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distribuiçãogratuita|vendaproibida

ano3|número1|jun-jul-ago2013


MarcosVeloso,Viaduto,CentrodeJoãoPessoa,1997

MARCOSVELOSO-HOMENAGEM «OfotógrafoMarcosVelosoeraumseraparentemente desconstruído,masnenhumartistadasuageração apresentouumaobratãocoerenteeplasticamentede profundadelicadezacomoasua.Sensíveledespojado, elesabiacaptaraessênciadarealidadesemperderde vistaafunçãodaartenesseprocesso.Àsvezes,sutilezas programadas.Noutras,aoportunidadedo imponderável:paisagens,gestos,cenashumanas, detalhes.Nãoinventouaquiloqueosgrandes fotógrafosjánãotivessemcriado;nembuscouser diferente;apenasdeixoufluiroquedentrodeleerao seupróprioespíritodepermanentealegriae disponibilidadeaosamigoseàvida.» Francisco(Chico)PereiradaSilvaJúnior

Iniciadonafotografianocomeçodosanos1980,Marcos Velosonasceu(esecriou)nobairrodeJaguaribe,emJoão Pessoa,em14deagostode1950.FormadoemMedicina, atuounosetorderadiologiadoHospitalUniversitárioda UFPBeissomuitofacilitousuaadaptaçãoaoslaboratórios fotográficos.Naverdade,adescobertadanovahabilidade surgiunumcursorealizadonoCentrodeTecnologiada UFPB.Depois,foiconvidadoparaumacoletivanaFeirade TecnologiadeCampinaGrande.Desdeentão,foram inúmerasexposiçõespelopaísenoexterior.

Em1994,aoladodosjovensfotógrafosManodeCarvalhoe RicardoPeixoto,criouaAgênciaEnsaiodedicadaà evoluçãoequalidadetecnológicadafotografianacidade deJoãoPessoa.Antes,atuounogrupoTraficantesde Imagensemváriosprojetosculturais.Participanteativodas associaçõesLeHors-LàeREDE‒deintercâmbiocomFrança eSuíça,respectivamente‒emquefoium“embaixador”da regiãosertaneja,levandoconsigoosestrangeirospara memoráveisexpediçõespelosrincõesdageografia nordestina.Muitasdasimagensqueregistrou, especialmentesobreosertãoparaibano,dabelezaexótica dapaisagemedoscostumesdopovo,ficaramconhecidas internacionalmente. Em1995,participoucomoconvidadodaBiennale InternationaledʼArtdeGroupe,umdosmaisimportantes eventosartísticosnoSuldaEuropa,emMarselha/França, onde,umanoantes,viveubreveperíododetrabalho. MarcosVelosofaleceuem04defevereirode2000,noauge desuaproduçãoartísticaenomomentoemqueacabarade registrarofolcloredoMaranhãoeobairrodoVaradouro,no CentroHistóricodeJoãoPessoa,aoladodoscolegas GustavoMoura,AntônioAugustoFonteseWalterCarvalho. E,quandosepreparavaparaviajaratéCubaeFrança.


editorial editorial

Apósediçõeslançadasemperíodosirregularesaolongo dosúltimosseteanos,finalmente,arevistaSegundaPessoa prometetornar-seassíduadaquiprafrente.GraçasaoEdital ProculturadeEstímuloàsArtesVisuais2010,daFunarte/ MinistériodaCultura,quecontemplouapublicaçãodeoito edições,trimestrais,pelospróximosdoisanos,alémdesua versãonainternet:www.segundapessoa.com.br.

Nossapropostasemantémdesdeseuprimeironúmero,de 2006:“publicarartigos,ensaioseimagensdeautores brasileiros,commaiorênfaseparaanáliseedivulgaçãoda produçãocontemporâneadeartesvisuaisnoNordeste.”E, destavez,seráamplamentedistribuída(gratuitamente) entreartistas,bibliotecaseinstituiçõeseducacionaise culturaisdopaís. Nestaedição,háespaçopararevivero“passado”aotratar davida/obradoartistaFernandoJacksonRibeiro‒ sertanejodaParaíbaenomefundamentalparaa compreensãodaesculturabrasileiranosanos1960/70,a partirdoRiodeJaneiro,ondeatuou‒comartigosdeStênio SoaresedeWalterGalvão.

Índice      Arcaísmoexpressivo:apoéticadeJacksonRibeiro, porStênioSoares    4 Umaarteparaaglobarbárie:HélioOiticica/ JacksonRibeiro,porWalterGalvão   7 Afinal,queéartesanato,porRaulCórdula  9 Sobreoprocessodemanutençãodeuma identidadenasartesvisuaisnacontemporaneidade pernambucana:BeteGouveiaeMaurícioCastro, porMadalenaZaccara14 Costuraspoéticas:sensorialidadesdaroupa, porAlineBasso20 Artecorreio:aideiaemprocesso, porJotaMedeiros24 Deficiênciaautoraldasartesvisuais,porLuizVidal 27 OfenômenoBienaldeArte,porAlmandrade 30 

Namesmaideiade”revisãoereflexão”,estãoosnecessários artigossobreartesanato,doestetaeartistaRaulCórdula; sobreartecorreio,deJotaMedeiros;esobreosartistas contemporâneospernambucanosBeteGouveiaeMaurício Castro,deMadalenaZaccara.Aediçãosecompletacom textoelucidativosobredireitoautoral,deLuizVidal,eum artigodaprofessoraedesignerAlineBassoqueabordaa linhatênueentrearteemoda. Ah,eofotógrafoMarcosVeloso,falecidoem2000,ilustraa capaerecebehomenagempóstumadarevista.Oartistae arquitetoAlmandradefechaestaediçãonosexplicandoo fenômenodasbienaisdearte. Boaleitura!

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010

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Arcaísmoexpressivo: apoéticadeJackson Ribeiro 

StênioSoares

tradicionalpraticamentedesapareceu,enquanto começamaaparecerobjetosnoespaçodequaisquer materiaisque,semaislongedasbelas-artes,mais próximasestão,porém,dacriaçãopopular”(PEDROSA, 1960).Nomesmosalão,oentãodiretordoMuseu NacionaldeBelasArtes,TeixeiraLeite,vemapúblico defenderapremiaçãodeRibeiro,destacandoa vitalidadeesensibilidadedassuasobras:“Maisduas qualidades,porém,épossíveldescobrirnaspeças mencionadas:1)forçapoética,aquientrandootermo emsuaacepçãodepodercriador,inventiva;2) adequaçãoentreoqueoartistadesejoufazereo materialdequelançoumão”(LEITE,1960).

FernandoJacksonRibeiroacrescentaàprodução escultóricabrasileiraumestudodeaproximadamente trêsdécadasemumprocessopoético,identificadopelo autorcomo“elementares”,esculturaseobjetos tridimensionaisapartirdoferroemsucataeapedra bruta.Aapropriaçãodesseselementosdesdobra-sena elaboraçãodeesculturascujaplasticidadeganhaforma detotem,motivanovasleiturassobreoespaço, chegandoàelaboraçãodeumjogointerativoaopúblico naformulaçãodeperspectivasmúltiplaseautônomas. Essatrajetóriaémarcadaporfasesdeummesmo processocujopensamentotransformadortransitaentre aartemodernaecontemporânea,nomomentoqueo Brasilvivenciavaumaefervescênciadeideiasnosentido deumamudançacultural.Poderíamosnosdeterapenas emumaesculturaparacercarofenômenoindicadopela obradeJacksonRibeiro,poissuaplasticidadegeraum sentidoquearticulapensamentoeação,considerando suaautonomiaestética.Contudo,nãoéprudente estabelecerequivalênciadeumaobraàtotalidade poéticaquemarcaatrajetóriadoartista,poisfatalmente nosarriscaríamosemtrairumapoéticaqueéressonante aoprincípionorteadordaGestalt:“otodoémaisdoque asomadaspartes”. Em1956,quandoJacksonRibeirodeixouaParaíbae mudou-separaoRiodeJaneiro,começouatrabalharem umafábricademoldurasondetevecontatocom quadrosexemplaresdasvanguardasartísticas.Começou apintarcommaçarico,maslogodeixouatécnicapara lidarcomaesculturadeferrovelho,daqualjulgava poderaliarseupensamentoartísticoàforçafísica. SegundoRibeiro,foiapartirdocontatocompeçasde ferro,usadasnafabricaçãodeumaparelhopara engessarmoldurasdequadros,quesurgiusuaprimeira escultura,umcristodeferro,queexpôsnoVIIISalãode ArteModernadoRiodeJaneiro,introduzindo-seno circuitodearte(LISBONA,1974).Noanoseguinte, participoudoIXSalãodeArteModerna,ganhouo prêmioaquisiçãoefoinotadoporMárioPedrosa,então diretorartísticodoMuseudeArteModernadeSãoPaulo, queescolheudoisdosseustrabalhosparaaVIBienalao arlivredeAntuérpia,naBélgica.Pedrosa(1960)referiuseàsobrasdeJacksonRibeirocomoum“autêntico arcaísmoexpressivo”,eindicavaque“aescultura

Nessafase,oartistaconjugavaoferroeapedra, especialmenteogranito.Exemplaresdesseperíodosão: Elementar4,dacoleçãoJoséePaulinaNemirovsky,e Elementar5,coleçãoMAC-USP,esseúltimoexpostona IVBienaldeSãoPauloeprêmioaquisição,em1961. Nessasobras,JacksonRibeirojustapõeapedraeoferro compoucaouquasenenhumatransformaçãodos materiais;nessesentido,suapreocupaçãorevela-seem situarosmateriaisenquantoformaplásticae materialidade,elementoscompositivosessesquese somamedinamizamalinguagemescultórica.Outro aspectoqueconstróiavisualidadecaracterísticadessas obraséaapropriaçãodemateriaiscomcertas especificidadesnocontextomodernoexperimentado comaindustrialização:porumladoapedra,elemento rústico,significativonacomposiçãodosolo,quese apresentaorganicamentecomonatura,poroutrolado,o ferrosucateado,umobjetopré-fabricadodeuso industrialrevela-secomo,metaforicamente,intervenção dohomemsobreanatureza:acultura.Apartirdesse enfoque,aobradeJacksonRibeiromanifestaseu aspectoconceitual,aolidarcomaplasticidadedos objetosdacomposiçãoecomoconflito natureza/cultura,ouseja,comformasapropriadasda naturezaetransformadaspelacultura.

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Abreveleituraanteriorcompreende,entreoutros aspectos,aoresultadodeumjogodesensaçõesoude comolidamoscomosensívelnasartes.Essasnoçõessão fundamentaisparasecompreenderapercepção enquantopossibilidadedediálogoentreaobradeartee


oobservador,eseassociamosapedraeoferro, materiaisdessacomposição,comseutamanho,sua forma-cor,suatextura,pesooulevezapercebida, enfatizamosqueessaapreensãoé,necessariamente, umaexperiênciadocorpoedopensamentocomo criadoresdesentido,tantodoartistaquantodo observadordaobra(MERLEAU-PONTY,2006).A experiênciadoolharestáinerenteaumsistemade experiênciasvividopeloobservador,oqueprovocasua aproximaçãonãosomentecomaobraemsi,mas, também,comoprocessodecriaçãodoartista,sujeitos necessáriosparafundaressefenômenodacomunicação. Portanto,trata-sedeumpontodevistaquemotivae implicaoutrasperceptivas(MERLEAU-PONTY,2006,p. 60).

GovernadordaParaíbaErnaniSátyrorecebeJacksonRibeiro,JoãoPessoa,1976

Afasedoselementaresdepedraeferroarrebata prêmioseelogiosdacrítica,oartistatemdistinçãono circuitodeartenoBrasil,vaiàXXXIBienaldeVeneza,III BienaldeParis,MostradeArteBrasileiraemTrieste.Em 1964,RibeirotrabalhajuntocomAmílcardeCastroe HélioOiticicanaalegoriadoenredoHistóriadeum pretovelho,daEscoladeSambaEstaçãoPrimeirade Mangueira.DuasconstruçõesdeJacksonRibeiro,que serviramdealegoriasdeumcarrodaescoladesamba, alcunhadaspelacomunidadecomoFaustoeFaustina, foramexpostasnoXIIISalãodeArteModerna.Nesse salão,RibeiroganhaoprêmioViagemaoexteriore,em 1965,muda-separaBarcelonaondefazresidência artística.AntesdepartirparaaEuropa,Ribeiromarca, comduasesculturas,definitivamente,aspáginasda produçãoescultóricabrasileira:em1964,Fausto,uma construçãodesucata,alegoriadeescoladesamba,é premiadanosalãomoderno;em1965,constróia esculturapúblicaoPorteirodoinfernoparauma avenidaemJoãoPessoa.

Porteirodoinferno,JoãoPessoa,1967

Oelementoprimeiroé,poisogeradordetodaaobra,o “gérmen”dela.Sobreessatotalidadeentãoabre-sea imaginaçãodoespectadorqueassumeaquipapel importante,direimesmoparticipante,dentrodaobra. Hácomoqueuma“visualizaçãofisionômica”do espectadorqueoratendeàfantasia,oraàvisãode figuras,oraàdescriçãodemitosetc.(OITICICA,1968a) Decorrênciasmodulares(fonte:ArquivoProjetoHO)

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Asduasobrasdesucatarevelamoutrafasepoéticado artista,definemsuafiguratotêmica,apartirda acumulaçãodemateriaisconstruindosentidonoespaço, e,nodiálogocomopúblico,consolidamsuafisionomia àidentificaçãomíticapopular:Faustofoialcunhadopela comunidadedaMangueiraeoPorteirodoinferno, segundorelatosdeamigoscontemporâneosaJackson Ribeiro,foialcunhadoporamigosdoartistaque moravamemJoãoPessoa.

nasceapartirdaintervençãodeumparticipanteque expressenasmontagenssuaexperiênciasensorialcomo espaço,suapercepçãoenquantopensamentode perceber.(MERLEAU-PONTY,2006,p.67)   Nessesentido,seapercepçãoéindividual,motivae implicanovaspercepções,seusresultadossãosempre novoseinfinitos.Semdúvida,oprocessopoéticodos “elementares”deJacksonRibeirosãoexpressõesdeum pensamentolatenteàesperadeumsopro criador/interativo.

EmBarcelona(1965-1967),JacksonRibeiro,empreende umdesdobramentodessafasepoéticadostotensde sucata,apartirdageometrizaçãobilateral.Alguns exemplaresdessafaseforamexpostosnoeventoArteno Aterro,em1968,organizadopelocríticodearte FredericoMoraes.DuasesculturasdaFundaçãoCasade JoséAmérico,emJoãoPessoa,aesculturadoadaao presidenteGeisel,em1974,assimcomoaescultura Construção3,de1972,pertencenteaoacervoMAMSP sãoexemplaresdessafase.Elasmarcamaelaboração bilateral,seguindooprincípiototemdeacumulaçãode materiaisdeferro,emboravenhamsugerir geometricamenteasfiguras.Abilateralidadeda expressãoescultóricapreconizaas“decorrências modulares”,quemarcamaúltimafasedapoética escultóricadeJacksonRibeiro.Nessesentido,Ribeiro elaboraumjogoparticipativo,chamadode “elementares”,comnovemódulosgeométricosde alumínioparacombinaçãoemontagemfeitaspelo participante,quepodeconstruirumtextovisualapartir deformulaçõesestéticas.Comosmesmosmódulos, produzidosemmadeira,oartistaorganizacomposições fixasesimétricascomoobrasdeparede,chamadas Decorrênciasmodulares.

StênioJoséPaulinoSoareséator,cientistasocialehistoriador daarte.BacharelemCiênciasSociaispelaUFPB,emcomum formaçãonaUniversitéLumiereLyon2,França.Especialistaem museologia,comênfaseemCuradoriaeEducaçãoemMuseus deArtecompesquisasobreacoleçãoMarcantonioVilaçado MACUSP.MestreemEstéticaeHistóriadaArtepelaUSP,com pesquisasobreaobradeJacksonRibeiro.Integrouasequipes doMuséedesMissionsAfricainsdeLyon(França),MuseuAfro Brasil(SP)eMuseudaCasaBrasileira(SP).FoiDiretordeAção CulturaldaFundaçãoCulturaldeJoãoPessoa(FUNJOPE).É consultordaUNESCO,atuounoInstitutodoPatrimônio HistóricoeArtísticoNacionaldoMinistériodaCultura(IPHAN/ MINC),eatualmenteestálotadonaSecretariadeDireitos HumanosdaPresidênciadaRepública.

Referências DANTO,Arthur.Atransfiguraçãodolugar-comum:uma filosofiadaarte.SãoPaulo:CosaceNaify,2005. HEIDEGGER,Martin.Aorigemdaobradearte.Lisboa:Edições 70,2007. LEITE,JoséRobertoTeixeira.OsdelíriosdoSr.ReisJúnior. ColunaArtesVisuais.[?],04set.1960. LISBONA,Diane.Jackson,avitalidadedoferro.OEstadodo Paraná,Curitiba,22fev.1974. MERLEAU-PONTY,Maurice.Fenomenologiadapercepção.São Paulo:MartinsFontes,2006. OITICICA,Hélio.NotasobreaesculturadeFernandoJackson Ribeiro.RiodeJaneiro,1968a.Disponívelem: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho /index.cfm?fuseaction=documentos&cod=2&tipo=2>.Acesso em:02jun.2008. _________,Jackson.RiodeJaneiro,1968b.Disponívelem: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho /index.cfm?fuseaction=documentos&cod=2&tipo=2>.Acesso em:02jun.2008. PEDROSA,Mário.Missãocumprida.JornaldoBrasil.Riode Janeiro,10ago.1960.

ASDECORRÊNCIASMODULARESDECORREMDO PRINCIPIOTOTEMEFUNDAMESPAÇOeessa experiênciafazpartedagrandedemoliçãodoespaço antigodaesculturaedapinturaepropõealgoque apontaparaONOVO:algoqueeliminaapossibilidade decombinaçãoecultivaçãodoespaço-formaantigoda esculturaedoTOTEM-FOLCLOREmistificanteséa negaçãoeaeliminaçãodofolclore(ligadoesteàs chamadas“raízesprimitivas”quenadamaissãodoque amanutençãodeformasesquálidaseacadêmicasde arte)edoespaçotradicionaldaesculturatalcomoé manifestadapelosrealizadoresdetaisformasdearte, ASDECORRÊNCIASMODULARESSÃODECORRÊNCIAS QUEGERAMONOVO!(OITICICA,1968b).

 ParaOiticica,asdecorrênciasmodularesresultamda ideiadototem,empreendidaapartirdaexperiência espaço-formadaescultura.Porém,ofenômenoque pulsanacomunicaçãoartísticadaobradeJackson Ribeiroestánaexperiênciadocorpoedopensamento comocriadoresdesentido,tantodoartistaquantodo observador/participantedaobra.EmRibeiro,a experiênciavividaeapercepçãodoespaçolevaram-noa expressaressespassosdoseupensamento,atravésdo seuprocessopoético,masojogodos“elementares”  

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Umaarteparaa globarbárie:Hélio Oiticica/Jackson Ribeiro 

WalterGalvão

atentandocontraoclassicismo,aacademia,orealismo figurativo,oartistadocristianismolaico,sabotadorda tridimensionalidadesimbólicadaperspectiva,oque concentraasfigurasemprimeiroplano,egosagindono proscênio,oquearrebanhaascarasdasruas,ascarasde cavalo,parapersonificarseussantostransgressores abraçadoscomprostitutasdastavernas.Caravaggio disseaHélioOiticica:sejamarginal,sejaherói.

PrimeiraAbordagem Imersãonoparadigmabarroco,suportetranstemporal deumapós-modernidade Umbólideconstrutivo,chamarevolucionária,habitao coraçãodalinguagemdaarteneoconcretabrasileira, multipolar,plurimimética,interformal.Arteneoconcreta: sintoma,motivo,núcleoirradiador,soluçãoeproposta dadesmaterializaçãodaretóricadetempo,lugar,da simbolizaçãoedadramatização,daespacialização metafórica,daimanência,dosensóriodosentimento óticovisualdamodernidadeesuasmicromodernidades, uma(micro)modernidadequecomeçacomoCubismo, outracomoBarroco,aquelacomeçaquaseantesdo começocomMonet,aquecomeçacomDuchamp,aque terminaemHélioOiticica/JacksonRibeirovórticesda pós-modernidade,ápicesdavanguardamíticados60, neoncretospúblicos:ostransobjetosdeHélio,as assemblagesmatéricasdeJacksoncaracterizam.

OsmetaesquemasdeHélio,osparangólesvestíveis,a novaluzdeCaravaggiopropõemumanova objetividade.Aobjetividadebarrocaéneoconcreta porqueconstrutiva:“NoBrasil,osmovimentos inovadoresapresentamestacaracterísticaúnica,uma vontadeconstrutivamarcante,atémesmono movimentode22.Delanasceramanossaarquiteturae osmovimentosconcretoeneoconcreto”escreveHélio emEsquemaGeraldaNovaObjetividade.JayroLuna, críticoquepropõeateoriadoneo-estruturalismo semiótico,menciona“anoçãobarrocadomundocomo labirinto”referidaporAfonsoRomanodeSantʼAnnaque aludeao“geometrismodacomposição”doestilo, “baseadanaartecombinatória”,técnicadacombinação paraaresignificaçãotípicadoobjetoestruturadopor JacksonRibeiro,aexemplodoobjeto-totem-esculturamonumentopúblicoqueseconvencionoudenominar Porteirodoinferno.

Modernidadenasmodernidadesdesdobrada,eismais uminstanteinauguraldafesta,umprocesso,umnúcleo derepresentaçãocontraaqualseinsurgeaarte construtivadeHélio/Jackson:Monet,séculoXIX, revoluçãoinauguraldeumainvençãooperativa, revogaçãoderitosestéticos,adialéticadodesenhosuporteestruturadaobravencidapeladialógica mancha/cor.Acorpura.

ApropósitodoBarrocoafirmaMichaelKitson, escrevendoparaTheHamlynPubishingGroupLimited, em1966:“Lança-seaoencontrodassuscetibilidades emocionaisdoespectador;numgraumuitomaior,foi maisʻorientadaparaoespectadorʼdoquequalquer outroestilo.Oseufoconãoestádentrodaobradearte, masforadele,noespaçodoespectador”.

Construçãocomluzdasignagemdaobracontraa exteriorizaçãometafóricadosentimentohierarquizado narradofigurativamentenoquadro. Avançandoahistória.Nocoraçãodaarteconstrutiva brasileirahabitaumbólidebarroco.Umaespiralde programaçãodossentidos,deespacializaçãometafórica, defabulaçãocientíficaarquiteturalviageometria,de ambigüidadeepluriformalidadeevoluiudesdeo barroco,estelugardassensualidadesformais,das interpenetraçõesestruturais,inoculando-senamedula dasmodernidades. Hásimestaplataformabarrocanaformaenosentidoda arteconstrutivaneoconcreta.HélioCaravaggio

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Hélioescrevearespeitodoespectadorno“Esquema Geral...”,tambémem1966:“Oproblemadoespectadoré maiscomplexonocontextodaNovaObjetividade,já queessaparticipação,quedeinícioseopõeàpura contemplaçãotranscendental,semanifestadevárias maneiras”,entreasquais,“umaqueenvolve ʻmanipulaçãoʼouparticipaçãoʻsensorialcorporalʼ,uma outraqueenvolveumaparticipaçãoʻsemânticaʼ”.


Segundaabordagem Flashsdaarteconcreta TheoVanDoesburg,MaxBill,oconcretismosedesdobra doabstracionismo.Radicalidade:fimdarepresentação sensível,alémdacomunicação,umprojetode intercodificação.Sinal,signo,códigointercambiantes, projeçãodeumacontradiscursividaderetórica.MaxBill: daimagemideiaàimagemobjeto.Daimagemao objeto.Amálgamas:oplásticoeoverbal,ageometriaea matemática,aartecinéticadorecortesígnico.Ivan Serpa.WaldemarCordeiro,osavataresdoconcretono Brasil.MárioPedrosaocríticodoativismoconcretista. Novarealidade.Arteconcreta:umaNovaObjetividade. TerceiraAbordagem Neonconcretismo.Refutaçãodaradicalidadeteóricada arteconcretaqueavançacontraqualquersubjetivismo expurgandoolíricoeaespacialidadevisualpoéticado construtivismo.OgritodoManifestoNeoconcretoéuma reivindicaçãoqueafirmaumafiliaçãogenealógicada artebrasileiraenaAméricaLatinaaoConstrutivismo.O críticoMárioPedrosaclassificouaspectosdaobrade HélioOiticicaeJacksonRibeirodeneoconstrutivistas.Eis, então,umcírculoevolucionáriodeumaideia-tema orgânicadaartecontemporâneabrasileira:umavontade construtiva. ManifestoNeoconcreto:“(...)Propomosuma reintegraçãodoNeoplasticismo,doConstrutivismo,e dosdemaismovimentosafins,nabasedesuaconquista deexpressãoedandoprevalênciaàobrasobreateoria. SepretendemosentenderapinturadeMondrianpelas suasteorias,seremosobrigadosaescolherentreasduas. Oubemaprofeciadeumatotalintegraçãodaartena vidacotidianaparece-nospossível‒evemosnaobrade Mondrianosprimeirospassosnessesentido.”(...)“Aarte neoconcreta,afirmandoaintegraçãoabsolutadesses elementos,acreditaqueovocabulárioʻgeométricoʼque utilizapodeassumiraexpressãoderealidadeshumanas complexas,talcomoprovammuitasdasobrasde Mondrian,Malevitch,Pevsner,Gabo,Arpetc.Semesmo essesartistasàsvezesconfundiamoconceitodaformamecânicacomodeforma-expressiva,urgeesclarecer que,nalinguagemdaarteasformasditasgeométricas perdemocaráterobjetivodageometriaparasefazerem veículodaimaginação.”

HélioOiticica(ArquivoProjetoHO,RiodeJaneiro)

WalterGalvãoépoeta,músico,publicitárioejornalista.Éautor devárioslivrosdepoemas,ensaiosecrônicas.FoiSecretáriode EducaçãodeJoãoPessoaeDiretorexecutivodaFundação CulturaldeJoãoPessoa-Funjope.ÉeditorgeraldoJornal CorreiodaParaíba.

Referências JANSON,H.W.HistóriadaArte.Lisboa:FundaçãoCalouste Gulbenkian,1977. KITSON,Michael.OMundodaarte:enciclopédiadasartes plásticasemtodosostempos‒obarroco.RiodeJaneiro:José Olympio,1966. OITICICA,Hélio.Aspiroaograndelabirinto.RiodeJaneiro: Rocco,1986. PEDROSA,Mário.Mundo,homem,arteemcrise.SãoPaulo: Perspectiva,1986.

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Afinal,queé artesanato? 

RaulCórdula

possuiumvaloragregadoinsubstituível:amarcadamão dohomem.

ParaquemnãoviveunoBrasildeduasdécadasatrás, artesanatonadamaisédoquebugigangasproduzidas porhippiestardios,vendidascomocuriosidadesnas feirasturísticas,calçadasdodowntown,estações rodoviárias,aeroportosemercadosdirigidosaoturista desavisadoqueprocuraumsouvenirparaumamigo.

Eisoqueéoartesanato:aobramaterialdoartesão;fruto doseutrabalhorealizadoatravésdasmãosnaconfecção deobjetosdestinadosaoconfortodohomem, carregadosdeexpressõesdacultura,ondeamáquina,se utilizada,seráapenasferramenta,nuncafator determinanteparasuaexistência.

Desdequeaaventuraneoliberalpassouaassolarnossas vidasapalavraartesanatosaiudonossorepertório econômico,socialecultural.Apartirdaíodesprezocom aculturadopovotemsidoperversamenteestratégico, desvalorizandoaidentidadecultural,fatorcomplicador nosnegóciosglobalizadosqueexigemprodutos enquadradosemnormasdirigidasaumtipodemercado quesecaracterizapor“zeroexpressão“,planejadopara nãoprovocarnenhumesforçomentaldiantedoatode comprar,eorientadonadireçãodobaixopreço, facilitandosuamassificação.

Oartesanatoéinstrumentodemelhoriaedistribuição justadarendadecomunidadespobres,frutodotrabalho autônomoevivo,poisoobjetoproduzidopertencea quemoproduziu,oartesão,diferentementedotrabalho enterradonasfábricaspelasmãosdosoperários, contrapondo-se,portanto,aosistemadeprodução industrial. Mesmomarginalizadopelosprogramasde desenvolvimentoregionaisenacionaisoartesanato continuasendonoBrasilumaatividadeculturalde grandeimportânciaeconômica.Porsuainformalidade escapadoplanejamentodamacroeconomia,etem comoáreadeatuaçãoascasasdosartesãos,aperiferia dasgrandescidades,longedossistemasurbanosedas regiõesfabris,eprincipalmentenomundorural.Masa fainadaeconomiacapitalistanãoignoraoartesão,pois suamãodeobraespecializadíssimainteressaao poderoso“mercadodetrabalho”.

Estaestratégiaintroduzoconceitodeque,dopontode vistadoproduto,ousoémaisimportantedoquea belezaemuitomaisimportantedoqueatradição cultural.Istosignificaqueumrecipientedeplásticoserá, emtese,melhordoqueumdecerâmica,poisémais baratoesubstituigrandepartedasfunçõesdooutroe, aindamais,suafabricaçãoedistribuiçãonomercado atendeaosacordosestabelecidosemfunçãoda expansãodosistemafinanceiro,comoconhecemoshoje, fortementeexcludentedopontodevistasocialeinjusto noâmbitodasrelaçõesdetrabalho.Umsistemaquenão levaemcontaasdiferençasentrepovosenações. Qualquereconomistadeneoliberal,porém,diráqueo artesanato,comomeiodeproduçãopré-industrial,é umaatividadeeconomicamenteinviável,e desaconselharásuainclusãonosprojetosde desenvolvimento.São,portanto,incapazesdeimaginar osignificadodarelaçãonaturalentreohomemeaterra. Jamaispoderãosuporqueavidaresidetambémnoato dearar,plantar,colher,moerogrãoefazeropão,eque afelicidadereside,paramuitos,emapanharobarro, amassar,modelar,pintar,cozereutilizaroutensílioque surgirdaargilacomoprodutodesuamão,dadignidade doseutrabalhoedapurezadesuaalma.Épreciso lembrarsemprequeodoobjetofeitoartesanalmente

Osnúmerossãoeloquentes:arevistaExportar& GERÊNCIA,dedicadaàpequenaempresaexportadora, noseunúmerodemaiode1999anunciouqueo mercadointernacionalestádeolhononossoartesanato. Apresentaaseguinteesurpreendenteinformação: estima-sequeoartesanatobrasileiromovimentetrês bilhõesdedólares,envolvendooitomilhõese quinhentasmilpessoas!

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Atradiçãoresidetantonaexpressãoqueosobjetos transmitem,comonamaneirapelaqualsãofeitos.Um pãofrancês,porexemplo.UmaboulangeriedaRuedes LesGravilliers,emParis,queostentaumbrasãodo séculoXVIII,cujaáreanãoémaiordoque25m²,fazhoje omesmopãoquealimentouasoldadescadeNapoleão.


Opãoeovinhofranceses,opapeldeaquarelaDʼarche queéfeitodamesmamaneiraháseisséculos,asrendas belgas,irlandesas,iugoslavasportuguesas,brasileiras,a cerâmicanãoindustrialpraticadaemtodoomundo,a cachaçadeBrejodeAreia,naParaíba,oudeMinas Gerais,acarnedesoldoSeridó,ascharqueadasdoSul aoNorte,acomidadeSantodaBahiadoCandomblé,a doçariabrasileira,osqueijosdoSertão,osmosaicos,os objetosfeitosdemarchetaria,marcenaria,carpintaria, funilaria,cantaria,tecelagemmanual,tecelagemde redesdedormir,trançadosdepalha,trançadosdecouro, papelmachê,brinquedospopulares,bruxasdepano, cestaria,peleteria,ourivesaria,engastedepedras preciosas,lapidação,forja,fundição,etantosoutrostipos deobjetosedetécnicasquequasenãosepodenomear, sãomanifestaçõesdoartesanato.

artedéco,eemseguidasurgiuaBauhaus,escolaalemã responsávelpelaimplantaçãodoconceitodedesign moderno,fechadapelonazismo,masdepoisreabilitada, emboracomoutroconceito,pelaEscoladeUlm (HokschülleFürGestautung),maisvoltadaparaa industrialização,mastambémdeterminantedosrumos doartesanatocontemporâneo.Éprecisolevaremconta quenemtudoqueédesenhado(designado)podeou deveserdestinadoàproduçãoindustrial.Omobiliário,a cerâmicautilitária,atecelagemeajoalharia,por exemplo,sãoatividadestradicionais,masconstantesdo artesanatocontemporâneopraticadoatualmentenas metrópoles. OBrasiltemseusrepresentantesnestesetor,comoo arquitetoedesignerdemobiliárioSérgioRodrigues, autordapoltronaMole,oarquiteto“artesanal“Zanini,os joalheirosCaioMourão,MárcioMattareClementina Duarte,osceramistasMegumeYuasa,Francisco BrennandeMigueldosSantos,omestre“jardineiro“ BurleMarx,atapeceiraCeiçaColaço,entreoutros.

Oconceitode“artepopular“,noentanto,nãovigoraem todoomundo.NasmegalópolescomoNovaYork,São Paulo,SãoFrancisco,Londres,Tóquioemesmoem cidadesmenores,mascosmopolitas,háoconceitode “artesanatourbano“,ondeoartíficealiaastécnicas tradicionaisaosestilosdaépoca.Exemplodissosãoos ornatosdaarquiteturaeosutensíliosdacasa,desdea antiguidadeclássica(grega),passandopelo renascimento,pelaartnouveauepelaartdéco,atéos diasdehoje,pelaquantidadeequalidadedaprodução deornamentoseutensíliosportadoresdosestilos correspondentes,deautoriadeartistas/artesãoscomoo vidreiroGaléeojoalheiroLalic,porexemplo.Neste períodoumfenomenalartista,arquitetoeartesão proporcionouàhumanidadeumdosseustesouros modernos:trata-sedeGaudi,quealémdecriare projetar,executouornatosemobiliários,utilizando materiaisdiversos,desdecacosdeazulejosàcerâmica, ladrilhos,entalhesemmadeira,ferrosforjados,vidros, metaisdiversos,pedraserelevosemrebocoeesculturas. Gaudichegouaaliarcomsurpreendentemaestriao artesanatoeomaterialindustrial,combinando-oscom totalharmonia. AutilizaçãodastécnicasartesanaisporGaudi,decerta forma,determinouo“artesanatocontemporâneo“, consolidadopeloadventodomoderno“estilo“,istoé,a maneiradeagora.Aartnouveautevesequenciacoma

AmãodoHomem,noentanto,éofatordeterminante doartesanato.OViscondedeEccles,nobreinglêsque ajudouacriarnosanos60oConselhoMundialde Artesanato,dizsobreistoque:“Aexcelênciadoobjeto artesanalestánofatodequeamãodohomemalémdo poderdefazer,tambémtemopodercurar”. Osobjetosartesanaiscarregamaidentidadeeatradição culturaldeseusautores,sejamtradicionaisou contemporâneos.OCalçadãodeCopacabanaobrade arteaplicadadeautoriadeBurleMarx,omaiorpisode mosaicoportuguêsdomundo,derealizaçãototalmente artesanal,temnítidaexpressãobrasileiracoma influênciaibéricadotemaprincipal:asondasdacalçada deCopacabana,queporsuavezsãoreproduçãodas existentesnoLargodoRossio,emLisboa.Apoltrona Mole,asjoiasdeClementina,ascasasdeZaninieas cerâmicasdeBrennand,jácitadas,exaltamasflorestas, asflores,ostroncosdasárvoreseasclareirasdoBrasil.

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PanelasdeartesãosdobarrodaSerradoTalhado, SantaLuziadoSabugí,Sertãoparaibano. FotografiaRaulCórdula,1980.

ArtesanatoeArte

desdeoboiisolado,simbólico,quaserupestre,atéo rebanho,acaça,aretiradadaseca,ascenasdesecaede fartura,ascenasdaviladoAltodoMoura,avidacomum, odia-a-dia,asatividadesdomésticas,asprofissões,os casostrágicosehumorísticos.Naverdadetodosos artesãosdoMouraacrescentameventualmentealguma cenaaestepainelsocialqueVitalinoajudouacriar.O casodeGaldinoédiferente,eleéumartistaquetrabalha comacerâmicaequeabsorveuamaneiradetrabalhar dosartesãosdoMoura,utilizandoomaterial,aformade tratá-loequeimá-loparaexpressarseuuniverso fantásticodepoetaecantadoralémdeescultor.  Écomumàatividadeartesanalarepetição,a tranquilidade,apaciência,aharmoniaeapaz,como acontecenoAltodoMoura,emTracunhaémenoutras comunidadesdeceramistaselouceiras,nosgruposde bordadeiras,rendeirasetecelões.

Nãosepodeconfundir,noentanto,artesanatocomarte. Aartecomoconhecemoshojetemamesmaorigemdo artesanatoe,podemosdizerquegrandeparceladesua produçãodependedele.Masnãosignificamamesma coisa.Sucedeque,numavisãogreco-clássica,artee técnicavêmdamesmaraizlinguística.Acivilização cuidoudedividiresteconceitopoisasobrasdosartistas daantiguidadeclássicaequilibravam-seemdois extremos:oupendiamparaoidealdaperfeição, desprovidodealma,ouparaoêxtaseestético,massem compromissocomamaneiradefazer.Aparecemaídois sentidosopostosderealização:pelaperfeiçãodo trabalho:apolíneo(dodeusApolo,protetordohomem comoserfísico),oupelaqualidadedosentimento: dionisíaco(dodeusDioniso,ouBaco,deusdovinho,mas tambémdossentimentosedoêxtase).EspartaeAtenas traduzembemessadivisãodeterritórios,umarealizada atravésdoidealfísicodotrabalhoeoutraatravésdo idealfilosófico.Oartesanatoénitidamenteuma atividadeapolínea,heróica,estética,quandoassumeo conceitodobemacabado,dobemfeito.Aarte independedisto.Mesmoaestéticaclássicaquenorteou oRenascimentoesuasconsequências,nãovigorouna modernidadeenacontemporaneidade.Aarteévista hojemuitomaisporseuconteúdoéticodoqueestético

Oartesanatotradicionalpopularéumaatividade pacífica,enquantoqueaartenãonecessitadeser.O artesanatoésocializante,poisépossível,edesejável, queeleseorganizeemgrupos,associaçõesou cooperativas,poissuavidaeconômicadepende,em parte,desuacapacidadedeorganizaçãocoletiva,da solidariedade,daboadivisãodetrabalhoedelucro. Aconvivênciadoartesanatocomaagriculturaéperfeita, pode-sedizerqueeleé,comoaagricultura,uma atividadesazonal,poisexistenasentressafras,atende aosmomentosdefaltadecolheita.Napescao artesanatodaredeforneceaopescadorumadesuas principaisferramentas,arede.Masamulherdopescador tambémfazarendadepraia(filé,labirinto,rendade bilro).Diz-seque“ondeháredehárenda“,equandoa redenãotrazopeixe,arendapõeopeixenamesa.

Oartesãoéaquelequesabefazer,oartistaaqueleque cria,inventa,concebe.Umdependedooutrono momentoemqueacriaçãonecessitaderealizaçãofísica, apresençadeumaobradeartedepintura,porexemplo, somenteépossívelseoartistautilizaroartesanatoda pinturaparadaràluzseussentimentos.Emtodoartista quetrabalhacomasmãosexisteumartesão.Nas comunidadesdeartesãoscomooAltodoMoura,em Caruaru,geralmenteexistemos“Mestres“,comofoi Vitalino,ZéCaboclo,ManoelEudóxioeGaldino.Estes, porém,tambémsãoartistaspoisVitalino,Cabocloe Eudóxiotambémcriaramsuasfiguras,seustemas,que passaramaserosprotótiposdefigurasougruposaté hojemultiplicadospelosseusseguidores.Ocasomais notávelémesmoodeVitalinoquedesenhou(designou) umaverdadeiracenasociológicadavidadoAgreste,

Emprego,TrabalhoeMercado  Háquemacredite,comojácomentamosacima,queo artesanatosignificaapenasaparafernáliadebugigangas dosfamigerados“mercadosdeartesanato“queassolam, emnomedoturismo,nossascidadesdenorteasul.Éaté possívelquenelesseencontremartesanatoqualidade,

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masachá-losdependedesorte.Ocomerciantede artesanatodessesmercados,osfamososintermediários, comraríssimasehonrosasexceções,têmointeresse únicodolucro.Paratantoasutilezacaracterísticado bomartesanatoemvezdeagregarvalortorna-seum complicadordiantedaguerradomercado. NoMéxicochamamumdeterminadotipodeartesanato voltadoparaomercadoturísticodeartesanatode aeroporto.Nadamaisindignoparaoartesãodaquele país,altamentepolitizadoeorgulhosodesuasorigens culturais,doquesercomparadocomquemproduzestes souvenirspara,comocomentamos,turistasdesavisados. Láessetipodeprodutovemdaperiferiadasuaenorme capitalcomofrutodaexploraçãodecomerciantes inescrupulosos,proprietáriosde“fábricasdeartesanato“, queutilizamapenasamãodeobradoartesãocomose elefosseumoperário,nãovalorizandoaautoriado produtoerecusandoaliberdadeinerenteaoseusistema detrabalho,fatorquediferenciaaproduçãodoartesão, comoclassesocial,daproduçãodooperário. NoBrasiltemosvistodoistiposdepolíticaemnomedo desenvolvimentodoartesanato.Amaisfrequenteéa disseminaçãodomercadoparaoturismo,incluindo-seaí asFeirasdeArtesanato,eventosvoltadosparaamassae exploradospelosintermediáriosemnomeda preservaçãodacultura‒importanteédizerquemuitas vezesesteseventossãopatrocinadosporgovernos estaduais.Aoutraéatentativadeinseriroartesãono mercadoformaldetrabalho:aproletarizaçãodoartesão. Ambasasaçõessãodevastadoras,ambastiramdo artesãoaautonomiaeaforçadesuaatividade,drenam suaeconomiaefazemoartesãodesacreditardoseu futuro. Obinômiotrabalho/empregoestánosfundamentosde qualquerconceito,análiseoudiscussãodoartesanato.A primeiracoisaqueseapresentanestadiscussãoéa origemartesanaldaindústria.Istocriaduasfantasias muitoúteisaquemsededicaàexploraçãodohomem:a fantasiadaculturaoperáriacomoúnicasaídaparao artesão,ouoopostodisto,fantasiadolivremercado. Proletarizaroartesãoéumerrosocialcrasso,trata-sede inverterqualquerpossibilidadededesenvolvimentoda atividadeartesanal.Emnomedeumapretensa segurançasocial‒queapráticaafirmanãoexistir‒ sugere-sequeoartesãoformalizesuarelaçãode trabalhocomoEstado,solicita-sequeeletorne-seum cidadãopossuidordeumacarteiradetrabalho,que pagueseusimpostosparaterseusdireitoscivis,assim pordiante...

decontribuirsemterdeondetirarestacontribuição,de pagarimpostossemterbenefícios,deapresentarofruto doseutrabalhosemtercréditoparafinanciaros insumosbásicosdesuaprodução. Aformalizaçãoprofissionaléprópriaeexataparaa atividadeoperáriaouparaquemtemdedependerde emprego.Osmeioseosmodosqueumaindústria possuiparaestabelecerumcontratodetrabalhopassam pelaformalizaçãodasituaçãocivildooperário.Aídevem estarembutidososdireitoseosdeveresdeambasas partes.Masumartesãonãoéumoperário,aocontrário, seuregimedetrabalho,geralmentedomésticoefamiliar, éincompatívelcomoshorárioseasmetasdeprodução, especialização,visãofragmentadadoproduto,eoutras característicasdotrabalhooperário. Oartesãoédonodoseutempo,doseuespaçoedos resultadosdeseusempreendimentos,incluindoos frutosdoseutrabalho.Elefazseuhorário,determinasua produçãoeseusmeiosparaalcançarasmetasque, eventualmente,impõeasimesmo.Oartesãotemuma visãocompletadoseuproduto,nãoparticipaapenasde umdetalheouumapartedoprodutofinal,como acontececomooperário,esendoassimelepode perfeitamenteprojetarsuaproduçãoeseuslucros.A questãodoartesãoéaliberdade,elepodeatémesmo utilizarseutrabalhoemdoistempos,umparauma atividadecamponesaeoutroparaoseuartesanato. Ooperário,noentanto,necessitaserempregadopara podertrabalhar,oartesãoseautoemprega.O operariadoexisteemfunçãodeumaclassepatronalque enriquececomotrabalhocativo,poisariquezado empresariadoindustrialprovémdotrabalhoqueo operárioenterranafábrica,queétransformadoem capitalparaopatrão.Oartesão,aocontrário,podeser umtrabalhadorlivre,donodoseutrabalhoedeseus frutos.Oartesãocapitalizaoobjetoqueproduz, transforma-osemestoque,capitalmobilizado,riqueza potencial. Nãoéfundamentalgeraremprego,masgerarrenda, frutodotrabalhoautônomo,livre,capazdecapitalizar aquelequetrabalhou.

Aatividadeartesanalésocializante,comporta,emuito bem,otrabalhoemgrupo.Podetornar-seformalmente associativa,oqueseconstituinumfatordesejável.Uma associaçãodeartesãoscomcarátercooperativopode perfeitamentesubstituir,ecominúmerasvantagens,a figuradointermediário.Umacooperativaartesanal,por exemplo,podeserresponsávelpelaproduçãoepela comercializaçãodoproduto,envolvendoosdetalhesde marketing,embalagem,distribuição,representaçãoe outrasatividadesinerentesaomercado.Oartesão Muitoquebem,todocidadãopodeedeveestarligado isolado,porsuavez,dependerásempredeum formalmenteaoEstado,masistonãosignificaqueele intermediárioparavenderseuproduto.Umexemplo tenhaquesofrerasconsequênciasdessevínculo.Não típicodasconsequênciasdesseintermédiofoirelatado significa,porexemplo,queeleaceitepossuiraobrigação 12 pelapesquisadoraecolecionadoradebrinquedos


popularesMacaoGóes.Elacontaqueumadeterminada artesãprodutorade“bruxasdepano“noSertãoda Paraíbafornecesuasbonecasemsuacasaporoitenta centavoscadaexemplar,noentantoelassãovendidas naslojasdacapitalpordezreais.Suarelaçãocomo intermediárioédetalmaneiradependentequeestenão lhedámaisdinheiro,trocatodasuaproduçãoporcestas básicasfornecidasmensalmente.  Alémdasvantagenscomerciaisaorganização cooperativacontacomparceriasdesejáveisentresi,há hojeumaredemundialdecooperativasartesanaisque formamumaconsiderávelforçaderesistência.Ajustes deprodutocomopesoedimensões,detalhestécnicos comoqueimacerâmica,correçõesdedesign, embalagemetransporte,assistênciajurídicapara créditoseexportação,tudoistopodesertratadocom maisfacilidadeseoartesãoestiverorganizadoemum grupoquetenhacomobaseotrabalhosolidário.

TemosinformaçãosobreaChina,ementrevistada senhoraLeeHan,DiretoradeArtesanatodoMinistério deIndústriasLigeirasdaquelepaísnosanos70,que indicavaqueoartesanatochinêsestavaaserviçode800 milhõesdepessoas.Nãodesconhecemosasrelaçõesde consumonumpaísde2bilhõesdehabitantes,mas provavelmentearecenteaceitaçãodeindústrias capitalistasnãosubstituiu,enãosubstituirápoisnãose tratadesteenfoque,otrabalhoartesanalnaChina.

Brincodeprata.Autor:RaulCórdula.Artesãos:ourivesdoRecife. Modelo:CristinaCórdula.Fotografia:CarolineAtlas,1991.

sobreapromoçãodoartesanato.Temosvistopolíticas assistencialistas,eleitoreiras,paternalistas,showspara turistasetc.,masnãosefalaemfinanciamento,recursos técnicos,estudosdeembalagensetransporte,análisede produtos,controledequalidade,autonomiade produçãoecomercialização,proteçãocontraa exploraçãointermediáriaetc.Precisa-sedeassistência sim,masassistênciatécnica,organizacional,contábil, desenvolvimentista. Fatoéquequalquercampanhadepromoçãodo artesanatonecessitapassarpeloorgulhoqueopovo tempelasuacultura.Achamada“classemédia“,tão espoliadaemseusdesejosdefelicidade,éomercado certoparaoprodutoartesanalquecontenha,alémdas característicasdahabilidademanual,ovaloragregado da“almadopovo”.Nãoéexatamenteoqueseoferece quando,emnomedacultura,sepromovemfestivaisde dançaemúsicaexógena,carnavaisforadetempoetc.

VimosnacidadedoMéxicosupermercadosque, cumprindoleimunicipal,destina20%doseuespaço paraoprodutoartesanalmexicano.Nãoparaoproduto compradopelodepartamentodecomercializaçãoda empresa,issotemosaqui,emboraemmenorproporção, masoprodutooferecidopeloFONART,umFundode FomentoParaoArtesanatoqueexistianaquelepaísnos anos70.

Oobjetivoprincipaléolucro,éavendadecerveja,não dasbelasmáscarascarnavalescasfeitasporJuliãoesua família,éavendade“mortalhaseabadás“,nãodasbelas fantasiasconfeccionadaspelascostureirasdeOlinda,e assimsesucedemasinversõesdevaloressemquehaja, naverdade,agentesgovernamentaisresponsáveispor políticasouorientaçõespúblicasrealmenteeficientes comafinalidadedepreservar,promover,mantervivaa tradiçãoeavozdopovo.

DesdeostemposqueaSUDENEmantinhaaARTENE, quecontavacomumaequipeheróicalutandoporideias comoestas.HojenãosevêemPernambucoouem qualqueroutroestadonordestinoqualquerdiscussão 13

Apesardasdificuldadesporquepassou,aARTENEteve umafunçãoexcelente:detectarosbolsõesdeprodução deartesanatoparausarainformaçãocomosubsídio numapolíticadeimplantaçãodenovasindústrias.


Sobreoprocessodemanutenção deumaidentidadenasartes visuaisnacontemporaneidade pernambucana:BeteGouveiae MaurícioCastro



MadalenaZaccara

UmdosprincípioséticosdoscriadoresdaSUDENEeraa sensibilidadeàtradiçãoeàvocaçãodecadalugar,de cadapovo.Masnãotevesucesso,aspressõespolíticas derrubaramestatarefaaopontodeaARTENE,aquele dignodepartamento,transformar-senumamísera lojinhadeartesanatotãomedíocrequantoqualquer umadaCasadaCultura.Éfamosoocasoque investigamosquandorepresentamosoConselho MundialdeArtesanato‒estecasonãoéúnico, haveremosdeencontrariguaisemtodooNordeste assistidopelaantigaSUDENE.Trata-sedaimplantaçãoda fábricadesandáliasjaponesaBESA,deCampinaGrande, queproduzmilhõesdecalçados/mês.Masondeestá todaaproduçãodecalçadopopularquesenucleavaem CampinaGrandeatravésdosseusartesãos/sapateiros?E porgravidade,aproduçãodecouro:osdoiscurtumese partedorebanhoexistente,desapareceram?Paraonde foramosartesãos?VenderpicolénoMeninão(Estádiode FutebolquehomenageiaoPrefeitodacidade)?Quantos erameles?Mil,doismil,dezmil?Provavelmentedezmil pessoas,diretasouindiretamente,perderamsuasfontes delucro.OpolocalçadistadeFranca,emSãoPaulo, certamenteumdiafoiumnúcleodesapateirosigualao quehaviaemCampinaGrandeantesdaimplantaçãoda BESA,maslánãochegounenhumafábricadesandálias deborrachasintética,emvezdissoinvestiramno desenvolvimentodossapateiros-artesãos,quehoje incorporamumdosmelhoresitensdeexportaçãodo Brasil.

RaulCórdulaFilhoéartistavisualecríticodearte(ABCA/AICA). Vice-presidenteparaoNordestedaAssociaçãoBrasileirade CríticosdeArte-ABCA.Criadoredirigentedeinstituições culturais:NAC/UFPB(JoãoPessoa);MuseudeArteAssis Chateaubriand-MAAC(CampinaGrande-PB);CasadaCultura (Recife);FundaçãoEspaçoCulturaldaParaíba-Funesc(João Pessoa);OficinaGuaianasesdeGravura(Olinda).Foi representantedoBrasilnaConferênciaMundialdeArtesanato, México.RepresentanoBrasilaAssociationCulturelleLeHorsLà,deMarselha(França).PublicouoslivrosAnos60(Funarte, UFPB),MemóriasdoOlhar(ediçõesLinhaDʼÁgua),Fragmentos (ediçõesFunesc)eUtopiadoOlhar(Funcultura,Fundarpe, GovernodePernambuco).

Pourêtreconfirmédansmonidentité,jedépends entièrementdesautres.(HannahArendt)¹

Ohomemcontemporâneopassaporumacrisede identidadeondeseusconceitosereferênciasculturais sãoenfraquecidaspelascontaminaçõestípicasdaPós- Modernidade.Osacontecimentosqueseprocessamem umdeterminadolocaltêmumimpactoimediatosobre pessoaselugaressituadosaumagrandedistância.Nós passamosporumaespéciedehibridizaçãodevalores, umamisturadeconceitosesímbolosquesão difundidos,otempotodo,pelaculturademassa,criando umasituaçãoqueimpedeouobscureceapercepçãodas identidadesculturais. Emnossacontemporaneidadefragmentada, desenvolverumanovaleituradomundo,outra concepçãodehistória,inclusiveadaartenosprepara paramelhorcompreendermosasnumerosase diversificadasculturasquesecruzamdentrodouniverso midiáticoe,consequentemente,oprocessode hibridizaçãoquemarcaaproduçãoartísticaatual.Novos questionamentosatraemanossaatenção.Entreeles,os quesepropõemainterrogarsobrecomo‒dentrodeum contextodeuniversalizaçãodasmídiasgerandouma fusãoconceitualbemcomodarealidadedeummercado mundialdeartequelimitaaproduçãoartísticaàs normasestéticaseideológicasdocircuitoeuroamericano‒emquecircunstânciaseporqueprincípios sãoproduzidososdiscursosteóricossobreasartes visuaisemcentrosnãohegemônicos? Pensarartehojeimplicaemconcebê-lacomoumcampo ampliado.Issoincluioolharsobreadiversidadede culturasqueproduzorompimento,cadavezmais pronunciado,defronteirasgeográficaseestéticas.A HistóriadaArtehojeéconcebidanãomaiscomouma históriaquecontemplaumúnicoolharocidentale hegemônico.Cadavezmaissetornanecessário desenvolverumaóticaquecontempleumuniversode criaçãomulticulturalsejaelesul-americano,africano, asiáticooudaOceania. Ahistóriadarelaçãoentrearteepolíticaépontocrucial 14 desdeosseusprimórdios.Aartesemprefoipolíticase


Aliberdadeconceitual,imaginativaeperceptivadas práticasartísticasqueenvolvemapolíticapodeabrigar umsonhoparaalémdasservidõeseumapromessade reconciliaçãocomohumanoemsuaexpressãomaior. Suapropostaencontra-separaalémdasmúltiplas gradescomasquaisocapitalburocratizaeregulaaarte incidindoemsuaprodução.Resistirnãosignificaserum apocalípticoouumintegradodosquaisnosfala HumbertoEco(1965).Significaqueaarteofereceuma alternativapossívelaessemundoinjusto. Pernambucomulticulturalesuaestéticaderesistência

pensarmos,porexemplo,emseuscomprometimentos comreligiãooupropagandadosmuitosEstadosaos quaiselaseatrelou.Aideiacontemporâneadequea arteépolíticapassaporsuacapacidadedereconfigurar osensível.Correspondeaumateoriaqueseembasana iniciativadeartistasquemergulhamnocampoampliado dacriatividadehumanaondeocaráterpolíticoé relacionadoaofatodeumaintegraçãodotrabalho artísticoaoagir. NicolasBourriaud(2009)teorizouapropostadeumaarte ligadaaumaestéticarelacionalquecriadiferençano consensolegitimadodemundoereligavínculossociais perdidos.Umaestéticaquesepautaemfunçãodas relaçõesinter-humanasqueelasfiguram,produzemou criam.Omundodaarteedavidaestácadavezmais fundidoeaestética,comociênciadosensível,estáem consonânciacomessenovoolhar. AarteéaquiloqueresistesegundoDeleuze(1999).Em quemedida,porémarteeartistaescapamdasrelações/ condicionantesemummundodeideiaseconceitos cadavezmaisglobalizadoseuniformes?Issoacontece defato?Como? Apropostadeumadescolonizaçãomentalatravésda qualosestudospós-coloniaispodemrelativizar condicionamentosearejaraHistóriadaArteapartirde umavisãomaisgenerosa,maissensataemaiséticapode responderaessasquestões.Aartepodeentãosero últimoreservatóriodeimaginárioaescapardeser incorporado/apropriadopelosistemaquehojeserveao capitalismoneoliberal.  Talvezamelhordefiniçãodapráticaartísticapóscolonial,queoptapelaaçãopolítica,tragaemsio discutidoconceitodeutopia.Autopiapermiteoutro lugar,elaqueroutrolugar.Elarefleteum questionamentocríticodaordemexistenteeabrigaa ideiadeoutroterritóriohumanopossível.Elapoderia, portanto,suporeproporarevisãodamecânica ocidentaluniversalistaatravésdeumainterculturalidade baseadaemtrocasemqueasolidariedadeea participaçãonãoselimitemaocontextocolonialista anterior. 15 

Omulticulturalpareceseramatériaprimados questionamentosartísticoscontemporâneos.OOcidente (hegemônico),buscandoumaalteridaderedentoraao marasmo,recorreàsculturasemergentesqueatendem rapidamenteaoseuchamado.Tudooquepodeser conceituadocomohíbridooumarginalouperiférico passou,empoucosanos,aserocentrodasatençõese, naturalmente,ocentrodaeconomiacultural.Masaté quepontoessaestéticaescapadasnovasformasde colonizaçãocultural?Essaharmoniapluralistadefato existe? Nosdiasquevivemosa“pureza”cultural,namaiorparte dosdiscursoscontemporâneossobrearte,temomesmo peso(erejeição)queaarteacadêmicadoséculoXIX suportouemrelaçãoàiconoclastiadamodernidadedo XX.Ofetichismodaalteridade‒comumàsgrandes mostrasebienaisinternacionaisdacontemporaneidade ‒pareceimplicaremumaestetizaçãosistematizadado subalternoenquantooperanointeriordopróprio discursodescolonizador.Suaestratégia(odiscurso estéticodadiversidade),queseprocessaprincipalmente nosmegaeventosexpositivos,nãoéadeumaharmonia devozes,mas,namaioriadasvezes,aexpressãodeuma espéciederacismobranco,capitalistaeocidentalque abreseussalões(ebolsos)paraumanovaordemondeo politicamentecorretosedistinguepeloseugraude hibridismo.Partindoparaobiológico,oparaleloéo discursodasmestiçagenscoloniaisquegerariamumser maisforte:omestiço.GeraldoMosquerasintetiza: Narealidadeasconexõesexistemsomentenointerior deumesquemaradialhegemônicoemtornodos centrosdepoderondeospaísesperiféricos(amaior partedomundo)ficamsemconexãoentreeles,outêm contatosindiretosatravés‒esobocontrole‒dos centros.(MOSQUEIRA,Geraldo,1994,p.12)

Aarteperiféricainternacionalseapresentaentãocomo aquelaquetemperfildesignadopelasinstituiçõesdos centroshegemônicosqueporsuavezdetémopoderde legitimaçãonacena(enomercado)atualdaarte contemporânea.Operfilexigidoincluiserpoliticamente corretoatravésdeumpertencimentoaodiscurso dominantedoprojetopós-colonialedeumacoerência comasexigênciasdealteridadedomainstream.


decaracterísticasregionaisquerejeitamoutentam sobreviveratravésdanegaçãodasleisdemercado internacionais.Nasce,dessaforma,umcircuitoparalelo aodaszonasdemaiorinfluência(ecotação)artística. SegundoRichardMartel,omercadodearteperiférico- demãosatadasemrelaçãoaospaísesexportadoresde culturaequeatuamcomotermômetrofinanceirona legitimaçãoartística(aliadoatodooaparatomidiáticoe institucionaldisponível)‒reagecomopoderesistindo ”contraaautoridadedominantedasdiversasinstituições sobocontroledamercantilização”(MARTEL,Richard, 2009,p.17)tendocomoobjetivoquebraroisolamento queteoricamentenãoexisteemselevandoemcontaa bandeiradaalteridadelevantadapeloscentros dominantes.OteóricocanadenseGuySiouiDurand afirmaque

Noquedizrespeitoaomercado,suaestruturarepousa emumainternacionalizaçãoqueabrangedesdeas grandessalasdeleilãodotipoChristie&Sothebyatéa multiplicaçãodasfeirasinternacionaisdearte contemporâneataiscomoArtChicago,ouArtBasel passandopelasgrandesbienaiscomoasdeVeneza,São Paulo,Sidney,Dokumentaetc.

Umanovadialéticageopolíticaentreosdefensoresda globalizaçãoneoliberaleosdeuma“glocalização”‒ pensarglobal,agirlocal,antiglobalizaçãoneoliberal‒é redefinirocontextodasrelaçõesgeraisentrea sociedadeeaarte,eentrearteepolítica.(DURAND,Guy Sioui,2009,p.22)

Essemercadomundialimplicaemumapadronização feitaatravésdasescolhasquerdoscolecionadoresquer dosdiretoresdemuseuoucuradoresquetraduzemas tendências,estilosereferênciascomomesmoritmoque asgrandescoleçõesdealtacosturacostumavamfazer diluindo-se,posteriormente,noprêt-à-porterdas butiquesmaisrefinadasatéchegaràsgrandescadeias delojaspopulares.

Umaafirmaçãoartísticaeculturaldecaráterregional ancoradanarealidadedascomunidadeslocaisseria entãoaalternativalúcidanaposmodernidade?Para RoseMarieArbour”amodernidadefoiinternacionale inimigadolocal,acontemporaneidadeéinternacionale integraolocalporviadiretaouindireta”.(ARBOUR,Rose Marie,1986,p.107)

Amultiplicaçãodosmercadosimplicaemcerta descentralizaçãodasgrandesmetrópolescomoParis, NovaYorkouLondres,oquegeraria,teoricamente,uma horizontalidadenadifusãoecomercializaçãodas propostasartísticas.Entretanto,seriaessa descentralizaçãoreal,umavezquesóosEstadosUnidos monopolizamemtornodametadedomercadodearte mundial?

Entreintegraredigerirestariasituadaaresistênciade carátermicropolíticoquejáfoiteorizadaemváriasações, inclusivenadécimabienaldeHavana(Resistênciae integraçãonaeradaglobalização).Dentrodessa perspectivaanoçãotãodiscriminadaderesistêncianão seriamaisnecessariamenteassociadaaumespírito conservadorereacionárioquesempreesteveligadoàs lutasantiglobalização.

Ospaísesperiféricosdificilmenteseposicionamnessa cenainternacionaldeformacompetitiva.Mesmocoma ajudagovernamental(imprescindível)nãoconseguem colocarasuaproduçãoartísticadentrodessemercado decartasmarcadas.Ecomoomundodaarteestá sempreemharmoniacomomercadodearteemseu processodelegitimaçãocomoficaentãoessaprodução quepodemoschamardemarginalpormaisqueelaseja “adotada”pelocentrohegemônico?

Oconceitodemicropolíticaestáligadoàideiada inserçãonavidacotidiana.Nãoémaisumfenômeno totalizante.Elapodeexistiràmargemdoprópriopoder. E,nocasodosartistaseteóricosligadosàsartes,através dasferramentasprópriasdaarte. Pernambucocaracterizou-seporser,culturalmente falando,berçodoMovimentoRegionalista,lideradopelo sociólogoGilbertoFreyre,bemcomoportersidoumdos primeirosespaçossociaisbrasileirosaabrigara modernidadenosentidodeatualizaraslinguagens artísticasnacionaiscomasvanguardaseuropeias.Essa plataformaregionalistafoireafirmada,nadécadade70, atravésdoMovimentoArmorialsobaliderançado escritorArianoSuassuna.Apropostaarmorialeraa defesadeumaarteeruditaapartirdopopularna

Aintervençãoestataltemmarcadopresençanatentativa deprojetarinternacionalmenteumaproduçãoartística nacionalouregionalquenãotemoavaldapaisagem financeirainternacionalnemoapoiodeumpúblico compradordearte.Porém,deformaaparentemente contraditória,essainternacionalizaçãocontribuiu(e contribui)paraacriaçãodemeios(mercados)paralelos 

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tentativadecombateradescaracterizaçãodacultura brasileiraedanordestinaemparticular Aparentementecontraditóriaessacondiçãoainda aparecenaproduçãoartísticacontemporânea pernambucanajuntandolinguagensatuaisauma tradiçãoestéticarenovando,dessaforma,nesse momentopós-colonialista,seuvocabuláriosem,porém, perderovínculocomsuamemória.Essaresistência& integração,emplenaeraglobal,seprocessadentrode redes,circuitos,paralelosevaideencontro(deforma micropolítica)àhegemoniacentralizadora, monopolizadoraeuniformizadora.Os(porassimdizer) “tentáculos”quedesenvolvemdeterminadoscentrosde artistaspermitemaolocaldeservistoparaalémdassuas fronteirassem,necessariamente,passarempeloaval hegemônico. Éopapeldoscoletivosdeartistasque,emRecife,fazem partedopanoramaculturaldacidade.Essaação conjuntafaz(oufez)partedavidadamaioriadosartistas atuantesnacapitaldoEstado.Decertaformaessefato nãoémuitocomumnaregião.ColetivoscomooAteliê Coletivo(atuantenosanos50)foramsucedidosna contemporaneidadepelosQuartaZonadeArte, Submarino,BrancodoOlho,entretantosoutros.Cada umdessesgrupospermiteumaaberturaparaa produçãoedifusãoartísticaalémdesetornaruma formaderesistência,desobrevivênciaedealternativaà padronização.Dentrodeumcontextodedominação estético/político/econômicodeumpaísporoutrooude umaregiãoporoutraessaspráticasencorajamreflexões sobreanaturezadaresistênciadasidentidades ameaçadas.Nessecontextoessa“resistência”carregaem sitodaumaesperançaalternativa.Coma internacionalizaçãodosmercados,anovarealidade econômicaeadominaçãoculturalpordeterminados centros.Dessaforma,tomandoemprestadasaspalavras deMarcJimenez: Ogritodosartistasnãoressoademaneiradiferentee nãoseafundamais‒pelomenosnãoainda‒no oceanodacomunicação,diferentementedaarte contemporâneaocidental,presanaarmadilhado “cultural”,domercadodearteedapromoçãomidiática ouinstitucional.Eseconfirmaacadadiaqueaquestão filosófica,estéticaeartísticacontinua fundamentalmenteeessencialmentepolítica.(JIMENEZ, Marc,2009,p.7)

Estéticasderesistênciaemalgunsartistas pernambucanos:BeteGouveia&MaurícioCastro “Fecheoseuolhofísico,paraquevocêpossaveracena comoseuolhoespiritual,entãofaçacomqueoquadro volteàluzdodiaecomqueosoutrossintam,defora paradentro,aquiloquevocêviunoescuro“. CasparDavidFridrich

Énessecontextodeperiferiaqueumanovageraçãode artistasemerge.Atradiçãoalia-seentãoà experimentaçãocomoprocesso,gerandodiscursosque reúnemumainformaçãoestéticaglobalizadaauma identidaderegionalepessoal.Dessageraçãofazpartea artistaBeteGouveianascidanausinaSantaInêssituada nomunicípiodeÁguaPreta,Pernambuco,ondepassou todaainfânciaepartedaadolescênciachegando,ainda adolescente,aRecife,cidadequecanalizaasua identidadecomomundo. ParacompreendermosmelhorotrabalhodeBeteé precisoumacertareflexãosobrealgumascaracterísticas desuaépocaeseulugar.Espaçoetempo.Oprocessode mudançadoruralparaourbano,aherançaromântica/ existencialdadécadade70,atransitoriedadedaera modernaparaapós-modernaeomomentopolítico brasileiroaindasobregimemilitarinterferemna formaçãodesuapersonalidadeemarcamoinícioe desenvolvimentodesuapesquisaartística. Asmudançasnopanoramainternacional,nummundo globalizado,têmumimpactosignificativonaprodução artísticadesuageração:aatitudedevasculharmemórias pessoaistorna-seumaformaderesistênciacontraos excessosdamídiae,acrescentesensaçãodeanonimato, deindiferença,geradapelaculturademassa,abre caminhoparaabuscadeumanovaespiritualidade. Instrospecção,momentosdedesafioeamorànatureza fazempartedasuapersonalidade.Trata-sedealguém queviveemumestadodemutaçãocontínuo,na procuraconstantepornovoshorizontes.Buscaque abrangeumuniversoquevaidainvestigaçãosistemática dosprocessosemeiosdoseufazerartísticoauma viagemconstanteemdireçãoaoseuprópriointerior,o infinito,odesconhecido. Acompreensãodotodo,douno,doindivisívelgeraum percursoondemomentosdepurafruiçãoestéticanão sãodescartadoseexpressamumalinhadepensamento queéfeitadeindagaçõessobreaefemeridadedavida,a banalidadedosdias,omistériodovazioqueéorigeme fim.Betetratasuaobracomoumaconstante especulaçãofilosóficanosentidodecapturar,imortalizar 17 oefêmeroqueperpassaosseusmomentos.


Marcandosensivelmentesuatrajetória,vemostambém suamilitânciapolíticaquesevoltacontrao obscurantismogeradopelogolpemilitarde64deforma simbólicaeromântica:aartecontraarepressãoque cerceiaaspossibilidadesdenovasdescobertas.Omesmo romantismoqueafazcriarseusdiálogoscomourbano pernambucanooucomseuscenáriosmarcadospelas interrogaçõesintrospectivascomosentimento fundamental:temaqueencontrasuatraduçãona representaçãodeumanaturezacarregadadevalores simbólicos.Asolidãoqueperpassasuasimagensébem característicadeumajuventudequeviusuaspalavrasde ordemtransformadasemslogansdecamisetaseque tentaumdiálogocomaprópriasolidãodoespectador. MaurícioCastro(cidadãodacidadedeRecife,nascido em1962)seinteressoubemjovemporArtesVisuais.Fez cursosdepinturaedesenhoeingressounode arquiteturadaUniversidadeFederaldePernambucoque abandonousemconcluir.Iniciouseuaprendizado investindoemalgumasparcerias.Emsuatrajetória,a açãoconjuntafoiumaconstante.Formarateliês coletivosestánagênesedesuaprodução.Oprimeiro aconteceuquandolargouarquitetura.Posteriormente fezpartedoQuartaZonadeArte(1992),TorredePapel, emBarcelona(1966),Submarino(2000),Balneáriode ÁguaFria(2004),BrancodoOlho(2005).Atualmentefaz partedoColetivoPeligro,umnovogrupo,umnovo momento.

Assimvaiseprocessandosuapoética:oinício envolvendosuasprimeiraspaisagens,registrosdolitoral dePernambuco.Depois,apesquisa,tentandouma ponteentreaimaginaçãoearealidade.Apaisagem humana(tipospopulares,feiras,paisagensdocotidiano nordestinoqueelaabordacomacuriosidadeepicurista deumflâneur)seconstituiemoutravertentedeseu processodeobservação:avidaemsuavoltainterfere, motivaeexcitaseutrabalho. Sempreemmutaçãoreelaborasuaspaisagens recorrentesquetêmsuaidentidadepernambucana marcadanascenasurbanas,nasmarinhas,naintimidade doespaçoarquitetônico(ondeamemóriabarrocado Recifecolonialestápresente)emquehabita(fig.1). Dessarealidadecotidianaqueenvolvesuamemória afetivaegeográficaelavaicaminhandocadavezmais emdireçãoaocosmos,aoinfinito,asuamaneirade sentirosublime,osagrado.

Fig.1-BeteGouveia,Claroescuro,2009

MaurícioCastroéumhomemurbano.Suas investigaçõesvisamàmetrópoleeocotidianodeseus habitantescujasmemóriassãofeitasdosrestosdesua civilização.Maurícionãoéumflâneurdacidade,masde seusdetritos.Elepoderiaserdefinidocomoumsujeito dotipoquedesamassalatariaseapertaparafusos. Alguémque,recuperandocarcaçaseconectandofios, produzobjetosportadoresdeumaironiafinasobreseus parceirosnesseiníciodeséculo:nós,osconsumistas desvairadosdoséculoXXI.  Recriarobjetosquecarregamseuolharirônicoou inventarnovossemfunçãoaparenteéumadas vertentesdotrabalhodeMaurícioCastro,omagodos lixões,dosferros-velhosedorisosobreeleesobretodos nós.Seutrabalhotrazaestéticadosready-madesesuas brincadeiras,permeadasdecertononsense,mostram certoparentescocomDuchamp.Emboapartedestes objetossemfunçãoacitaçãoàculturadesuaregiãoestá presente.NoVentinhoFrio(2001),porexemplo,(fig.2) eleseutilizadeumventiladorsobreumpotedebarro querepousasobreumaestruturadeferrorecuperada queporsuavezestáfixadasobreumamesademadeira. Ainstalação/objetofazreferênciaimediataà conservaçãodaáguanointeriordoNordesteemvasilhas debarroquemantématemperaturadestanumclima quenteeemespaçossociaisondeapresençade geladeirasera(eaindaé)rara.

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MadalenaZaccaraédoutoraemHistóriadaArtepela UniversitéToulouseII,França,ProfessoraAssociadado DepartamentodeTeoriadaArtedaUniversidadeFederalde PernambucoeCoordenadoradoProgramaAssociadodePós- GraduaçãoemArtesVisuaisUFPE-UFPB.FazpartedoComitê deHistóriadaArtedaAssociaçãoNacionaldePesquisadoresde ArtesPlásticas(ANPAP)etemvárioslivroseartigospublicados.

Referências ARBOURRose-Marie.Lʼartquinousestcontemporain. Montréal:EditonsArtexte,1999 BORRIAUD,Nicolas.EstéticaRelacional.SãoPaulo:Martins Fontes,2009. DELEUZE,Gilles.Oatodacriação.Aobradeartenãoéum instrumentodecomunicaçãoinFolhadeSãoPaulo,SãoPaulo 27dejunhode1999 DURAND.GuySioui.Resistance:chocsetrésilienceinInterArt Actuel.Québec:LeséditionsIntervention,2009,n.102,p.22. ECO,Umberto.ApocalípticoseIntegrados.Barcelona:Lumen, 1965. FOSTER,HalOartistacomoetnógrafoinArte&Ensaios.N.12. RiodeJaneiro:PPGAVEBA/UFRJ,2005. JIMENEZ,Marc.Surquelquesdéfisdelaphilosophieetde lʼesthétiquecontemporainsàlʻeredelamondialisationinInter ArtActuel.Quebec:LesÉditionsIntervention,2009.p.7. MARTEL,Richard.Zonespéripheriquesàlʼéchellehumainein InterArtActuel.Quebec:LesÉditionsIntervention,2009,p.16. MOSQUERA,GeraldoinJeanFischer(org.)GlobalVisions: TowardanewinternationalismintheVisualArt.Londres:Kala Press,1994.P.12-15. ZACCARA,Madalena.MauricioCastroeatransmutaçãodo cotidianoinOartistacontemporâneopernambucanoeo ensinodearte.Recife:EditoradaUFPE,2011. ......................................BeteGouveia:doengenhoparaomarInO artistacontemporâneopernambucanoeoensinodearte. Recife:EditoradaUFPE,2011.

Fig.2-MaurícioCastro,Ventinhofrio,Objeto,2001

Nestemomento,BeteeMaurício,partesdeuma sociedadecadavezmaishierarquizada,controlada, desigual,hedonistaesubmissaaosinteressesda rentabilidademercantil,ondeparecedistanteo pensamentolivreouumaartetransformadoraqueseria uminstrumentodeeducaçãoepolitização,agemcomo educadoresatravésdoresgatedesuasmemórias.Uma éticadentrodaestética.Oartistaéamemóriadeuma culturaapartirdapremissadequesuaobrarefleteo pessoaleosocial.Aoladodaconstruçãodeummundo próprioelepodeirmaislongeeinterferirnocoletivoa partirdafascinaçãoqueeleproduznoespectador.Esse “xamanismo”estánaorigemdainfluênciaqueaarte exercesobreaspessoas. Vistaporesseângulo,porestesartistas,aobradearteé umespaçodemanifestaçãodacultura,dahistóriaemais enfaticamentedeumarealidadevivida,sentidae compartilhada.Otrabalhodelesé,portanto,umaarma política,umespaçoderesistência,pois,mesmo entrecruzadocomoutrosuniversosculturais,ele(através damemória,preservada)nãoéneutroeoseuautoréo agentecatalisadordessaconstruçãoqueincidena possibilidadedatransformaçãooudepreservaçãodo social.Aartecontemporâneapernambucanaaquie agorabuscalinguagenscontemporâneas,mas,através delas,faladesuacultura,desuatribo,dasuamemória.



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Costuraspoéticas: sensorialidadesda roupa 

AlineBasso

prevalecentenasformasdosobjetosproduzidosedo vestuárioadotado.Emsentidorestrito,otermoaplicaseàstransformaçõesperiódicasnasformasdostrajese demaisdetalhesdeornamentaçãopessoal. (MENDONÇA,2006,P.17)

Aroupaparaalémdamoda Nestebreveestudodiscutiremosoobjetoroupa.Masao contráriodoqueseriahabitual,nãotrataremosdela comoumsimplesobjetodeconsumo,esimcomouma interfaceparaassensorialidadesdocorpo.Pensaremos sobrearoupacomoumaestimuladora,oumesmocomo umamediadora,dasnossasrelaçõescomoOutro.  Aroupapodeserdescritacomouminvólucro,uma segundapeleàqualaderimos,apartirdediversos propósitos.SegundoMendonça(2006,p.34),as principaisnecessidades,oufinalidades,aqueasroupas servem,seresumembasicamenteatrês:proteção,pudor eadorno.Emdiversospovoseemdiversasépocas estiverampresentesumoumaisdessespropósitospara ousoderoupaseadornos.Desdeosprimeirosadereços epinturascorporais,pode-sepercebê-los:aproteção, quandoohomembuscanavestimentaoabrigocontra asintempéries,ouquandoeleutilizaaroupaparasua proteçãoespiritual.Opudorlevando-oacobrircorpo, tantopormotivosreligiosos,quantopormotivos estéticos.Eoadorno,quandoohomemsentea necessidadedeseduzir,adornandoseucorpopara encantarosexooposto,ouparareverenciaralguma entidadeespiritual.

Essesistema,cíclicoeinterminável,quealimentaas fantasiasdasaparências,contribuiparasituararoupa dentrodeumaintrincadatramasimbólicade subjetividades.Aroupanãoéapenasroupa,masuma afirmaçãosocial,intelectualeemocionaldoEu.Elanão serveapenasparacobrirocorpo.Aroupacomunica quemeusou,quaisasminhaspreferências,qualomeu lugarnomundo.Emumagrandecontradição,elatorna oindivíduoúnico,masaomesmotempopertencentea umgrupo.Diferente,porémigual. Masafimdecumprirnossoobjetivonestaempreitada,é precisopensararoupaparaalémdasquestõesde individualidade,paraalémdamoda.Afimdeexploraras questõessensoriaisquenospropomos,entraremosem outrouniverso:odaarte.Éaliqueostemasmais subjetivossãodiscutidos,éaliquearoupaescancaraas questõesdocorpo.Somenteaartepodedeslocara roupadeseupatamardeobjetodeconsumo/produtor deidentidade,einseri-lanoâmbitodasensorialidade, comoumobjetoqueproduzsensações,quegera indagaçõesedesejos.

Avestimentaéummeiodeexpressãoindividual,um signoidentitário,umaformadecontatocomomundo exterior.Podemosdizeraindaquearoupaéocontato maispróximoquetemoscomesseexterior.Castilhoe Martins(2005,p.36)argumentamaindaqueéatravésda roupaeosadornosdocorpoqueseestabelecem“as relaçõescommundospossíveiseimaginários,cujos significadossãoatreladosculturalmenteàimagemeà percepçãodoser”.

Aspreocupaçõescomavestimentaecomamoda surgemnaarteapartirdoiníciodoséculoXX.Atéentão, asrelaçõesentreamodaeaarteselimitavam basicamenteàrepresentaçãodovestuárioatravésdas pinturas,desenhosegravuras.Comodesabrochardo novoséculo,muitosartistastranspuseramsuasquestões daarteparaocotidiano,algumasvezesatétrazendo grandespropostasdereformasocial,entreelasa reformadovestuário.

Contudo,pensararoupanosdiasdehoje,noslevaa situá-ladentrodeumsistemadenovidadese obsolescênciaschamadomoda: Emsentidolato,amodacompreendetodasas manifestaçõesexterioresdeusosecostumes consagradasdentrodeumdeterminadoperíodo,desde comportamentossociaiseconceitosmorais,atéoestilo

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OmovimentoArtsandCraftsiniciouadiscussãosobreo vestuárioaoapresentarnaAlemanhaapropostados vestidosartísticos.Concomitantementeaisso,alguns artistasdaSecessãoVienense,emespecialGustavKlimt, tambéminiciaramsuasproduçõesnoâmbitodamoda. Futurismo,dadaísmoeconstrutivismorussosãoalguns


Assim,discutiraroupacomoumobjetosensorial,exige queampliemosnossasfronteiras,etransitemosentreos universosdamodaedaarte,transfigurandoas aparênciasparaalémdamoda,eentrecruzandoos significados.Se“[...]amoda,emgrandepartealimentasedaarte”(COSTA,2009,p.75),entãopodemosconcluir queestudarassubjetividadesdaroupatorna-seuma tarefamaisprazerosaefácilquandoapoiadapelas investigaçõesartísticas.Eassimofaremos. Roupassensoriais Parailustrarasdiscussõessobreaspossibilidades sensoriaisdaroupa,utilizaremosaobra Hábito/Habitantes,de1984,daartistaMarthaAraújo. Nossaescolharesultanãoapenasdabuscaporum artistanordestino,quenosrepresenteemmeioàarte contemporânea.Mastambém,eespecialmente,pela relevânciaqueaobraemquestãopodeassumirfaceao nossoestudo,conformeesclareceremosmaisadiante.

dosmovimentosdevanguardaqueintroduziram oficialmentearoupanouniversoartísticocomoObjeto dearte.Emseguida,outrosmovimentoseartistas passaramaadotaressapreocupação,comoo Surrealismo,oOrfismoeaPopart(COSTA,2009). Nosanosde1940e1950,noBrasil,FláviodeCarvalho iniciasuasreflexõessobreumvestuárioquefossemais adequadoaoclimabrasileiro,lutandocontraa importaçãodamodaeuropeia.Oaugedesuaspesquisas artísticassedácomaapresentaçãodesuaExperiência n.3,umaperformancenaqualeledesfilapelasruasde SãoPaulotrajandoumavesteporeledesenvolvidaa partirdesuasreflexões:umsaiotecommeiaarrastãoe blusademangascurtas.Alémdessaobra,eleainda desenvolveváriosartigosemquediscuteamoda masculina,equesãoposteriormentepublicadosemum livro.

AartistaMarthaRobertadosSantosAraújo,conhecida artisticamentecomoMarthaAraújo,énaturaldeMaceió, Alagoas.IniciousuaformaçãonaBahia,passandoainda porSãoPaulo,MaceióeRiodeJaneiro.Deacordocom SilvaeBomfim(2007,p.313),suaobraacaboupor assumirumalinguagemsincronizadacomasvanguardas doeixoRio/SãoPaulo,eémarcadaporexperimentações sensoriais,esculturasinterativasediscussõessobreo corpo,oEueoOutro. Hábito/Habitantes(Fig.1)éumadasobrascriadaspela artistaapartirdeexperimentaçõesrealizadasnoRiode Janeiro.Écompostaporvestesdotipomacacões,que possuemváriosvelcros²costuradosemsuasuperfície (ÁVILA,2013,s/n).Aobraexigeaparticipaçãodo expectador,quedevevestiraroupaeinteragircom outroexpectador,igualmentevestido.Dessaforma,os velcrossegrudamcriandoligaçõesentreosindivíduos, exigindocertoesforçoparadesgrudarepromovendo umaexperiênciasensorialdecontatoentreos participantes.

Nosanosde1960outrosartistasbrasileiros apresentaramobras-roupa,entreelesHélioOiticica, LygiaClarkeNelsonLeirner.Apósosanosde1980,eaté osdiasdehoje,outrosartistascomoLeonilson,Martha Araújo,ElidaTessler,NazarethPacheco,AyrsonHeráclito, KarinLambrecht,ErnestoNeto,LauraLima,Viga Gordilho,AnaFraga,Marepe,CristinaCarvalhoeChico Dantas(osdoisúltimosparaibanos),trouxeramao mundoobrasque,atravésderoupas,invólucrose fragmentosderoupas,discutemquestõessobreocorpo, olugar,amemória,apresença/ausência,oconsumo, entreoutrostemas¹. Hoje,nomundotodosepodeobservarobras-roupas, sejaemgalerias,museusoucoleçõesparticulares.De acordocomCosta(2009,p.9),aointroduziremseulivro a“roupadeartista”,aautoraexplicaqueela [...]hojedesignaumaproduçãoqueseinserenocampo dosnovosmeios,aoladodovídeo,artepostal,cinema deartista,webarteoutros,jáestevepresenteemquase todososmovimentosartísticosdoséculoXX,naforma devestimentassingulares,performances, empacotamentos,estampariasexclusivas,vídeose outrastecnologiasecontinuacontemporaneamente emtransposições,apropriaçõesevestuáriosincomuns, entreoutrasmanifestações.

Fig.1-MarthaAraújo,Hábito/Habitantes,1984

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Essaexperimentaçãotraduzemformaderoupaalgumas questõescontemporâneasdaarteedocorpo.Elanos questionaoslimitesdocorpo,oslimitesdoEu,ecomoo EuestabelecerelaçõescomoOutro.Instigasensações, nomomentoemqueprovocacontatosentreos participantesdaexperiência.Otoqueéosentido primordial,aquece,reconforta.Essemesmotoqueé evitadoerepelidopornossasroupas.Simbolicamente elasnosprotegemdoOutro,imunizando-nosdas experiênciassensoriaisdapele. Aroupa,comoobjetosimbólico,deveserpensada tambémapartirdopontodevistasensorial.Eaobrade MarthaAraújonoscolocadiantedessequestionamento: comooEupodesentiroOutro?Amoda,enquanto produtoradeconsumoedeidentidades,emgeralse esquivadasquestõesmaisprofundasqueenvolvem esseobjeto.EladiscuteaformacomooEuseapresenta aomundo,masnãoabrangeasinter-relaçõesentreos sujeitos,anãosernoquetangeàsquestõesdo pertencimentodoindivíduoaumdeterminadogrupo. Asrelaçõesquepretendemosdiscutiraquiestãomais ligadasaotoque,aosentiroOutro,aoperceber.Edissoa modanãotrata.Masaarte,sim. SegundoOstrower(1999,p.263), “atemáticaprincipaldaartecontemporâneagiraem tornodequestõesíntimas,questõesexistenciais,num amplolequedesentimentosquevãodesdeaangústia eomedo,àcoragemfaceaomedo,àresignação,à esperançae,eventualmente,anovossignificados humanosencontradosnopróprioviver.”

Aautoraaindadiscuteapercepção,dopontodevistada arte,edefendequeelaabrange,dentreoutrascoisas, [...]umprocessoaltamentemisterioso,queoscientistas aindanãosabemexplicar:odaconversãodedados sensoriaisemnoçõesnão-sensoriais.Evice-versa,a passagemdonão-sensorialparanovosdados sensoriais.Apartirdeumacondensaçãoseletivade estímulos,aapreensãosensorialtransforma-seem processodecompreensãonão-sensorial.Asimagensse transformamemsignificados.Inversamente,criamos imagens,formassensoriais,paracomunicaros significados.(OSTROWER,1999,p.51)

Issopodedenotarqueumaobraderoupa-artesensorial comoadeMarthaAraújotemcondiçõesdedespertar nosexpectadores/usuárioscompreensõesquevãoalém doobjeto.Compreensõesrelacionadasaoespaçofísico docorpoemcontatocomoutroscorpos,aosseus limites,aumagrandediversidadedeexperiênciastáteis, entreoutras.Eaprópriaexperiênciadeinvestirforça parasedesgrudardoOutro,podesetornarumavivência deconstruçãodoEu.Estamosfalandoaquidasrelações resultantesdessatatilidadeaquearoupasensorialnos incita.

Eamodacomisso? Percebemos,apartirdestabreveinvestigação,queum mesmoobjetopodeserabordadodediferentesformas pelaarteepelamoda.Comoobjetoutilitário,aroupa nosapresentaaomundo,definequemsomos,nossitua comoindivíduos.Comoobjetoartísticoelapodenos levarparadentro,nosapresentarparanósmesmos,e aindaassimnosprovocarumnovoolharparaomundo exterior. Pensararoupacomoumartefatoqueestimulaemedia assensorialidadesdocorpo,noscolocadiantedos desafiosediscussõesdaarte.Masissotambémpodeser discutidoepensadopelamoda.Esearoupa naturalmenteéumobjetoquecobreocorpo,nadamais apropriadoqueamodatambémdiscutaessasquestões, partindodaideiadeumcorpoqueatua [...]comosuportematerial,sensível,quesearticulacom diferentescódigosdelinguagem,comoagestualidade, comasensorialidadeecomaprópriadecoração corpórea,eamodaeoseudesigncomoprojeto, processodetransformaçãodaaparênciaqueobjetivaa diferenciaçãoouasimilitude.(CASTILHOeMARTINS, 2005,p.31)

Somosserescommarcantescaracterísticastáteis. Sentimosvontadedetocar,semprequevisualizamos algumasuperfícieinteressante,algumatexturamacia. Especialmenteasmulherestendemnaturalmentea ʻpegarʼnasroupasdesuasamigas,parasentirotoquede umarenda,oudeumasedamacia.Seestivermosdiante deumapessoavestindoumcasacodepele,nosso instintonoslevaautomaticamenteaexperimentá-lo atravésdotoque.Eseestivermosemumaregiãofria, vamosalémdesseinstintodetoque,sentindovontade deabraçarapessoa,parapodersentirnoprópriocorpoa temperaturaeatexturadaquelematerial. Otoquenosajudaaperceberomundoesua materialidade,nosajudaaprocessarasinformações visuaisquenoschegamdele.“Amaterialidade,muitas vezes,vemaserumcomponenteimportantena edificaçãodosentidoe,porisso,nãopodeser 22 desconsiderada”(CASTILHOeMARTINS,2005,p.64).


Referências

Afinaldecontas,nossasroupaspossuemtexturas,sejam lisas,ásperas,macias,porosasetc.,enósaspercebemos commaiorclarezaporquepodemostocá-las.

ÁVILA,Janayna.OEunaObradeMarthaAraújo.In:Graciliano On-Line.2012.Disponívelem: <http://graciliano.tnh1.com.br/2012/04/13/o-eu-na-obra-demartha-araujo/>.Acessadoem07Jul.2013. CASTILHO,Kátia.MARTINS,MarceloM.DiscursosdaModa: semiótica,designecorpo.SãoPaulo:EditoraAnhembi Morumbi,2005.112p. COSTA,CacildaTeixeirada.Roupadeartista‒ovestuáriona obradearte.SãoPaulo:ImprensaOficialdoEstadodeSão Paulo:Edusp,2009. MENDONÇA,MiriamdaCostaMansoMoreira.OReflexono Espelho:ovestuárioeamodacomolinguagemartísticae simbólica.Goiânia:EditoraUFG,2006.260p.:il. OSTROWER,Fayga.AcasoseCriaçãoArtística.2ª.Ed.Riode Janeiro:Elsevier,1999. SILVA,EnauraQuixabeiraRosae.BOMFIM,EdilmaAcioli(org.). DicionárioMulheresdeAlagoasOntemeHoje.Maceió: EDUFAL,2007.

Essasensorialidadenoslevaemdireçãoaooutro,aoque veste.Noslevaemdireçãoaotoque.Eaconsciência desseinstintotãoprimitivopodedespertaroutras possibilidadesnamoda.Comoporexemplo,aprodução deroupasqueinstiguemocontatoentreaspessoas‒a interação‒apartirdeconstruçõeselaboradasque produzamsuperfíciesestimulantes,tecidosdediversos tipos,temperaturas,texturasetc.Talvezelapossaaté mesmopartirdoprincípiodasroupas-obrassensoriais: provocarocontatodoEucomoOutro.Assim,um projetoartísticopodefacilmenteseradotadopelamoda, gerandoprodutosprovocantes,interativoseinovadores.

AlineTeresinhaBassoédesigneremestrandaemArtesVisuais (UFPB/UFPE).ProfessoradocursodeModa(Unipê/JoãoPessoa eUFC/Fortaleza).

Notas ¹Osdadosapresentadossobreartistas,períodoseobras baseiam-senaspesquisasrealizadasparanossadissertaçãode mestradopeloPPGAVUFPB/UFPE.Foramutilizadasemsua grandemaioriafontesdeinternet,ondepesquisamosdiversos sitesdeartistas,galeriasdearteemuseus.Algunsdadosforam coletadosdiretamentecomosartistas,eoutrospartiramde fontesbibliográficas.Catalogamos107artistasemaisde200 obrasenvolvendoaproduçãoderoupas,emdiversaspartesdo mundo,doiníciodoséculoXXatéosdiasatuais.Essas informaçõesfazempartedeumatabelaquedesenvolvemos comomaterialdeapoioaotextodadissertação. ²DeacordocomoDicionárioOnlinedePortuguês:“s.m.(marca registrada,dofr.velourscroché)Tecidofabricadoemtiras duplas,aderentes,usadocomofechoouparafixar,umana outra,duascoisasdiversasouduaspartesdeumamesma coisa.Umadastirasteminúmeraspequeninasalçaseaoutra, outrostantosganchinhos,queseprendemnelascomuma simplespressãodosdedos,fazendoasduaspartesaderirem mutuamente”.(Disponívelem:<http://www.dicio.com.br/ velcro/>,acessadoem10Jul.2013)

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MarcosVeloso,SertãodaParaíba,1998


Artecorreio:aideia emprocesso 

JotaMedeiros

Aartecorreio(MailArt)surgiudanecessidadede comunicaçãoartísticacomopúblico/interferidordo processo,co-autordeumresultadonoqualas possibilidadesdeleiturasãomúltiplas,variáveis.O veículocorreio,signoinstitucionalperdesua característicaoriginal;aartesubverteanormadopadrão estético.

umgrandenúmerodeartistas,críticoseamigos.Essa escolafoitransformadanoMarcelDuchampClub,em 1971. NoBrasildesseperíodo,surgemosprimeirosartistas correio.EmseulivroPanoramadasartesplásticasnos séculosXXeXXI,ocríticodearteFredericoMorais(1989, p.83)afirmaqueumdosprimeirosgruposaempregaro correiocomoveículoartísticonoBrasilfoioPoema processo,aindanosanossessenta.Em1970,opoeta cearensePedroLyradivulgaatravésdoJornaldoBrasil ummanifestodopoemapostal.Nãosepodeesquecer dafacetasofisticadadosCartemas,de1971,deautoria dodesignerpernambucanoAloísioMagalhães,mosaico permutávelapartirdeumúnicocartão-matrizgerador, reduzidoereproduzidomúltiploediminutoemumsó cartãodetamanhonormal.Aindaem1971,omesmo Poinsot,principalanimadordoCentredeRecherches DʼArtContemporaindelaFacultédeLettresdeNanterre, organizouasessãoEnvoisdaBienaldeParis.

Pormeiodaartecorreiocirculamasmaisvariadasideias, asmaisdistantestendências,e,comopartesintegrantes doprocesso,outrosmedia:aartenoprocesso comunicacionaldodia-a-dia,linguagensgerando linguagens,numperpétuociclo. OcríticofrancêsJeanMarcPoinsot,emseulivroMailart comunication:adistanceconcept(1971),citaduas obrasdeDuchampligadasaousodocorreio,que podemosconsiderarprecursorasdaartepostal:umaé Domingo,6defevereirode1916,MuseudeArteda Filadélfia,queseconstituiudeumtextodatilografado sobrequatrocartõespostaiscoladosbordacomborda (Cf.Schwarz,1969);aoutra,Podebal/Duchamp, telegramadeNovaYorkdatadode10dejunhode1921, enviadoporDuchampaoseucunhadoJeanCrotti.

Enquantoisso,noBrasil,apráticadaartecorreio, concebendo-secomoprocessodeinterferênciacriativa sobreo“meio”,tomagrandeimpulsoapartirdaprimeira metadedadécadade1970comPauloBruscky,Daniel Santiago,J.Medeiros,AngelodeAquino,ReginaVater, LeonhardFrankDuch,UnhandeijaraLisboa,Regina Silveira,Samaral,YpirangaFilho,IsmaelAssumpção, CláudioFerlauto,FalvesSilva,IvanMaurício,Maurício Fridman,GabrielBorba,AnnaBellaGeiger,BenéFonteles entreoutros.Paraohistoriadordearte,WalterZanini (1977,p.5),ocartãopostalcriadopelopróprioartistaeo cartãopostalalteradoparecetersidoosprimeiros veículosdeexpressãodessaarteessencialmente processual.

Tambémporessaépoca,opoetafrancêsMallarmé, endereçouseusenvelopesenigmaticamente,daía expressãoduchampmallarmé,cunhadapelo poemúsicoamericanoJohnCage. EmrecentepesquisasobreaobradopintorVicentedo RegoMonteiro,oartistacorreiopernambucanoPaulo Bruscky(2005)constatouopioneirismodessepintor modernistabrasileirocomocriadordopoemapostalno anode1956,emParis. Naprimeirametadedadécadade60,artistasnorteamericanosdogrupoFluxus:KenFridman,YokoOnoe JohnCage,maisoalemãoJosephBeuys,osfranceses RobertFilioueIvesKlein,alémdojaponêsChieko Shiomi,praticaramaartepostal.RayJohnsonfundouem NovaYork,em1962,aNewCorrespondenceSchoolof Art,dondeforamexpedidospoemaspostais,projetose ideiassobaformadeumsistemadeintercâmbioentre

OpoetaexperimentaluruguaioClementePadin,queem 1968haviapublicadoseusTextossignográficosem cartõespostais,organizouem1974aprimeiraexposição deartepostaldaAméricaLatina‒oFestivaldelaPostal Creativa‒,realizadonaGaleriaUdeMontevidéu.Um anodepois,PauloBrusckyeYpirangaFilhorealizaramaI ExposiçãoInternacionaldeArtePostalnoHospital AgamenonMagalhães,nacidadedoRecife.Poressa

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épocaaartepostaltorna-sealvodacensura:aII ExposiçãoInternacionaldeArteCorreio,organizadaem 1976pelaequipepernambucanaBruscky&Santiago, nãochegouaserrealizada,poisseusautoresforam presos. Porsuavez,oartistaJ.Medeiros,paraibanoradicadoem Nataldesde1967,organizanaUFRNaIMostra InternacionaldʼArteporCorrespondência(1977),que itineraposteriormenteparaCampinaGrandeeBelém,na Paraíba.Noanoseguinte,MedeirosrealizanaUFPBaI ExposiçãoInternacionaldʼArteCorreio,emJoãoPessoa. OutrasmostrasforamrealizadasemNatal,aexemploda Expoética77comemorativados10anosdopoema processo,eOlhoMágico(1978),sobacuradoriado artistaFalvesSilva. Entreasdécadasde1970e1980surgiraminúmeras publicaçõesinternacionaissobosmaisdiversoslances gráficos,desdeoenvelopecomoinvólucroda publicaçãoproduzidasobsistemacooperativoondeo autoremitiadeterminadonúmerodecópiasdeseu trabalhocorrespondenteaonúmerodeexemplares editados,aexemplodePovis/Projeto,deNatal,editada porJ.Medeiros;Karimbada,deJoãoPessoapor UnhandeijaraLisboa;fanzinescomoAGaveta,editado porMarconiNotaro,eAMargem,deNatal,ediçãode FalvesSilvaeFranklinCapistrano,atéaDoc(K)s,revista trimestraldevanguardacommaisde400páginas, editadaemoff-setporJulienBlaine,nacidadefrancesa deMarselha. NaAméricaLatinadofinaldosanos1970einíciodos anos80,opoetauruguaioClementePadineditoua revistaOvum,aopassoqueoargentinoEdgardo AntonioVigoeditoulivroscoletivos;noRio,a revista/envelopeExperiênciasfoiproduzidapelogrupo Belaboca,integradoporSamaraleJoãoCarlosSampaio; emRecife,BrusckypublicouMultipostaisePunho, enquantoemNataleditamosContexto,suplemento especialdʼARepública,jornalporta-vozdaartecorreio. Em11dedezembrode1977,Contextoteveedição lançadanaaberturadaExpoética,mostracomemorativa dos10anosdomovimentodoPoemaprocesso.Em 1982,oartistaparaibanoRaulCórdulainiciaoprojetoO PaísdaSaudade,expostonoMuseudaCidade,em Olinda,Pernambuco,em1985. TendoJúlioPlazacomocurador,aArtePostalfoi destaqueem1984naXVIBienalInternacionaldeSão Paulo,eventoartísticorealizadosobacuradoriade WalterZanini.EmNatal,aartecorreiotornou-seuma práticaintensa.Alémdosjámencionadosartistas,cabe citarnomescomoosdeCarlosJucá,VenâncioPinheiro, AvelinodeAraújoeCarlosH.Dantas. Maisrecentemente,outrosnovosprodutoresseinserem nestapráticaartísticadodia-a-dia,comoFábiodiOjuara ePedroCosta.Em1992,ocríticoepoetapotiguar FranklinJorgerealizouoprojetoAmazôniavistapelos 25


artistas,reunindoprodutoresdediversospaísesnum único“protexto”coletivo:Amazôniareinventadapor artistasdomundointeiro.Jánoano2000, comemorandoosquatrocentosanosdacapitaldoRio GrandedoNorte,FábiodiOjuara,FalvesSilvaeDiógenes daCunhaLimahomenagearamaCidadedoNatalcom umaMostraInternacionaldeArteCorreio.Emjunhodo mesmoanoocorreamostraArteConceituale Conceitualismos,umresgatedaproduçãointermediano anexodoMAC/USPduranteosanos70,sobacuradoria deCristinaFreire. Emnossosdias,apráticadaartecorreioveio proporcionarumintercâmbiopermanenteentreos “mediaintermedia”,taiscomoaxerox,odisco,oCD,o filme,ovídeoeocorpo,ouseja,aperformance‒meios queestãonocircuitodasideiasedosprojetoscotidianos doartista“multimedia”.Adivulgaçãodeumevento relacionadoaqualquerdessesmeioséfeitapormeiodo correio,noqualasnovaspropostasaboliramos tradicionaissuportes;esseveículodeixoudesermero condutordeumamensagemparaintegrar-seaoseu significado,assumindoassim,umnovocaráter semântico.

Referências  BRUSCKY,Paulo.Arte-correio.In:PECCININI,DaisyVallee Machado(coord.)ARTEnovosmeios/multimeiosBrasil 70/80.SãoPaulo:FundaçãoArmandoÁlvaresPenteado, 1985,p.77-79. MEDEIROS,J.Artecorreio,artepostal,mailart:aideiaem processo.In:PECCININI,DaisyValleMachado(coord.) ARTEnovosmeios/multimeiosBrasil70/80.SãoPaulo: FundaçãoArmandoÁlvaresPenteado,1985,p.287-288. MORAIS,Frederico.Panoramadasartesplásticasnos séculosXXeXXI.SãoPaulo:InstitutoCulturalItaú,1989. POINSOT,JeanMarc.Mailartcomunicationadistance concept.PréfacedeJeanClair.Paris:CEDIC,1971. SCHWARZ,Arturo.ThecompleteworksofMarcel Duchamp.Londres:ThamesandHudson,1969. ZANINI,Walter.Aartepostalnabuscadeumanova comunicaçãointernacional.In:PECCININI,DaisyVallee Machado(coord.)ARTEnovosmeios/multimeiosBrasil 70/80.SãoPaulo:FundaçãoArmandoÁlvaresPenteado, 1985,p.81-82.

Nestaeradatelearte,daestéticafractaledarobótica,a artecorreiocontinuaemprocessointensivonomundo inteiro,caminhandoparalelamenteaoe-mail@rt,o correioeletrônico,quepodeserutilizadodeforma conceitualeàutilizaçãodeequipamentosmultimeios comoofaxeovídeo,orádioeocinema,dentreoutras múltiplaspossibilidadespost-modernasdestecomplexo contextoarte/vida.

JotaMedeiroséartistamultimídia,curadorecoordenadorda MostraInternacionaldeArtePostaldaUFRN(Natal,2005).

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Deficiênciaautoraldas artesvisuais 

LuizVidal

Odireitonuncavaisuplantaracriação,poiseleé produtodela.

a)Umtratamentomaisespecíficoparaocampodas artesvisuais.

ValelembraraindaqueumaLeiparaserconcretizardeve serfrutolegislativo,ouseja,passarporumadigestãoque muitasdasvezesnãocorrespondeaoverdadeiroanseio dosegmentojurisdicionado.Poressemotivoéquesem sombradedúvidasdefendoqueémuitomelhoruma novaLeideDireitosAutoraisparasubstituiraLei 9.610/98,queameuver,trata-seapenasdeumamera contrafaçãodaLeide5988/73comalgunspoucos arremedosparaparecercoisadiversa.

b)Anecessidadedeumaregulamentaçãoespecíficada obraderivada,principalmentedaquelasadvindasda releitura,colagemerefundição;

Seassimpensarmos,aoinvésde10anospassadosdeLei estamoscarregandonaverdade35anos,oquereforça categoricamentepoderdizerqueaatualLeiéobsoleta, aindamaisquandopensamosemnovastecnologiase suportesutilizadosemproldacriação. ÉbemverdadequeaLeiemvigênciacontemplade certomodoconceitosdetratadosinternacionaisdos quaisnossopaísésignatário,porémpoderiairmuito alémeaindatrazerinovações. ComomembroefetivodoColegiadoSetorialdeArtes Visuais(2005-2010)[e2013-2014],erepresentandouma basecomanseiosprópriosediferenciadosnesseprojeto mentalizadopeloMinistériodaCultura/Funarte,tivea oportunidadeímpardeterumacosmovisãodaáreade atuação,poisostrabalhosrealizadosnaCâmaraeseus gruposchamadostransversaisfixaramumverdadeiro panoramadaculturaeseussegmentosnopaís,tudo comsoluçõesediagnósticosque,nocasodasartes visuais,jamaisosprópriosintelectuaisdaáreapoderiam chegaremcurtoespaçodetempo. Essaparticipaçãoéquemeincutiuumposicionamento diferenciadosobreagestãoculturaletambémsobrea própriaLeiAutoralqueprotegeoartistaesuacriação. Nocasoespecíficodeartesvisuais,dentreasinovações referentesaosDireitosAutorais,concluiuqueaLei especificamentepoderiaalbergarasseguintessituações:

c)Anecessidadedafixaçãodaprescriçãododireitode açãonoprazomáximo,emfacedosreflexosdanosos queumaaçãoilícitapodeprovocaremumaobra. d)Autilizaçãodecritériosjurídicosmaisnítidosparaa caracterizaçãodoplágio,comoaplicaçãodainversãodo ônusdaprovaparabeneficiarapartequepossuio registrodaobra,dandoassimmaiorrelevoàexistência deregistroprévio. e)Diantedafaltadeprevisãolegislativadoquantuma serarbitradoatitulodedanosmateriaisnosmesmos moldesdoparágrafoúnicodoartigo103dalei9.610/98, sugerindoparaimagensumvalorrazoávelentre40e 100saláriosmínimos,dependendodautilizaçãoilícita, semprejuízoaosdanosmoraisdoautor. f)Aprevisãoautomáticaparaqueacessãodedireitos autoraisretornepatrimonialmenteaosfamiliaresdo autordeartesvisuaisfalecido,casonãohajaprevisão específicacontratualemcontrário. g)Nocasodefalecimento,aextensãoparafamiliaresdo direitoirrenunciáveleinalienáveldoautor,deperceber, nomínimo,cincoporcentosobreoaumentodopreço eventualmenteverificávelemcadarevendadeobrade arteoumanuscrito,sendooriginais,quehouver alienado,inclusiveàsobrasdedomíniopúblicoe/ou tombadas; h)Acriaçãodecritériosdafigurado“tombamentode obrasdeartevisuais”,deformaapreservardivisaseo turismocultural,dandoapreferênciadeaquisiçãoà União. i)Anecessidadedeclassificaçãodasimagensdeobras 27 quenãoestejammaisprotegidaspelaLeideDireitos


Autorais,paralivreutilizaçãopelapopulação,em especialnaeducaçãoedifusãodasartesvisuaisesua história.

Espelhadonisso,epelofatodosartistas/criadores/ autoresnecessitaremdetratamentoespecíficosou favorávelacriaçãodeumConselhoNacionaldeDireitos Autorais,nãoàqueleconselhopolíticonosmoldesquejá existiuoutrora,massimumconselhocompapelmuito maisdefinido,independenteeatuante,inclusive contendorepresentantescomnotávelsaberdos diversossegmentosculturais,segmentosculturaisnão podemserconfundidosemhipótesealgumacomo órgãosparticularesdegestãocoletiva,digoissoporque esseséquedevemrespeitareseremsubmissosaforça dacultura,docriadoredoespectadorenãovice-versa.

j)RegulamentaçãodaslicençasCreativecommonsem lei. k)Acriaçãodeumainstânciaadministrativa especializadaparaatuarnaresoluçãodeconflitosno campodosDireitosAutorais,comoreferênciaexterna, semdefenderinteressesespecíficos. l)OretornodoConselhoNacionaldeDireitoAutoral, comatribuiçãodefiscalizaçãodoEscritórioCentralde Arrecadaçãoedefixaçãodovalordetaxasreferentesa arrecadaçãoedistribuiçãodedireitos.

Lembroainda,quealémdarevisãodaLeideDireitos Autorais,inclusiveparaquesejamefetivamente albergadososdireitosqueatualmentedeixamadesejar paraváriossegmentosdacultura‒aexemplodasartes visuais,artescênicas,circo,teatro,entreoutras‒,temos aindaanossaportaodesafioatualdocrescentebloco doMERCOSUL,situaçãoquenãodevedeixardeser relevadaedaqualdevemosdarexemploaospaíses irmãos.

VoltandoàLei,recordoqueparamuitosémaiscômodo mantê-lanospadrõesatuais,poisumamudançapoderia prejudicarindelevelmenteasituaçãodasáreasque demandamexecução,principalmentequandofalamos dalegiãodosórgãosqueatuamnagestãocoletiva,os quaisdeveriamsofrermaiorregulamentaçãoespecífica.

Outrodesafioimportanteéoderedesenharopapelda gestãocoletivadedireitos,poisditagestãodeveser exercidacomdiscernimentosocial,papelrelevanteque sóencontraráplenitudepormeiodainterferênciadeum Conselho,formadonãosópeloEstado,maspelos própriossegmentosdecriaçãoculturalatéparaquenão hajadistorçõesgrosseirasdotipocobrarpedágioautoral dasquermessesdasigrejinhas,festejosdasassociações demoradores,ouaindacercearestudantesaterem acessoàculturaemseuslivrosdidáticos.

Veja-sequealiberdadeimpingidapelaleisemnenhuma interferênciaestatal,mesmoquemínima,provoca inúmerasdistorçõeseacabaprincipalmentedilacerando afunçãosocialdosdireitosautorais. Cabeaindalembrarqueafunçãosocialdapropriedade começouasertratadaemnossalegislaçãonosidosda nossaCartaMagnade1888,equenossaleiautoralcomo jáditovempraticamentede1973.

Maisespecificamentequantoàsartesvisuais,minhaárea deafinidade,confessoquetenhoressalvaspelomodelo propostodegestãocoletivaeseufuncionamento, situaçãounânimedentreos15participantesque representam15estadosdafederaçãonoColegiado SetorialdeArtesVisuais.

Eéjustamentedanecessidadedesupressãodelacunas, dasquaissempreirãoexistir,quesefaznecessáriaa criaçãodeumConselhoNacionalcomrespeitabilidadee credibilidadeparasupririnclusivenormasembranco,as quaisreputo:corpossemalmas. Provadequeissopodefuncionaréoexemplodoreflexo recentequeopróprioConselhoNacionaldeJustiçavem causando.

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PrimeiroporqueaLei9.610/98nãoenglobaascriações deimagensemseuartigo99‒imaginoquetalvezpelo fatodeteremumtratamentodiferenciadodeexecução


‒,segundoporqueagestãocoletivanãoseresumeaum bancodedadosdeclientesformadosparainterposição deações,principalmentereferenteaartistas consagradosinternacionalmentepormeiodeconvênios, situaçãoqueveladamentenãopassadachamada captaçãodeclientelatãorepudiadapelaOAB.

Enfim,seaprópriaLeiAutoraléinócuaemvários aspectosnocampodasartesvisuais,qualquerdiscussão sobreumórgãodegestãocoletivaparaasartesvisuais dependeránecessariamentederegulamentação,poisos moldespropostosatéentãocarecemdelegalidadee nãocumpremoanseiodouniversoaqualsedestina.

TerceiroaindaporqueaditaAssociaçãoqueseintitula Nacionalanteaosartistasvisuaiscarecede regulamentaçãoefetivaepossuisalvoenganomenos artistasbrasileirosinscritosemseubancodedados‒450 nofinalde2009(http://www.autvis.com.br/noticias. php?noticia=136)‒doqueaprópriaAssociação ProfissionaldosArtistasPlásticosdoParaná-APAP/PR,da qualfaçoparteequeestatutariamentealémdepoder praticargestãodedireitosautoraispossuiumcadastro querecentementeultrapassoua850artistasplásticos somentenoEstadodoParaná.

LuizGustavoVardânegaVidalPintoéartistavisual,advogado, sóciodoescritórioNoronha&VidalAdvogadosAssociados, MembrodoColegiadoSetorialdeArtesVisuais,presidenteda ComissãodeAssuntosCulturaisdaOAB‒SeçãoParaná,diretor jurídicodaAssociaçãoProfissionaldosArtistasPlásticosdo ParanáecolaboradordoFórumdasEntidadesCulturaisde Curitiba.

LembroaindaqueofatodeditaAssociaçãoBrasileira dosDireitosdeAutoresVisuaistersupostasparcerias comoutras33associaçõesnoestrangeiroparadefender earrecadarvaloresaosartistasalienígenasnãoalegitima paraimperarsozinhasobreoassuntoemnosso território. Portaisrazõeséqueagestãocoletivadasartesvisuais deveserrepensadaemnossopaís,desdeasua regulamentaçãoefetivaatéasuaestruturamínima, lembrandoquenãoseriaconvenientejogarforao esqueletoconquistadoaoslongosdosanospelo EscritórioCentraldeArrecadação,oqualmuitoapós sériareformulaçãobempoderiadarcabotambémde outrasáreasdaproduçãoautoralquesomenteamúsica. Talvezaindasejadeseponderartermosumúnicoórgão paratodasasáreasestruturadoparadarcaboda verdadeirasatisfaçãodesuaexistência,tudoauditado porumConselhoNacionalPermanentedeDireitos Autoraiscomoumainstânciatécnicacomestatuto próprioediretamentedesvinculadode comprometimentogovernamental,mascom participaçãodeste.

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MarcosVeloso,SertãodaParaíba,1998


na última página OfenômenoBienalde Arte 

Almandrade

Aproliferaçãodebienaisdeartenomundo,nasúltimas décadas,chamaaatençãoparaoespetáculoea banalizaçãodachamada“artecontemporânea”. Conformeotipodepúblico,decurador,deartista,de patrocinadorexisteummodelodebienal.Cadauma comsuasespecificidades,umasprivilegiama universalidade,outrasaslinguagensregionais,cadauma imprimesuamarca.Qualquercoisapodeser transformadaemmaterialartísticoequalquerlugar podeserestetizado.Temasdosgrandescentroseasde periferia.Portrásestáumsistemaeconômicoque envolvenegócios,turismo,entretenimento,economia criativa.Essasmostrasnãosesustentamdedemandas culturais.Oingredienteculturalécomoaquelapitadade sallançadasobreaporçãodebatatafrita. Umabienaldearteserveparaapresentarnovos produtos,ou“novosautores”deumdéjà-vupara aquecerasociedadedamercadoria.Comofimda modernidadeeashistóriasdasgrandesinovaçõesna arte,emtermosdenovasformasetécnicasque surpreendiam,veioumasensaçãodeesgotamento estético.Asoluçãodomercadofoiinvestirnoinusitado daideologiadajuventude,noqueparecesererevelar “novostalentos”.Nãotemosmaisassurpresas modernas,aexemplodoCubismo,então,reinventam-se outrascomaajudadodepartamentodemarketing, porqueoconsumoseabasteceatravésdofantasmado novo.Masaarteprecisamaisdereflexãodoquede talentossurpreendentes. Asbienaisestãoligadasaomercadocomoamantes apaixonados,dependentesumdooutro.Seelasnãosão centrosdiretosdeconsumo,estãoindiretamentea serviçodoconsumodemercadoriasculturaisedelazer. Oaltocustodesuarealizaçãoimplicanaparticipação decisivadeinvestidores,patrocinadorescom expectativasderetorno.Omontanteconsiderávelque movimentadoanualmentemostraqueomercadoestá emalta.Entreabrincadeiraeoininteligívelexpostos,a mostraéumavitrineondeasgaleriasapresentamjovens artistasesuasnovidadesparaservalorizadoserecebero selodegarantiacultural.Espera-sedoartistadebienal queeletenhaprestígio,reconhecimentoevalorde mercado. 30

Osistemadasgaleriasacabaexercendoforteinfluência naescolhadosartistas,muitobemjustificadoe disfarçadonodiscursodocurador.Participardeuma bienaléumaexperiêncianocurrículodeumaartistaque contribuiparaasuainserçãonomercadodearte.Até trabalhosgeradospelaintuição,natotalignorânciada arteproduzidanopassado,sãovalorizadose etiquetados.Ahistóriadaculturanãointeressaparao mercado,masaculpanãoédomercadonemdoartista, esim,deumasociedadeperversaquetemcomo referênciaamercantilizaçãodacultura. Umaquantidadecrescentedeartistas,curadores, marchandesreivindicameapontamcomoalternativa paraadivulgaçãoedesenvolvimentodaarte,acriação deumabienal.Emcentroscommuseusprecários,com dificuldadesdemanutenção,ensinodearte comprometido,temumcrescimentoindiscutívelda produçãode“artecontemporânea”.Apelarparauma bienaléumaformadeescoaredarvisibilidadeaessa produção.Acadadoisanosumasafranovadeartistas despertaaatençãodamídiaedocomércio.Asbienais sãoaspartidaspreliminaresdasfeirasdearte,elascriam públicoeincentivamcompradores.

Almandradeéarquitetoeartistavisual.


expediente Capa:fotodeMarcosVeloso,FeiradeCampinaGrande,Paraíba,1997

expediente

SegundaPessoa RevistadeArtesVisuais Ano3,Número1‒Jun-Jul-Agode2013 Editor-geral|DyógenesChavesGomes(ABCA/AICA) Jornalistaresponsável|WilliamPereiradaCostaDRT-PB792 Conselhoeditorial|DyógenesChavesGomes|Francisco PereiradaSilvaJúnior|GabrielaMarojaJalesdeSales| MadalenaZaccara|MariaCristinadeFreitasGomes|Paulo Rossi|PauloSérgioDuarte|RodolfoAugustodeAthaydeNeto |ValquíriaFarias|WilliamPereiradaCosta Projetográfico|DyógenesChaves|2ou4 Fotografia|ArquivoProjetoHO|MarcosVeloso|RaulCórdula Colaboradores|AlineBasso|Almandrade|JotaMedeiros|Luiz Vidal|MadalenaZaccara|RaulCórdula|StênioSoares|Walter Galvão Impressão|GráficaJBLtda.

Contatosparaenviodeartigosecolaborações: e-mail:revistasegundapessoa@gmail.com 2ou4Editora/RevistaSegundaPessoa RuaProtásioPontesVisgueiro,111,Jardim13deMaio JoãoPessoa-PB‒58025-680 Telefones:(83)3042.7979/8808.7877 www.segundapessoa.com.br

Osartigospublicadossãodetotalresponsabilidadedeseus autores.OsinteressadosempublicarnaSegundaPessoa devemobservarasnormasdepublicaçãonositedarevista. EstaediçãodeSegundaPessoa(ISSN2237.8081)foiimpressa emagostode2013,naGráficaJBLtda.,utilizandoostiposda famíliaKozukaGothiceCaslon,empapelpólen(90g/cm²),com umatiragemde10.000exemplares,sobaresponsabilidadeda 2ou4Editora. EdiçãoemhomenagemaofotógrafoMarcosVeloso(19502000).


ISSN 2237-8081

9 772237 808001

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Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010

Revista Segunda Pessoa #1  

ano 3 número 1 jun-jul-ago 2013 Colaboradores: Almandrade, Aline Basso, Jota Medeiros, Luiz Vidal, Madaleza Zaccara, Raul Córdula, Stênio S...

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