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RICARDO MANUEL MARTINS CORREIA BATISTA

Distribuição Gratuita | Publicação Trimestral | Nº39

Digitally signed by RICARDO MANUEL MARTINS CORREIA BATISTA DN: c=PT, o=Cartão de Cidadão, ou=Assinatura Qualificada do Cidadão, ou=Cidadão Português, sn=MARTINS CORREIA BATISTA, givenName=RICARDO MANUEL, serialNumber=BI105205907, cn=RICARDO MANUEL MARTINS CORREIA BATISTA Date: 2013.01.09 12:12:19 Z

Julho Agosto Setembro 2012 www.scmsines.org

RENASCER b o l e t i m

i n f o r m a t i v o

Santa Casa da Misericórdia de Sines

PRATS SÉNIOR: LANÇAMENTO DA 1ª PEDRA

No dia 18 de Setembro realizou-se na Misericórdia de Sines, a Cerimónia de Lançamento da 1ª Pedra do Lar Prats Sénior. Cerca de 150 convidados estiveram presentes neste acontecimento solene que assinalou o arranque das obras do novo lar da Instituição. Entre os convidados é de destacar a presença do Presidente da

Câmara Municipal de Sines, Manuel Coelho, do representante da União das Misericórdias Portuguesas, Jorge Nunes, da Directora do Centro Distrital da Segurança Social de Setúbal, Ana Clara Birrento e do Bispo da Diocese de Beja, Dom António Vitalino Dantas. Além do lançamento simbólico da 1ª

Pedra, o programa, neste dia especial para a Misericórdia de Sines, incluiu a assinatura do Protocolo de Financiamento deste novo lar com a Entidade Bancária Crédito Agrícola, e uma homenagem a Francisco do Ó Pacheco, presidente da Câmara Municipal de Sines, entre 1976 e (Continua na página 4)

DESTAQUES

Voluntários Polacos

pág. 3

Um dia no Centro de Dia

pág. 6

À Conversa com… Delmira Ferreira

pág. 8


RENASCER b o l e t i m i n fo r m at iv o

Discurso de Lançamento da 1ª Pedra do Lar Prats Sénior desprotegidos da sociedade.

para ser obrigatoriamente utilizado em apoio social à população de Sines. Posteriormente a Câmara Municipal de Sines, na qualidade de fiel depositária do seu testamento, cedeu-o à Misericórdia para que esta pudesse gerir e dar continuidade ao desejo Luís Maria Venturinha de Vilhena manifesto do seu benfeitor.

Assim, Senhoras e Senhores, é com gratidão e emoção que agradeço aqui a vossa presença, acompanhando-nos, nesta cerimónia tão significativa para nós, pois é o corolário de tantas ambições e lutas pela concretização de um projecto de elevado valor social, tão necessário e desejado por Recentemente o Governo da Fazendo jus à máxima que “a todos. República, através dos prograunião faz a força e a obra nas- Este equipamento foi concebi- mas comunitários, proporcioce”, neste caso, é o momento do no sentido de servir todos nou as candidaturas e, neste de ver crescer neste local os estratos da população, pro- caso, o apoio em 70% do valor maravilhoso este equipamen- porcionando aos residentes da obra a fundo perdido. Uma to, como se de um troféu se maior conforto, um ambiente imensa panóplia de entidades tratasse, como um prémio mais amigo da saúde, poupan- e pessoas deram também o merecido dirigido a todos ça de energia e um clima de seu importante contributo aqueles que contribuíram para tranquilidade pelo seu enqua- pare este projecto. Sem a reuque esta realidade aconteces- dramento envolvente da mag- nião destas condições, garantise e para os que num futuro nífica baía de Sines. damente não seria possível próximo dele possam usufruir darmos este importante pasO manifesto júbilo com que com a dignidade e o conforto so. encaramos este projecto, levaque merecem. nos a partilhá-lo com todos e A Misericórdia ficará para E é graças à visão de futuro, evidenciar o papel de entida- sempre grata a todos aqueles que hoje nos encontramos des e pessoas que contribuí- que tornaram esta obra possíaqui reunidos nesta cerimónia ram para que hoje estejamos vel. de lançamento da 1ª pedra do aqui nesta cerimónia a dar for- Desejo também deixar uma futuro Lar Prats Sénior, como ma a um sonho longamente mensagem aos nossos utentes resposta às necessidades e acalentado. e colaborares, lembrando-lhes exigências do nosso tempo e Esta concretização deve-se a que o nascimento do novo dos nossos utentes. factores conjunturais que ali- equipamento acontece por Global e ancestral é também a cerçados no passado, despole- sua causa, sendo eles a princinobre missão da nossa Santa taram as possibilidades da pal força motora que nos Casa, já com 496 anos de exis- realização presente. Lembre- impulsiona a delinear objectitência, sempre com o primor- mos o humanista e benfeitor vos, desenvolver esforços e dial objectivo de bem-fazer e José Prats, que há décadas acções, de forma a que os ajudar os mais necessitados e atrás doou todo este espaço sonhos aconteçam e lhes tra-

EDITORIAL

Ao fim de vários anos pautados por sonhos, força de vontade, recuos, avanços, recusas e condicionantes de vária ordem, conseguimos, finalmente, estar hoje aqui presentes nesta singela mas muito nobre cerimónia, que acontece graças à conjugação de várias sinergias direcionadas para os mesmos objectivos.

Provedor da Misericórdia de Sines

gam mais conforto, alegria e bem-estar. Finalmente, Senhoras e Senhores, é com o sentimento de grande honra e orgulho que a Mesa Administrativa assinala esta efeméride, pois tem consciência que estamos a prestar um testemunho muito importante a todos estes 496 anos de história e vida da Misericórdia, cientes de que todos os que por aqui passaram sentiriam que os seus esforços não foram em vão, e que o legado que nos deixaram continua a emergir, com mais ou menos dificuldades, mas sempre com o objectivo comum de acolher todos aqueles que necessitem de uma vida mais justa e digna da condição humana. Termino, agradecendo mais uma vez a vossa inestimável presença. Um grande Bem-Haja!

Ficha Técnica

RENASCER

b o l e t i m i n fo r ma t i vo

Propriedade, Edição e Impressão SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE SINES Periodicidade Trimestral Número 39 Edição Julho| Agosto | Setembro 2012 2

Director Luís Maria Venturinha de Vilhena Redacção Rita Camacho Revisão de Texto José Mouro, Rita Camacho Fotografia Ricardo Batista, Rita Camacho, B & N

Grafismo | Montagem | Paginação Ricardo Batista, Rita Camacho Tiragem 300 exemplares Depósito legal 325965/11 Distribuição Gratuita


RENASCER b o l e t i m i n fo r m at iv o

VOLUNTÁRIOS POLACOS

Os voluntários polacos com os utentes da Misericórdia

Entre os dias 2 e 20 de fizeram Julho, polacos

três

durante

as

3 ajuda das pessoas que gostávamos

de

poder

voluntários semanas que estiveram trabalham na Santa Casa. ficar mais tempo, mas

desenvolveram em Sines, junto dos asso- Para nós foi uma expe- infelizmente não é possí-

aulas de ioga, pintura e ciados do Prosas e dos riência muito positiva e vel.»  artes plásticas com os utentes da Misericórdia utentes e colaboradores de Sines. Estiveram envolda Misericórdia de Sines, vidos

nesta

actividade

ao abrigo de uma parce- não só os idosos dos lares ria com a Associação Pro- e Centro de Dia, mas tamsas – Universidade Sénior bém as crianças do infande Sines. Esta associação tário “Capuchinho Vermeintegra o projecto comu- lho”, os rapazes do Lar “A nitário “Carnation”, que Âncora” e as utentes dos promove o voluntariado Centros

“Mãe

Sol”

e

sénior, e que faz parte de “Porto D’Abrigo”. um programa mais vasto Maria, uma das voluntádenominado “Grundtvig – rias polacas, deixou-nos a Promover a Educação ao sua opinião sobre esta iniLongo da Vida”. O objecti- ciativa inovadora na Santa vo deste programa é cui- Casa: «Os idosos adoradar afectivamente de pes- ram a experiência e nós soas debilitadas ou caren- tivemos uma recepção ciadas e foi exactamente muito calorosa. Fizemos isso que os voluntários um bom trabalho com a Ioga foi uma das actividades praticadas

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PRATS SÉNIOR: LANÇAMENTO DA 1ª PEDRA (Continuação da página 1)

1997. Francisco Pacheco foi homenageado pela colaboração com a Misericórdia de Sines na fase em que foi assinado o contrato de comodato que permitiu a transferência da Santa Casa para o espaço cedido por José Prats à população de Sines. Essa mudança permitiu à Instituição apoiar um maior número de utentes, com significativas melhorias. O Grupo Coral da Santa Casa da

Misericórdia de Sines também marcou presença neste evento ao presentear os convidados com algumas músicas tradicionais. O Lar Prats Sénior terá uma área coberta de cerca de 3300 m2, distribuídos por três pisos, e irá localizarse junto às actuais instalações da Santa Casa da Misericórdia de Sines. Terá capacidade para cerca de 60 utentes, que se distribuirão por vários quartos individuais e duplos. Não faltarão espaços de lazer e con-

vívio, uma sala de fisioterapia, salas de visitas, farmácia e salas de formação. O investimento total previsto é de cerca de 3 milhões de euros, dos quais 70% são financiados a fundo perdido pelo Programa Comunitário Inalentejo do QREN 2007/2013. A Misericórdia de Sines está a trabalhar neste novo projecto desde 2010, prevendo-se que a obra esteja concluída em 2013. 

2

3

1

Colocação da 1ª Pedra (1) Representantes das entidades presentes (2) Os Convidados no Salão Social (3) Homenagem a Francisco Pacheco (4) 4

4


RENASCER b o l e t i m i n fo r m at iv o

A NOSSA HISTÓRIA... Testemunho - Lançamento da 1ª Pedra Prats Sénior Sou um espaço ancestral e privilegiado, debruçado sobre esta magnífica e omnipresente baía de navegadores destemidos, temperados com sol, suor e trabalho. Tenho sido um espectador atento dos tempos e histórias que fazem a nossa terra e as nossas gentes: assisti a tempestades vestidas de dor e a festivos momentos de bonança; fui baldio rasgado por caminhos e adornado por viçosas hortas; sobre mim se ergueram casarios, mas a minha maior imponência nasceu quando me transformei em fábrica de cortiça, por estar cercado pelos montados que a produziam e o mar que para outros mundos a transportava.

para acções de carácter social. Homem de bem, tornou-se num exemplo de benemérito que muitos seguiram com a mesma abnegação até aos nossos dias.

Com o avançar dos anos e a renovação dos ciclos da vida, outras transformações se foram operando em mim, sobressaindo sempre a nobre missão de bem-fazer ao próximo, mercê da inteligência e generosidade humana. José Prats, de origem alemã e sineense de coração, foi o obreiro-mor desta matriz de solidariedade, ainda hoje respeitada, ao testamentar de forma irredutível a concessão deste património

Mas o espírito de José Prats, a vontade indómita de muitos sineenses, a generosidade de tantos beneméritos e o voluntarismo da Câmara Municipal de Sines, proporcionaram-me a missão de abraçar todas as causas dos mais desprotegidos e excluídos da sociedade, ao tornar-me Santa Casa da Misericórdia de Sines. O meu corpo expandiu-se para acolher idosos em três Lares, ancorou crianças e jovens em risco,

Se como Sanatório dei forças e alento ao corpo, como Escola de Pescadores alimentei as almas com novos saberes e alarguei horizontes para os que quisessem ir mais além. Como asilo, acolhi os desventurados e acarinhei os infelizes. Como Maternidade dei continuidade à espécie e sangue novo à minha terra. A aurora da Revolução de Abril vocacionou-me para Centro de Saúde, mais uma vez, para apaziguar a dor e sofrimento alheios.

abrigou em bom porto mulheres maltratadas, deu sol às mães solteiras e aos seus bebés; percorri

conheça por Prats Sénior. Devo a nobreza do meu nascimento à Mesa Administrativa da nossa

Imagem do Testemunho que ficou enterrado

estradas e caminhos velhos, à chuva, ao vento e ao frio para levar aos que me solicitavam os alimentos, a fraternidade e a esperança. Mesmo aqui onde vos falo, ouvi o embalar de gerações e gerações de crianças, histórias deste e de outros mundos, risos de pura felicidade, lágrimas que se confundiram com o oceano.

Santa Casa da Misericórdia, aos Governos de Portugal e a todas as entidades públicas e privadas que connosco têm colaborado.

Hoje, no lançamento da primeira pedra, é legítimo ambicionar que, num futuro imprevisível, este singelo testemunho escrito se torne num documento histórico e mensageiro desta missão cumFui passado, hoje sou pre- prida ao serviço da Solisente e preparo-me para dariedade Social. ser futuro. É com grande Como no passado, olho alegria que acolho em com tranquilidade para mim, mais uma vez, a este mar que continuará magnânima vontade dos a fazer a Grandeza de homens bons em tornar- Portugal. me num Lar de afectos, esperança, conforto, num Sines, 18 de Setembro de 2012  lugar de vida. Muito me honra que a História me 5


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UM DIA NO CENTRO DE DIA

Alguns utentes e funcionários do Centro de Dia

realizam passeios, aulas

período da tarde todos

pequeno-

de ginástica, trabalhos

participam

actividade do Centro de almoço. De seguida estes

manuais, jogos tradicio-

nas actividades da Santa

Dia da Santa Casa da utentes participam nas

nais, aulas de português

Casa, havendo sempre

Semanalmente,

de para a primeira refeição

segunda a sexta-feira, a do

dia,

o

novamente

Sines

actividades lúdicas e des-

e de matemática, entre quem prefira ver televi-

começa às 9 horas. A pri-

portivas organizadas para

outras actividades espo-

Misericórdia

de

são,

fazer

renda

ou

meira tarefa do dia é todos os idosos da Santa

rádicas. Ao meio dia é malha. Às 16 horas os

Casa. Há dias em que se

servido o almoço e no utentes tomam a última

desempenhada

pelas

funcionárias da resposta

refeição na Instituição, a

social em conjunto com

seguir à qual são levados

os motoristas da Institui-

novamente

ção, e consiste no trans-

casas. Este é aliás o factor

porte de todos os utentes

que diferencia o Centro

de suas casas até à Mise-

de Dia do Lar. Os utentes

ricórdia. Para o efeito

que procuram e frequen-

foram criados circuitos

tam o Centro de Dia bus-

pela cidade de Sines,

cam uma alternativa à

após os quais todos os

solidão,

utentes do Centro de Dia

uma ligação directa com

estão reunidos e prontos 6

O serviço do Centro de Dia inclui o transporte dos utentes

mas

até

suas

mantêm

as famílias ao pernoita-


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rem em suas casas.

ambas demonstram pelo

de idades dos utentes do

Filomena, Delmira, Flori-

Isabel Torpes e Dina Cruz

trabalho fica bem paten-

Centro de Dia diminuiu e

val, Sofia, Luísa, Fernan-

são as duas funcionárias

te em pequenos gestos

cada vez mais utentes

do, Celeste e Patrocínia

da Instituição que actual-

do dia-a-dia. Dina relem-

com demência recorrem são apenas alguns dos

mente cuidam dos uten-

bra a hora da medicação

a este serviço. De acordo

tes do Centro de Dia. várias vezes por dia semFacilmente se percebe pre com um sorriso nos

nomes dos utentes que

com o testemunho de actualmente dão vida ao Dina e Isabel este facto

Centro de Dia da Miseri-

que estas duas colabora-

lábios, Isabel canta uma

influencia bastante a roti-

córdia de Sines, um local

doras são como familia-

melodia

na diária do Centro de

por onde muitos outros

res deste grupo de uten-

enquanto

tes que todos os dias com

mesas para o lanche, no

necessário

elas partilha as suas ale-

fim da qual os utentes

irrealidade dos utentes… divertidos e passam mais

tradicional coloca

as

grias, tristezas e preocu- aplaudem. pações. O gosto

que Nos últimos anos a média

Dia e, muitas vezes, é utentes já passaram e entrar

na onde os dias são mais

tudo em nome do seu

rápido, sempre com com-

bem-estar.

panhia.

Alguns utentes durante o almoço

INSCRIÇÕES Quem quiser inscrever-se no Centro de Dia da SCMS poderá fazê-lo às quartas e sextas-feiras no Serviço de Acção Social da Instituição e para o efeito deverá entregar a seguinte documentação: bilhete de identidade ou cartão do cidadão, número de identificação fiscal, cartão de pensionista, declaração do valor da reforma ou nota de liquidação do IRS, cartão de saúde, recibo da renda da casa, da água, da luz, do gás e do telefone e declaração de gastos com medicamentos. Para qualquer outra informação poderão contactar a técnica responsável pelo Centro de Dia, Carla Camocho, através do número 965032090 e do e-mail animacao.scmsines@mail.telepac.pt.  7


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Á CONVERSA COM... Delmira Ferreira

Maria Delmira Ferreira nasceu na Rua de São Salvador, em Sines, no dia 17 de Fevereiro de 1922, no seio de uma família de gentes do mar. A mãe, que recorda como uma mulher de pequena estatura, valente e trabalhadora, era funcionária da Fábrica Fialho, que produzia conservas e dava emprego a muitas famílias de Sines. O seu pai trabalhava na armação de pesca “Benvinda”, e das suas tarefas faziam parte não só ‘ir ao mar’, mas também arranjar as redes de 8

pesca, guardar as artes e ‘amanhava’ peixe. Almoçava na escola, mas não vigiar a armação. Dos primeiros anos de frequentava as aulas. vida Delmira guarda pou- Noutras ocasiões nem cas lembranças, no entan- sequer ia à escola porque to, uma das que lhe surge ficava a cuidar dos meus na memória transporta-a irmãos.» Nos tempos de até aos 8 anos de idade, criança, Delmira Ferreira altura em foi matriculada teve a particularidade de na escola. «Andei na esco- viver na Praia de Sines, e la, mas não aprendi a ler, tem dessa época excelennem a escrever. As profes- tes recordações. «A partir soras davam-me a chave dos meus 8 anos, tive de casa delas para eu ir lá sempre uma vida de trafazer as lides domésticas. balho, não me lembro por Como era uma moça isso de grandes brincadeidesenrascada e sabia ras. Lembro-me é que pasfazer de tudo, elas apro- sava muito tempo na veitavam. Até lhes praia. A Praia de Sines era

muito concorrida, vinha gente de todo o lado. Viase famílias inteiras de lavradores, com crianças, e que até traziam o gado. E eu dava banho aos meninos desses lavradores. Como sabia nadar, confiavam em mim para dar banho às crianças, para que não se afogassem. Gostei muito dos anos em que morei na praia. Passava o tempo quase todo dentro de água.» A casa onde vivia era simples, tal como a vida que Delmira nos descreve. De uma simplicida-


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de tal, que foi com naturalidade e de livre vontade que, um dia, Delmira aceitou ir para Ervidel com uma família que passava férias em Sines. O objectivo era que Delmira fosse moça de recados e ajudasse a cuidar da casa. «Gostei de ir com essa família de Ervidel, nunca tinha andado de carro, nem nunca tinha saído de Sines e Ervidel era uma terra bonita. Estive lá mais ou menos um ano, mas voltei porque um dos filhos de uma das senhoras que me levou, era muito mau para mim.» Quando regressou a Sines, Delmira Ferreira passou a trabalhar no Sanatório Prats onde além de se cuidar de idosos era também fornecida sopa aos pobres de Sines. «Fui contratada pelo Sr. Júlio Sintra Guimarães, que na altura era Director do Sanatório. Ajudava na cozinha, a fazer a sopa, e a cuidar dos idosos. O Sr. Júlio era um homem muito bom e nunca me hei-de esquecer a razão pela qual teve de irse embora. Numa ocasião ele foi pedir, junto das famílias mais ricas de Sines, que apoiassem o Sanatório e todos lhe disseram que não podiam porque já ajudavam muito quem lhes pedia à porta. Para confirmar essa situa-

ção o Sr. Júlio Sintra Guimarães disfarçou-se de pobre e foi pedir esmola porta a porta. Apenas lhe deram meio tostão e duas fatias de pão com bolor. Mais tarde ele denunciou esta situação e aí foi convidado a regressar a Lisboa.» Assim aconteceu e Delmira Ferreira foi também para Lisboa, com a

marido. «Quando fui para Porto-Covo passava muito tempo com as minhas amigas na praia a apanhar conchas que depois vendíamos aos turistas, a 2 tostões cada saco. Pouco depois de chegar a Porto-Covo conheci o meu marido. Ele já frequentava a casa dos meus pais. Era um homem muito jeitoso

casar vim viver novamente para Sines. Arranjámos a nossa casinha, que era muito simples, feita de madeira, sem luz nem água, mas muito simpática.» O testemunho de Delmira Ferreira sobre a sua vida gira inevitavelmente em torno do mar. O mar que

Delmira Ferreira com Rita Camacho num momento de convívio

família de Júlio Sintra Guimarães. «Vivi uns tempos em Lisboa e gostei bastante, acho mesmo que foram os melhores anos da minha. Mas tive de regressar porque a minha mãe me mandou uma carta a dizer que o meu pai estava doente.» Por essa altura os pais de Delmira viviam em Porto-Covo, local onde acabou por conhecer o seu futuro

e trabalhador, que tanto trabalhava no campo como no mar. E eu era uma moça bonita e a coisa que mais gostava de fazer, era dançar. Se pudesse, dançava noites inteiras.» O casamento aos 16 anos alterou-lhe a vida. Delmira passou a ser dona de casa, arranjou a sua própria habitação e teve dois filhos. «Entretanto depois de

lhe deu muitas alegrias, mas que ao mesmo tempo lhe roubou duas das pessoas que mais amava. «O meu marido morreu com 61 anos na Costa do Norte, quando andava à pesca. Por mais anos que viva nunca me hei-de esquecer que nesse dia tinha caldo verde para o almoço, mas ele não chegou a prová-lo. Foi um momento de muita triste9


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za e infelizmente com o meu filho acabou por acontecer o mesmo. Também ele morreu no mar, aos 61 anos de idade.» Muita da alegria que tinha, Delmira confessa que a perdeu com a morte dos seus entes queridos. «Tive momentos na minha vida em que fui verdadeiramente feliz. Recordo com saudades os tempos que passei em Lisboa, os passeios que dei por várias terras de Portugal, as visitas a Itália para ver o meu neto e alguns outros momentos. Depois de ficar viúva e de perder o meu filho, as coisas mudaram, mas tive de seguir com a minha vida. Fui empregada num café aqui em Sines durante 18 anos e na minha casa fazia tudo o que fosse necessário, até mesmo tarefas habitualmente destinadas aos homens.» Quando questionada sobre ‘o outro tempo’, Delmira recorda que as pessoas eram mais simples e que todos se conheciam e ajudavam. «As casas eram construí-

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reira é uma das utentes do Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Sines. Está na Instituição há mais de um ano e dizse muito satisfeita com esta escolha, feita inteiramente por si. «A iniciativa de vir para o Centro de Dia foi minha. Eu é que tratei de tudo porque estava muito tempo sozinha em casa, precisava de me distrair. E posso dizer que gosto muito de estar cá e faço todos os possíveis para não faltar dia nenhum. Gosto da companhia do pessoal todo e as funcionárias são muito boas para mim. Quando há passeios, sempre que me convidam, não falho Delmira Ferreira com cerca de 60 anos um. Até já fui à televisão», das pelas próprias pes- mulher casada e, antes salienta divertida. soas. Vivia-se com pouco, dos meus 18 anos, só me Aos 90 anos de idade, Delmas vivia-se bem. Comia- lembro de uma vez ter mira Ferreira não imagina se papas de milho ou de tido um vestido novo. o que o futuro lhe resertrigo, sopas de alho e pei- Aconteceu quando achei va, no entanto, tem boa xe, muito peixe, porque 10 escudos numa festa no disposição, genica e luciSines era terra onde havia Sanatório Prats e assim a dez suficientes para con‘fartura de peixe’. As rou- minha mãe pôde comprar tar a quem quiser ouvir as pas eram aproveitadas de um pedaço de tecido novo histórias de antigamente, uns para outros. Do velho para me fazer um vestido. tal como nos contou a fazia-se novo. Quando cal- Foi uma enorme alegria, nós… sempre, e apesar cei os meus primeiros nesse dia.» das tristezas, com um sorsapatos já era uma Actualmente Delmira Fer- riso nos lábios. 


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BREVES

GRUPO CORAL AJUDA MISSÃO CORAGEM O Grupo Coral da Santa Casa da Misericórdia de Sines actuou no passado dia 22 de Setembro no Salão do Povo, em Sines, na Festa da Imperial, promovida pela Missão Coragem. O objectivo desta associação, com sede em Santiago do Cacém e núcleos em Sines e Grândola, é o de alertar para a problemática do cancro da mama, apostando na sua prevenção e no apoio a mulheres portadoras desta doença. O Grupo Coral da Santa Casa associou-se a esta causa e divulgou assim o trabalho que é desenvolvido semanalmente na Instituição. 

FORMANDOS DE HST VISITAM OBRA DO PRATS SÉNIOR No dia 2 de Outubro, um grupo de 17 formandos do curso de Higiene e Segurança no Trabalho do Instituto de Emprego e Formação Profissional visitou a obra do novo lar da Misericórdia de Sines. O objectivo da visita foi o contacto dos formandos com um contexto real de trabalho onde as questões de higiene e segurança são fundamentais para o decurso normal de todas as tarefas. 

Informações Úteis SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE SINES

Acção Social (Lares, Centro de Dia, Apoio Domiciliário)

Avenida 25 de Abril, n.º 2 Apartado 333 7520-107 SINES Site: www.scmsines.org Email: scmsines@mail.telepac.pt

Tel. 269630460 | Fax. 269630469 Email: social.scmsines@mail.telepac.pt Horário de Atendimento: 9h00-13h00 | 14h00-17h00

Provedoria Tel. 269630462 | Fax. 269630469 Email: provedoria.scmsines@mail.telepac.pt Horário de Atendimento: 09h00-13h00 | 14h00-16h00

Secretaria Tel. 269630460 | Fax. 269630469 Email: secretaria.scmsines@mail.telepac.pt Horário de Atendimento: 09h00-13h00 | 14h00-16h00

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Infantário “Capuchinho Vermelho” Tel. 269630466 | Telem. 967825287 Email: infantario.scmsines@mail.telepac.pt Horário de Funcionamento: 07h45-19h45

Outros Contactos: Animação: animacao.scmsines@mail.telepac.pt Gabinete de Informação: gab-info.scmsines@mail.telepac.pt Gabinete de Psicologia: gab-psico.scmsines@mail.telepac.pt Recursos Humanos: rh.scmsines@mail.telepac.pt


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O VERÃO DOS NOSSOS UTENTES das Águas em Odemira, ambos os passeios com direito a churrasco e almoço ao ar livre. As visitas de confraternização e convívio com outras Instituições foram outra das actividades que preencheram a época estival dos nossos idosos.

Durante os meses de Julho, Agosto e Setembro os utentes da Misericórdia aproveitaram o bom tempo para algumas idas à praia. Devido à proximidade, a Praia Vasco da Gama foi o local escolhido para miúdos e graúdos desfrutarem do sol e do mar. Os idosos da Miseri-

córdia aproveitaram várias manhãs de praia, incluindo a manhã do dia 29 de Agosto, dia em que se comemora o tradicional Banho 29. Realizou-se também durante o período de Verão, uma visita ao Parque Urbano do Rio da Figueira em Santiago do Cacém e ao Parque

Já os utentes do “Porto D’Abrigo”, “Mãe Sol” e Lar “A Âncora” passaram um dia diferente num Parque Aquático no Algarve. Além disso, os mais novos desfrutaram das Férias Activas (promovidas pela Câmara Municipal de Sines), desenvolveram actividades desportivas e divertiram-se no Festival Músicas do Mundo. Houve também lugar para uma visita ao Zmar, na Zambujeira do Mar. 

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AS OBRAS DAS MISERICÓRDIAS

“DAR DE BEBER A QUEM TEM SEDE” —2ª OBRA CORPORAL Esta obra corporal está intimamente ligada à 1ª (“dar de comer a quem tem fome”) e assume grande importância nos dias de hoje, uma vez que a água se tornou um bem valorizado pela consciência da saúde individual e pública e do equilíbrio económico. No entanto, a preocupação para com esta obra corporal surge na viragem do século XV para o século XVI. Nessa época, «… entre o povo, a água servia sobretudo para a culinária, quanto bastasse, e para matar a simples sede. Nas classes altas, usava-se ainda para purificar (quase simbolicamente) as pontas dos dedos, antes das refeições, ou para refrigério sumário das faces e têmperas de damas afogueadas. O seu uso como bem de higiene e saúde era singelamente desprezado. Tanto entre nobres como entre plebeus, o banho era então um sacrifício a que o europeu se submetia muito poucas vezes no ano – quase sempre na Primavera, quando o calor começava a apertar e os maus odores

se tornavam insuportáveis. (…) Maio tornou-se o mês dos casamentos, pois era então que os noivos tomavam o seu banho cerimonial, com donzela e mancebo apresentando-se, cheirosos de flores e frescura, no altar da eternidade. (…) Se um humano dos dias de hoje, com os seus hábitos de duche diário, comida

Ilustração da 2ª Obra Corporal das Misericórdias

desinfectada, máquinas de lavar e sanitários generalizados, pudesse fazer uma viagem no tempo e encontrar-se instantaneamente na sociedade medieval, morreria de mau cheiro. (…) O sistema rudimentar de

esgostos e escoamentos chamava doenças e contágios que só o uso abundante de água fluente poderia diminuir – e essa fluência, simplesmente, não existia. Por fim, solos contaminados pelas fossas de dejectos transmitiam aos poços a peçonha de novas doenças, provocando infecções fatais e, não raro, a morte. (…) Quando em 1498, a Rainha -Viúva D. Leonor funda a primeira Misericórdia, Portugal debate-se ainda com um grave problema de abastecimento de água potável nas grandes urbes. Assim, entre os deveres de Misericórdia estabelecidos no primeiro “Compromisso” da Santa Casa de Lisboa, figura (no 5º lugar da hierarquia) o de “dar de beber aos que ham sede”. Este mandamento misericordioso contribuirá fortemente para a abertura ou purificação de muitos poços e chafarizes na cidade e, depois, pelo país. O facto de ter passado da 5ª para a 2ª Obra, ao longo de cinco séculos, só subli-

nha a importância que a água foi ganhando nas preocupações gerais com a saúde do corpo e a saúde pública. A doutrina da água e da sede, como Obra de Misericórdia e como alegoria das formulações salvíficas, tem lugar de relevo na Tradição. Na cultura judaica, ela acompanha desde o início as lutas da Humanidade. “Todos os poços que tinham sido abertos pelos escravos de Abraão foram obstruídos pelos filisteus, que os encheram de terra” (Genesis, 26:15) A dádiva da água é invariavelmente associada à bondade divina. (…) Com água se asperge e se abençoa. Com água se dilui o vinho à mesa eucarística. Com água se baptiza. E com água se faz o bem: não há misericórdia completa sem a Obra de “dar de beber a quem tem sede”. (…)»  excerto do livro “As Obras de Misericórdia” de Jorge Morais (Textoprincipal Editores, Junho de 2011)

Espaço Informativo da Santa Casa da Misericórdia de Sines na Rádio Sines

TERÇAS-FEIRAS 11:15 | SEXTAS-FEIRAS 15:40 |

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ÚLTIMAS

PROJECTO BEM-ME-QUER No dia 9 de Outubro, durante a manhã, realizou-se no Salão Social da Misericórdia de Sines uma actividade no âmbito do projecto “Bem-MeQuer”, promovido pela Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência. Este projecto comemora o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações e proporciona actividades desportivas entre pessoas com e sem deficiência. Além da

demonstração e prática de algumas modalidades e Jogos Tradicionais. Além da actividade desenvolvida no dia 9 de Outubro, que contou com a presença de cerca de 40 idosos da Misericórdia, o projecto “BemMe-Quer” possibilitou à Santa Casa receber um “kit” gratuito com vários No final houve distribuição de lembranças jogos, incluindo o Jogo da Boccia. Este “kit” perMisericórdia de Sines beneficiaram deste pro- mitirá que, ao longo do também as Misericórdias jecto que proporciona ano, os utentes realizem de Albufeira, Borba, Évo- aos idosos um dia dife- actividades desportivas ra, Golegã e Odemira rente, através da mais diversificadas. 

ENCONTRO DE IDOSOS No dia 10 de Outubro Sines marcou presença Distrital decorreu em Grândola, neste

encontro

da

Segurança marcado pelos momentos

anual Social de Setúbal e da musicais e de animação,

no Parque de Feiras e organizado pelas institui- Câmara Exposições, o XX Encontro ções de idosos da zona Grândola.

Municipal

de que celebraram os 20 anos da iniciativa. Além

de Idosos da Zona Sul do sul do distrito de Setúbal, Um grupo de 20 idosos de participarem na festa, Distrito de Setúbal. Mais com o apoio do Serviço da Santa Casa participou os utentes almoçaram e uma vez a Misericórdia de de Acção Social do Centro no Encontro que ficou lancharam no recinto do Encontro,

confraterniza-

ram com outros idosos dos concelhos de Sines, Santiago do Cacém, Alcácer do Sal e Grândola e no

final

mostraram-se

bastante agradados com este dia diferente do habitual.

O Encontro de Idosos incluiu almoço e lanche

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CEMETRA Centro de Medicina do Trabalho da Área de Sines Rua Júlio Gomes da Silva, n.º 15  7520-219 SINES Tel.: 269633014  Fax: 269633015 E-mail: cemetra@netvisao.pt Site: www.cemetra.pt

MATERIAL MÉDICO-HOSPITALAR, LDA. Rossio da Estação, nº 11 7940-196 Cuba Telf.: 284 41 41 39 Fax: 284 41 41 67 Contribuinte nº 503 841 455 E-mail: geral@alquimed.pt

AGRADECIMENTO O “Renascer” agradece a todos os patrocinadores e amigos que contribuíram para que este meio de comunicação da nossa Instituição se tornasse uma realidade. Uma vez que é nosso objectivo melhorar gradualmente a forma e os conteúdos deste boletim informativo, assim como aumentar a sua tiragem e, consequentemente, divulgá-lo junto de um público cada vez mais vasto, revela-se de grande importância o apoio destes e de outros patrocinadores. Obrigada por nos ajudarem a sermos melhores! 16

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Boletim Informativo Nº39. Edição de Julho, Agosto e Setembro de 2012.

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