospitalidade é alguém que tem uma habilidade especial para prestar atenção ao convidado.16 O exercício desse dom testifica do suprimento de Deus para os seus filhos. Embora todos os cristãos devam demonstrar hospitalidade, alguns são especialmente capacitados para servir nessa 15

1Pe 4.9 – “filóxenoi”, “hospitaleiros”. 16 VERSTEEG, Bill. The gift of hospitality. Disponível em: http://www.pbv.thunderbay.on.ca/NetSermons/1pet4ser.html. Acessado em 1.5.2004. 16 VERSTEEG, Bill. The gift of hospitality. Disponível em: http://www.pbv.thunderbay.on.ca/NetSermons/1pet4ser.html. Acessado em 1.5.2004.


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área. Áqüila e Priscila tinham esse dom e receberam uma igreja em sua casa (At 18.1-3; 24-26; Rm 16.3-5). Pensando neles e em tantos que o receberam ao longo do seu ministério, o apóstolo Paulo ensinou: Compartilhem o que vocês têm com os santos em suas necessidades. Pratiquem a hospitalidade (Rm 12.13). A Bíblia valoriza tanto esse dom que chama de anjos aqueles que são recebidos: Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos (Hb 13.2). Muitos cristãos têm perdido a oportunidade de receber anjos em casa. Sou grato a Deus porque meus pais povoaram a minha casa de anjos. Um deles era um tanto estranho. Eu devia ter uns 4 anos e morava em Santo Onofre, no interior do Espírito Santo. Periodicamente nossa casa estava cheia. Parece que todos os crentes que iam até aquela cidade passavam por nossa casa. Um dia, a casa encheu. Meu pai providenciou um hotel para um dos excedentes, que deu uma resposta que marcou a minha relação com as palavras. – Derly, eu prefiro dormir aqui, debaixo dessa mesa, a ir para o dormitório. Meu pai brincou: – Você está com medo, irmão. Ele respondeu: – Medo, não! Eu não tenho medo de nada! Meu pai: – Então você não está com medo. Está com


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cisma. O hóspede: – Sim, estou com cisma, mas medo, não. Recebíamos muita gente. Nessa época, um pastor, chamado Enéias, marcou-me porque tentou me ensinar a estalar a língua dentro da boca. Quase 50 anos depois, ainda ouço esse som. Na adolescência, dormiu no meu quarto (que sempre teve duas camas, para receber os hóspedes masculinos na casa...) outro Enéas, este Tognini, um dos maiores pregadores de todos os tempos. Minha infância e adolescência foram povoadas por anjos, e só hoje eu sei disso. Aquele que tem o dom da hospitalidade exercerá esse dom e manterá um bom espírito no ambiente onde vive (1Pe 4.9). O hospitaleiro ama o outro como se sua vida dependesse disso, certo de que o amor compensa tudo. Seja pronto para dar comida ao faminto, cama ao sem-teto com alegria. Seja generoso com as diferentes coisas que Deus lhe deu (1Pe 4.8-10). Não podemos esquecer que o cristianismo é a religião das mãos abertas, dos corações abertos e das portas abertas. Assim, quando amamos e servimos aos outros da comunidade por meio da hospitalidade, também servimos a Deus.


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Muitos cristãos concentram-se no que não têm, em lugar de compartilhar as bênçãos de Deus, em lugar de tornarem suas casas em santuários para aqueles que Deus envia. “Deus usa pessoas como eu e você para tocar a vida de outros. Quando praticamos a hospitalidade, temos a oportunidade de tocar vidas de um modo íntimo e pessoal”.17 Os dons motivacionais, então, podem ser divididos em dois grupos: os da Palavra Organizada (profecia expositiva, ensino, encorajamento e liderança) e os das Mãos Estendidas (contribuição financeira, serviço, misericórdia, socorros e hospitalidade). A igreja precisa desses dons para a sua edificação. É para isso que o Espírito Santo dota a igreja (isto é, os seus membros) com dons. Uma igreja sem dons é uma igreja sem o Espírito Santo, e uma igreja sem o Espírito Santo tem tanto poder quanto um clube... Você concorda com esta afirmativa? Talvez você passe os olhos pela lista e fique grato por ter algum(ns) dele(s). Desejo que você use o que Deus lhe deu para que haja um desenvolvimento que abençoe sua igreja e 17

SHARP, Kathy Chapman. Christian hospitality. Disponível em: http://www.lifeway.com/lwc/article_main _page/0,1703,A%253D150124%2526M%253D50019,00.html. Acessado em 2.5.2004.


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glorifique o dono desse(s) dom(ns), que é Deus. Talvez você passe os olhos pela lista e fique feliz por não ter nenhum deles, feliz porque assim não tem de usar. Pode ser que alguém diga: “Que pena! Não tenho nenhum dom. Logo, não tenho nenhuma responsabilidade”. Se você pensa assim, tenho uma péssima notícia: todo cristão tem um ou mais dons. Se você acha que não tem nenhum, tem algo errado com você. Na verdade, você tem um dom; apenas o desconhece; porque não quer ou não busca saber. Deus tem muito para lhe dar, e as suas dádivas começam com a sua salvação e continuam com os dons que concede a você e a outros. Há algo mais: as qualidades relacionadas aos dons devem ser desenvolvidas por todos os cristãos. Todos devemos ensinar, se temos a oportunidade, mesmo que não tenhamos o dom. Todos devemos encorajar os necessitados, mesmo que o encorajamento não seja o nosso dom. Todos devemos contribuir financeiramente para a igreja, mesmo que não encontremos muito prazer nisso, por não termos o dom da contribuição. Todos devemos prestar ajuda a quem precisa, mesmo que o nosso dom seja outro. Portanto, tomemos cuidado para não nos escondermos atrás da afirmação


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de que não temos dons. O não uso de dons é sinal de pobreza espiritual. Os dons manifestacionais Base bíblica principal: 1Co 12.7-11 O dom manifestacional é uma habilidade sobrenatural dada pelo Espírito Santo para uma ação que supere os limites da razão.18 Profecia circunstancial Palavra de conhecimento Palavra de sabedoria Fé Operações de milagres Dons de curas Discernimentos de espíritos Variedades de línguas Interpretação de línguas Intercessão Exorcismo Profecia circunstancial (1Co 12.10) – “profetéia”. 18

KORNFIELD, David. Op. cit., p. 175.


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É a capacitação para “dizer algo que Deus traz de modo espontâneo à mente”. 19 Quem tem este dom recebe e transmite “uma mensagem imediata de Deus por meio de uma palavra divinamente ungida para uma situação específica”. 20 Paulo (1Co 14.1, 5, 39) estimula o uso desse dom “porque todos os filhos de Deus devem aprender a ser atentos à voz de Deus, podendo ouvi-Lo em situações específicas”.21 Esse dom acontece espontaneamente em qualquer momento e lugar (1Co 14.29-35); pode ser recebido por qualquer crente; é de duração geralmente breve (para aquela circunstância) e visa exaltar a Cristo.22 Por ser tão poderoso, esse dom deve ser exercido segundo regras claras (cf. At 21.4, 7-12; 1Co 14.29-38; 1Ts 5.19-21): A profecia deve ser submetida à Bíblia. A profecia deve ser submetida à liderança da igreja. O caráter do profeta deve refletir o caráter de Cristo. 19

GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática, p. 892. KORNFIELD, David. Op. cit., p. 80. 20 KORNFIELD, David. Op. cit., p. 79. 21 Ibid. 22 KORNFIELD, David. Op. cit., p. 80.


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O conteúdo da profecia deve edificar a igreja, não uma pessoa, nem trazer confusão. “Profecias que dizem a outras pessoas o que elas devem fazer precisam ser encaradas com muita suspeita”.23 Uma das dimensões da profecia é a crítica social, no estilo dos profetas do Antigo Testamento e de João Batista. Palavra de conhecimento (1Co 12.8b) – “lógos gnóseos”. É a capacitação para descobrir a verdade para uma situação específica. É um dom distinto da profecia (receber e falar), porque pode não incluir a dimensão comunicativa, e dos discernimentos de espíritos, porque não inclui necessariamente a dimensão do desmascaramento do erro. Quem tem este dom é especialmente capacitado pelo Espírito Santo a aprender coisas que a igreja precisa saber. É uma aprendizagem espiritual porque quem recebeu esse dom não sabe explicar como descobriu certas verdades. Em termos práticos, esse dom pode se manifestar, por exemplo, por meio do planejamento de alguma atividade na igreja, planejamento que exige 23

HARPER, Michael apud. GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 882.


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conhecimento do que se vai fazer, quem vai fazer e como se vai fazer. Alguém que, mesmo sem formação técnica, dedica-se a pesquisar a história da igreja com prazer manifesta este dom. Um tradutor da Bíblia para outro dialeto ou idioma precisa desse dom, pois essa atividade demanda um conhecimento não apenas acadêmico. Palavra de sabedoria (1Co 12.8a) – “lógos sofias”. É a capacitação para aplicar a verdade na hora certa. Quem tem este dom tem uma mente prática, com a capacidade de encontrar a solução para o problema. “Quando uma pessoa dotada do dom da sabedoria fala, os demais membros do Corpo sabem que a verdade foi dita e que foi recomendado o procedimento correto”. 24 Esse dom não tem que ver com uma formação acadêmica, porque é um dom de Deus. Antes, tem que ver com a capacidade de aplicar verdades espirituais para suprir necessidades específicas da igreja, especialmente em situações de tensão, apresentando as soluções divinas para os conflitos humanos. Fé (1Co 12.9a) – “pístis”.

24

WAGNER, C. Peter. Descubra seus dons espirituais, p. 223.


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É a capacitação para visualizar (quem tem este dom é um “visionário”, isto é, está à frente do seu tempo) o que Deus vai fazer, sem duvidar do Seu poder. Quem tem este dom age à luz das promessas de Deus. Esta “fé” aqui é diferente da fé em Jesus como Salvador ou da fé em Deus como Senhor (sustentador), que todo crente tem de ter. Por isso, não é para todos. É indispensável para um líder. Efésios 2 põe um aparente problema que precisa de resposta: Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões – pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em


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sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos. (Ef 2.1-10) A pergunta que o texto suscita é: “se a fé é um dom de Deus, que responsabilidade têm os incrédulos?”. O que o apóstolo Paulo diz, no texto, é que a salvação é um dom de Deus, como iniciativa dEle. Há duas ações no processo: a ação de Deus, chamada graça, alcança o seu efeito quando o homem responde, pela fé. Antes de a graça ser oferecida, nada podia ser feito pelo homem, que estava morto em seus pecados e não sabia que estava morto. Desde o evento da cruz, no entanto, essa graça se tornou universal. Desde então, o convite feito por Jesus continua online: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). A fé, portanto, é a resposta possível por causa da graça. Temos, assim, três usos para a palavra fé: Um é a fé para a salvação, que é a resposta humana ao oferecimento divino da graça.


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O segundo é a fé para a liderança, que é um dom de Deus que capacita o crente a ter uma visão que o habilita a ser um líder, a conduzir comunidades a novos tempos e a novas oportunidades. O terceiro é a fé para o exercício de ações sobrenaturais pelo poder do Espírito Santo. Jesus disse aos seus discípulos que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, eles fariam coisas grandiosas (Mt 17.20). Os dons manifestacionais serão concedidos a pessoas que têm esse tipo de fé, fé para o exercício do poder, concedido pelo Espírito Santo, igualmente para a edificação da comunidade, e não para a exaltação do usuário do dom. Operações de milagres (1Co 12.10a) – “energuémata dunámeon”. É a unção para se tornar um instrumento de Deus para a Sua intervenção sobrenatural, por meio de milagres ou maravilhas que superem as leis da natureza (mundo físico). A operação de milagres beneficia pessoas, revela o mistério de Deus e autentica o ministério da igreja. Uma das áreas do milagre, mas não a única, é a cura. Outras são: Livramentos de perigos físicos (At 5.19-20; 12.6-11)


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Atos poderosos de julgamento contra inimigos do evangelho ou contra pessoas na igreja que precisam de disciplina (At 5,1-11; 13.9-12) Proteções contra ferimentos (At 28.3-6) Poder sobre forças demoníacas (At 16.18)25 Em todos, fica em evidência a glória de Deus. Todos também devem contribuir para a edificação da igreja. Dons de curas (1Co 12.9b) – “carísmata iamáton”. Manifestam-se na unção para juntar-se a Deus na restauração (emocional e/ou física) de pessoas por meios extraordinários (sem uso de recursos naturais). Pessoas com esse dom “oram, tocam ou falam palavras que miraculosamente trazem cura para o corpo” 26 ou para a alma ferida. A efetivação da cura, no entanto, não depende de quem tem o dom, mas de Quem lho deu. A cura tem vários propósitos: Autenticar a mensagem do evangelho. 25

GRUDEM, Wayne. Op. Cit., p. 903. BUGBEE, Bruce; COUSINS, Don; HYBELS, Bill. Rede ministerial, p. 51. 26


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Trazer cura e conforto ao doente, demonstrando assim o atributo da misericórdia divina. Capacitar as pessoas para o serviço, ao remover impedimentos ao exercício do ministério. Prover oportunidade para a glorificação de Deus diante das provas concretas do Seu amor, bondade, poder, sabedoria e presença.27 A oração pela cura deve ser anterior, concomitante ou posterior ao uso dos recursos médicos. Jesus curava lançando mão de palavras ou de imposição de mãos, enquanto os seus discípulos também administravam a unção com óleo. Há alguns posicionamentos errados sobre a questão: “Jamais devemos orar por cura”. “Deus raramente cura hoje”. “Deus sempre cura hoje”.28 A atitude certa é pedir e esperar a cura, já que é Deus quem decide.29 27

GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 905. Ibid., p. 907. 29 Cf. AZEVEDO, Israel Belo. Posso pedir por cura. Sermão não publicado. GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 919. 28


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Aqueles que possuem esse dom não têm nenhum poder sobrenatural sobre as pessoas, porque são apenas “canais por meio dos quais Deus opera, quando Ele deseja curar”.30 Discernimentos de espíritos (1Co 12.10) – “diakríseis pneumáton”. É a capacitação para distinguir entre a verdade e o erro, para perceber se uma obra é de Deus ou de Satanás. Quem tem esse dom, é capacitado a “reconhecer a influência do Espírito Santo ou de espíritos demoníacos numa pessoa”.31 Pedro tinha esse dom, demonstrado quando revelou o espírito por trás de Simão, o Mago (At. 8.23). Este dom pode se apresentar em três níveis: Saber se uma conduta aparentemente correta é, na verdade, obra de Satanás. Perceber as motivações (piedosas ou carnais) de uma pessoa. Separar a verdade (doutrina correta) do erro (heresia), mesmo quando os motivos são legítimos.32 30

WAGNER, C. Peter. Op. cit., p. 241. GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 919. 32 WAGNER, C. Peter. Op. cit., p. 104. 31


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Variedades de línguas (1Co 12.10, 28) – “guéne glossôn33. É a unção para se comunicar por meio de uma língua naturalmente inexistente visando à edificação da igreja. Trata-se de uma “oração ou louvor expresso em sílabas não compreendidas por quem fala”. 34 É, portanto, um discurso brotado do Espírito e dirigido ao Pai (1Co 14.2). No Pentecostes, o dom se expressava por meio de línguas conhecidas (os estrangeiros entenderam o discurso de Pedro em suas próprias línguas), mas Pedro não conhecia essas línguas. Nas demais experiências do Novo Testamento, o dom se expressava por meio de línguas naturalmente inexistentes, como sons ininteligíveis ao falante. A síntese das experiências indica que hoje o dom pode se expressar na fala de uma língua conhecida do ouvinte, mas desconhecida do falante, ou numa fala ininteligível tanto para o falante quanto para o ouvinte,

33

A palavra “guénos” indica raça ou linhagem. No Novo Testamento, pode assumir os seguintes sentidos: 1. Família, descendência (p. ex., At 7.13; 17.28); 2. Nação, povo (p. ex., At 7.19; Gl 1.14); 3. Classe, gênero, espécie (p. ex., Mt 13.47; 1Co 12.10). GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego/português, p. 46. 34 GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 910.


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demandando que haja interpretação para ambos. Assim, o dom pode incluir: A fala devocional individual (talvez a língua dos anjos35 de 1Co 13.1) de uma língua não-natural para o crescimento próprio. A fala devocional comunitária de uma língua não-natural para a edificação da igreja. A fala de um idioma natural do ouvinte, nunca aprendido pelo falante. Há crentes maduros que buscaram falar em línguas, sem o conseguir. Embora cheios do Espírito, não receberam o dom de línguas.36 “Assim como nem 35

Damy Ferreira expõe uma outra opinião: “A idéia de que a língua de 1 Cor. 12 é língua de anjos, por causa de 1 Cor 13, não procede. Quando Paulo diz: „Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos...‟, ele está considerando algo impossível. Não se sabe que língua os anjos falam, e, na Bíblia, os anjos sempre falaram com homens e mulheres em linguagem de seres humanos”. Ele pensa que, assim como na ocasião de Pentecostes (At 2), o dom de línguas continuou a ser de idiomas falados pelos homens e, para isso, argumenta com base no emprego por Paulo, em 1Coríntios 12.10, da palavra “hermenéia”, cujo significado é “interpretação” e, segundo ele, utilizada em referência à interpretação de um idioma. FERREIRA, Damy. Os dons espirituais, p. 22-3. De “hermenéia” provém a palavra “hermenêutica” na língua portuguesa. 36 WAGNER, C. Peter. Op. cit., p. 237.


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todos os cristãos são apóstolos, nem todos são profetas ou mestres, nem todos possuem dons de cura, assim também nem todos falam em outras línguas”.37 Interpretação de línguas (1Co 12.10) – “hermenéia glossôn”. É a unção para interpretar as línguas espirituais. A interpretação pode vir do falante (1Co 14.13) ou de outra pessoa (1Co 14.27-28). A glossolalia38 em público demanda um intérprete (1Co 14.20), já que seu propósito é a edificação da igreja (1Co 14.5). Intercessão (1Tm 2.1) – “énteuxis”. É a capacitação para orar amorosa e persistentemente, regular e longamente por pessoas, independentemente dos resultados. Quem tem este dom pode passar horas ininterruptas prazerosamente em oração. Todo cristão deve orar, e isso não é um dom. Mas interceder, no sentido aqui usado, sim. Aqueles que possuem esse dom: Sentem-se constrangidos a orar com seriedade por alguém ou por um assunto. 37

GRUDEM, Wayne. Op. cit., p. 914. “Glossolalia” é o termo técnico utilizado em teologia para o fenômeno das línguas ditas “espirituais”, isto é, cuja elocução seja realizada sob o impulso do Espírito Santo. A palavra é formada pelo substantivo feminino “glôssa”, que significa “língua” (órgão da fala; idioma), e a forma verbal “laléo”, “eu falo”; ou “lalein”, “falar”. 38


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Estão conscientes da batalha espiritual diária e, assim, são compelidos a orar a respeito dessa realidade. Estão convencidos de que Deus age em resposta à oração. Oram quando tocados pelo Espírito, mesmo que não entendam o porquê. Agem com autoridade e poder em favor da proteção de outros e pela capacitação para servir.39 Exorcismo (At 16.16-18) – “ekbolé daimonion” (expulsão de demônios) 40. É a capacitação para expulsar demônios ou espíritos malignos, libertando pessoas desses domínios. Aparece sempre associado ao dom de discernimentos dos espíritos. Quem tem esse dom deve exercê-lo com cautela, oração, jejum e unção do Espírito Santo. 39

BUGBEE, Bruce; COUSINS, Don. HYBELS, Bill. Op. cit., p. 97. No Novo Testamento grego há apenas uma ocorrência da forma verbal “exorkízo”: “eu faço jurar”, “eu exijo juramento”, “eu faço jurar em nome de Deus” – Mt 26.63. O substantivo “exorkistés” (exorcista) ocorre também uma única vez, em At 19.13. Nessa passagem, o exorcista recorre a encantamentos para expelir espíritos maus. A palavra “exorkismós” (exorcismo) não é empregada no Novo Testamento grego. PEREIRA, Isidro. Dicionário grego-português e português-grego, p. 126 (2a parte), 200 (1a parte). 40


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Os dons funcionais Bases bíblicas principais: 1Co 12.27-31; Ef 4.11 Habilidades que integram vários dons e que requerem preparo específico e tempo prioritário para o seu exercício. Apostolado Profecia proclamadora Evangelização Missões (At 11.19-26) Pastorado Ensino coletivo (Professor) Administração Arte (Êx 31.1-11) Apostolado (1Co 12.28; Ef 4.11) – “apostolê”. É a capacitação espiritual para iniciar e supervisionar o desenvolvimento de igrejas ou ministérios com uma autoridade espontaneamente aceita e reconhecida. O apóstolo (homem ou mulher) 41 tem uma visão 41

A existência de “apóstolas” (no sentido de “missionárias”) entre as primeiras comunidades cristãs tem sido uma questão controversa. Tome-se, por exemplo, Rm 16.7, em que a palavra “apóstoloi”


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ampla, e não apenas limitada à igreja local. Sua liderança não depende de nenhum ofício. A posição de apóstolo dada aos primeiros discípulos era única e, pela sua característica, não existe mais. No entanto, o papel desempenhado por eles continua evidente até os dias de hoje em combinação com outros dons (e ofícios), sem o uso do título “apóstolo”.42

(apóstolos) aparece em conexão com duas pessoas mencionadas por Paulo: Andrônico e Júnias/Júnia. O problema surge por causa da forma de um dos nomes, masculina em alguns manuscritos gregos e feminina em outros. Sobre a forma “Iunian” (Júnias – masculina), Hendriksen considera que a maneira pela qual Paulo se refere àquelas personagens como apóstolos sugere que ambas eram homens (HENDRIKSEN, William. Comentário bíblico do Novo Testamento: Romanos, p. 665). Entretanto, sobre a forma “Iunían” (Júnia – feminina), Luise Schottroff faz um interessantíssimo comentário: “Numa lista de saudações, Paulo, com a maior naturalidade, fala da apóstola Júnia. A partir da Idade Média, e sobretudo por meio da tradução bíblica feita por Lutero, é que passou a prevalecer a opinião de que „Junia‟ não se referia a uma mulher, mas sim a um homem chamado Junias. Isto, apesar do fato de não existir documento algum que comprove a existência de tal nome de homem. Pelo fato de a pessoa ali mencionada ser chamada de „apóstolo‟ é que não deveria se tratar de uma mulher” (SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento: exegese numa perspectiva feminista, p. 86). BUGBEE, Bruce; COUSINS, Don; HYBELS, Bill. Op. Cit., p. 84. 42 BUGBEE, Bruce; COUSINS, Don; HYBELS, Bill. Op. Cit., p. 84.


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Profecia proclamadora (1Co 12.28; Ef 4.11) – “profetéia”. É a capacitação para a pregação. Exige treinamento específico e preparo prévio. Evangelização (Ef 4.11) 43 – “euanguelízein” (anunciar boas notícias). É a capacitação para comunicar, no contexto da sua cultura, o evangelho a pessoas sem fé, levando-as a se tornarem discípulas de Cristo e membros ativos do seu corpo. Quem tem este dom busca oportunidades para proclamar o amor de Deus, anunciando-o com competência, clareza e convicção, e desafiando as pessoas a aceitarem Jesus como Salvador e Senhor. Missões (“evangelização transcultural”, At 11.1926). É a capacitação para comunicar o evangelho em uma cultura diferente. Pedro não tinha esse dom, mas Paulo tinha (cf. At 13 – 28; Rm 15.17-20; Gl 2.1-10). Pastorado (Ef 4.11) – “poimén” (pastor). É a capacitação para assumir a responsabilidade de cuidar do bem-estar espiritual de um grupo de cristãos. Seu trabalho consiste em liderar, ensinar, desafiar e aconselhar os membros de uma comunidade de fé, visando a promover, por meio da descoberta e da 43

Aqui é empregada a forma euvaggelisth,j (euanguelistés), “evangelista”. Cf. também At 21.8 e 2Tm 4.5.


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aplicação dos dons espirituais, a visão do Reino de Deus, a proclamação do evangelho, a maturidade espiritual, a comunhão entre os cristãos e o serviço aos necessitados. O pastorado tornou-se um ofício (profissão), mas uma igreja pode ter pessoas com o dom de pastorear sem que sejam “pastores” de ofício. Ensino coletivo (1Co 12.28; Ef 4.1) – “didaskalia”. É a capacitação para explicar e aplicar a Palavra de Deus publicamente, de maneira que conduza os alunos à aprendizagem. Demanda preparo prévio. Administração (1Co 12.28) – “kubérnesis”. É a capacitação para planejar e coordenar atividades, para alcançar alvos predeterminados, visando à edificação da igreja.44 Arte (Êx 31.1-11) – “hashov mahashavot” (inventar obras artísticas). É a capacitação para servir por meio da produção de peças artísticas e artesanais, visando à adoração. Os dons voluntários Celibato (1Co 7.7) É a capacitação para se sentir realizado no estado civil de solteiro (em abstinência 44

KORNFIELD, David. Op. cit., p. 26.


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sexual) por estar liberado para uma dedicação completa ao ministério abraçado. É um dom que precisa de outro(s), deve estar vinculado a um ministério. Pobreza (1Co 13.3a) – “ptokéia”45 É a capacitação para renunciar ao conforto que os recursos materiais oferecem e adotar um estilo de vida equivalente ao dos pobres, visando a servir a Deus com mais dedicação e menos preocupações. Martírio (1Co 13.3b) – “martírion” 46 . É a capacitação para sofrer, pela fé, até à morte, desempenhada como uma atitude que glorifica a Deus. COMO DESCOBRIR MEU(S) DOM(NS)? Todos temos um dom, assim como temos um corpo. Nós somos os nossos dons, assim como somos 45

“Ptokéia” aparece em apenas três lugares: 2Co 8.2, 9; Ap 2.9. No primeiro caso, refere-se à condição econômica dos cristãos macedônios que não os impediu de serem generosos para com os cristãos pobres de Jerusalém (cf. At 11.29,30; 24.17; Rm 15.26-28; Gl 2.10; 2Co 8 e 9). No segundo caso, trata-se do despojamento voluntário de Cristo no que diz respeito à sua divindade. Ele se fez “pobre”, isto é, tornou-se homem entre os homens para lhes oferecer o amor de Deus. No terceiro caso, à pobreza econômica da comunidade cristã de Esmirna contrapuha-se a sua grande riqueza espiritual. A ocorrência do substantivo “ptokói”, pobres, em 1Co 6.10 parece ser um exemplo da pobreza como dom espiritual. 46 A palavra significa “testemunho”, “prova”. Em alguns casos, vem associada ao sofrimento decorrente do testemunho da fé: Mt 10.17-18 (= Mc 13.9; Lc 21.12,13); 1Tm 2.5,6; 2Tm 1.8.


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os nossos corpos. Não há fórmula mágica, porém alguns passos podem ser sugeridos: Ofereça o seu corpo como sacrifício vivo. Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês (Rm 12.1). Peça a Deus que revele a você a vontade dele. Siga a promessa de Jesus: Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta (Mt 7.7,8). Neste processo, estudar a Bíblia e dedicar-se à oração são disciplinas essenciais. Leve em conta a sua agitação interior em relação a uma necessidade. Exponha-se aos vários ministérios. Saia do desejo para a prática. Experimente!


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Descobrir e usar um dom espiritual dá ao cristão um profundo sentido de satisfação pessoal, porque um dom espiritual produz um senso de missão, desenvolve alguma habilidade, estimula o entusiasmo e a visão e gera uma força imensa. Os cristãos mais felizes e mais eficazes são aqueles que estão atuando nos ministérios. Por isso: Se você é chamado, e é, RESPONDA! Se você é um ministro, e é, SIRVA! Se você é fortalecido, e é, SEJA FORTE! Se você é amado, e é, ESTEJA SEGURO! Se você é orientado, e é, CONFIE! Se você é protegido, e é, SEJA CORAJOSO! Se você é um mordomo, e é, SEJA FIEL! Se você tem um dom, e tem, USE-O! UM CONVITE A UMA VIDA COM DONS ESPIRITUAIS Aceite o dom maior, a salvação em Jesus Cristo. Aceite que a igreja precisa de dons espirituais. Aceite que você tem dom(ns). Use o(s) seu(s) dom(ns).


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Descubra o(s) seu(s) dom(ns). Desenvolva o(s) seu(s) dom(ns). Ache que vale a pena viver pelo Espírito Santo. Dedique tempo à igreja. Veja as necessidades (deixando-se tocar pelas carências dos outros). Se as necessidades lhe tocam, você está no caminho de descobrir seu dom. Há muitas necessidades em nossa igreja. Precisamos receber melhor as pessoas que nos procuram. Logo, precisamos de mais gente na portaria, gente disposta e bem preparada. Precisamos dizer aos nossos vizinhos que nós existimos. Logo, precisamos de mais gente na área da comunicação, incluindo aí o jornalismo, a publicidade e o marketing. Precisamos alcançar mais pessoas com o amor de Cristo, porque uma igreja vive para fazer discípulos, e não para se divertir no culto. Logo, precisamos de mais evangelistas, de mais visitadores. Precisamos fazer mais em muitas áreas, mas precisamos de gente com dons, dons descobertos e exercidos. Busque os dons com zelo – vigor, força – e com a intenção de os usar para a edificação da igreja. Assim


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também vós, já que estais desejosos de dons espirituais, procurai abundar neles para a edificação da igreja. (1Co 14.12)47 Se você tiver um dom espetacular, subordine-o à ordem no culto coletivo. Se, pois, toda a igreja se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão porventura que estais loucos? (1Co 14.23)48 Esqueça a sua importância pessoal. Enquanto você se importar apenas consigo próprio(a), não descobrirá o(s) seu(s) dom(ns). O(s) seu(s) dom(ns) é (são) para o proveito coletivo. O seu benefício direto é o benefício da comunidade (Cf. 1Co 12.7). PALAVRAS FINAIS Nós não vivemos para a glória da igreja; antes, vivemos para o louvor da glória de Deus. No entanto, experimente dar louvor a Deus fora da igreja. Aos poucos, você vai se esquecendo do louvor. E, ao fim, vai se esquecer até mesmo de Deus. Nossa prioridade na vida não é a igreja, mas Deus. No entanto, 47

Versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego (IBB). 48 Ibid.


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experimente fazer de Deus a sua prioridade fora da igreja. O resultado será uma vida centrada em si mesma. Quando você estiver perto de achar que participar ou não participar é a mesma coisa, que pregar ou não pregar o Evangelho não faz diferença, que é indiferente se envolver ou não se envolver na igreja... Imagine um pai cujo filho não seja crente. Imagine um filho cujo pai não seja crente. Imagine um marido cuja esposa não seja crente. Imagine uma esposa cujo marido não seja crente. Pense naqueles que nunca tiveram oportunidade de entrar numa igreja. Pense naqueles que nunca quiseram entrar numa igreja, embora convidados. Pense naqueles que um dia já fizeram parte de uma igreja. Pense naqueles que ainda estão na igreja, mas não acreditam que isso tenha algum significado. Em situações como estas, o que acontece conosco? Sentimos prazer em ver a alegria em rostos ontem tristes? Sentimos prazer em ver pessoas se sentindo incomodadas pela Palavra de Deus? Sentimos prazer em ver pessoas voltando para Deus? Sentimos prazer em ver pessoas aceitando a Cristo como Salvador e Senhor? Então, somos cristãos. Mais do que isso, somos a própria igreja de Cristo.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUGBEE, Bruce; COUSINS, Don; HYBELS, Bill. Rede ministerial. São Paulo: Vida, 1998. FERREIRA, Damy. Os dons espirituais. Rio de Janeiro: Horizonal, 2005, 64p. GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego/português. Trad. Júlio P. T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1993. GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Abba, 1999. HENDRIKSEN, William. Comentário bíblico do Novo Testamento: Romanos. Trad. Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. KORNFIELD, David. Desenvolvendo dons espirituais e equipes de ministério. 2. ed. São Paulo: Sepal, 1998. PEREIRA, Isidro. Dicionário grego-português e portuguêsgrego. 5. ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa. SCHWARZ, Christian A., SCHALK, Christoph. A Prática do Desenvolvimento Natural da Igreja. Curitiba: Esperança, 2000.


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SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento: exegese numa perspectiva feminista. Trad. Ivoni Richter Reimer. S達o Paulo: Paulinas, 1995. WAGNER, C. Peter. Descubra seus dons espirituais. S達o Paulo: Abba, 1994.

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