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Revista de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Pará

O ciberespaço e a difícil inclusão das populações tradicionais

U

m problema sempre suscitado quando se inicia um trabalho com inclusão digital é o da constante afirmação no campo acadêmico de que este processo, na forma como vem sendo trabalhado, peca por não ter incorporado os direitos humanos, os direitos sociais e históricos de povos minoritários, omitindo os elementos de promoção de uma inclusão digital específica e diferenciada. Tal problemática conduz à reflexão que, de fato, as conclusões sobre o que é inclusão digital não têm qualquer valor, pois se constituem em conceitos e práticas desvinculados dos reais interesses de populações ribeirinhas e tradicionais da Amazônia. Neste contexto, as populações tradicionais ainda têm pouca presença. Temos um ciberespaço de cerceamento da diversidade cultural e invisibilizador das culturas e cosmologias indígenas e africanas. Um espaço de formação e informação que não foi absorvido pelos conceitos de inclusão que se encontram, meramente, no plano intelectual. A apropriação digital por meio de uma “Etnologia na cibercultura”, apoiada na tecnologia social traz um novo conceito de diversidade, de etnodesenvolvimento e de cultura como repertório de práticas do reconhecimento da condição básica dos povos tradicionais. A necessidade de abordar o tema do acesso às TICs pelas comunidades tradicionais da Amazônia decorre da percepção sobre o incipiente processo de reflexão acerca das práticas de inclusão digital e das múltiplas possi-

bilidades de, ao pensar a realidade plural da Amazônia, defini-la como intercultural/digital em um espaço onde se articulam natureza, técnica e cultura. Necessário se faz, portanto, incluir efetivamente as populações da Amazônia dentro de um contexto que evidencie as possibilidades, as potencialidades e as vantagens que as Tecnologias de Informação e Comunicação podem trazer para a diversidade cultural e para a emancipação das subjetividades e saberes. Fica evidente que, dependendo do lugar, da organização social, da pedagogia própria de determinada população, diferentes serão as respostas para as políticas públicas de inclusão digital, demandando propostas de inclusão digital diferenciada. Os excluídos da floresta e as desigualdades de acesso à sociedade da informação e do conhecimento O conceito de inclusão digital se enfraqueceu diante dos abissais índices de pobreza que resultaram na divisão digital, retirando de povos minoritários a capacidade de aprender e saber o que fazer com o que se aprende. Portanto, a definição de inclusão digital e inclusão social são dissonantes abrindo caminho para a desigualdade social. A inclusão intercultural/digital nos permite compreender uma concepção de inclusão respaldada nas relações concretas entre as populações amazônicas; opondo-se à inclusão digital imposta, que desconsidera saberes e valores dos povos envolvidos.

Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação

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Revista Ver-a-Ciência - Edição 2  

Nesta edição, parque tecnológicos, tecnologias sociais, células-tronco, cultivo do cupuaçú, tradição nas ciências agrárias, produtos florest...

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