Issuu on Google+


Private Series LIVRO 8

2


REVELATION

3


SINOPSE O maior mistério de todos... e Reed está morrendo de vontade de saber a verdade. Dois meses depois de Cheyenne Martin ser encontrada morta em seu quarto no Alojamento Billings, a exclusiva Academia Easton é abalada por outra revelação surpreendente: Cheyenne foi assassinada. Ninguém sabe quem é o assassino, mas todos concordam que Reed Brennan, que assumiu o papel de Cheyenne como presidente do Billings, ganhou muito com sua morte. Uma vez que foi a garota mais poderosa do campus, Reed está agora impotente para parar os sussurros acusadores de seus colegas. Rumores de que ela matou Cheyenne começam a circular. E é assim que Reed é expulsa do Billings. Ela perdeu tudo — suas amigas, sua casa, seu namorado — e Reed sabe que a única forma de conseguir tudo de volta é descobrir quem realmente assassinou Cheyenne. E ela tem que fazer isso rápido, porque o assassino ainda está lá fora. Quanto mais Reed investiga, mais ela descobre. E, como qualquer Menina do Billings sabe... os segredos podem ser mortais.

4


1 DE NOVO NÃO

O

medo era como brasas negras fumegantes bem no fundo do meu estômago. Eu conhecia bem essa sensação. Costumava senti-la todos os dias depois da escola, quando me aproximava da minha casa em Croton, Pensilvânia, não sabendo o que poderia estar acontecendo lá dentro. Sem saber em que condições eu poderia encontrar a minha mãe. Desmaiada com um frasco de comprimidos derramados no chão? Freneticamente limpando a cozinha de pijama? Furiosa esperando para me criticar por algo que eu não tinha feito? Sim, eu conhecia muito bem o medo. Eu nunca havia sentido medo por meu retorno para a Academia Easton. Era o domingo do fim de semana de Ação de Graças e, graças à minha arrecadação de fundos para o Alojamento Billings, era a primeira vez que eu voltava para Easton. Quando eu tinha dito adeus aos meus pais de manhã no aeroporto, eu tinha realmente sentido um puxão para ficar. Era tão irônico. Agora que minha mãe estava melhor, sair de casa era a parte mais difícil, e voltar para a escola era o que estava me dando ânsia de vômito. Mas quem poderia me culpar, considerando a pária que eu havia me convertido em Easton? O motorista do táxi parou em frente do Bradwell, o dormitório das meninas do primeiro e do segundo ano. Paguei a ele e lutei para sair do carro com a minha mochila, bolsa de lona e notebook. Estava frio do lado de fora, e um vento frio passou através das árvores ao longo do caminho. Eu esperava que o campus parecesse mais vivo já que todos os alunos deveriam estar retornando das férias. Mas embora houvesse algumas janelas iluminadas que pontilhavam as fachadas de tijolos dos três dormitórios das meninas ao redor, não havia nenhuma alma à vista. Eu respirei fundo e comecei a andar pelo largo caminho de paralelepípedos entre o Bradwell e o Pemberly, meu coração batendo forte a cada passo enquanto eu me aproximava do pátio. Eu não queria voltar para o Alojamento Billings. Eu ainda não estava pronta. Quando cheguei ao lado do Bradwell, fiz uma pausa e olhei através do pátio até o Billings, o mais alto dormitório do campus. Imediatamente, as brasas do medo arderam mais intensamente. Fazia pouco mais de uma semana desde os faturamentos da arrecadação de fundos em Nova York — o evento que deveria ter sido a noite mais incrível da minha vida. Em vez disso, tinha sido o mais humilhante. Tinha sido a noite em que um vídeo de mim e Dash McCafferty se apalpando na Legado tinha sido enviado para cada celular e BlackBerry da escola. Todo mundo tinha visto eu e Dash — o namorado da minha melhor amiga Noelle Lange — se beijando. Se tocando. Tirando as roupas um do outro. Todos sabiam o que eu tinha feito. E ninguém tinha falado comigo desde então. Exceto Sabine DuLac, minha companheira de quarto do Billings. Quando Noelle tinha me proibido de se sentar na mesa do Billings no refeitório, quando Portia Ahronian havia organizado uma viagem de compras Billings e me excluído, e quando até mesmo Kiki Rosen tinha mudado de assentos na biblioteca para que ela não tivesse que me reconhecer — Sabine havia permanecido leal. Pelo menos havia sobrado para mim uma amiga verdadeira. Uma pessoa que estava disposta a ouvir

5


a minha explicação. Embora, ela sempre houvesse odiado Noelle. Provavelmente ela estaria do meu lado mesmo que eu tivesse atirado e matado a menina. Mas talvez agora que alguns dias se passaram, algumas das outras viriam a mim também. Talvez eu pudesse até conseguir que Noelle me ouvisse. Daria um grande trabalho, eu sabia. Mas eu ia ter que tentar. No meio do pátio coberto de neve, iluminado apenas pelas pitorescas lâmpadas no nível do chão que revestiam o caminho, parei e respirei fundo para me preparar. Eu ia caminhar até o Billings e ia fazer Noelle me ouvir. Eu não me importava se eu tivesse que gritar todo o pedido de desculpas através da porta fechada do seu dormitório. Ela ia ouvir a minha versão. Minha vida em Easton dependia disso. Uma rajada de vento chicoteou amargamente meu cabelo escuro para trás do meu rosto e eu comecei a me mover novamente. Com os joelhos tremendo — não por causa dos meus nervos, eu disse a mim mesma, mas por causa do frio e do peso das minhas malas — virei no caminho para o Billings. Foi quando eu vi um vulto escuro mover-se em minha direção. Eu congelei. — Reed. Bom. Estou contente por ter te encontrado. Era o detetive Hauer. O rei das más notícias. Justo o que eu precisava. — Detetive — eu disse. Ele estava todo agasalhado com um casaco de lã escuro que parecia um tamanho muito pequeno para seu corpo robusto, um gorro de lã puxado sobre a testa, escondendo seu cabelo escuro, geralmente despenteado. Seu nariz largo estava vermelho por causa do frio, e havia olheiras visíveis sob seus olhos castanhos. A maneira como ele olhou para mim — como um médico, provavelmente, olha para um paciente antes de ele diagnosticar um câncer inoperável — me deu vontade de correr para dentro, mesmo que eu temesse enfrentar minhas amigas. — O que foi? — eu perguntei finalmente. — Eu só queria dar a você as novas notícias — ele disse, segurando seu gorro quando outra rajada de vento quase me derrubava. — Já que você foi tão cooperativa durante esta... uh... tragédia. — Hauer hesitou, os olhos desviando para longe do meu rosto. O que havia com esse cara? Ele era um adulto e um policial. Ele não deveria se sentir nervoso ao falar comigo. — Nós encontramos novas evidências — ele disse. — Sua amiga Cheyenne Martin... definitivamente foi assassinada. Suas palavras sugaram todo o ar dos meus pulmões e eu agarrei a alça da minha bolsa de lona, como se isso fosse me impedir de desmaiar. Isto não era possível. De novo não. Não outro assassinato. Cheyenne tinha tido uma overdose. Todas nós tínhamos estado lá quando a encontramos. Nós tínhamos lido sua nota de suicídio. Ela até me mandou um e-mail dizendo que eu era a razão pela qual ela se matou — um e-mail que me perseguia há meses. Além disso, ninguém tinha ouvido falar de uma briga. Não tinha havido sangue, nem contusões e não havia nada quebrado no quarto dela. Como isso pode ser possível? — O quê? — me ouvi dizer ao vento que assobiava acima. — Você não pode estar falando sério. Um par de semanas atrás o detetive Hauer me contou que o caso iria ser reaberto a pedido dos pais de Cheyenne, mas ao mesmo tempo ele ainda pensava que era um claro suicídio. — Infelizmente, estou — disse ele, enfiando as mãos nos bolsos. — Eu não entendo — eu disse, com minha mente correndo. — Que novas evidências?

6


Como podia haver novas evidências agora? Ela morreu há meses atrás. Ela foi cremada. Seu quarto não era mais uma cena de crime — Noelle está morando lá por semanas. O que poderia possivelmente ter sido encontrado? O detetive limpou a garganta. — Essa informação é confidencial. — Confidencial? Isso é uma conspiração do governo agora? — eu soltei, frustrada. Ele me deu um olhar reprovador. — Não é para conhecimento público — esclareceu ele severamente. — Mas você deve saber que vamos voltar a entrevistar todos os envolvidos — acrescentou ele, de pé com a coluna reta. Ele parecia mais seguro de si mesmo agora, e demonstrou me encarando com um olhar firme nos olhos. — Se há mais alguma coisa que você queira me dizer, agora é a hora. — Mais alguma coisa? — Fiquei ali, incapaz de pensar. Incapaz de respirar. Incapaz de me mover. Cheyenne tinha sido assassinada. Eu ia ter que dizer ao resto das Billings sobre isso. Sim, claro. Se elas ao menos ficassem na mesma habitação comigo durante cinco segundos. — Sim. Qualquer coisa — disse ele. Atrás de Hauer, vi um grupo de garotas andando em um amontoado em direção ao Pemberly. Uma delas nos viu e levantou o queixo, e outra menina se virou. Ivy Slade. Seus olhos negro carvão estavam fixos em mim, e uma fria flecha de gelo bateu em meu coração. Ela olhou para Hauer e um sorriso malicioso iluminou seu rosto pontiagudo. Claramente ela já estava calculando a rapidez com que ela podia espalhar a notícia de que os policiais estavam falando comigo, mas eu não me importava. Tudo o que eu conseguia pensar era em sua história. Seu ódio do Billings. Sua promessa de que ela iria derrubar todas nós. Depois da arrecadação de fundos para o Billings ela me contou tudo. Que as Meninas do Billings tinham obrigado ela e as outras aspirantes ao Billings a invadir a casa de sua avó, em seu segundo ano, para roubar uma relíquia de família. Que elas haviam disparado o alarme, que havia causado à sua avó um derrame cerebral que finalmente a matou. Que Noelle, Ariana, Cheyenne e as outras meninas do Billings tinham deixado Ivy lá para lidar com a tragédia ela mesma. Se Cheyenne definitivamente tinha sido assassinada, então Ivy era, em minha opinião, a suspeita número um. A menina tinha motivos escorrendo pelos poros. Ela praticamente me disse diretamente que ia se vingar de Noelle, bem como destruir o Billings. Além disso, eu já sabia que ela era capaz de coisas muito ruins. Desde que Cheyenne tinha morrido, alguém vinha me perseguindo. Deixando artefatos da vida de Cheyenne escondidos em meu quarto para que eu os encontrasse. Gravando o vídeo de mim e Dash e o enviando para todo o corpo estudantil. Foi Ivy. Eu tinha certeza disso. Minha certeza, é claro, não tinha nada a ver com o fato de que ela tinha roubado o amor da minha vida, Josh Hollis. — Ivy Slade — eu disse baixinho, enquanto as meninas se viraram e seguiram em seu caminho alegres. — O quê? — o Detetive Hauer perguntou, curvando os ombros contra o vento. — Ivy Slade — eu disse mais alto. O detetive suspirou e soprou em suas mãos rachadas. — Reed, já falei com ela — ele disse finalmente. — Ela não é a nossa menina. — Fale com ela de novo — eu disse a ele através dos meus dentes. — Reed, não podemos desperdiçar nosso tempo com... — Eu estou dizendo a você, detetive, não é um desperdício de tempo — eu disse, com meu sangue correndo agora. — Essa menina é capaz de matar. Sei que ela é. E ela odiava Cheyenne. Na semana passada, ela até mesmo ameaçou Noelle. Isso chamou sua atenção. — Ameaçou matá-la?

7


— Bem, não, não com essas palavras, mas... De repente, o detetive parecia extremamente cansado. — Olha, se você não tiver alguma evidência real contra a garota, não há nada que eu possa fazer. Seu tom era condescendente e impaciente. Como se eu fosse apenas uma criança estúpida espalhando boatos. Eu apertei novamente meus dedos em torno da alça da minha bolsa. — Você não conseguiu toda a história — eu disse, tentando manter minha voz calma. — Acredite em mim. Hauer soltou um suspiro e olhou para a noite sem estrelas. — Que tal começar com a sua história? — ele sugeriu. — Eu sei que você já falou sobre o... uh, e-mail, que você recebeu da conta de e-mail da Srta. Martin na noite em que ela morreu, e sua amizade contenciosa com ela. Mas eu preciso da sua declaração oficial. Onde você estava no momento da morte da Srta. Martin... com quem você estava... Eu senti um fogo ardendo em meus olhos. Ele precisava da minha declaração, enquanto uma psicopata como Ivy estava passeando pelo campus livre e claramente? — Você quer a minha declaração? Bem. Aqui está — eu disse, me erguendo com a coluna reta. — Na época do assassinato eu estava dormindo na minha cama, enquanto a minha companheira de quarto estava dormindo na dela. Acordei ao som de gritos e corri pelo corredor para encontrar a presidente do meu dormitório morta no chão de seu quarto. Isso é tudo que eu sei. Agora, por que você não vai entrevistar alguém com, ah, eu não sei, um motivo? Hauer me deu um olhar exasperado, mas eu não me importava mais com o humor dele. Eu me virei e irrompi até o Billings, de repente me sentindo mais confiante do que nunca de que eu poderia lidar com Noelle e o resto das minhas amigas. Tinha que apreciar esse bom aumento de adrenalina. Pelo menos o detetive Hauer era bom para alguma coisa.

*** Eu estava confiante até que entrei no foyer do Billings e tive aquela sensação inquietante e repugnante de que eu tinha acabado de causar um silêncio repentino. Lentamente, eu me virei em direção à sala de estar. Do meu ponto de vista eu podia ver algumas das minhas irmãs do Billings amontoadas no assento do sofá dourado. Astrid Chou olhou para mim e rapidamente se curvou para baixo, levando a mão até sua bochecha, como se quisesse esconder o rosto. Havia um silêncio de morte. Além do crepitar do fogo na lareira, não havia nada. Minha boca estava mais seca que uma caixa de areia. Se mexe, Reed. Se mexe. Eu coloquei minhas malas no chão e caminhei em direção à sala, tirando o casaco, cachecol e luvas enquanto eu caminhava, já que meu termômetro interior estava registrando cerca de quatro mil graus. A cada centímetro eu podia ver um pouco mais da sala, e quando cheguei à porta, as minhas suspeitas foram confirmadas. Cada uma das Meninas do Billings estava reunida ao redor da sala. Portia Ahronian, Shelby Wordsworth, London Simmons e Vienna Clark estavam no sofá, todas evitando o meu olhar. Kiki Thorpe, Missy Thurber e Lorna Gross estavam amontoadas no sofá de dois lugares junto de Astrid. Tiffany Goulbourne e Rose Sakowitz estavam sentadas nas cadeiras de espaldar reto em frente à TV de tela plana. Até Constance Talbot e Sabine DuLac estavam lá, sentadas no chão com as pernas dobradas debaixo da

8


mesa de café. E na frente da sala, sentada na poltrona perto da lareira, estava Noelle Lange. Seu cabelo escuro e espesso estava puxado para trás em um coque e ela usava uma camisola de gola alta preta e uma saia xadrez preta e cinza. Diamantes enormes brilhavam em suas orelhas. Seus lábios cheios estavam retorcidos em um sorriso aparente enquanto me olhava nos olhos — a única pessoa capaz de fazê-lo. — O que está acontecendo? — perguntei timidamente. O som da minha voz fez algumas das meninas se contorcerem. Era evidente que esta era uma reunião programada. Era evidente que todas elas sabiam que deviam voltar para o campus cedo para isso. E, claramente, Noelle estava no comando disso. Olhei para Sabine, que olhou para suas botas de couro na altura do joelho. Por que ela não me avisou sobre isso? — Chegou no momento certo, Reed — Noelle disse, inclinando-se para trás. Colocou seus cotovelos casualmente nos braços da poltrona enquanto me olhava friamente. Ela levantou as duas mãos, com as palmas para cima, e seus olhos escuros brilhavam alegremente. — Acabamos de votar para que você saia. A terra inclinou-se sob meus pés. Ela não poderia ter dito o que eu pensei que eu tinha ouvido. Não tão arrogantemente. Ela não podia. Mas ninguém estava rindo como se fosse uma brincadeira. Ninguém sequer se moveu. Segurei a parte traseira do sofá de dois lugares, meus dedos suados puxando o ondulado cabelo castanho de Lorna. — Ai! — Lorna protestou em voz alta, inclinando-se para frente para se libertar. — O que você quer dizer com que acabaram de votar para que eu saia? — Eu respirei. De repente, tudo na habitação estava distorcido. Os rostos, os móveis, as chamas saltando na lareira. Isso não era real. Isso não podia ser real. — Você tem uma hora para arrumar suas coisas — disse Noelle, levantando-se e alisando a saia. — Há um quarto individual esperando por você no Pemberly. Minha mente girava, fazendo eu me sentir tonta, instável. Lutando para manter o foco, eu olhei em volta para as minhas supostas amigas. Para as pessoas com quem eu tinha compartilhado tanto. Para as meninas que votaram em mim para ser presidente há apenas dois meses. Que votaram em mim para presidente por unanimidade. Estudamos juntas, fizemos compras juntas, fofocamos juntas, tivemos ressacas juntas, reclamamos sobre pais, namorados e professores juntas. Elas eram minhas amigas. As primeiras amigas de verdade que eu já tive. A primeira família de verdade que eu já tive. Elas não podiam fazer isso comigo. Não elas. — Não. Gente. Vocês não podem simplesmente... — Claro que podemos — Noelle disse com um sorriso, caminhando com seus sapatos de grife para estar diante de mim. — As residentes do Billings decidem quem vive no Billings, lembra? E decidimos que não queremos uma vadia traíra vivendo aqui. Minhas mãos estavam apertadas no sofá de dois lugares. Eu não conseguia respirar. Olhei para os frios olhos castanhos de Noelle, procurando a parte final da brincadeira. Esperando que ela risse e me dissesse que ela estava apenas brincando comigo como ela tinha feito tantas vezes no passado. Nós éramos amigas. Praticamente irmãs. E sim, eu tinha pisado na bola, mas uma pessoa não tinha que ter a chance de pedir perdão antes... disso? — Não — eu disse finalmente. — Não. Eu não acredito em você. Desviei meus olhos de Noelle e olhei em volta novamente. Olhei para Tiffany, que sempre tinha sido tão equilibrada e bem-humorada. Que sempre foi a voz da razão. Ela simplesmente virou o rosto para o lado, dando-me uma visão de sua maçã do rosto perfeita e sua suave pele de cacau. Olhei para Rose — a doce Rose eu-não-incomodoninguém — mas seus olhos estavam fixos em seu colo, seus cachos vermelhos escondendo seu rosto. Portia revirou os grandes olhos verdes quando eu olhei em sua

9


direção, e as Cidades Gêmeas estudaram as unhas perfeitamente cuidadas. Apenas Constance e Sabine me olharam, em silêncio, implorando por perdão. A realidade caiu sobre mim. Era verdade. Todas tinham se virado contra mim. Elas tinham votado para me chutar para fora do dormitório que eu tinha acabado de salvar para elas — o dormitório para o qual eu tinha levantado cinco milhões de dólares com o fim de evitar que o diretor Cromwell o fechasse. O dormitório no qual eu tinha vivido todo o ano passado — por mais tempo do que muitas delas. Esta era a minha casa. E elas estavam levando-a para longe de mim. — Quem votou para eu sair? — eu perguntei, minha voz clara como um sino. Eu estava com raiva, desesperada e me agarrando a qualquer coisa, mas eu precisava saber. Eu precisava saber exatamente quem se virou contra mim. E eu não podia simplesmente me render e sair de lá com o rabo entre as pernas. Eu me recusava. Noelle zombou da minha pergunta. Todas as outras trocaram olhares conturbados. Incrédulos olhares. Como se pedir para me dizerem qual delas eram as traidores fosse muito rude. Como se eu me importasse de ser rude nesse momento. — Quem votou para eu sair? — perguntei novamente. — Eu quero saber. A mão de Missy Thurber foi a primeira subir. Chocante. A menina e seu nariz do tamanho do Eurotúnel sempre odiou minhas entranhas. Mas, então, muito lentamente, mais mãos começaram a subir. Lorna, Shelby, Portia. Até Kiki, Rose, Tiffany e as Cidades Gêmeas tinham votado contra mim. Pessoas que há uma semana atrás eu contava como minhas boas amigas. Apenas três pares de mãos permaneceram firmemente plantados no colo de suas donas. Sabine, Constance e Astrid tinham ficado do meu lado. E isso era tudo. Isso era tudo o que eu tinha. Três amigas de verdade. O medo queimando no meu intestino lentamente endureceu em uma pesada e fria tristeza. — Desculpa, Lambe-Vidros — disse Noelle com uma inclinação de cabeça. — Parece que você vai voltar para onde você sempre pertenceu. Voltar para onde eu sempre pertenci? Ela estava brincando? Era ela quem sempre me dizia que eu pertencia a aqui. Foi ela quem tinha insistido que o Alojamento Billings precisava de mim. Como ela poderia me olhar nos olhos e dizer isso? Noelle passou ao meu lado, roçando meu ombro com o dela. Raiva indignada estalou sob meu choque, e eu me ouvi falar. — Eu acho que não. Todas na sala prenderam a respiração. Eu não tinha certeza de que eu ainda queria viver ali, sabendo que todas haviam se voltado contra mim. Mas eu não iria dar a Noelle a satisfação de me ver ir embora sem uma luta. Sem chance. — Como é? — Noelle disse, incrédula, virando ao redor para me encarar. — A regra “As Billings decidem quem vive no Billings” não se aplica mais, lembra? — eu disse, convocando toda a minha coragem para me enquadrar na frente dela. — Desde que o Diretor Cromwell anulou-a no início do ano. Eu não vou a lugar nenhum. Os olhos de Noelle me cortaram como facas minúsculas. Ela nem sequer tinha que falar para eu saber que ela já tinha encontrado uma maneira de contornar isso. — Você gostaria de pensar isso, não é? — ela disse, olhando por baixo do nariz para mim. — Mas quando eu, sozinha, entreguei a Crom um cheque de mais de cinco milhões de dólares para usar como quiser, ele praticamente deu a entender que eu posso fazer o que eu quiser aqui. Sozinha? Como se eu não tivesse trabalhado pra caramba na arrecadação de fundos. — E o que eu quero é que você saia — ela terminou, seus lábios se curvando em um sorriso. — Não torne isso pior ficando toda patética e chorona sobre isso.

10


Meu rosto queimava como se eu tivesse estado no sol por quatro dias seguidos. Ela estava adorando cada minuto disso. Amando me humilhar na frente de todas. Adorando me ver sofrer. Eu a odiava tanto naquele momento, eu queria arrancar-lhe os cabelos. E, no entanto, eu ainda queria que ela mudasse de ideia. Ainda queria que ela colocasse o braço em volta de mim e me dissesse que tudo ia ficar bem. Eu ainda queria sua aprovação. O fato de que potencialmente eu a tinha perdido para sempre poderia ter sido o entendimento mais devastador de todos. — Vamos, senhoritas — disse Noelle para a sala. — Eu trouxe alguns presentes da cidade. Só assim, todas estavam fora de seus assentos, caminhando felizmente para a porta. Todas elas passavam em torno de mim como se eu fosse uma poça de lama que elas estavam tentando evitar. Eu só fiquei lá. Eu não poderia ter me movido ainda que eu quisesse. E depois do que tinham feito comigo, eu não ia sair de seu caminho. Era um pequeno desafio, mas era tudo o que eu tinha. — Noelle, por favor, não faça isso — eu disse baixinho, dando um passo até ela uma vez que a sala estava praticamente vazia. Eu não queria implorar. Eu não queria me explicar enquanto o meu sangue ainda estava quente, com raiva. Mas eu sentia que poderia ser a minha última chance. — Eu estava bêbada. Pensei que vocês haviam terminado. Eu sinto muito, muito mesmo. Por uma fração de segundo, eu vi a profundidade da ferida que Noelle estava sentindo refletida em seus olhos e meu coração parou. Eu a tinha destruído. Minha melhor amiga. A pessoa que estava lá por mim nos piores momentos da minha vida. Eu a tinha machucado além de toda reparação. Tudo isso, essa cena enorme, era apenas sua maneira de se proteger. Sua maneira de se salvar. Minha culpa se agravou exponencialmente. Eu merecia seu castigo. É verdade. Mas será que tinha que ser isso? De repente, ela virou a cabeça para o lado e piscou. Quando ela olhou para mim de novo, o olhar arrogante estava de volta. — Não importa o que você pensou — disse ela, cruzando os braços sobre o peito. — Dash era e é meu. E mesmo se tivéssemos terminado, você não deveria ter feito aquilo. Não com o ex de uma amiga. Eu pisquei e Noelle sorriu. — Sim, Reed. Eu sei que você está morrendo por uma atualização, por isso aqui está. Dash e eu ainda estamos juntos e sempre vamos estar juntos — ela disse. — Um momento de fraqueza de sua parte não vai mudar isso. Especialmente quando você tão claramente se jogou para ele. Isso estava mais além da mentira. Foi Dash quem tinha me convidado para uma das tendas isoladas no telhado da Legado. Foi Dash quem tinha iniciado as coisas quando eu cheguei lá. Mas claramente ele ou Noelle decidiram reescrever a história para que eles pudessem seguir em frente com sua vida juntos. De alguma forma, toda a culpa estava sendo colocada diretamente sobre os meus ombros. — Mas não se preocupe. O justo é justo — ela me disse, levantando o queixo. — Você não é a única que será punida. Ele ficará rastejando por muito, muito tempo. — Noelle, sinto muito pelo que aconteceu — eu disse, enxugando as mãos suadas no meu jeans. — Você está certa. Eu quebrei as regras. E eu vou fazer de tudo para compensar isso. Mas, Noelle, vamos lá. Isso é entre mim e você. Você não tem que arrastar o dormitório todo para isso. Um torcido sorriso se abriu lentamente através do rosto de Noelle. — Não fui eu que fiz isso. A votação nem sequer foi minha ideia. Eu pisquei, atordoada. — O quê?

11


— Você se esqueceu de tudo, Reed? Isto é do que o Billings se trata. Nós cuidamos umas das outras — disse ela levemente. — Mesmo quando isso significa decidir entre duas irmãs e virar as costas para a que está errada. Meu coração sentia-se mal. Doente, preto e azedo. Quantas vezes ela me disse isso no passado? Que ela sempre cuidaria de mim, sempre estaria atenta para mim, porque isso era do que o Billings se tratava. Mas agora eu já não tinha direito a esse privilégio. Agora, ela estava levando tudo para longe. — Uma hora — disse Noelle, batendo no seu relógio de ouro uma vez. Seu tom de voz era tão definitivo que enfraqueceu meus joelhos. — O relógio está correndo. Então ela virou as costas para mim e foi embora.

12


2 EMPURRAR DE VOLTA

E

mpacotando. Eu estava empacotando meu quarto. Eu não era mais bem-vinda no Billings, o único lugar que eu tinha realmente querido viver. Enquanto eu removia minhas roupas do armário com minhas mãos trêmulas e as colocava na minha mala maior, percebi que meu coração nunca tinha se sentido tão pesado. Ele poderia muito bem ter sido feito de chumbo. — Tentamos persuadi-las sobre isso, mas elas não quiseram nos ouvir — disse Astrid em seu acentuado sotaque britânico. Ela estava lenta e relutantemente dobrando minha roupa de cama e guardando-a em um grande saco verde de lixo que alguém havia pegado de um armário de suprimentos. Isso era o quão baixo eu tinha afundado. Sacos de lixo como malas. — Para mim isso é um monte de besteira. Todas nós erramos de vez em quando, não é verdade? Nós somos apenas humanos. — Eu acho que muitas meninas queriam votar para você ficar, mas todo mundo tem medo de Noelle — Constance acrescentou. Rondando o armário, ela puxava uma mecha de seu cabelo vermelho repetidamente, me olhando nervosamente como se eu pudesse estar à beira de um colapso. Pelo menos Constance estava falando comigo de novo. Após a arrecadação de fundos, ela ainda não tinha sido capaz de olhar para mim, incapaz de acreditar que eu tinha traído Noelle. Aparentemente, o pensamento de que eu fui chutada para fora por isso, no entanto, parecia um castigo injusto para ela. Nem ela nem Sabine tinham feito nada para acelerar o longo processo de me mudar. É claro que elas estavam tendo um momento tão duro com isso como eu. — Há algo que possamos fazer? — Sabine perguntou, sentada na ponta da cama, seus olhos verdes sondando os meu. Algo que elas poderiam fazer. Como o quê? Defender o meu caso perante Noelle por mim? Amarrá-la e fazê-la ouvir? Construir uma máquina do tempo para que eu pudesse voltar para a Legado e não ficar com Dash? — Me ajudar a empacotar? — sugeri com um sorriso triste. Sabine e Constance olharam uma para a outra e pareceram chegar a um acordo sinistro. Constance voltou para o armário e Sabine levantou-se para ajudá-la a pegar os suéteres da prateleira de cima. — Deus, eu odeio a Noelle — Sabine disse. — Alguém devia realmente lhe dar um belo chute no... Naquele momento, a porta do nosso quarto se abriu e Noelle entrou. A boca de Sabine se fechou e todas nós congelamos. Será que ela tinha ouvido o que Sabine tinha dito? Se ouviu, ela não mostrou nenhum sinal. Sua atenção estava focada em mim. — Eu quero todas as suas coisas do Billings de volta — disse ela, com os braços cruzados sobre o peito. Eu pisquei. — Coisas do Billings? Que coisas do Billings? Noelle revirou os olhos. — A bolsa Chloe, para começar. E quaisquer outros presentes que as ex-alunas esconderam dentro dela. O que lhe deram? Dinheiro? Um cartão de crédito? Seja o que for, eu vou levar agora. — Ela estendeu a mão e sacudiu os dedos, como se eu simplesmente fosse colocar tudo na palma da sua mão.

13


Isso era um teste. Eu podia sentir isso. Noelle estava tentando ver o quão longe ela podia me empurrar. Eu sabia por experiência que eu tinha que empurrar de volta. — Não — eu disse, levantando o queixo desafiadoramente. — Como é? — Noelle replicou, estreitando os olhos. — Não. Eu não vou te dar a bolsa ou qualquer outra coisa — disse a ela. Eu não poderia dar a ela. Não podia mostrar fraqueza. Não se eu esperava reconquistar seu respeito. — Os presentes foram dados a mim. Eles são meus. — Foram presentes dados a você quando você era presidente do Billings — Noelle disse, dando um passo ameaçador em minha direção. — Você já não mora mais aqui. Você não tem direito de... — Desculpa, mas eu acho que tenho todo o direito de manter as coisas que me foram dadas como presentes — eu disse, tentando soar alegre ainda que meu coração batesse com força nas minhas têmporas. — Eles não vieram com uma cláusula de renúncia. Para acentuar o meu ponto, eu peguei a linda bolsa de couro Chloe e despejei-a no saco de lixo de Astrid junto com a minha roupa de cama. Noelle olhou para mim por um longo momento, então suspirou, como se eu tivesse sido muito infantil. — Tudo bem. Mas eu vou pegar de volta o disco — disse ela. — Isso não pode permanecer na posse de uma não residente. Meu rosto arrepiou com o calor. Ninguém no quarto sabia sobre o disco. — Disco? Que disco? — Sabine perguntou, com seus olhos verdes de repente curiosos. — Noelle — eu disse entredentes. — Eu não disse a ninguém sobre o... — Um disco que foi dado a Reed pelas ex-alunas — Noelle disse em voz alta, dirigindo-se a Sabine. — Está repleto de informações confidenciais sobre todas nós — sobre qualquer uma que já viveu no Billings. Ela o teve todo o semestre, Sabine. Estou surpresa que ela não o compartilhou com você, de todas as pessoas... Vadia. Completa vadia. Não foi o suficiente ela estar me chutando para fora. Agora ela estava tentando abrir uma brecha entre mim e Sabine. — Informações confidenciais? — Astrid perguntou timidamente. — Que tipo de informações confidenciais? — Como coisas sobre nossas famílias e essas coisas? — Constance perguntou, com os olhos arregalados. — Como o material sobre o nosso passado? — Sabine adicionou. A tensão no quarto era palpável. Todas as três estavam completamente assustadas com a ideia de que eu possa conhecer os seus segredos. Noelle, entretanto, sorriu como um gato Cheshire. — Eu não li nenhum de seus arquivos — eu disse, olhando em volta para Sabine, Constance e Astrid. — Eu não faria isso. — Então, fiz uma pausa e olhei para Noelle. — Com vocês, pelo menos — eu adicionei de forma proeminente. Eu nunca tinha olhado o arquivo de Noelle, tampouco, mas por que não deixá-la pensar que eu tinha? Ela merecia um toque de paranoia, considerando o que ela estava me fazendo passar. Mas é claro que o seu sorriso não vacilou. — O disco, Reed — ela disse. — Você sabe que você não tem direito a isso agora. Não havia nenhum ponto em discutir isso. Me dei conta de que ela não iria se dar por vencida. E agora, mais do que qualquer coisa, eu só queria tirá-la do meu quarto. Eu me virei e peguei minha caixa de CD portátil, em seguida, passei o CD de John Mayer para trás. De trás dele, eu extraí o disco do Billings, que eu tinha colocado lá depois de olhar para o meu próprio arquivo no mês passado. Quando me virei, Sabine, Constance, e Astrid olhavam para o disco como se fosse uma bomba nuclear. Eu olhei para ele. Esta pequena coisa armazenava tanto poder. Será que eu realmente queria dar a Noelle bem

14


na frente delas? Eu realmente iria trair as únicas pessoas que tinham sido fieis a mim em toda essa confusão? A resposta? Não. Eu coloquei o disco ao longo da borda da minha mesa e levantei o meu punho. Noelle avançou. — O que você... Mas era tarde demais. Eu baixei a minha mão no lado que estava pendurado sobre a borda da mesa. A coisa dividiu bem no meio com uma rachadura satisfatória. — Huh. Não posso acreditar que funcionou — eu disse. Eu me virei e lancei as duas metades aos pés de Noelle. — Aí está. Aí está o seu precioso disco. Todas só olhavam para os pedaços quebrados. — Tudo bem — Noelle disse finalmente. — Vão me enviar um novo. — Ela olhou para o relógio. — Reed, você tem trinta e três minutos. Ela bateu a porta em sua saída, e todo mundo soltou um suspiro. Astrid caiu no chão para pegar os pedaços do disco. — Era muito ruim, realmente? — ela me perguntou, com os olhos escuros nervosos enquanto ela pegava os restos. — Eu só olhei o meu, mas era ruim — eu disse a ela. — Listava a renda dos meus pais, o que eu fiz no verão passado, todos os meus ex-namorados... Havia também coisas sobre o meu irmão. — Assustador — disse Astrid, lançando os pedaços no saco de lixo de plástico de Sabine. — Você realmente acha que ela vai simplesmente receber outro? — Sabine perguntou. — Provavelmente — eu disse com um encolher de ombros. — Mas vocês são bastante normais — eu brinquei. — Vocês não têm nada com o que se preocupar, certo? — Certo — disseram todas elas em coro, olhando uma para a outra de maneira intrincada. Então, todas nós morremos de rir. Eu não poderia imaginar que os segredos em seus arquivos fosse algo horrível. Talvez fosse, mas considerando alguns dos segredos que pessoas como Ariana e Cheyenne guardavam, o quão ruins poderiam ser? — Vamos lá. Vocês a ouviram — eu disse, sem rodeios. — Nós temos apenas trinta e três minutos. — Eu não posso acreditar que isso está realmente acontecendo — disse Sabine, voltando a trabalhar. Ela sacudiu seus longos cabelos negros para trás de seus ombros e seus brincos de concha sempre presentes balançaram e tilintaram. — Talvez eu pudesse solicitar uma transferência! — ela disse entusiasmada. — Nós poderíamos compartilhar um quarto no Pemberly. Fiquei comovida com a oferta. Sabine claramente se preocupava mais comigo do que com o Billings, o qual não tinha precedentes. Mas eu não podia fazer isso com ela. — Você ouviu o que Noelle disse. É um quarto individual — eu disse a ela. — Não há nenhuma maneira de caber nós duas. Mas obrigada pela oferta. A cara de Sabine caiu. — Bem, então, nós deveríamos apenas falar com todas. Fazê-las votar de novo... — Não. Eu não quero ser toda “patética e chorona sobre isso” — disse, citando Noelle. — Você está certa — disse Astrid, empurrando uma almofada para o saco de lixo agora cheio. — Se mantenha com o queixo erguido. Que ela se foda. Essa é a única maneira de lidar com isso. — Talvez se você só morar no Pemberly por um tempo ela vá se acalmar — Constance sugeriu, mordendo o lábio inferior. — Talvez... Não sei... talvez todas elas mudem de ideia.

15


Pemberly. Só em pensar no dormitório cinzento e velho com as suas pequenas janelas, portas com a pintura lascada e móveis antigos e maltratados fez minha pele se arrepiar. Eu não pertencia ao Pemberly. Eu pertencia ao Billings. Mas eu não podia discutir com a lógica de Constance. Poderia ser melhor tentar consertar tudo isso de longe. — Isso é tão injusto — disse Sabine. — Você é uma Billings. As palavras pairaram no ar como um canto fúnebre. Todas olharam para mim com tristeza e eu senti como se meu coração estivesse partido. Deste ângulo eu ainda podia ver as duas metades do disco quebrado brilhando na lata de lixo. — Não mais — eu disse.

16


3 VIZINHAS

O

Pemberly era uma das coisas mais deprimentes que eu já vi. Os pisos de madeira antiga estavam arranhados e arrancados, e uma mancha incrustada escoava por debaixo da cama de solteiro. Todos os móveis velhos e sujos estavam empurrados contra as paredes — a cama à minha esquerda, a mesa em frente, a cômoda à minha direita — deixando espaço suficiente no centro do quarto para caminhar. Acima da cama havia uma janela alta e estreita com a pintura descascando em todo o painel e toda a coisa parecia que ia cair se eu tentasse abri-la. Virei-me para verificar o armário ao lado da porta. Era um décimo do tamanho de um do Billings e era fechado por uma porta corrediça dobrável em madeira falsa. Comparado ao meu quarto no Billings, isto era uma cela de prisão — uma prisão muito, muito fria. Talvez Crom devesse usar um pouco dos cinco milhões para renovar o Pemberly. Os pais dessas meninas estavam pagando quantias ridículas de dinheiro para elas viverem como prisioneiras. Empurrei para abrir a porta sanfonada do armário, que imediatamente saiu de seu carril, e joguei minhas malas dentro no solo. Uma bola de poeira deslizou através do quarto e eu senti as lágrimas brotarem dos meus olhos. Como isso tinha acontecido? Eu havia cometido um erro. Um grande erro, mas ainda assim. Isso significava que toda a minha vida tinha acabado? Okay. Não chore. Não se permita chorar. Eu não vou deixar Noelle tirar o melhor de mim. Sentei-me na cama, que rangeu sob o meu peso ruidosamente, e puxei o meu casaco mais perto de mim, me perguntando se o aquecedor estava trabalhando a toda potência ou se eu teria que reclamar com a manutenção amanhã. Através da porta aberta, eu podia ouvir risos, música e vozes do fundo do corredor. Sons estranhos. Pessoas desconhecidas. E, de repente, fui dominada pela tristeza. Eu sentia falta do meu quarto. Eu sentia falta do espaço, da limpeza e da privacidade, relacionada ao banheiro. Eu sentia falta da minha vista, do meu armário, das luzes foscas do teto e do calor. E eu sentia falta de Sabine. Eu sentia falta de todas, na verdade. Mesmo que elas tenham se voltado contra mim — talvez porque elas tenham se virado contra mim — eu sentia tanta falta delas que doía. Elas não poderiam ter, pelo menos, me dado uma chance de explicar? Elas não poderiam ter me dado a chance de reconquistá-las? Eu puxei meus joelhos até embaixo do meu queixo e estava prestes a ceder às lágrimas quando eu parei e levantei. — Não. Eu não vou chorar — eu disse baixinho, estendendo meus dedos em meus lados. — Não se permita chorar. Em vez disso, me virei e peguei a folha de papel rosa que estava apoiada sobre algo no centro da mesa. As palavras NORMAS E REGULAMENTOS DO PEMBERLY HALL estavam impressas na parte superior acima de uma lista de 10 itens. Normas e regulamentos. Sim. Eu podia me distrair com isso por cerca de dez segundos. Eu estava

17


prestes a começar a ler quando notei os itens que haviam estado apoiados no papel. Tanto a minha mão como o papel caíram. Um pequeno cartão de lugar branco com o meu nome em caligrafia manuscrita rosa estava no centro da mesa. Era o meu cartão da última reunião oficial de Cheyenne como presidente do Billings. E na frente dele havia uma pequena bolsa de veludo com pílulas derramadas para fora dela. Comprimidos brancos com pontinhos azuis. As pílulas que Cheyenne havia tomado em sua overdose. Não — os comprimidos que alguém tinha usado para matá-la. Eu cambaleei para trás alguns passos e me choquei com o pedaço de parede entre o armário e a porta. Uma dor irradiou pela minha espinha, mas eu mal a sentia. Meu coração estava balístico, batendo em meus ouvidos. Quem fez isso? E o que isso significa? Será que isso significa que eu sou a próxima? Cheyenne tinha morrido na noite em que foi expulsa de Easton. Eu tinha acabado de ser expulsa do Billings. Será que a pessoa que havia matado Cheyenne deixou isso aqui para mim como um aviso? Será que isso significa que eu vou morrer? Hoje à noite? Eu descontroladamente chequei o quarto como se alguém fosse sair de lugar nenhum no estilo filme de terror, mas não havia nenhum lugar para alguém se esconder. Ainda assim, minha mente cambaleou enquanto eu segurava o papel rosa em minha mão suada. Ninguém sabia que eu estava me mudando para o Pemberly a não ser as Meninas do Billings. Será que alguém do meu antigo dormitório deixou isso aqui para mim? E se sim, quem? Por quê? Por que estava fazendo isso? Por que quem quer que seja que estava fazendo essas coisas não me deixava em paz? — Ora, ora. Olha quem está nos bairros pobres. Um calafrio correu através de mim. Virei-me para encontrar Ivy Slade encostada na minha porta aberta, um sorriso de satisfação em sua cara de bruxa. Instintivamente, eu recuei até que eu estava bloqueando sua visão do cartão de lugar e das pílulas. A mera visão de ela ver o que eu acabei de encontrar não era boa. De repente, eu me senti tonta e tive que me agarrar na cadeira atrás de mim para não tremer. — Eu estou tão empolgada que vamos ser vizinhas! — Ivy disse com falsa euforia. — O que... o que você tá falando? — eu disse, de alguma forma encontrando a minha voz. Ivy deu um par de passos para dentro do quarto, o que deixou cerca de um metro de distância entre nós. Pelo menos ela usava saltos finos em seu jeans ajustado e uma blusa preta, então ela não ocupou muito espaço. Enquanto eu estava ali paralisada, ela olhou ao redor, balançando seu rabo de cavalo preto. — Todo ano eu estive chateada por este quarto estar vazio e justamente ao meu lado — disse ela. — Eu pedi para Cromwell deixar eu ficar nele uma dúzia de vezes, mas ele recusou. — Ela fez uma pausa e seu olhar de olhos negros caiu em cima de mim. — Talvez ele soubesse o tempo todo que você ia acabar aqui. Em meu interior, eu soltava fumaça com o comentário, mas eu não conseguia encontrar uma resposta situada entre minha paranoia, confusão e medo. — Na verdade, agora que eu vejo, eu estou feliz por ele não ter dado para mim — disse ela, franzindo o nariz. — Parece que ninguém nunca limpa esse lugar. E que cheiro é esse? — Ela cheirou e me olhou nos olhos, os seus próprios escuros como breu. — Tem cheiro de alguma coisa morta aqui. Eu quase engasguei com minha própria língua. Morta. Morta, morta, morta. Seus olhos continuaram perfurando os meus. Foi ela? Será que foi ela quem tinha deixado as pílulas? Ivy Slade estava tentando me matar assim como ela tinha matado Cheyenne? — Bem, doces sonhos! — ela disse alegremente.

18


Então ela virou-se e saiu do quarto, dando-me um último olhar divertido antes de bater a porta atrás dela. Eu não conseguia me mover. Mal podia respirar. Cerca de dois segundos mais tarde, uma música rock alta balançou a parede ao lado da minha cama nova. A vadia vivia no quarto ao lado. Justo. Na. Porta. Ao. Lado. A menina que tinha se comprometido a fazer da minha vida um inferno. A menina que tinha roubado o amor da minha vida. A menina que pode apenas sutilmente ter ameaçado me matar. Justo. Na Porta. Ao. Lado. Estimulada por uma súbita onda de medo — tingida de adrenalina — peguei a cadeira da minha escrivaninha e a coloquei sob a maçaneta como eu tinha visto ser feito em tantos filmes. Então me afastei, enxugando as palmas das mãos suadas, me perguntando se havia alguma coisa que eu poderia fazer para me proteger. Mesmo que eu estivesse errada — mesmo que Ivy não tivesse acabado de me ameaçar e seu comentário tivesse sido um insulto casual — ainda havia um assassino no campus. Um assassino que tinha acabado de deixar sua arma no meu quarto. De nenhuma maneira eu ia conseguir dormir esta noite. De jeito nenhum. Por que isso estava acontecendo comigo? Por que eu não podia me enfiar na segurança da minha cama no Billings justo agora, com Sabine a poucos metros de distância? Havia segurança nos números, certo? E, de repente, eu estava completamente sozinha. Finalmente, a injustiça de tudo me dominou. A injustiça sádica de tudo. Sentei-me no chão frio, minhas costas contra o lado da minha cama. A música alta e irritante de Ivy sacudiu meus sentidos e forçou as lágrimas a escorrerem. Eu puxei meus joelhos para cima e enterrei meu rosto entre eles, agarrando-se às minhas pernas com os braços enquanto eu chorava. Pelo menos com a música Ivy não podia me ouvir. Pelo menos ela não saberia que ela tinha ganhado.

*** Como previsto, não consegui dormir naquela noite. Mais cedo eu tinha furtivamente saído do quarto por um minuto para jogar na privada as pílulas e o cartão de lugar em um dos banheiros comunal (afinal, se a polícia ia investigar um assassinato, eu não queria ser pega com a causa da morte), mas ainda me assombrava. Cada barulho que eu ouvia — cada rangido, cada assobio do vento, cada passo — fazia o meu coração dar uma brusca parada e os meus olhos irem para a porta. E entre esses momentos excruciantes, havia muitos pensamentos que rodavam em minha mente. Muitas lembranças humilhantes aparecendo para reproduzir-se e fazer o meu coração e estômago se apertarem. Havia coisas demais para se arrepender. Coisas demais para desejar que não tivessem acontecido. Eu desejei que eu nunca tivesse começado a enviar e-mails para Dash no início do ano letivo. Eu desejei que eu não tivesse tomado todas aquelas bebidas na Legado. Eu desejei que eu nunca tivesse subido no telhado. Eu desejei que Josh nunca tivesse nos encontrado. Eu desejei que eu tivesse dito a Noelle a verdade desde o início. Eu desejei que eu tivesse visto Ivy gravar aquele vídeo estúpido para que eu pudesse dar um tapa nela ali mesmo e cortar pela raiz toda essa coisa.

19


Eu puxei meu travesseiro sobre meu rosto e gemi nele. Naquele momento, o riso de Ivy, claro como o dia, encheu meu quarto. Joguei o travesseiro de lado. Não era apenas as paredes do Pemberly que eram finas como papel — o que elas eram — mas havia uma abertura bem debaixo da minha cama, através da qual eu podia ouvir quase tudo que Ivy e sua colega de quarto, Jillian Crane, dizia uma a outra. Pelo menos, isto é, quando elas estavam falando alto e eu estava ouvindo. Olhei para o relógio na minha mesa. Já passava da meia-noite. Do que diabos Ivy estava rindo? Sua risada foi seguida por uma risadinha e algumas palavras murmuradas baixinho. Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu reconheci esse tom. Ela estava conversando com um cara. Paquerando. E não com um cara qualquer — com o meu cara. Josh estava, agora, sussurrando palavras doces para a fria e diabólica Ivy. De repente, cheia de ira, joguei minhas cobertas de lado e me sentei com a coluna reta. Estava frio no quarto, então eu usava uma calça de moletom, uma blusa de gola e uma blusa de moletom, junto com umas meias grossas, que agora protegiam os meus pés do chão gelado enquanto eu andava em um pequeno círculo. Eu tinha que pensar. Eu tinha que descobrir isso de uma vez por todas. Várias vidas podiam depender disso, inclusive a minha. Ok. Respira fundo. Pensa. O que eu realmente sabia? Primeiro, de acordo com a polícia, Cheyenne foi definitivamente assassinada. Então, o que isso significa exatamente? Significava que a nota de suicídio havia sido falsificada. Significava que as duas notas de suicídio haviam sido falsificadas. Eu me detive em seco, de repente, vendo tudo com uma clareza fria. Na noite em que ela morreu, Cheyenne não havia me enviado aquele assombroso e-mail “Ignore a nota. Você fez isso.” Ela não me culpou por sua morte. Porque ela não tinha a intenção de morrer em absoluto. Quem me enviou aquele e-mail foi o assassino. Por alguma razão, o assassino queria que eu me sentisse responsável pela morte de Cheyenne. Instantaneamente, um sentimento estranho de alívio tomou conta de mim. Por meses eu estive andando ao redor do sentimento de culpa, pensando que os últimos pensamentos de Cheyenne antes de ela se matar tinham sido sobre mim. Pensando que ela tinha ido ao túmulo dela me amaldiçoando. Mas não era verdade. Nada disso era verdade. Cheyenne não me culpou. O próprio pensamento era como uma pedra enorme que estava sendo tirada dos meus ombros. Mas é claro que o alívio teve curta duração, substituído imediatamente por um novo e intenso medo. Será que isso significa que meu perseguidor também era o assassino? Fazia sentido. O assassino tinha enviado o e-mail, em seguida, regressou para deixar todas aquelas coisas ao redor para me lembrar de Cheyenne. Para me torturar. Para fazer eu me sentir ainda mais culpada. As pílulas e o cartão de lugar não eram a única coisa que o assassino havia deixado para mim. Houve as bolas pretas do Billings, a blusa rosa de Cheyenne, seu perfume e outras coisas terríveis. Meu perseguidor era definitivamente o assassino. Tinha que ser. Não poderia ser apenas uma coincidência terrível. Eu caí de volta na minha cama e agarrei meu edredom até o meu peito. O assassino tinha estado no meu quarto do Billings várias vezes. Tinha estado no meu armário, nas minhas gavetas, na minha mala. E ele ou ela tinha estado neste quarto também. Neste mesmo dia. Deixando a mensagem mais terrível de todas. Mais uma vez eu ouvi Ivy rir, e meu sangue gelou. Tinha que ser ela. Ela tinha a oportunidade e o motivo. E agora eu estava vivendo ao lado dela e Josh estava namorando ela. Eu empurrei as cobertas de lado, puxei minha cadeira de debaixo da maçaneta da porta e me sentei na minha mesa. Eu não ia desistir sem lutar. Hauer queria evidências? Eu encontraria alguma evidência. Esta vadia ia cair.

20


Eu peguei um bloco e uma caneta da minha bolsa e escrevi o nome de Ivy no topo, em seguida, anotei todas as razões pela qual eu tinha certeza de que ela era a garota má. Seu motivo (a morte da sua avó), seu comportamento (tentando nos excluir da Legado), os seus não tão sutis comentários (sobre seu ódio do Billings e de Cheyenne). Minhas mãos tremiam o tempo todo e minha escrita parecia a de um serial killer — diferente de uma linha para a outra — mas continuei adiante. Quando eu terminei, eu respirei fundo. Se eu mostrasse isso para Hauer, seria o suficiente? Provavelmente não. Todo mundo sabia que Ivy estava namorando Josh agora. Ele provavelmente veria isso como as divagações psicóticas de uma adolescente que estava de coração partido por seu namorado ter seguido em frente. O que eu estava, mas ainda assim. O que eu poderia fazer para torná-la mais legítima? A resposta me atingiu quase imediatamente. Eu precisava de mais suspeitos. Eu precisava fazer pelo menos parecer como se eu estivesse sendo justa. Imparcial. Eu levantei meus joelhos e sentei na minha cadeira para pensar. Parte de mim achava que seria um desperdício de tempo, mas com toda a honestidade, havia alguns outros potenciais suspeitos. Relutantemente, eu listei eles e seus motivos potenciais por baixo da entrada de Ivy. Primeiro, Trey Prescott. Ele era um cara incrível, e eu duvidava seriamente que ele era capaz de machucar uma mosca de fruta, mas ele tinha estado tão irritado com Cheyenne, no início do ano. Por que eles terminaram durante o verão? Talvez tenha sido algo digno de matá-la. Então, claro, eu tive que considerar as outras Meninas do Billings. Sempre dizem que as pessoas mais próximas da vítima são os principais suspeitos. Todos os clássicos motivos de um assassinato — ciúme, paixão, raiva — são mais fortes com as pessoas que estão por perto. Basta olhar para Ariana e Thomas. Ela o amava. Mas quando chegou a hora, eu não conseguia pensar em muitas meninas com motivos reais para matar Cheyenne. Ela tinha sido uma total ditadora, mas a maioria das Meninas do Billings meio que gostava disso. As únicas meninas com algum tipo de motivo eram as três que ela tinha como alvo — as três que ela queria chutar para fora. Sabine, Constance e Lorna. É claro que eu desconsiderei Sabine e Constance imediatamente. Elas eram duas das minhas melhores amigas e ambas eram totalmente inocentes, doces e honestas. E Lorna era covarde demais para assassinar alguém, muito menos passar semanas me perseguindo. A menos que ela tenha tido a ajuda de Missy, sua melhor amiga. Missy era um inferno de muito mais forte do que Lorna, e, além disso, ela me odiava. E se ela tivesse ajudado Lorna a matar Cheyenne, então decidiu começar sua própria diversão me perseguindo? Isso fazia uma espécie de sentido retorcido. Eu adicionei “Missy/Lorna???” na minha lista. Depois de pensar muito eu também acrescentei Astrid. Doeu fazer isso, mas a menina era meio que um enigma. Ninguém sabia por que ela tinha sido expulsa da Escola Barton no ano passado. Ela me disse que ela tinha sido pega fumando, mas isso realmente fazia uma pessoa ser expulsa da escola? Talvez tivesse sido por algum crime insidioso. Além disso, ela tinha conhecido Cheyenne desde sempre. Talvez, como o drama de Ivy e Cheyenne que havia ocorrido na casa da avó de Ivy, havia algo em seu passado em comum que a havia separado de Astrid. Elas haviam estado definitivamente em desacordo uma com a outra no início do ano, e eu achava que era porque Astrid se recusou a seguir os planos de Cheyenne para manter Constance, Sabine e Lorna no Billings. Mas, quem sabe? Talvez tivesse sido algo maior do que isso. Ainda assim, eu coloquei dois pontos de interrogação extras ao lado do nome de Astrid. Eu não queria que fosse ela. Nem remotamente.

21


Olhei a minha lista e respirei fundo, me sentindo mais calma agora que eu estava tomando algum tipo de ação. Amanhã de manhã, depois que todos tivessem saído para o café da manhã, eu iria procurar no quarto de Ivy algo concreto. Eu sabia que era arriscado, mas eu não me importava. Se eu pudesse provar que Ivy era a assassina, que vinha trabalhando para me destruir por meses, pelo menos eu poderia realmente ser capaz de dormir à noite. Então eu poderia me concentrar em ganhar o perdão de Noelle pelo o que eu tinha feito, voltar para o Billings e talvez até recuperar Josh também. Eu poderia me concentrar em recuperar minha vida.

*** — Muito obrigada por consertar meu computador na noite passada — disse Jillian quando ela e Ivy saíram de seu quarto na manhã de segunda-feira. Eu ouvi do outro lado da minha porta, minha respiração era rápida e superficial. — Eu pensei que a coisa estava morta, e eu esqueci completamente de fazer backup do meu mundo no papel. — Não tem problema — respondeu Ivy. Elas estavam no corredor agora, passando do lado de fora da minha porta. — Mas quantas vezes eu já lhe disse, sempre faça backup de tudo? — Eu sei, eu sei, Bill Gates — Jillian disse com uma risada. — Eu prometo que nunca mais vou questionar suas recomendações de gênia do computador. — Eu prefiro diva do computador — brincou Ivy. Eu fechei meus olhos quando uma onda de compreensão veio sobre mim. Ivy, uma nerd? Não era de se estranhar que ela tenha sido capaz de falsificar o e-mail de Cheyenne para que a nota de suicídio seja enviada repetidamente. Não me admira que ela tenha sido capaz de conseguir as minhas contas, não importa o quanto eu tentava bloqueá-la ou quantas vezes eu mudava de endereço. Quanto mais eu aprendia sobre a garota, mais segura eu estava de que ela era minha perseguidora. Eu fiz uma nota mental de adicionar esta nova informação na minha lista de suspeitos. No momento em que eu ouvi o ping do elevador e o riso de Ivy e Jillian se desvaneceram, eu saí do meu quarto. Estava ficando tarde, e o corredor estava deserto. Respirando fundo e dizendo uma oração rápida para que Ivy e Jillian não voltassem por nada, agarrei a maçaneta de bronze fria e a girei. Dez milhões de vezes eu tinha amaldiçoado os poderes estabelecidos para decidir que não eram necessárias fechaduras nas portas dos nossos quartos dos dormitórios. Pela primeira vez, eu não poderia ter estado mais agradecida. O quarto de Ivy e Jillian era aproximadamente o dobro do tamanho do meu, e elas o haviam deixado acolhedor cobrindo o teto com lenços coloridos para esconder o estuque feio. As paredes estavam forradas com enormes pôsteres, folhas avulsas de revistas e fotografias emolduradas, nenhum centímetro de tinta branca aparecia através de qualquer lugar. Suas camas, empurradas contra as paredes opostas, estavam cheias de almofadas, e suas mesas estavam uma atrás da outra na frente da janela para que elas pudessem ver quando estavam estudando. E para que elas não pudessem ver uma a outra e se distrair. Não era um sistema ruim. Eu tenho que me lembrar disso se eu tiver uma companheira de quarto novamente. Okay. O que eu estava fazendo? Isso não era um episódio de Pimp My Dorm. Eu estava aqui para obter mais informações.

22


Olhando ao redor, eu identifiquei o lado de Ivy do quarto por uma moldura quadrada contendo uma foto dela e de Josh, claramente tirada no pátio. Eles estavam sorrindo e se abraçando. Náusea, náusea, náusea. Parte de mim queria amassá-la, queimá-la, rasgá-la em pedaços, mas eu rapidamente examinei através de uma pequena pilha de papéis ao lado de seu computador. Eram folhetos de faculdade e cópias das solicitações que ela tinha enviado: Harvard, Dartmouth, Tufts, Wesleyan, Universidade de Boston. Claramente a menina queria ficar perto de casa. Eu abri a primeira gaveta da sua mesa. Nada além de canetas, lápis, blocos e tinta de impressora. A segunda gaveta havia cadernos velhos, que eu folheei rapidamente, sem encontrar nada de interessante além de um par de corações rabiscados com os nomes Ivy e Gage neles. Eca. Por que os dois não permaneceram juntos? Eles eram tão perversamente perfeitos um para o outro. A gaveta de sua mesa estava cheia de lanches e produtos femininos. Uma combinação estranha, mas eu tinha um palpite de que isso não seria interessante para o detetive Hauer ou Josh. Me levantei e olhei em volta. Só faltava a cômoda e o armário, e eu estava ficando mais tensa a cada segundo que passava. Tinha que haver alguma coisa aqui. Alguma coisa... E foi quando meus olhos encontraram a foto. Pendurada na parede acima da cama de Ivy havia uma foto colorida oito por dez de quatro meninas com seus braços envolto em torno uma das outras. Não teria sido remotamente fora do comum, se não fosse pela formação totalmente estranha e assustadora. Ivy estava em um extremo, seguida de Cheyenne, depois Noelle, em seguida, Ariana. Uma assassina, uma vítima, uma amiga e uma assassina. Bastou olhar para o rosto sorrindo abertamente de Ariana que me deu arrepios, e eu tive que me afastar. A menina tinha tentado me matar. Tinha conseguido matar Thomas Pearson. Por que alguém iria querer uma foto dela em seu quarto, muito menos Ivy — a menina que tinha me dito que odiava Ariana e Noelle acima de tudo? Isso simplesmente não fazia sentido. Me reforçando, estudei a foto, à procura de pistas. A julgar pelas roupas das meninas e pela árvore florescendo por trás delas, a foto havia sido tirada na primavera, mas quando? Por quê? Por que as quatro e somente elas quatro? Eu estava prestes a arrancar a foto da parede para olhar mais atentamente, quando uma porta bateu no corredor, assustando o fôlego de dentro de mim. Minha cabeça virou para olhar para a porta e eu dei alguns passos tropeçando para longe da cama, cada centímetro de mim tremendo. Eu não poderia ficar aqui por mais tempo. Eu ia ter que continuar minha busca outro dia. Enquanto eu me atrapalhava com a maçaneta da porta, dei um último olhar para a foto. Por que diabos Ivy queria que os rostos das pessoas que tinha traído ela fossem a última coisa que ela via antes de fechar os olhos à noite? Definitivamente havia algo estranho acontecendo aqui. E eu ia descobrir o que era.

23


4 SUSPEITA NÚMERO UM

E

u pulei o café da manhã, passando a hora acalmando meus nervos, adicionando coisas à minha lista de provas contra Ivy, e enviando a Noelle um e-mail pedindo desculpas mais uma vez pelo o que eu tinha feito. Tudo que eu podia fazer era esperar que ela tivesse um momento de descuido e lesse a mensagem, e que minhas palavras possam começar a derreter o muro de gelo que ela tinha colocado entre nós. Eu finalmente saí a tempo de chegar aos serviços matinais na capela, onde eu furtivamente me sentei na parte de trás da multidão. A vibração no ar era silenciosa, paranoica. Aparentemente, todos tinham ouvido falar sobre a investigação de assassinato no café da manhã. E se eles não tinham, os dois policiais uniformizados parados perto das portas da capela certamente estabeleciam um tom misterioso. — ...A polícia está tomando o comando da antiga sala do Diretor Marcus... — Eles vão interrogar todo mundo? Eu nem conhecia a menina. — ...Todo mundo sabe quem fez isso, de qualquer maneira... Quando ouvi isso, minha cabeça virou, mas eu não pude dizer quem tinha dito isso. Eu me movimentei rápida e diretamente para o corredor central até a seção do penúltimo ano, onde eu estava prestes a me sentar no meu banco habitual — até que eu percebi que era um banco do Billings. Em vez disso, eu sentei duas fileiras atrás e tentei manter minha cabeça erguida. — Oi, Reed — Constance sussurrou quando ela deslizou para o banco na frente do meu. — Como foi sua primeira noite em seu novo quarto? — ela perguntou, tentando soar toda positiva e otimista. — Bem — eu menti, a parte de trás do meu pescoço ficou vermelha pelo calor. Eu podia sentir Noelle nos observando de algumas filas atrás. Eu sabia que ela não iria gostar da ideia de Constance confraternizando com o inimigo. — Mas o quarto em si é um pouco escuro e deprimente. — Eu senti sua falta — Sabine adicionou quando ela se juntou a Constance. — Foi tão estranho dormir sozinha no quarto. Um nó de tristeza encheu minha garganta, quase me sufocando. Enquanto isso, Missy me lançou um olhar mortal quando ela, Lorna, Astrid e Kiki sentaram ao lado de Sabine. — Meninas, é melhor parar com isso — Missy sibilou para as minhas amigas, enquanto olhava para mim. — Noelle vai comê-las vivas por falar com ela. Meu coração se apertou com força em meu peito. — Eu não me importo com o que Noelle pensa — disse Sabine desafiadoramente. — Não, meninas, Missy tem razão — eu disse, mesmo que estivesse doendo eu concordar com ela. — Vocês não querem tocar seu lado ruim neste momento. Estou bem. Só... olhem para a frente. Constance e Sabine viraram as costas para mim e eu relutantemente caí contra o banco duro. Alguns dos outros alunos do penúltimo ano preencheram os bancos à minha direita, todos eles me olhando com curiosidade, querendo saber por que eu

24


estava em sua fila. Supus que a notícia da minha expulsão do Billings ainda não havia circulado completamente. Ou isso, ou eles ainda estavam obcecados com o show de Reed-e-Dash-seminus que todos tinham conseguido ver. Eu tinha sido o objeto de sussurros e olhares desde a noite da arrecadação de fundos. — Bom dia, professores e estudantes da Academia Easton! — o Diretor Cromwell anunciou, tomando seu lugar atrás do pódio. — Bom dia, diretor Cromwell — nós obedientemente recitamos. Com um aceno de cabeça, o nosso destemido líder seguiu com os anúncios da manhã. Ele usava um terno cinza e gravata azul esta manhã, junto com seu prendedor de gravata sempre presente da bandeira americana. Seu cabelo branco estava perfeitamente penteado para trás de seu rosto e sua voz ecoou por toda a capela como sempre, mas eu notei algo diferente nele. Havia algo quase alegre em sua maneira de falar e erguer a cabeça. Parecia que o Sr. Seriedade estava realmente animado com algo. Como isso era possível, quando havia outro assassinato em nossas mãos e o Departamento de Polícia de Easton havia se apropriado das salas do Hell Hall para que eles pudessem questionar os estudantes? — E agora, um anúncio final que espero que traga um pouco de leveza à nossa vida aqui em Easton — ele disse, olhando através da sala. Um brilho nunca antes visto dançou em seus olhos azuis normalmente mortos. — Este ano eu decidi restaurar uma antiga tradição da Academia Easton: O Jantar de Natal da Academia Easton. Instantaneamente, a capela inteira se encheu de um zumbido animado. Todos, ao que parecia, sabia o que era este jantar — todos, menos eu. — Para aqueles de vocês que são novos em nossa comunidade, o Jantar de Natal da Academia Easton é o oferecimento de um banquete realizado no refeitório. Será uma festa tradicional e consequentemente terá decorações, o Coral da Academia Easton nos oferecerá um concerto no dia da festa, e todos vão ter a chance de relaxar e descontrair antes das finais. Todos os estudantes e professores estão convidados. Na minha época, este jantar era o evento social da temporada. Estou esperando que seja assim de novo. O zumbido se intensificou à medida que as meninas ao meu redor começaram a tagarelar sobre como suas mães e avós sempre falavam sobre o Jantar de Natal e o quão fabuloso era. Fiquei surpresa que meus colegas de classe pudessem ficar tão animados com um jantar no refeitório. — O jantar será realizado na próxima sexta-feira à noite. A vestimenta será formal — continuou o diretor. — Além disso, cada estudante receberá uma nota especial na sua caixa de correio esta tarde. Esta nota contém o nome de outro estudante de Easton. Vocês devem escolher um presente para este estudante, embrulhá-lo em papel natalino e levá-lo para o jantar para ser colocado debaixo da árvore de Easton. — Eba! Presentes! — Lorna disse, batendo palmas. — Eu espero ganhar algo bom. Agora a conversação estava em seu ponto mais alto. O diretor Cromwell ergueu as mãos grandes e pediu silêncio. Instantaneamente, a capela ficou quieta. Já estávamos todos acostumados a seguir suas exigências. — Finalmente — ele disse — o Jantar de Natal também inclui a hora do brinde, uma das minhas tradições favoritas. Durante esta hora qualquer estudante que queira fazê-lo terá a oportunidade de se levantar e brindar para outro membro da comunidade Easton, seja por seu serviço para a escola, seu rendimento escolar ou por sua amizade inabalável. É uma honra ser escolhido durante a hora do brinde, por isso, se você pretende falar em nome de alguém, por favor, prepare seu brinde com antecedência. Seus discursos devem ser eloquentes e de coração. Qualquer pessoa que der um discurso inadequado terá consequências, é claro. Isso é tudo. — Típico de Cromwell terminar com uma nota amarga — Lorna disse em voz baixa.

25


Ainda assim, todos ao meu redor estavam conversando alegremente, e os sorrisos abundaram. Eu não podia deixar de pensar que, por uma vez, Crom tinha acertado. Este jantar era exatamente o que Easton precisava. Algo que esperaríamos com interesse. Algo para afastar nossas mentes da investigação do assassinato de Cheyenne. Assim que fomos dispensados, eu levantei e saí da capela tão rápido quanto eu podia. Lá fora, o brilho do sol ricocheteava no manto branco de neve que cobria o pátio, quase me cegando. Eu tive que fechar meus olhos por um segundo, e meus pés se chocaram com outra pessoa. Piscando, só pude ver a sombra roxa de Amberly Carmichael, estudante do primeiro ano e herdeira do império do Café Carma. Eu estava abrindo a boca para pedir desculpas quando ela me interrompeu. — Cuidado — ela retrucou, colocando um gorro de lã branco sobre seu ondulado cabelo loiro. — Eu não quero ser sua próxima vítima. Suas duas amigas, que sempre pairavam atrás dela, riram antes de irem embora. Por um segundo, eu não me mexi. Eu estava muito chocada. Desde quando Amberly falava comigo desse jeito? Desde quando qualquer caloura falava com um veterano dessa maneira? E a próxima vítima? O que foi aquilo? Olhei para a multidão ainda fluindo através das portas. Várias pessoas que estavam olhando para mim olharam para longe, e uma das meninas do segundo ano perto da parede exterior da capela zombou de mim. Eu vi o detetive Hauer vindo em minha direção com um policial fardado e meu pulso congelou em minhas veias. Por favor. Não aqui. Eles passaram por mim. Mas foi aí quando eu ouvi os sussurros. — Foi ela. — Ela fez isso totalmente. — ...Capaz de qualquer coisa. — Vadia psicopata, basicamente. É assim que devemos chamá-la. Meu coração batia em cada centímetro do meu corpo. Estas não eram as mesmas observações mordazes que eu estava recebendo antes do recesso de Ação de Graças. Estas eram piores. Venenosas. O que estava acontecendo? Só então Gage Coolidge deslizou através das portas da capela e começou a passar por mim. Minha mão disparou, agarrando seu braço coberto de couro. Gage fez uma pausa, olhou para minha mão como se fosse um sanguessuga, e lentamente puxou seu braço. Ele tirou a poeira de seu casaco de designer como se eu tivesse deixado uma trilha de formigas atrás. — Isso não é legal — ele disse, olhando para mim. Seu belo rosto estava corado pelo frio e seus olhos corriam ao redor como se estivesse preocupado com quem pudesse nos ver juntos. — Não se preocupe. Isso só vai tomar um segundo — eu disse, corajosamente enquadrando meus ombros. Se havia alguém no campus que não tinha o direito de julgar alguém com base em suas escapadas sexuais, era Gage. Além disso, ele sempre tinha sido brutalmente honesto. Era uma das únicas coisas que eu gostava nele. E odiava, dependendo da situação. — O que diabos está acontecendo? Todo mundo está olhando para mim como se eu estivesse a ponto de explodir o prédio. — Engraçado! — Gage disse. — Incrível como você pode ser engraçada agora, Brennan. Eles devem ter aumentado sua resistência na granja. Eu agarrei o braço dele e puxei-o novamente em torno da esquina, longe dos olhos curiosos da multidão. — O que eles estão dizendo sobre mim agora? Gage zombou, inclinando a cabeça para trás enquanto ele fazia isso. — O que não estão dizendo? Há rumores de que você foi a única que foi arrastada para interrogatório antes do recesso. Aparentemente, você é a suspeita número um da morte de Cheyenne. — O quê? — eu arfei.

26


— Boa cara de surpresa, garota. Eu gosto de uma garota que pode atuar — disse Gage, divertido. — Eu não estou atuando, idiota — eu contestei. — Sim, Hauer me interrogou, mas isso foi antes mesmo de ter certeza de que ela foi assassinada. E eu não sou uma suspeita. — Isso não é o que todo mundo está dizendo. Eles estão dizendo que você se livrou de Cheyenne para que Noelle pudesse voltar para o Billings — relatou Gage sem rodeios. Ele estendeu a mão para alisar o cabelo curto e castanho, revirando os olhos para o céu como se ele pudesse ver o que ele estava fazendo. — Isso de novo? — eu disse, levantando as minhas mãos e deixando-as caírem dos meus lados. — Noelle reprimiu isso há algumas semanas. — Sim, bem, está de volta. Só que agora, ninguém pensa mais que Noelle estava envolvida — Gage me informou. Aparentemente satisfeito com seu penteado agora, ele enfiou as mãos sem luvas em seus braços para mantê-los aquecidos. — Estão dizendo que você não podia suportar ficar sem Noelle porque sua adoração por ela era enorme, assim você forçou Cheyenne a tomar as pílulas e forjou a nota de suicídio. Também estão dizendo que ter Noelle no Billings não foi suficiente. Você queria ser Noelle, e é por isso que você ficou na horizontal com o namorado dela. Meu cérebro não conseguia processar essa informação. Já era ruim o suficiente está sendo encarada como uma vadia traidora. Agora, todo mundo pensava que eu era uma assassina, também? Eu olhei em volta para as poucas pessoas que andavam ao longo do caminho para a biblioteca e, mais uma vez, até o último deles rapidamente desviou o olhar. — Foi porque não te deram amor suficiente do leste de Bumblefart, Pensilvânia? — Gage perguntou, sua voz cheia de falsa simpatia. — É por isso que você faz as coisas que você faz, Brennan? — Eu não fiz nada — eu disse através dos meus dentes, meus dedos apertados em punhos. — Cheyenne estava indo embora, de qualquer forma... ela foi expulsa. — É. Simplesmente continue dizendo isso a si mesma — Gage disse. — Você sabe que, se o mundo não está lhe dando abraços suficientes, você sempre pode abraçar a si mesma — disse ele ironicamente, cruzando os braços em um X sobre o peito com uma expressão triste. Então ele riu e se afastou com sua arrogância de sempre. Eu fiquei lá por um momento em choque, incapaz de me mover, pensar ou respirar. Noelle era a única pessoa que sabia que eu tinha sido a primeira a ser interrogada por Hauer naquela noite. Por que ela faria isso? Por que ela iria começar tal boato vicioso? Eu já não tinha passado por coisa suficiente? A menos que ela estivesse tentando me enviar uma mensagem. Tentando me dizer o quão longe estávamos de nos acertar. Isso não era algo que você fazia para uma pessoa que você planejava eventualmente perdoar. Isso era algo que você fazia para uma pessoa que você odiava profundamente. Meus olhos se encheram de lágrimas quentes. Noelle me odiava. Ela realmente e verdadeiramente me odiava. Algumas garotas do Pemberly passaram e me viram lá, me olhando como se eu tivesse acabado de saber que eu só tinha mais três dias de vida. Todas elas se agarraram umas as outras e se moveram rapidamente para longe, como se pensassem que eu poderia de repente atacá-las. Em seu retiro, quase passaram por cima de Josh Hollis e Ivy Slade. Meu namorado e minha perseguidora. Meu namorado e a assassina. Meu corpo todo ficou dormente com a visão de Josh. Seus escuros cachos loiros dançavam ao vento, e seus olhos azuis pareciam doloridos quando ele passou por mim, como se quisesse falar. Quase como se ele estivesse desesperado para falar comigo. Mas então Ivy apertou seu braço e ele se virou, passando através da porta do Hull Hall.

27


E isso foi tudo. Era tudo o que eu poderia aguentar. Enfiei meu notebook em minha bolsa e saĂ­ para a aula sozinha.

28


5 INSIGNIFICANTE

E

u sobrevivi ao primeiro dia de volta me focando nos meus professores quando eu estava na aula e mantendo minha cabeça baixa e meus fones de ouvido quando não estava. No almoço eu peguei um sanduíche e o comi sozinha do lado de fora no ar gelado. O jantar eu pulei inteiramente. Basicamente eu joguei bem no meu novo papel — a de extraordinária pária do campus. Mas, depois de mais uma noite sem dormir, eu percebi que não poderia viver assim. Primeiro, eu amava o café da manhã. Praticamente vivia para isso, na verdade. Em segundo lugar, eu não queria provar que todos estavam certos. Eu não podia me esgueirar pelo campus e deixá-los pensar que eu era culpada. Eu odiava dar razão às pessoas. Desde aquela manhã eu iria manter minha cabeça erguida. As pessoas podiam dizer o que queriam. Isso não ia me afetar. Além disso, eu queria manter um olho em Ivy sempre que pudesse. Quem sabe quando ela podia tropeçar e dar com algo no caminho? Eu queria estar lá quando isso acontecesse. Claro que, quando saí para o café da manhã na terça-feira, eu imediatamente duvidei da sagacidade do meu plano. Meus olhos instintivamente correram para as mesas do Billings e senti uma saudade tão instantânea e intensa que eu quase desisti. Lá estavam elas. Minhas velhas amigas. Parecendo tão belas e intocáveis como sempre. Elas riam, conversavam e passavam ao redor catálogos de férias e checavam as notas de classe umas das outras. De alguma forma, elas pareciam ainda mais elegantes, sedutoras e perfeitas do que o habitual. Igual a quando Josh miraculosamente havia despertado ainda mais quente no dia em que tínhamos terminado. Me obriguei a olhar para as outras mesas e procurar algum novo lugar para sentar. Mas apenas rostos cautelosos e suspeitos me cumprimentaram. O que eu estava pensando? Isso nunca ia dar certo. Não havia nenhum lugar para mim. — Ei, Reed. Eu vacilei, surpresa por alguém estar falando comigo. Quando me virei, eu encontrei Diana Waters, colega de quarto de Kiki no Bradwell no ano passado, pairando atrás de mim. Atrás dela estavam duas de suas amigas do Pemberly — Sonal Shah e Shane Freundel — pessoas que eu conhecia vagamente da classe. Eu tinha notado Diana saindo com elas desde que Kiki tinha sido convidada para viver no Billings. — Oi, Diana — eu disse. — Oi — eu adicionei para as meninas atrás dela. Elas abriram muito os olhos, como se tivessem espantadas por eu possuir a capacidade de falar. — Você pode se sentar com a gente, se quiser — Diana ofereceu, um sorriso iluminando seu rosto bonito livre de maquiagem. Ela empurrou um cacho loiro para fora de seu ombro. Eu estava tão aliviada que eu poderia ter abraçado ela, mas ao mesmo tempo uma parte superficial em meu interior sentia exatamente o quão fundo eu tinha caído. Um par de semanas atrás eu tinha sido basicamente a rainha deste lugar. Eu tinha os caras

29


mais cobiçados caindo uns sobre os outros para me convidar pra sair e todas as meninas de elite em Easton penduradas em cada palavra minha. Agora, um grupo de meninas juniores do Pemberly em jeans, blusa de moletom com capuz e tênis sentiam pena de mim e me convidaram para a sua mesa de café. Eu só podia imaginar as gargalhadas de Noelle ao ver isso. Ainda assim, era melhor do que comer sozinha. — Obrigada — eu disse. Consegui manter meu queixo erguido enquanto eu as seguia para sua mesa no extremo da ala, longe do centro onde as Meninas do Billings tinham sua corte. Recuseime a olhar para ver se Noelle e as outras estavam assistindo. Não lhes daria a satisfação. Mas eu me senti como se estivesse sob um holofote muito forte enquanto eu andava, e quando finalmente sentei em uma cadeira à mesa de Diana, eu me sentia exausta. — Boa mesa — eu disse, forçando um sorriso para Diana e suas amigas. — Muito privada. Todas sorriram de uma forma estranha, mas ninguém respondeu. Ooookay. Tentando agir como se tudo estivesse perfeitamente normal, eu peguei minha garrafa de suco de maçã, a sacudi e abri a tampa. Quando eu tomei um gole, eu percebi que Diana e suas duas amigas estavam se comunicando umas com as outras em silêncio, lançando olhares e cutucando os ombros. Meu estômago se encheu de uma amarga apreensão. — O que foi? — perguntei, baixando a garrafa. — Você realmente não matou Cheyenne Martin, certo? — Sonal perguntou. Ela tinha ossos grandes, pele escura e cabelo preto encaracolado e tinha um leve sotaque hindu. Seus olhos escuros estavam arregalados por trás de seus óculos. — Sonal! Deus! — Diana disse, zombando, suas bochechas tornando-se rosa. Ela me lançou um olhar de desculpas enquanto ela passava manteiga em seu bagel. — É claro que Reed não fez isso. — Não, claro que não — eu ecoei baixinho. Isso pareceu satisfazer tanto Sonal como Shane. Eu vi seus ombros visivelmente relaxarem. — Então, como se sente vivendo no Billings? — Shane perguntou, mastigando uma maçã. O suco salpicava por todo o lugar. Ela era do tipo alta e atlética, com cabelo castanho claro e olhos castanhos claros. Meu coração se torceu com a pergunta. — É... uh... — É verdade que cada uma tem a sua própria empregada pessoal? — Sonal perguntou, inclinando-se para frente em sua cadeira. — Não. Onde você ouviu... — Mas vocês recebem um subsídio cada semana das ex-alunas, certo? — Shane perguntou. — Todo mundo sabe disso. — Bem, não exatamente. Nós não... — Vocês realmente têm festas com champanhe toda sexta à noite? — Sonal exigiu. — Quero dizer, isso é verdade? E os garotos realmente são autorizados a participar? — É. Isso é verdade — eu disse. — Exceto pelos garotos... Olhei para as mesas do Billings novamente e fiz uma pausa. Noelle, que sempre se sentava perto da borda da mesa, tinha várias caixas e sacolas de presentes empilhadas ao redor de seus pés. Portia e as Cidades Gêmeas estavam pateando através de uma cesta enorme cheia de produtos de cabelo Fekkai, maquiagem MAC e essências Bliss Spa no centro da mesa. Enquanto eu olhava, um fluxo constante de meninas júnior e sênior parou na mesa para conversar, cada uma oferecendo algum tipo de presente. — Isso é estranho — eu disse baixinho. — O quê? — Diana perguntou, olhando para cima. — É um pouco cedo para presentes de Natal, não é? — eu disse.

30


— Ah, esses não são os presentes de Natal — Sonal disse, sacudindo um pouco de sal sobre seus ovos mexidos. — Você não ouviu? — Diana parecia confusa. Eu imediatamente senti que algo se apertou em volta do meu coração. Mais uma vez, parecia que todo mundo sabia de algo menos eu. — Ouvi o quê? — eu perguntei. — Todo mundo está falando sobre isso desde ontem de manhã — disse Diana, dando uma mordida no seu bagel. — Elas estão procurando alguém para... Ela parou no meio da frase e me olhou com culpa. Eu me senti como se alguém tivesse arrancado minha cadeira de debaixo da minha bunda. — Alguém para me substituir — eu terminei. Lentamente, eu empurrei minha bandeja de panquecas, já não tinha fome. — Eu sinto muito. Eu ainda não posso acreditar que elas te expulsaram — disse Sonal, os olhos arregalados, mas sua voz calma. — Quero dizer, você era a presidente! — É... — eu disse. Havia um nó depositado na minha traqueia, embora eu ainda não houvesse comido. — Então... por que vocês não estão ali tentando suborná-las? — eu perguntei, tentando aliviar o clima. — Vocês não querem estar no Billings? — Na verdade não — disse Diana, enrugando o nariz. Olhei para ela. Além de Ivy, eu nunca tinha ouvido falar de uma menina em Easton que não queria estar no Billings. — Por que não? — eu perguntei. Diana olhou para suas amigas e encolheu os ombros. — Nós meio que gostamos de onde estamos. Pode parecer chato, mas pelo menos não temos de lidar com todo o drama. — Nós temos outras prioridades — Shane acrescentou com um suspiro. — Como coisas além de compras. Ok, ai. Ela pelo menos tinha o requisito Billings de ser cruel. — Mas isso não quer dizer que não sintamos curiosidade sobre isso — disse Sonal, limpando os dedos no guardanapo. — Então. Conta pra nós. Se você não matou Cheyenne, então, quem você acha que foi? — Sonal! — Diana repreendeu novamente. Isso foi mais do que eu podia aguentar. Levantei da minha cadeira. — Eu tenho que ir — eu disse. — Reed, me desculpa. Você não tem que... — Não. Tudo bem. Obrigada, Diana — eu disse. — Eu te vejo na aula. Eu agarrei o meu casaco e bolsa e me virei, procurando uma saída rápida para o ar frio do exterior. Assim que eu estava prestes a me empurrar pela porta de trás do café, eu quase passei por cima de Amberly Carmichael, pela segunda vez em dois dias. Pela primeira vez, ela não estava com suas amigas pairando ao redor dela. Seu cabelo ondulado loiro estava puxado para trás por uma faixa de veludo e ela usava uma saia de tweed longa sobre botas de couro preto. Em seus braços havia uma caixa da Tiffany que era metade do tamanho de uma mesa de café, uma caixa que tinha estado a ponto de cair durante a colisão. — Hey! — ela retrucou em voz alta, olhando-me de cima a baixo. — Se quebrar, você paga. — Eu sinto muito — eu disse, mas não sentia. Ela suspirou, revirando os grandes olhos azuis, e colocou a caixa sobre a mesa vazia ao lado de nós. — Na verdade, eu estou feliz que você quase esbarrou em mim — ela disse em voz alta, puxando suas luvas de couro dedo por dedo. — Eu vou precisar que me devolva o Cartão Carma.

31


Metade do refeitório ficou em silêncio, para poder escutar melhor. Olhei em volta, meu rosto ficando em dez tons de vermelho. Pelo canto do meu olho, eu vi Portia e Shelby esticando o pescoço para ver melhor. Noelle estava olhando, achando graça. Claramente Amberly estava realizando isso para elas. Essa pequena imbecil que tinha se ajoelhado ante mim desde o início do ano. A menina que teria pulado de uma ponte se eu pedisse a ela há uma semana atrás. Agora ela estava me tratando como a ajuda contratada. Ou pior. Poderia isso ser mais humilhante? Sim, eu percebi, poderia. Se eu devolvesse o estúpido pedaço de plástico para ela. — Certo. Como se isso fosse acontecer — eu disse, inclinando a cabeça e usando o meu melhor tom superior de Menina do Billings. Comecei a passar por ela, mas ela rapidamente entrou na minha frente. — Você não está entendendo — ela disse com um riso condescendente. — Eu dei a você. Posso pegá-lo de volta. Todos os garotos sentados duas mesas mais abaixo estavam me olhando com zombaria, esperando pelo meu colapso. E por que não? Que júnior ex-poderosa não iria se quebrar diante do desafio de uma caloura esquelética? Na verdade, a maioria das pessoas na sala estava me olhando com antecipação em seus olhos. Eu senti que começava a ruir com os sorrisos e risos abafados que me cercavam, mas depois vi Josh e Ivy passando através da porta de mãos dadas. Juntos, eles fizeram uma pausa, de imediato observando a grande atenção posta em mim. Isso era tudo o que eu precisava. De maneira nenhuma os dois iriam me ver cair. E dado que eu tinha enfrentado Noelle com o disco, eu certamente poderia lidar com Amberly. — Modos, Amberly — eu disse, perguntando em voz baixa. — Seus pais não lhe ensinaram que é falta de educação pedir de volta um presente? Seus olhos procuraram os meus por um momento, incertos. Aparentemente este comentário, de alguma forma bateu em casa. Acho que os pais dela tinham muita dignidade. — Além disso, eu quero mantê-lo como uma lembrança. Talvez seja um item de colecionador após a Starbucks finalmente destruir os negócios do seu pai — eu disse. Os caras da mesa mais próxima soltaram um largo e baixo “oooooh” e eu não pude deixar de sorrir. Finalmente, um ponto para mim. O rosto de Amberly ficou vermelho e eu aproveitei a oportunidade para pegar minha bolsa e passar ao seu lado. Eu caminhei direto passando por Josh e Ivy até a porta, saboreando a minha vitória. Saboreando o fato de que eu ainda era capaz de ter uma. Que talvez a esperança não houvesse acabado como eu pensava.

*** Naquela tarde, Sabine, Diana e eu nos sentamos em um dos bancos do pátio, lendo o livro de história. Estava um dia estranhamente quente para ser dezembro, e o derretimento do gelo e da neve escorria dos telhados dos edifícios de pedra até o canal abaixo. A maioria de Easton estava aproveitando o clima anômalo, e o pátio estava salpicado de estudantes conversando, muitos dos quais estavam claramente fofocando sobre mim, é claro. Eles estiveram me lançando olhares curiosos, inclinando as cabeças juntas e cochichando. Eu não podia acreditar que Sabine e Diana estavam tão dispostas a arriscar ser vistas com a pária da escola. — Não incomoda vocês que todo mundo esteja olhando para nós? — eu finalmente perguntei.

32


Diana olhou acima de seu livro. — Estão? Eu não percebi. — Não me incomoda nem um pouco — Sabine respondeu, com um encolher de ombros. Eu sorri, tocada pela amizade inabalável de Sabine. E como eu nunca tinha percebido o quão descaradamente agradável Diana era? Ah, certo. Porque eu sempre tinha estado muito ocupada tentando ser uma Menina do Billings. — Você acha que ele vai fazer um teste surpresa? Porque se ele fizer, ele definitivamente vai perguntar sobre todas essas estatísticas estúpidas sobre o rápido aumento de natalidade — Diana disse, apontando para uma lista com marcadores no livro. — Barber só gosta de falar sobre as pessoas que nasceram durante os períodos de alta natalidade. Eu estava prestes a me concentrar — eu realmente estava — mas então eu vi Trey Prescott, o colega de quarto de Josh, andando com alguns livros debaixo do braço. Imediatamente eu comecei a me perguntar — o que Trey pensava de Ivy? Ele tinha que saber mais sobre o relacionamento de Josh com ela do que eu. Eles provavelmente passaram um monte de tempo juntos no quarto de Josh e Trey. Será que Trey não tinha ouvido ela dizer nada estranho ou visto ela atuar de forma irregular? De repente, eu tinha que saber. E Trey estava, estranhamente, sozinho, o que era uma bênção para mim. Era muito mais propenso ele falar comigo se ele estivesse sozinho. Sentindo uma vibração repentina de nervos, eu levantei de um salto e peguei minha bolsa. — Eu tenho que ir. Desculpa — eu disse para Diana e Sabine. — Mas sim. Ele irá definitivamente perguntar sobre as pessoas que nasceram durante os períodos de alta natalidade. Comecei a caminhar atrás de Trey, ignorando as expressões perplexas nos rostos das minhas amigas, e o alcancei justo na base das escadas da biblioteca. — Trey! — eu chamei. Ele parou e se virou. Ele estava vestindo um suéter de gola alta branco e espesso que acentuava a cor escura de sua pele, e ele recentemente havia cortado seu cabelo preto tão perto do couro cabeludo que mal parecia estar lá. Trey foi amplamente considerado um dos garotos mais quentes, mais doces e mais maduros de Easton. Por que Cheyenne o deixou, eu não tinha ideia. De alguma forma, ele não pareceu surpreso ao me ver correr na direção dele. Ainda melhor, ele não parecia remotamente irritado ou perturbado por minha presença. — Ei, Reed. E aí? — perguntou. Ele casualmente segurou seus livros com as duas mãos na altura da cintura na frente dele e olhou-me nos olhos. — Como você está? — ele perguntou em voz baixa. — Eu estou bem — eu disse, prendendo a respiração. — Bem, você sabe, não realmente, mas... — Eu posso imaginar perfeitamente como você quer destruir esta articulação — disse ele, balançando a cabeça para os curiosos. — Bando de perdedores. — Então... você não acredita no boato? — eu perguntei timidamente, caminhando até me encostar em um corrimão de metal que levava até a biblioteca. Trey zombou e se juntou a mim, inclinando-se ao meu lado. — Por favor. Você não matou Cheyenne mais do que eu o fiz. Eu estremeci. Mal sabia ele que seu nome estava na lista de potenciais suspeitos enfiadas em minha mochila. Não que eu realmente acreditasse que ele tinha feito isso, mas ainda assim. — A coisa toda com Dash, no entanto... — ele olhou para mim acusadoramente. — Vamos apenas não ir por esse rumo.

33


— Tudo bem — respondi, abraçando-me contra um súbito arrepio. Trey e Josh tornaram-se amigos próximos de verdade este ano, de modo que o último assunto que eu queria abordar com Trey era seus sentimentos sobre o meu vídeo infame de vagabunda. — Então, o que foi? — perguntou ele. — Na verdade, eu estava me perguntando... Como diabos eu ia dizer isso? Percebi, de repente, o quão perdedora eu ia parecer se eu perguntasse sobre a nova namorada do meu ex. Mas não era porque eu estava pateticamente apaixonada — era porque eu suspeitava que a menina havia cometido um assassinato. A testa de Trey enrugou e ele me olhou com aqueles quentes olhos castanhos dele. — Se perguntando sobre o quê? Ok, Reed. Basta perguntar a ele. — O que você acha de Ivy? — eu soltei. Trey olhou para mim por um segundo, então riu, levando um lado de seu punho à boca. Ele se afastou da grade. — Oh, vamos. Você realmente não está me perguntando isso, está? Eu pensava que você estava acima de toda essa coisa de ex-namorada ciumenta. — Eu não estou perguntando como uma ex-namorada ciumenta — eu disse a ele, meu rosto queimando. — Não é como se eu quisesse Josh de volta. Na verdade, eu queria. — Ah, é mesmo? — Trey disse, movendo seus olhos. — Então por que você está perguntando isso? Eu respirei fundo e esperei dois garotos do Drake passarem pelo caminho até as escadas para as portas da biblioteca. — Eu acho que ela poderia ter matado Cheyenne — eu sussurrei. Com isso, toda a alegria sumiu do rosto de Trey. — O quê? — É apenas uma teoria agora — eu expliquei. — Estou tentando reunir informações... — Não. De nenhuma maneira — disse Trey, balançando a cabeça. — As duas costumavam ser melhores amigas. Ivy nunca teria machucado Cheyenne. — Você acha que não? — eu perguntei. — Mesmo após a sua... briga? — De jeito nenhum. — Trey se mostrou inflexível. Que, considerando o quão convencida eu estava, senti uma espécie de carga abaixo de minha pele. Ele recostou-se ao meu lado novamente. — Desculpe, Nancy Drew. Acho que você está muito longe neste caso. Apesar de elas estarem saindo com gente diferente quando Cheyenne morreu, eu acho que sempre houve uma ligação entre elas, sabe? Eu não sabia o que dizer... o que perguntar. Eu tinha tanta certeza de que ele concordaria comigo em algum nível que eu estava totalmente perplexa. Trey olhou para o caminho de concreto e empurrou uma folha marrom murcha com a ponta da bota. — Eu ainda não consigo acreditar que isso está acontecendo — ele meditou em silêncio. — Quero dizer, é psicótico, pensar que alguém neste campus poderia tê-la matado. — Ele olhou de soslaio para mim e ajustou seus livros. — Você acredita que os policiais me questionaram cinco vezes? Eu pisquei, atordoada. — Cinco vezes? Por quê? — Eu sou o ex-namorado — Trey me lembrou, erguendo os ombros. — Policiais amam essa merda. — Certo. — Felizmente eu tenho um álibi incontestável — disse ele. — Então, eles finalmente deram por vencidos.

34


— Sério? — eu perguntei, tentando soar como uma amiga moderadamente interessada, ao invés de uma pessoa que o estava descartando dos suspeitos quando ele disse álibi. Mas de repente tudo o que eu podia pensar era o quão feliz eu estava por oficialmente tirar Trey da lista de suspeitos. — Qual é? Trey respirou fundo e olhou para os arbustos sempre verdes que se alinhavam aos lados. — Bem, na verdade, Josh estava tendo dificuldades para dormir, você sabe, depois que você e ele... Engoli em seco um pouco de ar fresco e tentei ignorar o aperto no meu peito. — Terminamos. — Certo — disse Trey, esfregando a parte de trás do seu pescoço com uma mão. — Então, eu estava tentando ajudar o cara, sabe? Distraí-lo e tudo mais. Estávamos praticamente a noite toda tentando vencer esses otários da Malásia em Infinite Warrior1. Os caras entraram e saíram do nosso quarto toda a noite, animando-nos, comendo a nossa comida. Além disso, há o site que você tem que ligar para poder jogar internacionalmente. Eles têm um registro de quanto tempo nós estávamos jogando. O que foi, infelizmente, tempo demais. Ele riu de uma forma autodepreciativa e deixei escapar um suspiro de alívio. Eu não tinha certeza se eu poderia lidar com estar equivocada sobre um amigo de novo. A coisa com Ariana tinha sido ruim o suficiente. — Então, de qualquer forma, desculpe por não concordar com suas suspeitas sobre Ivy, mas eu conheço a menina desde o primeiro ano. Eu realmente não vejo isso acontecendo — disse ele, levantando-se em linha reta. Sim, bem, ninguém tinha visto o que Ariana havia feito, não é? Só porque Trey pensa que Ivy é inocente... isso não a faz ser inocente. — Eu te vejo por aí — disse ele, erguendo o queixo. — É. Até mais. Trey começou a subir as escadas para a biblioteca, em seguida, fez uma pausa, seus sapatos raspando nos degraus molhados de concreto. Ele se virou e olhou para mim a alguns passos acima. — Há uma coisa. Eu disse à polícia, então eu acho que não faz mal dizer — disse ele. — O que é? — eu perguntei, intrigada. — Eu tenho certeza que Cheyenne estava me traindo na primavera passada — disse ele, um leve rubor enchendo seu rosto. — Dominic Infante? — sugeri antes que eu pudesse me deter. Dominic era um cara com quem eu tinha saído em um encontro em Nova York. Ele tinha ficado insanamente bêbado e confessou que tinha dormido com Cheyenne várias vezes antes de sua morte. Trey riu. — Não. Ela não ficou com ele até setembro deste ano, eu acho. Não, era outra pessoa. Ela costumava receber mensagens o tempo todo de alguém com as iniciais S.O. e ela ficava toda nervosa e estranha por causa delas. Finalmente um dia eu peguei seu telefone e li as mensagens e elas pareciam totalmente inocentes, mas a forma como ela agia quando chegavam... Eu não sei. Era estranho. Eu sorri. — Você leu as mensagens? — Hey. Ninguém é perfeito — disse Trey, abrindo os braços. Quando ele correu pelas escadas e desapareceu na biblioteca, minha mente rolou através de todas as pessoas que eu já conheci ou sequer ouvi falar, em busca de um S.O. Claro que não me veio nada. Mas pelo menos agora eu tinha algo novo para seguir em

1

Infinite Warrior: Jogo de Videogame.

35


frente. Talvez a resposta para todos os meus problemas seria tĂŁo fĂĄcil como identificar S.O.

36


6 AQUELA SENSAÇÃO

Q

uando eu entrei na agência de correios naquela tarde, Jason Darlington estava saindo. Eu automaticamente abri minha boca para dizer “oi” — estávamos na mesma classe de Inglês e nós havíamos saído antes do desastre da arrecadação de fundos para o Billings. Ele automaticamente manteve a porta aberta. Mas quando ele viu que era eu, seu rosto normalmente amigável se apagou totalmente e deixou a porta pesada bater e se fechar atrás dele. Se não fosse por meus reflexos de gato, eu estaria acabada. Acho que era mais uma pessoa que não estava falando comigo. Tentando ignorar o buraco crescente no meu coração, eu abri a porta e entrei. O correio estava cheio de estudantes conversando, a excitação era palpável no ar. Eles estavam todos segurando pequenos cartões azuis e passando-os entre si para verificar os nomes que eles continham. Todo mundo estava lá pela mesma razão que eu: para descobrir quem teria que presentear no Jantar de Natal. Eu ganhei outra onda de olhares, cenhos franzidos e sussurros, enquadrei meus ombros e passei através da multidão. O súbito silêncio seguiu-me até a minha caixa. Eu voltei no tempo para a forma como o campus tinha se sentido depois que todos tinham ouvido sobre o assassinato de Thomas no ano passado. Como era estranho, com todos querendo saber quem entre nós poderia ser um assassino. Mas agora, tudo parecia totalmente diferente, porque desta vez, todos já haviam decidido que era eu. Então, ao invés de uma vibração estranha, havia um crescente sentimento de animosidade contra mim. Um ódio focado, que chamuscava e unificava com o tempo; como se, eventualmente, essas pessoas pudessem se organizar e decidir que era hora de me derrubar. Vamos apenas dizer que não me sentia bem. Meu rosto estava emitindo tanto calor como o sol de verão, mas consegui agitar meu cabelo para trás e me concentrar na abertura da fechadura da minha caixa de correio. Mais cedo ou mais tarde, eu iria limpar o meu nome e essas pessoas teriam que pedir desculpas por suspeitar de mim. Por agora, era entrar e sair. Esse era o plano. Então, alguém se aproximou de uma caixa a poucos metros de distância da minha e eu podia sentir que quem quer que fosse estava me olhando timidamente. Contra a minha vontade, eu olhei. Era Marc Alberro. Meu encontro da arrecadação de fundos para o Billings que não tinha falado comigo desde que me dispensou naquela noite. Ele se aproximou de mim lentamente, deixando cair o cabelo escuro sobre a testa como se estivesse tentando se esconder. Meu coração acelerou com nervosismo. Não que eu me importasse tanto assim com o que Marc Alberro pensava de mim, mas isso seria outra conversa pública em voz alta? Deus, eu esperava que não. — Ei, Reed. Como vão as coisas? — perguntou ele. Seu tom era conciliador, o que relaxou um pouco meus ombros tensos. — Ah, eu acho que todos nós sabemos como vão as coisas — eu respondi, olhando para um grupo de meninas que estava perto, me olhando. — Como vão as coisas com você? Pensei que você nunca mais ia falar comigo após a arrecadação de fundos.

37


Acho que eu não deveria ter ficado surpresa quando Marc basicamente disse para eu ir embora depois que o vídeo com Dash tinha sido distribuído a todos que nós conhecíamos. Ele era, afinal, um cara decente e um membro do Clube da Pureza de Easton. Um cara que definitivamente não estava feliz com todos vendo o descuidado espetáculo de seu encontro com outro cara. O cara de outra menina, para ser exata. Eu já tive dois strikes contra mim, então por que ele estava falando comigo agora? Será que censurar a suspeita de assassinato era o strike três? — Sim, bem, eu tenho pensado muito sobre isso e... afinal de contas, não é realmente da minha conta o que você fez antes de nos conhecermos — disse ele calmamente, inclinando-se contra a parede das caixas de correio. — Nem sequer é da minha conta o que você fez desde então. Suas palavras fizeram eu me sentir decepcionada e aliviada ao mesmo tempo. Ele estava me dizendo que ele já não tinha qualquer interesse em sair comigo. Que, ao mesmo tempo em que era uma rejeição, era uma espécie de rejeição bem-vinda. Com tudo o que estava acontecendo naquele momento, a última coisa que eu precisava era navegar nas águas turvas de um novo relacionamento. Especialmente um em que eu não estava inteiramente desde o princípio. Marc era um cara legal e tudo — inteligente, bonito, engraçado — mas eu nunca tinha sentido essa coisa que você deveria sentir quando você gosta de um cara. Essa coisa de “eu poderia morrer se eu não o visse novamente antes da próxima aula”. Essa coisa que eu sempre tive com Josh. — Então... amigos? — eu disse. Marc sorriu, todo o seu rosto se iluminando. O quê? Eu havia esperado que ele fizesse uma cena? — Amigos. — Legal. Eu sorri, possivelmente o meu primeiro sorriso real dos últimos dois dias, e abri minha caixa de correio. Dentro estava o mesmo pequeno cartão azul que todos haviam recebido. Puxei-o e virei de ponta cabeça. JOSHUA HOLLIS, KETLAR, ÚLTIMO ANO — Deve ser brincadeira — eu disse em voz alta. Por que eles não me emparelharam com Ivy Slade, também? — O quê? Quem você tirou? — Marc perguntou, inclinando-se. Virei o cartão para ele ver e ele assobiou baixinho. — Alguém no Hell Hall tem um retorcido senso de humor — disse ele. Fechei a pequena porta de metal e enfiei o cartão no bolso de trás da minha calça jeans. — Eu estou começando a pensar que esta escola inteira tem um retorcido senso de humor. Marc olhou para o nosso bando de curiosos. Eu vi as duas amigas de Amberly me olhando, mas ambas coraram e desviaram os olhos no segundo em que as peguei, fingindo estar absorvidas no catálogo novo da Barneys. — Eu sei o que você quer dizer. Vamos. Ele agarrou minha mão e me levou no meio da multidão, abrindo caminho para que eu não tivesse que estar lá por mais tempo do que o absolutamente necessário. Tão logo estávamos de volta ao ar frio da noite, eu tomei uma respiração profunda. — Obrigada. — Sem problema. Eu realmente não posso acreditar que alguém ache que você tenha feito algum dano a Cheyenne — Marc disse, balançando a cabeça. — Quero dizer, só porque uma pessoa fez um vídeo de sexo, isso não significa que ela é capaz de cometer um assassinato.

38


Meu rosto ficou carmesim. — Eu não fiz um vídeo de sexo. Alguém fez isso sem meu consentimento. E, a propósito, não houve sexo real envolvido. — Bem, em todo caso — Marc disse quando começamos a atravessar o pátio —, eu aposto que há pelo menos cinquenta suspeitos que fazem mais sentido do que você. Quer dizer, a menina estava sempre fazendo malabarismos com dois ou três caras ao mesmo tempo. Talvez um deles finalmente estalou. Um crime passional faz muito mais sentido do que matar alguém por uma vaga em um dormitório. Uma onda de calor e formigamento veio sobre mim e eu parei. Aquela sensação que você sente quando você de repente percebe que alguém disse algo importante. Talvez algo que não queria dizer. — Espere um minuto. Como você sabe que ela estava fazendo malabarismos com vários caras ao mesmo tempo? — eu perguntei. Marc parou de andar, já a um par de metros à minha frente, mas levou um segundo para ele se virar. Um largo segundo. Cada centímetro da minha pele estava em chamas. Esta não era a primeira vez que Marc tinha soltado algo sobre Cheyenne que ele não tinha nenhuma razão para saber. Ele também trouxe o assunto à tona de Cheyennedrogou-Josh duas semanas atrás. — Só uma coisa que eu ouvi — ele respondeu com um encolher de ombros, olhando-me nos olhos. Sua expressão estava desafiante. — Do mesmo jeito que todos estão ouvindo que eu matei Cheyenne — eu disse incisivamente. — Como você sabe que não foi apenas um boato? — Bem, vamos apenas dizer que este veio de uma boa fonte — Marc respondeu com um sorriso. — De qualquer forma, eu tenho que ir para o jornal. Tenho algumas histórias para polir antes de publicarmos. Ele se virou e se afastou tão rápido que eu nem sequer tive tempo para formular outra pergunta, muito menos falar um adeus.

39


7 CASA NOVA

E

u me sentei na minha mesa, na noite de terça-feira, ouvindo um CD de Katy Rose e relendo o mesmo artigo de fofoca sobre Ivy pela milionésima vez. Não importava quantas vezes eu pesquisava sobre ela, eram sempre os mesmos artigos. Menções da filantropia da sua família, o longo obituário de sua avó, alguns artigos antigos sobre Ivy e seu cavalo ganhando algumas aleatórias competições juniores anos atrás. O Google não ia me dar uma explicação sobre a foto que eu tinha encontrado no quarto de Ivy. Não era como se ele fosse cuspir um vídeo de Ivy matando Cheyenne. Tudo o que ia fazer era me frustrar. Dando-me por vencida por agora, eu fechei o notebook e me virei para olhar para o meu quarto que mais parecia uma caverna. Eu não tinha colocado nada ainda. Acho que eu estava esperando que não fosse real. Ou talvez eu simplesmente não estivesse pronta para aceitá-lo. Escondendo minhas roupas no armário pequeno e triste e colocando minhas malas debaixo da velha cama rangente seria como admitir a derrota. Mas naquela noite, enquanto eu olhava ao redor do espaço deprimente e confinante, eu não aguentava mais. Eu não poderia viver em uma cela vazia, arrancando minhas roupas das malas toda enrugada como uma espécie de vagabundo. Era muito deprimente. Possivelmente só me levaria até a borda. Lentamente, com relutância, eu me empurrei para fora da minha cadeira e comecei a desembalar minha mala. É claro que, justo em cima de tudo estava o suéter preto de cashmere que Noelle tinha me dado em seu retorno ao Easton este outono. Só de olhar para ele meu estado de espírito despencou ainda mais. Talvez esta não tenha sido a melhor ideia. Houve uma batida rápida na minha porta. — Quem é? — eu perguntei. — Surpresa! Era Constance e Sabine, e elas tinham vindo com alguns presentes. — O que vocês estão fazendo aqui? — eu perguntei, ainda segurando o suéter. Estendi a mão para o meu reprodutor de CD e abaixei o volume quase todo. — Você disse que seu quarto era deprimente, por isso trouxemos algumas coisas para animar o lugar! — Sabine anunciou, entrando e colocando uma mini árvore de Natal sobre minha cômoda. Ela desenrolou um tapete de tecido vermelho brilhante no centro do chão. Ele apenas se encaixou entre a cama e a cômoda. — Eu escolhi os pôsteres — disse Constance, segurando um tubo de papelão. — Lembrei que você realmente gostou da vista marinha de Turner em história da arte no ano passado, então eu pedi pra você algumas impressões e eles a enviaram durante a noite. — Uau. Obrigada, meninas. Isto é incrível — eu disse, pegando o tubo de Constance. Lágrimas de gratidão realmente brotaram em meus olhos. Elas tinham vindo no momento perfeito. — Vocês não tinham que fazer isso.

40


— Sim, nós tínhamos. Olhe para este lugar — disse Constance, estendendo as duas mãos. Seu rosto ficou rosa brilhante sob suas sardas. — Quero dizer, não é tão ruim. Não é. É aconchegante, na verdade. Eu... — Está tudo bem, Constance — eu disse, jogando o tubo na minha cama. — É uma caverna. — Não é uma caverna. Na verdade, eu perguntei ao diretor Cromwell se eu poderia ser transferida para aqui para que pudéssemos ser companheiras de quarto novamente, mas você estava certa. Ele não irá permitir já que é um quarto individual — Sabine disse, suavizando os cantos do tapete. Eu ri, tocada. — Bem, pelo menos você tentou. — Esqueça de se mudar para cá — disse Constance, sentada na minha cama, que emitiu seu rangido usual. Ela deixou cair sua bolsa floral mensageiro Betsey Johnson ao seu lado, derramando alguns de seus livros e cadernos metade para fora. — O que realmente temos que fazer é levar você de volta ao Billings. — Eu apoio isso — Sabine disse, levantando a mão. — Mas como? — Bem, eu estava pensando — disse Constance, inclinando-se para frente. Ela puxou sua trança vermelha e longa por cima do ombro e brincou com o final dela. — Você sabe que todo mundo que está tentando entrar no Billings está nos dando presentes? Bem, Reed, por que você não dá a Noelle alguma coisa? Como uma oferta de paz. — Sim. Seria como dizer a ela que você quer começar do zero — Sabine concordou, seus olhos verdes animados. — Eu não sei, gente — eu disse, me empoleirando na borda da minha cadeira. — Não pareceria meio patético? E, não sei, desesperado? O rosto de Constance caiu em um beicinho. — Eu acho que seria doce. — Talvez — eu disse, tentando reforçar ela. Olhar para aquele rosto fez eu me sentir como se eu tivesse chutado um cachorro. — Eu vou pensar sobre isso. — Está bem — disse Constance. — Porque eu realmente acho que Noelle iria responder a algo assim. Sim. Com uma maratona de risos. — Devíamos colocar estes — Sabine sugeriu, levantando os pôsteres. Quando ela abriu o tubo e começou a desenrolar as impressões, eu olhei para as coisas de Constance e vi uma cópia da semana passada do Crônica de Easton saindo de sua bolsa. Imediatamente pensei em Marc e seu estranho comentário mais cedo. — Ei, Constance. Você conhecia Marc no ano passado, certo? — eu perguntei casualmente. — É. Nós nos conhecemos no jornal. Por quê? — Constance perguntou. Ela sentouse à frente e virou as pontas do seus tênis D&G juntas. — Ele e Cheyenne nunca saíram juntos? — eu perguntei. — Não realmente — ela disse com uma careta pensativa. — Mas ele fez um artigo sobre ela. — Ele escreveu uma história sobre ela? — eu perguntei. Isso era inesperado. — É. Lembra de como costumávamos fazer aquela coisa em que colocávamos um perfil de um aluno diferente a cada semana na página dois? — Constance disse. — Eu sempre pensei que era um pouco tosco, então eu cortei esse ano. Mas Marc escreveu um sobre Cheyenne. — Huh. Interessante — eu disse. Isso explicava por que Marc sabia sobre a vida amorosa de Cheyenne ano passado. Embora eu não a visse fazendo publicidade de suas escapadas sexuais por um pequeno artigo no Crônica. Ainda assim, se ele passou um tempo com ela, ele teria observado algumas coisas. Como talvez até mesmo as mensagens que ela estava recebendo do

41


misterioso S.O. Mas isso ainda não explicava por que ele sabia que Cheyenne havia drogado Josh para fazê-lo transar com ela em setembro. Eu arquivei tudo isso, para mais tarde considerar isso novamente. — Por que você está tão interessada em Marc e Cheyenne? — Sabine perguntou, olhando por cima do ombro enquanto ela segurava uma das impressões na parede. — Oh, por nenhuma razão — eu respondi. — Ele apenas me disse algo que me fez pensar que eles se conheciam, mas eu não podia imaginar os dois saindo, sabe? Ela nunca teria dado a um cara como ele um segundo olhar. Sabine riu. — Verdade. Ela provavelmente teria andado por cima dele sem nem sequer perceber. — Ela moveu o pôster para a pequena área da parede ao lado da porta e segurou-o com os braços acima da cabeça. — O que acham desse? — Parece bom para mim — eu disse. Saltei e peguei uma fita adesiva da minha gaveta. Assim que eu a fechei, meu quarto inteiro foi preenchido com o som do riso agudo de Ivy. Um calafrio deslizou pela minha espinha. — O que foi isso? — Constance perguntou, franzindo o nariz. Os braços de Sabine caíram junto com o pôster. — Será que o Pemberly tem um fantasma malvado? — brincou ela. — Não, apenas uma vizinha malvada — eu disse a elas, baixando a minha voz. — Ivy Slade — eu disse, inclinando a cabeça para a parede da minha cama. — Eca — disse Constance, erguendo-se. — Eu não gosto dessa menina. — Junte-se ao clube — eu disse calmamente. — Ela está justo ao lado? Que má sorte — Sabine simpatizou. Eu olhei para a parede, os cabelos da minha nuca e braços em pé. De repente, eu não poderia deixar de me perguntar se Ivy podia ouvir o que estava acontecendo no meu quarto tão bem quanto eu podia ouvir o que estava acontecendo no dela. Talvez fosse hora de eu começar a ter cuidado com o que eu dizia por aqui. Era só o que eu precisava para me sentir ainda mais paranoica em meu próprio quarto. Mais um motivo para sair daqui e voltar para o Billings tão rapidamente quanto possível. De volta para onde eu pertencia.

*** Quando eu saí pela porta de trás do Pemberly na manhã seguinte, meu cachecol de cashmere cinza puxado para cima em torno de meu queixo, a primeira coisa que eu vi foi uma horda de estudantes reunindo-se no meio do pátio. E no centro da multidão estavam Noelle Lange e Amberly Carmichael. Eu diminuí meus passos, não querendo parecer muito interessada, mas morrendo de vontade de saber o que estava acontecendo. Enquanto eu olhava, Amberly jogou o cabelo loiro — que ela tinha claramente alisado esta manhã — e entregou um pequeno cartão branco para Trey. Ele disse algo que a fez rir antes de colocar o cartão no bolso de trás. Então notei que todo mundo que estava andando para longe do círculo estava segurando um desses cartões, e aqueles que ainda estavam no círculo pareciam estar clamando por eles. O que diabos estava acontecendo? Noelle sussurrou algo para Amberly e ambas riram novamente, o som ecoando alegremente pelo campus. Observá-las fez meu estômago revirar. Elas pareciam perfeitas juntas, todas vestidas com seus casacos de grife, soprando nuvens de vapor no ar frio enquanto conversavam e riam — como melhores amigas perfeitamente compatíveis. Rodeadas de pessoas, elas eram claramente as beldades deste círculo. Era

42


quase como assistir Noelle e Ariana de longe no ano passado. Elas pareciam tão perto. Tão intocáveis. Algumas semanas atrás, essa tinha sido eu. Algumas semanas atrás, Noelle e eu tínhamos estado perto assim. Havíamos sido o centro de Easton juntas. E agora... agora eu era apenas uma perdedora na periferia da Vila Lugar Nenhum. Uma ninguém. Gostaria de saber se Noelle tinha recebido o meu e-mail. Se ela tinha lido o meu pedido de desculpas. Se eu pudesse fazê-la falar comigo, talvez eu também pudesse fazer com que ela me perdoasse pelo que eu tinha feito com Dash. Então, ela poderia fazer o rumor Reed-Assassina desaparecer. Então eu poderia voltar ao Billings com a consciência e nome limpos e tudo voltaria ao normal. Claro, não havia nenhuma maneira de saber se ela tinha lido meu e-mail, a menos que ela decidisse vir a mim. E agora parecia que eu era a coisa mais distante de sua mente. Um grupo de Meninas do Billings se separou da multidão e se dirigiu para o refeitório, apertando os seus cartões. Missy e Lorna estavam entre elas, mas também estavam Astrid e Sabine. Eu hesitei por um momento, e então percebi que eu poderia suportar os escárnios das duas primeiras, se isso significava que eu poderia obter informações das duas últimas. Eu corri para alcançá-las. — Ei, meninas — eu disse, acertando meu passo com o de Astrid. Missy zombou e revirou os olhos. — Ah... hey, Reed — Sabine disse timidamente. — O que é isso? — eu perguntei, apontando para o cartão de Astrid. Astrid olhou com cautela para as outras antes de relutantemente entregar o quadrado branco. Era um convite para uma festa organizada por Noelle e Amberly. Programada para a noite do próximo sábado. — Eu não entendo — eu disse. — Por que Noelle e Amberly fariam uma festa juntas? — É uma pré-festa da extravagante festa de aniversário de Kiran — disse Astrid se desculpando. — É para que todos possam se reunir no campus antes que os ônibus da festa venham nos pegar. Meu coração se curvou em uma bola dentro do meu peito. Eu tinha recebido o convite para a festa de aniversário de Kiran na semana antes da arrecadação de fundos. Na semana antes da merda proverbial ter atingido o ventilador proverbial. Mas eu não tinha pensado sobre o evento durante dias. Outros dramas tinham empurrado isso para o fundo da minha mente. Será que o meu desentendimento com Noelle e meu ostracismo do Billings significaria que eu não seria mais bem-vinda? Será que Kiran sabia o que tinha acontecido? Será que ela se importava? — Todo mundo está convidado. Bem, todo mundo que importa — disse Missy maliciosamente, arrancando o convite de Astrid da minha mão e dando-o de volta à sua legítima proprietária. Eu ignorei seu comentário. — Ok, mas por que Noelle e Amberly? Por que elas estão planejando juntas? Astrid e Sabine desaceleraram em uma parada, assim como Missy e Lorna, que pairaram um pouco atrás delas. O silêncio se arrastou por tanto tempo que eu estava começando a ficar com o joelho batendo de frio. — Oh, pelo amor de Deus, se vocês não querem dizer a ela, eu digo — Missy disse, dando um passo a frente. — É a maneira de Noelle acolher Amberly no Billings. Nós acabamos de votar para ela entrar na noite passada. Eu senti como se todos os majestosos edifícios de Easton tivessem acabado de se desintegrar em torno de mim, sacudindo a terra sob meus pés. — Amberly?

43


— Sim — respondeu Lorna. — Ela irá mover suas coisas esta tarde. Olhei para Sabine, que confirmou tudo com um olhar culpado e triste. Amberly estaria movendo suas coisas para nosso quarto. No meu espaço. Eu me senti nauseada e tonta. Esse era o meu quarto. Minha cama. Minha. — Mas ela é uma... uma caloura — eu gaguejei. — E? Você era uma estudante do segundo ano quando você entrou — Missy me lembrou. — Claramente, se elas podem dobrar as regras uma vez elas podem dobrá-las novamente. — Por que você não me avisou? — perguntei a Sabine, minha garganta seca. — Eu não... Eu sinto muito... Eu só não queria aborrecê-la — disse Sabine, quando um vento forte jogou seu cabelo comprido e escuro atrás dela. — Depois de quão esperançosas estávamos ontem... Eu nem sabia que iríamos fazer uma celebração de votação até que me acordaram no meio da noite. Celebração de uma votação. O ritual do Círculo Secreto. De repente, eu podia ver tudo de forma tão vívida. As meninas sendo despertadas de suas camas. A luz das velas enquanto elas desciam as escadas em suas camisolas. As cadeiras em círculo. As bolas caindo uma por uma. Eu poderia até mesmo ver a imagem de Amberly diante delas. Seu rosto choramingão sorrindo radiantemente com a esperança de sair com elas. E elas tinham votado para ela entrar. Não havia mais uma vaga no Billings. Eu já tinha sido substituída. E por um caloura. — Podemos ir agora? Está congelando aqui fora — Missy disse, empurrando as mãos nos bolsos do casaco. Ela e Lorna começaram a ir para a lanchonete, mas Sabine e Astrid ficaram para trás. — Eu realmente sinto muito, Reed — Astrid disse. — Está tudo bem — eu me ouvi murmurar. Mas não estava tudo bem. Nunca iria estar bem. Porque eu sabia que Noelle tinha feito isso de propósito. Assim como ela disse a todos sobre o meu encontro com Hauer antes da Ação de Graças e deixou todo mundo acreditar que eu era uma assassina. Ela havia escolhido Amberly porque ela sabia que seria o desprezo final. A presidente Billings substituída por uma humilde caloura. Ela estava tentando me mostrar o quão pouco eu significava. O quão fácil era me substituir. Ela estava tentando mostrar para mim que tudo estava acabado. Eu nunca iria voltar ao Billings. Nunca.

*** Meu caderno de espanhol estava encostado na minha frente, meu livro aberto para a história de cinco páginas sobre o que eu deveria escrever em minha dissertação (toda em espanhol). Eu estava com meu dicionário Inglês-Espanhol aberto, um novo arquivo aberto no meu computador, o iTunes em modo aleatório. Eu estava pronta para trabalhar. Infelizmente, tudo o que eu podia fazer era olhar para a nota que eu havia recebido de Kiran, juntamente com o convite para a festa. Virei o cartão escrito à mão outra vez em minha mão. Uma e outra e outra vez. Reed, Se passou TANTO tempo. Por favor, venha. Gostaria de me colocar em dia. Bjs, Kiran.

44


Será que a mensagem ainda valia? Ou será que ela me odiava para sempre uma vez que ela descobriu o que eu tinha feito com Noelle? Seria possível que de alguma forma ela não tenha ouvido falar disso? Eu queria muito ir à festa. Eu estava morrendo de vontade de ver Kiran e esperando que talvez Taylor Bell estivesse lá também. Tinha se passado tanto tempo. Mas mesmo se Kiran ainda me quisesse lá, como é que eu ia chegar em Boston? Eu não conseguia me imaginar sentada em um ônibus da festa com dezenas de alunos de Easton em uma viagem de mais de duas horas. Tanto tempo em um espaço confinado com ninguém além de pessoas que me detestavam? Eu prefiro ser forçada a assistir o vídeo de casamento dos meus pais sem parar por 48 horas, completando com as versões fora de tom do meu pai de Bon Jovi de “I’ll Be There For You”. Mas se eu pudesse chegar à festa, poderia ser a oportunidade perfeita para falar com Noelle. Todas as nossas velhas amigas juntas novamente. Assim como nos velhos tempos. Talvez fosse mais fácil ela me perdoar se ela se lembrasse do por que nos tornamos amigas, em primeiro lugar. Suspirei e joguei o cartão para baixo na minha mesa arranhada, olhando para a tela do computador em branco. Houve uma pausa quando o iTunes mudou a música e ouvi uma voz, clara como o dia, vinda através do orifício debaixo da minha cama. — Ok, se você vai continuar fazendo isso, eu vou ter que sair — Josh disse com uma risada em sua voz. — Nós deveríamos estar estudando. Bile quente e ácida se levantou na minha garganta. O que exatamente Ivy estava fazendo? Cerca de mil possibilidades desagradáveis inundaram minha mente e eu imediatamente estendi a mão para o meu telefone. De jeito nenhum eu vou ficar sentada aqui sabendo que eles estavam ao lado. Nem mesmo se eu aumentasse o volume do computador e do meu leitor de CD. Eu rapidamente mandei uma mensagem para Sabine. Preciso sair. Caminhamos? Os poucos momentos que ela levou para responder a mensagem pareceu uma eternidade. Te encontro no pátio. — Obrigada, obrigada, obrigada! — eu sussurrei, agarrando meu casaco. Sabine ia definitivamente ganhar o prêmio de melhor amiga do ano. Eu desliguei o iTunes, apenas para ouvir a risada de Ivy, que deixou meu pulso acelerado. Eu não podia sair de lá rápido o suficiente. Eu me atrapalhei com a maçaneta da porta, tentando puxar meu casaco ao mesmo tempo, e tropecei no corredor. Minha porta não se fechou atrás de mim, mesmo quando eu ouvi outra porta se fechando. Olhei para a direita para os impressionantes — e atordoados — olhos azuis de Josh Hollis. Ele congelou. Eu congelei. Ele agarrou sua jaqueta de lã cinza com as duas mãos. Fiquei ali metade dentro, metade fora com meu próprio casaco. Eu acho que Ivy havia se recusado a parar de fazer o que ela estava fazendo para distraí-lo — fazendo-me ter ânsias — mas eu não podia nem pensar nisso nesse momento. Tudo o que eu podia pensar era como ele estava a poucos centímetros de mim e o quanto eu queria apenas abraçá-lo e como eu não podia. Como eu nunca seria capaz de fazer isso novamente. Eu estava prestes a dizer alguma coisa — qualquer coisa para quebrar o constrangimento — mas antes que eu pudesse, Josh apontou com a cabeça para o meu

45


quarto, em silêncio, pedindo-me para deixá-lo entrar. Meu coração pulou como um saltador em alta velocidade. Ele queria falar comigo. A sós. Eu segurei a porta aberta, a minha mão trêmula, e ele passou por mim. O cheiro familiar dele encheu minhas narinas e quase me fez desmaiar. Fechei a porta atrás de nós e ele se virou para mim. — Reed, eu... Eu levei um dedo aos meus lábios. Sua testa se franziu, mas ele calou a boca. Fui até meu computador e aumentei o volume da música de Fall Out Boy em meu iTunes que era a última que estava tocando. Então vislumbrei o cartão azul do Jantar de Natal com o nome dele e rapidamente o virei antes de enfrentá-lo novamente. — Eu posso ouvir tudo que Ivy diz quando não há música — eu disse a ele calmamente — apenas alto o suficiente para ser ouvido por ele. Joguei meu casaco na minha cama. — Se você não quer que ela saiba que você está aqui... Josh assentiu, com a boca numa linha sombria. — Entendi. Ele colocou o casaco nas costas da cadeira e colocou sua bolsa mensageiro de couro surrada para baixo perto de seus pés. Suas mãos foram diretamente para os bolsos de trás de seu jeans manchado de tinta, como se ele estivesse com medo do que ele poderia fazer com elas se elas não estivessem guardadas. Ou medo do que eu poderia fazer se ele as mantivesse ao alcance. — Então — disse ele. — Então — eu respondi, o meu coração batia tão alto que entre ele e Fall Out Boy, eu mal podia ouvir. — Como você está? — perguntou ele. — Você está bem? Seus olhos estavam tão cheios de preocupação, eu queria chorar. Como ele poderia ser tão bom comigo depois de tudo? Sim, ele já sabia sobre a coisa com Dash antes de todo mundo — ele tinha visto o show ao vivo na noite da Legado antes da adaptação para o cinema ter se dissipado. Mas agora que todos na escola o tinha visto e sabiam o que eu tinha feito com ele, ele não deveria estar me odiando com veemência? Eu o tinha humilhado. — Eu estou... bem — eu menti com um encolher de ombros. Era óbvio que ele não acreditou em mim, mas eu ainda estava presa no fato inacreditável de que ele estava lá. Bem no meu quarto. Nós dois. Sozinhos. Quantas vezes eu desejei exatamente isso? Quantas vezes eu rezei só pra ter mais uma chance de me explicar? Para ganhá-lo de volta? E aqui estava eu, uma pedra do tamanho de uma bola de beisebol na minha garganta, incapaz de formar uma única palavra e se por acaso uma saísse, poderia assustá-lo. — Eu realmente sinto muito, sobre tudo isso que está acontecendo com você — disse Josh, passando a mão por seus cachos e olhando para o chão. — Eu sei que tenho sido um burro ultimamente, mas... — Josh, eu sinto muito — eu soltei, suas palavras dissolvendo a bola de beisebol. — Eu sinto muito por tudo o que aconteceu com Dash. Isso não significou nada, e se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente, eu o faria. Você tem que saber isso — eu disse desesperadamente. — Por favor, eu só... Eu realmente preciso que você saiba disso. Engasguei com as últimas palavras, e Josh deu um passo em minha direção. Por um segundo eu pensei que ele ia pegar minha mão, mas depois ele pensou melhor e apenas apertou meu braço desajeitadamente antes de deixar a mão cair. — Eu sei — disse ele. — Eu sei. — Sério? — eu disse, esperançosa. — Ouça, Reed, tudo está no passado, ok? — disse ele, recuando novamente. — Você não pode insistir sobre o que já está feito, especialmente com tudo o que está acontecendo.

46


Todo o resto? Será que ele não entendia que ele importava mais para mim do que qualquer outra coisa? Ele pegou a minha garrafa de perfume do alto da minha cômoda e brincou com ela. — Só... passe nas finais e tudo será melhor depois das férias — ele disse, olhando para mim. — Vai ser como um novo começo ou algo assim, sabe? — Ele apontou para o meu quarto minúsculo. — Dormitório novo, novas amigas... Você pode se concentrar no SAT e entrar em uma faculdade da Ivy League e deixar tudo isso para trás. Em dois anos a partir de agora, nenhuma dessa merda vai importar mais. Exceto você. Você ainda importaria para mim. Senti naquele momento que eu seria capaz de deixar tudo isso para trás se eu ainda o tivesse. A pessoa que sempre esteve lá por mim. A pessoa que sempre me manteve sã, não importa o que estava acontecendo ao meu redor. Josh enfiou as mãos nos bolsos de trás novamente e me encarou. Parecia como se ele não soubesse o que fazer em seguida. Eu só queria que ele me tocasse novamente. Mesmo que fosse outro aperto desconfortável no ombro. Era tão louco, como você poderia ir de beijar, abraçar e acariciar alguém todos os dias como se fosse a coisa mais natural do mundo para não ser permitida a estar a meio metro dele. Era como se não houvesse essa barreira invisível entre nós e tudo o que eu queria fazer era rompê-la. Será que se ele sente, mesmo remotamente, da mesma maneira? Eu vi seus olhos moverem de mim para seu casaco e senti que ele estava prestes a terminar. Mas eu não estava pronta para deixá-lo sair ainda. — Bem, eu acho que você finalmente conseguiu seu desejo — eu disse com um sorriso sarcástico. — Eu não estou mais no Billings. Os olhos de Josh se inundaram com tanta pena que eu imediatamente desejei ter mantido minha boca fechada. — Nada disso é o que eu desejava — disse ele sinceramente. — Acredite em mim. Meu coração pulou e eu olhei para o chão, os olhos cheios de lágrimas. Meu computador tinha mudado para uma música lenta, como se estivesse tentando fazer a trilha sonora perfeita para a nossa conversa. — Hey — Josh disse. Ele finalmente pegou a minha mão, segurando-as nas dele. Eu pensei que nunca iria respirar novamente. — Você está bem? Olhei em seus olhos, querendo dizer cerca de dez milhões de coisas para ele, e foi então que nós dois ouvimos Ivy. Os tons baixos da música lenta estavam deixando sua voz passar. — Eu mal posso esperar para ir à Paris com Josh no Natal — disse ela, aparentemente falando em seu telefone. — Nossa casa na Margem Esquerda, jantar no Marceau... Ele nem vai saber o que o atingiu. Eu larguei a mão de Josh e dei um passo para trás quando Ivy riu alegremente. A expressão de culpa de Josh me disse tudo. — Você está indo para Paris com ela? — sussurrei. — Não exatamente — ele sussurrou de volta. — Minha família vai... a família dela vai... — Eu tenho que sair daqui — eu disse, de repente sentindo como se eu fosse superaquecer. Eu agarrei o meu casaco e passei por ele. — Reed, eu sinto muito que você tenha acabado de ouvir isso, mas... Virei-me até ele, detendo-o no meio da frase. Sua expressão era de alguma forma suplicante e desafiadora ao mesmo tempo. Como se ele não quisesse me machucar, mas como se ele também achasse que eu não tinha direito de ficar ferida. — Só me faça um favor — sussurrei para ele. — Tenha cuidado quando se trata de Ivy. Há muito sobre ela que você não sabe. Então eu me virei e saí do meu quarto, deixando meu ex sozinho dentro.

47


8 O GAROTO DAS FLORES

N

o dia seguinte, após o jantar com Diana e uma sessão de estudo na biblioteca, arrumei meus cadernos e me dirigi de volta através do pátio para o Pemberly. Quando me aproximei do Alojamento Drake me lembrei do que Constance tinha dito sobre Marc fazer uma história sobre Cheyenne. E se Marc sabia algo sobre S.O., então eu queria saber também. Respirando fundo, eu peguei meu celular e disquei o número de Marc. Seu correio de voz atendeu automaticamente. — Aqui é Marcellus Alberro. Estou indisponível agora, mas, por favor, deixe seu nome e número após o bip e entrarei em contato com você. Se for sobre uma história, deixe em minha página on-line. Obrigado. — Ei, Marc. É Reed. Tenho uma pergunta rápida para você. Ligue-me quando tiver uma oportunidade — eu disse. Então, enquanto eu colocava meu iPhone de volta na minha bolsa, eu vi uma forma familiar correndo em direção à porta traseira do Drake. Eu hesitei por um momento, sabendo que eu era provavelmente a última pessoa na terra que esse cara em particular gostaria de falar, mas a minha adrenalina se apoderou de mim. — James! Ei, James. Espera! — eu chamei. O sênior alto e desajeitado se virou e olhou para mim, apertando os olhos no escuro. No momento em que ele viu que era eu correndo na direção dele, sua mandíbula se apertou. Felizmente, no entanto, ele não saiu correndo noite afora. — Oi — eu disse, parando na frente dele. — Você se lembra de mim...? — eu perguntei, esperando que de alguma forma ele não lembrasse. O vento jogou meu cabelo na frente do meu rosto e eu o joguei por cima do meu ombro direito. — A executora do momento mais embaraçoso da minha vida? Claro. Como eu poderia esquecer de você? — James respondeu, enfiando as mãos nos bolsos de seu casaco longo de inverno. Eu olhei para o chão, envergonhada. No ano passado, Noelle tinha me forçado a romper com James em nome de Kiran bem no meio do refeitório. Toda a cena tinha sido tão horrível que eu estava surpresa por ele não ter jogado spray de pimenta em mim ainda. — Sim, eu realmente sinto muito sobre isso — eu disse rapidamente. — Eu só tenho uma pergunta para você e então eu juro que eu dou o fora daqui. James não disse nada. Ele simplesmente ficou lá, esperando. Algo no olhar de seus olhos de aço me deixou nervosa. Como se ele estivesse me julgando. O que, claro, ele tinha todo o direito de fazer considerando o que eu tinha feito com ele. — Estou à procura de Marc Alberro. Você sabe se ele está no Drake agora? James inclinou a cabeça para trás e riu, exalando uma nuvem de vapor no ar da noite. — Por que você está procurando o garoto das flores Catorze-em-Catorze? — Espera. O garoto das flores Catorze-em-Catorze? Era assim que chamávamos Trey depois que ele mandou para Cheyenne catorze vasos com catorze rosas no último Dia dos Namorados — disse, me lembrando de repente que o quarto de Cheyenne tinha

48


cheirado como um jardim de rosas por dias. — Como você sabe disso? E o que isso tem a ver com Marc? James apenas olhou para mim. — Você não sabia que Trey não mandou aquelas flores? Foi Marc quem as enviou. Eu me dei conta pelo vídeo em que todas as Meninas do Billings o chamaram de Catorze-em-Catorze. O garoto das flores Catorze-em-Catorze era Marc Alberro? De. Jeito. Nenhum. — Você está brincando — eu disse em voz alta. — Sim, ele era apaixonado por ela e queria fazer este grande gesto. Acho que ficou realmente chateado com ela. Ela o humilhou na frente de seu dormitório inteiro. Quer dizer, eu não estava no Wesley Hall no ano passado, mas eu vi o vídeo. — James enfiou as mãos nos bolsos e parecia envergonhado. — Isso pode soar horrível, mas no momento isso me fez sentir um pouco melhor sobre o que aconteceu comigo. — Há um vídeo? — eu perguntei, ainda incapaz de envolver meu cérebro em torno da ideia de que Marc tinha sido apaixonado por Cheyenne. Eu sabia que ele tinha feito uma matéria sobre ela, mas como isso era possível? Como pode um cara como Marc até mesmo pagar todas aquelas rosas? Isso simplesmente não se encaixa. — Sim, um cara de Wesley gravou com sua HDcam. Ainda tenho no meu notebook — disse James. — Tem? — eu senti meu rosto ficar vermelho, mas eu sabia o que eu tinha que fazer. — Você acha que... quer dizer, você se importaria... Ele sorriu. — Está tudo bem se você quiser vê-lo. Eu balancei a cabeça e o segui de volta para o dormitório. Eu não podia acreditar que ele estava sendo tão solícito, mas eu não iria mencionar isso. Eu não queria que ele mudasse de ideia. E de nenhuma maneira eu ia acreditar sem uma prova visual. James me conduziu para a sala comum fora do lobby do Alojamento Drake. Eu não tinha percebido como eu estava congelada até que entrei no espaço que parecia uma sauna e me senti descongelando de dentro para fora. Havia dois garotos no canto estudando, e eles atiraram para nós olhares curiosos quando James tirou o laptop da mochila e o colocou em uma das mesas de café. — Sente-se — disse ele, apontando para o sofá xadrez atrás de nós. Okay. Ele estava sendo muito educado considerando a nossa história. — Posso perguntar uma coisa? — eu disse enquanto ele se sentava perto de mim, mas a uma distância respeitosa. — Só faça — brincou ele, estendendo a mão para o touch pad do notebook. — É sério. Por que você está sendo tão bom comigo? Depois do que eu fiz... — Você não fez aquilo. Noelle que fez. Sei que ela te fez fazer isso — ele disse de forma pragmática. Minha pele queimou. — Sim, mas eu poderia ter dito não. James bufou uma risada e empurrou os óculos no nariz. — Não, você não poderia — ele disse. — Você era nova. Uma estudante do segundo ano. Vinda do meio do nada. De nenhuma maneira você poderia ter dito não para ela. Eu verifiquei sua expressão por qualquer traço de sarcasmo ou amargura, mas não havia nenhum. Para ele, isso era apenas um fato aceito. Meninas abaixo de Noelle não tinham o uso de sua própria vontade. Será que todos na escola sabiam disso? — Aqui está — disse James quando uma janela apareceu no centro da tela. Inclinei-me e ele apertou play e lá estavam eles. Marc Alberro, seu cabelo escuro ligeiramente mais longo do que era hoje, que estava no centro de outra sala comum, enquanto Cheyenne lia o cartão. Seu cabelo estava maior do que na altura dos ombros, como tinha sido no ano passado, e ela parecia mais baixa do que eu me lembrava dela. Menor de alguma forma. Ela estava no meio da frase, quando o cinegrafista começou a capturar a cena.

49


— Achava que isso ia me impressionar Catorze-em-Catorze? — ela gritou estridentemente, jogando meia dúzia de rosas cor de rosa e vermelho nos pés de Marc. Ela esmagou-as sob a ponta de sua bota Louboutin. — Eu recebi presentes melhores no Dia da Árvore. Marc parecia tão pálido que ele poderia ter desmaiado no local. Ao redor da sala, os garotos riam e cutucavam uns aos outros. Pelo menos duas dúzias deles estavam sentados ao redor no chão, nas cadeiras e nos sofás, assistindo a miséria de Marc se desdobrar. Eles devem ter vindo realizar algum tipo de festa, porque havia copos de plástico e garrafas de refrigerante em toda parte, junto com sacos de lanche. — Basta — Cheyenne disse. — Eu não estou interessada em você. Assim, você pode parar de mandar mensagens para mim, você pode parar de deixar pequenos presentes para eu encontrar por todo o lugar. Já tenho um namorado. Eu não preciso de um perseguidor, também. Marc abriu a boca para dizer alguma coisa, mas tudo o que saiu foi um grito alto. — Desculpe a interrupção — Cheyenne disse com um sorriso desagradável, olhando ao redor da sala. — Vocês todos podem voltar para o seu torneio patético de videogames agora. Então ela se virou e saiu da sala. O cinegrafista ampliou o rosto devastado e humilhado de Marc por uma fração de segundo — risos borbulhando no fundo — antes da tela ficar preta. Por um longo momento eu não conseguia nem me mexer. Meu cérebro estava processando muito devagar tudo o que eu tinha visto e ouvido. Perseguidor? Deixando pequenos presentes para ela encontrar? Isso soava estranhamente familiar. — Acho que vocês do Billings gostam realmente de rompimentos públicos, hein? — James disse ironicamente, estendendo a mão para fechar o notebook. Me sentei para trás no sofá, atordoada. O doce e inocente Marc Alberro? Seria possível? E ele poderia realmente ser um assassino sangue frio? — Sim — eu disse finalmente. — Eu acho que sim.

50


9 INIMIGOS POR TODA PARTE

I

vy estava na primeira pia quando eu entrei no banheiro naquela noite, ainda me recuperando da descoberta sobre Marc. Ela estava vestindo um pijama de flanela branco e pantufas acolchoadas aparentemente confortáveis. Eu estava usando meu moletom da Penn State e um short de malha da Academia Easton. — Você tem um jogo de futebol à meia-noite? — ela perguntou com um sorriso de escárnio, estendendo a mão para um pequeno pote de algum tipo de creme. — Você tem uma reconstrução facial à meia-noite? — eu atirei de volta. — Porque você definitivamente poderia usar algo mais suave em torno do seu queixo e nariz. A mandíbula de Ivy caiu um pouco, mas ela se recuperou rapidamente, voltando sua atenção para o seu ritual de beleza com um pouco mais de vigor. Eu apartei minha vista para minha bolsa de plástico de produtos de higiene pessoal na parte de trás da pia e amaldiçoei os fundadores do Billings por nos dar banheiros privativos. Eu não estava tão acostumada a me reunir com inimigos antes de ir dormir. Tentando ignorar Ivy, eu escovei meus dentes e cuspi vigorosamente. Ivy sorriu e focou em seu reflexo, pontilhando seu creme em baixo dos olhos e esfregando-o. Este era o tipo de coisa que sempre me fascinou quando eu estava no Billings. Uma garota de 17 anos de idade realmente precisava colocar creme debaixo dos olhos? Eu tinha perguntado a Kiran uma vez e ela me disse que eram medidas preventivas. Parecia um desperdício de dinheiro para mim. Mas, então, essas pessoas tinham mais dinheiro do que Deus. — O quê? Fascinada com o hidratante? — Ivy perguntou, olhando para meu reflexo no espelho. Ela estendeu o pote de creme para mim. — Você pode pegar um pouco, se quiser. Pode te livrar de algumas dessas olheiras de insônia que você tem aí — disse ela, franzindo o nariz. — Você tem tantas preocupações que elas estão te mantendo acordada esses dias, não é? — acrescentou com falsa simpatia. Meu rosto ardeu e eu peguei as minhas coisas. — Você é uma vadia. — Oh, por favor. Todo esse tempo que você gastou com Noelle Lange, mas eu sou uma vadia? — Ivy disse com zombaria, girando a tampa verde-limão do pote. — Eu não posso nem mesmo me comparar a ela. Mas um dia desses — acredite — essa menina vai ter o que merece. Minha respiração ficou presa na minha garganta enquanto eu me lembrava do que ela disse para mim naquela noite em Nova York — que ela tinha escolhido Noelle como a única pessoa da torre de marfim, o Billings, que valia a pena derrubar. Hauer tinha se irritado comigo quando eu disse isso a ele, mas agora aqui estava ela, fazendo isso de novo, e ameaçando Noelle ainda mais diretamente. Meus dedos se fecharam e eu virei meu feroz olhar para Ivy. — Fique longe de Noelle — eu avisei, falando através de meus dentes. Ivy olhou para mim e pela primeira vez, parecia genuinamente interessada. — O que é que isso significa? — Isso significa que, se você machucá-la, ou qualquer outra pessoa do Billings, eu vou pessoalmente me encarregar de que você caia — eu disse, bem no seu rosto.

51


A mandíbula de Ivy caiu novamente, com os olhos arregalados, e ela riu. — Você está brincando, certo? Moi? Não sou eu com quem você deve se preocupar. Não sou a vadia insensível que vai pisar em alguém para conseguir o que quer. E não sou eu quem está tão viciada em poder que realmente mataria alguém para tomar conta de um dormitório. — Eu não matei Cheyenne — eu disse firmemente. Ivy riu de novo. — Bem, dã. Eu não estava falando de você. — Então, de quem você... Uma fria onda de entendimento veio sobre mim. Ivy estava jogando a culpa da morte de Cheyenne sobre Noelle. Ela pensava que Noelle tinha feito isso. Ou pelo menos ela estava tentando desviar a sua própria culpa para Noelle. — Essa menina que todas vocês adoram é capaz de um monte de coisas que você nunca poderia sequer imaginar, Reed — disse Ivy, fechando sua bolsa preta. — Espere até que a verdade venha à tona. Então você vai saber. Então você vai finalmente vê-la do jeito que ela realmente é. Com isso, ela girou para fora do banheiro, deixando a porta balançando-se atrás dela. Era assim que ela ia se vingar de Noelle. Como ela ia fazer a Torre de Marfim cair. Ela iria conseguir que Noelle levasse a culpa por seu crime, enquanto tentava me deixar louca me “assombrando” no processo. Ela estava me punindo por “adorar” Noelle? Pelo menos ela não tinha conseguido enquadrar Noelle ainda, já que a maioria do campus tinha atribuído a culpa para mim. Eu não ia deixar ela seguir em frente com isso. Eu me virei e caminhei de volta para o meu quarto, mais determinada do que nunca a provar que Ivy era a verdadeira assassina. Mas como? O que mais eu poderia fazer? Na Internet não tinha nada. Claro, eu tinha horas para planejar um novo plano de ataque: Depois desse pequeno encontro, obviamente eu iria passar outra noite sem dormir. Mas no momento em que entrei no meu quarto, eu congelei. Algo estava diferente. Alguém tinha estado lá. Eu podia sentir isso. Eu rapidamente esquadrinhei o quarto, à procura de qualquer coisa fora do lugar. Então eu vi. A foto de mim e Cheyenne na festa de aniversário de Viena no ano passado — a mãe de Cheyenne me deu para eu me lembrar de Cheyenne — estava pregada na parede acima da minha cama. Meu coração começou a bater de forma irregular e um suor molhou as palmas das minhas mãos. Como ela foi parar ali? Por que estava ali? Lentamente, eu coloquei a minha bolsa de produtos em cima da minha cômoda e na ponta dos pés fui até a foto, como se ela pudesse de repente atacar se eu fizesse muito barulho. Engoli em seco quando a vi de perto. Lá estávamos nós, Cheyenne e eu, sorrindo com os braços em torno uma da outra, mas você nunca veria os sorrisos. Ambos os nossos rostos haviam sido riscados com um X com tinta preta. Tremendo, eu estendi a mão e peguei a foto da parede, a tacha rasgando um buraco no topo. Lágrimas quentes encheram os meus olhos e eu rasguei a foto no meio. O que isso significa? Alguém nos havia riscado porque nós duas estávamos fora do Billings... ou a intenção da mensagem era pior do que isso? Era apenas uma continuação dos comprimidos que haviam sido deixados no meu quarto? Eu estava prestes a rasgar a foto em pedaços quando eu percebi que era uma evidência. Talvez quem deixou isso aqui tinha deixado impressões. É claro que as minhas impressões estavam sobre ela também, mas ainda assim. Procurei na minha gaveta um envelope e joguei as duas metades da foto dentro, em seguida, escondi longe em meu armário, juntamente com todos os outros “presentes” que o meu perseguidor

52


tinha deixado para mim ao longo do tempo. As bolas pretas, a roupa rosa de Cheyenne — tudo estava lá, exceto as pílulas e o cartão de lugar, os quais eu tinha jogado. Lentamente, eu sentei na minha cama, olhando para a gaveta contaminada. Quando a minha respiração normalizou, eu percebi que não havia como Ivy ter deixado a foto no meu quarto. Ela já estava no banheiro quando eu tinha chegado lá e saiu cerca de cinco segundos antes de mim. Não é tempo suficiente para entrar no meu quarto, pregar a foto, e sair. Será que isso significa que ela é inocente? Será que ela realmente não é a minha perseguidora? Não é a assassina? Não. Eu me recusava a acreditar. Até que eu descobrisse quem era S.O. ou descobrisse algo mais perturbador sobre Astrid ou mais alguém, Ivy ainda era a única pessoa com um motivo real. A única pessoa com um olhar de psicopata. A única pessoa que tinha tanto um motivo para matar Cheyenne como um motivo para me perseguir. Talvez ela tivesse um cúmplice. Talvez ela pediu a Jillian ou a alguém para colocar a foto enquanto eu estava no banheiro. Ou talvez a foto estivesse lá toda a tarde e eu não tinha notado. Eu rapidamente abri meu notebook e digitei um novo e-mail para Noelle. Noelle, Eu acho que Ivy matou Cheyenne. Você precisa ser cuidadosa. Ela me contou tudo sobre o que aconteceu com sua avó em seu primeiro ano. Ela te culpa por tudo. Por favor. Se você não vai falar comigo, pelo menos, tome cuidado. — Reed Com meus dedos tremendo, eu mandei o e-mail para o espaço virtual, apenas esperando que Noelle o lesse. Que talvez houvesse algum pequeno ponto macio deixado em seu coração que confiava em mim o suficiente para, pelo menos, abrir um e-mail. Ivy tinha de ser a culpada. Ela tinha que ser. Porque se ela não era, então eu estava realmente perdida. E o inimigo poderia ser qualquer um.

53


10 A NOVA RAINHA VADIA

A

mberly Carmichael estava me dando nos nervos. Enquanto eu estava sentada sozinha em uma mesa na cafeteria na noite de sexta-feira, ela levou um grupo de meninas do Billings até o balcão do Café Carma como se ela fosse a dona do lugar. Que eu suponho que tecnicamente ela era. Mas só do café. Não da escola inteira. E só para piorar as coisas, as meninas que estavam com ela — Missy, Lorna e até mesmo Rose, Kiki e Portia — se arrastavam atrás dela como se ela fosse a nova abelha rainha. Como se tivessem admiração por ela. Por uma caloura que poderia ter se prostrado a seus pés há algumas semanas pelo simples privilégio de falar com elas. Estava tudo tão errado, muito errado. — Papai queria ir para a Austrália neste Natal. Dá para acreditar? — Amberly disse, alto o suficiente para toda a sala ouvir. — Ele tem essa coisa de querer navegar em Maroubra na manhã de Natal e eu sou tipo “Papai! Consegue uma vida!”. Quer dizer, eu amo que ele seja aventureiro e tudo mais, mas ele pode navegar sempre que quiser. Ele já prometeu a toda a família que iria para St. Bart com os Langes no Natal, e eu não ia deixar que ele retrocedesse nisso. — Surfar na Austrália? Oh meu Deus, o seu pai faz o meu pai soar como um total geriátrico perdedor — Missy disse com um suspiro. — Eu não me importaria de ir para a Austrália com ele e vê-lo surfar — Missy acrescentou, deixando cair sua bolsa Louis Vuitton no balcão. — Eu vi quando ele te deixou em setembro, ele é muito bonito e o pai mais quente da face da terra. Olhei para Amberly, que parecia momentaneamente enojada, como qualquer filha estaria ao ouvir tal coisa, mas depois ela riu. — Guarde sua carteira e peça o que quiser — disse ela, acenando com a mão para Lorna. — Vai ser por conta da empresa. Papai me deve totalmente. Eu estreitei meus olhos para Amberly. Ela parecia diferente de alguma forma. Mais suave. Seu cabelo loiro estava alisado novamente e colocado atrás das orelhas em vez do estilo excessivo. Ela usava menos maquiagem do que o habitual, fazendo-a parecer um pouco mais velha e mais sofisticada. Em seguida, havia a roupa. Ela tinha desabotoado o casaco branco, e por baixo vestia um suéter de gola alta branco, jeans skinny e botas de camurça com franjas de lã espreitando na parte superior. A bolsa era de crocodilo verde escura. Olhando para os sapatos e a bolsa, eu percebi que ela tinha mudado. Ela não estava tão severamente combinada como ela era normalmente. Parecia que ela tinha acabado de juntar a roupa, em vez de pensar sobre isso por dias. O que só fez ela parecer mais fria. — Muito obrigada, Amberly! — Missy disse, dando um duplo beijo no ar na menina enquanto ela pegava seu café enorme. — É. Isso é genial — acrescentou Kiki em seu típico tom monótono. Ela, claro, escolheu um mocha frap com creme duplo e raspas de chocolate. Todo açúcar. Droga. Até mesmo perceber que eu conhecia as preferências de café de Kiki fez eu me sentir nostálgica. Ok, Reed. Se controla. Volte à tarefa em questão.

54


Esforçando-me para ignorar as Meninas do Billings e para suprimir o que eu sentia, eu voltei para a minha lista de suspeitos. Eu levantei minha caneta vermelha e finalmente fiz o que eu tinha pensado em fazer a noite toda. Eu desenhei uma linha através de Missy e Lorna. Quando eu tinha pesquisado elas no Google na noite anterior, eu não havia encontrado nada nem remotamente incriminatório ou suspeito, apesar de eu ter aprendido um par de coisas interessantes. Que Lorna tinha duas irmãs mais velhas, uma em Oxford e outra recebendo um grau avançado no MIT2, o que poderia explicar o seu óbvio complexo de inferioridade. E que Missy tinha um irmão mais novo que faleceu com oito anos de leucemia, o que a fez parecer humana pela primeira vez. Mas isso era tudo. Nada mais interessante. E quando eu pensei sobre isso, percebi que nenhuma delas estava agindo estranho desde a morte de Cheyenne. Missy tinha gelo em suas veias, então talvez eu poderia suspeitar dela, mas Lorna... Lorna nunca teria sido capaz de tramar um assassinato sem se perder um pouco. Ela teria estado paranoica, nervosa, chorosa. Mas ela nunca tinha estado assim. Simplesmente não tinha sentido. No balcão, Amberly soltou uma risada tilintante e eu me encolhi. Incrível como a lista de pessoas que eu não suportava estava crescendo exponencialmente, assim como minha lista de suspeitos estava diminuindo. As únicas pessoas deixadas nela agora eram Astrid, Marc Alberro, S.O. e Ivy. Falando no diabo... Naquele momento, Ivy entrou pela porta, segurando a mão de Josh, suas cabeças inclinadas juntas como se eles estivessem sussurrando um para o outro. A visão deles era como um chute no meu traseiro e eu imediatamente me levantei para recolher minhas coisas. De nenhuma maneira eu ia ficar sentada aqui assistindo eles dois ficando todos melosos sobre seus lattes. De jeito nenhum. Meu movimento súbito chamou a atenção de Ivy e ela sorriu para mim triunfante, chegando a beijar a bochecha de Josh enquanto continuaram seu caminho. Josh, por sorte, estava alheio à minha presença. Eu não tinha certeza se eu poderia lidar com a humilhação de ele ver a expressão em meu rosto logo em seguida. Enfiei meu notebook em minha bolsa e me dirigi para a porta, mas o meu cachecol ficou preso em uma cadeira vazia. Eu lutei para livrá-lo, e quando finalmente o fiz, eu tropecei para trás um par de passos. Justo na frente de Amberly Carmichael. Houve um cuspido e respingos e de repente meus tênis estavam cobertos de um líquido marrom claro. — Ugh! Sua vaca! Olha o que você fez! — Amberly desabafou. Seu casaco branco estava coberto com o que parecia ser chai latte, e também tinham se espalhado um pouco em seu suéter branco. Ela segurou o copo quase vazio para longe enquanto o líquido escorria da bainha do casaco para o chão. Eu pressionei meus lábios para não rir e olhei para Rose e Kiki, que junto com Missy, Lorna e Portia estavam oscilando em torno de Amberly. Rose e Kiki desviaram o olhar. Claro. — Desculpa — eu disse com um encolher de ombros. — Você vai ter que pagar a lavagem a seco — disse Amberly, batendo o copo sobre uma mesa próxima e pegando alguns guardanapos. — Este casaco é o único de um tipo. Ela não estava gritando, apenas fumegando. Fumegando e tremendo. Enquanto eu observava seus longos dedos pálidos trabalhando para enxugar a mancha, eu senti uma sensação estranha de deja vu, mas por mais que eu tentasse, eu não conseguia me lembrar do lugar de onde vinha. — Eu não vou pagar nada — eu disse a ela, ajustando minha bolsa no ombro. — Foi um acidente.

2

MIT (Massachusetts Institute of Technology): Instituto de Tecnologia de Massachusetts; Importante instituição acadêmica nos EUA.

55


— Oh, você vai sim — Amberly disse, olhando para mim. Seus olhos azuis perfuraram através de mim como picadores de gelo. Claramente apenas alguns dias no Billings tinha ensinado ela como intimidar e aterrorizar. — E não vai ser barato — disse ela, olhando-me de cima a baixo com um sorriso de escárnio. — É melhor começar a poupar seus tostões agora. Esqueça abelha rainha. Tente rainha vadia. Missy, Lorna e Portia riram e minha pele queimou. Eu até mesmo vi um sorriso brincando nos lábios de Rose por um breve segundo e senti como se eu tivesse acabado de ser esfaqueada no intestino ao estilo César, traída pelas pessoas que deveriam estar ao meu lado. Kiki foi a única que não reagiu, mas talvez seu iPod estava ligado tão alto que ela não conseguia ouvir o que estava acontecendo. — É melhor esperar sentada — eu disse através dos meus dentes. — Eu vou querer o cartão Carma de volta — Amberly replicou. — E eu vou conseguir o meu dinheiro. — É. Boa sorte com isso — eu disse com um ar zombador. Então eu lancei a minhas antigas amigas um olhar mordaz antes de caminhar para fora.

56


11 DUAS LISTAS

E

u passei a tarde de sábado na biblioteca. Todos ao meu redor estavam estudando. Lápis riscando os cadernos. Haviam debates sussurrados sobre tudo, desde o movimento feminista dos anos 1900 até a história da viagem espacial para os méritos de Monet e Manet. Outros estavam nos computadores, cafés eram bebidos enquanto seus dedos digitavam loucamente nos teclados. Eu praticamente podia sentir o cheiro de expectativa e tensão no ar. Exames finais. Trabalhos finais. Relatórios orais finais. Estava tudo em cima de nós. E eu estava gastando meu sábado navegando na Web procurando um presente para Josh Hollis. Bem, isso e pesquisando no Google quem restava da minha lista de suspeitos. Eu não tinha estudado nem um minuto desde que Sabine tinha me deixado uma hora atrás para ir se encontrar com seu grupo de estudo de biologia. Eu estava ferrando eu mesma, mas eu não conseguia me importar. Eu tinha coisas mais importantes em minha mente. Como assassinato. Como meu primeiro amor. Como não deixar que o assassino — se fosse Ivy — assassinasse a minha ex-melhor amiga. Suspirei. Seguindo em frente com meu primeiro amor, era impossível encontrar algo de bom para Josh. Nada dizia o que eu queria dizer. Ou seja, “Eu te amo. Este presente não faz você lembrar do quanto você me ama?” Eu tinha estado nisso por horas, vasculhando todos os sites de compras L.L. Bean, art.com e eBay, mas não achei nada de bom. O Jantar de Natal era em menos de uma semana. Era hora de admitir a derrota — especialmente já que eu definitivamente não tinha o dinheiro para o envio durante a noite. Eu não poderia pagar por um presente da Internet com o pouco dinheiro que me restava do fundo do Billings, já que estava sob a forma de dinheiro vivo. Tudo que eu tinha era o cartão de crédito só-para-emergências que meu pai tinha me dado durante o verão, e quanto menos eu gastasse nele, mais rápido ele iria me perdoar. Voltei para a art.com, selecionando um quadro do pintor Gauguin que eu tinha estado olhando desanimadamente, e fiz o pedido da maldita coisa. Suspirei, suspirei. O cara do segundo ano do meu lado desocupou seu computador e até mesmo antes de o cheiro de seu chiclete de framboesa desaparecer no espaço, Marc Alberro tinha tomado seu lugar. Ele sentou-se na cadeira de lado para que ele pudesse me encarar, a maior parte do seu casaco de inverno estava encravado entre a mesa e as costas da cadeira, a mochila em seu colo. Imediatamente, meu coração parou de bater e um arrepio de medo passou por mim. — Desculpe eu não ter retornado a sua mensagem. Tem sido uma loucura — disse ele. — Então, o que se passa? Eu estava evitando ele desde que James me mostrou aquele vídeo, e olhando para ele agora, eu descobri que eu não conseguia nem olhar nos olhos dele. Ele poderia ser o assassino? E se ele tivesse se infiltrado no Billings enquanto estávamos todas dormindo e forçou Cheyenne a tomar aquelas pílulas? De repente, eu senti como se estivesse prestes a vomitar.

57


— O que foi? Qual é o problema? — Marc perguntou, inclinando a cabeça. — Eu tenho que ir. Peguei minhas coisas, deixando o cartão de reserva no meu computador para que eu não tivesse que parar para devolvê-lo na recepção, e corri desajeitadamente para a porta. Eu tentei enfiar meus braços em meu casaco enquanto estava semi-correndo, a alça da minha bolsa estava retorcendo-se em torno do meu pulso. Tentei distorcê-la enquanto eu saía do prédio, mas no processo minha bolsa virou de cabeça para baixo, enviando todos os meus livros e cadernos para as escadas da biblioteca. — Perfeito — eu disse baixinho, agachando-me para recuperá-los. O céu acima estava de um cinza ameaçador e o vento assobiava em torno dos edifícios. A qualquer segundo as nuvens iam se abrir e derramar chuva gelada na minha cabeça. Eu podia sentir isso. — Reed! — Marc estava lá em um flash. Ele inclinou-se para ajudar a recolher minhas coisas. — Você está bem? O que há de errado? À medida que nos levantamos com nossos braços cheios de livros, eu me forcei a olhar para ele. Sua testa estava enrugada com preocupação e seus olhos castanhos estavam abertos e honestos. Por um segundo eu não podia imaginar que ele pudesse ter machucado Cheyenne. Mas depois do que ela tinha feito com ele... — Você era o garoto das flores Catorze-em-Catorze — eu soltei, um pouco mais alto do que eu pretendia. Toda a cor drenou-se do rosto de Marc. Ele entregou meus cadernos para mim. — Bem, eu prefiro Marc — disse ele, dando um passo para trás e enfiando as mãos sob as mangas. Minhas bochechas estavam vermelhas com o calor. — Marc, isso não é engraçado. Como você pôde nunca ter mencionado que você e Cheyenne tiveram algo? Você estava escondendo isso por uma razão? Um grupo de calouras correu pelas escadas entre nós e eu percebi que era uma coisa boa esta conversa estar ocorrendo em uma área povoada do campus. Se Marc era capaz de usar violência, ele não poderia escapar me machucando bem aqui, num lugar aberto como este. — Bem, sim. Eu tinha dois motivos — Marc respondeu, com os olhos arregalados. — Um, foi a experiência mais humilhante da minha vida, e dois, realmente não me agrada a ideia de Trey Prescott me bater. Cheyenne era sua namorada no ano passado durante o, uh, incidente catorze-em-catorze. Embora eu juro a você que eu não tinha ideia de que eles estavam juntos na época. — E isso é tudo. Essa é a única razão pela qual isso não veio à tona — eu disse, sem rodeios, pensando em todas as vezes que nós falamos sobre o Billings e a morte de Cheyenne. Marc olhou para mim por um momento. — Espera... você acha que eu a matei. — Não — eu menti automaticamente. — Não, claro que não. Havia alguma outra maneira de responder essa pergunta? Se tivesse, eu não queria que ele soubesse que eu suspeitava dele. Se ele não tivesse... bem, seria a mesma coisa. Além disso, acusá-lo diretamente sem nenhuma evidência como apoio não era melhor do que o que todo mundo estava fazendo comigo. — Sim, você acha! — Marc recostou-se contra a grade de metal no centro da escada. Ele olhou para mim por mais um segundo, depois riu. Riu. De alguma forma, isso parecia inadequado, dadas as circunstâncias. — Bem, eu acho que seria hipócrita da minha parte estar louco. — Por quê? — eu perguntei. O que tinha de errado com esse cara?

58


Marc abriu a bolsa e tirou um bloco amarelo. Ele suspirou antes de entregá-lo para mim. Rabiscado na parte superior estavam as palavras Potenciais Suspeitos. Meu coração pulou uma batida. — Você está investigando o assassinato de Cheyenne? — eu perguntei. — Pois é. Eu imaginei que poderia dar uma boa história — disse Marc, com expressão de desculpas. Ele deu de ombros. — Eu poderia até mesmo ser capaz de vendê-la a um jornal de verdade. Olhei a lista rapidamente, avidamente, para ver se ele tinha tirado conclusões diferentes da minha. Infelizmente, a sua lista ecoava a minha. Até mesmo Astrid estava na sua lista de suspeitos. Mas havia duas diferenças principais entre a lista de Marc e a minha. Meu nome e o nome de Noelle estavam escritos na parte inferior da página. O nome de Noelle tinha sido riscado, mas o meu não tinha. — Desculpe. Eu não poderia ter favoritos. — Ele pegou um gorro de lã marrom de sua bolsa e colocou-o sobre suas orelhas. Meus olhos ardiam com o calor e parte de mim sentia vontade de empurrar o bloco pela sua garganta abaixo. Mas então eu percebi que ele estava certo. Que teria sido totalmente hipócrita, considerando que eu suspeitava dele. — Está tudo bem — eu me forcei a dizer, entregando o bloco de notas de volta. — Na verdade, eu mesma tenho estado investigando por aí. As sobrancelhas de Marc se ergueram. — Sério? Você tem uma lista? Eu escavei na minha bolsa até que encontrei o pedaço de papel dobrado com os meus suspeitos sobre ele. Marc a olhou e sorriu. — Olha para isso. Você está na minha e eu estou na sua. Duas vezes, na verdade. Eu tinha adicionado o nome de Marc na lista de suspeitos após ver o vídeo de James, mas Marc estava apontando para as iniciais S.O. — Então você é S.O. — eu disse, atordoada. — Sim. — Marc entregou a lista de volta para mim. Eu estava sem palavras. Eu sabia que Trey suspeitava que alguém com as iniciais S.O. estava vendo Cheyenne, e eu sabia que Marc tinha perseguido Cheyenne e havia perdido. Como poderia os dois ser o mesmo? — Eu não entendo — eu disse finalmente. — Por que S.O.? — É um código comum quando você quer encobrir sua identidade — Marc disse com um encolher de ombros, tirando um par de luvas de couro gastas dos bolsos e puxando-as. — Última letra do seu primeiro nome e última letra do seu sobrenome. S.O. Marcellus Alberro. Era tão óbvio agora que eu poderia ter gritado. Toda a minha paranoia e meu desespero estavam afetando o lado lógico do meu cérebro? — E, PSI3, eu não fiz isso — disse Marc. — Eu nem estava no campus naquela noite. Meu irmão veio de Miami e fomos a várias boates de Nova York. Ele acabou desmaiado em um banquinho de um bar e eu tive que arrastá-lo pelas axilas para um táxi e levá-lo ao hospital. Foi meio divertido — acrescentou com sarcasmo. — Os policiais sabem de tudo isso e já verificaram, a propósito. Aparentemente, a polícia havia sido mais minuciosa do que eu pensava. — Bem, eu não a matei, também — disse-lhe. — Mas eu não tenho nenhum álibi assim. — Está tudo bem. Eu duvido que você estaria investigando a morte dela se você tivesse feito isso — Marc me disse, empurrando o seu bloco de notas de volta em sua bolsa. — Quer voltar para dentro agora que você sabe que não está em perigo mortal? — brincou. — Está congelando aqui fora. — Definitivamente — respondi, sentindo-me envergonhada. 3

PSI: Para a Sua Informação.

59


De repente, eu não podia acreditar que eu estava fugindo dele agora há pouco. Toda esta experiência estava realmente me deixando paranoica, e eu não gosto da sensação. Marc começou a subir as escadas de volta para a biblioteca, e eu caminhei em sintonia com ele. Eu respirei fundo o ar frio, deixando que se afastasse o último dos meus suspeitos. — Eu só tenho mais uma pergunta — eu disse. — Como diabos você pagou todas aquelas rosas? — Dinheiro do emprego de verão — Marc disse, com uma careta. — Eu pensei que a minha mãe ia voar até aqui só para me estrangular quando ela descobriu o quanto eu tinha tirado da minha conta poupança. Eu assobiei baixinho enquanto Marc segurava a porta aberta para mim. Ele devia ter realmente gostado de Cheyenne para arriscar a ira de sua mãe assim. De repente, eu odiava Cheyenne pela maneira como ela o tinha tratado. Por que ela sempre tinha que fazer com que tudo fosse uma grande cena dramática? — Então, o que você descobriu? — Marc me perguntou. — Você primeiro — eu disse. — Você decidiu que Noelle é inocente? Claro, eu já sabia disso em meu coração, mas eu estava curiosa para saber como ele havia chegado à mesma conclusão. — Pois é. Ela estava em um barco a noite toda naquela noite. Algum evento de caridade em um cruzeiro que deu a volta em Manhattan — ele disse enquanto ele tirava seu casaco em nosso caminho através do lobby. — Há fotos e tudo, então não tem como ela ter feito isso. Interessante. Eu queria que Ivy estivesse por perto para ouvir isso. — Embora, honestamente? Ela era a minha suspeita número um até que descobri isso — Marc sussurrou, parecendo desapontado. Então, frente ao meu olhar ofendido e desconcertado, ele continuou. — Quero dizer, depois de tudo o que aconteceu no ano passado com Ariana e Thomas Pearson, Noelle parecia suspeita para mim. E o fato de que ela voltou depois que Cheyenne morreu, assumiu o quarto dela, assumiu seu dormitório... — Sim, sim. Eu já ouvi tudo isso antes — sussurrei, balançando a cabeça. — Deus, a sua melhor amiga fica mentalmente perturbada e de repente você é a inimiga pública número um — eu brinquei sem convicção. Marc sorriu. — Então, quem você acha que fez isso? — Ivy Slade — sussurrei de volta. Marc assentiu, sem surpresa. — Pois é. Ela está no topo da minha lista também. Eu sei que ela odiava Cheyenne de alguma forma, mas eu nunca soube o por quê. — É uma longa história, mas por enquanto eu vou apenas dizer que ela tem cerca de dez motivos contra ela. Eu tentei falar com a polícia sobre isso, mas eles nem sequer me ouviram — sussurrei. Largamos nossas bolsas no final de uma mesa na seção de história americana e os alunos do primeiro ano que estavam sentados ali olharam para nós com cautela. Eu os encarei até eles corarem e voltarem ao seu trabalho. Ser uma assustadora suspeita de assassinato tinha seu próprio tipo de poder. Era menos agradável do que o poder do Billings, mas ainda era algo. — De qualquer forma, Ivy não me deixará interrogá-la, e a Web não foi de muita ajuda — disse a Marc, inclinando minha cabeça em direção aos computadores. Minha estação ainda estava vazia, graças à placa de reservado, mas a tela já tinha mudado para o protetor de tela de Easton — a insígnia da Academia Easton saltando ao redor de canto a canto. — Mas meu instinto me diz que ela fez isso. — Você já tentou o LexisNexis? — Marc me perguntou, tirando o gorro e as luvas enquanto eu tirava meu casaco.

60


— O que é isso? — eu perguntei. Ele jogou seu próprio casaco em uma cadeira e depois apontou para que eu o seguisse de volta para o meu computador reservado. Eu estava atrás de Marc quando ele se sentou e abriu uma nova página no Explorer, digitando na janela de endereço. — É um mecanismo de busca só de subscrição — ele disse. — Eu tenho o nome de usuário e senha do meu trabalho de verão no Miami Herald e ainda funciona. É, tipo, uma centena de vezes mais poderoso e completo que o Google e praticamente qualquer outra coisa. Além disso, ele só procura publicações respeitáveis, assim você não obtém qualquer fofoca ou porcaria do Facebook. — Parece bom — eu sussurrei. Peguei uma cadeira vazia de uma mesa próxima e a trouxe até a mesa. Uma vez que acessou o LexisNexis, Marc digitou “Ivy Slade” e teclou enter. Quase que instantaneamente uma lista de artigos apareceu. Alguns deles eram familiares — os mesmos artigos que eu tinha estado olhando por dias, como aquele sobre a competição a cavalo e a morte de Olivia Slade. Eu estava prestes a gemer de frustração quando notei um link do jornal local da Vila de Easton — um link que eu nunca tinha visto antes. Próximo a ele havia uma foto em miniatura que, mesmo em miniatura, parecia poderosamente familiar. Meu sangue gelou ao vê-la. — Abre essa — eu disse, apontando. Eu me sentia tão nervosa que fiquei espantada que a minha mão estivesse firme. Marc clicou duas vezes. Instantaneamente, a foto encheu a tela. Ivy, Cheyenne, Noelle e Ariana sorriam para nós. Era a mesma foto que estava pendurada acima da cama de Ivy. Marc assobiou baixinho. — Isso é estranho — disse ele. — Muito. — “Estudantes da Academia Easton ajudam com a limpeza do Parque Coleman no fim de semana passado” — Marc leu, olhando a legenda. — Eu me lembro disso! Era meu primeiro ano. Havia um parque no centro de Easton que eles queriam renovar e a Academia Easton enviou todas essas crianças para ajudar. Era para ser uma coisa voluntária, mas todo mundo que foi enviado era praticamente porque estava sendo castigado por alguma infração ou outra coisa. Todas do Billings e metade do Ketlar foi. — Qual é a data da foto? — eu perguntei. — Ela foi tirada em... treze de maio — Marc leu. Aquele estranho formigamento de uma descoberta que eu estava sentindo muitas vezes recentemente correu através de mim. Treze de maio. A data era familiar por uma razão. Naquela noite, Ivy e Cheyenne tinham invadido a casa da avó de Ivy, em Boston, e acionado o alarme. Nessa mesma noite, a avó de Ivy tinha sofrido um derrame cerebral e a vingança de Ivy contra o Billings tinha nascido. Esta era a imagem que ela escolheu para manter à vista quase todo o tempo? Ela devia lembrá-la do pior dia de sua vida. Por que ela a manteria tão perto? Por quê? Hum, porque ela é uma psicopata? E então, só assim, me dei conta. Ela a manteve como um lembrete constante de por que ela odiava tanto o Billings. Ela a manteve motivada em sua missão de levar todas nós a baixo. Olhando para cada um dos rostos, por sua vez, tive arrepios por uma razão totalmente nova. Uma presa. Confere. Uma morta. Confere. Noelle era a única que restava.

61


12 MENINA ENIGMÁTICA

—B

em, você me convenceu — Marc disse enquanto nós saíamos da biblioteca uma hora depois. Ele puxou seu gorro mais abaixo da linha da sua testa. — Eu diria que Ivy é uma suspeita bastante decente. Eu tinha acabado de compartilhar a história completa de Ivy/Boston/avó/Billings com ele e ele tinha estado atento ao longo da narração. — Fico feliz por nós estarmos de acordo — eu respondi enquanto eu puxava meu cachecol até o queixo. — Mas ainda temos outra pessoa em nossa lista. — Astrid Chou — dissemos em uníssono. Toda a noite eu estava querendo perguntar por que ele pensou que Astrid era uma boa suspeita, mas tinha estado tão ocupada falando sobre Ivy que eu não tinha tido a oportunidade. Agora ele parou no final das escadas, abraçando-se contra o frio. — Sim, ela é estranha — ele disse, quando uma rajada de vento quase nos derrubou. — Não só ela e Cheyenne têm uma longa história, mas não importa o que eu faça, eu não consigo que alguém me diga o porquê de ela ter sida expulsa de Barton no ano passado. Eu puxei o meu gorro também e me concentrei em não deixar meus dentes tilintarem. Estava além do gélido. — O que você quer dizer com não importa o que você faça? Marc encolheu os ombros. — Bem, eu tentei falar com pelo menos cinco pessoas ou mais de Barton e todos me dizem que seus registros estão selados. O que significa que o que quer que seja que ela fez foi muito ruim. Houve uma sensação de afundamento em meu estômago e meus joelhos começaram a tremer de frio. — Defina muito ruim. — Por exemplo, poderia-ser-violentamente-ruim — Marc respondeu, em tom ameaçador. Minha mente imediatamente regressou a um par de momentos difíceis que eu tinha compartilhado com Astrid recentemente. Ela vasculhando minha bolsa no último jogo de futebol, seu comentário bizarro sobre eu estar tentando tomar o lugar de Cheyenne. E então havia todas aquelas discussões que ela e Cheyenne tiveram no início do ano. Além disso, ela tinha estado realmente paranoica quando ela descobriu sobre o disco Billings... — Merda — eu disse baixinho enquanto o meu coração se afundava ainda mais. O disco Billings. Por que eu tinha quebrado aquela coisa estúpida? Por que eu nunca tinha feito uma cópia? Eu teria apostado a minha vida que as informações que precisávamos sobre a expulsão de Astrid tinha estado em seu arquivo. — O que foi? — Marc perguntou, visivelmente tremendo. — Nada. Eu apenas sou uma idiota — eu disse a ele, começando a andar. Se eu não me movesse logo eu ia me transformar em uma escultura de gelo em forma de Reed. — Eu tinha uma maneira de descobrir sobre Astrid, mas... agora eu não tenho.

62


Eu já havia dito a um número suficiente de pessoas sobre a existência do disco, mas pelo menos todas elas estavam no Billings e, portanto, tinham um grande interesse no referido disco. Marc não precisava saber sobre isso. — Ok, enigmática — Marc disse, mas ele não empurrou mais longe do que isso. Ele caminhava bem perto e ao meu lado, bloqueando o vento. — E seus amigos de Barton? Você conhece algum deles? Talvez eles ouviram alguma coisa. Quero dizer, eles não seriam as fontes mais confiáveis, mas pode ser um começo. Uma compreensão me golpeou e eu parei tão rápido que Marc tropeçou para frente surpreendido. Eu não conhecia ninguém em Barton. Mas eu conhecia alguém que sim. Josh Hollis. — O quê? O que foi? — Marc perguntou, ajustando sua mochila. Eu olhei a oeste em direção aos edifícios exteriores. Perto do Edifício J.A.M. em particular. — Eu sei de alguém que pode ser capaz de nos ajudar — eu disse, sem fôlego. — Quem? — Marc perguntou. — Eu deixarei você saber se eu tiver êxito — eu disse a ele. Então eu me virei em meus calcanhares e fui para o Edifício J.A.M. Josh tinha que estar no estúdio, trabalhando em seu projeto final para a sua aula de pintura. E se ele não estivesse, eu iria ter que encontrá-lo em outro lugar. Nesse momento, ele era a minha única esperança. — Ok, Menina Enigmática! Faça isso! — Marc gritou atrás de mim. Eu não me incomodei nem mesmo em me virar e responder. Eu tinha que me concentrar. Concentrar em manter o meu coração batendo nervosamente dentro do meu peito. Eu estava indo ver Josh. E espero que eu esteja indo limpar o nome da minha amiga. Isso era tudo o que meu cérebro poderia lidar nesse momento.

63


13 PORCARIA

U

ma gota grossa de chuva bateu em meu rosto na metade do caminho do pátio. Segundos depois, a chuva estava caindo torrencialmente, e no momento que eu deslizei para o corredor bem iluminado do J.A.M., meu cabelo estava encharcado e meus dentes batiam. Duas meninas lançaram para mim olhares zombeteiros enquanto abriam seus guarda-chuvas e deslizavam para baixo da chuva, mas eu quase não notei. Minha mente estava correndo com a ideia de falar com Josh. Mas eu me forcei a continuar me movendo. Fui para o estúdio e abri a porta. Havia alguns alunos espalhados por toda a sala, trabalhando ativamente em cavaletes. Todos olharam para cima quando eu entrei. Josh foi o único que não desviou o olhar imediatamente. — Posso falar com você? — eu gesticulei com a boca para ele da porta. O lugar estava tão silencioso que eu não queria perturbá-lo ainda mais. Josh largou o pincel e veio em seguida. — O que aconteceu com você? Você parece uma rata afogada — disse ele. — Vamos para o corredor — eu sugeri. Saímos e deixei cair minha bolsa no chão contra a parede do fundo do corredor. Josh recostou-se no lado oposto, mantendo distância. Próximo a ele estava um quadro de avisos grande cheio de anúncios de vários clubes, peças de teatro e passeios. Um cartaz enorme e colorido do Jantar de Natal estava pregado no centro, me lembrando de quão lamentável era o presente que eu tinha comprado para esse jantar. Mas este não era o momento para isso. — Escuta — eu comecei. — Eu sei que você vai pensar que eu sou louca, e eu sei que você provavelmente não está com vontade de me fazer nenhum favor... — É sobre Ivy? — Josh disse severamente, puxando um velho pedaço de fita adesiva na moldura do quadro de avisos. Eu tentei não estremecer. Sua pergunta era, afinal de contas, lógica. Na última vez que havíamos falado eu lhe disse que ele não conhecia a sua namorada do jeito que eu conhecia, e então eu tinha fugido. — Não, não é — disse-lhe. — Você ainda fala com aquele cara, Cole, certo? O exnamorado de Astrid? Josh e Cole Roget tinham se dado bem na festa de Natal de Cheyenne no ano passado depois de descobrir seu amor mútuo pela arte, e eu sabia que eles haviam mantido contato via e-mail, enquanto Cole estava estudando em Paris na primavera passada. Josh respirou fundo e parou de puxar a fita, ao invés, colocou as mãos para trás contra a parede do corredor. Ele parecia repentinamente desconfortável. Inquieto. — Pois é. Meu irmão e eu, na verdade, nos encontramos com ele uma noite em Viena durante o verão. Por quê? Mordi o lábio e me preparei para a próxima reação dele. Enlaçando meus dedos, levantei minhas mãos sobre meu peito e prendi a respiração.

64


— Existe alguma maneira de você ligar para ele e descobrir se ele sabe por que Astrid foi expulsa de Barton? Josh olhou para mim como se eu fosse louca. — O quê? — Eu juro que é por uma boa razão — eu disse rapidamente. — Você sabe que eu não viria até aqui para pedir que você fizesse isso a menos que houvesse um bom motivo. Especialmente depois da maneira como deixamos as coisas. — Não. De jeito nenhum — disse Josh, endireitando-se e balançando a cabeça. — O que eu diria a ele? “Ei, eu estou ligando pra você do nada para perguntar por que sua exnamorada foi expulsa?” Você está louca. Afastei-me da parede do corredor, arriscando um passo em direção a ele. — Eu sei. Eu sei que é insano. Mas eu preciso saber o que aconteceu, e os registros estão selados e eu acho que... — Eu olhei para ele desesperadamente, não tendo certeza de como ele ia reagir a isso. — Confie em mim. Eu só... preciso ter certeza. Josh olhou para mim fixamente, me olhando como se ele estivesse tentando descobrir o que fazer comigo. Como se nunca tivesse me visto antes. Eu dei o meu melhor para suplicar com meus olhos. Finalmente, ele inclinou a cabeça para frente, levou as palmas de ambas as mãos na testa, e soltou uma espécie de gemido. — Eu sei por que ela foi expulsa — disse ele. Eu senti como se as portas do final do corredor tivessem acabado de se abrir e o vento tivesse me golpeado de lado. — Você sabe? Como? — eu perguntei, meu coração batendo forte de novo. Josh olhou para mim através de seus cílios. Um cacho perfeito tinha caído para a frente sobre sua testa. Mesmo com toda a intriga, tudo o que eu queria fazer agora mesmo era beijá-lo. — Cole me disse durante o verão — ele admitiu, engolindo em seco. Ele cruzou os braços sobre o peito, enfiando as mãos sob os braços e olhando pelo corredor. Seja o que for que Astrid tinha feito, eu poderia dizer pelo seu rosto que apenas pensar nisso o horrorizava. Minha garganta ficou seca de repente. Astrid tinha realmente feito algo terrível? — O quê? — eu perguntei, quase inaudível. — O que foi? Josh entendeu uma mão até suas costas e coçou a parte de trás do seu pescoço. Seu rosto estava ficando mais vermelho a cada segundo que passava. O que quer que seja que ele tinha que dizer, ele realmente não queria dizer. — Josh — eu pedi. — Tudo bem! Astrid dormiu com seu professor de história, está bem? — ele revelou, finalmente, mantendo a voz baixa para que as pessoas no estúdio não pudessem ouvir. — É por isso que ela foi expulsa de Barton. Meu coração parou de bater completamente. Astrid e um professor? Eu imediatamente imaginei ela dormindo com o temido Sr. Barber — o nosso professor de história atual — e quase vomitei ali mesmo nas botas de Josh. Mas espera. Esta era uma boa notícia. Astrid não havia machucado ninguém. Naquele momento, a porta no final do corredor se fechou com um estrondo e nós dois olhamos para cima para encontrar Astrid de pé em uma capa de chuva quente rosa e um gorro combinando, segurando uma bolsa preta grande. Foi demonstrado amplamente a partir do olhar atônito em seu rosto que ela acabara de ouvir exatamente o que Josh tinha dito. — Ah, porcaria — disse ela. — Como foi que você descobriu? Josh e eu ficamos parados por um momento, aturdidos. Astrid se arrastou devagar até nós, suas botas de chuva de bolinhas preta e branca rangendo e guinchando no piso de madeira.

65


— Na verdade, isso não importa. Você não vai contar para Trey, não é? — ela perguntou a Josh. Trey? O que importava o que Trey pensava? — Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo — Josh disse, corando novamente. — Eu sinto muito. O que estou perdendo aqui? — perguntei. Astrid tomou uma respiração profunda e soltou-a de forma audível. Ela tirou seu gorro e despenteou seu cabelo curto e escuro antes de olhar para mim. — Eu tenho estado vendo Trey desde o início do período — disse ela. — O quê? — eu soltei. Como é que eu não sabia disso? Josh e Trey eram colegas de quarto. Como Astrid e eu nunca tínhamos conversado sobre isso? Como Josh e eu nunca tínhamos conversado sobre isso? Especialmente quando estávamos juntos? — Eu sei. Eu sei. No começo eu mantive isso em segredo porque eu não queria que Cheyenne descobrisse — Astrid admitiu. — Quero dizer, é como quebrar o código, não é? Você não namora o ex de uma amiga, certo? Aparentemente não, se a reação de Noelle em relação a Dash e eu era qualquer indicação. Josh arrastou os pés, desconfortável. — Então, depois que ela morreu, eu não queria que todos vocês pensassem que eu era uma vadia traidora, então eu apenas mantive minha boca fechada — Astrid acrescentou. — Foi por isso que você não queria que eu escolhesse Trey da lista ESR — eu soltei. Voltei ao momento em que as Meninas do Billings realmente se importavam comigo, elas tinham criado a lista Encontre Seu Rebote para encontrar para mim um solteiro elegível para me ajudar a superar Josh. Noelle tinha sugerido Trey, mas Astrid havia rechaçado ele — supostamente porque seria muito estranho já que ele era o ex de Cheyenne. — Porque aí você teria que me dizer o que estava acontecendo. — A lista ESR? — Josh perguntou. — É uma longa história — Astrid disse a ele. Agradeci-lhe com meus olhos, aliviada por não ter de explicar a coisa toda. — Mas sim, foi por isso — disse Astrid, sacudindo um pouco de água de seu gorro para o chão. — E Trey foi a razão de eu estar com a Sra. Naylor quando encontramos Cheyenne naquela manhã. Eu tinha passado a noite toda no quarto de Trey jogando jogos online com os garotos e ela tinha acabado de me pegar esgueirando para fora de lá. Ela ia me repreender, mas depois que encontramos Cheyenne e... suponho que ela deixou passar. Astrid olhou para seus pés e eu olhei para Josh. A coisa toda era tão fora da realidade que senti que precisava de algum tipo de confirmação. — Sério. Vocês três estiveram juntos a noite toda? — Sim. A garota é uma grande jogadora. Ela me envergonhou — Josh admitiu com um sorriso, estendendo a mão para dar um tapinha nas costas de Astrid como se fosse uma velha amiga de pôquer. — Eu não acredito que nenhum de vocês me disse — eu disse, atordoada. — A culpa é minha — disse Astrid. — Eu fiz Josh jurar que guardaria o segredo. — Então, terminamos? — Josh perguntou, olhando para mim. — Porque eu tenho um monte de trabalho a fazer... Meu coração retorceu dolorosamente. Ele estava tão ansioso para se livrar de mim. Primeiro, eu tinha falado besteiras sobre sua namorada e então eu o fiz revelar o segredo sujo de Astrid. O que mais eu poderia fazer para empurrá-lo mais longe de mim? — Sim. Terminamos — disse-lhe. — Obrigada, Josh. Ele me deu o mais rígido dos sorrisos antes de voltar para o estúdio.

66


— Eu realmente gostaria que vocês dois, crianças loucas, pudessem se acertar — disse Astrid, soando tão sincera que fez eu querer rir de mim mesma por suspeitar dela. E também por me intrometer em sua vida privada. — Eu sei. Eu também. Eu me inclinei contra a parede de tijolos frios atrás de mim e deixei que tudo o que eu tinha acabado de descobrir me penetrasse, percebendo que tudo isso resultava em um grande ponto positivo. Astrid era inocente. Ela tinha estado com Josh e Trey toda a noite, e Naylor a havia pego se esgueirando depois que Cheyenne já estava morta. A partir desse momento, só havia sobrado uma suspeita. E seu nome era Ivy Slade. Talvez ainda houvesse uma chance para nós dois, crianças loucas, depois que eu mandasse a terceira pessoa que estava entre nós para a prisão.

67


14 VICIADA NO BILLINGS

D

omingo, eu estudava na biblioteca. Estudei durante todo o dia, das 9 da manhã até bem depois de o sol ter baixado. Agora que eu tinha apenas uma suspeita, eu me sentia de alguma forma mais segura. Como se eu pudesse tirar um dia de folga. Tirar um dia de folga e tentar salvar meu futuro acadêmico. Parecia que Ivy tinha decidido dedicar-se a estudar hoje também. Ela havia estado em uma mesa do outro lado da estante enorme à minha direita desde que eu tinha chegado. A cada meia hora mais ou menos, eu me levantava para me esticar ou ir ao banheiro só para ter certeza de que ela ainda estava lá. Enquanto ela estivesse estudando, ela não estaria em algum lugar conspirando contra mim, Noelle, ou qualquer outra pessoa. Ela trocou de parceiros de estudo durante toda a tarde, Josh esteve durante duas horas, o que foi muito divertido para mim, mas ela quase nunca deixou sua própria cadeira. Era uma menina fácil de vigiar. Finalmente, eram cerca de duas horas depois do jantar, e eu definitivamente tinha atingido o meu limite. Eu tinha lido a mesma frase no meu livro de história pelo menos dez vezes e nenhuma informação tinha sido absorvida. Era hora de ir. Mas eu me sentia bem com o meu dia. Eu tinha conseguido fazer muita coisa. Era bem possível que eu pudesse agora evitar ser reprovada nas minhas finais. Um bônus, considerando que a última coisa que eu precisava era perder a minha bolsa de estudos. Reunindo as minhas coisas, eu me levantei e sorri para os outros solitários que estavam espalhados nos lugares ao redor da mesa, todos de cabeça baixa com seus iPods. Nenhum deles sorriu de volta. Mesmo entre os perdedores da escola eu era uma persona non grata. Mas eu só deixei passar. Este tinha sido um bom dia. Eu não ia deixar que ninguém o estragasse. Depois de uma última verificação da posição de Ivy — ainda continuava tomando notas de sua antologia de Inglês — fui para a porta. Lá fora, eu puxei o meu gorro branco de lã para baixo sobre minha testa e comecei a andar cuidadosamente ao longo do caminho de pedra ao redor do pátio. Ontem à noite a chuva havia se transformado em neve, deixando cerca de dez centímetros de uma cobertura branca e imaculada sobre a grama. Os caminhos, no entanto, tinham mais gelo, e mesmo depois de uma batalha durante todo o dia das equipes de escavação, ainda havia manchas do material liso aqui e ali, só esperando a chegada de um estudante desavisado. Eu mantive meus olhos treinados para qualquer partícula de gelo negro. Não foi até que eu estava a uns dez metros de distância que eu percebi que tinha andado até o Billings em vez do Pemberly. Eu parei de caminhar, olhando para o prédio alto que costumava ser a minha casa, e as lágrimas de vergonha inundaram meus olhos. O quão patética eu era? O Pemberly era no sentido oposto. Maldito seja o meu subconsciente. É claro que tinha um senso de humor doentio. Eu estava prestes a girar no meu calcanhar e sair correndo antes que alguém pudesse me ver, quando eu percebi que havia uma música vindo do interior. Todas as luzes estavam acesas no hall de entrada e na sala de estar. Alguém no primeiro andar

68


tinha aberto uma janela e, além da música, eu podia ouvir risos. Risos, conversas e música. As Meninas do Billings estava tendo uma festa. Eu vi Portia e Shelby passando através do hall de entrada vestidas em vestidos de coquetel com tons de pedras preciosas segurando taças de champanhe. Apenas vá embora, Reed. Não faça isso com você mesma. Mas eu não consegui evitar. Eu me sentia atraída para o Billings como uma viciada que necessidade de uma dose. Eu caminhei através da neve intocada, me escondi atrás de uma árvore e olhei ao redor do tronco. De lá eu podia ver através da enorme janela da sala e das janelas menores do foyer. E o que eu vi me deixou profundamente triste. Todas elas estavam lá. Todas as Meninas do Billings. Todas vestidas com esmero. Fogos ardiam em ambas as lareiras e uma árvore de Natal foi decorada em tons de vermelho e prata, no canto da sala. Enquanto eu olhava, Rose colocou os presentes debaixo da árvore e um garçom de smoking ofereceu uma bandeja de canapés. Todo mundo parecia tão feliz. Tão pacífico. Tão quente. E aqui estava eu, olhando do frio, com os sapatos cheios de neve que se derretia rapidamente e lágrimas ameaçando transformar meus cílios em estalactites. Memórias da festa de Natal de Cheyenne do ano passado inundaram a minha mente. Essa foi a primeira noite em que eu tinha chegado a conhecer o seu lado bom. A primeira noite em que eu tinha realmente me sentido ligada a todas as Meninas do Billings, não apenas a Noelle, Ariana e Kiran. Taylor, é claro, havia ido para casa até então. Mas essa costumava ser a minha vida. Esta farra, esta decadência, este calor. Ela ainda deveria ser a minha vida. De repente, duas garotas entraram na frente da janela da sala e sentaram no assento da janela larga, de costas para mim. Meu coração já frio congelou instantaneamente. Havia uma morena e uma loira. Um cabelo escuro e um claro. Um vestido preto e um azul. Noelle e Ariana. O que ela estava fazendo aqui? Por que elas... Fechei meus olhos e balancei a cabeça contra o sangue correndo pelos meus ouvidos. Não poderia ser Ariana. É claro que não podia. Abri os olhos de novo e a menina virou-se para o lado para falar com Noelle. Meu coração começou a bater de novo. Não era Ariana afinal. Era Amberly Carmichael. Mas o que ela estava fazendo, vestida como Ariana? Ela estava tentando parecer com ela? Porque ela estava conseguindo. Ela estava até usando um lenço aqua — acessório de assinatura de Ariana. De repente, eu percebi que era por isso que o estranho deja vu tinha me golpeado no outro dia na cafeteria quando Amberly tinha freneticamente tentado limpar o casaco das manchas de café com leite. Com seu olhar suavizado, com seu cabelo alisado, as roupas um pouco boêmias, Amberly tinha lentamente começado a se transformar em Ariana. Mas por quê? Por que ela queria parecer com uma assassina? Será que ela acha que de alguma forma Noelle gostaria mais dela se ela emulasse a sua ex melhor amiga? Não fazia sentido. De repente, Amberly virou-se para a janela e ficou estupefata. Ela tocou o braço de Noelle como se para alertá-la e eu saltei de detrás da árvore e corri. Corri por todo o pátio coberto de neve, abandonando as passarelas geladas e cortando o meu próprio caminho errático através da neve. A última coisa que eu queria era que Noelle me visse ali de pé como um patético e abandonado Oliver Twist. Mas não era apenas isso. Era Amberly também. Sua transformação tinha oficialmente me assustado. A menina tinha que ser seriamente perturbada se estava propositalmente tentando imitar uma assassina sangue frio.

69


Talvez, apenas talvez, Ivy nĂŁo seja a Ăşnica pessoa no campus que valha a pena analisar, depois de tudo.

70


15 LACAIAS

A

s calouras sempre se reuniam no banheiro do primeiro andar do edifício das classes após o quarto período. Elas corriam até lá rindo alto, tagarelando em grupo e passavam pelo menos 15 minutos fazendo Deus sabe lá o quê antes de regressarem e de saírem para o almoço. O resto de nós evitava o banheiro como se fosse a fonte de ebulição infectada de uma praga. Honestamente, calouras poderiam ser realmente irritantes. Todas elas se vestiam iguais, todas elas soavam iguais, todos elas pareciam iguais. Eu mal podia esperar para algumas delas amadurecerem, criarem suas próprias personalidades e infundir um pouco de variedade no grupo. Mas na segunda-feira após o quarto período, eu quebrei as regras das veteranas. Eu caminhei até lá embaixo direto para o banheiro das calouras. Instantaneamente, todos os seus gritos e risos cessaram. Havia pelo menos dez delas na frente do espelho comprido usando delineador líquido e escovando os cabelos superlisos, mas na minha entrada, todas tinham congelado no lugar como membros de algum tipo esquisito de show de mímica para mostrar os vestidos de um designer. — Estou à procura de Lara e... sua amiga — eu disse. Só assim, toda a sala esvaziou. Compactos Bliss foram jogados em bolsas Cole Haan. Uma dúzia de pares de botas quase idênticas Stuart Weitzman correu por trás de mim porta afora. Apenas duas garotas permaneceram, parecendo que tinham acabado de ser encurraladas por um pitbull raivoso. Lara e Sem Nome. As duas criadas de Amberly. Ou antigas criadas. Agora que ela tinha subido para o Billings, elas eram calouras-lacaias livres. Eu estava esperando usar o fato de que ela as tinha chutado mais rápido do que a temporada passada de Jimmy Choo a meu favor. — Ei — eu disse, soltando a minha bolsa no balcão ao lado das pias de mármore branco. — Não fiquem tão assustadas. — Olhei para a menina cujo nome eu não sabia. Ela era um pouco tímida, com um cabelo loiro escuro que caía abaixo de suas costas. Sem franja. Sem definição de feições. Seus olhos castanhos estavam arregalados quando ela olhou para mim, e ela estava segurando a pia atrás dela para ver se salvava sua vida. — Qual é o seu nome? — Kirsten — ela disse timidamente. — Bonito nome — eu disse com um sorriso, tentando fazê-la relaxar. Seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso. — Obrigada. Eu gosto do seu também. Lara, que era um pouco mais alta e tinha um cabalo loiro um pouco mais escuro que também pendia para baixo de suas costas, bateu no braço de Kirsten com o dorso da sua mão e disse algo baixinho. — Olha, eu sei que há um monte de rumores sobre mim, mas nenhum deles é verdadeiro — eu disse a elas, cruzando os braços sobre o peito. — E tudo que eu realmente quero saber é se vocês se lembram da noite em que Cheyenne... morreu. Eu não queria usar a palavra assassinato. Eu tive a sensação de que Kirsten iria desmaiar se eu o fizesse e racharia seu pequeno crânio abrindo-o sobre a pia. E que, nas

71


palavras dos acrônimos de Portia, não seria NB4. As duas olharam uma para a outra por um longo momento, então se viraram para mim. — É... — disseram em uníssono. — Por acaso vocês se lembram o que fizeram naquela noite? E se Amberly estava com vocês ou não? — eu perguntei. A testa de Lara se franziu, obviamente tentando descobrir por que eu estava perguntando isso. Kirsten, no entanto, respondeu na mesma hora. — Oh, sim. Amberly estava totalmente com a gente. Amberly sempre está com a gente — ela disse, acenando com a mão. — Ou ela costumava estar — disse Lara amargamente. Ela afastou-se das pias e deu um passo em minha direção, olhando-me com discernimento. — O que é tudo isso? Ok, então essa menina era astuta. Eu sabia que ela estava no jornal com Constance, então ela provavelmente estava dando uma de Lois Lane, tentando farejar o meu motivo e coisas assim. Vivendo a vida de um repórter como ela imaginava. — Estou ajudando um amigo com uma história — eu disse, pensando rapidamente. — Você conhece Marc Alberro, certo? Lara relaxou. — Marc? Sim, eu o conheço. — Bem, ele está fazendo um detalhado artigo sobre onde várias pessoas de interesse estavam naquela noite, então eu disse a ele que ia ajudar com as entrevistas — eu disse rapidamente. Olhei para Kirsten para longe dos olhares curiosos de Lara. — Então vocês estavam todas juntas. — Pois é. Essa foi a noite em que estávamos vendo aquele novo DVD de educação física, lembra? — Kirsten disse, virando-se enquanto pegava um brilho labial de sua bolsa. Ela olhou para Lara pelo espelho. — Alguma coisa sobre fusão de Pilates? Nossos abdomens doeram por dias. E então, no meio da noite, Amberly tropeçou numa garrafa de água que nós tínhamos largado lá acordando todas nós, e você jogou seu ursinho de pelúcia nela? Lembra? — Kirsten! — Lara disse através de seus dentes. Ela olhou para mim e corou. — Eu não tenho um ursinho de pelúcia. Eu abafei um riso quando o tom da pele de Lara se aprofundou. — Então Amberly derrubou uma garrafa de água no meio da noite — eu disse. — Ao voltar do banheiro, ou...? — Sim — disse Lara, cruzando os braços sobre o peito. — Ao voltar do banheiro. — Não! Ela saiu, lembra? — Kirsten disse em um tom de censura enquanto ela terminava de pintar seus lábios. — Ela desapareceu por o que pareceu horas e depois voltou para o quarto, tipo, quase ao amanhecer — disse ela, apertando os olhos enquanto tentava se lembrar. Ela levantou uma mão desesperada na direção de Lara. — Eu não posso acreditar que você não se lembra disso. Você é tão louca! Meu coração saltou quando eu assimilei essa informação. Desaparecida por horas? E Lara estava tentando encobri-la? Será que isso significava que Amberly foi a algum lugar que ela não deveria ter ido? Será que ela teve tempo para... — Não foi quase ao amanhecer, Kirsten, era umas duas horas — Lara corrigiu sua amiga. — Eu me lembro porque ainda estava totalmente escuro e tivemos que ligar a luz para secar a água. 2 da manhã: Cheyenne ainda estava viva às duas da manhã. Ela só tinha voltado para o Billings da sala do diretor quase uma e meia, e depois nós tivemos a nossa briga. E me lembro de alguns paramédicos dizendo que o tempo estimado da morte era mais ou menos quatro horas, o que significaria que Amberly estava enfiada de volta em sua cama quando Cheyenne morreu. A menos, é claro, que Lara estivesse errada — ou 4

NB: Nada Bom!

72


mentindo. Em qualquer caso, para onde Amberly tinha ido no meio da noite era um mistério. — Você tem certeza de que eram duas horas — eu disse, olhando para as duas. — Positivo — disse Lara. — Kirsten gosta de exagerar demais. — Ela está certa. Eu gosto. — Kirsten disse com uma risadinha. — Bem, obrigada, meninas. — Eu coloquei minha bolsa no ombro e meu cabelo atrás da minha orelha. — Isso é tudo o que eu precisava saber. — Fiz uma pausa antes de caminhar porta afora. — Diga oi para o seu ursinho por mim — eu lancei por cima do meu ombro. Eu sorri enquanto caminhava para a porta, mesmo que eu tivesse acabado de provar que a mais-nova-popular vadia loira era inocente. Esses dias, eu tinha que encontrar a diversão onde eu poderia obtê-la.

*** No almoço de terça-feira eu me sentei com Diana, Shane e Sonal enquanto elas perguntavam umas as outras palavras do vocabulário de Francês que precisavam saber para suas finais. Como eu não estava na classe de francês, fui capaz de direcionar minha atenção para olhar para o espaço. Que, basicamente significava que eu estava olhando para a mesa do Billings. Noelle e Amberly estavam sentadas uma na frente da outra nos primeiros assentos próximos ao corredor. Noelle em sua cadeira de costume, Amberly na minha antiga cadeira — que também era a antiga cadeira de Ariana. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo elegante, e ela usava uma blusa branca sob um colete cor aqua, um suéter de tricô e uma saia cinza, além de um lenço azul claro. Quando eu a analisei melhor, ela parecia exatamente como Ariana. Eu era a única pessoa aqui que tinha notado a sua transformação? Eu era a única que estava totalmente assustada com ela? — Vocês notaram algo de diferente em Amberly ultimamente? — eu perguntei às minhas companheiras de mesa, interrompendo as trocas de perguntas de vocabulário. — Quer dizer, como o fato de que ela passou de uma vadia choramingona para uma vadia mandona em menos de uma semana? — Shane respondeu, dando uma mordida em seu sanduíche de presunto. — Tem de ser um recorde, mesmo para Easton. Diana e Shane riram. Sonal cobriu a boca com a mão para não cuspir sua salada de frango por toda parte. — Bem, isso e... ela não está meio que se vestindo de forma diferente? — eu perguntei. Todas elas se inclinaram para ver melhor a mesa do Billings. Depois de um momento, Diana encolheu os ombros. — Ainda patricinha e enérgica — disse ela. — Eu juro que a menina tem pelo menos um suéter de tricô de todas as cores do universo. — Eu pensei que as garotas de Seattle deveriam ser mais, como, da terra — Sonal comentou, lançando seu longo cabelo preto atrás de seu ombro enquanto ela chupava os dentes. — Aparentemente Amberly não recebeu o memorando — respondeu Shane. — Mas ela não parece estar tentando imitar alguém? — eu incitei. Elas olharam novamente. — Laura Bush? — Shane sugeriu. Então, todas elas racharam de rir e voltaram ao seu trabalho. Tanto trabalho para isso. Talvez fosse apenas porque eu tinha conhecido Ariana melhor do que elas. Ou talvez eu só estivesse tentando ver algo que não estava lá. E havia sempre a chance de

73


que eu estivesse ficando um pouco obcecada com essa coisa toda do assassinato de Cheyenne. Eu estava prestes a voltar para o meu almoço, quando o ex de Kiran — o menino do Dreck, James — caminhava por perto de Noelle com sua bandeja de comida. Ela disse algo para ele quando ele passou — algo que eu não consegui ouvir, mas que fez todas as outras garotas da mesa rirem. James fez uma pausa por um momento, ficando vermelho beterraba. Por um segundo eu pensei que ele ia dizer alguma coisa, e eu quis que ele fizesse isso. Apenas para se defender. Mas em vez disso, ele abaixou a cabeça e continuou andando. Noelle sorriu feliz consigo mesma e tomou um gole de água, e de repente todos os sentimentos daquele dia terrível no ano passado vieram à tona. O olhar aterrorizado no rosto de Kiran quando Noelle tinha dito a ela que sabia que ela estava saindo com ele. Como Noelle tinha basicamente me chantageado para eu romper com James por ela. O quão atroz e nauseada eu me senti quando eu tinha sido obrigada a fazê-lo. Por mais que eu tivesse aprendido a amar Noelle, eu queria que apenas uma vez ela pudesse ter uma ideia de como ela fazia outras pessoas se sentirem. Apenas uma vez eu gostaria que alguém a chantageasse ou a fizesse se sentir menos do que digna. Naquele momento eu desejei não ter destruído aquele disco do Billings. Teria sido o material perfeito para uma chantagem. Se eu ainda o tivesse, eu poderia usá-lo para fazê-la me ouvir. Fazê-la finalmente ouvir o meu lado. Talvez até mesmo me deixar voltar para o Billings. Que droga de temperamento o meu. Por que eu tinha que partir a coisa pela metade, sem pensar no futuro... E então, só assim, uma intensa onda de calor tomou conta de mim. Como uma epifania. Eu poderia ter feito uma cópia do disco. Eu não tinha, é claro, mas eu poderia ter. Tudo o que eu tinha que fazer era fazer Noelle acreditar que eu ainda tinha a informação e a vantagem era minha. Pela primeira vez desde que ela tinha me arrancado do Billings, eu senti uma emoção estimulante ante a possibilidade. Pela primeira vez, eu pude provar o meu retorno.

*** Eu sabia que teria que colocar meu plano com Noelle em ação o mais rápido possível, antes de perder a coragem. O único problema era que a menina nunca ia a lugar nenhum sozinha. Se eu tivesse qualquer chance de fazê-la me ouvir, ela ir ter que estar sozinha, porque quando outras pessoas estivessem ao redor dela, ela não seria capaz de me dar uma polegada. Isso seria percebido como uma fraqueza, e ela não podia ter isso. Então, naquela noite eu liguei para Sabine e lhe pedi para ficar de olho em Noelle para mim. Se a menina saísse do Billings por conta própria, por qualquer motivo, Sabine iria me ligar. Para minha surpresa, Sabine nem sequer me perguntou por que eu precisava desta informação. Ela provavelmente achava que eu ia tentar encontrar o meu caminho de volta para o Billings. Correto final de jogo, método errado. O convite veio na manhã seguinte. Cedo. Meu coração estava na minha garganta enquanto eu me atrapalhava para atender o telefone, desacostumada a explosões repentinas de música em tal hora ímpia. — Alô? — eu disse, ofegante, tentando sacudir o sono da minha cabeça. — Noelle e Amberly saíram do Café Carma. Elas estão se encontrando com sua organizadora de festas para visualizar as decorações para a pré-festa de Kiran antes que

74


o Café Carma fique lotado — Sabine sussurrou para mim. — Eu sei que ela não está sozinha, mas está perto. Pode ser sua única chance. — Obrigada, Sabine — eu disse, jogando as cobertas de lado. — Boa sorte — ela respondeu antes de eu desligar o telefone. Vesti rapidamente um suéter preto de gola alta e puxei meu cabelo para trás em um rabo de cavalo. No banheiro eu joguei um pouco de água fria no rosto e olhei para meu reflexo. Eu parecia cansada e pálida, mas eu ia ter que tirar o melhor disso. Peguei minha bolsa Chloe e os meus livros e corri do dormitório. O campus estava frio, cinzento e quase deserto, uma vez que a neve imaculada agora estava dizimada por milhares de pegadas de lama. Passei pelo Sr. Cross em seu passeio matinal e entrei no Mitchell Hall. Meu coração saltou em meu peito enquanto eu me aproximava do conservatório e eu respirei fundo, tentando me recompor. Noelle não podia me ver parecendo ansiosa ou hesitante. Tinha que parecer que eu estava no controle. Confiante. — Estou pensando na cor. Bem berrante, uma cor exagerada — Noelle estava dizendo quando entrei na habitação. Sua voz ecoou no espaço de teto alto enquanto Amberly e a planejadora da festa seguiam ao longo da parede da janela. Ela usava um vestido preto de malha, meias pretas e botas pretas, enquanto Amberly usava uma roupa muito semelhante, mas branca. Com o lenço azul, claro. — Estou cansada de luzes brancas brilhantes. Já chega. Vamos de rosa choque, vermelho e roxo. Vamos torná-la uma coisa de Natal sensual e glamorosa. — Brilhante — a planejadora da festa disse, fazendo uma nota em sua prancheta. Ela era uma mulher alta e graciosa com cabelo vermelho e tosquiado e pequenos óculos quadrados. Suas calças de pernas largas verde kelly estavam além da moda, o que fez sua cintura parecer como se tivesse a mesma circunferência de uma lata de refrigerante. — Simplesmente brilhante. — Todo mundo vai morrer — Amberly disse efusivamente. Noelle lhe lançou um breve olhar de desprezo, e eu sabia exatamente o que ela estava pensando — que fracassada. Alguém já não havia morrido? Então, aparentemente, Amberly não era totalmente perfeita aos olhos de Noelle. O pensamento despertou um sentimento caloroso no meu peito. No Café Carma alguém ligou a máquina de espuma e o ruído chamou a atenção do trio. Todas se viraram e me viram. — Oh, olhem — Noelle disse, apontando com o nariz para mim. — É a minha perseguidora. Os olhos da planejadora da festa se arregalaram em alarme. Sua mão trêmula foi direto para seu enorme colar de pérolas em sua garganta. Claramente a reputação de Easton como a capital mundial de assassinatos das escolas particulares tinha circulado. E eu acho que eu estava com os olhos arregalados, considerando o que eu estava prestes a fazer. — Sério, Reed. Está ficando um pouco patético — acrescentou Amberly com uma fungada. — E se você está procurando um convite, continue procurando. Ambas Noelle e Amberly riram e se voltaram para a janela. A planejadora da festa as seguiu, apontando os desafios das janelas do chão ao teto e listando algumas ideias de como lidar com eles. — Noelle, já é o suficiente. Eu preciso falar com você — eu disse, minha voz forte e clara como um sino na sala larga. — É uma questão de vida ou morte. Noelle estalou a língua e jogou o cabelo grosso por cima do ombro. — Tão dramática. E isso foi tudo. Eu andei direito até ela, agarrei seu braço e puxei-a à força para longe das outras.

75


— O que você está fazendo? — Amberly espetou. Noelle realmente tropeçou de lado, pega de surpresa pelo ataque físico. Mas no momento em que ela se recompôs ela se afastou, alisando a frente de seu vestido na altura do joelho. — Você não acabou de me tocar — disse ela. — Sinto muito, mas eu tive que chamar a sua atenção — eu disse a ela em voz baixa. — Você leu algum dos meus e-mails? Amberly quase chegou até nós, mas Noelle ergueu a mão, detendo-a no lugar. A garota pareceu confusa por um momento, sem saber o que fazer, antes de ela retornar mal humorada para a planejadora da festa. — Ah, não — respondeu Noelle. — Essas pequenas missivas foram direcionadas diretamente para a lixeira. Eu apertei meus lábios, frustrada. — Você não deveria ter feito isso. Eu... — Srta. Lange? Tudo bem por aí? — a planejadora da festa perguntou. — Sim — respondeu Noelle, levantando a mão. — Isso não vai demorar muito. Por que vocês duas não falam sobre as árvores de Natal? Estou pensando em falsa, falsa, falsa. Talvez algo de plumas. — Ela me olhou novamente, seus olhos castanhos entediados. — Vá em frente. O que poderia ser tão importante? — Eu acho que Ivy matou Cheyenne — eu disse a ela, com meu pulso acelerado. — Na verdade, eu tenho noventa e nove por cento de certeza de que foi ela. E eu acho que ela vai vir atrás de você depois. Ou de mim, pensei, o medo irradiando através do meu estômago quando eu lembrei das pílulas e da foto desfigurada de mim e Cheyenne. Mas não havia motivo para trazer o meu próprio perigo para esta conversa. Para que eu pudesse manter a atenção de Noelle, isso tinha que ser sobre Noelle. Infelizmente, tudo o que ela fez foi soltar um riso incrédulo que encheu a sala. — Ivy Slade? Essa menina não tem colhões. Boa tentativa, Lambe-Vidros, mas não vou cair nessa. Ela começou a se afastar de mim. Clássico egoísmo de Noelle. Será que ela não via que ela estava em perigo? — Tudo bem. Deixe-me reformular — eu disse, usando meu melhor tom condescendente que eu tinha aprendido com a própria Noelle. E eu sabia que ela iria responder. — E se eu lhe dissesse que ela ainda está chateada porque você, Cheyenne e Ariana deixaram ela sozinha com sua avó no segundo ano? Noelle virou o rosto para mim novamente. Eu nunca tinha visto ela reagir de forma tão automática, tão ferozmente. Normalmente ela tomava um momento de pausa, para assimilar e se recompor antes de reagir a qualquer coisa. — O que você sabe sobre isso? — perguntou ela, empalidecendo. Eu me permiti um momento de triunfo. Finalmente eu tinha feito. Eu realmente fiz ela sentir a incerteza paranoica que ela fazia os outros sentirem todos os dias. Ela não pareceu se divertir mais do que o resto de nós o fazia. E eu não estava nem perto de terminar. — Eu sei de tudo — eu disse, baixando a voz e dando um passo mais perto. — Incluindo o fato de que Ivy culpa você, Ariana e Cheyenne pelo derrame cerebral da sua avó... e pela sua morte. Noelle piscou, os olhos cheios de algo que se parecia muito com medo. Eu estava chegando nela. Ela estava, finalmente, me ouvindo. — Você não acha que tudo isso é um pouco suspeito? — eu perguntei. — Ivy volta para a escola este ano e Cheyenne acaba assassinada dentro de um mês? Ariana está em uma instituição, de modo que ela não pode chegar até ela, mas você... você está bem aqui. Você é a próxima.

76


— Por que você está fazendo isso? — Noelle perguntou, a voz forte, mas seus olhos incertos. — Por que você está tentando me assustar? — Eu não estou — disse-lhe. — Eu estou tentando avisá-la. Estou tentando protegê-la. Noelle olhou-me nos olhos e por uma fração de segundo, eu podia vê-la começar a canalizar. Começar a perceber que eu ainda era sua amiga. Que precisávamos uma da outra. Que uma noite estúpida com um cara estúpido não devia ficar no caminho de tudo isso. Mas então, de repente, seu rosto transformou-se em pedra. — E não me diga. Você sente a necessidade de estar vivendo no Billings para me proteger adequadamente, certo? — Ela soltou uma risada breve e incrédula. — Você realmente está se agarrando a qualquer coisa aqui, Reed. E o desespero, a propósito, não é o apropriado. — Noelle... — Eu não preciso da sua proteção, Lambe-Vidros. Eu não preciso de nada de você — disse ela, cruzando os braços sobre o peito. — Sabe o que eu acho? Eu acho que você deve ter tempo demais em suas mãos no Pemberly se você está inventando histórias como esta. Tempo demais. Seu sorriso era zombeteiro. Ela sabia que eu estava observando-a através da janela na noite de domingo. Ela sabia o quão patética e solitária eu estava. — Eu não estou inventando isso — eu disse, precisando que ela entendesse. — Estou preocupada com você. — Bem, obrigada pela dica — respondeu ela alegremente. — Eu vou ter certeza de manter um olho em uma perdedora que usa pílulas como arma. Ela se virou para ir novamente e eu sabia o que tinha que fazer. Eu não queria, mas eu tinha que fazer. Era hora da chantagem. — Você está errada — eu disse a ela. — Você precisa de mim. Seus ombros caíram dramaticamente quando ela se virou para mim mais uma vez. — Ah, é mesmo? Por quê? Você vai me ensinar tudo sobre os prós e contras da NASCAR? — Escavando minha educação de Classe Média Americana. Que original — eu disse sarcasticamente. Eu puxei a bolsa Chloe de detrás da minha mochila e deixei cair em uma das pequenas mesas do Café Carma. — Lembra do disco que veio com isso? Noelle hesitou. Desta vez, eu sabia que eu a tinha. Ela não estava esperando por isso. — Sim — disse ela lentamente. — Eu acredito que você destruiu bem na frente da minha cara. Eu olhei diretamente em seus olhos e apenas rezei para que ela não fosse capaz de dizer que o que eu estava prestes a dizer era uma mentira completa. — Eu fiz uma cópia. O quão estúpida você acha que eu sou? — eu disse. Dentro de mim eu sabia exatamente o quão estúpida eu era, mas ela não precisava saber disso. Ela estudou o meu rosto, e eu fiz esforço para não piscar. — Eu ainda o tenho, Noelle — eu disse. — Eu posso jogar essa informação para toda a escola, para a comunidade Easton inteira — ex-alunos e pais incluídos — a qualquer momento. Tudo o que há para saber sobre você e todas as minhas irmãs Billings. Lá fora, para todo o mundo ler e apreciar. A expressão de Noelle estava perplexa, incrédula. Eu a tinha. Eu a tinha tanto, tanto. — Você está tentando me chantagear — disse ela alegremente. — Isso é tão bonito! Okay. Então, talvez eu não a tinha. Seu comentário passou direto sob a minha pele. Eu estava perdendo o controle da coisa. Perdendo um grande momento. Mas eu não ia desistir ainda.

77


— Deixe-me voltar para o Billings, Noelle — eu disse baixinho. — Deixe-me voltar ou eu vou fazer isso. Eu vou mandar por e-mail todos os arquivos para todos que nós conhecemos. Noelle estreitou seus olhos castanhos. — Vá em frente — disse ela. — Não há nada lá que eu me envergonhe. Entretanto para as outras, se elas têm segredos, isso é problema delas. Vá em frente e envie. O resultado pode ser realmente divertido. — Então você está dizendo que prefere ter todas as suas colegas de casa e amigas humilhadas — em alguns casos devastadas — do que deixar eu voltar — eu disse, incrédula. Noelle sorriu muito lentamente, fazendo com que o meu coração caísse aos meus pés. — Sim, Reed. Isso é exatamente o que eu estou dizendo.

78


16 MINI ARIANA

E

u não estava chegando a lugar nenhum. Com Noelle, com Josh, com meu trabalho escolar. Naquela noite, eu me sentei em uma mesa no primeiro andar da biblioteca, olhando diretamente para as lombadas dos livros da prateleira oposta. Nem sequer estava tentando fingir que estava estudando. De nenhuma maneira eu ia conseguir me concentrar. Noelle nunca ia me deixar voltar para o Billings. Josh nunca ia me deixar voltar para sua vida. E ninguém além de Marc acreditaria no que eu sabia que era verdade com respeito a Ivy. Eu poderia terminar sendo expulsa da escola também. Qual era o ponto de ficar aqui? — Oi, Reed. Sabine deslizou na cadeira em frente da minha e olhou para o meu livro. — Inglês? Bom. Eu estou tão atrasada em Inglês. Quer que trabalhemos juntas? Eu olhei para seu rosto ansioso, seu cabelo puxado para trás em uma grossa trança francesa, e suspirei. — Claro. Mas eu preciso me reabastecer. Eu só vou pegar algo de chocolate. — Peguei minha carteira da minha bolsa e me levantei. — Você quer alguma coisa? — Não, obrigada — Sabine disse alegremente. Tão alegremente que eu estava começando a me perguntar se ela achava que poderia levantar o meu humor por osmose. Até agora, não funcionou. Mas eu aplaudia seu esforço. Caminhei ao longo da parede para o pequeno recanto onde as máquinas de venda automática estavam alojadas e esperei enquanto um menino com o rosto cheio de espinhas selecionou uma barra de chocolate a sua escolha. Quando ele se virou e me viu, ele começou visivelmente a deslizar para longe de mim como se eu estivesse em chamas. Eu balancei a cabeça e comecei a inserir as minhas moedas na máquina. As pessoas realmente eram tão infantis. — Olá, Lambe-Vidros. Amberly Carmichael entrou na alcova e se apoiou com um ombro contra a máquina de venda automática, tão perto que eu podia sentir o cheiro do frescor de menta de sua respiração. Ela usava um suéter branco imaculado com gola de pele falsa e um lenço azul aqua no pescoço. Seus olhos azuis se estreitaram quando ela me olhou. Mesmo de perto, sua semelhança com Ariana foi o suficiente para gelar os meus ossos. — Não me chame assim — eu disse entre dentes. — Na verdade, eu acho que posso chamá-la do que eu quiser — disse ela. — Você se tornou tão insignificante. Seria triste, realmente, se você não merecesse isso. Eu simplesmente olhei para ela. Eu estava tão atordoada por sua audácia que eu não poderia nem começar a enfrentá-la. — Ouça, Reed. — Ela disse meu nome como se suas quatro letras poluíssem sua boca. — Eu ouvi tudo o que você disse a Noelle esta manhã. Você realmente deve trabalhar em sua voz de chantagem — ela disse, baixando a voz para um sussurro. — Eu sei sobre o disco. E se você pensa por um segundo que eu vou deixar que você traga alguma dessas informações à público, você está muito enganada.

79


Risos transbordaram dos meus lábios. — Oh, estou? Um olhar frio e furioso brilhou no rosto de Amberly e meu coração parou. Ariana. Tão Ariana. — Eu faria qualquer coisa para proteger minhas irmãs Billings. Mesmo que minha mente tenha feito comparações perturbadoras entre esta maluca e a outra, eu tive que rir de novo. Eu não consegui evitar. Qualquer que seja o ar de grandeza que ela estava tentando usar, quem quer que seja que ela estivesse tentando se transformar, esta pequena arrivista havia estado no Billings por poucos dias. Eu estava lá há mais de um ano. Aquelas meninas eram mais minhas irmãs do que jamais seriam dela. — Estou feliz que você ache que isso é tão hilariante — Amberly disse, colocando as mãos atrás das costas. — Mas eu quero esse disco, e se você não fizer isso até amanhã à noite, você vai se arrepender. Eu podia imaginar o que equivalia às consequências no mundo de Amberly. — O que você vai fazer? Jogar um ursinho de pelúcia na minha cabeça como a sua amiga fez com você? Por uma fração de segundo, os velhos e atônitos olhos de Amberly estavam de volta. Claramente, ela foi pega de surpresa pelo meu conhecimento sobre sua vida pessoal. Noelle teria estado tão orgulhosa de mim. Se ela ainda estivesse inclinada a me notar. — Caramba, Amberly, obrigada pelo aviso — eu disse, aproveitando o meu momento. — Eu vou ter a certeza de manter um olho alerta em animais de pelúcia voadores. Eu comecei a ir embora, sentindo-me bastante bem comigo mesma, mas sua mão disparou e agarrou meu braço. — A fatura — ela disse, segurando um pedaço de papel amarelo na frente do meu rosto. — Pela lavagem a seco. Vadia. Vadia. Vadia. Vadia. — Você pode me dar o dinheiro amanhã, quando você me der o disco — ela disse com um sorriso. Ela se esgueirou para fora da alcova assim que Sabine entrou. Sabine olhou para mim, claramente sentindo a tensão espessa no ar. — Oi, Sabine — Amberly disse alegremente quando ela passou por sua colega de quarto. — Oi — Sabine respondeu hesitante. — O que foi isso? — ela me perguntou no momento em que Amberly se foi. Ela olhou para a fatura de lavagem a seco na minha mão. — A conta dela — eu disse, segurando-a no alto. — Pela lavagem a seco. O papel fino tremia na minha mão. Eu estava borbulhando de raiva. — Não. Eu pensei que ela estava brincando — Sabine disse, incrédula. — Você não vai pagá-la, não é? — Hum, não — respondi, amassando o recibo e empurrando-o no bolso da minha calça jeans. — Eu realmente não gosto dessa garota. — Bem-vinda ao clube — Sabine disse, passando por mim para colocar algum dinheiro na máquina de doces. — Eu decidi que precisava de um pouco de chocolate depois de tudo. O que você quer? — Nada, obrigada — eu disse, respirando fundo. — Eu estou bem. Chocolate não era mais necessário. A adrenalina deveria me manter pelo menos por uma hora. E se eu nunca mais visse a Mini Ariana novamente, seria cedo demais.

80


17 DEJA VÔMITO

E

u marchei de volta ao meu quarto à noite, meu corpo cansado, meus olhos entrecerrados. Eu tinha ficado na biblioteca muito mais do que eu pretendia, e eu ainda podia sentir a cadeira dura e desconfortável da biblioteca pressionando nas minhas costas. Meu cérebro estava cheio de personagens literários, motivos e conspirações que Sabine e eu tínhamos lido várias vezes ali, e os meus dedos tinham ficado atrofiados de tanto tomar notas. A boa notícia é que eu estava tão cansada que eu provavelmente iria desmaiar em cerca de cinco minutos. Não ficaria deitada acordada olhando para o teto e deixando que o frio e sufocante cobertor da solidão me superasse. Não ficaria atormentada com meu quarto individual e minúsculo e tudo o que ele representava. Não me preocuparia com comprimidos, fotos marcadas com X e outras lembrancinhas mórbidas. Mas então, na penumbra do atapetado corredor do Pemberly a cerca de cinco passos do meu quarto, um cheiro familiar vibrou em minhas narinas. Eu congelei. Meu coração saltou de medo e tentei respirar pela boca, mas não foi uma boa ideia. O cheiro era tão forte que eu poderia prová-lo. O perfume de Cheyenne. O doce aroma floral doentio de Fleur. Ele encheu meus sentidos. Alguém tinha pulverizado por todo o salão. Não. Não, de novo não. Não outra vez. De todos os presentes que meu perseguidor tinha me deixado, este sempre foi o mais assombroso, o mais visceral, o mais... Cheyenne. Eu olhei para a porta fechada do meu quarto. Alguém no piso estava ouvindo Bach no volume máximo. Minha cabeça começou a latejar no ritmo de uma corrida. Corra. Apenas corra. Não vá lá. Nada de bom pode vir lá de dentro. Mas para onde mais eu iria? Tremendo da cabeça aos pés, eu me aproximei da minha porta. Coloquei minha mão em torno da maçaneta fria. Fechei os olhos e fiz uma oração rápida. Que eu estava imaginando coisas. Que meu quarto estaria exatamente como eu o havia deixado. E então eu abri a porta e acendi a luz em um movimento rápido. Um olhar para o que estava diante de mim e eu cambaleei para trás. Minha visão embaçou e eu tive que colocar as mãos sobre os joelhos para evitar cair. — Não. — A palavra escapou dos meus lábios. — Não, não, não. Em algum lugar no piso, uma porta bateu. Assustada, eu me agarrei ao metal frio do batente da porta e apertei meu rosto quente contra ele, meus olhos descontroladamente escaneando meu quarto. Por que isso estava acontecendo comigo? Por quê? Minha cama tinha sido despojada, o edredom estava enrolado no chão, os travesseiros estavam sem fronha e atirados no pé da cama. Os lençóis jogados pelo chão. Esmagado no centro do quarto no tapete novo e alegre que Sabine tinha me dado estavam dezenas e dezenas de potes de blushs. Rosa e marrom polvilhado por toda parte.

81


Eu comecei a hiperventilar, respirando o cheiro do perfume de Cheyenne, até que comecei a envenenar o meu cérebro. Cheyenne. Ela tinha feito isso comigo no primeiro dia de tarefas no ano passado. Naquele dia eu tinha sido acordada da minha cama do Billings e forçada a fazer o que as moradoras me pediam. Cheyenne tinha me dito que ela gostava de seus travesseiros afofados e seus lençóis esticados. E quando eu tinha terminado a tarefa ela tinha esmagado um pote inteiro de blush em seu tapete florido branco e verde. Ela exigiu que eu o limpasse. De repente, o meu jantar decidiu fazer uma reaparição. Afastei-me do meu quarto e fugi para o banheiro. Eu deixei minha mochila no corredor e tirei o meu casaco. Meus joelhos atingiram o duro azulejo do primeiro cubículo justo a tempo. Tudo o que eu tinha comido nas últimas cinco horas voltaram para cima. As lágrimas escorreram pelos meus olhos quando eu vomitei. Felizmente o banheiro estava vazio. Graças a Deus por esse pequeno favor. Finalmente, eu me sentei sob minha bunda e dei descarga no vaso sanitário. Limpei minha boca e meu nariz com a mão e sequei minhas lágrimas, tremendo incontrolavelmente. Minha têmpora estava latejando, minha visão estava turva. Meu perseguidor tinha me afundado a um nível mais baixo. Essa tinha sido uma das piores manhãs da minha vida, e meu primeiro contato real com Cheyenne. Ver aqueles blushs me atingiu com mais intensidade do que quaisquer uma das outras brincadeiras que tinha feito comigo e do que os presentinhos — ainda mais do que o perfume. Quem estava fazendo isso estava realmente tentando me deixar louca. E talvez estivesse conseguindo. Uma menina não poderia suportar tanto. Eu pressionei minhas palmas no azulejo frio dos meus lados e me empurrei para cima. Eu limpei minha garganta quando eu saí provisoriamente do boxe e virei ao redor do muro que separava parcialmente os banheiros das pias e dos chuveiros. Lá eu descobri que eu não estava, de fato, sozinha. Ivy estava em uma das pias, sorrindo feliz para mim. — Ok, isso foi nojento — disse-me ela, agarrando sua bolsa. — Bulimia é tão século passado, Reed. Da próxima vez que você quiser eliminar seus cookies, faça na privacidade do seu próprio quarto. É para isso que servem as latas de lixo de plástico. Então ela se virou e saiu do banheiro, com o nariz no ar. Olhei-me no espelho acima da pia, meus olhos estavam vermelhos e meu nariz todo inchado. E foi então que eu senti outra onda de náusea. Porque Ivy não poderia ter feito esta brincadeira particular. Ela ainda não tinha estado aqui no ano passado. Não tinha como ela poder saber sobre minha primeira tarefa. De jeito nenhum ela poderia saber o que Cheyenne tinha feito para mim. Agarrei os lados da pia e olhei em meus próprios olhos aterrorizados. Todo esse tempo eu tinha tanta certeza de que era Ivy. Mas as únicas pessoas que sabiam o que tinha acontecido naquela manhã eram as Meninas do Billings.

*** Depois de lavar o tapete na pia, refazer a cama e abrir a minha janela para eliminar o cheiro (em que usei toda a minha força e cerca de 20 minutos de luta contra anos de acúmulo de tinta), eu finalmente me meti na cama. Então eu estava ali acordada, tremendo de frio por causa do vento que entrava através da janela, com medo de fechar os olhos.

82


Se não era Ivy, então quem era? Quem me torturaria assim? Eu tinha muitos inimigos agora, com certeza, mas quando tudo isso começou, não havia ninguém. Ninguém, além de Ivy, que odiava todas do Billings. Ou Ariana, é claro, mas ela estava trancada em algum lugar. Se não fosse Ivy, então eu estava perdida. Se não fosse ela, então poderia ser qualquer um. Se eu pudesse falar com Noelle. Ela saberia o que fazer. Ela saberia exatamente como farejar meu perseguidor, como pegar a pessoa em flagrante ou algo assim. Se pelo menos ela falasse comigo. Fizesse eu me sentir melhor sobre a situação. Fizesse eu me sentir acima de tudo. Fizesse eu me sentir segura. Mas isso nunca iria acontecer. Noelle nunca iria me perdoar. Eu estava por minha conta. Enquanto eu olhava fixamente para o teto de estuque friável, mil pensamentos giravam na minha cabeça, mas um manteve-se a frente de todos. Eu tinha que ganhar Noelle de volta. Ela era a chave para pôr fim a tudo isso. Ela era a chave para ganhar de volta a minha vida. Eu desejei ter dito a ela sobre a perseguição desde o início, mas eu tinha sido muito orgulhosa. Tinha tido muito medo de deixá-la saber que havia uma brecha na minha armadura. E olha para o que essa atitude tinha servido. Eu deveria estar na minha cama confortável no Billings agora, dormindo com minhas preocupações longe. Eu deveria estar planejando a festa com Noelle, comprando presentes extravagantes e planejando minhas férias de Natal em St. Bart. Em vez disso, eu estava deitada no meu quarto minúsculo sozinha, com o presente de Natal idiota que comprei pra Josh encostado na parede, ouvindo Ivy rindo ao telefone, enquanto eu estava presa aguardando mais um natal cinza em Croton, Pensilvânia. E, ah, sim, eu estava vivendo ao lado de uma potencial assassina. A mesma menina que estava, agora, flertando com o amor da minha vida, justo do outro lado da parede de baixa qualidade. A mesma menina que estava potencialmente tramando o assassinato da minha ex melhor amiga. Pelo menos, enquanto ela estava paquerando, ela não estava matando ninguém. Eu acho que sempre há um lado positivo. Eu rolei para o outro lado e gemi, enrolando o lençol na minha mão. Como eu poderia chamar a atenção de Noelle? Como eu poderia fazê-la me levar a sério de novo? Como eu poderia compensar as coisas com ela? Tudo dependia disso. Se Noelle me perdoasse, eu não só poderia ter minha vida de volta, mas eu poderia proteger — até salvar — a dela. Eu tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê? Como eu poderia mostrar a Noelle o quanto ela significava para mim? Graças a mim e meus sete minutos no céu com Dash, eu tinha sido humilhada publicamente. Como é que uma pessoa compensava isso? De repente, eu me endireitei na cama, tão animada que eu quase engasguei com minha própria respiração. A resposta era tão óbvia, tão flagrantemente óbvia que eu não podia acreditar que eu não tinha pensado nisso antes. Eu joguei minhas cobertas de lado e pulei da cama para ligar meu computador. Eu finalmente tinha um plano. E isso ia dar certo. Tinha que dar.

83


18 ROSE E IVY

Q

uinta de manhã eu estava exausta e minha mente nebulosa. Mesmo depois da minha epifania com Noelle, eu não tinha sido capaz de fazer outra coisa além de ficar obcecada com isso por toda a noite. Eu não podia sequer imaginar iniciar uma conversa com alguém, por isso no café da manhã eu decidi me sentar sozinha. Eu arrastei minha bunda até uma das mesas menores perto da parede do refeitório e caí em uma cadeira fria. Apoiei a cabeça na minha mão, peguei meus Cheerios, os coloquei no leite até que cada um estava tão encharcado que eu nem queria comê-los mais. Meus olhos doíam. A pele em torno dos meus olhos doía. Até o meu couro cabeludo doía. Eu nunca tinha estado tão cansada, tão frustrada e tão assustada na minha vida. Tudo o que eu podia fazer era esperar que o meu plano com Noelle funcionasse. Tudo que eu podia fazer era esperar que o perseguidor não atacasse novamente antes do plano dar certo. Porque eu não tinha certeza de quanto mais disto eu poderia suportar. O que eu faria se não funcionasse? Para quem eu me voltaria então? Uma risada familiar chamou minha atenção e eu olhei para a mesa do Billings. Lá estava Noelle, com a cabeça jogada para trás rindo, com a cara fresca, linda e despreocupada. Será que ela não via o quão miserável eu estava? Será que ela não se importava, afinal? Em seguida, Sabine se aproximou da minha mesa, bloqueando a minha visão. — Oi — ela disse timidamente. — Você se importa se eu me sentar? — Você provavelmente não deve — eu disse a ela sem rodeios. — Noelle irá tornar sua vida um inferno. — Eu não me importo. Sabine colocou a bandeja para baixo e alisou a saia lápis marrom de tweed debaixo dela enquanto ela se sentava. Ela deslizou seu guardanapo de linho para fora e desdobrou-o no colo. — Você é minha amiga, e se Noelle não gostar, c’est la vie5 — disse ela. Eu estava tão emocionada que meus olhos se encheram de lágrimas. Sabine era a única amiga de verdade que tinha me restado. Até mesmo Constance só falava comigo quando não havia chance de ela ser pega. Não que eu não entendesse. Constance tinha, afinal, medo de Noelle. Como eu tinha no ano passado. Mas isso só fazia o sacrifício de Sabine ser ainda mais especial. Agora eu precisava de ambas as mãos para manter minha cabeça erguida. — Reed? O que foi? Está tudo bem? — Sabine perguntou, preocupada. — Não. Eu não estou — eu disse, olhando para a minha tigela de cereal. Minha voz estava grossa com lágrimas não derramadas. — Está acontecendo de novo. Uma lágrima quente escapou do canto do meu olho e eu a deixei correr direito para o lado do meu nariz e pingar na minha bandeja. Eu estava tão cansada. Tão, tão, tão cansada.

5

C’est la vie: A vida é assim.

84


— O quê? — Sabine perguntou, sem fôlego. Ela se inclinou para a mesa. — O que está acontecendo de novo? Reed, você está me assustando. Não faça isso. Não diga. Você manteve o segredo por tanto tempo... por que dizer agora? Porque eu estou exausta. Porque eu preciso de ajuda. Porque todo mundo já acha que eu sou louca mesmo. Eu olhei para Sabine. Seus olhos verdes estavam arregalados de preocupação. Ela era claramente a única pessoa que se importava comigo por aqui. O próprio pensamento era tão avassalador que eu desabei como uma tenda de papel. — Alguém está me perseguindo — sussurrei, meu rosto quente de vergonha. — O quê? — Sabine suspirou baixinho. Ela fechou o guardanapo em suas mãos e o retorceu. — O que você quer dizer? — Nos últimos dois meses, alguém vem deixando coisas para eu encontrar... coisas relacionadas com Cheyenne — eu disse rapidamente. Eu não podia acreditar que estava finalmente deixando isso sair, mas, na verdade, eu me senti um pouco melhor compartilhando isso com alguém — eu me senti me libertando. — Elas estavam em nosso quarto. Deixaram bolas pretas na minha gaveta e roupas de Cheyenne no meu armário, plantaram aquele perfume na minha bolsa no dia da arrecadação de fundos, me mandaram e-mails como se fossem de Cheyenne. Centenas e centenas de e-mails. Eu acho que eles até mesmo pegaram uma foto de mim e Cheyenne da minha gaveta e prenderam no meu quadro de anúncios... lembra? Sabine mordeu o lábio. — Que foto? Eu estava tão frustrada. Eu deixei as duas mãos caírem sobre a mesa, o que causou um barulho de talheres e pratos. — Esqueça isso. Isso não é importante. Mas quem quer que seja realmente ficou louco desde que eu me mudei para o Pemberly. — Olhei em volta para me certificar de que ninguém estava a uma distância que desse para escutar, depois baixei a minha voz só para ter certeza. — Me deixaram umas pílulas. As mesmas que Cheyenne usou para se matar. Ou, bem, quero dizer, as mesmas utilizadas pelo assassino para matá-la, eu acho. Sabine engasgou e cobriu a boca com a mão. — O quê? — Pois é. E essa foto de mim e Cheyenne, bem, a pegaram novamente, mas desta vez marcaram nossos rostos com um X. E ontem à noite, destruíram o meu quarto. Deixaram a cama desfeita e fizeram outras coisas que Cheyenne fez uma vez para mim... — eu parei, com falta de ar. Alguém em uma mesa próxima riu, e um copo se quebrou no outro lado da sala, extraindo uma rápida rodada de aplausos — lembrando-me de onde eu estava. Por um momento, eu havia estado tão focada em minha história que eu tinha me esquecido. — Sabine, eu não quero nem voltar para o meu quarto. Por um longo momento Sabine não disse nada. Ela endireitou-se na cadeira, ainda abalada, e olhou para a mesa, claramente tentando processar tudo o que eu disse. — Eu não posso acreditar nisso — disse ela finalmente. — Por que você não me contou isso antes? Esta pessoa parece perigosa. — Eu não queria que você pensasse que eu era louca — eu admiti, brincando com o meu copo de água. — Eu pensei que eu poderia lidar com isso sozinha. Ou eu pensei que ia desaparecer. Mas isso não aconteceu. Só piorou. Sabine empurrou a bandeja para frente e cruzou os braços na frente dela. — E você não tem ideia de quem seja? — Não — eu disse miseravelmente. — Eu pensei que sim, mas... Sabine dobrou o guardanapo sobre seu colo. Ela empurrou uma mecha de seu cabelo escuro atrás da orelha e olhou para mim. — Isso pode soar estranho — disse Sabine timidamente. — Mas você já pensou em Ivy?

85


Eu senti como se eu tivesse estado girando, girando e girando no lugar e alguém tivesse estendido a mão para me parar. Como se o mundo inteiro tivesse voltado ao foco. Finalmente. — Por quê? Você sabe de alguma coisa? — eu perguntei. Sabine olhou por cima do ombro antes de se inclinar ainda mais longe. — Eu não pensei nada disso na época, mas eu vi Ivy dentro do Billings na manhã da arrecadação de fundos. Todos os cabelos da minha nuca se arrepiaram. — Dentro? Como? — Eu acho que... eu acho que ela estava visitando Rose. Pelo menos, ela estava saindo do quarto de Rose — Sabine admitiu. — Eu imaginei que elas eram velhas amigas, por isso não pareceu tão estranho para mim, mas agora... é meio que uma grande coincidência, não é? Ela poderia ter deixado o perfume de Cheyenne para você naquele dia. Minha mente cambaleou e um frio tremor passou através de mim, fazendo eu me agarrar ao meu suéter. Rose. Rose poderia ter deixado Ivy entrar no Billings todo esse tempo? Ela poderia ter ajudado Ivy a me torturar? Ela era a única pessoa que estava no quarto quando Cheyenne tinha jogado as esferas de blush no tapete. Tudo fazia sentido. E eu sabia que ela ainda estava amigável com Ivy. Ela e Portia foram as que tinham lançado a ideia de voltar a estender o convite de Ivy para o Billings no início do ano. Talvez ela estivesse tentando fazer Ivy e Cheyenne voltarem a ser amigas. Tudo delicadamente. Isso era totalmente seu estilo. Mas então por que a pequena e doce Rose estaria me perseguindo? Ela tinha sido a melhor amiga de Cheyenne. Será que ela realmente achava que eu tinha feito Cheyenne se matar? Ela estava me punindo? Será que ela me culpava pela expulsão de Cheyenne? — Onde ela está? — eu disse, olhando para a mesa do Billings. — Eu tenho que falar com ela. — Rose? Você não ouviu? — Sabine disse, atacando um pedaço de melão com o garfo. — Ouvi o quê? — eu perguntei, minha garganta se fechando. — Ela foi para casa ontem de manhã — respondeu Sabine. — Ela tem mononucleose ou algo assim, então eles a mandaram para casa para que ela não espalhasse. — Mononucleose? — eu repeti. Isso parecia um pouco conveniente. Bem quando eu estava em um grande avanço, a menina que poderia resolver tudo havia fugido do campus? Meu pulso acelerou pelas minhas veias como um trem de carga sem freio. Era tudo uma grande coincidência. Tinha que ser Rose e Ivy. Tinha que ser. Mas por quê? — Você deveria ir à polícia — Sabine disse, com seus olhos sérios. — Estou falando a sério, Reed. Se alguém está perseguindo você, isso é um crime grave, não é? Eu bufei. — Eles não vão me ouvir. Eu já pedi para investigarem Ivy e eles não se incomodaram. Preciso ter alguma evidência concreta. — Bem, e se você tirasse fotos dos danos no seu quarto? — Sabine perguntou. — E mostrasse a eles. Meu rosto ardeu de vergonha. Não havia me ocorrido tirar fotos. Eu tinha estado muito ocupada surtando e tentando limpar tudo para que eu não tivesse que olhar mais. — Não. Não há fotos — eu disse. — Oh. — Sabine mastigou lentamente. — Bem, então, da próxima vez... quer dizer, se houver uma próxima vez — disse ela confortavelmente —, certifique-se de tirar fotos. — Eu farei isso. Eu cruzei os braços sobre a mesa e apoiei meu queixo em cima deles, percebendo que eu realmente me sentia aliviada. Só assim, eu poderia colocar Ivy de volta no topo

86


da minha lista. Eu já não tinha que fazer uma nova lista de suspeitos perseguidores. Eu não teria que olhar por cima do meu ombro a cada segundo — só quando Ivy estivesse por perto. Outra risada na mesa do Billings chamou nossa atenção. Sabine revirou os olhos quando ela deu outra mordida no melão. — Estou cansada dessa menina, Amberly — disse ela. — Me fala sobre ela — pedi, feliz pela mudança de assunto. Algo para me distrair. — Aposto que ela é uma droga de companheira de quarto. — Eu não sei — respondeu Sabine. — Ela está no quarto de Noelle vinte-e-quatrosete. Elas estão fundidas pelo quadril. Tudo o que fazem é falar sobre seus planos de viagem para o Natal. Noelle ainda deu a Amberly uma mala de viagem vintage da Louis Vuitton. Portia disse que vale mais do que o carro de Noelle. Eu podia sentir a minha pele ficando verde. Era estranho até mesmo pensar em Portia e Sabine em torno do Billings, discutindo essas coisas. Estranho pensar que a vida no Billings era normal sem mim. — Eu não entendo o que Noelle vê nela — eu disse entre dentes. — Você acredita que essa pequena idiota tentou me chantagear? — Não! Como? — Sabine perguntou. — Lembra da outra noite na biblioteca quando você entrou e nos encontrou nas máquinas de venda automática? — eu disse. Sabine assentiu, obviamente intrigada, o garfo suspenso sobre sua salada de frutas. — Ela basicamente me disse que queria que eu desse a ela aquele disco do Billings ou então... — eu disse, revirando os olhos. A cara de Sabine vacilou ligeiramente. — Mas você destruiu o disco. — Eu sei, mas eu disse a Noelle que eu ainda tinha uma cópia — eu respondi, corando um pouco quando recordei minha própria estúpida tentativa de chantagem. — Ah. Mas você não tem? — Sabine perguntou, empurrando a comida ao redor. — Não. Eu estava apenas tentando chamar a atenção de Noelle — eu disse, com um suspiro, cruzando os braços sobre a mesa. — De qualquer forma, foi Amberly que ficou toda Soprano sobre isso. Como se ela estivesse disposta a fazer qualquer coisa para proteger a si mesma. — Bem, é uma coisa boa ela não poder colocar as mãos nessa informação — Sabine disse, colocando o garfo para baixo, finalmente. — Não seria bom para ninguém se isso se espalhasse. — Eu sei. Eu meio que tenho a sensação de que, não importa o que ela diz, a nossa privacidade não seria a sua primeira prioridade — acrescentei, olhando para Amberly quando ela estendeu a mão para mostrar as unhas bem cuidadas para Lorna. — Uma arrivista avoada como ela? Definitivamente não — concordou Sabine, seguindo meu olhar. — Bem, tanto faz. Eu estou morrendo de vontade de ver qual é a versão dela de “ou então...” — eu disse, com uma risada, enquanto me levantava. — Eu vou pegar mais um pouco de cereal. Quando voltei para a fila de alimentos, Ivy e Josh estavam saindo do outro lado com os seus cafés da manhã. Para minha surpresa, Josh disse oi para mim, mas Ivy simplesmente sorriu. Apertei os olhos para ela e não desviei o olhar até que a expressão sarcástica desapareceu completamente de seu rosto. Ela e Rose estavam me torturando. Eu tinha certeza disso. Agora tudo o que eu tinha a fazer era encontrar a prova. E fotografá-la.

87


19 DIFÍCIL

E

nquanto eu estava sentada nos serviços matinais ouvindo o zumbido de Crom sobre as regras e regulamentos para amanhã à noite no Jantar de Natal de Easton, eu percebi que eu me sentia melhor do que eu estava no café da manhã. Quase tão bem quanto uma pessoa na minha posição bastante precária e patética poderia estar. Eu me virei em meu banco um pouco para olhar para trás na direção de Noelle. Ela estava teclando em seu iPhone, então ela não me viu. Eu não podia deixar de cruzar os dedos. Eu tinha que conquistá-la de volta amanhã à noite. Tinha que dar certo. Porque se o meu plano não funcionasse... Não. Eu não podia pensar assim. Eu tinha que ser positiva. Limpando a preocupação da minha mente, eu comecei a olhar para frente novamente, mas antes que eu pudesse eu peguei um vislumbre de Josh do outro lado do corredor, sentado no final do último banco. Ele não estava prestando atenção em Cromwell também. Em vez disso, ele estava desenhando como um louco em um bloco de desenho pequeno, a testa franzida em intensa concentração. Enquanto o observava, ele pressionou os lábios juntos, em seguida, apertou-os, depois voltou ao normal e começou o processo tudo de novo. Eu sorri, meus olhos ardendo com nostalgia. Ele sempre fazia isso quando ele estava realmente concentrado, apesar de nunca ter acreditado em mim quando eu dizia a ele sobre isso. Eu gostaria de poder tirar uma foto justo nesse momento e provar isso a ele, mas esse já não era mais o meu lugar. E, além disso, o braço direito de Cromwell, o Sr. White, veria o flash e viria pra cima de mim como um abutre. Mas eu não conseguia tirar meus olhos de Josh. A fraca luz do sol que fluía através dos coloridos vitrais dançava contra o lado direito de seu rosto. Havia um buraco minúsculo na bainha de seu suéter de gola alta e sua calça de veludo estava parcialmente enrolada em um lado, revelando um pouquinho de pele pálida. Eu tomei cada detalhe dele enquanto eu podia. Se ele soubesse o quanto eu sentia falta de cada centímetro dele, de dentro e de fora. Se ele soubesse o quanto eu me arrependia de tudo. Cromwell se despediu de nós assim que a segunda ideia brilhante das últimas vinte e quatro horas me atingiu como um tijolo na cabeça. O presente perfeito para Josh. O que poderia ser o presente perfeito para nós dois. Eu pulei, corri pelo corredor cheio rapidamente e me dirigi para a pesada porta arqueada. Se eu ia fazer isso, eu ia precisar de todo o tempo que eu tivesse. — Vai vomitar de novo, Brennan? — Ivy gritou atrás de mim. — Existem clínicas para esse tipo de coisa! Algumas pessoas riram, mas eu ignorei todos eles. Eu iria lidar com Ivy depois. Eu empurrei a porta e abri, o ar frio me atingiu como um tapa na cara. Parei por um segundo para abotoar os botões do meu casaco e puxar o meu gorro para baixo. Grande, grande erro. — E então, Lambe-Vidros — disse Amberly, esgueirando-se ao meu lado. — Você perdeu o seu prazo.

88


Eu apertei meu queixo e comecei a andar rapidamente pelo caminho de paralelepípedos. Infelizmente, Amberly não teve problemas para me acompanhar. — Você me deve um disco, lembra? — disse ela. — Eu espero que você esteja com ele essa manhã. Eu estou realmente muito ocupada para continuar te seguindo por aí. Eu parei em meu caminho e olhei para ela, soltando um suspiro de resignação. — Você não está com ele, não é? — Amberly riu e balançou a cabeça. — Você não percebe que eu posso tornar as coisas muito difíceis para você? Eu deixei cair as minhas mãos e as deixei dar um tapa nos meus lados. — Você não se dá conta do quão ridícula você soa? O que você fez no verão passado, fez algum curso chamado Telenovela Vilão 101? Os olhos azuis de Amberly se estreitaram. Ela puxou suas luvas forradas de pele lentamente. — Ok, então. Será do modo difícil. Eu balancei a cabeça alegremente. — Sim. Será difícil. Traga a dificuldade. Eu mal posso esperar para ver o que seu cérebro minúsculo planeja. Então eu me virei e caminhei casualmente para longe, deixando-a ver o quão nãoafetada eu estava por suas ameaças. Havia muita coisa que poderia ser feito comigo, especialmente nos últimos tempos, mas eu não ia ser intimidada por uma caloura qualquer. Especialmente não por Amberly.

89


20 EVIDÊNCIA

P

assei as próximas 24 horas tensa. Eu estava não só ansiosa para o Jantar de Natal, mas também para a potencial preparação para minha reconciliação com ambos Noelle e Josh, mas eu estava morrendo de vontade de voltar para o quarto de Ivy e bisbilhotar um pouco mais. Eu tinha que encontrar alguma evidência real de que ela era minha perseguidora e que ela estava tramando contra Noelle. Eu tinha que colocar um fim em seus planos antes que eu perdesse a cabeça. Antes que Noelle perdesse a vida. Enquanto isso, milhares de perguntas me atormentavam. Será que Ivy realmente matou Cheyenne? E se foi assim, Rose sabia disso, ou ela estava apenas ajudando Ivy a me importunar? Por que Rose machucaria Cheyenne? Elas tinham sido tão boas amigas. E por que ela feriria Noelle? Muitas perguntas. Nenhuma das quais seriam respondidas por Rose, aparentemente, já que eu tinha deixado cerca de vinte mensagens em seu correio de voz e não recebi nenhuma resposta. Mas não importa. Eu poderia cuidar disso sem a explicação dela — ou, melhor ainda, admitindo sua culpa. Se eu estava por minha conta, eu ficaria por minha conta.

*** Sexta de manhã eu estava ao lado da minha porta dentro do meu quarto esperando Ivy e Jillian pegar suas coisas e saírem. O ruído geral nos corredores era cordial e animado. Crom tinha encurtado todas as nossas aulas do dia, de modo que todas elas terminassem antes do almoço, dando-nos tempo para ficarmos prontos para o Jantar de Natal naquela tarde. A atmosfera no Pemberly não era diferente do último dia em Croton High antes do recesso de Natal. Eu poderia simplesmente dizer que ninguém ia prestar atenção na aula. Estaríamos todos muito ocupados ansiosos para as festividades. Mas, primeiro, eu tinha uma missão. Eu ouvi Ivy e Jillian fecharem a porta e caminharem perto do meu quarto, conversando sobre o que elas poderiam usar naquela noite. Levando o conselho de Sabine a sério, eu deslizei meu iPhone no bolso de trás da minha calça jeans e esperei até que suas vozes se desvaneceram no nada. Então eu saí do meu quarto e entrei no delas. Desta vez eu fui direto para a cômoda de Ivy, puxando a gaveta de cima. Todas as suas coisas estavam dobradas e alinhadas em filas perfeitas, as roupas interiores pretas separadas das brancas e das coloridas. Porcaria. Se eu ia procurar essas coisas, eu ia ter que fazer isso com cuidado, meticulosamente. Isso não é nada bom, considerando que as minhas mãos tremiam. Respirando fundo, eu empurrei uma fila de calcinhas pequenas de lado, encolhendo-me com a ideia de que eu estava tocando as roupas íntimas de Ivy Slade. Eu

90


rapidamente encontrei pílulas anticoncepcionais e uma caixa de preservativos, os quais me fez pensar o quão longe ela e Josh poderiam ter ido, o que me fez querer vomitar, mas não havia mais nada lá. A segunda gaveta era toda de camisetas, novamente perfeitamente dobradas e dispostas em fileiras. Eu levantei uma pilha e não havia nada embaixo. O mesmo na próxima. A terceira gaveta continha cerca de 20 blusas pretas e brancas. Típico de Ivy. Eu levantei a primeira pilha, segurando os suéteres no meu ombro, e congelei. Situada no fundo da gaveta estava uma caixa de prata muito familiar. Uma caixa com as letras VMS gravadas na tampa. A caixa na qual Ivy havia sido enviada para a casa de sua avó para roubar. A caixa que eu tinha visto no quarto de Cheyenne na noite antes de seus pais virem pegar todas as suas coisas. Colocando os suéteres na dobra do meu braço, me abaixei com minha mão livre e abri a tampa da caixa. Sem dúvida, no interior do forro de veludo estava o colar de diamante com a letra B de Cheyenne — que era um pouco maior do que o de todas as demais — a corrente quebrada a poucos centímetros de distância do fecho. Ivy deve ter se infiltrado no Billings naquela noite — a noite antes de as coisas de Cheyenne serem levadas. Era a única explicação. Ela ainda estava com tanta raiva por Cheyenne ter pegado a caixa que ela deve ter se infiltrado para roubá-la de volta. Isso era o quanto este pequeno símbolo significava para ela. De repente, minha pele vibrou com entusiasmo. Era isso. Esta era a chave. A caixa de herança de Ivy dava um motivo muito concreto. Ela nunca perdoou Cheyenne por seu papel no roubo da sua avó e por deixá-la lá para levar a culpa. Ela nunca a tinha perdoado por ter levado a herança da sua família com ela. Então, ela tinha matado Cheyenne e, uma vez que ela sabia que a polícia tinha tudo inventariado, ela furtivamente voltou à cena do crime para recuperar o que era dela. O fato de que o colar B estava dentro era ainda melhor. Talvez Ivy tivesse arrancado de Cheyenne durante algum tipo de luta. Eu teria apostado minha vida que o B tinha impressões digitais de Ivy sobre ele todo. Era isso. Eu finalmente a peguei. Com os dedos tremendo, eu peguei meu iPhone e tirei uma foto da caixa aberta com o colar B no interior, situado onde estava. Então eu cobri minha mão com o final da minha manga para não deixar mais impressões digitais, fechei a caixa e tirei outra foto. Finalmente, eu dei um passo para trás e obtive o cenário mais amplo — a gaveta aberta com a caixa dentro e algumas coisas de Ivy no fundo, para que a polícia não tivesse nenhuma dúvida de onde estava. Eu coloquei os suéteres de volta na gaveta e fechei-a com cuidado. Meu coração estava disparado com entusiasmo desenfreado. Ivy iria cair. Estava quase no fim. Eu quase não podia acreditar. Eu estava prestes a agarrar a maçaneta da porta e sair rapidamente dali, quando ouvi passos determinados vindos pelo corredor. — Tão estúpida — alguém disse para si mesma. Meu coração parou. Não era apenas alguém. Era Ivy. Ela estava a cerca de dois segundos de abrir a porta e me encontrar de pé no meio do quarto dela com o meu iPhone na mão. Eu dei a volta. A porta do armário de Jillian estava aberta. Atirei-me para dentro, tropeçando em seus sapatos e batendo em uma dúzia de cabides, e puxei a porta fechando-a. Ivy empurrou a porta do quarto abrindo-a e entrou. Eu estava respirando tão forte que eu tinha certeza de que ela ia me ouvir. Agarrei a manga de um dos suéteres de Jillian e o segurei sobre a minha boca, me forçando a inspirar e expirar lentamente,

91


calmamente. Através do pequeno espaço entre a porta e a parede, eu podia ver Ivy se mover. — Onde diabos eu coloquei? — disse ela para si mesma, empurrando alguns papéis de lado em sua mesa. Ela gemeu e abriu uma gaveta, em seguida, a fechou. Embaralhou mais algumas coisas ao redor. O tempo todo eu tive que agarrar a mim mesma para deixar de tremer e para não perder o equilíbrio em cima do mar de sapatos, botas e sapatilhas. Se eu me movesse, meu tornozelo poderia virar e eu poderia cair direto no chão. Isso não seria muito bom. — Ah! Graças a Deus — Ivy disse finalmente. Ela empurrou o que ela estava procurando em sua bolsa e passou por mim em direção à porta. Ela passou tão perto do armário que eu podia ver o forro de pele de seu casaco e sentir seu perfume almiscarado. Usei todo o meu esforço para evitar náuseas. Então ela saiu e fechou a porta atrás dela. Soltei o fôlego, mas não me movi. Olhando para o meu relógio da Nike, eu me forcei a esperar. E esperar. E esperar. Até que cinco minutos completos tinham passado. Então eu finalmente saí do armário e respirei ar de verdade. — Isso foi muito perto — eu disse a mim mesma. Eu estava prestes a fugir da cena quando algo chamou minha atenção e eu parei. Era a imagem — a foto de Cheyenne, Noelle, Ariana e Ivy. Ela ainda estava sobre a cama de Ivy, mas alguma coisa tinha mudado. Quando eu dei um passo hesitante em direção a ela, eu percebi o que era. Cada rosto tinha sido tachado com um X com marcador preto, exceto o de Ivy. Assim como a foto de mim e Cheyenne. Meu corpo todo tremia. O que essas fotos desfiguradas realmente significavam? Ela estava perto de se livrar de Noelle? E se assim for, como ela pretendia fazer isso? Com as mãos tremendo, eu levantei meu celular e tirei uma foto da foto. Então eu dei um passo para trás e tirei do cenário mais amplo, mais uma vez. Isso era tudo o que eu precisava. Eu iria à polícia. E, desta vez, eles iam ter que me ouvir. A vida de Noelle — e talvez até mesmo a minha própria — dependia disso.

*** — Sinto muito, Reed. Eu realmente não sei o que você acha que isso prova — o detetive Hauer disse, deslizando meu iPhone sobre a mesa para mim. Ele empurrou para cima as mangas de seu suéter sem graça cor de canela e cruzou os braços sobre a mesa na frente de seu notebook. Eu senti como se cada músculo do meu corpo tivesse se atrofiado tudo de uma vez. Ele tinha que estar brincando comigo. Primeiro, os dois policiais no Hell Hall tinham me dito que o detetive Hauer não estaria no campus hoje. Então eu tinha sido forçada a pular uma manhã inteira de aulas, a sair escondida do campus, a vir a pé todo o caminho no frio e sofrer nessa cadeira de plástico rachada em sua sala que parecia uma sauna esperando por mais de uma hora. Tudo isso para ele apenas me rechaçar? — Eu já lhe disse — eu disse, sentando para frente até meu corpo ficar pressionado contra a borda da mesa, com as mãos entrelaçadas no meu colo. — Ivy me explicou o quanto essa caixa de prata significava para ela. Para ela, é a razão de sua avó ter morrido. Cheyenne não só a deixou sozinha na casa da avó naquela noite para, potencialmente, assistir a mulher morrer, mas também levou a caixa com ela. Ivy a odiava por isso.

92


— Então ela matou Cheyenne por causa de uma caixa de joias — disse o detetive com ceticismo, inclinando-se com o cotovelo na mesa e o queixo na mão. — Esse não é um grande motivo. — Não! Ela matou Cheyenne por causa da morte da avó dela — eu disse, frustrada. — Olhe para as fotos do quarto de Cheyenne na manhã que a encontramos. Essa caixa estava em cima de sua mesa. Agora ela está escondida no quarto de Ivy. Ela deve ter voltado e a levado. Para ela, aquela caixa é um símbolo de tudo o que aconteceu naquela noite. Talvez ela pensou que, se vocês a achassem, vocês poderiam descobrir tudo. Quero dizer, não é isso que as pessoas culpadas fazem? Voltam à cena do crime para encobrir seus rastros? O detetive respirou fundo e olhou para a porta aberta atrás de mim, em direção ao barulho e agitação do escritório, como se estivesse desejando estar lá fora, em vez de aqui. Por que ele se recusava a me levar a sério? — Ouça, Reed, já conversei com Ivy e ela tem um álibi para a noite que Cheyenne foi assassinada. — Ele puxou seu notebook para ele e o vasculhou. — Ela estava com Gage Coolidge toda a noite e ele corroborou sua história. — E? Gage é totalmente apaixonado por Ivy — eu protestei. — Ele diria qualquer coisa que ela lhe pedisse para dizer. Hauer olhou para mim com a expressão de um homem que estava começando a ficar farto de agradar uma criança chorona do jardim de infância. Eu não tinha certeza se eu queria chorar ou bater em seu rosto velho e cansado. Em vez disso, saquei minha próxima arma. — Olha — eu disse, puxando a foto destruída de Cheyenne e eu da minha bolsa e golpeando-a na frente dele. — Eu encontrei isso no meu quarto no outro dia. Detetive Hauer pegou as duas metades da foto por suas bordas e as olhou. Peguei meu iPhone e procurei a foto da foto de Ivy, então virei para ele. — Agora olhe para isso — eu disse. — Eu, Cheyenne, Ariana e Noelle. Todas nós tachadas com um X da mesma maneira. A menina já se livrou de Cheyenne, e Ariana já se livrou de si mesma. Então só sobra Noelle e eu — eu disse, minha voz trêmula. — Ela irá vir atrás de nós, eu juro. Pela primeira vez em toda a manhã, o detetive Hauer parecia um pouco interessado. Até mesmo preocupado. Fiquei feliz de que o fato de eu estar com medo da minha própria vida tivesse realmente chegado até ele. Ele tinha um coração, afinal de contas. Ele colocou o telefone e a foto na frente dele e estudou-os. Aproveitei meu momento. — É isso que você quer, detetive? — eu perguntei. — Você realmente quer outro assassinato em suas mãos? Ele ergueu os olhos cansados para mim e suspirou, em seguida, sentou-se em sua cadeira. — Crosby! — ele gritou, tão alto que eu realmente pulei na minha cadeira. Quase instantaneamente, um cara magro em um uniforme azul entrou na sala. — Sim, detetive? — Pegue um saco de evidências e algumas luvas e venha aqui — ele ordenou. — Eu quero que sejam analisadas as impressões digitais dessa foto. — Sim, senhor — disse o policial. Meu coração pulou quando eu olhei para o detetive Hauer. Isso era real? Ele finalmente ia me ajudar? — Nós vamos averiguar isso — ele disse, olhando para a foto no meu iPhone mais uma vez. Olhando para ela como se ele não gostasse do que via. — Eu não estou garantindo nada, mas vamos averiguar.

93


21 MARCA IMATURA

N

o momento em que voltei ao campus depois de fazer uma parada rápida na loja Hallmark na cidade para comprar alguns suprimentos para completar o presente de Josh, as aulas do dia já haviam terminado. Os alunos estavam fluindo para fora do refeitório após o almoço e vagando no pátio antes de ir para seus dormitórios para começar a se arrumar e se vestir e acabar de embrulhar seus presentes. O momento não poderia ter sido mais perfeito. Se eu tivesse voltado ao campus uma hora antes, eu poderia facilmente ter sido pega, mas agora eu estava misturada. Rezando para eu não esbarrar com Ivy no meu caminho de volta para o meu quarto para que eu não mostrasse minha alegria antecipatória, tomei as escadas em vez do elevador. Meu plano era ficar sozinha no meu quarto pelo o resto da tarde e esperar para ver o que acontecia em seguida. Se a polícia viesse prender Ivy, eu queria estar lá para testemunhar isso. Eu caminhei rapidamente pelo corredor para o meu quarto, puxando o meu cachecol do meu pescoço e desabotoando meu casaco. Havia algumas meninas saindo de seus quartos, mas Ivy não estava entre elas. Quando eu entrei, me virei e fechei a porta, me permiti uma respiração rápida de alívio. Tarefa cumprida. Então eu me virei e enfrentei meu quarto. Um suspiro de horror escapou da minha garganta. O local estava um desastre completo. As gavetas da minha cômoda estavam abertas, derramando roupas delas e cobrindo todo o chão. Minha cama estava desfeita, os travesseiros estavam no chão também. Meu armário estava aberto e metade da roupa tinha sido arrancada dos cabides. A bolsa Chloe tinha sido jogada no canto aberta de cabeça para baixo. Dois dos três cartazes que Constance tinha me dado tinha sido cortado pela metade e o terceiro estava caído sobre a minha cama. Até a foto de Scott e eu não tinha saído ilesa. O vidro foi quebrado e a moldura rachada. Eu ia matar Ivy. Eu ia matá-la. Minhas mãos tinham acabado de se fechar em punhos quando percebi que todos os meus CDs estavam espalhados sobre a mesa, alguns deles tinham caído no chão. CDs. Espere um segundo. CDs. Talvez isso não fosse obra de Ivy, depois de tudo. Eu agarrei a bolsa Chloe e a endireitei, em seguida, abri a bolsa. Ela estava vazia. — Amberly — eu disse entre dentes. — Sua vadiazinha. Ela não tinha encontrado o disco Billings, que, claro, não existia. Mas ela conseguiu encontrar o seu precioso Cartão Carma. Além disso, o que restava do meu dinheiro dos fundos do Billings. Ambos foram embora do seu esconderijo dentro da bolsa Chloe. Minha frequência cardíaca começou a voltar ao normal quando o meu cérebro aceitou o fato de que este não tinha sido o trabalho do meu perseguidor. Não havia nada relacionado com Cheyenne neste ataque em particular. Não. Amberly tinha feito isso. A destruição inútil tinha sua marca imatura sobre ela. Aparentemente, esta era sua ideia de “fazer as coisas do jeito difícil”.

94


Eu gemi quando olhei para a zona de desastre que era o meu quarto, odiando o fato de que Amberly tinha — mesmo que de forma pequena — conseguido o melhor de mim. Parte de mim queria ir direto ao Billings e roubar o cartão Carma estúpido de volta, só para demonstrar um ponto, mas eu sabia que isso nunca ia acontecer. Ninguém ali iria me deixar passar pela porta da frente, muito menos permitir que eu vasculhasse meu antigo quarto. Eu odiava que Amberly tivesse conseguido entrar no meu quarto e mexer comigo, mas não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso agora. Eu não ia deixar que aquela imbecil arruinasse o resto do meu dia — o dia em que Ivy poderia finalmente ser presa, o dia em que eu poderia finalmente conseguir Noelle e Josh de volta. Não. Eu ia ter que lidar com isso. E espero que, no final da noite, esta confusão seja apenas uma mancha em um dia se não perfeito.

95


22 MUITO PIOR

—E

u não posso acreditar que ela fez isso com você — Sabine disse, balançando a cabeça enquanto dobrada velozmente minhas roupas e as colocava em minha cômoda. Aparentemente, quando Sabine estava com raiva, ela era como um redemoinho. Em cinco minutos ela tinha limpado todas as roupas, pendurando-as de volta em seus lugares, e colocando-as nas gavetas. — É isso. Eu nunca mais vou falar com essa menina novamente. Eu sorri debilmente quando eu cuidadosamente removi a foto de Scott e eu do porta-retratos quebrado. — Obrigada, mas isso não vai fazer a sua situação ficar um pouco difícil? — Eu não me importo — Sabine disse, fechando a gaveta. — É evidente que há algo de errado com essa garota. Não se pode simplesmente invadir o quartos das pessoas. O há de errado com todo mundo? Boa pergunta. Eu estava prestes a tentar uma resposta quando várias vozes masculinas encheram o corredor. Eu ouvi o comentário revelador de um walkie-talkie e meu coração pulou uma batida. Sabine e eu cerramos os olhos. Eu senti arrepios em cada centímetro da minha pele. Era isso. Eles tinham vindo por Ivy. — Sim, senhor. Eu entendo — a voz do Diretor Cromwell ecoou pelo corredor. — Eu entendo isso, mas eu estou com a advogada da academia aqui e ela revisou o mandado. Tudo parece estar em ordem. Tremendo de emoção e incerteza, eu rastejei até a minha porta e abri deixando uma fenda. Dois policiais uniformizados caminharam pelo meu quarto junto com Crom, que estava falando em seu telefone e uma mulher rotunda em um terno cinza que estava lendo algum documento legal. Na retaguarda estava o detetive Hauer em seu casaco de lã grossa, parecendo triste. Os policiais pararam e um deles bateu na porta de Ivy. Sua jaqueta de vinil azul balançava a cada movimento que ele fazia. — Srta. Slade? Srta. Crane? Aqui é o Departamento de Polícia de Easton. — O que está acontecendo? — Sabine perguntou, tentando ver através da fenda, inclinando-se por trás do meu ombro. Eu fechei a porta silenciosamente e olhei para ela, com os olhos arregalados. — É a polícia. Eles vieram por Ivy — eu sussurrei. Meu Deus. Eles devem ter encontrado impressões digitais dela na minha foto. Eu tinha finalmente feito algo certo. — Agora? — Sabine perguntou, apertando as mãos. — O que está acontecendo? — ouvi Ivy perguntar da porta ao lado. — Shhh — eu disse a Sabine, colocando minhas mãos contra a porta congelando-a no lugar como se isso fosse me ajudar a ouvir melhor. Todos estavam para cima e para baixo no corredor, as portas estavam se abrindo e se fechando enquanto minhas companheiras de piso verificavam o drama. — Srta. Slade, temos um mandado para examinar suas coisas — um dos oficiais disse.

96


— O quê? Para quê? — Ivy deixou escapar, em um tom irritado. — Sim, senhor. Sim. Ela está aqui — o Diretor Cromwell disse. Ele deve ter entregado a Ivy o telefone, porque no segundo seguinte eu pude ouvila caminhando justo do lado de fora da minha porta. — Papai! Sim, há três deles e eles estão revirando todas as minhas coisas! O que está acontecendo? Ela parecia à beira das lágrimas. Eu teria dado qualquer coisa para ter sido capaz de abrir a porta, mas todo mundo estava amontoado lá fora. Minha aparência teria sido demasiado óbvia. Então, tudo o que eu podia fazer era ficar lá e imaginar. Imagine o quão assustada Ivy deve ter ficado quando ela percebeu que estava prestes a ser finalmente levada à justiça. Houve outro grito do walkie-talkie e uma voz veio. — Detetive Hauer, senhor, estamos com o garoto Coolidge. Devemos levá-lo direto ao seu carro? — Gage? — Sabine balbuciou. — Sim, Oficial Crosby. Nos encontramos lá assim que acabar com isto — Detetive Hauer respondeu. Meu pulso batia em meus ouvidos. Agora que tudo isso estava acontecendo, parecia tão fora de controle. E se eles tivessem decidido que Gage era uma espécie de cúmplice? Eu estava certa em adivinhar que ele havia mentido para a polícia para proteger Ivy? Eu realmente senti um baque de culpa ante o pensamento de Gage sendo arrastado para fora do campus pela polícia. Quem sabia que eu tinha qualquer tipo de debilidade no meu coração por esse idiota? — Srta. Slade? Importa-se de explicar isso? — Detetive Hauer perguntou. — O quê? Papai, espera aí — disse Ivy. Houve uma pausa. — Espere um minuto. Quem fez isso? — Ivy perguntou. — Você está tentando me dizer que você não desfigurou esta foto você mesma? — Detetive Hauer disse. — Não! Não, eu não fiz — disse Ivy. — Eu não tenho nenhuma ideia de quem fez isso, mas não fui eu. Revirei os olhos para a mentira óbvia dela. E isso era tudo. Eu não podia mais aguentar. Eu abri a porta e fiquei na porta com Sabine logo atrás de mim. Todo mundo olhou para nós. O Diretor Cromwell com sua expressão de incômodo. Ivy, parecendo cerosa e pálida, segurando o celular através do qual seu pai estava gritando ordens. O detetive Hauer, segurando a foto de Cheyenne, Noelle, Ariana e Ivy tachada com os Xs, em sua mão enluvada. Até mesmo a senhora advogada me olhou de cima a baixo. — Srta. Brennan, Srta. Dulac. Isso não é uma matinê de teatro — o Diretor Cromwell disse amargamente, cruzando os braços sobre o peito. — Por favor, esperem lá dentro. — Tudo bem. Eu só quero dizer uma coisa para Ivy — disse-lhe. Então eu olhei nos olhos dela. Olhei diretamente para a menina que tinha passado os últimos dois meses fazendo tudo o que podia pensar para arruinar a minha vida e, lentamente, sorri. — Eu espero que você consiga tudo o que virá para você — eu disse firmemente. O queixo dela caiu um pouco, e seus olhos se encheram de confusão e ira. Mas eu não me importei. Eu só bati minha porta direto na sua cara. — Uau. Isso foi cruel — Sabine disse. — Ela merece — disse a Sabine em um tom sombrio. — Por tudo o que ela fez comigo, com Cheyenne... ela merece coisa muito pior.

97


23 TÃO PRONTA

N

aquela noite, eu cantarolava para mim mesma enquanto eu dava os toques finais no meu novo e melhorado presente para Josh. Eu não me sentia tão em paz no meu quarto desde que me mudei para o Pemberly. Na verdade, eu tinha vivido muito tempo no Billings sem sentir esta calma e segurança. Mas agora, a polícia finalmente estava com a minha perseguidora em custódia. Pela primeira vez em semanas eu estava certa de que nada de ruim poderia acontecer. Pela primeira vez em semanas eu me sentia verdadeiramente livre. Eu estava lavando minhas mãos dessa bagunça. Ivy agora era oficialmente o problema do Departamento de Polícia de Easton. Eu coloquei o presente de Josh na pequena caixa vermelha que eu tinha comprado na loja de artigos de papelaria esta tarde, então fixei o laço branco e brilhante na parte de cima. Ciente de que eu tinha feito o melhor que pude, me virei e me verifiquei no espelho na parte de trás da minha porta. Sorri para meu reflexo. Meu longo cabelo castanho estava preso em um lado, enquanto o outro caía em ondas sensuais sobre meu ombro. Eu usava rímel preto e gloss vermelho escuro que eu tinha adquirido naquele fatídico fim de semana da arrecadação de fundos em Nova York. Brilhando em minhas orelhas estavam os brincos de diamante que Walt Whittaker tinha me dado no ano passado. O efeito era totalmente simples e totalmente glamoroso. Mas a melhor parte era o vestido. Eu estava usando o vestido vermelho Nicole Miller que Portia tinha comprado para mim algumas semanas atrás. Eu só havia usado ele uma vez, quando eu tinha ido naquele terrível encontro com Hunter Braden, e eu tinha a sensação de que ele não iria lembrar-se absolutamente, considerando o quão egocêntrico ele era. Todas as Meninas do Billings iriam se lembrar, é claro, e era exatamente o que eu queria. Usar este vestido significava que elas não tinham me vencido. Usar este vestido significava que eu as tinha superado. Eu só esperava que Portia não tentasse arrancá-lo de mim como as irmãs feias tinham feito com Cinderela. Isso não seria bonito. Houve uma batida na porta e eu rapidamente a abri. Sabine e Constance estavam no corredor, aconchegadas em seus longos casacos de lã. O cabelo vermelho de Constance estava puxado para trás de seu rosto com mechas penduradas em torno de seu rosto, e ela usava mais maquiagem no olho do que eu já tinha visto ela usar antes. Sabine estava parecendo tão natural como sempre, mas ela havia tecido uma trança pequena em seu cabelo no lado direito e apertou-a com um pequeno grampo de strass. — Reed, você está maravilhosa — Sabine falou entusiasmada, me olhando de cima a baixo. — Pronta para a festa? — Constance perguntou, ficando na ponta dos pés com emoção. Um pouco de emoção correu no meu peito. Esta era a primeira noite do resto da minha vida. Peguei o presente de Josh e meu casaco no meu caminho para a porta. — Você não tem ideia de quão pronta.

98


24 O JANTAR DE NATAL DE EASTON

—E

ntão, ninguém vai fazer um brinde? — Constance perguntou, tomando um gole de ponche vermelho. — De jeito nenhum — Sonal respondeu com um grunhido. — Eu nunca poderia chegar lá na frente de toda a escola e fazer isso. — Eu sei. Nem eu — Constance disse. — Seria meu pior pesadelo. Para minha grande surpresa, Constance tinha ficado ao meu lado durante todo o coquetel — ou falso-coquetel, eu suponho, já que apenas refrigerantes, ponches e cidra espumante estavam sendo servidos. Talvez a bravura de Sabine estava passando para ela. Seja qual for a causa, eu a apreciei. De fato, em pouco tempo eu estava cercada por amigas. Constance, Sabine, Marc, Astrid, Diana, Sonal e Shane. Para uma leprosa, tudo estava indo muito bem para mim. — Você está usando um monte de quilometragem nesse vestido, não é, Reed? — Shelby perguntou, olhando-me de cima a baixo com um sorriso de escárnio quando ela, Portia, e as Cidades Gêmeas passaram. Shelby estava usando um vestido azul royal que eu nunca tinha visto antes, com um assimétrico decote, um ombro descoberto e uma saia rodada. — É o único que ela tem — Portia acrescentou. Ela estava, como sempre, ostentando seu típico verde — um vestido de corte fino que mostrava cada curva. Havia definitivamente uma resposta mordaz. Algo sobre como Portia sempre usava a mesma cor desagradável, mas elas se esgueiraram para longe antes que eu pudesse responder, rindo alegremente de seus insultos patéticos. Okay. Então, talvez eu não estivesse fazendo avanços. — Ignore essas vacas — disse Astrid, colocando a mão fria em meu braço nu. Ela estava tão original como sempre em um vestido cor-de-rosa com redes pretas e roxas sobre a saia e um chapéu pillbox. Seus sapatos eram uns altos Converses com cadarços pretos. — Em vez disso, vamos discutir como o Crom transformou completamente o refeitório. Imagino que levaria séculos para planejar tudo isso. Talvez ele tenha um lado suave depois de tudo. — Eu tenho algumas dúvidas sobre a última parte, mas está bastante espetacular — eu admiti. Em cada janela havia pendurada uma coroa de flores de abetos reais decorado com cones de pinheiros e fitas vermelhas, grinaldas verdes perenes cobriam ao longo das paredes, atadas com luzes brancas também, enchendo a sala com o cheiro reconfortante de pinho fresco. Todas as cadeiras estavam cobertas de veludo verde e rodeadas com laços vermelhos, e em cada prato de porcelana havia um pequeno brinde de chocolate Godiva, apresentado em um pequeno trenó vermelho. Mas a verdadeira atração principal era a roupa. Os alunos de Easton definitivamente sabiam se vestir bem. Onde

99


quer que eu olhasse havia vestidos de veludo e pérolas, luvas até o pulso e saltos kitten, smokings e lenços de seda. Era um grande desfile de moda em constante movimento. Até mesmo os frascos que os caras levavam escondidos nos bolsos de suas jaquetas eram superchiques. Monogramados, platinados, de couro ou, no caso de Dominic Infante, da Gucci. E então, é claro, havia a árvore de Natal enorme no centro do salão. A estrela no topo quase roçava os vidros da claraboia, e cada enfeite espumante da árvore estava perfeitamente localizado. Luzes brancas brilharam e piscavam de seus ramos e havia uma esticada guirlanda feita à mão de pipocas e amoras. — Você acha que a guirlanda é de verdade? — eu perguntei. — É. Já verifiquei — Marc disse, estalando um aperitivo em sua boca. — Como é que você verificou? — Constance perguntou. Marc ficou rosa e encolheu os ombros. — Eu comi uma. Todo mundo riu e eu me deixei relaxar na paz total e na tranquilidade do momento. Pela primeira vez em muito tempo eu me sentia normal. Me sentia social. Eu me sentia quente. Perto da árvore, os alunos estavam se alinhando para adicionar seus presentes à pilha, que agora estava transbordando para o corredor entre as mesas em ambos os sentidos. — Então, quem você tirou na coisa do presente? — Astrid me perguntou. Olhei para Marc, que olhou rapidamente para longe. — Eu nunca vou dizer — eu respondi. — Oh, merda! Agora acabou. Você tem que dizer — Astrid me persuadiu. Corei e balancei a cabeça. A última coisa que eu queria era que todos os meus amigos assistissem Josh enquanto ele abria seu presente. — Não! Nunca! — Deus. Eu gostaria de ter estado lá — Sonal sussurrou atrás de mim. — De ter estado onde? — eu perguntei, me virando e esperando distrair Astrid. Sonal olhou para Diana e Shane como se tivesse sido pega falando algo errado. — Quando eles arrastaram Ivy para fora — Shane respondeu por ela. — Você viu alguma coisa? Eu olhei em volta para ver se alguém estava ouvindo, em seguida, dei um passo mais para perto de Sonal, juntando todo o grupo em um círculo apertado. Eu nunca tinha sido boa em fofocas e boatos, mas pela primeira vez havia uma história que eu estava morrendo de vontade de espalhar. Ainda que só fosse porque essa história poderia finalmente provar a todos que eu era inocente. — Não muito — eu admiti. — Mas Sabine e eu ouvimos a coisa toda. Parecia que eles estavam muito convencidos de que ela tinha algo a ver com a morte de Cheyenne. Claro, eu não tinha ouvido nada do tipo. Mas eu sabia o que sabia. — A menina é definitivamente culpada — Sabine disse — Dava para ver em seu rosto. — Você devia estar pirando, Reed — Constance disse. — Eu quero dizer, Josh está saindo com ela. — Eu sei — respondi, o meu coração afundando. Olhei por cima do ombro de novo e imediatamente encontrei Josh misturando-se na multidão. Eu estava prestando atenção em seu paradeiro a noite toda. Ele havia estado perto de sua gente habitual, Trey, Weston Bright e os outros caras do Ketlar — e parecia estar se divertindo, considerando que sua namorada estava sob custódia policial. Era porque ele não se importava nada com Ivy, ou porque ele estava tão convencido de que nada viria disso? Tão convencido de sua inocência. Ah, como eu esperava que fosse a primeira.

100


— Bem, pelo menos você fica fora dos boatos — Diana disse com um pequeno sorriso. — Você deve estar feliz com isso. — Você não tem ideia — eu disse a ela com uma risada. Logo, todos saberiam que eu era inocente. Logo Noelle e Josh iriam perceber que eu estava certa o tempo todo. Que eu tinha salvado ambos de serem feridos. Em breve tudo estaria de volta do jeito que deveria ser. Bem, quase do jeito que deveria ser. Vi Amberly do outro lado do salão, vestindo um vestido azul numa mesa com Missy e Lorna. Com ela ao redor, não haveria lugar para mim no Billings, mesmo que Noelle milagrosamente decidisse me perdoar. Parte de mim queria pegar o coquetel da bandeja de um garçom que passava, ir até lá e despejá-lo sobre a cabeça loura platinada — me vingar por ela ter destruído meu quarto daquele jeito, por invadir minha privacidade, por destruir as minhas coisas e por tomar o meu lugar. Mas eu simplesmente apertei meus dedos e disse a mim mesma para relaxar. Agora não era o momento nem o lugar. Havia sempre um amanhã para uma briga. Hoje à noite eu estava focada no positivo. Um tilintar repentino de sinos de prata fez a conversa no salão parar completamente. O Diretor Cromwell entrou na frente da árvore. Para um homem que tinha acabado de assistir dois de seus estudantes serem arrastados por policiais, ele estava parecendo calmo e composto. Feliz, inclusive. — Todo mundo tomem os seus lugares, o primeiro prato está prestes a ser servido — ele anunciou, com ar orgulhoso de alguém que estava dando o evento da temporada. — Eu vejo vocês mais tarde? — eu perguntei a Marc, Sabine e as outras Meninas do Billings. — Definitivamente — Constance respondeu. Com um sorriso, eu teci meu caminho em direção à mesa do Pemberly com Diana, Shane e Sonal. Era tão bom me sentir como se eu tivesse amigos novamente. Mas, ao mesmo tempo, meu coração começou a bater com temor. O início da refeição significava que o momento da verdade se aproximava. Abracei-me e esperei que eu estivesse preparada. Em pouco tempo, meu destino seria decidido.

*** — Então, eu só quero dizer “É isso aí” para os membros da equipe masculina de futebol! — Trey anunciou, gesticulando de forma tão veemente com a mão direita que a sua cidra espumante espirrou para o lado esquerdo da taça. — Obrigado pela temporada sênior mais fodidamente boa de todos os tempos! Os membros da equipe, salpicados por todo o salão, foram à loucura, e todos os outros se juntaram, aplaudindo o brinde de Trey enquanto ele engolia sua bebida. O Diretor Cromwell, no entanto, não parecia nada satisfeito. — Obrigado, Sr. Prescott — disse ele, dando um passo atrás de Trey e colocando a mão pesada em seu ombro. — Isso foi muito eloquente — ele disse sarcasticamente. Trey olhou para o diretor, decepcionado, e caiu em sua cadeira. Do outro lado da mesa de Trey, Josh sacudiu a cabeça e sorriu. O discurso foi um pouco fora de lugar para um dos caras mais maduros do campus. Gostaria de saber se Trey havia trazido seu próprio frasco, ou se ele tinha estado bebendo de outra pessoa. — E agora, passaremos para o Pemberly... — o Diretor Cromwell se aproximou do final da nossa mesa. Minha respiração ficou presa na minha garganta e,

101


instantaneamente, a temperatura do meu corpo dobrou. Era isso. Agora ou nunca. — Será que alguma das senhoritas do Pemberly se importaria de fazer um brinde? Todas na mesa olharam para todas as outras. Eu estava apenas começando a pensar que poderia ser sábio esperar que alguém fosse primeiro, quando se tornou claro que ninguém tinha qualquer intenção de dizer alguma coisa. Acho que as mulheres do Pemberly não eram exatamente uma multidão extrovertida. Os lábios do Diretor Cromwell se franziram em aborrecimento, e de repente eu me vi levantando a mão sobre o nível da mesa. — Eu tenho algo a dizer. Instantaneamente, murmúrios surgiram em todas as mesas ao redor e rapidamente se espalharam por toda a extensão do salão. Meu coração começou a bater realmente forte. — O que ela vai dizer? — Amberly sussurrou. — Obrigada por me deixar sair imune do assassinato de uma das minhas amigas? Certo. Assim, mesmo que a notícia da prisão de Ivy tenha se espalhado pelo campus como uma gripe estomacal ruim, acho que nem todo mundo acreditou em sua culpa ainda. Eu esperava que o diretor estivesse aliviado que o Pemberly não o deixasse totalmente desapontado. Em vez disso, seu rosto anuviou. Eu realmente não era a sua pessoa favorita no campus. — Tudo bem, então — disse rispidamente. Ele ergueu o queixo e anunciou para o salão: — A Srta. Reed Brennan gostaria de fazer um brinde! O nível de zumbido no salão cresceu quando eu desajeitadamente empurrei a cadeira para trás e me levantei. Era isso. Meu grande e brilhante plano de ganharNoelle-de-volta. Eu a tinha publicamente humilhado com o vídeo de Dash. A única maneira que eu poderia pensar para compensá-la era elogiá-la publicamente. Meus joelhos estavam tremendo como um molde de gelatina em um terremoto, e pela primeira vez, eu estava irritada comigo mesma por não ter trazido as minhas notas. Eu tinha pensado que seria mais sincero se eu falasse com o coração, sem o auxílio de cartões de índice. Mas agora que eu podia ver os rostos de desaprovação na mesa do Billings, eu não poderia nem remotamente me lembrar do que eu estava prestes a dizer. Meu coração batia rápido e superficial. Todo mundo aqui estava contra mim. Eu não poderia fazer isso. O que eu estava pensando? Em cerca de dois segundos as pessoas iam começar a lançar rolos meio comidos em mim. Então olhei para Noelle. Ela estava me olhando com interesse divertido, com o braço torcido sobre a parte traseira de sua cadeira, as pernas cruzadas na altura do joelho, a saia cheia e recortada de seu vestido preto drapeado caindo elegantemente em direção ao chão. Isto era por ela. Eu tinha que me lembrar disso. Isso era tudo por ela. — Eu gostaria de brindar por Noelle Lange — eu anunciei em voz alta e clara. Isso realmente fez o salão se agitar. Cadeiras guincharam, pessoas riram, vozes incrédulas encheram o salão. Como eu ia fazê-los calar a boca? Olhei para Sabine, impotente, mas sua boca estava aberta em choque total. Constance e Astrid pareciam surpreendidas também. Tudo bem, então eu não tinha avisado que isso ia acontecer, mas elas não entendiam? Será que elas não sabiam que, por vezes, uma menina tinha que colocar tudo em risco? — Com licença — o Diretor Cromwell gritou. — Espero o mesmo silêncio e cortesia para todos e cada um de seus colegas de escola! Um silêncio caiu sobre o refeitório. Um silêncio energizado e antecipatório, mas um silêncio, no entanto. Noelle pegou seu copo de água, tomou um gole despreocupado, e o devolveu à toalha de mesa, antes de voltar sua atenção para mim com uma sobrancelha levantada. Eu podia apenas imaginar o que ela estava pensando: Isso vai ser interessante.

102


Limpei a garganta e comecei. — Como muitos de vocês... bem, todos vocês, sabem, este tem sido um semestre bastante insano e traumático para mim. Para muitos de nós — eu disse. — Houve muita dor, muita revolta, um monte de boatos — alguns muito verdadeiros, alguns muito falsos — eu disse, as palavras do meu discurso pré-planejado voltando para mim rapidamente. — Mas eu não estou aqui para me defender ou limpar o meu nome. Eu acho que isso acontecerá em seu próprio tempo. Eu estou aqui para dizer que eu nunca teria passado através de tudo isso sem a amizade de Noelle Lange. Noelle deslocou-se em seu assento levemente. Eu estava chegando até ela. Eu tinha que estar. — Noelle é uma verdadeira amiga. Ela é alguém que sempre te apoia. Alguém que vai fazer qualquer coisa por você, se você precisar dela. Alguém que é criativa, boa e gentil. Neste ponto, eu olhei para Noelle diretamente nos olhos. Minhas mãos suavam tanto que eu tinha medo de que eu largasse a minha taça de champanhe, mas eu a pressionei. — E me desculpe se eu esqueci tudo isso durante cinco estúpidos minutos. Estou arrependida de ter jogado fora algo tão precioso para mim, por algo tão superficial. Uma amizade que poderia ter durado toda a minha vida, por algo tão fugaz. Pelo canto do meu olho, eu podia ver que todas na mesa do Billings ou estavam boquiabertas para mim ou para Noelle. Mas nós duas simplesmente nos olhávamos. — Então este é para Noelle Lange — eu disse, erguendo a taça. — Um verdadeiro trunfo para o Billings, um verdadeiro trunfo para Easton e a verdadeira amiga que espero que me perdoe um dia. Houve um momento de silêncio prolongado. Acho que todo mundo estava tão atordoado que se esqueceu de onde estavam. — Para Noelle Lange! — o Diretor Cromwell anunciou, finalmente, erguendo a taça. Não tanto para me salvar, eu tenho certeza, mas para salvar a sua cerimônia. — Noelle Lange! — ecoou o salão. Nós todos tomados nossos drinques e eu fiquei ali, esperando por uma reação de Noelle. À espera de qualquer tipo de sinal. Ela simplesmente tomou um gole de cidra espumante e olhou para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez. Em seguida, ela finalmente se voltou para sua mesa, virando seu ombro para mim. E foi isso. Nenhum sorriso. Nenhum aceno de cabeça. Nada. Eu me deixei cair na minha cadeira, exausta, e coloquei a taça de volta na mesa. Eu me sentia dormente em toda parte. Como se minha pele, meus músculos, meus ossos, todos tivessem virado pó. — Caramba, menina. Que coragem — Shane disse no meu ouvido. — Mas não foi o suficiente — eu disse calmamente, a compreensão penetrando em minhas veias como veneno. — Nada nunca vai ser suficiente.

*** Após da falta de reação de Noelle ao meu discurso, tudo o que eu realmente queria fazer era me retirar para o Pemberly e dormir, mas o diretor Cromwell havia deixado claro que este era um evento obrigatório, então eu teria que estar nele até o final. Eu sentei durante o café e a sobremesa, sem tocar em nada, mas ninguém percebeu meu estado deprimido. Porque depois de dar algumas mordidas por educação, o corpo

103


estudantil se dedicou ao verdadeiro assunto da noite — a caça de seus presentes. Uma vez que algumas das meninas do segundo ano se levantaram e aventuraram-se timidamente em direção à árvore, metade do salão estava fora de seus assentos e clamando por seus presentes. De repente, senti o cheiro mais suave de excitação. A noite ainda não tinha terminado. Levantei-me como o resto da minha mesa vazia, tentando manter um olho em Josh. Infelizmente, levou cerca de dois segundos para eu perdê-lo no caos. — Reed? Você não vem? — Diana me perguntou quando ela empurrou sua cadeira. — Não. Acho que vou esperar que o ataque termine — disse-lhe. Na verdade, eu tinha quase zero interesse em encontrar o meu presente. Além de uns poucos seletos, a maioria das pessoas neste campus havia estado me evitando há dias. E se quem tinha tirado o meu nome tivesse me dado algum tipo de presentebrincadeira? Como uma caixa cheia de carvão, um rato morto ou algo assim. Eu não tinha certeza se seria capaz de lidar com isso ou com qualquer tipo de graça. Então, em vez disso, eu me sentei e assisti. Eu vi como as pessoas rasgavam o papel de presente e abriam suas caixas de presente. Observei como as meninas envolviam as fitas em torno dos ombros uma das outras e deliravam ante seus presentes. Vi alguns pares de luvas de couro, lenços de cashmere, brincos brilhantes e bolsas Dooney & Bourke. Havia também alguns presentes criativos e divertidos. Um helicóptero de controle remoto elegante que logo estava voando ao redor da sala, ameaçando se chocar com as luzes. Um despertador que não iria quebrar ou parar de apitar, mesmo que o jogasse através do quarto, uma reivindicação que foi imediatamente testada por seu novo proprietário. Uma menina gritou tão alto quando ela abriu seu presente — um par de ingressos para a primeira fila de algum concerto com ingressos esgotados — que todo mundo parou por um minuto e riu. Onde estava Josh? Eu estava morrendo de vontade de ver a sua reação ao seu presente. Para ver se ele entendia o significado dos pinceis — os mesmos que ele tinha usado no ano passado para lançar tintas por todas as paredes do seu dormitório. Tinha sido a primeira vez que eu percebi o quanto eu me preocupava com ele. O quanto ele me entendia. Me amava. Mas Josh estava longe de ser encontrado. Sentindo-me desesperada agora, eu finalmente me movi da minha zona de segurança e fiz uma volta lenta ao redor, permanecendo nos cantos das mesas — sem realmente me aproximar da árvore. Encontrei Trey e West verificando seu novo Nintendo DS, que vinha com uma pilha de jogos, mas Josh não estava com eles. E se ele tivesse saído antes da abertura dos presentes ter começado? E se ele tivesse dado uma olhada no que o seu presente era e jogou-o no lixo mais próximo? Logo a multidão ao redor da árvore começou a se dispersar e eu poderia dizer que havia apenas uma dúzia de presentes sobrando. Timidamente, eu me aproximei, querendo verificar para ver se o presente de Josh ainda estava lá. Eu andei ao redor da árvore devagar, com cuidado, pisando sobre bolas esmagadas de papel de embrulho e embalagens descartadas. Eu não vi a pequena caixa vermelha em nenhum lugar. Nem vi qualquer coisa destinada a mim. Mesmo que eu tivesse estado preparada para o pior, eu ainda sentia uma pontada. Ostracismo novamente. Deixada de fora de uma tradição enorme. Quem tinha encontrado o meu nome na sua caixa de correio simplesmente decidiu não se incomodar. — Reed! Reed!

104


Eu olhei para cima para encontrar Constance pulando em minha direção, o rosto corado de excitação. Ela estava acenando um envelope branco na frente dela com entusiasmo, como se ele contivera todas as respostas para todas as perguntas sobre todas as decisões que jamais tomaria. Ela parou na minha frente, quase escorregando em algum papel de seda caído, e segurou o envelope com as duas mãos. — Do seu Papai Noel secreto — disse ela com um enorme sorriso. Meu nome estava escrito na frente do envelope. Eu reconheci a caligrafia elegante de Noelle instantaneamente. — O que é? — eu disse, meio assustada, meio eufórica. — Basta abri-lo — sussurrou Constance vertiginosamente. Eu rasguei o envelope e extraí um cartão quadrado e branco. Um convite. Para a pré-festa do aniversário de Kiran organizada por Noelle e Amberly na noite seguinte. Meu coração se expandiu tão rápido que eu pensei que ia estourar. — Ela só me deu e disse para te procurar — Constance explicou, vindo para o meu lado para que ela pudesse ler o convite sobre meu ombro. — Você conseguiu, Reed. Você está de volta! Meus dedos tremiam enquanto eu olhava para o cartão em descrença. — Espera, sempre teve o meu nome, ou ela negociou com alguém depois que ela ouviu o meu discurso? — Quem se importa? — Constance desabafou alegremente. — Você irá para a festa. Vamos todas juntas para a festa de Kiran. Quem se importa como isso aconteceu? A menina tinha um ponto. Eu olhei para cima, procurando por Noelle, e a encontrei conversando com algumas das Meninas do Billings perto de sua mesa. Ela olhou para mim como se ela soubesse que eu estava olhando, e eu segurei o cartão para cima e sorri. Em troca, ela me concedeu um rápido aceno de reconhecimento, então se reorientou para a conversa. Não era muito, mas era alguma coisa. — Eu estou tão feliz por você — Constance gritou, agarrando-me em um abraço. — Eu também — respondi com um sorriso. Agora, se eu pudesse encontrar Josh, apenas ouvir o que ele tinha a dizer... talvez todos os meus desejos de Natal se tornariam realidade.

105


25 UMA NOVA CURVA

S

hane tinha recebido um enorme livro de capa dura brilhante sobre a história de Hollywood como presente, o que acabou por ser uma sorte para todas nós, pois nos deu algo para bloquear o vento no caminho de volta para o Pemberly. Ele chicoteava ao nosso redor como um ciclone, batendo em nós em uma direção e depois em outra enquanto nós cambaleávamos em direção ao dormitório. — O que é isso, Kansas? — Diana brincou, segurando seu chapéu para baixo com ambas as mãos. — Pois é. Kansas Ártica — Sonal acrescentou, fazendo as outras rirem. Eu sorri e agarrei o convite de Noelle dentro do bolso do meu casaco. Eu mal podia esperar para chegar lá em cima e olhá-lo de novo. Me certificar de que não estava escrito em tinta invisível ou algo assim. Certificar que era real. A poucos metros da porta de trás do nosso dormitório, todas nós notamos um policial alto e corpulento de pé do lado de fora, abrigado em um longo casaco, cachecol e luvas, seu escudo de prata brilhando em seu chapéu. Meu coração pulou uma batida nervosa. Nossos passos desaceleraram. — Senhoritas — disse o policial com um aceno de cabeça. Sua voz era baixa e roca, sua pele escura enrugada pela idade. — Por favor, peguem suas identidades para mostrar para o oficial do interior. Olhei para Diana e vi que meu medo se refletiu em seus olhos. O que aconteceu agora? — Ooookay — disse Shane, pegando seu cartão-chave. Ela abriu a porta e deixou todas nós ir à frente dela. Justo dentro do lobby estava outro oficial sentado em uma pequena mesa de madeira que costumava ficar sob a janela mais distante. Com seu cabelo castanho desgrenhado e seus olhos semicerrados correndo por toda parte, ele me lembrou de um rato nervoso. Um notebook estava aberto sobre a mesa na frente dele, e ele olhou para nós quando nos aproximamos rapidamente, antes que seus olhos se movessem para outro lugar novamente. — Identidades, por favor — disse ele, estendendo a mão magra. — O que é tudo isso? — eu perguntei. Ele suspirou, visivelmente irritado, e sacudiu os dedos. Não olhou para qualquer uma de nós no olho. — Identidades? Quando estávamos pegando nossas carteiras de nossos bolsos, a porta principal na frente de nós se abriu e entrou Ivy Slade. Eu senti todo o sangue sair correndo da minha cabeça com a visão dela, e a vibração do medo que eu sentia do lado de fora voltou com ímpeto. O que ela estava fazendo aqui? Por que eles a liberaram? Ivy me viu enquanto ela passava por nós, seus olhos se estreitaram de raiva. Ela disse algo em voz baixa, mas seguiu caminhando direto para o elevador. Eu mal podia respirar. Ela estava de volta. A vadia perseguidora e assassina estava de volta. Eles só a detiveram por três horas. E quando eu chegasse lá em cima, ela estaria ao lado. Por que eu tinha mesmo me incomodado em ir ao Detetive Hauer? Tudo isso era algum tipo de piada enorme para ele?

106


Eu ouvi uma voz familiar assim que o policial na mesa pegou minha identidade dos meus dedos dormentes para verificá-la contra o arquivo do seu computador. O Detetive Hauer havia atravessado a porta e estava conversando com outro oficial. — Detetive — eu disse, minha voz embargada. Ele olhou para cima e sua expressão tornou-se instantaneamente cansada. Como se ele não quisesse lidar comigo. Bem, a vida era dura. Eu tampouco queria lidar com viver ao lado de uma psicopata. — O que você está fazendo? — eu disse entre dentes, quando me aproximei dele. — Como você pôde deixá-la ir? O Detetive Hauer apertou sua testa entre o polegar e o indicador por um momento antes de responder. — Eu já disse antes e vou dizer de novo. Ela não é a nossa menina — ele respondeu. — Mas e as fotos? E a caixa? — eu soltei. — Eles se mantiveram firmes durante os depoimentos que tomamos durante toda a tarde e a noite — o Detetive Hauer respondeu, puxando-me para a sala de estar aconchegante ao lado do lobby. — Nós encontramos dezenas de pessoas para corroborar com seu álibi, Reed. Ela e esse garoto Coolidge se hospedaram no Hotel Driscoll naquela noite. Temos o porteiro, camareiras, gerentes — ele disse, levantando a mão para assinalá-los com seus dedos. — Recibos de serviços de quarto assinados por ela. Há uma fita de segurança que está sendo analisada enquanto nós falamos. Ivy Slade não teve nada a ver com a morte de Cheyenne Martin. Eu estava tão atordoada que meu rosto ficou em choque. Eu tinha tanta certeza. A menina tinha o melhor motivo de todos. Além disso, o comportamento dela... as ameaças, os olhares gélidos, a atitude, aquela foto estranha em seu quarto. Tudo isso fazia sentido. — Bem... e a foto que lhe dei? — eu perguntei. — Eu continuo dizendo que ela está me perseguindo e talvez Noelle, também. — Suas impressões digitais não foram encontradas na foto que você forneceu — Hauer me disse de forma tranquilizadora. — E ela jura que não desfigurou sua própria foto. No entanto, nós encontramos vestígios de fibras de lã branca sobre as cópias. Meu coração se deteve. — O que significa isso? — Isso significa que a mesma pessoa provavelmente adulterou as duas fotos e usava luvas de lã branca ao fazê-lo — Hauer me disse. — Parece que você e a Srta. Slade têm o mesmo perseguidor. Esta pessoa está realmente rondando por aqui. Ante isso eu me inclinei para trás na parte de trás do sofá atrás de mim. Não havia maneira de eu poder colocar isso no meu cérebro. Meu perseguidor também estava perseguindo Ivy? Como isso era possível? Quem neste campus tinha uma vingança contra nós duas? Nós éramos inimigas. Nos odiávamos. Por que alguém nos agruparia? Ivy era uma vítima também. Essa pode ter sido a verdade mais difícil de todas de engolir. De assassina perseguidora para vítima perseguida em menos de dois minutos. Pelo menos isto exonerava Rose. Se Ivy era inocente, ela também era. — É por isso que nós colocamos policiais em cada porta e dentro do seu edifício — o Detetive Hauer explicou suavemente. — Até que peguemos essa pessoa e asseguremos de que você e Ivy estão seguras, as únicas pessoas autorizadas a passar pelos elevadores e pelas escadas serão as moradoras registradas do Pemberly. — Eu não acredito nisso — eu disse, suando dentro do meu casaco de lã. — Eu realmente não acredito nisso. — Sinto muito — o Detetive Hauer disse, empurrando as mãos nos bolsos do casaco. — Mas não se preocupe. Nós não vamos deixar que nada aconteça com você ou com Ivy. Nós vamos descobrir quem está fazendo tudo isso. Eu juro. — Obrigada — eu disse fracamente.

107


— Reed? Você vem? — Diana perguntou, pairando no lobby com as outras. Ela segurava a minha identidade, que eu tinha deixado com o oficial do registro de entrada. — Sim. Eu acho — respondi. Empurrei-me para longe do sofá, sentindo-me fraca, e olhei para o Detetive Hauer. — Obrigada. — Boa noite, Reed — ele respondeu, tentando dar um sorriso de reforço. Virei-me para minhas companheiras de dormitório, meus ombros arredondados, e todas nós nos amontoamos dentro do elevador. Elas me interrogaram, é claro, sobre o que estava acontecendo, e eu lhes expliquei brevemente, descarregando toda a merda em cima delas. Mas eu acho que não poderia ser mais um segredo. Alguém estava atrás de mim. E, aparentemente, estava atrás de Ivy, também. Essas meninas mereciam saber por que o Pemberly havia sido colocado em alerta vermelho. — Desculpe, pessoal — eu disse, quando o elevador parou no meu andar e eu saí. — Essa coisa toda da presença da polícia é tudo culpa minha. — Não se preocupe com isso. Me dá algo novo para blogar — Shane disse, acenando com a mão. — Deixe-me saber se você precisar de alguma coisa — Diana acrescentou. Então as portas se fecharam e elas foram embora. Virei-me e me arrastei pelo corredor até o meu quarto. Ao longo de todo o caminho, as portas dos quartos do dormitório estavam abertas e as meninas no interior estavam sussurrando em voz baixa, tentando descobrir o que estava acontecendo. Eu não tinha a energia para parar e dizer a qualquer uma delas o que eu sabia. Meu cérebro estava completamente frito. Tudo o que eu tinha pensado que era verdade acabou por ser falso. E Ivy sendo perseguida também? Isso era uma curva que eu não tinha considerado nem remotamente. Eu respirei fundo e abri a porta do meu quarto. Ivy Slade estava sentada na minha cadeira, de frente para a porta, as pernas cruzadas no joelho e os braços cruzados na frente dela. — Ah, bom. Aí está você — disse ela, levantando-se e indo direto para a porta fechando-a em um golpe e isolando-nos dentro. — Você e eu temos uma conversa pendente.

108


26 DUAS CABEÇAS

—E

ntão! — Ivy disse, caminhando para o centro do meu quarto antes de se virar para me encarar. Ela inclinou a cabeça para o lado. — Ouvi dizer que você acha que eu matei Cheyenne. — Disseram que fui eu quem entregou você à polícia? — eu perguntei, atordoada. — Não. Claro que não. Mas o DP de Easton não é exatamente uma equipe de primeira — ela disse sarcasticamente. — Eu ouvi pelo menos cinco pessoas diferentes mencionar o seu nome. Então, o quê? Por favor, me diga o que você achou que poderia ter me motivado a matar a melhor amiga que eu já tive. Afastei-me dela e desabotoei meu casado com meus dedos trêmulos, ganhando tempo. O que eu deveria dizer para a menina? A verdade. Era, claramente, a hora da verdade. Eu tirei meu casaco, tremendo em meu vestido frágil, e a enfrentei. Nós estávamos a menos de um metro de distância uma da outra, graças aos quartos apertados. — Foi você quem me disse o quanto odiava o Billings — expliquei. — Era tão óbvio que você culpava Noelle, Ariana e Cheyenne pela morte da sua avó. Eu pensei que você finalmente conseguiu a sua vingança. Além disso, você está sempre falando sobre como Noelle conseguirá o que merece e como você vai fazer todas nós cairmos. Você ameaça minhas amigas sempre que tem uma oportunidade! Ivy riu e balançou a cabeça, como se eu fosse muito ingênua. — Isso é só da boca pra fora, Reed. — Pois bem — eu bati de volta. — Você tem projetado algumas coisas desde que eu te conheço, Ivy. Deixou Easton de fora da Legado, tentou derrubar a nossa arrecadação de fundos. Vamos. Como eu ia saber que as ameaças eram vazias? Ela realmente parecia estar pensando nisso. Vendo o meu ponto. Ela estendeu a mão para minha cômoda e brincou com um dos ramos da mini árvore de Natal que Sabine tinha me dado, evitando o meu olhar. — E o que diabos você quer dizer com a melhor amiga que você já teve? Você odiava Cheyenne — acrescentei. Ivy bufou uma risada e inclinou a cabeça para frente por um momento para olhar para o chão. — Talvez no final, mas isso não quer dizer que eu esqueci completamente os dez anos de amizade. Você nunca teve uma relação de amor e ódio? Minha mente imediatamente relampejou Noelle, mas eu não disse nada. — Então foi nisso que você baseou toda essa coisa? — perguntou ela, levantando seus ombros pontudos. — Um par de brincadeiras estúpidas que eu fiz e uma história que eu lhe disse na arrecadação de fundos? Meu coração tremeu nervosamente. Aqui estava. O momento da verdade. — Não. Isso não era tudo — eu disse. Eu me encostei na minha cadeira e me preparei. — Eu meio que sorrateiramente entrei em seu quarto e encontrei a caixa de joias, o colar quebrado e a foto de vocês com todos os rostos tachados com um X, menos o seu.

109


— Você mexeu nas minhas coisas!? — Ivy gritou. Ela virou-se e colocou as mãos em cima da cabeça, como se estivesse tentando impedir seu cérebro de explodir. — Oh, meu Deus. Esqueça Cheyenne. Eu deveria simplesmente te matar! — Ivy, você tem que entender — eu disse, soando desesperada, e odiando que eu parecesse desesperada. Eu não podia acreditar que tinha sido colocada na posição de pedir perdão a esta menina. Era como se o mundo inteiro tivesse sido virado de cabeça para baixo. Mas ela estava certa. Eu tinha totalmente violado sua privacidade. E sem uma boa razão, ao que parecia. — Pensei que você tinha estado no meu quarto meia dúzia de vezes antes. Eu pensei que você estava me perseguindo. Eu tinha que fazer o que eu fiz. — O quê? Perseguindo você? — perguntou ela, sem fôlego. Então, ela olhou para a parede como se ela estivesse lentamente se lembrando e processando algo. — OhmeuDeus, é por isso que eles estavam me fazendo todas aquelas perguntas sobre você, seu quarto e seu e-mail. — Ela fechou os olhos e balançou a cabeça. — Eles continuaram me mostrando uma foto de você e Cheyenne com seus rostos riscados como a que encontrei no meu quarto. Eu estava tão confusa. — Essa foto apareceu na minha mesa na semana passada, por isso, como você tinha uma igual no seu quarto, eu pensei... pensei que você estava tentando enviar uma mensagem ou algo assim. Ivy olhou para mim, seus olhos negros afiados. — Eu não sei quem mexeu com a minha foto ou com a sua — disse ela. — Mas não fui eu. — Eu entendo isso agora — eu disse, tanto quanto eu odiava admiti-lo. Eu tomei uma respiração profunda. — Olha, eu vi a caixa escondida em seu quarto e eu achei que você tinha voltado para o quarto de Cheyenne para recuperá-la. Eu pensei que o colar quebrado que estava dentro e a caixa em si poderiam ser usados como prova contra você, então você a roubou de volta. Ivy balançou a cabeça. — Droga, Reed. Não que isso seja da sua conta, mas eu recebi a caixa pelo correio da mãe de Cheyenne cerca de duas semanas depois que ela morreu. Ela sabia que era minha e percebeu que eu poderia querê-la de volta. Eu não sei como o colar foi parar lá dentro. Eu me virei e caí na beira da minha cama, descansando meu rosto em minhas mãos e os meus cotovelos sobre os joelhos. — Eu tinha tanta certeza de que era você — eu disse entre meus dedos. — Eu tinha tanta certeza que tinha acabado. — Bem, eu lamento desapontá-la — Ivy disse sarcasticamente. — Mas eu não sou uma assassina ou uma perseguidora. — Então o quê? — eu disse, deixando cair os braços para baixo e olhando para ela, com minhas costas recurvadas em exaustão. — Quem diabos a matou? Quem está fazendo tudo isso? Ivy me deu um olhar como se fosse tão completamente óbvio. — Ah, eu não sei... Noelle? Uma risada escapou da minha garganta. — Não desta vez. — Por que não? Ela tinha um motivo — querer voltar para o Billings. Ela conhece todos os caminhos secretos para entrar e sair do campus. Além disso, todos sabemos que ela é má e ela tem um motivo para mexer com nós duas — eu porque recusei seu convite precioso para o Billings, você porque tentou tomar seu lugar enquanto ela estava fora. Sem mencionar a coisa com Dash — disse Ivy com naturalidade, recostando-se contra a minha cômoda. — Bom trabalho nisso, a propósito. Ele é gostoso. — Ela não é má, apenas poderosa — eu disse, ignorando seu último comentário. — Há uma diferença.

110


Ivy revirou os olhos e bufou. — Você realmente precisa abrir os olhos e vê-la do jeito que ela é, Reed. Essa coisa toda de lealdade é patético neste momento — disse ela, apontando para o meu quarto para me lembrar de como eu tinha chegado lá. — Eu sendo patética ou não, Noelle tem um álibi que é quase tão irrefutável quanto o seu — eu disse, agarrando meus travesseiros e dobrando-os atrás de mim para que eu pudesse me escorar. — Ela estava em um evento de caridade na cidade durante toda a noite, e há fotos para provar isso. — Não acredito — disse Ivy. — É verdade — respondi. — Droga — disse ela em voz baixa. Eu conhecia esse tom. Ela estava tão decepcionada que não era Noelle como eu estava de que não era ela. — Eu não posso acreditar que estamos tendo essa conversa — refleti. Ela olhou para mim e sorriu. — Pois é. Nem eu. — Ela tomou uma respiração e deixou-a sair de forma audível, em seguida, levantou-se ereta. — Bem, se não foi Noelle, e não fui eu — disse ela em tom de brincadeira, levantando suas mãos até o peito —, então quem diabos foi? Porque se você tirou a indomável Srta. Lange da equação, você está parecendo uma suspeita muito boa. Eu me senti como se tivesse acabado de ser esbofeteada e me endireitei. — Como é? — Ei, se você o serve, deve estar preparada para tomá-lo — Ivy disse, levantando as mãos. — Foi você quem ganhou mais com sua morte. Vocês estavam brigando publicamente. Você vivia justo no maldito corredor dela. Quem melhor? — Não fui eu — eu disse a ela, embora eu não tivesse nenhuma prova real. — Quero dizer, eu sei que soa ridículo, mas... Cheyenne estava indo embora. Ela estava fora da minha vida. Eu não tinha motivos para matá-la. Eu... — Não se estresse. Eu realmente não acho que foi você — Ivy disse, olhando-me de cima a baixo. — Você é muito... Annie, A Pequena Órfã. O que quer que seja que isso signifique. — Eu andei investigando algumas pessoas, mas eu estou em uma séria desvantagem já que eu não estava aqui no ano passado — disse Ivy, avançando dois passos para perscrutar meu armário quebrado. — Eu realmente não sei com quem ela estava saindo... com quem ela estava namorando... — Eu poderia preencher algumas dessas lacunas — eu ofereci, sem pensar muito. Ela virou-se para mim, as sobrancelhas levantadas. — Você poderia? Senti uma ligeira onda de emoção — excitação tentativa — e me levantei. — E você poderia preencher as lacunas dos anos anteriores — eu disse lentamente. — Qualquer um que poderia estar guardando um rancor por muito tempo. Pessoas que eu nem sequer conheço. Por um longo momento nos olhamos mutuamente, nenhuma de nós disposta a fazer o próximo movimento. Só de olhar para ela, eu ainda estava tendo problemas de envolver meu cérebro em torno do fato de que ela não era a inimiga. Que não era ela quem estava plantando todos aqueles pequenos presentes horríveis e enviando os emails. Ivy Slade era inocente. E, como eu, ela também era uma vítima. — Você acha que poderia fazer isso? — Ivy perguntou finalmente, me enfrentando. — Você acha que poderia trabalhar com a namorada do seu ex? Ah, certo. Havia ainda a questão do fato de que ela estava rotineiramente lingueteando com o amor da minha vida. Levou todo o meu autocontrole para eu não estremecer. — Se isso pôr um fim a toda essa porcaria, então eu vou tentar — eu disse. — Duas cabeças pensam melhor que uma, não é?

111


Depois de uma breve hesitação, Ivy estendeu a mão fina e branca. — É o que dizem. Apertamos as mãos e parte de mim se sentiu como se estivesse fazendo um pacto com o diabo. Mas, então, o diabo provavelmente têm maneiras de fazer coisas que eu nunca poderia nem mesmo sonhar. Talvez a união do bem e do mal era exatamente o que precisávamos para descobrir essa coisa. Antes de nosso perseguidor decidir que era hora de se livrar de nós — para sempre.

*** Passei a maior parte do café da manhã na manhã de sábado observando Josh e Ivy e tentando ler sua linguagem corporal. Será que ela disse a ele sobre o nosso novo arranjo? O que ele pensou do presente que eu tinha dado a ele? Será que ele sequer tinha aberto? Tomei um pouco do meu mingau de aveia e desejei que ele olhasse para mim apenas uma vez, mas ele nunca o fez. Ele parecia cativado por Ivy. O que, claro, era uma droga. Além disso, de nenhuma maneira eu poderia tentar falar com ele a sós depois do almoço, porque Ivy e eu tínhamos concordado em nos reunirmos no meu quarto assim que tivéssemos terminado e tentar descobrir qual seria o nosso próximo passo. Eu disse adeus a Diana e as outras, que estavam indo para a biblioteca para estudar para as provas finais, e voltei apressadamente ao Pemberly, mantendo minha cabeça baixa contra o frio. Depois de passar através da excelente segurança do lobby, eu só tive que esperar no meu quarto por cinco minutos antes de Ivy chegar. Ela bateu na porta e de fato esperou que eu a abrisse. Isso quase nunca acontecia no Billings. — Oi — disse ela, tirando seu casaco branco e sua boina enquanto passava por mim para dentro do quarto. — Oi. Esperei nervosamente que ela dissesse alguma coisa sobre o meu presente para Josh. Para me confrontar por eu estar tentando reconquistar seu namorado. Só de pensar nela sendo proprietária sobre ele deixava um gosto amargo na minha língua. — Eu trouxe minha lista de suspeitos — disse ela, arrancando um pedaço de papel da sua bolsa de tweed preta e branca. — É claro que agora todos eles foram riscados, exceto você. Ela estava agindo completamente normal. Então, ou Josh não tinha recebido meu presente depois de tudo, ou ele decidiu não contar a ela sobre isso — o que poderia ser interessante. Se ele estava mantendo isso em segredo, isso significava que o havia tocado — que significou algo para ele. Tentando não ficar esperançosa, eu olhei a lista dela. Ela estava muito usada, com notas na margem e uma mancha de café no topo. Claramente ela estava trabalhando nisto tão duro como Marc e eu havíamos estado. Aparentemente, ela realmente se importava com Cheyenne. — Eu me pergunto quantas pessoas tomaram isso como um hobby — eu disse, me virando e sentando na minha escrivaninha. — O que você quer dizer? Há mais alguém? — Ivy perguntou. Ela sentou na beira da minha cama, puxando para baixo sua curta saia preta. — Marc Alberro. Ele tinha uma paixão por Cheyenne. Além disso, ele meio que pensa que vai ser o próximo repórter principal do New York Times — expliquei. — Então, ele estava investigando também. — Nunca ouvi falar dele — Ivy disse com um encolher de ombros.

112


— Então suponho que estou preenchendo as lacunas em branco — respondi. — Acho que sim. — Ela reclinou-se para trás em suas mãos. — Então vamos ver a sua lista. Eu entreguei a minha lista. Ivy sorriu quando ela a pegou. — Então você estava investigando algumas das Meninas do Billings. Meu rosto ficou rosa, mas eu não tinha certeza do por quê. Eu me concentrei no meu computador, abrindo a tela de busca do Google, no caso de precisarmos. — É claro que eu o fiz. — Eu só estou surpresa. Eu pensei que pra vocês tudo se resumia em irmandade e lealdade — disse ela, suas palavras pingando com desdém. — Eu não sou uma idiota — eu disse a ela, pegando a lista de volta. — Uma das minhas “irmãs” tentou me matar no ano passado, no caso de você não ter ouvido. — Ah. Certo — disse ela com um traço de desgosto. — Ariana. Quem sabia que ela se converteria em tal psicopata? — Ela me olhou de lado e endireitou-se. — Talvez seja ela quem tem estado perseguindo você. Ou nós. Meu coração saltou uma batida aterrorizada. A própria ideia de Ariana à espreita nas sombras da minha vida fazia minha pele se arrepiar. Mas eu afastei o sentimento de lado. — Não é possível. Ela está trancada em algum hospício ou algo assim. — Isso é o que dizem — Ivy disse com um grande sorriso. Eu poderia dizer pelo brilho em seus olhos que ela não acreditava que Ariana estava realmente por trás disso — que ela estava andando por aí. Mas eu não gostava disso. A menina tentou me jogar do telhado do Billings dezembro passado. Isso não era algo sobre o qual eu estava pronta para brincar. — E se ela estiver no campus em algum lugar neste exato momento? — Ivy sugeriu. Com uma onda de medo fresco, recordei aquelas poucas vezes no início do semestre que eu tinha sentido como se estivesse sendo vigiada. Quando eu podia jurar que tinha visto um par de frios olhos azuis me encarando das estantes da biblioteca, mas quando ia investigar, não havia ninguém lá. Deixar todas aquelas coisas no meu quarto, enviar e-mails... essas eram exatamente os tipos de coisas insanas que Ariana poderia fazer. Mas não era possível. Ela estava trancada com toda segurança. Muito longe. — Coisas estranhas têm acontecido, certo? — Ivy disse, amando sua teoria da conspiração assustadora. — Posso lhe fazer uma pergunta? — eu soltei. — Claro. — Por que diabos você colocou aquela foto acima de sua cama? — eu perguntei, virando-me lateralmente na minha cadeira. — Quero dizer, você odiava Noelle e Ariana, olhar para o rosto de Cheyenne cada dia não poderia ter sido divertido, e foi tirada, basicamente, no pior dia da sua vida. Ivy arqueou uma sobrancelha perfeita. — Você tem feito sua lição de casa. — Ela olhou para baixo e puxou um fio invisível de sua saia, sacudindo-o no chão. — Eu mantive a foto por duas razões. Uma, eu realmente me diverti naquele dia, limpando o parque. Nós todas nos divertimos. É a última lembrança boa que tenho de Cheyenne, e até mesmo das... outras duas. — Um rubor iluminou seu rosto por um breve momento e ela olhou-me nos olhos. — E a segunda, cada vez que eu olhava para ela, ela me lembrava que não importa quanta diversão você tenha com as pessoas, elas podem virar as costas para você em um segundo. Seu comentário golpeou meu coração com a força de um tiro. Ela estava certa, depois de tudo. As Meninas do Billings viraram as costas para mim assim. Mas, então, eu tinha feito algo terrível com uma das nossas. Ivy nunca tinha feito nada para machucar ninguém.

113


Irreal. Ivy era mais inocente do que eu era. — Talvez devêssemos voltar para o que estávamos fazendo — eu sugeri. — Está bem para mim — Ivy respondeu, cruzando os braços sobre o peito. — Então, você investigou algumas das Meninas do Billings, mas não todas. — Por que eu investigaria todas elas? — perguntei, minha cara retorcida em consternação. — Algumas delas não têm motivo algum. — Ah, eu não sei, porque todas elas tiveram a oportunidade? — Ivy sugeriu com um encolher de ombros. — Melhor oportunidade do que qualquer outra pessoa. Quer dizer, quando chega a isso, a escolha óbvia é alguém que vive no Billings. Seria muito difícil um estranho aleatório entrar lá no meio da noite, sem que nenhuma de vocês percebesse. — Ele não teria que forçar a entrada. É muito fácil obter um cartão-chave para qualquer dormitório do campus — eu disse. — Eu sei disso. Tudo o que você precisa fazer é entrar naquele cofre na mesa da Srta. Lewis — disse Ivy. — Mas... — Como você sabe sobre isso? — eu interrompi. — Foi uma das nossas “tarefas” do Billings — Ivy respondeu, fazendo aspas no ar. — Tivemos de fazer cópias da chave do Ketlar para todas as irmãs. Foi a coisa mais fácil que tivemos que fazer. Mas, mesmo se alguém tivesse uma chave, vocês poderiam notar que a pessoa não pertencia a seu dormitório. Vocês são apenas dezesseis. Eu odiava admitir, mas a menina tinha um ponto. — Eu digo que verifiquemos todas as Meninas do Billings — Ivy acrescentou. — Especialmente considerando que não temos outros suspeitos no momento. Honestamente, parecia uma boa ideia, mesmo que eu não fosse compartilhar esse pensamento com Ivy. Afinal, Ariana tinha sido uma das minhas melhores amigas, e eu nunca havia suspeitado que ela tinha assassinado Thomas. Nem em um milhão de anos. Então não era possível que houvesse alguém dentro do Billings que parecesse tão inocente, mas era capaz de coisas horríveis? — Droga, eu queria ainda ter aquele disco — eu disse baixinho, me inclinando com o cotovelo sobre a mesa. — Que disco? — Ivy perguntou. Eu hesitei por um segundo, mas percebi que não havia nenhum ponto em esconder dela o segredo do disco. Nós deveríamos ser parceiras aqui. E, além disso, não havia chance de ela ver o que tinha nos arquivos secretos. O disco estava muito longe. Eu respirei fundo e me virei em minha cadeira, entrelaçando os dedos entre os joelhos. — Eu tinha um disco com várias informações privilegiadas sobre todas as meninas do Billings — eu disse a ela. — Elas me deram quando eu era presidente. Eu realmente não sei por que, mas... Bem, de qualquer maneira, eu o destruí. — O quê? Por quê? — Ivy perguntou. — Porque eu não queria ter que dar a Noelle, basicamente — respondi. — Foi uma coisa que fiz para proteger meu orgulho próprio. — E você nunca fez uma cópia? — Ivy perguntou. — Não — respondi, envergonhada mais uma vez pela minha falta de premeditação. — Que bom raciocínio, menina gênia — disse ela, levantando-se. Meu rosto corou e eu realmente quis puxar seu cabelo. Trabalhar com ela não ia ser fácil. — Alguma vez você o viu? — Sim, uma vez. Olhei a mim mesma. — Legal. — Ivy revirou os olhos. — Nesse computador? — É o único que eu tenho — eu disse, querendo saber aonde isso ia.

114


— Aqui — ela disse, apontando para eu me afastar na minha cadeira. — Deixa eu tentar uma coisa. Ela tinha que estar brincando. Como eu ia deixá-la revisar meu computador? Ivy revirou os olhos. — Deus, você é realmente paranoica, não é? Eu não vou fazer nada com ele — disse ela condescendente. — Eu só quero ver uma coisa. Você pode ver cada tecla que eu teclar, eu prometo. Ela já estava tentando se sentar e se eu não me movesse, ela ia acabar metade no meu colo. Eu deslizei para fora de lá o mais rápido que pude e recuei. Ivy abriu um par de janelas e clicou duas vezes em um arquivo marcado com “Arquivos Temporários”. — Et voila! — ela disse alegremente, levantando a mão. Eu olhei por cima do seu ombro. Um dos arquivos perto do topo estava intitulado “Residentes Atuais do Billings”. — Isso não é possível — eu disse, me inclinando sobre ela clicando nele para abrir. De fato, todos os arquivos estavam lá, desde Noelle até mim. — Computadores mantêm todos os arquivos que você abrir para sempre, desde que você não os apague — Ivy disse, levantando-se novamente e puxando a cadeira para mim. — Eu fico constantemente espantada com a quantidade de pessoas que não sabem disso. Eu ignorei sua alfinetada sobre minha falta de conhecimento de computação. Meu coração estava batendo muito forte. Todo esse tempo, toda a informação que eu estava desejando que eu ainda tivesse estava justo no meu computador. Eu deveria ter me unido com a gênia do computador residente do Pemberly mais cedo. Não que isso alguma vez houvesse passado pela minha mente. — Então, por onde devemos começar? — Ivy perguntou, praticamente salivando para descobrir todos os detalhes sórdidos da vida das Meninas do Billings. Tão previsível. — Vamos começar com Cheyenne — eu sugeri, clicando para abrir o arquivo dela. Eu nunca tinha tido a coragem de olhá-lo antes, sentindo como se fosse de alguma forma errado olhar os segredos dos mortos. Mas agora eu tinha que acreditar que ela iria querer que nós o olhássemos — que ela gostaria que nós descobríssemos quem a havia assassinado e tivéssemos a certeza de que a pessoa seria punida. — Faz sentido, certo? Talvez haja algo em seu arquivo que nenhuma de nós sabe. — Certo — disse Ivy. Mas eu poderia dizer que ela estava desapontada. O arquivo de Noelle provavelmente estava chamando-a como o Santo Graal. O arquivo de Cheyenne era mais longo do que qualquer um dos outros que eu tinha olhado. Eu rapidamente rolei através dos detalhes básicos de sua vida — cônjuges atuais de seus pais e ex-amantes. Seus empregos e renda. Seus imóveis. Sinais vitais de Cheyenne como data de nascimento, passatempos, prêmios ganhos. As listas eram enormes. Cheyenne era exatamente a superqualificada que ela sempre dizia ser. E então veio a lista de relacionamentos significativos. — Caramba — eu disse, enquanto Ivy assobiou. — Eu sabia que ela era ativa, mas não tão ativa — disse Ivy. A lista se prolongava por dias. Nomes e datas. Alguns dos nomes tinham várias datas ao lado deles, indicando que Cheyenne havia rompido e voltado com o cara várias vezes. Muitas das datas estavam sobrepostas. Alguns dos nomes eram familiares, como Trey Prescott, Thatcher Ennis de Barton e Daniel Ryan, que se formara de Easton um par de anos atrás. Dominic estava lá, assim como Gage. Havia nomes de alguns outros caras da escola, e depois de uma tonelada que eu não reconheci. Eu percorria rapidamente, sem saber o que pensar. Como poderia uma menina da minha idade, possivelmente, ter passado por tantos...

115


— Para! — Ivy gritou de repente. Eu pulei para fora da minha pele. — O quê? — Volta — disse ela. — Deus, você me deu um ataque cardíaco. — Seja como for, rainha do drama — Ivy disse, revirando os olhos. — Volta para cima. Com os dedos tremendo, eu fiz como me foi dito. — Não. — Ivy apontou e apertou os olhos quando ela se inclinou tão perto do meu ombro que o seu longo cabelo roçou minha bochecha. — Aí diz Dustin Carmichael? Meus olhos caíram sobre o nome, mas demorou um segundo para o meu cérebro se recuperar. Enquanto isso acontecia, minha respiração ficou presa na minha garganta. — Dustin Carmichael? Como o... — Pai de Amberly — dissemos em uníssono. — Eca! — Ivy proclamou, recuando. Seu rosto se enrugou com nojo. — O cara tem, tipo, quarenta! Senti bile subir em minha garganta e a engoli de volta, tentando me concentrar. Eu olhei para as datas ao lado do nome dele. Cobriam as duas semanas justo antes das aulas terem começado. Durante duas semanas, aparentemente, Cheyenne de alguma forma manteve um caso com o pai de Amberly. — Quero dizer, eu sei que ele é um dos cinco homens mais ricos do mundo, mas ainda assim — Ivy estava dizendo. — Você acha que os dois... — Ivy, cala a boca um segundo — eu disse, minha mente correndo quando me virei de lado em meu assento. — Como é? — ela respondeu, irritada. — Se esquece do quão asqueroso isso é e se concentra — eu disse, olhando para ela. — Cheyenne teve um caso com o pai de Amberly. Logo antes do início das aulas. Três ou quatro semanas antes de Cheyenne ser morta. O entendimento iluminou o rosto de Ivy. — Você não acha que poderia ter sido aquela pequena tartelete... — Por que não? É um motivo — eu disse, me levantando. — Talvez ela descobriu isso e teve um acesso de raiva. Além disso, como todos sabemos, a morte de Cheyenne deixou uma abertura para Noelle voltar, o que Amberly definitivamente queria. Ela sempre fez questão de dizer a todos que ela e Noelle eram velhas amigas. Talvez ela percebeu que se Noelle voltasse e assumisse o Billings, ela teria a chance de entrar. — Isso é exatamente o que aconteceu — Ivy disse, com os olhos arregalados. Senti um choque de eletricidade entre nós. — Eu sabia! Eu sabia que havia algo estranho naquela garota. É por isso que ela queria tanto o disco! Ela estava preocupada que eu pudesse descobrir sobre seu pai e Cheyenne! Ela estava apenas tentando se proteger. — Espere. O que você quer dizer com que ela queria o disco? — Ivy perguntou. — Eu disse a Noelle que eu tinha uma cópia disso, só para assustá-la — eu disse, apontando para o computador. — Amberly ouviu e exigiu que eu o desse a ela, e quando eu não o fiz, ela destroçou totalmente o meu quarto procurando por ele. — Oh, meu Deus — disse Ivy, empalidecendo. — Ela é uma psicopata. Embora ela não seja a única pessoa que conheço que tem estado entrando nos quartos de outras pessoas — acrescentou ela, com um olhar de cumplicidade. — Você é hilária — eu disse sarcasticamente. Ivy sorriu. — Mas espera — ela disse, pegando minha lista de suspeitos da minha mesa. — Você tinha Amberly aqui, mas a descartou. Por quê? Eu pisquei para a lista. O nome de Amberly tinha sido adicionado às pressas depois que eu notei sua transformação em Ariana, em seguida, descartei depois de eu

116


ter falado com suas amigas. — Certo. Porque suas companheiras de quarto deram-lhe um álibi. — Era sólido? — Ivy perguntou, segurando a página com ambas as mãos. Tentei me lembrar de cada detalhe da minha conversa com Lara e Kirsten no banheiro. Como Kirsten tinha pensado que Amberly voltou para seu quarto “quase ao amanhecer”, e como Lara tinha rapidamente corrigido ela, dizendo que ainda estava escuro. — Não. Essa menina Lara estava definitivamente escondendo alguma coisa. Droga! — eu disse, meus pés levantando-se por vontade própria. — Eu sabia. Eu sabia que deveria ter pressionado ela. Fechei os olhos com força e levei a minha mão à minha cabeça. Eu tinha estado sobre Amberly dias atrás e eu a tinha deixado ir baseada na porcaria da história de duas calouras coniventes. Ela poderia facilmente ter mentido sobre a hora do retorno de Amberly para seu quarto naquela noite. E se ela mentiu, tudo somava. Tudo fazia sentido. — Você acha que ela é a nossa perseguidora, também? — Ivy perguntou. Eu tive que piscar algumas vezes para ela entrar em foco novamente. Por um momento eu tinha esquecido inteiramente o perseguidor depois de tudo. — Eu não sei. — Pense nisso. Ela mata Cheyenne, então, tenta te deixar louca por causa disso, colocando toda a culpa em você e deixando todos aqueles presentinhos sádicos. Eu tinha contado todos os detalhes da minha perseguição a Ivy na noite anterior, depois de termos feito o nosso pacto. Ela tinha ficado, para minha satisfação, devidamente chocada com tudo isso. Aparentemente, a menina tinha um lado humano, afinal. — Talvez ela pensou que você não seria capaz de lidar com isso e sairia do Billings — Ivy teorizou. — Então quando Noelle voltou, ela tratou de criar um lugar para ela no dormitório. O qual ela também conseguiu fazer. — Além disso, por se livrar de mim, ela podia se mover como a nova melhor amiga de Noelle — eu disse lentamente. — E eu tenho certeza que sua nova melhor amiga lhe disse o que todas as Meninas do Billings me fizeram fazer no início do ano passado. Eu não posso acreditar nisso. Eu me senti fraca e de repente tive que me sentar na beira da minha cama. Ela estava certa. Aquela vadia louca estava vivendo no meu quarto, dormindo na minha cama, usando o meu banheiro privado. Oh, meu Deus. Durante todo esse tempo Sabine tem estado compartilhando o quarto com uma psicopata. — Mas, e a foto marcada com os Xs em seu quarto? — perguntei a Ivy. — Obviamente, ela plantou lá, tentando lançar a coisa toda sobre mim — Ivy disse, levantando a mão enquanto ela passeava pelo meu quarto minúsculo. — O que também funcionou por algumas horas. Droga, essa menina é boa. Todas as peças do quebra-cabeça maciçamente distorcido estavam finalmente se encaixando. — Eu não posso acreditar que eu não vi isso antes — eu pensei. — Isso não importa. O que importa é que vemos agora — disse Ivy. — Então, o que vamos fazer sobre isso? — Precisamos de provas — eu disse firmemente. — Alguma coisa concreta que possamos levar para Hauer. Depois do que aconteceu ontem, ele nunca vai acreditar apenas na nossa palavra. Ivy sorriu. — Bem, felizmente para nós o dormitório inteiro estará deserto à noite. Eu pisquei para ela, minha pele formigando com o entendimento. — A pré-festa de Kiran.

117


— Exatamente — disse Ivy, sentando na minha cadeira e colocando as mãos para baixo sobre suas pernas. — Tudo o que temos que fazer é encontrar uma maneira de entrar lá e investigar o seu quarto. Ver o que podemos encontrar. — Felizmente, eu ainda tenho algumas amigas no interior — eu disse, com minha pulsação acelerada. Peguei meu iPhone da minha mesa e disquei rapidamente para o celular de Sabine. Foi direto para o correio de voz. Eu não ia conseguir o que queria dela, mas pelo menos eu poderia deixar-lhe uma mensagem. Esperei o sinal sonoro e falei rapidamente. — Sabine, é Reed. Isso vai soar insano, mas eu só queria avisá-la... Eu acho que Amberly pode ter sido a minha perseguidora o tempo todo, por isso... tome cuidado — eu disse. — Me liga quando receber isso. Encerrei a chamada e depois tentei Constance. — Ei, Reed! — ela disse alegremente, atendendo no primeiro toque. — O que foi? — Constance, eu preciso do seu cartão-chave do Billings — eu disse. — Para quê? — perguntou ela. — Eu tenho que... voltar para meu antigo quarto. Deixei algo lá que eu preciso — eu improvisei, olhando para Ivy. Ela assentiu com aprovação para a minha história. — Oh, bem, eu posso conseguir isso para você — Constance ofereceu. Eu fechei meus olhos e apertei minha mão livre. Às vezes o lado útil de Constance era realmente inútil. — Na verdade, está meio que oculto e seria muito difícil de explicar onde está. Eu estava pensando em ir procurar hoje à noite depois que Amberly e Sabine saírem. Houve uma pequena pausa antes de Constance dizer: — Ok. Tudo bem. Olhei para Ivy e mostrei um rápido sinal de positivo. — Ah, e Constance, não conte a ninguém sobre isso, ok? Tenho certeza de que todas iriam pirar se soubessem que eu estive lá, mesmo que por cinco minutos. — Eu entendo totalmente. Meus lábios estão selados — disse Constance. — Eu vou escorregar-lhe o cartão na hora do almoço e vou arranjar alguém para me deixar entrar depois. — Constance, o que eu faria sem você? — eu perguntei. Eu quase podia sentir o calor do seu rubor através do telefone. — Reed! Isso não é grande coisa. Eu te vejo mais tarde. — Até mais tarde. Eu pressionei desligar no celular e o segurei com as duas mãos para parar o tremor nervoso. Com um sorriso triste, eu olhei para Ivy. — Estamos dentro.

*** Passar por cima do limiar do Billings era meio como entrar em minha antiga escola depois que eu me formei. Eu deveria me sentir em casa, mas o lugar parecia estranhamente nada familiar. Como se o lugar tivesse mudado. Como se as paredes soubessem que eu não deveria estar ali. Eu senti uma sacudida de apreensão quando Ivy agarrou o corrimão e subiu as escadas. O primeiro degrau rangeu no silêncio. — Reed! — ela sussurrou. — Vamos! Ela estava vestida da cabeça aos pés de preto, como um ladrão de um desenho animado. Eu estava usando meu vestido curto dourado e meu casaco de lã longo,

118


totalmente planejando ainda alcançar o ônibus da festa de Kiran quando terminasse aqui. — Estou indo — eu respondi através dos meus dentes. Juntas, corremos até as escadas para o andar superior, onde o meu antigo quarto estava localizado. Eu apontei a porta para Ivy. Meu coração batia como se eu tivesse acabado de beber oito xícaras de café expresso. Isso era muito estranho. Muito estranho. Mas quando Ivy abriu a porta, só ficou ainda mais estranho. Meu lado do quarto tinha sido completamente tomado pela brigada dos Ursinhos Carinhosos. Tudo estava em tons pastéis. Colcha rosa, almofadas macias azuis claras e amarelas, uma saia de cama com bordado de ilhós. Amberly também tinha colocado uma tenda de fitas suspensa do teto sobre a cama, drapeada para baixo sobre o colchão como se ela fosse algum tipo de princesa da Disney. Nas paredes haviam fotos emolduradas dela e de uma menina que só poderia ser sua irmã, sorrindo na frente de várias maravilhas do mundo. O Taj Mahal. A Grande Muralha da China. As Pirâmides. Eu teria ficado impressionada se as fotos não fossem tão estranhamente rígidas. Como se ela tivesse fotoshopeado as duas fotos em recortes de revistas ou algo assim. — Essa menina precisa de ajuda profissional — Ivy disse, indicando uma coleção de bonecas de porcelana colocadas ao longo da prateleira de cima sobre a minha antiga escrivaninha. Seus olhos olhavam fixamente para nós por debaixo de cachos perfeitamente colocados. — Vamos acabar com isso — eu disse. — Eu estou dentro — respondeu Ivy. Ela acendeu a lâmpada da escrivaninha de Amberly para que pudéssemos ver sem a ajuda da luz do corredor, e eu fechei a porta silenciosamente atrás de nós. Eu imediatamente ataquei as gavetas da escrivaninha enquanto Ivy caiu no chão e puxou algumas caixas de debaixo da cama. Tudo o que eu encontrei foi uma enorme coleção de material de escritório da Hello Kitty. Ivy descobriu uma caixa cheia de materiais de artesanato e uma coleção de livros de poesia. — Alguma coisa? — perguntei enquanto Ivy folheava alguns dos livros, esperando que algo incriminador pudesse cair. — Nada — disse ela. — Vou olhar o armário — disse-lhe. — E eu a cômoda — Ivy ofereceu. Meu pulso batia enquanto eu cavava através das caixas de sapato no chão e as pilhas de livros e roupas nas prateleiras acima. Ivy batia cada gaveta quando ela terminava de vê-la, e com cada batida meu coração saltava um pouco mais alto para minha garganta. — Quer parar de fazer isso? — sussurrei. — Não há nada aqui! — Ivy respondeu sem desculpas. Claramente ela já estava ficando cada vez mais frustrada. — Talvez no banheiro. Ela virou-se e se chocou direto no final da cama de Sabine. O colchão balançou e bateu na mesinha de cabeceira, fazendo com que uma vela e um porta-retrato caíssem no chão com o som inconfundível de um vidro sendo quebrado. — Merda — Ivy disse em voz baixa. — Eu pego — eu disse a ela, caminhando para pegar as coisas de Sabine. Eu coloquei a vela na mesinha de cabeceira e verifiquei o porta-retrato quebrado. Como previsto, havia uma rachadura no centro do vidro. Merda. Parecia que eu devia a Sabine um novo porta-retrato. Eu estava prestes a abri-lo para remover os cacos, quando vi algo estranho na foto, justo sob a rachadura. Eu nunca tinha realmente olhado para a foto de Sabine e sua mãe antes, exceto ao passar a caminho do banheiro, mas agora eu vi que havia uma mão extra na imagem.

119


Uma mão branca cremosa de uma mulher. Alguém tinha seu braço pendurado sobre o ombro de Sabine do outro lado. — Isso é estranho — eu disse. — O quê? Ivy chegou perto de mim para conferir. — Olha. Ela cortou alguém da foto — eu disse, apontando para a mão. — Ou a dobrou — disse Ivy. Ela pegou o porta-retrato de mim. Ela começou a desfazer os ganchos da parte de trás. — Ivy! O que você está fazendo? — eu sussurrei, tentando arrebatar novamente o porta-retrato. — Deixa as coisas de Sabine em paz! — Temos que jogar fora o vidro quebrado — disse Ivy, como que atestando um fato. Ivy finalmente tirou a foto e os cacos de vidro caíram na cama perfeitamente feita de Sabine. Realmente a foto estava dobrada. Eu peguei o que restava do porta-retrato de volta enquanto Ivy abria a foto na frente dela. Seu rosto empalideceu tão rápido que fez meu coração cair. — Ah. Meu. Deus. — O quê? — eu disse. — O que há de errado? Ela virou a imagem, segurando-a na frente de seu peito. O quarto em volta de mim se turvou enquanto eu focava na foto. Focava no rosto sorridente de uma menina loira e bonita com olhos azuis de gelo. O rosto de Ariana Osgood. Minhas mãos tremiam quando peguei a foto. Cada centímetro de mim tremia. Do outro lado de Ariana havia um homem mais velho de cabelos brancos e olhos azuis, que parecia estar rindo enquanto a imagem estava sendo tirada. O pai de Ariana. Tinha que ser. Ele se parecia com ela. Eu sabia o que eu estava vendo, mas eu não poderia dar um sentido. Meu cérebro se recusava a aceitar. O Sr. Osgood rindo com o braço em volta de Ariana. Ariana sorrindo com o braço em torno de Sabine. Sabine com o braço no ombro de sua mãe ao seu lado. Eles pareciam uma grande família feliz. — Eu não entendo — eu disse, me sentando trêmula na beira da cama de Sabine. Minha respiração começou a ficar rápida e superficial, meu peito arfava de cima para baixo. — Eu não entendo. — Ela já lhe disse que ela conhecia Ariana? — Ivy perguntou, sentando-se ao meu lado. — Nunca. Ela nunca disse uma palavra — eu respondi, minha mente correndo enquanto a minha pele começava a queimar. — Ela deveria ser minha melhor amiga, mas todo o semestre ela tem estado escondendo isso de mim. Ela sabe que a menina tentou me matar. Parece até que ela é... amiga dela. — Você não acha que ela é... quero dizer, que Sabine é... — Ivy parou, como se fosse impossível para ela dizer o que ela estava pensando. Eu me sentia do mesmo jeito. Era impossível para mim processar isso. Sabine poderia ser a nossa perseguidora. A doce e inofensiva Sabine poderia ser a assassina de Cheyenne. De repente, eu me vi de pé, ainda segurando a foto. — Eu tenho que ir — eu disse, meio cega de raiva e confusão. — Ir para onde? — Ivy perguntou, de pé também. — Todos esses meses eu vivi com ela. Todos esses meses eu confiei nela em tudo. E todo esse tempo ela estava mentindo na minha cara — eu cuspi. — Se ela pôde esconder isso de mim, sobre o quê mais ela tem estado mentindo? — eu adicionei, segurando a foto.

120


— Reed, você não pode simplesmente confrontá-la. Temos que chamar a polícia — Ivy disse com firmeza, passando à frente de mim como para bloquear meu caminho até a porta. — Ligue para a polícia — disse-lhe. — Eu vou. Ela estendeu a mão e agarrou meu pulso. — Mas a menina pode ser seriamente perigosa. — Eu não me importo. Há uma centena de pessoas na festa — eu disse. — O que ela vai fazer comigo na frente de centenas de pessoas? — Reed, eu não posso deixar você... — Você pode me deixar ir, ou eu posso fazer com que você deixe — eu disse a ela, olhando em seus olhos negros como carvão. — A escolha é sua. Só assim, Ivy me liberou. E só assim, eu estava no meu caminho através do campus para finalmente confrontar a menina que se dizia ser a minha melhor amiga.

*** A música estava batendo com força quando chegamos ao solário, Ivy tentando desesperadamente explicar tudo em seu celular — para fazer o oficial do outro lado entender. Luzes vermelhas e cor de rosa brilhavam, banhando todos os rostos e distorcendo-os em máscaras assustadoras. Para todo lugar que eu olhava as pessoas estavam rindo, tomando ponche e dançando. Todo mundo que eu conhecia inconscientemente se preparava para uma noite de folia. Exceto Sabine. Onde estava Sabine? — Reed! Eu estou tão feliz por você estar aqui. — Noelle apareceu do nada e colocou sua mão quente na minha. — Eu acho que é hora de conversarmos. — Não — eu me ouvi dizer. — Agora não. Um olhar de consternação atravessou o rosto de Noelle, mas eu não tinha tempo para explicar. Eu deslizei para longe dela e mergulhei no meio da multidão. Atrás de mim eu podia ouvi-la bloqueando a entrada de Ivy, dizendo que ela não foi convidada e que ela tinha que ir. Se Noelle soubesse o que Ivy tinha feito por mim agora. Se ela soubesse como tudo tinha mudado tão de repente e fundamentalmente. Mas ela iria descobrir em breve. — Reed! Hey. Era Josh. O adorável, inocente e beijável Josh em seu terno com uma camisa de colarinho aberto, parecendo tão perfeitamente bonito. Ele se aproximou de mim e baixou os lábios para a minha orelha. — Eu recebi o seu presente. Muito obrigado. Os pinceis... a carta ... foi incrível — disse ele. — Podemos talvez ir a algum lugar e conversar? Eu mal registrei as palavras. Não senti nada com sua proximidade. Eu não conseguia sentir nada além da minha raiva. E então eu a vi. Dançando perto da borda da multidão com Astrid, Constance, Trey e Gage. Meus amigos. Ela não tinha o direito de estar em qualquer lugar perto dos meus amigos. — Mais tarde — disse a Josh. Eu me afastei dele, empurrando de lado as Meninas do Billings e os meninos do Ketlar enquanto caminhava. Eu passei direto por Astrid e Constance. Sabine notou a minha aproximação, e seu rosto inteiro se iluminou. — Reed! Aí está você! Estávamos nos perguntando quando você...

121


Tremendo da cabeça aos pés, desdobrei a foto oito por dez e a ergui bem na frente de seu rosto. Sabine parou de dançar. — O que. Diabos. É isso? — eu exigi. Em torno de nós, Astrid, Constance, Trey e Gage pararam de se mover lentamente e olharam-se uns para os outros com cautela. Eles não podiam ver a foto, mas, obviamente, sentiram a tensão. O sorriso de Sabine vacilou, mas apenas por breves momentos. — Onde você conseguiu isso? — Sabine perguntou, a voz quase inaudível sobre a música. — Você sabe de onde a peguei — do porta-retrato perto da sua cama — respondi, avançando um pouco sobre ela, ainda segurando a foto acima. — O que você está fazendo com Ariana, Sabine? Como diabos você a conhece? Como você pôde esconder isso de mim todo esse tempo? Sabine olhou em volta e riu nervosamente, enquanto nossos amigos em comum estavam agora boquiabertos para ela. — Eu não sei do que ela está falando — disse ela, balançando a cabeça. — A prova está bem aqui — eu disse, empurrando a foto para ela. — Você não pode nem mesmo tentar negar. Diga-me a verdade, Sabine. O que você está fazendo com Ariana Osgood? Sabine ainda estava sorrindo, olhando para mim como se eu tivesse enlouquecido. Meu sangue fervia tão quente que parecia que minha pele ia chamuscar imediatamente. — Reed, eu... — Essa menina tentou me matar — eu soltei, com minha mão tremendo. — Me diga como você conhece essa vadia psicopata! Só assim, alguma coisa dentro de Sabine pareceu mudar. A inocente máscara de cachorro acuado caiu e foi substituída por algo sombrio. Algo maligno. Algo latente. — Não a chame assim — ela disse, com uma voz dura. Eu tive que rir. — Chamá-la do que? Vadia psicopata? Isso é exatamente o que ela é. Sabine veio direto a minha cara tão rápido que eu quase perdi o equilíbrio. Seus olhos verdes cravaram-se nos meus. — Ela não é uma vadia psicopata — ela sussurrou por entre os dentes. — Ela é minha irmã. O mundo à minha volta foi sugado para dentro de um vácuo, não deixando nada para trás além de mim e Sabine. As luzes, a música, as vozes, o riso, o giro de cores ao meu redor. Foi como um flash. Tudo o que eu podia ver era o olhar raivoso nos olhos de Sabine. Tão parecido com a ferocidade de Ariana. Tão familiar. Tão óbvio. Ariana era irmã de Sabine. A qual ela sempre falava como se ela fosse uma espécie de deusa, a qual ela tinha visitado fora do campus, a qual tinha estado “fora do país” durante a nossa arrecadação de fundos. Todo esse tempo ela estava falando sobre Ariana. É claro que a menina estava fora do país. Ela estava fora de sua mente enlouquecida. De repente, me lembrei de um par de semanas atrás, quando Sabine tentou fazer com que eu fizesse confidências a ela sobre meu rompimento com Josh. Ela tinha mencionado ajudar sua irmã com um rompimento ruim. Ela estava falando sobre Ariana e Thomas, então? Meu Deus, eu era uma total idiota. — Sua o quê? — Constance deixou escapar, trazendo-me de volta para o aqui e o agora. O mundo correu de volta para mim tão rápido que eu pensei que ia desmaiar. E em cima disso, um entendimento. O completo entendimento da verdade. — Foi você — eu disse baixinho, minha mão e a foto finalmente caíram. Sabine tinha matado Cheyenne. Sabine tinha estado me perseguindo. Ela tinha feito tudo por Ariana. — Foi tudo você.

122


Sabine simplesmente olhou para mim, mas eu vi a luz do triunfo em seus olhos. Ela nem parecia chateada por ter sido pega. Ela parecia... animada. — Espere um minuto, espere um minuto — disse Trey, dando um passo ao nosso lado. Lentamente, uma multidão estava se formando em torno de nós. Trey. Noelle. Astrid. Gage. — O que você quer dizer com foi tudo ela? O que foi ela? Reed, o que diabos está acontecendo? Eu não podia lhe responder. Tudo o que eu podia fazer era olhar para Sabine. — Por que você teve que matar Cheyenne? — eu perguntei a ela, de repente minha garganta doendo. — Se você me queria, então por que você não só veio atrás de mim? Por que você teve que machucá-la? Minha voz quebrou na palavra machucá-la, o que me irritou. Trey e Gage se olharam com uma compreensão sombria rastejando em seus olhos. — Porque eu queria que você sentisse isso — ela disse ferozmente, seus dentes ainda cerrados. — Eu queria que você sentisse como era lentamente perder a cabeça. Eu queria que você passasse exatamente o que você fez a minha irmã passar. Olho por olho. — O quê? — Trey disse. — Do que diabos vocês estão falando? — Deixa ela falar — eu disse, afastando Trey com a mão. — É uma sensação boa falar, não é mesmo, Sabine? Assim como Ariana fez. Não faz você se sentir bem tirar tudo do peito? — Não fale sobre a minha irmã como se você a conhecesse! — Sabine estalou, aproximando-se do meu rosto. — Você a arruinou! Houve alguns suspiros em torno de mim, enquanto a multidão engrossava. Até agora, tinha sido difícil para qualquer um nos ouvir acima do barulho, mas agora que os outros festeiros estavam começando a tomar conhecimento do que estava acontecendo, eu podia ouvir os sussurros correndo, desaparecendo no baixo pesado da música. — Irmã de Ariana? — Sabine? — Reed acabou de dizer que Sabine matou Cheyenne... Eu vi Josh aparecer na primeira fila de espectadores, seu lindo rosto vincado com preocupação e confusão. Eu me senti mais forte só de vê-lo ali. — Tudo bem. Digamos que eu arruinei Ariana — eu disse sarcasticamente. — O que isso tem a ver com Cheyenne? Sabine soltou uma risada maligna. — Não jogue isso pra cima de mim — disse ela, balançando a cabeça. — Eu nunca teria que fazer isso se não fosse por Josh. Tudo o que eu queria fazer era ajudar Cheyenne a roubá-lo de você do jeito que você roubou Thomas de Ariana. Muito fácil. Mas não. Não com Josh. Ele te amava muito. Ele era muito forte. Eu tive que drogá-lo naquela noite para fazê-lo transar com Cheyenne no Cemitério das Artes. Todo o ar correu para fora dos meus pulmões. O rosto de Astrid estava pálido e Constance soltou um pequeno gemido. — O quê? Foi você? — Josh perguntou, vindo para frente. — Você me deu aquelas pílulas? Você poderia ter me matado! Sabine riu. — Por favor. Você está bem. Até já superou isso. Eu não conseguia parar de olhar para o rosto dela, tentando encontrar alguma semelhança da menina que eu tinha conhecido durante todo o ano. A menina que eu tinha confiado. Mas não havia nenhum traço da doce e inocente Sabine. Ela era toda escuridão. — Além disso, os comprimidos nem sequer funcionaram! Vocês dois ainda voltaram. Me deixou nauseada a maneira como você só o perdoou — Sabine disse, olhando para os meus pés como se quisesse cuspir neles. — Foi quando eu percebi que tinha que tomar uma abordagem mais extrema.

123


— Então é verdade. Você a matou só para chegar a mim. Para fazer eu me sentir responsável — eu disse, minhas mãos suando. Uma dura onda de culpa se estabeleceu em meu coração. Mais uma vez eu era indiretamente responsável por um assassinato. Primeiro Thomas, agora Cheyenne. Ambos mortos por minha causa. Senti Noelle dando um passo atrás de mim. Tomando conta de mim. Assim como nos velhos tempos. Ela colocou a mão no meu ombro protetoramente. — Danos colaterais — Sabine disse com um sorriso de escárnio. — Necessário em todas as guerras. E vamos encarar, Cheyenne era uma espécie de puta. Guerras? Guerras? Ela estava claramente louca. Completa e totalmente enlouquecida. Eu mal podia pensar. Nem sentir. Nem processar tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Não havia espaço. Nem ar. Mas eu precisava saber. — E o quê, o seu plano de batalha era me atormentar? Me fazer pensar que Cheyenne foi morta por minha causa? Sabine riu, seus olhos selvagens. — Você devia ter visto a si mesma. Toda vez que eu lhe enviava um e-mail ou deixava um pequeno “presente”. Coisas que eu roubei do quarto de Cheyenne naquela noite que seus pais tão generosamente nos deixaram mexer em todas as coisas dela. Você estava sempre à beira de um colapso nervoso. Alguém, em algum lugar, finalmente interrompeu a música pesada, e todos ao redor estavam sussurrando e se acotovelando. Senti lágrimas de raiva e embaraço em meus olhos. Eu não aguentava mais isso. Todo esse tempo eu tinha confiado nela. Todo esse tempo eu tinha pensado que ela era uma das minhas únicas amigas verdadeiras. Mas o tempo todo eu estava morando com a inimiga. Sabine tinha me torturado por meses e eu nunca havia suspeitado dela. Meu Deus, ela deve ter sentido tal satisfação ao ver eu lentamente me perdendo. Vendo eu me trancar no banheiro. Assistindo eu rasgar meu vestido fora antes da arrecadação de fundos por causa do perfume de Cheyenne. Ela era uma das três únicas pessoas que sabia que a foto de Cheyenne e eu existia, então ela devia ter cavado nas minhas coisas até encontrá-la e a usou contra mim. Eu a tinha tratado como minha melhor amiga e o tempo todo ela havia estado tramado com Ariana. Ariana. Foi assim que Sabine soube sobre as esferas de blush e a roupa de cama, Ariana deve ter dito a ela. Era tudo tão perfeitamente e sadicamente planejado. Sabine provavelmente me deu aquele tapete estúpido apenas para que pudesse esmagar os blushs nele mais tarde. Noelle agarrou meu braço apertado. — Você perdeu o juízo, Sabine. Sabine apenas riu. — Oh, Noelle. A perfeita Noelle. Você foi a mais difícil de lidar. Você estava ficando no caminho. Protegendo Reed. Explicando tudo. Mantendo-a sã. Atuando como a boa amiga. Todo mundo estava escutando agora. Todos em silêncio. Eu procurava Ivy freneticamente na multidão. Onde ela estava? Ela tinha chamado a polícia? Por que eles não haviam chegado ainda? — Eu não estava atuando — disse Noelle, seu cabelo brilhante caindo sobre seu ombro. — Ao contrário de você, eu não tenho que fingir ser boa amiga de alguém. — É? Então eu acho que você era uma boa amiga de Ariana, não é? Quando você sequestrou seu namorado e depois se tornou melhor amiga da vadia que o roubou dela. Noelle estreitou os olhos. — Você não tem ideia do que está falando. — Mas você sabe o que se sente agora, certo? Perder seu namorado para Reed Brennan. — Os olhos de Sabine cintilaram entre mim e Noelle. — Embora parece que você já a perdoou. Eu tenho que dizer, eu esperava mais determinação de você, Noelle. Meu sangue ferveu. — Cale-se, Sabine.

124


— Reed, você é tão pateticamente leal a Noelle que eu poderia vomitar — Sabine zombou. — Abrir uma brecha entre as duas era como arrancar dentes. Mas eu fiz isso. O vídeo de vocês na Legado foi inestimável, não foi? Menina, você poderia ter um futuro em filmes pornô. Um suspiro escapou dos meus lábios. Um que foi ecoado por muitos espectadores. — Foi você? — eu disse. — É claro que fui eu — Sabine disse, parecendo orgulhosa do seu feito. — Eu coloquei êxtase na sua bebida e na de Dash toda a noite. Eu escrevi a nota que levou você até o telhado, em primeiro lugar. De repente, uma imagem da nota passou pela minha mente. A escrita feminina. Eu tinha percebido isso na época, mas eu tinha estado muito fora de mim para prestar atenção. Por causa do êxtase, ao que parecia. — E tudo funcionou como um encanto — Sabine continuou. — Vocês dois estavam tão longe e um sobre o outro que nem sequer me notaram filmando. As luzes estroboscópicas do salão continuavam a piscar. O rosto de Sabine ficou vermelho, depois rosa, depois vermelho, depois rosa. — Você é psicótica, uma vadiazinha choramingona — disse Noelle por cima do meu ombro. — Ora, ora, só porque você caiu totalmente, não há necessidade de insultar. — Sabine sorriu para Noelle, os olhos arregalados com falsa inocência. — É incrível o quão rápido você volta-se contra suas amigas. Primeiro Ariana, depois a pobre Reed. Você a tirou da sua vida sem nem sequer dar a ela uma chance de se explicar. — Você é louca, sabia? — eu disse. — Você pertence à mesma cela acolchoada que a sua irmã está. Naquele momento, todos nós ouvimos as sirenes à distância. Sabine se virou e meu coração voou para a minha garganta. Todo mundo congelou. Todos, menos Josh e Trey, que correram para frente, agarrando-a para impedi-la de fugir. Por uma fração de segundo, eu não senti nada além de um alívio agradecido, mas então eu vi o olhar de terror em seus rostos. Eles soltaram Sabine e recuaram quando ela apertou o cano de uma arma diretamente contra o coração de Trey. Todo mundo em torno de nós prendeu o ar. Houve gritos e barulho enquanto algumas pessoas correram para a porta. Eu tentei retroceder, mas descobri que não podia me mover. Meus pés simplesmente não se moviam. De repente, eu estava muito fria. Tão fria que eu não conseguia respirar. Sabine virou a arma para mim. — Uma vez que você estava fora do Billings, eu pensei que eu finalmente te tinha. Eu pensei que tinha finalmente conseguido arruinar a sua vida. Sem amigos, sem namorado, sem Billings, sem futuro. Mas você continuou lutando, não é? — Sabine disse, com a mão tão firme como granito. — Depois do pequeno discurso sentimental que você fez na noite passada, eu sabia que era hora de medidas drásticas. Você nunca voltará para o Billings, Reed. Você não pode ter a vida que você roubou de Ariana. Você simplesmente não pode. — Sabine — me ouvi dizer, sem fôlego. — Não faça isso. — Eu segurei essa mesma arma na cabeça de Cheyenne para fazê-la tomar todas aquelas pílulas — ela disse uniformemente. — Agora eu vou finalmente ter a chance de disparar. Eu dei um passo para trás. — Sabine... — Talvez eu seja como a minha irmã, Reed — ela disse, com os olhos cheios de lágrimas não derramadas. — Mas ao contrário de Ariana, eu vou acabar com isso. Minha vida passou diante dos meus olhos. Josh, Noelle, Thomas, Constance, Natasha, Kiran, Taylor, Dash, Scott, meus pais, meus avós, até o meu cão.

125


Era isso. Este era o fim de tudo. Eu nunca iria ver qualquer um deles novamente. — Reed! Oh, meu Deus! Não! As sirenes cresceram. Josh empurrou Gage de lado e pulou na minha direção. Sabine fechou os olhos e disparou. O tiro saiu, tão ensurdecedor como uma explosão de trovão. E então, tudo ficou escuro.

FIM¹

126


Próximo Livro: Paradise Lost

O paraíso espera... Agora que a assassina de Cheyenne foi revelada e Reed sabe a verdade sobre quem a estava perseguindo, ela está pronta para deixar a angústia e a agitação do semestre passado para trás. E que melhor forma de se recuperar do que um período de férias cinco estrelas no Caribe? Reed se reúne com as ex Meninas do Billings, Kiran e Taylor, e ela e suas amigas assumem a exclusiva ilha. Elas passam os dias bronzeando-se nas praias de areia branca e as noites em festas em iates de vinte metros. É o céu na terra. Mas, enquanto elas levantam suas taças de champanhe para brindar sua amizade, Reed se preocupa que tudo isso seja muito bom para ser verdade. Porque, mesmo no paraíso, as Meninas do Billings nunca ficam longe de problemas — e não há nada mais perigoso do que a calmaria antes da tempestade...

127


PRIVATE NOVEL

128


Exclusivo 08 revelação kate brian