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O ESCRITOR E POETA RUY BARATA

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helly Pamplona captura imagens Amazônidas

O CHIRO E A ALMA DE ENEIDA DE MORAIS

QUEM É A MULHER QUE VOA?


literatura

música

08 16

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geopolítica

poesia

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romance

audiovisual

A poética existencial e política de Ruy Barata, escritor homenageado na XVII Feira Pan Amazônica do Livro reacende a importância histórica de sua Obra. A trajetória do escritor e cineasta Vicente Franz Cecim rumo à Andara, seu Uni-verso amazônico rompendo as fronteiras regionais.

folclore

Nazaré de Mello e Silva Soares aborda a literatura oral e a relação simbólica dos mitos amazônicos.

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lançamento

Edmilson Rodrigues lança o livro Amazônia - Jardim de Águas Sedento.

música

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34 dramaturgia

literatura

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teatro

MaestroWilson Fonseca

Vicente Malheiros da Fonseca relata a Vida e a Obra do grande compositor e maestro santareno Wilson Fonseca - Meste Isoca.

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teatro

Solo Marajó: A narrativa e a expressão literária do romance “Marajó” de Dalcídio Jurandir em 5 episódios marcantes no monólogo do ator e diretor Cláudio Barros.

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pará:O Mapa da Mina

Marcio Palheta desenha a geopolítica mineral do Estado e Christian Nunes fala das ações Territoriais na Amazônia.

AÇÕES TERRITORIAIS NAAmazônia

A riqueza advinda da mineração impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado.

cinemacannes

O filme: Juliana contra o Jambeiro do Diabo pelo Coração de João Batista dirigido por Roger Larrat

Salão do Humor

cinema paraense

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A IV Mostra de Filmes da Amazônia chega configurando-se como uma das únicas plataformas de discussão, intercâmbio e circulação regional e internacional

V Salão Internacional de Humor

Desenhar piada sobre questões políticas e ambientais é uma arte que poucos conseguem se expressar.

economia

moda

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entrevista

José Conrado dos Santos - Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará é o atual coordenador do Programa Pró-Ação Amazônia.

Sandra Machado

A estilista que assina figurinos impressionantes, como a  segunda pele indígena-futurista da Gang do Eletro e Iva Rothe, se destaca no centro da moda.

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cinema

economia

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ensaio Bruno Cecim sai pelo mundo a registrar o visível e o invisivel da realidade

documentário

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Oasilo das ma dalenas

1921, época em que as meretrizes tinham cadernete de identidade fornecida pelo Instituto Médico Legal do Pará

artes plásticas

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O exílio eaCor

Tikka inspira-se em Albert Camus para abordar, com distânciamento, o metafísico e a matéria, às vezes, ambos, para construír, sem dúvida, a sua própria maneira de existir.

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itinerário

fotojornalismo

Foto: Jordy Burch

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artes plásticas

Para Cecim, escrever é descer às profundezas dos antigos registros duma vivência anterior e interior e qualquer coisa encontrar que lhe dê sentido, significado para o existir, perceber e poder penetrar na memória do Universo, emergir do Vazio, da eterna condição inexprimível do verso que se mostra aos homens como substância múltipla e transitória do Uni-verso. E, ao retornar transfigurado, não ter mais palavras, só um imenso olhar, imenso como a noite que busca atravessar. O leitor, por sua vez, faz a sua própria Viagem a Andara invisível através das páginas visíveis de A asa e a serpente, Os animais da terra, Os jardins e a noite, Terra da sombra e do Não, Diante de ti só verás o Atlântico, O sereno, Música de areia, Silencioso como o Paraíso, Ó Serdespanto, K O escuro da semente, oÓ: Desnutrir a pedra. Travessia de uma noite de escuras árvores, de um mundo “onde não faltam mistérios”, uma floresta de símbolos onde podemos ver sem os olhos e passar “entre os homens que dormem com um rosto de pedra. entre a realidade, sonhos, vozes e silêncios, movimentos e inércias, o ar, o fogo, a terra, a água, o vegetal, minerais profundos e principalmente, insone, o animal.


Redação

A quem interessa o debate Amazônico. N

o Brasil a questão da # CULTURA AMAZÔNICA tem sido objeto-sujeito da Revista Pará Zero Zero, PZZ, que busca atuar, dialogar e construir o conceito de #REVISTA no campo da #COMUNICAÇÃO SOCIAL e INTEGRAR as diversas linguagens artísticas, expressões simbólicas e o pensamento da nossa cultura onde a Comunicação em relação à sociedade, assume um papel fundamental para a compreensão, desenvolvimento econômico, reflexões e transformações sobre a realidade. A matéria de capa desta edição dedica-se ao Projeto capitaneado pelo Dr. José Conrado dos Santos, vice-presidente do Conselho Nacional das Indústrias - CNI, Presidente da Federação das Indústrias do Pará - FIEPA, coordenador do Programa Ação Pró-Amazônia grupo ligado à Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e que reúne as nove federações das indústrias da região com a missão de aproximação comercial, institucional e estratégica entre os estados amazônicos. Para viabilizar essa aproximação, será criado o Portal de Integração da Amazônia Legal no sentido de criar e consolidar um canal direto para que os estados amazônicos possam conhecer melhor o mercado de seus vizinhos, apresentando soluções para que os investimentos aplicados na Amazônia sejam internacionalizados na própria região, criando Redes de cooperação comercial, educacional e científica, o Mer. obra e ao pensamento do escritor e cineasta, Vicente Franz Cecim que nasceu em Belém do Pará e há mais de 30 anos dedica-se a literatura, ao cinema, ao jornalismo e ao estudo da Amazônia sendo o idealizador do projeto literário-existencial Andara. Nazaré Melo e Silva, nos fala da literatura oral e dos contos fabulosos que conseguem ultrapassar os limites do tempo, por permanecerem no mundo dos encantamentos que percorrem os sentimentos dos leitores, invadindo locais indizíveis e repletos de significados folclóricos. Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Edmilson Rodrigues - que também é deputado estadual, lança livro sobre a relação entre globalização e soberania territorial. Wilson Dias da Fonseca (Maestro Isoca) nasceu em Santarém-PA, com reconhecimento no Brasil e no exterior, é rememorado por seu filho José Malheiros da Fonseca. Outra forma de desenvolvimento na Amazônia, nos fala o Professor de Economia da UFPA -Valcir Santos, enfatizando a Economia Criativa que apresenta um grande potencial para promover maiores oportunidades de geração de trabalho e renda, devido estar associada à inclusão e responsabilidade social e também pela sua interface com o terceiro setor (ONGs, sociedade civil organizada) que oferece múltiplas oportunidades e alto grau de inovação. O ator e diretor de teatro Cláudio Barros é um dos principais atuantes paraenses na arte de interpretar e na produção de audiovisuais de renome nacional com 35 anos de teatro e nesta edição, apresenta “Solo Marajó” narrativas do livro “Marajó” de Dalcídio Jurandir que fazem um retrato da paisagem marajoara, revelando um retrato multifacetado das relações humanas de quem vive mergulhado nos confins da Amazônia Boa Leitura

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Edição 17 | maio/junho de 2013

Diretoria Executiva Carlos Pará e Fábio Santos Editor Responsável Carlos Pará 2165 - DRT/PA Editor de arte/Projeto Gráfico Rilke Penafort Pinheiro Produção Executiva Almir Trindade Neto, Pedro Vinna, Narjara Oliveira, Pavel Fernandes, Virginia Cecim Fotógrafo Bruno Pellerin Computer to Plate Hélio Alcântara Impressão: Gráfica Sagrada Família Distribuição Belém, Pará, Brasil. Assessoria Jurídica: Alfredo Nazareth Melo Santana 11341 OAB-PA Contatos (91) 3351-5188 - 9616-4992 - 9616-3400 email revistapzz@gmail.com Twitter @revistapzz Facebook @revistapzz cartas A Revista PZZ é uma publicação bimensal da Editora Resistência Ltda - Av. Duque de Caxias, 160, Loja 14, Belém, Pará, Amazônia, Brasil Cep 66093-400 Cnpj : 10.243.776/0001-96 Issn: 2176-8528 site revistapzz.com

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literatura poética

Marinilce Coelho

O SIGNO ressoa RUY PARANATINGA BARATA, ESCRITOR HOMEAGEADO NA xVII FEIRA PANAMAZÔNICA DO LIVRO, REVELA A FILOSIFIA E POLITICA EM SUA OBRA

R

uy Guilherme Paranatinga Barata, poeta, político, advogado, professor e compositor brasileiro. Foi o escritor homenageado na XVII Feira do Livro nasceu em Santarém, 25 de junho de 1920 e foi-se da vida para entrar na história em São Paulo, 23 de abril de 1990). Filho único de Maria José (Dona Noca) Paranatinga Barata e do advogado Alarico de Barros Barata. Recebeu o nome Rui em virtude da admiração paterna por Rui Barbosa. O indígena Paranatinga vem do lado materno, que significa rio (paraná) branco (tinga). Foi alfabetizado pelo pai. Aos dez anos vem para Belém para continuar os estudos. Primeiro, no internato do Colégio Moderno; depois, no Colégio Nossa Senhora de Nazaré, dirigido pelosIrmãos Maristas. Faz o pré-jurídico no Colégio Estadual Paes de Carvalho, onde tem

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como professor o intelectual Francisco Paulo do Nascimento Mendes, de quem se torna amigo para a vida inteira, e se inicia na poesia escrevendo na revista Terra Imatura. Em 1938, entra para a Faculdade de Di-

Em 1943, publica seu primeiro

livro de poemas Anjo dos Abismos, pela José Olympio Editora, com o decisivo apoio do romancista paraense Dalcídio Jurandir. reito do Pará. Em meio aos estudos jurídicos sente aumentar a paixão pela poesia. Mergulha fundo nos poemas de Maiakovski, Garcia Lorca, T.S. Elliot, Mallarmé, Rilke, Pablo Neruda, Car-

los Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, entre outros. Abre-se ao pensamento de esquerda através da leitura do Manifesto Comunista de Marx e Engels. Em 1941, casa-se com Norma Soares Barata, com quem teve sete filhos: Maria Diva, Rui Antônio, Paulo André (parceiro constante em várias canções, entre elas, as mais famosas, Foi assim ePauapixuna), Maria Helena, Maria de Nazaré, Maria Inez e Cristóvão Jaques. Em 1943, forma-se em direito e, como orador da turma, em plena ditadura do Estado Novo, faz um discurso em que pede a volta do país ao Estado de Direito e defende teses avançadas no campo da justiça social. Nessa fase, prefere trocar o exercício da advocacia pela presença na redação do jornal Folha do Norte,


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literatura poética de Paulo Maranhão. Passa a freqüentar a roda de papo do Central Café, no centro de Belém, liderada pelo professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, onde convive e integra a mais brilhante geração de intelectuais paraenses republicanos, que gravitou em torno de Chico Mendes. Entre eles, Mário Faustino, Paulo Plínio Abreu, Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, Waldemar Henrique, Machado Coelho, Nunes Pereira, Cauby Cruz, Napoleão Figueiredo e Raimundo Moura. Ainda em 1943, publica seu primeiro livro de poemas Anjo dos Abismos, pela José Olympio Editora, com o decisivo apoio do romancista paraense Dalcídio Jurandir.

Em 1943, publica seu primeiro

livro de poemas Anjo dos Abismos, pela José Olympio Editora, com o decisivo apoio do romancista paraense Dalcídio Jurandir.

Nessa época, o pai de Ruy, Alarico Barata, exercia forte liderança política na região do baixo amazonas contra a violência do chamado Baratismo, liderado pelo caudilho Joaquim Magalhães de Cardoso Barata. Em decorrência dessa luta contra o autoritarismo de Magalhães Barata, Rui Guilherme Paranatinga Barata entra na política partidária e, aos 26 anos, em 1946, é eleito deputado para a Assembléia Constituinte do Pará, pelo Partido Social Progressista (PSP). Embalado pelo clima de explosão democrática que sucedeu a vitória dos aliados contra o nazifascismo na Europa, nenhum tema relevante aos direitos humanos escapou da percepção do jovem deputado naquela legislatura. A luta pela paz num mundo traumatizado pela morte de milhões de seres humanos nos campos de batalha, o horror da ameaça atômica que exterminara as po10 www.revistapzz.com

Auto-Retrato Entre a espuma e a navalha sou legenda. O espelho neutraliza o ângulo da morte, a barba estrangulou a metafísica e o problema do mal é bem remoto. Aqui sim. Aqui resistirei à mímica, ao dicionário e ao laboratório. (a herança do punhal brilha de novo o fantasma de Abel não me intimida) Vejo a testa crescer entre espirais de fumo, o olhar que não vacila da ruga à pré-história e o peito rasgado pela fúria do poema. Aqui sim, aqui iniciarei a espécie nova, aqui derrotarei o homem-harpa e pronto estou para a descoberta do sexo. O pincel dá-me o poder do patriarca, a navalha reduz a timidez e o medo, o palavrão rola na boca e salva o mundo.

A Linha Imaginária Vida suplementar, tão próxima de ti, tão evidente, nas dobras deste enigma sereno. Um pensamento só, voltar à infância, um desejo qualquer, basta a esperança, e refloresces em dádivas e gestos. Este braço de mar é teu, - podes guardá-lo, esta paz, este azul, este piano, esta nesga de céu que o vento espalha. Tudo tão próximo de ti, tão ligado ao teu cotidiano, ao teu suor diurno, às tuas vigílias, às tuas palavras que emprestas uma outra significação. Só agora percebes a tua absurda neutralidade diante deste fim de tarde, deste sino que é a tua primeira e única

memória musical, desta noite, caindo leve sobre a tua cidade. Só agora buscas o espelho que procuravas evitar, só agora tentas restabelecer todos os elos que ainda justificam tua mísera existência, reconstituir todos os fatos, - mesmo os não evidentes o Fiat, a Paixão, os elementos, o riso do amigo mais amado. Só agora te permites a inutilidade deste gesto fraterno; só agora ousas confessar a saudade que há tanto tempo agasalhaste na sombra, - de ti mesmo, - dos teus brinquedos favoritos, - da mansa voz do teu primeiro amor. Só agora te serves desta aurora, tão próxima de ti, tão evidente, nas dobras deste enigma sereno.

Canção dos Quarenta Anos Poema, suspende a taça pelos dias que vivi. Espelho, diz-me em que jaca mais fiel me refleti. Quarenta anos correram e neles também corri. Quarenta anos, quarenta! (Quantos mais inda virão?) Morrerei hoje de infarto ou amanhã de solidão? Serei pasto da malária? Serei presa do avião? A morte engendra esperança A morte sabe fingir. A morte apaga a lembrança da morte que vai ferir. E em cada instante que passa a morte pode surgir. Quem pode medir um homem? Quem pode um homem julgar?


PUBLICAÇÕES DE RUY BARATA Um homem é terra de sonhos, sonho é mundo a decifrar : naveguei ontem no vento, hoje cavalgo no mar. Hoje sou. Ontem, não era. Amanhã de quem serei? Um homem é sempre segredos (Por qual deles purgarei?) Dos meus netos, qual o neto, em que me repetirei? Que virtudes foram minhas? Que pecados confessar? Que territórios de enganos a meus filhos vou legar? A quem passarei meu canto quando meu canto passar! Ah! como a vida é ligeira! Ah! como o tempo deflui! Este espelho não mais fala da criança que já fui, das minhas rugas ruindo apenas um nome rui. Quede rede balançando? Quede peixinhos do mar? Quede figo da figueira pru passarinho bicar? E o anel que tu me deste em que dedo foi parar? Dezembro chama janeiro, (fevereiro vai chamar?) Monte-Cristo se me visse não iria acreditar. Como está velho, diria a donzela Dagmar. Um homem cresce espalhando — o reino em que foi feliz. — Onde Athos? Onde Porthos? Onde o tímido Aramis? Um homem cresce querendo e cresce quando não quis. Crescer é rima de vida mas também é de morrer. Crescer é terna ferida que só dói no entardecer. Em cada raiz da morte há sempre um verbo crescer. E cresço: macho e poeta. (Subo em linha, volto em cor) cresço violentamente, cresço em rajadas de amor,

cresço nos filhos crescendo, cresço depois que me for. Cresço em tempo e eternidade, cresço em luta, cresço em dor, não fiz meu verso castrado nem me rendo ao opressor, cresço no povo crescendo, cresço depois que me for.

hOMENAGEM A LEO BOY Saberás quem somos pela ausência da voz, pelo rio envelhecido e na fadiga das frases dissipadas. Diante de ti a nudez falará por nós pois as dádivas e sonhos dispersamos e as mãos vazias dissiparam o tempo. A fêmea e a cidade conquistamos, mas do Invisível a rosa que colhermos será sempre viçosa e fresca sobre a nossa tumba. Somos da terra o sal mas nem sabemos e deitados na Parábola morreremos na primavera das palavras novas, no segredo que faz nossa alegria. Estrangeiros na pátria que elegemos vazios do santo amor, pobres da Graça, a saudade da hora não cumprida, a tristeza do rei que inveja o escravo.

Capa do livro ANTILOGIA de Ruy Barata. Obra lançada em 2000 é uma coletânea de poemas organizada pelo próprio Ruy, entre janeiro e fevereiro de 1990.

Do livro A linha Imaginária Edição Norte - 1951

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pulações de Hiroshima e Nagasaki, o respeito à autodeterminação dos povos, o Estado de Direito no Brasil, a defesa da soberania da Amazônia e a luta contra a pobreza foram temas caros a Ruy Barata. Foi reeleito em 1950. Em 1951, publica os poemas de A Linha Imaginária (Edições Norte, Belém). A partir daí e depois, como deputado federal (1957 a 1959), se afirma como a voz progressista no Pará em defesa do monopólio estatal do petróleo, das grandes causas nacionais e da paz mundial, nos momentos cruciais da chamada guerra fria.

Capa do livro A LINHA IMAGINÁRIA de Ruy Barata. Obra lançada em 1951 - Edição NORTE, a mesma que editava a Rebvista NORTE, na qual Benedito Nunes era o Editor ao lado de Max Martins.

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literatura poĂŠtica

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Em 1959, saúda a revolução cubana com o poema Me trae una Cuba Libre/Porque Cuba libre está. Nesse mesmo ano, entra para a militância clandestina do Partido Comunista Brasileiro, oPartidão. A filiação ao PCB tem reflexo na própria criação poética, que opta por evidenciar, nessa fase, um tom político. Sua poesia busca o caminho das palavras acessíveis à compreensão popular. Denuncia claramente a miséria e a injustiça social. Nessa época, provavelmente, dá início à construção de O Nativo de Câncer, poema inacabado com força épica a contar a história de uma cultura em face da invasão de culturas estranhas, um impressionante inventário das coisas e do homem amazônico, incluindo aí o inventário do próprio poeta, um nativo de câncer. O primeiro canto do poema foi publicado em fevereiro de 1960 no jornal Folha do Norte. Em 1964, com o golpe militar, foi preso, demitido de seu cartório (então 4º Ofício do Cível e Comércio da Comarca de Belém) e aposentado compulsoriamente do cargo de professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará, com menos de 10% de seus proventos. Para sobreviver passa a exercer a advocacia no escritório de seu pai, Alarico Barata, e escreve artigos e reportagens com pseudônimos, como Valério Ventura, para os jornais Folha do Norte e Flash. A partir de 1967, Ruy Barata, que tinha, desde a juventude, uma estreita ligação com a música, passa a compor em parceria com seu filho, o então jovem músico e instrumentista Paulo André Barata. Ruy mostra-se um exímio letrista para as melodias do filho. Compõem dezenas de músicas, de cunho rural e urbano, que se tornaram sucessos nacionais e internacionais. Em 1978, lança mais um capítulo do estudo sobre a Cabanagem, a revolução paraense de 1835, cuja publicação iniciara no ano anterior pela revista do Instituto Professor Sousa Marques (Rio de Janeiro): O Cacau de Sua Majestade, O Arroz do Marquês, A Subversão do Cacau e do

Algodão, A Economia Paraense às Vésperas da Tormenta. Em 1979, com a promulgação da Lei da Anistia, Ruy Barata é reintegrado ao quadro de professores da Universidade Federal do Pará, e volta a ensinar Literatura Brasileira. Em 1984, é publicada a primeira edição do livro Paranatinga, um estudo biográfico do poeta escrito por Alfredo Oliveira. Ruy Barata morreu em 23 de abril de 1990, durante uma cirurgia, em São Paulo, para onde viajara a fim de coletar dados sobre a passagem de Mário de Andrade pela Amazônia.

Pouco depois de sua morte foi lançada a segunda edição, revista e ampliada, do livro Paranatinga. Sua estátua está nos jardins do Parque da Residência, antiga casa dos governadores do Pará, que hoje abriga a Secretaria de Cultura do Estado. Empresta seu nome a uma avenida, ainda em construção, que vai margear as águas da baía do Guajará em Belém. Em 2000, foi lançado o livro Antilogia, uma coletânea de poemas organizada e revisada pelo próprio Rui entre janeiro e fevereiro de 1990, pouco antes de sua morte, cuja ediwww.revistapzz.com 13


literatura do pará

Glaucia Gauguin

ver-o-peso, do visível ao invisível UMA ESCRITURA QUE VEM DA VOZ E DO INVISÍVEL, ECOA DA COSMOGRAFIA MANISFESTA EM ANDARA, uma compreensão de Amazônia e de nós mesmos: os seres e a região mais desconhecidOS do planeta. As raízes deste artigo, de certo modo, estão fincadas em experiências de infância. Digo isso considerando algumas lembranças de quando ainda criança. Daquele tempo lembro que meu pai contava-me muitas histórias, umas inventadas, outras conhecidas. Essas histórias e/ou estórias, na maioria das vezes, tinham como cenário a cidade onde nasci: Belém do Pará. Lembro ainda que logo no início do período de minha adolescência foi ele também quem me apresentou um livro marcante, “Banho de Cheiro” (Ed. Civilização Brasileira, 1962), de Eneida [de Moraes], que desvela muito da alma desta cidade, em tempos idos, e cuja dedicatória é escrita nestes termos: Para a minha cidade, na pessoa física que– para mim é minha mãe. /Para a minha cidade, suas ruas e praças, suas manhãs claras e noites perfumadas de jasmim bogari; para os igarapés e os

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igapós, para os canteiros dos jardins públicos hoje abandonados, outrora moradas de rosas-meninas;/para a minha cidade, sua gente da Pedreira, do Umarizal, Jurunas; para a gente da S. Jerônimo, Nazaré e Independência./ Para a minha cidade tão pobrezinha agora, mas tão cheirosa sempre de pau-de-Angola e patchuli; / para a minha cidade, meus amigos de lá, minha família de lá, minha gente de lá. / Para a cidade de Santa Maria de Belém Grão-Pará, este livro. / Também para Lea, mina filha./ Precisarei falar de amor? O encantamento da narrativa de Eneida de Moraes, que cintila ou lampeja na dedicatória acima, em grande parte focada em Belém, me instigou a procurar a cidade (e sua alma) em vários escritores paraenses: Bruno de Menezes, Walcyr Monteiro, Haroldo Maranhão, Max Martins, Dalcídio Jurandir, entre outros.

Aos escritores acima aludidos, com interesse voltado para o conhecimento de Belém, acredito ter um débito referente à crescente intensidade de meu amor por esta minha cidade; a qual, no percurso de minha formação como cidadã, que se estende à atualidade, acabou por descobrir como um patrimônio – uma herança de valor inestimável, e, que, como tal, não deve jamais ser aviltada, desperdiçada, maltrada ou dilapidada. A partir desse breve contexto de como a literatura influenciou meu interesse pelo patrimônio cultural quando eu ainda não sabia exatamente o que expressão significava, elaborei este texto com base no romance Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir, com vistas à uma configuração do Ver- O- Peso, analisando as evidências de identidade e memória ligadas a este nosso patrimônio tão representativo na vida desta cidade, sugerindo ou propondo-


Foto: Jordy Burch

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literatura do pará -as como elementos de uma possível estratégia didática no âmbito das artes visuais articulada à educação patrimonial, fazendo com que a comunidade desperte para a história e a formação de sua identidade através do patrimônio cultural. A suposição básica aqui é de que se utilizadas de maneira criativa essas evidências são capazes de despertar no educando (quer seja criança quer seja adulto) o sentimento de pertencimento no que diz respeito ao bem patrimonial considerado, o que, sem dúvida, é importante num processo de ensino libertador (no sentido paulofreiriano), que vise não apenas a valorização dos bens culturais, mas a formação de um tipo de pessoa que seja capaz de transformar a sua experiência em algo positivo para a sua vida e para a sociedade. No caso do Ver- O- Peso a reflexão se impõe não apenas como patrimônio material e imaterial. É muito mais. Implica o visível e o invisível, pois é a partir da relação entre o vivido e o imaginado que o escritor focaliza fatos, personagens e este lugar histórico que dialogam com outras histórias que povoam o seu imaginário, aproximando a sua literatura da realidade. Foi com esse entendimento que procurei na leitura de Belém do Grão Pará, a partir daí, na realidade concreta, com a ajuda da fotografia, refleti-lo na sua totalidade, ou criar elementos para isso no processo de ensino. Durante a leitura do texto dalcidiano, observei que o escritor aborda temas de reflexão que atravessa os tempos, retirados da experiência cotidiana, brotando como um dos traços mais marcantes de sua obra, pois o mergulho na culturalidade belenense e suas minuciosas observações sobre o modo de vida, os hábitos, as visões de mundo, os sonhos, os dramas individuais e coletivos, compunham uma abundante matéria-prima. Conforme diz Silva (2010, p.53): Dalcídio é um desbravador da alma humana e sua literatura traduz uma desmedida valorização da subjetividade do ser humano. Em seus romances estão presentes como característica marcante, os longos diálogos íntimos, em que se escancaram os sentimentos, os sonhos, as incompreensões, as frus16 www.revistapzz.com

Foto: Bruno Cecim

Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe,


SÍMBOLO CUILTURAL Nazaré de Mello e Silva Soares é pedagoga, administradora escolar, professora, pesquisadora, MBA e Mestra em Ciências da Educação. É autora de 10 livros publicados sobre lendas e mitos. Membro do IHGP.

trações e os sofrimentos mais profundos das pessoas. Nesse sentido o romance objeto de estudo facilita, de certo modo, a reflexão desejada conforme espero demonstrar com as observações a seguir. Dalcídio: O Artista do Verbo A ação do romance, situa-se em 1922 e acompanha a mudança do menino Alfredo, da ilha do Marajó para Belém, transcorrendo toda nesta cidade, salvo pelas passagens em que o menino se transporta para o seu local de origem, por obra da memória ou da fantasia. Em função disso, pode-se dizer, “trata-se de um romance eminentemente urbano, descrevendo uma Belém que, apesar de decadente, preserva certa sofisticação da época do esplendor da borracha (1870-1910)”. BGP. Em Belém do Grão Pará, lê-se, ao mesmo tempo, a história da família Alcantara, uma família de classe média, decaída do alto do status social que tivera no governo do prefeito Antônio Lemos, durante a alta da borracha, e a história de Belém dos anos 20, já decadente, mas com a estampa moderna parisiense que nela imprimira aquele Prefeito. Na tentativa de recuperar, pelo menos, a aparência da posição perdida, os Alcantara , sob a inspiração da fútil e gorda filha do casal, mudam-se da obscura rua onde moravam para Av. Nazaré, onde se concentravam os ricaços, em geral fazendeiros da ilha do Marajó, mas vão ocupar aí uma casa em ruína, devorada pelos cupins. Quando a nova e chique residência ameaça desabar, a família, com ajuda dos empregados, carrega, de noite, os poucos móveis que lhe restam, para a

acolhedora sombra das mangueiras, à beira da calçada. Nunes bgp. Nessa obra, além do humor irônico e ao mesmo tempo sútil tem se também um forte lirismo, que, de certo modo contamina o leitor num processo de identificação contínua com o cotidiano na contemporaneidade seja pelos arquétipos, ou pela maneira particular de nos remeter ao passado, propiciando um diálogo fecundo com a educação patrimonial, pois faz referência ao patrimônio cultural belenense em sua diversidade de manifestações, tangíveis e intangíveis, consagradas e não consagradas, como fonte primária de conhecimento e aprendizado, a ser utilizada e explorada como instrumento de motivação, individual e coletiva, para a prática da cidadania e o estabelecimento de diálogo enriquecedor entre as gerações. Convém lembrar aqui que a Belle Époque em Belém apresenta-se como uma contradição a qual Castro (2010, p.24) chama de experiência alegórica de modernidade, pois “vivencias e visibilidades do moderno sedimentadas no centro do capitalismo mundial foram trazidas para Belém”, (BASSALO: 2008, p. 43) “contrastando com a figuração social própria da cultura local, alicerçada nas necessidades e condicionamentos do homem amazônico, sem uma relação direta entre o desenvolvimento social da região e as representações estéticas criadas pelo mundo burguês da Europa industrializada.” Os dias do presente de Alfredo resgatam uma vida de Belém em que já se contava dez anos do fim daquela época. O ambiente era de nostalgia de um passado recente e para sempre arruinado. Outro aspecto a destacar é que, conforme registram os estudiosos, o regionalismo em Dalcídio Jurandir, em Belém do Grão Pará apresenta-se crítico: através de seus personagens ele denuncia as mazelas da sociedade, e dramas existenciais de caráter universal descrevendo a realidade peculiar onde vive seu povo. (cf. SILVA: 2010, p. 33, 39). Além disso: Não é demais lembrar que, na moderna ficção brasileira, Dalcídio Jurandir

é um dos autores que mais apropriadamente cria um cenário romanesco adequado para a exposição das mazelas sociais, dos conflitos de classe, dos problemas do latifúndio, entre outros, oriundos do embate humano com a natureza amazônica. (NUNES: 2010, p. 36). Escrevendo os seus romances de maneira descritiva e plástica, como se estivesse fotografando com palavras, Dalcídio Jurandir dá visibilidade ao seu texto levando o leitor a ver a cena como se esta desenrolasse diante de seus olhos. À vista dessas impressões que absorvi no decorrer da leitura de Belém do Grão Pará, a partir de meu universo, as Artes Visuais, imaginei a possibilidade de associar ao processo da educação patrimonial, digamos assim, de forma criativa o amálgama composto pelo cenário do romance e pela minha percepção desse cenário e a realidade concreta que lhe deu origem. A Educação Patrimonial a luz de Dalcídio Jurandir. Os bens patrimoniais são materialidades e práticas culturais que se destacam no tecido urbano e nas manifestações populares por mediarem diversos e memoráveis fatos históricos e personagens ilustres ou por representarem heranças culturais, técnicas e estéticas de tempos passados. Os bens provenientes do passado carregam traços culturais de seu tempo e os interpretam no presente, compondo um espaço em suas múltiplas paisagens (PELLEGRINO, 2003). Há poucas décadas verifica-se uma significativa mudança na forma de compreender o patrimônio. Ramon Gutierrez (1992), traça algumas considerações sobre esse impacto, em que é percebido uma ruptura com uma visão histórica reducionista apoiada por uma ‘historiografia oficial’ que converte em patrimônio bens de origem aristocrática, religiosa, bélica ou estatal. Nessa nova concepção de patrimônio há a inclusão do cultural e das “dimensões testemunhais do cotidiano e os feitos intangíveis”. Superam-se as legislações que reconheciam os bens por sua antiguidade e são ultrapassadas as fronteiras que limitavam o ingresso ao status de patrimônio às edificações www.revistapzz.com 17


literatura do pará oficiais e igrejas. E, ao mesmo tempo, as obras arquitetônicas deixam de ser vistas como objetos isolados e tornam-se relevantes os conjuntos urbanos e territoriais e também a contextualização tanto física como social e cultural destes. Nesse sentido, a proposta da Educação patrimonial é motivar a integração distintos grupos sociais, constituinte de uma dada comunidade, intencionando a motivação de ações que propiciem a emergência de diversas proposições que assegurem a defesa e ativação da memória. O que se busca é a tomada de consciência das comunidades sobre a relevância da geração, valorização e resguardo de patrimônios culturais locais. É a recorrência ao cultivo da sensibilidade da população como forma de instrumentalizá-la dentro de seus universos comuns para identificação, entendimento e préstimo ao patrimônio cultural no seu âmbito de atuação. SABALLA(2007) As imagens ficcionalizadas por Dalcídio Jurandir evidenciam o domínio do escritor ao cultivo da sensibilidade, no romance o leitor se transporta para uma Belém do início do século XX, mas também é levado a visitar o que Pierre Nora definiu como “lugares de memória”, espelhos nos quais, os grupos sociais se reconhecem e se identificam, mesmo que de maneira fragmentada. Estes “lugares” da memória coletiva operam como “detonadores” de uma sucessão de imagens, idéias, sensações, sentimentos, e vivências individuais e de grupo num encadeamento de revivencias, ou de “reconhecimento” das experiências coletivas, potencializando o sentimento de pertencimento e de identidade, a consciência de nós mesmos e dos outros que compartilham essas vivencias. Horta( patmemidet) Chegavam ao Ver-O-Peso. – Hein, seu Quadro de honra, quer passar pelas igrejas? Estão de porta fechada. Ninguém reza neste mundo. [...] Alfredo fitou-a, estranhando, e voltou a olhar as torres e os mastros, o rio e as mangueiras do Largo do Palácio. – Vem cá um pouco. Segurou a mão dele e o levou até a igreja de Santo Alexandre, junto do Arcebispado. Daquele casa18 www.revistapzz.com

rão, afirmou Libânia, saíam os padres. Alfredo teve um vago arrepio: era uma escuridão lá por dentro! Para o menino, a igreja pareceu feita de uma pedra só. [...] Aqui nesta igreja está encantada um menina. De uma enorme pedra só, a Santo Alexandre, com uma menina dentro encantada. Igreja feita ou ali nascida do próprio chão. Olhou para Libânia, no olhara dela o rosto da menina encantada na pedra. De

queixo em cima, olhar subindo a torre, Libânia fascinada. – Aqui nesta igreja encantou-se uma menina, seca- seca, por ter levantado uma vassoura contra a mãe dela.[...] E voltaram correndo para o Ver- O- Peso, como perseguidos. Viva maré de março visitando o Mercado de Ferro, lojas e botequins, refletindo junto ao balcão os violões desencordoados nas prateleiras. Os bondes, ao fazer a curva no trecho


Foto: Bruno Cecim

pariga de perna inchada- inchada, no rosto um rouge como uma queimadura. A Carroça fazia mudança, atravancando a rua. [...] Desciam a calçada, ganhavam a linha do bonde, invadindo a cidade.(JURANDIR, 2004, p.132, 133, 134, 135 CAP. 9); No excerto acima é evidente a menção a alguns patrimônios consagrados, o Ver- O- Peso, o mercado de Ferro, as igrejas, as mangueiras, samaumeiras, e também àqueles não consagrados que destituem a “memória-poder”, a história da menina encantada, o rio, as marés de março, as proas de peixe, o provar de todas as farinhas, as linhas dos bondes, ou seja, os bens que estão agregados e socializados na memória coletiva, pois as lembranças dos acontecimentos são compartilhadas e vivenciadas por nós habitantes desta

“Mas nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera de um acontecimento total que o transfigure”.

inundado, navegavam. As canoas no porto veleiro, em cima da enchente, ao nível da rua, de velas içadas, pareciam prontas a velejar cidade adentro, amarrando os seus cabos nas torres do Carmo, da Sé, de Santo Alexandre e nas samaumeiras do arraial de Nazaré. Libânia corria então para ver: os bons barcos, panos cor de telha, cobriam o Ver- O- Peso com telhado de velas. Libânia apontava as montarias cheias

potes queimados como a sua face, e bilhas de barro e as andorinhas curiosas dos mastros, das proas com peixe assando e as mãos de milho verde que descarregavam. [...] o gosto de provar todas as farinhas ali expostas nos paneiros em plena calçada não atingida ainda pela maré. Pôs-se a provar desta, daquela, amarelinha, a bem torrada, fingindo enfado, competência, exigente no escolher. [...] Depois, aquela ra-

cidade em sua pluralidade. Neste sentido, estamos em contato com as nossas referencias locais, sendo oportuna a temática da identidade, que é um processo de identificações historicamente apropriadas que conferem sentido ao grupo (Cruz 1993). Ou seja, ela implica um sentimento de pertencimento a um determinado grupo étnico, cultural, religioso, de acordo com a percepção da diferença e da semelhança entre, entre «nós» e os «outros». vale dizer que diante das circunstâncias em que tendências globais se tornam referências de vida, as pessoas encontram-se num dilema que é viver num mundo cada vez mais homogêneo ou afirmar sua própria identidade, seu vínculo de pertencimento a algum lugar. www.revistapzz.com 19


literatura do pará Stuart Hall (1992) afirma que a globalização explora a diferenciação local, dessa forma, seria preciso pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local”. A globalização, nesse sentido, iria produzir novas identificações “locais”, segundo este teórico, isso ocorreria devido a uma mudança estrutural que está transformando as sociedades modernas no final do século XX, provocando a fragmentação das paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que no passado nos fornecia sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações mudam também nossas identidades pessoais, estremecendo a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Estamos cada vez mais “deslocados”, “descentrados”, experimentando uma ausência de “sentido de si”. Esse duplo deslocamento, tanto de nosso lugar no mundo social e cultural quanto de nós mesmos constitui uma crise de identidade para o indivíduo. HALL(2004) Para esse autor existem três tipos de identidade de um sujeito determinado: a identidade do sujeito iluminista, do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno. Com isso, na obra objeto de estudo é possível conjecturar que Dalcídio faz alusão a essa crise de identidade, vale dizer que o romance foi publicado pela primeira vez em 1965, isto é, segunda metade do século XX o que me levou supor e apontar alguns aspectos característicos de dois destes. Primeiramente tem-se o sujeito sociológico, que reflete “a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência que este núcleo interior do sujeito, não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado por outras pessoas importantes para ele, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura dos mundos que ele/ela habitava. (HALL: 1992; p.2) Desse ponto de vista as identidades culturais se configuram como se só existisse o mundo pessoal e o mundo público, alinhando as vivências aos lugares compartimentados do mundo social e cultural. Então no sujeito sociológico a identidade: 20 www.revistapzz.com

“Costura (ou, para usar uma metáfora médica, “sutura”) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis” (Idem, ibidem) O segundo tipo de sujeito identificável no romance é o que Stuart Hall chama de pós-moderno, que é por ele conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. “A identidade torna-se uma “celebração móvel” [...] A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se

multiplicam, somos confrotados por uma multiplicidade desconcertante e cambiente de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar- ao menos temporariamente”. (Idem, ibidem; p.3) Dalcídio, com a magia de um autêntico e experimentado artista do verbo narra suas primeira impressões de Belém ao desembarcar no cais do Ver- O- Peso, vale dizer, que o século XX foi marcado pelos fluxos migratórios do campo para a cidade, a cidade passou a representar o universo com maiores oportunidades e foi em busca de se libertar das malhas da pobreza do Marajó que Alfredo vem estudar em Belém, sendo evidente o ideal de


SÍMBOLO CUILTURAL Nazaré de Mello e Silva Soares é pedagoga, administradora escolar, professora, pesquisadora, MBA e Mestra em Ciências da Educação. É autora de 10 livros publicados sobre lendas e mitos. Membro do IHGP.

liberdade da modernidade e a crise de identidade entre o sujeito sociológico e o sujeito pós moderno. Alfredo olhava o convés já limpo, sem mais o cheiro das oito reses deixadas no Matadouro. Nelas ficara o cheiro das três casas, dos campos marajoaras. Também o cheiro de Andreza. Apertou o cabo com uma súbita vontade de chorar não sabia se de contentamento ou saudade, como se nele, as duas paixões, a da cidade e a da menina lutassem, ali naquele instante [...] Entre a paixão de estudar e o estudar mesmo atravessara-se a viagem, os seus novos sentimentos, a perda do carocinho, ou a morte súbita de sua infância? Como Mariinha, teria morrido nele, da noite para o dia, o menino de Cachoeira? [...] Perdia o chão de Cachoeira e não sentia ainda o chão de Belém. Um desconhecido começava a laterjazinho dentro dele, não mais o do Chalé nem ainda do 160. JURANDIR (2004, p. 80, 113) Em outro momento descreve o que poderia ser o sentido da morte para o sujeito sociológico em confronto com o sujeito fragmentado pós-moderno, ou seja, as memórias do menino do Marajó de hábitos moldados à sua comunidade de origem, Cachoeira, e o menino em que ele era obrigado a se tornar na cidade grande, Belém. E logo sentiu obscuramente que a morte na cidade se despojava daquele pudor, decência e mistério que a todos transmitia em Cachoeira. Lá “fazia mal” deixar um morto assim, o morto era inviolável, tocava-se nele para lavá-lo, vestir, cruzar-lhe as mãos, pô- lo no caixão ou rede, entregue unicamente à sua morte. Dentro do mão nenhuma trocaria, depois que lhe trocara a outra, a inevitável. Não ficaria nunca ali naquela pedra, sem nome, vela ou origem, igual peixe no gelo. Isso doeu no menino, cheio agora de súbitas perguntas, e isto e aquilo, e por quê, que que dizia o pai, e Andreza? Por que vivo, se podia ele também acabar numa pedra, aquela, retalhado, sozinho- sozinho, com tão íntima gordura exposta, nunca adivinhada num defunto. JURANDIR( 2004, p.85) O caráter da mudança na modernidade considera o processo de Globalização o mais relevante no que diz

respeito ao impactos na identidade cultural é uma das pontas do iceberg que deu origem ao sujeito pós- moderno, caracterizado por não ser fixo, permanente. Neste momento o sujeito não possui uma identidade, mas várias identidades, provisórias, variáveis as quais estão constante formação e transformação, pois estamos a todo o momento sendo bombardeados por uma multiplicidade perturbadora de identidades com as quais nos identificamos com cada uma ao menos provisoriamente. Sendo assim: Assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. As partes “femininas” do eu masculino, por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a “identidade” e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude. Hall( 2004, p.10) Nesse contexto, reside a preocupação com a valorização das manifestações culturais e do patrimônio cultural como um bem que representa a alma, a identidade e a tradição de um lugar. Assim, a procura por cultura das cidades tem levado a um progressivo interesse em preservar e revitalizar artefatos com valor cultural, com a intenção de valorizar a sua imagem, afirmando a identidade cultural.

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literatura folclorica

Nazaré Mello

0 CHEIRO E ALMA PARAENSE O folclore literário retratado em nossa cultura de contos simbólico.

As raízes deste artigo, de certo modo, estão fincadas em experiências de infância. Digo isso considerando algumas lembranças de quando ainda criança. Daquele tempo lembro que meu pai contava-me muitas histórias, umas inventadas, outras conhecidas. Essas histórias e/ou estórias, na maioria das vezes, tinham como cenário a cidade onde nasci: Belém do Pará. Lembro ainda que logo no início do período de minha adolescência foi ele também quem me apresentou um livro marcante, “Banho de Cheiro” (Ed. Civilização Brasileira, 1962), de Eneida [de Moraes], que desvela muito da alma desta cidade, em tempos idos, e cuja dedicatória é escrita nestes termos: Para a minha cidade, na pessoa física que– para mim é minha mãe. /Para a minha cidade, suas ruas e praças, suas manhãs claras e noites perfumadas de jasmim bogari; para os igarapés e os igapós, para os canteiros dos jardins públicos hoje abandonados, outrora moradas de rosas-meninas;/para a minha cidade, sua gente da Pedreira, do Umarizal, Jurunas; para a gente da S. Jerônimo, Nazaré e Independência./Para a minha cidade tão pobrezinha agora, mas tão cheirosa sempre de pau-de-Angola e patchuli; / para a minha cidade, meus amigos de lá, minha família de lá, minha gente de lá. / Para a cidade de Santa Maria de Belém Grão-Pará, este livro. / Também para Lea, mina filha./ Precisarei falar de amor? O encantamento da narrativa de Eneida de Moraes, que cintila ou lampeja na dedicatória acima, em grande parte focada em Belém, me instigou a procurar a cidade (e sua alma) em vários escritores paraenses: Bruno de Menezes, Walcyr

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Foto: Bruno pellerin

SÍMBOLO CUILTURAL Nazaré de Mello e Silva Soares é pedagoga, administradora escolar, professora, pesquisadora, MBA e Mestra em Ciências da Educação. É autora de 10 livros publicados sobre lendas e mitos. Membro do IHGP.

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literatura folclorica Monteiro, Haroldo Maranhão, Max Martins, Dalcídio Jurandir, entre outros. Aos escritores acima aludidos, com interesse voltado para o conhecimento de Belém, acredito ter um débito referente à crescente intensidade de meu amor por esta minha cidade; a qual, no percurso de minha formação como cidadã, que se estende à atualidade, acabou por descobrir como um patrimônio – uma herança de valor inestimável, e, que, como tal, não deve jamais ser aviltada, desperdiçada, maltrada ou dilapidada. A partir desse breve contexto de como a literatura influenciou meu interesse pelo patrimônio cultural quando eu ainda não sabia exatamente o que expressão significava, elaborei este texto com base no romance Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir, com vistas à uma configuração do Ver- O- Peso, analisando as evidências de identidade e memória ligadas a este nosso patrimônio tão representativo na vida desta cidade, sugerindo ou propondo-as como elementos de uma possível estratégia didática no âmbito das artes visuais articulada à educação patrimonial, fazendo com que a comunidade desperte para a história e a formação de sua identidade através do patrimônio cultural. A suposição básica aqui é de que se utilizadas de maneira criativa essas evidências são capazes de despertar no educando (quer seja criança quer seja adulto) o sentimento de pertencimento no que diz respeito ao bem patrimonial considerado, o que, sem dúvida, é importante num processo de ensino libertador (no sentido paulofreiriano), que vise não apenas a valorização dos bens culturais, mas a formação de um tipo de pessoa que seja capaz de transformar a sua experiência em algo positivo para a sua vida e para a sociedade. No caso do Ver- O- Peso a reflexão se impõe não apenas como patrimônio material e imaterial. É muito mais. Implica o visível e o invisível, pois é a partir da relação entre o vivido e o imaginado que o escritor focaliza fatos, personagens e este lugar histórico que dialogam com outras histórias que povoam o seu imaginário, aproxi24 www.revistapzz.com

mando a sua literatura da realidade. Foi com esse entendimento que procurei na leitura de Belém do Grão Pará, a partir daí, na realidade concreta, com a ajuda da fotografia, refleti-lo na sua totalidade, ou criar elementos para isso no processo de ensino. Durante a leitura do texto dalcidiano, observei que o escritor aborda temas de reflexão que atravessa os tempos, retirados da experiência cotidiana, brotando como um dos traços mais marcantes de sua obra, pois o mergulho na culturalidade belenense e suas minuciosas observações sobre o modo de vida, os hábitos, as visões de mundo, os sonhos, os dramas individuais e coletivos, compunham uma abundante matéria-prima. Conforme diz Silva (2010, p.53): Dalcídio é um desbravador da alma humana e sua literatura traduz uma desmedida valorização da subjetividade do ser humano. Em seus romances estão presentes como característica marcante, os longos diálogos íntimos, em que se escancaram os sentimentos, os sonhos, as incompreensões, as frustrações e os sofrimentos mais profundos das pessoas. Nesse sentido o romance objeto de estudo facilita, de certo modo, a reflexão desejada conforme espero demonstrar com as observações a seguir. Dalcídio: O Artista do Verbo A ação do romance, situa-se em 1922 e acompanha a mudança do menino Alfredo, da ilha do Marajó para Belém, transcorrendo toda nesta cidade, salvo pelas passagens em que o menino se transporta para o seu local de origem, por obra da memória ou da fantasia. Em função disso, pode-se dizer, “trata-se de um romance eminentemente urbano, descrevendo uma Belém que, apesar de decadente, preserva certa sofisticação da época do esplendor da borracha (1870-1910)”. BGP. Em Belém do Grão Pará, lê-se, ao mesmo tempo, a história da família Alcantara, uma família de classe média, decaída do alto do status social que tivera no governo do prefeito Antônio Lemos, durante a alta da borracha, e a

história de Belém dos anos 20, já decadente, mas com a estampa moderna parisiense que nela imprimira aquele Prefeito. Na tentativa de recuperar,

Qual papel importante, elas representam para a comunidade, por abordar questões intrínsecas as tradições da região e que não podem, nem devem ser esquecidas, mas sim evidenciadas e difundidas, como forma de valorizar as raízes da cultura humanística do homem, com identidade mística por excelência, por tradição de seus aspectos culturais como é o amazônico. pelo menos, a aparência da posição perdida, os Alcantara , sob a inspiração da fútil e gorda filha do casal, mudam-se da obscura rua onde moravam para Av. Nazaré, onde se concentravam os ricaços, em geral fazendeiros da ilha do Marajó, mas vão ocupar aí uma casa em ruína, devorada pelos cupins. Quando a nova e chique residência ameaça desabar, a família, com ajuda dos empregados, carrega, de noite, os poucos móveis que lhe restam, para a acolhedora sombra das mangueiras, à beira da calçada. Nunes bgp. Nessa obra, além do humor irônico e ao mesmo tempo sútil tem se também um forte lirismo, que, de certo modo contamina o leitor num processo de identificação contínua com o cotidiano na contemporaneidade seja pelos arquétipos, ou pela maneira particular de nos remeter ao passado, propiciando um diálogo fecundo com a educação patrimonial, pois faz referência ao patrimônio cultural belenense em sua diversidade de manifestações, tangíveis e intangíveis, consagradas e não consagradas, como fonte primária de conhecimento e aprendizado, a ser utilizada e explorada como instrumento de motivação, individual e coletiva, para a prática da


cidadania e o estabelecimento de diálogo enriquecedor entre as gerações. Convém lembrar aqui que a Belle Époque em Belém apresenta-se como uma contradição a qual Castro (2010, p.24) chama de experiência alegórica de modernidade, pois “vivencias e visibilidades do moderno sedimentadas no centro do capitalismo mundial foram trazidas para Belém”, (BASSALO: 2008, p. 43) “contrastando com a figuração social própria da cultura local, alicerçada nas necessidades e condicionamentos do homem amazônico, sem uma relação direta entre o desenvolvimento social da região e as representações estéticas criadas pelo mundo burguês da Europa industrializada.” Os dias do presente de Alfredo resgatam uma vida de Belém em que já se contava dez anos do fim daquela época. O ambiente era de nostalgia de um passado recente e para sempre arruinado. Outro aspecto a destacar é que, conforme registram os estudiosos, o regionalismo em Dalcídio Jurandir, em Belém do Grão Pará apresenta-se crítico: através de seus personagens ele denuncia as mazelas da sociedade, e dramas existenciais de caráter universal descrevendo a realidade peculiar onde vive seu povo. (cf. SILVA: 2010, p. 33, 39). Além disso: Não é demais lembrar que, na moderna ficção brasileira, Dalcídio Jurandir é um dos autores que mais apropriadamente cria um cenário romanesco adequado para a exposição das mazelas sociais, dos conflitos de classe, dos problemas do latifúndio, entre outros, oriundos do embate humano com a natureza amazônica. (NUNES: 2010, p. 36). Escrevendo os seus romances de maneira descritiva e plástica, como se estivesse fotografando com palavras, Dalcídio Jurandir dá visibilidade ao seu texto levando o leitor a ver a cena como se esta desenrolasse diante de seus olhos. À vista dessas impressões que absorvi no decorrer da leitura de Belém do Grão Pará, a par-

tir de meu universo, as Artes Visuais, imaginei a possibilidade de associar ao processo da educação patrimonial, digamos assim, de forma criativa o amálgama composto pelo cenário do romance e pela minha percepção desse cenário e a realidade concreta que lhe deu origem. A Educação Patrimonial a luz de Dalcídio Jurandir. Os bens patrimoniais são materialidades e práticas culturais que se destacam no tecido urbano e nas manifestações populares por mediarem diversos e memoráveis fatos históricos e personagens ilustres ou por representarem heranças culturais, técnicas e estéticas de tempos passados. Os bens provenientes do passado carregam traços culturais de seu tempo e os interpretam no presente, compondo um espaço em suas múltiplas paisagens (PELLEGRINO, 2003). Há poucas décadas verifica-se uma significativa mudança na forma de compreender o patrimônio. Ramon Gutierrez (1992), traça algumas considerações sobre esse impacto, em que é percebido uma ruptura com uma visão histórica reducionista apoiada por uma ‘historiografia oficial’ que converte em patrimônio bens de origem aristocrática, religiosa, bélica ou estatal. Nessa nova concepção de patrimônio há a inclusão do cultural e das “dimensões testemunhais do cotidiano e os feitos intangíveis”. Superam-se as legislações que reconheciam os bens por sua antiguidade e são ultrapassadas as fronteiras que limitavam o ingresso ao status de patrimônio às edificações oficiais e igrejas. E, ao mesmo tempo, as obras arquitetônicas deixam de ser vistas como objetos isolados e tornamse relevantes os conjuntos urbanos e territoriais e também a contextualização tanto física como social e cultural destes. Nesse sentido, a proposta da Educação patrimonial é motivar a integração distintos grupos sociais, constituinte de uma dada comunidade, intencionando a motivação de ações que propiciem a emergência de diversas proposições que assegurem a defesa e ativação da memória. O que se busca é a tomada de cons-

ciência das comunidades sobre a relevância da geração, valorização e resguardo de patrimônios culturais locais. É a recorrência ao cultivo da sensibilidade da população como forma de instrumentalizá-la dentro de seus universos comuns para identificação, entendimento e préstimo ao patrimônio cultural no seu âmbito de atuação. SABALLA(2007) As imagens ficcionalizadas por Dalcídio Jurandir evidenciam o domínio do escritor ao cultivo da sensibilidade, no romance o leitor se transporta para uma Belém do início do século XX, mas também é levado a visitar o que Pierre Nora definiu como “lugares de memória”, espelhos nos quais, os grupos sociais se reconhecem e se identificam, mesmo que de maneira fragmentada. Estes “lugares” da memória coletiva operam como “detonadores” de uma sucessão de imagens, idéias, sensações, sentimentos, e vivências individuais e de grupo num encadeamento de revivencias, ou de “reconhecimento” das experiências coletivas, potencializando o sentimento de pertencimento e de identidade, a consciência de nós mesmos e dos outros que compartilham essas vivencias. Horta( patmemidet) Chegavam ao Ver-O-Peso. – Hein, seu Quadro de honra, quer passar pelas igrejas? Estão de porta fechada. Ninguém reza neste mundo. [...] Alfredo fitou-a, estranhando, e voltou a olhar as torres e os mastros, o rio e as mangueiras do Largo do Palácio. – Vem cá um pouco. Segurou a mão dele e o levou até a igreja de Santo Alexandre, junto do Arcebispado. Daquele casarão, afirmou Libânia, saíam os padres. Alfredo teve um vago arrepio: era uma escuridão lá por dentro! Para o menino, a igreja pareceu feita de uma pedra só. [...] Aqui nesta igreja está encantada um menina. De uma enorme pedra só, a Santo Alexandre, com uma menina dentro encantada. Igreja feita ou ali nascida do próprio chão. Olhou para Libânia, no olhara dela o rosto da menina encantada na pedra. De queixo em cima, olhar subindo a torre, Libânia fascinada. – Aqui nesta igreja encantou-se uma menina, seca- seca, por ter levantado uma vassoura contra a mãe dela.[...] E voltaram correndo www.revistapzz.com 25


literatura lançamento para o Ver- O- Peso, como perseguidos. Viva maré de março visitando o Mercado de Ferro, lojas e botequins, refletindo junto ao balcão os violões desencordoados nas prateleiras. Os bondes, ao fazer a curva no trecho inundado, navegavam. As canoas no porto veleiro, em cima da enchente, ao nível da rua, de velas içadas, pareciam prontas a velejar cidade adentro, amarrando os seus cabos nas torres do Carmo, da Sé, de Santo Alexandre e nas samaumeiras do arraial de Nazaré. Libânia corria então para ver: os bons barcos, panos cor de telha, cobriam o Ver- O- Peso com telhado de velas. Libânia apontava as montarias cheias potes queimados como a sua face, e bilhas de barro e as andorinhas curiosas dos mastros, das proas com peixe assando e as mãos de milho verde que descarregavam. [...] o gosto de provar todas as farinhas ali expostas nos paneiros em plena calçada não atingida ainda pela maré. Pôs-se a provar desta, daquela, amarelinha, a bem torrada, fingindo enfado, competência, exigente no escolher. [...] Depois, aquela rapariga de perna inchada- inchada, no rosto um rouge como uma queimadura. A Carroça fazia mudança, atravancando a rua. [...] Desciam a calçada, ganhavam a linha do bonde, invadindo a cidade.(JURANDIR, 2004, p.132, 133, 134, 135 CAP. 9); No excerto acima é evidente a menção a alguns patrimônios consagrados, o Ver- O- Peso, o mercado de Ferro, as igrejas, as mangueiras, samaumeiras, e também àqueles não consagrados que destituem a “memória-poder”, a história da menina encantada, o rio, as marés de março, as proas de peixe, o provar de todas as farinhas, as linhas dos bondes, ou seja, os bens que estão agregados e socializados na memória coletiva, pois as lembranças dos acontecimentos são compartilhadas e vivenciadas por nós habitantes desta cidade em sua pluralidade. Neste sentido, estamos em contato com as nossas referencias locais, sendo oportuna a temática da identidade, que é um processo de identificações historicamente apropriadas que conferem sentido ao grupo (Cruz 1993). Ou seja, ela implica um sentimento de pertencimento a um determinado 26 www.revistapzz.com

grupo étnico, cultural, religioso, de acordo com a percepção da diferença e da semelhança entre, entre «nós» e os «outros». vale dizer que diante das circunstâncias em que tendências globais se tornam referências de vida, as pessoas encontram-se num dilema que é viver num mundo cada vez mais homogêneo ou afirmar sua própria identidade, seu vínculo de pertencimento a algum lugar. Stuart Hall (1992) afirma que a globalização explora a diferenciação local, dessa forma, seria preciso pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local”. A globalização, nesse sentido, iria produzir novas identificações “locais”, segundo este teórico, isso ocorreria devido a uma mudança estrutural que está transformando as sociedades modernas no final do século XX, provocando a fragmentação das paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que no passado nos fornecia sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações mudam também nossas identidades pessoais, estremecendo a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Estamos cada vez mais “deslocados”, “descentrados”, experimentando uma ausência de “sentido de si”. Esse duplo deslocamento, tanto de nosso lugar no mundo social e cultural quanto de nós mesmos constitui uma crise de identidade para o indivíduo. HALL(2004) Para esse autor existem três tipos de identidade de um sujeito determinado: a identidade do sujeito iluminista, do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno. Com isso, na obra objeto de estudo é possível conjecturar que Dalcídio faz alusão a essa crise de identidade, vale dizer que o romance foi publicado pela primeira vez em 1965, isto é, segunda metade do século XX o que me levou supor e apontar alguns aspectos característicos de dois destes. Primeiramente tem-se o sujeito sociológico, que reflete “a crescente complexidade do mun-

do moderno e a consciência que este núcleo interior do sujeito, não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado por outras pessoas importantes para ele, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura dos mundos que ele/ela habitava. (HALL: 1992; p.2) Desse ponto de vista as identidades culturais se configuram como se só existisse o mundo pessoal e o mundo público, alinhando as vivências aos lugares compartimentados do mundo social e cultural. Então no sujeito sociológico a identidade: “Costura (ou, para usar uma metáfora médica, “sutura”) o sujeito à estrutura.

Qual papel importante, elas representam para a comunidade, por abordar questões intrínsecas as tradições da região e que não podem, nem devem ser esquecidas, mas sim evidenciadas e difundidas, como forma de valorizar as raízes da cultura humanística do homem, com identidade mística por excelência, por tradição de seus aspectos culturais como é o amazônico. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis” (Idem, ibidem) O segundo tipo de sujeito identificável no romance é o que Stuart Hall chama de pós-moderno, que é por ele conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. “A identidade torna-se uma “celebração móvel” [...] A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrotados por uma multiplicidade desconcertante e


cambiente de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar- ao menos temporariamente”. (Idem, ibidem; p.3) Dalcídio, com a magia de um autêntico e experimentado artista do verbo narra suas primeira impressões de Belém ao desembarcar no cais do Ver- O- Peso, vale dizer, que o século XX foi marcado pelos fluxos migratórios do campo para a cidade, a cidade passou a representar o universo com maiores oportunidades e foi em busca de se libertar das malhas da pobreza do Marajó que Alfredo vem estudar em Belém, sendo evidente o ideal de liberdade da modernidade e a crise de identidade entre o sujeito sociológico e o sujeito pós moderno. Alfredo olhava o convés já limpo, sem mais o cheiro das oito reses deixadas no Matadouro. Nelas ficara o cheiro das três casas, dos campos marajoaras. Também o cheiro de Andreza. Apertou o cabo com uma súbita vontade de chorar não sabia se de contentamento ou saudade, como se nele, as duas paixões, a da cidade e a da menina lutassem, ali naquele instante [...] Entre a paixão de estudar e o estudar mesmo atravessara-se a viagem, os seus novos sentimentos, a perda do carocinho, ou a morte súbita de sua infância? Como Mariinha, teria morrido nele, da noite para o dia, o menino de Cachoeira? [...] Perdia o chão de Cachoeira e não sentia ainda o chão de Belém. Um desconhecido começava a laterjazinho dentro dele, não mais o do Chalé nem ainda do 160. JURANDIR (2004, p. 80, 113) Em outro momento descreve o que poderia ser o sentido da morte para o sujeito sociológico em confronto com o sujeito fragmentado pós-moderno, ou seja, as memórias do menino do Marajó de hábitos moldados à sua comunidade de origem, Cachoeira, e o menino em que ele era obrigado a se tornar na cidade grande, Belém. E logo sentiu obscuramente que a morte na cidade se despojava daquele pudor, decência e mistério que a todos transmitia em Cachoeira. Lá “fazia mal” deixar um morto assim, o morto era inviolável, tocava-se nele para lavá-lo, vestir, cruzar-lhe as mãos,

pô- lo no caixão ou rede, entregue unicamente à sua morte. Dentro do mão nenhuma trocaria, depois que lhe trocara a outra, a inevitável. Não ficaria nunca ali naquela pedra, sem nome, vela ou origem, igual peixe no gelo. Isso doeu no menino, cheio agora de súbitas perguntas, e isto e aquilo, e por quê, que que dizia o pai, e Andreza? Por que vivo, se podia ele também acabar numa pedra, aquela, retalhado, sozinho- sozinho, com tão íntima gordura exposta, nunca adivinhada num defunto. JURANDIR( 2004, p.85) O caráter da mudança na modernidade considera o processo de Globalização o mais relevante no que diz respeito ao impactos na identidade cultural é uma das pontas do iceberg que deu origem ao sujeito pós- moderno, caracterizado por não ser fixo, permanente. Neste momento o sujeito não possui uma identidade, mas várias identidades, provisórias, variáveis as quais estão constante formação e transformação, pois estamos a todo o momento sendo bombardeados por uma multiplicidade perturbadora de identidades com as quais nos identificamos com cada uma ao menos provisoriamente. Sendo assim: Assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. As partes “femininas” do eu masculino, por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a “identidade” e construin-

do biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude. Hall( 2004, p.10) Nesse contexto, reside a preocupação com a valorização das manifestações culturais e do patrimônio cultural como um bem que representa a alma, a identidade e a tradição de um lugar. Assim, a procura por cultura das cidades tem levado a um progressivo interesse em preservar e revitalizar artefatos com valor cultural, com a intenção de valorizar a sua imagem, afirmando a identidade cultural.

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música BRASILEIRA

Gian Luigi Zampieri Maestro Isoca Wilson Fonseca é o uirapurumor da Pérola do Tapajós, onde fica a paradisíaca praia de Alter do Chão, fonte de inspiração do escritor, músico e poeta, um dos mais importantes compositores da Amazônia.

120 anos depois, “a cavalaria rusticana” volta ao pará

ArqUIVO

maestro italiano, ex-diretor artístico e musical da orquestra sinfônica de ribeirão preto, interior de são paulo, fala do período positivo e negativo das suas experiências musicais no brasil

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G

jornalista Paolo Carlucci

ian Luigi Zampieri foi o último aluno do grande Maestro Franco Ferrara ao qual deve a própria formação moral e artística e com o qual empreendeu o estudo da Música. Organista e Diretor, nasceu em Roma em 1965, aperfeiçoou seus estudos com Francesco De Masi, Carlo Maria Giulini, Gennadi Rozhdestevesnsky e Leonard Bernstein, frequentando os cursos de aperfeiçoamento na Accademia Nazionale di S. Cecilia em Roma e Accademia Musicale Chigiana de Siena aonde, em 1988, obteve o Diploma d’Honra em Direção de Orquestra. Em 1980, com 15 anos de idade, foi nomeado Organista da Basílica de S. Maria em Trastevere (Roma), onde ficou ativo durante 20 anos. Premiado no Concurso Internacional C.ZECCHI (Roma 1989), foi o primeiro diretor italiano premiado no Concurso Internacional A. PEDROTTI, por Diretores de Orquestra, ganhando a 5ª edição (1997). Se exibiu em prestigiosas Instituições nacionais e estrangeiras, das quais: Orquestra Sinfônica Radio Moscou (com a qual estreou em 1993 na sala Tchaikovsky); Orquestra Filarmônica de Bucareste; Haifa Sympony Orquestra; Orquestra de Euskadi; Orquestra Filarmônica da Universidade da Cidade do México; Orquestra de Câmera Radio Bucareste; Teatro San Carlo de Nápoles; Orquestra de Pádua; Orquestra Sinfônica Siciliana; Orquestra Internacional da Itália; Orquestra de Roma e do Lazio; Orquestra Sinfônica Abbruzzese; Orquestra Sinfônica de Sanremo; Os Filarmônicos de Verona; Roma Sinfonietta; Opera Tirana; Orquestra HAYDN de Bolzano; Arena de Verona; Teatro dell’Opera di Roma.

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música BRASILEIRA PZZ - Maestro Gian Luigi Zampieri, Você se encontra em Belém a convite do Theatro da Paz, Teatro de Opera do Estado do Pará, para dirigir no âmbito da programação do XIº Festival dá Ópera. O que você pode nos contar acerca do percurso que o trouxe a Belém? Zampieri - O convite para inaugurar esse prestigioso festival com a Cavalleria Rusticana chegou graças a estima de um amigo e colega, Miguel Campos Neto, Maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz. A experiência de trabalhar dentro desse maravilhoso teatro que transpira história e tradição por todos os cantos foi realmente emocionante, tudo enriquecido por uma orquestra dúctil e colaborativa e de um cast excepcional que me deu todo o suporte em apresentar a Cavalleria Rusticana exatamente após 120 anos da estréia no Pará. Todos nós nos beneficiamos da presença de um diretor excepcional como é Iacov Hillel, figura de primeiro plano do teatro brasileiro e internacional. Um grande reconhecimento vai à Direção Artística do Theatro, a Gilberto Chaves que com entusiasmo irreprimível cura a programação garantindo uma presença capilar em cada momento: o Teatro da Paz de Belém é um teatro que funciona muito bem. PZZ - Você teve prévias experiências musicais no Brasil antes de chegar a Belém? Zampieri -Aqui tocamos uma tecla muito delicada para mim: fui diretor artístico e musical da Orquestra Sinfônica de Riberão Preto (SP) durante o primeiro semestre deste ano. Experiência única e inesquecível no bem e no mal. Começamos pelo bem: uma companhia de músicos excelentes com a qual se instaurou imediatamente um clima de colaboração e estima recíprocas. Para mim e minha esposa que é violinista e que tocou na mesma orquestra, os colegas de Ribeirão Preto foram uma família e a mim pessoalmente me doaram os 6 melhores meses de toda a minha vida artística. Continuamos pelo mal: infelizmente esses músicos são gerenciados por um staff incompetente e arrogante com 30 www.revistapzz.com

o qual eu tive que entrar em conflito, não podendo aceitar em ver os colegas sentados na orquestra tratados como animais de carga e aborrecidos de várias formas. Infelizmente quem gerencia aquela orquestra vem de experiências profissionais antieticas à Musica e ao management e ostenta uma postura prepotente, provavelmente para compensar a própria pobre atitude ao diálogo. Uma administração que, por ignorância, é incapaz de avaliar o crescimento artístico da própria orquestra, se revela capaz de qualquer coisa. Esses “senhores” que gerenciam a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, a segunda mais antiga de todo o Bra-

Eu mesmo, com 25 anos de ensino nas costas, ponho lucidamente esse cenário aos meus estudantes, alertando-os acerca de quanto possa ser nebuloso o horizonte de quem começa a enfrentar uma carreira musical no nosso País. sil, não gostaram do relacionamento privilegiado que tinha se criado entre mim e os músicos e criaram diversos tipos de obstáculo, condicionando a minha atividade, aplicando imotivadas medidas disciplinares contra os colegas, interferindo sem nenhum conhecimento nas escolhas artísticas. Em seguida a essas dificuldades, que se revelaram insolúveis, saí da Direção da Orquestra. Para concluir o conto desse episódio e permitir ao leitor de se fazer uma idéia concreta de como foi gerenciado, vou lhe dizer que todos os músicos que foram demitidos e que foram embora, devido ao clima insuportável que tinha se instaurado, foram imediatamente contratados por mérito ou por terem vencido um concurso, em outras orquestras; minha esposa e eu fomos convidados pelo Theatro da Paz de Belém. Eu acho que tudo isso representa uma eloqüente resposta às escolhas reprováveis efetuadas pela “Diretoria” do Teatro de Ribeirão Preto.

PZZ - O que Vôce acha dos cortes efetuados na Itália à Cultura e de modo específico aos teatros, qual é a atual situação da música culta na Itália, e no Brasil? O que Vôce espera para o futuro? Zampieri - Infelizmente a Itália paga hoje pelos graves erros do passado, tanto remoto quanto recente. Vou me explicar melhor: a partir do segundo pós guerra, a política ativa preencheu todos os âmbitos possíveis da Arte em geral (teatros de Opera, orquestras sinfônicas, mostras de arte, prêmios literários, etc.), colocando quadros de partidos nos lugares e com funções de decisão delicadíssimas. Eles, não obstante uma formação profissional contígua à própria função, permitiram que se desperdiçassem patrimônios enormes para forragear cantantes excessivamente caros, acessórios cênicos muitas vezes inúteis, produções estrangeiras muito caras, agências de cantantes, diretores de orquestra que de fato governaram a cena musical italiana. Quem, em seguida ao fenômeno de “Tangentopoli” (propinas), se lançou no campo da política teria tido uma ótima ocasião para bonificar o errado feito anteriormente, mas infelizmente a auto-intitulada nova geração de managers do Estado, costela da gestão anterior, mostrou toda a própria incompetência a respeito, não sabendo expressar uma nomenclatura artística que pudesse melhorar a cena do management artístico. Quem se encontrou nas poltronas, em ausência de medidas reparatórias, pensou de cortar tudo o “possível” e hoje, por culpa de uns e outros, nos encontramos em um momento histórico no qual qualquer expressão artística sofre de uma depressão perceptível, cujo efeito mais tangível se traduz em desemprego. Eu mesmo, com 25 anos de ensino nas costas, ponho lucidamente esse cenário aos meus estudantes, alertando-os acerca de quanto possa ser nebuloso o horizonte de quem começa a enfrentar uma carreira musical no nosso País. Aqui no Brasil, só para fazer um exemplo, a política de benefícios fiscais permitida pela Lei Rouanet, permitiu que nascessem projetos em cada Estado:


a entidade industrial e de qualquer forma financeira que detém os instrumentos para sustentar atividades de formação e profissionais, goza da dupla vantagem de impostos mais leves e de um reconhecimento por méritos de patrocínio. Tudo isso na Itália no momento não existe e, considerando o momento histórico, penso que ficará por muito tempo ainda não resolvido. O estado de evolução de um País é medido por quanta Arte se produz: sob este aspeto o crescimento do Brasil, internacionalmente reconhecido por muitos, mas internamente “duvidosa” para outros, é inegável, o Brasil superou a Itália neste sentido. Quero também ajustar que aqui no Brasil eu tive a oportunidade de apreciar o perfil técnico da maioria dos músicos instrumentistas, sintoma de que também o ensino funciona, nas Universidades, mas ainda antes nos assim chamados “projetos” que, além da intenção formativa e cultural tem uma função social não indiferente, aproximando os jovens da Musica ativa e criando profissionalismo, além de que um novo público. Sobre o futuro italiano me encontra pessimista: para produzir excelência é preciso começar pelo ensino que no nosso caso, seja pela superlotação e pelas contradições legislativas, caíram de nível; sem um ensino inatacável não se formam gerações profissionalmente capazes. No que se refere às instituições musicais, penso que deveriam valorizar os talentos nacionais, limitar a xenofobia, assim como o poder das agências, os desperdícios, que ainda existem nas nossas programações. PZZ - Você é o ultimo discípulo do Maestro Francesco Ferrara, um dos mais grandes Maestro de Orquestra do mundo, o que Vôce se propõe de fazer no próximo futuro? Zampieri - O Maestro Ferrara, do qual eu tive a honra e a sorte de ser aluno nos seus últimos oito anos de vida e de atividade, foi um gigante no cenário musical internacional. A sua herança em termos de ensino é vastíssima, tendo ele formado mais de 500 diretores de orquestra, mas a sua herança de maior valor não está

na quantidade, mas na qualidade, nos valores, no senso estético que inculcou em cada um de nós, no respeito ao compositor e aos colegas, à estética transmitida generosamente a todos aqueles que tiveram a sorte de poder ter ficado próximo a ele. Passa longe de mim qualquer auto-investidura para perpetuar o seu ensino as gerações futuras, desconfio de quem se erige a “profeta” o a “depositário do verbo”. Eu ensinei 25 anos nos Conservatórios italianos e a paixão por essa atividade se cruza com aquela da execução ao vivo: no meu futuro gostaria de conti-

O estado de evolução de um País é medido por quanta Arte se produz: sob este aspeto o crescimento do Brasil, internacionalmente reconhecido por muitos, mas internamente “duvidosa” para outros, é inegável, o Brasil superou a Itália neste sentido.

seja pelas ruas lotadas de pessoas, Belém mantém ainda viva a sua tradição de desembarque para quem no passado chegava via mar do continente europeu e nisso se demonstra ainda muito hospitaleira e vivaz. È verdade que na mesma cidade convivem os problemas e as contradições de uma capital com um fosso social, a gestão da segurança, a limpeza das ruas e dos bairros, mas a “Mediterraneidade” de Belém faz com que eu a sinta muito familiar, também na nossa terra se convivem com os mesmos inconvenientes no dia a dia das cidades. Vou me repetir, mas o Theatro da Paz, com sua gloriosa história, antes de tudo é um bem ao qual a cidade toda manifesta afeto e ligação e em segundo lugar a sua funcionalidade é sintoma de que também numa capital convulsa existem estruturas que caminham, que produzem, que criam trabalho, cultura e, coisa não indiferente, oferecem bem estar ao ouvido e a alma; creio que deveria ser um exemplo para muitas nossas cidades italianas, cujas atividades artísticas estão diminuindo até se extinguir, por motivações sobre as quais já me expressei. Paolo Carlucci (ASIB-AISE)

nuar a trabalhar no Brasil como diretor de orquestra, mas também colocar a disposição dos muitos estudantes, sobretudo daqueles com ambições de diretoria, a experiência adquirida em tantos anos através do ensino baseado na minha experiência pessoal musical. Ninguém espere de mim uma transfusão do que foi Francesco Ferrara, cuja unicidade é e continuará a ser irrepetível: do meu grande Maestro posso somente testemunhar e transmitir os valores éticos e deontológicos, sob o perfil musical, deixo disponível com certeza aos jovens a minha “bagagem” artística. PZZ - Quais foram as suas impressões sobre a cidade de Belém, o que o emocionou? Zampieri - Belém é uma cidade vivíssima, muito semelhante às nossas Napoli ou Palermo, italianamente muito meridional, mesmo fincada no Norte do Brasil: seja pelas suas manifestações religiosas de antiga tradição, www.revistapzz.com 31


teatro paraense

FOTOs: andrĂŠ mardock

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Ester Sá

Quem é a mulher que voa? “Era uma vez uma atriz, que encontrou outra atriz, e desse encontro nasceu esse momento, que nós vamos viver a partir de agora”.

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teatro paraense

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FOTOs: anibal pacha

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om entusiasmo recebi o convite da Revista PZZ para publicar parte deste ensaio, que criei em 2009, sobre o processo de criação do espetáculo teatral “Iracema Voa”. É uma chance de dividir com mais pessoas um pouquinho do processo criativo de concepção deste espetáculo, que é para mim algo muito especial. Acredito que o que vai escrito aqui seja do interesse de profissionais de teatro, ou outras linguagens da arte, e também para o leitor em geral, que se sinta curioso do “como nasce” uma obra artística. O espetáculo fala da vida e da obra de Iracema Oliveira, Mestra da Cultura Popular, Guardiã do Pássaro Junino Tucano, das Pastorinhas “Filhas de Sion”, coordenadora do grupo Parafolclórico “Frutos do Pará”, e dona de uma história entrelaçada com a cultura do estado do Pará. Mulher forte da qual tenho grande admiração e respeito. O espetáculo trás a temática da vida à tona sob o olhar artístico, emoldura, faz prestar atenção no simples, que é o que há de mais belo. É um teatro encontro. É um teatro essencial. O ensaio completo tem 96 páginas, é verdade, há muita coisa pra dizer. Mas fiz uma compilação de um pequeno trecho que, acredito, tem coerência destacado do restante da obra. Agradeço de coração a quem optar em se debruçar sobre estas páginas que seguem, estará dividindo um pouco de mim:

O espetáculo Iracema voa é um documento cênico do encontro entre duas mulheres artistas: Iracema Oliveira e Ester Sá. O espetáculo narra a trajetória da vida e da obra da IRACEMA VOA “Iracema Voa” é um encontro. Sou eu, atriz, que recebo as pessoas e conto-lhes sobre minha experiência de encontrar outra atriz, Iracema Oliveira. Narrando sobre sua vida e sua obra o espetáculo vai revelar muito mais: revela a mim mesma, a trajetória cultural da cidade, e das pessoas que nela viveram e vivem.

artista Iracema Oliveira, destacada personalidade da Cultura Popular Paraense. A pesquisa, realizada pela atriz Ester Sá, deu origem a dramaturgia deste espetáculo, que através da trajetória de Iracema, promove um encontro com parte da história cultural do estado do Pará. O espetáculo foi construído como um encontro, que por natureza do ato teatral, é eternamente refeito, a cada vez que novos olhares entram na sala de espetáculo. (Ester Sá, trechos do texto do folder do espetáculo Iracema Voa). Iracema Oliveira nasce em 21 de março de 1937. Aos sete anos de idade estreia na cena, vivendo o personagem Anjo Gabriel, na singela tradição das Pastorinhas , e no ano seguinte, levada pelo seu pai, o artista popular Francisco Avelino de Oliveira , estreia no Pássaro Junino Cigarra Pintada, como o personagem Porta-Pássaro . Além de coordenar, em conjunto com sua família, o grupo Parafolclórico “Frutos do Pará”. Iracema é uma das mais importantes representantes da cultura popular do Estado do Pará. Mestra popular ensina o conhecimento e o amor pela tradição dos Pássaros Juninos e a Pastorinhas, heranças que recebeu na infância e que leva como bandeiras de vida.

Um encontro que pegou de galho Os primeiros lampejos em direção à construção de “Iracema Voa” vieram do desejo de conhecimento. Eu vivia um momento em que, enquanto artista, me cobrava por conhecer tão pouco sobre a história da cultura de meu estado, e optei por construir um espetáculo que me proporcionasse, durante seu processo, estudar esse passado. Outras questões me moveram, e uma delas foi a admiração por Iracema Oliveira, pela sua trajetória artística, sua personalidade, e pela sua representatividade para a cultura popular do Estado do Pará. Iracema possui uma história de vida intimamente ligada à arte e a cultura popular: rádio, televisão, teatro moderno, cinema; teatro popular de Pássaros e Pastorinhas, além de movimentos da cultura popular como as quadrilhas juninas foram vivenciados por Iracema em alguma etapa de sua vida. Iracema é testemunha viva de todos esses acontecimentos, seria, porwww.revistapzz.com 35


teatro paraense tanto uma excelente guia para me revelar este passado. Reconhecia em sua trajetória uma ponte para o encontro com a história cultural do estado do Pará, além do fato de ela estar até os dias atuais em plena atividade, unindo passado e presente cultural. Fui até ela pedir autorização para a pesquisa, ela, com seu bom humor característico, disse-me: “Chique né, imagina... Má rapaz ,não tem problema...nós tamo ai né mana (...) Bora fazer essa porra ai!. Iracema abriu as portas de sua casa e de seu coração. Durante a pesquisa de campo, tivemos muitos encontros, num deles aconteceu um fato determinante, o qual agora vou lhes contar: Na primeira vez que visitei a casa de Iracema, ela me presenteou com pequena planta de seu quintal, arrancou um galho e me deu para que eu plantasse; e afirmou várias vezes: “...É boa porque pega de galho...pega fácil...pega de galho”. Mais adiante percebi que esse gesto dela passaria a ter um significado ampliado. O galho foi plantado em meu quintal e de maneira metafórica em minha pesquisa e minha vida. Cuidar, regar, observar essa planta, pensar como ela pegou de galho, se espalhou e continua viva fica sendo o motivo dessa empreitada. Este texto, então, estrutura-se como esta planta, que foi crescendo e se desenvolvendo, e que continua viva, em movimento, como a arte teatral.

Ao encontro de Iracema num campo florido Pesquisa de campo, com Iracema Oliveira, é coisa deliciosa de se fazer. Iracema me deixava à vontade, ao mesmo tempo em que com habilidade na narrativa ia me dando informações preciosas. Preferi proceder de maneira informal, tentando não interferir nem atrapalhar os andamentos dos afazeres dela. As entrevistas foram coletadas de forma ativa, ou seja, eu acompanhava suas atividades, muitas vezes solicitando a ela que me desse algo em que eu pudesse ajudar, como, por exemplo, bordar algum figurino. Porém, durante os ensaios eu apenas observava, não interferia com nenhuma opinião ou sugestão. Fotografava, filmava, e registrava o áudio. Meu gravador mp3 muitas vezes foi pendurado (como um colar) no pescoço de Iracema e o ensaio acontecia com o áudio 36 www.revistapzz.com

na íntegra sendo capturado. Desta vivência na pesquisa de campo, pude observar e assinalar dois pontos característicos, que posteriormente foram levados para o corpo do espetáculo: os procedimentos de Iracema, ou seja, o que ela faz, e a narrativa de Iracema, o que ela conta. Os procedimentos artísticos de Iracema, o seu modo de fazer e sua poética de criação ofereciam pistas que abriam possibilidades cênicas, ou seja, havia a possibilidade de eu me apropriar de tais procedimentos e transformá-los em matrizes para criação de cenas ou de elementos do espetáculo.

“A intenção do artista é pôr obras no mundo. Ele é, nesta perspectiva, portador da necessidade de conhecer algo, que não deixa de ser conhecimento de si mesmo, (...) cujo alcance está na consonância do coração com o intelecto”. O caso em questão refere-se a um procedimento que Iracema realiza em relação aos figurinos dos personagens dos Pássaros Juninos. Os figurinos contêm bordados em paetês e lantejoulas. E é característico dos Pássaros Juninos a alta rotatividade de figurinos, pois os personagens, durante uma apresentação, trocam de roupa muitas vezes. Também anualmente, os figurinos não se repetem, pois a roupa é um dos elementos surpresa e ícone de beleza e qualidade dos Pássaros. Então, Iracema procede da seguinte forma: ao invés de bordar diretamente na roupa, e desta forma criar um figurino único, que não poderá ser mudado, ela faz os bordados em tecidos separadamente, e depois os aplica nas roupas; desta forma, terminada a quadra, o bordado de uma roupa poderá ser reaproveitado e reconfigurado no ano seguinte, em outra peça de vestuário. Vou citar um trecho de meu relatório de pesquisa, onde eu falo e considero sobre esta possibilidade de metáfora.

Estivemos na casa dela (de Iracema) no dia 06/04/2008 em que ela e Dona Darcy, sua colaboradora fiel no pássaro junino estavam planejando os figurinos do pássaro para este ano, uma informação preciosa que consegui neste dia e que acredito posso usar como metáfora na dramaturgia é o fato de que os figurinos são fragmentados e reconstruídos a cada ano, ou seja, os bordados são tirados de roupas e aplicados em outras


Iracema Oliveira nasce em 21 de março de 1937. Aos sete anos de idade estreia na cena, vivendo o personagem Anjo Gabriel, no ano seguinte, levada pelo seu pai, o artista popular Francisco Avelino de Oliveira, ingressa no Pássaro Junino Cigarra Pintada, como o personagem Porta-Pássaro.

gerando novas configurações e novas combinações de vestuários para os personagens do pássaro. Essa imagem para mim é bastante significativa da artista que reinventa-se a cada ano, e, em minha concepção ela servirá de metáfora para significar um quebra cabeça de acontecimentos e sensações que montarei no espetáculo, aos olhos do espectador. Esta característica foi incorporada pela encenação, materializada no elemento cená-

rio. O Cenário é moldado criando várias reconfigurações que vão simbolizando etapas e ações da vida de Iracema.

Um campo cenário voador “Um imenso tecido que cobre tudo”. Essa foi a descrição da concepção do cenário que ouvi de Aníbal Pacha . Enquanto me explicava sua ideia com palavras, seu corwww.revistapzz.com 37


teatro paraense po falante e seus olhos brilhantes já tratavam e me convencer, e dizia: “Eu sei que é algo que vai interferir no teu trabalho de atriz, modificar o teu corpo”. Dava um certo medo, Aníbal colocara um elemento que estaria entre meu corpo e o chão. Poderia ser liso, escorregar, havia riscos... Mas não pisar no chão é condição imprescindível pra se voar... Era um novo campo... Era o meu campo, pronto pra ser cultivado. Ele teria de ser para mim um ninho para a criação. Seria também um elemento a ser investigado, a ser moldado, em diferentes configurações, para gerar imagens, sugerir, participar e interagir na cena. Para confeccionar o cenário, chamei Mestre Nato; sua obra plástica com a arte da costura dialoga com a cultura popular e por este motivo achei que ele seria a melhor pessoa para criar esse cenário, aliás, toda a equipe do trabalho comungava desta opinião. O prazer com que Mestre Nato realizou esta construção contaminava a todos, era lindo vê-lo trabalhar. Iniciamos trabalhando com um tecido-dublê (era um tecido que tínhamos à mão e que tinha, em média, o mesmo tamanho do que pretendíamos usar) Resolvemos usá-lo provisoriamente para fazer experimentações antes de comprar o material para construção do definitivo. Toda a equipe experimentou formas de manipular o cenário, e juntos fomos descobrindo as suas possibilidades. O tecido ganhou a aplicação de uma franja, e ficou parecendo um grande tapete, então, acabou ganhando da equipe o apelido carinhoso de Tapete-Mágico (que por sinal, também voa!). Nosso Tapete-Mágico foi ganhando outras aplicações em tecidos e bordados, as quais são reveladas as funções conforme o andamento da encenação. Ao manipular o cenário ele vai dando movimentação ao espetáculo, pois é um elemento surpresa: transforma-se em adereços, transforma-se em figurinos, vai cena à cena se revelando. Além disso esse cenário tornou-se um suporte para os relicários de memórias culturais que a platéia é convidada a escrever na última cena do espetáculo. Este tapete-cenário ao se configurar e reconfigurar ganhou a característica que havia observado na pesquisa de campo, sobre a configuração e reconfiguração 38 www.revistapzz.com

dos bordados, o poder de recriação e reinvenção dos Pássaros Juninos. Outras ações de Iracema percebidas durante a pesquisa de campo foram incorporadas no espetáculo, estas estão descritas no ensaio completo.

Iracema conversa com as flores Outro ponto marcante e significativo da pesquisa de campo era material em áudio coletado nas gravações das entrevistas ativas. Iracema é uma pessoa com facilidade e fluxo de expressão. Nas entrevistas ela conta, explica, ensina, revela seu jeito de falar e de ser. Fala com propriedade de sua história e dos seus, aos quais ela representa, então, estas narrativas já despontavam como importante material para a confecção do espetáculo.(...) a narrativa dela foi uma das primordiais matérias da pesquisa e do espetáculo. “Iracema Voa” é obra fronteiriça entre arte e vida, não é um espetáculo de ficção. Havia minha preocupação quanto à abordagem e tratamento do objeto real, meu interesse em criar algo que dialogasse com a história, além da consciência ética para com os conteúdos a mim confiados. Iracema me confiou sua narrativa de vida e experiência, na forma a qual sua memória privilegiou: pontos marcantes, de significado para ela e para os seus. Qual a forma predominante de memória de um dado indivíduo? O único modo correto de sabê-lo é levar o sujeito a fazer sua autobiografia. A narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar.” (Ecléa Bosi) Da pesquisa de campo tínhamos nove horas, cinqüenta e cinco minutos e cinco segundos de áudio em entrevistas, mais sete horas em fitas de vídeo, incluindo as apresentações de seu pássaro nas mostras oficiais que acontecem em Belém do Pará. Em meados de junho de 2008, comecei a transcrever o material coletado em áudio. A opção de eu mesma realizar as transcrições foi uma estratégia, desta forma iria ouvir muitas vezes as falas de Iracema, e acreditava que isso poderia me ajudar no raciocínio: quanto mais íntima eu estivesse da matéria-prima da obra, mais seria fácil manipulá-la para a concepção, e eu estava correta nessa suposição. Embora fosse muito difícil achar


símbolos gráficos para passar para o papel a forma como Iracema me narrou, com as inflexões, as pausas, a maneira dela de falar, eu conhecia essa forma, de cór e salteado, de tanto que os ouvi ao realizar as transcrições. Foi uma fase trabalhosa, porém deliciosamente rica, pois, o trabalho, quase “braçal” de transcrever não me exigia um raciocínio de montagem ainda, ou seja, eu não estava preocupada em compor cenas, nem encadeá-las num roteiro, eu apenas ouvia as entrevistas de Iracema

“A intenção do artista é pôr obras no mundo. Ele é, nesta perspectiva, portador da necessidade de conhecer algo, que não deixa de ser conhecimento de si mesmo, (...) cujo alcance está na consonância do coração com o intelecto”. somente com a preocupação de copiá-las para o papel. Exatamente por eu não estar ainda me cobrando a responsabilidade de criar cenas, o exercício da transcrição me florescia possibilidades; eu podia ter ideias e deixá-las ecoar livremente. Além do quê, ouvir a voz da entrevistada muitas vezes foi importante para o meu trabalho de atriz: pude perceber o timbre da voz de Iracema, o tom e sua maneira de falar. No início do mês de agosto de 2008, era chegada a hora de ir para a cena: experimentar, testar. Tínhamos o material bruto em mãos e esta fase indicava o momento de partir para a ação criadora. Agora, era ir à cena compor o espetáculo! Minha prática dramatúrgica é intimamente ligada com o processo de encenação, motivo pelo qual comumente eu realizo as duas tarefas. Não consigo sentar e escrever um texto e só depois encenar. Meu processo de escrita é um caminho de duas mãos, vou e volto da cena para o texto e do texto para a cena, muitas vezes. E foi isto que fiz quando achei que tinha em mãos, material suficiente para compor o espetáculo.

Os textos transcritos me serviram como um pré-texto bruto, ao qual eu poderia usar como uma massa, moldando a narrativa, porém, sempre atenta para não perder a essência do discurso, nem a espontaneidade da entrevistada. Também usei de outro recurso que foi separar as transcrições por blocos de assuntos, embora eu mantivesse a cópia original na íntegra para consultas. Outra fonte de consulta foi um mapa cronológico que criei, que me localizava a ordem que os fatos foram acontecendo na vida de Iracema e a relação temporal deles com o contexto histórico geral. Então, comecei a selecionar temáticas que achava importante estarem no espetáculo e a trabalhar dramaturgicamente. Fiz um arquivo no computador que chamei de texto em processo , lá elenquei temas possíveis para cenas. Colocava os blocos de depoimentos que falavam sobre determinado assunto e ia trabalhando ideias para as cenas, editando os textos, sem portando perder ou mudar o sentido que ela havia dado na entrevista. Devagar eu ia editando os textos das entrevistas transcritas, tirando excessos, recortando e colando falas que tivessem sintonia no discurso, assim como um editor de cinema faz numa ilha de edição . Com zelo e cuidado, o meu texto (meu depoimento, minha opinião, minha história) foi entrando, quando se fazia necessário.

Todo corpo é testemunha A minha fala entra ao lado da de Iracema quando comunica, interage, dialoga, depõe. A minha fala ficou sendo um fio condutor e um elo da história, a minha fala é narrativa do encontro, revelando não somente o que acontecia quando eu estava com ela, mas também os ecos que esse encontro foi causando em mim. Quando abro o espetáculo, deixo claro ao espectador que ele viverá um encontro comigo, em nenhum momento eles verão uma representação de um personagem. Estou ali, como pessoa, é a Ester em performance. Desta forma, explico ao espectador que lhes colocarei o meu olhar sobre a vida e a obra de Iracema Oliveira, e que cada um receberá e lerá o meu olhar através do seu. É importante frisar aqui a diferença da representação de uma peça teatral, nos www.revistapzz.com 39


teatro paraense

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moldes clássicos, de um trabalho performático no teatro. Nos moldes clássicos o ator representa um papel, vive um personagem, é outro. Na linguagem da performance o artista está em performance, defendendo uma idéia, uma concepção pessoal sobre a vida. Embora o ato teatral, em ambos os casos, nos traga sempre um ator “vivo” em relação com o espectador, na linguagem da performance é onde vamos ter com mais proximidade esse cruzamento de arte e vida. O artista em performance defende seu argumento de forma poética.: “Em performance a figura do artista é o instrumento da arte. É a própria arte.” (BATTCOCK apud COHEN, 2007, p.16) E é desta forma que pensamos o trabalho desenvolvido em Iracema voa. Sou eu, a atriz Ester, em encontro com a plateia, narrando sobre meu encontro com Iracema Oliveira. Quem está à frente do espectador é o ser humano que se propôs a estetizar a vida de outro e por esse motivo vira personagem da trama teatral. Quem conta esta história e a mesma pessoa que a buscou, encontrou e trilhou o caminho de sua produção. O depoimento sobre esse trajeto também estruturou o espetáculo, também é um pilar da encenação. Ao contar participo da trama, a fala do espetáculo também é a minha fala. Entrelaço minha história com a pesquisa e faço do meu depoimento um texto espetacular.

A voar sobre as flores O espetáculo foi uma experiência de concepção com a vida, que é mutável e em constante fluxo e proliferação. Esse ato de multiplicação que existe num espetáculo teatral acontece quando quem assiste é tocado de alguma forma pela experiência artística: sai da sala de espetáculo diferente de quando entrou, leva para sua vida algo do que foi vivenciado ali. Esse toque imaterial do encontro humano é o que temos vivenciado desde a pré-estreia do espetáculo. A forma como as pessoas o têm recebido nos trás muita alegria: as pessoas se emocionam, lembram de suas histórias, sentem-se parte do espetáculo. As histórias nele contadas transcendem a individualidade de Iracema, passam a ser do coletivo emocional que se estabelece a cada sessão. O espetáculo é afetivo, e aciona a afetividade das pessoas. Tocamos e somos tocados pela plateia.

Algo que nos deixa muito feliz é o fato de Iracema e sua família terem reconhecido no espetáculo uma homenagem. Acredito que, para Iracema, ver sua vida representada e reconhecida é uma renovação de suas escolhas. Ela gosta de se ver refletida no espetáculo, e sempre vai assistir suas apresentações, fazendo questão de levar parentes e amigos. Essa qualidade de relação humana que se estabelece nos deixa felizes. Toda a equipe: Eu, André

A minha fala entra ao lado da de Iracema quando comunica, interage, dialoga, depõe, ficou sendo um fio condutor e um elo da história, a minha fala é narrativa do encontro, revelando não somente o que acontecia quando eu estava com ela, mas também os ecos que esse encontro foi causando em mim. Mardock, Sônia Lopes, Baety Magalhães, que estamos presentes a cada apresentação, e outros artistas colaboradores Mestre Nato, Aníbal Pacha, Renato Torres, Karine Jansen dentre outros que direta ou indiretamente fazem parte desse trabalho, nos sentimos cumprindo nossas missões de artistas.

Em 1954, com apenas 16 anos, Iracema estreia como rádioatriz , trilhando uma carreira sólida na era do rádio, onde participou de rádionovelas , programas humorísticos, e também de programas musicais, como cantora. Até hoje Iracema trabalha como radialista, em parceria com Santino Soares. Iracema participou como atriz de diversas peças de teatro apresentadas em Belém e no interior do Estado do Pará, sob a direção de Cláudio Barradas , dentre outros diretores. Também participou do filme “Brutos Inocentes”, do cineasta Líbero Luxardo , na década de 70. Na década de 80 assumiu a função de guardiã do Pássaro Junino Tucano, a qual executa até os dias atuais, levando anualmente à quadra junina sua apresentação. Também na quadra natalina, Iracema mantém viva a tradição das Pastorinhas com seu grupo “Filhas de Sion”.

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MOVIMENTO

Ivana Crizanto

Um solo para minha terra A Onda Encantada: tecido acrobático, teatro, dança e magia

Uma mistura de acrobacias no tecido, dança, performance teatral. O espetáculo que encantou o público de municípios do Pará e também do Amapá, em 13 apresentações de apresentações, foi de encanto: uma troca de experiências entre a bailarina e performer, Tatiana Benone, e quem assistiu de perto. A Onda Encantada integra o projeto Um Solo para Minha Terra, uma investigação cênica em dança-teatro-tecido acrobático contemplada pelo Prêmio Funarte Petrobras de Dança Klauss Vianna/2012, e que em Belém teve apoio cultural do Instituto de Artes do Pará (IAP), Pará 2000, Hangar Centro de Convenções da Amazônia, Estação das Docas, Secreta-

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ria de Estado de Cultura (Secult) e Governo do Pará. O projeto foi uma rica e profunda experimentação, diz a bailarina. Quando o espetáculo inicia é uma oportunidade de interagir com o público, sua cultura, a natureza do lugar, e situações que transformam cada uma das apresentações. Um Solo para Minha Terra foi uma homenagem da bailarina paraense à sua terra natal, utilizando o tecido acrobático, um aparelho circense, como um modo de ampliar as possibilidades da expressão corporal e dança. A suspensão alarga as fronteiras do espaço e relação com a gravidade, em expressões que ora estão a poucos metros da plateia,

ora crescem para até 7 metros. Ainda é possível ver a artista de perto, no solo, em uma cena de teatro e intervenções. A artista visitou expressivas cidades paraenses e também amapaense. A itinerância iniciou no mês de julho na ilha do Marajó, nas cidades de Soure e Salvaterra, e se estendeu Bragança, Santarém, e a capital amapaense, Macapá, até o mês de setembro. Em outubro, mês do Círio de Nazaré, a artista se apresentou na bela árvore samaueira do Hangar, e à beira do rio, na Estação das Docas. Encerrando a temçporada, três belas apresentações, em Casantahal e no sítio Jalam das Águas, em Benevides, culminando com arte uma vivência com a natureza.


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MOVIMENTO Em cada uma das cidades o espetáculo ocorreu na sede dos municípios e em comunidades mais distantes. A cidade de 400 anos, Bragança, recebeu A Onda Encantada, primeiro em uma apresentação na praça da Aldeia, um espaço vivo, de intensa atividade, seja de esportes, do passeio do final de tarde, de encontros e depois na Vila dos Pescadores, em Ajuruteua. Em Macapá, a cena foi vista por um grande público na festa de 70 anos da cidade e, dias depois, na comunidade Quilombo do Curiaú, uma paisagem típica da região, com um povo acostumado a interagir com a natureza. A bailarina busca se apresentar em locais próximos ao rio e mar, em árvores, com cenário exuberante da água, céu, e o pôr-do-sol. Todas as apresentações foram às 17h, utilizando-se da luz do dia para mostrar o que experimentou durante a vida acadêmica, no curso de dança da Universidade de Campinas (Unicamp), mas também nas tardes que esteve de férias com a família, na infância, em Mosqueiro, ouvindo os sapos cantarem ao fim de tarde. Retrata também as garças, tão próximas até mesmo de quem vive nos centros urbanos da região, e que podem ser vistas com toda sua exuberância em praias no Marajó. O objetivo foi levar o espetáculo solo acompanhado de um rico processo de troca de experiências também for a de cena em oficinas de improvisação em dança com o tecido acrobático, trabalho que tem recebido o foco da artista nos últimos anos. Trata-se de uma ação diversa para a dança, que explora o movimento do nível do corpo ainda no chão. Todas as oficinas são realizadas gratuitamente, e tem atraído público das mais diferentes faixas etárias. O Solo para Minha Terra ocorreu nos municípios também pelo apoio cultural das Secretarias Municipais de Cultura, de Soure, Salvaterra, Bragança, Macapá e Santarém, que possibilitaram espaços públicos para essa experiência cênica. A maioria das apresentações foram transmitidas online, em tempo real, em links que o público acessou pelos perfis do projeto nas redes sociais ou no site do projeto - www.tatibenone.com – no qual ainda é possível conhecer um pouco mais sobre a trajetória e proposta dos espetáculos, por meio de textos, vídeos e fotos. 44 www.revistapzz.com


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RILKE PINHEIRO

Carlos Parรก

O PARร NA ROTA DO Desenvol vimento 46 www.revistapzz.com


As novas perspectivas de desenvolvimento para a região amazônica colocam o Pará como um dos principais agentes do crescimento econômico brasileiro.

ECONOMIA NO PARÁ A economia do Pará está dividida em três eixos: projetos de desenvolvimento de energia, mineração, agronegócio e infraestrutura; economias tradicionais do extrativismo, agricultura familiar, pesca artesanal, economia de subsistência; e inovação, da economia criativa, do turismo, biotecnologia e todo o potencial de desenvolvimento de setores menos tradicionais e mais modernos da economia. É nesse sentido, e a partir desses três eixos, que o governo estadual busca contribuições de cada setor de gestão e produção para elaborar o Plano Pará Estratégico 2030 será publicado em outubro após uma série de oficinas com secretarias de governo e outros órgãos para a elaboração de propostas e incorporação de novas contribuições ao projeto. Mineração Atualmente, em escala de valores da movimentação, a mineração extrati-

va representa 1,5% do PIB brasileiro representado no Plano de Mineração Brasileira. No Pará chega a ser 10% a importância do setor na economia e tem uma importância imensa, hoje na estabilidade macroeconômica brasileira. A mineração econômica do Pará garante com 70% do superávit brasileiro. Uma atividade com investimentos de 30 bilhões de dólares anuais e com lucros exorbitantes precisa transferir parte desses dividendos em benefícios para a sociedade paraense. Ela é uma atividade que não se renova e por isso é uma atividade provisória. No Pará, o debate do desenvolvimento e da sustentabilidade envolve a quebra de paradigmas priorizando investimentos

no setor da educação, cultura, ciência e tecnologia, turismo e formação de redes integradas de formação, debate, reflexão, socialização e circulação de bens culturais que podem gerar novos valores e o incremento na economia do Estado. Os debates sobre Mineração no Estado são muito incipientes e a dimensão estratégica para o desenvolvimento

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Carlos Pará é pouco aproveitada. Não podemos ficar estáticos diante das grandes realidades da mineração. Diz a Secretária Adjunta da Secretaria de Indústria Comércio e Mineração – SEICOM, Dra. Maria Amélia. Dentre essas realidades vale destacar que: o Pará possui a maior província mineral do planeta e as substâncias minerais de melhor qualidade; a mineração deve ser associada a questão do desenvolvimento econômico e da sustentabilidade como premissa; que essas riquezas minerais são finitas e, na essência, pertencem à sociedade que precisa ser compensada por sua exploração; o setor mineral é um dos alicerces para o desenvolvimento econômico do Pará e do país como um todo nas próximas décadas e grandes ainda são os desafios enfrentados pela mineração para melhorar a qualidade de vida da população. Além da mineração investimentos no setor pecuário, agricultor, turístico, cientifico, cultural, educacional e tecnológico fazem necessários. E neste momento podemos refletir sobre nossa atual situação no contexto nacional e internacional. É um assunto tão importante para o Estado e causa estranhamento a sociedade não discutir isso. O que podemos fazer para transformar em bem estar e desenvolvimento econômico e sustentável. Como fazer uma atividade insustentável provisória para uma atividade sustentável, pela magnitude dos seus subsetores, indústrias extrativa e de transformação mineral, aliada à sua condição de grande indutor desenvolvimentista sobre os demais segmentos da economia. A sociedade paraense deve entender sobre este assunto que diz respeito ao Pará e ao Brasil . Difundir as informações do setor mineral para que a população se aproprie desse conhecimento e entenda o quanto a mineração está presente em nosso cotidiano e de que forma essa atividade pode contribuir para o desenvolvimento do Estado. De telefones celulares a aviões, computadores, geladeiras, ferros de passar, carros, utensílios domésticos, de estruturas de prédios a moedas, os minérios são ingredientes para diversos itens indispensáveis para o seu dia a dia. Incluindo o minério de ferro, níquel, cobre, fertilizantes, manganês e carvão à criação de um movi48 www.revistapzz.com

mento articulador de permanente diálogo entre seus diversos integrantes, a administração pública e a população em geral. Nossa missão está no fomento para uma mineração mais sustentável, a valorização de trabalhadores locais, criação de rede de fornecedores nos empreendimentos locais e incentivo à verticalização da produção mineral. Além da fiscalização da utilização dos recursos da CFEM(Compensação Financeira pela exploração de recursos Minerais), os chamados royalties da mineração, e da TRFM(Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerários). Diz o Presidente da Simeneral, o Sr. José Fernando Gomes Júnior. Na Alepa foi criado uma Frente Parlamentar de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Mineração no Estado do Pará. Para liderar politicamente o enfrentamento a esses desafios é que a

Assembleia Legislativa instituiu, como Fórum permanente de debates e reivindicações, a Frente, com uma composição híbrida integrada por parlamentares e representantes de órgãos públicos, empreendimentos minerários, trabalhadores e da sociedade civil organizada - numa formação amplamente

Das 21 cidades que sediam atividade de mineração no que diz respeito à CFEM são destaque as cidades de Parauapebas, Canaã dos Carajás, Oriximiná e Juruti. representativa. A Frente abriu um canal para discutir diretrizes que cumpram os seus objetivos principais elencados no instrumento normativo que a instituiu, dentre

Fonte: https://sistemas.dnpm.gov.br. Adaptado pelo autor.


eles, notadamente, criar redes de fornecedores nos empreendimentos locais; fomentar a capacitação e o aproveitamento da mão de obra local; incentivar e fiscalizar o uso sustentável de royalties e compensações ambientais provenientes de empreendimentos mineradores; sugerir alternativas que previnam o colapso da economia local após a desativação das minas; e, acima de tudo, promover a mineração cada vez mais sustentável e verticalizar a produção mineral para internalizar a riqueza no Pará. É possível, com a adição de receita dos royalties e de uma boa relação institucional entre prefeituras e empresas, fazer com que o município melhore o Índice de Desenvolvimento Humano, através de uma eficiência nos serviços públicos, que vão de esgoto sanitário, passa pela atenção básica de saúde, infraestrutura urbana, geração de emprego e chega a uma lógica educacional de formação e qualificação de mão de obra especializada, dentro de uma estratégia

voltada para as necessidades do projeto, fazendo com que se aproveite a mão de obra local. Diz o deputado Vale A Vale é a maior produtora mundial de minério de ferro e pelotas, matérias-primas essenciais para a fabricação de aço.É a maior operação da Vale, localizada no norte do Brasil, na Amazônia. O minério de Carajás é considerado o minério de ferro de melhor qualidade do mundo. O Pará é o segundo Estado minerador do Brasil e possui a maior mina de céu aberto no mundo. O Pará é, hoje, o segundo maior produtor mineral do Brasil e, na visão do presidente da Federação dos Municípios do Estado do Pará (Famep), Helder Barbalho, tem potencial para ultrapassar Minas Gerais e se tornar o primeiro nos próximos anos. Mas, para que essa riqueza presente em solo paraense seja lapidada e, de fato, se

transforme em benefícios para os municípios, é fundamental uma interação maior e melhor entre empresas, prefeituras, governo estadual e federal, para que se possa preparar a cidade para receber projetos mineradores e construir planejamentos de longo prazo que deem suporte a essa atividade. Atualmente, o município onde se concentra a maior parte dos projetos e investimentos minerais em nosso Estado é Parauapebas, onde está localizada a mina de Carajás. Além dele, Canaã dos Carajás é outro município que se destaca como polo mineral. E temos também o eixo da PA 279, com Ourilândia do Norte e São Felix do Xingu com perspectivas muito interessantes de novos projetos se instalando ou a serem instalados nos próximos anos.

A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional E, por fim, temos ainda Paragominas e Oriximiná, mas já com outro perfil de mineração. O nosso Pará é um estado privilegiado, porque no seu subsolo há uma riqueza fantástica, o que proporciona que sejamos a segunda maior bacia mineral do Brasil e, no meu entendimento, será o mais rico do país nas próximas décadas e até um dos mais ricos do mundo. Carajás começou com 15 milhões de toneladas anual, e agora com a descoberta da nova mina, a US11d começa com 90 toneladas por ano. Hoje, depois de 2000 para cá. Os grandes grupos tem que apresentar relatórios de responsawww.revistapzz.com 49


Carlos Pará bilidade social e se preocupar com sua imagem institucional porque podem afetar as bolsas de valores e suas ações financeiras. As comunidades tem um papel importante e principalmente nas redes sociais são fundamentais para atrelar programas de responsabilidade social corporativos importantes para aquilo que queremos para nossa atividade cultural, educacional, científica e nossa atividade econômica. Agora está sendo elaborado o Primeiro Plano de Mineração, o Cadastro das Mineradoras do Pará e uma Taxa sobre a Produção de Minérios, um Estado que convive há 5 décadas com a mineração e só agora se preocupa com a importância estratégica e desenvolvimentista que o setor agrega . Importante reverter para as atividades industriais, comerciais e criativas, a agricultura, a mineração, o audiovisual, a cultura que é o patrimônio sustentável que vai permanecer por muito tempo, vivemos nessa realidade e o momento é de fazer essa transição, essa ponte para o futuro. O modelo econômico adotado na região amazônica sempre produziu uma economia de saque, uma economia baseada na busca de extração de matérias primas para exportação sem qualquer valor agregado e sem consolidação em nível regional de qualquer excedente dessa exploração. Se no período colonial eram as especiarias (canela, urucum, drogas do sertão) agora são minérios, madeira, bovinos, soja, energia, biocosméticos ou seja, a mesma colonização oferecida num cardápio em forma diferente. Das especiarias passaram para as commodities, escoando a matéria-prima sem beneficiamento, taxação ou fixação na economia de excedentes econômicos. Isso gera um grande prejuízo econômico, impossibilidade de investimento público, incluindo outras dificuldades por ser uma região florestal em nível de redes de transmissão, de comunicação, internet sem banda larga, transporte desintegrado e em péssimas condições de circulação e comércio precário. É um desafio pensar e planejar o “Desenvolvimento Sustentável na Amazônia”, onde os Governadores dos nove Estados da Amazônia Legal (Pará, Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá, Maranhão, Tocantins e Mato 50 www.revistapzz.com

A grande empresa de mineração não pode ser a única forma encontrada pelo estado como organizadora econômica do território. Os municípios não podem atrelar a sua condição de desenvolvimento à mineração. É necessária uma política nacional para mineração que crie condições para acelerar a cadeia produtiva, no estado paraense, agregando mais

Grosso) não tem um propósito comum de desenvolvimento regional e nem elevam ou promovem o debate que propicia sobre os principais temas, compromissos e questões a serem consideradas na construção de uma agenda comum dos Estados que possuem grandes riquezas minerais, vegetais, energéticas e não são beneficiados pelo processo exploratório que caduca amparado em leis arcaicas. Os desafios para um desenvolvimento baseado em recursos naturais renováveis com manejo ambiental, residem, entre outros, na consolidação de políticas públicas integradas, instituições de ciência e tecnologia, dos finaciamentos, do respeito a cultu-

ra tradicional dos povos e da vontade política de quem dirige as estruturas de poder. Buscar outro modelo de desenvolvimento para a região amazônica que não seja aquilo que nós temos enfrentado até hoje gerador apenas de pobreza, desigualdades e destruição da Natureza. Visando um modelo de crescimento sustentável para os Estados amazônicos, o que exige-se também é uma frente política forte por parte não apenas dos gestores, mas de frente parlamentar, de movimentos sociais e digitais que se interessam em reverter a situação de exclusão, exploração e degradação. A Amazônia brasileira representa mais de


É, preciso garantir que o estado nacional seja forte e torne forte o estado paraense para resistir às pressões internacionais, e assim o uso dos recursos naturais, como os minerais servir a própria lógica de desenvolvimento do estado nacional e local, a serviço de sua sociedade. Se a política de ordenamento territorial continuar sendo construída sem a presença efetiva da sociedade civil, não teremos novidades, além da aceleração da exportação dos minérios para outros países com pouca agregação de valor ao trabalho e ao produto, acirrando ainda mais os conflitos já existentes no estado do Pará.

um jogo estratégico O território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses,.

25 milhões de pessoas, 14% do eleitorado brasileiro, e por ser o menor coeficiente para as decisões presidenciais no Brasil acaba refletindo nas estruturas de poder político do país onde o coeficiente não é significante nem determinante, e o Congresso Nacional sempre prioriza questões regionais e partidárias. A Amazônia é responsável por apenas 8% do PIB brasileiro, ainda que o Pará contribua com metade do saldo positivo da balança comercial brasileira pela exportação do minério. Olhando nossa relação com o Brasil e com o mundo, a Amazônia é o centro das relações mundiais. O mundo não está pensando nos povos da Amazônia, o mundo está pensando na floresta naquilo que se beneficia da floresta que se destruiu. Não é pensando de quem vive aqui, pensando na floresta, existem 25 milhões de pessoas que parecem não viver aqui, o que se imagina é um grande vazio demográfico dentro das florestas que é um dos mitos que o mundo carrega dessa região. Mas estamos no centro mundo e devemos sabemos tirar vantagens comparativas e competitivas. Somos centro do mundo e estamos na periferia dos interesses do Brasil, estamos longe de ser a importância estratégica, econômica e geopolítica para o país. Somos o centro das discussões do planeta em questões geopolíticas, estratégicas, econômicas e pelo seu potencial energético, material, mineral e não cultural, humano. Historicamente a Amazônia sempre foi colonizada por povos europeus e norte-americanos por isso um região colonizada por mercantilistas ao longos dos últimos 5 séculos. Observando mais recentemente nossa história. Temos os Planos de desenvolvimento da Amazônia: PLANOS DE DESENVOLVIMENTO NA AMAZÔNIA Desde o inicio da década de 1970. Com a implantação dos Planos Nacionais de Desenvolvimento - PNDs, a Amazônia entra em uma fase de pesquisa e grandes mudanças em seu espaço geopolítico. O I Plano Nacional de Desenvolvi-

-mento vigorou entre os anos de 1972 a 1974, foi um plano econômico brasileiro, instituído durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, onde seu principal foco era o incentivo a pesquisas de fontes de recursos minerais a Amazônia. O governo do Médici também ficou marcado por um crescimento econômico que ficou conhecido como o milagre brasileiro. A classe pobre e a classe média obtiveram algum crescimento e o consumo de bens duráveis e a produção de automóveis, tornando-se comum, nas residências, principalmente, o ferro elétrico, o televisor e a geladeira. Em 1972 passou a funcionar a televisão a cores no Brasil e a Indústria Cultural favoreceu para o consumo brasileiro. Foi nesse período que o Brasil conseguiu crescimento econômico recorde, inflação baixa e projetos desenvolvimentistas como o Plano de Integração Nacional (PIN), que permitiu a construção das rodovias Santarém-Cuiabá, a Perimetral Norte, a Transamazônica, e grandes incentivos fiscais à indústria e à agricultura foram a tônica daquele período. Delfim Netto foi o Ministro da Fazenda nessa época, quando também foram construídas casas populares através do BNH. No seu governo, concluiu-se o acordo com o Paraguai para construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, à época a hidrelétrica de maior potência instalada do mundo. No campo social, foi criado o Plano de Integração Social (PIS) e o Programa de Assistência Rural (PRORURAL), ligado ao FUNRURAL, que previa benefícios de aposentadoria e o aumento dos serviços de saúde até então concedidos aos trabalhadores rurais. Foi feita uma grande campanha de alfabetização de adultos através do MOBRAL e uma campanha para melhoria das condições de vida na Amazônia com a participação de jovens universitários chamado Projeto Rondon. Criado em 11 de julho de 1967, durante a ditadura militar, o Projeto Rondon tinha como lema “integrar para não entregar”, expressando um ideário desenvolvimentista articulado à doutrina de segurança nacional. O projeto promovia atividades de extensão universitária levando estudantes voluntários às comunidades carentes e isoladas do www.revistapzz.com 51


Carlos Pará interior do país, onde participavam de atividades de caráter notadamente assistencialistas, organizadas pelo governo. Segundo os críticos do projeto, a iniciativa também cumpria funções de cooptação do movimento estudantil. Entre 1967 e 1989, quando foi extinto, o projeto envolveu mais de 350 mil estudantes e professores de todas as regiões do País. Em 1970 o Projeto Rondon foi organizado como órgão autônomo da administração direta e, em 1975, transformado em Fundação Projeto Rondon. II PLANOS DE DESENVOLVIMENTO NA AMAZÔNIA Já o II Plano Nacional de Desenvolvimento, também chamado II PND (1975 -1979), foi um plano econômico brasileiro, lançado no final de 1974. Foi instituído durante o governo do general Ernesto Geisel e tinha como finalidade estimular a produção de insumos básicos, bens de capital, alimentos e energia. Foi o último grande plano econômico do ciclo desenvolvimentista e provavelmente, o mais amplo programa de intervenção estatal na economia do país. O plano só conseguiu se firmar porque o governo federal estreitou as parcerias com o capital privado nacional, estrangeiro e das oligarquias tradicionais, através do incentivo fiscal, implantação de infraestrutura, reduções de impostos nas importações de maquinários, etc., concluindo seu objetivo com ênfase na integração nacional. O II PND se propôs a realizar um ajuste estrutural na economia brasileira. Enquanto os ajustes conjunturais se referem a medidas de regulação da economia ou de gestão da política econômica no curto prazo (através da utilização instrumentos tais como taxa de câmbio, taxa básica de juros, regras para exportação e importação, tributação, etc.), o ajuste estrutural tem como objetivo reorganizar as bases da economia. À época da crise do petróleo, o Brasil era altamente dependente do petróleo, principal componente da sua matriz energética. O consumo vinha crescendo a taxas altíssimas, sendo que cerca de 80% do petróleo consumido provinha de importações. Uma das diretrizes 52 www.revistapzz.com

propostas pelo PND era a redução da dependência do petróleo árabe, através do investimento em pesquisa, prospecção, exploração e refinamento de petróleo dentro do Brasil, e o investimento em fontes alternativas de energia, como o álcool e a energia nuclear. Em outra frente, o plano buscou dominar todo o ciclo produtivo industrial ao investir pesadamente na produção de insumos básicos e bens de capital. O sucesso do II PND dependia de grande volume de recursos e de financiamento de longo prazo. Grande parte destes financiamentos foi conseguida com os petrodólares. Outra parte veio das linhas públicas de crédito, oferecidas pelo BNDES (antigo BNDE). O plano conseguiu êxito parcial, uma vez que, pela primeira vez na história, o Brasil conseguiu dominar todo o ciclo produtivo industrial. Contudo essa industrialização ocorreu a um preço alto, que fez a dívida externa explodir, o que acabou resultando na moratória, no final de 1982. II Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979) PROGRAMA DE PÓLOS AGROPECUÁRIOS E AGROMINERAIS DA AMAZÔNIA (POLAMAZÔNIA) Ocupação Produtiva da Amazônia e do Centro-Oeste, a maior área do mundo ainda em escasso desenvolvimento agrícola ou industrial, a Amazônia constitui um desafio agrícola de proporções gigantescas. De um lado, como zona tropical úmida, a região conta com o fator favorável representado pela energia solar na maior parte do ano. Tal elemento torna, teoricamente, quase ilimitado o potencial produtivo da região. Por outro lado, é conhecida a relativa pobreza dos solos de terra firme, conquanto, dada a vastidão da área, seja possível identificar manchas de terra roxa e razoavelmente amplas áreas de floresta densa, a abundancia de insetos e microorganismos nocivos às plantas e aos animais, ressaltando a importância da pesquisa, para armar o sistema de defesa da produção. O III Governo da Revolução realizou

grandes investimentos, através principalmente do PIN (Plano de Integração Regional), de que decorreram a implantação de grandes eixos de penetração rodoviária, a revitalização da navegação fluvial, o aumento da oferta de energia aos núcleos urbanos de maior

A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional porte, a introdução de moderno sistema de comunicações, a prospecção dos recursos naturais, o início de execução do Programa de Trópico Úmido. É necessário, agora, tirar proveito dessa infra-estrutura, para estratégia de ocupação produtiva da Amazônia. As bases dessa ocupação podem ser definidas como segue: 1) Utilização dos eixos naturais de penetração para a Amazônia e Centro-Oeste, e, principalmente, os importantes fluxos já caracterizados: o originário do Paraná e São Paulo, passando por Mato Grosso e encaminhando-se para Rondônia; o que, vindo do Nordeste, passa pelo Piauí e Maranhão em busca do Planalto Central ou do sul do Pará; 2) Ocupação por áreas selecionadas (e, pois, espacialmente descontinuas), escolhendo as terras mais férteis e concentrando a ação; e também, setorialmente seletiva, para desenvolver vantagens comparativas evidentes. A conjugação desses dois critérios leva à identificação de três tipos de programas, que não se excluem mutuamente. Programas de Aproveitamento Integrado de Vales (Tocantins-Araguaia, Tapajós, Xingu), Programas Setoriais de Base Empresarial e Programas de Colonização ao Longo dos Novos Eixos Vi-


ários (Transamazônica, Belém-Brasília, Cuiabá-Santarém). Os principais programas setoriais a desenvolver são: pecuária de corte, extração e industrialização de madeira, mineração e indústrias eletrolíticas, lavouras selecionadas de caráter comercial e base agronômica assegurada, pesca empresarial, turismo. * Orientação das atividades de exportação, ligadas a corredoras de exportação, no sentido de vantagens comparativas nítidas e de setores dinâmicos do mercado internacional (carne, minérios, madeiras, celulose), para crescer 25% ao ano. Em consonância com a orientação definida, a ocupação produtiva da Amazônia e do Centro-Oeste deverá realizar-se através dos seguintes campos de atuação: I - Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia II - (POLAMAZÔNIA), com investimentos estimados em Cr$ 4 bilhões (com recursos do PIN, PROTERPA, FDPI, etc.) integrado, inicialmente, por cerca de 15 pólos de desenvolvimento, fora dos núcleos urbanos da região. O programa de Pólos Pecuários, que poderá permitir a elevação do rebanho da Amazônia para 5.000.000 de cabeças, até o fim da década, será desenvolvido principalmente no norte do Mato Grosso, norte de Goiás e sul do Pará, nas áreas de cerrado, cerradão e mata fina. O Programa será realizado segundo dois componentes estratégicos: sua adequada localização no espaço amazônico e a crescente tecnificação do setor. I - O Programa de Lavouras Selecionadas, que serão principal-mente lavouras permanentes, inclui entre outras: borracha, açúcar, cacau, dendê, frutas, pimenta, arroz. II - Complexo Mínero-Metalúrgico da Amazônia Oriental, compreendendo o esquema integrado de Carajás - Itaqui (minério de ferro e siderurgia), o conjunto bauxita-alumina-aluminio (Trombetas-Belém) e inúmeros outros empreendimentos associados ao aproveitamento do potencial hidroelétrico da região Araguaia-Tocantins (São Felix e Tucuruí). Os investimentos, até agora, estão estimados em Cr$ 16 bilhões, na primeira fase. III- Política de Desenvolvimento de Recursos Florestais e Uso Racional dos

Solos da Amazônia, objetivando, principalmente, transformar a exploração madereira numa atividade planejada, institucionalizada e permanente.

A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional Tal política compreende: * Racionalização da exploração madeireira da região, deslocando-se a ênfase para a exploração de florestas de terra firme (viabilizada pela construção dos novos eixos viários). Adotar-se-á o sistema de Florestas de Rendimento, condicionando-se os projetos às exigências de regeneração conduzida e reflorestamento (com espécies nobres), de modo a permitir a exploração permanente da floresta, renovada continuamente e evitar a atividade de devastação ora existente. * Desenvolvimento da técnica de celulose com mistura de madeiras, à base da floresta existente, assim como realização de um programa intensivo de pesquisas florestais. Definição, por antecipação, das áreas destinadas a Parques e Florestas Nacionais, reservas Biológicas e Parques de Caça. IV - Conclusão do Distrito Industrial da Zona Franca de Manaus e execução de seu Distrito Agropecuário. III PLANO DE DESENVOLVIMENTO NA AMAZÔNIA O III PND deu seu ponto de partida em 1980 com o principal objetivo de gerar

o crescimento e aceleração da economia regional reorientando o processo de ocupação desencadeado pelo II PND, e neste plano que o estado assume a responsabilidade de mapear os mercados internos e externos possibilitando o desenvolvimento industrial e garantindo a implantação de mecanismos de exploração dos milhares de recursos naturais que a região amazônica oferece, é neste contexto que surge implantação do Programa Grande Carajás (PGC). Para Chagas (2009), um pacote de incentivos fiscais para abrigar os grandes projetos e o, O PGC, este megaprograma amazônico, é constituído de projetos “menores”, entre eles destacam-se, os mínero-metalúrgicos, com participação mista – até meados da década de 1990, quando houve a privatização da CVRD – entre o capital estatal e o capital privado, nacional e estrangeiro, constituindo assim uma poderosa joint venture. (CHAGAS, 2009, p. p119). O PGC foi o suporte econômico para abrigar também projetos “menores” espalhados em vários pontos estratégicos dos estados do Pará, Norte do Tocantins e oeste do Maranhão. Estes projetos de mineração localizam-se na área mais rica em recursos minerais do planeta e tem uma abrangência de 900 mil km² da porção territorial do estado brasileiro. Esses incentivos advindos do PGC foram fundamentais para a viabilização de outros projetos, dentre eles o carro chefe do PGC, o Projeto Ferro Carajás (PFC). O estado teve sua participação garantida na empresa estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), empresa de exploração mineral, também através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), que garantiu os incentivos fiscais para que as empresas internacionais se instalassem aqui, o Banco da Amazônia (BASA) também entrou nesta pareceria através de incentivos financeiros e por fim o Fundo Constitucional de Financiamentos do Norte (FNO), que garantiu empréstimos bancários. Todos esses organismos estatais e mais o FNO eram parte de uma estratégia do estado para tornar a Amazônia mais atraente para os grupos econômicos privados que viessem a se instalar na região. (BRITO, 2001). A Amazônia atualmente é protagonista na exploração de recursos minerais no www.revistapzz.com 53


II PLANO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO PROGRAMA DE PÓLOS AGROPECUÁRIOS E AGROMINERAIS DA AMAZÔNIA

Roraima

Pólos Agropecuários As atividades agrícolas são mais intensas na região nordeste do estado, onde destaca-se o município de Castanhal; a agricultura também se faz presente, desde a década de 1960, ao longo da malfadada Rodovia Transamazônica (BR-230). O Pará é o maior produtor de pimenta do reino do Brasil e está entre os primeiros na produção de coco da Bahia e banana. São Félix do Xingu é o município com maior produção de banana do país. A pecuária é mais presente no sudeste do estado, que possui um rebanho calculado em mais de 14 milhões de cabeças de bovinos.

Amazônia

Acre Rondônia Pólos Agrominerais A mineração é atividade preponderante na região sudeste do estado, sendo Parauapebas a principal cidade que a isso se dedica. E também vem consolidando em municípios como Barcarena e Marabá através de investimentos na vesticalização dos minérios extraídos, como bauxita e ferro, que ao serem beneficiados, agregam valor ao se transformarem em alumínio e aço no próprio Estado.

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VALORES DA PRODUÇÃO MINERAL DE 2009 PRINCIPAIS NA CADEIA MINERAL PARAENSE

Cálculos dos valores gerados com a taxação de R$ 6,00 a tonelada, cuja instituição é agora pretendida pelo governo estivesse em vigor há dois anos.

Ferro Bauxita Manganês Caulim Calcário Cobre

R$ 553,854 milhões R$ 133,314 milhões R$ 11,568 milhões R$ 9,126 milhões R$ 8,748 milhões R$ 2,616 milhões


Amapá

Pará Maranhão

Tocantins Mato Grosso

Pólos Urbanos A população do estado concentra-se mais na região metropolitana de Belém, com os distritos industriais de Icoaraci, Ananindeua, Marituba, Abaetetuba e também vem se consolidando em municípios como Barcarena e na região, destacam-se também como fortes ramos da economia as o comércio e o terceiro setor, de prestação de serviços.

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Carlos Pará mundo, pois temos as maiores minas de minério de ferro e uma grande diversidade de minerais que estão em fase de estudos e inicio de exploração. O sudeste do estado do Pará lidera o maior ritmo de exploração destes minerais, dinamizando a economicamente o estado e seus municípios e consequentemente absorvendo os maiores impactos sociais e ambientais da Amazônia. A mineração tem forte participação na economia do Pará. Na balança comercial do estado, essa indústria responde por mais de 86% das exportações. Os dois grandes investimentos no Pará nesta década serão investidos em minérios e hidrelétricas, centenas de milhões e de alguns bilhões de investimentos privados e públicos serão destinados nas áreas de energia e mineração sendo a atividade econômica de maior capital desenvolvido, elevando a posição do Estado do Pará entre os 4 maiores exportadores nacionais além de gerar o segundo maior saldo de divisas do Brasil. O Estado do Pará vai assumir a liderança da economia mineral brasileira e dos US$ 64 bilhões que constam da programação das empresas, quase US$ 36 bilhões serão aplicados na extração de minério, (US$ 21 bilhões) na indústria de transformação, US$ 3 bilhões em infraestrutura e transporte e US$ 505 milhões em outros negócios. O segmento dos minérios farão parte de quase 90% da exportação paraense. O subsolo do Estado é muito rico e sua vocação mineral é inevitável, alcançando expressão internacional, com o minério de ferro, a bauxita, o cobre, o caulim, a alumina, o alumínio, a gusa, o aço e agora o níquel. Minérios são recursos não renováveis cuja lei de royalties é extremamente prejudicial à região e não deixa praticamente nada de investimentos e os impactos ambientais geram muito mais despesa do que deixa como benefício em termos de rendimento em função da lei Kandir. Na perspectiva deste contexto de “Desenvolvimento e Sustentabilidade”, o Governador do Estado do Pará, Simão Jatene, encaminhou o decreto para cobrar uma taxa de exploração mineral no Pará, a criação de uma taxa em valor hoje equivalente a R$ 6 por tonelada sobre a exploração mineral no Pará. O projeto que institui a Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das

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Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerais (TFRM) foi legitimada por todos os Deputados na Assembleia Legislativa do Estado do Pará, com pedido de tramitação em regime de urgência. Junto com a instituição da taxa, no mesmo projeto, o Governo do Estado propôs também a criação do Cadastro Estadual de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerais (CFRM). A Receita pode chegar a R$ 2 bilhões a partir de 2014, com base nos dados da produção mineral paraense de 2009, data do último levantamento disponibilizado pelo Departamento da Produção Mineral (DNPM), a taxa de fiscalização proposta agora pelo Governo do Estado estaria gerando hoje uma receita anual de R$ 719,2 milhões. Com dados mais recentes, levando em conta o aumento da produção, e contabilizando também os valores relativos a bens minerais com menor potencial contributivo, pode-se inferir que a receita atual poderia situar-se em torno de R$ 1 bilhão anual, valor expressivo para um Estado cujo orçamento para este ano está fixado em R$ 12,4 bilhões enquanto o lucro da Vale em 2011 atingiu a marca recorde de R$ 37,814 bilhões. A empresa fechou 2011 com ganhos de 25,7% superiores aos do ano anterior e agora com a pers-

pectiva de aumentar a produção, deixando apenas vazios e zeros, parlamentares e governistas numa causa fizeram um ato que há tempos era para ser feito. A Vale possui um nível de organização extraordinário em sua produção, ordenando e subsidiando matéria-prima para o mercado econômico internacional, principalmente China, Japão e Estados Unidos, países que concentram ciência e tecnologia para a Indústria de Transformação. Na taxação da produção mineral no Pará, os valores calculados com base na produção mineral de 2009 abrangem apenas os seis produtos de maior peso na cadeia mineral paraense. Se a taxação de R$ 6,00 a tonelada, cuja instituição é agora pretendida pelo governo estivesse em vigor há dois anos, o minério de ferro teria gerado uma receita de R$ 553,854 milhões, vindo a seguir a bauxita (R$ 133,314 milhões), o manganês (R$ 11,568 milhões), o caulim (R$ 9,126 milhões), o calcário (R$ 8,748 milhões) e o cobre (R$ 2,616 milhões). Com o projeto de duplicação do volume de produção de minério de ferro na província de Carajás, já em fase de execução pela Vale, e com a implantação projetada de outros grandes empreendimentos no setor, a perspectiva é de que a TFRM venha a gerar para o Estado, a partir de 2014, uma receita anual em valores próximos à R$ 2 bilhões, recursos que talvez mal dê para reverter os danos sociais e ambientais que vem causando ao Estado paraense, mas é a forma de pensar em o discurso desenvolvimentista a partir das novas rela��ões econômicas de um mundo que busca sustentabilidade . “Com os royalties minerais dessa receita adicional, o Governo do Estado criará uma fonte própria de recursos parecida à da Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM). Ao mesmo tempo, busca se ressarcir das pesadas perdas que o Pará vem sofrendo ano a ano desde a edição da Lei Kandir, em 1996, que desonerou as exportações, causando perdas para o nosso Estado” reforça Jatene. Cálculos conservadores estimam que o Estado já acumulou, ao longo dos últimos 15 anos, perdas financeiras da ordem de R$ 15 bilhões. A sangria de receita decorrente da Lei Kandir, aliás, é um pontos destacados pelo governador Simão Jatene, ao justificar a taxação da produção mineral.


anĂşncio

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salão de humor

salão do humor Por Biratan Porto*

A

XVII Feira Pan-Amazônica do Livro realizada no período de 26 de abril a 05 de maio de 2013 no Hangar abrigou o V Salão Internacional de Humor da Amazônia onde foram convidados a compor o júri desta edição do prêmio, Jean Galvão (SP), Ulisses Araújo (RJ), Cássio Loredano (RJ), Orlando Pedroso (SP) e François Gabourg (Martinica), cartunistas, caricaturistas, ilustradores, desenhistas e chargistas reconhecidos por seus trabalhos independentes em jornais, revistas e na internet. Ficaram com a missão de escolher entre os 160 trabalhos selecionados, os dois melhores nas categorias de Tema Livre, Ecologia e Caricatura. Na categoria Tema Livre ganharam os cartuns “Violonista”, de Dereck (Brasil), em 1º lugar, e “Expulsão”, de Jota A. (Brasil), em segundo. No tema Ecologia, os premiados foram os cartunistas Bíer (Brasil), com “Árvore Envergonhada”, em 1º lugar, e Liang Junqi (China), com “Mutation P.R”, em 2º lugar. Na categoria caricatura, os prêmio foram para Pakdel, com “Humphrey Bogart”, em 1º lugar, e Yaser, com “Clint Eastwood”, em 2º lugar, ambos desenhistas 58 www.revistapzz.com

iranianos. Para o júri a escolha deste ano foi bem difícil pelo alto nível das inscrições. “Na categoria cartum livre tinha muita coisa boa, também de outros países, coisas maravilhosas. Algumas vezes há um número grande de inscrições, mas nem sempre tem tanto trabalho bom assim”, disse Jean, logo após a reunião que definiu os vencedores. Escolher o vencedor do tema Ecologia, mais uma vez com um grande número de inscrições, também não foi uma tarefa fácil. “É um tema batido, ninguém pode escapar do lugar comum. Todo mundo pensando, ouvindo e dizendo mais ou menos a mesma coisa, e isso recai sobre o conjunto, um pouco repetitivo às vezes”, comentou Loredano. “Outra coisa que eu notei é que o pessoal está gostando de trabalhar com técnica de computador, resultando em algo mais vistoso, e isso tira o foco da própria ideia, muitas vezes. Eu gostei bastante de alguns trabalhos, e por acaso o pessoal também concordou. Adorei também o resultado de caricatura. A do Bogart foi uma unaninimidade entre nós” concluiu Cássio, que está vindo

pela primeira vez a Belém. “A coisa mais gostosa da votação é a briga, o quebra-pau, mas infelizmente aqui foi assim! Não, não, é brincadeira”, ironizou Orlando Pedroso. “Houve um consenso de que os trabalhos escolhidos foram realmente os melhores. Teve alguns empates, então fizemos nova votação e tudo se resolveu. No cartum eu fiquei muito surpreendido, positivamente. Fazer piada no Brasil já foi uma tradição muito grande, mas desenhar piada é uma coisa que se perdeu um pouco com a Ditadura, quando tudo foi ficando mais pesado. Agora eu tenho a impressão de que a boa fase está voltando. E digo mais, Belém, especialmente, tem ótimos cartunistas. No Brasil tem alguns bolsões desses caras que fazem piada. Mas Belém e Curitiba são dois celeiros de cartunistas desse estilo”, comentou. Os cartunistas convidados permaneceram em Belém, junto com outros cartunistas paraenses, como ATorres, J. Bosco, Waldez e Sérgio Bastos, Biratan Porto, entre outros, participam da programação de workshops e mesas redondas que o salão oferecia dentro da Feira.


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salão de humor

Foram convidados a compor o júri desta edição do prêmio, Jean Galvão (SP), Ulisses Araújo (RJ), Cássio Loredano (RJ), Orlando Pedroso (SP) e François Gabourg (Martinica), cartunistas, caricaturistas, ilustradores, desenhistas e chargistas reconhecidos por seus trabalhos independentes em jornais, revistas e na internet

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sal達o de humor

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sal達o de humor

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bruno pellerin

Lenon Rodrigues*

O PARĂ E A

economia criativa e as potencialidades de diversidade cultural para a Economia Criativa em BelĂŠm

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O Pará passa por um período de generosa visibilidade nacional. Na grande mídia, o Pará e o paraense estão representados, por exemplo, no grande sucesso de Gaby Amarantos e suas constantes aparições em programas como o Domingão do Faustão, Esquenta, Encontro com Fátima Bernardes, além de já ter emprestado suas músicas para compor as tramas diárias de algumas novelas globais. Para muitos esta não é a melhor forma de aparecer para o Brasil, mas é incontestável a visibilidade

Amazônia. A maior floresta tropical do mundo é o carro-chefe deste novo paradigma que, não concernindo apenas o Brasil, atinge uma escala supranacional. Há um pouco mais de um ano, estive na Rio + 20 e pude constatar a presença amazônica na programação das palestras temáticas e dos stands de empresas e instituições nacionais e internacionais mostrando seu interesse em investir na região, propondo alternativas sustentáveis e inclusivas socialmente. De certo era fácil também identificar as empre-

como o quarto pilar da sustentabilidade, junto com os três outros pilares habitualmente ressaltados: o econômico, o ambiental e o social. Dentro desta recente e ampla discussão no setor cultural, a dimensão econômica da Cultura e a sustentabilidade convergem para um conceito ainda em fase de formulação: a Economia Criativa, o novo paradigma da economia da Cultura. Desde 2005 o setor cultural brasileiro vem se motivando com as novas possibilidades projetadas na onda da Economia

e o alcance proporcionados pela toda poderosa Globo, mesmo que tal efervescente visibilidade possa ser efêmera. Seria correto afirmar também que, pelo “efeito Amazônia”, o Pará goza de certa visibilidade internacional, com a vantagem de poder se abrir para o mundo através de sua grande porta, Belém. Os debates recentes sobre desenvolvimento, meio ambiente e sustentabilidade estão fortemente “impregnados” de

sas que se travestiam do paradigma da sustentabilidade para praticar o mais do mesmo tão nocivo à vida da floresta. Foi na Rio + 20 também que pude estar presente, durante uma semana, em uma série de palestras e debates sobre cultura e sustentabilidade promovidos pelo Ministério da Cultura. Representantes do setor cultural de várias partes do Brasil e do mundo lá presentes foram unânimes em afirmar a Cultura

Criativa. Os setores criativos, segundo o próprio Ministério da Cultura, que em 2011 criou a Secretaria da Economia Criativa, “são todos aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de valor simbólico, elemento central da formação de preço, e que resulta em produção de riqueza cultural e econômica”. É um conceito ainda em formação, mas as discussões que o permeiam, www.revistapzz.com 67


Lenon Rodrigues*

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Em se tratando de Amazônia, nunca desejamos conceituar economia como algo tão presente na vida das pessoas, e sim apresentar o panorama (recente) da Economia Criativa no Brasil. no Brasil apontam para uma tendência a descentralizar as ofertas e fazeres culturais, valorizando a diversidade cultural do país como elemento diferenciador e agregador, gerador de riquezas e promotor da inclusão social e da qualidade de vida da população. Tendem, da mesma forma, a valorizar os espaços públicos, como meio de encorajar as trocas socioculturais, de pôr a arte e a tecnologia em encontro constante com o público-cidadão, valorizando as atividades criativas. Estas seriam, no linguajar dos economistas da cultura, as cidades criativas. Belém, na condição de maior representante da cena cultural paraense (nada anormal em se tratando da capital do Estado) e da região amazônica, já tem um terreno fértil para plantar a semente das cidades criativas: uma programação cultural diversa e artistas que, de uma maneira ou de outra, estão presentes em menor escala na cena cultural nacional. A inauguração do escritório do Criativa Birô em Belém será mais um combustível para esta cena. É o momento de artistas, intelectuais, produtores culturais, empresários e o poder público terem maturidade e visão suficientes para se apropriarem das discussões, ações e possibilidades geradas pelo novo paradigma da Ecoum jogo estratégico O território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses,.

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Lenon Rodrigues*

Da esquerda para a direita: Paolo Carlucci, Marcia Lima, Carmen Lorenzetti, Rosa Helena Nascimento Neves, Monica Alvarez, Maurizio Giuffredi, Piergallini Rossella, Beatrice Buscaroli, Manuela Bergonzoni, Airton Lisboa Fernandes.

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um jogo estratégico O território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses,. nomia Criativa e capitaneadas por este braço da Secretaria da Economia Criativa do MinC no Pará. Ter visão e maturidade significa, sobretudo, entender a transversalidade da cultura, incluí-la em outras esferas da vida social. Significa não só investir pontualmente em artistas e eventos culturais, mas promover um ambiente criativo. Para isto é obrigatório investir na qualidade de vida da cidade, dos espaços públicos, compreendê-los como um espaço vivo e democrático de trocas simbólicas e intelectuais. É, da mesma forma, imprescindível investir na formação da maior matéria prima da criatividade: o ser humano, quer seja na sua condição de criador ou de público-cidadão consumidor de produtos e bens simbólicos, pois como afirma Ana Carla Fonseca Reis, uma das maiores estudiosas da Economia Criativa no Brasil, “a criatividade é um combustível renovável e cujo estoque aumenta com o uso”. Desta maneira, o novo desafio que as cidades paraenses devem enfrentar, sobretudo Belém, é de consolidar o Pará como um polo nacional de cultura, exportador e importador de diversidade cultural, em harmonia com um ambiente sustentável, apoderando-se do território sem fronteiras da cultura como um meio e o um fim para a qualidade de vida da população. Quem sabe, em um futuro não muito longínquo, poderemos deslumbrar um cenário onde o Pará se revele ao Brasil, através de sua criação artística e intelectual, na condição de sujeito, e não apenas como um objeto exótico, sem voz ativa na construção de seu próprio imaginário; onde, por exemplo, a moda paraense, inspirada em traços e desenhos marajoaras, esteja presente nas vitrines das lojas do Brasil e do mundo; onde arquitetos e designers se inspirem nesses mesmos traços para desenhar fachadas de prédios, objetos de decoração e móveis; onde o Pará se transforme em um polo de produção e exportação de conteúdos audiovisuais, contando histórias em séries, filmes e animações inspiradas em contos, lendas e personagens da mitologia indígena; onde estas lendas e contos também ganhem novas releituras a partir da imaginação de escritores locais, presentes nas prateleiras de livrarias de todo o Brasil e, traduzido em outras línguas, nas prateleiras de lojas pelo mundo afora; onde todo este universo simbólico inspire a arte contemporânea local, e artistas paraenses participem de exposições e feiras de arte nacionais internacionais; onde Belém faça parte do circuito de grandes feiras e exposições de arte; onde a música paraense seja escutada frequentemente por brasileiros de todas as regiões do país. Enfim, um cenário onde grandes artistas, locais e nacionais, encontrem no Pará o espaço, o público e a inspiração para a sua criação. Lenon Rodrigues é formado em Políticas Públicas de Cultura na Univ. Paris VII. Atua c/ projetos culturais em Belém (PA) e Brasília (DF).

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Helly Pamplona

eco-jornalista Paraense nascido na cidade de Belém, o fotógrafo Bruno Cecim veio ao mundo no ano de 1978. Parte da infância foi passada em Salvador. Na adolescência, estudou um ano em Washington (EUA), mas foi em São Paulo que o fotógrafo começou a trilhar seus primeiros passos no mundo das imagens.

Carlos Pará Nasci no Marajó no dia 13 de outubro de 1958, em uma fazenda chamada Perseverança, às margens do Rio Arari, em Santa Cruz do Arari. Minha juventude e boa parte da vida adulta foi no meio da natureza, convivendo com os animais em ambientes privilegiados da paisagem rural. Minha avó paterna fazia, sem ter bem o sentido do que é isso hoje, um trabalho de preservação. Na fazenda não se podia matar, não se podia usar baladeira para maltratar animais. Uma das brincadeiras de infância era fazer bichinhos com tabatinga, também molhava a ponta do dedo na água da cuia e desenhava no assoalho da casa. Assim, criado nesse clima de muita preservação, meu trabalho, anos depois, teve esse reflexo.  Para mim foi, também, muito importante ter convivido na fazenda com uma tia que era fotógrafa e tinha um laboratório. E claro que no interior, principalmente, naquele tempo, tudo era muito mais primitivo, feito com equipamentos bem rústicos, mesmo! 0 certo é que ela revelava lá as fotos. Assim, desde menino fui criado brincando com os negativos, olhando ela revelar, envolvido com todo aquele processo artesanal, o qual me deixava fascinado. Esse fato me possibilitou um contato mais próximo do que era fotografar uma situação, e, depois, ver surgir toda aquela surpresa da imagem. A fotografia é assim, uma coisa que sempre tive amor, 72 www.revistapzz.com

sempre tive paixão. Eu comecei a fazer fotos muito pela vontade de ser fotógrafo, pois, nada naquele ambiente era favorável, em termos práticos, ao trabalho que dá ser um bom profissional da fotografia. Aprendi alguma coisa lendo revistas, comprava ummontão delas. Agora, fotografar é uma coisa que você aprende mesmo praticando. Àlm.il, a sensibilidade é algo que não se aprende na teoria. Gastei muito dinheiro e Hipo lendo as revistas e sonhando com aqueles equipamentos que via lá. Aquilo

tudo era muito distante para mim. No entanto, olhando com bastante curiosidade para aquelas páginas, fui criando coragem para enfrentar tudo que era crise, por causa da obsessão pelo ofício do fotografar.  Há uns vinte anos, meus colegas de profissão faziam eventos sociais, casamentos, batizados, essas coisas que todo mundo faz, em cobertura fotográfica no interior. Foi nesse tempo, que resolvi focar meu trabalho para a questão ambiental, principalmente, a questão ecológica... A natureza era registrada por mim, pela máquina INSTAMATIC 177 X. A primeira câmera semi-profissional foi uma YASHICA MINISTER D, queixo duro, aquela que não tem como você tirar a lente, pois, ela é fixa. Sabe o que é você não ter opção de lente?! Existe uma lente específica para cada tipo de trabalho. Não dá para você fazer foto de inseto com a lente que você faz foto de paisagem... Para fazer boas fotos é preciso ter um bom equipamento. Trabalhar com fotografia é um investimento muito alto. Eu ia para o “interior do interior” fazer foto de pôr-do-sol s�� por gosto. Não vendia. Nas fotos de família sempre procurava criar alguma coisa... Soprava na lente da câmera para ficar embaçada, quando a câmera ia perdendo aquele embaçamento da lente, eu fazia a foto e a pessoa ficava envolta naquela atmosfera de sonho.


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Parece engraçado, mas, dava certo mesmo. A fotografia é isso, uma coisa para você aprender praticando. Assim, fui desenvolvendo o meu próprio estilo. Pegando a minha própria técnica. Acredito que cada fotógrafo tem que ter seu estilo, eu procuro ter o meu. E bom quando a gente ouve alguém falar que reconheceu uma foto nossa. Ainda que os créditos não estejam lá. Infelizmente, nem todo mundo reconhece que é preciso colocar o nome do fotógrafo. Esse problema, ainda hoje é muito comum. 0 meu acervo fotográfico começou a ser montado quando fui morar nas margens do Rio Gurupi. Eu saía para fazer tocaia de folhas, nas fontes de água aonde os bichos vinham se saciar. No mato, escondido, ficava vendo nambu beber água, pavãozinho-do-pará, pipira, sabiá-vermelho, sabiá branco, suí, suí-fogo, tém-tém rei, paca, veado, caititu. Tudo que é bicho vinha beber água ali. Naquela única fonte, que ás vezes, era apenas uma poça de água. Então, eu fazia fotos maravilhosas, só que não vendia, não via que aquilo tinha valor comercial, ainda mais, valor patrimonial. Minhas fotos, sempre foram vistas como curiosidades, não eram entendidas com a importância que eu dava para a vida rural. Hoje?! Não!! Eu sei que o trabalho que faço na Amazónia é parte de um patrimônio muito nosso, do Pará, até mesmo da Humanidade. Mas, me dá tanta tristeza saber que, daqui a algum tempo, muitos desses animais fotografados estarão extintos. Foi esse pensamento que me levou a publicar esse material, para ajudar as pessoas a perceberem o que se destrói quando se agride a floresta. E muita beleza,

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é muita riqueza. Há países onde isso não tem mais. Essa preocupação me levou à falência muitas vezes. Muitos foram os problemas, que enfrentei, pois, todo dinheiro que eu conseguia era para fotografar. Essa aventura, de estar todos os dias em contato com o meio ambiente, ainda preservado, ainda cheio de vida e perigos, era o que mais me levava a achar que compensava os conflitos e a incompreensão de muitos.  0 tempo foi se esticando e fui me tornando uma referência, dentro da cidade em que vivia. Os fotógrafos que iam de Belém para lá, tinham meu endereço. Aí, eu vendia fotos para eles. Fotos que eles nunca bateriam, porque é preciso um tempo diferente da pessoa que vai de passagem. Além do mais, a pessoa que vive no interior tem uma outra noção de tempo. 0 nativo conhece até pelo cheiro as manhas do mato. Eu tenho toda essa habilidade por ser um nativo. Tenho muito orgulho de ter conseguido o espaço que consegui, fazendo o que faço. Mas, justiça seja feita, esses profissionais que visitavam o interior onde eu morava, eles é que me incentivaram a procurar em Belém, aquilo que não encontrei nos lugares por onde passei. Há uns seis anos vim para Belém, com um monte de fotos debaixo do braço. Fotos de paisagens, da vida ribeirinha, de borboletas, de sucuri. Uma variedade de animais e cenas amazônicas, que mais pareciam imagens do paraíso, pois, quando eu faço uma foto assim, por exemplo, vejo um animal, “clicko”, ali no momento do click não é só aquela foto. Há toda uma atmosfera em volta daquilo. Existe todo aquele clima, o cheiro da floresta... Tudo isso fascina a gente. Você vê uma foto aqui, você não sabe o que eu vivi ali. Pôxa! Isso aqui é só uma foto?!?Não!! Foi muito mais do que isso... Agora, veja só!! Não tenho como trazer esse clima para cá, mas, eu gostaria de repartir com as pessoas isso. As coisas que vi, as coisas que eu vivi dentro do mato... E assim, fascinante, sabe?!, 0 mundo da fotografia de selva é

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uma coisa maravilhosa.  A própria cultura, a nossa cultura é uma coisa muito forte, muito rica. A medicina natural é algo fora do comum. Tinha um camarada que pescava comigo, o João Curica. Aí disseram: - Égua, o João Curica teve derrame na maré, deu derrame lá no meio do rio. Aí o cara veio trazendo ele. 0 João Curica estava jogado no fundo da canoa, desmaiado, em coma! Aí, uns três dias depois eu encontro o João Curica jogando futebol. A mãe dele, descendente de índios, fez um remédio com banha de jacuram, misturada com banha de capivara, misturada com a raiz da sapequara, misturada com o suco da japecanga, cortado em cruz com três cibalenas... Aí, lá está o cara jogando bola, entendeu?! Agora, poucos se interessam de pesquisar. Nas comunidades da Amazónia convivendo com essa riqueza, há também, situações de muita pobreza. Uma contradição que não dá para entender num país tão rico de recursos naturais. Sentir-se impotente diante dessas realidades é muito desalentador. A fotografia é minha maneira de responder a isso tudo. Ela é prazerosa quando se trata da arte, mas, registrar certos fatos, como atender a um pai que me pediu para fazer uma foto de seu filho, morto por desnutrição. E demais! Há casas, onde você encontra pessoas, que tratam o ser humano com muita hospitalidade, dividindo o que tem naquele dia, do chibe ao refogado de mucura. Essa sinceridade emociona pela verdade do gesto... Bom, então é assim... As crianças no interior, na vida rural e ribeirinha, são muito criativas, a maioria de seus brinquedos são feitos por eles mesmos. Naquela vida que levam, acompanhando os pais, na lida diária. E um barquinho de papel, um banho de igarapé na boneca de plástico e assim, eles vão aprendendo o que é importante, para sobreviver na floresta. Uma criança de seis, sete anos sabe fazer peçonha, para apanhar açaí; sabe armar arapuca, para

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pegar animais; sabe pescar com soco, que é um puçá de talas; sabe tanta coisa, que a gente até se assusta. Eles aprendem a nadar com dois anos de idade; pulam na água com bóia feita de mututi, uma raiz levezinha que eles também usam para apoiar as malhas de pesca. No mato, a responsabilidade dos velhos e das crianças não tem diferença. Na hora de colocar um curral para pegar peixes, vai quem tem saúde, quem tem força para ajudar, seja velho, seja novo. E novo no interior, às vezes, é criança de três anos, que sai para trabalhar com adulto de setenta. Sempre me instigou essa maneira como os caboclos se relacionam e resolvem os seus problemas, com muita imaginação e com uma tecnologia, que só acha o jeito certo, quando está na frente do problema muitas vezes. Fico pensando que, é por isso que os velhos se misturam com os novos. E para sobreviver, para enfrentar tanta agrura. Essa coisa toda, ajuda a entender a fotografia como uma forma de educação, que não é só para estar nas escolas, mas, que também é. Ensinar as crianças a respeitar e amar a natureza, é uma esperança, né? Porque, infelizmente, a Amazónia está esquecida por nós. Ela parece tão grande, tão forte, que a gente pensa que ela nunca vai acabar. E sim! Não está sendo realmente valorizada como deveria. Eu penso nisso. Penso todo dia quando fotografo. Até por que, cada árvore, uma árvore só, se você for observar, e, a lente da máquina me permite fazer muitas vezes isso, é habitada por milhões de vidas. Então, Quando ela é queimada, ninhos de pássaros são destruídos, abrigos de muitos insetos e um montão de vidas microscópicas, importantes para o equilíbrio do meio ambiente. Tudo isso aí é destruído, também!!! Em Bragança, fui para um lugar que ficava a 8 km da beira da estrada, para dentro  ia  mata. Andava de manhã procurando animais para fotografar. A noite subia no mutá”, um gradeado que a gente faz como se fosse uma escada de varas amarradas :om cipó titica, em duas árvores finas, para não dar acesso a animais perigosos como i onça. Assim, eu dormia. Quando www.revistapzz.com 85


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descia de manhã, onde eu havia pisado, tinha >egada de onça. Tive muito medo de virar comida de onça, né? E lá era o que mais se ria. Eu passei uns três dias nessa aflição. Depois, fui embora com medo. Alguns neses depois, voltei lá e não consegui mais encontrar o lugar. Tinham derrubado udo para fazer pasto de gado. Eles queimaram tudo, os animais que não conseguiram escapar morreram, os que conseguiram fugir ficaram desgarrados de seu meio ambiente.   Eu vejo a Amazónia assim, como uma coisa preciosíssima, maravilhosa e fascinante, mas, que infelizmente, não é dado o devido valor por nós. A Amazónia era para se ter assim, fazendo um trabalho permanente de preservação. Sério mesmo!! Que não fosse responsabilidade só de governo, que cada um levasse esse interesse como uma coisa sua. Um trabalho de preservação sério, com punição rigorosa para quem ferisse a lei... Tem lei para o meio ambiente; tem lei para a preservação dos animais; tem lei para preservar os direitos do cidadão, lei tem!! Mas, se não tem a informação, se não tem a consciência, como é que vai funcionar?! Futuramente, vamos sofrer muito, as consequências desse desrespeito todo. A natureza já está respondendo. Com o superaquecimento do Planeta, que é consequência do desmatamento incontrolável. ma coisa muito real, nessa questão de depredação do patrimônio da Amazônia é a biopirataria, a gente não tem como esconder isso aí. Estão levando ovos de pássaros raríssimos, através de portos e aeroportos da Região. Houve uma apreensão recente de ovos de arara azul, galo da serra, uirapuru, pássaros raríssimos!! Já pensou?! Levam os ovos para países que nem têm a mesma condição ambiental do lugar onde esses animais vivem; chegam lá colocam em

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chocadeira... Fora àqueles que morrem nos bagageiros, pelas péssimas condições de transporte. Tudo isso é coisa que ninguém consegue entender!! E no noticiário vira apenas uma informação entre as outras. O que fica?... Essa é uma questão que deveria ser de todos nós que vivemos aqui. Nós tínhamos que ter esse compromisso com a Amazónia, de respeitá-la, amá-la e preservá-la.   Acredito que meu trabalho, daqui há uns 10, 20 anos, vai ter muito valor por causa disso, pois, os pássaros, alguns outros animais que fotografei, e mesmo, o modo como vivem as pessoas, só irão conhecer através da fotografia. Eu digo isso com muito pesar. Olha, só!! 0 jucu-

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ruxi, um réptil da família do camaleão, é todo vermelho. Uma época o couro dele valeu fortuna. Mataram muito jucuruxi. Meu pai, atualmente com 76 anos, só viu um na vida dele, e eu tinha o sonho de fotografar esse animal. As vezes achava que nem existia mais, fazia tocaia, fazia isca, e nada. Um dia desses, na floresta, vinha lá o caboclo saindo com um jucuruxi, pendurado na cartucheira. Aí eu segui com dele, fiz as fotos do jucuruxi, morto... E! Existe isso, o camarada mata por matar. Só pelo prazer de caçar mesmo... Se hoje eu ficasse milionário, não deixava a fotografia! Até problemas de saúde ela me ajudou a curar. Tive por quatro anos síndrome do pânico. Então! A fotografia,

além de ser uma opção de sobrevivência para mim - hoje vivo exclusivamente dela - é, também, uma terapia e um compromisso de vida. Desenvolvi muitos saberes observando os animais. Por exemplo, a paca, a cutia, o veado emitem um som, dentro da floresta, batendo com as patas num ritmo bem particular, fazem isso quando encontram uma árvore, que está soltando flores e frutos. Esse som ecoa ao longe na floresta. Isso atrai outros animais que vem comer os frutos. Assim, copiando esse código, já fiz muitas fotos boas. Só chamando no batuque. E impressionante! E muito legal mesmo! A natureza é uma coisa maravilhosa. Por isso, todo dia eu fotografo... Todo dia...


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Marise Maués

pescando versos em preamar A cultura é compreendida como o campo no qual uma comunidade institui as relações entre seus membros e com a natureza, conferindo-lhes sentido ao elaborar símbolos e signos, práticas e valores, ao definir para si própria o possível e o impossível, a linha do (passado, presente e futuro), as distinções no interior do espaço, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o justo e o injusto, o permitido e o proibido, a relação com o visível e o invisível, com o sagrado e o profano, a guerra e a paz, a vida e a morte. (CHAUÍ, 2006, p. 131).

O

ultimo trabalho de Tikka Sobral, “O exílio e a cor” é composta por uma série de desenhos inspirados em personagens de seis contos do escritor francês Albert Camus. Em contextos completamente distintos, as imagens abordam o exílio físico ou espiritual, e às vezes ambos, sugerindo o que as pessoas utilizam como suporte ou complemento para suas próprias existências. Ganhador do Nobel de Literatura de 1957, Albert Camus é indiscutivelmente um dos maiores escritores de língua francesa do século 20. “O exilio e o Reino “ é o ultimo livro de ficção publicado do escritor e é o único livro de contos. “A Queda” (1956) era um dos textos que deveria fazer parte da coletânea, mas Camus acabou transformando-a em um romance. Ao comentar o livro, Satre diz que Camus jamais se valeria da mesma técnica narrativa que empregava naquele romance.

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Uma das características de Camus é que ele se renova a cada livro. Assim como, Tikka sobral, se renova a cada exposição. A coletânea de seis contos: “A mulher Adúltera”, “O Renegado ou Espirito Confuso”, “Os Mudos”, O Hóspede, “Jonas ou O Artista no Trabalho” e “A Pedra que Cresce” é uma síntese da obra de Camus. O narrador explora os temas que sempre o atormentaram, como a solidão, o destino do homem diante de um mundo indiferente e o absurdo da condição humana. O exílio fala sobre a solidão do estrangeiro, de sua marginalização e recusa a representação de um papel que a sociedade lhe atribui, enquanto que o “reino” é o paraíso da história particular universal, lugar onde o homem encontra a suposta felicidade. Tikka sobral, vem com uma verdadeira alteridade dinâmica e conjuntural apropriando-se da obra de Albert Camus . Onde nos traz

“O exílio e a Cor”, utilizando-se do próprio exílio para seu processo criativo e onde seu “reino” ainda é inabitual. “Meus trabalhos são processados por elementos da minha subjetividade e desenvolvidos como se fossem outros. Dessa maneira começa então um processo interminável de desvelamento de sentido, a recriação de minha versão sobre posição de significados. Uma alteridade dinâmica e conjuntural. Nesta atividade de apropriação, utilizo meu próprio exílio em uma analogia com Camus, para produzir minhas obras”, explicou Tikka Sobral. Em “O exílio e a Cor”, a artista apresenta as aproximações e limites entre arte visuais e literatura, resultado de experimentações estéticas derivadas desse encontro, tendo como suporte a técnica mista sobre papel. Para isso, Tikka estudou cada um dos personagens dos contos que se deparam com situações,


Foto: Bruno pellerin

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o dispositivo conceitual de discurso e diálogo ao se apropriar de uma obra em outra linguagem, questionando os limites da arte contemporânea através do traço e da cor, contribuindo para as discussões sobre o papel da pintura na arte contemporânea. Para a artista o sentido de autoria é existencialista. Trata-se de se livrar por meio desses processos de uma sobrecarga de urgência inqualifícavel. Tikka Sobral, em suas construções pictóricas se apropria da realidade, gerando relações estéticas confusas, caóticas, dramáticas, complexas e, no entanto, coerentes, conscientes de seu todo. A exposição é uma realização da produtora “A Senda”, com o patrocínio da Fundação cultural do Pará Tancredo Neves que vem apoiando, além desta, diversas linguagens artistísticas no Estado. A curadoria e desenho de montagem foram feitos por Ramiro Quaresma e a remontagem desta exposição será em Agosto deste ano, na Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves. Clemente Schwartz é jornalista músico e produtor cultural

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