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Foto: José Bezerra

Landuá

Ano I - nº 01 - Maio 2015 Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários

Os sertões do Rio Grande do Norte enfrentam períodos cíclicos de secas, fenômeno natural que se alterna com anos seguidos de boas chuvas. Um desses períodos de seca brava começou em 1978, um ano depois de ter chegado à região Oeste do Estado o então Pe. Mariano Manzana. Esta seca se prolongou até 1983. O então Pe. Mariano conviveu com as agruras daquela seca. Hoje, bispo titular da Diocese de Mossoró, Dom Mariano visita as comunidades que, como em 1978, hoje enfrentam um período prolongado de seca, iniciada em 2012, e que já se estende até 2015. Mesmo com essa seca, ele assegura: “o sertão é um lugar muito bom de se viver, porque tem muitas condições de saúde, de clima e de sol”. Mas percebe que a região é marcada por “essa abundância de sol e carência, muitas vezes, de água. Por isso, o que marca o nosso sertão é a seca e um pouco, também, da cerca, como se diz”, comenta. Dom Mariano percebe que a convivência com essa realidade sempre ajudou o povo a superar um ano, dois ou mais de seca. “Mas o que se verifica no nosso Nordeste é que em períodos mais amplos parece entrar um ciclo de seca mais forte”, constata. Duas realidades

Tendo vivido na seca de

Foto: José Bezerra

Para Dom Mariano os projetos mudaram o “rosto” da seca Cisterna de 16 mil litros para água de beber e cozinhar, construída pelo Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC)

Dom Heitor Sales, Dom Mariano Manzana (ao centro) e Dom Francisco Lucena, na Assembleia Geral do SEAPAC, em abril de 2015

1978 a 1983, e vendo a realidade atual, Dom Mariano analisa as duas realidades e faz uma constatação interessante. Ele assegura que a seca atual não tem as mesmas consequências da que viveu. “Esses três ou quatro anos de seca não tiveram as mesmas consequências da outra que vivi, como vigário do interior”, assegura. Ele relembrou as imagens que viu entre o final dos anos 70 e início dos de 80, quando era vigário no interior. “Naquela época se vivia da emergência; havia saques; distribuição de alimentos e com longas filas nas estradas onde o povo trabalhava”, rememora. Ele também relembrou o episódio do roubo do dinheiro da emergência, trazendo consequências para o Governo do Estado e para Justiça.

Três elementos Para Dom Mariano, três elementos introduzidos na vida dos povos do sertão surtiram efeitos e amenizaram a seca, no atual período. “Não a seca, em si, mas os efeitos que ela tem sobre a população”, esclarece. Os três elementos que, no seu entendimento, modificaram radicalmente as consequências da seca sobre o povo são: o Programa Bolsa Família, as cisternas e a cultura da água. “O primeiro, sem dúvida, é a Bolsa Família (sic), que foi mais regular do que a emergência; mais bem distribuída, chegando às famílias mais carentes. Isso fez realmente com que o povo tivesse alguma coisa para sobreviver, assegurando o feijão, o arroz e o

leite na mesa”, afirma. O segundo elemento que destaca é a construção das cisternas. “Isso fez com que sobretudo o povo do interior (zona rural) tivesse um instrumento para guardar água”, constata. Ele volta no tempo da memória e relembra as filas das pessoas para pegar água nos carros-pipa, com latas nas mãos. “Eram mulheres, homens, crianças, e quando era no final, a luta para encher a lata de água fazia com que uma boa parte fosse perdida”, relembra. Traçando um paralelo com o momento atual, ele afirma: “Nesse momento, a cisterna faz com que cada família tenha um instrumento para guardar água. Por isso, com o cálculo de uma lata por dia, por pessoa, vem a possibilidade de dar um carro-pipa, ou meio, por família, dando condição de o povo armazenar água, além de pegar toda a água que uma chuva eventual pode favorecer”, diz. Ele acrescenta que, com as cisternas, até o governo pode planejar a melhor forma de Expediente

distribuir água, através do programa de carro-pipa. Para Dom Mariano, “a cisterna foi fundamental porque, na outra época, além da lata, o povo não tinha nada”, assegura. A cultura da água é apontada por ele como sendo o terceiro elemento que causou efeito positivo na vida das pessoas. “Quem construiu as cisternas fez uma grande cultura da água. Não só de armazenar, mas mostrou a importância de ter água limpa, porque, beber água limpa é poupar o dinheiro na farmácia; beber água suja, colhida nos famosos barreiros, água barrenta, amarelada, carregada em burros, isso, no nosso sertão, já é passado, não há mais essa imagem”, arremata. Dom Mariano constata que se desenvolveu, por outra parte, um comércio de água limpa. Ele cita o poço de Apodi, que tem água mineral e que fornece água de qualidade aos municípios. “De modo que se o povo não tem condições de comprar o garrafão, lacrado, leva uma lata ou um

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garrafão usado, e compra pela metade do preço, água limpa, de qualidade. Isso, modificou, a meu ver, a realidade da seca”, afirma. Ele lembra que não se aposentou o carro-pipa. Sobretudo através do serviço prestado pelo Exército, no período mais duro da seca. “Mas até o instrumento, ou seja, o uso do carro-pipa é diferente. Continua, às vezes até por parte de particulares, mas é água limpa, o que é um benefício para o povo”, realça. Para o bispo de Mossoró, os projetos pequenos são os mais viáveis e os que mais marcam a vida cotidiana do Sertão. “Pessoalmente, penso que as duas coisas poderiam caminhar no mesmo passo. “De um lado, os grandes projetos, que só o governo pode fazer, como a transposição do São Francisco (...). Mas há a necessidade, no Nordeste, da interligação de bacias hídricas”, constata. Para Dom Mariano, a interligação de bacias será o futuro do Nordeste e que o governo tem que facer, seja mais cedo ou mais tarde. Ele critica o desvio de dinheiro, a corrupão, as obras mal feitas e sem controle. “Tudo isso pesa mo futuro dos projetos; mas que os projetos possam indicar um tempo diferente, pra frente, eu não tenho dúvida. Se não fizer agora farão daqui a muitos anos, mas vivemos uma realidade em que não bastam só as pequenas coisas, que permitam o povo sobreviver. Se se quer uma mudança, eles serão necessários. Agora, não há dúvida de que, no dia-a-dia, esses projetos conseguiram mudar o rosto da seca que vivemos no passado e que hoje é diferente”, assegura.

Conselho Diretor do SEAPAC Presidente: Dom Jaime Vieira Rocha Diretora Suplente: Ana Aline Morais Secretário: Francisco Canindé dos Santos Coordenador Estadual: Diác. Francisco das Chagas Teixeira de Araújo Gerente de finanças e controle: Jânio César Brasil Dias

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