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As cidades são construídas de histórias, memórias e mistérios, feitas de um estuário de afetos, retóricas, discordâncias, interesses, apegos, datas e festas. Grandes celebrações. São os homens com seus sólidos perfis que constroem e desmancham as cidades todos os dias. A Coleção Pajeú, publicada por meio da Secretaria da Cultura do Município de Fortaleza, é uma proposta editorial que pretende reafirmar o patrimônio material e imaterial dos bairros da nossa cidade, permeada por uma consciência histórica e cidadã. Esta terceira etapa contempla os livros Conjunto Palmeiras, José Walter, Montese, Pirambu, Praia de Iracema e Rodolfo Teófilo. Além de Música de Fortaleza, da Série Fortaleza Plural; e os infantis Teatro São José e Maracatu. Foto da contracapa Igreja da Paróquia Santíssima Trindade.


JosĂŠ Walter


Obra realizada com o apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza – Secultfor. Prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Vice-Prefeito de Fortaleza Gaudêncio Gonçalves de Lucena Secretário Municipal da Cultura de Fortaleza Francisco Geraldo de Magela Lima Filho Secretária-Executiva Paola Braga de Medeiros Assessora de Políticas Culturais Nilde Ferreira Assessor Jurídico Vitor Melo Studart Assessora de Comunicação Paula Neves Coordenadora de Ação Cultural Germana Coelho Vitoriano Coordenadora de Criação e Fomento Rejane Reinaldo

Coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural Jober José de Souza Pinto Coordenadora Administrativo-Financeiro Rosanne Bezerra Diretora da Vila das Artes Cláudia Pires da Costa Diretora da Biblioteca Pública Dolor Barreira Herbênia Gurgel Diretor do Teatro São José Pedro Domingues

Secretário da Regional V Raimundo Walney de Alencar Castro


Cleudene Aragão

José Walter


Copyright © 2016, Cleudene Aragão

Concepção e Coordenação Editorial Gylmar Chaves Projeto Gráfico e Diagramação Khalil Gibran Revisão Milena Bandeira Lívia Leitão Fotos da Capa e Contracapa Rafael Crisóstomo Assessoria Técnica Adson Pinheiro Graça Martins Dados Internacionais de Catalogação na Publicação A 659 J

Aragão, Cleudene José Walter / Cleudene Aragão. - Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016. 108 p. (Coleção Pajeú) ISBN: 978-85-420-0804-3 1. Bairros - aspectos sociais 2. José Walter - Usos e costumes 3. História e memórias I.Título CDD: 918.1310


Sumário Umas palavras para começar a viagem 15 De um conjunto para um bairro, de um bairro para novos conjuntos 21 Um holandês, rezas – visitando credos 35 Culturas, folguedos – celebrando paixão 43 Sabores, cheiros – aguçando paladares 61 Personagens, ícones – revivendo afetos 65 De médico e de louco, todo mundo tem um pouco... 73 A Loura do Banheiro, a Perna Cabeluda, o Cortabundas... 75 Chifres, cornos – renovando a lenda 83 Carências, lutas – alinhavando sonhos 89 Encerrando um percurso, continuando a viagem... 95 Fontes Impressas 97 Fontes Orais 99 Referências 101


Apresentação Neste ano de 2016, a nossa cidade de Fortaleza completa 290 anos e continua a nos envolver com seu traçado urbano, história de lutas, celebrações e benquerença de nossa gente. Ao editarmos a Coleção Pajeú, que reúne escritores, memorialistas, pesquisadores, fotógrafos, revisores e designers, queremos reafirmar a trajetória histórica da nossa Capital, ao mesmo tempo que anunciamos ao universo dos nossos bairros um itinerário constituído de litoral e sertão, espaços de afetos e de memórias, singularidades e pluralidades que compõem o conjunto de nossas relações enquanto cidade e cidadãos. Nossa Coleção percorre oralidades, referências bibliográficas, travessias, séculos, perfis, datas e festas. Uma escrita fina que, muito bem, pode ser lida sob a brisa forte de nossa terra e a sombra dos palmares, mas, sobretudo, que resgata e eterniza nossos traços e belezas. Parabéns, Fortaleza! Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Prefeito de Fortaleza


Dedico este livro, em primeiro lugar, a minha prima Verana Aragão Lima, que, durante a escrita foi encontrar-se com seu pai, Chico Correia, com meu pai, Armando Aragão, e com meu primeiro amor, Régis, no Zé Walter dos sonhos, das lembranças e das saudades. E, no Zé Walter terrestre, dedico a minha mãezinha guerreira, Dona Cleide, aos meus irmãos, Simão Pedro, Arbene, Catarina, à Vaneska, que nos deu a Giovanna, e ao Antonio José, que nos deu a Júlia. A todos os membros das famílias Oliveira e Aragão, que deram sua contribuição para a história do bairro. E aos meus filhos, que ainda virão.


Agradecimentos Este é aquele momento em que a gente fica morrendo de medo de esquecer alguém, pois tanta gente generosa fez com que esse livro virasse realidade. Agradeço a Deus pela minha vida e de todos os que amo, do lado de cá e do lado de lá. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Milena Bandeira, a amiga que levou meu recado ao Universo e para a pessoa certa, Gylmar Chaves, a quem agradeço pela confiança em me convidar para escrever o livro, pela paciência e pela bela ideia da Coleção Pajeú, o que me proporcionou intensos momentos nessa viagem pelo bairro José Walter. Agradeço ao ex-prefeito José Walter Barbosa Cavalcante, por ter levado adiante o projeto mirabolante de construir o maior conjunto habitacional da América Latina naquele momento. Agradeço ao Padre Teodoro, a quem amo e respeito, por amar tanto o Zé Walter e pela disponibilidade de conversar comigo por mais de uma hora; e ao querido amigo Padre Anízio, por ter intermediado a conversa. Foi um momento muito belo e será inesquecível.


Agradeço à Rose dos Santos Maia, por ter me dado acesso a sua família, para entrevistar seu pai, o exvereador e educador social Mário Gomes Maia, que me recebeu carinhosamente em sua casa e a quem sou muito grata pelas histórias contadas, por ter me cedido uma cópia de sua entrevista ao ex-prefeito José Walter Cavalcante e me emprestado valioso material sobre a história do bairro, da qual ele é parte importante. Também agradeço ao professor Pedro Jorge Pinheiro, que foi fundamental para essa viagem, pois, além de me contar histórias igualmente maravilhosas, emprestou-me farto material gráfico de resgate histórico e de homenagens às personalidades do bairro, entre as quais ele também ocupa um lugar especial, como um realizador e guardião da memória do José Walter. Agradeço a Antonio Filho, por me emprestar seu exemplar do livro de Jansen Viana; e ao próprio Jansen Viana, pelo meticuloso trabalho de pesquisa que realizou sobre as notícias do Cortabundas. Agradeço ao professor Otávio Lemos Costa, por me emprestar a dissertação de Hélio Rodrigues, e ao autor, pelo trabalho realizado. Agradeço à Aparecida Lavor e à Cassia Barroso, pelo material da Biblioteca Pública Estadual. Agradeço também à Editora da UECE, pelo acesso ao Atlas de Fortaleza. Agradeço à Marise Olímpio, pelo resgate do começo do bairro em sua primorosa dissertação.


Agradeço a todos aqueles (principalmente gente muito querida) que me cederam retalhos de “estórias” sobre o SEU Zé Walter: Francisca Cleide de Oliveira Aragão, Maria Aragão, Maria Suzana Correia Valente, Arbene de Oliveira Aragão, Simão Pedro de Oliveira Aragão, Wellington César Franco Albino (Bebell), Fernando Antônio Arrais Sydrião de Alencar, Eduardo Sousa Nunes, Pe. Anízio Ferreira dos Santos, Auzinete Miranda, Aldacir Carlos de Sousa, Djacir Carlos de Sousa. Agradeço a todos os zewaltenses que construíram e continuam construindo esse bairro tão singular, tão vigoroso e tão prenhe de possibilidades. Agradeço a todas as pessoas do bairro com quem convivi ao longo desses anos, sobretudo aos amigos catequistas da minha juventude, e a todos que povoaram o meu imaginário, fosse com horas boas ou ruins. O que sou tem origem nessas marcas que ficaram. Infelizmente, muitas pessoas não puderam passar por essas páginas, por limitações de tempo e espaço, mas estavam em minha mente. Agradeço a todos os meus amigos queridos que me apoiaram e torceram por mim durante a pesquisa e a escrita.


Umas palavras para começar a viagem

O

convite para escrever esse livro aconteceu porque eu, descaradamente, ofereci-me para o Universo. Ao conhecer a Coleção Pajeú e ter acesso aos livros dos outros bairros, comecei a entoar o mantra: “Quero fazer o livro do Zé Walter! Quero fazer o livro do Zé Walter! Quero fazer o livro do Zé Walter!”. O destino levou meu pedido aos ouvidos da talentosa Milena Bandeira, que o levou aos ouvidos de Gylmar Chaves, editor responsável pelo projeto e por essa grande ideia de resgatar a memória dos bairros de Fortaleza. Agradeço a generosidade de todos os envolvidos nessa carta entregue pelo Universo às pessoas certas, no momento certo, pois foi um grande prazer costurar esse livro com a linha das palavras e os retalhos das “estórias” de várias pessoas que deram depoimentos sobre o bairro ao longo dos anos. Nasci e criei-me no bairro José Walter e ainda almoço lá quase todo domingo, saboreando a comida e o colo da Dona Cleide, numa rua que já foi carinhosamente apelidada de Rua do Papoco, em tempos idos, a rua 39, na 15


1ª etapa. A casa que Seu Armando Aragão comprou por volta de 1970, recebeu-me, pela primeira vez, em 1972 e, depois, meus amados irmãos, Pepê e Beninha. De lá para cá, tenho acompanhado a trajetória do meu bairro bem de perto, com suas vitórias e vicissitudes. Este livro, portanto, tem sabor de galinha caseira cozida e de lembranças que aquecem o coração, como a saudade do meu velho “figuraça”, que, hoje, habita o Zé Walter do Além. Devemos muito da memória do José Walter a várias lideranças que, ao longo do tempo, foram mobilizando os moradores e registrando as histórias do bairro, e as quais não teríamos como enumerar aqui sem cometer injustiças. Um dos principais líderes, segundo todos os que falam sobre o bairro, foi o Sr. Victor Ribeiro Neto, que já não habita o Zé Walter material, mas que ainda é recordado com muita gratidão por todos os moradores. Outra grande lutadora pelos direitos dos moradores e pela cultura tem sido dona Hilda Barros, uma das mais antigas moradoras do bairro e presidente da Associação Artesanal Padre Cícero. Nesse nosso passeio, recorremos ao bom papo do ex-vereador e educador social Mário Maia, que me contou muitas histórias em uma conversa debaixo da árvore de sua casa1 e forneceu-me cópia de um importante registro sobre 1 Entrevista ao ex-vereador, educador social e líder comunitário Mário Gomes Maia, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 06 de dezembro de 2015, na residência do entrevistado, na Rua 83, na terceira etapa do José Walter.

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a história do José Walter, um documentário independente realizado por ele, por ocasião do aniversário de 40 anos do José Walter, em março de 2010, no qual entrevista o exprefeito José Walter Cavalcante. Desfrutamos também da conversa do Professor Pedro Jorge Pinheiro2, cheia de grandes histórias, e de seu trabalho como guardião da memória impressa, que reuniu, ao longo do tempo, muitas informações e notícias e foi responsável por várias publicações sobre o Zé Walter. Recolhemos ainda o valioso testemunho do Padre Teodoro Cuypers, em entrevista oral, em que tivemos a honra de ouvi-lo por mais de uma hora. Os demais depoimentos foram colhidos a partir de publicações de duas dissertações sobre o bairro (RODRIGUES, 2000; OLÍMPIO, 2011), de revistas comemorativas dos aniversários do bairro e de notícias anteriores ou, ainda, da própria experiência familiar. Existe um José Walter do passado, um do presente e um do futuro, mas cada um deles cheios de personagens interessantes e de histórias pitorescas. Passearão por aqui alguns deles, através de lembranças, notícias, entrevistas, lendas, leituras, mas principalmente aqueles que povoam o meu próprio imaginário de “zewaltense”. Quase sempre, 2 Entrevista ao historiador, educador e líder comunitário Prof. Pedro Jorge Pinheiro, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 06 de dezembro de 2015, na residência de Mário Maia, na Rua 83, na terceira etapa do José Walter.

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as histórias, os personagens, as situações e os lugares que você encontrará aqui, fizeram e fazem parte do meu próprio cotidiano, num caldeirão de memórias compartilhadas. Muitas das histórias recolhidas de fontes “oficiais” foram sendo completadas, ilustradas e “enfeitadas” por meus familiares, vizinhos queridos da Rua 39 e demais amigos do bairro, pois todo mundo tinha uma história para contar quando sabia do projeto do livro. Um lembrava um nome da churrascaria, outro presenciou um fato histórico, outro foi protagonista da história. Todo mundo ama demais o Zé Walter. O bairro tem muito para contar. Fiquei muito feliz porque também aprendi muitos detalhes interessantes que não conhecia sobre o meu bairro. A tristeza é que, seguramente, muitas pessoas e fatos relevantes ficaram de fora, por razões de tempo e espaço. O nosso bairro é todo feito de lendas. Vamos passear por algumas delas de forma totalmente despretensiosa, bem-humorada e com desejo de leveza, para combinar com o espírito jovial do bairro. Algumas vão ficar para depois, para outros contadores de “estórias”. Outras nunca saberemos, ao certo, como começaram nem onde terminarão. Vamos inventar as nossas. Conte-me depois as suas também. O Zé Walter é, em 2016, um garotão de 46 anos, cheio de vida, cheio de planos, que poderia cantar, feito 18


nosso amado Belchior: “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte, porque, apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte”. De primeiro, a gente “viajava” um tempão para chegar no Zé Walter. Todo mundo dizia que o trajeto até o bairro era uma verdadeira viagem. Esse é o convite que trago para você. Vamos viajar para o Zé Walter?

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De um conjunto para um bairro, de um bairro para novos conjuntos

U

m dos maiores e mais emblemáticos bairros de Fortaleza, situado no Distrito de Mondubim, o Prefeito José Walter limita-se, ao Norte, com o Passaré e o Parque Dois Irmãos; ao Sul, com Pajuçara (Maracanaú); a Leste, com o Conjunto Palmeiras; e a Oeste, com o Mondubim e o Planalto Ayrton Senna (antigo Pantanal). Está vinculado, no mapa organizacional da gestão municipal, à Secretaria Executiva Regional – SER V.

Segundo dados do Censo do IBGE de 20103, o bairro conta com quase trinta e quatro mil habitantes, dos quais 53.93% são de mulheres e 46.07% de homens. Esses moradores estão distribuídos em 9.593 domicílios particulares permanentes. A maior porcentagem da população, 69.8%, tem de 15 a 64 anos, e a média de moradores por domicílio é de 3,4 moradores. Cinco anos depois, é provável que esses números já tenham sido superados. A história do bairro começa a partir do personagem que lhe dá o nome: José Walter Barbosa Cavalcante, 3 Ver: http://www.censo2010.ibge.gov.br/apps/areaponderacao/index.html

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engenheiro de formação, que foi o prefeito de Fortaleza de 1967 a 1971, em plena ditadura militar. No fim da década de 1960, o prefeito resolveu construir um conjunto para minorar o problema da falta de moradia em Fortaleza, indicada como a maior preocupação dos fortalezenses, a partir de dados de uma pesquisa encomendada pela Prefeitura ao IBOPE. Em 1968, a Prefeitura dirigida por José Walter comprou, por dois milhões de cruzeiros, um terreno que pertencia à família de Eduardo Montenegro: “O terreno estava situado no sentido sul da cidade, próximo ao Município de Maracanaú e Itaitinga, onde estava sendo instalado o polo industrial” (RODRIGUES, 2000, p. 69). Houve trinta e três mil inscrições, junto à Companhia de Habitação – COHAB de Fortaleza, de interessados nas casas. O projeto foi realizado pelo arquiteto Marrocos Aragão e o bairro foi bem planejado. Às avenidas, foram atribuídas letras e as ruas foram numeradas com as pares na horizontal e as ímpares no sentido vertical, como continua até hoje. Havia quatro tipos de casas, como nos conta, em sua dissertação de Mestrado, Marise Magalhães Olímpio. Em seu importante estudo, realizado em 2011 no Mestrado em História Social da UFC, intitulado A Sétima Cidade: trajetórias e experiências dos primeiros moradores do Conjunto Habitacional Prefeito José Walter, vemos que: 22


Segundo plantas da COHAB e entrevistas realizadas, a casa de tipo “A” tinha dois quartos, uma sala, uma cozinha, um banheiro e uma varanda, com área construída de 38,38 m2; a de tipo “B”, diferenciava-se da “A” por ter mais um quarto na outra lateral da casa e tinha 47,12 m2; a de tipo “C” tinha três quartos, uma sala, um banheiro, uma cozinha e uma área, diferenciava-se por ter uma maior área construída, 58,48 m2; a de tipo “D” tinha os mesmos compartimentos da de tipo “C”, porém possuía melhor acabamento, era forrada, continha caixa d’água e era um pouco maior com 66,54 m2. A de tipo “M” era duplex, com ponto comercial no térreo e no pavimento superior tinha dois quartos, cozinha, um banheiro e uma varanda, possuindo caixa d’água [...] (OLÍMPIO, 2011, p. 40).

Em um vídeo gravado por Mário Maia, em março de 20104, o ex-prefeito José Walter Cavalcante conta suas lembranças sobre o projeto de criação daquele conjunto que, segundo constava na época, era o maior conjunto da América Latina. Segundo o prefeito, ele fez questão de que as casas tivessem muro para poderem ter quintal, porque, afinal, todo mundo quer um quintal. O ex-prefeito 4 Entrevista ao ex-prefeito José Walter Barbosa Cavalcante, realizada pelo ex-vereador e educador social Mário Gomes Maia e filmada no dia 22 de março de 2010, no apartamento do ex-prefeito.

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sente muito orgulho por sua obra e afirma ter visitado o bairro muitas vezes ao longo desses anos, conforme conta no vídeo, explicitando sua relação afetiva com o bairro: Eu tenho acompanhado a vida do Zé Walter e eu sinto muito orgulho [...] eu tenho um amor muito grande pelo Conjunto Zé Walter. Torço freneticamente pelo seu progresso. A população de lá tem um detalhe interessante que não tem em todo o Ceará, é que ela defende o Conjunto com unhas e dentes [...] O habitante tem um amor pelo Zé Walter que é o mesmo amor que eu tenho [...] (Informação verbal)5

Conforme nos conta Rodrigues (2000), em sua dissertação sobre o bairro, a previsão de duração da obra era de dois anos: O início da construção do Conjunto Habitacional Prefeito José Walter ocorre no mesmo ano que se tem a confirmação e a criação da COHAB - Fortaleza, isto é, em 1968, e a previsão era concluí-lo em 1970 (RODRIGUES, 2000, p. 69).

Na verdade, a construção total do conjunto durou cerca de cinco anos e custou trinta e três milhões 5 Idem. Entrevista ao ex-prefeito

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de cruzeiros. A obra veio a ser concluída pelo prefeito seguinte, Vicente Fialho. Olímpio (2011) explica como foi o calendário de entrega das unidades: A entrega das casas do Conjunto Habitacional Prefeito José Walter se deu da seguinte maneira. No início de 1970, foram entregues 1.208 residências que constituíam a primeira etapa, que ia até a avenida C. Em agosto, foram entregues mais 1.810 unidades referentes à segunda etapa, localizada entre a avenida C e avenida F, e, em janeiro de 1971, estavam previstas para serem entregues mais 1.406, perfazendo o total de 4.424 casas. Porém, segundo as pesquisas, em janeiro de 1973, ainda estavam sendo entregues as casas da terceira etapa. Uma ampliação da terceira etapa, que ficou chamada de quarta etapa, foi feita, aumentando o número final de residências para 4.774. A área total do Conjunto era 221.724,76 m2 (OLÍMPIO, 2011, p. 39).

Na inauguração, os dirigentes eram Garrastazu Médici como presidente da República, Costa Cavalcanti como Ministro do Interior e, como governador do Ceará, Plácido Castelo. O presidente da COHAB - Fortaleza, à época, era Francisco Carvalho Martins. No convite da

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inauguração6, realizada em 18 de março de 1970, o prefeito e o presidente da COHAB - Fortaleza conclamavam as famílias para “participarem das solenidades de inauguração do ‘Núcleo Habitacional Integrado’, construído com recursos do Banco Nacional da Habitação”, como parte das comemorações do aniversário da autodenominada “revolução” de 1964. Sobre o nome do Conjunto, o prefeito relata, em entrevistas sobre o bairro, que foi uma espécie de “traição”, pois aproveitaram que viajara para fazer a seguinte mudança em sua homenagem: O nome do Conjunto seria N. H. I. M. – Núcleo Habitacional Integrado de Mondubim, porém José Raimundo Linhares Pontes, vereador e líder na Câmara, e o Presidente da COHAB - Fortaleza, Francisco de Carvalho Martins, aproveitando minha ida para a Alemanha, batizaram o Conjunto com meu nome.7

A inauguração foi apenas da primeira etapa, com 1.208 residências entregues, pois se temia que, ao esperar a conclusão de todas as etapas para entregar as casas, as 6 Cópia impressa cedida pelo Sr. Mário Maia. 7 Ver: Pref. José Walter Barbosa Cavalcante. Gazeta do Bairro – José Walter 25 anos. Fortaleza. Edição Bimestral, Março/Abril de 1995, p. 5-6.

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primeiras começassem a ser depredadas. O curioso é que, na inauguração, já havia muita gente morando no conjunto, não se sabe bem como. Uns passarinhos contam que havia gente que escolhia e que tinha acesso às chaves antes e também que o sorteio, às vezes, dava uns resultados bem surpreendentes: “a obtenção da casa era facilitada quando se conhecia alguém de prestígio que pudesse interceder por estes na COHAB - Fortaleza” (OLÍMPIO, 2011, p. 42). Isso já é outra história. O fato é que as pessoas começaram a morar com o conjunto ainda em situação muito precária, sem saneamento básico, sem fornecimento regular de água, sem boas opções de transporte, como afirma Olímpio (2001): As deficiências estruturais do bairro foram muitas: a má qualidade das casas, o ineficiente meio de transporte público, o irregular fornecimento de água, a inexistência de mercantis, de igreja, de escolas de segundo grau, de centros sociais e de postos de saúde. O interessante será observar que os moradores utilizavam de sua experiência, enquanto migrantes, para tentar solucionar os diversos contratempos (OLÍMPIO, 2011, p. 12).

Nos anos 1972 e 1973, houve um certo esvaziamento do bairro, porque muitas pessoas não aguentaram esperar 27


as melhorias ou acharam o bairro muito longe de tudo e devolveram, ou simplesmente abandonaram, suas casas. A partir daí, era fácil comprar uma casa por um valor baixo, como me contou Mário Maia. No princípio, só havia linha de ônibus na avenida Perimetral. Depois, a única empresa de ônibus que circulava pelo bairro, a Nossa Senhora de Fátima, oferecia um serviço muito precário e os ônibus eram conhecidos como as “carroças do Raul” (Raul era o dono da empresa)8. Muitas vezes, o morador pegava três ônibus para completar o trajeto até o Zé Walter, por causa das constantes quebras dos veículos. Essas dificuldades foram sendo superadas com muito esforço e soluções criativas. Quanto à falta de transporte, nos primeiros anos do conjunto, foram inventadas as “vaquinhas”, ou seja, o frete de veículos particulares, com o valor dividido entre os vários ocupantes. Um dos pioneiros das vaquinhas teria sido o Sr. Carlos Alberto Couto Silveira, conhecido como “Betinho” (OLÍMPIO, 2011, p. 84). As vaquinhas de ontem, hoje, têm seu descendente no transporte alternativo, as atuais Topics, que continuam sendo um apoio para a alta demanda do bairro. Nos anos 1980 e 1990 ainda se esperava muito pelos ônibus do Zé Walter. A gente ficava na parada da antiga Escola Técnica Federal do Ceará, às vezes, mais de uma hora. 8 Conversa informal com o Sr. Eduardo Sousa Nunes, morador da Rua 39.

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O povo perguntava para onde a gente ia e, ao ouvir a resposta, o pessoal dizia: “Vixe! Demora muito, né?”. Quanto à água, conta-se que muitas vezes só chegava às torneiras à noite e ainda de má qualidade, e que se tornava ainda mais rara nos períodos em que as chuvas escasseavam, o que motivou os moradores a começarem a construir cisternas, cacimbas e buscar acesso aos poços artesianos com bombas, tudo por conta própria. Na grande seca da década de 1980, a minha mãe, Dona Cleide, compartilhava com nossos vizinhos a água da “bomba” do poço que, ainda hoje, abastece a casa quando ela não quer usar a da CAGECE ou quando (raramente) falta água. Só em Fortaleza mesmo, na qual as pessoas até vaiaram o sol na Praça do Ferreira, seria possível fazer uma Festa da Luz (para celebrar a chegada da energia fornecida pela Usina de Paulo Afonso) e uma Festa da Água (para celebrar a chegada da água do sistema Pacoti-Riachão), pois era muito insólito comemorar quando esses serviços mínimos finalmente eram regularizados. Conforme nos conta Olímpio (2011), o fato é que a Festa da Água, em 24 de setembro de 1981, foi todo um acontecimento no bairro Zé Walter. A inauguração do sistema de abastecimento Pacoti-Riachão levou ao bairro o Ministro Mário Andreazza que, com Virgílio Távora, abriu a válvula da adutora: 29


Houve muita vibração popular, com muita gente dançando e tomando banho, na água que saía em fortes jatos, depois que a válvula do sistema foi acionada pelo ministro Andreazza e pelo governador Virgílio Távora (OLÍMPIO, 2011, p. 78-79).

Meus vizinhos Wellington (Bebell) e Suzana foram lá e tomaram banho nos jatos de água dessa festa. Somente após essa época, o abastecimento de água foi normalizado no Zé Walter, depois de onze anos de transtornos e lutas dos moradores. Com o passar dos anos, o que era apenas um conjunto, neste caso, o primeiro conjunto habitacional de Fortaleza, foi gerando o nascimento de outros agrupamentos ao seu redor. Uma comunidade chamada, inicialmente, de Barracal, abrigava os pedreiros que construíam o bairro e deu origem à comunidade do Ipaumirim. Depois, vieram o Residencial Marcos Freire, com blocos de apartamentos e o Conjunto Novo Mondubim, com casas ao redor da Lagoa do Catão. Surgiram ainda a comunidade do Renascer, perto do Marcos Freire, e a do Pantanal, vizinho ao Ipaumirim, hoje chamada de Planalto Ayrton Senna. Houve ainda o loteamento, chamado de Parque Montenegro, de parte dos terrenos ao longo da avenida I, 30


pertencentes à família Montenegro, dando origem a várias ruas e inclusive uma avenida, prolongamento da avenida D do Zé Walter, que vai até o Conjunto São Cristóvão. Os habitantes de todos esses pequenos bairros frequentam e relacionam-se com o Zé Walter em busca dos mais diversos serviços. Há cerca de cinco anos, começou uma ocupação dos “sem-terra” em uma parte dos terrenos da família Montenegro, na avenida Perimetral com a avenida I do José Walter. Os anos de luta travados pelos ocupantes do terreno deram origem à conquista de sua permanência no local e da construção de um novo conjunto de apartamentos populares, para atender também a pessoas desalojadas de outras áreas de Fortaleza: o Residencial Cidade Jardim, que faz parte do Programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal9. Com previsão de entrega de 5.536 unidades habitacionais no total e, ainda, em fase de finalização da construção, o programa já entregou cerca de 1.000 unidades em fevereiro de 2014, com 43,29 m2, divididos em dois quartos, sala, banheiro, cozinha e área de serviço. As famílias que já moram no conjunto há quase dois anos estão gerando novas atividades comerciais, como o rapaz que monta, todo domingo, uma tendinha na 9 Programa criado pelo Governo Federal, em 2009, na gestão do então presidente Lula, com o objetivo de dar acesso à casa própria para famílias de baixa renda.

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esquina da avenida I com a A e corta cabelo, gente que vende “pratinhos” e outros pequenos comércios de calçada. É possível que a Cidade Jardim venha a desenvolver, daqui a 50 anos, uma trajetória de crescimento similar à do Zé Walter, mas tem contra si o fato de que não conta ainda com serviços básicos: escolas, área de lazer, posto de saúde, o que aumentou a demanda para os equipamentos do José Walter. O professor Pedro Jorge questiona, no O Zé, um dos informativos que ele publica no bairro, essa falta de equipamentos: “A Cidade Jardim será contemplada de escolas, creches; postos de saúde; saneamento básico; mercado; áreas para comércio, igrejas etc.? Uma resposta que apenas a Instituição do Estado poderá responder”10. O futuro dirá, mas, em notícia publicada no jornal O Povo, por ocasião da entrega da segunda fase do projeto, afirma-se que há previsão para essas benfeitorias: O empreendimento prevê a construção de 20 salões de festa, sete campos de futebol, nove quadras, cinco pistas de skate e 72 playgrounds. De acordo com o Governo do Estado, também serão construídas três creches, uma escola estadual de ensino médio e uma Unidade de Pronto Atendimento 24 horas (UPA)11. 10 Ver: O Zé. Edição nº 1. Coordenação Prof. Pedro Jorge. 2015 11 Ver: http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2014/12/23/noticiasjornalcotidia no,3367133/400-familias-recebem-casas-no-bairro-jose-walter.shtml

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O antigo Conjunto Prefeito José Walter é, hoje, um grande bairro e agrega várias comunidades ao seu redor e até um novo grande conjunto, o que justifica que os habitantes reivindiquem sua transformação em Distrito, para conseguir novos benefícios administrativos da gestão municipal.

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Um holandês, rezas – visitando credos

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trajetória desse personagem, fundamental para a história do Zé Walter, começa com uma cena em um povoado da Holanda, na qual um menininho, o filho do meio em uma família de 16 crianças, sentado na garupa da bicicleta da sua mãe, fazia com ela, todos os dias, um percurso de três ou quatro quilômetros para irem à missa comungar. Desses percursos diários, nasceu seu amor pela Eucaristia12.

O Padre Teodoro Cuypers, nascido em 12 de setembro de 1930, sofreu na infância as consequências de duas guerras. O jovem padre veio da Holanda e instalouse na Igreja de São Benedito, onde realizava reuniões com jovens das escolas para debater a situação do País em plena ditadura militar. Nos idos de 1968, ficou sabendo que iriam construir um imenso conjunto habitacional que prometia, àquelas pessoas que vinham do interior, “o paraíso na Terra”, ou seja, morar na cidade, mas, desde o 12 Entrevista ao Padre Teodoro Cuypers, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 16 de dezembro de 2015, na residência dos Padres Sacramentinos, com a participação do Padre Anízio Ferreira dos Santos.

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começo, achou que elas iam ficar na metade do caminho e, portanto, frustradas. Conversou sobre aquela preocupação com Dom Aloísio Lorscheider (importante e amado bispo que, em 1973, viria a ser Arcebispo de Fortaleza), que lhe recomendou começar a andar pelo lugar e ver o que podia fazer por aquela gente. Quando o nobre bispo lhe perguntou como se chamaria a futura paróquia sonhada, o jovem padre Teodoro respondeu: “Paróquia da Santíssima Trindade”, uma ousadia que depois se mostrou bem-sucedida. O padre Teodoro já frequentava o bairro durante a construção e reivindicava melhorias para a população. Em 1970, saiu da Paróquia de São Benedito, no Centro, e foi morar naquele lugar inóspito, construído sobre sete lagoas, sem água encanada com fornecimento regular, sem saneamento básico, com quedas de energia, quase sem transporte. Começou a celebrar as missas no meio da rua, depois, em uma capela na rua 20, depois, no Colégio Diogo Vital de Siqueira, depois, em outros colégios e, depois, no terreno da futura Matriz. Segundo a página do site da Paróquia da Santíssima Trindade, a primeira missa do Zé Walter foi celebrada no dia 08 de maio de 1970, em frente à Escola Diogo Vital de Siqueira. A página traz ainda informação sobre os padres que passaram pela paróquia e de como começou a vida pastoral do José Walter. A casa da comunidade religiosa dos Padres Sacramentinos continua na rua 65, até hoje conhecida como a rua dos Padres: 36


A Paróquia Santíssima Trindade foi criada em 5 de fevereiro de 1971, por decreto do então Arcebispo de Fortaleza, Dom José de Medeiros Delgados, assinado por ele durante uma missa solene que recebeu o mesmo nome da paróquia. Antes da sua conclusão, as missas semanais eram na capela da casa dos Padres Sacramentinos, na rua 65, nº 40, onde funcionava também a secretaria [...] No dia 13 de abril de 1975, foi feito o lançamento da pedra fundamental na av. C, e no dia 04 de maio do mesmo ano, foi celebrada uma missa às 17h com a presença de Dom Edmilson Cruz e diversas autoridades civis e uma grande multidão de fiéis. O altar era em cima de um caminhão 13.

Há dois grandes templos católicos no Zé Walter, ambos construídos com recursos oriundos, principalmente, de doações captadas na Holanda e na Alemanha e reformados através de campanhas de arrecadação com a comunidade. A Igreja Matriz da Santíssima Trindade, situada na avenida C, teve sua pedra fundamental lançada em 1975, e a Capela Cristo Ressuscitado, na avenida N, teve a sua lançada em 1983. O poeta do bairro, José Furtado, fez sua homenagem à reforma da Igreja Matriz:

13 Ver: PARÓQUIA SANTÍSSIMA TRINDADE. Histórico da paróquia. Disponível: https://pstrindade.wordpress.com/paroquia/. Acesso em: 10 de outubro de 2015.

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A Matriz de José Walter Ganha grande distinção Concluída sua reforma Ou mesmo a reconstrução Ficou imponente e bela Seu semblante de capela Fica na recordação14 Pelas mãos, inicialmente, do Padre Teodoro e do Padre Cristiano (que me batizou) e, depois, de outros Padres Sacramentinos, e com a ajuda posterior das Irmãs Doroteias e Missionárias, foi sendo criada, do nada, uma paróquia firme, hoje consolidada e dinâmica. Seus movimentos pastorais, em muitos momentos, foram responsáveis, também, por avanços sociais e culturais, como a criação do espetáculo da Paixão de Cristo, hoje referência, e outras batalhas por melhorias no bairro, através das pastorais, como a Pastoral da Criança, que foi responsável por combater a desnutrição no Grande José Walter, e foi coordenada muitos anos por minha amiga Auzinete Miranda, uma das leigas engajadas mais respeitadas da Arquidiocese. Outros padres ícones na trajetória do bairro foram: o Padre Adriano, holandês que continuou a construção da paróquia junto ao Padre Teodoro e foi responsável pelo templo 14 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010 (Caderno), p.21.

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da quarta etapa e pelas pastorais; o Padre Humberto, também holandês, com grande apelo junto às crianças do bairro, celebrando missas próprias para elas e fortalecendo a catequese e grupos de jovens; o Padre Anízio, responsável pela consolidação da liturgia e das pastorais nas comunidades do entorno; e, mais recentemente, o Padre Ruy, antigo morador que começou como catequista e hoje é padre do Zé Walter. O Zé Walter é um bairro onde convivem, até hoje, várias religiões e crenças, mas, reconhecidamente, sua relação com a Igreja Católica é bem forte. O mais importante é que católicos ou não católicos, os habitantes originais do bairro têm no Padre Teodoro uma referência de líder da comunidade. Suas missas de vigília pascal eram míticas, com seu vozeirão anunciando: “Eis a Luz de Cristo!”. O Padre Teodoro nos ensinou que “quem tem fé não tem medo e quem tem medo não tem fé”. Ele não teve medo de se unir ao destino daquele povo, que ele achava tão desamparado, e viver na comunidade da qual ele nunca mais quis sair e, na qual, com certeza, sempre estará presente. Quarenta e seis anos depois, com 85 anos de idade e 53 anos de vida sacerdotal, ainda é o pastor daquela gente. Há muitos credos presentes no Zé Walter, pois, além dos templos católicos, há centros espíritas, templos de diversas denominações evangélicas e centros de candomblé e umbanda: 39


A julgar pela quantidade de templos que o conjunto abriga, a comunidade de José Walter é muito religiosa. Há representações de quase todas as igrejas, da Católica à Universal do Reino de Deus, da Batista à Mórmon. A convivência é pacífica e há espaço para todos os credos (LIMA, 1996, p. 24).

No caso do Espiritismo15, as atividades no Zé Walter começaram com o Seu Leite, em sua própria casa, que ficava nas imediações da avenida D, perto de onde hoje está situado o Centro Social Urbano, mas os moradores também contavam com a sabedoria do Seu Américo, reconhecido espírita da avenida B. O primeiro Centro Espírita a ser criado foi o Grupo Espírita Alvorecer, em 1983, funcionando hoje na rua 13. Depois vieram o Grupo Espírita Raio de Sol, situado na avenida F, o Grupo de Renovação Espiritual Allan Kardec – GREAK, na rua José Lucas e a Associação Espírita Nascente de Luz – NALUZ, com sede na rua 65. Nas imediações do José Walter, temos, no Parque Montenegro, o Instituto de Educação Espírita Solar dos Girassóis, no qual a professora Ângela Linhares coordena um importante projeto social para crianças e jovens através da arte. No Planalto Ayrton Senna, há o Núcleo Espírita Bezerra de Menezes e, mais recentemente, um grupo chamado O Consolador. 15 Conversa informal com Fernando Antônio Arrais Sydrião de Alencar, presidente do primeiro centro espírita do Zé Walter.

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Há vários templos evangélicos com diversas denominações: Batistas, Mórmons, Testemunhas de Jeová, Assembleia de Deus, Presbiterianos, entre outras. No caso da Umbanda, só temos notícia do Centro de Umbanda Nego Gerson, situado à rua 49. O importante é que, tanto quanto possível em nossos dias intolerantes, todas essas religiões e crenças parecem conviver harmonicamente no bairro.

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Culturas, folguedos – celebrando paixão

N

os primeiros anos do bairro, praticamente não havia diversão. E Seu Eduardo Nunes contou-me que o pai dele, no tempo em que só havia a primeira etapa, ordenava que todos os dias o televisor fosse posto na área externa da casa, para que os pedreiros e vizinhos pudessem assistir O Zorro, à tarde, e a novela Irmãos Coragem, à noite. Essas e outras soluções criativas iam tentando paliar a falta de oferta de lazer do bairro. Em relato de Pingo de Fortaleza, citado por Rodrigues (2000, p. 73), vemos que nos primórdios do bairro havia vida cultural, apesar das dificuldades: O Conjunto era distante de tudo e de todos, ele acabava por ter que construir a sua própria vida. Para isso, tínhamos algumas residências que funcionavam como cinemas na avenida N, tínhamos outras que funcionavam como casas de show nos finais de semana, além dos festivais de música e teatro no Centro Social Urbano (RODRIGUES, 2000, p. 73).

Minha mãe conta que também havia uma sala de cinema nas imediações da avenida N, e o Seu Eduardo Nunes, 43


morador da rua 39, contou-me que se chamava Cine 2001 e funcionou entre 1970 e 1971. A vida cultural do Zé Walter contou, ao longo do tempo, com vários artistas, segundo Rodrigues (2000, p. 86): o bonequeiro Pedro Boca Rica, a atriz Antonieta Noronha, o cantor e compositor Pingo de Fortaleza, o artista plástico Sebastião de Paula, do Grupo Fratura Exposta, o poeta José Furtado de Carvalho, o carnavalesco, aderecista e produtor cultural Francisco Antônio da Silva – o Baby, entre muitos outros que movimentaram e continuam movimentando a arte e a cultura no bairro. Na edição comemorativa do Expresso O Zé aos 45 anos do bairro16, são mencionados ainda os seguintes artistas: Kelson Telles, artista plástico; Halen dos Santos, bonequeiro; José Brasil, músico; Roberto Gadelha, cantor; Kdyn, cantor; Regina Carla, cantora; Kelly Kelline, cantora; e Lenilson Borges, tecladista e produtor. Também era muito comum a realização de tertúlias nas casas mesmo, quando um grupo de amigos organizava-se e conseguia todo o equipamento necessário. Havia umas festas emblemáticas, como o Som do Edson, o que rolava era rock, e o do Marco Polo, na avenida F, que tocava de tudo no som mecânico17. 16 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p.14. 17 Conversa informal com o Sr. Eduardo Sousa Nunes, morador da Rua 39.

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Lembro-me bem de, criancinha, ficar espiando uma tertúlia da rua 39 do lado de fora, onde tocava Patrick Dimon e similares e as mocinhas e os rapazes da vizinhança se apertavam na música lenta ou divertiam-se “dançando solto”, como a minha amiga-irmã zewaltense Aldacir Carlos chama, até hoje, o ato de ir dançar na boate. Com atividades diversas para os jovens, existiam ainda os “Centrinhos”, casas geminadas onde havia festas musicais e diversos cursos, como de arte culinária, de pintura, de pedreiro e o do MOBRAL, conforme Olímpio (2011). Dona Hilda Barros, uma das principais lideranças do bairro, era uma das responsáveis pela programação nos Centrinhos: Os Centrinhos, não previstos inicialmente no projeto do bairro, foram pensados a partir da necessidade que os moradores tinham de um espaço onde pudessem reunir-se, seja para festas ou organização da comunidade. Eles foram construídos através da junção de duas casas desocupadas. No total, eram quatro: um na rua 22, outro na rua 73, na avenida C, e o último na avenida J. Foram fechados em 1977, quando o Centro Social Urbano Adauto Bezerra foi inaugurado (OLÍMPIO, 2011, p. 94).

Segundo a minha vizinha Maria Suzana Correia Valente, lá também se dava os cursinhos de catequese, mas o que ela gostava mesmo era de sair escondida e ir para as 45


festas do Centrinho da avenida D, onde a sua mãe, Dona Maria, acompanhada do meu irmão torto Bebell, ia buscála para voltar para casa. O Centro Social Urbano Adauto Bezerra, conhecido por muito tempo como Centro Comunitário, foi inaugurado em 12 de maio de 1977, com a presença do então presidente do Brasil General Ernesto Geisel. O projeto foi do arquiteto Rocha Furtado Filho e estavam previstas atividades de formação profissional, com a oferta de diversos cursos, o atendimento em saúde, atividades artísticas e culturais e diversas modalidades esportivas, além das piscinas liberadas para o banho aos domingos (OLÍMPIO, 2011, p. 138). E assim foi por muitos anos. O C.S.U. funcionou como celeiro de várias manifestações artísticas e culturais, inclusive com a realização de Semanas de Arte do José Walter e de diversas oportunidades para os moradores. Eu mesma fiz natação lá desde pequenininha, participei de grupos de folclore e frequentei diversas festas de colégios em seu auditório, e, nos últimos tempos, minha mãe fazia ali aulas de hidroginástica. Há promessas de revitalização, mas ainda não se concretizaram totalmente. A Casa Amarela, que ficava pertinho da Igreja Matriz, foi a primeira tentativa de boate do bairro, onde as pessoas entravam e levavam um carimbo no braço ou 46


no pescoço, que garantia a entrada e saída quantas vezes quisessem. E saíam muito, já que, ao lado, na pracinha que fica diante do Centro Comunitário, havia a Feirinha, onde a moçada rodava, rodava e rodava para captar alguma paquera para levar para dançar agarradinho na Casa Amarela. Nos anos 1990, a gente saía da missa e ficava namorando numas calçadinhas que havia na parede lateral da Igreja Matriz, no maior love, até a hora em que o Padre Teodoro vinha guardar a sua Variant na garagem atrás da Igreja. Passava iluminando tudo e acabava com a festa que, nesse tempo, pelo menos no meu caso e do Régis, ainda era casta. Também era muito comum, no nosso grupo de amigos da catequese, andarmos até altas horas pelo bairro, com os rapazes indo deixar as moças em casa depois das nossas festinhas. Um clube que bombava era o Grêmio Recreativo, perto da avenida N, de propriedade do vereador Zequinha Aristides, responsável por receber shows, realizar festas e também os bailes de carnaval. Minha mãe inventava umas fantasias e íamos com meus pais e primos às festinhas vespertinas, em tempos em que a felicidade era mais simples de conseguir. Depois do Grêmio, houve um clube na esquina da Perimetral com a avenida Expedicionários, chamado Danceteria Mexe-Mexe, onde aconteciam shows de artistas 47


nacionais, como o show que assisti do grupo Absyntho (é verdade, todo mundo tem um passado, e o Ursinho Blau Blau fazia muito sucesso à época). Hoje, ocorrem festas e eventos no Le Saron Buffet e no Spaço Bello Buffet. O Zé Walter também foi o berço de variadas manifestações populares. Um dos estudos sobre o Bairro José Walter foi realizado por Hélio Alves Rodrigues, no Mestrado Acadêmico em Geografia da Universidade Estadual do Ceará, no ano 2000. Com o título As territorialidades no âmbito da vida cotidiana do bairro Prefeito José Walter – Fortaleza, Ceará, sua dissertação resgata o percurso histórico e a importância de algumas das principais festas populares do bairro. Uma das festas mais famosas é o São João do Zé Walter, que pude acompanhar como frequentadora em muitas das suas fases. A primeira festa de São João foi feita na rua 2, segundo relato do produtor cultural e carnavalesco Baby: O primeiro grande evento, consagrado como um megaevento no José Walter eram as festas juninas, que era uma única só festa, realizada na rua 2, primeira etapa do Conjunto e que nós tínhamos a participação da comunidade toda nesse evento. A participação se dava da seguinte forma: cada colégio, cada instituição, recebia uma barraca e 48


trabalhava para se manter durante essa festa de São João (RODRIGUES, 2000, p. 75).

Outro arraiá muito divertido do Zé Walter era no Polo de Lazer, ao lado do Colégio Rachel de Queiroz, organizado também na mesma dinâmica de mobilização das escolas do bairro, que montavam suas barracas para arrecadar dinheiro para suas festinhas de fim de ano, segundo o Seu Eduardo Nunes. Os alunos de várias turmas engajavam-se e as famílias iam prestigiar as barracas de cada colégio, gastando para ajudar os filhos na arrecadação. Depois, surgiram os arraiás da Cumade Chica e Genipapú, que colocaram definitivamente o Zé Walter na agenda junina de Fortaleza. Sobre o Arraiá da Cumade Chica, ela conta que: O festejo começou primeiramente em sua casa no ano de 1971 com um pequeno grupo de quadrilha, o qual se chamava Beija-Flor. No decorrer dos tempos e devido à repercussão do evento no bairro, a festa, ou mais precisamente o festival de quadrilha foi transferido para o espaço da rua e, depois, para avenida G. Não demorou muito e logo a festa muda de local, especialmente para o terreno que havia ao lado da avenida G, hoje 49


a praça do Cazuza. De lá pra cá, o festejo junino tem-se mantido nesse espaço (RODRIGUES, 2000, p. 110).

O Arraiá, que começou com Chica e Ariane, depois de uma ruptura da parceria, deu origem ao Arraiá Genipapú, capitaneado por Ariane, o que, segundo Rodrigues (2000), gerava uma rivalidade entre as festas, já que, à época de sua pesquisa, no final da década de 1990, funcionavam no mesmo espaço e tinham patrocinadores concorrentes: Esta, no entanto, construiria a sua própria festa junina, hoje conhecida como o São João do Genipapú, que é patrocinado pela cervejaria Antarctica, concorrente direta da Brahma. O fato mais bizarro é que ambas as festas realizam-se no mesmo espaço, ou seja, ao longo de toda avenida G e na praça do Cazuza (RODRIGUES, 2000, p. 110).

São 45 anos de tradição ainda atuante no bairro. A festa junina (que agora tem se deslocado para o mês de julho) tornou-se um megaevento, com patrocínio e participação de muitas quadrilhas e várias bandas de forró, sobretudo eletrônico, atraindo pessoas de toda Fortaleza. É muito reconhecida também pela campanha solidária, que faz cada ano, de arrecadação de produtos para instituições 50


carentes. Infelizmente, nos últimos anos, as festas no Zé Walter vêm sofrendo perda de frequentadores devido aos problemas com a violência. Outra manifestação artística importantíssima que ocorre no bairro é promovida pelo grupo de teatro Populart ou Associação Régis Albuquerque Monteiro, que nasceu no próprio bairro e é composto por cerca de 80 jovens atores, principalmente da comunidade do Zé Walter, e tem Expedito Garcia como seu atual diretor. O Régis foi um dos fundadores do grupo, muito amado por todos, e desencarnou acidentalmente em 1995, o que motivou a homenagem. Também foi meu primeiro namorado e primeiro amor e fiquei muito emocionada ao descobrir que o grupo leva o seu nome. Na sua origem, o Populart foi formado por jovens que participavam das atividades pastorais da Igreja Matriz e Cristo Ressuscitado e que desejavam apresentar a Via Sacra como parte das solenidades da sexta-feira santa (minha irmã, Arbene Aragão, fez parte dessa primeira fase). Por seu talento, seriedade e desejo de profissionalismo, o grupo foi ganhando força e tornou-se um grupo de artes cênicas independente da Igreja, e realiza outros espetáculos, pelos quais tem recebido inúmeros prêmios ao longo de mais de 20 anos de atividades. O seu principal espetáculo continua sendo o Gólgota: Paixão de Cristo de Fortaleza, plenamente reconhecido como um dos melhores do Ceará: 51


Com uma representação extremamente forte e atuante dentro da comunidade do José Walter e com um perfil ousado e profissional, o Grupo Populart hoje é o responsável pela a principal montagem da Paixão de Cristo de Fortaleza, tornando-se o maior espetáculo de teatro de grande porte realizado no Ceará com o objetivo de atingir grandes plateias para apreciação de um teatro de qualidade inquestionável, tendo adquirido o respeito da crítica teatral cearense18.

E, no Carnaval, nas ruas do Zé Walter, era muito comum comemorar e festejar com a prática do “mela-mela”. Era um terror sair de casa nesse período, pois se corria o risco de voltar coberto de maisena e ovos, a maior diversão dos papudinhos e das crianças do bairro. Nos últimos anos, vêm sendo divulgadas atividades de blocos de carnaval, como o bloco católico Malucos por Jesus, organizado, há nove anos, pelo Grupo de Oração Kairós como alternativa ao carnaval profano. Atuante também e já com atividades programadas para o carnaval de 201619, temos o bloco Cabeça de Touro, que se reúne no C.S.U, na rua 69, nº 181: 18 Ver: http://visitandocarloscamara.blogspot.com.br/2011/04/grupo-populart-o-anfitriao.html 19 Ver: http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2016/01/09/noticiasjornaldom,3559239/ fortaleza-tem-carnaval-em-todo-canto-da-cidade.shtml

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O Cabeça de Touro surgiu a partir da iniciativa dos jovens que fazem parte do grupo de teatro Populart, que, há 17 anos, movimentam a cena cultural na comunidade. “Queríamos mobilizar os meninos o ano todo e o carnaval apareceu como uma opção”, conta Expedito Garcia que também é ator e diretor do grupo de teatro20.

No passado, tinha grande relevância no bairro o desfile de Sete de Setembro, no qual todos os colégios e algumas agremiações do Zé Walter organizavam sua apresentação pelo dia da Pátria e que era aberto pelos Bombeiros. Como todos os alunos “tinham que” participar da “Marcha”, quem tinha dinheiro naquele ano ia vestido com a fantasia da sua ala, e quem não tinha desfilava de farda mesmo, lá na rabada. A gente passava uns meses ensaiando, junto com a banda do colégio, a participação no evento. Geralmente, no começo do desfile de cada escola, ia um carro com o capô coberto com uma colcha de cama de chenille sobre a qual ia sentada, banhada de glamour e de cetro em punho, a rainha de cada colégio. Para as que não eram bonitas, mas eram boas alunas, como eu, o sinal de prestígio no Colégio Machado de Assis era ser a porta-bandeira de uma ala usando a devida boina verde. 20 Ver: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/cidade/desfile-de-humor-eirreverencia-1.621327

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Com relação à inauguração das principais escolas do bairro, temos um interessante percurso histórico publicado na edição comemorativa de 45 anos do Zé Walter, do jornal Expresso O Zé, organizado pelo professor Pedro Jorge Pinheiro: 18/03/1970 – Inauguração do Conjunto José Walter 19/04/1970 – Inauguração das escolas Francisco Nunes Cavalcante e Diogo Vital de Siqueira 07/02/1972 – Inauguração do Colégio Profa. Silvia Helena Nogueira 06/03/1972 – Inauguração da Escola Poeta Rogaciano Leite 06/04/1972 – Inauguração da Escola Rachel de Queiroz 11/10/1973 – Inauguração da Escola Polivalente Modelo de Fortaleza 01/03/1977 – Inauguração da Escola Prof. Onélio Porto 02/05/1977 – Inauguração do Centro Social Urbano Governador Adauto Bezerra 28/12/1977 – Inauguração do Colégio Otávio Terceiro de Farias 12/11/1982 – Inauguração do Colégio Jorge Amado 05/11/1985 – Inauguração do Colégio Lima e Silva 19/01/1986 – Inauguração do Colégio Mackenzie

Outro registro importante sobre as escolas existentes no bairro, ainda em 1978, está no trabalho de Olímpio (2011), quando apresenta a ordem das escolas no desfile do dia da Independência do ano de 1998. Eu estudei no Pituchinha no primário e no Machado de Assis no ginásio: 54


Os colégios da área que participarão das comemorações à Semana da Pátria, por ordem de saída, são os abaixo relacionados: Instituto Educacional 13 de maio – Instituto E. Monteiro Lobato – Instituto Educacional Independência – Instituto Pituchinha – Instituto Sino Pinheiro – Instituto Machado de Assis – Instituto Prof. Pardal – Instituto Pequeno Sábio – Instituto Henrique Jorge – Instituto Prof. Sílvia Helena Nogueira – Educandário 21 de Julho – Escola de 1º Grau Rogaciano Leite – Escola Casemiro Montenegro – Educandário Baby – CSU Gov. Adauto Bezerra – Escola Jacinto Botelho – Estabelecimento de Ensino Dom Bosco – Escola de 1º Grau Ari de Sá Cavalcante – Escola Polivalente de Fortaleza (OLÍMPIO, 2011).

Vejamos também o relato de Rodrigues (2000) sobre um desfile de 1998, que o autor testemunhou quando pesquisava as festas do bairro: Vale salientar que o desfile caminha ao seu final, pois o mesmo encontra-se já na avenida L, próximo ao palco onde estão as personalidades ilustres e os demais convidados. Nesse momento, escola intensifica o ritmo, pois se aproxima o grande momento onde não é permitido falhar. É preciso sim, fazer o melhor para que a escola saia com uma boa imagem diante daqueles que se encontram no palco (RODRIGUES, 2000, p. 126). 55


Creio que o desfile veio perdendo força nos últimos anos, pela mudança dos tempos, pelo desinteresse dos jovens, pela criação do desfile de Fortaleza na Beira-Mar, o que motiva as escolas a se apresentarem para um público maior e, suponho, pelo esmaecimento da memória de subserviência à qual éramos obrigados durante a ditadura militar. Felizmente, os desfiles de hoje vêm substituindo o conceito de patriotismo, de caráter mais oficial, pelo debate sobre a cidadania e a construção ética do nosso País. Outro movimento social que está prestes a completar 10 anos é a Parada Gay do José Walter, organizada pelo movimento LGBT do bairro e realizada anualmente no último domingo do mês de outubro. Em 2014, o vereador Paulo Diógenes (PSD) apresentou um projeto sobre Parada Gay: Começou a tramitar, nesta terça-feira (14), na Câmara Municipal de Fortaleza, um projeto de Lei Ordinária 240/2014 para incluir no calendário oficial de eventos de Fortaleza a Parada Gay do bairro José Walter21.

O futebol também é uma das atividades lúdicas de destaque no bairro Zé Walter. O Sr. Eduardo Sousa Nunes, técnico do 34 Sport Clube: o meu irmão, Simão Pedro, 21 Ver: http://blogs.diariodonordeste.com.br/edisonsilva/camara-municipal/projeto-querincluir-parada-gay-no-bairro-jose-walter-no-calendario-oficial-de-fortaleza/

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viciado em futebol; e o meu irmão torto, Bebell, contaramme alguns fatos sobre a história do esporte no bairro. Na época da fundação do bairro contam que havia o time COHAB. Ao longo do tempo, vários times passaram pelos campeonatos e fizeram parte da Liga do bairro, alguns que já não estão em atividade, como o Rubro-negro, o ABEC, o Nordeste, o Colonese, o Metarpe, o Borusia e o Águia; e aqueles que ainda estão atuantes, como o COPAG, o Roma, o Independência, o São Caetano e o 34 Sport Clube, que, inclusive, já participou de dois amistosos internacionais. Na página da Federação Cearense de Futebol22, também consta, como clube amador, a Associação Esportiva Alvinegro, com sede na avenida I. Esses times atuam nos Campos do Nordeste (na avenida B) e do Metarpe (na avenida A), que, no passado, eram lagoas. A mobilização em torno dos times e a intenção de gerar oportunidades de lazer para a comunidade deu origem à ONG LEACB – Liga Esportiva Arte e Cultural Beneficente do Prefeito José Walter, cujo relações públicas é o Sr. Luiz Sérgio Sousa23. O Zé Walter também exportou vários jogadores de futebol para outros times de Fortaleza e de outros estados: 22 Ver: http://www.futebolcearense.com.br/2011/clubes.asp?id=4 23 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010 (Caderno), p. 20.

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Josué, que jogou no meu amado Fortaleza, no Ceará e no Goiás; William, que foi do Ferroviário; Adécio, nosso vizinho da rua 39; Neném; Tidão; Reginaldo; e Paulo César, jogador do Ceará e filho da querida Dona Olizete, que me deu o primeiro banho e praticamente salvou minha vida. Também do Zé Walter é o Sr. Luiz Bastos, que já foi um dos diretores administrativos do time do Ceará. Em termos de comunicação entre os moradores, minha tia Maria Aragão24 contou-me que, no princípio do bairro, havia uma radiadora na qual, por cinco cruzeiros, o Seu Manuel Borges anunciava os recados dos moradores. Ficava na avenida L, na 1ª etapa, onde hoje é a galeteria Chico do Frango. Hoje, retomamos essa tradição, bastante melhorada, através de vários instrumentos de comunicação e de publicidade que circulam no bairro. Uma importante contribuição para a cultura do bairro nesse sentido foi a fundação da Associação Cultural do Conjunto Prefeito José Walter, que tem como principal atividade a gestão da Rádio Comunitária FM Cultura 87,925, idealizada por Júlio Pinto e que funciona na avenida L, nº 831, há quase 10 anos, fomentando a formação de grupos musicais, profissionais em rádio, informática, produção de vídeo e realização de ações culturais. 24 Conversa informal com a Sra. Maria Aragão, minha tia, moradora da Rua 20. 25 Ver: http://fmculturajw.blogspot.com.br/

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A Associação aprovou, junto ao Ministério da Cultura, o Ponto de Cultura Nas Ondas da Rádio Cultura FM 87,9, que era organizado, em 2010, por Júlio Pinto, Carlão do Crato, Paulo Benevides, Virgínia Tavares e Karine Lima 26. A Associação também é responsável por manter vivo um dos eventos importantes do bairro, a Semana de Arte do José Walter: Nasceu, em 1987, como um movimento voluntário dos artistas do José Walter, coordenados por Carlos Benevides e Virgínia Tavares. O SAJW é um encontro anual de artistas, grupos e bandas de todos os estilos do bairro Prefeito José Walter e adjacências, sendo uma ação voltada para expressar a vontade de ser artista dos moradores. A organização prima em fomentar a cultura de nossa região, formando plateias e artistas em uma confluência comunitária e cultural27.

Mais recentemente, em 2013, foi fundada a Associação Cultural Maracatu Leão de Ouro, sob a tutela, do sempre atuante, Baby Ferreira, com o intuito de valorizar o Maracatu, uma de nossas maiores atrações culturais. 26 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010 (Caderno), p. 32. 27 Ver: http://www.propono.com.br/parceiros-projetos/semana-de-artes

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A mais recente movimentação, tanto artística quanto de política comunitária, é a ação #‎OcupeoColiseu28, que busca trazer, através de um mix de linguagens, uma ocupação cultural e artística do Anfiteatro do José Walter, popularmente conhecido como Coliseu. Inaugurado em 2012, como fruto das lutas do grupo Populart por um lugar para apresentações artísticas, o anfiteatro, construído de maneira precária, ficou sem uso até que lideranças artísticas começaram a realizar eventos mensais de música, artes visuais e intervenções artísticas e culturais29, geralmente na última sexta-feira do mês. Desse modo é que o bairro conta com movimentos sociais, artísticos, culturais e esportivos para todos os gostos e idades.

28 Ver: http://www.josewalter.com/?p=890 29 Ver: http://www.josewalter.com/?p=1676

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Sabores, cheiros – aguçando paladares

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história do lazer no Zé Walter também passa pela gastronomia, que é um nome chique para falar das gostosuras de um bom prato. Quando eu era criança, Seu Armando e Dona Cleide levavam meus irmãos e eu, nos domingos de manhã, à missa na Igreja Matriz. Antes, passavam pela feira, que ficava entre o Colégio Otávio de Farias e o colégio Rachel de Queiroz, deixavam a sacola e, na volta, faziam suas compras. Nós esperávamos ansiosos pela degustação das iguarias da feira: o sanduíche de panelada no pão d’água e a passarinha frita. Lamento informar que isso não é mais possível, pois a feira acabou faz muitos anos, supostamente devido ao advento dos primeiros supermercados do bairro ou, ainda, pelo surgimento da feira do Pantanal. Outra delícia a qual tínhamos acesso no passado eram as crocantes chegadinhas, que eram vendidas nas ruas, em um recipiente de metal, e anunciadas pelo vendedor com o toque de um triângulo. Na verdade, no Zé Walter ainda há esse comércio de comida pela rua, só que 61


hoje, raramente, passam as chegadinhas, mas temos, em nossos dias, o homem da canjica e da pamonha. Os antigos moradores lembram com saudades de seus lugares favoritos para sair, comer e beber. As principais churrascarias e restaurantes, alguns com as famosas serestas, sobretudo para o público adulto, eram o Pereirão (o primeiro de todos), a Saramandaia, a Realce, a Gramado, a Equador, a Lady Laura e, mais recentemente, o Chopão, todos já extintos. Hoje em dia, o Zé Walter conta com muitos restaurantes e lanchonetes, dentre os mais conhecidos estão: Churrascaria e Pizzaria Vieira Alves e Casa do Peixe Vivo, na Perimetral (tecnicamente estão fora do bairro, mas são reconhecidas como do bairro); Churrascaria Salviano, na avenida N; Point do Camarão, perto da Igreja Matriz; várias lanchonetes e restaurantes na praça da terceira etapa; alguns quiosques, entre os quais está o Coquito, na praça chamada de Polo de Lazer da segunda etapa; o famoso Pedim30 com seus míticos sanduíches e baião de dois para comer na madrugada, na esquina da avenida D com a rua 41; alguns quiosques na Praça do colégio Diogo, entre os quais estão os megapastéis de Los Manos. O lugar mais antigo e tradicional de delícias está na avenida Perimetral, quase chegando ao bairro, na parada da tapioca, onde você pode saborear deliciosas tapiocas ao leite de coco. 30 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, março de 2010 (Caderno), p. 6

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As principais padarias eram, no passado, a Semopan, na pracinha do Diogo, que tinha, em meados dos anos 1980, um atendente bem gatinho chamado William e vendia deliciosos lacinhos, uns salgadinhos em forma de gravata borboleta, e um maravilhoso bolo xadrez que a gente já comprava por pedaços. Também havia a Padaria Rebouças, perto do atual Bradesco, com seu imbatível bolo Luís Filipe, vulgo bolo mole. Hoje, há várias padarias, das quais destacaria a Panificadora Solimões, vizinha ao C.S.U., a Panificadora Tatiana, na rua 56, e a Padaria Geísa, na avenida N. Até uns cinco anos atrás o meu lugar favorito do Zé Walter era a lanchonete Chocante, que ficava na avenida B, em frente ao Campo do Nordeste, pois ali se fazia uma deliciosa macarronada de macarrão parafuso e os melhores canudinhos de Fortaleza (comparando inclusive com os dos buffets mais chiques da cidade), servidos com toda a gentileza pelo Luciano. Já atendi desejo de grávida (minha cunhada), levando para a Bahia um carregamento dos canudinhos da Chocante e confesso que eu também sonhava com eles quando morava na Espanha. Nos dias de jogos do campeonato de futebol do bairro, a Chocante servia caldos e pão com ovo, e contava, em suas paredes, com várias fotos dos times. Infelizmente, a proprietária decidiu encerrar o negócio. Mais recentemente, surgiu um polo de lanchonetes e restaurantes, com oferta gastronômica variada, situado 63


na avenida N com a Perimetral, na entrada do bairro. O local, que tem um grande número de frequentadores, é chamado, por alguns moradores, de Beira-mar dos pobres, e eu carinhosamente o apelidei de nossa Beira-pista, já que estão à beira da avenida N. Claro que essa lista é totalmente subjetiva e não menciona as centenas de pizzarias, galeterias, especialistas em sanduíches, restaurantes de comidas variadas, nem os pontos de pratinhos, que é uma nova tendência no bairro, nem os points de venda de “cai-duro”, as barracas de espetinhos, nem os inúmeros bares amados pelos papudinhos, nem todos os lugares de panelada, gostosinho, caldos etc. que existem em cada esquina do nosso amado bairro, porque, infelizmente, não conheço todos.

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Personagens, ícones – revivendo afetos

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Zé Walter tem muitas histórias de pessoas especiais, justamente por sua simplicidade e por sua maneira de contribuir com a vida cotidiana do bairro. Passeamos agora por algumas figuras que marcaram a história do bairro31, conscientes de que não daremos conta, nem de longe, de mencionar todos os “construtores” do bairro que, com suas lutas, sua criatividade ou sua força de trabalho, fizeram com que o Zé Walter fosse o que é hoje. Mencionaremos ainda outras pessoas que foram importantes mesmo sem ser conhecidas por todo mundo. Como já mencionamos anteriormente, o Sr. Victor Ribeiro era reconhecido por todos como uma das primeiras grandes lideranças comunitárias do bairro, poeta, leigo engajado e batalhador. Foi um dos membros da segunda gestão do Conselho Comunitário, criado para lutar por melhorias para o bairro, mas não concordava muito com a maneira como o trabalho vinha sendo conduzido. Esteve à 31 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno).

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frente de vários movimentos populares ao longo do tempo. O Seu Victor era também engajado em vários movimentos da Igreja Matriz, como a Pastoral da Família e o Grupo dos Vicentinos. Ele e o Padre Teodoro eram grandes amigos. A Sra. Maria Hilda Barros é uma das moradoras mais antigas do bairro e diretora da Associação Artesanal Padre Cícero, responsável por vários avanços para a comunidade e que, até hoje, continua nas lutas por melhorias para o Zé Walter: “Precisamos de apoio do Governo do Estado e da Prefeitura para levar adiante os projetos e ações necessários ao desenvolvimento social e econômico do José Walter”32. Em 2010, Dona Hilda participou ativamente na realização do 7º Fórum de Debates das Lideranças Comunitárias do Conjunto José Walter e Adjacências. Juntamente com Lúcia Barros e Isabel Rodrigues, é responsável pela publicação de revistas comemorativas do aniversário do bairro. Também precisamos mencionar o papel do Prof. Pedro Jorge e de Mário Maia na salvaguarda da memória do bairro. O Seu Miguel é responsável pelo cuidado do Sítio São Jorge33 e dos terrenos que deram origem ao Zé Walter, de Casimiro Montenegro e herdeiros, desde antes da fundação do bairro, e participou ativamente nos movimentos 32 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010 (Caderno), p.11. 33 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 3.

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sociais por melhorias, sendo um dos fundadores do antigo Conselho Comunitário. A Sra. Zélia Pinheiro Alam foi a primeira diretora de escola do Zé Walter, no único colégio que estava pronto quando da inauguração do bairro, o Diogo. Ela, juntamente com outras voluntárias, começou os trabalhos do colégio: Nos primeiros dias, somente a primeira etapa estava concluída, com poucas casas ocupadas. Eu, nomeada diretora do Diogo Vital de Siqueira, fiz as primeiras matrículas na calçada da escola, que fica na primeira praça do bairro e onde começou também o comércio34.

Minha amada tia Maria Aragão, que chegara ao Zé Walter em 1970, com os móveis carregados num carro de boi conduzido pelo marido Chico Correia, até a rua 20, também foi uma das trabalhadoras pioneiras do Diogo até sua aposentadoria. Nesta mesma praça do primeiro colégio, foi fundada a primeira farmácia do bairro. O seu dono foi um personagem de grande projeção na história do Zé Walter: 34 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010 (Caderno), p. 8.

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o Sr. Wilkens de Almeida Ferreira da Ponte, farmacêutico que nós, em meninos, chamávamos de “Dr. Ilco”. O Sr. Wilkens foi praticamente o primeiro “médico” do bairro, um tipo de Programa de Saúde da Família. Muita gente foi ajudada e socorrida por ele:

No bairro, como não havia hospitais, ou até mesmo Posto de Saúde, inicialmente, ficou conhecida por todos a farmácia do Sr. Wilkens, logradouro ao qual todos os primeiros moradores recorriam em caso de emergência. A farmácia, que se localizava na primeira etapa, na rua 26, próximo à bodega do Sr. Medeiros, é uma lembrança forte como ponto de encontro, soluções para a falta de saúde pública e referência geográfica no bairro (OLÍMPIO, 2011, p. 108).

Os primeiros comércios do bairro foram na rua 26, nas casas em que o modelo permitia a instalação de um ponto comercial: a farmácia do Sr. Wilkens; um frigorífico com um minimercantil, do Sr. João Nogueira Morais; e a Casa Girão, uma espécie de armarinho ou magazine: “Depois veio a Casa Girão, mas, inicialmente, os dois primeiros comércios foram a farmácia e o frigorífico São João, que era do meu cunhado irmão da Dolores” (OLÍMPIO, 2011, p. 109). 68


Também na rua 26, estabeleceu-se uma bodega que hoje vem a ser um dos maiores supermercados do bairro: o Mercantil Medeiros ou o Mercantil do Zezinho, para os moradores mais antigos. O Sr. Medeiros, mais conhecido como o Zezinho, começou suas atividades na Perimetral, durante a construção do conjunto: O senhor Medeiros era um destes bodegueiros. Ele era morador do Sítio São Jorge e passou a viver das vendas que realizava para os trabalhadores do lugar, ou seja, iniciou a atividade de comerciante antes mesmo de o Conjunto ser fundado [...] Outro dos negócios reconhecido como dos primeiros, era o mercado do Sr. Manuel Façanha, na avenida L (OLÍMPIO, 2011, p. 100-101).

No princípio, era muito comum o comércio feito pelos galegos, que vendiam produtos à prestação de casa em casa, anotados em uma fichinha. O primeiro supermercado do bairro, segundo Olímpio (2011, p. 106), foi O Barato Ltda., na avenida L. Hoje, o Zé Walter conta com inúmeras lojas em todos os tipos de ramo, grandes supermercados, clínicas, loja de móveis, restaurante, academias, escolas etc. A Dra. Maria Lígia Lavor Teixeira foi uma das primeiras assistentes sociais que trabalharam no início do bairro: “Atuando pelos centrinhos, ela realizava visitas domiciliares 69


fazendo o levantamento das necessidades básicas da população, como educação, saúde e condições de moradia”35. A Igreja Matriz contou sempre com grandes colaboradores, mas temos que mencionar a Dona Francisca Pérsico, que foi secretária e dirigente da liturgia durante muitos anos: a Dona Neuma, também da liturgia; a Dona Francisca Pio; a Dona Francisca, zeladora; e muitos mais leigos que ajudaram nos movimentos do bairro. A Dona Luiza de Abreu Paiva36 é famosa por ser a moradora com mais idade, pois, em 2015, completou 106 anos de idade. Mora no Zé Walter desde 1980, na rua 35, e apresenta muita vitalidade. E os moradores da “Casa Verde”37, na rua 6 da primeira etapa, são famosos porque a parte externa é toda recoberta por vegetação e a parte interna abriga uma coleção de objetos considerados verdadeiras relíquias do passado, como um minimuseu que foi formado pelo antigo morador, o Sr. José Edilson Pereira de Paula38. 35 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 6. 36 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 2. 37 Ver: http://mais.uol.com.br/view/pj4p9vzv54s1/casa-do-jose-walter-guarda-reliquia-dedecadas-passadas-04024C9C3070D0A15326?types=A& 38 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 18.

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Lembro-me muito bem das visitas do Sr. Geraldo Pires a nossa casa, ainda mais porque tenho muitas provas dos “crimes”. A gente se produzia todo, colocava as roupas mais novas e posava para o Seu Geraldo39. Homem alto, muito boa-praça, com seus óculos e seu bigode e o sorriso paciente de quem era o fotógrafo do bairro. Foram muitos casamentos, batizados, aniversários e fotos posadas em domicílio, como as nossas. O Seu Benonini também foi um dos fotógrafos importantes do bairro e gerenciava o estabelecimento FOTO 13, situado na avenida B com a rua 39. Foram muitos álbuns e fotografias 3x4 de toda uma geração. Para encerrar nossa galeria de personagens zewaltenses, apresentamos o Seu Francisco Armando Aragão, natural do Estreito dos Martins, que não era famoso, a não ser para muitos bodegueiros do Zé Walter. No princípio do bairro, ele foi, juntamente com seu querido primo Otalício, vendedor P.A.P. (porta a porta), e gabava-se de ter vendido televisor até para quem ainda não tinha eletricidade. Trabalhou muitos anos na Fábrica de Produtos Nebran, que fazia bolachas, e na Emiene, uma distribuidora de produtos alimentícios, o que fazia com que viajasse pelo interior vendendo esses produtos, sempre com sua capanga debaixo do braço, cheia de promissórias.

39 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 4.

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Depois do fim das viagens, começou a visitar as bodegas do bairro vendendo diversos produtos, até que montou sua própria bodeguinha na rua 39, que tinha um pouco de tudo para as donas de casa, também os bagulhos que toda criança adora, chiclete, bombom, pirulito POP e as “vitaminas” para os papudinhos da vizinhança, entre outros produtos que ele comprava nos armazéns do Pantanal e vendia também fiado, anotando tudo na sua caderneta. Nos seus últimos anos, passava o dia na bodega jogando damas e ouvindo rádio e ficava revoltado com os meninos pequenos que chegavam querendo comprar a bodega inteira com cinco centavos. Vivia dizendo que, se fosse rico, para falar com ele, até a própria mãe teria que marcar audiência. Era uma figura, típico morador do Zé Walter. Casou-se no sábado de carnaval de 1972 com dona Francisca Cleide de Oliveira Aragão, a mulher mais guerreira, sábia, caridosa e, sobretudo, paciente que eu já conheci. Eis-me aqui.

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De médico e de louco, todo mundo tem um pouco...

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Seu Armando dizia que no Zé Walter não dava para fazer um filme porque não tinha bandido, todo mundo era artista... todo mundo cheio de lorota, cheio de histórias. Ele mesmo adorava ficar na avenida B, com seu fiel escudeiro, Seu David, marido da Dona Marilza, e com o amigo Seu Cazuza, coletando e contando histórias sobre as figuras do bairro. Uma delas é o (autodenominado) Galã, que era seu parceiro de jogo de damas e que, até hoje, bota apelido em todo mundo (meu pai era o chá de goma, minha mãe, Dona Sinhá e eu, a castanhola) e ainda diz que é noivo da Madonna. Todo bairro tem seu “doidim” (ou bem mais de um, claro). Não quero dizer que seja necessariamente uma pessoa com problemas mentais, mas todo bairro tem seu peregrino, seu palhaço, seu clown. Na Messejana, era a Muda. Na Luciano Carneiro, é o homem da bermuda e do cabo de vassoura. No Zé Walter de hoje, temos, como o mais famoso, o Neto Doido. 73


O Netinho é um rapaz novo, escritor de vidas imaginárias, pois o grande barato dele é vestir-se de mil personagens diferentes. Os moradores ajudam nessa fantasia, pois presenteiam Netinho com roupas usadas com as quais ele transforma-se, de tempos em tempos, em político de paletó, em militar, em enfermeiro, em policial, em astronauta. O Netinho também apresenta programas de rádio imaginários, nos quais ele faz o locutor, anuncia os patrocinadores e também encarna todos os cantores, nacionais ou internacionais, cantando em um inglês que ele mesmo inventou. Suas atuações memoráveis já lhe renderam o título de celebridade da internet (pelo menos, umas 10.000 pessoas do Zé Walter já viram os vídeos). Uma das mais recentes do Netinho foi andar empurrando um carrinho de compras de supermercado. Mentira. Ele empurra sua nave espacial, enfeitada por ele com mil parafernálias que ganha por aí. O Zé Walter é a galáxia perfeita para suas viagens astrais.

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A Loura do Banheiro, a Perna Cabeluda, o Cortabundas...

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Zé Walter sempre foi um terreno fértil para lendas. Desde a clássica Loura do Banheiro, patrimônio nacional e que aterrorizava a todos nós que estudávamos no Colégio Pituchinha pela simples ameaça de que ia aparecer, até a apavorante Perna Cabeluda, que dizem que é patrimônio pernambucano, e que teria circulado pelo Zé Walter nos anos 1990. Também houve rumores sobre o Chupa Cabras, que sugava todo o sangue das vítimas. Uma das lendas mais recentes foi a de um suposto carro preto que circulava nas imediações das escolas para sequestrar crianças. Apesar da existência de várias assombrações, o rei das lendas zewaltenses, sem dúvida, é o Cortabundas. Hoje, pode parecer uma lenda urbana, mas a história do Cortabundas é real e causou grande comoção entre os zewaltenses na década de 1980. Entre os anos de 1985 e 1987, muitas mulheres foram atacadas, inclusive idosas e crianças pequenas, e se estima que foram mais de 30 vítimas, porque o número correto nunca se soube, já que poucas mulheres aceitaram registrar a agressão. O maníaco invadia 75


as casas do bairro sorrateiramente em busca das mulheres da residência, mas não as violentava, nem matava, as feria nas nádegas com uma navalha, canivete ou gilete e se evadia. Houve ataques no Zé Walter, mas também no Conjunto Industrial e no Timbó, bairros de Maracanaú, município vizinho a Fortaleza. Há também a crença de que eram, na verdade, vários maníacos que atuavam simultaneamente no bairro. A verdade verdadeira nunca foi esclarecida totalmente. O Corta-nádegas ou Navalhada foi protagonista de inúmeras matérias nos jornais da cidade. Ao longo dos anos que duraram os ataques, foram aventados vários suspeitos e três homens foram presos para averiguação dos crimes, o vulgo Mac Donald, o Topo-Gigio e o Francisco Evandro40, o que gera a dúvida até hoje na população sobre se agiam em conjunto, ou sobre se algum deles era, de fato, inocente ou se eram todos realmente culpados. Os dois primeiros foram presos por algum tempo e depois liberados após averiguações, e o último foi considerado pelas autoridades como o verdadeiro autor dos ataques, por ter confessado e sido reconhecido por vítimas. Segundo as reportagens da época41, o primeiro suspeito a ser preso, o Donald, foi reconhecido por algumas 40 Ver: http://www.opovo.com.br/app/acervo/noticiashistoricas/2015/02/07/noticiasnoticia shistoricas,3385515/prisao-do-maniaco-do-jose-walter.shtml 41 VIANA, Jansen. Cortabunda: o maníaco do Zé Walter. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 2001, p. 164

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vítimas, mas usou em sua defesa o fato de que os ataques voltaram a ocorrer mesmo enquanto ele estava detido no Instituto Penal Paulo Sarasate. Houve boatos de que sua mãe, a Sra. Mirtes, teria contratado meliantes do bairro para continuar os ataques e assim inocentar o seu filho, e aí entraria a participação de Topo-Gigio e Evandro. O segundo suspeito a ser preso, conhecido como Topo-Gigio, foi defendido por um advogado contratado pela mãe de Donald, o que reforçou a teoria de que ela estaria envolvida como mandante dos ataques. O fato é que isso nunca foi totalmente esclarecido. O último a ser preso, em 06 de fevereiro de 1987, foi Francisco Evandro Oliveira da Silva que, supostamente, sofria de problemas mentais, segundo afirmava sua mãe42: “Francisco cresceu e sempre, no período de lua cheia, sente dores de cabeça. É anêmico e, às vezes, sofre de ataques epiléticos”43. O acusado assumiu dezenas de ataques e foi reconhecido por algumas vítimas. Evandro foi conduzido ao IPPOO e lá assassinado pelos presos: O pânico que tomou de conta dos moradores do Conjunto Prefeito José Walter Cavalcante, há quase três anos, terminou ontem. Finalmente, foi capturado o mais violento dos maníacos sexuais 42 Idem, p.168-169. 43 Idem, p.168-169.

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daquela área. Francisco Evandro Oliveira da Silva confessou, friamente, aos delegados Jurandir Batista e Francisco José Araújo da 8ª DP, que fez mais de uma dezena de vítimas44.

No tempo dos ataques, o pânico era presença constante na vida das pessoas que, a partir dessa época, mudaram seus hábitos e passaram a preocupar-se mais com a questão da segurança: “Já não se dorme com tranquilidade e a preocupação dos moradores é uma só: aumentar a segurança das residências, com ferrolhos, traves, escoras e até mesmo panelas, que deverão fazer barulho caso a porta seja forçada”45. Vem dessa época a colocação de grades nas casas e a criação de grupos de vigília nos quarteirões. A gente vivia com medo e colocava o nosso feroz cachorro Joly para dormir dentro de casa. Na minha rua mesmo, a 39, um dos maníacos invadiu uma casa em frente à minha, e, felizmente, não conseguiu o seu intento, mas causou um grande alvoroço entre as mulheres da família e fez com que uma delas saísse correndo desabalada pelo bairro e que todos os homens da rua começassem uma caçada ao psicopata, mas sem êxito.

44 Idem, p.166-167. 45 Idem, p.136-137.

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A partir da história do Cortabundas, nasceram duas outras histórias. Um romance, do autor Jansen Viana, e um livro-reportagem em quadrinhos, de Talles Rodrigues. A história contada pelo cearense Jansen Viana, intitulada “Cortabunda: o maníaco do Zé Walter”, parte dos fatos reais, mas oferece uma versão ficcional dos acontecimentos daquele período, tentando entender as motivações do maníaco e traçar-lhe um perfil psicológico46. O escritor também criou uma música sobre o maníaco: O golpe profundo da navalha O grito de dor, o ataque covarde Quem foi, quem é o canalha? O sangue corre da chaga que arde Quem é você? Por que faz isso? A violência não tem sentido Quem foi que te fez tão narciso? Se é pra morrer não terei morrido? Quem é o vulto, qual é a lenda? Belas mulheres em polvorosa Que já fugiu, estranha senda Feriu no verso, cortou a prosa (Cortabunda47 - Letra: Jansen Viana/ Melodia: Márcio Cardoso) 46 Ver: http://www.podcultura.com.br/escritor-jansen-viana-lanca-livro-cortabunda---omaniaco-do-ze-walter-na-livraria-cultura.92.2603 47 Ver: https://cortabunda.wordpress.com/

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Além da história romanceada, o livro, publicado em 2011 com o apoio do Banco do Nordeste, traz uma coleção de notícias da época, publicadas pelo jornal Diário do Nordeste48. Em entrevista sobre o processo de criação do livro, sabemos que: Ele revela que a pesquisa para o livro, um romance baseado em fatos reais, durou cerca de seis meses. Neste período, ele entrevistou moradores do José Walter, familiares de vítimas (que não quiseram conversar), médicos que as atenderam em hospitais na época dos ataques, policiais e jornalistas que escreveram sobre o caso, além de vasculhar arquivos de jornais e emissoras de televisão49.

Outra obra de arte inspirada pela história do maníaco do Zé Walter foi o livro-reportagem em quadrinhos Pânico no José Walter – O maníaco que seviciava mulheres, do jornalista, ilustrador, quadrinista, designer gráfico e zewaltense, Talles Rodrigues, lançada em maio de 2014. 48 O escritor Jansen Viana, em seu livro Cortabunda: o maníaco do Zé Walter, realizou um excelente apanhado das notícias publicadas sobre o maníaco (entre 1985 e 1987) no Jornal Diário do Nordeste e à época da pesquisa obteve autorização para divulgá-las e reproduzilas nos anexos de sua obra. A maioria das notícias a que fazemos referência tiveram como fonte o livro de Jansen Viana. 49 Ver: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/historias-dolendario-cortabunda-viram-romance-1.781998

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Originada como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, a obra foi apresentada ao público através de um projeto de crowdfunding, ou “vaquinha online”50, no qual o autor arrecadou o valor necessário para realizar a publicação. Depois do grande êxito do livro, preparou uma segunda edição com o título “Cortabundas – O Maníaco de José Walter”: O projeto do “Corta”, como chama o próprio Talles, surgiu como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará (UFC). Dividido em dez capítulos, num misto de narrativa e pesquisa, o livro traça paralelos entre a investigação e o trauma deixado nos moradores. Para a pesquisa, o jornalista entrou em contato com 19 pessoas, entre colegas de profissão, policiais, vítimas e até um antigo conhecido de Francisco Evandro Oliveira Silva, que confessou os ataques51.

Em entrevista ao jornal Tribuna do Ceará52, Talles contou que, quando estava prestes a terminar o livro, 50 Ver: http://tallesrodrigues.tumblr.com/tagged/panico-no-jose-walter 51 Ver: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2014/05/03/noticiasjornalvidaearte, 3245045/corta-e-corre.shtml 52 Ver: http://tribunadoceara.uol.com.br/diversao/entrevista/livro-reportagem-em-quadrinh o-conta-a-historia-do-maniaco-cortabundas/

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teve acesso ao depoimento de alguém que era vizinho do maníaco e que o descreveu como uma pessoa normal, mas muito introspectiva, um homem de 20 anos que tinha costume de soltar pipa. O autor do HQ entrevistou ainda o psiquiatra Frederico Leitão, que classificou o maníaco como “um perverso fetichista e psicopata”. O certo é que, até hoje, ninguém do bairro tem certeza se o verdadeiro Cortabundas era realmente aquele que foi assassinado na prisão ou se ele continua por aí escondido, relembrando seus crimes.

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Chifres, cornos – renovando a lenda

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principal lenda sobre o Zé Walter é que ele é o bairro dos cornos.

Hoje em dia, os moradores dizem que isso é coisa do passado, folclore, que nunca existiu, mas arriscam algumas teorias que explicariam o surgimento desse “fenômeno”, dessa lenda urbana. A primeira teoria, defendida por Mário Maia, morador do bairro desde 1976, é de que no Zé Walter sempre teve muita mulher bonita. Fato supostamente comprovado pela existência de três misses Ceará oriundas do Zé Walter, segundo conta um dos moradores, Haroldo Torres, em reportagem do jornal O Povo53: “Daqui já saíram três Miss Ceará. Que outro bairro teve isso? Nenhum!”. Temos notícia de pelo menos uma dela, Joana D’Arc, Miss Ceará em 1988. A segunda teoria era a enorme distância do bairro do Centro de Fortaleza, o que motivava os moradores a 53 Ver: http://www.opovo.com.br/app/colunas/opovonosbairros/2012/10/22/noticiasopovon osbairros,2940593/moradores-rebatem-fama-de-bairro-dos-cornos.shtml

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dizer que morar ali era “coisa de corno”, segundo relata João Pedro Vilarreal: A gente tinha um problema de transporte. O bairro era distante demais e tinha apenas uma linha da empresa Nossa Senhora de Fátima. E as pessoas diziam: ‘Isso aqui é lugar pra corno’54.

Também relacionada à distância e ao fato de que o Zé Walter era um bairro dormitório55, vem a história de que os maridos saíam muito cedo para trabalhar e as mulheres ficavam muito tempo sozinhas em casa, com o bairro ainda em fase de construção, como vemos em reportagem da Tribuna do Ceará: A teoria mais aceita é a da fundação do bairro. Criado em 1970, o José Walter era um grande conjunto habitacional popular – não havia comércio e nem empregos. Os homens, então, tinham que se deslocar até o centro da cidade ou para outros bairros em busca de trabalho, e só retornavam à noite. Como as mulheres passavam o dia inteiro em casa sozinhas, as histórias começaram a surgir e a fama pegou56. 54 Idem. 55 Diz-se dormitório o bairro cuja maior parte da população se ausenta durante o dia, devido ao trabalho em outros bairros, e retornam apenas para dormir, à noite. 56 Ver: http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/cotidiano-2/conheca-a-origem-do-mitode-que-o-jose-walter-e-o-bairro-dos-cornos-de-fortaleza/

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Uma das explicações mais interessantes tem a ver com a arquitetura e o desenho das casas, todas iguais e com o muro baixinho: muitos homens voltavam do trabalho e acabavam entrando de porta adentro na casa errada, o que motivava o falatório sobre a dona da casa, ou ainda, um convite para ficar mais um pouquinho... Eugênio Távora, empresário, é figura emblemática nesse debate sobre os cornos e foi meu vizinho por muitos anos na esquina da avenida B com a rua 39, lugar onde fundou seu primeiro bar. Corno assumido, como indica em entrevista concedida à jornalista Rosana Romão, seu bar atual, na avenida B com a N, tornou-se referência para os supostos cornos do bairro: A história de Eugênio trouxe fama ao seu bar, que, ao invés de “Bar do Papel”, passou a ser conhecido como “Bar dos Cornos”. Lá, os homens costumam se lamentar das traições que sofrem. Eugênio, “experiente”, dá conselhos amorosos para os clientes. “Ele é o homem que mais entende de chifre aqui do Zé Walter, é o mestre da gente”, brinca um de seus clientes57.

A lenda dos cornos tem gerado várias piadas ao longo dos anos. Uma delas, contada a mim pelo professor 57 Idem.

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Pedro Jorge, diz que um urubu decidiu que só pousaria naquela casa do Zé Walter que não tivesse nenhum corno, então voou por horas, horas e horas e, já exaurido, pousou finalmente na caixa d’água da segunda etapa. Outra clássica é aquela que diz que só tem corno em casa sim e casa não, na ida... depois você volta. Também temos a história de que se chover argola no Zé Walter, não cai nenhuma no chão. Tem até a paródia da marchinha: “Ó Zé Walter, o bairro que me seduz/ De dia falta água, de noite falta luz/ E a casa que não tem um corno/ É um milagre de Jesus”. Recentemente, a lenda dos cornos ganhou mais uma página pitoresca, que revela o bom humor dos moradores: os novos ônibus refrigerados que fazem a linha do bairro foram apelidados de Friboi, pois, segundo eles, o boi (chifrudo) já sai fresquinho e pronto para o abate58. Um aspecto que vou levantar por primeira vez é o reconhecimento do papel das “cornas” esquecidas nas lendas do Zé Walter. Como era tão longe e os maridos passavam tanto tempo fora, quem garante que eles estavam mesmo trabalhando? Por que só as zewaltenses seriam necessariamente as traidoras? E as histórias dos homens de outros bairros que levavam sua “teúda e manteúda” para morar no Zé Walter? 58 Ver: http://tribunadoceara.uol.com.br/videos/pode-contar/onibus-do-jose-walter-o-bairr o-dos-cornos-e-chamado-agora-de-friboi/

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Além disso, quem nunca ouviu a história dos famosos “cabarés” do Zé Walter? E o histórico cabaré da Maria Fernanda, na terceira etapa? E o cabaré da Zefa, na Curva da Viúva? E os pequenos cabarés familiares de menor fama? E o ponto turístico do Zé Walter, o mítico cabaré Portão Preto? Todos esses prósperos estabelecimentos provavelmente proporcionaram e continuam proporcionando muitos chifres às mulheres zewaltenses. Claro que, para falar do Portão Preto e similares não achei ninguém para entrevistar, por motivos óbvios. E, como diria meu pai, quando eu lhe perguntava sobre esses assuntos: “Vamos mudar o rumo dessa prosa...”. Eis que reivindico uma nova teoria para a lenda: o Zé Walter é o bairro das “cornas”. Não tenho como afirmar se o processo de “cornificação” dos zewaltenses de fato sempre existiu, se foi sempre apenas uma lenda, se já se extinguiu, mas posso assegurar que conheço algumas ruas que têm mais de um corno (ou corna) assumido e até orgulhoso(a) de sê-lo. Também posso comprovar que quem já foi corno lá em casa fui eu, nos idos de 1990 (mas só depois do Régis...). Só que chifre não existe, isso é coisa que põem na cabeça da gente.

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Carências, lutas – alinhavando sonhos

Q

uarenta e seis anos passaram-se desde aquele 18 de março de 1970. Aquela primeira etapa de um conjunto que só tinha as casas, que quase não tinha água, que não tinha bom transporte, que não tinha supermercado, transformou-se em um grande bairro cheio de vida e de histórias para contar, mas tem ainda seus problemas. Muitos moradores têm lutado, ao longo desses anos, por melhorias na vida do bairro. Apesar dos grandes avanços, o Zé Walter ainda se sente um pouco abandonado. Até a década de 1990, o bairro não tinha nem saneamento básico, umas das lutas do ex-vereador Mário Maia, juntamente com o alargamento da avenida Expedicionários. A população deseja a melhoria das praças e a revitalização dos equipamentos culturais do bairro. Em março de 2015, foi criada por Jucelino Alencar, da página josewalter.com, Comunidade Conectada (cujos membros são participantes diretos do #OcupeoColiseu), a Campanha abrace o C.S.U.59, que eu mesma assinei e também

59 Ver: https://secure.avaaz.org/po/petition/Prefeito_de_Fortaleza_Sr_Roberto_Claudio_ Reforma_do_Centro_Social_Urbano_do_Conjunto_Jose_Walter

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ajudei a divulgar nas redes sociais. Isso revela que os jovens do bairro estão se mobilizando. Creio que essa é uma das grandes demandas de muitas pessoas ao longo desses 39 anos de existência do Centro Comunitário, e era, também, do Sr. Victor Ribeiro, líder comunitário histórico. Uma de suas grandes críticas sobre o José Walter, em 2010, era ao abandono do C.S.U. (hoje chamado de Centro de Cidadania e Direitos Humanos – CCDH): O Centro Social Urbano Governador Adauto Bezerra foi onde brotou, durante 15 anos, a arte e a cultura, distribuída em toda Fortaleza e em municípios cearenses, no Brasil e inclusive no exterior. Infelizmente, as autoridades não tiveram visão para enxergar essa potencialidade em benefício de uma sociedade e esqueceu o maior centro social urbano da América do Sul.

Antônio Rodrigues (conhecido como Totó) é líder e coordenador de Mobilização Social no que, hoje, chamase Centro de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH) José Walter60, e afirmava, ainda em 2015, que o Centro “em breve estará entrando em reforma, a fim de atender aos 60 http://www.fortaleza.ce.gov.br/noticias/direitos-humanos/prefeitura-abre-inscricoes-para -cursos-e-praticas-esportivas-no-ccdh-jose

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anseios da população do José Walter”61. De fato, a reforma das piscinas iniciou-se em 2015 e houve a oferta de atividades e ocupação de alguns espaços, mas o Centro ainda não está em boas condições estruturais nem funciona em toda a sua potencialidade. Em maio de 2015, a Prefeitura anunciava a inscrição para vários cursos a serem ofertados no Centro62, o que aponta possivelmente para tempos melhores, que os moradores esperam ansiosamente. O meu sonho é que o atual CCDH possa reassumir o seu papel de “Casa” da arte, cultura, esporte e cidadania no bairro, como sempre foi. Um equipamento tão amplo, tão rico, pode ser o cerne de muitas atividades de mobilização cidadã, de formação profissional em vários campos e nas artes, de residência artística nas mais variadas linguagens, de ações de formação de plateia. Ali podem ser realizados festivais de arte e cultura; cineclubes com debates; festas literárias; dinamização de biblioteca; ação de agentes de leitura; oficinas e espetáculos de todas as linguagens; projetos de enfrentamento ao problema das drogas, de luta contra o machismo, a homofobia, o racismo, enfim, o CCDH pode tentar resolver a falta de espaços para a oferta cultural no nosso bairro e fortalecer a luta pela cidadania. 61 Ver: Expresso O Zé – José Walter 45 anos. Fortaleza. Março/abril de 2015. Edição especial (Caderno), p. 18. 62 Ver: http://www.fortaleza.ce.gov.br/noticias/direitos-humanos/prefeitura-abre-inscricoes -para-cursos-e-praticas-esportivas-no-ccdh-jose

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Um outro problema atual é que o trânsito63 nas vias que circundam o bairro está cada vez mais intenso, devido ao progresso de Maracanaú, o que veio a aumentar o fluxo na avenida N, e também devido à construção da Cidade Jardim, que aumentou o fluxo pela Perimetral e avenida I. A questão da Saúde no bairro também ainda requer cuidados intensivos, embora sejam problemas macroestruturais e não apenas do Zé Walter. O Hospital Gonzaga Mota, em geral, tem uma demanda grande demais e o posto de saúde ainda não funciona com toda a sua capacidade. A situação tem melhorado com a inauguração da UPA do José Walter, mas a população aumentou sensivelmente nos últimos anos. Ao longo do tempo, as lideranças foram reconhecendo as vitórias, mas continuaram elaborando várias listas de reivindicações, como a cartilha “Avante José Walter!”64, feita em 1990, ou a lista de demandas tiradas do “7º Fórum de Debates das Lideranças Comunitárias do Conjunto José Walter e Adjacências”65, realizado em 2015, 63 Ver: http://g1.globo.com/ceara/cetv-1dicao/videos/v/bairro-jose-walter-completa-45anos/4044263/ 64 http://josewalteremmemoria.blogspot.com.br/2014/09/cartilha-de-reivindicacoes-dojose.html 65 Ver: Conjunto José Walter – 40 anos. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, março de 2010 (Caderno), p. 11.

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em que as solicitações, mesmo com 25 anos de diferença, ainda passam por melhorias na segurança pública, na saúde, na educação, no esporte, lazer e cultura e no transporte. O sonho, a esperança e a luta têm que andar sempre de mãos dadas.

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Encerrando um percurso, continuando a viagem...

I

nfelizmente, temos que terminar nosso curto passeio pelo Zé Walter. Muitas palavras ficaram por dizer, muitas vozes ficaram por ser ouvidas, mas ressoam, mesmo assim, nas ruas e nos corações do bairro. Muitos moradores já se foram. Muita gente nova está chegando, pois, como nos contou Milton, “...chegar e partir... São só dois lados da mesma viagem”. Hoje, o “Vixe” que se dedica ao Zé Walter também é de “Vixe, como é bom!”. Hoje, o Zé Walter já não é tão longe, embora permaneça no mesmo lugar. Já não é tão novo, embora renasça todos os dias. Ainda que tenhamos encerrado esse pequeno percurso, limitado e circunscrito ao olhar de uma zewaltense que nasceu um pouco depois do bairro, você pode viajar para o Zé Walter pelas inúmeras veredas que ainda ficaram por ser reveladas. 95


Para acompanhar as suas futuras viagens pelo coração selvagem do Zé Walter, deixo você com o meu amado Belchior (e com minha canção favorita), desejando-lhe tempo para experimentar, o quanto antes, essa pressa de viver: Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar Tempo para ouvir o rádio no carro Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem Tem essa pressa de viver Foi muito bom viajar com você. Até a próxima!

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Fontes Impressas

1) PREF. JOSÉ WALTER BARBOSA CAVALCANTE. Gazeta do Bairro – José Walter 25 anos. Fortaleza. Edição Bimestral Março/abril de 1995, p.5-6. 2) CONJUNTO JOSÉ WALTER – 40 anos. Caderno. Fortaleza: ENA Publicidade e Propaganda, Ano IV, nº 4, Março de 2010. 3) EXPRESSO O ZÉ – José Walter 45 anos. Edição especial (Caderno). Fortaleza. Março/abril de 2015.

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Fontes Orais 1) Entrevista ao ex-vereador, educador social e líder comunitário Mário Gomes Maia, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 06 de dezembro de 2015, na residência do entrevistado, na rua 83, na terceira etapa do José Walter. 2) Entrevista ao historiador, educador e líder comunitário Prof. Pedro Jorge Pinheiro, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 06 de dezembro de 2015, na residência de Mário Maia, na rua 83, na terceira etapa do José Walter. 3) Entrevista ao Padre Teodoro Cuypers, realizada por Cleudene Aragão, gravada em áudio no dia 16 de dezembro de 2015, na residência dos Padres Sacramentinos, na rua 65, da primeira etapa, com a participação do Padre Anízio Ferreira dos Santos. 4) Conversas informais, sem gravação de áudio, com Francisca Cleide de Oliveira Aragão, Maria Aragão, Maria Suzana Correia Valente, Arbene de Oliveira Aragão, Simão Pedro de Oliveira Aragão, Wellington César Franco Albino (Bebell), Fernando Antônio Arrais Sydrião de Alencar, Eduardo Sousa Nunes, Pe. Anízio Ferreira dos Santos, Aldacir Carlos de Sousa, Djacir Carlos de Sousa.

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Referências

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Este livro foi impresso em Fortaleza (CE), no outono de 2016. A fonte usada no miolo é Times New Roman, corpo 11/13,5. O papel do miolo é pólen 90g/m², e o da capa é cartão supremo 250g/m².


Vista aérea do bairro José Walter na época de sua inauguração (1970). Fonte: Arquivo Nirez.


Vista aérea do bairro José Walter na época de sua inauguração (1970). Fonte: Arquivo Nirez.


Cleudene de Oliveira Aragão nasceu Fortaleza e criou-se no bairro José Walter, o qual ama muito. Formou-se em Letras pela UECE e fez mestrado em Letras pela UFC. Realizou sua tese de doutorado sobre ensino de literatura na Universidad de Barcelona. É professora de Literatura Espanhola no curso de Letras e estuda Letramento Literário no Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada da UECE. É autora de ensaio sobre Rache de Queiroz e Xosé Neira Vilas; ganhadora do Prêmio Osmundo Pontes (2011); coautora da coletânea de contos Quantas de nós, obra vencedora do Prêmio Moreira Campos da SECULT em 2010.

Foto da contracapa Igreja da Paróquia Santíssima Trindade.


José walter cleidene aragão  
José walter cleidene aragão  
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