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A privatização do Banestado UMA DÉCADA APÓS A VENDA CRIMINOSA DO BANCO, PROMOVIDA PELOS ANOS NEOLIBERAIS DE FHC E LERNER, MAIS DE 6,4 MIL BANCÁRIOS PERDERAM SEUS EMPREGOS

Em 17 de outubro de 2000, o Banco do Estado do Paraná (Banestado) estava sendo vendido ao Itaú, pelo valor de R$ 1,6 bilhão. Para comparar o valor irrisório desse repasse, em nove meses, o Itaú Unibanco lucrou R$ 9,6 bi. Os bancários ainda não esqueceram as consequências trágicas da privatização. O banco chegou a ter 15 mil funcionários. Na época da privatização, eram mais de 8 mil. Hoje, restam 1,6 mil trabalhando no Itaú Unibanco. “O discurso político da época era de que o banco estava quebrado, mas temos que contextualizar que o Paraná assumiu uma dívida que só será quitada em 2026, e que a privatização colocou na rua quase 7 mil famílias”, avalia o dirigente sindical Marcio Kieller. Dez anos após a venda do banco, Jaime Lerner divulgou um artigo em que defendeu sua posição diante da privatização. Disse ser uma “decisão inescapável”, causada pelas perdas que os bancos estatais tiveram com o fim da inflação após a implantação do Plano Real. Para Roberto Von der Osten, secretário de Finanças da Contraf-CUT, a decisão foi política e ideológica. “As questões centrais alegadas pelo governo Lerner não resistem às análises históricas. A privatização foi traçada pela escolha neo30

liberal do governo FHC em abrir apetitosos espaços na economia para a iniciativa privada ampliar os seus lucros”, afirma. Ainda em 1994, o Banco Central informou que pretendia intervir no Banestado. Lerner se comprometeu a sanear o banco, financiando R$ 5,6 bi do Governo Federal, que exigia como contrapartida a federalização ou a privatização. Lerner optou pela privatização. O valor pago no leilão entrou diretamente nos cofres do Tesouro Nacional, quitando 20% da dívida. Até abril de 2010, o Paraná quitou R$ 6 bi e ainda deve R$ 9 bi. O governo estadual ainda incluiu no leilão 21% das ações da Copel como garantia de pagamento dos chamados títulos podres (emitidos pelos estados de Alagoas, Pernambuco e Santa Catarina, e pelas cidades de Guarulhos e Osasco, no final da década de 1990). Declarados nulos por decisões judiciais, o Itaú exigiu que o Paraná adquirisse esses títulos. Ao deixar de pagar ao Itaú R$ 456 milhões pelos títulos, a Secretaria do Tesouro Nacional aplicou multa ao Governo Estadual, que ficou sem receber repasses de recursos

novembro 2010 SEEB Curitiba

federais de novembro de 2004 a abril de 2010, quando o Senado Federal aprovou por unanimidade o fim da multa. O Paraná deixou de receber R$ 262 mi. A luta da categoria bancária No dia 5 de outubro de 2000, os funcionários do Banestado entraram em greve para reivindicar garantia de emprego, manutenção do fundo de pensão, do plano de saúde e o não fechamento de agências e do centro administrativo. O banco alegou no TST que a greve era uma tentativa de impedir o processo de privatização e obteve liminar, com o argumento de que a paralisação era abusiva. O Banestado foi vendido 13 dias após o início da greve. Marisa Stedile, secretária geral da CUT-PR, exercia o cargo de Conselheira Eleita pelos funcionários do Banestado na época e acredita que a única saída era a mobilização popular, que não aconteceu. “A bancada Lernista na Assembleia Legislativa era maioria. O Judiciário não acatou nenhuma das ações propostas contra a privatização. A imprensa estava totalmente a favor e não questionou as ilegalidades do processo”, relembra.

Novembro 2010  

Revista Bancári@s

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