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ufmtCiência REVISTA DE JORNALISMO CIENTÍFICO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO Nº 01 SET/OUT/NOV DE 2010

PAIXÃO e discórdia entre adolescentes 40 ANOS Trajetória da pesquisa conta a história da UFMT. .

SERÁ QUE É VERDADE? Piranhas são peixes assassinos?

COMO FUNCIONA? Como a cana-deaçúcar vira


3 a 5 de Novembro de 2010 Hotel Fazenda Mato Grosso Cuiabรก - MT

DE 3 A 5 DE NOVEMBRO DE 2010


Apresentação

A Ciência que a UFMT Produz Compromisso com a Informação

Cooperação e trabalho coletivo

Inauguramos com esta publicação, a primeira edição da revista UFMT Ciência. O nosso objetivo com esta revista é apresentar à comunidade mato-grossense, em especial aos alunos e professores do Ensino Médio, os projetos de pesquisa que estão em gestação nos diferentes laboratórios, institutos, faculdades e programas de pós-graduação da UFMT. Apresentar à população do Estado o que se pesquisa e o que se produz no interior da universidade é um desafio que há muito nos circunda. A Universidade Federal de Mato Grosso tem um compromisso histórico com os problemas sociais, culturais, educacionais, científicos, tecnológicos e ambientais de nossa região. Estas preocupações devem ser traduzidas em diagnósticos, proposições e desenvolvimento científico. Com esta publicação, damos mais um passo no propósito de levar ao conhecimento da sociedade as atividades de pesquisa desenvolvidas no interior da UFMT, ao mesmo tempo em que promovemos entre os jovens estudantes a cultura científica. A UFMT deve se constituir em um espaço vivo, promotor de idéias, de pensamentos e de atuação coletivos, que realmente sejam significativos para a região em que se insere. Precisa, assim, articular-se permanentemente com outras instituições sociais e com a sociedade civil organizada, com vista à identificação dos principais problemas e questões a serem enfrentados. Contribuir para a realização de i nve s t i g a ç ã o c i e n t í f i c a , p r o d u ç ã o d e conhecimentos em diferentes áreas do saber, é, sem dúvida, uma das funções essenciais da universidade. Por este motivo, devemos celebrar a criação da revista UFMT Ciência como mais um espaço de socialização dos resultados das pesquisas realizadas em nossa instituição. É parte do esforço de compartilhar conhecimentos para além dos círculos científicos restritos. É também promover a redução das distâncias ainda marcantes na realidade brasileira entre a sociedade e a universidade.

Apresentamos à comunidade acadêmica e à sociedade em geral a primeira edição da revista UFMT Ciência. Esta não é uma publicação de pesquisadores para pesquisadores, de cientistas para cientistas, mas de jornalismo científico e cultural. Esta revista é parte do esforço da UFMT para levar ao conhecimento da sociedade os projetos que são gestados e debatidos em seu interior. Para chegar a esta publicação, primeiro foi organizado, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso - Fapemat, um curso de capacitação em jornalismo científico, do qual participaram servidores da UFMT envolvidos com a área de comunicação, profissionais do mercado e alunos do curso de Comunicação Social. Com esse curso, o que se buscou foi tanto capacitar para esta atividade como promover a inserção do jornalismo científico nas preocupações de profissionais, estudantes e servidores. Todos os professores e pesquisadores da UFMT, envolvidos com a organização e com a apresentação de pesquisas; todos os professores especializados em jornalismo científico de diferentes instituições de São Paulo e da Bahia que participaram do curso e todos os profissionais de diferentes publicações nacionais especializadas em jornalismo científico que no curso debateram suas experiências foram fundamentais para a implantação deste projeto. Com o apoio também da Fapemat, esta revista deve a sua inspiração a duas publicações de divulgação científica de extrema relevância para o país: a Pesquisa Fapesp, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e à Revista Darcy, da Universidade de Brasília. Em especial, reconhecemos e agradecemos o apoio, incentivo e cooperação da diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp, jornalista Mariluce Moura, e de toda a sua equipe de redação. Esta edição inaugural traz reportagens sobre pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. É uma amostra diversificada do trabalho dos pesquisadores da UFMT. Boa Leitura

Maria Lucia Cavalli Neder Reitora da UFMT

Dos Editores

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Apresentação

ufmtCiência Nº 01 SET/OUT/NOV DE 2010

A ciência que a UFMT produz

sumário

Contrapontos Efeito Estufa: o homem constroi a maior

Como Funciona? Como a cana-deaçúcar vira Jovem Cientista Quero ser um pesquisador da UFMT

Tocando o Futuro Bolo de cenoura sem glúten

03 06 08 11

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29 Foto:Mark Sebastian

PAIXÃO

conselho editorial

Entendimentos e desentendimentos de adolescentes apaixonados Pesquisa revela que oito, em cada dez adolescentes, são vítimas de diferentes

Presidente do Conselho Editorial José de Souza Nogueira Francisco José Dutra Souto Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Física Professor da Faculdade de Medicina Ambiental Bolsista Produtividade em Pesquisa (PQ) – CNPQ Leny Caselli Anzai Coordenador do Conselho Editorial Professora do Departamento de História Benedito Diélcio Moreira Pró-Reitora de Pós-Graduação Professor do Departamento de Comunicação da UFMT Ludmila de Lima Brandão Editor-Chefe da UFMT Ciência Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Secretário de Comunicação e Multimeios de Cultura Contemporânea Adnauer Tarquínio Daltro Maria Santíssima de Lima Professor do Departamento de Engenharia Civil Editora Executiva da UFMT Ciência Pró-Reitor de Pesquisa Coordenadora de Imprensa da UFMT Eduardo Guimarães Couto Paulo Teixeira de Sousa Júnior Professor da Faculdade de Agronomia Professor do Departamento de Química Germano Guarim Neto Coordenador de Relações Internacionais Professor do Departamento de Ecologia e Botânica Valério de Oliveira Mazzuoli Javier Eduardo López Díaz Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito Professor do Departamento de Comunicação Social Agroambiental Joanis Tilemahoz Zervoudakis Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência


Arte Aqui e Agora

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Emoção e Razão

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34

Dossiê

22

41

Desenvolvimento

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44

Outros Saberes

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46

Sons, músicos, física e

Mistérios da Vida O cuidado parental dos piolhos de cobra

Descobertas e Inovações Mais Conforto na recuperação pós-

Será que é verdade? Piranhas são peixes assassinos?

Era uma Vez... Livros e gabinetes de leitura em Cuiabá

Paixão: entendimentos e desentendimentos de adolescentes apaixonados

Pesquisa na UFMT caminha lado a lado com a sociedade

Apoio à pesquisa acelera resultados

Os benzedeiros de Joselândia

Opinião Expectativas em torno de um nascimento

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34

Piranhas são peixes assassinos?

Pesquisa na UFMT caminha lado a lado com a sociedade

expediente

Há muita fantasia sobre estes peixes, mas a imaginação fantasiosa não os tornam menos perigosos.

UFMT Ciência Revista de jornalismo científico da Universidade Federal de Mato Grosso UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso Reitora Maria Lúcia Cavalli Neder Vice-Reitor Francisco José Dutra Souto Pró-Reitora Administrativa Valéria Calmon Cerisara Pró-Reitora de Ensino de Graduação Myrian Thereza de Moura Serra Pró-Reitor de Cultura, Extensão e Vivência Luis Fabrício Cirillo de Carvalho Pró-Reitor de Pesquisa Adnauer Tarquínio Daltro Pró-Reitora de Planejamento Elisabeth Aparecida Furtado de Mendonça Pró-Reitora de Pós-Graduação Leny Caselli Anzai Pró-Reitora do Campus de Rondonópolis

Os mais de 1354 projetos de pesquisa em andamento na UFMT mostram uma universidade engajada com a sociedade

Cecília Fukiko Kimura Pró-Reitor do Campus de Sinop Marco Antônio Araújo Pinto Pró-Reitor do Campus Araguaia José Marques Pessoa Secretário de Gestão de Pessoas Paulino Simão de Barros Secretário de Tecnologia da Informação e da Comunicação Alexandre Martins dos Anjos Secretario de Comunicação e Multimeios Benedito Diélcio Moreira Coordenação de Jornalismo e Imprensa Maria Santíssima de Lima Revista UFMT Ciência Editor-Chefe Benedito Diélcio Moreira Editora Executiva Maria Santíssima de Lima Reportagem Selma Alves, Géssica Vilela, Coroline Landhi, Camila

Tardim, Tais Costa Marques Projeto Gráfico, Design e Diagramação Javier Eduardo López Díaz Ilustrações Alexandre Cervi Victor Capato Ianes Nogueira Fotografia Luiz Carlos Sayão, João Conceição, Nilza Guirado SECOMM - UFMT, SECOM - MT e Wikimedia Commons Revisão Maria de Jesus Patatas, Cristina Piloni Revista UFMT Ciência Ano I NºI Tel: 065 3615 8330/8331 Email: Secomm@ufmt.br Avenida Fernando Correa da Costa, 2367 Boa Esperança – Cuiabá – Mato Grosso CEP: 78060-900 Universidade Federal de Mato Grosso


Contrapontos

Efeito estufa: Estaria o homem construindo a maior catástrofe climática de sua história? Os impactos de um possível aumento do efeito estufa sobre o clima na Terra têm se constituído num dos debates científicos, e políticos, mais controversos da história da ciência. Há evidências de que existe uma correlação entre a quantidade de gás carbônico injetado na atmosfera e a sua temperatura média, indicando que essa quantidade estaria aumentando substancialmente nas últimas décadas em função da ação antrópica. Contudo, a Terra está sujeita a ciclos naturais de aquecimento e resfriamento. Assim seria o aquecimento global uma condição natural ou fruto do impacto do desenvolvimento sobre o meio ambiente? Profa. Dra. Iramaia Jorge Cabral de Paulo- Prof. Dr. Sérgio Roberto de Paulo

graus maior. Adicionalmente, ainda deveria ser levado em conta o aumento da taxa de emissão de metano, outro gás de efeito estufa, protagonizado pelo aumento do rebanho mundial de gado, o que agravaria ainda mais o problema. Diante desses resultados, existe controvérsia entre cientistas, políticos, engenheiros e pensadores acerca da real dimensão dos impactos advindos do aumento do efeito estufa. Há aqueles que acreditam que naturalmente o meio-ambiente pode minimizar os efeitos, mas há outros que, no outro extremo, como o químico inglês James Lovelock , acreditam que bilhões de pessoas m o r re r ã o p re m a t u r a m e n t e n a s próximas décadas em função do fenômeno. Efeito estufa: Uma farsa? Entre as previsões pouco otimistas e as alarmistas, há, no entanto, aqueles que simplesmente não acreditam que a injeção de gás carbônico na atmosfera tenha qualquer impacto sobre o clima e que o aumento na temperatura registrada nas últimas décadas são atribuíveis a fenômenos naturais, os quais, em breve, darão lugar a tempos de declínio contínuo da temperatura. Há, ainda, os que acreditam que a injeção de gás carbônico na atmosfera tenha um efeito inverso – que a

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Contrapontos

X ...somente a continuidade dos estudos e pesquisas sobre o tema, associados a medidas educativas pode resultar em mudança de hábitos que garantam a manutenção da

poluição tem o efeito predominante de bloquear a radiação solar, reduzindo a incidência de energia sobre a superfície d a Te r r a , c o n s e q u e n t e m e n t e contribuindo com o seu resfriamento – essa é a posição, por exemplo, defendida no documentário “Global Dimming” da BBC, sugerindo que o aumento da poluição atmosférica poderia ter um efeito de resfriamento global, e não de aquecimento, como sugere a bastante conhecida posição do ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, exposta no filme “Uma Verdade Inconveniente”. O principal argumento daqueles que rejeitam a preocupação com um possível aumento do efeito estufa é a própria inconsistência dos resultados de projeções sobre as conseqüências do fenômeno. As ciências ambientais ainda são recentes, sendo que há grande desconhecimento, por parte da comunidade científica, sobre os processos que envolvem a interação dos ecossistemas com a atmosfera. Assim há, ainda, grande divergência entre modelos e resultados de pesquisas diferentes. Por exemplo, há estudos que indicam que a Floresta Amazônica é absor vedora de carbono, outros, no entanto, apontam o contrário. Nesse cenário de dúvidas e inconsistências, a divulgação de artigos pelos meios de comunicação contribui, de certa forma, para aumentar a polêmica. Um sem número de artigos publicados em jornais e revistas não-científicas semanais aponta uma quantidade absurdamente grande de dados

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contraditórios. Em particular, no que diz respeito à elevação dos oceanos, alguns apontam alguns centímetros nas próximas décadas, enquanto outros falam em dezenas de metros, mudando definitivamente o contorno dos continentes. Adicionalmente, quando se leva em conta aspectos políticos, a polêmica se torna ainda mais complexa... afinal, a que grupos interessa que o aumento do efeito estufa esteja ou não levando a um quadro definitivo de mudança do clima? Contudo, somente a continuidade dos estudos e pesquisas sobre o tema, associados a medidas educativas pode resultar em mudança de hábitos que garantam a manutenção da raça humana no planeta. Isso requer decisão política de investir mais nas pesquisas, na formação de novos pesquisadores e, obviamente, na educação básica para que possamos entender significati-vamente as interrelações do homem com a natureza, fazermos escolhas baseados no conhecimento e não na nossa ignorância sobre o tema e, quem sabe, mudar de hábitos e atitudes frente à problemática das mudanças climáticas. Uma coisa é certa, cabe a nós escolhermos permanecer como uma espécie no planeta ou se a Terra continuará sem nós. Seria mais fácil nos inserirmos como parte efetiva da intrincada teia da vida e não senhores donos e proprietários. É uma questão de aprender a usar algo que a espécie humana tem de mais precioso: o livre arbítrio com amorosidade.


Como Funciona?

Como a cana-de-açúcar vira combustível? Laís Costa Marques

F

onte de energia para o corpo e para os carros, a cana-de-açúcar, depois de transformada em açúcar e etanol, se torna capaz de mover as pessoas e as máquinas que as conduzem, isso a partir da absorção de seus açúcares ou queima de seu álcool. E tem mais: o bagaço da cana-deaçúcar, que sobra dos processos de fabricação de etanol e açúcar, também pode se transformar em energia elétrica, produzida a partir do calor proveniente de sua queima. Ou seja, a cana-de-açúcar é energia pura, independente se é para iluminar a cidade, movimentar veículos ou alimentar o corpo humano. O Brasil tem uma história à parte com a cana-de-açúcar. Pioneiro na produção de açúcar e álcool, as usinas de açúcar surgiram no país em 1532, como alternativa econômica, poucos anos após a chegada dos portugueses. As primeiras unidades produtoras de açúcar foram instaladas em São Vicente (SP) e em Olinda (PE), e foi justamente no Nordeste brasileiro que elas ganharam espaço e força. Em Mato Grosso, a produção de cana-de-açúcar foi a principal atividade do município de Santo Antônio do Leverger, a 27 km de Cuiabá, no final do século XIX. Naquela época, pelo menos seis usinas operavam em Santo Antonio, entre elas a Itaicy, de propriedade de Antônio Paes de Barros, o Totó Paes, exgovernador de Mato Grosso que foi assassinado em 1906, quando governava o Estado. Voltando ao pioneirismo brasileiro, em 500 anos muitas coisas mudaram. As plantações migraram do Nordeste para as regiões Sul e Centro-Oeste, as técnicas foram aprimoradas e mais produtos extraídos. O álcool, assim

como o açúcar, teve sua tecnologia aprimorada. As primeiras experiências com álcool surgiram na época da crise financeira de 1929, quando houve queda no consumo de açúcar e os produtores buscavam alternativas de produção. Mas foi na década de 70, com a crise do petróleo, que o governo investiu no biocombustível, intensificou a produção e estimulou a fabricação de carros movidos a álcool com a criação do PróÁlcool, Programa Nacional do Álcool. Na época, as usinas recebiam incentivos e subsídios para fabricar o etanol. Com este estímulo do governo, a frota nacional ganhou 10 milhões de veículos com motores à combustão etílica, ou seja, de álcool etílico, como também é chamado o etanol. Com a volta da estabilidade do preço do petróleo em todo o mundo, os veículos a álcool voltaram a perder espaço no mercado nacional, até que nos anos 2000 a evolução tecnológica permitiu a criação de motores bicombustíveis, que funcionam a álcool e a gasolina, os chamados motores flex. Por ser mais barato do que o combustível derivado de petróleo, novamente a produção de etanol disparou no país para alimentar a nova frota de veículos. A demanda por etanol e o conseqüente avanço na produção obrigou o governo federal, inclusive, a realizar um zoneamento na plantação da cana-de-açúcar, para delimitar as regiões onde pode haver o cultivo sem interferência no ecossistema. Mas voltando para a questão energética, como a cana-de-açúcar se transforma em combustível? Por quais processos ela passa até ser possível seu consumo tanto alimentar como energético? O professor Antônio Marcos Iaia é

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coordenador da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Com experiência em plantações e usinas de cana-de-açúcar, ele conta quais são as etapas pelas quais o vegetal passa para se tornar açúcar, etanol ou energia elétrica. A Transformação Ao chegar a uma usina, depois de colhida, a cana-de-açúcar vai direto para a lavagem, que pode ser inclusive a seco, para limpá-la. Depois de limpa, a cana é cortada em pequenos pedaços, que são encaminhados para um aparelho, similar à máquina usada para retirar o caldo da cana nas pastelarias, chamado de desfibrador. É uma espécie de esmagador, ou um difusor, que retira o caldo. A moenda é a máquina mais utilizada para a retirada do caldo da cana-de-açúcar. Ela divide a extração do caldo em quatro etapas e em cada uma a cana passa por um esmagador diferente, denominado de ternos. O comum é que 95% do caldo existente seja extraído da planta. Somente em casos excepcionais se consegue extrair mais do que 95% do caldo. Com o caldo extraído, é hora de cozinhar para depois decantar, ou seja, esperar que as impurezas sólidas se separarem do líquido. Para garantir a limpeza do produto, é adicionado um caldo de enxofre, que atua para retirar outras impurezas que não foram separadas pelo processo de decantação. Depois de puro, o caldo é cozido novamente, mas desta vez até se transformar em um melado. Neste processo, o caldo vai para o cozimento, se transforma em xarope e depois em melado. Em seguida, o melado é levado


Como Funciona? Reação Química da Combustão do Etanol

C 2 H 6 O + 3 O 2 + 1 1 ,3 N 2

2 C O 2 + 3 H 2 O + 1 1 ,3 N 2

Uma molécula de etanol reage com três de oxigênio (O2) e 11,3 moléculas de nitrogênio (N2). Resultam da reação duas moléculas de gás carbônico (CO2), três moléculas de água

Uma Rede para o desenvolvimento da Cana-de-açúcar A Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa) é um projeto nacional com pesquisas desenvolvidas em 10 universidades. Na UFMT a Ridesa conta com a participação de três estudantes de Agronomia, Lucas Ticianel, Demes Resende Gomes e Leandro Barbosa, além de um e n g e n h e i ro a g r ô n o m o , J o rg e Hildebrandt, e outros professores que cooperam para o desenvolvimento dos trabalhos, como Leime Ko Baiasti, Daniela Campos, Aluísio Bianchini e Márcio Nascimento, coordenador do curso ao qual o Ridesa está vinculado, a Agronomia. A Ridesa trabalha para o melhoramento genético da cana-de-açúcar com a produção de espécies mais produtivas. Por ano, três milhões de plantas são geradas nos centros de pesquisas espalhados pelo Brasil. As mudas são desenvolvidas a partir do cruzamento genético para se chegar a uma nova espécie. Este processo, apesar de parecer simples, leva em média 10 anos, até que uma nova espécie surja. O professor Antônio Marcos Iaia revela que a Ridesa no Estado ainda está em processo de instalação. “Temos apenas dois anos e ainda estamos começando os trabalhos, mas o importante é que integramos uma rede de estudos e podemos trocar as experiências. Este ano, serão lançadas 13 variedades em todo o país”. Em Mato Grosso, a Ridesa é financiada pela UFMT e conta ainda com a contribuição das usinas de cana-de-

para uma espécie de panela giratória que, ao girar, produz força centrífuga que faz com que os cristais de açúcar sejam projetados nas laterais. Este recipiente, a panela, recebe o nome de centrífuga. De acordo com o professor, há na cana-de-açúcar a presença de três tipos de açúcares: frutose, glicose e sacarose. É a sacarose que dá origem ao açúcar. A partir desta etapa, o processo de fabricação de açúcar e de etanol se separa. A sacarose é cristalizada na centrífuga e separada dos outros dois açúcares por meio de uma lavagem. O açúcar cristal está pronto. Para fabricar o açúcar refinado ele recebe tratamento químico para deixá-lo mais branco e menor. O mel, como é chamado o caldo que resulta da lavagem, é encaminhado para a produção do álcool, uma vez que seus componentes são fermentíciveis, o u s e j a , re a g e m à a ç ã o d e microorganismos. O Combustível Antônio Marcos Iaia explica que a processo de produção do açúcar é mecânico, já a produção de álcool é um processo biológico. “Para fazer o álcool são usadas leveduras, que são os fungos Sacaramices cruvizae, o mesmo usado para fermentar pão”. As leveduras adicionadas ao melado se alimentam do açúcar e a metabolização deste açúcar nos fungos resulta em álcool e gás carbônico (CO2). Após a fermentação, que é realizada em caldeiras, ou como são conhecidas nas usinas, dornas de fermentação, o melado se transforma em um líquido chamado vinho, formado após a fermentação e que contém álcool, água e leveduras. Para retirar as leveduras, o vinho é centrifugado e o 'leite de levedura' é reaproveitado para 9

fermentar outro melado. O vinho é colocado em uma coluna de destilação. Nesta etapa, o álcool é separado da água por possuírem pontos de ebulição diferentes. “O álcool evapora a 70° Celsius, o ponto de ebulição da água é de 100° Celsius, por isso ao ser aquecido, o álcool evapora primeiro”, explica Iaia. A desintegração do vinho em água e álcool é feita com a utilização de calor e resfriamento. Em um tanque cilíndrico e alto, a chamada coluna de destilação, o vinho é despejado. O topo da coluna é frio e a base é quente. Assim, o líquido percorre o cilindro e, ao se aproximar da base, o álcool, presente no vinho, evapora antes da água. O vapor é re s f r i a d o e s e c o n d e n s a , s e transformando em líquido novamente. A água continua dentro da torre e evapora mais perto da base, onde a temperatura é mais alta. O líquido condensado é uma solução chamada de álcool hidratado, com uma concentração alcoólica de 93,8%. Este é o produto utilizado como combustível. O álcool anidro, que é adicionado na gasolina, surge depois de mais uma retirada de água da solução, que é feita por elementos sequestrantes de água ou por uma peneira molecular, que retém as moléculas de água. 100% de aproveitamento Os subprodutos de uma usina são a vinhaça, que sobra da fabricação de álcool, e o bagaço da cana-de-açúcar. A vinhaça é reutilizada como adubo nas plantações ou na irrigação e assim evita-se seu depósito nos rios. Depois de todo os processo, a cana-deaçúcar é reduzida a uma fibra insolúvel que atualmente é utilizada na produção de energia elétrica. O bagaço resultante é queimado em caldeira e o vapor é


Como Funciona?

transformado em energia, reutilizada na própria usina. Antônio Marcos Iaia afirma que hoje em dia não se instala mais uma usina sem que haja cogeração de energia. “Hoje se aproveita tudo em uma usina. E o potencial a ser aproveitado poderia ser ainda maior, se todo o bagaço produzido no Brasil fosse queimado. A energia seria equivalente ao que gera uma Itaipu”. Em Mato Grosso, duas, das sete usinas em funcionamento, possuem termelétricas. O diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Álcool e Açúcar de Mato Grosso (Sindálcool), Jorge dos Santos, diz que os produtores querem investir no segmento, mas aguardam incentivos do governo para a instalação de geradores. De acordo com Santos, a energia a ser gerada, além de limpa, iria suprir a demanda do Estado no período de seca, quando os rios ficam mais vazios. Movendo o corpo e a máquina A energia que o corpo humano utiliza para realizar as atividades biológicas, fisiológicas e até sociais é fruto da transformação do açúcar em Adenosina Tri Fosfato (ATP), a fonte de energia gerada

dentro da célula. Mas o açúcar a ser transformado em energia não está presente apenas no produto derivado da cana-de-açúcar. A professora Fabiana Aparecida Canaan Rezende, da Faculdade de Nutrição da UFMT, explica que 60% das calorias, unidade de medida energética do corpo, é proveniente dos carboidratos, alimentos que se caracterizam pela presença de moléculas de carbono. Os carboidratos são aqueles alimentos que possuem açúcares, sacarose, frutose e glicose, como pães, arroz e o tradicional açúcar. Fabiana Rezende diz que ao ser ingerido, o açúcar é absorvido pelo intestino depois que enzimas agem na molécula de sacarose, transformando-a em glicose e frutose. Depois de separada, a glicose entra na corrente sanguínea e é conduzida para a maioria das células do corpo. “É dentro das células que a glicose se oxida e dá origem à ATP. A entrada e saída de fósforo da molécula de ATP é que produz a energia necessária para sobreviver”. O Guia Brasileiro de Orientação recomenda a ingestão de 2 mil calorias por 10

dia para que um adulto mantenha as atividades vitais. Fabiana Rezende afirma que cada grama de carboidrato possui quatro calorias, mas reforça que, além dos carboidratos, o ser humano precisa ingerir proteínas e vitaminas, alimentos que apesar de não se transformarem em açúcares também possuem calorias. Já dentro de um motor a combustão, o etanol funciona como um combustível devido à produção de calor. A reação do etanol com o oxigênio e o nitrogênio, que é introduzido no motor pela injeção eletrônica ou pelo carburador, resulta na explosão, que neste caso é controlada, o que gera calor e move o motor. As máquinas a combustão funcionam como as termelétricas, a energia necessária para mover as turbinas vem do calor, é energia térmica sendo transformada em energia mecânica. Em carros movidos a álcool, ou etanol, o consumo de combustível é maior do que com o uso da gasolina, isso porque o poder calorífico do álcool é menor. A gasolina produz 9.600 quilocalorias por quilograma, já o etanol produz 6.100.


Jovem Cientista

“Quero ser um pesquisador da UFMT!” Laís Costa Marques

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Allan Gonçalves de Oliveira, premiado em 2008 como o melhor pesquisador de exatas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

esde que ganhou o primeiro computador, aos 13 anos, Allan Gonçalves de Oliveira já sabia que aquela seria a máquina de sua vida. Hoje, aos 23 anos, o computador é mais do que uma máquina de diversão, é instrumento de trabalho e de pesquisa do jovem cientista. Alan foi premiado em 2008 como o melhor pesquisador de exatas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O Prêmio Severino Meireles elege os melhores pesquisadores da UFMT nas três áreas do conhecimento: ciências humanas, biológicas e exatas. Allan Gonçalves veio de Vila Bela da Santíssima Trindade, a 540 quilômetros de Cuiabá, para cursar o 3º ano do Ensino Médio e logo no primeiro vestibular que fez, foi aprovado e, em 2005, iniciou o curso de Ciências da Computação na UFMT. Esta foi a única opção profissional de Allan e um tiro certeiro no futuro. No primeiro semestre de faculdade o estudante teve contato com os estudos desenvolvidos no curso de Computação. Ele lembra que os alunos que atuavam em pesquisas percorriam as salas de aula para divulgar os projetos, uma forma de divulgar os trabalhos e atrair os novos colegas , o que deu certo com Allan, que teve o interesse despertado pelos acadêmicos. No segundo semestre Allan passou a integrar o grupo do professor doutor Josiel Maimone, como voluntário em pesquisa de desenvolvimento de programas para computador. Foram seis meses de dedicação à pesquisa sem qualquer tipo de remuneração ou ajuda financeira, até que quando estava no terceiro semestre da faculdade conseguiu uma vaga como bolsista Pibic do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para dar continuidade à pesquisa de desenvolvimento de softwares e hardwares para gerenciamento de imagens de florestas.

“Sempre quis atuar em um segmento que se enquadrasse ao contexto do Estado e contribuísse para o seu desenvolvimento na região”, afirma o jovem, que trabalhava na formatação de programas de imagens utilizados por pesquisadores florestais. Além do objetivo de contribuir para a região, Allan afirma que quando iniciou as pesquisas identificou uma vocação acadêmica essencial para dar continuidade aos estudos. “Tenho colegas que iniciaram trabalhos de pesquisa e não concluíram pois não se identificaram com esse ritmo de trabalho. Eu sempre gostei e ainda encontrei um professor que é muito dedicado e que me ajudou muito”, diz sobre o seu orientador Josiel Maimone que, segundo Allan foi peça-chave para que suas pesquisas atingissem os objetivos traçados. Em 2009 Allan encerrou sua participação no grupo de pesquisa com a conclusão do curso de graduação. Atualmente, o jovem cientista realiza uma pesquisa de mestrado em física ambiental e, novamente com o professor Maimone, ele atua como ponte entre os pesquisadores sobre florestas tropicais e as tecnologias possíveis para auxiliar o monitoramento. Allan conquistou a vaga no mestrado assim que se formou. Segundo o jovem pesquisador, o prêmio Severino Meireles foi essencial para que obtivesse essa vitória. “O prêmio me certificou como um pesquisador e comprova que além de pesquisar, também sei escrever cientificamente”, afirma o jovem. Com oito meses de pesquisa, o mestrado de Allan deve ser concluído em 2012. Em seguida ele pretende iniciar o doutorado: “Quero ser um pesquisador da UFMT. Vou dar continuidade aos estudos até que eu possa adentrar no corpo docente da universidade”.

Jovem Cientista O Prêmio Jovem Cientista Professor Severino Márcio Meirelles foi criado pela UFMT e elege, anualmente, de todas as áreas do conhecimento, as três melhores pesquisas. Um aluno bolsista Pibic na área de humanas, outro de exatas e um que atua na área das ciências biológicas recebem o título de jovem cientista e têm seus trabalhos encaminhados para o concurso nacional Destaque de Iniciação Científica, que premia os melhores alunos Pibic do 11


Tocando o Futuro

Bolo de Cenoura sem Glúten Camila Tardin

C

om apenas seis anos de idade, Dominique Romio sabe bem o significado da palavra “glúten”. Quando alguém lhe oferece um alimento, ela logo pergunta: “Tem glúten?”. Se a resposta for sim, Dominique complementa: “Isso eu não posso porque faz mal para minha barriga”. Ela precisou aprender o que é glúten – proteína presente no trigo, centeio, cevada e aveia, usada na fabricação de biscoitos, massas e pães – porque possui a doença celíaca (DC). Os portadores de DC, também conhecidos como celíacos, não podem ingerir produtos elaborados com essa proteína. Encontrar e preparar alimentos sem glúten não é uma tarefa fácil. Mas, através da pesquisa, é possível descobrir alternativas para solucionar ou amenizar o problema. No Brasil não existem dados precisos sobre o número de celíacos diagnosticados ou a prevalência da doença na população em geral. No entanto, há dados internacionais apontando que 1% da populaç��o mundial é celíaca. Em pesquisas feitas em algumas cidades brasileiras, como São Paulo, foi constatada a prevalência de um celíaco para cada grupo de 214 pessoas. Ao pensar nesse público e na dificuldade de acesso aos alimentos sem glúten, a professora Angélica Aparecida Maurício, da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), desenvolveu um bolo de cenoura isento de glúten. Além de criar e padronizar fórmulas para o produto, outro objetivo da professora é avaliar a aceitação e intenção de compra do consumidor. A pesquisa faz parte do projeto de doutorado de Angélica, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Embora o estudo não esteja concluído, foi premiado no XXI Congresso Brasileiro de Nutrição (Conbran 2010), realizado em junho no município de Joinville-SC, como melhor trabalho na área de Esporte, Marketing e Tecnologia – Comunicações Coordenadas. A premiação representa o reconhecimento do esforço da pesquisadora em desenvolver um alimento que atenda um público alvo com dificuldade de acesso a produtos isentos de glúten. Pesquisa Angélica está verificando a aceitação do bolo de cenoura nas versões com e sem açúcar, para favorecer celíacos que tenham ou não diabetes também. Esse tipo de bolo foi escolhido por ser um alimento de fácil aceitação e por não apresentar leite em sua composição, além de ser rico em vitamina A – importante para o doente celíaco. “Eu fiz os testes de forma que tudo evidencie para uma produção caseira. A pessoa pode fazer a receita em casa. O diet é um pouco mais trabalhoso por conta dos ingredientes que são a sucralose, polidextrose e o maltitol”, afirma a pesquisadora. Nas conclusões preliminares foi identificada a possibilidade de substituir a farinha de trigo por farinhas isentas de glúten e, ao mesmo tempo, manter as características sensoriais desse bolo semelhantes ao tradicional. Foram elaboradas seis diferentes formulações e comparadas ao bolo padrão (com glúten). Nas formulações é usado um mix de farinhas isentas de glúten, sendo três fórmulas com açúcar e três sem açúcar. Este mix consiste nos seguintes ingredientes: fubá, farinha de arroz, fécula (popularmente conhecida como amido) de batata e amido de milho. Na receita, que inclui cenoura cozida, óleo de milho, açúcar refinado e fermento químico em pó, o mix é substituído pela farinha de trigo. Nas formulações diet, o teste foi feito com a sucralose – um tipo de adoçante usado em confeitaria. A satisfação pelo consumo do bolo foi verificada em pessoas que não possuem a doença celíaca e os resultados obtidos foram positivos. A pesquisadora explica que seria muito mais complicado testar a satisfação do produto com os doentes celíacos, pois, para isso, seria necessário pesquisar num local que não oferecesse risco nenhum de contaminação por glúten. A partícula da proteína pode ficar em suspensão por até 12 horas, comprometendo, portanto, o resultado do estudo. “Então, se a pessoa que consome alimentos com glúten aprovou o bolo sem glúten, o doente celíaco também deve aprovar”, sintetiza. Entre as receitas testadas, a mais aceita foi a que não contém o fubá, pois a massa ficou mais macia. 12

PROIBIDOS Farinhas e Féculas

TRIGO = farinha, semolina, germe e farelo. AVEIA = flocos e farinha. CENTEIO CEVADA = farinha. MALTE Todos os produtos elaborados com os cereais citados acima

BEBIDAS Cerveja, whisky, vodka, gin, e ginger-ale. Ovomaltine, bebidas contendo malte, cafés misturados com cevada. Outras bebidas cuja composição não esteja clara no rótulo.


Tocando o Futuro

PERMITIDOS Farinhas e Féculas As mais indicadas: Arroz, Batata, Milho e Mandioca. Arroz = farinha de arroz, creme de arroz, arrozina, arroz integral em pó e seus derivados. O creme de arroz não é um creme ou pasta, e sim um pó. Milho = fubá, farinha, amido de milho ( maisena ), flocos, canjica e pipoca. Batata = fécula ou farinha. Mandioca ou Aipim = fécula ou farinha, como a tapioca, polvilho doce ou azedo. Macarrão de cereais = arroz, milho e mandioca. Cará, Inhame, Araruta, Sagu, Trigo sarraceno BEBIDAS Sucos de frutas e vegetais naturais, refrigerantes e chás. Vinhos, champagnes, aguardentes e saquê. Cafés com selo ABIC.

Na análise sensorial, principal foco do estudo, foi verificado o grau de aceitação do consumidor, ou seja, foi avaliado um conjunto de características apontadas sensorialmente pelo consumidor por meio da visão, odor e sabor. A partir daí os consumidores deram nota para o bolo, que variou de 7 a 8. O público mais velho deu as maiores notas em comparação aos mais jovens. Os testes foram realizados na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Quando o estudo ficar pronto, Angélica pretende tornar público o mix ideal para produção do bolo de cenoura sem glúten e disponibilizá-lo para empresas que tenham interesse em comercializar o produto. Doentes celíacos, como Dominique, agradecem a iniciativa.

A DOENÇA A doença celíaca pode se manifestar em qualquer fase da vida, desde criança de colo até nos mais velhos, sendo necessário existir predisposição genética e estar consumindo glúten. Como os sintomas são diversos e comuns a outras enfermidades, o diagnóstico costuma ser feito muito tarde, após o paciente passar por vários hospitais e consultórios. Os sintomas mais comuns são: diarréia crônica, vômitos, irritabilidade, falta de apetite, déficit de crescimento em criança, barriga inchada, emagrecimento, dor abdominal e anemia. O diagnóstico tardio pode trazer outras sequelas ao paciente, como osteoporose, perda de memória, problemas de absorção de intestino, entre outras. Para confirmar a doença existem exames de sangue que indicam a presença de anticorpos provocados pela intolerância ao glúten. No entanto, também é importante fazer uma biópsia (retirar uma amostra de tecido interno) do intestino delgado. O tratamento é ficar longe dos alimentos com glúten. Alguns dos alimentos permitidos são arroz, legumes, verduras, frutas, ovos, leite, carne, leguminosas, milho, amido de milho, fécula de batata, farinha e arroz, fubá, polvilho, entre outros. Aos poucos surgem leis para beneficiar a vida dos doentes celíacos. Desde 1992, por exemplo, uma lei federal passou a exigir que no rótulo dos alimentos industrializados fosse informada, de maneira clara, a presença do glúten no produto. A partir de 2003, uma nova regulamentação determinou que as embalagens apresentem um alerta informando “contém glúten” ou “não contém glúten”. Recentemente, no Paraná, foi instituída uma lei estadual determinando a exposição separada dos alimentos nos supermercados, para dietas especiais, como produtos recomendados para pessoas com diabetes, intolerantes à lactose e com doença celíaca, a fim de evitar a contaminação cruzada. Para orientar os profissionais de saúde sobre o diagnóstico e o tratamento desse problema em todo o país, o Ministério da Saúde sancionou, em setembro de 2009, uma portaria contendo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca.

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Tocando o Futuro

O melhor tratamento é apenas dieta alimentar

PERSONAGEM Quando Dominique nasceu, sua mãe, Aline Lepinsk Romio e Silva, não sabia mais o que fazer com as constantes crises de diarréia, vomito e falta de apetite que surgiram em sua filha após a inclusão de papinhas e frutas na alimentação. Os sintomas eram característicos dos por tadores de doença celíaca, mas vários médicos de Cuiabá não conseguiam diagnosticar o p r o b l e m a . D o m i n i q u e precisou passar por dez pediatras, um pneumologista e um gastro até descobrirem, depois de oito meses, que ela tinha intolerância ao glúten. Os demais sintomas persistentes na criança, como desidratação, refluxo, barriga estufada e dor de garganta, eram confundidos com outras enfermidades. “Nossa, eu chorava e rezava muito, minha preocupação era descobrir logo a doença”, lembra Aline. Para tratar o celíaco não há remédio, apenas dieta alimentar. Com o passar do tempo a família se adaptou ao novo cardápio: tudo sem glúten. Até o filho mais novo, Lorenzo, de 4 anos, segue a dieta junto com a irmã Dominique, que está aprendendo a ler e fica atenta à palavra “glúten” escrita nos rótulos das

embalagens. A mãe reclama da dificuldade de encontrar alimentos diversificados isentos de glúten. Além disso, esses alimentos são bem mais caros do que os convencionais. “Já tive que enfeitar muita lata para deixar a comida com uma cara mais agradável”, recorda Aline. Outro problema é que não existe armazenamento adequado dos produtos sem glúten na maioria dos supermercados. Os alimentos precisam ficar separados daqueles que possuem glúten para não correr o risco da contaminação cruzada. A falta de cuidado com os rótulos (que devem informar se contém ou não glúten) e o manejo inadequado dos alimentos também prejudic a m o d o e n te celíaco. Quem quiser conhecer mais sobre a doença, o blog “Mato Grosso Sem Glúten (http://mtsemgluten.wordpress.com), criado por Aline, dispõe de outras informações. Nele, os internautas encontram orientações sobre a doença e dicas de alimentação. Os interessados também podem saber mais informações no site da Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil – F e n a c e l b r a l l l l l l l l l l l l (http://www.doencaceliaca.com.br)

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Arte Aqui e Agora

Sons, Música, Física e Matemática Laís Costa Marques

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que uma parábola tem a ver com Beethoven? O que os números têm a ver com o som e o que uma batuta tem a ver com o relógio? Estas são perguntas que parecem sem nexo, mas que nossos ouvidos interpretam sem entender e a emoção se manifesta à primeira nota que soa de um concerto. As orquestras são, em um único momento, sons e músicos diferentes e harmônicos ao mesmo tempo. Orchestra era o nome dado pelos gregos ao espaço semicircular onde as apresentações culturais aconteciam, fossem musicais, teatrais ou de danças. Hoje, Orquestra denomina qualquer conjunto de músicos, independente do estilo, ritmo ou influência que rege as melodias. Mas é por meio da música clássica e erudita que as orquestras são identificadas mundo afora. Nem tanto populares, mas bastante conhecidas, as orquestras sinfônicas ou filarmônicas miscigenam curiosidade, encantamento. Nem todos assistiram uma apresentação, mas todos já ouviram falar. Nem todos entendem e muitos têm

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curiosidades a respeito. Para entrar neste mundo de notas, sifras e instrumentos como espectador é preciso mais do que ouvidos, é necessário sensibilidade. Para integrar uma orquestra, mais do que talento, é preciso dedicação. E para abrir as cortinas desse espetáculo, o maestro da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Mato Grosso, Fabrício Carvalho, começa explicando o que forma uma orquestra de música clássica erudita. Atualmente as companhias sinfônicas ousam em parcerias com a música de estilos populares como o rock, o samba e até mesmo o rasqueado em Mato Grosso, mas em suas essências trabalham interpretando grandes obras, conjunto de partituras escritas individualmente para cada instrumento e que em conjunto dão som a concertos musicais. Uma orquestra é dividida em conjuntos, ou câmaras, de acordo com os naipes dos instrumentos, como são chamadas as famílias às quais pertencem. Em uma orquestra clássica, quatro naipes compõem o grupo: Corda, Madeira, Metal e Percussão. E cada um remete à reunião de um estilo instrumental. A Câmara de Corda, por exemplo, é composta por instrumentos como violino, violoncelo. A de Madeira, apesar do nome, não denomina instrumentos confeccionados desse material. Esta família é dos instrumentos de sopro, como as flautas, e hoje, em sua maioria, eles são


Arte Aqui e Agora

A vareta não é uma simples vareta, é a batuta, que na mão do maestro, atua como um prolongamento de seu dedo e rodopia pelo ar

feitos de metais. Os outros dois naipes são os que ficam mais distantes do público geograficamente, mas seus sons estão entre os mais fortes de uma orquestra. O Metal é a família do trompete e das tubas, por exemplo, enquanto a Percussão é composta pelo bumbo sinfônico e pelos pratos, entre outros. Uma orquestra completa é aquela que reúne os quatro naipes, porém podem ser criadas orquestras de câmara, que unem instrumentos de apenas um naipe ou dois. Nestes casos, os instrumentos nem sempre estão juntos. Há compositores que compõe para poucos naipes e assim surgem as orquestras de câmara, como Mozart. O compositor fazia muito isso, ele compunha para cordas e acrescentava as trompas, por exemplo, como é a sinfonia número 29. Para cada instrumento há um conjunto de partituras. Carvalho diz que a complexidade das grandes obras é justamente essa. “Os compositores precisam compor individualmente e depois, juntar todos os instrumentos harmonicamente. Por isso, apenas grandes talentos, quase gênios são capazes de compor as peças”. Na verdade, uma orquestra é um conjunto de grandes talentos. Depois de uma criação genial, outros grandes talentos entram em cena para dar vida às notas. Os músicos precisam ser não só talentosos como muito dedicados. São horas de estudo e ensaios para que o que foi

idealizado por alguém saia do papel respeitosamente. Durante todo o processo, surge no comando um músico que utiliza de muita expressão no rosto e uma vareta na mão para reger o conjunto de músicos que integram a orquestra. A vareta não é uma simples vareta, é a batuta, que na mão do maestro, atua como um prolongamento de seu dedo e rodopia pelo ar numa espécie de dança. Dança que na verdade é a contagem do tempo. Na outra mão, que aparece livre numa apresentação, está a intensidade de cada obra. “É com os gestos que expressamos a intensidade, a leveza, a docilidade ou agressividade que aquela interpretação tem que ter”, explica o maestro Fabrício Carvalho. Neste embaraço de funções, instrumentos e notas, o público, muitas vezes, se atenta apenas ao resultado que, para ser satisfatório, tem que tocar não só a música, mas também a emoção de cada um. Uma História de Música Pouco mais nova do que a Universidade Federal de Mato Grosso, que neste ano completa seus 40 anos de vida, a Orquestra Sinfônica da UFMT também traça no Estado a história da música clássica. Na verdade, até hoje ela é a única orquestra completa e, ao longo dos seus 31 anos de existência, se caracteriza pela democratização do gênero. A Orquestra Sinfônica da UFMT é composta por músicos de diferentes formações

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Em uma orquestra clássica, quatro naipes compõem o grupo: Corda, Madeira, Metal e Percussão. E cada um remete à reunião de um estilo instrumental.


Arte Aqui e Agora

acadêmicas, por entender a necessidade de estar sempre se renovando. A UFMT compõe seu elenco de acordo com os talentos e não de sua formação teórica. Entre os 45 artistas, músicos, estudantes de ciências exatas, biológicas ou humanas, funcionários da instituição e pessoas da comunidade externa participam desta fusão de talentos. “A Orquestra está permanentemente aberta e precisa disso para se oxigenar. Somos um organismo vivo sempre pronto para receber novos músicos”, define o maestro Fabrício Carvalho. Os ensaios são realizados individualmente e em conjunto e estão abertos para quem quiser participar ou apenas ouvir a composição de uma apresentação. A Orquestra fica no Centro Cultural da UFMT, no campus de Cuiabá.

Física e matemática para a música Quem sempre acompanha uma orquestra repara que os instrumentos estão sempre no mesmo lugar e isso não é apenas uma convenção. Isso é física! A disposição dos músicos no palco é de acordo com a intensidade de cada instrumento, ou seja, quanto mais forte for o som de um naipe, mais distante ele tem que ficar da plateia. Fabrício Carvalho explica que é a intensidade que determina a velocidade com que o som chega até os ouvidos. Sendo assim, para que o som dos violinos chegue junto com o dos pratos, ele precisa estar mais perto de quem ouve. “Se fossem todos colocados em uma mesma linha, os instrumentos de percussão ou os metais iriam calar as cordas e as madeiras”. E não é só isso não. Outra disciplina das Exatas entra no palco de uma orquestra para uma equação perfeita. “Música e matemática se confundem em sua gênese”, afirma Fabrício Carvalho. Assim como a descoberta dos valores de incógnitas de uma equação matemática resulta em pontos em um espaço entre dois eixos, um vertical e outro horizontal, os eixos 'X' e 'Y', os pontos traçados em uma partitura são resultados da relação entre o tempo e a intensidade das notas musicais.

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Mistérios da Vida

O Cuidado Parental dos Piolhos de Cobra Descobertos um novo piolho de cobra e os cuidados de uma mãe quase invisível.

María Santíssima de Lima

Não há quem nunca tenha visto um piolho de cobra, com suas centenas de pernas em movimento e que, ao ser tocado, se enrola todo! O Pantanalodesmus marinezae e a Poratia salvator vivem no Pantanal, a maior planície alagável do planeta e na região de Cuiabá. E quem diria: esse “simples” bichinho tem tanta importância e é motivo de estudo em todo o mundo! Pesquisas da UFMT registram novo gênero e comportamento nunca antes detectado.

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piolho de cobra é um tipo de animal que está presente nos mais diferentes ambientes: no deserto, na floresta e no pantanal; no clima tropical e no temperado. Vive escondido entre folhas e galhos em decomposição, onde se alimenta e se reproduz. Já estava presente na terra no tempo dos dinossauros e também era gigante, se comparado aos seus descendentes de hoje – há fósseis de quase dois metros. Entre os grandes antepassados há espécies que foram encontradas na América do Norte e na região onde hoje ficam a República Tcheca e a Eslováquia. Os cientistas estimam que existam aproximadamente dez mil espécies de milípedes descritas em todo o globo. Milípedes é como são

chamados pelos pesquisadores os piolhos de cobra. Ao contrário do que diz o nome, não possuem mil pés, mas entre 50 a 375 pares, segundo o professor Henrik Enghoff, do Museu de História Natural da Dinamarca. Essa enorme “família” acaba de ganhar um novo membro, descoberto no Pantanal Mato-Grossense, pela pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Marinêz Isaac Marques. Sob sua orientação, foi também descoberto que uma microscópica mãe milípede se enrola e cerca de cuidados os seus ovinhos, um comportamento nunca antes observado entre os piolhos de cobra. Comumente, as fêmeas põem os ovos e os deixam. Diferentes no tamanho e no comportamento, esses dois piolhos de cobra vivem na maior planície alagável do

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Mistérios da Vida

Planeta, cuja área, somente no Brasil, atinge 139.111 quilômetros quadrados e estão sendo estudados pelos pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Taxonomia de Artrópodes Terrestres e Aquáticos (Leta) do Instituto de Biociências da UFMT (leia na página 20). Pantanalodesmus – Esse piolho de cobra foi encontrado em material coletado do solo, embaixo de um acuri (palmeira típica da região), onde o grupo de pesquisa da UFMT estava estudando a copa da planta e o solo para verificar como os diplópoda sobrevivem ao ciclo das águas da maior planície alagável do planeta. Diplópoda é a classe em que estão esses animais, aos quais se junta o recém-encontrado parente, que agora tem seu gênero e espécie conhecidos. Ele é o Pantanalodesmus marinezae. Ganhou esse nome científico em latim, indicando a região onde vive, o Pantanal, e a líder do grupo que o descobriu, Marinêz. Nada pessoal. Foi assim que o sueco Carlos Lineu, um dos mais famosos naturalistas do mundo, estabeleceu, no século XVIII, como seriam identificados os animais e plantas. O Pantanalodesmus marinezae foi encontrado na Baía do Pirizal, município de Poconé (MT), onde o Núcleo de Estudos do Pantanal (Nepa), da UFMT, tem uma base de pesquisa. Depois, foi encontrado também no Campus da UFMT, em Cuiabá. “Nada se conhece ainda da sua biologia e ciclo de vida, e propomos que um aluno se

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dedique a descrever a vida dele”, diz a professora Marinêz Isaac Marques, que é orientadora do mestrado em Ecologia e Conservação da Biodiversidade do Instituto de Biociências da UFMT. Já se sabe que a eclosão dos ovos desse bichinho acontece na época de cheia do Pantanal e, no campus, foi encontrado em grande quantidade no período de chuva. Sabe-se, também, que não suporta muita exposição ao sol e que está entre os maiores da classe - tem c e rc a d e d e z c e n t í m e t ro s d e comprimento. O tamanho dos piolhos de cobra varia de 2mm a 30cm de comprimento, registra a obra “A Biologia dos Milípedes”, de Stephen P. Hopkin e Helen J. Read (1992). O novo piolho de cobra foi enviado para especialistas para identificação. “Como na época - 1999-2002 – estávamos trabalhando com pesquisadores da área, fomos verificar se esse animalzinho era realmente diferente dos demais. Em seis a oito meses, mais ou menos, veio a resposta – verificou-se que era um gênero novo”. Conta o pesquisador Richard L. Hoffman, do Museu de História Natural da Virgínia, nos Estados Unidos, que com a descoberta da pesquisadora da UFMT, são três os gêneros conhecidos, restritos ao sul de Mato Grosso - um descrito em 1951, com duas espécies; outro em 1949, com uma só espécie. Ele fez comparações entre esses gêneros para constatar que o descoberto agora nunca tinha sido estudado.


Mistérios da Vida

Gongolô

Mãe Cuidadosa

Vicente Alves, jardineiro na UFMT de 1978 a 1994, é antigo conhecedor desse piolho de cobra, que somente agora foi descrito pelos cientistas. “Esse aí é o gongolô, gongo, gonguru, como a gente o chama”, diz ao ver a foto tirada pela pesquisadora, contendo o nome científico Pantanalodesmus marinezae. Ele lembra que “desde criança, na roça, em Guiratinga e Rondonópolis, via esse bichinho, principalmente na época da chuvarada, quando saia bastante de debaixo das folhas”. Também no campus da UFMT ele sempre os vê no período de chuvas, saindo principalmente de onde há folhas acumuladas. Na seca é difícil de ser encontrado. Entretanto, Vicente Alves, que hoje é gerente de Manutenção do Campus, atesta que nunca soube a importância dele, nunca viu falar se faz mal à saúde, e também como se alimenta. “Nunca vi ele se alimentando, nunca o vi parado comendo, mas ele está sempre bonito, brilhoso”, diz. Os artrópodes, ou Arthropoda, são indicadores biológicos da qualidade do solo e importantes decompositores. Preferem, em sua maioria, se alimentar de folhas e galhos que caem, quando já estão apodrecendo e, ao expelirem suas fezes, ampliam a possibilidade de proliferação de bactérias e fungos para a decomposição.

Ao desenvolver sua pesquisa para o mestrado em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, entre 2006 e 2008, a pesquisadora Tamaris Pinheiro Gimenez descobriu que Poratia Salvator, um piolho de cobra quase invisível (3.5 mm), tem um hábito chamado cuidado parental. Isso quer dizer, que a mãe põe e cuida dos seus ovinhos até que nasçam os filhos. “É uma forma de garantir a sobrevivência da prole e isso nunca se observou entre os diplópoda”, diz a professora Marinêz, orientadora de Tamaris em seu trabalho científico. Esses bichinhos foram recolhidos no Pantanal, em uma fazenda do município de Livramento, próximo a Poconé e no Campus do Centro Universitário de Várzea Grande (Univag), região próxima ao rio Cuiabá. Tamaris Pinheiro acompanhou todo o seu ciclo de vida e verificou que é raro encontrar machos dessa espécie e que todas as fêmeas estudadas em laboratório reproduziram com ausência do sexo oposto, “evidenciando a reprodução por partenogênese”, que é o crescimento do embrião sem fertilização. Os resultados do trabalho de mestrado (dissertação) foram publicados em um artigo na revista “Zoologia”, editada pela Sociedade Brasileira de Zoologia em dezembro de 2009, e também recebeu prêmio no Congresso de Etologia em Campo Grande, em 2006.

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Mistérios da Vida

No ciclo das águas e na onda do saber A descoberta do Pantanalodesmus marinezae e do cuidado parental da Poratia salvator aconteceram durante o desenvolvimento do projeto de pesquisa “Ecologia de Artrópodes em Áreas Inundáveis do Pantanal de Mato Grosso”, mais especificamente, durante o estudo sobre as estratégias de sobrevivência desses animais perante o pulso de inundação do Pantanal de Mato Grosso. A região pantaneira tem quatro diferentes ciclos de três meses cada – o período em que está enchendo, de outubro a dezembro; o que está cheio, de janeiro a março; a vazante, quando as águas estão baixando, de abril a junho, e a seca, de julho a setembro. Os pesquisadores querem descobrir como aracnídeos, insetos, piolhos de cobra sobrevivem a tanta mudança. Ao coletar material para isso, juntos vieram os piolhos de cobra que agora são estudados pelos integrantes do grupo de pesquisa em Ecologia e Taxonomia de Artrópodes Terrestres do curso de mestrado em Ecologia da UFMT. Já são mais de dez anos de estudos envolvendo as fases terrestre e aquática desses animais, verificandose onde há maior riqueza de espécies – no solo, nos troncos ou na copa das árvores; determinando a estrutura das populações que vivem no Pantanal. Todos esses conhecimentos vão contribuir para a preservação das espécies frente a problemas como a ocupação humana indevida, o

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manejo sem sustentabilidade e a falta de políticas públicas para resolver essas questões. O Núcleo de Estudos do Pantanal (Nepa) foi originado do antigo Programa de Ecologia do Pantanal (PEP), que surgiu em 1991 e durou doze anos. O PEP tinha financiamento brasileiro, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e da Alemanha, por meio do Ministério da Educação e da Ciência, o BMBF. O PEP era coordenado pela professora Cátia Nunes da Cunha, do Instituto de Biociências da UFMT e nele atuavam os pesquisadores alemães Wolfgang Junk e Joachim Ulrich Adis. Com o apoio desses pesquisadores, a professora Marinêz passou a fazer par te do Programa, em 1997, quando concluiu seu doutorado. ‘‘Até então não havia, no PEP, ninguém estudando artrópodes’’, conta. Nesse período foi, também, construída a Base de Pesquisa do Pirizal. O Laboratório de Ecologia e Taxonomia de Artrópodes Terrestres (Leta), que funciona no âmbito do Nepa, conta com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso (Fapemat) do Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP-MCT) e do Programa de Ecologia de Longa Duração (Peld/CNPq). Como resultado dos estudos dos pesquisadores que integram o CPP, a UFMT acaba de ser contemplada pelo CNPq e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) com a criação do Instituto Nacional de Áreas Úmidas (Inau).


Descobertas e Inovações

Mais conforto na recuperação pós-operatória Géssica Vilela

A

palavra “acertar” significa achar o certo; endireitar; proceder com acerto; atingir o alvo – e o projeto Aceleração da Recuperação Total Pós-operatória, o ACERTO, corresponde a

Recuperação Aprimorada Após a

tudo isso. A lei primeira do programa é: o dia da operação é o primeiro dia da

recuperação do paciente. O ACERTO é um programa multidisciplinar que envolve serviços de Cirurgia Geral, Anestesia, Nutrição, Enfermagem e Fisioterapia. Foi desenvolvido no Departamento de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 2005 e, em 2009, um artigo sobre o assunto, publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), recebeu o prêmio Oscar Alves. O projeto tem como objetivo acelerar a recuperação pós-operatória de pacientes submetidos a cirurgias abdominais, especialmente as do aparelho digestivo. Seus responsáveis são os professores da FCM e médicos do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), José Eduardo Aguilar Nascimento, Cervantes Caporossi e Alberto Bicudo Salomão. O ACERTO é baseado em um programa europeu (ERAS - Enhanced Recovery After Surgery) e fundamentado na prática da medicina baseada em evidências. Entre os principais pontos abordados pelo Protocolo, estão a abreviação do jejum pré-operatório, a terapia nutricional peri-

O peri-operatório é o período que compreende o préoperatório, o intra-operatório e o pós operatório. Ou seja, o período que vai desde que o cirurgião decide indicar a operação e comunica ao paciente até que este último tenha alta hospitalar e retorne às atividades normais.

operatória e a abolição do preparo de cólon em cirurgias colorretais. Com a utilização desse protocolo, o HUJM foi pioneiro em trazer essas condutas para a realidade brasileira e, atualmente, os profissionais que participam do projeto viajam por todo o país e outras partes do mundo para divulgá-lo e expandir sua prática. Atualmente, todas as cirurgias abdominais realizadas na Enfermaria de Clínica Cirúrgica do HUJM são norteadas pelo Protocolo. Desde a implantação do ACERTO, em 2005, diversos artigos sobre seus resultados foram divulgados pelos pesquisadores do grupo. Entre eles, destaca-se o “Abordagem multimodal em cirurgia colorretal sem preparo mecânico de cólon”, publicado na Revista do Conselho Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e vencedor do prêmio Oscar Alves de 2009. O CBC é a associação que congrega maior número de cirurgiões da América Latina e sua revista oficial é publicada bimestralmente, distribuída para médicos de todo o Brasil e composta por artigos de todas as especialidades cirúrgicas. O artigo é resultado de estudos realizados entre janeiro de 2004 e junho de 2008, com 53 pacientes submetidos a operações envolvendo o intestino grosso, com pelo menos uma anastomose, no Serviço de Cirurgia Geral do HUJM. observação dos pacientes ocorreu em duas fases, sendo a primeira com o grupo de pacientes

A

O cólon é a maior porção do intestino grosso, podendo ter entre 120 e 150 cm. Divide-se em cólon ascendente, transverso, descendente e sigmóide. Liga-se ao intestino delgado pelo Ceco e ao reto pelo sigmóide. Os alimentos, parcialmente digeridos, entram no cólon, vindos do intestino delgado. No cólon, é retirado a água e os nutrientes dos alimentos e o restante passa

O q u e m u da ? Protocolo convencional

Protocolo AC ERTO

T erap ia nutri cio nal pré-opera tória por 5-10 di as em pa ciente s des nutridos ;

T era pia nutricio nal pré-opera tó ria por 7-10 dias em pa ci entes desnutrido s;

Jejum pré- opera tório de, no m ínim o, 8 hora s;

N ão perm itir um jejum prolong ado no pré-operatório;

Libera çã o da dieta pó s-operatóri a a pós elim inação de fla tos ou evacuaçã o;

R e-introdução de dieta no pós -opera tó rio imedia to (dieta liqui da);

H idra ta çã o venosa no pós -opera tório a té res ta belecim ento da dieta no pós -opera tório;

T era pia de hidrataçã o venosa até o 1º dia de pósoperatório;

Prepa ro m ecâni co do cólon pré-o peratório;

N ão realiz ar o preparo de cólon pré-opera tório;

U so de dreno s, so ndas e a nti bióticos co nforme pref erência do cirurg ião;

N ão usar dren os e sonda s de rotin a. U so ra cio nal e pa dro niza do de a ntibiótico s; M obiliza ção ultra-preco ce : faz er o pa ciente d ea mbu lar ou s entar no m esm o dia da operaçã o por pelo m enos 2 hora s. N os próxim os dia s, o paciente deve ser estimu lado a ficar 6 horas fora do s eu leito.

M obiliza ção pós -opera tória precoce.

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Em Medicina, anastomose é uma comunicação, natural ou resultante de processo cirúrgico, entre tubos, vasos sanguíneos ou nervos da mesma natureza. Também é o nome que se dá a


Descobertas e Inovações sob a conduta convencional – de janeiro de 2004 a junho de 2005 e, a segunda, com a aplicação do protocolo ACERTO, de agosto de 2005 a junho de 2008. Alunos de Iniciação Científica do curso de Medicina realizaram a coleta de dados diariamente nos dois períodos. O principal objetivo do estudo era avaliar os resultados pós-operatórios imediatos obtidos com a implementação do protocolo ACERTO em pacientes submetidos a operações O preparo mecânico do cólon consiste na “limpeza” préoperatória do cólon. Geralmente, o procedimento é feito com o uso de Manitol. Essa substância é diurética e induz o paciente a eliminação dos resíduos intestinais. Porém, a tradicional "limpeza do cólon", além de ser um processo exaustivo para os pacientes, não é isenta de complicações. A eliminação desses resíduos faz com que o paciente elimine muita água, levando muitas vezes à desidratação do mesmo e aumentando os riscos do processo cirúrgico. colorretais. Em estudos desse tipo de c i r u rg i a , o s p r i n c i pa i s p o n to s considerados dizem respeito à abordagem nutricional, ao uso de

M o r b i d a d e p ó s - o p e r a tó r i a refere-se ao conjunto dos indivíduos que adquirem doenças (ou determinadas doenças) no período pós-operatório.

drenos e sondas, à hidratação venosa peri-operatória, e à utilização sistemática do preparo mecânico préoperatório do cólon. Entre os 53 pacientes observados durante o período da pesquisa, 25 foram operados de acordo com as condutas convencionais e 28 com a utilização do novo protocolo. Os resultados observados com a aplicação do ACERTO em pacientes submetidos a operações de médio e grande porte do aparelho digestivo e parede abdominal foram diminuição da morbidade pósoperatória e do tempo de internação. ACERTO Convencional

Grupo

Dias de internação (mediana) dos pacientes submetidos à cirurgia colonretal segundo o protocolo convencional e o ACERTO

Além da redução do tempo de internação e da morbidade pósoperatória, os resultados do estudo mostraram que com o novo protocolo foi possível a redução do tempo de jejum peri-operatório e a diminuição da infusão endovenosa de fluidos. Também foi possível realizar anastomoses colorretais sem preparo mecânico do cólon sem que isso alterasse negativamente os resultados cirúrgicos. Os pacientes operados com a implantação do novo protocolo ficaram a metade do tempo de jejum que os

cólon transverso

cólon ascendente

reto

cólon descendente

sigmóide

submetidos às condutas convencionais. Isso porque, receberam uma solução de líquido enriquecida com carboidratos até duas horas antes da cirurgia. Esse suplemento pode ajudar a diminuir os vômitos, aumentar o pH gástrico e diminuir a irritabilidade e as respostas orgânicas ao estresse cirúrgico. A implantação do ACERTO também implicou em maior atenção ao suporte nutricional pré-operatório para pacientes desnutridos. Sua equipe multidisciplinar de terapia nutricional, aliada ao Serviço de Nutrição Clínica do HUJM, realiza visitas diárias aos pacientes, garantindo que recebam dieta adequada no período perioperatório. A adoção de um programa multidisciplinar com medidas cientificamente embasadas mostrou importante melhora dos resultados. Mais pacientes foram beneficiados pelo conjunto de condutas adotado antes, durante e depois da cirurgia.

O Prêmio Oscar Alves foi instituído em 1969 e, desde então, é atribuído ao melhor trabalho publicado na Revista do CBC no ano anterior à escolha. O prêmio deste ano foi concedido ao trabalho ABORDAGEM MULTIMODAL EM CIRURGIA COLORRETAL SEM PREPARO MECÂNICO DE CÓLON, de autoria do professor José Eduardo de Aguilar Nascimento e co-autoria dos professores Alberto BicudoSalomão, Cervantes Caporossi e dos estudantes de medicina, Raquel de Melo Silva, Eduardo Antônio Cardoso, Tiago Pádua Santos, Breno Nadaf Diniz e Arthur André Hartmann. O artigo foi publicado na revista de volume 36, edição de maio/junho de 2009.

Composto por diploma e medalha, o Prêmio foi entregue na sessão solene comemorativa do 81º aniversário do CBC, no dia 30 de julho, no Centro de Convenções do CBC.

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Será que é Verdade?

Foto: Cliff

Foto: Jutta

Foto: Marten Johanssen

Foto: Cliff

Foto: Karelj

Foto: Marten Johanssen

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Selma Alves

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esponda rápido: piranha é atraída por sangue? Para responder corretamente a essa pergunta é preciso entender o comportamento das piranhas. E ninguém melhor que o professor doutor Francisco de Arruda Machado, conhecido como Chico Peixe, para explicar o comportamento das três espécies encontradas no Pantanal Mato-grossense: catirina (Serrasalmus marginatus), piranha do rabo preto (Serrasalmus spilopleura) e piranha queixuda ou piranha verdadeira (Pygocentrus nattereri). Na América do Sul são encontradas cerca de 50 espécies. Ecólogo e ictiólogo, Chico Peixe passou mais de 10 anos pesquisando os peixes da região do pantanal para entender o comportamento das piranhas. Ele estudou os hábitos, táticas predatórias, comportamento alimentar e interações sociais para o forrageamento (alimentação), bem como as táticas defensivas de peixes presas. Há muita fantasia sobre estes peixes, superdimensionada pelos filmes trash como “Piranhas”, exibido em 1978, e “Piranhas 3D” que acaba de chegar às telas dos Estados Unidos e deve desembarcar nos cinemas brasileiros no mês de outubro. Piranhas são frequentemente descritas como o mais feroz de todos os peixes da região neotropical. São imprevisíveis e nadam em cardumes de muitas centenas, nunca atacam sozinhas e mordem qualquer coisa que se mova. A Imagem é de uma terrível comedora de homens, perpetuada através de livros populares sobre peixes e enciclopédias de animais. O primeiro mito derrubado nesse estudo é que as piranhas são atraídas pelo sangue. No entanto, o excesso de fantasia não tira o perigo das piranhas. Então, por que elas são perigosas? Segundo o pesquisador, as piranhas são condicionadas à alimentação fácil proporcionada pelas “cevas”, localizadas próximas a restaurantes ribeirinhos e lugares onde os pescadores costumam “eviscerar” – arrancar as vísceras - dos peixes. Em nenhum dos casos analisados de ataque às pessoas, explica o pesquisador, a causa mortis foi atribuída ao ataque de piranhas. As pessoas foram vítimas de afogamento ou infarto do miocárdio. Os incidentes registrados na região são atribuídos ainda à “invasão” do habitat dessas espécies por banhistas ou pescadores inexperientes. As piranhas do rabo preto, por exemplo, fazem os “ninhos” na areia, no período de desova. Para defender o seu “território”, elas atacam o agressor potencial para intimidá-lo. Resultado: mutilações nos dedos dos pés e calcanhares. “Piranhas têm uma reputação de comer homens, apesar da ausência de registros autênticos de ataque a pessoas e mortes por estes peixes. Três casos de piranhas alimentando-se de cadáveres humanos foram registrados em Mato Grosso. Um cadáver encontrado quatro dias depois de afogar-se, foi quase reduzido a esqueleto. Outro cadáver foi recuperado em poucas horas, mesmo após afogar-se, sem as partes moles da cabeça. No terceiro cadáver, recuperado 20 horas após a vítima ter caído na água devido a um infarto do miocárdio, havia carne apenas no tronco. Pygocentrus nattereri e, em menor proporção,

Serrasalmus spilopleura são as espécies que praticam necrofagia. “Algumas das mortes atribuídas às piranhas, muito provavelmente, são casos de eliminação de pessoas que se afogaram ou já mortas”, defendem os autores Ivan Sazima e Sérgio de Andrade Guimarães, em um artigo denominado “Scavenging on human corpses as a source for stories about man-eating”. De acordo com o estudo do professor Francisco, desenvolvido ao lado do pesquisador Ivan Sazima, do Departamento de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a piranha catirina é solitária, enquanto as outras duas espécies vivem em cardumes. A piranha do rabo preto apresenta a dieta mais variada e estratégia de alimentação altamente oportunista, que inclui mimetismo agressivo ( jovens desta espécie imitam algumas espécies de peixes que são suas presas, para delas comer porções de suas nadadeiras, principalmente a anal e a caudal). As piranhas parecem influenciar fortemente o uso do habitat, a estrutura social e modo de forrageamento de numerosas espécies de peixes que fazem parte das comunidades aquáticas. Mito ou verdade As piranhas são atraídas pelo sangue. Essa é a primeira mentira da literatura, afirma Chico Peixe. Elas são atraídas pela comoção (barulho) na água. Elas são supercuriosas. O pesquisador fez um experimento no Pantanal. Um peixe piavussú morto foi mergulhado em uma lagoa da rodovia transpantaneira. Ao mergulhar para acompanhar a experiência, o pesquisador percebeu que vários peixes pequenos, como lambari, pequenos bagres e acarás, vinham mordiscar a carcaça do piavussú e “sumiam” assim que chegavam as piranhas. Mas por que os outros peixes têm tanto medo das piranhas? A explicação é simples e lógica: as piranhas são especialistas em se alimentar de nadadeiras, anal e caudal, de outros peixes. As nadadeiras são nutritivas, têm cálcio, pele e muco, com alto teor protéico e se regeneram entre oito a 15 dias. As piranhas são piscívoras e pelos seus hábitos são consideradas como predadores mutilantes - arrancam partes de outros animais. Além do hábito de se alimentar de nadadeiras de outras espécies, podem engolir pequenos peixes. Como os peixes de couro são mais lentos, é comum serem observados bagres faltando pedaços de seus corpos, principalmente aqueles que são pescados. As piranhas têm um senso biológico fantástico para detectar “anomalias” no comportamento das presas em potencial. Durante as pescarias, muitos peixes fisgados são atacados pelas piranhas quando se debatem na água na tentativa de escaparem dos anzóis, incluindo também os peixes de escamas.

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Será que é Verdade?

Boi de piranha Essa expressão faz parte do vocabulário matogrossense e a explicação é meramente econômica. Os boiadeiros sacrificam um animal para proteger o restante do rebanho. Animais com pequenos ferimentos têm menor valor comercial. No período de cheias, para atravessar os rios, lagoas, baias do pantanal, os boiadeiros separam um boi da manada e o levam até certa distância do local onde a boiada vai atravessar. São feitos cortes ou ferroadas (ferrão de arraia) no corpo do animal a ser sacrificado. O objetivo é causar muita dor para que o animal se debata. O barulho atrai os cardumes de piranhas que o devoram ainda vivo. Graças a essa estratégia, os outros animais da manada atravessam as águas sem que sejam feridos e assim mantêm o seu valor comercial. A lógica é meramente econômica: Prefere-se sacrificar um animal a ter uma perda maior na boiada. – Essa expressão faz parte do vocabulário matogrossense e a explicação é meramente econômica. Os boiadeiros sacrificam um animal para proteger o restante do rebanho. Animais com pequenos ferimentos têm menor valor comercial. No período de cheias, para atravessar os rios, lagoas, baias do pantanal, os boiadeiros separam um boi da manada e o levam até certa distância do local onde a boiada vai atravessar. São feitos cortes ou ferroadas (ferrão de arraia) no corpo do animal a ser sacrificado. O objetivo é causar muita dor para que o animal se debata. O barulho atrai os cardumes de piranhas que o devoram ainda vivo. Graças a essa estratégia, os outros animais da manada atravessam as águas sem que sejam feridos e assim mantêm o seu valor comercial. A lógica é meramente econômica: Prefere-se sacrificar um animal a ter uma perda maior na boiada.

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Era uma Vez...

Livros e Gabinetes de Leitura em Cuiabá

Camila Tardin

E

m Mato Grosso, o acesso aos livros e a prática de leitura em bibliotecas, que antigamente eram conhecidas como “Gabinetes de Leitura”, começaram efetivamente após 1874, com a inauguração do primeiro Gabinete de Leitura em Cuiabá. A partir daí foi dada a largada na corrida para arrecadar doações de

livros e móveis a fim de estruturar a primeira biblioteca pública de Mato Grosso. Várias autoridades foram convidadas a doar livros. Algumas pessoas também foram ao Rio de Janeiro comprar as melhores obras, mais atualizadas, para comporem o acervo que ficava no centro de Cuiabá, próximo de onde hoje está localizada a

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Era uma Vez... Praça Alencastro. A princípio, a biblioteca não foi destinada à classe popular, mas sim àqueles que cursavam nível de ensino mais elevado (antigo secundário e hoje ensino médio) e planejavam dar continuidade aos estudos superiores. O acervo do gabinete teve 1.325 livros, sendo 779 encadernados e 546 brochuras, escritos em diferentes idiomas. Estas informações fazem parte das pesquisas feitas por Elizabeth Madureira Siqueira, professora e doutora em História da Educação, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Apaixonada pela história matogrossense, Elizabeth escreve sobre a biblioteca pública em seu livro ‘‘Luzes e Sombras. Modernidade e Educação Pública em Mato Grosso (1870-1889)’’ – resultado de uma detalhada pesquisa documental de doutorado. A historiadora escolheu estudar o século XIX porque foi a partir dele que ocorreram grandes mudanças na educação brasileira. Por volta de 1882, o acervo bibliográfico do Gabinete de Leitura foi transferido para a biblioteca do Liceu Cuiabano – estabelecimento de ensino público secundário (nível médio), fundado em 1880. Mas há registros de que durante a mudança do Liceu Cuiabano, da praça do Ipiranga para a rua Coronel Peixoto, foram perdidos livros de história e geografia. Na Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça – criada em 26 de março de 1912 – também há livros daquele período que hoje fazem parte do seu acervo literário de obras raras. No livro “Datas Mato-grossenses”, Estevão de Mendonça conta que as condições e os serviços prestados à população cuiabana no Gabinete de Leitura eram prósperos. Porém, por problemas políticos, que ele denominou de “politicalha”, o Gabinete foi extinto. Outra biblioteca importante, mas de caráter privado, abordada pela professora Franceli Aparecida da Silva Mello na pesquisa ‘‘A prática de leitura em Mato Grosso no século XX: o papel das bibliotecas’’, foi a da Associação Literária Cuiabana, considerada uma das mais perfeitas organizações da época. Criada em 1884 por um grupo de intelectuais, o objetivo da instituição era proporcionar

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l e i t u r a va r i a d a a o s a s s o c i a d o s . Inicialmente, a sede da biblioteca ficava na rua Pedro Celestino. Depois, com o crescimento do número de sócios, foi transferida para uma das dependências do edifício da Câmara Municipal, no antigo largo da Sé, agora Praça da República. Ao encerrar suas atividades, o acervo foi doado para o antigo Centro Matogrossense de Letras, atualmente conhecido como Academia Matogrossense de Letras. Livros Os livros didáticos, também conhecidos como “compêndios”, eram raros. No ensino primário elementar, por exemplo, praticamente não havia livros para os alunos. O ensino era bastante rudimentar e os professores utilizavam jornais para ensinar a leitura. Quando havia algum livro, o professor apenas lia o texto em voz alta para toda a turma. Mas, se o aluno pretendia progredir nos estudos, o acesso dele ao livro era privilegiado. Somente nos ensinos primário complementar e no secundário os estudantes conseguiam adquirir os livros. Em Mato Grosso, o primeiro livro didático do qual se tem notícia foi o de Filosofia Racional e Moral, escrito pelo padre Ernesto Camilo Barreto. Naquele tempo, a filosofia era fundamental para o nível secundário. Barreto era reitor do Seminário Episcopal da Conceição, a primeira escola de ensino secundário de Mato Grosso, situada ao lado da igreja do Bom Despacho. A escola era privada e tinha o objetivo de formar padres e preparar os alunos para o ensino superior. Depois dessa escola, o primeiro estabelecimento desse nível, mas de caráter público, surgiu somente em 1880 com a criação do Liceu Cuiabano, cujo objetivo era preparar jovens para o ensino superior. No entanto, antes disso, quem queria avançar nos estudos tinha que ir para o Seminário. No Brasil, o percurso dos livros didáticos manteve estreita relação com o desenvolvimento da imprensa nacional, impulsionada pela vinda da Família Real, em 1808, quando foi fundada a Imprensa Régia – instituição responsável pela


Era uma Vez...

editoração de obras de expressivo valor, durante o período imperial. Em Mato Grosso, somente em meados do século XIX é que foi implantada a imprensa, mas durante todo esse século não foi registrada qualquer obra impressa no estado. Os compêndios didáticos utilizados nas escolas mato-grossenses eram adquiridos no Rio de Janeiro. Os livros de autoria do baiano Abílio César Borges, conhecido como o Barão de Macaúbas, predominaram no universo das escolas públicas mato-grossenses. Seus livros de Leitura (1º ao 4º) e sua Gramática foram bastante utilizados nas escolas primárias. Atualmente, os espaços dedicados à leitura se multiplicaram e a maioria das escolas brasileiras passou a ter biblioteca. Uma lei sancionada em maio deste ano tornou obrigatória a instalação de, pelo menos, uma biblioteca em todas as escolas do país. A lei 12.244, de 24 de maio de 2010, deixa claro que tanto as escolas

particulares como as públicas terão que se adequar às novas regras num prazo máximo de 10 anos. Será obrigatório um acervo de livros de, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo ao respectivo sistema de ensino determinar a ampliação deste acervo conforme sua realidade, assim como divulgar orientações de guarda, preservação, organização e funcionamento das bibliotecas escolares. Um estudo do movimento “Todos Pela Educação”, com base em dados do Censo da Educação Básica 2008, identificou que para o Brasil se ajustar à nova norma serão necessárias mais de 93 mil bibliotecas na próxima década somente no Ensino Fundamental. Isso representa a construção de pelo menos 25 bibliotecas por dia até 2020. Para a Educação Infantil será necessária a instalação de mais de 21 acervos por dia para cumprir a nova regra. Um desafio e tanto para as instituições de ensino do país.

Biblioteca Estevão de Mendonça Considerada a guardiã da memória literária de Mato Grosso, a Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça, atualmente localizada no prédio do Palácio da Instrução, em frente à praça da República no Centro de Cuiabá, tem mais e 70 mil exemplares cadastrados. Além dos livros, a biblioteca desempenha funções socioculturais, com a realização de oficinas, palestras e cursos. Possui salas de leitura, de vídeo, de livros infantis, de periódicos, espaço com obras e atividades dedicadas aos deficientes visuais e promove a inclusão digital na sala de informática. As obras raras, inclusive algumas do século XIX que faziam parte do acervo do Gabinete de Leitura, têm sala exclusiva. Neste acervo há coleções especiais de grandes escritores nacionais e internacionais, como Maquiavel e Luiz de Camões. São obras frágeis e de grande valor que precisam ser manuseadas com a orientação de Fernando Augusto Barros Figueiredo, responsável por este setor no prédio. Figueiredo trabalha na biblioteca há 35 anos. A seção de obras raras, que conta com quatro mil volumes, foi criada em 1980 com a colaboração dele: “Eu sugeri essa seção porque via que tinha muito livro antigo que precisava ser separado dos atuais”. Entre os livros mais antigos está a coleção de João de Barros. São 25 volumes que, segundo Figueiredo, narram uma viagem para a África. “Foi um professor de matemática que doou essa coleção para a gente. Só tem essa coleção aqui em Cuiabá e no Rio de Janeiro”, conta. Coleções jurídicas de Portugal e da Suíça, datadas do século XIX, também fazem parte do acervo.

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Óleo sobre tela: Spring - Pierre Auguste Cot

Entre a Emoção e a Razão

PAIXÃO Entendimentos e Desentendimentos de Adolescentes Apaixonados

Camila Tardin

A paixão não é superior à razão, pois os dois princípios estão ligados e ambos são importantes para a realização humana: enquanto o desejo mobiliza o homem, a razão é o princípio organizador que distingue os desejos e busca os meios para sua realização.

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Óleo sobre tela: Spring - Pierre Auguste Cot

Óleo sobre tela: Spring - Pierre Auguste Cot

Entre a Emoção e a Razão

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“É o momento em que a gente se percebe como posto em movimento, desafiado pela vida, pelo outro, pelo mundo. O ser humano é um ser de desejo porque é um ser que enfrenta permanentemente os

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Entre a Emoção e a Razão

Entre as agressões estão xingamentos, tapas, empurrões e puxão de cabelo. Outra observação curiosa é que não existem grupos econômicos, sociais ou etnias isentos de vivenciar relacionamentos amorosos marcados pela violência nas mais

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Foto: Jason Clapp

Óleo sobre tela: Spring - Pierre Auguste Cot

Entre a Emoção e a Razão

discurso e no comportamento dos jovens. “O tempo inteiro o afeto permeia essas relações”, diz Áurea. Os adolescentes utilizam a paixão para justificar até mesmo o ato de violência verbal ou física. Um exemplo é a menina aceitar ter relação sexual somente para agradar o parceiro e garantir o namoro. “Se a jovem não quiser ter a relação sexual, mas ceder à exigência do parceiro, isso não deixa de ser um exercício de violência”, acrescenta. O trabalho demonstra também que raramente os adolescentes buscam ajuda para resolver o problema da violência no namoro. A razão pode ser a preocupação do jovem com sua privacidade ou até a falta de conhecimento sobre os recursos existentes. No entanto, apesar de a procura por apoio profissional ser mínima, as queixas emocionais são as que mais impulsionam tal busca. Outro fato observado foi a propagação da violência. “Essa relação de violência vem de casa, do ambiente familiar. Aqueles jovens que têm história de agressão em casa, reproduzem essa violência em suas relações afetivas, como no namoro, na escola, no trabalho”, acrescenta Áurea. Ficar Na pesquisa realizada em âmbito nacional, também foram apresentadas

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as novas configurações de relacionamento abordadas pelos adolescentes, como, por exemplo, a prática do “ficar”. Nesse tipo de relação o amor não é prérequisito para o envolvimento. Os fatores sociais, culturais, políticos e econômicos apresentam maior influência na escolha dos jovens. A prática do “ficar” parece ser um tipo de teste para o namoro. Para não sofrerem ciúmes, desconfiança e traição no namoro, muitos rapazes e moças preferem “ficar”, já que nessa relação, supostamente, não existem amarras, e, além disso, há menos risco de se apaixonar e se decepcionar. Essas experiências afetivas e sexuais descomprometidas do “ficar” atraem mais os meninos do que as meninas. Quase todos os adolescentes pesquisados disseram que já se apaixonaram (89,5%). No entanto, esse sentimento é predominante nas meninas, especialmente quando acreditam ter sido correspondidas. A pesquisa nacional mostra que 32% dos entrevistados já se apaixonaram e não foram correspondidos e 10,5% nunca se apaixonaram. Nesse último grupo os meninos prevalecem, o que acaba reforçando a ideia de menor envolvimento afetivo no grupo masculino em comparação ao feminino. Jovens de Cuiabá, Florianópolis e Teresina (16%) foram os que mais relataram nunca terem se apaixonado em comparação aos adolescentes das outras capitais (14%).


Entre a Emoção e a Razão “As meninas relatam praticar mais as violências verbal e emocional (82,1%), seguida pela violência sexual (33,5%) e sofrem mais a violência verbal e emocional (78,9%) do que a agressão sexual (43,1%). Os meninos também dizem exercer mais as violências verbal e emocional (83,5%) do que a sexual (56,1%) e discorrem sofrer mais a primeira (85,3%) do que a segunda (49,7%)”.

Violência entre namorados adolescentes A pesquisa nacional “Violência entre namorados adolescentes: um estudo em dez capitais brasileiras”, considerada pioneira no Brasil, iniciou-se em 2007 e foi concluída em 2009. O estudo foi conduzido nas cinco regiões brasileiras, tendo sido selecionadas para a pesquisa Manaus, Porto Velho, Teresina, Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, Porto Alegre, Cuiabá e Brasília. Aproximadamente quatro mil adolescentes entre 15 e 19 anos, de 104 escolas públicas e privadas, participaram do estudo. O objetivo do trabalho foi verificar as formas de violência nas relações afetivo-amorosas entre casais de namorados adolescentes. O trabalho, que contou com a parceria de pesquisadores de universidades federais em todas as capitais, não encontrou diferenças significativas de comportamento entre os jovens das diversas regiões, nem tampouco entre os adolescentes das escolas públicas e particulares. Conforme os resultados, nove em cada dez jovens que namoram praticam ou sofrem variadas formas de violência. A violência verbal é a mais frequente: 85% dos adolescentes que mantinham relacionamentos afetivos admitiram já ter dito aos parceiros palavras ruins, em tom agressivo e xingamentos, assim como relataram ter sido vítimas desse tipo de agressão. Para exercer domínio sobre o parceiro, o jovem procura controlar o comportamento do outro através das roupas que ele usa, pela agenda do celular, pelos acessos a redes

virtuais de relacionamento, entre outras formas. Além disso, a ameaça de término do relacionamento é pretexto para vários tipos de chantagem. A violência sexual também está presente. As duas formas de agressão mais comuns são forçar a beijar e tocar o outro sexualmente. As meninas são as maiores vítimas desse tipo de violência. Em relação à agressão física, como, por exemplo, dar um tapa, puxar o cabelo, empurrar, sacudir, bater ou jogar algo em cima da outra pessoa, os rapazes são as maiores vítimas. Independentemente do sexo e da classe social, os adolescentes elegeram a família, representada pela figura dos pais, como a principal referência para abordar as questões afetivo-sexuais. No estudo, 53% dos jovens disseram conversar abertamente com os pais sobre sexo, 76,7% sobre drogas e 86,8% sobre amizades. No que diz respeito a diálogos sobre namoro, as meninas procuram mais a família do que os meninos. A escola e a mídia também foram consideradas espaços importantes para tratar desses temas. Posteriormente, os dados da pesquisa serão publicados em um livro e os resultados também podem subsidiar futuros programas de capacitação que envolvam profissionais que lidam com adolescentes. No Brasil faltam redes de serviços estruturadas nas áreas de educação e saúde para apoiar os adolescentes. A expectativa é que esses dados sirvam de fomento para novos projetos e materiais que preencham essa lacuna existente no país.

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Dossiê

Pesquisa na UFMT caminha lado a lado com a sociedade O despertar para o conhecimento científico em Mato Grosso vem com a criação da UFMT. Em 1982 é instituída a SubReitoria de Pesquisa e Ensino de Pós-Graduação (SPG). Pouco antes dos anos 90, os primeiros mestres e doutores retornam a Cuiabá e o esforço para que a pesquisa científica se estruturasse em Mato Grosso começa a tomar forma. Em 1993 a Sub-Reitoria se reorganiza e ganha o nome de Pró-Reitoria de Pesquisa e Ensino de Pós-Graduação, que em 2001 se transforma em Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPEq). Carol Landhi

A

ciência parece algo distante, intocável como uma estação espacial, outras vezes tão próxima como a água que sai do chuveiro. Na Universidade Federal de Mato Grosso, que já chega aos seus 40 anos, ela está ao alcance de quem sempre quis ser um cientista ou daquele que nunca sonhou com essa possibilidade, graças à porta de entrada chamada graduação. Essa porta para o fazer científico começou a se abrir quando, em 10 de dezembro de 1970, as primeiras estruturas daquele que seria o campus central da universidade começaram a ser edificadas. Mas a idéia de fazer pesquisa ainda não passava pela cabeça da população cuiabana nos primeiros anos da década de 70. José Holanda Campelo Júnior além de doutor em agronomia é um ótimo contador de histórias e explica que a UFMT é resultado de muita luta da sociedade. A principal razão para a existência dela era a necessidade de educar e formar novos líderes em território matogrossense. Isso facilitaria também o acesso a uma formação, já que não seria mais preciso mandar os filhos estudarem em outros estados. “Morar fora incluía muitos

riscos, a começar pela dificuldade de locomoção que se tinha naqueles anos. Queríamos médicos, advogados, biólogos e outros tantos profissionais graduados aqui. Mas em pesquisa poucos pensavam. Não se tinha a dimensão da importância do desenvolvimento tecnológico. Contudo, isso foi mudando vagarosamente”, relata um dos mais antigos professores da UFMT. Amadurecida, a UFMT chega a 2010 com 26 programas de mestrado, cinco de doutorado, seis doutorados interinstitucionais, e diversos cursos de especialização. Segundo Campelo, existem dois tipos de professores: 1) o professor profissional, aquele que se dedica à pesquisa; e 2) o profissional professor, aquele que faz o ensino prático, que tem vivência no mercado. Nos primeiros anos da instituição, o ensino dependia basicamente de profissionais professores e sem eles a universidade não sairia do papel. Foi com o passar do tempo e com a estruturação da universidade, que se começou a exigir a qualificação acadêmica para que, então, a UFMT iniciasse suas primeiras pesquisas científicas. Pouco antes da década 34


Dossiê

A UFMT como ela é A UFMT registra 340 projetos de pesquisa apenas em 2010 e 1.354 em andamento. Em 2009, foram 363 projetos de pesquisa que mobilizaram mais de 22 milhões em financiamento e participação de outras 73 instituições. Compõem a UFMT 27 institutos e faculdades; o Hospital Universitário Júlio Müller, o Hospital Veterinário; uma fazenda experimental; uma base avançada de pesquisa no Pantanal; estações meteorológicas em Cuiabá e Rondonópolis; herbário; biotério, zoológico, ginásio de esportes, parque aquático, museus e o único teatro com especificações técnicas exigidas para receber as diversas modalidades de artes cênicas no Estado. Para responder às perguntas que surgem em meio ao desenvolvimento tecnológico e econômico de Mato Grosso, além de Cuiabá, outros três campi foram criados: em Rondonópolis, ao sul; em Sinop, ao Norte; e no Pontal do Araguaia e Barra do Garças, a leste do Estado. Tais questionamentos vão da comunicação com o local até a saúde e à educação do mato-grossense, passando pela diversidade indígena, a agricultura e pelos impactos sociais e ambientais.

científica na UFMT, o que já foi feito e o que ainda está por vir, selecionamos cinco temáticas de peso na realidade mato-grossense para mostrar como o fazer científico foi desenhado na universidade, o que ele representa hoje e a diferença que vai fazer no futuro. Perceba que, se para nós o cair das folhas é uma coisa tão natural que nos passa despercebido, para o cientista o simples fato do cair das folhas pode revelar mistérios sobre as condições climáticas do futuro. Que a natureza tem lá seus momentos de rebeldia todos sabemos, mas como a ciência tenta contornar esses obstáculos? Veja como o crescimento da agricultura já era calculado antes mesmo da soja se estabelecer no Estado e como esse grão vem sendo estudado como mais uma fonte de proteína nas refeições dos mato-grossenses. Há ainda as mudanças que fizeram da escola um lugar dinâmico e democrático e como a ciência interferiu nesse processo.

de 80 os primeiros professores saíram do estado para fazer mestrados e doutorados. Daí a necessidade da criação de setor que trabalhasse com a estruturação da pesquisa.

Produção Agrícola

Todo esse trajeto de estruturação da pesquisa, que começou em 1982 com a criação da Sub-Reitoria de Pesquisa e Ensino de Pós-Graduação, conferiu à universidade federal do estado uma característica própria, a interdisci-plinaridade. Conforme conta José Holanda, que há 34 anos estimula a ciência na instituição, a escassez de professores especialistas e os depar-tamentos pequenos resultaram em um esforço multidisciplinar que perdura até hoje. “É comum vermos químicos, biólogos, médicos, agrônomos, historiadores e sociólogos trabalhando em conjunto. Essa teia é típica da UFMT”. E a “teoria campeliana” se confirmou no decorrer desta reportagem, quando percorremos os corredores da Física Ambiental, da Agricultura Tropical e da Educação, entre salas e laboratórios da Nutrição e da Biologia. O que mais se vê são pesquisas que contam com o apoio de diferentes áreas.Na tentativa de perceber como está a produção

Se hoje Mato Grosso está no hall dos maiores produtores de grãos do Brasil, 20 anos atrás já havia professores na Universidade Federal de Mato Grosso apontando que o Estado poderia muito mais. Enquanto o Brasil ainda produzia cerca de 55,7 milhões de toneladas de grãos, o doutor em Solos e Nutrição de Plantas José Holanda Campelo Júnior garantia que, sozinho, Mato Grosso produziria o que o país todo colhia na época. É importante destacar que, em 1990, quando publicou o livro “Zoneamento do potencial de produção de grãos em Mato Grosso”, em parceria com outros autores, o Estado se dedicava ao plantio do arroz, uma forma de preparar a terra para receber o pasto e, posteriormente, o gado. Em 1991, a pesquisa causou desconfiança quando Campelo a a p re s e n t o u n o V I I C o n g re s s o B r a s i l e i ro d e Agrometeorologia, em Viçosa, Minas Gerais.O esconomista José Roberto Mendonça de Barros - secretário de Política 35


Dossiê

Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998 - passou por uma situação semelhante quando preparava o doutorado, em 1971. Em entrevista para a revista Pesquisa, da Fapesp, edição de agosto de 2010, o economista conta que na época só quem conhecia comida japonesa sabia o que era soja, mas ele garantia que o Brasil chegaria a exportar US$ 300 milhões desse grão. A análise foi considerada uma maluquice completa, contudo, “hoje virou um negócio grande mesmo (...). Quando comecei, não conhecia muito soja, mas percebi que uma coisa extraordinária tinha aparecido”. Conforme conta Campelo, com 34 anos de experiência da formação de novos agrônomos, o zoneamento foi realizado com base em estudos do solo, do clima e das características das culturas realizados em anos anteriores à publicação. “Com isso, chegamos às informações de como, onde e em que quantidade elas seriam produzidas”. Hoje, se tal pesquisa fosse publicada, talvez não causasse tanto espanto, já que Mato Grosso produz cerca de 29 milhões de toneladas de grãos, entre milho, soja, arroz e girassol. Ao passo que se previa o avanço agrícola, também se pensava em maneiras de armazenar e conservar a produção - estudos que se tornaram referência no Estado. “A pesquisa não sai só da cabeça do pesquisador, tem que responder a um anseio da sociedade. Além disso, não tinha como se fazer pesquisa se não houvesse o mínimo de interesse. Alguém tem que pagar”, enfatiza. Entre os inúmeros trabalhos publicados desde o início da década de 80, José Holanda testava a eficiência de secadores movidos a energia solar, já que com a crise do petróleo daqueles anos as grandes indústrias de máquinas agrícolas foram obrigadas a desenvolver alternativas para a

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secagem de grãos. Tanto a pesquisa “Avaliação de silos-secadores para secagem de arroz a energia solar” (1983) quanto seus desdobramentos colaboraram para as aulas dos graduandos da UFMT, inserindo na grade curricular aulas aplicadas, para que não ficassem presos exclusivamente à literatura. Além disso, pesquisas nessa linha tinham e ainda têm grande importância para o desenvolvimento do Estado, pois é comum, em Mato Grosso, escoar a produção de maneira lenta, considerando também a precária estrutura das vias e a complexidade do mercado de grãos. A energia solar acabou se mostrando inviável para a então realidade matogrossense, mas os resultados acabaram estimulando a busca por novas técnicas e avaliações, como a secagem feita com a queima da lenha, que para o professor continua sendo a mais econômica, viável, ágil e compatível com a produtividade local. “Na pesquisa é assim, as coisas se interligam e uma acaba levando à outra”. Pantanal tem muitas respostas Quando se fala em Pantanal, lembra-se logo de água e seca, desmatamento e pastagem, e, nos últimos meses, em Copa do Mundo. Mas para os pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o Pantanal ainda é um mistério a ser desvendado. Desde a década de 80 os estudiosos lançam um olhar curioso e diferenciado sobre essa região e nos últimos anos observaram que a própria natureza anda rebelde com ela mesma. Essa rebeldia pode ser notada no c o m p o r t a m e n to d o s c a m ba r á s (Vochysia divergens), que têm se tornado plantas invasoras e tomam conta do que antes eram campos nativos, habitat natural de herbívoros e outras espécies, destruindo o habitat animal nativo e eliminando espécies de plantas.Nos últimos anos, a bióloga Cátia Nunes da


Dossiê Cunha, professora no Instituto de Biociências (IB), da UFMT, analisa a dinâmica da vegetação pantaneira e o que a invasão atinge ou faz perder de biodiversidade. “Agora a questão é pesquisar como recuperar esses campos e elaborar propostas de conservação para essas áreas, como manejo e uma legislação diferenciada para o Pantanal”. Mas a identificação de que algo estranho e prejudicial está acontecendo no Pantanal não poderia ser feita se em 1980 o Instituto de Biociências não tivesse dado os primeiros passos para estudar e compreender esse bioma. Inicialmente veio o Curso de Especialização em Biologia de Áreas Alagadas, que fortaleceu o grupo de pesquisadores e abriu portas para convênios internacionais. Logo em seguida, já com professores doutores, chegou-se ao mestrado, posteriormente arrematado pelo 8º International Wetland Conference, em 2008 – encontro internacional que reúne os principais estudiosos em áreas úmidas e que contribuiu para a mudança de um paradigma. Se antes via-se o Pantanal com duas faces distintas, uma terrestre e outra aquática, passou-se a ver esse bioma como uma coisa só: área úmida, pois uma coisa não poderia viver sem a outra. E nesse jogo de “decifra-me ou devorote” estava Cátia Nunes perguntando o que havia no Pantanal. O resultado disso foi o mestrado “Estudo Florístico e F i tof i s i o n ô m i c o d a s p r i n c i pa i s Formações Arbóreas do Pantanal de Poconé-MT”, que consistia em caracterizar a vegetação pantaneira. “Conhecer agora para entender e subsidiar formas de uso sustentável no futuro”, justificava. No dourado seguiam-se perguntas levantadas no estudo anterior. “Como estão distribuídas as espécies em um gradiente que vai do seco até o muito úmido?”. Depois de medir e contar mais de 7 mil plantas, passar 3 anos a campo, analisar sedimentos e distribuir essas espécies em uma linha - não de tempo, mas de índices de umidade -, o estudo indicou a existência de espécies de árvores em longas faixas e em

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diferentes ambientes no Pantanal, como o Cambará. E as perguntas que impulsionam o fazer científico continuam pelos corredores e salas do IB. Desta vez para saber até que ponto podemos interferir na disseminação de espécies arbóreas em muitas áreas de pastagens nativas e como o controle dessas invasoras pode contribuir para a manutenção da riqueza e da diversidade de espécies de plantas e da vida silvestre (Leia também nesta edição a descoberta por pesquisadores da UFMT de uma nova espécie de piolho de cobra). Pesquisa muda a Educação Feche os olhos e imagine-se sentado em um banco de escola onde opinião dos alunos não é bem vinda e pouco interessa o que os pais desses estudantes pensam ou deixam de pensar. Sim, essa escola onde as pessoas não podiam expor suas idéias existiu, mas as primeiras pesquisas da Universidade Federal de Mato Grosso ajudaram a mudar essa realidade. Em plenas décadas de 1970 e 1980, pesquisadores de vários estados brasileiros, impulsionados pelo espírito de luta contra a ditadura militar e pródiretas, buscavam uma maneira de democratizar o acesso à escola e a própria organização dela. Eram os primeiros passos rumo à Gestão Democrática da Escola, em que diretores, pais, alunos, professores e funcionários discutem em torno das decisões a serem tomadas no cotidiano escolar. Quem também pesquisava e estudava essa “nova escola” era o Núcleo Permanente de Pesquisa e Pósgraduação do Departamento de Educação (NP-EDU), logo nos primeiros 11 anos da UFMT. Nesse grupo estava Ártemis Torres, doutora em Educação, que decidiu estudar junto a outros quatro pesquisadores o acesso das crianças das camadas populares à escola de 1°grau João Bosco P. Burnier, uma fundação escolar que existia no bairro Bela Vista, em Cuiabá.


Dossiê Mas os pesquisadores desejavam ir além. Por meio de um projeto que não se limitava à pesquisa, eles visitavam o bairro para identificar os problemas que aquela população enfrentava quando o assunto era ensino público, frequência escolar, participação dos pais na educação dos filhos. "Ouvíamos as pessoas, as associações de moradores, levantávamos estatísticas. Tudo para intervir positivamente e desenvolver naquela região uma política de democratização da escola." Na pesquisa - chamada “Melhoria da produtividade numa escola da periferia urbana e participação da c o m u n i d a d e ”, f i n a n c i a d a p e l o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – percebeu-se que muito mais do que haver ou não vagas, a questão era dar condições para que crianças de baixa renda freqüentassem a escola. Na realidade pesquisada, cobravamse taxas, material escolar, uniforme, transporte e outras coisas que exigiam

um investimento que poucos tinham condições de fazer. Além disso, professores não comprometidos com a causa e pais às margens de qualquer discussão também interferiam na evasão escolar. O estudo se mostrou uma experiência de relação mútua entre pesquisadores e moradores. “Fazer pesquisa, mas também interferir na realidade daquelas pessoas.” Formou-se, assim, um elo entre escola e pais para criar uma cultura escolar diferente, melhorar a relação entre esses sujeitos e o ensino aos alunos, assim como reduzir a evasão e tornar o colégio uma instituição mais acessível. E os pais realmente tinham algo a dizer. Tanto que a pesquisa acabou fomentando neles a luta por uma escola pública no bairro, a atual Madre Marta Cerutti, com eleições de diretores, conselhos com representação de pais, alunos e professores. “A escola é uma instituição do bairro e deve se abrir para o bairro”, dizia Ártemis desde os primeiros dados coletados.

Arara Azul (Anodorhynchus hyacinthinus)

Ensino a Distância Aproximadamente 18 mil quilômetros separam o Brasil do Japão. Mas nem toda essa distância, nem a diferença de 12h no fuso-horário impediram que Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) participasse de um projeto inovador dentro da Educação à Distância. A missão: formar em pedagogia os profissionais que já atuam em escolas brasileiras no Japão. O projeto surgiu da necessidade de se reconhecer o trabalho das 92 escolas brasileiras que funcionam em território nipônico e estão à margem do sistema educacional japonês. Os governos dos dois países decidiram trabalhar a formação dos professores dessas escolas como primeiro passo para integração dos sistemas educacionais brasileiro e japonês. Na base desse projeto ousado - que já completou o primeiro dos quatro anos de capacitação - estão 12 trabalhos científicos, 6 livros e vários artigos desenvolvidos e publicados pelo grupo de pesquisa Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação desde 1998. Graças a esse histórico e a essa experiência é que a UFMT foi convidada para orientar a qualificação de professores do outro lado do mundo. A graduação em pedagogia é dirigida a professores brasileiros que dão aula no Japão, mas não têm graduação na área. A pesquisadora Kátia Alonso estima que 80% dos professores que atuam em escolas brasileiras em território nipônico lecionam na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental. Assim, em parceria com Universidade Tokai, 300 vagas foram oferecidas a esses profissionais e, atualmente, 280 estão ocupadas. O curso vai de 2009 a 2013 e é dividido em oito semestres, totalizando 3.360 horas. As 15 turmas compostas por aproximadamente 20 alunos são qualificadas em sistema modular. Além do ambiente virtual, os graduandos desenvolvem trabalhos individuais e em grupo, recebem material didático, fazem videoconferências e contam com apoio de 17 orientadores e 3 professores da UFMT. Uma vez em cada semestre acontece um encontro com os professores da UFMT do outro lado do Pacífico

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Rumo ao Futuro Sem bola de cristal, tarô ou búzios. Veja como a física ambiental modela o futuro da Amazônia: 1 – Em meio à floresta, uma torre equipada com sensores high tech foi levantada para capturar informações sobre umidade, velocidade do vento e gazes e toda a condição climática sobre a mata. 2 – Lá embaixo, 20 caixas são distribuídas em uma área de 1 hectare. Algumas ficavam suspensas para coletar o litter fall, aquela serrapilheira que não teve contato com os microorganismos do solo. Outras, sem o fundo, foram colocadas no chão para coletar o litter pool, o material que iniciou o processo de decomposição. 3 – A coleta era realizada a cada 15 dias. Na floresta media-se a altura da serrapilheira e, em Cuiabá, o material ia para uma estufa, onde se analisava a massa, os componentes químicos, a água e as taxas de decomposição. 4 – Os dados eram compilados e, junto com as informações da torre, revelavam o comportamento daquela área de floresta e como ela pode ser se alguns fatores forem alterados. 5 – Empurrada por fortes ventos, a torre caiu, mas os dados coletados eram tantos que são utilizados para modelagens matemáticas. Pesquisadores da UFMT buscam financiamentos para reerguer a torre.

O Comportamento da Floresta de Transição

Bromelia (Aechmea nudicaulis var. aqualis)

A Agência Espacial Americana (NASA) está de olho na produção científica da Universidade Federal de Mato Grosso. Mais especificamente nos resultados do Programa de Pós-graduação em Física Ambiental, que tenta entender o comportamento da Floresta de Transição – aquela entre o Cerrado e a Floresta Amazônica – para saber como será a Amazônia no futuro. Além de americanos e europeus, fundações de amparo a pesquisas brasileiras também investem pesado para estudar como a mudança climática poderá interferir na dinâmica da floresta. Diariamente, na UFMT, geógrafos, químicos, físicos, engenheiros, biólogos e outros especialistas voltam seus olhares para a Floresta de Transição para conhecer o passado, avaliar o presente e modelar o futuro. Na linha de pesquisa Interação Biosfera – Atmosfera, a engenheira sanitarista e pós-doutora em física ambiental Luciana Sanches se dedica desde 1999 a padronizar o comportamento de uma área de floresta de transição localizada no município e Cláudia (a 606 km de

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Cuiabá). Trata-se de uma floresta in natura, com características amazônicas, que sofre influência do pasto que avança no arco do desmatamento, interferindo no clima, na densidade e na umidade da floresta. “Há 10 anos estudamos o comportamento dessa região para tentar saber como ela será em diferentes cenários. Se hoje a temperatura é 25ºC, se fosse 23ºC, se fosse 21ºC, se fosse 30ºC. A ideia é que com o aquecimento global essa temperatura mude, então como essa floresta poderá se comportar?”. Nessa área de floresta intocável, de 1999 a 2008, pesquisadores da UFMT, entre eles Luciana, coletaram informações sobre a temperatura dentro e fora da floresta, a umidade relativa do ar, a radiação global solar (o que está chegando do sol e o que está sendo refletido novamente para a atmosfera), a velocidade e a direção do vento, o fluxo de energia e de carbono e demais fatores componentes do clima. Tudo graças a uma torre de 42 metros de altura equipada com aparelhos de última geração. Paralelo a essas observações, durante sete anos, Luciana se dedicou ao estudo do dossel (folhagens das árvores muito acima do chão) na tentativa de


Dossiê compreender como a vegetação se comporta no período chuvoso e no período de déficit hídrico. “Para entender essa dinâmica, estudamos a serrapilheira, a quantidade de folhas, flores e frutos que o dossel desprende e se acumula no chão”. Com esse material consegue-se interpretar muitas coisas, pois a queda e a decomposição dele é influenciada pela quantidade de água, a temperatura ideal, umidade, microorganismos e etc. Também é possível determinar qual a taxa de decomposição dessa vegetação, a quantidade de nutrientes (carbono, fósforo e nitrogênio) que sai da folha e passa para o solo, completando o ciclo. Todos os dados são utilizados em uma equação matemática que pode revelar como a floresta era, como é e como será – a chamada “modelagem matemática”. Apesar destes esforços, ainda são necessários, no mínimo, mais 30 anos de estudos para definir alguma coisa sobre o clima. Por isso padroniza-se a floresta, pois se todo o ano ela se comporta de determinada maneira sob uma certa condição climática, será possível prever como ela será se as a condições mudarem. Proteína da soja: vantagens e desvantagens Seja por uma vida saudável ou em solidariedade aos direitos dos animais, o fato é que cresce cada vez mais o número de vegetarianos no mundo. No mesmo ritmo, aumentam a produção de soja, a quantidade de produtos vegetarianos e, na Universidade Federal de Mato Grosso, os estudos sobre as vantagens e as desvantagens da proteína de soja. Enquanto muitas linhas de pesquisa estudam o melhoramento genético e o aumento da produção de grãos, na Faculdade de Nutrição (Fanut), da UFMT, progridem as pesquisas sobre a utilização da farinha de soja na alimentação de ratos desnutridos. E a primeira conclusão a que se chega é que nossas mães estão certas quando insistem em dizer que a refeição balanceada e diversificada é a melhor.

Na Fanut, desde 2001 são realizadas pesquisas que têm como foco o estudo da desnutrição na gestação e na lactação e a recuperação de mãe e filho com dieta padrão, à base de caseína - uma proteína considerada completa e presente no leite –, e outra à base de farinha de soja. Os experimentos são realizados com ratos de laboratório e têm como objetivo identificar as diferenças entre a recuperação de ratos desnutridos com caseína e com soja. Tudo partindo da constatação de que uma vez desnutrido o animal nunca mais recupera o peso e a saúde daquele que nunca passou pela mesma situação. O que se pode observar nesses jovens em nove anos de pesquisa é que a dieta que utiliza a soja como única fonte de proteína não é superior à dieta padrão. Um dos resultados aponta que apesar da soja se mostrar eficiente na diminuição da gordura no fígado, os animais ficam resistentes à insulina, efeito semelhante à diabetes tipo 2. Mesmo que as pesquisas da Fanut sejam realizadas em ratos e estudem mecanismos que nem sempre podem ser extrapolados para o ser humano, a pesquisadora Márcia Queiroz Latorraca afirma que os resultados obtidos mostram que utilizar a soja como única fonte de proteína não é tão bom quanto uma alimentação variada, com diferentes fontes de proteína. Os resultados das pesquisas com a soja na Fanut, têm levado o nome da universidade para o exterior. Além da publicação de artigos em revistas nacionais e internacionais, como a Nutrition, os professores se preparam para publicar um capítulo de livro pela editora holandesa Elsevier. Na obra, chamada ‘‘Flour and Breads and their fortifications in health and D i s e a s e P r e v e n t i o n ’’, o s pesquisadores da UFMT abordam o efeito da dieta à base de farinha de soja sobre a ação e secreção da insulina. A edição é por conta de Ronald Ross Watson, da Universidade do Arizona, e Vinood Patel, da King's College London e deve ser publicada até o final do ano na Inglaterra. 40


Desenvolvimento

Apoio à Pesquisa Acelera Resultados Investimento é vital para o desenvolvimento científico Carol Landhi

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ara ser um cientista ou um pesquisador com a inteligência de Albert Einstein, o dom de Osvaldo Cruz ou a perspicácia de Louis Pasteur e de tantos outros pesquisadores, é preciso persistência, disciplina e apoio. O avanço das pesquisas e a descoberta de novas técnicas, teorias e conceitos dependem de investimentos, seja por parte do Estado ou de empresas privadas. Em Mato Grosso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapemat) investe, anualmente, cerca de R$ 40 milhões em pesquisas. Os investimentos são feitos em diversas áreas do conhecimento e beneficiam estudos desenvolvidos no Estado e para o Estado. No currículo da Fapemat, constituída oficialmente em 1998, estão pesquisas importantes para o desenvolvimento agrário e ambiental, como a agricultura de precisão, o uso da biodiversidade entre os ribeirinhos do rio Cuiabá e a preservação do Pantanal Depois de passar um bom tempo estudando variabilidade espacial dos solos na Holanda e no Brasil, o pesquisador Eduardo Guimarães, do Departamento de Agronomia da Universidade Federal de Mato Grosso, aguarda a chegada de um equipamento americano, financiado pela Fundação, para estudar a distribuição de carbono no solo mato-grossense com base na técnica de agricultura de precisão, que quantifica o solo e estuda como ele muda no espaço. Para esclarecer melhor, Guimarães compara o solo a um mar cheio de ilhas; essas linhas são concentrações de coisas, como nutrientes, argila, matéria orgânica e etc. Distribuídas nesse mar de terra, cada ilha tem um tamanho e com a agricultura de precisão pode-se quantificar isso e mapear. “A agricultura de precisão consegue entender que a paisagem não é homogênea e torna possível a produção de mapas sobre essa heterogeneidade. Assim, consigo colocar no solo a necessidade exata de fertilizante que ele está precisando, economizando dinheiro e diminuindo o impacto ambiental”. O que antes era utilizado para corrigir deficiências de nutrientes pode agora se tornar uma ferramenta para estudar quanto há de carbono no solo matogrossense, como ele está distribuído, quanto já foi perdido, além de desenvolver maneiras de cultivar a terra sem prejudicar o meio ambiente. O pesquisador conta que, no final da década de 90, a técnica era muito ligada às

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Desenvolvimento

indústrias internacionais de máquinas e fertilizantes agrícolas. Entretanto, na UFMT, ela foi desdobrada e adaptada para a realidade brasileira. Em parceria com alunos, avaliava-se a distribuição de nutrientes com amostras recolhidas sob diferentes escalas e com a ajuda da estatística era possível saber qual técnica era mais confiável. Mas com a chegada do equipamento que detecta carbono, fósforo e potássio, a expectativa é que a agricultura de precisão no Brasil se torne algo mais barato e ágil em Mato Grosso. Com o sensor que está a caminho do Estado, Guimarães também espera estimar como a terra pode armazenar carbono, quais as técnicas agronômicas que permitem maior fixação de carbono no solo. Ainda será possível saber se as técnicas de agricultura utilizadas, como o plantio direto, estão contribuindo para a perda ou ganho desse elemento químico. “Quanto mais carbono o solo fixar, menos ele está liberando para a atmosfera e contribuindo para o efeito estufa”. Preservar para educar A Fapemat foi criada para apoiar o desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica em prol de Mato Grosso, seja por meio de financiamento de pesquisas ou com bolsas de estudo. Entre tantos projetos, destacam-se as pesquisas realizadas por Carolina Joana da Silva, pós-doutora em ecologia e professora da Universidade do Estado de Mato Grosso, e seus orientandos. Desde 2001 a pesquisadora se dedica a estudos ecológicos no Rio Paraguai, em Cáceres, e na Baia Chacororé, em Barão de

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Melgaço e pesquisa as mudanças decorrentes do uso de recursos naturais nessas duas regiões. Um dos objetivos é verificar como as populações em torno desses sistemas percebem as mudanças nesses ambientes. Na Baia Chacororé, o projeto “guarda-chuva” inclui um produto que ainda aguarda por investimento. Trata-se de um material didático-científico para ser trabalhado nas escolas ribeirinhas. O livro quer mostrar para os jovens dessas comunidades a explicação científica que está por trás de atividades cotidianas. Quais as leis da física que explicam o fato do pescador ribeirinho deixar o barco parado em meio à correnteza? Como a ciência explica o processo de produção da rapadura? “Queremos confeccionar um livro com conteúdo cultural e científico. É a transformação pela ciência e tecnologia”, destaca Carolina Joana. Mas para chegar a esse projeto foram alguns anos de caracterização da Baia Chacororé, identificação da vegetação aquática e ripária (que está em torno dos rios) e análise de como a população ribeirinha vê o rio e como maneja essa biodiversidade. O resultado mostrou que as comunidades têm conhecimento ecológico tradicional, ou seja, compreendem como o pulso de inundação afeta a biodiversidade e conhecem as mudanças químicas que acontecem nesse processo e como as pessoas se adaptam a ele. A partir desse conjunto de resultados foi possível colocar em prática o primeiro produto, que consistia em orientar as pessoas para que elas se apropriassem de conhecimento. “Orientávamos a


Desenvolvimento população ribeirinha por meio de palestras, cursos sobre cidadania e direitos ambientais, workshops e seminários para discutir os problemas da região”. E agora a meta é entrar na área da educação. “Em um futuro próximo queremos distribuir para as escolas públicas das comunidades ribeirinhas um material bonito, legal e científico. Para transformar o Brasil, os jovens precisam dominar a ciência desde a escola fundamental”. Futuro Para o presidente da Fapemat, João Carlos de Souza Maia, a pesquisa hoje em Mato Grosso é muito significativa e cresceu 100% nos últimos 10 anos. Até este ano já foram registrados aproximadamente 2 mil projetos de pesquisa e 2.500 bolsas de iniciação científica, 250 de mestrado e 100 de doutorado. O resultado desse esforço pode ser percebido na consolidação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (INAU) que objetiva fazer um levantamento e classificar as áreas úmidas. Coordenado pela UFMT, o projeto deseja contribuir na tomada de decisões para a preservação dessas áreas, entre elas o Pantanal Mato-Grossense - a maior planície alagável do planeta. O projeto, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), conta com apoio das fundações de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (Fundect) e é uma rede que envolve sete instituições

nacionais, quatro internacionais e mais de 100 pesquisadores. Um deles é o químico e professor da UFMT Paulo Teixeira de Souza Júnior, que dentro do INAU desenvolve pesquisas com fitoterápicos no Pantanal. Uma delas já aponta resultados promissores, com a descoberta de uma planta capaz de combater a úlcera gástrica. “Não podemos detalhar, pois é uma pesquisa que envolve patente, mas posso garantir que não há nada no mercado com princípio ativo parecido a esse. Outros resultados também revelam plantas com atividade antidiabetes”. Esses estudos envolvem química, farmacologia, botânica e poderão agregar medicina e agronomia caso os resultados obtidos sejam positivos, pois será preciso estudar o cultivo e a propagação das plantas medicinais. “Seguimos a linha de que para preservar é preciso mostrar para que serve. A população tende preservar aquilo que tem valor para a sociedade, que gera emprego e renda. Ao agregar valor para essas plantas, contribui-se para a preservação e redução da pobreza, que é um problema para o pantanal hoje”. Mas estudo de plantas medicinais é apenas uma das pesquisas. Teixeira, que é vicecoordenador do Instituto, explica que o projeto conta com pesquisas que pretendem delimitar quais são as áreas úmidas, fazer inventários da biodiversidade, classificar habitats e estudar sequestro de carbono no solo. Outros estudos também trabalham com o desenvolvimento de manejo alternativo na região do Pantanal para agregar valor à biodiversidade.

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Saiba Mais Pesquisadores da UFMT e da Unemat, do Centro Interdisciplinar de Estudos em Biocombustíveist, com o apoio da Fapemat, desenvolveram uma nova maneira de transformar a gordura em combustível e aguardam a patente da invenção. A técnica, descoberta em 2003, consiste em utilizar microondas para acelerar a reação. A mesma tecnologia ainda transforma a glicerina em combustível - já que ela tende a ser um passivo ambiental por ser um subproduto do biodiesel - e pode ser utilizada para gerar energia por meio do lixo orgânico. O Centro Interdisciplinar de Estudos em Biocombustíveis já recebeu cerca de R$ 12 milhões em investimentos e pretende produzir conhecimento e formar recursos humanos para atender toda a cadeia produtiva de biodiesel que está se desenvolvendo no Estado.


Outros Saberes

Os Benzedeiros de Joselândia

Camila Tardin

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uem nunca recorreu a uma planta medicinal para tratar de algum problema de saúde? No distrito de São Pedro de Joselândia, localizado ao sul do município de Barão de Melgaço, esse tipo de prática é bastante comum. Os moradores procuram os benzedores que usam diversas espécies de vegetais, sendo a maioria nativa do Pantanal Matogrossense, tais como aroeira e paratudo, para curar doenças como tosse, anemia, gastrite, verminose, entre outras. Desde a ocupação da região, há mais de 100 anos, a tradição de benzer usando plantas medicinais é transmitida a cada geração. A vontade de interpretar e descrever esse método de cura, assim como identificar os benzedores e conhecer os elementos materiais e espirituais existentes nesse processo motivaram o médico Reinaldo Gaspar da Mota, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a estudar o costume. Por viverem numa região de difícil acesso aos serviços de saúde, as comunidades Retiro de São Bento, São Pedro, Pimenteira, entre outras pertencentes ao distrito de São Pedro de Joselândia, aprenderam a se virar para ajudar os moradores. Desenvolveram técnicas de cura a partir dos conhecimentos culturais herdados dos pais, avós, tataravós. Alguns dos fatores que contribuíram para a permanência dessas práticas ao longo dos anos foram a predominante

religiosidade católica, o difícil acesso aos serviços de saúde e a abundante oferta dos recursos naturais pela rica biodiversidade pantaneira. Na região foram identificados 23 benzedores, mas apenas 12 fizeram parte da pesquisa: seis mulheres e seis homens com idade média de 70 anos. Nas comunidades, a prática de cura com plantas medicinais começa na juventude – a maioria com idade a partir dos 24 anos. Isso não é uma regra, depende da história de vida do benzedor. No entanto, não há registro de crianças que começaram a exercer esse costume na infância. No estudo foi identificado que essa prática de cura se estende, em média, por 46 anos de vida do benzedor. As mulheres ficam em casa e também ajudam nos trabalhos da roça e os homens trabalham no campo para a subsistência. Além de usar as plantas medicinais, os benzedores fazem orações, denominadas “benzeções”, influenciados pelo catolicismo popular. A maioria das pessoas que vive na região é devota de São Pedro (pescador e discípulo de Jesus). Doenças Os benzedores classificam as doenças em duas principais categorias: as doenças de causas materiais e as de causas espirituais, estando ambas intimamente relacionadas. Para eles, os problemas espirituais podem gerar doenças orgânicas, psíquicas e sócioambientais. 44

Fotos: Guilherme Filho


Aroeira - Pimenta rosada - Schinus_terebinthifolius

Paratudo árvore (Tabebuia aurea)

Jatobá (Hymenaea courbaril)

Acreditam também que as doenças espirituais que se manifestam na alma do ser humano podem trazer consequências para o corpo. É por meio das orações que eles buscam auxiliar o enfermo a solucionar as doenças de origem espiritual. “Eles oram, rezam, às vezes contam uma história mítica ancorada nesses mitos de São Pedro, de Jesus, de acordo com a necessidade do paciente. A reza tem alguns ritos: a pessoa fica de pé em frente ao benzedor que faz a reza, a oração. Em alguns procedimentos ele mede algumas partes do corpo do enfermo para ver se tem determinado tipo de problema, como arca caída. Mas, geralmente, os benzedores rezam em voz baixa, com muita concentração, muito respeito. De fato, eles acreditam que isso é muito significativo para o processo de restabelecimento do doente”, explica Mota. Das plantas são aproveitadas a casca, caule, folha, flor, fruto, raiz e semente que podem ser usadas, por exemplo, para fazer chá, garrafada ou emplasto. Além da aroeira e para-tudo, outras espécies vegetais popularmente conhecidas e muito usadas são a jatobá, indicada para quem tem gripe, tosse, dores no peito e nas costas, e a espinheiro santo, ideal para tratar problemas digestivos, dor de cabeça e gripe.O trabalho não tinha como finalidade provar cientificamente as

práticas de cura e seus efeitos, mas sim conhecer através da etnografia (método científico empregado na antropologia) o uso de plantas medicinais e suas indicações. O pesquisador desvela os conceitos ampliados destes benzedores sobre as causas das doenças e seus processos de cura. Para os benzedores, que exercem socialmente o papel de sacerdotes, muitas doenças são oriundas de relações inadequadas entre o homem, sua sociedade, a natureza que o circunda e Deus. Espiritualmente eles reconhecem o pecado como a principal causa do adoecer e, geralmente, utilizam as rezas e benzeções para restabelecer uma relação harmoniosa. A pesquisa concluiu que para os benzedores a imagem mítica tem grande importância no restabelecimento da saúde, uma vez que ancora padrões de comportamentos sociais aceitáveis pelas comunidades. “É muito interessante a cosmovisão que eles têm sobre Deus. Deus, para eles, é um todo. É o criador de tudo e a natureza é parte de Deus. Eles preconizam o convívio respeitoso e gratificam suas dádivas nos festejos tradicionais”, observa Mota. Os resultados demonstram também que os benzedores de São Pedro de Joselândia valorizam o que têm de mais próximo: os recursos naturais e as concepções religiosas e culturais presentes nas comunidades.

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Opinião

Expectativas em torno de um nascimento Mariluce Moura*

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erece ser bem festejado o nascimento de uma revista de divulgação científica em um estado do país com cerca de 3 milhões de habitantes, dos quais perto de 600 mil na capital, Cuiabá, ainda pouco conhecido fora da região Centro-Oeste. E pelo menos por duas razões: a UFMT Ciência, publicação trimestral da Universidade Federal do Mato Grosso, a par de fazer chegar a seus próprios estudantes e professores e a pesquisadores e comunicadores científicos de outras regiões brasileiras uma amostra selecionada do conhecimento produzido na instituição, provavelmente irá irrigar e fertilizar com temas científicos a mídia local. Assim poderá impulsionar virtuosamente a circulação da informação sobre produção científica no estado e ainda ajudar a sensibilizar sua sociedade para as notícias mais importantes desse modo fundamental de conhecer, venham elas de onde vierem. Projeto lançado e coordenado pelo professor Dielcio Moreira, atual secretário de Comunicação e Multimeios (Secomm) da universidade, é bom saber que a revista surge depois de intensa preparação, incluindo um curso de capacitação em jornalismo científico, com carga horária de 120 horas realizado ao longo do primeiro semestre pela Secomm junto com o Departamento de Comunicação Social e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat). Tenho observado muito o crescimento significativo da presença da ciência que se produz no Brasil na mídia nacional, nos últimos 10 anos. Ainda há largo espaço, sem dúvida, para o desenvolvimento de um jornalismo científico mais crítico, mais analítico em relação ao processo de produção da ciência, incluindo seus muitos percalços. Um jornalismo, digamos, menos aprisionado só às promessas da ciência. Ao mesmo tempo, tenho procurado aguçar a percepção para o adensamento dos canais de comunicação que se estabelecem desde os centros de produção de conhecimento científico até os veículos da mídia. E se já não resta muita dúvida entre os pesquisadores de que comunicar à sociedade seus achados é parte intrínseca da própria atividade científica, os serviços e produtos de divulgação construídos cada vez mais pelas instituições vinculadas ao sistema de ciência, tecnologia e inovação do país – assessorias de comunicação, agências de notícias, house-organs, boletins eletrônicos, revistas impressas e eletrônicas, informativos radiofônicos e televisivos etc. -- têm buscado incisivamente disseminar essa comunicação numa outra linguagem. Numa espécie de língua comum da sociedade. Dentre as informações assim postas em circulação, os veículos da mídia, ao se apropriarem daquelas que lhes parecem conter mais elementos de interesse para seu público, o fazem, é claro, em suas narrativas próprias. Isso implica uma linguagem muito diferente da que se valem os cientistas, amparada com frequência numa estrutura dramática do texto e em artifícios estilísticos mais do que legítimos para capturar a atenção do leitor, ouvinte ou espectador. É óbvio que esses relatos não têm nem podem ter semelhança com o jargão dos informes e artigos científicos. Nesse panorama, fazer revistas como Pesquisa FAPESP – e faço votos para que se dê o mesmo com a UFMT Ciência – constitui um desafio enorme e estimulante a cada edição. Diria mesmo um desafio apaixonante. Porque aqui se trata de preservar inteiramente uma vinculação institucional e a boa imagem da instituição a que a revista está vinculada, incluindo nisso o extremo rigor e lisura na utilização de todo e qualquer dado, ao mesmo tempo em que se busca usar a linguagem jornalística até os limites de suas possibilidades de fascínio e beleza. O jogo de equilíbrio não é fácil, no entanto, é gratificante. E é assim entre outras razões porque esse tipo de revista que de certo modo intermedeia a relação entre centros de produção de ciência e veículos da mídia -independentemente de poder também se dirigir de forma direta a um público mais amplo --, consegue reforçar o quanto de prazer, de aventura, existe na busca pelo conhecimento, ao mesmo tempo em que difunde a percepção de que a ciência é árduo processo de construção sócio-cultural, cujas verdades são sempre provisórias. Sucesso e longa vida à UFMT Ciência!

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*Mariluce Moura é jornalista, diretora de redação da revista Pesquisa FAPESP.


DE 5 A 8 DE OUTUBRO DE 2010

DE 5 A 13 DE OUTUBRO DE 2010


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ANOS Educação e Cidadania 1970 - 2010

Maturidade Educação e cidadania são essenciais para o desenvolvimento humano, intelectual, técnico e científico. Até o ano 2000, a UFMT oferecia somente quatro mestrados. Chegamos aos 40 anos com cinco doutorados, seis doutorados interinstitucionais e 26 mestrados. Dentre estes programas, oito estão em fase de consolidação segundo a avaliação da CAPES. Maturidade é isso: começar, caminhar, enfrentar desafios e superar adversidades. Aprender, compreender e socializar são tarefas diárias de

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