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Espaços livres na favela de Paraisópolis: projeto de pesquisa Espacios libres en la Favela de Paraisópolis: proyecto de investigación Open spaces in Paraisópolis' Slum: research project

Eduardo Pimentel Pizarro Arquiteto e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, mestrando em Tecnologia da Arquitetura pela FAUUSP. eduardo.pizarro@usp.br Joana Carla Soares Gonçalves Arquiteta e urbanista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Mestre em Environment and Energy pela Architectural Association Graduate School de Londres Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Professora doutora da FAUUSP e professora orientadora do programa de pós-graduação Sustainable Environmental Design da Architectural Association School of Architecture, Graduate School, Londres jocarch@usp.br Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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RESUMO

As favelas constituem, no cenário urbano brasileiro atual1, uma realidade consolidada que deve ser, enfaticamente, alvo de estudos críticos e projeto, tanto por suas deficiências, quanto por suas características a serem otimizadas. O sistema de espaços livres das favelas, assim como no restante da cidade, desempenha papel ímpar na promoção de vida urbana, mobilidade, lazer, geração de renda e conforto ambiental urbano e edilício. Neste panorama, o objeto de pesquisa é, portanto, os espaços livres das favelas da cidade de São Paulo, Brasil. E este tema se insere no Eixo Temático "Universidade: investigação e ação para o melhoramento do bairro e da cidade". O projeto de pesquisa de mestrado, iniciado em Março de 2012, a ser explicado neste artigo, busca entender, experimentar, projetar e intervir nos espaços livres destes assentamentos informais, com a finalidade de fazer valer sua real função social, ambiental e mesmo econômica, com intervenções projetuais que se configurem como resposta sincera à população, ao local, ao tempo e ao clima. O objetivo deste artigo é, por fim, descrever e permitir questionamentos ao projeto de pesquisa em si, em sua abordagem, recorte, estratégia e método, como forma de discussão da prática da pesquisa urbana e de seu rebatimento na realidade das cidades.

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Primeiras décadas do século XXI.

Bogotá, Septiembre 2012

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Palavras-chave: assentamentos informais, favela, espaços livres, qualidade ambiental, projeto de pesquisa.

RESUMEN Los asentamentos informales y, en particular, las favelas, son, en las zonas urbanas del Brasil de hoy2, una realidad consolidada y que debe, con énfasis, ser el tema de estudios críticos y de diseño, tanto por sus deficiencias, quanto por sus características a serem optimizadas. El sistema de espacios livres de los asentamientos informales, así como en el resto del tejido urbano, juega un papel singular en la promoción de la vida urbana, la movilidad, el ocio, la generación de ingresos y el confort ambiental, urbano y edilicio, debendo establecer, de esta manera, una verdadera infraestructura urbana, articulando las ciudades formal y (in)formal. De esto, el objeto de la investigación es, por lo tanto, los espacios libres de las favelas de la ciudad de Sao Paulo, Brasil. Y este tema se inscribe en el Eje Temático "Universidad: investigación y acción para el Mejoramiento Barrial y Urbano." El proyecto de investigación de master, empezado en Marzo de 2012 y que se explica en esta ponencia, tiene como objetivos entender, experimentar, proyectar y intervenir en los espacios libres de estos asentamientos informales, con el fin de afirmar su verdadera función económica, social y ambiental, estableciendo una respuesta adecuada a las personas, el lugar, el tiempo y el clima. El objetivo de este trabajo es describir y permitir cuestionamentos al proyecto de investigación en sí, en su enfoque, su recorte, la estrategia y el método, como una manera de examinar la práctica de la investigación urbana y su plegado en la realidad de las ciudades. Palabras clave: asentamientos informales, favela, espacios libres, calidad ambiental, proyecto de investigación.

ABSTRACT The slums are, in urban Brazil today3, a consolidated reality that must be, emphatically, the subject of critical studies and design, both for their deficiencies, and by its characteristics to be optimized.

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Las primeras décadas del siglo XXI. The first decades of the XXI century.

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The system of open spaces of the slums, as well as the rest of the city, plays unique role in promoting urban living, mobility, leisure, income generation and environmental comfort, in urban and building scale. In this background, the object of research are, therefore, the slums' open spaces in the city of Sao Paulo, Brazil. And this theme is part of the Main Topic "University: research and action to improve the neighborhood and the city." The master's research project, started in March 2012, to be explained in this article, seeks to understand, experience, design and intervene in the open spaces of informal settlements, in order to enforce its actual social function, environmental and even economic interventions that are configured as a projective honest answer to the people, place, time and weather. The aim of this paper is ultimately describe and allow questions to the research project itself, in its approach, cut, strategy and method, as a way of discussing the practice of urban research and its folding in the reality of the cities. Keywords: informal settlements, slums, open spaces, ambiental quality; research project.

Figura 01. Favela de Parais贸polis. Fonte: come-se.blogspot.com

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2.

PANORAMA DE PESQUISA

2.1 Favelas Mundialmente, dos 6,89 bilhões de habitantes (ONU, 2010), cerca da metade, 3,44 bilhões, reside em meio urbano. Desta parcela da população, 29%, isto é, quase 1 bilhão de habitantes (DAVIS, 2008), concentra-se em assentamentos irregulares e desprovidos de condições mínimas de salubridade, saneamento, serviços e equipamentos, as denominadas Favelas, Villas miséria, Invasiones, Barriadas, ou Tugurios. O Brasil, com mais de 190 milhões de habitantes (IBGE, 2010), dos quais 84% habita áreas urbanas, possui metrópoles que concentram população e assentamento em favelas. No Município de São Paulo, por exemplo, dos 11.244.369 habitantes (IBGE, 2010), 1,34 milhões residem em favelas4, em quase 400 mil habitações (Sehab, 2010), em muitos casos com condições precárias de insolação, ventilação e carência de serviços públicos. As favelas constituem, irrefutavelmente, uma realidade consolidada no meio urbano paulistano. Nestes contexto, a Favela de Paraisópolis, com uma área de quase 80ha, possui uma população estimada de 55.590 habitantes (FRANÇA, 2010), o que a torna a segunda maior favela, em população, de São Paulo, depois de Heliópolis. Assim, pode-se constatar que as favelas, hoje, atingiram uma tal dimensão, em números e escala, que tornou-se impossível escondê-las, desconsiderá-las5 ou simplesmente removê-las. Nas décadas de 1960 e 1970 as favelas eram, predominantemente, construídas em madeira, com materiais precários e provisórios. Entretanto, principalmente a partir da década de 1980, com a instalação de serviços como energia elétrica, água e esgoto, o poder público parece, em certa medida, legitimar este tipo de ocupação urbana informal, reduzindo o sentimento de insegurança, o tal medo da remoção, intrínseco a esta população. A partir daí, a população favelada estabelece junto ao seu meio uma nova relação, de maior permanência, identidade, pertencimento e, desta forma, consolidação. Os barracos que antes eram de madeira são, gradativamente, reconstruídos em alvenaria, muitas vezes revestidos com argamassa e pintura nas paredes, cerâmica no chão,

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Estrutura da população por idade : 0-14, 30%; 16-64, 65%; 65 e acima, 5%; com a maioria abaixo dos 40 anos. Estimativas da Secrataria da Habitação do Município de São Paulo (Sehab). In : www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/demograficas.html 5

As favelas, ao longo da história brasileira, deixaram de ser levadas em conta censitariamente e/ou geograficamente, como aponta, a seguir, no caso do Rio de Janeiro: "No ano seguinte, decreto proibia que as favelas constassem dos mapas da cidade." (Decreto 6000 de 1937 apud MAGALHÃES, 2010, p.03).

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além de concentrarem bens de consumo iguais, semelhantes ou melhores dos comumente acumulados pela classe média brasileira6. Apesar de seu dinamismo físico e urbano, a favela abriga, em um mesmo barraco em processo de expansão, uma mesma família ao longo de gerações. A favela não é portanto, um local provisório de passagem, é um bairro permanente e consolidado.7 No que toca à intervenção em favelas, muito se discute, muito até se propõe, mas grandes questões permanecem em aberto desde a década de 1960. Estudar e/ou intervir em favela configura um grande desafio, tendo em vista sua complexidade social e física. Esta pesquisa não objetiva, pretensiosamente, solucionar o "problema", mas sim, lançar uma abordagem holística e infraestrutural para as favelas paulistanas, com foco nos espaços livres e suas múltiplas relações com as unidades residenciais. Parte dos projetos de urbanização de favelas seguem o conceito de tábula rasa, com posterior implantação de conjuntos habitacionais, equipamentos e espaços livres, de forma massificada, repetitiva e que, em muitos casos, não exploram ou refletem sobre as dinâmicas urbanas e sociais tão efervescentes e tão caras à favela, em sua configuração original. Há projetos no Município de São Paulo, como os denominados Cingapuras, em que conjuntos habitacionais padronizados ocupam, sem grandes preocupações projetuais edilícia e paisagísticas, faixas limítrofes de favelas. Em que medida este tipo de intervenção não se presta apenas de cenário, que busca esconder uma realidade que não é discutida ou efetivamente projetada? Ou ainda, em quanto esses projetos melhoram de fato a urbanidade e as condições de moradia na favela?

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Constatado em visitas às Favelas da Linha e do Nove, na região do Ceagesp, e à Favela de Heliópolis. 7 Constatado em visitas a favelas junto à disciplina AUP 5707, Fauusp.

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Figura 02. Conjunto habitacional camufla favela. Fonte: www.skyscrapercity.com Outros projetos parecem desconsiderar a população da favela, no que diz respeito ao seu modo de vida, suas necessidades e seus anseios. O projeto de urbanização da favela de Heliópolis, mais especificamente de sua Gleba K01, de autoria do arquiteto Ruy Othake, contempla uma sequência de edifícios com planta circular. Isso reflete a realidade de uma família de baixa renda? Como otimizar o uso de uma unidade habitacional curva com área construída de 52m², para uma família de até seis pessoas, com uso de mobiliário padrão?

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Figura 03. Gleba K01, Heliópolis. Fonte: acervo pessoal, junho de 2012. Além disso, algumas intervenções abordam questões superficiais. A proposição de uma paleta de cores para ser adotada em uma sequência de casas pode deixar os moradores, momentaneamente, felizes. Entretanto, o que impede que, passa sol, passa chuva, as infiltrações e trincas reapareçam, assim como as carências e conflitos intrínsecos à favela, os quais buscou-se maquiar?

Figura 04. Favelas pintadas.Fonte: nformadesign.com

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Com base neste panorama de experiências, aponta-se como alternativa para a intervenção em favelas o conceito de Microplanning (ROSA, 2010), segundo o qual ações projetuais de micro-escala podem contribuir, efetivamente, para a melhoria do meio urbano, no que se refere às esferas econômica, social e ambiental. O conceito de microplanejamento se mostra adequado para a intervenção em um contexto urbano consolidado e complexo, como o das favelas brasileiras. A consideração de que muitas das intervenções informais, empreendidas isoladamente por moradores da favela, com base em suas experiências cotidianas e em sua própria compreensão do ambiente, possam ser formalizadas e sistematizadas, abrindo-se um novo leque de possibilidades em termos de estratégias de intervenção projetual. Intervenções em favela projetadas e/ou empreendidas pelo arquiteto uruguaio Hector Vigliecca e pelo escritório venezuelano Urban Think Tank, seguem este conceito, pautados pela mínima intervenção e respeito às dinâmicas pré-existentes, como é o caso do Grotao Community Center8, projetado pelo U-TT9 na Favela de Paraisópolis.

Figura 05. Grotao Community Center, U-TT. Fonte: www.u-tt.com 8

Projeto de intervenção em favelas, a pedido da Sehab, de 2009 a 2012.

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Urban Think Tank.

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Figura 06. Grotao Community Center, U-TT. Fonte: www.u-tt.com 2.2 Espaços livres Hoje em dia muito se discute acerca de infraestruturas urbanas, as redes, sejam elas de saneamento, energia, telecomunicações, dados, rodoviárias, hidroviárias. Neste panorama emerge a preocupação com o estabelecimento e/ou consolidação de um sistema de espaços livres, ou de uma infraestrutura verde, visando articular os espaços livres urbanos10, na escala do pedestres e ciclista, reforçando suas possíveis funções ecológicas, além de estimular seu uso. Sem dúvida, o sistema de espaços livres urbanos está diretamente relacionado à promoção da vida urbana, em suas esferas social, ambiental e econômica. Esta rede, assim como um sistema viário, conduz à articulação urbana de um modo geral, promovendo fluxos, conexões e centralidades. Tanto na favela, quanto no restante da cidade, o sistema de espaços urbanos, ou espaços livres, públicos e semi-públicos, apresenta especial importância, visto seu caráter articulador e propulsor dos usos e da vida urbana. Até que ponto o sistema de espaços livres da favela, resultado de pequenas intervenções informais ao longo do espaço e do tempo, pode ser demasiadamente mais vivo 10

Públicos, semi-públicos e privados.

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e mais interessante do que aquele largamente projetado, propagandeado e vendido pelo Mercado Imobiliário Nacional, nas primeiras décadas do século XXI? Qual o potencial dos espaços livres na cidade (in)formal? Os espaços livres das favelas são o conjunto de espaços não ocupados, espaços estes com grande potencial de transformação ou consolidação de um efetivo e eficiente sistema de espaços livres urbanos. Na favela, em primeira instância, quem decide e quem constrói é quem ali mora. Esta ausência direta de poderes públicos e privado, a priori, caracteriza um grande potencial de estudo e intervenção. Os espaços abertos das favelas não são, todavia, pensados, projetados, são, em grande medida e excetuando-se espaços emblemáticos como os campos de futebol, mero resultado da contínua e dinâmica construção da favela. Outro potencial fundamental é que grande parte destes espaços se desenvolve na escala do pedestre, sem a interferência do automóvel. Em certa medida estes espaços são uma continuação do espaço interno das moradias, existindo o potencial de transformá-lo no espaço de todos, e não no espaço de ninguém, permitindo, inclusive, a criação de uma identidade, não necessariamente de uma identidade da comunidade em si, portanto excludente, mas uma identidade da coexistência e sobreposição do formal e do (in)formal. A qualidade, seja ela social, econômica, ambiental ou paisagística, de um espaço livre urbano estimula ou determina as interações sociais, formação de comunidades, geração de renda, práticas sustentáveis, salubridade, sensação de pertencimento e de conforto, inclusive no ambiente interno às edificações. É essencial para a pesquisa o entendimento de que os espaços livres constituem uma real infra-estrutura urbana, que permeia a cidade e, desde que qualificada, interage com o homem urbano e estabelece uma relação mútua de cooperação. Torna-se interessante enfatizar também que os espaços livres só existem, realmente, se neles existem pessoas. "Os praticantes ordinários das cidades experimentam os espaços quando os praticam e, assim, lhe dão 'corpo' pela simples ação de praticá-los."(ROSA, 2011) Portanto, vista a relevância urbana do sistema de espaços livres, encarado como real infraestrutura, e o paradigma da intervenção em favelas, essa pesquisa busca, primeiro, caracterizar e, depois, experimentar como pode vir a ser orquestrada a qualidade ambiental, social e econômica de uma especificidade urbana a que se dá o nome de Favela. Isto posto, o projeto de pesquisa de mestrado se faz, fundamentalmente, a partir de uma questão: Como intervir nos espaços livres de favela, visando o seu melhor e maior aproveitamento, como real espaço urbano e de múltiplas interações sociais? Para tanto, a Favela de Paraisópolis é escolhida como grande área de estudo por uma série de motivações: por seu caráter de bairro consolidado; por sua escala, que proporciona maior riqueza de situações urbanas e de espaços livres; como forma de diálogo com diferentes estudos e propostas de intervenção, de grupos brasileiros e/ou internacionais; por seu significado simbólico para a cidade de São Paulo; pela possibilidade de acesso a material levantado sobre a área, principalmente junto à Sehab.

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2.3 Clima O município de São Paulo está localizado na latitude 23°24´S, a 760m acima do nível do mar, do qual dista 60km (Atlas Ambiental). Por isso, além de outros tantos fatores, a cidade de São Paulo é caracterizada pelo clima tropical, quente e chuvoso no verão e com dias frios, embora ensolarados, no inverno. Deste modo, os espaços livres devem ser projetados com adoção de estratégias que, de modo flexível, protejam do sol e das chuvas no verão, ao mesmo tempo em que permitam o acesso ao sol no inverno, junto ao controle dos ventos. De fato, os fatores climáticos e ambientais devem ser, impreterivelmente, empregados como dados de projeto, de modo a permitir e enfatizar o uso dos espaços livres e dos equipamentos e atividades a eles relacionados. De modo geral, a cidade de São Paulo oferece boas condições de desenvolvimento do ambiente natural, de condições ao ar livre e potenciais de energia. Há uma grande diversidade de microclimas na cidade, já que a região metropolitana de São Paulo é rodeada de áreas florestais e montanhosas, mas também de diversos problemas ambientais como a poluição do ar e sonora, além dos efeitos de ”ilhas de calor” e a pouca quantidade de vegetação nas áreas centrais (TARIFA, 2001). Em se tratando das favelas, de seus espaços livres e do espaço interno das unidades, as condições climáticas podem ser, potencialmente, agravadas, levando-se em conta sua configuração urbana.

3.

OBJETIVOS

O objetivo da pesquisa é observar, sob a luz de critérios pré-estabelecidos, o sistema de espaços livres de favelas, de modo a possibilitar a experimentação e proposição de reais diretrizes de projeto para qualificá-los, contribuindo, efetivamente, para sua qualidade espacial e ambiental, com benefícios de ordem social e econômica. A proposição deve conduzir, inclusive, à intervenção física, como forma de real experimentação e avaliação. Ao longo de toda a pesquisa, o objetivo é, portanto, responder a uma série de questões: O que é um espaço livre na favela?; Este conceito é, efetivamente, aplicável?; O que o delimita?; O que o produz e organiza?; Quais as suas características físicas, ambientais e paisagísticas?; Quais as suas funções?; Qual a sua importância?; Quais as suas carências e potenciais?; E, finalmente, como neles intervir e quais os resultados destas intervenções? A partir do estudo do sistema de espaços livres da favela e de sua qualidade ambiental,11 o objetivo final da pesquisa é a definição e a concretização de diretrizes projetuais de intervenção, que conduzam à criação de espaços livres mais confortáveis, mais 11

No que toca ao desempenho térmico, acústico, luminoso e ergonômico.

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eficientes, mais plurifuncionais, mais usáveis, mais sociáveis e, consequentemente, mais vivos e urbanos, nas favelas e na sua articulação com o restante da cidade. Em suma, os objetivos são: Entender/Caracterizar + Experimentar + Propor + Construir + Avaliar os espaços livres de favela, com base na grande área de estudo que é a Favela de Paraisópolis.

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PLANO DE TRABALHO

A pesquisa é estruturada mediante as etapas a seguir: Etapa 01 - Consolidar e circunstanciar o objeto de pesquisa; Etapa 02 - Embasamento teórico: _Terminologias e conceitos; _Constituição do espaço urbano das favelas no Município de São Paulo a partir de 1960; _Conceituação de Espaços Livres; _Conceitos e caracterização climática e ambiental; _Seleção dos critérios de avaliação espacial e ambiental; _Estudo de referências projetuais de intervenção; Etapa 03 - Seleção dos Estudos de Caso: _No perímetro da Favela de Paraisópolis, de acordo com a potencialidade de estudo e intervenção; Etapa 04 - Caracterização dos Estudos de Caso: _Pesquisa bibliográfica e junto à base de dados da Sehab; _Visitas de campo: entrevistas com moradores, registro fotográfico e desenhos de observação, medições de variáveis ambientais; _Revisão dos critérios de avaliação espacial e ambiental; _Aplicação dos critérios pré-estabelecidos e avaliação de desempenho; Etapa 05 - Estudos Analíticos: _Avaliação das condições climáticas nos espaços livres selecionados, incluindo estudo de temperatura do ar, ventilação urbana e insolação; Etapa 06 - Proposta de Intervenção (Design Development): _Levantamento das necessidades e intenções de projeto; _Brainstorm; _Definição de partido e diretrizes projetuais; _Estudos analíticos e experimentação projetual; _Master Plan de intervenção; Etapa 07 - Aplicação (Design Application): _Projeto das intervenções físicas; _Construção/aplicação ao meio físico; _Avaliação dos resultados;

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Etapa 08 - Conclusões e Etapas futuras e formatação da Dissertação;

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CRONOGRAMA

Figura 07. Gráfico referente ao cronograma de trabalho.

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MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa constitui, efetivamente, um caso de Design Research, inspirado pelos trabalhos desenvolvidos no Environmental & Energy Studies Programme da Architectural Association Scholl of Architecture (AA, Londres). Para tanto, seu método é baseado na prática projetual em si, começando-se pelo entendimento e avaliação do objeto de intervenção, em suas diferentes inserções e escalas, com seus condicionantes econômicos, sociais, ambientais e humanos, passando-se pela leitura de referências de projeto e, concomitantemente, à definição de diretrizes, experimentação, proposição, aplicação e avaliação projetuais. O objetivo final da pesquisa é, portanto, o exercício propositivo.

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Ademais, o método da pesquisa é, em grande medida, empírico, baseado na observação e avaliação do existente e, a partir disso, somado a critérios e referências, experimentação, aplicação e avaliação de estratégias projetuais. A aproximação ao objeto se faz por meio de estudos bibliográficos e visitas in loco, nas quais, a partir de conversas informais, entrevistas, medições de variáveis ambientais 12, fotografias e desenhos, busca-se compreender e avaliar a situação existente, em suas carências e potenciais. Nestas primeiras etapas, são observados alguns critérios de avaliação: - quanto a proporção entre cheios e vazios, e entre espaços livres públicos, semipúblicos e privados; - quanto à estrutura e hierarquia espacial e funcional, com classificação de espaços primários, secundários, terciários e residuais; - quanto aos fluxos de pedestres, ciclistas, automóveis e veículos de serviço, como caminhões de lixo e ambulâncias, e sua interação no espaço e no tempo; - quanto à apropriação dos espaços livres, isto é, os usos e atividades neles desenvolvidos, o tipo, o período do dia e a frequência; as estratégias de apropriação, como cercamentos, coberturas, plantio de vegetação; a possibilidade de geração de renda; a importância que estes espaços representam à população; - quanto ao desempenho ambiental, térmico, acústico, luminoso e ergonômico 13. Nessa etapa serão realizadas medições de campo, com base em procedimentos préestabelecidos, como vistos em Monteiro, no que tange ao conforto térmico em espaços externos. É fundamental à pesquisa a leitura e proposição em diferentes escalas. Isto é, em primeira instância, a Favela de Paraisópolis é entendida como um todo, em relação a sua população, inserção urbana e diálogo com a cidade formal, além de seu macro-sistema de espaços urbanos. Esta escala é alvo de projeto, a nível de Master Plan. Em paralelo, espaços livres ou fragmentos urbanos específicos14 servem de estudo de caso para as visitas detalhadas, medições de variáveis e intervenção física em pequena escala. A articulação e sobreposição das compreensões e intervenções nas escalas macro e micro são fundamentais, uma vez que projetar e intervir em todo o sistema de espaços livres da 2ª maior favela do Município de São Paulo não faz parte do escopo de um Mestrado, ao mesmo tempo em que observar recortes territoriais isolados seria incongruente e superficial. Sinteticamente, as atividades de projeto desenvolvem-se por duas frentes: _Definição de Master Plan de intervenção na Favela de Paraisópolis como um todo; 12

As medições referentes a térmica, acústica e iluminação serão realizadas com instrumentos do Labaut-Fauusp. 13 Com base, principalmente, na NBR 9050/2004. 14 A quantidade de estudos de caso em pequena escala, sua seleção e/ou delimitação serão definidos ao longo da pesquisa, de acordo com sua relevância e potencialidades.

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_Projeto específico e intervenção física em pequena escala, nos estudos de caso selecionados, a serem avaliados posteriormente;

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FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS

Os resultados obtidos a partir das medições, cálculos, simulações e estudos que compreendem as avaliações de desempenho serão comparados com critérios préestabelecidos e extraídos de referências da bibliografia fundamental, cobrindo todas as áreas de interesse desta pesquisa: desempenho térmico, acústico, luminoso, ergonômico, paisagístico e social, no que toca à qualidade dos espaços livres das favelas. A partir da aplicação dos critérios, serão experimentadas, analiticamente, alternativas de intervenção, de modo a conduzir, ao final da pesquisa, à elaboração de diretrizes projetuais em macro-escala, além de intervenção física na favela, em pequena escala. Estas intervenções serão, posteriormente, avaliadas com base nos mesmos critérios. A pesquisa propõe, portanto, avaliações em dois momentos distintos. O primeiro deles se refere à situação existente dos estudos de caso, de modo a destacar carências e potencialidades a serem tomados durante as etapas propositivas. O segundo é o de avaliar em que medida as intervenções físicas empreendidas junto aos estudos de caso em pequena escala contribuíram para a modificação do existente.

8.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O projeto de pesquisa, portanto, trata de uma questão urbana fundamental, a qualificação ambiental, social e econômica, do sistema de espaços livres de assentamentos informais, especificamente da Favela de Paraisópolis, em São Paulo. Este projeto é uma tentativa de abordagem do problema que ultrapasse os levantamentos e discussões, e permita, efetivamente, uma contribuição para o ambiente real, mesmo que em pequena escala, pensando na possibilidade de proliferação destas pequenas práticas no meio urbano como um todo. Este artigo foi escrito com a finalidade de mostrar e colocar em discussão o projeto de pesquisa em si, no que se refere ao seu objeto, seu objetivo, questão, método, plano de trabalho, cronograma e análise dos resultados. É, portanto, uma tentativa de compartilhamento de experiências entre pesquisadores da área, em vias de desenvolver modos diversos e/ou inéditos na abordagem das problemáticas urbanas e, dentre elas, dos assentamentos informais, uma realidade premente no contexto urbano da América Latina como um todo.

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BIBLIOGRAFIA

ATLAS AMBIENTAL, in: http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br. Acessado em 18 de julho de 2011. FRANÇA, Elisabete. BARDA, Marisa (ed.). A cidade informal no século 21. São Paulo, 2010. Disponível em: <http://www.habisp.inf.br/theke/documentos/publicacoes/catalogo_exposicao/index.html>. Acesso em 14 de junho de 2011. IBGE, Censo 2010, in: www.censo2010.ibge.gov.br. Acessado em 02 de agosto de 2011. MONTEIRO, Leonardo. ALUCCI, Márcia. Procedimentos de quantificação de variáveis para análise termo-fisológica em espaços abertos. ENCAC - ELACAC 2005. ROSA, Marcos. Microplanning. Urban Creative Practices. São Paulo, 2011. SEHAB – Secretaria Municipal de Habitação. Plano Municipal de habitação – PMH 20092024. São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.habisp.inf.br/theke/documentos/pmh/pmh_versao_setembro_2010/index.html. Acesso em 17/06/2011. UN Development Programme, Brazil Country Office. Brazilian Atlas of Human Development. Metropolitan Human Development Index, 2010. Disponível em: http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/Ranking_RM.xls. Acessado em: 10 December 2010. TARIFA, José Roberto. Os climas na cidade de São Paulo: teoria e prática. São Paulo: FFLCH/USP, 2001;

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Espacios libres en la Favela de Paraisópolis  

proyecto de investigación

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