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As cidades são construídas de histórias, memórias e mistérios, feitas de um estuário de afetos, retóricas, discordâncias, interesses, apegos, datas e festas. Grandes celebrações. São os homens com seus sólidos perfis que constroem e desmancham as cidades todos os dias. A Coleção Pajeú, publicada por meio da Secretaria da Cultura do Município de Fortaleza, é uma proposta editorial que pretende reafirmar o patrimônio material e imaterial dos bairros da nossa cidade, permeada por uma consciência histórica e cidadã. Esta terceira etapa contempla os livros Conjunto Palmeiras, José Walter, Montese, Pirambu, Praia de Iracema e Rodolfo Teófilo. Além de Música de Fortaleza, da Série Fortaleza Plural; e os infantis Teatro São José e Maracatu. Foto da capa Trecho da avenida Nossa Senhora das Graças.


Pirambu


Obra realizada com o apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza – Secultfor. Prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Vice-Prefeito de Fortaleza Gaudêncio Gonçalves de Lucena Secretário Municipal da Cultura de Fortaleza Francisco Geraldo de Magela Lima Filho Secretária-Executiva Paola Braga de Medeiros Assessora de Políticas Culturais Nilde Ferreira Assessor Jurídico Vitor Melo Studart Assessora de Comunicação Paula Neves Coordenadora de Ação Cultural Germana Coelho Vitoriano Coordenadora de Criação e Fomento Rejane Reinaldo

Coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural Jober José de Souza Pinto Coordenadora Administrativo-Financeiro Rosanne Bezerra Diretora da Vila das Artes Cláudia Pires da Costa Diretora da Biblioteca Pública Dolor Barreira Herbênia Gurgel Diretor do Teatro São José Pedro Domingues

Secretário da Regional I Francisco Sales de Oliveira


Raimundo Cavalcante

Pirambu


Copyright © 2016, Raimundo Cavalcante

Concepção e Coordenação Editorial Gylmar Chaves Projeto Gráfico e Diagramação Khalil Gibran Revisão Milena Bandeira Lívia Leitão Fotos da Capa e Contracapa Rafael Crisóstomo

Assessoria Técnica Adson Pinheiro Graça Martins C 376 P

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Cavalcante, Raimundo Pirambu / Raimundo Cavalcante. - Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016. 92 p. (Coleção Pajeú) ISBN: 978-85-420-0806-7 1. Bairros - aspectos sociais 2. José Walter - Usos costumes 3. História e memórias I.Título

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CDD: 918.1310


Sumário “A realidade é um clichê do qual nós escapamos pela metáfora” (Wallace Stevens) 9 Já nascemos em consignação 11 Liberté, égalité, fraternité ou O coice da vida 13 Nem todo Pirambu dá moqueca 17 Deus e o Diabo sob o Sol e o sal do Pirambu 25 O Padre 29 Porque o Padre Hélio veio ao Pirambu 33 A Primeira Missa 37 “Milagre” também requer mourejo e muita contradição 41 O encontro fulcral 45 “Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer” (Mahatma Gandhi) 47 De como os Davis de Padre Hélio venceram os Golias de um superior de Duque de Caxias 51


Do areal do Pirambu ao Palácio de Buckingham 57 Nem todo Robbespierre é Maximilien muito menos François 65 O Pirambu dos fazedores do bem 71 O Pirambu e a retórica biliosa sabor samba-canção 77 O Pirambu tem disso, sim! 79 De ave a peixe: uma dolorosa e permanente transfiguração 83 Referências 87


Apresentação Neste ano de 2016, a nossa cidade de Fortaleza completa 290 anos e continua a nos envolver com seu traçado urbano, história de lutas, celebrações e benquerença de nossa gente. Ao editarmos a Coleção Pajeú, que reúne escritores, memorialistas, pesquisadores, fotógrafos, revisores e designers, queremos reafirmar a trajetória histórica da nossa Capital, ao mesmo tempo que anunciamos ao universo dos nossos bairros um itinerário constituído de litoral e sertão, espaços de afetos e de memórias, singularidades e pluralidades que compõem o conjunto de nossas relações enquanto cidade e cidadãos. Nossa Coleção percorre oralidades, referências bibliográficas, travessias, séculos, perfis, datas e festas. Uma escrita fina que, muito bem, pode ser lida sob a brisa forte de nossa terra e a sombra dos palmares, mas, sobretudo, que resgata e eterniza nossos traços e belezas. Parabéns, Fortaleza! Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Prefeito de Fortaleza


“A realidade é um clichê do qual nós escapamos pela metáfora” (Wallace Stevens)

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que está escrito aqui não foi narrado com a mesma propriedade com a qual faria um pirambuense nato, mas com o devido respeito e desvelo de quem conviveu, convive e tem apreço pelo bairro.

Discorrer sobre o Pirambu é algo que faço com grande prazer, pois quem o conhece não se apaixona apenas pelo bairro enquanto espaço geográfico, mas por suas pessoas, pela sua história e pelos seus voluntários que lá chegam para ombrear-se com a gente valente que faz das dificuldades cotidianas matéria-prima na construção permanentemente de sua trajetória. Este é um dos bairros de Fortaleza que mais rendeu escritas, tais como peças de teatro, opúsculos, livros, teses de mestrado, romances, filmes, sites e blogs, entre outras expressões literárias e/ou plásticas. Acredito que isso se justifica, obviamente, pela forma dramática e pelas 9


circunstâncias trágicas nas quais o Pirambu surgiu: a partir do Campo do Urubu, denominação oficial do que era um Campo de Concentração, onde ficariam reclusas pessoas consideradas inoportunas ao convívio da cidade, como as levas de retirantes que chegaram à capital cearense vitimados pela seca de 1932.

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Já nascemos em consignação

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seca de 1915 foi a pior de todas para o Ceará, sendo, inclusive, tratada no livro O Quinze, da escritora cearense Rachel de Queiroz. Foi nesse período que, aqui em Fortaleza, no antigo bairro Alagadiço Novo – hoje conhecido como bairro Otávio Bonfim –, surgiu o primeiro Campo de Concentração, onde foram aprisionados mais de 8 mil sertanejos, segundo propalado pela imprensa local. Amontoados num cercado de pau-a-pique e arame farpado, essas pessoas tinham a cabeça raspada, recebiam por roupa um saco com um furo para passar a cabeça e outros dois para os braços e, então, recebiam uma ração, na qual, às vezes, continha pedaços de peles de bichos magros, cozidos de modo rudimentar, que haviam morrido de fome ou por alguma doença, como, por exemplo, peste. Dessa maneira, não há como falar do Pirambu sem falar do sertão nordestino e das intempéries das secas e suas consequências devastadoras, às quais, ainda hoje, 11


estão expostos os sertanejos. Por consequência desse fenômeno, o sertão, durante séculos, muitas vezes virou mar: mar de gente e de animais mortos de fome, de sede e de doenças advindas da seca. Após a grande seca de 1915, tivemos a de 1932, que devastou o semiárido nordestino de uma ponta a outra. Foi nessa época que o governo passou a destinar recursos à região para a implementação do combate à seca. Lamentavelmente, há registros de que somas desses recursos oficiais eram desviados de seus objetivos originários. Dessa forma, o Sertão e o Mar compõem o DNA do Pirambu.

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Liberté, égalité, fraternité ou O coice da vida

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angidos em rebanhos esqueléticos, semimortos de fome e de sede, entre outras tantas mazelas advindas do flagelo da seca, sertanejos vinham dos socavões para a Terra da Luz1, onde o que faltava em comida e água para os seus naturais, sobrava em epítetos prosaicos na boca dos citadinos; assim as levas de retirantes chegam às areias brancas de Fortaleza. Um estado que proclamou a abolição da escravidão em 1884, portanto, quatro anos antes de a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea, não foi capaz de receber seus sertanejos em de total situação de abandono em sua capital. Fortaleza, naqueles anos, modernizava-se ao molde europeu, mais precisamente ao formato francês. Entretanto, o que sobrava em pompa e luz, faltava em sombras que servissem de arrancho ou pernoite para os irmãos flagelados que vinham, dos confins do sertão, desesperados de sede e fome. 1 Referência à cidade de Fortaleza.

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Talvez uma das maiores contradições da história de Fortaleza foi se deparar com outra realidade totalmente adversa a que viveria tempos depois, no caso, o afrancesamento que sua elite adotara para arremedar, muito embora ela não contemplasse o slogan francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Se, ainda hoje, um flagelado incomoda muita gente, imagine centenas deles capital adentro, com suas mazelas e andrajos, comprometendo a higiene, a saúde urbana e até a integridade física dos cidadãos da capital, posto que se ouvia falar de violência por parte dos maltrapilhos. Então, os sertanejos foram guiados pela imensidão de belezas descritas pela pena alencarina, como em os “[...] Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros” (ALENCAR, 1997), e, de imediato, nem se deram conta de que tudo aquilo não passava de uma bela descrição, uma miragem, totalmente oposta às que viram durante o trajeto do sertão à capital. Com efeito, toda aquela beleza, para aqueles homens sofridos, era apenas uma linda moldura de mais uma etapa do inferno que teriam por penitência. O tratamento desumano ali recebido – com perdão pelo clichê desbotado – nunca estivera nem nos seus piores pesadelos. Nada daquilo era o oásis que parecia ser 14


para aquela pobre gente. Ao chegar na capital do Ceará, os sertanejos, maltrapilhos e famintos, só ansiavam, primeiramente, por um pouco de comida que lhes proporcionasse sustento para trabalhar. Entretanto, como se fossem bichos, foram encurralados num curral nas areias escaldantes de uma praia no litoral oeste de Fortaleza. Para matar a sede, ali pela beira da praia, não precisavam nem cavar muito, pois logo minava água nem tão insalubre. Como norma impingida aos encarcerados à céu aberto, todos receberam um número à guisa de “ferro de gado”, como se fazia no sertão com os animais, e tiveram suas cabeças raspadas e, ainda, lhes pulverizaram DDT – pesticida altamente eficiente para o combate de pragas, com efeitos bastantes prejudiciais à saúde humana. Restava, a todos eles, somente atenderem às determinações dos encarregados e dos soldados. A princípio, ninguém entrava nem saia sem autorização. Sendo a humildade uma caraterística permanente do sertanejo, e dada a extrema carência da qual eram vítimas, certamente não esperavam nenhum foguetório como recepção, mas aquilo era, no nosso dizer, coice da vida.

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Nem todo Pirambu dá moqueca

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irambu, denominação dada pelos índios tupis, que significa uma espécie de peixe roncador existente no litoral nordestino, era principalmente encontrado em abundância nas costas de Pernambuco e Alagoas. De denominação científica Anisotremus surinamensis ou Conodon nobilis, o peixe é também conhecido por sargo-de-beiço, beiçudo, salema-açu, riscadinho, praguinha, boca-mole, quebra-panela (LUIZ, s/d).

Mas o Pirambu aqui falado não é peixe, é bairro e fica a, mais ou menos, quinze minutos de carro do centro de Fortaleza, surgiu como vizinho indesejável do antigo e suntuoso Jacarecanga, outrora bairro nobre da cidade que, ainda hoje, exibe alguns dos seus casarões onde viviam famílias tradicionais de Fortaleza, e hospeda o centenário colégio Liceu do Ceará, o Quartel dos Bombeiros, a Escola de Aprendizes Marinheiros, o Kartódromo Governador César Cals e o Cemitério São João Batista. Ao iniciar minha fala sobre o bairro Pirambu, acho antes necessário atentar para o fato de que alguns escritos 17


consultados, quando da feitura do presente trabalho, descrevem que o povoamento do Pirambu deu-se por força das migrações de sertanejos. Sem querer causar controvérsia e desprovido da intenção de desmerecer demais pesquisas, acho que dizer que o Pirambu teve seu nascedouro por meio de “povoamento” é, no mínimo, um eufemismo. No intuito de dar uma noção de como o Campo do Urubu, um amontoado de flagelados, transformou-se em Pirambu e chegou a ser considerado por alguns a maior favela do País – título que em nada enaltecia seus moradores e, por isso mesmo, eles foram à luta por melhorias –, registros dão conta que o atual bairro era um amontoado de casebres, sem saneamento básico, transportes, serviço de saúde etc. Quando ele começou a ter forma urbana, era tido como uma área de alto risco, visto que foi criado como campo de concentração, onde foram aprisionados, como já citei anteriormente, os retirantes fugidos das secas e outros desvalidos. Assim, o bairro foi se engendrado de envieso, em meio a contendas características de uma terra em que imperava sempre a lei dos mais fortes. E qualquer bate-boca terminava em tragédia. Geraldo Walmir Silva, um sertanejo da cidade cearense do Crato, morou em outros bairros em Fortaleza, mas, quando chegou ao Pirambu, só saiu de lá para o cemitério no dia 31 de março de 1999, deixando por legado a saudade daqueles que privaram de sua amizade e um livro 18


sobre a história do Pirambu. Ele escreve, de forma apaixonada, uma declaração de amor ao bairro, ao qual sua história se entrelaçou.

[...] mas, primeiro, vejamos como se passavam as coisas no Pirambu. [...] as brigas por terra era de se matarem. Ninguém queria lugar nas ladeiras instáveis, só queria onde não desse trabalho. Era só armar o barraco e pronto. A lei do mais forte reinava. Muitas vezes acontecia que uns imbecis pensavam que faziam um bom negócio vendendo seus barracos bem situados e depois iam mexer com aqueles que eram mais baixos, tomando quintais, becos, etc. A polícia grã-fina e todo-poderosa sempre dava razão a quem gritava mais alto. [...] E, assim, aquele forte protegido expulsava pouco a pouco os fracos do seu sossego. Uma dessas injustiças foi a causa de uma grande revolta. Um sentenciado, devedor de vários crimes, tentou se instalar num quintal. O povo temia porque sabia de sua má conduta. O perigoso assassino portava uma peixeira de trinta centímetros. Nu da cintura pra cima, agitava a peixeira no ar, se gabolando de já ter mandado três para o inferno com ela (SILVA, 1999, p. 24).

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Havia sempre alguém com uma história negativa para contar sobre o Pirambu. E, via de regra, com os mesmos ingredientes, prostituição e brigas que terminavam em mortes. Um dia, testemunho que, um cantinho do velho Pirambu tornou-se um verdadeiro campo de batalha. Cinco homens contra um lutaram até morrer por seus direitos, que vinham sendo arrebatados pelo criminoso. Não vou me ater em descrever detalhadamente esse episódio, por achá-lo por demais escabroso, até mesmo para os dias de hoje. Algo que, em muito, colaboraria para justificar os preconceitos de que o Pirambu é vítima. Mas não se pode negar que o receio das pessoas com relação ao Pirambu não era de todo infundado, basta citar dois ou três fatos descritos no livro do Geraldo Walmir Silva, Memória Viva do Pirambu: O Velho Pirambu de Muletas nas Mãos. Walmir foi um ativista incansável, que, com outros companheiros, batalharam pela melhoria do bairro. Essa luta, aliás, perdura até os dias atuais, como ele mesmo descreve: O Pirambu precisava de uma guerra para quem vencessem a consciência e a coragem. E quem teria coragem de enfrentar essa parada? Ninguém. Assim, no Pirambu, todos se aproveitavam de todos. Ninguém queria ajudar ninguém, e todo 20


mundo tinha medo desses enfrentamentos, pois se sabia, com certeza, que se encontraria a morte antes de uma solução qualquer (SILVA, 1999).

Os relatos de quem testemunhou o abrutalhamento que a miséria causa nas pessoas são contundentes. Levanos a pensar o Pirambu, à época desses acontecimentos, como uma espécie de mundo-cão, onde cada um fazia do seu jeito sua própria lei e justiça. Assim, os mais fracos eram expulsos de seus casebres, e quem quisesse permanecer tinha que disputar pelo que era seu, na maioria das vezes, até a morte. Mas os acontecimentos não se resumiam apenas às disputas por espaços: Havia barracos de três metros de largura por quatro de comprimento que abrigavam uma família numerosa, com apenas uma divisão no meio. Aqueles barracos serviam de chatô. Era muito comum. O desrespeito reinava com toda autoridade. Era o meio de ganho daquela gente errada. Certas mulheres tinham cinco homens, e os filhos eram uma mistura de toda qualidade. A fome comandava todas as ações. As crianças eram verdadeiros faquires. A quantidade de pestes ignorados era um absurdo. Mas o comandante de tudo era a tuberculose. [...] O modo de vida daquelas crianças 21


era como se fossem cães abandonados, sem saber quem eram os pais. O costume de viverem nus não os incomodava. [...] Um cheiro estranho recendia dos corpos daquelas crianças. Sua higiene corporal era tão crítica que o suor grudento exalava diferente, seu asseio se resumia a mergulho nas águas do mar. [...] as misérias assolavam o Pirambu. Nada de bom se podia encontrar. Nunca o Pirambu foi visto a olho nu pelos poderes do Ceará. Tudo de ruim se procurava neste Pirambu, e se encontrava. Toda praga só corria para este inferno de areia (SILVA, 1999).

Walmir não faz concessões quando descreve as histórias que viveu e presenciou no Pirambu. Em todo tempo de morador do bairro, a exemplo de também outros moradores, batalhou para mudar a realidade do lugar. Muitas vezes, ele e seus companheiros punham em risco a integridade física e, até mesmo, em alguns momentos, temeram por suas vidas, muito embora jamais desistissem. Segundo Walmir, os batalhadores por dias melhores para o Pirambu tiveram um aliado forte, o jornal Gazeta de Notícias, principalmente o jornalista Lesso Bessa, a quem Walmir faz muitos elogios:

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O grande e dinâmico Lesso Bessa da Gazeta de Notícias, com uma pena severa, se lançava num rio de tudo que não prestava. A ele o Pirambu deve tudo. A Gazeta de Notícias logo foi esquecida por todos aqueles de quem falava esse digno jornal sem nada pedir em troca. O grande jornalista faleceu, mas deixou um Pirambu já bem aprumado (sic) (BESSA, 1999).

O pirambuense diz ainda que, graças a Gazeta de Notícias, e em especial ao jornalista Lesso Bessa, a sociedade fortalezense tomou conhecimento da miséria infinita pela qual passava o maior bairro do Ceará à época. Miséria esta que as autoridades faziam de conta não existir e os demais jornais só tomavam conhecimento quando havia crimes que produzissem manchetes sensacionalistas. Junto ao jornal Gazeta de Notícias, na figura de Lesso Bessa, Walmir tem importante atuação no serviço social dentro do Pirambu.

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Deus e o Diabo sob o Sol e o sal do Pirambu

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om a industrialização, várias fábricas concentraram-se na zona oeste de Fortaleza, mais precisamente na avenida Francisco Sá, que ia do Riacho Pajeú, no Jacarecanga, até as margens do rio Ceará, na Barra do Ceará. Grande parte dos operários dessas indústrias moravam nos bairros humildes e nas favelas que cresceram nas proximidades concomitantes ao surgimento das fábricas. Ou seja, o operariado passou a residir em bairros pobres ou em favelas, desde que fossem o mais próximo possível das fábricas onde trabalhavam.

Em 1922, além da Semana da Arte Moderna, obviamente aconteceram vários outros fatos relevantes para o país. Entretanto, um dos fatos ocorridos, a mais de dois mil quilômetros de Fortaleza, teve alguma relevância para o Pirambu. No dia 25 de março de 1922, em Niterói, cidade do estado do Rio de Janeiro, estudantes, intelectuais e operários fundaram o Partido Comunista Brasileiro – PCB. A zona oeste de Fortaleza, principalmente o Pirambu, estava povoada por gente carente, dentre a qual incluíamse os operários que, mesmo empregados nas fábricas, não viviam bem. 25


A verdade era bruta e os comunistas perceberam que havia grandes possibilidades de suas ideias florescerem: o Pirambu certamente era um terreno fértil. E, para constatar isto, eles logo chegaram ao bairro para prover a consciência política às massas exploradas pelo capitalismo cruel. E, assim, nos dez anos de 1940 a 1950, os comunistas passaram a organizar os operários do Pirambu e deram forma aos movimentos sociais. A influência do Partido Comunista Brasileiro era perceptível no operariado das indústrias da zona oeste da cidade. Mas não podemos deixar de observar que a militância do PCB só se deu de maneira parcialmente deliberada porque, depois da derrubada da Ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) e da promulgação da Constituição de 1949, o Brasil experimentou relativo período de democracia até 1964, principalmente de 1956 a 1961, no governo de Juscelino Kubitschek, que foi sucedido pelo sul-matogrossense radicado em São Paulo, Jânio Quadros, o qual, ainda em 29 de agosto de 1961, “renunciou”. Ainda que, com a renúncia de Jânio Quadros, o vice João Goulart tenha assumido, a repressão, que até então fizera vista grossa, na última noite do mês de março de 1964, explodiu. Os militares, então, efetivaram o golpe que já vinha sendo arquitetado e articulado desde o início dos anos 1960. 26


É claro que os conservadores, principalmente os responsáveis pelos órgãos de repressão política, já estavam de orelhas em pé, mas apenas rosnavam contra as ações dos comunistas, que agiam abertamente no Pirambu disseminando os ideais socialistas no operariado das indústrias da zona oeste de Fortaleza. No bairro, o partido crescia. Já havia até um Comitê Democrático de Libertação Nacional e da Sociedade de Defesa do Bairro do Pirambu. O PCB sempre esteve lá junto ao povo, entre outras coisas, ensinando a lutar por terra, trabalho e pão.

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O Padre

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rancisco Hélio Campos, Dom Hélio Campos ou simplesmente Padre Hélio, como ainda hoje o chamam, também era um sertanejo, assim como os demais que deram origem ao bairro. Ele nasceu no dia 24 de julho de 1912, em Itatira, à época, distrito de Quixeramobim – mesma cidade onde nasceu Antônio Conselheiro, mártir da Guerra dos Canudos –, município que integra o Sertão Central do Ceará, uma das regiões que mais sofre secas no Estado.

Hélio Campos é uma mostra de inquestionável envolvimento, não apenas na história religiosa do Estado do Ceará, mas principalmente na formação deste lugar, pois, no que diz respeito ao Pirambu, nem sempre tudo foi só água benta e hóstia, não. Para um exemplo desta afirmação, um trecho do depoimento do teatrólogo e músico, morador do Pirambu, Francisco Carlos da Silva, o Carlos Careca: Quando o Padre Hélio chegou em 1958, no Pirambu, a cidade se encontrava em poder dos comunistas bem organizados. Ele não foi recebido de braços abertos pelas lideranças da época [...]. Não custou muito, o novo pároco contou com a ajuda de 72 homens 29


dispostos a passar pelo fogo por ele. Cada semana, o Padre dava aulas de formação e os representantes do bloco de casas, em número de 247, juntos com seu vigário, prestavam contas publicamente sobre tudo que, durante a semana, fizeram um favor do Pirambu. No espaço de quatro anos, converteuse o Pirambu comunista numa comunidade cristã fervorosa. Todo o poder passou a se concentrar nas mãos do Padre Hélio (SILVA, 1999).

Quem conheceu Padre e/ou conviveu com ele, direta ou indiretamente, tem orgulho ao pronunciar seu nome. Os relatos de sua história se entrelaçam com a própria história do bairro, como dois pés de plantas que se enxertam na mesma raiz, num período de dez anos, como escreve o Diácono Fernando Costa: Dom Hélio Campos foi quem libertou o Pirambu, um bairro proletário de 40.000 habitantes existente em Fortaleza, do analfabetismo, da prostituição e de doenças. De 1959 a 1969, realizou um trabalho com os habitantes do bairro praticamente sem nenhuma ajuda oficial, e somente com a ajuda do Vaticano, Arquidiocese de Fortaleza e particulares. Devido a este trabalho heroico, foi objeto de reportagem do Times, Le Monde, Paris Mutch entre outros jornais europeus (COSTA, s/d). 30


Todos que conheceram o Padre Hélio são unânimes em enaltecê-lo como um homem bom, de riso fácil, corajoso na luta não só pelo bairro, mas, acima de tudo, pelos desfavorecidos. Francisco Hélio Campos fazia parte de uma família de sete irmãos, cinco eram vocacionados à religião católica. Gerardo José Campos, um dos irmãos, também era Padre e veio a ser o autor do Hino do Pirambu. Acredito que a profunda formação religiosa que Francisco Hélio Campos teve para sua ordenação, ocorrida em agosto de 1937 (um ano de seca no Ceará), estava em seu âmago, nas suas raízes de gente do sertão, no conhecimento e no reconhecimento das dores que padeciam e ainda padecem os sertanejos, principalmente quando atingidos pelas calamidades climáticas do sertão. Não só por isso, mas certamente por isso também, Padre Hélio, ao chegar no Pirambu em 1958, lançou-se de corpo e alma na luta incansável pelos desfavorecidos.

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Porque o Padre Hélio veio ao Pirambu

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inda no interior do Ceará, Padre Hélio desenvolveu árduo trabalho nas paróquias dos municípios de Senador Pompeu e Pedra Branca. Depois, foi designado para a Paróquia do Mucuripe, zona portuária da capital cearense, localidade que já foi também famosa por sua má reputação de maior (baixo) meretrício do Estado. Já nesse local, Padre Hélio, sempre fiel aos princípios da doutrina social da igreja, viria a tornar-se conhecido por sua abnegação em favor dos mais humildes. Incansável no trabalho pelos mais desfavorecidos, sua luta foi tão memorável que, ainda hoje, é perceptível no dia a dia do Pirambu. Em 1958, Padre Hélio foi designado para o Pirambu, localidade ainda mais problemática do que a anterior, onde exercera o seu sacerdócio. O bairro em questão era tudo o que restava, era a sobra do que não deu certo do Campo de Concentração criado na capital pelo governo, por ocasião da seca de 1932, como solução para prestar assistência aos indigentes. A tal solução, que consistia em 33


encurralar milhares de sertanejos descidos ao litoral em estado de mendicância, deu-se o epíteto Curral Humano. Mas o termo técnico pelo qual o governo preferia chamá-lo era Campo do Urubu, que se localizava na orla marítima da zona oeste de Fortaleza. Ou seja, Padre Hélio recebia por herança ou “desígnio divino”, como ele preferia chamar, 26 anos de problemas, tais como o conflito por moradias e até desavenças de ordem mais pessoais. E aconteceu que estando Jesus assentado à mesa de uma casa, eis que vindo muitos publicanos e pecadores que se assentaram a comer com ele e com seus Discípulos. E vendo isto os fariseus, diziam aos seus discípulos: Por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores? Mas, ouvindo-os, Jesus disse: Os são não têm necessidade de médicos, mas sim os enfermos (BÍBLIA, MATEUS, IX:10-12).

Padre Hélio era um admirador de Charles de Foucauld, um clérigo místico francês que pregava, acima de tudo, a fraternidade no sacerdócio, dando como os elementos fundamentais cristãos a Oração do Abandono; o Evangelho da Cruz; e a busca, sempre pelo último lugar, da permanente conversão, em que a Eucaristia fosse o centro da fé cristã. 34


Segundo Luiz Alexandre Raposo, da Academia Vianense de Letras, o Padre HĂŠlio foi o primeiro religioso brasileiro a aplicar, no Brasil, a fraternidade sacerdotal pregada por Charles Foucauld, que foi assassinado por assaltantes, em sua casa, em 1Âş de dezembro de 1916, e beatificado pelo Papa Bento XVI em 13 de novembro de 2005.

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A Primeira Missa

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foi com este Pirambu que Padre Hélio deparou-se quando foi designado como Pároco desse bairro, em 1958, ano de grande seca. Dizem que Arcanjo (um fulano de tal qualquer, de carne e osso), mantinha uma gafieira muito “afamada”, situada na rua Nossa Senhora das Graças. Tenho certeza que os católicos me darão razão por eu entender que um estabelecimento desse tipo, refiro-me à gafieira, em nada condiz com o nome da Santa a dar-lhe endereço. Penso que algo similar possa ter passado pela cabeça de Padre Hélio, quando ele, antes mesmo de ser Vigário do Pirambu, aceitou rezar missa no bairro e o fez exatamente onde funcionava o rala-bucho do tal Arcanjo. Padre Hélio comprou de Arcanjo o espaço e, no local, deu início à sede provisória do que viria a ser a matriz de Nossa Senhora das Graças. Arcanjo, por sua vez, converteu-se à fé católica e tornou-se uma das pessoas mais próximas ao Padre. 37


Mesmo antes de chegar ao bairro, Padre Hélio já demonstrava ser um homem direto, lúcido, ponderado. Não havia laivos de arrogância nas ações do Padre nem nada além da sua firme mansidão. Enfrentava a tudo e a todos com seu sorriso no rosto e seu terço na mão. Contudo, a primeira missa no Pirambu, rezada no espaço onde funcionava a gafieira do Arcanjo, teve, para os “prestadores de serviços escusos” no bairro, o efeito de uma declaração de guerra. O Padre, além de sofrer constantes ameaças, ouvia palavras injuriosas. A difamação pelos seus inimigos corria solta. Sempre munido de sua fé, com um terço que não tirava da mão (mantinha-se em permanente oração), perambulava pelo bairro, tomando chegada e conhecimento de tudo que ali acontecia. O Vigário também passava privações, comendo apenas quando alguém lhe doava um prato de comida. Mas, no meio de todos esses horrores, existia uma espécie de Apartheid composto por aqueles moradores mais remediados economicamente, que se julgavam melhores do que a escumalha do entorno. Eram esses de melhores posses: donos de bodegas, comerciantes de miudezas, os empregados de carteira assinada. Walmir nos fala sobre a hierarquia social do bairro:

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[...] O setor que se chamava de soçaite. Onde se amontoava alta sociedade do Pirambu, havia uma parte do povo que se fechava naquele recanto pelo o único fato de terem uma vida melhor, e queriam uma política só para eles. Ali era o Bairro de Nossa Senhora das Graças. O outro lado era o Pirambu dos flagelados. [...] Tudo que era bom só chegava até o canto rico. Os ônibus faziam fim da linha ali, e tudo tinha que obedecer àquele punhado de gente que se trancava e prejudicava os humildes. [...] Era ali que estavam os inimigos do Padre Hélio. O vigário não queria a divisão. Tudo era Pirambu. [...] Aquela desunião não agradava a Deus. E o Padre Hélio lutou com todo o povo do Pirambu (SILVA, 1999).

Além do livro do Walmir, Memória viva do Pirambu: o velho Pirambu de muletas nas mãos, apresentarei outras publicações sobre o bairro, como, por exemplo, parte de uma entrevista que consta em nota de uma publicação da Revista de História. Conforme tal nota, a entrevista foi prestada no dia 15 de outubro de 2010 por Francisco Carlos da Silva, morador do Pirambu, um dos artistas do bairro, conhecido intimamente por “Carlos Careca”, que, além de músico, dirigiu, por muito tempo, na Semana Santa, O Mártir do Gólgota. O entrevistado diz que: 39


Ele bem organizou a sua defesa e um sistema de alarme que podia avisar no período de uma hora quarenta mil paroquianos. [...] Mesmo depois de uma declaração jurídica oficial em favor dos proprietários, o Padre continuava a defender os pobres, pois duvidava do valor da legalidade dos documentos apresentados. [...] quando 19 famílias deviam deixar suas casas, ele mandou soltar, antes das quatro horas, 19 foguetes, e imediatamente juntaram-se, bem em ordem, os homens do Pirambu, para impedir o trânsito nas entradas do lugar. As mulheres e as crianças formavam um círculo bem fechado ao redor das casas comprometidas O resultado? Não se pensa mais na possibilidade de desterrar o povo do Pirambu, sabendo que qualquer nova tentativa provocaria uma revolta pública na cidade, pois, os estudantes e operários entrariam logo no primeiro alarme do Padre Hélio, em ação (sic). (Informação verbal)

Aquele valente quixote de batina e sapatos rotos, armado com um terço e suas orações, com sua palavra mansa, mas firme, soubera reunir, em torno de si, um exército de abandonados pelo poder público, e foi com esse exército quixotesco que Padre Hélio, no dia 1º de janeiro de 1962, tomou as ruas de Fortaleza entoando o Hino do Pirambu.

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“Milagre” também requer mourejo e muita contradição

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o que tudo indica, Padre Hélio estava sintonizado com as preocupações das autoridades no que dizia respeito às influências negativas dos comunistas com suas ideias de revolução no bairro do Pirambu. Garantiu-me isso um advogado chamado Cordeiro Neto, que dizia estar inteirado do que havia de mais tenebroso nos porões da política cearense. Naquela época, comunismo para a igreja católica era uma legião de demônios. Foi, então, que Padre Hélio resolveu intervir no que o PCB fazia no Pirambu. Sob o peso da batina surrada, havia um homem civilizado e de índole pacífica. Sua luta teria como arma somente a fé imorredoura. Mesmo assim, o Padre deixou claro que não estava ali somente para rezar, mas também, entre outras missões, impedir o serviço dos comunistas. O Padre estava chegando com o aval da Igreja e a convite das lideranças naturais do bairro, que já se organizavam no sentido de reivindicar melhorias para a população local, dentre as quais, o direito à moradia. Isso porque 41


o aparecimento de “donos” das terras (grileiros) se intensificou mais ainda a partir de 1957, no território onde, desde 1932, o governo encurralou os retirantes. Queriam, a todo custo, expulsar os moradores do Pirambu. Assim, a chegada do Padre Hélio, em 1958, não só proporcionou um arquejo de esperança aos moradores do bairro, como atendeu à missão da Igreja, preocupada com o avanço da “peste vermelha”. A repressão política já começava a distribuir “amostra grátis” do que viria a ser o pós-golpe de 1964. Segundo Zé Palara, um antigo frequentador do Bar do Piçoca, no Pirambu: [...] a situação da moradia pra nós, seguia como a cantiga da perua: pió-pió-pió. Mas o negócio ficou mais russo ainda foi quando “uns tubarão” de gravata e paletó, se dizendo herdeiros da família Braga Torres apareceram no Piramba, cagando espalhado, dizendo que eram os donos do pedaço, e que a gente podia apanhar as trouxas e pegar a reta. Aí foi caixão e vela preta! Meu pai disse mesmassim pra minha mãe: “Mulher, dessa vez nós tá pebado do primeiro ao quinto”. Meu pai num conseguiu emprego nas fábricas e pra gente ir escapando ele fazia jogo-de-bicho e matava criação na moita. Pra escarrar a gente, atrás de motivo pra tomar o barraco da gente, até apareceu 42


um cara lá com policial dizendo que a carne que o pai tava vendendo era dum porco dele que tinha sido roubado, tudo cruzeta, aí pai deu de garra da goiva, eu era pivete mas enchia as mãos de banda de tijolo e eles deram lavando dizendo que iam chamar a “rádio-patrulha”, mas num voltaram até hoje. Mas antes de sair, os desgraçados jogaram creolina na carne. Aí a meninada enxotou eles “ jogando areia na carniça (sic). (Informação verbal)

Boa parte dos pirambuenses, principalmente os operários, de certo modo, já se encontravam mais ou menos traquejados, pelas ideias do PCB, no que dizia respeito ao socialismo, contudo, a chegada do Padre Hélio “trazendo a boa nova” pareceu mais coerente à maioria das pessoas, mesmo para “os politizados” mais renitentes. Não carece que sejamos experts para saber que cada ação exige estratégia. Desde o dia da chegada do Padre, ele alternava o ofício das missas com caminhadas pelo bairro inteiro, inteirando-se da situação calamitosa daquela gente. Os moradores remanescentes daquele tempo são unânimes em dizer que não havia praticamente nada, nem transportes, nem água tratada, nem serviço de saúde; não havia quaisquer arremedos que, de longe, chegasse a parecer uma imitação de que o Pirambu era um lugar digno para 43


morar. Naquele momento, repito, a batalha prioritária era a posse da terra. Foi isso que Padre Hélio viu: a flagrante miséria social. Deparou-se, também, com o Pirambu descrito no livro Memória Viva do Pirambu: o velho Pirambu de Muletas, de Geraldo Walmir Silva. O Padre já tivera contato com as lideranças forjadas nas lutas pelo bairro que antecederam sua chegada. Havia os operários politizados pela experiência dos comunistas e, ainda, existia uma grande massa desocupada que não fora absolvida pelas fábricas próximas. Já se ia distante o tempo em que, para trabalhar, era preciso apenas ter duas mãos, disposição e um pouco de discernimento. Com as mudanças na sociedade, para trabalhar, passou a ser imposta a necessidade de conhecimento, conhecimento este que só se adquire com estudo. Estudar onde, no Pirambu, se muitos não tinham sequer o que comer? O Pirambu, com todos os seus problemas sociais e estruturais, estava totalmente abandonado por seus governantes, ignorado pela sociedade e omitido do restante da cidade. Por isso a grande relevância do jornal Gazeta de Notícia, veículo de comunicação que levaria notícias do bairro aos demais moradores de Fortaleza. Não apenas notícias de violências e tragédias, como as que o Padre Hélio encontrou quando lá chegou, mas dos mais diversos assuntos e áreas. 44


O encontro fulcral

É

claro que, para enfrentar o Pirambu, além de sua fé em Deus e da mão de obra das lideranças do bairro, o Padre Hélio precisava de mais adjutório qualificado para aquela luta que seria árdua. Quando o Padre ministrava seus ofícios na Paróquia dos Navegantes no bairro Jacarecanga, conheceu uma jovem assistente social que estagiava numa fábrica de tecidos. Esta jovem era Aldaci Nogueira Barbosa, que, naquele momento, confessou-lhe sentir-se desapontada com o trabalho que estava realizando na fábrica como estagiária. Segundo ela, os diretores não apenas não entendiam, como exigiam que o trabalho desempenhado pela jovem devia estar subordinado à necessidade de controle dos operários, ou seja, que a função do Serviço Social naquela indústria ou em outra seria a de desarticular toda e qualquer tentativa de organização por parte dos operários. Nessa ocasião, Padre Hélio convidou Aldaci Barbosa para a árdua missão de educar e evangelizar o Pirambu. Esta aceitou o convite imediatamente e passou a ser uma aliada 45


imprescindível na obra do pároco. Sobre esse assunto, outro relato do Geraldo Walmir Silva:

No início da revolta social cristã, várias estagiárias do Serviço Social vieram trabalhar no Pirambu. Essas senhoritas se entregaram de todo coração às mais terríveis ruinas que passava o velho Pirambu. [...]. Elas se dedicaram a amenizar as dores terríveis daqueles que choravam e clamava por uma vida melhor. [...]. Aquelas meninas se jogaram no quente, onde as feras faziam suas moradas. Ouviram as piores palavras e decepções de rachar a terra. [...]. Essas mocinhas conheceram o Pirambu da cabeça aos pés. Elas testemunharam cenas indecorosas de porta aberta. Fecharam os olhos, porque tudo aqui era assim. [...] A prova era tanta que chamavam as Assistente Sociais de “As mulheres do Padre”. Elas trabalhavam e muito. Era de dia e de noite sem parar. As bravas assistentes sociais estavam sempre em todos os lugares (SILVA, 1999).

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“Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer” (Mahatma Gandhi)

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á registro que o bairro mais aristocrático da Fortaleza antiga, o Jacarecanga, surgiu da necessidade que comerciantes e empresários tiveram de se afastar do centro de Fortaleza. Assim, por volta de 1920, começaram a construir seus casarões, sobrados e palacetes. Tudo transcorria normalmente para os moradores desse bairro até os flagelados do sertão virem para a capital à cata de sobrevivência. Buscavam empregos nas fábricas que, há algum tempo, se instalavam pelo centro de Fortaleza e na avenida Francisco Sá. A chegada dessa grande massa advinda do interior começou a incomodar a vizinhança nobre. Principalmente quando as águas do riacho Pajeú, onde antes pescavam os moradores mais privilegiados do bairro, começaram a receber os dejetos dos casebres que surgiam diariamente nas margens da cidade e nas dunas da orla marítima que se seguia até a Barra do Ceará. Os jacarecanguenses ainda 47


resistiram até meados dos anos 1950, quando providenciaram outro lugar para morar, como os bairros da Aldeota, Benfica e Praia de Iracema. *** Na virada do ano 1961 para 1962, como era praxe, o Hino Nacional tocou em todas as rádios, concomitante às explosões do foguetório, ao buzinaço dos carros, aos apitos das fábricas da zona oeste de Fortaleza, que se misturaram a tão comum efusividade das pessoas na passagem do ano. E, na sequência do Hino Nacional, a maioria das rádios transmitiam um programa que tocava marchinhas de carnaval por várias horas. No Pirambu, após o Hino Nacional, entoaram o hino do próprio bairro, em substituição às famosas marchinhas. Foi uma passagem de ano especial, cheia de expectativa. Depois da missa em que não apenas os padres, mas todos os presentes intercederam por Nossa Senhora das Graças, a Padroeira do Pirambu, o Padre Gerardo Campos, irmão do Padre Hélio, quis, mais uma vez, ensaiar o Hino do Pirambu, que compusera especialmente para ser cantado no trajeto da Marcha do Pirambu Sobre a Cidade de Fortaleza2. 2 Mobilização popular que levou os pirambuenses às ruas em busca de melhorias quanto ao respeito à qualidade de vida e aos direitos básicos humanos.

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Chegou, então, o grande dia para os deserdados do Pirambu, que nada possuíam além da pretensão de ter, minimamente, o direito a uma moradia e que, sob esta, pudessem viver sem a ameaça do despejo e da expulsão. No dia 1º de janeiro de 1962, religiosos e lideranças naturais do bairro, moradores do Pirambu, entre outros ativistas, puseram-se em marcha, ordeiramente, rumo ao Palácio do Governo. Assim, marcharam das praias do Pirambu até a avenida Francisco Sá. Por essa mesma via, caminharam no rumo do centro da cidade, sempre cantando. Ao chegarem no início da avenida, no bairro Jacarecanga, o hino já adquirira um bom andamento na voz de todos e reverberava por entre as paredes dos casarões e palacetes dos ilustres vizinhos: “Vem vê, ó, Fortaleza/ O Pirambu passar/ Somos pessoas humanas/ Temos direito que ninguém pode tirar [...]”.

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De como os Davis de Padre Hélio venceram os Golias de um superior de Duque de Caxias

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adre Hélio, como um Moisés, conduziu seu povo, o povo do Pirambu, em marcha, sempre ordeiramente, até o Palácio da Luz e Prefeitura. De lá, dirigiram-se à Praça da Sé, onde receberam as bênçãos do Arcebispo Metropolitano de Fortaleza, Dom Antônio de Almeida Lustosa. A Marcha do Pirambu obteve a atenção da sociedade inteira. Os jornais, principalmente o Gazeta de Notícias, deram destaque ao primeiro acontecimento do ano de 1962. Nos dias subsequentes, não se falava em outra coisa na cidade. A juventude decidiu se engajar na Campanha de Recuperação do Pirambu. Para além dos antagonistas desta história, existia as autoridades, que não se manifestavam a favor do movimento e ainda se diziam donas dos terrenos. Rapidamente, quem ainda não tinha ação de despejo contra o povo do Pirambu, deu início em uma. Francisco Hélio Campos, no entanto, sabia que a Marcha não havia decidido o rumo do porvir. Além de padre, 51


ele era vocacionado ao bem e percebia, por conta de suas andanças, as necessidades do bairro. Foi isso o que o fez decidir-se pela Marcha, como um último apelo, em defesa das 300 famílias que, além de despejadas, seriam expulsas do Pirambu. De tão preocupado com a situação, pouco antes do final do ano de 1961, Padre Hélio emite um telegrama ao Ministro da Viação nos seguintes termos: Fortaleza, 15/11/61. Exmo. Ministro da Viação, Famílias do Pirambu ameaçadas de despejo de seus casebres por José Haroldo Aragão apelam Vossência sentido de salvá-las de terrível situação iminente pt Certo Vossência não permitirá monstruoso atentado pobreza Pirambu pt Gratíssimo Padre Hélio Campos (CAMPOS, Hélio. [Telegrama] 15 de novembro de 1961, Fortaleza [para] Ministro da Viação. 1).

Mesmo no texto sincopado, característico dos telegramas, é possível sentir o drama e o desespero de Padre Hélio. O jornal Gazeta de Notícias publicou duas notas oficiais: a primeira, sobre o pessoal da Campanha de Recuperação do Pirambu, reiterando total apoio às famílias ameaçadas de despejo; a segunda, sobre o Governo do Estado 52


alegando não ter responsabilidade alguma pelo iminente despejo do povo do Pirambu, que, equivocadamente, havia se instalado em um terreno da família Braga Torres. Esta família tinha, em sua estirpe, um governador do Ceará, Francisco Xavier Torres, e um militar de alta patente, Francisco Xavier Torres Junior, Brigadeiro Torres, que estivera em várias batalhas pela Independência do Brasil, lutando ao lado daquele que viria a ser Duque de Caxias. Então, os descendentes da família declaravam-se donos do Pirambu, lugar em que, em 1932, as autoridades haviam colocado os sertanejos e, agora, o governo dizia não ter envolvimento algum. Era notório que as autoridades estavam apoiando a porção rica do Pirambu. A Marcha do Pirambu não resolveu nenhum dos problemas do bairro. As questões de lá complicaram-se ainda mais, o que fez o Padre Hélio, no auge do desespero, emitir um SOS às autoridades do Governo Federal, que, por sua vez, encontravam-se em uma reunião Ministerial do Rio de Janeiro, no dia 24 de maio de 1962, uma quinta-feira. O Padre rogava pela intervenção das autoridades em defesa da população local no sentido de desapropriação das terras, pois havia sido determinada pela justiça, para a semana seguinte, a derrubada total de todos os casebres do Pirambu. O Padre disse às autoridades que os moradores haviam decidido resistir até a morte. 53


Padre Hélio também apelou para a 1ª Dama, à época, D. Luiza Távora: Lançamos desesperado apelo Vossência fim clamar junto Ministro Viação salvar famílias Pirambu visto atitude Francisco Oliveira vg procurador família Braga Torres vg quer despejálas seus casebres pt Atenciosamente Centro Social Paroquial Lar de Todos Associação Beneficente Círculo Operário (CAMPOS, Hélio. [Telegrama], 1961, Fortaleza [para] TÁVORA, Luiza. Fortaleza. 1.).

Virgílio Távora, Governador do Estado do Ceará à época, mais tarde escreveria a respeito: Ante a iminência de uma catástrofe, decidimos aceitar o desafio da História e assumir inteira responsabilidade pela medida drástica da desapropriação, que desafiava os padrões sociais vigentes. Providenciamos a preparação do Decreto de desapropriação – cuja Exposição de Motivos já se encontrava em sua fase final – Obtendo do Primeiro Ministro, em tempo recorde, sua assinatura. Assessor do MVOP levou rapidamente o Decreto à Brasília, entregando-o à Imprensa Oficial da 54


União naquele mesmo dia. Assim, no dia seguinte, 6ª-feira, já o Diário Oficial de 25 de maio de 1962 (Seção I. Parte I) publicava o Decreto 1 058, de 25. 5. 62, considerado como a “carta de alforria do Pirambu” (TÁVORA, 1986).

Em 1969, Francisco Hélio Campos foi transferido para a Paróquia do bairro do Mudubim. No mesmo ano, foi, mais uma vez, realocado. Agora, no Maranhão. Em seguida, foi nomeado Bispo Diocesano de Viana. Estranhamente, o Arquivo Geral do Centro Social Paroquial Lar de Todos, onde eram coordenadas as atividades de Recuperação do Pirambu, foi incendiado logo após a transferência do Padre Francisco Hélio Campos para o Maranhão.

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Do areal do Pirambu ao Palácio de Buckingham

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o ano de 2000, Lucien Finkelstein publicou, pela Editora Novas Direções, o livro Brasil Naïf, Arte Naïf: testemunho e patrimônio da humanidade, no qual estão registradas as obras dos maiores pintores naïf3 do Brasil. Acompanhando Henri Rousseau, o francês que é considerado o pai da pintura naïf moderna, junto a outros nomes de mesma estatuara, está o acreano-cearense-brasileiro-pirambuense Chico da Silva. Filho de uma brasileira com um índio peruano, nascido na selva amazônica, no Alto Tejo, no Acre, Francisco Domingo da Silva, Chico da Silva, quando tinha 10 anos, veio embora para Fortaleza morar no bairro Pirambu. A famosa molecagem cearense não deixaria escapar a oportunidade de apelidar aquele garoto que andava pelo areal da praia e das vielas do bairro, rabiscando muros 3 Segundo definições de Lucien Finkelstein (2001), “a pintura naïf nada mais é do que a ingenuidade em sua expressão mais autêntica, uma realidade ativa, vinda diretamente das profundezas de nossa vida ancestral. A pintura naïf pode ser considerada a arte mais direta, mais sincera e menos entravada pelas convenções”.

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e paredes, e Francisco passou a ser conhecido como o “indiozinho débil mental”. Uns anos depois, perdeu o pai. Daí em diante, sem recursos de estudo formal, para sobreviver, enveredou pelo varejo, no intuito de ganhar o mínimo para a sua subsistência. Chico perambulava pelo Pirambu e bairros circunvizinhos berrando seu pregão, oferecendo seus serviços de biscateiro-conserta-tudo. Tudo o que se propunha a consertar, consertava. Nos momentos livres, entre um trabalho e outro, pegava um giz ou torrões de tijolo branco e desenhava tudo que lhe vinha de dentro. Como tinta, usava folhas maceradas e argila ou outra coisa de onde extraísse cor para expressarse por meio dos desenhos saídos de sua alma fantasiosa, de onde provinha um perene bestiário de animais fantásticos, híbridos: galos-peixes-cobras-cães-dragões nascidos dos confins de suas reservas inesgotáveis e ignotas abastecidas, creio eu, por sua ancestralidade amazônica. Em paralelo, no ano de 1940, o suíço Jean-Pierre Chabloz, fugindo da guerra, vem para o Brasil. Mora no Rio de Janeiro, onde logo envolve-se com várias atividades ligadas às artes, faz exposição no Rio e em São Paulo. E, em 1943, conforme consta no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, vem trabalhar, em Fortaleza, na Companhia da Borracha, passando a ser responsável pelo recrutamento dos Soldados da Borracha e pela propaganda do Serviço Especial de Modernização dos Trabalhadores 58


para a Amazônia. Aqui, logo se enfronha com o mundo das artes de Fortaleza. Participa do 1º Salão de Abril e da Sociedade Cearense de Artes Plásticas e, entre recitais de violino e aulas de música, escreve para o jornal O Estado. Dizem que Chabloz era um crítico ferrenho do academicismo europeu que o Brasil importava. Não posso afirmar se essa insatisfação com as artes plásticas ou se as atividades como recrutador de Soldados da Borracha, ou se as duas levaram Jean-Pierre Chabloz a errar pelo velho Pirambu. Só posso garantir que foi numa das suas andanças pelo bairro, do meio para o fim da década de 1940, que o pintor e crítico de arte ficou literalmente de queixo caído ao dar de cara com os desenhos de Chico em um muro ou parede qualquer do Pirambu. Saiu perguntando aos moradores quem havia feito os desenhos das paredes. Sempre respondiam que se tratava de um “cara meio bilé do juízo”, o qual não podia ver um muro limpo, pois se danava a desenhar bichos esquisitos, mas que todos desconheciam sua origem. Não demoraria muito o “gringo” encontrar o indiozinho débil mental. Por sua vez, ao saber que havia um estrangeiro lhe procurando, primeiro Chico pensou que pudesse ser algum trabalho que lhe fosse render algum dinheiro. Via de regra, os gringos eram vistos como pessoas de posses. Por alguns instantes, ficou alegre com a ideia, depois, pensando melhor, cogitou tratar-se de algum problema. Chico ficou 59


preocupado e resolveu fugir, achando que o suíço alto e forte que andava no seu encalço fosse algum dono de casa insatisfeito por haver lhe “sujado” o muro. No entanto, como se estivesse em seus respectivos destinos, para o bem e para o mal, Jean-Pierre Chabloz e Francisco Domingos da Silva, o Chico da Silva, encontraram-se. Chabloz via algo de inusitado nas artes do Brasil, nos desenhos dos muros e paredes do Pirambu, completamente seduzido pelos trabalhos do índio considerado débil mental. De imediato, ensinou-lhe as técnicas de pintura à óleo e guache. Chico, mais do que depressa, aprendeu e o resultado disso foram obras exuberantes expostas e vendidas mundo afora, algumas compradas, entre outros colecionadores, pelo próprio Chabloz. Primeiro, o suíço expôs as obras de Chico no 4º Salão de Abril, em Fortaleza. Depois, foi a vez dos europeus ficarem admirados diante da explosão de originalidade das obras de um gênio pirambuense. Até o Cahiers d’Art deu destaque para a obra de Chico da Silva. Entre outras festejadas galerias na Europa, Chico expôs na badaladíssima Askanasy e passou a constar nos acervos dos colecionadores mais importantes do mundo. Em 1966, Chico da Silva expõe na XXXIII Bienal de Veneza, onde recebe Menção Honrosa. Até os nobres ingleses renderam-se ao talento de Chico da Silva: a Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, comprou obra de Chico da Silva. Do Pirambu para o Palácio de Buckingham. 60


Assim como as ondas do mar, a vida traz e leva; leva e traz na maré. Conta-se que, a princípio, a intenção de Chico da Silva era ensinar a quem queria aprender. Por isto teria criado a Escola do Pirambu, nas proximidades do kartódromo, situado a avenida Leste-Oeste. E, humildemente, ensinou a todos os interessados. Tinha deles que nem sabia pegar no pincel, mas o talento de Chico da Silva não se restringia somente à pintura. Na sua simplicidade, conseguia transmitir o que sabia. E, logo, teve aluno que estava pintando “igualzinho” ao mestre. E o que era para ser uma escola, para a imprensa, virou um caso de falsificação consentida, como disseram os jornais. Dentro da sua simplicidade, Francisco Domingos da Silva não sabia dimensionar a fama e o prestígio de Chico da Silva. O maior nome das artes plástica do Ceará, um dos maiores primitivistas, era também muito ingênuo. Na obra dele, não se encontra influência de nenhum pintor e de nenhuma escola. O estilo de Chico era único. Até que... Para Francisco Domingos da Silva, que passou muitas necessidades sobrevivendo de biscates, a única diferença que o sucesso lhe proporcionara foi passar a comer um pouco melhor, como, por exemplo, “um corredor-de-boi minando tutano no prato ou a graxa de uma mão-de-vaca se desmanchando na boca; no jantar, a pedida era enrolar a fome num lençol de bife acebolado; dia de domingo, uma peixada no capricho do jeito que somente sua esposa Dalva sabia preparar”. De roupa, o luxo de um terno de linho branco. Foram coisas 61


mais ou menos como estas que o famoso Chico da Silva proporcionou a Francisco Domingos da Silva, de resto, só uns goles a mais que agora podia beber e pagar para os amigos de pé-de-balcão. A coisa começou a degringolar. Não sei se por culpa do próprio ou se por “esperteza” de terceiros, os quais não eram poucos e, dentre estes, havia, ainda, quem se declarava até parente. O pior deles, ao meu ver, era um que se dizia sobrinho e ajudante, o mais rapinante dos seguidores de Chico. Sem o menor escrúpulo, ávidos, davam um ganho na grana que o artista podia lhes proporcionar. Aliado a isso, Chico passara a beber mais e por isso produzia menos. Por que, então, não criar uma escolinha de pintura especializada no estilo de Chico da Silva? Com o escândalo das falsificações consentidas das obras de Chico da Silva, seus trabalhos foram caindo no descrédito. Ainda assim, em 1966, Chico da Silva recebe a Menção Honrosa na Bienal de Veneza. Mas, para Chabloz, Chico da Silva já decaíra de qualidade, não era o mesmo. E o suíço, então, rompe em definitivo com Chico da Silva. Chico ainda tentou soerguer-se. Daí, então, todo quadro que pintava, além da assinatura, imprimia a sua impressão digital no canto da tela. Mas aí a ganância dos seus alunos-imitadores-parentes já havia banalizado e posto por terra, o, antes, exuberante estilo de Chico da Silva. 62


Em dezembro de 1974, três dias depois do natal, dia 27, Vicente Cavalcante Fialho, o então prefeito de Fortaleza, juntamente com o Governador do Ceará César Cals de Oliveira Filho, inauguram um espaço denominado Casa de Francisco Domingos da Silva, próximo ao Kartódromo. No entanto, em pouco tempo, até a casa do Chico foi perdida nas mãos dos aproveitadores e, onde era a casa do maior pintor primitivista do Brasil, hoje funciona uma oficina mecânica. Chico já vinha com a saúde debilitada. Em 1975, sua esposa, Dalva, falece. O choque foi grande para o artista. Em 1976, é internado com cirrose hepática e tuberculose, consegue se recuperar um pouco, mas, mesmo no processo de tratamento, continua bebendo. Chico ainda sobreviveu, não sem sofrimento, até 1985. Ainda passou por internações hospitalares. Numa delas, estive com ele várias vezes juntamente com o médico tisiopneumologista Sergio Gomes de Matos, admirador da obra de Chico, que o internou em crise na Policlínica de Fortaleza. Por fim, Francisco Domingos da Silva, o indiozinho considerado débil mental do Pirambu, morreu, mas Chico da Silva sobreviveu onde quer que exista uma de suas obras, seja autêntica ou fruto da imitação e/ou falsificação do seu estilo. 63


Nem todo Robbespierre é Maximilien, muito menos François4

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ão há nenhum exagero na afirmação de que Robbespierre, mais uma das celebridades pirambuenses, era um dos melhores artistas plásticos e mais multifacetados de Fortaleza, além de exímio desenhista, pintor irretocável e um bom escultor, inclusive usando materiais inusitados nas suas esculturas. Além das artes e ofícios, Robbespierre também “inventava”. Entre outras coisas, ele fabricou um carro de madeira, o qual algumas pessoas dirigiram. Entre estas, o Deputado do PC do B, Chico Lopes, que percorreu toda a extensão da avenida Nossa Senhora das Graças, no Pirambu, do Clube Secai até à Igreja do Cristo Redentor, dirigindo a “invenção” de Robbespierre, o Professor Pardal do Pirambu. Robbespierre era um artista plástico completo, trafegava com desenvoltura e maestria por todos os estilos, mas não se vangloriava de nada disso. Apenas lamentava não poder viver melhor como o artista que era. Ele também era um retratista impecável. No final da década de 1960 e início dos 4 Referência à Maximilien François Marie Isidore de Robespierre, advogado francês e figura importante na Revolução Francesa.

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anos 1970, ganhou prêmios com trabalhos expressionistas de um vigor inesperado. Chegou a comentar comigo que, apesar da satisfação por ser, talvez, o estilo mais honesto das artes, o expressionismo não lhe rendeu quase nenhum sustento. Ele vivia da sua arte, mas não podia se dar ao luxo de escolher o que pintar. Pegava serviços que iam da ilustração de livros aos letreiros de lojas e aos cartazes de vitrine de estabelecimentos de varejo comercial. “O povo gosta mesmo é do velho e bom impressionismo. Nesse estilo, vendo ligeirinho tudo que pinto. Barato, mas vendo. Quem tem família pra sustentar não pode se dar ao luxo de vagabundear pelas vanguardas como quem tem papai e mamãe estribados que sustenta até a amante francesa do filhinho “artista...” Aí, tome paisagem em capemba de coco... Eu reconheço que tem coisa que sai de “carregação”, sabe como é, né: labrocheira, mas as pessoas veem algum valor nas pinturas e compram” (sic). (Informação verbal)5

Os trabalhos voltados à propaganda, os letreiros, as placas de grandes dimensões, os cartazes, as faixas etc., que o próprio Robbespierre denominava “a parte casca-e-nó” 5 Relato do artista Robbespierre a Raimundo Cavalcante, em conversa informal, sem registro da data.

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do seu ofício, contraditoriamente, eram os que lhe garantiam “o grosso da renda do mês” para o sustento da família e uma melhor alimentação. No tempo que lhe sobrava, dedicava-se à execução de uma arte de mais fácil aceitação, “mais vendável”, na qual estão as pinturas das marinhas, em capembas de coqueiros e paisagens impressionista, além dos tipos populares que víamos passar, diariamente, na frente de sua casa, que lhe era também atelier. O artista também construía objetos de decoração por encomenda. Como, por exemplo, quando, de posse do livro Tratado da Heráldica Geral/ Direito Nobiliário, de Waldemar Baroni Santos, envolveu-se em estudos dos significados dos emblemas blasônicos. “Para minha felicidade e sobrevivência, acredito que está havendo um surto de heráldica em Fortaleza. De repente, parece que todo mundo que conseguiu guardar uma graninha na ‘ponta do lenço’, para não morrer no porco na hora da precisão, e acha que tem um sobrenome importante, resolveu que tem que ter um brasão da família em alguma parede da casa. E pra encurtar a história, eu já fiz brasão até para escritório de loja de sapatos, farmácia e acredite: até prum cabaré chique” (sic). (Informação verbal)6 6 Relato do artista Robbespierre a Raimundo Cavalcante, em conversa informal, sem registrada a data.

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Nesta época, Robbespierre trabalhou muito para dar conta das encomendas, não só de brasões, que, no final, descambaram para esculturas de objetos kitsch7, preferivelmente dourados os quais variavam dos saxofones às miniaturas de carros antigos, de animais de pequeno porte. Houve encomenda até de insetos peçonhentos, de tarântulas, piolhos-de-cobra, sendo os escorpiões os mais pedidos. Às vezes, acontecia de alguém chegar em sua residência e ele estar ouvindo ópera ou música clássica. E não era só por curiosidade, não. Robbespierre era aficionado por ópera. Quem não conhecia o passado do artista, estranhava o seu gosto requintado por ópera e música clássica. Assim, de fato, o pensamento de alguns deveria ser: “Esse cara deve ser de outro planeta ou, então, é doido; morando no Pirambu, gostando de música clássica e ópera, onde já se viu?”. Robbespierre já havia morado e estudado pintura no Rio de Janeiro, foi aluno de Pascoal Carlos Magno, mas, como ele dizia entre tímido e galhofeiro, não gostava de exibir meu pedigree. Por fim, Robbespierre foi um dos maiores pirambuenses. Ele tinha uma insatisfação que sempre externava 7 Termo de origem alemã usualmente empregado para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, de mau gosto, sentimentais, que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, destinados ao consumo de massa.

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com seu vozeirão que era regulado pela sua extrema humildade e timidez: Outra característica de Robbespierre, como era mais popularmente chamado, estava na sua generosidade. Era generoso por ofício da caridade. Falo de uma generosidade de matéria mais sutil.

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O Pirambu dos fazedores do bem

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oje em dia, o Pirambu não é um paraíso de folhetim, mas também não é o inferno pintado pela imprensa sensacionalista. Há, hoje, um Pirambu que deu certo e continua melhorando. Está dando tão certo que, nos últimos anos, as autoridades estão mais presentes no bairro. Há poucos anos, foi inaugurado o Projeto Vila do Mar, no Litoral Oeste, que abrange, além do Pirambu, os bairros Cristo Redentor e Barra do Ceará. Tal projeto é uma iniciativa de urbanização da orla que compreende cerca de 4 quilômetros de avenida com paralelepípedo, calçadão em pedra cariri, ciclovia, praça de convivência, quadras esportivas, campos de areia, mirante, quiosques, iluminação pública e espigões. É claro que a pobreza, em si, não é algo de que se possa ter orgulho. No entanto, há dignidade na pobreza batalhadora por dias melhores. É isto que ainda faz, hoje, o bairro Pirambu. 71


Segundo dados de pesquisas realizada pela Universidade Federal do Ceará, entre 2007 e 20098, dentre todos os bairros que compõe a zona oeste de Fortaleza, o Pirambu apresenta os piores indicadores sociais, e a menor renda média: 1,9 salário mínimo por mês. Sem falar no grande percentual de inatividade. O nível de violência ainda é um dos maiores de Fortaleza. Por equipamentos de segurança pública, o Pirambu tem o Quartel do Corpo de Bombeiros, situado na avenida Leste-Oeste; a 3ª Companhia do 5º Batalhão de Polícia Militar; e o 7º Distrito Policial, na rua Marcílio Dias. Há também, no bairro, a Casa de Saúde Nossa Senhora das Graças, na avenida Nossa Senhora das Graças; o Centro Social Urbano Governador César Cals – CSU; a Unidade de Pronto Atendimento – UPA, na avenida Leste-Oeste com rua Alves de Lima; o Posto de Saúde Jacarecanga, na rua Jacinto Mato, 944 e um Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, no Cristo Redentor. Há um Pirambu que as estatísticas não veem, a parte que deu e continua dando certo. Não sem luta, não sem sacrifício, uma parcela do bairro continua dando lições de en8 Dados retirados de cartilha que apresenta os resultados da Pesquisa Cartografia da Criminalidade e da Violência na cidade de Fortaleza, realizada pelos Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida), Laboratório de Estudos da Conflitualidade e Violência (Covio), ambos da Universidade Estadual do Ceará, e o Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará.

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gajamento político, fruto da necessidade dos desfavorecidos aliarem-se para alcançar objetivos comuns, pois o bairro continua com enormes problemas, principalmente, de infraestrutura e com níveis altos de violência, embora sejamos forçados a reconhecer que ela tornou-se uma epidemia nacional. Contudo, no que depende de organização social, há gente (certamente ainda em número insuficiente para a demanda) permanentemente engajada em todas as frentes de batalhas espalhadas pelo Pirambu, seja nas associações, seja nos projetos ou nos grupos de jovens. Exemplos desse engajamento podem ser claramente observados em diferentes iniciativas, como a dos irmãos Barreto, que vieram do Canindé prestar adjutório à gente carente do Pirambu. Adalberto Barreto, detentor de um currículo invejável, no qual, dentre outras coisas, consta que é PhD Professor da Universidade Federal do Ceará - UFC, optou por ceder seus vastos conhecimentos científicos aos carecidos de tratamentos do corpo e da alma, estando à frente do Projeto Quatro Varas. Projeto que atende não só o Pirambu, mas também outros bairros de Fortaleza, e vem prestando o serviço de assistência ao resgate dos direitos humanos de populações carentes. Assim como seu irmão, José Airton Barreto, formado em Direito, também vindo de Canindé, entregou-se 73


de corpo e alma ao Pirambu em defesa das causas dos excluídos. Logo que chegou, não só apanhou, como foi ameaçado de morte, pois a polícia simplesmente não acreditava que alguém academicamente formado em uma profissão rentável pudesse optar por morar na maior e mais pobre favela do Ceará, colocando-se em defesa dos excluídos. E assim, o bairro Pirambu vai dando certo, do mesmo modo como deu certo o Pirambu do pessoal da Casinha da Praia9, da moçada dos Grupos de Jovens e do Centro Popular de Pesquisa e Documentação – CPDOC, assim como do pessoal da Grande Entidade10. Como também continua dando certo o Pirambu do Movimento de Cultura Popular do Pirambu – MOCUPP, movimento que contou com a participação de José Gerardo Damasceno11, e outros artistas que também se dividiam entre o trabalho para o sustento e a atividade artística. Entre os artistas do MOCUPP, havia poetas, escritores, escultores, músicos, cantores, compositores, pintores não só do Pirambu, mas do Carlito Pamplona, os quais estiveram, 9 Movimento de conscientização e promoção humana realizado por sete jovens que optaram por conviver junto aos excluídos daquele bairro numa casinha na beira da praia. 10 Projeto subsidiado pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. 11 José Gerardo Damasceno (Dedé para os de casa) é personalidade artística do bairro Pirambu e atuante em questões políticas. Atualmente, está à frente da ONG Acartes – Academia de Ciências e Artes, projeto no qual vem realizando vários documentários, como o longa Poço da Pedra, obra em que dividi autoria do roteiro.

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concomitante às atividades artísticas, militando também na luta pela redemocratização do país, quando o país enfrentava a ditadura militar. O Pirambu também deu certo para os músicos, cantores e compositores, João Batista (hoje, João Pirambu), João Soares (Johnson Soares), Bernardo Neto, Ronaldo Lopes, Juracy Mendonça entre tantos outros de que, com a minha idade, já posso dar-me ao luxo de não lembrar. O Pirambu deu certo para Ery Brasil, o poeta mais irreverente que conheci; para Júnior Pirão, fotógrafo, músico e cineasta, que não pude deixar de mencionar, não só pela sua competência em tudo que faz, mas por sua generosidade e sua índole pacífica. O Pirambu do milagre do lixo, conhecido como Movimento Emaus, também deu certo; como o do pessoal do projeto Pirambu Digital12. Deu certo também para os sócios e frequentadores da Sociedade Esportiva e Cultural Arco Íris – SECAI. O Pirambu também deu certo para o generoso de sempre risonho Gilton Barbosa, que concedia o espaço de seu depósito de material para construção, lugar onde eram realiza12 Uma cooperativa de tecnologia que busca, por meio da qualificação e do desenvolvimento de pessoas, prestar serviços de alta qualidade técnica e profissional aos setores de TI de micros a grandes empresas, ao mesmo tempo em que ajuda no desenvolvimento social do entorno do bairro Pirambu.

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das tanto reuniões de militantes políticos e ativistas culturais como, também, eram realizados ensaios de peças de teatro. O Pirambu deu certo para João Eudes (Dão), para Marcus Timm, para José Maria, para o Deputado Chico Lopes, para Guaracy Rodrigues, para Carlos César, para Paiva Neves (Cordelista), para Inascelita Alves, para Rosângela, para Norma Suely, para Angélica Monteiro, para Rubão do PC do B, para Silvinho, para Luizinho, para todos os sindicalistas do bairro e para o PC do B, Partido Comunista do Brasil, com seus militantes “tribuneiros”, que, na luta pela redemocratização do país, sempre estiveram presentes no Pirambu, nas associações de moradores, nas campanhas da Associação de Moradores de Bairros e Favelas de Fortaleza. É claro, o Pirambu continua dando certo para boa parte dos seus moradores.

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O Pirambu e a retórica biliosa sabor samba-canção

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jornal O Povo de 22 de dezembro de 2011 noticiou, na matéria “Pirambu: a maior favela do Ceará e a 7ª maior do Brasil”, que o Pirambu, à época, constava na lista dos aglomerados subnormais mais relevantes do País, segundo Censo realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Segundo o próprio IBGE, aglomerado subnormal:

É o conjunto constituído por 51 ou mais unidades habitacionais caracterizadas por ausência de título de propriedade e pelo menos uma das características abaixo: – irregularidades de vias de circulação e do tamanho e forma dos lotes e/ou carências de serviços públicos essenciais (como coleta de lixo, rede de esgoto, rede de água, energia elétrica e iluminação pública) (IBGE, 2010). 77


Em mesma matéria consta, ainda, que a pesquisa realizada pelo Instituto informa que menos de 20% dos 42.878 habitantes do bairro têm esgotamento sanitário; que o Pirambu tem 11.512 domicílios, dos quais 1.514 não recebem serviço de abastecimento d’água; e, ainda, que o Pirambu tem 716 moradias sem fornecimento de energia elétrica. Há outra parte do Pirambu de que tenho prazer e orgulho de falar: as pessoas, os amigos mais chegados, os próximos e até os, apenas, conhecidos. Ouso dizer que Pirambu é, sem dúvida, o bairro da de Fortaleza sobre o qual mais se escreveu, seja pelo punho de estudiosos especializados seja pela autoria de muitos dos seus moradores orgulhosos de sua história.

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O Pirambu tem disso, sim!

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m dezembro de 1973, no dia 20, salvo engano, uma quinta-feira, havia um “rebuliço” na zona oeste da cidade. A excitação das pessoas lembrava-me vespas cabuçu13. A razão de toda aquela exaltação era a inauguração da avenida Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, popularmente conhecida por Leste-Oeste, que ligaria o Cais do Porto do Mucuripe à Barra do Ceará. É, também, na data deste evento que consta um grave acidente ocorrido no bairro. Estavam presentes à cerimônia, além das autoridades estaduais e municipais, o então Ministro Costa Cavalcante. Como era de praxe nesses tipos de eventos, aviões da Força Aérea exibiam-se. Em dado momento, um dos aviões desgovernou-se e caiu sobre uma rua do Pirambu. Foi, então, que a festa virou tragédia. O acidente matou, de imediato, 13 pessoas e várias outras foram feridas. 13 Um tipo de vespas que, por produzirem mel, são tratadas como abelhas. Elas fazem suas colmeias no chão, preferencialmente em buracos de formigueiros. São muito agressivas a qualquer aproximação e produzem um mel consistente, além de saboroso e medicinal.

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A avenida é parte essencial na mobilidade do bairro. Pode-se chegar ao Pirambu, indo ou vindo pela Avenida Presidente Castelo Branco. A população pode embarcar em qualquer das 26 linhas que trafegam por aquele corredor, mas também pode apanhar, na Praça Castro Carreira (Praça da Estação), o ônibus da linha Nossa Senhora das Graças ou as mais novas opções de transporte coletivo passando pelo Pirambu, as linhas Vila do Mar/Centro e também Vila do Mar/ Antônio Bezerra. O ônibus N. S. das Graças trafega pela Leste Oeste, entra na avenida Nossa Senhoras das Graças, um pouco depois do SECAI, conduz seus passageiros, passando pela Igreja e a Casa de Saúde, o Sindicato dos Metalúrgicos, o Projeto Chico da Silva e pela Fábrica de Bolos, indo, em toda extensão da avenida, até a Igreja do Cristo Redentor. Em todo seu trajeto a avenida N. S. das Graças é mesclada de residências e comércios. Robbespierre, não o revolucionário francês, mas o artista plástico morador do Pirambu, dizia que o comércio do Pirambu era tão extenso e variado que: “O que você não encontrar da feira de Caruaru, pode procurar no Pirambu que encontra. Até máquina de desentortar chifres aqui tem”. A avenida Leste Oeste, de um extremo ao outro, é quase totalmente repleta dos mais variados estabelecimentos comerciais e serviços. Logo no seu início, no Forte de 80


Nossa Senhora de Assunção, funciona a 10ª Região Militar e a Capelinha de Santa Teresinha, que só não foi, ainda, demolida por força da mobilização pública, tendo sido ameaçada tanto pela construção de um hotel na área como pela avenida Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Ali próximo, foi edificada uma imagem de 11 metros de Santa Edwiges; há também o Quartel do Bombeiros, a Igreja Inacabada de São Francisco de Assis, o Kartódromo César Cals e a Escola de Aprendizes Marinheiros.

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De ave a peixe: uma dolorosa e permanente transfiguração

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alguns animais, para serem o que são, a natureza impõe-lhes modificações, até ao homem, segundo os evolucionistas. Assim, alguns insetos, moluscos, anfíbios e até alguns peixes sofrem metamorfoses. Girino vira sapo, larvas e pupas viram borboletas e até mosquitos. E até nós, no estágio atual, segundo Raul Seixas, estamos permanentemente submetidos à “metamorfose ambulante”.

A localidade que nasceu como ave de rapina, Campo do Urubu, metamorfoseou-se em peixe-roncador, Pirambu. Mas a transformação não foi meramente semântica, a vida pirambuense vai muito além de “troveja pau/ troveja lenha” que é a cantiga no “Maneiro Pau”. Porque, no Pirambu, quem gosta de moleza, lá pode até estacionar, mas não fica. E assim, a metamorfose do Pirambu ocorreu e ocorre pela conscientização política, pela mobilização popular. Claro que o bairro não está, de todo, transformado, mas continua no processo de transformação. Não tenho dúvidas de que o Pirambu chegará lá, nas cabeças, por uma 83


razão simples, o povo “invocado” do Pirambu não negligenciou o seu passado que, hoje, é usado como lição para garantir um futuro bem melhor. Salve Padre Hélio! Salve Aldaci Barbosa e Assistentes Sociais! Salve José Maria Tabosa! Salve Gilton Barbosa! Salve Gilberto Alves, para mim, o melhor mímico que já vi! Salve a Moçada da Casinha da Praia! Salve o Fanta do Bar da Cibresme! Salve a gente boa do Emaus! Do Pirambu Digital! Salve meu querido amigo Francisco Antônio Manjath! Salve Padre Aroldo e os combativos companheiros do PT! Salve “Os Tribuneiros” do PC do B! Salve Dona Lourdes Damasceno, parteira do Pirambu por muitos anos! Salve Padre Caetano, que me permitiu montar o Mártir do Gólgota dentro da Igreja do Cristo Redentor! Salve Seu Cristino e Dona Hosana, os pais da Família Alves! Salve Liana Cavalcante e Gleilton Silva, os mais novos papanguseiros que alegram as ruas dos Pirambu com sua arte! Salve o Grupo Teruá! Salve Claudia Damasceno! Salve Juliana Damasceno! Salve David Florêncio! Salve Junior Pirão de todos os filhos! Salve Fernando Nery, Pingo de Fortaleza, Calé Alencar, Giordani Carvalho, Ronaldo Cavalcante, Everardo Viana, que não são do Pirambu, mas são como se fossem. Salve o Cacique Rosemberg Cariri que sempre atendeu ao Pirambu até por sinais de fumaça. Salve Anderson Silva e todos os jovens que passaram pela Academia de Cinência e Artes – Acartes. Salve o Piçoca e suas buchadas! Salve Francisco Carlos da 84


Silva (Carlos Careca)! Salve Francisco de Assis Barroso! Salve João Pirambu e sua Graça, suas filhas e suas músicas! Salve Ronaldo Lopes! Salve John Soares! Salve Francisco Daniel Cavalcante (meu filho), pela paciência com que me ajudou a contar o aqui con(s)ta! E salve todos de quem não consegui lembrar! Salve Gylmar Chaves, escritor-poeta vocacionado, antes de mais nada, ao amor pelo próximo; um dos antigos militantes da Casinha da Praia, no Pirambu, sendo hoje nome de destaque na literatura nacional. Salve! Obá ômin que, da sede dos sertanejos, com Oldumaré traçou os caminhos em busca de suas águas doces e os fez chegar à Obá olokun; E transformou as areias da praia em Eú ayê para os pirambuenses. Salve Orixá nlá! Salve Otá liá! Salve Elémi! Salve Oxalá! Salve, salve gentes do meu Pirambu de guerra e paz!

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Referências

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Este livro foi impresso em Fortaleza (CE), no outono de 2016. A fonte usada no miolo é Times New Roman, corpo 11/13,5. O papel do miolo é pólen 90g/m², e o da capa é cartão supremo 250g/m².


Vista AĂŠrea do bairro Pirambu (Anos 1950). Fonte: Arquivo Nirez.


Aspecto do bairro Pirambu antes de ser povoado. Fonte: IBGE.


Raimundo Cavalcante dos Santos nasceu em 25 de abril de 1952, em Muquém, situado no sertão de Paramoti, Ceará. É artista plástico e teve participações em exposições coletivas e individuais em algumas capitais do Nordeste, São Paulo e Brasília. Em meados dos anos 1960 e 1970, trabalhou como chargista e colunista de jornais de Fortaleza, Teresina e Salvador. É poeta e contista, com algumas publicações em coletâneas, além de autor de teatro premiado. Foi coroteirista do filme Poço da Pedra, do diretor Gerardo Damasceno; autor do romance Viventes da Baixa da Égua, Prêmio Osmundo Pontes, da Academia Cearense de Letras, em 2009.

Foto da contracapa Igreja da Paróquia do Cristo Redentor.


Pirambu raimundo cavalcante  
Pirambu raimundo cavalcante  
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