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Convergente Verônica Roth

Tradução de bloglivroson-line Formatação para Ebook de Bl.Tk


Epígrafe “A sonegação de informação é punível com reprimendas, prisão e, eventualmente, exílio. Todas as questões que podem ser respondidas devem ser respondidas ou pelo menos pesquisadas. Pensamentos ilógicos devem ser trocados assim que surgirem. Respostas erradas devem ser corrigidas. Respostas certas devem ser afirmadas.” – Do manifesto da Erudição


Capítulo 1

Tris Caminho de um lado para o outro em nossa cela na sede da Erudição, suas palavras ressonando em minha mente: Meu nome será Edith Prior. E há muito que fico feliz em esquecer. — Então nunca a viu antes? Nem sequer em fotos? — Christina pergunta, sua perna ferida apoiada numa almofada. Ela recebeu um tiro durante nossa tentativa desesperada de revelar o vídeo de Edith Prior à nossa cidade. No momento não tínhamos ideia do que dizia, que quebraria o fundamento de nossas crenças, as facções, nossas identidades. — É uma avó ou tia ou algo assim? — Eu te disse, não — falo, dando a volta quando chego à parede. — Prior é... foi o nome do meu pai, tinha que ser do lado de sua família. Mas Edith é um nome da Abnegação, e os familiares do meu pai eram da Erudição, assim... — Assim ela tem que ser mais velha — Cara completa, apoiando a


cabeça contra a parede. Desse ângulo, ela parece seu irmão. Will, meu amigo, em quem atirei. Ela logo se endireita, e o fantasma se vai. — Algumas gerações atrás. Uma antepassada. — Antepassada. A palavra parece velha dentro de mim, como ruínas tijolos. Toco uma das paredes da cela enquanto dou a volta. O painel é frio e branco. Minha antepassada, e essa é a herança que me deixou: liberdade das facções, e o conhecimento de que a minha identidade Divergente é mais importante do que eu podia ter imaginado. Minha existência é um sinal de que temos que sair desta cidade e oferecer nossa ajuda para todos aqueles que estão lá fora. — Quero saber — diz Cara, passando as mãos no rosto. — Preciso saber há quanto tempo estamos aqui. Pode parar de andar por um minuto? Detenho-me no centro da cela e levanto minhas sobrancelhas. — Sinto muito — murmuro. — Está bem — Christina fala — estamos aqui por tempo demais. Dias se passaram desde que Evelyn dominou o caos no lobby da sede da Erudição com alguns poucos comandos rápidos e teve todos os prisioneiros empurrados nas celas do terceiro andar. Uma mulher sem facção chegou para cuidar das nossas feridas e distribuir analgésicos, comemos e tomamos banho várias vezes, mas ninguém nos contou o que está acontecendo lá fora. Não importa com quanta força perguntamos. — Pensei que Tobias já houvesse chegado — digo, deixando-me cair na beira da minha cama. — Onde ele está? — Talvez ainda esteja com raiva porque você mentiu para ele e trabalhou em suas costas com seu pai — Cara sugere. Eu a encaro. — Quatro não seria tão mesquinho — Christina diz, se é para discordar de Cara ou me tranquilizar, não tenho certeza. — Provavelmente está acontecendo algo que o mantém afastado. Ele te disse para confiar nele. No meio do caos, quando todo mundo estava gritando e os sem


facção estavam tratando de nos empurrar escadaria a cima, envolvi meus dedos na barra da camisa dele para não perdê-lo. Ele segurou meus pulsos e me empurrou, e estas foram as palavras que me disse: Confie em mim. Vá aonde te dizem. — Eu estou tentando — falo, e é verdade. Estou tratando de confiar nele, mas cada parte de mim, cada fibra e cada nervo, está se esforçando para a liberdade, não só desta cela, mas além da prisão desta cidade. Tenho que ver o que está fora da cerca.


Capítulo 2 Tobias Não posso caminhar por estes corredores sem me lembrar dos dias que passei como prisioneiro aqui, descalço, a dor palpitando dentro de mim cada vez que eu me movia. E com essa recordação há mais outra, uma de esperar que Beatrice Prior se dirija até sua morte, dos meus punhos contra a porta, de suas pernas penduradas nos braços de Peter quando me falou que ela estava drogada. Odeio este lugar. Não está tão limpo como estava quando era a sede da Erudição, agora está devastado pela guerra, buracos de bala nas paredes e estilhaços de vidro de lâmpadas por toda parte. Caminho sobre pegadas sujas e debaixo de luzes piscantes até sua cela e sou admitido sem discussão, porque levo o símbolo dos sem facção – círculo vazio – sobre uma faixa negra ao redor de meu braço e os traços de Evelyn em meu rosto. Tobias Eaton era um nome vergonhoso, e agora é um muito poderoso. Tris está agachada no interior, ombro a ombro com Christina e na diagonal com Cara. Minha Tris deveria se sentir pálida e pequena – ela é pálida e pequena, depois de tudo – no entanto, a sala está cheia dela. Seus olhos redondos encontram os meus e ela se põe de pé, os braços firmemente atados em volta da minha cintura e seu rosto contra meu peito. Aperto seu ombro com uma mão e acaricio seu cabelo com a outra, porém fico surpreendido quando ele termina em seu pescoço e não cai abaixo dele. Fiquei feliz quando ela o cortou, porque é o cabelo para uma guerreira e não uma menina, e sabia que era o necessário.


— Como entrou? — ela pergunta em voz baixa e clara. — Sou Tobias Eaton — falo, e ela ri. — Certo. Continuo me esquecendo — se afasta o suficiente para me olhar. Há uma expressão vacilante em seus olhos, como se ela fosse um monte de folhas a ponto de serem espalhadas pelo vento. — O que está acontecendo? O que te tomou tanto tempo? Soa desesperada, suplicante. Por todas as terríveis recordações que esse lugar evoca em mim, sei que evoca mais para ela: a caminhada até sua execução, a traição de seu irmão, o soro da simulação. Tenho que tirá-la daqui. Cara olha para cima com interesse. Me sinto desconfortável, como se tivesse acabado de me mudar para dentro dessa pele e não me encaixo direito. Odeio ter uma audiência. — Evelyn tem a cidade cercada — digo. — Ninguém dá um passo e nenhuma direção sem que ela permita. Há uns dias deu um discurso sobre nos unirmos contra nossos opressores, as pessoas de fora. — Opressores? — Christina repete. Ela pega uma ampola de seu bolso e joga o conteúdo em sua boca, analgésicos para a ferida à bala na perna, suponho. Deslizo minhas mãos nos bolsos. — Evelyn e um monte de gente, na verdade, creem que não deveríamos sair da cidade só para ajudar as pessoas que nos enjaularam aqui dentro, para que pudessem nos utilizar mais tarde. Querem tratar de sanar a cidade e resolver nossos próprios problemas em vez de ir resolver os dos outros. Estou parafraseando, é claro — digo. — Suspeito que essa opinião é muito conveniente para minha mãe, porque enquanto estamos todos aqui, ela está no comando. No segundo em que saímos, ela perde seu domínio. — Genial — Tris fica com os olhos sem expressão. — É claro que escolheria o caminho mais egoísta possível. — Ela tem um ponto — Christina envolve os dedos ao redor da ampola. — Não estou dizendo que não quero sair da cidade e ver o que há aí fora, mas temos bastante o que fazer aqui. Como se


supõe que ajudaremos um monte de gente que nunca sequer conhecemos? Tris considera isso, mordendo o interior de sua bochecha. — Não sei — admite. Meu relógio marca as três em ponto. Estive tempo demais aqui, tempo suficiente para que Evelyn suspeite. Eu disse que vinha terminar com Tris, que não demoraria muito. Não tenho certeza de que ela acreditou. — Escutem, eu vim principalmente adverti-las, eles estão começando o julgamento para todos os prisioneiros. Vão usar o soro da verdade em vocês, e se funcionar, serão condenados como traidores. Creio que todos gostariam de evitar isso — digo. — Condenados como traidores? — Tris franze o cenho. — Como revelar a verdade a toda a nossa cidade é um ato de traição? — Foi um ato de desafio contra seus líderes — respondo. — Evelyn e seus seguidores não querem abandonar a cidade. Não te agradecerão por mostrar esse vídeo. — São iguais a Jeanine! — ela faz um gesto vacilante, como se quisesse golpear algo, porém não há nada disponível. — Prontos para fazer qualquer coisa para esconder a verdade, e para quê? Para serem reis de seu diminuto mundo? É ridículo. Não quero dizer, mas uma parte de mim está de acordo com minha mãe. Não devo nada à gente de fora da cidade, eu seja Divergente ou não. Não estou certo de que me oferecer a eles para resolver os problemas da humanidade seja o que isso signifique. Mas quero ir, da forma desesperada com que um animal quer escapar da armadilha. Selvagem e raivoso. Pronto para roer o osso. — Seja como for — falo com cuidado — se o soro da verdade funcionar em vocês, serão condenadas. — Se funcionar? — Cara pergunta, semicerrando os olhos. — Divergente — Tris lhe fala, acenando com sua própria cabeça. — Lembra? — Isso é fascinante — Cara paga uma mecha de cabelo que escorregou e joga para trás. — Mas atípico. Em minha experiência, a maioria dos Divergentes não podem resistir ao soro


da verdade. Pergunto-me porque você pode. — Você que todo Erudito que alguma vez me espetou com uma agulha — espeta Tris. — Podemos nos concentrar, por favor? Eu gostaria de não precisar ter que tirá-las do cárcere — falo. De repente estou desesperado por consolo, alcanço a mão de Tris e ela traz seus dedos para se encontrarem com os meus. Não somos pessoas que se tocam um no outro descuidadamente, cada ponto de contato entre nós é importante, uma torrente de energia e alívio. — Está bem, está bem — ela fala, suavemente agora. — O que você tem em mente? — Conseguirei que Evelyn teste você primeiro, das três. Tudo o que tem que fazer é encontrar uma mentira que exonere tanto Christina quanto Cara, e tudo sob o soro da verdade. — Que tipo de mentira faria isso? — Pensei que poderia deixar isso para você — respondo — já que é a melhor mentirosa. Sei enquanto falo as palavras que elas golpeiam um ponto sensível em ambos. Ela mentiu para mim muitas vezes. Prometeu-me que não buscaria a morte na sede da Erudição quando Jeanine exigiu o sacrifício de um Divergente, e mesmo assim o fez de qualquer maneira. Disse-me que ia ficar em casa durante o ataque à Erudição, e a encontrei na sede dos Eruditos, trabalhando com meu pai. Entendo por que fez todas essas coisas, mas não quer dizer no entanto que estamos rompidos. — Sim — ela encara seus sapatos. — Está bem, vou pensar em algo. Ponho a mão em seu braço. — Falarei com Evelyn sobre seu julgamento. Tratarei de fazê-lo logo. — Obrigada. Sinto o impulso, familiar agora, de me puxar do meu corpo e falar diretamente dentro de sua mente. É a mesma urgência, me dou conta, que me faz querer beijá-la cada vez que a vejo, porque mesmo um milímetro de distância entre nós é exasperante. Nossos


dedos, entrelaçados fracamente por um momento, agora se unem ferozmente, sua mão pegajosa com a umidade, a minha áspera nos lugares em que agarrei a alça demasiadas vezes em trens em movimento. Agora ela parece pálida e pequena, mas seus olhos me fazem pensar em céus abertos que nunca vi na realidade, só sonhei. — Se vão se beijar, façam-me um favor de digam-me, assim posso olhar para o outro lado — Christina fala. — Vamos fazer isso — Tris responde. — E te falamos. Toco sua bochecha para o beijo ficar mais lento, sustentando sua boca sobre a minha, assim posso sentir cada lugar onde nossos lábios se tocam e cada lugar onde se separam. Saboreio o ar que compartilhamos no segundo depois e o deslizamento de seu nariz sobre o meu. Penso em algo para dizer, mas é demasiado íntimo, assim me seguro. Um momento depois, decido que não importa. — Queria que estivéssemos sozinhos — lhe digo enquanto retrocedo para fora da cela. Ela sorri. — Eu quase sempre desejo isso. Enquanto fecho a porta, vejo Christina fingindo vomitar, Cara rindo, e as mãos de Tris penduradas ao seu lado.


Capítulo 3 Tris — Penso que todos você são idiotas — minhas mãos se fecham em meu colo como as de uma criança dormindo. Meu corpo está pesado com o soro da verdade. O suor se acumula em minhas pálpebras. — Deveriam me agradecer, não me questionar. — Devemos te agradecer por desafiar as instruções dos líderes das facções? Agradecer por tentar impedir que um dos líderes de sua facção matasse Jeanine Matthews? Se comportou como uma traidora — Evelyn Johnson esculpe as palavras como uma serpente. Estamos na sala de conferências na sede da Erudição, onde os testes são realizados. Fui prisioneira por menos de uma semana. Vejo Tobias, meio escondido nas sombras atrás de sua mãe. Ele tem mantido seus olhos afastados desde que me sentei na cadeira e eles cortaram uma tira plástica para amarrar meus pulsos. Durante apenas um momento, seu olhar encontra o meu, e sei que é o momento para começar a mentir. É mais fácil agora que sei que posso fazê-lo. Tão fácil quanto empurrar o peso do soro da verdade para um lado de minha mente. — Não sou uma traidora — digo. — Nesse momento, eu acreditava que Marcus trabalhava sob as ordens da Audácia e dos sem facção. Como eu não podia me unir à luta como um soldado, estava disposta a ajudar com algo mais. — Por que não podia ser um soldado? Uma luz fluorescente brilha atrás do cabelo de Evelyn. Não posso ver seu rosto, e não posso me concentrar em nada mais de um segundo antes que o soro da verdade ameace me dominar de novo. — Porque — mordo meu lábio, como se estivesse tentando deter


as palavras saírem em uma enxurrada. Não sei quando fiquei tão boa atuando. Mas suponho que não é tão diferente de mentir, algo pela qual sempre tive grande talento — porque eu não podia segurar uma arma, certo? Não depois de atirar... nele. Meu amigo Will. Eu não podia segurar uma arma sem entrar em pânico. Os olhos de Evelyn se apertam com força. Suspeito que, mesmo em seu interior mais suave, ela não sente simpatia por mim. — Então Marcus te disse que estava trabalhando sob minhas ordens — ela fala — e mesmo sabendo o que sabia sobre sua relação bastante tensa com a Audácia e os sem facção, acreditou nele? — Sim. — Posso ver porque não escolheu Erudição — ela ri. Minhas bochechas formigam. Eu gostaria de lhe dar uma bofetada, como tenho certeza de que muitas das pessoas nesta sala querem, apesar de não se atreverem a admitir. Evelyn tem a todos presos nesta cidade, controlada pelos membros sem facção armados patrulhando as ruas. Ela sabe que quem tem as armas tem o poder. E com Jeanine Matthews morta, não há ninguém para questioná-la pelo poder. De um tirano a outro. Esse é o mundo que conhecemos, agora. — Por que não contou a ninguém sobre isso? — Eu não queria ter que admitir nenhuma debilidade — respondo. — E não queria que Quatro soubesse que eu estava trabalhando com seu pai. Sabia que ele não gostaria — sinto as novas palavras erguendo-se em minha garganta, impulsionadas pelo soro da verdade. — Eu trouxe a verdade sobre a nossa cidade e a razão pela qual estamos nela. Se não está me agradecendo por isso, deve pelo menos fazer algo a respeito em vez de ficar aqui com essa desordem que fez, fingindo estar num trono! O sorriso zombador de Evelyn se torce como se ela houvesse provado algo desagradável. Ela se inclina perto de meu rosto, e vejo pela primeira vez a idade que tem, vejo as linhas que marcam seus olhos e boca, e a palidez doentia que vem de anos de comer muito pouco. Ainda assim, é bonita como seu filho. Aproximar-se


da inanição não pode mudar isso. — Estou fazendo algo a respeito. Estou fazendo um novo mundo — responde, e sua voz de torna ainda mais baixa, de modo que só eu posso ouvi-la — eu estava na Abnegação. Sei da verdade há muito mais tempo que você, Beatrice Prior. Não sei quão longe chegará com isso, mas juro, você não terá um lugar em meu novo mundo, especialmente não com meu filho. Eu sorrio um pouco. Não deveria, mas é mais difícil suprimir gestos e expressões que palavras, com esse peso em minhas veias. Ela acredita que Tobias pertence a ela agora. Não sabe da verdade, que ele pertence a si mesmo. Evelyn se endireita, cruzando os braços. — O soro da verdade revelou que, pode bem ser uma tonta, mas não é uma traidora. Este interrogatório terminou. Pode ir. — O que será das minhas amigas? — pergunto lentamente. — Christina, Cara. Não fizeram nada de mau, tampouco. — Vamos tratar com elas logo — Evelyn responde. Fico de pé, enquanto estou débil e enjoada do soro. A habitação está cheia de gente, ombro com ombro, e não posso encontrar a saída durante longos segundos, até que alguém toma meu braço, um garoto de pele morena e um amplo sorriso: Uriah. Ele me guia até a porta. Todo mundo começa a falar. +++ Uriah me leva pelo corredor até o elevador. As portas se abrem quando ele toca o botão, e sigo para o interior, todavia instável em meus pés. Quando as portas se fecham, pergunto: — Não acha que a parte sobre a desordem e o trono foi demais? — Não. Ela espera que você seja impulsiva. Poderia ser suspeito se não tivesse sido assim. Sinto que tudo dentro de mim está vibrando com energia, em antecipação do que está por vir. Estou livre. Vamos encontrar uma maneira de sair da cidade. Sem mais espera, trancada em uma cela, exigindo respostas que não vou obter dos guardas.


Os guardas me disseram algumas coisas sobre a nova ordem sem facção esta manhã – os ex-membros de facção estão sendo obrigados a se aproximar dos integrantes da Erudição e mesclarse, não podendo haver mais de quatro ex-integrantes de uma mesma facção em cada quarto. Teremos que misturar as roupas, também. Deram-me uma camisa amarela da Amizade e uma calça preta da Audácia mais cedo, como resultado desse decreto em particular. — Muito bem, estamos neste corredor... — Uriah me guia ao sair do elevador. Este andar da sede da Erudição é todo de cristal, inclusive as paredes. A luz do sol se refrata através dele e lança arco-íris no chão. Protejo meus olhos com uma mão e sigo Uriah até um quarto comprido e estreito com camas de cada lado. Ao lado de cada cama há uma cômoda de vidro para roupas e livros, e uma pequena mesa. — Aqui era a residência dos Eruditos iniciados — Uriah explica. — Já reservei camas para Christina e Cara. Sentadas em uma cama perto da porta estão três meninas vestidas de vermelho – garotas da Amizade, imagino – e do lado esquerdo do quarto, uma mulher mais alta está esticada numa das camas, os óculos pendendo de uma orelha, possivelmente dos Eruditos. Sei que deveria deixar de localizar as pessoas de outras facções quando as vejo, mas é um hábito difícil de deixar. Uriah cai em uma das camas do canto de trás. Sento-me ao lado dele, contente de estar livre e em repouso, por fim. — Zeke disse que às vezes demora algum tempo para os sem facção processarem as exonerações, então devem sair mais tarde — Uriah conta. Por um momento, me sinto aliviada de que todos com quem me importo estarão livres nesta noite. Mas então lembro que Caleb está ali, porque era um lacaio bem conhecido de Jeanine Matthews e os sem facção nunca o exonerariam. Mas até onde chegarão para destruir a marca que Jeanine Matthews deixou nesta cidade? Eu não sei.


Não me importa, penso. Porém enquanto penso, sei que é mentira. Ele continua sendo meu irmão. — Bem, obrigada, Uriah. Ele assente e inclina a cabeça contra a parede para sustentá-la. — Como está? — pergunto. — Quero dizer... Lynn... Uriah havia sido amigo de Lynn e Marlene por mais tempo do que eu os havia conhecido, e ambas estão mortas. Sinto como se fosse capaz de entender, afinal, perdi dois amigos também: Al para as pressões da iniciação e Will para a simulação de ataque e minhas próprias ações precipitadas. Mas não quero alegar que nosso sofrimento é o mesmo. Afinal, Uriah conhecia suas amigas melhor que eu. — Não quero falar disso — Uriah balança a cabeça. — Ou pensar nisso. Só quero seguir adiante. — Está bem. Entendo. Apenas… deixe-me saber se precisar… — Sim — ele sorri e se levanta — você está bem, de verdade? Falei pra minha mãe que a visitaria está noite, assim tenho ir agora. Oh, quase esqueci de te dizer, Quatro falou que quer se encontrar com você mais tarde. Fico mais ereta. — Mesmo? Quando? Onde? — Pouco depois das dez, no Parque Millennium. No gramado — ele sorri. — Não se emocione demais, ou sua cabeça vai explodir.


Capítulo 4 Tobias Minha mãe se senta na beira das coisas – cadeiras, plataformas, mesas – como se esperasse ter de fugir a qualquer momento. Desta vez é a antiga escrivaninha de Jeanine na sede da Erudição em que ela senta na beira, seus dedos do pé balançando sobre o chão e a luz turva da cidade brilhando atrás dela. É uma mulher de músculos torcidos ao redor do osso. — Creio que temos que falar acerca de sua lealdade — ela fala, mas não como se estivesse me acusando de algo, apenas soa cansada. Por um momento, parece tão esgotada que sinto como se pudesse ver através dela, mas logo se endireita, e o sentimento se foi. — Em última instância, foi você quem ajudou Tris e conseguiu que o vídeo fosse revelado. Ninguém sabe, mas eu sei. — Escute — me inclino para frente para apoiar os cotovelos nos joelhos. — Não sabia o que havia naquele arquivo. Confiei no julgamento de Tris mais do que no meu. Foi tudo o que aconteceu. Imaginei que ao contar a Evelyn que rompi com Tris, seria mais fácil para minha mãe confiar em mim, e estava certo: ela tem estado mais cálida, mais aberta, desde que lhe contei essa mentira. — E agora que viu o vídeo? — Evelyn pergunta. — O que pensa agora? Acredita que deveríamos deixar a cidade? Sei o que quer que eu diga: que não vejo nenhuma razão para nos unirmos ao mundo exterior, mas não sou um bom mentiroso, assim em seu lugar dou uma parte da verdade. — Tenho medo disso. Não estou certo de que seria inteligente sair da cidade conhecendo os perigos que poderiam estar ali fora. Ela me considera por um momento, mordendo o interior da bochecha. Aprendi esse hábito dela: eu costumava morder a parte


interna da minha bochecha enquanto esperava meu pai voltar para casa, inseguro de que versão dele encararia, a do Abnegado confiável e venerado, ou a de cujas mãos me golpeariam. Passo a língua ao longo das cicatrizes de mordida e trago a memória de gosto amargo como bílis. Ela desliza para fora da mesa e se move para a janela. — Tenho recebido informações preocupantes de uma organização rebelde entre nós — ela olha para cima, erguendo uma sobrancelha. — As pessoas sempre se organizam em grupos. Esse é um hábito de nossa existência. Não esperava que aconteceria tão rapidamente. — Que tipo de organização? — O tipo que quer deixar a cidade — ela responde. — Lançaram uma espécie de manifesto esta manhã. Chamam a si mesmos de Convergentes — quando ela vê meu olhar confuso, acrescenta: — porque suas ideias convergem com o propósito original de nossa cidade, entende? — O propósito original… quer dizer, o que havia no vídeo de Edit Prior? Que devemos enviar pessoas para fora quando tivermos uma grande população de Divergentes? — Isso, sim. Mas também vivendo em facções. Os Convergentes clamam que estamos destinados a estar em facções porque estamos nelas desde o princípio — ela nega com a cabeça. — Algumas pessoas sempre metem a mudança. Mas não podemos satisfazê-las. Com as facções desmanteladas, uma parte de mim se sente como um homem libertado de um longo aprisionamento. Não tenho que avaliar se cada pensamento que tenho ou decisão que tomo se encaixa em uma ideologia estreita. Não quero que as facções regressem. Mas Evelyn não nos libertou como ela pensa, apenas nos fez sem facção. Tem medo do que escolheríamos, caso nos dessem a liberdade real. E isso significa que não importa o que eu pense sobre as facções. Me sinto aliviado de que alguém, em algum lugar, esteja desafiando-a.


Componho meu rosto em uma expressão vazia, mas meu coração está batendo mais depressa que antes. Tenho que ter cuidado, estar em bons termos com Evelyn. É fácil para eu mentir para todo mundo, mas é mais difícil mentir para ela, a única pessoa que conhecia todos os segredos de nossa casa Abnegada, a violência contida dentro de seus muros. — O que vai fazer com eles? — pergunto. — Colocarei-os sob controle, o que mais? A palavra “controle” faz com que eu me sente com as costas retas, tão rígido quanto a cadeira debaixo de mim. Nesta cidade, “controle” significa agulhas, soros e enxergar sem ver; significa simulações, como a que quase me fez matar Tris, ou a que converteu os membros da Audácia em um exército. — Com simulações? — digo lentamente. Ela franze o cenho. — É claro que não! Não sou Jeanine Matthews! Seu surto de raiva dispara. Digo: — Não se esqueça de que mal a conheço, Evelyn. Ela faz uma careta ante ao lembrete. — Então deixe-me dizer que nunca vou recorrer a simulações para fazer meu caminho. A morte seria melhor. É possível que a morte seja o que vai utilizar: matar pessoas sem dúvida os manteria tranquilos, reprimiria sua revolução antes que começasse. Quem quer que sejam os Convergentes, têm que ser advertidos, e rapidamente. — Posso averiguar quem são — digo. — Tenho certeza que pode. Por que outro motivo eu lhe contaria sobre eles? Há uma montanha de razões pela qual ela me diria. Para me pôr à prova. Para me apanhar. Para me alimentar com informações falsas. Sei o que minha mãe é: é alguém para quem os fins justificam os meios para consegui-los, o mesmo que meu pai, e às vezes, o mesmo que eu. — Eu o farei, então. Os encontrarei. Levanto-me, e seus dedos, frágeis como ramos, se fecham ao


redor do meu braço. — Obrigada. Obrigo-me a olhá-la. Seus olhos estão perto um do outro sobre o nariz, que se curva no extremo, como o meu. Sua pele é de um tom intermediário, mas escura que a minha. Por um momento a vejo com cinza da Abnegação, seu cabelo grosso preso atrás com uma dezena de grampos, sentada à mesa de jantar para mim. Eu a vejo agachada diante de mim, arrumando meus botões da camisa desordenados antes de ir para a escola, e de pé junto à janela, observando a rua uniforme em busca do carro de meu pai, com as mãos entrelaçadas... não, fechadas, com os nós tão brancos pela tensão. Nos unimos no medo, então, e agora que ela não tem mais medo, uma parte de mim quer ver o que seria me unir a ela na força. Sinto uma dor, como se a tivesse traído, a mulher que costumava ser minha única aliada, e viro-me para sair antes que possa retirar tudo o que disse e pedir desculpas. Deixo a sede da Erudição em meio a uma multidão, meus olhos confusos buscando automaticamente as cores das facções quando não há nenhuma restando. Estou usando uma camiseta cinza, jeans, sapatos negros: roupa nova, mas debaixo delas, minhas tatuagens da Audácia. É impossível apagar minhas escolhas. Especialmente essas.


Capítulo 5 Tris Ponho meu alarme para as dez em ponto e durmo em seguida, sem sequer me mudar para uma posição mais cômoda. Umas poucas horas depois, o apito não me desperta, mas o grito frustrante de alguém através do quarto sim. Desligo o alarme, corro meus dedos pelo cabelo e meio caminho, meio corro até uma das escadas de emergência. A saída ao final me fará sair no beco, onde provavelmente não serei detida. Uma vez que estou fora, o ar frio me desperta. Puxo as mangas para meus dedos para mantê-los quentes. O verão está finalmente terminando. Há umas poucas pessoas dando voltas na entrada da sede da Erudição, mas nenhuma delas se dá conta quando deslizo através da Avenida Michigan. Há algumas vantagens em ser pequena. Vejo Tobias de pé no meio do gramado, usando cores mescladas das facções: uma camiseta cinza, jeans azul e um suéter preto com capuz, representando todas as facções que minha prova de aptidão me disse que eu estaria qualificada. Uma mochila descansa sobre seus pés. — Como eu fui? — pergunto quando estou perto o suficiente para que ele me escute. — Muito bem. Evelyn todavia te odeio, mas Christina e Cara foram liberadas sem questionamento. — Bom — sorrio. Ele segura a parte da frente da minha camiseta, bem por cima do estômago, e me puxa contra ele, beijando-me suavemente. — Vamos — ele diz enquanto se afasta. — Tenho um plano para esta tarde.


— De verdade? — Sim, bom, me dei conta de que nunca tivemos um encontro de verdade. — O caos e a destruição tendem a tirar as possibilidades de uma pessoa a ter encontros. — Quis experimentar esse fenômeno que é um “encontro” — ele caminha de costas, até a gigantesca estrutura metálica no outro extremo do gramado, e eu o sigo. — Antes, só fui a encontros em grupo que no geral eram um desastre. Sempre terminavam com Zeke beijando uma garota qualquer que queria isso, e eu sentado em um silêncio incômodo com uma menina que de alguma forma havia ofendido desde o princípio. — Você não é muito legal — digo, rindo. — Olha quem fala. — Ei, eu poderia ser legal se tentasse. — Hum... — ele toca o queixo. — Diga algo legal então. — Você é muito bonito. Ele sorri, um flash na escuridão. — Gosto dessa coisa de “legal”. Chegamos ao fim do gramado. A estrutura metálica é maior e mais estranha de perto do que de longe. É realmente um palco, e por cima dele há um arco feito de grandes placas de metal que se curvam em direções diferentes, como uma lata de alumínio explodida. Ali, vigas metálicas apoiam as placas de trás. Tobias põe a mochila nos ombros e agarra uma de suas vigas. Escalando. — Isto me parece familiar — digo. Uma das primeiras coisas que fizemos juntos foi escalar uma roda gigante, mas dessa vez era eu, e não ele, quem nos forçou a subir mais alto. Puxo as mangas e o sigo. Meu ombro está todavia dolorido do tiro, mas está quase sarando. Ainda assim, levo meu peso mais para o braço esquerdo e trato de empurrar-me com os pés o máximo possível. Olho para o emaranhado de barras debaixo de mim e além delas, o chão, e rio. Tobias sobre em um lugar onde duas placas de metal se encontram em forma de V, deixando espaço suficiente para duas pessoas


sentarem. Ele se empurra para trás, colocando-se entre as duas placas, e me alcança pela cintura para me ajudar quando estou suficientemente perto. Realmente preciso de ajuda, mas não digo, estou ocupada demais desfrutando de suas mãos em mim. Ele tira um cobertor da mochila e nos cobre com ele, logo tira dois copos de plástico. — Gostaria de algo que deixe a cabeça limpa ou nebulosa? — ele pergunta, buscando em sua mochila. — Hum... — inclino a cabeça. — Que a deixe limpa. Creio que temos algumas coisas a falar, certo? — Sim. Ele tira uma pequena garrafa com um líquido claro e borbulhante, dizendo: — Roubei da cozinha da Erudição. Aparentemente é delicioso. Verte um pouco em cada copo, e tomo um gole. Seja lá o que for, é doce como xarope e tem um gosto de limão, e me faz encolher um pouco. Meu segundo gole é melhor. — Coisas de que falar — ele diz. — Certo. — Bom... — Tobias franze o cenho para o copo. — Bem, entendo porque trabalhou com Marcus e porque sentiu que não podia me dizer, mas... — Mas está chateado — completo — porque menti. Em muitas ocasiões. Ele assente, sem me olhar. — Nem sequer é por causa de Marcus. É muito mais profundo que isso. Não sei se pode entender o que é apenas acordar e descobrir que você tinha ido — para sua morte, é o que ele quer dizer, mas nem sequer pode dizer as palavras — para a sede da Erudição. — Não, provavelmente não posso entender — tomo outro gole, passando a bebida açucarada por toda a minha boca antes de engoli-la. — Escute, eu... eu costumava pensar sobre dar minha vida pelas coisas, mas não entendia o que era realmente “dar a vida” até esse momento, até ser tomada de mim. Ergo a cabeça para ele e finalmente, ele me encara.


— Eu sei agora — digo. — Sei que quero viver. Sei que quero ser honesta contigo. Mas... mas não posso ser assim, não o farei, se não confia em mim, ou se fala dessa maneira condescendente que algumas vezes faz... — Condescendente? — ele repete. — Você estava fazendo coisas ridículas, arriscadas... — Sim, e realmente ajuda falar comigo como se eu fosse uma garota que não sabe de nada? — O que mais se supõe que eu devia fazer? — ele demanda. — Você não via a razão! — Talvez não fosse razão que eu necessitava! — me endireito, incapaz de fingir que estou relaxada agora. — Eu me sentia como se estivesse sendo comida viva pela culpa, e o que precisava era de sua paciência e amabilidade, não que gritasse comigo. Oh, e escondera de mim seus planos com se eu não pudesse encarar... — Não queria te sobrecarregar mais do que já estava. — Então pensa que sou uma pessoa forte ou não? — franzo o cenho. — Porque parece pensar que posso aguentar quando está me repreendendo, mas acha que não posso lidar com qualquer outra coisa? O que significa isso? — Claro que penso que é uma pessoa forte — balança a cabeça — é só que... não estou acostumado a dizer as coisas às pessoas. Estou acostumado a manejar as coisas sozinho. — Sou confiável — digo. — Pode confiar em mim. E pode me deixar ser a julgadora do que posso aguentar. — Ok — ele fala, assentindo — mas não mais mentiras. Nunca mais. — Ok. Me sinto tensa e oprimida, como se meu corpo estivesse sendo obrigado a permanecer em um espaço demasiado pequeno para ele, mas não é assim que quer que a conversa termine, então pego sua mão. — Sinto ter mentido. De verdade, sinto muito. — Bom — ele responde — eu não queria te fazer sentir como se não te respeitasse.


Nós ficamos ali um momento, com as mãos entrelaçadas. Recostome contra a placa de metal. Por cima de mim, o céu está branco e escuro, protegido por nuvens. Encontro uma estrela diante de nós, e quando as nuvens de movem, parece ser a única. Quando inclino a cabeça para trás, no entanto, posso ver a linha de edifícios ao longo da Avenida Michigan, como uma fileira de sentinelas que nos vigiam. Estou parada até que a sensação de rigidez e opressão me deixa. Em seu lugar, sinto alívio. Normalmente, não é tão fácil para eu deixar a raiva ir, mas as últimas semanas foram estranhas para nós, e estou feliz de liberar os sentimentos que estive retendo, a ira e o temos de que ele me odeie e a culpa de trabalhar com seu pai às suas costas. — Esta coisa é meio asquerosa — ele fala, esvaziando seu copo e deixando-o de lado. — Sim, é — concordo, olhando o que sobre do meu. Tomo de uma vez, fazendo uma careta enquanto as borbulhas queimam minha garganta — não sei o que a Erudição está sempre presumindo. O bolo da Audácia é muito melhor. — Me pergunto que mimo teria sido da Abnegação, se eles houvessem tido um. — Pão duro. Ele ri. — Aveia simples. — Leite. — Às vezes penso que acredito em tudo que eles nos ensinaram — ele fala — mas obviamente não é assim, visto que estou aqui segurando sua mão sem antes ter nos casado primeiro. — O que ensina a Audácia sobre... isso? — pergunto, apontando nossas mãos. — O que ensina a Audácia, hum... — ele abre um sorriso — faça o que quiser, mas use proteção, é o que eles ensinam. Subo minhas sobrancelhas. De repente meu rosto está quente. — Creio que gostaria de encontrar um meio termo por mim mesmo — ele fala — encontrar esse lugar que quero e que


acredito ser sábio. — Isso soa bem — faço uma pausa — mas o que quer? Acredito que sei a resposta, porém quero que ele a diga. — Humm. Ele sorri e se inclina adiante sobre seus joelhos. Pressiona as mãos na placa de metal, emoldurando minha cabeça com os braços e me beija, pouco a pouco, em minha boca, debaixo da mandíbula, exatamente em cima da clavícula. Fico quieta, nervosa de fazer qualquer coisa, caso seja estúpido ou ele não goste, mas então me sinto como uma estátua, como se não estivesse aqui completamente, assim que toco sua cintura, vacilante. Logo seus lábios estão nos meus de novo, e ele puxa sua camisa por baixo das minhas mãos, então estou tocando sua pele nua. Eu ganho vida, me pressionando mais perto, minhas mãos arrastandose por suas costas, deslizando sobre os ombros. Suas respirações vêm mais rápidas e as minhas também, e saboreio as borbulhas doces de limão que acabamos de beber e cheiro o ar em sua pele e tudo o que quero é mais, mais. Tiro sua camisa. Um momento atrás teria frio, mas não acredito que nenhum de nós tenha frio agora. Seu braço se envolve ao redor da minha cintura, forte e apertado, e sua mão livro se enreda em meu cabelo e diminuo a velocidade, absorvendo-o; a suavidade de sua pele, marcada de cima a baixo com tinta negra e a insistência do beijo, e o ar fresco ao redor de nós. Relaxo e já não me sinto como uma espécie de soldado Divergente, desafiando soros e líderes do governo. Me sinto mais calma, mais leve, como se fosse certo rir um pouco enquanto seus dedos roçam minha cintura e a parte baixa das minhas costas, enterrando seu rosto na lateral do meu pescoço de modo que ele pode me beijar ali. Me sinto como eu mesma, forte e fraca de uma vez, permitindo-se, ao menos por um tempo, ser as suas coisas. Não sei quanto tempo passa antes que sintamos frio de novo, e nos apertamos debaixo da manta juntos. — Fica mais difícil ser sábio — ele fala, rindo em meu ouvido. Eu sorrio.


— Acredito que é assim que se supõe que deveria ser.


Capítulo 6 Tobias Alguém está cochichando. Posso sentir ao caminhar pelo refeitório com minha bandeja, e vejo as cabeças juntas de um grupo sem facção enquanto se inclinam em sua aveia. Seja o que for que vai acontecer, será logo. Ontem, quando saí do escritório de Evelyn, fiquei no corredor para espiar sua próxima reunião. Antes de fechar a porta, ouvi-a dizer algo sobre uma manifestação. A pergunta que pulsa no fundo da minha mente é: Por que não me contou? Não deve confiar em mim. Isso significa que não estou fazendo um bom trabalho como seu suposto braço direito como penso que estou. Sento-me com o mesmo desjejum que todo mundo: um prato de aveia com um pouco de açúcar mascavo e uma xícara de café. Observo o grupo sem facção enquanto coloco a colher na boca, sem sentir o gosto. Um deles, uma garota de catorze anos, talvez, fica olhando para o relógio. Estou na metade do meu café da manhã quando ouço os gritos. A nervosa menina sem facção salta de seu assento como se a tivessem golpeado com um cabo de alta-tensão, e todos vão até a porta. estou bem atrás deles, abrindo espaço a cotoveladas entre os que se movem lentamente através do lobby da Erudição, onde o retrato de Jeanine Matthews continua em pedaços no chão. Um grupo sem facção já se reuniu lá fora, no meio da Avenida Michigan. Uma cobertura de nuvens pálidas cobre o sol, fazendo a luz do dia ser nebulosa e sem brilho. Escuto alguém gritar: Morte às facções! e outros acolhem a frase, convertendo-a em um


cântico, até que enche meus ouvidos: Morte às facções, morte às facções. Vejo punhos no ar, como Audaciosos excitados, mas sem a alegria da Audácia. Seus rostos se torcem de raiva. Empurro-me até o meio do grupo, e logo vejo em torno de que estão reunidos: os enormes recipientes das facções da Cerimônia de Escolha estão viradas de lado na rua, carvão, vidro, pedra terra e água, tudo se misturando. Lembro de cortar minha palma para colocar o sangue no carvão, meu primeiro ato de rebeldia contra meu pai. Lembro da onda de poder dentro de mim, e da onda de alívio. Escapar. Esses recipientes foram meu escape. Edward se encontra entre eles, fragmentos de vidro moídos a pó sob seu calcanhar, um martelo segurado acima da cabeça. Ele o traz para baixo contra um dos recipientes, forçando um dos dentes dentro do metal. Pó de carvão se eleva no ar. Tenho que me conter para não correr até ele. Ele não pode destruílo, não aquele recipiente, não a Cerimônia de Escolha, não o símbolo do meu triunfo. Essas coisas não devem ser destruídas. A multidão está aumentando, não apenas com os sem facção usando faixas negras com círculos brancos nelas, mas pessoas com uma facção real, com os braços nus. Um homem da Erudição – sua facção revelada por seu cabelo imaculadamente partido – emerge livre da multidão enquanto Edward está erguendo o martelo para outro golpe. Envolve suas mãos macias manchadas de tinta ao redor do punho, pouco acima da de Edward, e começam a empurrar entre si, com os dentes apertados. Vejo uma cabeça loira na multidão – Tris, com uma camisa azul larga e sem mangas, mostrando as bordas das tatuagens das facções em seus ombros. Ela trata de correr até Edward e o homem Erudito, mas Christina a detém com as duas mãos. O rosto do homem Erudito fica roxo. Edward é mais alto e mais forte que ele. Não há possibilidade, é um tonto por tentar. Edward arranca o martelo das mãos do homem e o balança novamente. O Erudito, porém, está fora de equilíbrio, e o martelo o acerta no ombro com toda a força, metal quebrando osso.


Por um momento, tudo o que escuto são os gritos do homem da Erudição. É como se todo mundo estivesse sugando a respiração. Então a multidão estala em um frenesi, todos correndo até os recipientes, até Edward, até o homem Erudito. Chocam entre si e em mim, ombros, cotovelos e cabeças golpeando-me uma e outra vez. Não sei para onde correr: para o homem as Erudição, para Edward, para Tris? Não posso pensar; não posso respirar. A multidão me leva até Edward, e seguro sua mão. — Vamos! — grito por cima do ruído. Seu olho brilhante se fixa em mim, e ele trinca os dentes, tratando se soltar-se. Trago meu joelho para cima, atingindo sua lateral. Ele cambaleia para trás, perdendo o aperto sobre o martelo. Eu o seguro perto da minha perna e me dirijo até Tris. Ela está em algum lugar a minha frente, perto de onde está o homem Erudito. Vejo que o cotovelo de uma mulher a acerta na bochecha, enviando-a para trás, cambaleando. Christina empurra a mulher. Em seguida, uma arma dispara. Uma vez, duas vezes. Três vezes. A multidão se dispersa, todos correndo aterrorizados com a ameaça de balas, e procuro ver quem, se alguém, levou um tiro, mas a quantidade de pessoas é muito grande. Não posso ver nada. Tris e Christina se ajoelham ao lado do homem Erudito com o ombro destroçado. Seu cabelo dividido ao estilo da Erudição está bagunçado. Ele não se move. A alguns metros de distância dele, Edward está em uma poça de seu próprio sangue. A bala acertou-lhe o estômago. Há também outras pessoas no chão, pessoas que não reconheço, pessoas que foram alvejadas ou pisoteadas. Suspeito que as balas eram para Edward e para Edward apenas, os outros simplesmente estavam no caminho. Olho ao redor selvagemente, mas não vejo quem disparou. Quem quer que seja, dissolveu-se na multidão.


Deixo o martelo cair ao lado de um dos recipientes deficientes e me ajoelho ao lado de Edward, as pedras da Abnegação espetando minha pele. Seu olho restante se move para frente e para trás debaixo de sua pálpebra... está vivo, por enquanto. — Temos que levá-lo ao hospital — digo a quem estiver à minha volta. Quase todo mundo se foi. Olho por cima do ombro para Tris e o Erudito, que não se moveu. — Ele está...? Seus dedos estão na garganta dele, tomando seu pulso, e os olhos estão abertos vazios. Ela nega com a cabeça. Não, ele não está vivo. Não pensei que estivesse. Fecho meus olhos. Os recipientes das facções estão impressos em minhas pálpebras, jogados de lado, seu conteúdo espalhado em uma pilha na rua. Os símbolos de nossa antiga vida, destruídos, um homem morto, outros feridos, e para quê? Para nada. Para a visão fechada de Evelyn: uma cidade onde as facções são arrancadas das pessoas contra sua vontade. Ela queria que tivéssemos mais de cinco opções. Agora não temos nenhuma. Sei agora com certeza que não posso ser seu aliado, nunca serei. — Temos que ir — Tris fala, e sei que não está falando da Avenida Michigan ou de levar Edward ao hospital; ela está falando sobre a cidade. — Temos que ir — repito. +++ O hospital improvisado na sede da Erudição cheira a produtos químicos, quase arenoso em meu nariz. Fecho os olhos e espero Evelyn. Estou tão cansado que nem sequer quero sentar aqui, quero apenas agarrar minhas coisas e ir. Ela deve ter planejado essa manifestação, ou não teria sabido dela no dia anterior, e devia saber que ia sair do controle, com a tensão forte como está. Mas a


fez de qualquer forma. Fazer uma grande declaração a respeito das facções era mais importante para ela do que a segurança, ou a possibilidade de vidas perdidas. Não sei porque me surpreendo. Ouço o elevador se abrir, e sua voz: — Tobias! Ela se aproxima e pega minhas mãos, as quais estão cobertas de sangue. Seus olhos escuros se enchem de medo enquanto pergunta: — Está ferido? Está preocupada comigo. O pensamento é como uma pequena picada de agulha dentro de mim: ela deve me amar, para se preocupar comigo. Porém teria que ser capaz de amar para isso. — O sangue é de Edward. Ajudei a trazê-lo aqui. — Como ele está? — ela pergunta. Balanço a cabeça. — Morto. Não sei mais como dizer. Ela se encolhe, soltando minhas mãos, e senta em uma das cadeiras da sala de espera, minha mãe acolheu Edward depois que ele desertou da Audácia. Deve ter lhe ensinado a ser um guerreiro novamente, depois da perda de seu olho, sua facção e seu fundamento. Não sabia que eram tão próximos, mas posso ver agora, no brilho das lágrimas em seus olhos e no tremor de seus dedos. É a maior emoção que já a vi demonstrar desde que era garoto, desde que meu pai a jogou contra as paredes da nossa sala de estar. Pressiono a memória para longe como se a enfiasse dentro de uma caixa demasiada pequena para ela. — Sinto muito — falo. Não sei se falo a verdade ou se só digo para que ela pense que estou do seu lado. Logo acrescento numa tentativa: — Por que não me falou da manifestação? Ela nega com a cabeça. — Eu não sabia dela. Está mentindo. Eu sei. Decido deixar passar. Para estar a seu lado, tenho que evitar conflitos com ela. Ou talvez eu não queira


pressionar o assunto com a morte de Edward pesando sobre ambos. Às vezes é difícil para eu dizer onde termina a estratégia e onde começa a simpatia por ela. — Oh — coço minha orelha — pode entrar e vê-lo, se quiser. — Não — ela parece distante. — Sei como são os corpos. Está à deriva. — Talvez eu devesse ir. — Fique — ela fala, tocando a cadeira vazia entre nós — por favor. Sento no lugar ao seu lado, e enquanto digo a mim mesmo que sou um agente disfarçado obedecendo sua suposta líder, me sinto como um filho reconfortando sua afligida mãe. Sentamos com nossos ombros se tocando, nossas respirações no mesmo ritmo, e não dizemos uma palavra.


Capítulo 7 Tris Christina gira uma pedra preta nas mãos enquanto caminhamos. Demora alguns segundos para eu me dar conta de que é um pedaço de carvão, do recipiente da Audácia da Cerimônia de Escolha. — Realmente não quer mencionar isso, mas não posso deixar de pensar nele — fala — que dos dez iniciados transferidos que começamos, só seis estão vivos. Diante de nós está o edifício Hancock, e além dele, o Lago Shore Drive e a linha firme por onde voei uma vez como se fosse um pássaro. Caminhamos lado a lado pela calçada rachada, nossa roupa manchada com o sangue de Edward, agora seco. Não me afetou, todavia, que Edward, quando muito, o iniciado mais talentoso que tínhamos, o garoto cujo sangue limpei do piso do dormitório, está morto. Está morto agora. — E dos legais — falo — só temos você, eu, e... Myra, provavelmente. Não vi Myra desde que saiu da sede da Audácia com Edward, logo depois que seu olho foi perfurado por uma faca de manteiga. Sei que romperam depois disso, mas nunca pensei em para onde foi. Não acredito que troquei mais que umas poucas palavras com ela, de qualquer modo. Um conjunto de portas do edifício Hancock já está aberta, pendendo de suas dobradiças. Uriah disse que viria mais cedo para ligar o gerados, e quando toco o botão do elevador, ele brilha através de minha unha. — Já esteve aqui antes? — pergunto enquanto caminhamos até o elevador. — Não. Não dentro, quero dizer. Não cheguei a ir na tirolesa,


lembra? — Certo. — me apoio na parede. — Deveria tentar antes de irmos. — Sim — está usando batom vermelho. Lembra-me a forma como o doce mancha a pele das crianças que comem demais e descuidadamente. — Algumas vezes entendo de onde vem Evelyn. Tantas coisas terríveis aconteceram, às vezes parece uma boa ideia ficar aqui e apenas... tratar de limpar este desastre antes de chegar a nos meter em outro — sorri um pouco — mas, é claro, não vou fazer isso. Nem sequer sei por quê. Curiosidade, suponho. — Falou com seus pais a respeito? Às vezes me esqueço que Christina não é como eu, sem lealdade à família para me prender a algum lugar. Ela tem uma mãe e uma irmã pequena, ambas ex-membros da Franqueza. — Eles tem que cuidar da minha irmã — ela diz. — Não sabem se é seguro aí fora, não querem arriscar. — Mas concordarão em você ir embora? — Eles concordaram quando me uni a outra facção. Vão concordar com isto também — ela olha para seus sapatos. — Só querem que eu viva uma vida honesta, sabe? E não posso fazer isso aqui. Só sei que não posso. As portas do elevador se abrem, e o vento nos golpeia de imediato, ainda quente, mas entrelaçado com fios frios do inverno. Ouço vozes chegando do telhado, e subo a escadaria para chegar a elas. Elas aumentam quando me aproximo porta, e Christina a mantém aberta até que eu chegue lá em cima. Uriah e Zeke estão aqui, atirando pedras e escutando o eco quando elas acertam as janelas. Uriah tenta bater no cotovelo de Zeke para que ele lance torto, mas Zeke é rápido demais para ele. — Olá — eles dizem em uníssono quando veem Christina e eu. — Esperem, vocês estão tendo um relacionamento ou algo assim? — Christina pergunta, sorrindo. Ambos riem, mas Uriah parece um pouco aturdido, como se não estivesse absolutamente conectado a este momento ou lugar. Suponho que perder alguém da forma como ele perdeu Marlene pode fazer isso a uma pessoa, mesmo que não faça para mim.


Não há equipamento para tirolesa, mas não foi por isso que viemos. Não sei porque os demais vieram, mas eu só queria estar no alto: queria ver tanto quanto pudesse. Mas todo o território a oeste de estou está preto, como se estivesse envolto num manto escuro. Por um momento, acredito que posso ver um raio de luz no horizonte, mas no momento seguinte se foi, apenas um truque dos olhos. Os demais estão silenciosos também. Pergunto-me se todos estamos pensando o mesmo. — O que acreditam que há lá fora? — Uriah pergunta finalmente. Zeke encolhe os ombros, mas Christina se aventura em uma suposição. — Quem sabe mais do mesmo? Apenas... mais cidades em ruínas, mas facções, mais de tudo? — Não pode ser — Uriah fala, sacudindo a cabeça. — Tem que haver algo mais. — Ou não há nada — sugere Zeke. — Essas pessoas que nos colocaram aqui podem simplesmente estar mortas. Tudo poderia estar vazio. Estremeço. Nunca havia pensado nisso antes, mas ele tem razão: não sabemos o que passou lá fora depois que nos colocaram aqui, ou quantas gerações viveram ou morreram desde que o fizeram. Poderíamos ser as últimas pessoas que restam. — Não importa — falo, mais severamente do que pretendia. — Não importa o que há aí fora, temos que ver por nós mesmos. E logo lidaremos com isso uma vez que precisarmos. Ficamos parados ali por muito tempo. Sigo as bordas desiguais dos edifícios com os olhos até que todas as janelas iluminadas se estendem em uma linha. Então Uriah pergunta a Christina sobre a manifestação e nosso momento silencioso passa, como se fosse levado pelo vento. +++ No dia seguinte, Evelyn se coloca entre os pedaços do retrato de


Jeanine Matthews no lobby da sede da Erudição e anuncia um novo conjunto de regras. Os ex-membros de facção e os sem facção se reúnem igualmente no espaço e preenchem a rua para escutar o que a nossa nova líder tem a dizer, e os soldados sem facção se alinham nas paredes, os dedos prontos no gatilho da arma. Mantendo-nos sob controle. — Os acontecimentos de ontem deixaram claro que já não somos capazes de confiar uns nos outros — diz. Parece pálida e esgotada. — Vamos introduzir uma maior estruturação na vida de todos até que nossa situação seja mais estável. A primeira destas medidas é um toque de recolher: todos são obrigados a regressar a seus aposentos às nove da noite. Não vão deixar esse espaço até as oito da manhã seguinte. Os guardas patrulharão as ruas o tempo inteiro para nos manter seguros. Bufo e trato encobrir com uma tosse. Christina me dá uma cotovelada nas costelas e toca o dedo nos lábios. Não sei por que ser preocupa, não é como se Evelyn pudesse me escutar com todo o espaço que há entre nós. Tori, a ex-líder da Audácia, destituída pela própria Evelyn, está a poucos metros de mim, os braços cruzados. Sua boca se contrai em uma expressão de desprezo. — Também é hora de se preparar para nossa nova forma de vida sem facção. A partir de hoje, todos vão aprender os trabalhos que os sem fação tem feito desde que podemos nos lembrar. Todos faremos, então esses trabalhos são um plano de rotação, inclusive as outras tarefas que tradicionalmente eram feitas pelas facções — Evelyn sorri sem sorrir realmente. Não sei como ela faz isso. — Todos vamos contribuir por igual para nossa nova cidade, como deveria ser. As facções nos dividiram, mas agora estamos unidos. Agora e sempre. Ao meu redor, os sem facção comemoram. Apenas me sinto incômoda. Não estou em desacordo com ela, exatamente, mas os mesmos membros da facção que se lançaram contra Edward ontem não permanecerão tranquilos depois disso, também. O controle de Evelyn sobre esta cidade não é tão forte como ela


poderia desejar. +++ Não quero lutar com a multidão depois do anúncio de Evelyn, assim serpenteio através dos corredores até que encontro uma das escadas dos fundos a que subimos para chegar ao laboratório de Jeanine não faz muito tempo. A escadaria estava cheia de corpos então. Agora está limpa e fresca, como se nada tivesse ocorrido aqui. Enquanto caminho adiante no quarto andar, escuto um grito, e alguns sons de luta. Abro a porta e vejo um grupo de pessoas – jovens, mais jovens que eu, e todos usando braceletes de sem facção – reunidos ao redor de um garoto no chão. Não só um garoto: um garoto da Franqueza, vestido de branco e preto dos pés à cabeça. Corro até eles, e quando vejo uma menina alta sem facção puxar o pé prestes a chutar o garoto outra vez, grito: — Ei! É inútil: o chute golpeia o garoto da Franqueza nas costelas, e ele choraminga, retorcendo-se para longe dela. — Ei! — grito de novo, e desta vez a menina se vira. É muito mais alta que eu – uns bons quinze centímetros, de fato – mas estou apenas brava, não assustada. — Saia — digo-lhe — afaste-se dele. — Ele está violando o código de vestimenta. Estou em meu direito, e não recebo ordens dos amentes de facção — ela responde, com os olhos na tatuagem em minha clavícula. — Becks — o menino sem facção ao seu lado fala — essa é a garota do vídeo Prior. Os demais olham impressionados, mas a garota só se zanga. — E? — E — respondo — tive que ferir um monte de gente para conseguir atravessar a iniciação na Audácia, e farei o mesmo a você, se precisar.


Tiro meu suéter azul e o lanço ao menino da Franqueza, que me olha do chão, sangrando na sobrancelha. Ele se empurra de pé, ainda que segurando a lateral com uma mão, e atira o suéter ao redor dos ombros como uma manta. — Pronto — digo — agora não está violando o código de vestimenta. A garota põe à prova a situação em sua mente, avaliando se quer brigar comigo ou não. Praticamente posso ouvir o que está pensando – eu sou pequena, um alvo fácil, mas estou na Audácia, assim não devo ser tão fácil de superar. Talvez saiba que matei pessoas, ou talvez simplesmente não queira se meter em problemas, mas está perdendo os nervos, posso dizer pela forma incerta em sua boca. — Será melhor que cuide de suas costas — ela fala. — Te garanto que não preciso — respondo. — Agora, saia daqui. Fico o tempo suficiente para vê-los sair, então sigo caminhando. O menino da Franqueza me chama: — Espere! Seu suéter! — Fique com ele — respondo. Viro uma esquina esperando encontrar outra escada, mas me deparo com outro corredor branco como o que eu estava. Penso escutar passos atrás de mim e viro ao redor, pronta para lutar contra a menina sem facção, mas não há ninguém ali. Devo estar ficando paranoica. Abro uma das portas no corredor principal, como esperança de encontrar uma janela para poder me orientar, mas encontro apenas um laboratório saqueado, copos quebrados e tubos de ensaio jogados em cada mesa. Pedaços de papel compõem o lixo no chão, e estou agachando para recolher um quando as luzes se apagam. Lanço-me contra a porta. Uma mão me agarra o braço e me arrasta para um lado. Alguém coloca um saco em minha cabeça enquanto outra pessoa me empurra contra a parede. Retorço-me, dando chutes neles, lutando contra o pano que cobre meu rosto, e a única coisa que posso pensar é de novo não, de novo não, não outra vez. Giro o braço livre e golpeio, acertando alguém no ombro ou no


queixo, não sei dizer. — Ai! — diz uma voz — isso dói! — Sentimos muito por te assustar, Tris — outra voz fala — mas o anonimato é essencial para nossa operação. Nós não queremos te machucar. — Me soltem então! — respondo, quase grunhindo. Todas as mãos me prendendo contra a parede caem. — Quem são vocês? — exijo. — Somos os Convergentes — responde a voz — e somos muitos, no entanto, somos ninguém... Não posso evitar: rio. Talvez seja o choque ou o medo, meu coração palpitante desacelerando a cada segundo, as mãos tremendo de alívio. A voz continua: — Temos ouvido que você não é leal a Evelyn Johnson e seus lacaios sem facção. — Isso é ridículo. — Não é tão ridículo como confiar sua identidade a alguém quando não tem que fazê-lo. Tento ver através do tecido o que está por cima da minha cabeça, mas é grosso demais e está muito escuro. Tento relaxar-me contra a parede, mas é difícil sem minha visão para me orientar. Esmago um copo quebrado embaixo de meu sapato. — Não, não sou leal a ela. Por que isso é importante? — Porque significa que quer sair — diz a voz. Sinto uma pontada de emoção. — Queremos te pedir um favor, Tris Prior. Vamos ter uma reunião amanhã à noite, à meia-noite. Queremos que traga seus amigos da Audácia. — Está bem — respondo. — Deixe-me perguntar isto: se vou ver quem são amanhã, por que é tão importante manter essa coisa em minha cabeça hoje? Isto parece alcançar temporariamente a pessoa com quem falo. — Um dia contém muitos perigos — a voz fala. — Nos vemos amanhã, à meia-noite, no lugar onde fez sua confissão. De repente, a porta se abre, soprando o saco contra minhas


bochechas, e ouço passos no corredor. No momento em que sou capaz de tirar o saco de minha cabeça, o corredor está em silêncio. Abaixo os olhos e olho para o saco: é uma fronha azul escura com as palavras “Facção antes do sangue” pintadas nela. Quem quer que seja, sem dúvida tem um gosto doentio pelo dramático. O lugar onde fez sua confissão. Há somente um lugar que poderia ser: a sede da Franqueza, onde sucumbi ao soro da verdade. +++ Quando finalmente consigo voltar ao dormitório esta noite, encontro uma nota de Tobias enfiada debaixo do copo de água de minha mesa de cabeceira. VI– O julgamento de seu irmão será amanhã de manhã, e será privado. Não posso ir ou levantaria suspeitas, mas te informarei a sentença assim que for possível. Logo poderemos fazer algum tipo de plano. Não importa o que, isso terminará logo. –IV


Capítulo 8 Tris São nove em ponto. Eles poderiam decidir o veredito de Caleb neste momento, enquanto coloco meus sapatos, enquanto aliso meu lençol pela quarta vez hoje. Passo as mãos pelo meu cabelo. Os se facção só fazem julgamentos privados quando sentem que o veredicto é evidente, e Caleb era o braço direito de Jeanine antes de ela ser assassinada. Não deveria me preocupar com o veredicto. Já está decidido. Todos os colaboradores mais próximos de Jeanine serão executados. Por que se importa? Pergunto a mim mesma. Ele te traiu. Não tentou deter sua execução. Não me importo. Sim, me importo. Não sei. — Olá, Tris — Christina fala, batendo os nós dos dedos contra a moldura da porta. Uriah se esconde atrás dela. Sorri o tempo todo, mas agora seu sorriso parece feito de água, a ponto de derramar-se de seu rosto. — Tem alguma novidade? — pergunta. Analiso outra vez o dormitório, que está vazio. Todos estão tomando café da manhã, como exige nosso horário. Pedi a Uriah e Christina que pulassem a desjejum para que eu pudesse dizer-lhes algo. Meu estômago está roncando. — Sim. Se sentam na cama em frente a minha, e lhes conto como fui encurralada em um dos laboratórios da Erudição na noite anterior, sobre a fronha, os Convergentes e a reunião. — Me surpreende que a única coisa que fez foi bater em um deles


— Uriah comenta. — Bom, estava superada em número — respondo, na defensiva. Não era muito Audacioso da minha parte simplesmente confiar neles de imediato, mas estes são tempos estranhos. E não tenho certeza de quão Audaciosa sou na realidade, de qualquer modo, agora que as facções se foram. Sinto uma pequena dor estranha ante ao pensamento, bem no centro do meu peito. Algumas coisas são difíceis de se deixar ir. — Então, o que acredita que querem? — Christina pergunta. — Apenas sair da cidade? — Soa desse modo, mas não sei — respondo. — Como sabemos se não são gente de Evelyn, tentando nos enganar para que a traiamos? — Não sei também. Porém vai ser impossível sair da cidade sem a ajuda de alguém, e não vou simplesmente ficar aqui, aprendendo a conduzir ônibus e indo pra cama quando me mandam. Christina dá a Uriah um olhar de preocupação. — Ouçam, vocês não tem que vir, mas eu preciso sair daqui. Preciso saber quem era Edith Prior, e quem nos espera fora da cerca, se há alguém. Não sei por que, mas tenho que fazê-lo. Tomo uma respiração profunda. Não sei de onde veio essa onda de desespero, mas agora que a reconheci, é impossível de ignorar, como se algo vivo tivesse despertado de um longo sonho dentro de mim. Se retorce em meu estômago e garganta. Preciso ir. Preciso da verdade. Pela primeira vez, o fraco sorriso brincando nos lábios de Uriah se foi. — Eu também — ele fala. — De acordo — Christina diz. Seus olhos escuros continuam preocupados, mas ela encolhe os ombros. — Então vamos à reunião. — Bom. Um de vocês pode dizer a Tobias? Se supõe que devo manter distância, já que “rompemos”. Nos encontramos no beco às onze e meia. — Eu direi. Acredito que estou no grupo dele hoje — Uriah fala


— aprendendo sobre fábricas. Mal posso esperar — ele sorri. — Posso dizer a Zeke também? Ou ele não é suficientemente digno de confiança? — Vá em frente. Apenas certifique-se de não compartilhar com todos ao redor. Examino meu relógio de novo. Nove e quinze. O veredicto de Caleb já deve ter sido decidido, é quase a hora de todos conhecerem seus postos de trabalho sem facção. Sinto como se a mínima coisa pudesse de fazer saltar do corpo. Meu joelho salta por vontade própria. Christina põe a mão em meu ombro, mas não me pergunta sobre o acontecido, e estou agradecida. Não sei o que diria. +++ Christina e eu fazemos uma rota complicada através da sede da Erudição em nosso caminho até a escadaria dos fundos, evitando as patrulhas sem facção. Empurro a manga de minha camisa para cima do pulso. Desenhei um mapa no braço antes de sair, sei como chegar à sede daqui, porém não conheço as ruas laterais que nos mantém longe dos olhares indiscretos dos sem facção. Uriah nos espera do lado de fora da porta. Está vestido todo de preto, porém posso ver o cinza da Abnegação aparecendo no colarinho de sua camiseta. É estranho ver meus amigos da Audácia usando cores de Abnegados, como se tivessem estado comigo a vida inteira. Às vezes me sinto dessa maneira de qualquer jeito. — Falei a Quatro e a Zeke, mas eles vão nos encontrar lá — Uriah explica — vamos. Corremos em conjunto pela ruela até a Rua Monroe. Resisto à tentação de vacilar a cada um dos nossos ruidosos passos. É mais importante ser rápido que silencioso neste ponto, de todo modo. Nos dirigimos a Monroe, e comprovo que as patrulhas sem facção estão ficando para trás. Vejo formas escuras movendo-se para mais perto da Avenida Michigan, mas desaparecem atrás dos edifícios


sem de deter. — Onde está Cara? — sussurro para Christina, quando estamos na Rua State e suficientemente longe da sede da Erudição para que seja seguro falar. — Não sei, não acredito que ela conseguisse um convite — Christina fala — o que seria realmente estranho. Só sei que quer... — Shh! — Uriah sibila. — Próxima curva? Uso a luz do relógio para ver as palavras escritas em meu braço. — Rua Randolph! Pegamos ritmo, nossos sapatos batendo no pavimento, nossas respirações pulsando quase em uníssono. Apesar da queimação em meus músculos, é bom correr. Minhas pernas doem quando chegamos na ponte, mas logo avisto o Mart Impiedoso além do rio pantanoso, abandonado e sem luz, e sorrio através da dor. Meu ritmo diminui quando estou para cruzar a ponte, e Uriah coloca um braço em meus ombros. — E agora, temos que subir um milhão de lances de escada. — Talvez tenham ativado os elevadores? — sugiro. — Não é uma alternativa — nega com a cabeça — aposto que Evelyn está monitorando todo o uso de energia elétrica, é a melhor maneira de averiguar se as pessoas se reúnem secretamente. Suspiro. Posso gostar de correr, mas odeio subir escadas. +++ Quando finalmente chegamos ao topo da escadaria, nossa respiração está ofegante, e faltam cinco minutos para a meia-noite. Os outros seguem adiante enquanto recupero o ar perto do elevador. Uriah tinha razão: não há uma só luz que eu possa ver, sem contar os letreiros da saída. É em seu resplendor azul que vejo Tobias sair da sala de interrogatório mais adiante. Desde nosso encontro, falei com ele só através de mensagens secretas. Tenho que resistir ao impulso de lançar-me sobre ele e passar os meus dedos na curvatura de seus lábios, em suas bochechas proeminentes quando sorri, na linha dura de suas


sobrancelhas e na mandíbula. Mas faltam dois minutos para a meia-noite. Não temos tempo. Ele envolve os braços ao redor de mim e me mantém apertada durante alguns segundos. Sua respiração faz cócegas em meu ouvido, e fecho os olhos, deixando-me finalmente relaxar. Ele cheira a vento, suor e sabonete, como Tobias e segurança. — Deveríamos entrar? — ele pergunta. — Quem quer que sejam, provavelmente são pontuais. — Sim — minhas pernas estão tremendo pelo excesso de exercício, não posso me imaginar descer as escadas e correr de volta à sede da Erudição mais tarde. — Averiguou sobre Caleb? Ele sorri forçadamente. — Talvez devêssemos falar disso mais tarde. Essa é toda a resposta que preciso. — Vão executá-lo, não é? — pergunto suavemente. Ele assente e toma minha mão. Não sei como me sentir. Trato de não sentir nada. Juntos entramos no cômodo onde Tobias e eu uma vez fomos interrogados sob a influência do soro da verdade. O lugar onde fez sua confissão. Um círculo de velas acesas está colocado no chão sobre uma das balanças da Franqueza no azulejo. Há uma mistura de rostos conhecidos e desconhecidos: Susan e Robert estão juntos, falando; Peter está sozinho em um lado da sala, com os braços cruzados; Uriah e Zeke estão com Tori e alguns outros da Audácia; Christina está com sua mãe e irmã, e em um canto há dois Eruditos de aspecto nervoso. Os novos trajes não podem apagar as divisões entre nós, elas estão arraigadas. Christina acena para mim. — Esta é minha mãe, Stephanie — fala, indicando uma mulher com mechas cinzentas em seu cabelo escuro e encaracolado. — E minha irmã, Rose. Mamãe, Rose, esta é minha amiga Tris e meu instrutor de iniciação, Quatro. — Obviamente — Stephanie concorda — vimos seus interrogatórios há várias semanas, Christina.


— Sei disse, só estava sendo cortês... — A cortesia é um engano em... — Sim, sim, sei — Christina revira os olhos. Sua mãe e sua irmã, me dou conta, se olham com algo como cautela ou ira, ou ambos. Então a irmã me olha e diz: — Então foi você que matou o namorado de Christina. Suas palavras criam uma sensação de frio dentro de mim, como um raio de gelo que divide um lado de meu corpo do outro. Quero responder, me defender, mas não posso encontrar as palavras. — Rose — Christina fala, franzindo o cenho para ela. Ao meu lado, Tobias se endurece, seus músculos tensionando-se. Pronto para uma briga, como sempre. — Eu só pensei que tudo deveria ser falado de uma vez — Rose diz. — Desperdiçaríamos menos tempo. — E ainda pergunta porque saí de nossa facção — Christina responde. — Ser honesto significa dizer tudo o que quer, quando quer. Significa que você escolhe dizer o certo. — Uma mentira por omissão continua sendo uma mentira. — Quer a verdade? Me sinto incomodada e não quero estar aqui neste momento. Nos vemos logo, garotas — ela pega meu braço e leva Tobias e eu para longe de sua família, balançando a cabeça o tempo inteiro — sinto por isso. Não são realmente do tipo indulgente. — Está bem — falo, mas não está. Pensava que quando recebi o perdão de Christina, a parte mais difícil da morte de Will houvesse terminado. Mas quando se mata alguém que ama, a parte difícil nunca termina. Simplesmente fica mais fácil se distrair do que foi feito. Meu relógio marca as doze horas. Uma porta na frente da sala se abre e entram a pé duas silhuetas magras. A primeira é Johanna Reyes, antiga porta-voz da Amizade, identificável pela cicatriz que cruza seu rosto e o toque de amarelo que se assoma debaixo de sua jaqueta negra. A segunda pessoa é outra mulher, mas não posso ver seu rosto, só que está usando azul. Sinto uma pontada de terror. Ela se veste quase como... Jeanine.


Não, eu a vi morrer. Jeanine está morta. A mulher se aproxima. É imponente e loira, como Jeanine. Um par de óculos pende de seu bolso da frente, e seu cabelo está preso numa trança. Uma Erudita da cabeça aos pés, mas não é Jeanine Matthews. Cara. Cara e Johanna são as líderes dos Convergentes? — Olá — Cara fala, e todas as conversas param. Ela sorri, porém em sua expressão parece obrigatória, como se estivesse simplesmente aderindo a uma convenção social. — Não se supõe que devêssemos estar aqui, assim vou manter esta reunião breve. Alguns de vocês – Zeke, Tori – nos tem ajudado nos últimos dias. Olho Zeke fixamente. Zeke tem ajudado Cara? Suponho que esqueci que ele uma vez foi espião da Audácia. Que foi quando, provavelmente, demonstrou sua lealdade a Cara, deveria ter algum tipo de amizade com ela antes de ia à sede da Erudição não faz muito tempo. Ele me olha, move as sobrancelhas e sorri. Johanna continua: — Alguns de vocês estão aqui porque queremos pedir sua ajuda. Todos vocês estão aqui porque não confiam em Evelyn Johnson para determinar o destino desta cidade. Cara junta as mãos diante de si. — Acreditamos em seguir as intenções dos fundadores da cidade, que foram expressadas de duas formas: a formação das facções, e a missão Divergente expressada por Edith Prior, de enviar as pessoas para fora da cerca e ajudar quem estiver ali uma vez que tenhamos uma grande população Divergente. Acreditamos que, mesmo que não tenhamos chegado a esse número de habitantes Divergentes, a situação em nossa cidade ficou suficientemente grave para enviar as pessoas para fora da cerca de qualquer modo. De acordo com as intenções dos fundadores de nossa cidade, temos dois objetivos: derrubar Evelyn e os sem facção para que possamos reestabelecer as facções, e enviar alguns de nós para fora da cidade para ver o que há lá fora. Johanna encabeçará o


primeiro objetivo, e eu dirigirei o último, que é nosso principal foco esta noite. Ela pressiona uma mecha para trás em sua trança. — Não muitos de nós seremos capazes de ir, porque um grupo tão grande chamaria atenção demais. Evelyn não permitirá que marchemos sem lutar, assim pensei que o melhor seria recrutar pessoas que sei que têm experiência em sobreviver ao perigo. Dou um olhar a Tobias. Certamente temos experiência com o perigo. — Christina, Tris, Tobias, Tori, Zeke e Peter são minhas opções — Cara revela. — Todos vocês me demonstraram suas habilidades de uma forma ou de outra, e é por isso que eu gostaria de lhes pedir que venham comigo para fora da cidade. Não são obrigados a aceitar, é claro. — Peter? — pergunto, sem pensar. Não posso imaginar o que Peter poderia ter feito para “demonstrar suas habilidades” para Cara. — Ele evitou que os integrantes da Erudição te matassem — Cara fala suavemente. — Quem acha que lhe proporcionou a tecnologia para forjar sua morte? Ergo as sobrancelhas. Nunca havia pensado nisso antes: muito aconteceu depois de minha execução fracassada para me deter aos detalhes do resgate. Mas, é claro, Cara era a única desertora bem conhecida da Erudição naquele momento, a única pessoa que Peter conhecia para pedir ajuda. Quem mais poderia ter lhe ajudado? Quem mais sabia? Não faço outra objeção. Não quero deixar essa cidade com Peter, mas estou desesperada demais para sair para reclamar sobre isso. — São muitos integrantes da Audácia — uma menina de um lado da sala diz, com ar cético. Ela tem sobrancelhas grossas que não se impedem de crescer no meio, e a pele pálida. Quando vira a cabeça, vejo tinta negra atrás de sua orelha. Uma transferida da Audácia para a Erudição, sem dúvida. — Verdade — Cara concorda — mas o que precisamos nesse


momento são de pessoas com as habilidades necessárias para sair da cidade ilesas, e creio que a formação da Audácia os tornam altamente qualificados para essa tarefa. — Sinto muito, mas acredito que eu não possa ir — Zeke fala. — Eu não poderia deixar Shauna aqui. Não depois que sua irmã acaba de... bom, já sabem. — Eu irei — Uriah se oferece, sua mão se erguendo. — Sou da Audácia. Sou um bom atirador. E proporciono um colírio para os olhos muito necessário. Eu rio. Cara não parece estar divertida, mas assente. — Obrigada. — Cara, terá que sair da cidade rapidamente — a garota da Audácia-transferida-para-a-Erudição diz. — O que significa que deveria conseguir alguém para operar os trens. — Bom ponto — Cara concorda. — Alguém aqui sabe como conduzir um trem? — Oh, eu faço isso — responde a menina. — Isso não estava implícito? As peças do plano se unem, Johanna sugere que peguemos uns caminhões da Amizade no final dos trilhos de trem fora da cidade, e se voluntaria para nos dar provisões. Robert se oferece para ajudá-la. Stephenie e Rose se oferecem como voluntárias para vigiar os movimentos de Evelyn nas horas previstas para a fuga, e para reportar qualquer comportamento não usual para a sede da Amizade por rádio bidirecional. O integrante da Audácia que chegou com Tori se oferece para encontrar armas para nós. A garota Erudita ressalta qualquer debilidade que vê, e o mesmo faz Cara, e tudo está assegurado, como se tivéssemos acabado de construir uma estrutura segura. Só resta uma pergunta. Cara a verbaliza: — Quando deveríamos ir? E eu ofereço uma resposta: — Amanhã à noite.


Capítulo 9 Tobias O ar noturno desliza em meu pulmões, e sinto como se fosse uma das minhas últimas respirações. Amanhã sairei deste lugar buscarei outro. Uriah, Zeke e Christina começam a se dirigir até a sede da Erudição, e seguro a mão de Tris para mantê-la atrás. — Espere. Vamos a algum lugar. — Ir a algum lugar? Mas... — Só por um momento — a levo até a esquina do edifício. De noite, quase posso imaginar como a água parecia quando enchia o vazio escuro do canal com ondas iluminadas pela luz. — Você está comigo, lembra? Eles não vão te deter. Há um tremor em seu lábio superior – quase um sorriso. Ao dobrar a esquina, ela se inclina contra a parede e eu estou de frente para ela, de costas para o rio. Ela está usando algo escuro ao redor dos olhos para dar destaque e brilho à cor. — Não sei o que fazer — ela pressiona as mãos no rosto, enterrando os dedos no cabelo. — Sobre Caleb, quero dizer. — Não sabe? Ela move uma mão para me olhar. — Tris — ponho minhas mãos na parede, cada uma de um lado de seu rosto e me inclino com elas. — Não quer que ele morra. Sei que não. — É que… — ela fecha os olhos. — Estou tão... brava. Tento não pensar nele, porque quando o faço, só quero... — Eu sei. Deus, eu sei. Toda a minha vida sonhei em matar Marcus. Uma vez inclusive


decidi como iria fazê-lo – com uma faca, assim poderia sentir o calor deixá-lo, poderia estar perto o suficiente para ver a luz deixar seus olhos. Tomar essa decisão me assustou tanto como sua violência nunca o fez. — Meus pais gostariam que eu o salvasse, é claro — os olhos dela se abrem e se erguem até ele — eles diriam que é egoísta deixar alguém morrer só porque te traíram. Perdoe, perdoe, perdoe. — Isto não é sobre o que eles querem, Tris. — Sim, é sim! — ela se afasta da parede. — Sempre é sobre o que eles querem. Porque ele pertence a eles mais do que pertence a mim. E quero que se sintam orgulhosos de mim. É tudo o que quero. Seus olhos claros são constantes nos meus, decididos. Nunca tive pais que me deram um bom exemplo, pais cujas expectativas valiam a pena estar à altura, mas ela sim. Posso ver dentro dela o valor e a beleza que eles lhe incutiram como um movimento de mão. Toco sua bochecha, deslizando meus dedos em seu cabelo. — Vou tirá-lo de lá. — O quê? — Vou tirá-lo de sua cela. Amanhã, antes de irmos — assinto. — Eu o farei. — Mesmo? Tem certeza? — É claro que tenho certeza. — Eu... — ela franze o cenho — obrigada. Você é... incrível. — Não diga isso. Não está inteirada dos meus motivos ocultos ainda — sorrio. — Veja, na realidade, não te trouxe aqui para falar sobre Caleb. — Ah, não? Ponho minhas mãos em sua cintura e a empurro suavemente para trás contra a parede. Ela me fita, seus olhos claros e ansiosos. Apoio-me suficientemente perto para sentir sua respiração, porém me afasto quando ela se inclina, provocando-a. Ela engancha os dedos nas alças para o cinto de minha calça e me puxa contra ela, assim tenho que me deter com meus antebraços.


Ela tenta me beijar, mas inclino a cabeça para esquivar, beijando-a debaixo da orelha, e então ao longo da mandíbula até a garganta. Sua pele é macia e tem gosto de sal, como uma corrida noturna. — Me faça um favor — ele sussurra em meu ouvido — e nunca tenha motivos puros novamente. Ela põe as mãos em mim, tocando todos os lugares em que sou tatuado, a parte baixa das minhas costas e costelas. Seus dedos deslizam pelo cós da minha calça e me puxam contra ela. Respiro contra a lateral de seu pescoço, incapaz de me mover. Finalmente nos beijamos, e é um alívio. Ela suspira, e sinto um sorriso perverso formando-se em meu rosto. Eu a levanto nos braços, deixando que a parede suporte a maior parte do seu peso e suas pernas rodeando minha cintura. Ela ri com outro beijo, e me sinto forte, e também assim está ela, seus dedos duros ao redor de meus braços. O ar da noite desliza em meus pulmões, e sinto como se fosse uma das minhas primeiras respirações.


Capítulo 10 Tobias Os edifícios em ruínas do setor da Audácia parecem portas para outros mundos. Diante de mim vejo a Pira perfurando o céu. A pulsação em meus dedos marca os segundos que passam. O ar todavia é rico em meus pulmões, mesmo que o verão esteja chegando ao fim. Bastava correr e lutar todo o tempo porque o que me importavam eram meus músculos. Agora meus pés me salvaram vezes demais, e não posso separar correr e lutar do que são: uma maneira de escapar do perigo, uma maneira de continuar vivo. Quando chego ao edifício, me detenho diante da entrada para recuperar o fôlego. Acima de mim, painéis de cristal refletem a luz em todas as direções. Em algum lugar ali em cima está a cadeira em que me sentei enquanto estava executando a simulação de ataque, e há uma mancha de sangue do pai de Tris na parede. Em algum lugar lá em cima, a voz de Tris atravessou a simulação em que eu estava, e senti sua mão em meu peito, trazendo-me para a realidade. Abro a porta da sala da paisagem do medo e puxo a tampa da pequena caixa negra que estava em meu bolso traseiro para ver as seringas dentro. Esta é a caixa que sempre usei, acolchoada ao redor das agulhas; é o símbolo de algo doente em meu interior, ou de algo valente. Coloco a agulha em minha garganta e fecho os olhos enquanto pressiono o êmbolo. A caixa negra cai com estrépito no chão, mas no momento em que abro os olhos, ela desapareceu. Estou de pé no teto do edifício Hancock, perto da tirolesa onde os


Audaciosos brincam com a morte. as nuvens são negras com a chuva, e o vento me enche a boca quando a abro para respirar. À minha direita, a tirolesa estala, o cabo chicoteando para trás e estilhaçando as janelas abaixo de mim. Minha visão se estreita ao redor da borda do teto, preso no centro de um buraco. Posso ouvir minha própria exalação apesar do vento que silva. Obrigo-me a caminhar pela borda. A chuva golpeia contra meus ombros e cabeça, arrastando-me até o chão. Ponho o peso um pouco para frente e caio, minha mandíbula reprimindo os gritos, afogados e sufocados por meus próprios medos. Depois que aterrisso, não tenho nem um segundo para descansar antes que as paredes se fechem ao meu redor, a madeira atingindome nas costas, então na cabeça e depois minhas pernas. Claustrofobia. Ponho os braços em meu peito, fecho os olhos e tento não entrar em pânico. Penso em Eric em sua paisagem do medo, vencendo seu terror à submissão com respirações profundas e lógicas. E Tris, conjurando armas do nada para atacar seus piores pesadelos. Mas não sou Eric, e não sou Tris. O que eu sou? O que eu preciso para superar meus medos? Sei a resposta, é claro que sim: tenho que negar-lhes o poder de me controlar. Preciso saber que sou mais forte que eles. Respiro e fecho minhas palmas contra as paredes à esquerda e à direita. A caixa racha e logo se rompe, as tábuas estatelam contra o solo de cimento. Ponho-me de pé por cima delas na escuridão. Amar, meu instrutor na iniciação, nos ensinou que nossas paisagens do medo sempre estavam em processo de mudança, se transformando de acordo com nossos estados de ânimo e com os pequenos sussurros de nossos pesadelos. A minha sempre foi a mesma, até a poucas semanas. Até que demonstrei que posso dominar meu pai. Até que descobri alguém por quem ficaria aterrorizado de perder. Não sei o que vou ver a seguir. Espero muito tempo sem que nada mude. A sala está escura, o


chão ainda está frio e duro, meu coração segue batendo mais rápido que o normal. Olho para o relógio e descubro que está no pulso errado – costumo usá-lo no esquerdo, não no direito, e a correia não é cinza, é preta. Então me dou conta dos pelos eriçados em meus dedos que não estavam ali antes. Os calos nos nós dos dedos se foram. Olho para baixo, e estou usando calças e uma camiseta cinza, sou mais largo no tronco e mais magro nos ombros. Ergo meus olhos a um espelho que agora se encontra a minha frente o rosto que me encara fixamente é o de Marcus. Ele pisca para mim, e sinto os músculos que rodeiam meu olho se contraírem enquanto ele o faz, mesmo que eu não tenha mandado nada. Sem aviso prévio, seus – meus – nossos braços se erguem até o vidro e o alcançam, fechando as mãos ao redor do pescoço de meu reflexo. Mas então o espelho desaparece e minhas – suas – nossas mãos estão ao redor de nosso próprio pescoço, manchas escuras surgindo na borda da visão. Caímos no chão, e o aperto é tão forte quanto ferro. Não posso pensar. Não me ocorre uma maneira de sair disto. Por instinto, grito. O som vibra contra minhas mãos. Imagino essas mãos como são as minhas na realidade, grandes, com dedos longos e nós com calos de horas contra o saco de boxe. Imagino meu reflexo como um jorro de água sobre a pele de Marcus, substituindo todas as partes dele com as minhas. Refaço-me à minha própria imagem. Eu estou de joelhos no cimento, respirando com dificuldade. Minhas mãos tremem, e passo os dedos por meu pescoço, ombros, braços. Apenas para ter certeza. Eu disse a Tris, no trem para conhecer Evelyn há algumas semanas, que Marcus ainda estava em minha paisagem do medo, porém que havia mudado. Passei muito tempo pensando nele, enchia meus pensamentos cada noite antes de ir dormir, e chamava pela minha atenção toda vez que eu despertava. Ainda tinha medo, sabia, mas de uma maneira diferente – já não era um menino, temendo a ameaça que meu terrível pai representava para minha


segurança. Era um homem, assustado com a ameaça que ele representava a meu caráter, meu futuro, minha identidade. Porém inclusive esse medo, eu sei, não se compara com o que vem a seguir. Mesmo sabendo o que vem, quero abrir uma veia e tirar o soro do meu corpo no lugar de vê-lo de novo. Um círculo de luz aparece no concreto a minha frente. Uma mão, com os dedos dobrados em forma de garra, aparece na luz, seguida por outra, e logo a cabeça, com o cabelo loiro grosso. A mulher tosse e se arrasta para dentro da luz, centímetro por centímetro. Quero avançar até ela, ajudá-la, mas estou congelado. A mulher gira seu rosto para a luz, e vejo que não é Tris. O sangue derrama sobre seus lábios e nos cachos ao redor do queixo. Seus olhos injetados de sangue encontram os meus e ela fala: — Ajuda. Tosse em vermelho no chão, e me lanço até ela, de alguma maneira sabendo que se não chegar logo, a luz deixará seus olhos. Mãos se envolvem ao redor de meus braços, ombros e peito, formando uma jaula de carne e osso, mas continuo esforçando-me para alcançá-la. Arranho as mãos que me prendem, mas só termino arranhando a mim mesmo. Grito seu nome; ela tosse novo, desta vez mais sangue. Ela grita pedindo ajuda, eu grito por ela e não ouço nada, não sinto nada exceto meu coração, meu próprio terror. Ela cai no chão, sem se mover, e seus olhos ficam sem expressão. Já é tarde demais. A escuridão se levanta. As luzes voltam. Grafites cobrem as paredes da sala da paisagem do medo, e diante de mim estão as janelas espelhadas da sala de observação, e nos cantos as câmeras que registram cada sessão, tudo onde se supõe que deve estar. Meu pescoço e costas estão cobertos de suor. Limpo o rosto com a bainha da minha camisa e caminho até a porta da frente, deixando a caixa negra com a seringa para trás. Já não preciso reviver meus medos. Tudo o que tenho a fazer agora é tentar superá-los.


+++ Sei por experiência que confiança por si só pode levar uma pessoa a lugares proibidos. Como as celas do terceiro andar da sede da Erudição. Não aqui, é claro, pelo que parece. Um homem sem facção me detém com o extremo de sua arma antes de eu chegar à porta, e estou nervoso, com falta de ar. — Onde vai? Ponho a mão em sua arma e a empurro para longe do meu braço. — Não me aponte essa coisa. Estou aqui por ordens de Evelyn. Vou ver um prisioneiro. — Não ouvi sobre visitas fora do horário hoje. Deixo minha voz baixar, para parecer que estou lhe revelando um segredo. — É porque ela não queria isso no registro. — Chuck! — alguém chama em voz alta das escadas acima de nós. É Therese. Ela faz um movimento de mão enquanto caminha até nós. — Deixe-o passar. Está tudo bem. Assinto com a cabeça para Therese e sigo adiante. Os escombros do corredor foram limpos, mas as lâmpadas quebradas não foram substituídas, então vou por caminhos na escuridão, em meu caminho procurando pela cela certa. Quando chego ao corredor norte, não vou direto para a cela, mas para a mulher que se encontra no final. É de meia-idade, com olhos que caem nos cantos e uma boca que se mantém franzida. Parece que tudo a incomoda, inclusive eu. — Olá — falo. — Meu nome é Tobias Eaton. Estou aqui para recolher um preso, por ordem de Evelyn Johnson. Sua expressão não muda quando ouve meu nome, assim por alguns segundos, tenho certeza de que terei que deixá-la inconsciente para conseguir o que quero. Ela pega um papel amassado do bolso e o estica contra a palma da mão esquerda. Ali está uma lista dos nomes dos presos e suas correspondentes celas. — Nome?


— Caleb Prior. 308A — respondo. — Você é o filho de Evelyn, verdade? — Yeah. Quero dizer... sim. Ela não parece o tipo de pessoa que gosta de gírias como “yeah”. A mulher me leva a uma porta de metal branco com 308A pintada nela, e me pergunto para que era usada quando nossa cidade não requeria tantas celas. Ela digita o código e as portas se abrem. — Suponho que tenho que fingir que não vejo o que vai fazer? — ela pergunta. Deve pensar que estou aqui para matá-lo. Decido deixá-la pensar assim. — Faça-me um favor e fale bem de mim para Evelyn. Não quero tantos turnos à noite. O nome é Drea. — Ok. Ela amassa o papel com o punho e o enfia no bolso enquanto se afasta. Mantenho minha mão na maçaneta da porta até que ela chega ao seu posto e vira de lado para não ficar de frente para mim. Parece que fez isso algumas vezes antes. Pergunto-me quantas pessoas tem desaparecido dessas celas por ordem de Evelyn. Caminho para dentro. Caleb Prior se senta em uma mesa de metal, inclinado sobre um livro, o cabelo puxado para um lado da cabeça. — O que quer? — Odeio ter que dizer isso... — me detenho. Decidi faz algumas como manejar isso, quero ensinar uma lição a Caleb. E isso envolve algumas poucas mentiras. — Você sabe, na realidade, não odeio tanto. Sua execução foi adiantada algumas semanas. Para esta noite. Isso chama sua atenção. Ele se retorce em sua cadeira e me olha fixamente, com olhos saltados das órbitas, como uma presa diante do predador. — É uma brincadeira? — Realmente sou horrível para contar piadas. — Não — ele nega com a cabeça. — Tenho um par de semanas, não, essa noite não...


— Se você se calar, te darei uma hora para se adaptar com a nova informação. Se não, te golpearei e o despacharei no beco antes que desperte. Faça sua escolha agora. Ver um Erudito processar algo é como ver o interior de um relógio, todas as engrenagens girando, deslocando-se, ajustandose, trabalhando juntas para formar uma função particular, que neste caso é dar sentido a sua morte iminente. Os olhos de Caleb se movem para a porta atrás de mim. Então ergue a cadeira, girando-a e balançando-a contra mim. As pernas me acertam com força, o que me para o suficiente para deixar que ele saia. Eu o sigo pelo corredor, os braços ardendo onde a cadeira me acertou. Sou mais rápido que ele, acerto-o nas costas e ele cai no chão de bruços, sem apoio. Com o joelho em suas costas, puxo seus pulsos e os prendo com uma tira plástica. Ele se queixa, e quando o coloco de pé, seu nariz está brilhando com sangue. Os olhos de Drea encontram os meus por instante, e logo vão para longe. Eu o arrasto pelo corredor, não por onde vim, mas por outro, até uma saída de emergência. Caminhamos por um labirinto de escadas estreitas, onde o eco de nossos passos ressoa, dissonantes e ocos. Uma vez que estou na parte inferior, bato na porta de saída. Zeke abre, um sorriso bobo no rosto. — Não teve problemas com a guarda? — Não. — Imaginei que seria fácil de passar por Drea. Ela não se importa com nada. — Parecia que já tinha olhado para o outro lado antes. — Isso não me surpreende. Este é Prior? — Em carne e osso. — Por que está sangrando? — Porque é um idiota. Zeke me oferece uma jaqueta preta com o símbolo dos sem facção bordado no colarinho.


— Não sabia que a idiotice fazia as pessoas sangrarem espontaneamente pelo nariz. Cubro os ombros de Caleb com a jaqueta e fecho um dos botões em seu peito. Ele evita meus olhos. — Acredito que seja um fenômeno novo — falo para ele. — O beco está livre? — Me assegurei que sim — Zeke estende a pistola para mim, a empunhadura primeiro. — Cuidado, está carregada. Agora, bem, seria muito bom se me acertasse, assim serei mais convincente quando falar aos sem facção que você roubou a arma de mim. — Quer que eu te bata? — Oh, como se você nunca tivesse desejado isso. Apenas faça, Quatro. Eu gosto de bater nas pessoas, gosto da explosão de potência e energia, da sensação de que sou intocável porque posso feri-los. Mas não gosto dessa parte de mim, porque é a parte de mim que está mais danificada. Zeke se prepara e fecho minha mão em punho. — Faça rápido, seu maricas. Decido acertar a mandíbula, que é forte demais para quebrar, mas deixará um bom hematoma. Lanço o braço pra frente, socando bem onde planejava. Zeke geme, segurando o rosto com as duas mãos. A dor percorre meu braço, e sacudo a mão. — Muito bem — Zeke espia pelo lado do edifício. — Bom, suponho que isso é tudo. — Acho que sim. — Provavelmente não te verei outra vez, não é? Quero dizer, sei que os outros voltarão, mas você... — ele se cala, mas continua com o pensamento um momento depois. — Simplesmente parece que ficará feliz de deixar isto para trás, isso é tudo. — Sim, provavelmente tem razão — encaro meus sapatos. — Tem certeza que não quer vir? — Não posso. Shauna não pode ir de cadeira de rodas para onde estão indo, e não é como se eu fosse deixá-la, sabe? — ele toca a mandíbula, ligeiramente, examinando a pele. — Assegure-se de


que Uri não beba demais, ok? — Sim. — Não, estou falando sério — ele diz, e sua voz cai como sempre faz quando está sério. — Me promete que cuidará dele? Sempre esteve claro para mim, já que os conheço, que Zeke e Uriah são mais próximos que a maioria dos irmãos. Eles perderam o pai quando eram jovens, e suspeito que Zeke começou a caminhar na linha entre pai e irmão depois disso. Não posso imaginar o que ele sente ao ver o caçula sair da cidade agora, sobretudo quando Uriah está tão quebrado pela dor depois da morte de Marlene. — Eu prometo — concordo. Sei que deveria ir, mas tenho que permanecer neste momento por um pouco de tempo, sentindo seu significado. Zeke foi um dos meus primeiros amigos na Audácia, depois que sobrevivi à iniciação. Logo ele trabalhou na sala de controle comigo, olhando as câmeras e criando estúpidos programas que soletravam as palavras na tela ou jogando jogos de adivinhação com números. Nunca perguntou meu nome real, ou porque o primeiro na classificação terminou na segurança e instrução em vez de na liderança. Ele não exigiu nada. — Vamos nos abraçar agora — ele diz. Mantendo uma mão firme sobre o braço de Caleb, envolvo meu braço livro ao redor de Zeke e ele faz o mesmo. Quando nos separamos, empurro Caleb pelo beco, e não posso resistir de virar e chamá-lo de volta: — Eu sentirei sua falta! — Eu também, docinho! Ele sorri, e seus dentes são brancos na luz do crepúsculo. São a última coisa que vejo antes de ter que me virar de volta e seguir para o trem. — Estão indo a algum lugar — Caleb fala entre respirações. — Você e alguns outros. — Sim. — A minha irmã vai?


A pergunta desperta em mim uma fúria animal que não se satisfaz com palavras ou insultos cortantes. Só se satisfaz com o barulho de sua orelha contra a palma da minha mão. Ele estremece e encurva os ombros, preparando-se para um segundo tapa. Pergunto-me se é isso o que eu fazia quando meu pai me batia. — Ela não é sua irmã — digo. — Você a traiu. A torturou. Tirou a única família que lhe restava. E... por quê? Porque queria guardar os segredos de Jeanine, queria ficar na cidade, são e salvo? É um covarde. — Não sou um covarde! Sabia que se... — Voltamos ao acordo em que você mantém a boca fechada. — Bem, para onde está me levando, de qualquer forma? Pode me matar aqui mesmo, não é? Eu paro. Uma figura se move ao longo da calçada, atrás de nós. Capturo o movimento com minha visão periférica. Firo e ergo a arma, mas a forma desaparece na boca de uma ruela. Sigo caminhando, arrastando Caleb comigo, escutando passos atrás de mim. Pisamos no vidro com nossos sapatos. Vejo os edifícios escuros e os sinais de tráfego, que pendem precariamente de seus postes, como folhas tardias prestes a se soltarem de seus ramos no outono. Então chego à estação onde pegaremos o trem, e conduzo Caleb por um lance de escadas de metal até a plataforma. Vejo o trem vir de bem longe, fazendo sua última viagem através da cidade. Uma vez, os trens foram uma força da natureza para mim, algo que continuava com seu caminho, independente do que fizéssemos dentro dos limites da cidade, algo pulsante, vivo e poderoso. Agora que conheci os homens e mulheres que o controlam, parte desse mistério se foi, mas o significado para mim nunca desapareceu, meu primeiro ato como Audacioso foi saltar em um, e todos os dias depois desse foram a fonte de minha liberdade, me davam o poder de me mover por este mundo, enquanto antes me sentia preso no setor da Abnegação, na casa que havia sido uma prisão para mim. Quando o trem está mais perto, corto o laço que prende os pulsos de Caleb com uma navalha e mantenho um aperto firme em seu


braço. — Já sabe como fazer, não? — pergunto. — Entre no último vagão. Ele tira a jaqueta e a deixa cair no chão. — Sim. Começando num extremo da plataforma, corremos juntos ao longo das tábuas desgastadas, ao lado da porta aberta. Ele não alcança a alça, então eu o empurro. Ele tropeça, então se segura e sobe no último vagão. Estou ficando sem espaço – a plataforma está acabando – agarro a alça e me balanço para dentro, meus músculos absorvendo o impacto. Tris se encontra no interior do vagão, com um pequeno sorriso no rosto. Sua blusa preta está fechada até o pescoço, marcando seu rosto na escuridão. Ela segura meu pescoço e me puxa para dar um beijo. Enquanto se afasta, diz: — Sempre gostei de te ver fazendo isso. Sorrio. — É isto o que planejou? — Caleb exige atrás de mim. — Que ela esteja aqui enquanto me mata? Isso é... — Matá-lo? — Tris me pergunta, sem olhar para seu irmão. — Sim, deixei-o pensar que estava sendo levado para sua execução — respondo, suficientemente algo para que ele possa ouvir. — Sabe, parecido com o que ele te fez na sede da Erudição. — Eu... isso não é verdade? — seu rosto, iluminado pela lua, está marcado pelo choque. Me dou conta que os botões em sua camisa estão nas casas erradas. — Não. De fato, acabo de salvar sua vida. Ele começa a dizer algo, eu o interrompo. — Pode ser que não queira me agradecer agora. Te levaremos conosco. Para fora da cerca. Para fora da cerca – o lugar que ele tentou tão duramente evitar que se voltou até contra sua própria irmã. Parece um castigo mais apropriado que a morte, de todos os modos. A morte é tão rápida, tão certa. Aonde estamos indo agora, nada é certo. Ele parece assustado, mas não tanto quanto pensei que estaria.


Creio que entendo, então, a forma como classifica as coisas em sua própria mente: em primeiro lugar, sua vida; em segundo, sua comodidade em mundo de sua própria criação, e em algum lugar depois disso, a vida das pessoas que ele supostamente ama. É o tipo de pessoa depreciável que não sabe quão depreciável é, e eu acusá-lo ou insultá-lo não mudará isso, nada mudará. Mais que cansado, me sinto pesado, inútil. Não quero pensar mais nele. Seguro a mão de Tris e a levo para o outro lado do vagão, onde posso ver a cidade desaparecendo atrás de nós. Estamos um ao lado do outro na porta aberta, cada um segurando uma alça. Os edifícios criam um padrão irregular contra o céu. — Eles nos seguirão. — Teremos cuidado — ela me responde. — Onde estão os demais? — Nos primeiros vagões. Pensei que deveríamos ficar a sós. Ou tão a sós quanto possível. Ela sorri para mim. Estes são nossos últimos momentos na cidade. É claro que devemos passar sozinhos. — Realmente vou sentir falta deste lugar — ele fala. — Sério? Meus pensamentos são mais como, “Até nunca mais!” — Não há nada que sentirá saudades? Não há boas recordações? — Está bem — sorrio — há algumas. — Alguma delas me implica? — pergunto. — Isso soa egocêntrico. E sabe o que quero dizer. — É claro, suponho — digo, dando de ombros. — Quero dizer, tive que ter uma vida diferente na Audácia, um nome diferente. Tive que ser Quatro, graças ao meu instrutor de iniciação. Ele me deu o nome. — Sério? — ela inclina a cabeça. — Por que não o conheci? — Porque está morto. Ele era Divergente. Dou de ombros novamente, mas não me sinto indiferente a respeito. Amar foi a primeira pessoa que percebeu que eu era Divergente, e ele me ajudou a ocultar isso. Mas não pôde esconder sua própria Divergência, e isso o matou.


— Vê? Há más recordações demais aqui. Estou pronto para deixálo. Me sinto vazio, não por tristeza, mas por alívio, por toda a tensão que sai de mim, Evelyn está nesta cidade, e Marcus também. Toda a dor, os pesadelos, as más recordações e as facções que me mantiveram preso dentro de uma versão de mim mesmo estão aqui. Aperto a mão de Tris. — Olhe — falo, apontando um distante grupo de edifícios. — Ali está o setor da Abnegação. Ela sorri, mas seus olhos estão vidrados, como se uma parte adormecida dentro dela estivesse lutando para sair e espalhar ao redor. O trem silva sobre os trilhos, uma lágrima escorre pela bochecha de Tris, e a cidade se perde na escuridão.


Capítulo 11 Tris O trem desacelera quando nos aproximamos da cerca, um sinal do condutor para que saiamos rápido. Tobias e eu estamos sentados na porta do vagão enquanto o trem se move preguiçosamente na via. Ele põe o braço o braço ao meu redor e toca meu cabelo com o nariz, respirando fundo. Eu o olho, da clavícula que se assoma do colarinho da camiseta à pequena curvatura de seus lábios, e sinto algo se aquecer dentro de mim. — Em que está pensando? — ele pergunta suavemente em meu ouvido. Endireito-me. Eu o olho o tempo todo, mas não sempre assim – sinto como se tivesse acabado de ser pega fazendo algo vergonhoso. — Nada! Por quê? — Por nada. Ele me puxa mais para si, e descanso minha cabeça em seu ombro, tomando profundas respirações de ar frio. Todavia cheira como verão, como grama se aquecendo à luz do sol. — Parece que estamos nos aproximando da cerca — observo. Eu sei por que os edifícios estão desaparecendo, deixando apenas campo salpicado pela luz rítmica dos vaga-lumes. Atrás de mim, Caleb se senta perto da outra porta, abraçando seus joelhos. Seus olhos encontram os meus, e quero gritar em suas partes mais escuras para que me escute, para que finalmente entenda o que me fez, mas em vez disso só o encaro até que ele não suporta e desvia o olhar. Preparo-me, usando a alça para me equilibrar, e Tobias e Caleb


fazem o mesmo. A princípio, Caleb tenta ficar atrás de nós, mas Tobias o empurra adiante, bem na borda do vagão. — Você primeiro. Ao meu sinal — ele fala. — E... já! Ele empurra Caleb, apenas o suficiente para tirá-lo do piso do vagão, e meu irmão desaparece. Tobias é o próximo, deixando-me sozinha no trem. É estúpido sentir falta de algo quando há muitas pessoas para se sentir saudade, mas sentirei falta deste trem e de todos os outros que me levaram à cidade, minha cidade, depois que fui valente para pegá-los. Passo meus dedos pela porta do vagão, apenas uma vez, e logo salto. O trem está se movendo tão devagar que me desequilibro na aterrissagem – estou acostumada a pular em alta velocidade – e caio. As plantas secas ralam minhas mão e eu me levanto, buscando Tobias e Caleb na escuridão. Antes de encontrá-los, ouço Christina: — Tris! Ela e Uriah chegam até mim. Ele está segurando uma lanterna, e parece bem mais alerta que esta tarde, o que é um bom sinal. Atrás deles há mais luzes, e mais vozes. — Seu irmão veio? — Uriah pergunta. — Sim. Finalmente vejo Tobias, sua mão segurando o braço de Caleb, chegando até nós. — Não sei como um Erudito como você pode não entender — Tobias dizia — mas não pode correr mais rápido que eu. — Tem razão — Uriah concorda — Quatro é rápido. Não mais rápido que eu, mas definitivamente mais rápido que um Testa como você. Christina ri. — Um o quê? — Testa — Uriah toca a testa — é um jogo de palavras. Testa, testes, Erudito... entendeu? É como Careta. — Os Audaciosos tem o mais estranho vocabulário. Mariquinha, Testa... há algum termo para os integrantes da Franqueza? — É claro — Uriah sorri. — Idiotas. Christina empurra Uriah com força, fazendo-o soltar a lanterna.


Tobias, rindo, nos guia até o resto do grupo, parados a poucos metros. Tori sacode sua lanterna para captar a atenção de todos. Ela diz: — Muito bem, Johanna e os caminhões estarão a uns dez minutos daqui, assim que começarmos a caminhar. E se eu ouvir uma palavra de alguém, o espancarei até deixá-lo sem sentidos. Ainda não saímos. Nos aproximamos mais, como seções de um cadarço se apertando. Tori caminha alguns metros a nossa frente, e de trás, na escuridão, me lembra Evelyn, suas pernas magras e enxutas, os ombros para trás, tão segura de si que é quase aterrador. À luz das lanternas, apenas posso distinguir a tatuagem de um falcão em sua nuca, a primeira coisa que falei enquanto ela aplicava meu teste de aptidão. Dissera-me que era o símbolo de um medo que havia vencido, o medo do escuro. Pergunto-me se esse medo a assusta agora, apesar de ter trabalhado duro para superá-lo. Pergunto-me se o medo realmente de vai, ou apenas perde o poder sobre nós. Ela fica mais longe de nós a cada minuto, seu ritmo mais como uma corrida leve que uma caminhada. Tem muita vontade de sair, escapar deste lugar onde seu irmão foi assassinado e ela alcançou a liderança só para ser frustrada por uma mulher sem facção que não devia estar viva. Está tão na nossa frente que quando os tiros ressoam, só vejo a lanterna cair, não seu corpo. — Separem-se! — ruge a voz de Tobias sobre o som de nossos gritos, de nosso caos. — Corram! Busco na escuridão por sua mão, mas não a encontro. Pego a arma que Uriah me deu antes de irmos e a seguro contra meu corpo, ignorando a maneira com que minha garganta se tensiona pela sensação de segurá-la. Não posso correr pela noite. Preciso de luz. Vou até o corpo de Tori, em busca da lanterna caída. Escuto, porém não ouço os disparos, os gritos e os passos apressados. Só ouço meu coração batendo. Agacho-me junto ao facho de luz e recolho a lanterna, com a intenção de simplesmente agarrá-la e seguir correndo, mas em sua luz vejo o rosto dela.


Brilha com suor e seus olhos rodam sob as pálpebras, como se estivesse procurando algo, mas está cansada demais para encontrálo. Um dos projéteis acertou seu estômago, e outro encontrou seu peito. Não há maneira de poder se recuperar disso. Posso estar brava por ela ter lutado comigo no laboratório de Jeanine, mas ela continua sendo Tori, a mulher que guardava o segredo de minha Divergência. Minha garganta se aperta enquanto lembro de seguila na sala do teste de aptidão, meus olhos em sua tatuagem de falcão. Seus olhos se movem em minha direção e se concentram em mim. Suas sobrancelhas se unem, mas ela não fala. Ponho a lanterna na curva do meu polegar e alcanço sua mão para apertar os dedos suados. Escuto alguém se aproximando, aponto a lanterna e a arma na mesma direção. Uma mulher usando um bracelete sem facção surge na luz, uma arma apontando para minha cabeça. Disparo, cerrando meus dentes tão forte que chiam. A bala a acerta no estômago e ela grita, disparando às cegas pela noite. Baixo o olhar para Tori, e seus olhos estão fechados, seu corpo imóvel. Apontando a lanterna para o chão, me afasto rapidamente dela e da mulher em quem acabei de atirar. Minhas pernas doem e meus pulmões queimam. Não sei onde vou, se estou correndo para o perigo ou me afastando dele, mas sigo correndo tanto quanto posso. Finalmente vejo uma luz à distância. A princípio acredito que é outra lanterna, mas enquanto corro para mais perto, me dou conta que é maior e mais estável que uma lanterna, é um farol. Escuto um motor, e me agacho no mato alto para me esconder, apagando minha lanterna e mantendo a arma pronta. O caminhão diminui, e ouço uma voz: — Tori? Soa como Christina. O caminhão é vermelho e está enferrujado,


um veículo da Amizade. Endireito-me, apontando a lanterna para mim para que me vejam. O caminhão para a alguns metros diante de mim, e Christina salta do assento do passageiro, fechando os braços ao redor de mim. Reproduzo os acontecimentos em minha mente para saber que são reais – o corpo de Tori caindo, as mãos da mulher sem facção cobrindo seu estômago. Não funciona. Não parece real. — Graças a Deus — Christina fala. — Suba. Temos que encontrar Tori. — Tori está morta — falo calmamente, e a palavra “morta” a faz real para mim. Seco as lágrimas de minhas bochechas com as palmas das mãos e luto para controlar minhas respirações trêmulas. — Eu... eu atirei na mulher que a matou. — O quê? — Johanna soa frenética. Ela se inclina do assento do motorista. — O que disse? — Tori se foi — falo. — Vi quando aconteceu. A expressão de Johanna está escondida por seu cabelo. Ela solta o ar com força. — Bom, vamos buscar os outros então. Subo no caminhão. O motor ruge enquanto Johanna pisa no pedal, e atropelamos arbustos em busca dos demais. — Viu algum deles? — pergunto. — Uns poucos. Cara, Uriah — Johanna balança a cabeça. — Ninguém mais. Envolvo minha mão ao redor da alça da porta e a aperto. Se tivesse me esforçado mais para encontrar Tobias... se não tivesse parado por Tori... E se Tobias não conseguiu? — Tenho certeza de que estão bem — Johanna fala. — Esse seu garoto sabe como se cuidar. Assinto, sem convicção. Tobias pode cuidar de si mesmo, mas num ataque, sobreviver é um acidente. Não é necessária nenhuma habilidade para ficar onde as balas não te encontrem, ou disparar na escuridão e acertar um homem que não te viu. Tudo é questão


de sorte – ou de intervenção divina, dependendo do que você acredita. E não sei – nunca soube – exatamente em que acredito. Ele está bem ele está bem ele está bem. Tobias está bem. Minhas mãos estão tremendo, e Christina aperta meu joelho. Johanna dirige até o ponto de encontro, onde vejo Uriah e Cara. Olho a agulha do velocímetro subir, e logo se mantém constante nos 75 km/h. Somos lançadas de um lado ao outro pelo terreno irregular, nos empurrando. — Ali! — Christina aponta. Há um grupo de luzes diante de nós – alguns são apenas pontos pequenas, como lanternas, e outros são redondos, como faróis. Chegamos perto, e o vejo. Tobias está sentado no capô de outro caminhão, seu braço empapado de sangue. Cada se encontra na frente dele com uma bolsa de primeiros socorros. Celeb e Peter estão sentados no mato a poucos metros de distância. Antes que Johanna pare o caminhão completamente, abro a porta e saio correndo até ele. Tobias se põe de pé, ignorando as ordens de Cara para ficar sentado, e nos chocamos, seu braço machucado ao redor de minhas costas, me carregando. Suas costas estão molhadas de suor, e quando ele me beija, tem gosto de sal. Todos os nós de tensão dentro de mim se desfazem outra vez. Sinto-me, por um momento, renovada, como se fosse nova. Ele está bem. Estamos fora da cidade. Ele está bem.


Capítulo 12 Tobias Meu braço palpita como as batidas de um segundo coração onde a bala me escoriou. Os dedos dos nós de Tris esfregam os meus enquanto ela levanta sua mão para apontar algo à nossa direita: uma série e longos e baixos edifícios iluminados por lâmpadas de emergência azuis. — O que é aquilo? — ela pergunta. — As outras estufas — Johanna explica. — Elas não requerem muita mão de obra, mas nós plantamos e fazemos crescer coisas em grandes quantidades ali: animais, matérias primas para fabricar, trigo e assim vai. Suas vidraças brilham na luz das estrelas, escondendo os tesouros que imagino estarem dentro delas – as pequenas plantas com frutos pendurados nos galhos, as filas de broto de batata enterradas na terra. — Não mostram-nas aos visitantes — falo. — Nunca vi aquelas estufas. — A Amizade mantém uma série de segredos — Johanna fala, e soa orgulhosa. O caminho a percorrer é comprido e reto, marcado com buracos e profundas poças d’água. Junto à estrada há árvores nodosas, postes quebrados e cabos elétricos velhos. De vez em quando há uma praça isolada com erva daninha abrindo seu caminho pelo concreto, ou uma pilha de madeira podre – uma casa derrubada. Quanto mais tempo passo pensando nesta paisagem que cada patrulha da Audácia disse ser normal, mais enxergo uma velha cidade erguendo-se ao meu redor, os prédios mais baixos que


deixamos para trás, mas igualmente numerosos. Uma cidade antiga que foi transformada em um terreno baldio para a fazenda da Amizade. Em outras palavras, uma antiga cidade que foi arrasada e queimada até as cinzas, derrubada contra o chão – inclusive os caminhos que desapareceram – e a terra correu selvagem sobre a destruição. Coloco minha mão para fora da janela e o vento envolve meu dedo como mechas de cabelo. Quando era pequeno, minha mãe fingia que podia formar coisas a partir do vento e me dava para usá-las, como martelos e pregos, espadas ou patins. Era um jogo que brincávamos todas as tardes, no jardim da frente, antes que Marcus chegasse em casa. Isso acabava com nosso medo. Na carroceria do caminhão, atrás de nós, estão Caleb, Christina e Uriah. Christina e Uriah se sentam perto o suficiente para que seus ombros se toquem, mas eles estão olhando em direções opostas, mais como estranhos que amigos. Bem atrás de nós há outro caminhão, conduzido por Robert, que leva Cara e Peter. Era para Tori estar com eles. O pensamento me faz sentir oco, vazio. Ela administrou meu teste de aptidão. Ela me fez pensar, pela primeira vez, que eu podia deixar a Abnegação... que tinha que fazê-lo. Sinto que devo algo a ela, e ela morreu antes que eu pudesse quitar. — É isso — Johanna fala. — O limite exterior da patrulha da Audácia. Não há cerca ou muro marcando a divisão entre os limites da Amizade e o mundo exterior, mas lembro de monitorar as patrulhas da Audácia da sala de controle, assegurando-me de que não foram além do limite, que está marcado por uma série de X. As patrulhas foram estruturadas de modo que os caminhões iriam ficar sem gasolina se fossem longe demais, um delicado sistema de pesos e contrapesos que preservava nossa segurança e a deles – e, agora me dou conta, também o segredo que a Abnegação mantia. — Você foi além dos limites? — Tris pergunta. — Algumas vezes — Johanna responde. — É nossa


responsabilidade lidar com essa situação quando necessário. Tris lhe dirige um olhar, e ela encolhe os ombros. — Cada facção tem um soro — Johanna fala. — O soro da Audácia traz alucinações de realidade; da Franqueza, a verdade; da Amizade, paz; da Erudição, a morte... — diante desta palavra, Tris estremece visivelmente, mas Johanna continua como se nada tivesse acontecido — e o da Abnegação reinicializa a memória. — Reinicializa a memória? — Como a memória de Amanda Ritter — falo. — Ela disse “Há muito que fico feliz em esquecer”, lembra? — Sim, exatamente — Johanna concorda. — Os integrantes da Amizade se encarregam de administrar o soro da Abnegação a qualquer um que atravesse o limite, apenas o suficiente para fazêlos esquecer da experiência. Sei que alguns passaram por nós, mas não muitos. Ficamos em silêncio então. Passo a informação uma e outra vez em minha mente. Há algo profundamente errado em tomar as recordações das pessoas – mesmo que eu saiba que foi necessário para manter nossa cidade segura por tanto tempo. Sinto um buraco em meu estômago. Tomar as recordações de uma pessoa e mudar o que elas são. Aumentando dentro de mim está a sensação de que estou a ponto de saltar de minha pele, porque quanto mais longe cheguemos fora do limite exterior das patrulhas da Audácia, mais nos aproximamos para ver o que há fora do único mundo que conheci. Estou aterrorizado, emocionado, confuso e centenas de coisas diferentes de uma vez. Vejo algo diante de nós, na luz da manhã, e agarro a mão de Tris. — Olhe — falo.


Capítulo 13 Tris O mundo além do nosso está cheio de ruas, prédios escuros e fios elétricos caindo. Não há vida nele, pelo que posso ver; nenhum movimento, nenhum som, além do vento e dos meus próprios passos. É como se a paisagem fosse uma frase interrompida, um lado pendente no ar, sem terminar, e do outro lado um tema completamente diferente. Do nosso lado desta frase há terra vazia, mato e trechos de estrada. Do outro estão os muros de concreto com meia dúzia de trilhos de trem entre eles. Mais adiante, há uma ponte de concreto construída através das paredes, e nas ruas estão edifícios de madeira, telhas e vidro, suas janelas escuras, com árvores crescendo ao redor, os galhos selvagens crescendo juntos. Uma placa à direita diz 90. — O que fazemos agora? — Uriah pergunta. — Seguimos as ruas — respondo bem baixinho, de modo que só eu ouço. +++ Saímos dos caminhões na brecha entre nosso mundo e o deles, quem quer que sejam “eles”. Robert e Johanna dão um breve adeus, dão a volta com os caminhões e seguem de volta para a cidade. Eu os assisto ir. Não posso me imaginar vindo até aqui a logo regressar, mas acredito que eles tenham o que fazer na cidade. Johanna tem uma rebelião de Convergentes para organizar. O resto de nós – Tobias, Caleb, Peter, Christina, Uriah, Cara e eu –


partimos com nossos escassos bens ao longo dos trilhos de trem. As vias não são como as que há na cidade. Estão polidas e são elegantes, e em vez de madeiras perpendiculares aos trilhos, há barras de metal texturizado. Mais adiante vejo um dos trens que correm nesses trilhos, abandonado perto da parede. O metal é prateado na parte superior e frontal, como um espelho, com janelas pintadas ao longo dele. Quando nos aproximamos, vejo filas de bancos em seu interior com acolchoado marrom. As pessoas não devem subir e descer saltando destes trens. Tobias caminha atrás de mim em um dos trilhos, com os braços estendidos ao lado para manter o equilíbrio. Os demais estão distribuídos pelo espaço – Peter e Caleb perto de uma parede, Cara próxima à outra. Ninguém fala muito, exceto para aponta algo novo, uma placa de um edifício ou uma pista de como era esse mundo, quando havia gente nele. Os muros de concreto por si só chamam minha atenção: estão cobertos de fotos estranhas de pessoas com a pele tão lista e dificilmente parecem pessoas agora, ou garrafas coloridas com xampu e condicionador, vitaminas, ou substâncias desconhecidas dentro delas, palavras que não entendo – “vodka”, “Coca-Cola” e “energético”. As cores, as formas, as palavras e as imagens são tão estridentes, tão abundantes, que são fascinantes. — Tris. Tobias põe a mão em meu ombro, e me detenho. Inclina a cabeça e diz: — Está ouvindo isso? Ouço passos e as vozes baixas de nossos companheiros. Escutou minha própria respiração, e a dele. Mas por baixo disso ouço um rumor tranquilo, inconsistente em sua intensidade. Soa como um motor. — Todo mundo pare! — grito. Para minha surpresa, todos param, inclusive Peter, e nos reunimos no centro da via. Vejo Peter sacar sua pistola e sustentá-la, e faço o mesmo, ambas as mãos unidas para mantê-la estável, recordando a facilidade com a que costumava levantá-la. Essa facilidade se foi.


Algo aparece na curva adiante. Um caminhão preto, porém maior que qualquer caminhão que vi em minha vida, grande o suficiente para abrigar mais de uma dezena de pessoas em sua traseira coberta. Estremeço. O caminhão passa pela via e começa a parar a uns seis metros de nós. Posso ver o homem conduzindo, tem a pele escura e seu cabelo comprido se encontra amarrado atrás da cabeça. — Deus — dia Tobias, e suas mãos se apertam ao redor da arma. Uma mulher sai do assento dianteiro. Ela parece ter em torno da idade de Johanna, sua pele modelada cheia de sardas e seu cabelo tão escuro que é quase negro. Ela salta para o chão e ergue as mãos, de modo que possamos ver que está desarmada. — Olá — ela fala, e sorri com nervosismo. — Meu nome é Zoe. Este é Amar. Ela sacode a cabeça para um lado para indicar o motorista, que desceu do caminhão também. — Amar está morto — Tobias fala. — Não, não estou. Vamos, Quatro — Amar diz. O rosto de Tobias se aperta com medo. Não o culpo. Todos os dias ele vê alguém de quem gosta voltando dos mortos. Os rostos de todos que perdi passam rapidamente em minha mente. Lynn. Marlene. Will. Al. Meu pai. Minha mãe. O que seria se todos eles estivessem vivos, como Amar? O que seria se o véu que nos separa não é a morte, e sim uma cerca metálica e um campo aberto? Não posso evitar ter esperança, mesmo sendo tão absurdo. — Trabalhamos para a mesma organização que fundou sua cidade — Zoe fala enquanto olha para Amar. — A mesma organização de que Edith vinha. E... Ela põe a mão no bolso e puxa uma fotografia parcialmente amassada. Estende o braço, e logo seus olhos encontram os meus na multidão e armas. — Creio que deveria ver isto, Tris — ela fala. — Darei um passo


adiante e a deixarei no chão, logo voltarei. De acordo? Ela sabe meu nome. Minha garganta se aperta com medo. Como sabe meu nome? E não só meu nome, meu apelido, o nome que escolhi quando me uni à Audácia? — Está bem — respondo, mas minha voz está rouca, assim as palavras apenas escapam. Zoe se adiante, põe a fotografia entre os trilhos e logo volta para sua posição original. Deixo a segurança de nosso número e me agacho perto da fotografia, olhando-a o tempo todo. Logo me ergo, a fotografia na mão. Ela mostra uma fila de pessoas em frente a uma cerca metálica, os braços colocados sobre os ombros e as costas do próximo. Vejo uma versão infantil de Zoe, reconhecível por suas sardas, e algumas pessoas que não conheço. Estou a ponto de perguntar o motivo de eu estar vendo esta foto quando reconheço a jovem mulher de cabelo loiro claro, mais atrás, e um grande sorriso. Minha mãe. O que minha mãe está fazendo junto com essas pessoas? Algo – pesar, dor, nostalgia – me aperta o peito. — Há muito o que explicar — Zoe fala. — Mas este não é realmente o melhor lugar para fazê-lo. Gostaríamos de levá-los a nossa sede. Fica perto daqui. Ainda segurando a arma, Tobias toca meu pulso com a mão livre, aproximando a foto de seu rosto. — Esta é sua mãe? — ele me pergunta. — É mamãe? — Caleb pergunta. Ele passa por Tobias para ver a foto por cima do meu ombro. — Sim — respondo aos dois. — Acredita que devemos confiar neles? — Tobias me pergunta em voz baixa. Zoe não parece uma mentirosa, e não soa como uma tampouco. E se ela sabe quem sou, e sabia como nos encontrar aqui, provavelmente é porque tem algum tipo de acesso à cidade, o que significa que provavelmente está dizendo a verdade sobre estar com o grupo de que Edith Prior vinha. E ali está Amar,


observando cada movimento de Tobias. — Viemos aqui porque queríamos encontrar essas pessoas — digo. — Temos que confiar em alguém, não? Ou senão caminharemos em um terreno abandonado, possivelmente morrendo de fome. Tobias solta meu pulso e abaixa a arma. Eu faço o mesmo. Os outros fazem o mesmo pouco a pouco, com Christina abaixando a sua por último. — Onde quer que formos, teremos que ter a liberdade de sair a qualquer momento — ela fala. — Tudo bem? Zoe coloca a mão sobre o peito, bem em cima do coração. — Te dou a minha palavra. Espero, pelo bem de todos, que sua palavra valha.


Capítulo 14 Tobias Estou na borda da carroceria do caminhão, que sustenta a estrutura da cobertura de lona. Queria que esta nova realidade fosse uma simulação que eu poderia manipular para que pudesse ter sentido. Mas não é e não posso fazê-la ter sentido. Amar está vivo. “Adaptação!” era um de seus comandos favoritos durante minha iniciação. Às vezes gritava tantas vezes que eu sonhava com isso; me despertava como um alarme, requerendo mais de mim que eu podia oferecer. Adaptação. Uma adaptação mais rápida, uma melhor adaptação, adaptar-se a coisas que nenhum homem deveria. Desta maneira: deixando um mundo totalmente formado e descobrindo outro. Ou desta: descobrir que seu amigo morto está na verdade vivo e dirigindo o caminhão que te leva. Tris está sentada atrás de mim, no banco que se ajusta ao redor da plataforma do caminhão, a foto amassada em suas mãos. Seus dedos pairam sobre o rosto de sua mãe, quase tocando-o, mas não o toca. Christina se encontra de um lado dela e Caleb de outro. Ela deve deixá-lo ali só para ver a fotografia, todo o seu corpo se retrai dele, pressionado ao lado de Christina. — Essa é sua mãe? — Christina pergunta. Tris e Caleb assentem com a cabeça. — É muito jovem aí. Bonita, também — Christina acrescenta. — Sim, ela é. Era, quero dizer. Espero que Tris soe triste quando responde, como se estivesse


sofrendo ante a recordação da beleza desvanecida de sua mãe. No entanto, sua voz é nervosa, seus lábios franzidos de expectativa. Espero que não esteja gerando uma falsa esperança. — Deixe-me vê-la — Claeb pede, esticando uma mão para sua irmã. Em silêncio e sem chegar a olhar para ele, ela passa a fotografia. Volto-me para o mundo aonde estamos indo, ao final da linha do trem. As grandes extensões do campo. E ao longe, o Eixo, visível na névoa que sobre o horizonte da cidade. É uma sensação estranha vê-lo daqui, como se eu ainda pudesse tocá-lo se esticar o braço o suficiente, mesmo que tenha me afastado bastante. Peter se move pela borda da plataforma do caminhão ao meu lado, segurando a lona para manter o equilíbrio. A linha do trem faz uma curva e não posso mais ver o campo. As paredes de cada lado de nós pouco a pouco desaparecem à medida em que a terra se aplana, e vejo construções por toda parte – alguns pequenos, como as casas da Abnegação e alguns grandes, como os edifícios da cidade. As descuidadas e grandes árvores crescem mais que os anexos de cimento que deveriam mantê-las enclausuradas, suas raízes se estendem sobre o pavimento. Na borda do topo de um telhado há uma linha preta de pássaros como os tatuados da clavícula de Tris. À medida que o caminhão passa, eles grasnam e dispersam no ar. Este é um mundo selvagem. Mesmo assim, isto é demais para eu suportar, e tenho que retroceder e sentar em um dos bancos. Ponho a cabeça entre as mãos, mantendo os olhos fechados de forma que não possa absorver a nova informação. Sinto o braço de Tris em minhas costas, me puxando para si em seu quadril estreito. Minhas mãos estão dormentes. — Simplesmente se concentre no que há aqui, neste momento — Cara fala do outro lado do caminhão. — Por exemplo, no movimento do caminhão. Ajudará. Eu tento. Penso na dureza do banco abaixo de mim e na vibração do caminhão, inclusive no chão plano, no zumbido de meus ossos.


Detecto um pequeno movimento da esquerda para a direita, adiante e atrás e absorvo cada sacudida quando passamos por cima do trilho. Concentro-me até que tudo se escurece ao nosso redor e não sinto o passar do tempo ou o pânico do descobrimento, sinto apenas nosso movimento sobre a terra. — Provavelmente deveria olhar ao redor agora — Tris fala fracamente. Christina e Uriah estão de pé onde eu estava, olhando pela borda da parede de lona. Olho por cima de seus ombros para ver aonde estamos sendo conduzidos. Há uma cerca alta que se estende através de toda a paisagem, que parece vazia em comparação com os edifícios densamente juntos que vi antes de me sentar. A cerca tem barras negras verticais com pontas afiadas que se dobram para fora, como para espetar qualquer um que tente passar por cima dela. Poucos metros além dela há outra cerca, está com arame farpado enrolado na parte superior como a que rodeia a cidade. Ouço um forte zumbido proveniente da segunda cerca, uma carga elétrica. Pessoas caminham pelo espaço entre elas, carregando armas que parecem um pouco com nosso equipamento de paintball, mas muito mais letais e com munição poderosa. Há uma placa na primeira cerca onde se lê CENTRO DE BEMESTAR GENÉTICO. Ouço a voz de Amar, falando com os guardas armados, mas não sei o que está dizendo. Uma porta na primeira cerca se abre para nos deixar passar e logo estamos na porta da segunda. O que há além das duas cercas é... ordem. Pelo que posso ver, há edifícios separados por grama aparada e mudas de árvores. As ruelas que os conectam estão bem cuidados e bem sinalizadas, com flechas que apontam a vários destinos: ESTUFAS, em linha reta; SEGURANÇA AVANÇADA, para a esquerda; RESIDÊNCIAS DOS OFICIAIS, à direita; COMPLEXO PRINCIPAL, em linha reta. Levanto-me e inclino-me no caminhão para ver o complexo, metade do meu corpo balançando sobre a estrada. O Centro de


Bem-Estar Genético não é muito alto, mas continua sendo enorme, mais comprido do que a minha visão alcança, é um mamute de vidro, aço e concreto. Atrás dele há algumas torres altas com protuberâncias na parte superior – não sei por que, mas penso na sala de controle quando as vejo e me pergunto se é isso o que são. Tirando os guardas entre as cercas, há poucas pessoas aqui fora. Aqueles que estão parados nos observam, mas nos afastamos tão rápido que não vejo suas expressões. O caminhão para diante de um par de portas duplas e Peter é o primeiro a saltar. O resto de nós pula ao chão atrás dele e estamos ombro a ombro, de pé tão perto que posso ouvir as respirações rápidas de todos. Na cidade, nos dividiram em facções, por idade, por história, mas neste caso todas as divisões desaparecem. Somos tudo o que temos. — Aqui vamos nós — Tris murmura, enquanto Zoe e Amar se aproximam. Aqui vamos nós, repito para mim. +++ — Bem-vindos ao complexo — Zoe fala. — Este edifício costumava ser o aeroporto O’Hare, um dos aeroportos mais ativos do país. Agora é a sede do Centro de Bem-Estar Genético, ou simplesmente Escritório, como chamamos por aqui. É uma agência do governo dos Estados Unidos. Sinto que meu rosto se contrai. Conheço todas as palavras que diz – exceto que não tenho certeza do que é um “aeroporto” ou “Estados Unidos” – mas elas não tem sentido para mim. Não sou o único que parece confuso, Peter ergue as sobrancelhas como se formulasse uma pergunta. — Sinto muito, sempre me esqueço do pouco que sabem. — Creio que é culpa sua que saibamos de nada, não nossa — Peter aponta. — Eu deveria me corrigi — Zoe sorri suavemente. — Sempre me esqueço da pouca informação que lhes proporcionamos. Um


aeroporto é um centro de atividade de transporte aéreo e... — Transporte aéreo? — Christina pergunta, incrédula. — Um dos desenvolvimentos tecnológicos que não era necessário conhecermos quando estávamos dentro da cidade era o transporte aéreo — Amar fala — É seguro, rápido e surpreendente. — Uau — Tris comenta. Ela parece emocionada. Eu, no entanto, quando penso em ir a toda velocidade para o ar, por cima do complexo, sinto vontade de vomitar. — De qualquer modo, quando foram feitos os primeiros experimentos, o aeroporto se transformou neste complexo para poder monitorar os experimentos à distância — Zoe explica. — Vou à sala de controle para receber David, o líder do Escritório. Vocês o verão um monte de coisas que não entendem, mas pode ser melhor conseguir algumas explicações preliminares antes de começarem a me perguntar sobre elas. Assim, tomem nota das coisas que querem saber mais e não hesitem em perguntar a mim ou Amar depois. Ela segue até a entrada e as portas são abertas por dois guardas armados que sorriem e a cumprimentam ao passar. O contraste com o cumprimento amável e as armas apoiadas nos ombros é quase engraçado. As armas são enormes e me pergunto como são ao disparar, se se pode sentir o poder mortífero quando se aperta o dedo no gatilho. O ar frio atinge meu rosto enquanto caminho pelo complexo. Janelas em arco acima da minha cabeça deixam uma pálida luz entrar, mas essa não é a parte mais atrativa sobre o lugar: o piso de azulejos é escuro com a sujeira e o tempo, e as paredes são cinzentas e brancas. Diante de nós está um mar de gente e máquinas, com uma placa sobre eles que diz POSTO DE CONTROLE DE SEGURANÇA. Não entendo porque há tanta segurança se já estão protegidos por duas cercas – uma delas eletrificada – e uma barreira de guardas, mas este não é o meu mundo para questionar. Não, este com certeza não é o meu mundo.


Tris toca minha mão e aponta para a larga entrada. — Olhe isso. De pé no outro extremo da sala, fora do posto de controle de segurança, há um enorme bloco de pedra com um aparato de vidro suspendido sobre ele. É um claro exemplo das coisas que veremos aqui e não entenderemos. Tampouco entendo a fome nos olhos de Tris, devorando tudo o que nos rodeia, como se só isso pudesse sustentá-la. Às vezes sinto que somos iguais, mas às vezes, como neste momento, sinto a separação entre nossa personalidade como se tivesse acabado de me chocar contra uma parede. Christina fala algo a Tris e elas riem. Tudo o que ouço é abafado e distorcido. — Você está bem? — Cara me pergunta. — Sim — respondo mecanicamente. — Sabe, seria perfeitamente lógico se entrasse em pânico neste momento. Não é necessário insistir sempre em sua masculinidade irrefutável. — Minha... o quê? Ela sorri, e percebo que estava brincando. Todas as pessoas no posto de segurança se afastam, formando um caminho para que possamos passar. Diante de nós, Zoe anuncia: — Armas não são permitidas dentro das instalações, porém se as deixarem no posto de controle de segurança, poderão recolhê-las ao sair, se decidirem fazê-lo. Depois de deixá-las, vamos passar por escâneres e seguiremos nosso caminho. — Essa mulher é irritante — Cara diz. — O quê? — pergunto. — Por quê? — Não se pode se separar de seu próprio conhecimento — ela responde enquanto saca sua arma. — Continua dizendo as coisas como se fossem óbvias quando não são. — Tem razão — concordo sem convicção demais — é irritante. Na minha frente, vejo Zoe colocando sua pistola em uma bandeja cinza e logo entrar num escâner em forma de retângulo com um túnel no meio, suficientemente grande para que passe um corpo. Tiro minha própria arma, que está carregada de balas sem usar e a


coloco na bandeja que o guarda me estende, onde estão as armas dos demais. Vejo Zoe passar pelo escâner, seguida de Amar, Peter, Caleb, Cara e Christina. Enquanto estou na borda, as paredes espremem meu corpo entre elas, sinto o começo do pânico de novo, as mãos entorpecidas e o peito apertado. O escâner me lembra a caixa de madeira que me prende em minha paisagem do medo, apertando meus ossos. Não posso, não vou, entrar em pânico aqui. Obrigo meus pés a se moverem pelo escâner e fico de pé no centro, onde todos os outros pararam. Ouço algo se movendo nas paredes de cada lado e logo há um bipe agudo. Estremeço e tudo o que posso ver é a mão do guarda, gesticulando para eu avançar. Agora está bom para sair. Tropeço para fora do escâner e o ar se abre ao meu redor. Cara me dá um olhar aguçado, mas não diz nada. Quando Tris pega minha mão depois de passar pelo escâner, quase não a sinto. Lembro que passei por minha paisagem do medo com ela, nossos corpos apertados em uma caixa de madeira que nos prendia, minha mão contra seu peito, sentindo as batidas de seu coração. É o suficiente para me trazer à realidade novamente. Uma vez que Uriah passa pelo escâner, Zoe nos conduz adiante. Depois do controle de segurança, a instalação não está suja como estava antes. O chão continua sendo de azulejos, mas estão polidos à perfeição e há janelas em toda parte. Abaixo há um longo corredor e vejo filas de mesas de laboratório e computadores, fazendo-me lembrar da sede da Erudição, mas este está mais iluminado e nada parece estar oculto. Zoe nos leva por um corredor escuro à direita. Enquanto caminhamos, cruzamos com pessoas, que se detém e nos olham, e sinto seus olhos em mim como pequenos raios de calor, o que me deixa vermelho desde o pescoço até as bochechas. Caminhamos por um longo tempo pelo complexo e logo Zoe para em nossa frente. Atrás dela há um grande círculo de telas brancas, como mariposas


rodeando uma chama. As pessoas dentro do círculo estão sentadas em escrivaninhas baixas, escrevendo furiosamente em ainda mais telas. É uma grande sala de controle a céu aberto e não tenho certeza do que observam aqui, já que todas as telas estão escuras. Agrupados ao redor das telas estão cadeiras, bancos e mesas, como se as pessoas se reunissem aqui em seu tempo livre. Uns metros na frente da sala de controle há um homem velho com um sorriso e um uniforme azul-escuro, igual aos demais. Quando vê que nos aproximamos, ele estende as mãos para nos dar as boas-vindas. Suponho que seja David. — Isto — diz o homem — é o que estamos esperando desde o princípio.


Capítulo 15 Tris Pego a fotografia em meu bolso. O homem na minha frente – David – está nela, ao lado de minha mãe, seu rosto mais liso, a cintura um pouco mais magra. Cubro o rosto de minha mãe com a ponta do dedo. Toda a esperança crescendo dentro de mim murchou. Se minha mãe, meu pai ou meus amigos ainda estivessem vivos, esperariam nossa chegada ao lado da porta. Deveria ter pensado melhor antes de acreditar que o que aconteceu com Amar – seja o que fosse – poderia acontecer outra vez. — Meu nome é David. Como Zoe provavelmente lhes disse, sou o líder do Centro de Bem-Estar Genético. Darei o melhor de mim para explicar as coisas. A primeira coisa que deveriam saber é que a informação que Edith Prior lhes deu é apenas parcialmente certa. Diante do nome “Prior”, seus olhos se fixam em mim. Meu corpo treme com antecipação – desde que vi o vídeo estou desesperada por respostas, e estou a ponto de obtê-las. — Ela lhes deu apenas a quantidade de informação que era necessária para alcançar os objetivos de nossos experimentos — David continua. — E em muitos casos isso significa – simplificando bastante – omitir a verdade, inclusive a mentira absoluta. Agora que estão aqui. Não há necessidade para nenhuma dessas coisas. — Todos vocês continuam falando de “experimentos” — Tobias fala. — Quais experimentos? — Sim, bom, eu estava chegando a isso — David olha para Amar. — De onde começaram quando te explicaram?


— Não importa de onde comece. Não pode tornar mais fácil de aceitar — Amar responde, encarando suas cutículas. David considera isso por um momento, e logo limpa a garganta. — Há muito tempo, o governo dos Estados Unidos... — Os Estados o quê? — Uriah pergunta. — É um país — Amar responde — um grande. Tem fronteiras específicas e seu próprio governo, e agora mesmo estamos no meio dele. Podemos falar disso mais tarde. Continue, senhor. David pressiona o polegar direito na palma esquerda e massageia a mão, claramente desconcertado por todas as interrupções. Ele começa de novo: — Faz alguns séculos, o governo deste país se interessou na aplicação de certos comportamentos desejáveis em seus cidadãos. Houve estudos que indicavam que essas tendências à violência poderiam ser parcialmente atribuídas a um gene das pessoas, um chamado “o gene assassino” foi o primeiro deles, porém houve muitos mais: predisposição genética para a covardia, para a desonestidade, à menor inteligência; todas quais, que em outras palavras, basicamente contribuem para a quebra de uma sociedade. Nos foi ensinado que as facções foram formadas para resolver um problema, um problema de nossas naturezas imperfeitas. Aparentemente, as pessoas que David está descrevendo, quem quer que sejam, acreditavam nesse problema também. Sei muito pouco sobre genética, só o que posso ver transmitido de pai para filho, em meu rosto e nos rostos de meus amigos. Não posso me imaginar herdando um gene para o assassinato, covardia ou a desonestidade. Essas coisas parecem tão imprecisas para ter uma localização exata no corpo de uma pessoa. Mas não sou uma cientista. — Obviamente há muitos fatores que determinam a personalidade, incluindo a educação e as experiências da pessoa — David prossegue. — Mas apesar da paz e da prosperidade que havia reinado neste país por cerca de um século, pareceu vantajoso para nossos ancestrais reduzirem o risco de que estas qualidades


indesejáveis aparecessem em nossa população, corrigindo-as. Em outras palavras, editando a humanidade. “Assim nasceu o experimento de manipulação genética. Leva muitas gerações para que qualquer tipo de manipulação genética se manifeste, porém as pessoas foram selecionadas da população em geral em grandes números, de acordo com seus antecedentes ou sua conduta, e lhes foi concedida a oportunidade de dar um presente às nossas gerações futuras, uma alteração genética que faria de seus descendentes um pouco melhores. Olho ao redor para os outros. A boca de Peter está enrugada de desdém, Caleb está franzindo o cenho e a boca de Cara está aberta, como se ela estivesse com fome de respostas e tentara comê-las do ar. Christina apenas parece cética, uma sobrancelha erguida, e Tobias está olhando seus sapatos. Sinto como se não estivesse escutando nada de novo, apenas a mesma filosofia que formou as facções, fazendo as pessoas manipularem seus genes em vez de separá-las em grupos baseados em suas virtudes. Eu entendo. Em algum nível estou de acordo com ele. Mas não sei como os outros estão, aqui, agora. — Mas quando as manipulações genéticas começaram a ter efeito, as alterações tiveram consequências desastrosas. Como é evidente, a tentativa não resultou em genes corrigidos, mas em deficientes — David diz. — Tire o medo de alguém, a sua inteligência menor, ou a desonestidade... e retira-se a compaixão. Tire sua agressividade e sua motivação desaparece, ou sua habilidade de se proteger. Leve seu egoísmo e seu senso de autopreservação some. Se pensarem nisso, tenho certeza de que sabem exatamente o que quero dizer. Marco em minha mente cada característica que ele citou: medo, inteligência menor, desonestidade, agressividade, egoísmo. Ele está falando das facções. E tem razão ao dizer que cada facção perde algo quando ganha uma virtude: Audácia, corajosos mas cruéis; Erudição, inteligentes porém vaidosos; Amizade, pacíficos porém passivos; Franqueza, honestos mas desconsiderados; Abnegação, altruístas porém, sufocantes.


— A humanidade nunca foi perfeita, mas as alterações genéticas a fizeram pior do que alguma vez foi. Isto se manifestou no que chamamos de Guerra da Pureza. Uma guerra civil, liderada por aqueles com genes deficientes, contra o governo e qualquer um com genes puros. A Guerra da Pureza trouxe um nível de destruição inédito em solo americano, eliminando quase a metade da população do país. — A imagem visual está em cima — uma das pessoas numa escrivaninha na sala de controle diz. Um mapa aparece na tela acima da cabeça de David. É uma forma desconhecida, então não tenho certeza do que representa, mas está coberto de manchas rosas, vermelhas e um tom escuro de carmim. — Este é o nosso país antes da Guerra da Pureza — David fala. — E este é depois... As luzes começam a desvanecer, as manchas se encolhem como poças d’água secando ao sol. Então me dou conta de que as luzes vermelhas eram pessoas... pessoas desaparecendo, suas luzes se apagando. Olho a tela fixamente, incapaz de processar tal quantidade substancial perdida. David continua: — Quando a guerra finalmente terminou, as pessoas exigiram uma solução permanente ao problema da genética. E esse é o motivo de o Centro de Bem-Estar Genético ter sido formado. Armado com todo o conhecimento científico à disposição de nosso governo, nossos predecessores desenvolveram experimentos para restaurar a humanidade ao seu estado geneticamente puro. “Eles chamaram os indivíduos geneticamente prejudicados, assim poderiam alterar seus genes. Logo o Centro os colocou em locais seguros para se instalarem a longo prazo, equipados com versões básicas dos soros para ajudá-los a controlar sua sociedade. Esperariam pelo passar do tempo, esperariam para que cada geração produzisse mais humanos geneticamente sãos. Ou, como vocês atualmente os conhecem... Divergentes. Desde que Tori me disse a palavra para o que sou – Divergente – eu quis saber o que significa. E aqui está a mais simples resposta


que recebi: “Divergente” quer dizer que meus genes estão curados. Puros, completos. Eu deveria me sentir aliviada de saber a verdadeira resposta afinal. Mas sinto apenas como se algo tivesse apagado, picando o fundo de minha mente. Pensava que “Divergente” explicava tudo o que sou e tudo o que poderia ser. Talvez estivesse equivocada. Estou começando a sentir dificuldade para respirar quando as revelações começam a abrir caminho dentro de minha mente e coração, enquanto David tira as coberturas de mentiras e segredos. Toco meu peito para sentir a batida de meu coração, para tentar me tranquilizar. — Sua cidade é uma dos experimentos para a cura genética, e de longe a mais bem-sucedida, por causa da modificação do comportamento em porções. As facções, isto é — David sorri para nós, como se fosse algo de que devêssemos nos orgulhar, mas não estou orgulhosa. Eles nos criaram, moldaram nosso mundo, nos disseram em que acreditar. Se nos disseram em que acreditar, e não o fizemos por nossa própria conta, ainda assim é verdade? Pressiono a mão com força em meu peito. Tranquila. — As facções foram as tentativas de nossos antecessores de incorporar um elemento “natural” ao experimento, eles descobriram que a simples correção genética não era suficientes para mudar o comportamento das pessoas. Uma nova ordem social, combinada com a modificação genética, estava determinada a ser a solução mais completa para os problemas de comportamento que a deficiência genética havia criado — o sorriso de David desaparece quando olha para os outros ao redor. Não sei o que esperava... que lhe retornássemos o sorriso? Ele continua: — as facções foram, mais tarde, introduzidas na maioria dos nossos experimentos, três dos quais estão atualmente ativos. Temos ido muito longe para protegê-los, observá-los e aprender com vocês. Cara passa as mãos na cabeça, como se para arrumar os fios soltos. Não encontrando nenhum, ela diz:


— Então quando Edith Prior disse que deveríamos determinar as causas de Divergência e depois viéssemos ajudá-los, isso era... — “Divergente” é o nome que decidimos dar a aqueles que alcançaram o nível desejado de cura genética — David responde. — Queríamos nos assegurar que os líderes da sua cidade os valorizassem. Não esperávamos que a líder da Erudição começasse a caçá-los, os integrantes da Abnegação inclusive lhes disseram o que eram, e ao contrário do que Edith Prior disse, nós realmente nunca pretendemos que nos enviassem um exército de Divergentes. Nós, depois de tudo, precisamos realmente da ajuda de vocês. Apenas precisamos que seus genes curados se mantenham intactos e que sejam passados às futuras gerações. — Então o que está dizendo é que se nós não somos Divergentes, estamos deficientes — Caleb fala. Sua voz está tremendo. Nunca pensei que veria Caleb à beira das lágrimas por causa de algo como isto, mas ele está. Tranquila, repito para mim outra vez, e tomo outra profunda e lenta respiração. — Deficientes geneticamente, sim — David fala. — No entanto, ficamos surpreendidos ao descobrir que o componente de modificação do comportamento de nosso experimento da cidade foi bastante efetivo... até recentemente, na realidade ajudava um pouco com os problemas de comportamento que deixava tão problemático começar a manipulação genética em primeiro lugar. Assim, no geral, não seríamos capazes de perceber se os genes de uma pessoa estavam deficientes ou curados por seu comportamento. — Sou inteligente — Caleb diz. — Assim, está dizendo que porque meus ancestrais foram alterados para ser inteligentes, eu, seu descendente, não posso ser totalmente compassivo. Eu, e cada pessoa geneticamente prejudicada, estamos limitados por genes deficientes. E os Divergentes não estão. — Bom — David fala, dando de ombros — pense nisso. Caleb me olha pela primeira vez em dias, e eu o encaro fixamente de volta. Essa é a explicação para a traição de Caleb? Seus genes


alterados? Como uma doença que não se pode curar, nem controlar? Não parece certo. — Os genes não são tudo — Amar aponta. — As pessoas, inclusive as geneticamente prejudicadas, fazem escolhas. Isso é o que importa. Penso em meu pai, um nascido na Erudição, não Divergente; um homem que não podia evitar ser inteligente, escolhendo Abnegação, escolhendo uma luta contra sua própria natureza, e basicamente vencendo-a. Um homem em guerra com si mesmo, como eu luto comigo mesma. Essa guerra interna não parece produto da alteração genética, parece completamente, puramente, humana. Olho para Tobias. Ele está tão desgastado, tão encurvado, parece que poderia desmaiar. Não está só em sua reação: Christina, Peter, Uriah e Caleb todos parecem estupefatos. Cara tem a bainha da camiseta apertada entre os dedos, e está movendo o polegar sobre o tecido, franzindo o cenho. — Isto é demais para processar... — David diz. Isso é um eufemismo. Ao meu lado, Christina bufa. — ... e todos vocês estiveram acordados a noite inteira — ele termina, como se não tivesse havido interrupção. — Assim, mostrarei lhes um lugar onde possam descansar e comer. — Espere — digo. Penso na fotografia em meu bolso, e em como Zoe sabia meu nome quando a deu para mim. Penso nas filas de telas vazias bem na minha frente. — Disse que têm estado nos observando. Como? Zoe franze os lábios. David assente para uma das pessoas atrás dele. Ao mesmo tempo, todas as telas se acendem, cada uma delas mostrando sequências de diferentes câmeras. Nas telas perto de mim, vejo a sede da Audácia. O Mart Impiedoso. O Parque Milennium. O edifício Hancock. O Centro de Atividades. — Vocês sempre souberam que a Audácia observava a cidade com câmeras de segurança. Bom, temos acesso a essas câmeras


também. +++ Penso sobre ir embora. Passamos pelo posto de controle de segurança em nosso caminho para onde quer que David está no levando, e penso em atravessálo novamente, pegar minha arma e escapar deste lugar de onde estiveram me vigiando. Desde pequena. Meus primeiros passos, minhas primeiras palavras, meu primeiro dia na escola, meu primeiro beijo. Observando, quando Peter me atacou. Quando minha facção foi subjugada por uma simulação e se transformou num exército. Quando meus pais morreram. O que mais viram? A única coisa que me impede de ir é a fotografia em meu bolso. Não posso deixar essas pessoas antes de descobrir como conheciam minha mãe. David nos leva através do complexo até uma área acarpetada com vasos de plantas em ambos os lados. O papel de parede é velho e amarelado, descamando nos cantos. O seguimos para dentro de um grande cômodo com teto alto, piso de madeira e luzes que brilham num tom laranja amarelado. Existem catres dispostos em duas linhas retas, com baús ao lado deles para o que nós trouxemos conosco, e grandes janelas com elegantes cortinas na extremidade oposta da sala. Quando chego mais perto delas, vejo que estão desgastados nas bordas. David nos diz que esta parte do complexo era um hotel, ligado ao aeroporto por um túnel, e esta sala já foi o salão de baile. Mais uma vez as palavras não significam nada para nós, mas ele não parece notar. — Este é apenas um quarto temporário, é claro. Depois que decidirem o que fazer, vamos colocá-los em outro lugar, seja neste ou em qualquer outro complexo. Zoe vai se assegurar de que sejam bem cuidados — diz ele. — Estarei de volta amanhã para ver como está tudo.


Olho para trás, para Tobias, que está andando para lá e para cá na frente das janelas, roendo as unhas. Nunca percebi que ele tinha esse hábito. Talvez ele nunca estivesse angustiado o suficiente para fazê-lo antes. Eu poderia ficar e tentar consolá-lo, mas preciso de respostas sobre a minha mãe, e não vou esperar mais. Tenho certeza de que Tobias, de todas as pessoas, vai entender. Sigo David para o corredor. No momento em que sai da sala, ele se inclina contra a parede e coça a nuca. — Oi — eu digo. — Meu nome é Tris. Acredito que você sabia quem é a minha mãe. Ele pula um pouco, mas finalmente sorri para mim. Cruzo meus braços. Sinto-me da mesma forma de quando Peter puxou minha toalha durante a iniciação na Audácia, para ser cruel: exposta, envergonhada, com raiva. Talvez não seja justo dirigir tudo isso para David, mas não posso evitar. Ele é o líder deste complexo do Centro. — Sim, claro. Reconheço você. De onde? Das câmeras assustadoras que seguiram cada movimento meu? Aperto meus braços em torno de mim. — Certo — espero uma batida de coração, em seguida, falo: — preciso saber sobre a minha mãe. Zoe me deu uma foto dela, e você estava de pé ao lado dela lá, então achei que você poderia ajudar. — Ah — ele diz. — Posso ver a foto? Eu a tiro do bolso e ofereço-a a ele. Ele a alisa com as pontas dos dedos , e há um estranho sorriso em seu rosto quando ele olha para a foto, como se estivesse acariciando-a com os olhos. Mudo meu peso de um pé para o outro, sinto como se estivesse invadindo um momento privado. — Ela fez uma viagem de volta para nós, uma vez. Antes de se estabelecer na maternidade. Foi quanto tiramos isto. — De volta para vocês? — pergunto. — Ela era uma de vocês? — Sim — David responde simplesmente, como se não fosse uma palavra que muda todo o meu mundo. — Ela vinha desse lugar. A


enviamos para a cidade quando ela era jovem para resolver um problema no experimento. — Então ela sabia — falo, e minha voz treme, mas não sei por quê. — Ela sabia sobre este lugar, e o que estava do lado de fora da cerca. David olha perplexo, suas sobrancelhas grossas franzidas. — Bem, é claro. O tremor domina meus braços e mãos, e logo todo o meu corpo está tremendo, como se rejeitando algum tipo de veneno que engoli, e o veneno é o conhecimento, o conhecimento deste lugar e de suas telas e de todas as mentiras que construíram minha vida. — Ela sabia que estavam vendo em todos os momentos... observando quando ela morreu, e meu pai morreu, e todos começaram a matar uns aos outros! E você enviou alguém para ajudá-la, para me ajudar? Não! Não, tudo o que fez foi tomar notas. — Tris... Ele tenta chegar para mim, e eu empurro sua mão. — Não me chame assim. Você não deve saber como me chamar. Não deve saber nada sobre nós. Tremendo, ando de volta para o quarto. +++ De volta lá dentro, os outros escolheram suas camas e arrumam suas coisas. É só nós aqui, sem intrusos. Inclino-me contra a parede ao lado da porta e esfrego as palmas das mãos na parte da frente da minha calça para tirar o suor. Ninguém parece estar se adaptando bem. Peter está de frente para a parede. Uriah e Christina se sentam lado a lado, tendo uma conversa em voz baixa. Caleb massageia as têmporas com as pontas dos dedos. Tobias ainda está andando e roendo as unhas. E Cara está sozinha, passando a mão no rosto. Pela primeira vez desde que a conheci, ela parece chateada, a armadura da Erudição desaparecida.


Sento-me em frente a ela. — Você não parece muito bem. Seu cabelo, geralmente liso e perfeito em seu coque, está despenteado. Ela me olha furiosamente. — Que tipo de coisa para você dizer. — Desculpe — eu digo. — Eu não quis dizer isso. — Eu sei — ela suspira. — Eu sou... eu sou uma Erudita, você sabe. Sorrio um pouco. — Sim, eu sei. — Não — Cara balança a cabeça. — É a única coisa que eu sou. Erudita. E agora eles me disseram que é o resultado de algum tipo de falha na minha genética... e que as facções em si são apenas uma prisão mental para nos manter sob controle. Assim como Evelyn Johnson e os sem facção disseram — ela faz uma pausa. — Então, por que formar os Convergentes? Por que se preocupar em sair de lá? Eu não percebi o quanto Cara estava ligada à ideia de ser uma Convergente, leal ao sistema de facções, leal aos nossos fundadores. Para mim, foi apenas uma identidade temporária, poderosa porque poderia me tirar da cidade. Para ela, o ideal deve ter sido muito mais profundo. — Ainda é bom termos saído de lá — eu digo. — Nós descobrimos a verdade. Isso não é importante para você? — Claro que é — Cara responde suavemente. — Mas isso significa que preciso de outras palavras para o que eu sou. Só depois que minha mãe morreu, agarrei-me em minha Divergência como se fosse uma mão estendida para me salvar. Eu precisava dessa palavra para me dizer quem eu era quando tudo estava desmoronando ao meu redor. Mas agora quero saber se eu preciso de algo mais, se realmente preciso dessas palavras: “Audácia”, “Erudição”, “Divergente”, “Convergente” ou se podemos ser apenas amigos ou namorados ou irmãos, definidos apenas pelas escolhas que fazemos e do amor e da lealdade que nos une.


— É melhor ver como ele está — Cara fala, virando-se para Tobias. — Sim — concordo. Atravesso a sala e fico na frente das janelas, olhando para o que podemos ver do complexo – que é apenas mais do mesmo vidro e aço, calçada, grama e cercas. Quando ele me vê, para de andar e fica ao meu lado. — Você está bem? — Yeah — ele se senta no parapeito da janela, de frente para mim, por isso nossos olhos estão no mesmo nível. — Quero dizer, não, não realmente. Só agora penso em como tudo fazia sentido. O sistema de facções, quero dizer. Ele esfrega a parte de trás de seu pescoço, e me pergunto se ele está pensando nas tatuagens em suas costas. — Nós demos tudo o que tínhamos para isso — diz ele. — Todos nós. Mesmo que não percebêssemos o que estávamos fazendo. — Isso é o que está pensando? — Eu levanto as sobrancelhas. — Tobias, eles estavam nos observando. Tudo o que aconteceu, tudo o que fizemos. Eles não interviram, simplesmente invadiram nossa privacidade. Constantemente. Ele esfrega as têmporas com as pontas dos dedos. — Acho que sim. Não é isso que está me incomodando, apesar de tudo. Devo dar-lhe um olhar incrédulo sem querer, porque ele balança a cabeça. — Tris, eu trabalhei na sala de controle da Audácia. Havia câmeras em todos os lugares, o tempo todo. Eu tentei avisá-la de que as pessoas estavam te observando durante a sua iniciação, lembra? Lembro-me de seus olhos mudando para o teto, para os cantos. Suas advertências silenciosas, assobiando entre os dentes. Nunca percebi que ele estava me avisando sobre as câmeras – isso nunca me ocorreu antes. — Elas costumavam me incomodar — ele fala. — Mas superei há muito tempo. Nós sempre pensamos que estávamos sozinhos, e


agora percebemos que estávamos certos, eles nos deixaram sozinhos. É apenas a maneira que é. — Acho que eu não aceito isso. Se você vê alguém em apuros, deve ajudá-lo. Experimento ou não. E... Deus — eu tremo. — Todas as coisas que viram. Ele sorri para mim, um pouco. — O quê? — exijo. — Eu estava apenas pensando em algumas das coisas que eles viram — ele responde, colocando a mão em minha cintura. Olho furiosamente para ele por um momento, mas não posso sustentar a expressão não com ele sorrindo para mim assim. Não sabendo que ele está tentando me fazer sentir melhor. Dou um pequeno sorriso de volta. Sento-me ao lado dele no parapeito da janela, minhas mãos entre minhas pernas e a madeira. — Você sabe, o Centro formar as facções não é muito diferente do que o que nós pensamos que aconteceu: há muito tempo, um grupo de pessoas decidiu que o sistema de facções seria a melhor maneira de viver, ou o caminho para levar as pessoas a viver da melhor maneira possível. Ele não responde a princípio, apenas morde o interior de sua bochecha e olha para os nossos pés, lado a lado no chão. Meus dedos roçam o chão, não o alcançam exatamente. — Isso ajuda, na verdade — ele diz. — Mas há muito que era mentira, é difícil descobrir o que era verdade, o que era real, o que importa. Tomo sua mão, deslizando meus dedos entre os seus. Ele encosta a testa na minha. Eu me pego pensando: Graças a Deus por isso, por força do hábito, e então entendo com o que ele está tão preocupado. E se o Deus dos meus pais, todo o seu sistema de crenças, é apenas algo inventado por um grupo de cientistas para nos manter sob controle? E não apenas as suas crenças sobre Deus e tudo o mais está lá fora, mas sobre o certo e o errado, sobre o altruísmo? Será que todas essas coisas têm de mudar, porque agora nós sabemos


como o nosso mundo foi feito? Eu não sei. O pensamento me chacoalha. Então eu o beijo – devagar, para que eu possa sentir o calor de sua boca, a suave pressão e sua respiração à medida que nos afastamos. — Por que — pergunto — sempre nos encontramos rodeados de pessoas? — Eu não sei. Talvez porque nós somos estúpidos. Eu rio, e é o riso, não a luz, que expulsa a escuridão dentro de mim, que me lembra que ainda estou viva, mesmo neste lugar estranho, onde tudo o que conheci está desmoronando. Eu sei algumas coisas – sei que não estou sozinha, que tenho amigos, que estou apaixonada. Sei de onde eu vim. Sei que não quero morrer, e para mim, isso é mais do que eu poderia ter dito algumas semanas atrás. +++ Naquela noite, empurramos nossos catres um pouco mais juntos, e olhamos nos olhos um do outro nos momentos antes de cair no sono. Quando ele finalmente dorme, nossos dedos estão entrelaçados no espaço entre as camas. Eu sorrio um pouco, e deixo o sono me levar também.


Capítulo 16 Tobias O sol ainda não tinha se posto completamente quando dormimos, mas acordo algumas horas mais tarde, à meianoite, minha mente ocupada demais para descansar, repleta de pensamentos, questionamentos e dúvidas. Tris me soltou mais cedo, e seus dedos agora roçam o chão. Ela está estendida sobre o colchão, os cabelos cobrindo os olhos. Enfio meus pés nos sapatos e ando pelos corredores, os cadarços arrastando no carpete. Estou tão acostumado com a sede da Audácia que estranho o ranger do piso de madeira debaixo de mim – estou acostumado com a raspagem e o eco da pedra, o rugido e pulsação da água no abismo. Uma semana após minha iniciação, Amar – preocupado que eu estava ficando cada vez mais isolado e obsessivo – me convidou para participar de um dos velhos jogos de Desafio da Audácia. Em meu desafio, fomos até o Pit para eu conseguir minha primeira tatuagem – o símbolo de chamas da Audácia cobrindo minhas costelas. Foi angustiante. Eu apreciei cada segundo dela. Chego ao final de um corredor e me encontro em um átrio, rodeado pelo cheiro de terra molhada. Em todos os lugares, plantas e árvores estão suspensas na água, da mesma forma que ficavam na estufa da Amizade. No centro da sala está uma árvore em um tanque de água gigante, erguida acima do chão de modo que eu possa ver o emaranhado de raízes por baixo, estranhamente humano, como nervos.


— Você não é tão vigilante quanto costumava ser — Amar fala atrás de mim. — Te segui por todo o caminho até aqui desde o lobby do hotel. — O que você quer? Bato o tanque com os nós dos dedos, enviando ondas através da água. — Pensei que você gostaria de uma explicação de porque eu não estou morto. — Eu pensei sobre isso — digo. — Eles nunca mostraram seu corpo. Não seria tão difícil de forjar uma morte se nunca encontrar o corpo. — Parece que você tem tudo pensado — Amar bate palma. — Bem, vou ir então, se você não está curioso... Cruzo meus braços. Amar passa a mão sobre seu cabelo preto, amarrando-o para trás com um elástico. — Eles forjaram minha morte porque eu era Divergente, e Jeanine tinha começado a matar os Divergentes. Tentaram salvar tanto quanto podiam antes que ela chegasse a eles, mas era complicado, você sabe, porque ela estava sempre um passo à frente. — Existem outros? — pergunto. — Alguns. — Qualquer um nomeado Prior? Amar balança a cabeça. — Não, Natalie Prior está realmente morta, infelizmente. Ela foi a única que me ajudou a sair. Também ajudou a esse outro cara também... George Wu. Conhece-o? Ele está em uma patrulha agora, ou teria vindo comigo para falar com você. A irmã dele ainda está dentro da cidade. O nome faz meu estômago revirar.


— Oh Deus — eu digo, e me inclino na parede do tanque. — O quê? Você o conhece? Balanço minha cabeça. Não consigo imaginar isso. Houve apenas algumas horas entre a morte de Tori e nossa chegada. Num dia normal, algumas horas podem conter longos trechos de olhadas no relógio, de tempo vazio. Mas ontem, apenas algumas horas colocaram uma barreira impenetrável entre Tori e seu irmão. — Tori é a irmã dele — eu digo. — Ela tentou deixar a cidade com a gente. — Tentou — repete Amar. — Ah. Uau. Isso é... Ambos ficamos quietos por um tempo. George nunca vai chegar a se reunir com sua irmã, e ela morreu pensando que ele fora assassinado por Jeanine. Não há nada a dizer, pelo menos, nada que valha a pena dizer. Agora que os meus olhos se ajustaram à luz, posso ver que as plantas nesta sala foram selecionados pela beleza, e não pela praticidade. Há flores e hera, e aglomerados de folhas roxas ou vermelhas. As únicas flores que já vi são flores silvestres ou de maçã, nos pomares da Amizade. As daqui são mais extravagantes, vibrantes e complexas, pétalas dobradas em pétalas. O que quer que seja este lugar, ele não precisa ser tão pragmático como a nossa cidade. — Aquela mulher que encontrou o seu corpo — eu digo. — Ela estava apenas... mentindo sobre isso? — Não se pode realmente confiar numa pessoa para mentir de forma consistente — ele ergue as sobrancelhas. — Nunca pensei que eu diria essa frase, na verdade, de qualquer maneira. Ela foi reinicializada – a memória dela foi alterada para incluir a visão de mim pulando da Pira, e o corpo que foi plantado não era realmente eu. Mas foi muito confuso para qualquer um notar.


— Ela foi reinicializada. Quer dizer, com o soro da Abnegação. — Nós o chamamos de “soro da memória”, uma vez que tecnicamente não pertence apenas à Abnegação, mas sim. É isso. Eu estava irritado com ele antes. Não estou realmente certo do porquê. Talvez eu estivesse com raiva de que o mundo tivesse se tornado um lugar tão complicado que eu nunca soube sequer uma fração da verdade sobre ele. Ou que eu me permiti chorar por alguém que nunca foi realmente embora, da mesma forma que magoou pensar que minha mãe estava morta todos esses anos. Enganar alguém em luto é um dos truques mais cruéis que uma pessoa pode jogar, e ele foi jogado em mim duas vezes. Mas enquanto olho para ele, minha raiva se esvai, como a mudança da maré. E de pé no lugar da minha raiva está meu instrutor de iniciação e amigo, vivo novamente. Eu sorrio. — Então você está vivo — eu digo. — O mais importante — ele fala, apontando para mim — você não está mais chateado com isso. Ele agarra meu braço e me puxa para um abraço, batendo em minhas costas com uma mão. Tento retribuir o seu entusiasmo, mas ele não vem naturalmente. Quando nos separamos, meu rosto está quente. E, a julgar pela forma como ele cai na gargalhada, também está vermelho brilhante. — Uma vez Careta, sempre Careta — ele comenta. — Tanto faz. Você gosta daqui, então? Amar dá de ombros. — Eu realmente não tenho uma escolha, mas sim, gosto muito. Trabalho na segurança, obviamente, já que é tudo para o que estava treinado para fazer. Nós adoraríamos tê-lo, mas você provavelmente é bom demais para isso.


— Não me conformei em ficar aqui ainda. Mas, obrigado, eu acho. — Não há lugar melhor lá fora. Todas as outras cidades – que é onde a maior parte do país vive, nas grandes áreas metropolitanas, como a nossa cidade – são sujas e perigosas, a menos que você conheça as pessoas certas. Aqui, pelo menos, há água potável, alimento e segurança. Eu mudo o meu peso, desconfortável. Não quero pensar em ficar aqui, fazendo deste o meu lar. Já me sinto preso pelo meu próprio desapontamento. Isto não é o que imaginei quando pensei em escapar dos meus pais e as más lembranças que me deram. Mas não quero perturbar a paz com Amar agora que eu finalmente sinto que tenho o meu amigo de volta, então acabo dizendo: — Vou levar isso em conta. — Ouça, há outra coisa que você deveria saber. — O quê? Mais ressurreições? — Não é exatamente uma ressurreição se eu não estava morto, não é? — Amar balança a cabeça. — Não, é sobre a cidade. Alguém ouviu na sala de controle hoje, o julgamento Marcus está previsto para amanhã de manhã. Eu sabia que estava chegando, sabia Evelyn iria deixá-lo para o final, saborear cada momento em que o observou se contorcer sob o soro da verdade como se fosse sua última refeição. Eu só não sabia que seria capaz de vê-lo, se quisesse. Pensei que estava finalmente livre deles, de todos eles, para sempre. — Oh — é tudo o que posso dizer. Eu ainda me sinto entorpecido e confuso quando caminho de volta para o dormitório mais tarde e rastejo de volta para a cama. Não sei o que vou fazer.


Capítulo 17 Tris Acordo pouco antes de o sol nascer. Ninguém mais se mexe em seus catres – o braço de Tobias está caído sobre os olhos, mas ele está calçado, como se tivesse se levantado e caminhado ao redor no meio da noite. A cabeça de Christina está enterrada debaixo do travesseiro. Fico deitada por alguns minutos, encontrando padrões no teto, em seguida, coloco em meus sapatos e corro os dedos pelo meu cabelo para alisá-lo. Os corredores do complexo estão vazios, exceto por alguns retardatários. Presumo que estão apenas terminando o turno da noite, porque eles estão debruçados sobre telas, o queixo apoiado nas mãos, ou encostados contra as vassouras, mal se lembrando de varrer. Coloco as mãos nos bolsos e sigo as indicações para a entrada. Quero dar uma olhada melhor na escultura que vi ontem. Quem construiu esse lugar deveria amar luz. Há vidro na curva do teto de cada corredor e ao longo de cada parede. Mesmo agora, quando mal amanheceu, há uma abundância de luz para enxergar. Eu verifico meu bolso de trás procurando o crachá que Zoe me entregou no jantar ontem à noite, e passo pelo posto de controle de segurança com ele na mão. Então vejo a escultura, a poucas centenas de metros de distância das portas por onde entramos ontem, sombria, enorme e misteriosa, como uma entidade viva. É uma enorme laje de pedra escura, quadrada e áspera, como as rochas no fundo do abismo. Uma grande rachadura atravessa o meio, e há manchas de rocha mais clara perto das bordas. Suspenso acima da laje está um tanque de vidro com as mesmas dimensões, cheios de água. Uma luz colocada por cima do centro do tanque brilha através da água, refratando como ondulações. Ouvi um leve ruído, uma gota de água batendo na pedra. Ela vem de um pequeno tubo que atravessa


o centro do tanque. No começo acho que é apenas vazamento, mas mais uma gota cai, em seguida, uma terceira, e uma quarta, com o mesmo intervalo. Algumas gotas são coletadas, e, em seguida, desaparecem por um canal estreito na pedra. Elas devem ser intencionais. — Olá — Zoe para do outro lado da escultura. — Sinto muito, eu estava prestes a ir para o dormitório te procurar, então te vi vindo para cá e me perguntei se você estava perdida. — Não, não estou perdida. Este é o lugar para onde eu queria vir. — Ah — ela cruza os braços. Ela tem mais ou menos a minha altura, mas está ereta, de modo que parece mais alta. — Sim, é muito estranho, né? Enquanto ela fala, observo as sardas em seu rosto, como a luz solar através das folhas densas. — Será que isso significa alguma coisa? — É o símbolo do Centro de Bem-Estar Genético — diz ela. — A laje de pedra é o problema que estamos enfrentando. O tanque de água é o nosso potencial para mudar esse problema. E a gota é o que nós somos realmente capazes de fazer, em um dado momento. Eu não posso me impedir e rio. — Não é muito animador, é? Ela sorri. — Essa é uma maneira de olhar para ele. Prefiro olhar de outra forma – que se eles forem persistentes o suficiente, até mesmo pequenas gotas de água, ao longo do tempo, podem mudar a rocha para sempre. E ela nunca vai mudar de volta. Ela aponta para o centro da placa, onde existe uma pequena impressão, como uma taça rasa entalhada na pedra. — Isso, por exemplo, não estava lá quando eles instalaram essa coisa. Eu aceno, e assisto a queda da próxima gota. Mesmo que eu esteja desconfiada do Centro e todos nele, posso sentir a esperança tranquila da escultura trabalhando o seu caminho através de mim. É um símbolo prático, mostrando a atitude paciente que permitiu que as pessoas daqui ficassem por muito tempo observando e esperando. Mas eu tenho que perguntar.


— Não seria mais eficaz desencadear todo o tanque de uma vez? Eu imagino a onda de água colidindo na pedra e derramando-se sobre o piso de cerâmica, espalhando-se em torno de meus sapatos. Fazendo um pouco de cada vez, você pode corrigir alguma coisa eventualmente, mas sinto que quando se acredita que algo é realmente um problema, você joga tudo o que tem para ele, porque simplesmente não pode se impedir. — Momentaneamente — ela diz. — Mas, então, não restaria água para fazer qualquer outra coisa, e deficiência genética não é o tipo de problema que pode ser resolvido com uma grande carga. — Eu entendo. Só estou querendo saber se é uma boa coisa se resignar tanto a pequenos passos quando se poderia dar alguns grandes. — Como o quê? Dou de ombros. — Eu realmente não sei. Mas vale a pena pensar nisso. — É justo. — Então... você disse que estava procurando por mim? Por quê? — Oh! — Zoe toca a testa. — Escorregou minha mente. David me pediu para encontrá-la e levá-la para os laboratórios. Há algo lá que pertenceu a sua mãe. — Minha mãe? — Minha voz sai estrangulada e muito alta. Ela me leva para longe da escultura e na direção do posto de segurança novamente. — Um aviso: você pode ser encarada — Zoe diz enquanto caminhamos através do escâner de segurança. Há mais pessoas nos corredores à frente agora do que havia antes, deve ser hora para eles começarem a trabalhar. — Seu rosto é familiar aqui. As pessoas do centro assistem as telas muitas vezes, e nos últimos meses, você esteve envolvida em um monte de coisas interessantes. Vários dos mais jovens pensam em você como uma heroína. — Oh, bem — eu digo, um gosto amargo na minha boca. — O heroísmo era tudo em que eu estava focada. E não, você sabe, tentar não morrer.


Zoe para. — Desculpe. Eu não tive a intenção de fazer luz ao que você está passando. Eu ainda me sinto desconfortável com a ideia de que todo mundo estava assistindo a gente, de como quero me cobrir ou esconder onde eles não possam olhar para mim. Mas não há muito que Zoe possa fazer sobre isso, então não falo nada. A maioria das pessoas andando pelos corredores usam variações do mesmo uniforme, em tons de azul-escuro ou verde maçante, e alguns deles usam as jaquetas, macacões ou camisolas abertas, revelando camisetas de grande variedade de cores, alguns com imagens desenhadas sobre eles. — Será que as cores dos uniformes significam alguma coisa? — pergunto a Zoe. — Sim, na verdade. O azul-escuro significa cientista ou pesquisador, e verde significa pessoal de apoio, aqueles que fazem manutenção, conservação, coisas desse tipo. — Então eles são como os sem facção. — Não — diz ela. — Não, a dinâmica é diferente aqui, todo mundo faz o que pode para apoiar a missão. Todo mundo é valorizado e importante. Ela estava certa: as pessoas olham para mim. A maioria delas apenas me olha por um pouco longo demais, mas alguns apontam, e alguns chegam a dizer meu nome, como se pertencesse a eles. Faz-me sentir sufocada, como se eu não pudesse me mover da maneira que quero. — Uma grande parte do pessoal de apoio costumava ser do experimento de Indianápolis – outra cidade, não muito longe daqui — Zoe diz. — Mas, para eles, esta transição foi um pouco mais fácil do que será para vocês – Indianápolis não tem os componentes comportamentais de sua cidade — ela faz uma pausa. — As facções, quero dizer. “Depois de algumas gerações, quando sua cidade não se desfez e as outras sim, o Centro implementou os componentes das facções nas cidades mais recentes – Saint Louis, Detroit e Minneapolis – usando o experimento relativamente novo Indianápolis como um grupo de controle. O Centro sempre colocou os experimentos no Centro-Oeste,


porque não há mais espaço entre as áreas urbanas aqui. Até o leste tudo está cheio. — Assim, em Indianápolis você acabou... corrigindo seus genes e empurrando-os em uma cidade em algum lugar? Sem facções? — Eles tinham um sistema complexo de regras, mas... sim, isso é essencialmente o que aconteceu. — E isso não funcionou muito bem? — Não — ela franze os lábios. — As pessoas geneticamente deficientes que foram condicionadas pelo sofrimento e não foram ensinadas a viver de forma diferente, como as facções teria ensinado a elas, são muito destrutivas. Esse experimento fracassou rapidamente, dentro de três gerações. Chicago – sua cidade – e as outras que tem facções passaram muito mais do que isso. Chicago. É tão estranho ter um nome para o lugar que sempre foi apenas casa para mim. Isso torna a cidade menor em minha mente. — Então vocês têm feito isso por um longo tempo. — Há algum tempo, sim. O Centro é diferente da maioria dos órgãos do governo, por causa da natureza focada do nosso trabalho e da nossa contenção, localização relativamente remota. Passamos nosso conhecimento e propósito para os nossos filhos, em vez de depender de nomeações ou contratação. Venho treinando para o que estou fazendo agora por toda a minha vida. Através das grandes janelas, vejo um veículo com a estranha forma de um pássaro, com duas asas e um nariz pontudo, mas tem rodas, como um carro. — Isso é para as viagens aéreas? — pergunto, apontando para ele. — Sim — ela sorri. — É um avião. Podemos ser capazes de levá-la em um algum momento, se não parecer muito assustador para você. Eu não reajo ao jogo de palavras. Não consigo esquecer de como ela me reconheceu à primeira vista. David está de pé perto de uma das portas à frente. Ele levanta a mão em um aceno quando nos vê. — Olá, Tris — diz ele. — Obrigado por trazê-la, Zoe. — De nada, senhor. Vou deixá-la com ele, então. Muito trabalho a fazer.


Ela sorri para mim, então vai embora. Não quero que ela saia, agora que ela se foi, estou só com David e a memória de como gritei com ele ontem. Ele não diz nada sobre isso, apenas aproxima seu crachá no sensor da porta para abri-la. A sala além dele é um escritório sem janelas. Um jovem, com talvez a idade de Tobias, senta-se numa mesa, e além dele, a sala está vazia. O jovem olha para cima quando entramos, toca algo na tela de seu computador, e se levanta. — Olá, senhor. Posso ajudar? — Matthew. Onde está o seu supervisor? — David pergunta. — Ele foi buscar comida no refeitório — Matthew responde. — Bem, talvez você possa me ajudar, então. Vou precisar do arquivo de Natalie Wright carregado em uma tela portátil. Você pode fazer isso? Wright? Penso. Esse era o verdadeiro sobrenome da minha mãe? — É claro — diz Matthew, e se senta novamente. Ele digita algo no computador e puxa uma série de documentos que eu não estou perto o suficiente para ver claramente. — Tudo bem, só tem que transferir. Você deve ser a filha de Natalie, Beatrice — ele apoia o queixo na mão e olha para mim criticamente. Seus olhos são tão escuros que parecem pretos, e clareiam um pouco nas bordas. Ele não parece impressionado ou surpreso ao me ver. — Você não parece muito com ela. — Tris — eu digo automaticamente. Mas acho que é reconfortante que ele não saiba meu apelido, o que deve querer dizer que ele não gasta todo o seu tempo a olhar para as telas, para as nossas vidas na cidade como entretenimento. — E sim, eu sei — falo. David puxa uma cadeira, deixando-a chiar no chão, e dá um tapinha nela. — Sente-se. Vou dar-lhe uma tela com todos os arquivos de Natalie para que você e seu irmão possam lê-los si mesmos, mas enquanto eles estão carregando, eu poderia muito bem lhe contar a história. Sento-me na beirada da cadeira, e ele se senta atrás da mesa do


supervisor de Matthew, dando voltas na xícara de café meio vazia sobre o metal. — Deixe-me começar dizendo que a sua mãe foi uma descoberta fantástica. A localizamos quase por acidente dentro do mundo destruído, e seus genes eram quase perfeitos — David fala. — Nós a tiramos de uma situação ruim e a trouxemos aqui. Ela passou vários anos aqui, mas, em seguida, encontramos uma crise

dentro das muralhas da sua cidade, e ela se ofereceu para ser colocada lá dentro e resolvê-la. Tenho certeza que você sabe tudo sobre isso, no entanto. Por alguns segundos, tudo o que posso fazer é piscar para ele. Minha mãe veio de fora deste lugar? De onde? Caio em mim, mais uma vez, que ela caminhava por esses corredores, assistia a cidade nas telas da sala de controle. Teria ela se sentado nessa cadeira? Teria seus pés tocaram estas telhas? De repente, sinto que há marcas invisíveis da minha mãe em todos os lugares, em todas as paredes, maçaneta ou pilares. Aperto a borda do assento e tento organizar meus pensamentos o suficiente para fazer uma pergunta. — Não, eu não sei. Que crise? — O representante da Erudição tinha começado a matar os Divergentes, é claro — ele responde. — Seu nome era Nor... Norman? — Norton — Matthew corrige — antecessor de Jeanine. Parece que ele passou a ideia de matar os Divergentes para ela, mesmo antes de seu ataque cardíaco. — Obrigado. De qualquer forma, enviamos Natalie para investigar a situação e parar as mortes. Nunca imaginei que ela ficaria lá por tanto tempo, é claro, mas ela foi útil, nunca tinha pensado sobre ter um interno antes, e ela foi capaz de fazer muitas coisas que eram de valor inestimável para nós. Também construiu uma vida para si mesma, o que obviamente inclui você. Eu franzo a testa. — Mas os Divergentes ainda estavam sendo mortos quando eu era uma iniciada. — Você só sabe sobre aqueles que morreram — diz David. — Não sabe sobre os que não morreram. Alguns deles estão aqui, neste complexo. Acredito que você conheceu Amar mais cedo? Ele é um


deles. Alguns dos Divergentes resgatados precisavam de alguma distância do experimento – era muito difícil para eles assistir as pessoas que haviam uma vez conhecido e amado cuidando de suas vidas, enquanto eles foram treinados para integrar a vida no Centro. Mas sim, ela fez um trabalho importante, a sua mãe. Ela também contou algumas mentiras, e muito poucas verdades. Gostaria de saber se meu pai sabia quem ela era, de onde ela realmente vinha. Ele era um líder da Abnegação, afinal de contas, e como tal, um dos guardiães da verdade. Tenho um súbito pensamento horrível: e se ela só se casou com ele porque devia, como parte de sua missão na cidade? E se todo o relacionamento deles foi uma farsa? — Então ela não nasceu realmente na Audácia — eu digo, enquanto penso na quantidade de mentiras. — Quando ela entrou pela primeira vez na cidade, foi na Audácia, porque ela já tinha tatuagens, e teria sido difícil de explicar para os nativos. Ela tinha dezesseis anos, mas falou que tinha quinze, para que tivesse algum tempo para se adaptar. Nossa intenção para ela era... — Ele dá de ombros. — Bem, você deve ler o arquivo dela. Não posso fazer a perspectiva de justiça de alguém com dezesseis anos de idade. Como se na sugestão, Matthew abre uma gaveta e retira um pequeno pedaço de vidro plano. Ele bate com a ponta do dedo, e uma imagem aparece. É um dos documentos que ele abrira em seu computador. Ele oferece o tablet para mim. É mais resistente do que eu esperava que fosse, duro e forte. — Não se preocupe, é praticamente indestrutível — diz David. — Tenho certeza de que deseja retornar aos seus amigos. Matthew, você poderia por favor acompanha a senhorita de volta ao hotel? Tenho algumas coisas para cuidar. — E eu não? — Matthew replica. Em seguida, ele pisca. — Brincadeira, senhor. Vou levá-la. — Obrigada — eu digo a David, antes que ele saia. — É claro. Deixe-me saber se tiver alguma dúvida.


— Pronta? — Diz Matthew pergunta. Ele é alto, talvez da mesma altura que Caleb, e seu cabelo preto é artisticamente despenteado na frente, como se ele passasse muito tempo fazendo com que parecesse ter acabado de sair da cama assim. Sob o seu uniforme azul-escuro, ele veste uma camiseta preta lisa e tem um cordão preto em torno da garganta. Ela se move ao longo do seu pomo de Adão quando ele engole. Ando com ele para fora do pequeno escritório e no corredor novamente. A multidão que estava aqui antes diminuiu. Eles devem ter ido trabalhar, ou para o café da manhã. Há vidas inteiras sendo vividas neste lugar – dormir, comer e trabalhar, ter filhos, cuidar da família e morrer. Este é um lugar que minha mãe chamou de casa, uma vez. — Gostaria de saber quando você vai pirar — comenta ele. — Depois de descobrir todas essas coisas ao mesmo tempo. — Eu não vou pirar — respondo, sentindo-me na defensiva. Acho que já fiz isso, penso, mas não vou admitir. Matthew dá de ombros. — Eu piraria. Mas é justo. Vejo uma placa que diz LOBBY DO HOTEL à frente. Aperto a tela em meu peito, ansiosa para voltar ao dormitório e contar a Tobias sobre a minha mãe. — Olha, uma das coisas que o meu supervisor e eu fazemos é o teste genético — diz Matthew. — Eu estava me perguntando... você e aquele outro filho do cara – filho do Marcus Eaton? – se importariam de vir para que eu possa testar seus genes? — Por quê? — Curiosidade — ele encolhe os ombros. — Nós não chegamos a testar os genes de uma pessoa em uma geração tão tardia do experimento antes, e você e Tobias parecem ter algumas... anomalias em suas manifestações de certas coisas. Levanto minhas sobrancelhas. — Você, por exemplo, exibiu extraordinária resistência aos soros – a maior parte dos Divergentes não é tão capaz de resistir a soros como você é — diz Matthew. — E Tobias pode resistir a


simulações, mas ele não exibe algumas das características que temos vindo a esperar dos Divergentes. Eu posso explicar em mais detalhes posteriormente. Eu hesito, não tenho certeza se quero ver os meus genes, ou genes de Tobias, ou para compará-los, de qualquer forma. Mas a expressão de Matthew parece ansiosa, quase infantil, e eu entendo a curiosidade. — Eu vou perguntar se ele quer — respondo. — Mas eu estaria disposta. Quando? — Esta manhã, ok? Posso vir buscá-la em uma hora ou assim. Você não pode entrar nos laboratórios sem mim de qualquer maneira. Concordo com a cabeça. Sinto-me animada, de repente, para saber mais sobre os meus genes, o mesmo sentimento de ler os arquivos de minha mãe: vou ter parte dela de volta.


Capítulo 18 Tobias É estranho ver as pessoas que você não conhece bem, pela manhã, com os olhos sonolentos e vincos de travesseiro em suas bochechas. Saber que Christina é alegre pela manhã, que Peter acorda com o cabelo perfeitamente alisado, enquanto Cara se comunica apenas por grunhidos, avançando pouco a pouco, membro por membro, em direção ao café da manhã. A primeira coisa que faço é tomar uma chuveirada e mudar para as roupas que nos providenciaram, que não são muito diferentes das que estou acostumado, mas todas as cores são misturadas como se não significassem nada para as pessoas aqui, e provavelmente não significam. Eu uso uma camisa preta e calça jeans e tento me convencer de que é normal, que me sinto normal, que estou me adaptando. O julgamento do meu pai é hoje. Ainda não decidi se vou vê-lo ou não. Quando volto, Tris já está totalmente vestida, empoleirada na beira de uma das camas, como se estivesse pronta para saltar de pé a qualquer momento. Assim como Evelyn. Pego um muffin da bandeja de café da manhã comida que alguém nos trouxe, e sento-me em frente a ela. — Bom dia. Você levantou cedo. — Sim — ela responde, balançando o pé para a frente, de modo que fica entre os meus. — Zoe me encontrou naquela grande escultura esta manhã – David tinha algo para me mostrar — ela pega a tela de vidro descansando na cama ao lado dela. A tela brilha quando ela toca, mostrando um documento. — É o arquivo


da minha mãe. Ela escreveu um diário, um pequeno, a partir do seu ponto de vista, mas ainda assim — ela o afasta como se estivesse desconfortável. — Eu não olhei muito ainda. — Então, por que você não está lendo? — Eu não sei — ela o coloca para baixo, e a tela desliga-se automaticamente. — Acho que eu tenho medo disso. Crianças da Abnegação raramente conhecem os seus pais de qualquer maneira significativa, já que os adultos nunca se revelam da forma como os outros pais fazem quando seus filhos crescerem a uma determinada idade. Eles mantém-se envoltos em uma armadura cinza de pano e atos altruístas, convencidos de que compartilhar coisas sobre si é ser indulgente. Este não é apenas um pedaço recuperado da mãe de Tris, é um dos primeiros e últimos vislumbres honestos que Tris chegará a ter da antiga Natalie Prior. Entendo, então, por que ela mantém aquilo como se fosse um objeto mágico, algo que poderia desaparecer em um momento. E por que ela quer deixá-lo de lado por um tempo – é o mesmo que sinto pelo julgamento do meu pai. Poderia dizer-lhe algo que ela não quer saber. Sigo os olhos pela sala aonde Caleb se senta, mastigando um pedaço de cereal melancolicamente, com um beicinho infantil. — Você vai mostrar a ele? — pergunto. Ela não responde. — Normalmente eu não defendo lhe dando qualquer coisa — eu digo. — Mas neste caso... isso não pertence realmente apenas a você. — Eu sei disso — ela responde, um pouco secamente. — Claro que vou mostrar para ele. Mas quero ficar sozinha com ele primeiro. Não posso discutir com isso. A maior parte da minha vida foi gasta mantendo as informações para mim, revirando-as em minha mente. O impulso de compartilhar qualquer coisa é algo novo, o impulso para esconder é tão natural quanto respirar. Ela suspira, então pega um pedaço do muffin em minha mão. Dou


um tapinha em seus dedos enquanto ela afasta a mão. — Ei! Há muito mais a apenas cinco metros à sua direita. — Então você não deveria estar tão preocupado em perder alguns pedacinhos — diz ela, sorrindo. — Está longe o suficiente. Ela me puxa pela frente da camisa e me beija. Deslizo minha mão sob seu queixo e a seguro enquanto eu a beijo de volta. Então percebo que ela está roubando outro pedaço de muffin e me afasto, olhando para ela. — Sério — eu digo. — Vou pegar um lá da bandeja. Só vai levar um segundo. Ela sorri. — Então, há algo que eu queria te perguntar. Estaria disposto a se submeter a um pequeno teste genético esta manhã? A frase “um pequeno teste genético” me parece uma contradição. — Por quê? Pedir para ver os meus genes soa um pouco como me pedir para tirar a roupa. — Bem, esse cara que eu conheci – Matthew é o nome dele – trabalha em um dos laboratórios daqui, e ele disse que estava interessado em examinar o nosso material genético para a pesquisa — ela responde. — E perguntou sobre você, especificamente, porque você é uma espécie de anomalia. — Anomalia? — Aparentemente, você exibe algumas características Divergentes e que os outros não tem — diz ela. — Eu Não sei. Ele é apenas um curioso sobre o assunto. Você não tem que fazer isso. O ar ao redor da minha cabeça parece mais quente e pesado. Para aliviar o desconforto, massageio a parte de trás do meu pescoço, passando a mão no cabelo ali. Em algum momento na próxima hora ou assim, Marcus e Evelyn estarão nas telas. De repente, sei que não posso assistir. Assim, ainda que eu realmente não queira deixar um estranho examinar as peças do quebra-cabeça que compõem a minha existência, respondo:


— Claro. Eu vou fazer isso. — Ótimo — diz ela, e come outro pedaço do meu muffin. Uma mecha de cabelo cai em seus olhos, e estou puxando-a de volta antes mesmo que ela perceba isso. Ela cobre a minha mão com a sua, que é quente e forte, e os cantos de sua boca se moldam em um sorriso. A porta se abre, admitindo um jovem com olhos puxados e angulares de cabelos pretos. Eu o reconheço imediatamente como George Wu, irmão mais novo de Tori. “Georgie” foi o nome que ela chamou. Ele dá um sorriso alegre e eu sinto o desejo de me afastar, colocar mais espaço entre mim e sua dor iminente. — Acabei de voltar — diz ele, sem fôlego. — Eles me disseram que minha irmã partiu com vocês, e... Tris e eu trocamos um olhar perturbado. Ao nosso redor, os outros estão percebendo George na porta e ficam calados, o mesmo tipo de silêncio que você ouve em um funeral da Abnegação. Mesmo Peter, que eu esperaria desfrutar da dor das outras pessoas, parece confuso, mudando as mãos de sua cintura para os bolsos e de volta. — E... — George começa novamente. — Por que estão olhando para mim desse jeito? Cara dá alguns passos para a frente e começa a dar as más notícias, mas não posso imaginar Cara fazendo isso bem, então eu me levanto, interrompendo-a. — Sua irmã fugiu com a gente — falo. — Mas nós fomos atacados pelos sem facção, e ela... não conseguiu. Há tanta coisa que a frase não diz – quão rápido foi, o som de seu corpo batendo na terra, o caos de todos correndo para a noite, tropeçando sobre a grama. Eu não voltei por dela. Deveria tê-lo feito, de todas as pessoas no nosso grupo, Tori era quem eu conhecia melhor, sabia quão bem suas mãos manejavam a agulha da tatuagem e da maneira que sua risada soava áspera, como se tivesse sido raspada com lixa. George se apoia na parede atrás dele para se estabilizar.


— O quê? — Ela deu a vida para nos defender — Tris fala com surpreendente gentileza. — Sem ela, nenhum de nós teria conseguido sair. — Ela está... morta? — George diz fracamente. Ele inclina seu corpo inteiro contra a parede, e seus ombros caem. Vejo Amar no corredor, um pedaço de pão na mão e um sorriso rapidamente desaparecendo de seu rosto. Ele deixa o alimento em uma mesa perto da porta. — Tentei encontrá-lo mais cedo para dizer — Amar fala. Ontem à noite, Amar disse o nome de George tão casualmente, não pensei que eles realmente se conheciam. Aparentemente se conhecem. Os olhos de George estão vidrados, e Amar o puxa para um abraço. Os dedos de George estão dobrados em ângulos duros na camisa de Amar, os nós dos dedos brancos com a tensão. Eu não o ouvi chorar, e talvez ele não tenha chorado, talvez tudo o que precise fazer é agarrar a algo. Tenho apenas memórias nebulosas da minha própria dor sobre a minha mãe, quando pensei que ela estava morta, apenas a sensação de que eu estava separada de tudo ao meu redor, e a sensação constante de que precisava para engolir alguma coisa. Eu não sei como é para outras pessoas. Eventualmente, Amar George leva para fora do quarto, e eu os assisto caminhar lado a lado no corredor, conversando em voz baixa. +++ Mal me lembro que concordei em participar de um teste genético até que alguém aparece na porta do dormitório, um garoto, ou não realmente um garoto, já que ele parece quase tão velho quanto eu. Ele acena para Tris. — Oh, esse é Matthew — diz ela. — Acho que devemos ir. Ela pega a minha mão e me puxa para a porta. De alguma forma, não a escutei mencionar que “Matthew” não era um cientista idoso


e mal-humorado. Ou talvez ela não tenha mencionado nada disso. Não seja estúpido, penso. Matthew estica a mão. — Oi. Prazer em conhecê-lo. Sou Matthew. — Tobias — respondo, porque “Quatro” soa estranho aqui, onde as pessoas nunca se identificam por quantos medos elas têm. — Prazer também. — Então vamos para os laboratórios, eu acho — diz ele. — Eles ficam por aqui. O lugar está cheio de pessoas esta manhã, todos vestidos com uniformes azuis ou verde escuros, cujas calças arrastam-se no chão ou se penduram acima dos tornozelos dependendo da altura da pessoa. O complexo é cheio de áreas abertas que se ramificam em grandes corredores, como as câmaras de um coração, cada uma assinalada com uma letra e um número, e as pessoas parecem estar se movendo entre elas, alguns transportando dispositivos de vidro como o que Tris trouxe esta manhã, alguns de mãos vazias. — O que são esses números? — Tris pergunta. — Apenas uma maneira de rotular cada área? — Eles costumavam ser portões — diz Matthew. — O que significa que cada um tem uma porta e uma passarela que levava a um avião particular, indo para um destino particular. Quando o aeroporto se transformou no complexo, eles arrancaram todas as cadeiras em que as pessoas costumavam esperar seus voos e as substituíram por equipamentos de laboratório, principalmente recolhidos das escolas da cidade. Esta área do complexo é basicamente um laboratório gigante. — Em que estão trabalhando? Pensei que vocês estavam apenas observando os experimentos — eu digo, assistindo uma mulher correr de um lado do corredor para o outro com uma tela equilibrada em ambas as palmas. Feixes de luz refletem no azulejo polido do chão, vindo através das janelas. Pelas janelas tudo parece tranquilo, cada folha de grama aparada e as árvores silvestres balançando à distância, e é difícil imaginar que as pessoas estão destruindo o mundo lá fora


por causa de “genes deficientes” ou vivendo sob as regras estritas de Evelyn na cidade de que saímos. — Alguns deles estão fazendo isso. Tudo o que eles percebem em todos os experimentos restantes tem que ser registrado e analisado, de forma que requer uma grande quantidade de mão de obra. Mas alguns também estão trabalhando em melhores formas de tratar a deficiência genética, ou desenvolvendo soros para uso próprio, em vez de usar os experimentos... há dúzias de projetos. Tudo o que você tem a fazer é ter uma ideia, reunir uma equipe e propor ao Conselho que examina o composto com David. Eles costumam aprovar qualquer coisa que não é muito arriscado. — Sim — diz Tris. — Não gostariam de correr riscos. Ela revira os olhos um pouco. — Eles têm uma boa razão para seus empreendimentos — diz Matthew. — Antes de as facções serem introduzidas – e os soros com elas – os experimentos estavam sob ataque quase constante a partir de dentro. Os soros ajudam as pessoas no experimento a manter as coisas sob controle, especialmente o soro da memória. Bem, acho que ninguém está trabalhando nisso agora, está no Laboratório de Armas. “Laboratório de armas.” Ele diz as palavras como se fossem frágeis em sua boca. Palavras sagradas. — Então o Centro nos deu os soros, no início — Tris observa. — Sim. E então a Erudição continuou a trabalhar sobre eles, para aperfeiçoá-los. Incluindo o seu irmão. Para ser honesto, nós temos alguns dos nossos empreendimentos de soro a partir deles, observando-os pela sala de controle. Só que eles não fizeram muito com o soro da memória da Abnegação. Nós fizemos muito com ele, já que é a nossa maior arma. — Arma — Tris repete. — Bem, armas que protegem as cidades contra as suas próprias rebeliões, para uma coisa: apagar as memórias das pessoas e não haver necessidade de matá-las, pois eles só esquecem porque estavam brigando. E nós também podemos usá-lo contra os rebeldes da fronteira, que estão a cerca de uma hora daqui. Às


vezes, os moradores marginalizados tentam atacar, e usamos o soro da memória para pará-los sem matá-los. — Isso é... — eu começo. — Ainda terrível de certo modo? — Matthew completa. — Sim, é. Mas os superiores aqui pensam nisso como nossa vida apoio, a nossa máquina de respiração. Aqui estamos nós. Levanto minhas sobrancelhas. Ele falou contra os seus próprios líderes tão casualmente eu quase não notei. Pergunto-me se esse é o tipo de lugar onde a dissidência pode ser expressa em público, no meio de uma conversa normal, em vez de em espaços secretos, com voz baixa. Ele passa seu cartão em uma pesada porta à nossa esquerda e caminha até outro corredor, este estreito e iluminado com luz pálida, fluorescente. Ele para em uma porta marcada com SALA DE TERAPIA GENÉTICA 1. No interior, uma garota de pele morena e macacão verde está substituindo o papel que cobre a mesa de exame. — Essa é Juanita, a técnica de laboratório. Juanita, estes são... — Sim, eu sei quem eles são — diz ela, sorrindo. Com o canto do olho, vejo Tris endurecer, brava contra o lembrete de que nossas vidas têm estado diante das câmeras. Mas ela não diz nada sobre isso. A menina me oferece sua mão. — O supervisor de Matthew é a única pessoa que me chama de Juanita. E Matthew, aparentemente. Sou Nita. Precisará que eu prepare dois testes? Matthew concorda. — Eu vou arrumar. Ela abre um conjunto de armários em toda a sala e começa a puxar as coisas. Todas estão revestidas em plástico e papel e têm rótulos brancos. A sala está cheia com o som de enrugar e rasgar. — Estão gostando de ficar aqui até agora? — ela pergunta. — Estamos nos ajustando — eu digo. — Sim, sei o que você quer dizer — Nita sorri para mim. — Eu vim de um dos outros experimentos – o de Indianápolis, o que


falhou. Oh, vocês não sabem onde fica Indianápolis, não é? Não é longe daqui. Menos de uma hora de avião — ela faz uma pausa. — Isso não vai significar nada para vocês também. Sabem o que mais? Isso não é importante. Ela pega uma seringa e agulha de sua embalagem de papel e plástico, e Tris enrijece. — O que é isso? — Tris pergunta. — É o que nos permitirá ler seus genes — diz Matthew. — Você está bem? — Sim — Tris responde, mas ela ainda está tensa. — Eu só... Não gosto de ser injetada com substâncias estranhas. Matthew concorda. — Juro que isso só vai ler os seus genes. É tudo o que ele faz. Nita pode atestar isso. Nita assente. — Tudo bem — Tris fala. — Mas... posso fazer isso sozinha? — Claro — Nita responde. Ela prepara a seringa, enchendo-o com o que pretendem nos injetar, e a oferece a Tris. — Eu vou lhe dar a explicação simplificada de como isso funciona — Matthew fala enquanto Nita esfrega o braço de Tris com antisséptico. O cheiro é azedo, e faz arder o interior do meu nariz. — O líquido é embalado com microcomputadores. Eles são projetados para detectar marcadores genéticos específicos e transmitir os dados para um computador. Vai levar cerca de uma hora para me dar o máximo de informação que preciso, ainda que levaria muito mais tempo para ler todo o seu material genético, obviamente. Tris insere a agulha em seu braço e pressiona o êmbolo. Nita puxa meu braço para a frente e passa a gaze manchada de laranja sobre a minha pele. O fluido na seringa é prata, como escamas de peixe, e quando flui em mim através da agulha, imagino a tecnologia microscópica passando por meu corpo, me lendo e me analisando. Ao meu lado, Tris segura uma bola de algodão contra a pele picada e me oferece um pequeno sorriso.


— O que são os... microcomputadores? — Matthew balança a cabeça, e eu continuo — o que eles estão procurando, exatamente? — Bem, quando nossos predecessores no Centro inseriram genes “corrigidos” em seus antepassados, eles também incluíram um rastreador genético, que é, basicamente, algo que nos mostra que uma pessoa alcançou a cura genética. Neste caso, o rastreador genético estar consciente durante as simulações é algo que podemos facilmente atestar, o que nos mostra se os seus genes estão curados ou não. Essa é uma das razões pelas quais todos na cidade tem que fazer o teste de aptidão aos dezesseis anos – se estiverem conscientes durante o teste, nos mostra que eles poderiam ter os genes curados. Acrescento a prova de aptidão em uma lista mental de coisas que antes eram tão importantes para mim, deixando-a de lado porque era apenas um ardil para tirar das pessoas a informação ou resultado que eles queriam. Não posso acreditar que a consciência durante as simulações, algo que me fez sentir poderoso e único, algo pela qual Jeanine e a Erudição mataram, na verdade era apenas um sinal de cura genética dessas pessoas. Como uma palavra de código especial, dizendo-lhes que estou em sua sociedade geneticamente curada. Matthew continua: — O único problema com o rastreador genético é que estar consciente durante as simulações e resistir a soros não significa necessariamente que uma pessoa é Divergente, é apenas tem uma forte correlação. Às vezes, as pessoas estarão conscientes durante simulações ou serão capazes de resistir aos soros mesmo que ainda tenha os genes alterados — ele encolhe os ombros. — É por isso que estou interessado em seus genes, Tobias. Estou curioso para ver se você é realmente Divergente, ou se a sua consciência na simulação apenas fez parecer que é. Nita, que está limpando o balcão, pressiona os lábios como se estivesse segurando palavras dentro da boca. Sinto-me subitamente desconfortável. Há uma chance de que eu não seja realmente Divergente?


— Tudo o que resta é sentar e esperar — diz Matthew. — Vou buscar café da manhã. Algum de vocês quer algo para comer? Tris e eu balançamos nossas cabeças. — Eu estarei de volta em breve. Nita, pode fazer-lhes companhia, não é? Matthew sai sem esperar pela resposta de Nita, e Tris senta na mesa de exame, o papel enrugando embaixo dela e rasgando onde sua perna onde paira sobre a borda. Nita coloca as mãos nos bolsos do uniforme e olha para nós. Seus olhos são escuros, com o mesmo brilho de uma poça de óleo vazando debaixo de um motor. Ela me dá uma bola de algodão, e eu o pressiono na bolha de sangue no interior do meu cotovelo. — Então você veio de uma cidade-experimento — Tris fala. — Há quanto tempo está aqui? — Desde que o experimento de Indianápolis foi dissolvido, o que foi cerca de oito anos atrás. Eu poderia ter integrado na população maior, fora dos experimentos, mas que senti que era grande demais — Nita inclina-se contra o balcão. — Então, me ofereci para vir aqui. Eu costumava ser uma zeladora. Estou me movendo através das fileiras, acho. Ela fala com uma certa dose de amargura. Suspeito que aqui, como na Audácia, há um limite para ela subir na hierarquia, e ela está chegando mais cedo do que gostaria. Da mesma forma que eu, quando escolhi o meu trabalho na sala de controle. — E sua cidade tinha facções? — Tris pergunta. — Não, foi o grupo-controle que os ajudou a descobrir que as facções eram realmente eficazes por comparação. Tinha um monte de regras, no entanto, o toque de recolher, a hora de acordar, normas de segurança. Sem permissão para armas. Coisas assim. — O que aconteceu? — pergunto, e um momento depois que desejo não ter aberto a boca, porque os cantos da boca de Nita inclinam-se para baixo, como se a memória pairasse pesada de cada lado. — Bem, algumas das pessoas lá dentro ainda sabiam como fazer armas. Eles fizeram uma bomba, você sabe, um explosivo, e a


jogaram no prédio do governo. Muitas pessoas morreram. E depois o Centro decidiu que nosso experimento foi um fracasso. Eles apagaram as memórias dos homens-bomba e realocaram o resto de nós. Sou uma das únicas que quis vir para cá. — Sinto muito — Tris diz suavemente. Às vezes ainda me esqueço de olhar para as partes mais delicadas dela. Por muito tempo, todo o que eu vi foi a força, destacando-se como os músculos vigorosos nos braços ou a tinta preta marcando sua clavícula com o voo. — Está tudo bem. Não é como se vocês não soubessem sobre esse tipo de coisa — diz Nita. — Com o que Jeanine Matthews fez, e tudo. — Por que eles não fecharam a nossa cidade? — Tris pergunta. — Da mesma forma que fizeram com a sua? — Eles ainda podem fechá-la. Mas acho que o experimento de Chicago, em particular, tem sido um sucesso por tanto tempo que eles vão ficar um pouco relutantes em simplesmente abandoná-lo agora. Foi o primeiro com facções. Tiro a bola de algodão do braço. Há um pequeno ponto vermelho onde a agulha entrou, mas não está mais sangrando. — Gosto de pensar que eu teria escolhido Audácia — ela Nita. — Mas não acho que eu teria tido estômago para isso. — Você ficaria surpresa com o estômago que tem para as coisas, quando precisa — Tris fala. Sinto uma pontada no meio do meu peito. Ela está certa. O desespero pode fazer uma pessoa fazer coisas surpreendentes. Nós dois sabemos. +++ Matthew retorna na hora marcada e se senta em frente ao computador por um longo tempo depois disso, seus olhos mudando de um lado para o outro enquanto ele lê a tela. Algumas vezes ele faz um barulho revelador, um “hmm!” ou um “ah!”. Quanto mais tempo ele espera para nos dizer alguma coisa,


qualquer coisa, mais tenso meus músculos ficam, até meus ombros parecerem feitos de pedra em vez de carne. Por fim, ele olha para cima e vira a tela, para que possamos ver o que está nela. — Este programa nos ajuda a interpretar os dados de uma forma compreensível. O que você vê aqui é uma representação simplificada de uma sequência específica de DNA do material genético de Tris — diz ele. A imagem na tela é uma massa complicada de linhas e números, com algumas partes selecionadas em amarelo e vermelho. Não posso ver qualquer sentido da imagem, está acima do meu nível de compreensão. — Essas seleções aqui sugerem genes curados. Nós não iríamos vê-las se os genes fossem deficientes — ele aponta para certas partes da tela. Não entendo para o que ele está apontando, mas ele não parece notar, imerso em sua própria explicação. — Essas marcar aqui indicam que o programa também constatou o rastreador genético, a consciência de simulação. A combinação de genes curados e genes de consciência de simulação é exatamente o que eu esperava ver a de uma Divergente. Agora, esta é a parte estranha. Ele toca a tela novamente, e a imagem muda, mas continua a ser tão confusa, uma rede de linhas, fios emaranhados de números. — Este é o mapa de genes de Tobias — diz Matthew. — Como podem ver, ele tem a configuração genética para a consciência de simulação, mas não tem os mesmos genes “curados” que Tris. Minha garganta está seca, e sinto como se tivessem me dado uma má notícia, mas ainda não compreendi totalmente que notícia ruim é. — O que significa isso? — Eu peço. — Isso significa — Matthew diz — que você não é Divergente. Seus genes ainda estão deficientes, mas você tem uma anomalia genética que lhe permite estar consciente durante as simulações de qualquer maneira. Tem, em outras palavras, a aparência de um Divergente sem realmente ser um. Eu processo as informações lentamente, pedaço por pedaço. Eu


não sou Divergente. Não sou como Tris. Sou geneticamente deficiente. A palavra “deficiente” afunda dentro de mim como chumbo. Acho que eu sempre soube que havia algo de errado comigo, mas pensei que fosse por causa do meu pai, ou minha mãe, e da dor que me deixaram como uma relíquia de família, passada de geração em geração. E isto significa que a única coisa boa que meu pai tinha – a Divergência – não me alcançou. Eu não olho para Tris – não posso suportar isso. Em vez disso, olho para Nita. Sua expressão é dura, quase com raiva. — Matthew — ela fala. — Você não quer levar esses dados para o seu laboratório para analisar? — Bem, eu estava pensando em discutir nossos assuntos aqui. — Não acho que seja uma boa ideia — Tris responde, afiada como uma lâmina. Matthew diz algo que eu realmente não ouço, eu estou ouvindo a batida do meu coração. Ele toca a tela novamente e a imagem do meu DNA desaparece, assim a tela de vidro se apaga. Ele sai, instruindo-nos a visitar seu laboratório se quisermos obter mais informações, e Tris, Nita, e eu fico na sala em silêncio. — Não é grande coisa — Tris diz com firmeza. — Tudo bem? — Você não tem que me dizer que não é grande coisa! — respondo, mais alto do que pretendia. Nita ocupa-se no balcão, certificando-se de que os recipientes estão alinhados, apesar de eles não ter se mexido desde que entrei pela primeira vez na sala. — Sim, eu tenho! — Tris exclama. — Você é a mesma pessoa que era há cinco minutos, há quatro meses, há 18 anos! Isso não muda nada sobre você. Ouço em suas palavras é certo, mas é difícil acreditar nela agora. — Então você está me dizendo isso não afeta nada — eu digo. — A verdade não afeta nada. — Que verdade? Essas pessoas lhes dizem que há algo errado com os seus genes e você apenas acredita? — Foi ali mesmo — eu gesticulo para a tela. — Você viu.


— Eu também te vi — ela responde ferozmente, com a mão fechada em volta do meu braço. — E eu sei quem você é. Balanço minha cabeça. Eu ainda não consigo olhar para ela, não posso olhar para nada em particular. — Eu... preciso caminhar. Vejo você mais tarde. — Tobias, espere... Eu ando para fora, e um pouco da pressão dentro de mim se libera assim que eu não estou mais na sala. Ando pelo corredor apertado que se pressiona contra mim como um suspiro, e pelas salas iluminadas além dele. O céu está azul brilhante agora. Ouço passos atrás de mim, mas eles são pesados demais para pertencer a Tris. — Hey — Nita retorce os pés, fazendo-os ranger contra o azulejo. — Sem pressão, mas eu gostaria de falar com você sobre tudo isso... deficiência no material genético. Se estiver interessado, me encontre aqui esta noite às nove. E... sem ofensa para a sua namorada ou qualquer coisa, mas você pode não querer levá-la. — Por quê? — Ela é uma GP – geneticamente pura. Então ela não pode entender que... bem, é difícil de explicar. Basta confiar mim, ok? É melhor ela ficar longe disso por um tempo. — Tudo bem. — Ok — Nita assente. — Tenho que ir. Eu a vejo correr de volta para a sala de terapia genética, e então continuo caminhando. Não sei onde estou indo, exatamente, só sei que quando ando, o frenesi de informações que recebi no dia para de se mover tão rápido, para de gritar tão alto dentro da minha cabeça.


Capítulo 19 Tris Eu não vou atrás dele porque não sei o que dizer. Quando descobri que era Divergente, pensei nisso como um poder secreto que ninguém mais possuía, algo que me fez diferente, melhor, mais forte. Agora, depois de comparar meu DNA com o de Tobias em uma tela de computador, percebo que “Divergente” não significa tanto quanto pensei que significava. É apenas uma palavra para uma determinada sequência no meu DNA, como uma palavra para todas as pessoas com olhos castanhos ou cabelo loiro. Inclino a cabeça em minhas mãos. Mas essas pessoas ainda acham que isso significa alguma coisa, ainda acham que significa que estou curada de uma forma que Tobias não. E eles querem que eu apenas confie, acredite. Bem, eu não confio. E não sei por que Tobias sim, por que ele está tão ansioso para acreditar que ele está deficiente. Eu não quero pensar sobre isso. Saio da sala de terapia genética, enquanto Nita está caminhando de volta para ela. — O que você disse a ele? Ela é bonita. Alta, mas não muito alta, magra, mas não muito fina, sua pele rica em cor. — Eu só tive certeza de que ele sabia para onde estava indo. É um lugar confuso. — Certamente é. Começo a ir em direção a... bem, eu não sei para onde estou indo, mas é para longe de Nita, a menina bonita que fala com meu namorado quando eu não estou lá. Então, novamente, não é como se fosse uma longa conversa.


Encontro Zoe no final do corredor, e ela acena. Ela parece mais relaxada agora do que parecia no início desta manhã, a testa lisa em vez de vincada, os cabelos soltos sobre os ombros. Ela enfia as mãos nos bolsos de seu macacão. — Acabo de falar com os outros — diz ela. — Nós temos programada uma viagem de avião em duas horas para aqueles que querem ir. Você está pronta para isso? O medo e a excitação se contorcem juntos no meu estômago, assim como aconteceu antes de eu ser presa à tirolesa no topo do edifício Hancock. Imagino-me arremessado para o ar em um carro com asas, a energia do motor e da rajada de vento por todos os espaços nas paredes e com a possibilidade, no entanto leve, de que algo vai falhar e eu vou despencar para a morte. — Sim — eu digo. — Vamos nos encontrar no portão B14. Siga as placas! — Ela abre um sorriso quando vai embora. Eu olho através das janelas acima de mim. O céu está claro e pálido, a mesma cor que os meus próprios olhos. Há uma espécie de inevitabilidade ali, como se sempre estivesse esperando por mim, talvez porque eu gosto altura, enquanto outros a temem, ou talvez porque depois de ter visto as coisas que vi, não há uma fronteira ao lado para explorar, só acima. +++ As escadas de metal que subo guincham com cada um dos meus passos. Tenho que me inclinar para olhar para o avião, que é maior do que eu esperava que fosse, e branco-prateada. Logo abaixo da asa está um grande cilindro com lâminas girando dentro dela. Eu imagino as lâminas me sugando e cuspindo-me para o outro lado, e tremo um pouco. — Como uma coisa tão grande pode manter-se no céu? — Uriah pergunta atrás de mim. Balanço minha cabeça. Eu não sei, e não quero pensar nisso. Sigo Zoe por outro conjunto de escadas, esta ligada a um orifício na


lateral do avião. Minha mão treme quando pego a grade, e olho por cima do ombro uma última vez, para verificar se Tobias vem até nós. Ele não está lá. Eu não tenho visto desde o teste genético. Eu abaixo quando passo pelo buraco, mas é mais alto que a minha cabeça. Dentro do avião estão fileiras e fileiras de assentos cobertos de um tecido azul rasgado e desgastado. Escolho um perto da frente, ao lado de uma janela. Uma barra de metal pressiona-se contra minha espinha. O banco parece um esqueleto de metal sem quase nada para suavizá-lo. Cara se senta atrás de mim, e Peter e Caleb se movem em direção à parte de trás do avião e sentam-se um perto do outro, ao lado da janela. Eu não sabia que eles eram amigos. Parece apropriado, dada a forma como ambos são desprezíveis. — Quão velho é essa coisa? — Pergunto a Zoe, que está na parte da frente. — É muito velho — diz ela. — Mas nós refizemos completamente as coisas importantes. É um bom tamanho para o que precisamos. — Em que você o usa? — Missões de vigilância, principalmente. Nós gostamos de manter um olho sobre o que está acontecendo na fronteira, caso ameace o que está acontecendo aqui — Zoe faz uma pausa. — A fronteira é um lugar grande, caótico, mais ou menos entre Chicago e a área mais próxima regulamentada pelo governo metropolitano, Milwaukee, que é cerca de três horas daqui. Eu gostaria de perguntar o que exatamente está acontecendo na fronteira, mas Uriah e Christina se sentam nos assentos perto de mim, e o momento está perdido. Uriah abaixa o descanso de braço entre nós e se inclina sobre mim para olhar para fora da janela. — Se a Audácia soubesse sobre isso, todo mundo faria fila para aprender a dirigi-lo — ele diz. — Incluindo eu. — Não, eles estariam presos às asas — Christina cutuca o braço dele. — Você não conhece a sua própria facção? Uriah cutuca seu rosto em resposta, então se vira para a janela novamente. — Algum de vocês viu Tobias ultimamente? — pergunto.


— Não, não o vi — diz Christina. — Tudo bem? Antes que eu possa responder, uma mulher mais velha com linhas em volta da boca aparece no corredor entre as fileiras de assentos e bate palmas. — Meu nome é Karen, e eu pilotarei este avião hoje — ela anuncia. — Pode parecer assustador, mas lembrem-se: as chances de nos acidentarmos são realmente muito menores do que as chances de um acidente de carro. — Essas são as chances de sobrevivência se não nos acidentarmos — murmura Uriah, mas ele está sorrindo. Seus olhos escuros estão alertas, e ele parece atordoado, como uma criança. Eu não o vi assim desde que Marlene morreu. Ele está bonito novamente. Karen desaparece na frente do avião, e Zoe fica no corredor na frente de Christina, virando em torno e gritando instruções como “Apertem os cintos!” e “Não se levantem até que cheguemos à nossa altitude de cruzeiro!” Eu não tenho certeza do que é altitude de cruzeiro, e ela não explica. Na verdade, Zoe não costuma fazer isso. Foi quase um milagre ela ter se lembrado de explicar sobre a fronteira mais cedo. O avião começa a se mover para trás, e estou surpresa com quão bom parece, como se já estivéssemos flutuando sobre o chão. Em seguida, ele se vira e desliza sobre o pavimento, que está pintado com dezenas de linhas e símbolos. Meu coração bate mais rápido com quanto mais longe nós vamos do complexo e, em seguida, a voz de Karen fala através de um intercomunicador: — Preparem-se para a decolagem. Eu cerro os braços enquanto o avião dá uma guinada de movimento. O impulso pressiona minhas costas contra a cadeira esqueleto, e a vista da janela se transforma em uma mancha de cor. Então eu sinto a elevação, a subida do avião, e vejo o chão que se estende abaixo de nós, tudo ficando menor a cada segundo. Minha boca fica aberta e esqueço de respirar. Eu vejo o complexo, com a forma da imagem de um neurônio – uma vez eu vi no meu livro de ciências – e a cerca que o rodeia.


Em torno dela está uma teia de estradas de concreto com edifícios imprensados entre eles. E, de repente, não posso nem mais ver as estradas e os edifícios, porque há apenas uma paisagem de cinza, verde e marrom por baixo de nós, e mais longe do que eu posso ver em qualquer direção está a terra, a terra, a terra. Eu não sei o que eu esperava. Ver o lugar onde o mundo termina, como um penhasco gigante pendurado no o céu? O que eu não esperava é saber que tenho sido uma pessoa que estava em uma casa que não posso ver nem a partir daqui. Que tenho andado em uma rua entre centenas – milhares – de outras ruas. O que eu não esperava é me sentir assim, tão pequena. — Nós não podemos voar muito alto ou muito perto da cidade porque não queremos chamar a atenção, por isso vamos observar de uma grande distância. Aparecendo pelo lado esquerdo do avião está um pouco da destruição causada pela Guerra da Pureza, antes de os rebeldes recorreram à guerra biológica em vez de explosivos — Zoe diz. Tenho a piscar as lágrimas dos meus olhos antes que eu possa ver, o que parece à primeira vista, um grupo de edifícios escuros. Depois de muitos exames, percebo que os prédios não devem ser escuro – eles foram carbonizados de forma irreconhecível. Alguns deles são achatados. O pavimento entre eles está quebrado em peças como uma casca de ovo rachado. Assemelha-se a certas partes da cidade, mas, ao mesmo tempo, não. A destruição da nossa cidade poderia ter sido causado por pessoas. Isso tinha que ter sido causado por algo mais, algo maior. — E agora vocês vão ter um breve vislumbre Chicago! — Diz Zoe. — Verão que alguns dos lagos foram drenados para que pudéssemos construir a cerca, mas foi deixado tanto dele intacto quanto possível. Depois de suas palavras vejo duas pontas do Eixo, tão pequenas à distância como um brinquedo, e a linha irregular de nossa cidade interrompendo o mar de concreto. E além dela, uma extensão


marrom – o pântano – e depois disso... azul. Quando deslizei da tirolesa do edifício Hancock, imaginei como o pântano seria cheio de água, azul acinzentado e reluzente sob o sol. E agora que posso ver mais longe do que eu já vi, sabemos que muito além dos limites da nossa cidade é assim como o que eu imaginava, o lago brilhando na distância com raios de luz, marcado com a textura de ondas. O avião está em silêncio em torno de mim, exceto pelo barulho constante do motor. — Whoa — diz Uriah. — Shh — Christina responde. — Quão grande é, comparado com o resto do mundo? — Peter pergunta do fundo do avião. Ele soa como se estivesse engasgando com cada palavra. — A nossa cidade, quero dizer. Em termos de área de terra. Qual a percentagem? — Chicago ocupa cerca de 227 quilômetros quadrados — Zoe responde. — A área de terra do planeta é um pouco menos de duas centenas de milhões de quilômetros quadrados. O percentual é... tão pequeno que seria negligenciado. Ela oferece os fatos com calma, como se não significassem nada para ela. Mas eles me acertam no estômago, e eu me sinto espremida, como se algo estivesse me esmagando. Tanto espaço. Eu me pergunto como são os lugares além da nossa cidade, como as pessoas vivem lá. Olho pela janela novamente, tomando respirações lentas e profundas em um corpo tenso demais para se mover. E enquanto olho para a terra, penso que isso, se nada mais, é uma evidência convincente do Deus dos meus pais, que o nosso mundo é tão grande que está completamente fora de nosso controle, que não pode ser tão grande quanto nós sentimos. Tão pequeno que pode ser negligenciado. É estranho, mas há algo no pensamento que me faz sentir quase... livre. +++


Naquela noite, quando todo mundo está no jantar, eu me sento no parapeito da janela no dormitório e ligo a tela que David me deu. Minhas mãos tremem quando abro o arquivo chamado “Diário”. Na primeira anotação lia-se: David continua me pedindo para escrever o que eu experimentei. Acho que ele espera que seja horrível, talvez até mesmo quer que seja. Acho que partes disso foram, mas foram ruins para todos, então não é como se eu fosse especial. Eu cresci em uma casa unifamiliar em Milwaukee, Wisconsin. Eu nunca soube muito sobre quem estava no território fora da cidade (que todo mundo aqui chama de “fronteira”), só que eu não deveria ir lá. Minha mãe era da força policial, ela era explosiva e impossível agradar. Meu pai era um professor, ele era dócil, compreensivo e inútil. Um dia entrei na sala de estar e as coisas saíram de mão, e ele a agarrou e ela disparou nele. Naquela noite, ela estava enterrando o corpo no quintal, enquanto juntei boa parte dos meus pertences e saí pela porta da frente. Eu nunca mais a vi. Onde eu cresci, a tragédia está em todo o lugar. A maioria dos pais dos meus amigos bebiam demais até ficarem estúpidos, gritavam demais ou tinha parado de amar uns aos outros há muito tempo, e essa era apenas a forma das coisas, não é grande coisa. Então, quando saí, eu tinha certeza de que eu era apenas mais um item em uma longa lista de coisas terríveis que aconteceram em nosso bairro, no ano passado. Eu sabia que se fosse em qualquer lugar oficial, como outra cidade, o governo apenas me faria ir para casa com a minha mãe, e não acho que eu jamais seria capaz de olhar para ela sem ver a mancha de sangue que a cabeça do meu pai deixou no tapete da sala, então não fui a qualquer lugar oficial. Eu fui para a fronteira, onde um monte de pessoas estavam vivendo em uma pequena colônia feita de lona e alumínio em alguns dos destroços do pósguerra, vivendo em pedaços e queimando papéis velhos para buscar calor porque o governo não podia oferecer, uma vez que


estava gastando todos os seus recursos tentando nos juntar novamente, e fazia mais de um século que a guerra nos separou. Ou eles simplesmente não forneceriam. Eu não sei. Um dia eu vi um homem adulto espancando uma das crianças na fronteira, bati-lhe na cabeça com uma prancha para fazê-lo parar e ele morreu, ali mesmo na rua. Eu tinha apenas treze anos. Eu corri. Fui pega por um cara em uma van, um cara que parecia da polícia. Mas ele não me levou para o lado da estrada para atirar em mim e não me levou para a cadeia, só me trouxe a esta área segura, testou meus genes e contou-me tudo sobre as experiências da cidade e como os meus genes eram mais limpos do que de outras pessoas. Ele até me mostrou um mapa dos meus genes em uma tela para provar isso. Mas eu matei um homem tal como a minha mãe fez. David diz que está tudo bem, porque eu não quis, e porque ele estava prestes a matar o garotinho. Mas tenho certeza de que minha mãe não queria matar o meu pai, mas então, que diferença isso faz, ter ou não a intenção de fazer algo? Acidente ou de propósito, o resultado é o mesmo, e é menos uma vida que deve haver em o mundo. Isso foi o que eu experimentei, eu acho. E ouvir David falar sobre isso, é como se tudo o que aconteceu fosse porque há muito, muito tempo, as pessoas tentaram mexer com a natureza humana e acabou tornando-a pior. Eu acho que faz sentido. Ou eu gostaria que fizesse. Meus dentes cavar meu lábio inferior. Aqui no complexo do Centro, as pessoas estão sentadas no refeitório agora, comendo, bebendo e rindo. Na cidade, eles provavelmente estão fazendo a mesma coisa. A vida comum me rodeia, e estou sozinha com estas revelações. Aperto da tela contra o meu peito. Minha mãe era daqui. Este lugar é tanto a minha antiga história quanto a recente. Eu posso senti-la nas paredes, no ar. Posso senti-la instalando-se dentro de mim, para nunca mais sair novamente. A morte não pode apagá-la,


ela é permanente. O frio do vidro se infiltra através da minha camisa, e eu tremo. Uriah e Christina caminham através da porta do dormitório, rindo de alguma coisa. Os olhos claros de Uriah e seus passos firmes me enchem com uma sensação de alívio, e meus olhos se enchem de lágrimas de repente. Ele e Christina estão olhando alarmados, e se encostam contra as janelas de ambos os lados de mim. — Você está bem? — ela pergunta. Concordo com a cabeça e pisco as lágrimas. — Onde vocês estavam hoje? — Depois da viagem de avião, fomos ver as telas na sala de controle por um tempo — diz Uriah. — É realmente estranho ver o que eles estão fazendo agora que estamos fora. Só mais de um da mesma Evelyn idiota, assim como todos os seus lacaios, e assim por diante, mas era como começar um relatório de notícia. — Não acho que eu gostaria de olhar para aquilo — eu digo. — Tão... assustador e invasivo. Uriah encolhe os ombros. — Eu não sei, se quiserem me assistir coçar a bunda ou comer o jantar, sinto que diz mais sobre eles do que sobre mim. Eu rir. — Quantas vezes você costuma coçar a bunda, exatamente? Ele me empurra com o cotovelo. — Odeio atrapalhar a conversa sobre traseiros, que todos podemos concordar ser extremamente importante — Christina sorri um pouco. — Mas eu estou com você, Tris. Assistir essas telas me fez sentir horrível, como se eu estivesse fazendo algo sorrateiro. Acho que vou ficar longe de agora em diante. Ela aponta para a tela no meu colo, onde a luz ainda brilha em torno de palavras de minha mãe. — O que é isso? — Como se sabe — eu digo — minha mãe era daqui. Bem, ela estava no mundo exterior, mas, em seguida, ela veio aqui, e quando ela tinha quinze anos, ela foi colocada em Chicago como


uma Audaciosa. Christina diz: — Sua mãe veio daqui? Concordo com a cabeça. — Yeah. Insano. Ainda mais estranho, ela escreveu este diário e o deixou com eles. Isso é o que eu estava lendo antes de você chegarem. — Uau — Christina diz suavemente. — Isso é bom, certo? Quero dizer, você começa a aprender mais sobre ela. — Sim, é bom. E não, eu não estou mais chateada, você pode parar de olhar para mim desse jeito. O olhar de preocupação que vinha crescendo no rosto de Uriah desaparece. Eu suspiro. — Eu só fico pensando... que de alguma maneira eu pertenço a aqui. Que talvez este lugar possa ser minha casa. Christina une as sobrancelhas. — Talvez — diz ela, e eu sinto como se ela não acreditasse, mas é legal da parte dela dizer isso de qualquer maneira. — Eu não sei — diz Uriah, e ele parece sério agora. — Não tenho certeza se vou me sentir em casa novamente em qualquer lugar. Nem mesmo se voltamos. Talvez isso seja verdade. Talvez nós somos estranhos, não importa para onde vamos, se é para o mundo exterior do Centro, ou aqui no Centro, ou de volta ao experimento. Tudo mudou, e não vai parar de mudar tão cedo. Ou talvez nós devêssemos fazer uma casa em algum lugar dentro de nós, para levar conosco onde quer que vamos, da maneira que levo a minha mãe agora. Caleb entra no dormitório. Há uma mancha em sua camisa que se parece com molho, mas ele não parece perceber isso. Ele tem o olhar em seus olhos que agora reconhecemos como fascínio intelectual, e por um momento eu me pergunto o que ele estava lendo ou assistindo, para fazê-lo parecer assim. — Oi — diz ele, e ele quase acena para mim, mas deve ver a


minha repulsa, porque para no meio do movimento. Cubro a tela com a palma da mão, embora ele não possa vê-la do outro lado da sala, e apenas olho para ele, incapaz ou sem vontade de dizer algo em resposta. — Você acha que vai falar comigo um dia? — ele pergunta infeliz, sua boca curvando-se para baixo nos cantos. — Se ela fizer, eu vou morrer de choque — Christina responde friamente. Eu desvio o olhar. A verdade é que às vezes quero apenas esquecer tudo o que aconteceu e voltar ao jeito que éramos antes de qualquer um de nós escolhesse uma facção. Mesmo que ele estivesse sempre me corrigindo, lembrando-me de ser altruísta, era melhor do que isso, essa sensação de que eu preciso para proteger até mesmo o meu diário da mãe dele, para que ele não pode envenená-lo como fez com o resto. Levanto-me e coloco-o debaixo do meu travesseiro. — Vamos — Uriah me diz. — Quer ir com a gente pegar uma sobremesa? — Você já não comeu? — E que diferença faz? — Uriah revira os olhos e coloca o braço sobre os meus ombros, me guiando em direção a porta. Juntos, nós três caminhamos em direção ao refeitório, deixando meu irmão para trás.


Capítulo 20 Tobias — Não tinha certeza se você viria — Nita fala para mim. Quando ela se vira para me levar onde quer que vamos, vejo que a blusa dela é aberta na parte de trás, e há uma tatuagem em sua coluna, mas não posso ver o que é. — Vocês fazem tatuagens aqui também? — pergunto. — Algumas pessoas fazem — diz ela. — A das minhas costas é um pedaço de vidro quebrado — ela faz uma pausa, o tipo de pausa que você toma quando está decidindo se deve ou não compartilhar algo pessoal. — Eu a fiz porque sugere algo deficiente. É... uma espécie de piada. Ali está essa palavra de novo, “deficiente”, que esteve afundando e emergindo, afundando e emergindo da minha mente desde o teste genético. Se é uma piada, não é engraçado nem mesmo para Nita, ela cospe a explicação como o gosto é amargo para ela. Nós seguimos por um dos corredores de azulejos, quase vazio agora no final de um dia de trabalho, e para baixo num lance de escadas. À medida que descemos, luzes azuis, verdes, roxas e vermelhas dançam sobre as paredes, as cores mudando a cada segundo. O túnel na parte inferior da escada é largo e escuro, apenas com a estranha luz para nos guiar. O chão aqui é de telhas velhas, e posso sentir sujeira e poeira até mesmo através das solas do meu sapato. — Esta parte do aeroporto foi reconstruída e ampliada quando mudei para cá — Nita fala. — Por um tempo, depois da Guerra Pureza, todos os laboratórios ficavam no subsolo, para mantê-los mais seguros se eles fossem atacados. Agora é só o pessoal de apoio que vem aqui embaixo.


— São eles que você quer que eu conheça? Ela acena com a cabeça. — Ser parte do pessoal de apoio é mais do que apenas um trabalho. Quase todos nós somos GDs – geneticamente deficientes, sobras de experimentos fracassados, descendentes de outras sobras ou pessoas de fora, como a mãe de Tris, exceto sem sua vantagem genética. E todos os cientistas e líderes são GPS – geneticamente puros, descendentes de pessoas que resistiram ao movimento da engenharia genética, em primeiro lugar. Há algumas exceções, é claro, mas tão poucas que eu poderia enumerá-las se eu quisesse. Estou prestes a perguntar por que a divisão é tão rigorosa, mas posso descobrir isso por mim mesmo. Os chamados “GPS” cresceram nesta comunidade, seus mundos saturados de experimentos, observações e aprendizado. Os “GDs” cresceram nos experimentos, onde só tinham que aprender o suficiente para sobreviver até a próxima geração. A divisão é baseada no conhecimento, com base nas qualificações, mas como eu aprendi nas facções, um sistema que se baseia em um grupo de pessoas sem instrução para fazer o trabalho sujo, sem dar-lhes uma maneira de subir é pouco justo. — Penso que sua namorada tenha razão, sabe. Nada mudou, agora você só tem uma ideia melhor de suas próprias limitações. Todo ser humano tem limitações, mesmo GPS. — Portanto, há um limite maior para... o quê? Minha compaixão? Minha consciência? — Eu digo. — Essa é a garantia que você tem para mim? Os olhos de Nita me estudam com cuidado, e ela não responde. — Isso é ridículo — eu digo. — Por que você, ou eles, ou qualquer um pode determinar os meus limites? — É assim que as coisas são, Tobias. É apenas genética, nada mais. — Isso é mentira. São mais do que genes aqui, e você sabe disso. Sinto que preciso sair, virar e correr de volta para o dormitório. A raiva está fervendo e se expandindo dentro de mim, enchendo-me


com o calor, e eu nem tenho certeza para quem ela é dirigida. Para Nita, que acaba de aceitar que ela é de alguma forma limitada, ou para quem lhe disse isso? Talvez seja para todos. Chegamos ao fim do túnel, e ela abre uma pesada porta de madeira com o ombro. Além dela, é um mundo brilhante movimentado. A sala é iluminada por pequenas lâmpadas brilhantes em cadeias, mas as cordas estão tão juntas que uma teia branca e amarela cobre o teto. Em uma extremidade do quarto está um balcão de madeira com garrafas brilhantes por trás dele, e um mar de óculos em cima dela. Há mesas e cadeiras no lado esquerdo da sala, e um grupo de pessoas com instrumentos musicais no lado direito. Música enche o ar, e os únicos sons que reconheço – da minha experiência limitada com a Amizade – vem das cordas da guitarra e da bateria. Sinto como se eu estivesse de pé sob um refletor e todo mundo está olhando para mim, esperando que eu me mova, fale, faça alguma coisa. Por um momento, é difícil ouvir alguma coisa sobre a música e as conversas, mas depois de um alguns segundos eu me acostumar com isso, e ouço Nita quando ela diz: — Por aqui! Quer uma bebida? Estou prestes a responder quando alguém corre para o quarto. Ele é pequeno, e a camiseta que usa é dois tamanhos maiores que o dele. Ele gesticula para os músicos pararem de tocar, e eles o fazem, apenas o tempo suficiente para ele a gritar: — É hora do veredicto! Metade da sala se levanta e corre para a porta. Dou a Nita um olhar interrogativo, e ela franze a testa, criando um vinco na testa. — Veredicto de quem? — pergunto. — De Marcus, sem dúvida — ela responde. E eu estou correndo. +++ Corro de volta para o túnel, encontrando os espaços abertos entre as pessoas e empurrando o meu caminho quando não há nenhum.


Nita corre nos meus calcanhares, gritando para eu parar, mas não posso parar. Estou separado deste lugar, dessas pessoas e do meu próprio corpo, e além disso, eu sempre fui um bom corredor. Subo três degraus de cada vez, segurando o corrimão para me equilibrar. Não sei pelo que estou tão ansioso – a condenação de Marcus? Sua exoneração? Espero que Evelyn o considere culpado e o execute, ou quero que ela o poupe? Não sei dizer. Para mim, ambos os resultados parecem o mesmo. Tudo é sobre Marcus sendo mau ou falso, tudo é sobre Evelyn sendo má ou falsa. Eu não tenho que me lembrar onde a sala de controle fica, porque as pessoas no corredor me levam a ela. Quando chego lá, empurro o meu caminho até a frente da multidão e lá est��o eles, os meus pais, mostrados na metade das telas. Todo mundo se afasta de mim, sussurrando, exceto Nita, que está ao meu lado, recuperando o fôlego. Alguém aumenta o volume para que todos possamos ouvir suas vozes. Elas crepitam, distorcidas pelos microfones, mas conheço a voz do meu pai, posso ouvi-lo mudar em certos momentos, elevarse em todos os lugares corretos. Eu quase posso prever suas palavras antes de ele falar. — Você levou o seu tempo — diz ele, sarcástico. — Saboreando o momento? Eu endureço. Este não é o falso Marcus. Esta não é a pessoa que a cidade conhece como meu pai, o líder paciente e calmo da Abnegação que nunca faria mal a ninguém, muito menos ao seu próprio filho ou esposa. Este é o homem que deslizou seu cinto da calça e envolveu-o em torno de seus dedos. Este é o Marcus que conheço melhor, e a visão, como em minha paisagem medo, me transforma em uma criança. — Claro que não, Marcus — minha mãe responde. — Você tem servido bem esta cidade por muitos anos. Esta não é uma decisão que eu ou qualquer um dos meus conselheiros tomou levianamente. Marcus não está vestindo sua máscara, mas Evelyn está usando a dela. Ela soa tão genuína que quase me convence.


— Eu e os ex-representantes das facções tínhamos muito a considerar. Seus anos de serviço, a lealdade que você tem inspirado entre os membros de sua facção, meus sentimentos remanescentes por você como meu ex-marido... Eu bufar. — Eu ainda sou o seu marido — diz Marcus. — A Abnegação não permite o divórcio. — Eles permitem nos casos de maus-tratos — Evelyn responde, e sinto a mesma sensação de idade novamente, o vazio e o peso. Não posso acreditar que ela acabou de admitir isso em público. Mas então, ela agora quer que as pessoas da cidade vejam-na de uma certa maneira, não como a mulher sem coração que assumiu o controle de suas vidas, mas como a mulher que Marcus atacou com o seu poder, o segredo que ele ocultou atrás de uma casa limpa e roupas cinza. Eu sei, então, qual será o resultado. — Ela vai matá-lo — eu falo. — A verdade é — diz Evelyn, quase docemente — que cometeu crimes hediondos contra esta cidade. Você enganou crianças inocentes, arriscando suas vidas para seus propósitos. Sua recusa em seguir as minhas ordens e a de Tori Wu, a ex-líder da Audácia, resultou em inúmeras mortes no ataque à Erudição. Você traiu seus iguais por não fazer o que combinamos e por não lutar contra Jeanine Matthews. Você traiu a sua própria facção, revelando o que era suposto ser um segredo guardado. — Eu não... — Eu não estou acabei. Dada a sua folha de serviços a esta cidade, decidimos uma solução alternativa. Você não vai, ao contrário dos outros representantes das antigas facções, ser perdoado e ter permissão para ser consultado sobre questões relativas a esta cidade. Nem vai ser executado como traidor. Em vez disso, você vai ser enviado para fora da cerca, além do posto da Amizade, e não terá permissão para retornar. Marcus parece surpreso. Eu não o culpo. — Parabéns — diz Evelyn. — Você tem o privilégio de começar


de novo. Eu deveria me sentir aliviado, que meu pai não vai ser executado? Irritado, que cheguei tão perto de finalmente escapar dele, mas ele ainda estará neste mundo, ainda vai pairar sobre a minha cabeça? Eu não sei. Eu não sinto nada. Minhas mãos ficam dormentes, então sei que eu estou entrando em pânico, mas eu realmente não o sinto, não do jeito sinto normalmente. Estou impressionado com a necessidade de estar em outro lugar, então eu viro e deixo meus pais, Nita e a cidade onde vivi uma vez para trás.


Capítulo 21 Tris Eles anunciaram o exercício de ataque para a manhã, pelo intercomunicador, durante o café da manhã. A estridente voz feminina nos instrui a fechar as portas do quarto onde estamos, cobrir as janelas e

sentar-nos em silêncio até os alarmes pararem. — Terminará ao final de uma hora — diz ela. Tobias parece desgastado e pálido, com olheiras sob os olhos. Ele pega um muffin e puxa pedaços pequenos, às vezes os come, às vezes se esquece. A maioria de nós acordou tarde, às dez da manhã, suspeito que foi porque não havia razão para acordar cedo. Quando saímos da cidade, perdemos nossas facções, nosso senso de propósito. Aqui não há nada a fazer a não ser esperar que algo aconteça, e longe de me fazer sentir relaxada, me deixa nervosa e tensa. Estou acostumada a ter algo para fazer, algo porque lutar, o tempo todo. Eu tento me lembrar de relaxar. — Eles nos levaram em um avião ontem — eu digo a Tobias. — Onde você estava? — Eu só tinha que andar por aí. Coisas a processar — ele soa conciso, irritado. — Como foi? — Incrível, na verdade — sento-me em frente a ele, de modo que nossos joelhos se tocam no espaço entre as nossas camas. — O mundo é... muito maior do que eu pensava que fosse. Ele balança a cabeça. — Eu provavelmente não teria gostado. Altura e tudo mais. Eu não sei por que, mas a reação dele me decepciona. Quero que ele diga que desejava ter ido lá comigo, experimentar comigo. Ou pelo menos me perguntar o que quero dizer quando digo que era incrível. Mas tudo o que ele pode falar é que ele não teria gostado? — Você está bem? Parece que mal dormiu.


— Bem, ontem foram muitas revelações — ele responde, apoiando a testa nas mãos. — Você não pode realmente me culpar por estar chateado com isso. — Quero dizer, você pode ficar preocupado com o que quiser — eu digo, franzindo a testa — na minha perspectiva, no entanto, não parece haver muito com o que se chatear. Sei que é um choque, mas como eu disse, você ainda é a mesma pessoa que era ontem e no dia anterior, não importa o que essas pessoas digam sobre isso. Ele balança a cabeça. — Eu não estou falando sobre os meus genes. Estou falando sobre Marcus. Você realmente não sabe, não é? A questão é acusatória, mas seu tom não. Ele se levanta para lançar seu muffin no lixo. Me sinto com raiva e frustrada. Claro que eu sabia sobre Marcus. O nome dele estava zumbindo ao redor da sala quando acordei. Mas por alguma razão, não achei que iria perturbá-lo saber que seu pai não seria executado. Aparentemente, eu estava errada. Não ajuda que os alarmes soem naquele exato momento, me impedindo de dizer qualquer outra coisa para ele. Eles são altos, gritantes, tão dolorosos de ouvir que eu mal consigo pensar, muito menos me movimentar. Mantenho uma mão apertada sobre minha orelha e deslizo a outra mão debaixo do travesseiro para pegar a tela com o diário da minha mãe. Tobias tranca a porta e puxa as cortinas fechadas, e todo mundo se senta em seus catres. Cara envolve um travesseiro na cabeça. Peter apenas se senta com as costas contra a parede, os olhos fechados. Eu não sei onde Caleb está – pesquisando qualquer coisa que o deixou tão distante ontem, provavelmente – ou onde Christina e Uriah estão – explorando o complexo, talvez. Ontem depois da sobremesa, eles pareciam determinados a descobrir todos os cantos do lugar. Decidi descobrir os pensamentos da minha mãe em vez disso – ela escreveu várias coisas sobre suas primeiras impressões do complexo, a estranha limpeza do lugar, como todo mundo sorria o tempo todo, o modo que ela caiu de amores pela cidade ao vê-la da sala de controle.


Eu ligo a tela, esperando para me distrair do barulho. Hoje eu me ofereci para ir para dentro da cidade. David disse que os Divergente estão morrendo e alguém tem que impedir, porque isso é um desperdício do nosso melhor material genético. Acho que é uma maneira muito doentia de colocá-lo, mas David não quis dizer isso – apenas significa que se não fosse a morte dos Divergentes, ele não interviria até que chegasse a um certo nível de destruição, mas uma vez que são eles, uma atitude tem que ser tomada agora. Apenas alguns anos, disse ele. Tudo o que tenho aqui são alguns amigos, sem família, e eu sou jovem o bastante para ser fácil de me inserir – basta limpar e reinicializar as lembranças de algumas pessoas, e eu estou dentro. Eles vão me colocar na Audácia primeiro, porque eu já tenho tatuagens, e seria difícil explicar para as pessoas dentro do experimento. O único problema é que na minha Cerimônia de Escolha no próximo ano eu vou ter que me juntar à Erudição, porque é aí que o assassino está, e não tenho certeza se sou inteligente o suficiente para passar pela iniciação. David diz que não importa, ele pode alterar os meus resultados, mas sei que ele se sente mal. Mesmo que o Centro ache que as facções não significam nada, que são apenas um tipo de modificação comportamental que vai ajudar com a deficiência, as pessoas acreditam que significam, e ele se sente mal por brincar com seu sistema. Vi-os por um par de anos, então não há muito que eu precise saber para me encaixar lá dentro. Aposto que conheço a cidade melhor do que eles, neste momento. Vai ser difícil enviar minhas atualizações – alguém pode notar que estou conectando um servidor remoto em vez de um servidor interno, portanto, minhas entradas provavelmente virão com menos frequência, se ainda houver. Vai ser difícil me separar de tudo o que conheço, mas talvez seja bom. Talvez seja um novo começo. Eu realmente poderia aproveitar isso.


É muito para assimilar, mas encontro-me a reler a frase: O único problema é que na minha Cerimônia de Escolha no próximo ano eu vou ter que me juntar à Erudição, porque é aí que o assassino está. Eu não sei a que assassino ela está se referindo – o antecessor de Jeanine Matthews, talvez – mas mais confuso ainda do que isso é que ela não se juntou à Erudição. O que aconteceu para fazê-la escolher Abnegação em vez disso? Os alarmes param, e os meus ouvidos soam abafados na sua ausência. Os outros vão saindo lentamente, mas Tobias permanece por um momento, batendo os dedos contra a perna. Eu não falo com ele – não sei se quero ouvir o que ele tem a dizer agora, quando nós dois estamos no limite. Mas tudo o que ele diz é: — Posso te beijar? — Sim — eu respondo, aliviada. Ele se abaixa e toca meu rosto, então me beija suavemente. Bem, ele sabe como melhorar o meu humor, pelo menos. — Eu não pensei sobre Marcus. Sei que eu deveria ter pensado — eu digo. Ele encolhe os ombros. — Agora acabou. Eu sei que não acabou. Nunca está terminado com Marcus; os erros que ele cometeu são muito grandes. Mas eu não pressiona a questão. — Mais entradas do diário? — Sim. Apenas algumas memórias do complexo até agora. Mas está ficando interessante. — Bom — diz ele — vou deixar você com ele. Ele sorri um pouco, mas posso dizer que ele ainda está cansado, ainda chateado. Eu não tento impedi-lo de ir. Assim, parece que estamos deixando o outro para a própria tristeza – a dele pela perda de sua Divergência e tudo o que o espera depois do julgamento de Marcus, e a minha, finalmente, pela perda de meus pais.


Eu toco a tela para ler a próxima entrada. Caro David, Eu levanto minhas sobrancelhas. Agora ela está escrevendo para David? Caro David, Sinto muito, mas não vai acontecer do jeito que planejei. Eu não posso fazê-lo. Sei que você apenas vai pensar que estou sendo uma adolescente estúpida, mas esta é a minha vida e se vou ficar aqui por anos, tenho que fazer do meu jeito. Eu ainda vou ser capaz de fazer o meu trabalho de fora da Erudição. Assim, amanhã na Cerimônia de Escolha, Andrew e eu vamos escolher Abnegação juntos. Espero que você não fique com raiva. Acho que mesmo que fique, não vou ouvi-lo sobre isso. – Natalie Eu li o arquivo de novo e de novo, deixando as palavras afundarem Andrew e eu vamos escolher Abnegação juntos. Eu sorrio, inclinando a cabeça contra a janela, e deixo que as lágrimas caiam em silêncio. Meus pais realmente se amaram. O suficiente para abandonar planos e facções. O suficiente para desafiar “facção antes do sangue” – amor antes de facção, sempre. Eu desligo a tela. Não quero ler alguma coisa que vá estragar esse sentimento: que estou à deriva águas calmas. É estranho, apesar de que eu devesse estar de luto, sinto que estou realmente recolhendo pedaços dela, palavra por palavra, linha por linha.


Capítulo 22 Tris Só há apenas mais uma dúzia de entradas no arquivo, e eles não me contam tudo o que quero saber, apenas me trazem mais perguntas. E, em vez de conter apenas seus pensamentos e impressões, todos foram escritos para alguém. Caro David, Pensei que você fosse mais meu amigo do que meu supervisor, mas acho que eu estava errada. O que acha que aconteceria quando eu chegasse aqui, que eu viveria solteira e sozinha para sempre? Que eu não iria me apegar a alguém? Que eu não faria nenhuma das minhas próprias escolhas? Deixei tudo para trás para vir aqui quando ninguém mais queria. Você deveria estar me agradecendo em vez de me acusar de perder minha missão de vista. Entendamos isso: eu não vou esquecer por que estou aqui só porque escolhi Abnegação e vou me casar. Eu mereço ter uma vida própria. Uma que eu escolha, não aquela que você e o Centro escolhem para mim. Você deve saber tudo sobre isso – deve entender por que esta vida me atrai depois de tudo o que vi e passei. Honestamente, eu realmente não acho que você se importa que eu não escolhi Erudição como deveria. Parece que você está na verdade com inveja. E se quiser que eu continue com a atualização, vai desculpas por duvidar de mim. Mas se não fizer isso, não vou lhe enviar mais nada, e certamente não vou mais


deixar a cidade para mais visitas. Cabe a você. – Natalie Eu me pergunto se ela estava certa sobre David. O pensamento traz uma comichão em minha mente. Ele estava realmente com ciúmes do meu pai? Será que o seu ciúme desapareceu ao longo do tempo? Eu só posso ver a relação pelos olhos dela, e não estou certa de que ela é a fonte mais precisa de informações sobre ele. Posso dizer que ela está ficando mais velha durante as anotações, sua linguagem se tornando mais refinada enquanto o tempo a separa da fronteira onde ela viveu, suas reações se tornando mais moderadas. Ela está crescendo. Eu verifico a data na próxima entrada. É alguns meses depois, mas não é dirigida a David como algumas das outras. O tom é muito diferente – pouco familiar, mais simples. Eu toco a tela, folheando as entradas. Leva-me dez toques para alcançar uma entrada que é dirigida a David novamente. A data da entrada sugere que se tratava de uma comunicação de dois anos mais tarde. Caro David, Recebi sua carta. Entendo por que você não pode mais receber as atualizações, e vou respeitar a sua decisão, mas sentirei sua falta. Desejo-lhe toda a felicidade. – Natalie Eu tento passar para frente, mas as entradas do diário terminaram. O último documento no arquivo é um certificado de morte. A causa da morte diz múltiplos ferimentos de bala no torso. Eu balanço um pouco para frente e para trás, para dissipar a imagem de sua queda na rua na minha mente. Não quero pensar em sua morte. Quero saber mais sobre ela e meu pai, e ela e David. Qualquer coisa que me distraia de sua morte. +++


É um sinal de como estou desesperada por informações – e por ação – que eu vá para a sala de controle com Zoe mais tarde naquela manhã. Ela fala com o gerente da sala de controle sobre uma reunião com David enquanto eu olho, determinada, para meus pés, não querendo ver o que está nas telas. Sinto que se eu me permitir olhar para elas, mesmo que por um momento, vou tornar-me viciado nelas, perdida no velho mundo, porque eu não sei como navegar neste novo. Quando Zoe termina a conversa, porém, não consigo manter minha curiosidade sob controle. Eu olho para a grande tela que paira sobre as mesas. Evelyn está sentada em sua cama, passando as mãos sobre algo em sua mesa de cabeceira. Chego mais perto para ver o que é, e a mulher no balcão a minha frente diz: — Esta é a câmera de Evelyn. Nós a rastreamos vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. — Você pode ouvi-la? — Só se aumentar o volume — a mulher responde. — Nós mantemos o som baixo, no entanto. É complicado ouvir muita conversa o dia todo. Concordo com a cabeça. — O que ela está tocando? — Algum tipo de escultura, eu não sei — a mulher dá de ombros. — Ela olha muito para o objeto, no entanto. Reconheço-o de algum lugar – do quarto de Tobias, onde eu dormi depois da minha quase execução na sede da Erudição. É feito de vidro azul, uma forma abstrata que se parece com água caindo congelada no tempo. Toco os dedos em meu queixo enquanto procuro em minha memória. Ele me disse que Evelyn lhe deu quando ele era jovem, e instruiu-o a escondê-lo de seu pai, que não aprovaria um belo objeto sem utilidade, sendo que era da Abnegação. Não pensei muito nisso no momento, mas deve significar algo para ela, se ela trouxe-o por todo o caminho do setor da Abnegação à sede da Erudição para manter em sua mesa de cabeceira. Talvez fosse a


sua maneira de se rebelar contra o sistema de facções. Na tela, Evelyn apoia o queixo na mão e olha para a escultura por um momento. Depois ela se levanta, balança as mãos e sai da sala. Não, não acho que a escultura é um sinal de rebelião. Acho que é apenas uma lembrança de Tobias. De alguma maneira, nunca percebi que quando Tobias saiu da cidade comigo, ele não era apenas um rebelde que desafia o seu líder – era um filho abandonando sua mãe. E ela está sofrendo com isso. E ele? Repleta de dificuldades como a relação deles sido, esses laços nunca se quebraram. Eles provavelmente não podem. Zoe toca meu ombro. — Você queria me perguntar alguma coisa? Concordo com a cabeça e me afasto das telas. Zoe era jovem na fotografia onde estava ao lado da minha mãe, mas ela ainda estava lá, então acho que deve saber alguma coisa. Eu teria perguntado a David, mas como o líder do Centro, ele é difícil de se encontrar. — Eu queria saber sobre os meus pais. Estou lendo o diário dela, e acho que está sendo difícil decifrar como eles se conheceram, ou porque eles escolheram a Abnegação juntos. Zoe acena lentamente. — Eu vou te dizer o que sei. Se importaria de andar comigo até os laboratórios? Preciso entregar uma mensagem a Matthew. Ela segura as mãos atrás das costas, descansando-os na parte inferior da sua coluna vertebral. Eu ainda estou segurando a tela que David me deu. Está toda marcada com as minhas impressões digitais, e quente do meu toque constante. Entendo porque Evelyn se mantém tocando aquela escultura – é a última peça do seu filho que ela tem, assim como esta é a última parte de minha mãe que eu tenho. Me sinto mais perto dela quando ela está comigo. Acho que é por isso que eu não posso dar a Caleb, mesmo que ele tenha o direito de vê-la. Eu não tenho certeza se posso deixá-la ir ainda. — Eles se conheceram em uma aula — Zoe conta. — Seu pai, embora um homem muito inteligente, nunca teve o dom da psicologia, e o professor – um Erudito, sem surpresa – era duro


demais com ele por isso. Portanto, sua mãe se ofereceu para ajudálo depois da escola, e ele disse a seus pais que estava fazendo algum tipo de projeto escolar. Eles fizeram isso por várias semanas, e depois começaram a se encontrar em segredo – acho que um dos seus lugares favoritos era a fonte sul do Parque Millennium. Fonte Buckingham? Bem ao lado do pântano? Imagino minha mãe e meu pai sentados ao lado de uma fonte, sob o jato de água, com os pés roçando o fundo de concreto. Sei que a fonte a Zoe está se referindo não está em uso há muito tempo, que a água jorrando nunca esteve lá, mas a imagem é mais bonita assim. — A Cerimônia de Escolha estava se aproximando, e seu pai estava ansioso para deixar a Erudição porque ele viu algo terrível... — O quê? O que ele viu? — Bem, seu pai era um bom amigo de Jeanine Matthews. Viu-a fazer experiências em um homem sem facção em troca de algo – comida ou roupa, algo assim. Enfim, ela estava testando o soro da indução do medo, que foi mais tarde incorporado à iniciação da Audácia. Há muito tempo, as simulações de medo não eram geradas por medos individuais de uma pessoa, você vê, apenas medos gerais como altura, aranhas ou alguma coisa assim – e Norton, o representante da Erudição, estava lá, permitindo que isso continuasse por tempo demais. O homem sem facção nunca mais voltou a ficar completamente bem. E essa foi a gota d’água'água para o seu pai. Ela faz uma pausa em frente à porta dos laboratórios para abri-la com o seu crachá de identificação. Entramos no encardido escritório onde David me deu o diário de minha mãe. Matthew está sentado com seu nariz de três centímetros na tela de seu computador, os olhos apertados. Ele mal registra a nossa presença quando andamos para dentro. Sinto-me oprimida pelo desejo de sorrir e chorar ao mesmo tempo. Sento-me em uma cadeira ao lado da mesa vazia, minhas mãos entrelaçadas entre os joelhos. Meu pai era um homem difícil. Mas


ele também era uma pessoa boa. — Seu pai queria sair da Erudição, e sua mãe não queria entrar, não importa qual fosse a sua missão – mas ela ainda queria estar perto de Andrew, então eles escolheram Abnegação juntos — ela faz uma pausa. — Isso causou uma quebra entre sua mãe e David, como tenho certeza que você percebeu. Ele finalmente pediu desculpas, mas disse que não poderia mais receber as atualizações dela – eu não sei por que, ele não diria – e depois os relatórios eram muito curtos, bem informativos. É por isso que eles não estão nesse arquivo. — Mas ela ainda foi capaz de cumprir a sua missão na Abnegação. — Sim. E ela foi muito mais feliz lá, eu acho, do que teria sido entre a Erudição — Zoe diz. — Claro, Abnegação acabou por não ser melhor, em alguns aspectos. Parece que não há como escapar do alcance da deficiência genética. Mesmo a liderança da Abnegação foi envenenado por ele. Eu franzo a testa. — Você está falando de Marcus? Porque ele é Divergente. Dano genético não tem nada a ver com ele. — Um homem cercado por pessoas geneticamente deficientes não pode deixar de imitá-las com seu próprio comportamento — diz Zoe. — Matthew, David quer marcar uma reunião com seu supervisor para discutir um dos soros desenvolvimentos. Da última vez Alan esqueceu completamente sobre isso, então eu queria saber se você poderia acompanhá-lo. — Claro — Matthew responde, sem olhar para longe de seu computador. — Vou levá-lo para me dar um tempo. — Adorável. Bem, eu tenho que ir – espero ter respondido sua pergunta, Tris. Ela sorri para mim enquanto fecha a porta entre nós. Sento-me curvada, com os cotovelos sobre os joelhos. Marcus era Divergente – geneticamente puro, assim como eu. Mas não aceito que ele fosse uma pessoa má porque estava cercado por pessoas geneticamente deficientes. Eu estava na mesma situação. Uriah também. Assim como minha mãe. Mas nenhum de nós atacou


nossos entes queridos. — O argumento dela tem alguns furos, não? — Matthew comenta. Ele está me olhando de trás da sua mesa, batendo com os dedos no braço da cadeira. — Sim. — Algumas das pessoas daqui querem culpar a alteração genética por tudo — diz ele. — É mais fácil para eles aceitar isso do que a verdade, razão pela qual não podem sabem tudo sobre as pessoas e por que elas agem da maneira que agem. — Todo mundo tem que culpar algo pela forma como o mundo é — eu digo. — Para o meu pai era a Erudição. — Eu provavelmente não deveria lhe dizer que a Erudição sempre foi o meu favorito, então — Matthew fala, sorrindo um pouco. — Sério? — Eu endireito. — Por quê? — Eu não sei, acho que concordo com eles. Se todo mundo apenas continuasse a aprender sobre o mundo em torno de si, teriam muito menos problemas. — Eu tenho sido cuidadosa com eles toda a minha vida — falo, descansando meu queixo na mão. — Meu pai odiava a Erudição, então aprendi a odiá-los também, e tudo o que fizeram com o seu tempo. Só que agora estou pensando ele estava errado. Ou apenas... tendencioso. — Sobre a Erudição ou sobre a aprendizagem? Eu dou de ombros. — Ambos. Muitos dos integrantes da Erudição me ajudaram mesmo quando eu não pedi — Will, Fernando, Cara – todos Eruditos, algumas das melhores pessoas que conheci, mesmo que brevemente. — Eles estavam tão focados em tornar do mundo um lugar melhor — balanço a cabeça. — O que Jeanine fez não tem nada a ver com uma sede de conhecimento que conduz a uma sede de poder, como o meu pai dizia; tinha tudo a ver com ela estando aterrorizada de quão grande o mundo é quão impotente isso a deixava. Talvez a Audácia tivesse razão. — Há uma velha frase — diz Matthew. — Conhecimento é poder. Poder para fazer o mal, como Jeanine... ou poder para fazer o bem,


como o que estamos fazendo. O poder em si não é o mal. Assim, o conhecimento em si não é mau. — Acho que eu cresci suspeitando de ambos. Poder e conhecimento. Para a Abnegação, o poder só deve ser administrado pelas pessoas que não o querem. — Há algo bom nisso — diz Matthew. — Mas talvez seja a hora de deixar essa suspeita para trás. Ele procura sob a mesa e tira um livro. É grosso, com uma capa gasta e bordas desgastadas. Nele está impresso BIOLOGIA HUMANA. — É um pouco rudimentar, mas este livro ajudou a me ensinar o que é ser humano. Ser uma peça de maquinaria biológica tão complicada e misteriosa, e mais surpreendente ainda, ter a capacidade de analisar essa máquina! Isso é uma coisa especial, sem precedentes em toda a evolução história. A nossa capacidade de conhecer a nós mesmos e ao mundo é o que nos torna humanos. Ele me entrega o livro e se volta para o computador. Olho para a capa gasta e passo os meus dedos pelas bordas das páginas. Ele faz com que a aquisição de conhecimento pareça com um segredo, algo bonito e antigo. Sinto que, se eu ler este livro, posso voltar por todas as gerações da humanidade até a primeira, quando era o que era – que posso participar de algo muitas vezes maior e mais velho do que eu. — Obrigada — eu digo, e não é pelo livro. É por me dar algo de volta, algo que eu perdi antes mesmo de realmente tê-lo. +++ O lobby do hotel cheira a limão adocicado e água sanitária, uma combinação acre que queima minhas narinas quando respiro. Passo por um vaso de planta com uma flor berrante desabrochando entre os seus ramos e vou em direção ao dormitório, que se tornou nosso lar temporário aqui. Enquanto ando, limpo a tela com a barra da minha camisa, tentando livrar-me de algumas das minhas impressões digitais.


Caleb está sozinho no dormitório, seu cabelo despenteado e seus olhos vermelhos de sono. Ele pisca para mim quando entro e atiro o livro de biologia na minha cama. Sinto uma dor nauseante no meu estômago e pressiono a tela com o arquivo da nossa mãe em minha lateral. Ele é filho dela. Tem o direito de ler seu diário, assim como você. — Se você tem algo a dizer — ele fala — apenas diga. — Mamãe viveu aqui — eu falo como um segredo há muito escondido, muito alto e muito rápido. — Ela veio da fronteira e foi trazida aqui, e morou aqui um par de anos, depois foi para a cidade para impedir a Erudição de matar o Divergentes. Caleb pisca para mim. Antes que eu perca a coragem, ergo a tela para ele pegar. — O arquivo dela está aqui. Não é muito tempo, mas você deve lê-lo. Ele se levanta e fecha a mão em volta do vidro. Ele está muito mais alto do que costumava ser, bem mais alto do que eu. Por alguns anos, quando éramos crianças, eu era a mais alta, mesmo que fosse quase um ano mais nova. Esses foram alguns dos nossos melhores anos, aqueles em que eu não me sentia como se ele fosse maior, melhor, mais inteligente ou mais altruísta que eu. — Há quanto tempo você sabe disso? — ele pergunta, estreitando os olhos. — Isso não importa — dou passo para trás. — Estou dizendo a você agora. Pode ficar com isso, de qualquer maneira. Terminei com isso. Ele limpa a tela com a manga e navega com dedos hábeis pela primeira entrada da nossa mãe. Espero que ele se sente e leia, terminando assim a conversa, mas ao invés disso ele suspira. — Eu tenho algo para lhe mostrar, também. Acerca de Edith Prior. Vamos. É o nome dela, não meu apego a ele, que me faz segui-lo quando ele se afasta. Ele me leva para fora do dormitório para o corredor e virando algumas curvas até uma sala mais distante de qualquer que já vi no


complexo do Centro. Ela é longa e estreita, as paredes cobertas de prateleiras que carregam livros azul acinzentados idênticos, grossos e pesados como dicionários. Entre as duas primeiras fileiras está uma longa mesa de madeira com cadeiras dobradas sob ela. Caleb aciona o interruptor e a luz pálida enche o quarto, lembrando-me da sede da Erudição. — Eu tenho passado muito tempo aqui — diz ele. — É a sala de gravação. Eles mantêm algumas dos dados do experimento de Chicago aqui. Ele caminha ao longo das prateleiras do lado direito da sala, correndo os dedos sobre as lombadas. Pega um dos volumes e o coloca sobre a mesa, abrindo-o, suas páginas cobertas de texto e fotos. — Por que eles não mantêm tudo isso em computadores? — Suponho que eles mantiveram esses registros antes de desenvolverem um sistema de segurança sofisticado em sua rede — ele explica, sem olhar para cima — os dados nunca desaparecem totalmente, mas o papel pode ser destruído para sempre, então você pode realmente se livrar dele, se não quiser que as pessoas erradas coloquem as mãos sobre ele. É mais seguro, às vezes, ter tudo impresso. Seus olhos verdes se movem enquanto ele procura o lugar certo, seus dedos ágeis, feitos para virar páginas. Eu penso em como ele disfarçou parte de si mesmo, os livros escondidos entre a cabeceira e a parede em nossa casa na Abnegação, até que deixou cair o sangue na água da Erudiçã no dia da nossa Cerimônia de Escolha. Eu deveria saber, então, que ele era um mentiroso, com lealdade apenas para si mesmo. Sinto essa dor nauseante novamente. Mal posso suportar ficar aqui com ele, as portas fechadas, nada mais que a mesa entre nós. — Ah, aqui. Ele toca o dedo numa página, em seguida, gira o livro para me mostrar. Parece a cópia de um contrato, mas é escrito à mão com tinta:


Eu, Amanda Marie Ritter, de Peoria, Illinois, dou o meu consentimento para os seguintes procedimentos: • O procedimento de “cura genética”, como definido pelo Centro de Bem-Estar Genético: “o procedimento de engenharia genética concebido para corrigir os genes específicos como” deficientes” na página três deste formulário. • O “procedimento de reinicialização”, como definido pelo Centro de Bem-Estar Genético: “um procedimento para apagar a memória projetado para tornar o participante mais apto para o experimento”. Declaro que fui exaustivamente instruída quanto aos riscos e benefícios destes procedimentos por um membro do Centro de Bem-Estar Genético. Entendo que isso significa que receberei novos antecedentes e uma nova identidade pelo Centro e serei inserida no experimento em Chicago, Illinois, onde vou viver o resto dos meus dias. Concordo em reproduzir pelo menos duas vezes para dar aos meus genes corrigidos a melhor chance possível de sobrevivência. Entendo que serei incentivada a fazer isso quando for reeducada após o procedimento de reinicialização. Também dou o meu consentimento para os meus filhos e os filhos dos meus filhos, etc, continuarem neste experimento até o momento que o Centro de Bem-Estar Genético considerar estar completo. Eles vão ser instruídos pela falsa história que me será dada depois do procedimento de reinicialização. Assinado, Amanda Marie Ritter Amanda Marie Ritter. Ela era a mulher no vídeo, Edith Prior, minha antepassada. Eu olho para Caleb, que tem os olhos acesos de conhecimento, como se houvesse um fio que atravessa cada um deles. Nossa ancestral. Puxo uma das cadeiras e me sento. — Ela era antepassada do papai?


Ele balança a cabeça e senta-se em frente a mim. — Sete gerações antes, sim. Uma tia. Seu irmão é quem nos deu o nome Prior. — E isto é... — É um termo de consentimento — diz ele. — Seu formulário de consentimento para a adesão ao experimento. As notas dizem que este foi apenas um primeiro esboço – ela foi uma das criadoras dos experimentos originais. Um membro do Centro. Havia apenas alguns membros do Centro no experimento original, a maioria das pessoas lá não estava trabalhando para o governo. Eu leio as palavras de novo, tentando dar sentido a elas. Quando a vi no vídeo, parecia tão lógico que ela fosse se tornar uma residente de nossa cidade, que ela mergulharia em nossas facções, iria oferecer-se para deixar tudo para trás. Mas isso foi antes de eu saber como era a vida fora da cidade, e não parece tão horrível como o que Edith descreveu em sua mensagem para nós. Ela fez uma hábil manipulação no vídeo, que foi planejado para nos manter contidos e dedicados à visão do Centro – o mundo fora da cidade está terrivelmente destroçado, e os Divergentes precisam vir aqui e curá-lo. Não é bem uma mentira, porque as pessoas do Centro acreditam que genes curados corrigirão certas coisas, que se nos integrarmos na população em geral e passar nossos genes, o mundo será um lugar melhor. Mas eles não precisam dos Divergentes para marchar para fora da nossa cidade como um exército e lutar contra a injustiça e salvar a todos, como Edith sugeriu. Eu me pergunto se Edith Prior acreditava em suas próprias palavras, ou se ela apenas disse o que tinha que dizer. Há uma fotografia dela na página seguinte, sua boca em uma linha firme, mechas de cabelo castanho penduradas em torno de seu rosto. Ela deve ter visto algo terrível para se oferecer para ter a memória apagada e toda a sua vida refeita. — Você sabe por que ela se juntou? Caleb balança a cabeça. — Os registros sugerem – embora sejam bastante vagos nesta frente – que as pessoas se juntaram ao experimento para que seus


familiares pudessem escapar da pobreza extrema – às famílias dos voluntários foi oferecido um salário mensal, durante dez anos. Mas, obviamente, essa não era a motivação de Edith, uma vez que ela trabalhou para o FBI. Suspeito que algo muito traumático tenha acontecido com ela, algo que ela estava determinada a esquecer. Eu franzo a testa para sua fotografia. Não posso imaginar que tipo de pobreza motivaria uma pessoa a se esquecer de si e de todos que amava para que sua família pudesse obter uma bolsa mensal. Talvez eu tenha vivido a pão e legumes da Abnegação pela maior parte da minha vida, sem nada a perder, mas nunca fui tão desesperada. A situação deve ter sido muito pior do que qualquer coisa que vi na cidade. Não posso imaginar por que Edith estava tão desesperada também. Ou talvez seja apenas por que ela não tinha ninguém para manter sua memória. — Eu estava interessado no precedente legal para dar o seu consentimento em nome de um dos descendentes — Caleb diz. — Acho que é uma extrapolação dar consentimento para os filhos menores de dezoito anos, mas parece um pouco estranho. — Acho que todos decidimos o destino dos nossos filhos apenas tomando nossas próprias decisões — eu digo vagamente. — Será que teríamos escolhido as mesmas facções que escolhemos se mamãe e papai não tivessem escolhido Abnegação? — encolho os ombros. — Eu não sei. Talvez a gente não teria se sentido tão preso. Talvez tivéssemos sido pessoas diferentes. O pensamento dá arrepios em minha mente como uma criatura rastejante – talvez a gente tivesse se tornado pessoas melhores. Pessoas que não traem suas próprias irmãs. Fico olhando para a mesa à minha frente. Nos últimos minutos, foi fácil fingir que Caleb e eu éramos apenas irmão e irmã novamente. Mas uma pessoa só pode manter a realidade – e a raiva – presa por um tempo antes que a verdade volte. Enquanto ergo os meus olhos para ele, penso apenas em encará-lo da forma que fiz quando ainda era uma prisioneira na sede da Erudição. Acho que estou


demasiada cansada para brigar com ele, ou para ouvir suas desculpas, também cansada demais para me importar que meu irmão tivesse me abandonado. Pergunto laconicamente: — Edith se juntou à Erudição, não foi? Mesmo que ela tenha um nome de Abnegação? — Sim! — Ele não pareceu notar o meu tom. — Na verdade, a maioria dos nossos antepassados era da Erudição. Alguns poucos foram da Abnegação, e um ou dois da Franqueza, mas a linha é bastante consistente. Eu sinto frio, como se pudesse tremer e, em seguida, passa. — Então suponho que você fez disso uma desculpa em sua mente distorcida pelo que fez — eu digo de forma constante. — Para ingressar na Erudição, para ser leal a eles. Quer dizer, se supõe que todo o tempo você foi um deles, “facção antes de sangue” é uma coisa aceitável para acreditar então, né? — Tris... — ele fala, e seus olhos me imploram para compreender, mas eu não entendo. Eu não vou. Eu me levanto. — Então, agora eu sei sobre Edith e você sabe sobre a nossa mãe. Bom. Vamos apenas deixar assim. Às vezes, quando olho para ele, sinto uma pontada de simpatia para com ele, e às vezes sinto como se quisesse apertar minhas mãos em torno de sua garganta. Mas agora eu só quero fugir, e fingir que isso nunca aconteceu. Saio da sala de registros e os meus sapatos rangem no chão de ladrilhos enquanto corro de volta para o hotel. Corro até eu sentir o doce cheiro cítrico, e depois eu paro. Tobias está de pé no corredor do lado de fora do dormitório. Estou sem fôlego, e posso sentir meu coração batendo até mesmo em meus dedos, estou oprimida, repleta de perda, admiração, raiva e saudade. — Tris — Tobias diz, com a testa franzida de preocupação. — Você está bem? Eu balanço minha cabeça, ainda lutando para respirar, e o


pressiono contra a parede com meu corpo, meus lábios encontrando o seu. Por um momento, ele tenta me empurrar para longe, mas, em seguida, deve decidir que não se importa se eu estou bem, não se importa se ele está bem, não se importa. Nós não estivemos sozinhos em dias. Semanas. Meses. Seus dedos deslizam em meu cabelo, e eu me seguro em seus braços para me manter firme enquanto nos pressionamos juntos como duas lâminas em um impasse. Ele é mais forte do que qualquer um que conheço, e mais quente do que ninguém percebe, ele é um segredo que eu tenho guardado e vou manter para o resto da minha vida. Ele se inclina e beija minha garganta, com força, e as suas mãos suaves estão em cima de mim, prendendo-se em minha cintura. Engancho meus dedos nas alças de seus jeans. Naquele momento sei exatamente o que quero, quero descascar todas as camadas de roupa entre nós, tirar tudo o que nos separa, do passado, do presente e do futuro. Ouço passos e risadas no final do corredor, e nos separamos. Alguém – provavelmente Uriah – assobia, mas eu mal posso ouvilo sobre o pulsar em meus ouvidos. Os olhos de Tobias encontram os meus, e é como a primeira vez que realmente olhei para ele durante a minha iniciação, depois da minha simulação medo; nos olhamos por tempo demais, com muita intensidade. — Cale a boca — digo para Uriah, sem olhar para ele. Uriah e Christina entram no dormitório, e Tobias e eu os seguimos como se nada tivesse acontecido.


Capítulo 23 Tobias De noite, quando minha cabeça cai no travesseiro, pesada com pensamentos, ouço algo se enrugar debaixo da minha bochecha. Há um bilhete em minha fronha. T– Encontre-me do lado de fora da entrada do hotel às onze. Preciso falar com você. – Nita Olho para a cama de Tris. Ela está deitada de costas, e há uma mecha de cabelo cobrindo seu nariz e boca, movendo-se a cada expiração. Não quero acordá-la, mas me sinto estranho indo me encontrar com uma menina no meio da noite sem contar a ela sobre isso. Especialmente agora que estamos tentando ser honestos um com o outro. Eu verifico o meu relógio. São 10:50. Nita é apenas uma amiga. Você pode dizer a Tris amanhã. Pode ser urgente. Empurro os cobertores para o lado e enfio os pés nos sapatos – durmo de roupa nos dias de hoje. Passo pelo catre de Peter, depois de Uriah. A parte superior de uma garrafa espreita sob o travesseiro de Uriah. Eu a pesco entre os dedos e a levo até a porta, onde deslizo-a debaixo do travesseiro de uma das camas vazias. Vou cuidar dele assim como prometi a Zeke que faria. Uma vez que estou no corredor, amarro meus cadarços e aliso meu cabelo para baixo. Parei de cortá-lo como a Abnegação quando quis que a Audácia me visse como um líder em potencial, mas sinto falta do ritual da velha forma, o zumbido do cortador e os movimentos cuidadosos de minhas mãos, sabendo mais pelo tato do que pela visão. Quando eu era jovem, meu pai costumava fazer isso no corredor do andar de cima da


nossa casa na Abnegação. Ele sempre era muito descuidado com a lâmina, e cortava a parte de trás do meu pescoço, ou pegava minha orelha. Mas nunca reclamou de ter que cortar meu cabelo para mim. Isso significa algo, penso. Nita está batendo o pé. Desta vez, ela veste uma camisa de manga curta branca, com o cabelo puxado para trás. Ela sorri, mas ele não chega aos olhos. — Você parece preocupada — eu digo. — É porque eu estou — ela responde. — Vamos lá, há um lugar que tenho vontade de te mostrar. Ela me leva pelos corredores escuros e vazios, exceto por um zelador ocasional. Eles todos parecem conhecer Nita – acenam para ela, ou sorriem. Ela coloca as mãos nos bolsos, guiando cuidadosamente seus olhos para longe de mim cada vez que acontece de nossos olhares se cruzarem. Passamos por uma porta sem um sensor de segurança para mantê-la bloqueada. A sala além dela é um amplo círculo com o centro marcado por um lustre de vidro. O piso é de madeira polida, escuro, e as paredes, cobertas de folhas de bronze, brilham onde a luz toca. Existem nomes inscritos nos painéis de bronze, dezenas de nomes. Nita está sob o lustre de vidro e mantém os braços abertos para abrangerem o espaço com seu gesto. — Estas são as árvores genealógicas Chicago — diz ela. — As árvores de família. Eu me aproximo de uma das paredes e leio os nomes, em busca de um que parece familiar. No final, acho um: Uriah Pedrad e Ezequiel Pedrad. Ao lado de cada nome está uma pequena inscrição “AA”, e há um ponto ao lado do nome de Uriah, e parece recém-esculpido. Marcando-o como divergente, provavelmente. — Você sabe onde está a minha? — pergunto. Ela atravessa a sala e toca um dos painéis. — As gerações são matrilineares. É por isso que os registros de Jeanine disseram que Tris era “segunda geração” – porque sua mãe veio de fora da cidade. Não sei como Jeanine sabia disso, e acho que nunca vamos descobrir. Abordo o painel que contém o meu nome com receio, embora eu não tenha certeza do que eu tenho a temer ao ver o meu nome e os nomes dos meus pais esculpidos em bronze. Vejo uma linha vertical conectando Kristin Johnson e Evelyn Johnson, e uma horizontal que liga Evelyn Johnson a


Marcus Eaton. Abaixo dos dois nomes está apenas um: Tobias Eaton. As letras pequenas ao lado de meu nome são “AA”, e há um ponto lá também, embora agora eu saiba que não sou realmente Divergente. — A primeira letra é a sua facção de origem — diz ela — e a segunda é a sua facção de escolha. Eles pensaram que manter o controle das facções iria ajudá-los rastrear o caminho dos genes. Letras da minha mãe: “EAS”. O “S” é para “sem facção”, presumo. Letras do meu pai: “AA”, com um ponto. Toco a linha que me liga a eles, e a linha que liga Evelyn a seus pais, e a linha que os conecta aos seus pais, todo o caminho de volta através de oito gerações, contando a minha. Isto é um mapa do que eu sempre soube, que estou preso a eles, para sempre ligado a esta herança vazia não importa o quão longe eu corro. — Mesmo que eu aprecie você me mostrando isso — falo, e soo triste e cansado — não sei por que teve que ser no meio da noite. — Pensei que você pode querer vê-lo. E tinha uma coisa que eu queria falar com você. — Mais garantias de que minhas limitações não me definem? — balanço a cabeça. — Não, obrigado, eu tive mais do que o suficiente. — Não. Mas fico feliz que tenha dito isso. Ela se inclina contra o painel, cobrindo o nome de Evelyn com o ombro. Dou um passo para trás, não querendo estar tão perto dela que eu possa ver o anel de marrom mais claro ao redor de suas pupilas. — Aquela conversa que tive com você ontem à noite, sobre deficiência genética... era na verdade um teste. Eu queria ver como você reagiria ao que eu falei sobre genes deficientes, para saber se eu podia confiar em você ou não. Se você aceitasse o que eu falei sobre as suas limitações, a resposta teria sido não — ela desliza um pouco mais para perto de mim, então esconde o nome de Marcus também. — Veja, eu realmente não estou de acordo sendo classificada como “deficiente”. Penso no jeito como ela cuspiu a explicação da tatuagem nas costas do vidro quebrado como se fosse veneno. Meu coração começa a bater mais forte, de modo que posso sentir minha pulsação na garganta. Amargura substitui o bom humor em sua voz, e seus olhos perdem o calor. Tenho medo dela, com medo do que ela diz – e estou emocionado por ela também, porque isso significa que eu não tenho que aceitar que sou menor do que uma vez acreditei.


— Acho que você não está de acordo também — diz ela. — Não. Eu não estou. — Há um monte de segredos neste lugar. Um deles é que, para eles, um GD é dispensável. Outro é que alguns de nós não vai apenas sentar e acatar. — O que quer dizer com “dispensável”? — Os crimes que têm cometido contra pessoas como nós são sérios — Nita fala — e estão escondidos. Posso mostrar-lhe provas, mas terá que ser mais tarde. Por enquanto, o que posso dizer é que estamos trabalhando contra o Centro, por boas razões, e queremos você com a gente. Eu estreito meus olhos. — Por quê? O que você quer de mim, exatamente? — Quero lhe oferecer uma oportunidade para ver como o mundo é fora do complexo. — E o que você recebe em troca é...? — pergunto. — Sua proteção. Estou indo para um lugar perigoso, e não posso contar a ninguém do Centro sobre isso. Você é alguém de fora, o que significa que é mais seguro para eu confiar em você, e sei que sabe como se defender. E se vir comigo, vou lhe mostrar as provas que quer ver. Ela toca o coração de leve, como se estivesse jurando. Meu ceticismo é forte, mas a minha curiosidade é mais. Não é difícil para eu acreditar que o Centro faria coisas ruins, porque cada governo que conheci fez coisas ruins, mesmo a oligarquia da Abnegação, da qual meu pai era chefe. E mesmo além dessa suspeita razoável, tenho borbulhando dentro de mim a esperança desesperada de que não estou deficiente, que valho mais do que os genes corrigidos que eu passarei para as crianças que eu poderia ter. Então decido seguir com isso. Por enquanto. — Tudo bem — falo. — Em primeiro lugar, antes de eu lhe mostrar qualquer coisa, você tem que aceitar que não poderá contar a qualquer um – mesmo Tris – sobre o que vir. Você está bem com isso? — Ela é confiável, você sabe — prometi a Tris que eu não esconderia mais segredos dela. Não devo entrar em situações em que vou ter que fazer isso de novo. — Por que não posso contar a ela? — Eu não estou dizendo que ela não é confiável. Só que ela não tem o conjunto de habilidades que precisamos, e não queremos colocar ninguém em risco que não seja necessário. Veja, o Centro não quer que a gente se organize. Se acreditarmos que não somos “deficientes”, então estamos dizendo que tudo o que eles estão fazendo – os experimentos, as alterações


genéticas, tudo isso – é um desperdício de tempo. E ninguém quer ouvir que o trabalho da sua vida é uma farsa. Eu entendo tudo isso – é como descobrir que as facções são um sistema artificial, projetado por cientistas para nos manter sob controle por tanto tempo quanto possível. Ela se empurra para longe da parede, e então fala a única coisa que poderia dizer para me fazer concordar: — Se você disser a ela, estaria privando-a da escolha que estou te dando agora. Você iria forçá-la a se tornar uma cúmplice. Ao manter isso em segredo, estaria protegendo-a. Corro os dedos sobre meu nome, esculpido no painel de metal. Tobias Eaton. Estes são os meus genes, esta é a minha bagunça. Não quero trazer Tris para ela. — Tudo bem. Mostre-me. +++ Vejo o feixe da lanterna subir e descer com seus passos. Nós apenas pegamos um saco de estopa no armário ao fundo do corredor – ela estava pronta. Ela me leva profundamente nos corredores subterrâneos do complexo, além do local onde os GDs se reúnem, para um corredor onde a eletricidade não flui. Em um determinado lugar, ela se agacha e desliza a mão ao longo do chão até que seus dedos alcançam um trinco. Ela me entrega a lanterna e puxa o trinco, levantando uma portinhola no azulejo. — É um túnel de fuga — diz ela. — Eles o escavaram quando se mudaram para cá no início, então haveria sempre uma maneira de escapar durante uma emergência. De sua bolsa, ela puxa um bastão preto e gira a tampa. Ele lança faíscas de luz que brilham vermelhas contra sua pele. Nita o solta pela passagem e ele cai alguns metros, deixando um rastro de luz em minhas pálpebras. Ela se senta na borda do buraco, a mochila presa ao redor de seus ombros, e pula. Sei que é apenas um caminho curto para baixo, mas parece mais com o espaço aberto debaixo de mim. Sento-me, a silhueta de meus sapatos escuros contra as faíscas vermelhas, e me empurro para a frente. — Interessante — Nita diz quando eu pouso. Eu levanto a lanterna, e ela mantém o bastão na frente dela enquanto caminhamos ao longo do túnel, que é apenas largo o suficiente para caminharmos lado a lado, e alto o bastante para me aprumar. Tem um odor


intenso e podre, como mofo e ar morto. — Esqueci você tem medo de altura. — Bem, eu não tenho medo de muita coisa. — Não há necessidade de ficar na defensiva! — Ela sorri. — Na verdade, eu sempre quis lhe perguntar sobre isso. Passo por cima de uma poça, a sola dos meus sapatos se aderindo no chão grudento do túnel. — Seu terceiro medo — diz ela. — Atirar naquela mulher. Quem era ela? As chamas vermelhas se apagam, de modo que a lanterna que estou segurando é o nosso único guia através do túnel. Movo meu braço para criar mais espaço entre nós, não querendo roçar seu braço no escuro. — Ela não era ninguém em particular — respondo. — O medo estava em atirar nela. — Você estava com medo de matar pessoas? — Não. Eu estava com medo da minha considerável capacidade para matar. Ela fica em silêncio, e eu também Essa é a primeira vez que falei essas palavras em voz alta, e agora escuto quão estranhas elas são. Quantos homens jovens temem que haja um monstro dentro de si? As pessoas deveriam temer os outros, e não a si próprias. As pessoas aspiram tornar-se como seus pais, e estremeço só de pensar. — Eu sempre me perguntei o que seria da minha paisagem do medo — ela diz num tom abafado, como uma oração. — Às vezes sinto que há muito a temer, e às vezes sinto que não há nada. Concordo com a cabeça, embora ela não possa me ver, e me mantenho em movimento, a luz da lanterna saltando, os sapatos raspando, o ar mofado vindo em nossa direção de onde quer que isso termine. +++ Depois de vinte minutos de caminhada, fazemos uma curva e sinto o cheiro de vento fresco, frio o suficiente para me fazer estremecer. Desligo a lanterna, e a luz da lua no fim do túnel nos guia para a saída. Do túnel, saímos em algum lugar do deserto que atravessamos para chegar ao complexo, entre os prédios em ruínas e árvores que cobrem a vegetação rompendo o pavimento. Estacionado a poucos metros está um caminhão velho, a parte traseira coberta de lona puída e rasgada. Nita chuta um dos pneus para testá-lo, depois sobe no banco do motorista. As chaves já estão penduradas na ignição.


— De quem é esse caminhão? — pergunto quando chego no banco do passageiro. — Ele pertence ao povo que vamos encontrar. Pedi-lhes para estacioná-lo aqui — diz ela. — E quem são eles? — Amigos meus. Eu não sei como ela encontra seu caminho através do labirinto de ruas diante de nós, mas ela o faz, dirigindo o caminhão em torno de raízes de árvores e postes caídos, iluminando com os faróis animais que correm pela borda da minha visão. Uma criatura de pernas longas, com um corpo marrom, faz o seu caminho através da rua à nossa frente, é quase tão alta quanto os faróis. Nita diminui o aperto do pé no freio para que não o atinja. As orelhas do animal se contorcem, e na escuridão, olhos redondos nos observam com curiosidade e cuidado, como uma criança. — Meio bonito, não? — diz ela. — Antes de vir aqui, eu nunca tinha visto um veado. Concordo com a cabeça. Ele é elegante, mas hesitante, vacilante. Nita pressiona a buzina com a ponta dos dedos, e o veado se move para fora do caminho. Nós aceleramos de novo, em seguida, chegamos a uma estrada larga, suspensa sobre os trilhos de trem por onde uma vez eu caminhei para alcançar o complexo. Vejo as luzes à frente, um ponto brilhante neste deserto escuro. E estamos viajando para nordeste, para longe dele. +++ Passe um longo tempo antes que eu veja luz novamente. Quando o faço, ela está ao longo de uma estreita rua irregular. As lâmpadas oscilam num cabo amarrado ao longo dos antigos postes de luz. — Nós paramos por aqui — Nita gira o volante, encaixando o caminhão em um beco entre dois prédios de tijolos. Ela pega as chaves da ignição e olha para mim. — Verifique no porta-luvas. Pedi-lhes para nos dar armas. Abro o compartimento a minha frente. Assentadas no topo de algumas embalagens velhas estão duas facas. — Como é com uma faca? — ela pergunta. A iniciação na Audácia ensina a atirar facas, mesmo antes das alterações que Max fez. Eu nunca gostei delas porque parecia ser uma maneira de incentivar a Audácia para um talento teatral, em vez de uma habilidade


útil. — Sou bom — digo com um sorriso. — Nunca pensei que a habilidade realmente valesse algo, no entanto. — Acho que a Audácia é boa para alguma coisa depois de tudo... Quatro — diz ela, sorrindo um pouco. Ela leva a maior das duas facas, e fico com a menor. Estou tenso, giro a lâmina em meus dedos à medida que caminhamos para o beco. Acima de mim as janelas piscam com um tipo diferente de luz – chamas, de velas ou lanternas. Em um ponto, quando olho para cima, vejo uma cortina de cabelos e órbitas escuras olhando para mim. — Pessoas vivem aqui — eu digo. — Este é o limite da fronteira — diz Nita. — Ela está cerca de duas horas de carro de Milwaukee, que é uma área metropolitana ao norte daqui. Sim, as pessoas vivem aqui. Nestes dias as pessoas não se aventuram muito longe das cidades, mesmo que queiram viver fora da influência do governo, como as pessoas aqui. — Por que elas querem viver fora da influência do governo? Sei o que é viver fora do governo por assistir os sem facção. Eles estavam sempre com fome, sempre com frio no inverno e calor no verão, sempre lutando para sobreviver. Não é uma vida fácil de se escolher – você tem que ter uma boa razão para isso. — Porque eles são geneticamente deficientes — Nita responde, olhando para mim. — As pessoas geneticamente deficientes são tecnicamente – legalmente – iguais às pessoas geneticamente puras, mas apenas no papel, por assim dizer. Na realidade elas são mais pobres, mais propensas a serem condenadas por crimes, menos propensas a serem contratadas para bons empregos... isso te nomeia, e é um problema, e tem sido desde a Guerra da Pureza, mais de um século atrás. Para as pessoas que vivem na fronteira, parecia mais atraente optar por sair completamente da sociedade em vez de tentar corrigir o problema de dentro, como eu pretendo fazer. Penso no fragmento de vidro tatuado em sua pele. Gostaria de saber quando ela conseguiu – eu me pergunto o que colocou o olhar perigoso em seus olhos, o que colocou tal drama em seu discurso, o que a fez se tornar uma revolucionária. — Como é que você planeja fazer isso? Ela ergue o queixo e diz: — Tirando alguns dos poderes do Centro. O beco se abre para uma grande rua. Algumas pessoas fazem ronda ao longo das bordas, mas outras andam bem no meio, em grupos


cambaleantes, garrafas balançando nas mãos. Todos que vejo são jovens – não há muitos adultos na fronteira, penso. Ouço gritos na frente, e vidro quebrando na calçada. Uma multidão forma um círculo ao redor de duas figuras trocando socos e pontapés. Começo a ir em direção a eles, mas Nita agarra meu braço e me arrasta para um dos edifícios. — Não é o momento para ser um herói — diz ela. Abordamos a porta do prédio na esquina. Um homem grande está ao lado dela, girando uma faca na palma da mão. Quando caminhamos até os degraus, ele para a faca e a joga na outra mão, que é retorcida com cicatrizes. Seu tamanho, sua destreza com a arma, sua aparência suja cheia de cicatrizes – é tudo para supostamente me intimidar. Mas seus olhos são como os do animal da estrada, grandes, cautelosos e curiosos. — Estamos aqui para ver Rafi — Nita fala. — Viemos do complexo. — Podem entrar, mas suas facas ficam aqui — diz o homem. Sua voz é alta, mas mais leve do que eu esperava. Ele talvez pudesse ser um homem gentil, se esse fosse um tipo diferente de lugar. Já que não é, vejo que ele não é gentil, nem sequer sabe o que isso significa. Apesar de um mesmo ter descartado qualquer tipo de suavidade por sua inutilidade, eu me pego pensando que algo importante se perdeu se este homem foi forçado a negar sua própria natureza. — Sem chance — Nita responde. — Nita, é você? — uma voz fala de dentro. É expressiva, musical. O homem a quem pertence é baixo, com um largo sorriso. Ele vem para a porta. — Eu não te disse para deixá-los? Entrem, entrem. — Oi, Rafi — ela responde, seu alívio óbvio. — Quatro, este é Rafi. Ele é um homem importante na fronteira. — Prazer em conhecê-lo — diz Rafi, e ele acena para que nós o sigamos. No interior há uma sala grande e aberta iluminada por fileiras de velas e lanternas. Há mobiliário de madeira espalhados em todos os lugares. Todas as mesas vazias, menos uma. Uma mulher senta-se no fundo da sala, e Rafi desliza na cadeira ao lado dela. Apesar de não fazer terem a mesma aparência – ela tem o cabelo vermelho e uma figura generosa; as feições dele são escuras e seu corpo, magro como um cabo – eles têm o mesmo tipo de olhar, como duas pedras lavradas pelo mesmo cinzel. — Armas sobre a mesa — diz Rafi. Desta vez Nita obedece, colocando a faca na borda da mesa bem na frente


dela. Ela se senta. Eu faço o mesmo. Do outro lado de nós, a mulher se entrega uma arma. — Quem é este? — a mulher pergunta, sacudindo a cabeça em minha direção. — Este é meu sócio — Nita responde. — Quatro. — Que tipo de nome é “Quatro”? — Ela não pergunta com um sorriso de escárnio, da forma como as pessoas muitas vezes me fazem essa pergunta. — O tipo que você tem dentro de uma cidade experimento — Nita responde — por ter apenas quatro medos. Ocorre-me que ela poderia ter me apresentado com esse nome apenas para ter a oportunidade de compartilhar de onde eu sou. Isso lhe dá algum tipo de vantagem? Faz-me de mais confiança para estas pessoas? — Interessante — a mulher bate na mesa com o dedo indicador. — Bem, Quatro, meu nome é Mary. — Mary e Rafi lideram a filial Centro-Oeste de um grupo rebelde de GDs — diz Nita. — Chamá-la de “grupo” nos faz parecer como velhinhas jogando cartas — Rafi diz suavemente. — Estamos mais para um levante. Nosso alcance se estende por todo o país – há um grupo para cada área metropolitana que existe, e os superintendentes regionais para o Centro-Oeste, Sul e Leste. — Existe um Oeste? — Eu pergunto. — Não mais — Nita responde calmamente. — O terreno era muito difícil de navegar e as cidades também se espalharam de modo que não era inteligente viver lá depois da guerra. Agora é terra selvagem. — Então é verdade o que eles dizem — Mary comenta, com os olhos refletindo a luz como lascas de vidro enquanto olha para mim. — As pessoas na cidade experimento realmente não sabem o que há lá fora. — É claro que é verdade, por quê? — Nita pergunta. Fadiga, um peso atrás dos meus olhos, se arrasta para cima de mim de repente. Tenho sido parte de muitos levantes em minha curta vida. Os sem facção, e agora estes GDs, aparentemente. — Não é para cortar as gentilezas — diz Mary — mas não devemos gastar muito tempo aqui. Não podemos manter as pessoas fora por muito tempo antes que venham farejando. — Certo — diz Nita. Ela olha para mim. — Quatro, você pode ter certeza de que nada está acontecendo lá fora? Preciso falar com Mary e Rafi privadamente por um tempo. Se estivéssemos sozinhos, eu perguntaria por que não posso estar aqui quando ela fala com eles, ou porque ela se preocupou em me trazer quando


eu poderia ter ficado de guarda do lado de fora o tempo todo. Suponho que eles não concordaram realmente em ajudá-la ainda, e devem ter querido me conhecer por algum motivo. Então, eu só levanto, pego a faca e caminho até a porta, onde o guarda de Rafi observa a rua. A luta do outro lado da rua acabou. Uma figura solitária encontrase na calçada. Por um momento, acho que ainda está se movendo, mas então percebo que é porque alguém está vasculhando seus bolsos. Não é uma figura – é um corpo. — Morto? — pergunto, e a palavra é apenas um murmúrio. — Sim. Se você não pode se defender aqui, não dura uma noite. — Por que as pessoas vêm aqui, então? — Eu franzo a testa. — Por que apenas não voltam para as cidades? Ele fica quieto por tanto tempo que acho que não deve ter ouvido a minha pergunta. Vejo o ladrão virar os bolsos do morto do avesso e abandonar o corpo, deslizando em um dos prédios próximos. Finalmente, a guarda de Rafi fala: — Aqui há uma chance de que, se você morrer, alguém vai se importar. Como Rafi, ou um dos outros líderes — o guarda diz. — Nas cidades, se você for morto, com certeza ninguém vai dar a mínima, não se você é um GDs. O pior crime que eu já vi um GP ser julgado foi matar um GD por “homicídio culposo”. Besteira. — Homicídio culposo? — Isso significa que o crime é considerado um acidente — a voz suave e melodiosa de Rafi diz atrás de mim. — Ou pelo menos não tão grave como, por exemplo, assassinato em primeiro grau. Oficialmente, é claro, somos todos tratados da mesma forma, não é? Mas isso raramente é colocado em prática. Ele está ao meu lado, com os braços cruzados. Eu vejo, quando olho para ele, um rei que examina seu próprio reino, que acredita que é lindo. Olho para a rua, a calçada quebrada e o corpo mole com seus bolsos para fora e as janelas piscando com a luz do fogo, e sei que a beleza que ele vê é a liberdade – a liberdade de ser visto como um homem inteiro em vez de um deficiente.


Vi essa liberdade uma vez que, quando Evelyn acenou para mim dentre a facção, chamando-me para fora da minha facção para me tornar uma pessoa mais completa. Mas era uma mentira. — Você é de Chicago? — Rafi me pergunta. Concordo com a cabeça, ainda olhando para a rua escura. — E agora que você está fora? Como o mundo parece para você? — Quase o mesmo. As pessoas só estão divididas por coisas diferentes, lutando guerras diferentes. Os passos de Nita ranger no assoalho, e quando viro, ela está de pé bem atrás de mim, as mãos enterradas nos bolsos. — Obrigado por organizar isso — diz Nita, acenando para Rafi. — É hora de ir. Fazemos o nosso caminho para a rua de novo, e quando viro para olhar para Rafi, ele tem a mão para cima, dando um adeus. +++ À medida que caminhamos de volta para o caminhão, ouço gritos de novo, mas desta vez são os gritos de uma criança. Passo por sons soluçantes e choramingantes e penso em quando eu era mais jovem, agachado no meu quarto, limpando o nariz em uma das mangas. Minha mãe costumava esfregar os punhos com uma escova antes jogá-las na lavadora. Ela nunca disse nada sobre isso. Quando entro no caminhão, já me sinto entorpecido deste lugar e de sua dor, e estou pronto para voltar ao sonho do complexo, ao calor, à luz e à sensação de segurança. — Estou tendo dificuldade para entender por que este lugar é preferível à vida da cidade — eu digo. — Eu só estive em uma cidade que não era um experimento uma vez — Nita fala. — Há eletricidade, mas com um sistema racionado – cada família só recebe poucas horas por dia. O mesmo com a água. E há muitos crimes, todos atribuídos as deficiências genéticas. Há polícia, também, mas eles não podem fazer muito. — Assim, o Centro é facilmente o melhor lugar para se viver, então.


— Em termos de recursos, sim. Mas o mesmo sistema social que existe nas cidades também existe no complexo, é apenas um pouco mais difícil de ver. Vejo a fronteira desaparecer no espelho retrovisor, diferente dos edifícios abandonados em torno dele apenas pela sequência de luzes elétricas drapeadas sobre a rua estreita. Nós dirigimos passando por casas escuras, as janelas fechadas com tábuas, e eu tento imaginá-las limpas e polidas, como devem ter sido em algum momento no passado. O jardim uma vez deve ter sido aparado e verde, as janelas uma vez brilharam à noite. Imagino que a vida vivida aqui era pacíficas, quieta. — Sobre o que você veio até aqui conversar com eles, exatamente? — Eu vim para solidificar nossos planos — Nita responde. Percebo, no brilho da luz do painel, que existem alguns cortes em seu lábio inferior, onde ela passou muito tempo mordendo. — E eu queria que eles o conhecessem, para dar um rosto às pessoas dentro dos experimentos nas facções. Mary costumava estar desconfiada que pessoas como você estavam na verdade em conluio com o governo, o que obviamente não é verdade. Rafi, sem dúvida... foi a primeira pessoa a me dar provas de que o Centro, o governo, estava mentindo para nós sobre a nossa história. Ela faz uma pausa depois disso, como se fosse me ajudar a sentir o peso, mas eu não preciso de tempo, silêncio ou espaço para acreditar nela. Meu governo mentiu para mim durante toda a minha vida. — O Centro fala sobre esta idade de ouro da humanidade antes das manipulações genéticas em que todos eram geneticamente puros e tudo estava em paz. Mas Rafi me mostrou antigas fotografias de guerra. Espero uma batida. — E então? — Então? — Demanda Nita, incrédula. — Se as pessoas geneticamente puras causavam guerra e devastação total no


passado com a mesma magnitude que as pessoas geneticamente deficientes supostamente fazem agora, então qual é a base para pensar que precisamos gastar tantos recursos e tanto tempo trabalhando para corrigir a deficiência genética? Qual é a utilidade dos experimentos, exceto para convencer as pessoas certas de que o governo está fazendo algo para tornar as nossas vidas melhores, apesar de não ser isso? A verdade muda tudo – não foi por isso que Tris se aliou com o meu pai, porque ela estava tão desesperada para obter o vídeo de Edith Prior? Ela sabia que a verdade, qualquer que fosse, mudaria a nossa luta, mudaria para sempre as nossas prioridades. E aqui, agora, uma mentira mudou a luta, uma mentira deslocou as prioridades para sempre. Em vez de trabalhar contra a pobreza ou o crime que surgiu desenfreado sobre este país, essas pessoas optaram por trabalhar contra as deficiências genéticas. — Por quê? Por que gastar tanto tempo e energia lutando contra algo que não é realmente um problema? — Eu pergunto, de repente frustrado. — Bem, as pessoas que lutam agora provavelmente lutam contra isso porque foram ensinados que é um problema. Essa é outra coisa que Rafi me mostrou – exemplos da propaganda do governo sobre danos genéticos. Mas inicialmente? Eu não sei. Provavelmente por dezenas de coisas. O preconceito contra GDs? Controle, talvez? Controlar a população geneticamente deficiente para ensiná-los que há algo errado com eles, e controlar a população geneticamente pura, ensinando eles que estão curados e inteiros? Essas coisas não acontecem durante a noite, e não acontecem por apenas uma razão. Eu me inclino para o lado, minha cabeça contra a janela fria, e fecho os olhos. Há muita informação zumbindo no meu cérebro para me concentrar em qualquer parte individual, de modo que eu desisto de tentar e me deixo divagar. No momento em que estou atravessando o túnel e acho a minha cama, o sol está prestes a nascer, e o braço de Tris está pendurado sobre a borda da cama de novo, a ponta dos dedos roçando o chão.


Sento-me em frente a ela por um momento, observando seu rosto adormecido e pensando no que nós concordamos naquela noite no Parque Millennium: sem mais mentiras. Ela me prometeu, e eu prometi a ela. E se eu não lhe disser sobre o que eu vi e ouvi hoje à noite, estarei indo contra essa promessa. E para quê? Para protegê-la? Para proteger Nita, uma menina que mal conheço? Puxo o cabelo dela longe de seu rosto, delicadamente, para não acordá-la. Ela não precisa da minha proteção. Ela é forte o suficiente por si própria.


Capítulo 24 Tris Peter está do outro lado da sala, juntando uma pilha de livros em uma pilha e empurrando-os em uma sacola. Ele morde a ponta de uma caneta vermelha e leva a sacola para fora da sala, e eu ouço os livros dentro dela batendo contra sua perna enquanto ele caminha pelo corredor. Espero até que eu não posso ouvi-lo mais antes de me virar para Christina. — Eu tenho tentado não te perguntar, mas vou desistir — falo. — O que está acontecendo entre você e Uriah? Christina, esparramada sobre sua cama com um longa perna sobre a borda, me lança um olhar. — O quê? Vocês têm passado muito tempo juntos — falo. — Tipo, muito mesmo. Está ensolarado hoje, a luz brilha através das cortinas brancas. Eu não sei como, mas o dormitório cheira como o sono – como roupa suja e sapatos, suores noturnos e café da manhã. Algumas das camas estão feitas, e alguns lençóis ainda estão amarrotados e amontoados na parte inferior ou na lateral. A maioria de nós veio da Audácia, mas estou impressionada pela forma como somos diferentes. Diferentes hábitos, diferentes temperamentos, diferentes formas de ver o mundo. — Você pode não acreditar em mim, mas não é assim — Christina se apoia nos cotovelos. — Ele está de luto. Nós dois estamos entediados. Além disso, ele é Uriah. — Então? Ele é bom para o futuro. — Boa aparência, mas não pode ter uma conversa séria nem para salvar sua vida — Christina balança a cabeça. — Não me interprete mal, eu gosto de rir, mas também quero um relacionamento que signifique algo, sabe?


Concordo com a cabeça. Eu sei, melhor do que a maioria das pessoas, talvez, porque Tobias e eu não somos do tipo divertidos. — Além disso — diz ela — nem toda amizade se transforma em um romance. Eu não tentei beijá-lo ainda. Eu rio. — É verdade. — Onde você esteve ultimamente? — Christina rebate. Ela mexe as sobrancelhas. — Com Quatro? Fazendo um pouco de... mais? Ou multiplicando? Cubro meu rosto com as mãos. — Essa foi a pior piada que já ouvi. — Não se esquive da pergunta. — Não há “mais” para nós — eu digo. — Ainda não, de qualquer maneira. Ele tem estado um pouco preocupado com toda a coisa de “dano genético”. — Ah. Essa coisa — ela se senta. — O que você acha sobre isso? — Eu não sei. Acho que isso me deixa com raiva — ela franze a testa. — Ninguém gosta que lhe diga que há algo de errado com você, especialmente algo como seus genes, que não se pode mudar. — Acha que há realmente algo de errado com você? — Acho que sim. É como uma doença, certo? Eles podem vê-lo em nossos genes. Isso não está realmente em debate, está? — Eu não estou dizendo que seus genes não são diferentes — respondo. — Só estou dizendo que isso não significa que um conjunto é deficiente e um conjunto não. Os genes para olhos azuis e olhos castanhos são muito diferentes, mas os olhos azuis são “deficientes”? É como se eles apenas arbitrariamente tenham decidido que um tipo de DNA era ruim e o outro era bom. — Com base na evidência de que o comportamento GD foi pior — Christina ressalta. — O que poderia ser causado por um monte de coisas — retruco. — Não sei por que estou discutindo com você quando eu realmente gostaria que você esteja certa — diz Christina, rindo. —


Mas não acha que um grupo de pessoas inteligentes como estes cientistas do Centro poderiam descobrir a causa de mau comportamento? — Claro. Mas acho que não importa quão inteligentes, as pessoas costumam ver o que estão procurando, isso é tudo. — Talvez você seja tendenciosa demais — ela aponta — porque tem amigos – e um namorado – com esta questão genética. — Talvez — sei que estou buscando por uma explicação, e uma que talvez eu não acredite, mas digo mesmo assim: — acho que não vejo razão para acreditar em danos genéticos. Vai me fazer tratar as outras pessoas melhor? Não. O oposto, talvez. E, além disso, vejo o que está fazendo com Tobias, como está fazendo-o duvidar de si mesmo, e eu não entendo como algo ruim pode vir dele. — Você não acredita nas coisas porque elas deixam sua vida melhor, acredita nelas porque são verdade — ela ressalta. — Mas... — eu falo devagar, enquanto reflito sobre isso — olhar para o resultado de uma crença não é uma boa maneira de avaliar se é verdade? — Soa como uma maneira Careta de pensar — ela faz uma pausa. — Acho que o meu caminho é muito da Franqueza, no entanto. Deus, realmente não podemos escapar das facções, não importa para onde vamos, podemos? Eu dou de ombros. — Talvez não seja tão importante escapar delas. Tobias entra no dormitório, pálido e exausto, como sempre parece nos dias de hoje. Seu cabelo está erguido de um dos lados onde ele se apoiou em seu travesseiro, e ele ainda está usando as roupas que usava ontem. Ele está dormindo de roupa desde que chegou ao Centro. Christina se levanta. — Ok, estou indo embora. E deixar vocês dois... neste espaço. Sozinhos. Ela gesticula para todas as camas vazias, e depois pisca visivelmente para mim enquanto sai do dormitório.


Tobias sorri um pouco, mas não o suficiente para me fazer pensar que ele está realmente feliz. E, em vez de ficar sentado ao meu lado, ele permanece ao pé da minha cama, os dedos tateando a bainha de sua camisa. — Há algo que eu quero falar com você. — Ok — respondo, e sinto uma picada de medo em meu peito, como um salto em um monitor cardíaco. — Eu quero lhe pedir para prometer que não vai ficar brava — diz ele — mas... — Mas você sabe que eu não faço promessas estúpidas — termino, minha garganta apertada. — Certo — ele se senta, então, na curva de cobertores em sua cama desfeita. Ele evita meus olhos. — Nita deixou um bilhete sob meu travesseiro, dizendo-me para encontrá-la ontem à noite. E eu fui. Eu endireito, e posso sentir o calor da raiva se espalhando através de mim enquanto imagino o rosto bonito de Nita, Nita dos pés graciosos, caminhando em direção ao meu namorado. — Uma menina bonita lhe pede para encontrá-la tarde da noite, e você vai? — exijo. — E você ainda não quer que eu fique brava com isso? — Isso não é sobre Nita e eu. Isso é tudo — ele diz apressadamente, finalmente olhando para mim. — Ela só queria me mostrar algo. Ela não acredita em danos genéticos, como me levou a acreditar. Ela tem um plano para tirar um pouco do poder do Centro, para fazer os GDs mais iguais. Fomos para a fronteira. Ele me conta sobre o túnel subterrâneo que leva para fora, a cidade em ruínas na fronteira, a conversa com Rafi e Mary. Explica as guerras que o governo manteve escondidas de modo que ninguém soubesse que as pessoas “geneticamente puras” são capazes de uma violência incrível, e a forma como os GDs vivem nas áreas metropolitanas, onde o governo ainda tem poder real. Enquanto ele fala, sinto a suspeita de Nita crescendo dentro de mim, mas não sei de onde ela vem – do instinto que costumo confiar, ou o meu ciúme. Quando termina, ele olha para mim com


expectativa, e franzo meus lábios, tentando decidir. — Como sabe que ela está dizendo a verdade? — Eu não sei — ele responde. — Ela prometeu me mostrar provas. De noite — ele pega a minha mão. — Eu gostaria que você viesse. — E Nita vai ficar bem com isso? — Eu realmente não me importo — seus dedos deslizam entre os meus. — Se ela realmente precisa da minha ajuda, vai ter que descobrir como ficar bem com isso. Eu olho para nossos dedos unidos, a manga desgastada de sua camisa cinza e o joelho desgastado de sua calça jeans. Não quero passar tempo com Nita e Tobias juntos, sabendo que seu suposta deficiência genética lhe dá algo em comum com ele que eu nunca vou ter. Mas isso é importante para ele, e quero saber se há evidências da má conduta do Centro tanto quanto ele. — Ok — eu digo. — Eu vou. Mas não acredite nem por um segundo que eu não penso que ela não está interessada em mais do que seu código genético. — Bem, e nem por um segundo acredite que estou interessado em alguém além de você. Ele põe a mão na parte de trás do meu pescoço e puxa a minha boca em direção à sua. O beijo e suas palavras me confortam, mas o meu desconforto não desaparece completamente.


Capítulo 25 Tobias Tris e eu encontramos Nita no lobby do hotel depois da meianoite, entre os vasos de plantas com suas flores desabrochando, um deserto domesticado. Quando Nita vê Tris ao meu lado, seu rosto aperta como se ela tivesse provado algo amargo. — Você prometeu que não ia contar a ela — ela fala, apontando para mim. — O que aconteceu com a proteção? — Mudei de ideia — respondo. Tris ri, asperamente. — Isso foi o que você disse a ele, que ele estaria me protegendo? Essa é uma manipulação muito hábil. Bem feito. Levanto as sobrancelhas para ela. Nunca pensei nisso como uma manipulação, e isso me assusta um pouco. Geralmente posso confiar em mim mesmo para ver segundas intenções de uma pessoa, ou inventá-las em minha mente, mas eu estava tão acostumado com o meu desejo de proteger Tris, especialmente depois de quase perdê-la, que nem sequer pensei duas vezes. Ou eu estava tão acostumado a mentir em vez de contar as duras verdades que agradeci a chance de esconder dela. — Não foi uma manipulação, era a verdade — Nita não parece mais com raiva, só cansada, com a mão deslizando no rosto e, em seguida, alisando o cabelo para trás. Ela não está defensiva, o que significa que pode estar dizendo a verdade. — Você poderia ser presa apenas por saber o que sabe e não denunciar. Pensei que seria melhor evitar isso. — Bem, tarde demais — eu digo. — Tris está vindo. Isso é um problema?


— Prefiro ter os dois do que nenhum, e tenho certeza de que isto é um ultimato implícito — Nita diz, revirando os olhos. — Vamos. +++ Tris, Nita, e eu andamos de volta através do silêncio pelo complexo de laboratórios onde Nita trabalha. Nenhum de nós fala, e estou consciente de cada ruído dos meus sapatos, das vozes ao longe, de cada estalo da porta se fechando. Sinto como se estivéssemos fazendo algo proibido, embora tecnicamente não estamos. Ainda não, de qualquer maneira. Nita para ao lado da porta para os laboratórios e passa o seu cartão. Nós a seguimos além da sala de terapia onde vi um mapa do meu código genético, mais para dentro do coração do complexo do que já fui. É escuro e sombrio aqui, e aglomerados de poeira dançam no chão quando passamos. Nita empurra outra porta com o ombro, e entramos em uma sala de armazenamento. Caixas de metal cobrem as paredes, marcadas com números de papel, a tinta desgastada com o tempo. No centro da sala está uma mesa de laboratório com um computador e um microscópio, e um jovem com um cabelo loiro penteado para trás. — Tobias, Tris, este é o meu amigo Reggie — Nita apresenta. — Ele também é um GD. — Prazer em conhecê-los — Reggie fala com um sorriso. Ele aperta a mão de Tris, em seguida, a minha, o seu aperto firme. — Vamos mostrar a eles os slides primeiro — diz Nita. Reggie gira a tela do computador e nos chama para mais perto. — Não vou morder. Tris e eu trocamos um olhar, então estamos atrás da mesa de Reggie para ver a tela. Imagens começam a surgir intermitentemente sobre ela, uma após a outra. Elas têm tons de cinza e são granuladas e distorcidas – devem ser muito antigas. Me leva apenas alguns segundos para perceber que são fotografias de sofrimento: crianças magras e doentes com olhos arregalados,


valas cheias de corpos, montes enormes de papéis em chamas. As fotografias se movem tão rápido quanto páginas de livros tremulando ao vento, e tenho apenas impressões dos horrores. Então viro meu rosto, incapaz de olhar por mais tempo. Sinto um silêncio profundo crescer dentro de mim. No início, quando olho para Tris, sua expressão é como a água parada – como se as imagens que acabamos de ver não causassem ondulações. Mas, em seguida, a sua boca treme, e ela aperta os lábios para disfarçar. — Olhe para estas armas — Reggie traz uma fotografia com um homem de uniforme sustentando um revólver e aponta — esse tipo de arma é incrivelmente antigo. As armas utilizadas na Guerra da Pureza eram muito mais avançadas. Mesmo o Centro concordaria com isso. Tem que ser de um conflito muito velho. Que deve ter sido travado por pessoas geneticamente puras, uma vez que a manipulação genética não existia naquela época. — Como é que se esconde uma guerra? — pergunto. — As pessoas estão isoladas, morrendo de fome — Nita diz calmamente. — Elas sabem apenas o que lhe é ensinado, veem apenas a informação que é disponibilizada para elas. E quem controla tudo isso? O governo. — Tudo bem — Tris balança a cabeça, e ela está falando muito rápido, nervosamente. — Então eles estão mentindo sobre a sua – nossa história. Isso não significa que eles são o inimigo, significa simplesmente que eles são um grupo de pessoas grosseiramente mal informadas tentando... melhorar o mundo. De uma maneira imprudente. Nita e Reggie olham um para o outro. — Esse é o ponto — Nita fala. — Eles estão machucando as pessoas. Ela coloca a mão sobre o balcão e se inclina contra ele, inclina-se para nós, e mais uma vez vejo a força revolucionária dentro dela, assumindo a parte dela que é a jovem GD que trabalha no laboratório. — Quando a Abnegação quis revelar a grande verdade de seu


mundo, mais cedo do que deveria — ela fala lentamente — e Jeanine quis sufocá-los... o Centro ficou muito feliz em fornecê-la com um soro de simulação incrivelmente avançado – a simulação de ataque que escravizou as mentes da Audácia, que resultou na destruição de Abnegação. Tomo um momento para deixar a informação afundar. — Isso não pode ser verdade — eu falo. — Jeanine me disse que a maior proporção de Divergentes – os geneticamente puros – estava na Abnegação. Você acabou de dizer que o Centro valoriza os geneticamente puros o suficiente para mandar alguém para salválos; por que eles ajudariam Jeanine a matá-los? — Jeanine estava errada — Tris fala, distante — Evelyn disse isso. A maior proporção de Divergentes está entre os sem facção, não na Abnegação. Dirijo-me a Nita. — Eu ainda não vejo por que eles correriam o risco de perder muitos Divergentes. Eu preciso de provas. — Por que acha que viemos aqui? — Nita se vira para outro conjunto de luzes que iluminam as gavetas e passa ao longo da parede esquerda. — Levei muito tempo para obter autorização para entrar aqui. Ainda mais tempo para adquirir o conhecimento necessário para entender o que vi. Tive a ajuda de um dos GPS, na verdade. Um simpatizante. Sua mão paira sobre uma das gavetas de baixo. Ela puxa um frasco de líquido laranja. — Parece familiar? — ela me pergunta. Tento me lembrar da injeção que me deram antes de a simulação de ataque começar, logo antes da etapa final da iniciação de Tris. Max fez isso, inseriu a agulha na lateral do meu pescoço como eu tinha feito dezenas de vezes. Quando ele o fez, o frasco de vidro refletia a luz, e era laranja, assim como aquele que Nita está segurando. — As cores combinam — eu digo. — E então? Nita transporta o frasco para o microscópio. Reggie pega uma lâmina de uma bandeja de perto do computador e, utilizando um


conta-gotas, coloca duas gotas do líquido cor de laranja no seu centro, em seguida, veda o líquido no lugar com uma segunda lâmina. Quando ele a coloca no microscópio, os dedos são cuidadosos e firmes, são os movimentos de alguém que realizou a mesma ação centenas de vezes. Reggie toca a tela do computador algumas vezes, abrindo um programa chamado “MicroScan”. — Esta informação é gratuita e está disponível para qualquer pessoa que saiba como usar o equipamento e tenha a senha do sistema, que o simpatizante GP graciosamente me deu — diz Nita. — Portanto, em outras palavras, nem tudo é de difícil acesso, mas ninguém pensaria em examiná-lo bem de perto. E GDs não têm senhas do sistema, portanto, não é como se soubessem sobre isso. Este armazém é para experiências antigas – falhas, desenvolvimentos desatualizados, ou coisas inúteis. Ela olha através do microscópio, usando um botão na lateral para focar a lente. — Vá em frente — diz ela. Reggie pressiona um botão no computador, e parágrafos de texto aparecem sob a inscrição “MicroScan”, na parte superior da tela. Ele aponta para um parágrafo no meio da página, e eu leio. — “Soro de simulação v4.2. Coordenada um grande número de alvos. Transmite sinais a longas distâncias. Alucinógeno da fórmula original não incluída – realidade simulada é predeterminada pelo programa mestre”. É isso. Esse é o soro de simulação de ataque. — Agora, por que o Centro tem isto a menos que o tenham desenvolvido? — Nita fala. — Eles foram aqueles que colocam os soros nos experimentos, mas geralmente deixam só os soros originais, deixam os residentes da cidade desenvolvê-lo. Se Jeanine foi quem desenvolveu, eles não teriam roubado dela. Se está aqui, é porque eles fizeram. Fico olhando para a lâmina no microscópio iluminado, a gota laranja próxima à lente, e solto a respiração entrecortada.


Tris pergunta, ofegante: — Por quê? — A Abnegação estava prestes a revelar a verdade a todos dentro da cidade. E você viu o que aconteceu agora que a cidade sabe a verdade: Evelyn é efetivamente uma ditadora, os sem facção estão esmagando os membros das facções, e tenho certeza de que as facções se levantarão contra eles, mais cedo ou mais tarde. Muitas pessoas vão morrer. Dizer a verdade põe a segurança do experimento em risco, não há dúvida. Então há alguns meses, quando a Abnegação estava prestes a causar destruição e instabilidade ao revelar o vídeo de Edith Prior para sua cidade, o Centro provavelmente pensou, melhor que a Abnegação sofra uma grande perda – mesmo à custa de vários Divergentes – do que toda a cidade sofrer uma grande perda. Melhor acabar com a vida da Abnegação do que arriscar o experimento. Então eles estenderam a mão para alguém que sabiam que concordaria com eles. Jeanine Matthews. Suas palavras me cercam e enterram-se dentro de mim. Coloco as mãos na mesa do laboratório, deixando as palmas esfriarem, e olhar para o meu reflexo distorcido no metal escovado. Posso ter odiado meu pai por parte da minha vida, mas nunca odiei sua facção. A tranquilidade da Abnegação, a sua rotina, sempre pareceram boas para mim. E agora a maior parte dessas pessoas amáveis e altruístas morreu. Assassinadas pelas mãos da Audácia a pedido de Jeanine, com o poder do Centro a apoiá-la. A mãe e o pai de Tris estavam entre eles. Tris está tão quieta, as mãos pendendo molemente, ficando vermelha com o resplendor de seu sangue. — Este é o problema com o compromisso cego para esses experimentos — Nita fala ao nosso lado, como se estivesse deslizando as palavras para os espaços vazios de nossas mentes. — O Centro valoriza os experimentos acima da vida dos GDs. É óbvio. E agora, as coisas poderiam ficar ainda pior. — Pior? — ecoo. — Pior do que matar a maior parte da


Abnegação? Como? — O governo vem ameaçando encerrar os experimentos há quase um ano — Nita responde. — Os experimentos continuam caindo aos pedaços porque as comunidades não podem viver em paz, e David encontra maneiras de restaurar a paz apenas em cima da hora. E se alguma coisa der errado em Chicago, ele pode fazê-lo novamente. Pode reinicializar todos os experimentos a qualquer momento. — Reinicializar — repito. — Com o soro da memória da Abnegação — Reggie intervém. — Bem, na verdade, é o soro da memória do Centro. Todo homem, mulher e criança vai ter que começar de novo. Nita diz laconicamente: — Suas vidas inteiras apagadas contra a sua vontade, para o bem de resolver um “problema” de dano genético que na verdade não existe. Essas pessoas têm o poder de fazer isso. E ninguém deve ter esse poder. Lembro-me do pensamento que tive depois que Johanna me contou que a Amizade administrava o soro da memória para as patrulhas da Audácia – que quando você toma memórias de uma pessoa, você muda quem ela é. De repente, eu não me importo com qual é o plano de Nita, contanto que isso signifique acertar o Centro tão duro quanto pudermos. O que aprendi nos últimos dias fez-me sentir que não há nada sobre este lugar que valha a pena salvar. — Qual é o plano? — Tris pergunta, sua voz sem emoção, quase mecânica. — Eu vou deixar meus amigos da fronteira no meio do túnel subterrâneo — Nita explica — Tobias, você vai desligar o sistema de segurança, assim como eu, de modo que não seremos capturados – é quase a mesma tecnologia com que você trabalhou na sala de controle da Audácia, deve ser fácil para você. Em seguida, Rafi, Mary e eu vamos entrar no Laboratório de Armas e roubar o soro da memória de modo que o Centro não possa usá-lo. Reggie tem ajudado nos bastidores, mas ele vai ser a pessoa que


abrirá o túnel para nós no dia do ataque. — O que você vai fazer com um monte de soro da memória? — pergunto. — Destruí-lo — Nita responde, calma. Eu me sinto estranho, vazio como um balão furado. Não sei o que eu tinha em mente quando Nita falou sobre seu plano, mas não foi isso – isso parece tão pequeno, tão pouco como um ato de retaliação contra as pessoas responsáveis pela simulação de ataque, as pessoas que me disseram que havia algo de errado comigo em meu âmago, no meu código genético. — Isso é tudo o que você pretende fazer? — Tris pergunta, finalmente, desviando o olhar do microscópio. Ela foca o seu olhar em Nita. — Você sabe que o Centro é responsável pelo assassinato de centenas de pessoas, e seu plano é... lhes tirar o soro da memória? — Eu não me lembro de convidá-la a criticar meu plano. — Eu não estou criticando o seu plano — Tris responde — estou dizendo que não acredito em você. Você odeia estas pessoas. Posso dizer pelo jeito como fala delas. Acho que o que você pretende fazer é muito pior do que roubar algum soro. — O soro da memória é o que eles usam para manter os experimentos em execução. É a sua maior fonte de poder sobre a sua cidade, e quero levá-lo embora. Eu diria que é um golpe duro o suficiente para agora — Nita soa calma, como se estivesse explicando algo a uma criança. — Eu não disse que essa é a única coisa que farei. Não é sempre sábio atacar o mais forte possível na primeira oportunidade. Esta é uma corrida longa, e não uma de velocidade. Tris apenas sacode a cabeça. — Tobias, você está dentro? — Nita pergunta. Eu olho de Tris, com ela está tensa, postura rígida, para Nita, que está relaxada, pronto. Não vejo o que quer que Tris vê ou ouve. E quando penso em dizer não, sinto como se meu corpo fosse entrar em colapso sobre si mesmo. Tenho que fazer alguma coisa. Mesmo que seja pequeno, tenho que fazer alguma coisa, e não


entendo por que Tris não sente o mesmo desespero dentro dela. — Sim — respondo. Tris se vira para mim, os olhos arregalados, incrédula. Eu ignoroa. — Eu posso desativar o sistema de segurança. Vou precisar do soro da paz da Amizade, você tem acesso a isso? — Posso conseguir — Nita sorri um pouco. — Vou enviar-lhe uma mensagem com a hora. Vamos, Reggie. Vamos deixar estes dois... conversarem. Reggie acena para mim e depois para Tris, então ele e Nita saem da sala, fechando a porta devagar atrás deles para que ela não faça barulho. Tris se vira para mim, os braços dobrados como duas barras por seu corpo, mantendo-me para fora. — Eu não posso acreditar em você — disse ela. — Ela está mentindo. Porque você não vê isso? — Porque não está ali. Eu posso dizer quando alguém está mentindo tão bem quanto você. E nesta situação, acho que seu julgamento pode estar obscurecido por outra coisa. Algo parecido com ciúme. — Eu não estou com ciúmes! — ela responde, franzindo o cenho para mim. — Estou sendo inteligente. Ela tem algo maior planejado, e se eu fosse você, iria me afastar correndo de alguém que mente para mim sobre o que eles querem que eu participe. — Bem, você não está comigo — balanço a cabeça. — Deus, Tris. Essas pessoas assassinaram seus pais e você não vai fazer nada sobre isso? — Eu nunca disse que não ia fazer nada — ela replica secamente. — Mas não tenho que aceitar o primeiro plano que escuto, também. — Sabe, eu te trouxe aqui porque queria ser honesto com você, não para fazer julgamentos precipitados sobre as pessoas e dizerme o que fazer! — Lembra-se o que aconteceu da última vez em que não confiou em meus “julgamentos precipitados”? — Tris diz friamente. —


Você descobriu que eu estava certa. Eu estava certa sobre o vídeo de Edith Prior mudando tudo, e estava certa sobre Evelyn, e estou certa sobre isso. — Yeah. Você está sempre certa — eu digo. — Você estava certa sobre correr para situações perigosas sem armas? Estava certa em mentir para mim e ir a uma marcha da morte até a sede da Erudição no meio da noite? Ou sobre Peter, você estava certo sobre ele? — Não jogue as coisas na minha cara — ela aponta para mim, e sinto como se eu fosse uma criança recebendo sermão dos pais. — Eu nunca disse que era perfeita, mas você – você não pode sequer ver além do seu próprio desespero. Aliou-se a Evelyn porque estava desesperado por uma mãe, e agora vai junto com isto porque está desesperado para não ser deficiente... A palavra treme através de mim. — Eu não estou deficiente — digo em voz baixa. — Não posso acreditar que você tem tão pouca fé em mim que me diz para não confiar em mim mesmo — balanço a cabeça. — E eu não preciso de sua permissão. Começo a andar em direção à porta e, enquanto a minha mão se fecha em punho, ela diz: — Apenas indo embora de modo que você possa ter a última palavra, isso é realmente maduro! — Também é, desconfiar dos motivos de alguém só porque ela é bonita. Acho que nós estamos quites. Eu saio da sala. Não sou uma criança desesperada, instável, que deposita a sua confiança ao redor. Não estou deficiente.


Capítulo 26 Tris Aproximo meu rosto do visor do microscópio. O soro dança diante de mim, laranja acastanhado. Eu estava tão ocupada procurando as mentiras de Nita que mal registrei a verdade: a fim de ter este soro em suas mãos, o Centro deve tê-lo desenvolvido e de alguma forma o entregou para Jeanine de usar. Afasto-me. Por que Jeanine trabalharia com o Centro quando queria tanto ficar na cidade, longe deles? Mas acho que o Centro e Jeanine compartilharam um objetivo comum. Ambos queriam que o experimento continuasse. Ambos estavam aterrorizados com o que aconteceria se isso não acontecesse. Ambos estavam dispostos a sacrificar vidas inocentes para fazê-lo. Pensei que este lugar pudesse ser minha casa. Mas o Centro está cheio de assassinos. Balanço para trás sobre meus calcanhares como se empurrada por uma força invisível, depois saio da sala, o meu coração batendo rápido. Ignoro as poucas pessoas que estão no corredor à minha frente. Eu só continuo indo mais para dentro do complexo do Centro, cada vez mais dentro na barriga da besta. Talvez este lugar possa ser minha casa, eu me ouço dizendo para Christina. Essas pessoas assassinaram seus pais, as palavras de Tobias ecoam na minha cabeça. Eu não sei para onde estou indo, só sei que preciso de espaço e ar. Aperto a identificação em minha mão e meio ando, meio corro


pelo posto de segurança até a escultura. Não há luz brilhando no tanque agora, embora a água ainda caia a partir dele, uma gota para cada segundo. Eu fico por pouco tempo, assistindo. E então, do outro lado da laje de pedra, vejo o meu irmão. — Você está bem? — ele pergunta, hesitante. Eu não estou bem. Estava começando a sentir que eu tinha finalmente encontrado um lugar para ficar, um lugar que não era tão instável, corrompido ou controlado em que eu poderia realmente ficar. Você pensaria que eu teria aprendido até agora – tal lugar não existe. — Não — respondo. Ele começa a se mover em torno do bloco de pedra, em direção a mim. — O que aconteceu? — O que aconteceu — eu rio. — Deixe-me colocar desta forma: acabei de descobrir que você não é a pior pessoa que eu conheço. Deixo-me cair em um agachamento e passo os dedos por meu cabelo. Eu me sinto entorpecida e com medo da minha própria dormência. O Centro é responsável pela morte de meus pais. Por que tenho que ficar repetindo para me fazer acreditar nisso? O que há de errado comigo? — Oh — ele diz. — Eu... sinto muito? Tudo o que posso fazer é soltar um pequeno grunhido. — Sabe o que mamãe me disse uma vez? — ele pergunta, e a maneira como ele diz mamãe, como se não a traído, faz meus dentes rangerem. — Ela disse que todo mundo tem algum mal dentro deles, e o primeiro passo para amar alguém é reconhecer o mesmo mal em nós mesmos, assim seremos capazes de perdoá-lo. — É isso que você quer que eu faça? — digo amargamente enquanto me ponho de pé. — Posso ter feito coisas ruins, Caleb, mas eu nunca te entregaria para a sua própria execução. — Você não pode dizer isso — ele fala, e parece implorar para mim, pedindo-me para dizer que sou assim como ele, não melhor — você não sabe quão persuasiva Jeanine era... Algo dentro de mim salta um elástico frágil.


Eu soco a cara dele. Tudo em que posso pensar é no Erudito que retirou meu relógio, meus sapatos e me levou para a mesa lisa onde eles iam tirar a minha vida. Uma mesa que o próprio Caleb poderia ter criado. Pensei que estava além deste tipo de raiva, mas enquanto ele tropeça para trás com as mãos no rosto, eu o sigo, agarrando a frente de sua camisa e batendo-o contra a escultura de pedra e gritando que ele é um covarde e um traidor e que vou matá-lo, vou matá-lo. Um dos guardas vem em minha direção, e tudo o que ele tem que fazer é colocar a mão no meu braço e o feitiço se quebra. Solto a camisa de Caleb e balanço a minha mão ardendo. Viro-me e vou embora. +++ Há um suéter bege caído na cadeira vazia no laboratório de Matthew, a manga roçando o chão. Eu nunca conheci o seu supervisor. Estou começando a suspeitar que Matthew faz todo o trabalho real. Sento-me em cima do suéter e examino meus nós dos dedos. Alguns deles estão cortados pelos socos que dei em Caleb, e pontilhados com leves contusões. Parece apropriado que deixe uma marca em nós dois. É como o mundo funciona. Ontem à noite, quando voltei para o dormitório, Tobias não estava lá, e eu estava zangada demais para dormir. Nas horas em que fiquei acordada, olhando para o teto, decidi que mesmo que eu não fosse participar do plano de Nita, também não iria impedi-lo. A verdade sobre o ataque de simulação acende o ódio pelo Centro dentro de mim, e quero vê-lo quebrar por dentro. Matthew fala sobre ciência. Tenho problemas para prestar atenção. —... fazendo uma análise genética, o que é bom, mas antes, estávamos desenvolvendo uma maneira de fazer com que o composto da memória atue como um vírus — diz ele. — Com a mesmo replicação rápida, a mesma capacidade de se espalhar pelo


ar. E então, desenvolvemos uma vacina para isso. Apenas um temporário, só dura 48 horas, mas mesmo assim. Concordo com a cabeça. — Então... vocês estavam fazendo isso para que pudessem desenvolver outra cidade experimento de forma mais eficiente, certo? — eu digo. — Não há necessidade de injetar todos com o soro da memória quando você pode apenas liberá-lo e deixá-lo espalhar. — Exatamente! — Ele parece animado que estou realmente interessada no que ele está dizendo. — E é um modelo melhor para ter a opção de selecionar os membros específicos de uma população a exonerar – você os inocula, o vírus propaga-se dentro de 24 horas, e não há efeito sobre eles. Concordo com a cabeça novamente. — Você está bem? — Matthew pergunta, a caneca de café parada perto de sua boca. Ele a coloca para baixo. — Ouvi que os seguranças tiveram que te separar de alguém ontem à noite. — Foi o meu irmão. Caleb. — Ah — Matthew levanta uma sobrancelha. — O que ele fez desta vez? — Nada, na verdade — aperto a manga do suéter entre meus dedos. Suas bordas estão desgastadas pelo tempo de uso. — Eu estava pronta para explodir de qualquer maneira, ele só ficou no caminho. Eu sei, olhando para ele, a pergunta que quer fazer, e quero explicar tudo para ele, tudo o que Nita me mostrou e disse. Gostaria de saber se posso confiar nele. — Eu ouvi algo ontem — falo, testando as águas. — Sobre o Centro. Sobre minha cidade e as simulações. Ele se endireita e me dá um olhar estranho. — O quê? — Ouviu isso de Nita? — Sim. Como você sabe disso? — indago. — Eu a ajudei algumas vezes. Deixei-a entrar no armazém. Será que ela te disse algo mais?


Matthew é o informante de Nita? Eu fico olhando para ele. Nunca pensei que Matthew, que fez todo o possível para me mostrar a diferença entre os meus genes “puros” e os “genes deficientes” de Tobias, pode estar ajudando Nita. — Algo sobre um plano — eu digo lentamente. Ele se levanta e caminha até mim, estranhamente tenso. Eu me inclino para longe dele por instinto. — Quando isso vai acontecer? Sabe quando? — O que está acontecendo? Por que você ajudaria Nita? — Porque toda essa bobagem de “dano genético” é ridículo — ele responde. — É muito importante que você responda às minhas perguntas. — Isso está acontecendo. E eu não sei quando, mas acho que será em breve. — Merda — Matthew coloca as mãos no rosto. — Nada de bom pode vir disto. — Se você não parar de dizer coisas enigmáticas, vou te bater — eu digo, ficando de pé. — Eu estava ajudando Nita até que ela me disse o que as pessoas da fronteira querem fazer. Eles querem chegar ao Laboratório de Armas e... — Roubar o soro da memória, sim, eu ouvi. — Não — ele balança a cabeça. — Não, eles não querem o soro da memória, eles querem que o soro da morte. É similar ao que a Erudição tem – aquele que supostamente seria injetado em você quando quase foi executada. Eles vão usá-lo para assassinatos, um monte deles. Parta uma lata de aerossol e é fácil, viu? Dê para as pessoas certas e você tem uma explosão de anarquia e violência, o que é exatamente o que o povo da fronteira quer. Eu vejo. Eu vejo um frasco caindo, o toque rápido de um botão em uma lata de aerossol. Vejo corpos da Abnegação e da Erudição esparramados em ruas e escadarias. Vejo os pequenos pedaços do mundo a que conseguimos nos agarrar explodindo em chamas. — Pensei que estava a ajudando com algo mais inteligente — Matthew fala. — Se eu soubesse que estava a ajudando a começar


outra guerra, não teria feito isso. Nós temos que fazer algo. — Eu disse a ele — falo baixinho, não para Matthew, para mim mesma. — Eu disse a ele que ela estava mentindo. — Podemos ter um problema com a forma como tratamos GDs neste país, mas não vai ser resolvido matando um monte de gente. Agora vamos lá, vamos para o escritório de David. Eu não sei o que é certo ou errado. Não sei nada sobre este país ou a forma como ele funciona ou o que precisa ser mudado. Mas sei que um monte de soro da morte nas mãos de Nita e algumas pessoas da fronteira não é melhor do que um monte de soro da morte no Laboratório de Armas do Centro. Assim, sigo Matthew pelo corredor do lado de fora. Caminhamos rapidamente na direção da porta de entrada, onde entrei pela primeira vez neste complexo. Quando passo pelo posto de controle de segurança, vejo Uriah perto da escultura. Ele levanta a mão para acenar para mim, sua boca pressionada em uma linha que poderia ser um sorriso, se estivesse tentando mais. Acima de sua cabeça, a luz refrata através do tanque de água, o símbolo da luta lenta e inútil do complexo. Estou passando pelo posto de segurança quando vejo a parede ao lado de Uriah explodir. É como o florescimento do fogo a partir de um botão. Fragmentos de vidro e metal surgem a partir do centro da flor, e o corpo de Uriah está entre eles, um projétil flácido. Um estrondo profundo passa através de mim, como um arrepio. Minha boca está aberta, eu estou gritando seu nome, mas não posso me ouvir sobre o zumbido nos meus ouvidos. Ao meu redor, todo mundo está agachado, os braços enrolados em torno de suas cabeças. Mas eu estou de pé, olhando o furo na parede do complexo. Ninguém vem através dele. Segundos depois, todos ao meu redor começam a correr para longe da explosão, e me arremessar contra eles, ombros primeiro, em direção a Uriah. Um cotovelo me acerta na lateral e eu caio, meu rosto raspando algo duro de metal – a lateral de uma mesa. Luto para ficar de pé, limpando o sangue de minha sobrancelha


com uma manga. Tiras de tecido em meus braços e pernas, cabelos e olhos arregalados são tudo o que posso ver, com exceção da placa sobre suas cabeças que diz SAÍDA DO COMPLEXO. — Soe o alarme! — um dos guardas no posto de controle de segurança grita. Apoio-me num braço e me arrasto para o lado. — Já fiz isso! — outro guarda grita. — Não está funcionando! Matthew agarra meu ombro e grita em meu ouvido: — O que você está fazendo? Não vá naquela direção... Eu me movo mais rápido, encontrando um espaço vazio onde não há pessoas para obstruir o meu caminho. Matthew corre atrás de mim. — Nós não deveríamos estar indo para o local da explosão – quem o explodiu já está no prédio — ele diz. — O Laboratório de Armas, agora! Vamos! O Laboratório de Armas. Santas palavras. Penso em Uriah estendido no piso cercado por vidro e metal. Meu corpo está se esforçando em direção a ele, todos os músculos, mas sei que não há nada que eu possa fazer por ele agora. A coisa mais importante a fazer é usar o meu conhecimento do caos, de ataques, para impedir Nita e seus amigos de roubar o soro da morte. Matthew está certo. Nada de bom pode vir disso. Matthew assume a liderança, mergulhando na multidão como se fosse uma piscina de água. Tento apenas encarar a parte de trás de sua cabeça para acompanhá-lo, mas os rostos que se aproximam me distraem, bocas e olhos rígidos com terror. Eu o perco por alguns segundos e depois o encontro de novo, alguns metros à frente, virando à direita na o próximo corredor. — Matthew! — Eu grito, e abro meu caminho através de um grupo de pessoas. Finalmente eu o alcanço, agarrando a parte de trás da camisa. Ele se vira e pega a minha mão. — Você está bem? — ele pergunta, olhando a pele acima da minha sobrancelha. Na pressa, quase esqueci meu corte. Pressiono minha manga na


testa e ela sai vermelha, mas eu assinto. — Eu estou bem! Vamos lá! Nós correremos lado a lado pelo corredor – este não está tão lotado quanto os outros, mas posso ver que quem quer que se infiltrou no edifício já esteve aqui. Há guardas deitados no chão, alguns vivos e outros não. Vejo uma arma no piso perto de um bebedouro e me inclino em direção a ela, soltando a mão de Matthew. Pego a arma e a ofereço a Matthew. Ele balança a cabeça. — Eu nunca disparei uma. — Oh, pelo amor de Deus. Meu dedo se enrola ao redor do gatilho. É diferente das armas que tivemos na cidade – não tem um barril que se desloca para o lado, a mesma tensão no gatilho, ou mesmo a mesma distribuição de peso. É mais fácil de segurar porque não desperta as mesmas memórias. Matthew está com falta de ar. Eu também, só que não é perceptível da mesma maneira, porque já atravessei o caos correndo muitas vezes. O próximo corredor está vazio exceto por uma guarda caída. Ela não está se movendo. — Não está longe — diz ele, e eu toco o dedo nos lábios para dizer-lhe para fazer silêncio. Nós desaceleramos para uma caminhada, e eu aperto a arma, meu suor tornando-a escorregadia. Não sei quantas balas há nela, ou como verificar. Quando passamos pela guarda, faço uma pausa para revistá-la em busca de uma arma. Acho uma arma sob seu quadril, onde ela caiu de seu pulso. Matthew olha para ela, sem piscar, enquanto pego a arma. — Hey — falo em voz baixa. — Apenas mantenha-se em movimento. Mova-se agora, processe mais tarde. Lhe dou uma pequena cotovelada e lidero o caminho pelo corredor. Aqui, os corredores são escuros, o teto é cruzado por barras e tubos. Posso ouvir as pessoas à frente e não preciso das instruções sussurradas de Matthew para encontrá-las. Quando chegamos ao lugar onde nós devemos virar, me pressiono


contra a parede e olho ao redor da esquina, tomando cuidado para manter-me tão oculta quanto possível. Há um conjunto de portas duplas de vidro que parecem tão pesadas quanto portas de metal, mas eles estão abertas. Além deles está um corredor apertado, vazio, exceto por três pessoas de preto. Elas usam roupas pesadas e carregam armas tão grandes que não tenho certeza se eu seria capaz de levantar uma. Seus rostos estão cobertos por tecido escuro, menos nos olhos. De joelhos diante das portas duplas está David, um cano de arma pressionado contra sua têmpora, sangue escorrendo pelo lado direito de seu queixo. E entre os invasores, usando a mesma máscara que os outros, está uma garota com um rabo de cavalo escuro. Nita.


Capítulo 27 Tris — Deixe-nos entrar, David — Nita fala, sua voz distorcida pela máscara. Os olhos de David deslizam preguiçosamente para o lado, para o homem apontando a arma para ele. — Eu não acredito que você vá atirar em mim — diz ele — porque sou o único neste edifício que conhece esta informação, e você quer o soro. — Não um tiro na cabeça, talvez — o homem responde — mas há outros lugares. O homem e a Nita trocam um olhar. Então o homem move a arma para o pé de Davi e atira. Eu espremo os olhos fechados enquanto os gritos de David enchem o corredor. Ele pode ser uma das pessoas que ofereceu a Jeanine Matthews o soro da simulação de ataque, mas ainda não saboreio os seus gritos de dor. Fico olhando para as armas que carrego, uma em cada mão, meus dedos pálidos contra os gatilhos negros. Imagino-me podando todas as pontas soltas de meus pensamentos, focando apenas este lugar, este momento. Aproximo minha boca da orelha de Matthew e murmuro: — Vá procurar ajuda. Agora. Matthew balança a cabeça e começa a voltar pelo corredor. Para seu crédito ele se move em silêncio, seus passos silenciosos no azulejo. No final do corredor ele olha para mim, e depois desaparece ao redor da curva. — Estou cansada dessa merda — a mulher de cabelos vermelhos diz. — É só explodir as portas.


— Uma explosão ativaria uma das medidas de segurança de backup — Nita responde — precisamos do código de acesso. Espio pelo canto de novo, e desta vez os olhos de David encontram os meus. Seu rosto está pálido e brilhante com suor, e há uma grande poça de sangue ao redor de seus tornozelos. Os outros estão olhando para Nita, que puxa uma caixa-preta do bolso e a abre para revelar uma seringa e agulha. — Pensei que você tivesse dito que essa coisa não funciona com ele — o homem com a arma diz. — Eu disse que ele poderia resistir a ela, não que não fosse dar certo — ela responde. — David, esta é uma mistura muito potente do soro da verdade e do soro do medo. Vou injetá-la em você se não nos disser o código de acesso. — Eu sei que isso é apenas culpa dos seus genes, Nita — David fala com voz fraca. — Se parar agora, eu posso te ajudar, posso... Nita dá um sorriso torto. Com prazer, ela insere a agulha no pescoço dele e pressiona o êmbolo. David escorrega mais, e, em seguida, seu corpo começa a tremer, e estremece novamente. Ele abre os olhos e grita, olhando para o ar vazio, e sei o que ele está vendo porque vi por mim mesma, na sede da Erudição, sob a influência do soro do medo. Vi meus piores medos vindo à vida. Nita se ajoelha na frente dele e pega seu rosto. — David! — ela fala com urgência. — Eu posso fazê-lo parar, se você nos dizer como chegar a esta sala. Está me ouvindo? Ele treme, e seus olhos não estão focados nela, mas sim em algo sobre o seu ombro. — Não faça isso! — ele grita, e dá o bote para a frente, em direção ao fantasma que o soro mostra a ele. Nita põe um braço no peito dele para mantê-lo firme, e ele grita: — Não! Nita o sacode. — Eu vou impedi-lo se você me disser como entrar! — Ela! — David diz, e lágrimas brilham em seus olhos. — O... o nome...


— O nome de quem? — Estamos correndo contra o tempo! — o homem com a arma apontada para David diz. — Ou conseguimos o soro ou podemos matá-lo... — Ela — David diz, apontando para o espaço em frente a ele. Apontando para mim. Estico meus braços em torno do canto da parede e disparo duas vezes. A primeira bala atinge a parede. A segunda atinge o homem no braço, de modo que ele derruba a enorme arma no chão. A mulher de cabelos vermelhos aponta sua arma para mim – ou a parte de mim que ela pode ver, meia escondido pela parede – e Nita grita: — Não atirem! Tris — Nita fala — você não sabe o que está fazendo... — Você provavelmente está certa — respondo, e disparo novamente. Desta vez minha mão está mais firme, minha mira é melhor, e acerto a lateral de Nita, logo acima de seu quadril. Ela grita sob sua máscara e pressiona o buraco em sua pele, afundando de joelhos, as mãos cobertas de sangue. David vem em minha direção com uma careta de dor quando coloca o peso sobre a perna ferida. Envolvo meu braço em torno de sua cintura e viro seu corpo de modo que ele está entre mim e os soldados restantes. Então pressiono uma das minhas armas contra a cabeça dele. Todos eles congelam. Posso sentir meu coração batendo forte na garganta, em minhas mãos, por trás dos meus olhos. — Abram fogo e eu vou atirar na cabeça dele — falo. — Você não mataria o seu próprio líder — diz a mulher de cabelos vermelhos. — Ele não é meu líder. Eu não me importo se ele vive ou morre. Mas se acha que vou deixar você ganhar o controle do soro da morte, estão loucos. Eu começo a andar para trás, com David choramingando na minha frente, ainda sob a influência do coquetel de soro. Abaixo a cabeça


e movo o meu corpo para o lado, em segurança atrás dele. Mantenho uma das armas contra a sua cabeça. Chegamos ao final do corredor, e a mulher chama meu blefe. Ela dispara e atinge David logo acima do joelho, em sua outra perna. Ele cai com um grito, e eu estou exposta. Mergulho para o chão, batendo os cotovelos no azulejo enquanto uma bala passa por mim, o som vibrando em meus ouvidos. Então sinto algo quente se espalhando por meu braço esquerdo, vejo sangue e meus pés se esforçam no chão, em busca de tração. Eu o encontro e disparo às cegas pelo corredor. Pego David pelo colarinho e o arrasto virando da esquina, a dor lancinante em meu braço esquerdo. Ouço passos correndo e suspiro. Mas eles não estão vindo detrás de mim, estão vindo da frente. As pessoas me cercam, Matthew entre elas, e alguns deles recolhem David e o levam pelo corredor. Matthew me oferece sua mão. Meus ouvidos estão zumbindo. Não posso acreditar que fiz isso.


Capítulo 28 Tris O hospital está cheio de gente, todos gritando ou correndo de um lado para o outro ou fechando as cortinas. Antes de eu me sentar, verifiquei todas as camas em busca de Tobias. Ele não estava em nenhuma delas. Ainda estou tremendo de alívio. Uriah não está aqui também. Ele está em um dos outros quartos, e a porta está fechada – não é um bom sinal. A enfermeira que enxuga o meu braço com antisséptico está ofegante e olha para toda a atividade em volta em vez de para o meu ferimento. Disseram-me que é um arranhão menor, nada para se preocupar. — Eu posso esperar, se você precisa fazer alguma coisa — falo. — Tenho que encontrar alguém de qualquer maneira. Ela franze os lábios, em seguida, diz: — Você precisa de pontos. — É apenas um arranhão! — Não é o seu braço, a cabeça — ela responde, apontando para um ponto acima do meu olho. Eu tinha quase esquecido do corte em todo o caos, mas ainda não parou de sangrar. — Tudo bem. — Eu vou ter que lhe dar uma dose deste agente anestésico — ela fala, segurando uma seringa. Estou tão acostumada com agulhas que nem sequer reajo. Ela enxuga a testa com antisséptico – eles são tão cuidadosos com germes por aqui – e eu sinto a dor e formigamento da agulha, diminuindo a cada segundo enquanto o agente anestésico faz o seu


trabalho. Vejo as pessoas passando rapidamente ela costura a minha pele – um médico retira um par ensanguentado de luvas de borracha; uma enfermeira carrega uma bandeja de gaze, os sapatos quase escorregando no piso, um membro da família de alguém ferido torce as mãos. O ar cheira a produto químico, papel velho e corpos quentes. — Alguma novidade sobre David? — Ele vai viver, mas vai levar muito tempo para andar de novo — ela responde. Seus lábios fazem beicinho, apenas por alguns segundos. — Poderia ter sido muito pior se você não estivesse lá. Pronto. Concordo com a cabeça. Eu gostaria de poder dizer-lhe que não sou uma heroína, que eu estava usando-o como um escudo, como um muro de carne. Gostaria de poder confessar que sou uma pessoa cheia de ódio contra o Centro e David, que deixaria alguém ser crivado de balas para salvar a mim mesma. Meus pais ficariam envergonhados. Ela coloca um curativo sobre os pontos para proteger a ferida, e junta todas as embalagens e bolas de algodão encharcadas em seus punhos para jogá-los fora. Antes que eu possa lhe agradecer ela já se foi para a próxima cama, o próximo paciente, a próxima lesão. Os feridos enfileiram-se no corredor do lado de fora da ala de emergência. Percebo a partir das evidências que houve outra explosão ao mesmo tempo que aquela perto da entrada. Ambas foram distrações. Nossos atacantes entraram através do túnel subterrâneo, como Nita disse que faria. Ela nunca mencionou abrir buracos em paredes. As portas no final do corredor são abertas e algumas pessoas entram, carregando uma jovem mulher – Nita – entre eles. Eles a colocam em uma cama perto de uma das paredes. Ela geme, agarrando-se a um rolo de gaze que está pressionado contra a ferida em sua lateral. Sinto-me estranhamente separada de sua dor. Eu atirei nela. Eu tinha que fazer.


Esse é o fim de tudo. Enquanto ando pelo corredor entre os feridos, noto os uniformes. Todo mundo sentado aqui usa verde. Com poucas exceções, todos eles são do pessoal de apoio. Eles estão contendo sangramento nos braços, pernas ou cabeças, seus ferimentos não melhores que os meus, alguns muito piores. Vejo o meu reflexo nas janelas um pouco além do corredor principal – o meu cabelo está pegajoso e frouxo, e o curativo domina a minha testa. O sangue de David e o meu mancham minhas roupas em alguns lugares. Preciso tomar banho e me trocar, mas primeiro tenho que encontrar Tobias e Christina. Eu não vi nenhum dos dois desde antes da invasão. Não demora muito tempo para encontrar Christina – ela está sentada na sala de espera quando eu saio da ala de emergência, seu joelho balançando tanto que a pessoa ao seu lado lhe dá olhares de reprovação. Ela levanta a mão para me cumprimentar, mas seus olhos se afastam do meu e vão para as portas da direita logo em seguida. — Você está bem? — ela me pergunta. — Sim. Ainda há nenhuma atualização sobre Uriah. Eu não podia entrar na sala. — Essas pessoas me deixam louca, sabia disso? Elas não dizem nada a ninguém. Não nos deixam vê-lo. É como se pensassem que são donos dele e tudo o que acontece com ele! — As coisas funcionam de forma diferente aqui. Tenho certeza de que eles vão te dizer quando souberem algo de concreto. — Bem, eles diriam a você — ela corrige, franzindo o cenho. — Mas não estou convencida de que iriam me dar mais que um segundo olhar. Alguns dias atrás eu poderia ter discordado dela, insegura de quão influente em seu comportamento a crença na deficiência genética era. Não tenho certeza do que fazer – não sei como falar com ela agora que tenho estas vantagens e ela não, e não há nada que qualquer um de nós pode fazer a respeito. Tudo o que posso pensar em fazer é ficar perto dela.


— Tenho que encontrar Tobias, mas depois vou voltar e sentar com você, ok? Ela finalmente olha para mim, seu joelho ainda balançando. — Eles não te disseram? Meu estômago se aperta com medo. — Diga-me o que aconteceu. — Tobias foi preso — ela fala em voz baixa. — Eu o vi sentado com os invasores logo antes de entrar aqui. Algumas pessoas o viram na sala de controle antes do ataque – dizem que foi ele que desativou o alarme do sistema de segurança. Há um olhar triste em seus olhos, como se ela tivesse pena de mim. Mas eu já sabia o que Tobias fez. — Onde eles estão? Eu preciso falar com ele. E sei o que preciso dizer.


Capítulo 29 Tobias Meus pulsos ardem por causa do fio de plástico que a guarda apertou em torno deles. Sondo minha mandíbula com as pontas dos dedos, procurando sangue na pele. — Tudo bem? — Reggie pergunta. Concordo com a cabeça. Tenho lidado com lesões piores do que essa – já fui acertado com mais força do que fui pelo soldado que bateu a coronha da arma em meu queixo enquanto estava me prendendo. Seus olhos estavam selvagens com raiva quando ele fez isso. Mary e Rafi estão sentados a poucos metros de distância, Rafi segurando um punhado de gaze no braço sangrando. Uma guarda está entre nós e eles, mantendo-nos separados. Ao olhar para ele, Rafi encontra meus olhos e acena. Como se dissesse: Bem feito. Se eu fiz bem, por que me sinto mal no estômago? — Ouça — Reggie diz, se movendo, então ele está mais perto de mim. — Nita e as pessoas da fronteira estão tomando a queda. Vai dar tudo bem. Concordo com a cabeça mais uma vez, sem convicção. Armamos um plano de fuga para a nossa provável prisão, e não estou preocupado sobre o seu sucesso. O me preocupa é o tempo que está levando para lidarem conosco, e quão informal é – nós estamos sentados contra a parede em um corredor vazio desde que pegaram os invasores há mais de uma hora, e ninguém veio nos dizer o que vai acontecer com a gente, ou para nos fazer quaisquer perguntas. Eu nem vi Nita ainda. Isso põe um gosto amargo na minha boca. Seja lá o que fizemos, parece têlos abalado, e sei que nada abala as pessoas quanto vidas perdidas. Por quantos corpos sou responsável por que participei disto? — Nita me disse que iam roubar o soro da memória — eu digo para Reggie, e tenho medo de olhar para ele. — Isso era verdade? Reggie olha a guarda que está a poucos metros de distância. Ela já gritou uma vez por conversarmos. Mas eu sei a resposta.


— Não era, certo? — pressiono. Tris estava certa. Nita estava mentindo. — Ei! — A guarda marcha em nossa direção e enfia o cano de sua arma entre nós. — Vá para o lado. Conversas não são permitidas. Reggie se desloca para a direita, e eu faço contato visual ela. — O que está acontecendo? — pergunto. — O que aconteceu? — Oh, então você não sabe — ela responde. — Agora mantenha a boca fechada. Eu a vejo afastar-se, e então tenho o vislumbre de uma pequena garota loira aparecendo no final do corredor. Tris. Bandagem se estende por toda a testa dela, e manchas de sangue em forma de dedos preenchem suas roupas. Ela agarra um pedaço de papel em seu punho. — Ei! — a guarda grita. — O que você está fazendo aqui? — Shelly — o outro guarda diz, movimentando-se de novo. — Acalme-se. Essa é a menina que salvou David. A menina que salvou David – de quê, exatamente? — Oh — Shelly baixa a arma. — Bem, ainda é uma pergunta válida. — Eles me pediram para trazer a vocês uma atualização — Tris responde, e oferece a Shelly o pedaço de papel. — David está em recuperação. Ele vai viver, mas não se tem certeza de quando vai voltar a andar. A maioria dos outros feridos está sendo tratada. O gosto amargo na minha boca se torna mais forte. David não pode andar. E o que eles estão fazendo nesse tempo todo é cuidar dos feridos. Toda essa destruição, e para quê? Eu mesmo não sei. Eu não sei a verdade. O que eu fiz? — Eles têm um número de baixas? — Shelly pede. — Ainda não — responde Tris. — Obrigada por nos avisar. — Olha — ela muda o seu peso para o pé. — Eu preciso falar com ele. Ela sacode a cabeça para mim. — Nós realmente não podemos... — Shelly começa. — Só por um segundo, eu prometo. Por favor. — Deixe-a — diz o outro guarda. — Que mal poderia fazer? — Tudo bem — Shelly fala. — Eu vou te dar dois minutos. Ela acena com a cabeça para mim, e eu uso a parede para empurrar-me de pé, minhas mãos ainda presas à minha frente. Tris chega mais perto, mas não tão perto – o espaço e seus braços cruzados formam uma barreira entre nós que pode bem ser um muro. Ela olha em algum lugar ao sul de meus olhos.


— Tris, eu... — Quer saber o que seus amigos fizeram? — ela pergunta. Sua voz treme, e eu não cometo o erro de pensar que é de lágrimas. É de raiva. — Eles não estavam atrás do soro da memória. Estavam atrás de veneno – soro da morte. Assim eles poderiam matar um monte de pessoas importantes do governo e iniciar uma guerra. Eu olho para baixo, para as minhas mãos, o piso, os dedos dos pés dos seus sapatos. Uma guerra. — Eu não sabia... — Eu estava certa. Eu estava certa e você não quis ouvir. De novo — diz ela, calma. Seus olhos se trancam nos meus, e acho que não quero o contato com seus olhos que eu desejava, porque me desmonta, parte por parte. — Uriah estava bem na frente de um dos explosivos que serviu como distração. Ele está inconsciente e não temos certeza se ele vai acordar. É estranho como uma palavra, uma frase, uma oração, pode parecer com um golpe na cabeça. — O quê? Tudo o que eu posso ver é o rosto de Uriah quando ele caiu na rede após a Cerimônia de Escolha, o sorriso bobo que tinha enquanto Zeke e eu o puxávamos para a plataforma ao lado da rede. Ou ele sentado no estúdio de tatuagem, sua orelha para frente para que ele não ficasse no caminho de Tori enquanto ela desenhava uma cobra em sua pele. Uriah pode não acordar? Uriah, indo para sempre? E eu prometi. Prometi a Zeke que eu cuidaria dele, eu prometi... — Ele é um dos últimos amigos que tenho — diz ela, sua voz embargada — não sei se vou ser capaz de olhar para você da mesma forma novamente.

Ela vai embora. Ouço a voz abafada de Shelly me dizendo para sentar e eu afundo até os joelhos, deixando meus pulsos descansarem sobre as pernas. Esforço-me para encontrar uma maneira de escapar disso, do horror do que eu fiz, mas não há lógica sofisticada que pode me libertar, não há saída. Coloco meu rosto nas mãos e tento não pensar, tento não imaginar nada. +++


A luz do teto na sala de interrogatório reflete um círculo difuso no centro da mesa. É onde eu mantenho os olhos quando recito a história que Nita me deu, que é tão perto da verdade não tenho nenhuma dificuldade em distinguir isso. Quando termino, o homem gravando bate minhas últimas frases em sua tela, o vidro iluminando com letras onde seus dedos tocaram. Então a mulher atuando como representante de David – Ângela – diz: — Então, você não sabe a razão de Juanita ter lhe pedido para desativar o sistema de segurança? — Não — respondo, o que é verdade. Eu não sabia a verdadeira razão, só sabia que uma mentira. Eles colocaram todos os outros sob o soro da verdade, mas não a mim. A anomalia genética que me faz consciente durante as simulações também sugere que eu poderia ser resistente a soros, por isso o meu testemunho sob o soro da verdade pode não ser confiável. Enquanto a minha história se encaixa com a dos outros, eles vão assumir que é verdade. Eles não sabem que, poucas horas atrás, todos nós fomos inoculados contra soro da verdade. O informante de Nita entre os GPS deu-lhe a inoculação contra o soro meses atrás. — Como, então, ela obrigou-o a fazê-lo? — Somos amigos — respondo. — Ela é – era – uma das únicas amigas que eu tinha aqui. Ela me pediu para confiar nela, me disse que era por uma boa razão, então eu fiz isso. — E o que você pensa sobre a situação agora? Eu finalmente olho para ela. — Eu nunca me arrependi tanto de algo na minha vida. Rígidos, os olhos brilhantes de Am gela amolecem um pouco. Ela acena com a cabeça. — Bem, sua história se encaixa com o que os outros contaram. Dado o seu pouco tempo nesta comunidade, a sua ignorância do plano mestre e sua deficiência genética, estamos inclinados a ser indulgente. Sua sentença é a liberdade condicional – você deve trabalhar para o bem desta comunidade, ter bom comportamento, por um ano. Não terá permissão para entrar em qualquer


laboratório ou sala privada. Não vai sair dos limites deste complexo sem permissão. Se apresentará todos os meses a um agente da condicional que será atribuído a você na conclusão do nosso processo. Você entende esses termos? Com as palavras “deficiência genética” ecoando em minha mente, eu aceno e respondo: — Sim. — Então nós terminamos aqui. Você está livre para ir. Ela fica de pé, empurrando a cadeira para trás. O gravador também para, e ela desliza a tela em sua bolsa. Am gela toca a mesa para que eu olhe para ela novamente. — Não seja tão duro consigo mesmo. Você é bastante jovem, sabe. Eu não acho que a minha juventude seja desculpa, mas aceito sua tentativa de bondade sem objeção. — Posso perguntar o que vai acontecer com Nita? Am gela pressiona os lábios. — Uma vez que ela se recupere de seus ferimentos substanciais, ela será transferida para a nossa prisão e vai passar o resto da vida lá — ela responde. — Ela não vai ser executada? — Não, nós não acreditamos em pena de morte para os geneticamente deficientes — Am gela se move em direção à porta. — Não podemos ter as mesmas expectativas de comportamento para aqueles com genes deficientes, como fazemos para aqueles com genes puros, depois de tudo. Com um sorriso triste, ela sai da sala, mas não fecha a porta atrás dela. Fico no meu lugar por alguns segundos, absorvendo a dor de suas palavras. Eu queria acreditar que todos estavam errados sobre mim, que eu não sou limitado pelos meus genes, que não era mais deficiente do que qualquer outra pessoa. Mas como isso pode ser verdade quando minhas ações levaram Uriah para o hospital, quando Tris não pode ao menos me olhar nos olhos, quando muitas pessoas morreram? Cubro meu rosto e cerro os dentes enquanto as lágrimas caem, a onda de desespero tal qual um punho, me golpeando.


No momento em que me levanto para ir embora, as pontas das minhas mangas – usadas para limpar meu rosto – estão úmidas, e minha mandíbula dói.


Capítulo 30 Tris — Você entrou? Cara está de pé ao meu lado, os braços cruzados. Ontem Uriah foi transferido de seu quarto de segurança para um quarto com uma janela espelhada, que suspeito que seja para evitar que possamos vê-lo o tempo todo. Christina está sentada ao lado da cama agora, agarrando sua mão fraca. Pensei que ele quebraria como uma boneca de trapo, mas ele não parece muito diferente, com exceção de algumas ataduras e arranhões. Sinto-me como se ele pudesse acordar a qualquer momento, sorrindo e perguntando por que todo mundo está olhando para ele. — Eu estive lá na noite passada — digo. — Apenas não parecia correto deixá-lo sozinho. — Há alguns dados que indicam que, dependendo da extensão do dano cerebral, em algum nível, ele pode nos ouvir e sentir — diz Cara. — No entanto, me foi dito que o diagnóstico não era bom. Às vezes eu ainda quero bater nela. Como se precisasse me recordar que é provável que Uriah não se recupere. — Sim. Depois que eu deixei o lado de Uriah na noite anterior, vaguei pelo complexo sem direção. Eu deveria ter pensado sobre o meu amigo, oscilando entre este mundo e o que vem a seguir, mas em vez disso pensei sobre o que falei para Tobias. E como me sentia quando eu olhei para ele, como se algo estivesse rompendo. Eu não lhe disse que era o fim do nosso relacionamento. Eu queria, mas quando estava olhando para ele, as palavras foram


impossíveis de pronunciar. Sinto as lágrimas brotando novamente, como fizeram a cada hora mais ou menos desde ontem, e eu as afasto, engolindo-as. — Então você salvou o Centro — Cara fala, virando-se para mim. — Você parece ter se envolvido em um monte de problemas. Acho que todos deveríamos agradecer por você ser firme em uma crise. — Não salvei o Centro. Não tenho interesse em salvar o Centro — replico. — Eu mantive uma arma longe de mãos perigosas, isso é tudo — espero um tempo. — Você acabou de me cumprimentar? — Sou capaz de reconhecer o ponto forte de outra pessoa — Cara responde, e sorri. — Além disso, acho que nossos problemas estão resolvidos agora, ambos em um nível psicológico e emocional — ela limpa a garganta um pouco, e me pergunto se ela está finalmente reconhecendo que têm emoções que a fazem se sentir desconfortável, ou algo mais. — Parece que você sabe alguma coisa sobre o Centro que te faz ter raiva. Gostaria de saber se você poderia me dizer o que é. Christina repousa a cabeça na borda do colchão Uriah, seu corpo delgado desaba de lado. Falo com ironia: — Eu me pergunto. Talvez nunca venhamos a saber. — Hmm — uma ruga aparece entre as sobrancelhas de Cara quando ela franze a testa, fazendo-a parecer tanto com Will que tenho de desviar o olhar. — Talvez eu devesse dizer “por favor”. — Bem. Sabe o soro de simulação da Jeanine? Bem, não era dela. — suspiro. — Vamos. Eu vou te mostrar. Será mais fácil dessa maneira. Eu poderia facilmente dizer o que vi naquele armazém velho, escondido nos laboratórios do Centro. Mas a verdade é que só quero me manter ocupada, não ter que pensar em Uriah. Ou em Tobias. — Parece que nunca vamos alcançar o fim de todas essas mentiras — Cara comenta enquanto caminhamos para a sala. — As facções, o vídeo que Edith Prior nós deixou... tudo mentira, destinados a nos fazer comportar de certa maneira. — É isso o que você realmente pensa a respeito das facções? —


pergunto. — Pensei que amava ser da Erudição. — Eu amava — ela coça a nuca, deixando pequenas linhas vermelhas em sua pele onde as unhas passaram. — Mas o Centro me fez sentir como uma tola por lutar isso, e pelos Convergentes o defenderem. E não gosto de me sentir tola. — Então acha que nada valeu a pena. A coisa toda dos Convergentes. — Você sim? — Isso nos fez sair — eu digo — e conseguimos a verdade, e foi melhor do que comunidade sem facção que Evelyn tinha em mente, onde ninguém pode escolher nada. — Suponho que sim. Eu só me orgulho de ser alguém que pode ver através das coisas, inclusive o sistema de facção. — Sabe o que a Abnegação costumava dizer sobre o orgulho? — Alguma coisa desfavorável, eu assumo. Rio. — Obviamente. Eles diziam que cega as pessoas para a verdade do que elas são. Alcançamos as portas para os laboratórios, e bato algumas vezes para que Mattew possa me ouvir e nos deixar entrar. Enquanto espero que ele abra a porta, Cara me dá um olhar estranho. — As antigas escrituras da Erudição diziam mais ou menos a mesma coisa — ela fala. Eu nunca pensei que a Erudição diria algo sobre o orgulho, que sequer fossem preocupados com a moralidade. Parece que eu estava equivocada. Quero perguntar mais, mas logo a porta se abre e Matthew aparece na entrada, mastigando uma maçã. — Você pode me deixar entrar na sala de armazenamento? — pergunto. — Preciso mostrar algo a Cara. Ele morde o último pedaço da maçã e sorri. — Claro. Eu tremo, imaginando o gosto amargo das sementes da maçã, e o sigo.


Capítulo 31 Tobias Eu não posso voltar para os olhares fixos e as perguntas silenciosas do dormitório. Sei que não deveria voltar à cena do meu grande crime, embora não seja uma das áreas mais seguras que não tenho autorização para entrar, mas sinto que preciso ver o que está acontecendo na cidade. Como se eu precisasse recordar que existe um mundo fora deste, onde não sou odiado. Caminho para a sala de controle e sento-me em uma cadeira. Cada tela me mostra uma parte diferente da cidade. O Mart Impiedoso, a entrada da sede da Erudição, o Parque Millennium, o pavilhão fora do edifício Hancock. Por um longo tempo, observo as pessoas reunindo-se dentro da sede da Erudição, com o braço coberto pela faixa dos sem facção, as armas em seus quadris, trocando conversas rápidas ou entregando latas de comida para o jantar, um velho hábito de facção. Então ouço alguém no escritório da sala de controle dizer “Ali está” a um de seus companheiros, e olho para as telas para ver do que ela fala. Então eu o vejo, em frente ao edifício Hancock: Marcus, perto das portas da frente, olhando para o relógio. Levanto-me e pressiono o dedo indicador na tela para ligar o som. Por um momento, apenas rajadas de ar saem através dos altofalantes na tela, mas, em seguida, passos. Johanna Reyes se aproxima de meu pai. Ele estende a mão para que ela a aperte, mas ela não o faz, e meu pai é deixado com a mão suspensa no ar, uma peça de isca que ela não pegou. — Sabia que havia ficado na cidade — diz ela. — Estão te


procurando por toda parte. Algumas das pessoas na sala de controle se reúnem atrás de mim para olhar. Mal as noto. Estou vendo o braço de meu pai voltar para o seu lado em um punho. — Fiz alguma coisa que a ofendeu? — Marcus pergunta. — Entrei em contato porque pensei que você fosse uma amiga. — Pensei que tivesse me contatado porque sabe que ainda sou um dos líderes dos Convergentes e quer um aliado — Johanna diz, inclinando o pescoço para que uma mecha de cabelo caísse sobre o olho marcado. — E dependendo de qual é o seu objetivo, eu ainda sou aquela, Marcus, mas acho que a nossa amizade acabou. As sobrancelhas de Marcus se estreitam juntas. Meu pai tem a aparência de um homem que costumava ser bonito, mas à medida que foi envelhecendo, suas bochechas ficaram afundadas, seus gestos ficaram duros e rigorosos. Seu cabelo está penteado rente ao crânio ao estilo da Abnegação, o que não ajuda esta impressão. — Eu não entendo — diz Marcus. — Falei com alguns dos meus amigos da Franqueza — diz Johanna. — Me contaram o que seu filho disse sob o soro da verdade. O rumor desagradável que Jeanine Matthews espalhou sobre você e seu filho... era verdade, não era? Meu rosto está quente, e me encolho em mim mesmo, meus ombros curvando-se para dentro. Marcus está balançando a cabeça. — Não, Tobias é... Johana levanta a mão. Fala com os olhos fechados, como se não suporta-se vê-lo. — Por favor. Eu observei como seu filho se comporta, como a sua esposa. Sei que aparência têm as pessoas que sofreram violência — ela empurra o cabelo para trás da orelha. — Nos reconhecemos. — Você não pode acreditar... — Marcus começa, sacudindo a cabeça. — Eu sou um disciplinador, sim, mas eu só queria o melhor...


— Um marido não deve disciplinar sua esposa — diz Johanna. — Nem mesmo na Abnegação. E quanto ao seu filho... bem, digamos que sim, eu acredito em você. Os dedos de Johanna vão para a cicatriz em sua bochecha. Meu coração me oprime com o seu ritmo. Ela sabe, ela sabe, não porque me ouviu confessar minha vergonha na sala de interrogatório da Amizade, mas porque ela conhece, ela também experimentou. Eu tenho certeza. Gostaria de saber a partir de quem... a mãe dela? Seu pai? Alguém mais? Uma parte de mim sempre se perguntou o que meu pai faria se fosse diretamente confrontado com a verdade. Imaginei que mudaria do modesto líder da Abnegação para o pesadelo que eu conhecia em casa, que poderia se libertar e mostrar quão cruel era. Seria uma reação satisfatória para se ver, mas não é esta a sua reação real. Ele fica lá parado olhando confuso, e por um momento eu me pergunto se ele está assim na realidade, se o seu coração doente acredita em suas próprias mentiras sobre me disciplinar. O pensamento cria uma tempestade dentro de mim, um estrondo de trovões e uma onda de vento. — Agora que eu fui honesta — Johanna diz, um pouco mais calma agora. — Pode me dizer por que me pediu para vir aqui. Marcus desloca-se para um novo tema como se o primeiro nunca tivesse sido discutido. Vejo nele um homem que se divide em compartimentos e pode caminhar entre eles à vontade. Um deles foi reservado apenas para minha mãe e para mim. Os funcionários do Centro movem a câmera para mais perto, de modo que o edifício Hancock é apenas um fundo preto atrás de Johanna e Marcus. Sigo uma linha diagonal na tela para evitar olhá-lo. — Evelyn e os sem facção são tiranos — diz Marcus. — A paz experimentada entre as facções, antes do primeiro ataque de Jeanine, pode ser restaurada, tenho certeza. E quero tratar de fazêla. E creio que você também quer. — É — disse Johanna. — Como você acha que devemos fazer


com isso? — Esta é a parte que você pode não gostar, mas espero que você mantenha a mente aberta — disse Marcus. — Evelyn controla a cidade porque controla as armas, se tomarmos essas armas, ela não vai ter tanto poder e pode ser desafiada. Johanna concorda, e raspa o chão com seu sapato. Eu só posso ver o lado liso de seu rosto deste ângulo, o cabelo limpo, mas encaracolado, a boca definida. — O que você gostaria de fazer? — Ela pergunta. — Deixe-me em unir a você na liderança dos Convergentes — ele fala. — Fui líder da Abnegação. Fui praticamente o líder da cidade inteira. As pessoas correm atrás de mim. — As pessoas já têm corrido — assinala Johanna. — E não atrás de uma pessoa, mas atrás do desejo de reinstalar as facções. Quem disse que eu preciso de você? — Não desmerecendo as suas realizações, mas os Convergentes ainda são muito insignificantes para fazer mais do que uma pequena revolta — disse Marcus. — Há mais dos sem facção do que qualquer um. Você precisa de mim. Sabe disso. Meu pai tem uma maneira de persuadir as pessoas sem charme que sempre me confundiu. Expressando suas opiniões como se fossem fatos, e de alguma maneira a sua completa falta de dúvida faz você acreditar nele. Essa qualidade me assusta agora, porque sei o que ele me disse: que estou quebrado, que eu não valia nada, que não era nada. Quantas dessas coisas ele me fez acreditar? Posso ver Johanna começando a acreditar, considerando a pequena quantidade de pessoas que se reuniu à causa Convergente. Pensando no grupo enviado para fora da cerca, com Cara, que nunca mais viu novamente. Pensando apenas em como ele é, e quão rica é a história dele e de sua liderança. Quero gritar para ela através das telas que não confie nele, dizer que ele só deseja facções de volta porque sabe que poderá voltar para o seu lugar de líder novamente. Mas minha voz não pode alcançá-la, não poderia mesmo que eu estivesse ao seu lado. Com cuidado, Johanna lhe responde:


— Pode me prometer que na medida do possível, você vai tentar limitar a destruição que causaremos? Marcus diz: — Claro. Ela assente novamente, mas desta vez para si mesma. — Às vezes precisamos lutar pela paz — diz, mais para o chão do que para Marcus. — Acho que é um desses momentos. E acho que seria útil convocar pessoas. É o início da rebelião Convergente que eu estive esperando desde que ouvi que o grupo havia se formado. Mesmo que parecesse inevitável, uma vez que Evelyn escolheu governar, eu me sinto doente. Parece que as rebeliões nunca param, na cidade, no campo, em qualquer lugar. Há apenas um pouco de ar entre elas, e tolamente, chamamos essas épocas de “paz”. Dirijo-me para longe da tela, pretendendo deixar a sala de controle atrás de mim, tomar ar fresco se possível. Mas enquanto saio, vejo outra tela, mostrando uma mulher de cabelo escuro andando para frente e para trás num escritório na sede da Erudição. Evelyn, naturalmente, ocupa as imagens na maioria das telas da sala de controle. Faz sentido. Evelyn empurra as mãos pelo cabelo, enredando os dedos sobre as mechas. Cai em uma poltrona, com papéis planando para o chão ao seu redor e penso, ela está chorando. Mas eu não sei por que, já que não vejo os seus ombros tremendo. Ouço através dos alto-falantes, uma batida na porta. Evelyn se endireita, arruma o cabelo, limpa o seu rosto e diz: — Entre! Therese entra, sua faixa de sem facção à mostra. — Acabamos de receber notícias das patrulhas, dizem não ter visto sinal dele. — Ótimo — Evelyn balança a cabeça. — Eu o exilei, e ele está dentro da cidade. Só está fazendo isso só para me irritar. — Ou se juntou aos Convergentes e eles estão escondendo-o — Therese opina, sentando-se em uma cadeira de escritório. Retorcendo um papel contra o chão.


— Bem, obviamente — Evelyn coloca o braço contra a janela e se inclina nele, olhando para a cidade e para além dela, o pântano. — Obrigado por me atualizar. — Nós o encontraremos. Ele não pode ter ido longe. Juro que vamos encontrá-lo. — Eu só quero que você vá — Evelyn diz, com a voz apertada e pequena, como a de uma criança. Eu me pergunto se ela ainda tem medo, do modo que eu tenho, como um pesadelo que continua ressurgimento durante o dia. Pergunto-me quão semelhantes minha mãe e eu somos no fundo, no que importa. — Eu sei — Teresh diz, e sai. Passo muito tempo assistindo Evelyn olhando pela janela, os dedos se contraindo ao seu lado. Sinto como se eu houvesse me tornado metade meu pai e metade minha mãe – violento e impulsivo, desesperado e com medo. Sinto que perdi o controle sobre o que me tornei.


Capítulo 32 Tris David me chama em seu escritório no dia seguinte, e temo que ele se recorde de como eu o usei de escudo quando estava me afastando do Laboratório de Armas, que apontei uma arma para a sua cabeça e disse que não me importava se ele vivesse ou morresse. Zoe me encontra no lobby do hotel e me leva até o corredor principal e depois para outro, longo e estreito, com janelas à minha direita que mostram uma pequena frota de aeronaves pousadas em filas sobre o concreto. Flocos de neve tocam o vidro – uma prova adiantada do inverno – e derrete em segundos. Olho-a de lado enquanto caminho, esperando para ver como ela é quando ninguém a está olhando, mas Zoe parece sempre igual – alegre, mas formal. Como se o ataque nunca tivesse acontecido. — Ele estará em uma cadeira de rodas — ela fala quando chegamos ao final do corredor estreito. — Melhor não apontar isso. Ele não gosta que tenham pena. — Eu não tenho pena dele — tento manter a raiva fora da minha voz, ela suspeitaria. — Não é a primeira pessoa que foi atingida por uma bala. — Sempre esqueço que você já viu muito mais violência do que nós — diz Zoe, e aproxima seu cartão na barreira de segurança que alcançamos. Olho através do vidro para os guardas, com as armas apoiadas nos ombros, virados para a frente. Tenho a sensação de que têm estado assim o dia todo. Sinto-me pesada e dolorida, como se meus músculos estivessem


comunicando uma dor emocional mais profunda. Uriah ainda se encontra em estado de coma. Eu ainda não posso olhar para Tobias quando o vejo no dormitório, no refeitório ou no corredor sem ver a parede explodindo ao lado da cabeça de Uriah. Não tenho certeza de quando, ou se alguma vez, melhorará. Não tenho certeza se essas são feridas que podem curar. Caminhamos passando em frente aos guardas, e o azulejo torna-se madeira sob meus pés. Pequenas pinturas em molduras douradas decoram as paredes, e bem em frente ao escritório de David há um pedestal com um buquê de flores sobre ele. São detalhes, mas o efeito é que me fazem sentir que minhas roupas estão manchadas de sujeira. Zoe bate, e uma voz grita: — Entre! Ela abre a porta para mim, mas não me segue para dentro. O escritório de David é espaçoso e acolhedor, as paredes cheias de livros alinhados quando não estão ocupadas com as janelas. No lado esquerdo há uma escrivaninha com umas telas de vidro suspensas acima dela, e à direita há um pequeno laboratório com mesas de madeira em vez de metal. David está sentado em uma cadeira de rodas, as pernas cobertas por um material duro para manter os ossos no lugar – de modo que eles possam se curar, presumo. Ele está pálido, mas parece suficientemente saudável. Embora eu saiba ele tinha algo a ver com a simulação de ataque e todas aquelas mortes, encontro dificuldades para igualar as ações com o homem que eu vejo diante de mim. Pergunto-me se isso é o que acontece com os homens maus: que para alguém eles parecem homens bons, falam como homens bons e são tão agradáveis quanto homens bons. — Tris. Ele se empurra para perto de mim e pressiona uma das minhas mãos entre as suas. Mantenho minha mão firme, embora sua pele esteja seca como papel e eu sinta rejeição por ele. — Você é muito corajosa — ele diz, e então libera a minha mão. — Como estão seus ferimentos?


Eu dou de ombros. — Já tive piores. E os seus? — Me tomará um pouco de tempo para voltar a andar, mas tenho a certeza de que vou conseguir. Algumas das pessoas do nosso povo estão desenvolvendo aparelhos ortopédicos sofisticados de qualquer maneira, assim posso ser o primeiro caso experimental se precisar – ele diz, e os cantos de seus olhos se enrugam. — Você poderia me empurrar para trás da mesa? Ainda tenho problemas de direção. Eu o faço, colocando suas pernas rígidas debaixo da mesa e deixo que o resto do seu corpo siga. Quando tenho certeza de que ele está bem posicionado, sento-me em uma cadeira a sua frente e trato de sorrir. Com o fim de encontrar uma maneira de vingar meus pais, tenho que manter a confiança e seu afeto por mim intactos. E eu não vou fazer isso com a testa franzida. — Pedi-lhe para vir aqui principalmente para que eu pudesse te agradecer. Não consigo pensar em muitos jovens teriam vindo por mim em vez de correr para se esconder, ou que foram capazes de salvar este complexo como você fez. Penso em pressionar uma pistola em sua cabeça e ameaçar a sua vida, mas engulo duro. — Você e as pessoas com que veio têm estado em um estado lastimável de mudança contínua desde a sua chegada — ele continua. — Não tenho certeza do que fazer com todos vocês, para ser honesto, e estou certo de que nem vocês mesmos sabem o que fazer, mas tenho pensado em algo que eu gostaria que você fizesse. Eu sou o líder oficial deste complexo, mas para além disso, temos um sistema de governo semelhante ao da Abnegação, por isso sou assessorado por um pequeno grupo de conselheiros. Eu gostaria que começasse o treinamento para essa posição. Minhas mãos se apertaram em torno dos braços da cadeira. — Você vê, vamos ter que fazer algumas mudanças por aqui agora que fomos atacados — diz ele. — Vamos ter que tomar uma postura mais forte para a nossa causa. E acredito que você sabe como fazê-lo.


Eu não posso discutir com isso. — O que...? — Eu limpo minha garganta. — O que implicaria o treinamento para essa formação? — Assistir as nossas reuniões, por um lado, e aprender os prós e os contras daqui, a forma como funcionamos de cima a baixo, nossa história, nossos valores, e assim sucessivamente. Não posso permitir que seja parte do conselho em nenhum cargo oficial nesta idade tão jovem, e há um caminho que você deveria seguir ajudando um dos atuais membros do conselho, mas estou te convidando a avançar pelo caminho, se desejar. Seus olhos, não sua voz, me fazem a questão. Os conselheiros são provavelmente as mesmas pessoas que autorizaram a simulação de ataque e asseguraram que os dados fossem transmitidos a Jeanine no momento adequado. E ele quer que eu me sente entre eles e aprenda a me tornar uma deles. Embora eu possa sentir o gosto de bile no fundo da minha boca, não tenho nenhum problema em contestar. — Claro — eu lhe digo, e sorrio. — Seria uma honra. Se alguém te oferece uma oportunidade de se aproximar de seu inimigo, sempre deve aceitá-la. Sei isso sem ter aprendido de ninguém. Ele deve acreditar no meu sorriso, por que sorri de volta. — Imaginei que você diria que sim. É algo que sua mãe faria comigo, antes de se voluntariar para entrar na cidade. Mas acho que ela se apaixonou pelo lugar mesmo de longe e não pôde resistir a ele. — Apaixonou-se... pela cidade? — digo. — Sobre gostos não há nada escrito, suponho. É apenas uma brincadeira, mas não me sinto nem um pouco alegre. Ainda assim, David ri, e sei que eu disse a coisa certa. — Você era... próximo da minha mãe, enquanto ela estava aqui? — lhe pergunto. — Estive lendo o diário dela, mas ela não era muito expressiva. — Não, não era, não é? Natalie sempre foi muito simples. Sim, nós éramos próximos, sua mãe e eu — a voz dele se suaviza


quando fala dela, já não é mais o líder bem-humorado deste local, mas uma pessoa mais velha, refletindo sobre o passado com carinho. O passado que aconteceu antes de ele a matá-la. — Tivemos uma história semelhante. Eu também fui arrancado diretamente de um mundo corrompido quando criança... meus pais eram pessoas severamente disfuncionais que foram levados para a prisão quando eu era jovem. Em vez de sucumbir à adoção de um sistema sobrecarregado de órfãos, meus irmãos e eu fugimos para a fronteira e chegamos ao mesmo lugar que sua mãe também tomou refúgio anos depois, mas somente eu saí de lá com vida. Eu não sei o que dizer sobre isso, não sei o que fazer com a crescente simpatia dentro de mim por um homem que fez coisas terríveis. Fico olhando para as minhas mãos e imagino que elas são como metal líquido endurecendo no ar, tomando uma forma que nunca vai mudar novamente. — Você tem que ir lá amanhã com nossas patrulhas. Poderá ver a fronteira — diz ele. — É algo importante para um futuro membro do conselho ver. — Eu estaria muito interessada. — Encantador. Bem, odeio terminar nosso tempo juntos, mas tenho um pouco de trabalho para pôr em dia. Terei que notificar alguém sobre as patrulhas, e nossa primeira reunião do conselho é na sexta-feira, às dez horas da manhã, então te verei em breve. Sinto-me desesperada, não lhe perguntei o que eu queria. Não acho que haja alguma outra oportunidade. É tarde demais agora, de qualquer maneira. Levanto-me e caminho até a porta, mas, em seguida, ele volta a falar. — Tris, sinto que tenho que ser aberto com você, se vamos confiar um no outro. Pela primeira vez desde que eu o conheci, David parece quase... temeroso. Seus olhos estão arregalados como o de uma criança. Mas um momento depois, a expressão se foi. — Posso ter estado sob a influência de um coquetel de soros naquele momento — ele fala — mas sei o que você disse a eles


para evitar que nos acertassem. Sei que você disse que me mataria para proteger o que estava no Laboratório de Armas. Minha garganta está tão apertada que mal consigo respirar. — Não se assuste — ele continua. — Essa é uma das razões por que eu lhe ofereci esta oportunidade. — Po-por quê? — Você mostrou a qualidade que mais necessito em meus assessores: a capacidade de fazer sacrifícios para um bem maior. Se vamos ganhar esta luta contra a deficiência genética, se vamos salvar os experimentos de serem fechados, temos de fazer sacrifícios. Você entende isso, não é? Sinto um flash de raiva e me obrigo a assentir. Nita nos disse que os experimentos estavam em perigo de ser dissolvidos, por isso não me surpreendi em ouvir a verdade. Mas o desespero de David para salvar o trabalho de sua vida não é desculpa para matar uma facção inteira, a minha facção. Por um momento eu coloco a mão na maçaneta da porta, tentando me recompor, e então decido assumir o risco. — O que teria acontecido se tivessem causado outra explosão para entrar no Laboratório de Armas? — pergunto. — Nita disse que ativaria uma das medidas de segurança se o fizessem, mas para mim parecia a solução mais óbvia para o problema. — Um soro seria liberado no ar... um de que as máscaras não protegeriam, devido a absorção ser feita pela pele. Um que inclusive os geneticamente puros não podem combater. Não sei como Nita sabe a seu respeito, já que não se supõe que seja de conhecimento público, mas suponho que vamos averiguar em outro momento. — O que o soro faz? Seu sorriso se torna uma careta. — Digamos que é suficiente ruim para que Nita prefira ser presa para o resto de sua vida do que entrar em contato com ele. Ele está certo. Não é preciso dizer mais nada.


Capítulo 33 Tobias

— Olhe quem é — diz Peter quando entro no dormitório. — O traidor. Existem mapas espalhados por toda a sua cama e na que está ao lado dele. Eles são todos brancos, azul-claro e um verde apagado, e me atraem para eles com um estranho magnetismo. Em cada um deles Peter desenhou um círculo trêmulo em torno da nossa cidade, em torno de Chicago. Ele está marcando os limites de onde esteve. Vejo que o círculo encolhe em cada mapa, até que ele é apenas um ponto vermelho brilhante como uma gota de sangue. E então eu me afasto, com medo de que isso significasse que eu sou tão pequeno. — Se pensa que tem algum tipo de superioridade moral, você está errado — eu digo a Peter. — Por que todos os mapas? — Estou tendo problemas para assimilar o tamanho do mundo — ele responde. — Algumas pessoas do Centro estão me ajudando a aprender mais sobre ele. Planetas, estrelas, corpos de água e coisas assim. Ele diz casualmente, mas sei a partir dos rabiscos frenéticos nos mapas que seu interesse não é casual, é obsessivo. Eu era obsessivo com os meus medos, antes, e da mesma forma tentava fazê-los ter sentido, uma e outra vez. — Está ajudando? — pergunto. Percebo que nunca tive uma conversa com Peter que não envolvesse gritos. Não que ele não merecesse isso, mas não sei


nada sobre ele. Eu só me lembro de seu sobrenome da classificação da iniciação. Hayes. Peter Hayes. — Mais ou menos — ele pega um dos mapas maiores. O mapa mostra todo o globo, achatado como uma massa planificada. Fico olhando para o papel por tempo suficiente para que as formas façam sentido, os trechos azuis de água e as partes multicoloridas de terra. Em uma das partes está um ponto vermelho. Ele aponta ali. — Esse ponto abrange todo os lugares que já estive. Você poderia cortar esse pedaço de terra e afundá-lo no oceano que ninguém iria nem perceber. Sinto o medo mais uma vez, o medo do meu próprio tamanho. — Certo. E daí? — E daí? Tudo com que eu sempre me preocupei em dizer ou fazer, como pode possivelmente importar? — Ele balança a cabeça. — Isso não importa. — Claro que importa. Toda essa terra está cheia de pessoas, cada uma delas diferente, e as coisas que elas fazem importam. Ele balança a cabeça novamente, e eu me pergunto, de repente, se é assim que ele se consola: convencendo a si mesmo que as coisas ruins que ele fez não importam. Vejo como o planeta gigantesco que me apavora parece ser um paraíso para ele, um lugar onde ele pode desaparecer em seu grande espaço, nunca distinguindo si mesmo, e nunca sendo responsabilizado por seus atos. Ele se inclina para desamarrar os sapatos. — Então, você foi banido da sua pequena multidão de devotos? — Não — respondo automaticamente. Então acrescento: — Talvez. Mas eles não são os meus devotos. — Por favor. Eles são como o Culto ao Quatro. Eu não posso deixar de rir. — Ciúmes? Desejaria ter um Culto de Psicopatas para chamar de seu? Uma de suas sobrancelhas se contrai. — Se eu fosse um psicopata, teria te matado durante seu sono. — E acrescentado meu olho à sua coleção de globos oculares, sem dúvida.


Peter ri também, e percebo que estou trocando piadas e conversando com o iniciado que esfaqueou Edward no olho e tentou matar a minha namorada, se ela ainda for. Mas então, ele também é Audacioso que nos ajudou a acabar com a simulação de ataque e salvou Tris de uma morte horrível. Eu não tenho certeza de quais ações devem pesar mais em minha mente. Talvez eu devesse esquecer tudo, deixá-lo começar novamente. — Talvez você devesse se juntar ao meu pequeno grupo de pessoas odiadas — diz Peter. — Até agora Caleb e eu somos os únicos membros, mas dado o quão fácil é obter o lado ruim daquela garota, tenho certeza de que nossos números vão crescer. Eu endureço. — Você está certo, é fácil de obter seu lado ruim. Tudo o que você tem a fazer é tentar matá-la. Meu estômago aperta. Eu quase a matei. Sei que ela estava perto da explosão, ela poderia estar como Uriah, ligado a tubos no hospital, sua mente silenciosa. Não é de admirar que ela não saiba se quer ficar comigo ou não. A facilidade de um momento atrás se foi. Eu não posso esquecer o que Peter fez, porque ele não mudou. Ele ainda é a mesma pessoa que estava disposto a matar, mutilar e destruir para subir até o topo da classificação dos iniciados. E eu não posso esquecer o que fiz também. Levanto-me. Peter se inclina contra a parede e cruza os dedos sobre o seu estômago. — Só estou dizendo que, se ela decide que alguém é inútil, todo mundo segue o exemplo. Esse é um talento estranho para alguém que costumava ser apenas outra Careta chata, não é? E talvez muito poder para uma pessoa ter, certo? — O talento dela não é controlar opiniões de outras pessoas — eu digo — geralmente é estar certa sobre as pessoas. Ele fecha os olhos. — Que seja, Quatro. Todos os meus membros parecem frágeis com tensão. Deixo o dormitório e os mapas com os círculos vermelhos, embora eu não


tenha certeza de para onde ir. Para mim, Tris sempre pareceu magnética de uma forma que eu não poderia descrever, algo de que ela não estava ciente. Eu nunca a temi ou odiei por isso da forma que Peter o faz, mas então, eu sempre estive em uma posição favorável, não ameaçado por ela. Agora que perdi a posição, posso sentir o aperto como ressentimento, tão forte e segura quanto uma mão em meu braço. Encontro-me no jardim do átrio novo, e desta vez a luz brilha através das janelas. As flores são lindas e selvagens à luz do dia, como criaturas cruéis suspensas no tempo, imóveis. Cara corre para o átrio, seu cabelo despenteado flutuando sobre a testa. — Aí está você. É assustadoramente fácil perder as pessoas neste lugar. — O que aconteceu? — Bem... você está bem, Quatro? Mordo meu lábio com tanta força que sinto uma pontada de dor. — Estou bem. O que aconteceu? — Nós estamos tendo uma reunião, e sua presença é necessária. — Quem é “nós”, exatamente? — GDs e simpatizantes que não querem deixar que o Centro se livre de certas cosias — diz ela, e em seguida, inclina a cabeça para o lado. — Mas planejadores melhores do que os últimos a que você se reuniu. Eu quero saber quem contou-lhe. — Você sabe sobre a simulação de ataque? — Melhor do que isso, eu reconheci o soro da simulação no microscópio quando Tris mostrou para mim — Cara responde. — Sim, eu sei. Balanço minha cabeça. — Bem, eu não vou me envolver nessa de novo. — Não seja tolo. A verdade que você ouviu ainda é a verdade. Essas pessoas ainda são responsáveis pela morte da maior parte da Abnegação, da escravidão mental da Audácia e da total destruição do nosso modo de vida, e algo tem que ser feito.


Eu não tenho certeza se quero estar na mesma sala com Tris sabendo que podemos estar à beira de terminar – é como estar à beira de um precipício. É mais fácil fingir que não está acontecendo quando não estou perto dela. Mas Cara diz que tão facilmente que tenho que concordar com ela: sim, algo tem que ser feito. Ela pega a minha mão e me leva por um corredor do hotel. Sei que ela está certa, mas estou incerto, inquieto sobre a participação em mais uma tentativa de resistência. Ainda assim, eu já estou movendo em direção a ela, parte de mim ansioso por uma chance de mudar de novo, em vez de estar congelado diante das filmagens de vigilância da nossa cidade, como estive. Quando ela tem certeza de que estou a seguindo, ela libera a minha mão e enfia sua mecha de cabelo solto atrás das orelhas. — Ainda é estranho não vê-la em azul — comento. — É hora de deixar que tudo isso se vá — ela responde. — Mesmo se eu pudesse voltar atrás, eu não gostaria, pelo menos neste ponto. — Você não sente falta das facções? — Sinto, na verdade — ela olha para mim. Bastante tempo se passou desde a morte de Will, e agora não o vejo mais quando olho para ela, vejo apenas Cara. A conheci por mais tempo que conheci-o. Ela tem apenas um toque de sua amabilidade, o suficiente para me fazer sentir que posso provocá-la sem ofendêla. — Prosperei na Erudição. Haviam muitas pessoas dedicadas à descoberta e a inovação, o que era lindo. Mas agora que sei quão grande é o mundo... bem. Acho que cresci demais para a minha facção, como consequência — ela franze a testa. — Eu sinto muito, isso foi arrogante? — Quem se importa? — Algumas pessoas se importam. É bom saber que você não é uma delas. Percebo, já que não posso evitar, que algumas das pessoas que passam em nosso caminho para a reunião me dão um olhar desagradável, ou me evitam. Eu tenho sido odiado e evitado antes,


como o filho de Evelyn Johnson, tirana sem facção, mas me incomoda mais agora. Agora sei que fiz algo para ser julgado como digno de ódio; traía-os todos. Cara diz: — Ignore-os. Eles não sabem o que é tomar uma decisão difícil. — Você não teria feito isso, aposto. — Isso é apenas porque eu fui ensinada a ser cautelosa quando não conheço todas as informações, e você foi ensinado que os riscos podem produzir grandes recompensas — ela me olha de lado. — Ou, neste caso, nenhuma recompensa. Ela faz uma pausa na porta do laboratório de Matthew e seu supervisor, e bate. Matthew abre a porta e dá uma mordida na maçã que está segurando. Nós o seguimos até a sala onde descobri que eu não era Divergente. Tris está lá, de pé ao lado de Christina, que me olha como se eu fosse algo podre que precisa ser descartado. E no canto perto da porta está Caleb, com o rosto colorido pelas contusões. Estou prestes a perguntar o que aconteceu com ele quando percebo que os nós dos dedos de Tris também estão esfolados, e que ela muito intencionalmente não está olhando para ele. Ou para mim. — Acho que é todo mundo — diz Matthew. — Tudo bem... assim... hum. Tris, sou muito ruim nisso. — Você é, na verdade — ela concorda com um sorriso. Sinto um surto de ciúmes. Ela limpa a garganta. — Então, nós sabemos que essas pessoas são responsáveis pelo ataque à Abnegação, e que não podem ser confiáveis para salvaguardar a nossa cidade por mais tempo. Sabemos que queremos fazer algo sobre isso, e que a tentativa anterior de fazer algo era... — os olhos dela derivam para os meus, e seu olhar me deixa menor. — Imprudente — ela conclui. — Nós podemos fazer melhor. — O que você propõe? — Cara pergunta. — Tudo o que sei agora é que quero expô-los pelo que são — Tris diz. — A totalidade do complexo pode não saber o que seus líderes têm feito, e eu acho que devemos lhes mostrar. Talvez em


seguida, eles vão eleger novos líderes, aqueles que não tratam as pessoas lá dentro dos experimentos como dispensáveis. Eu pensei, talvez, numa “infecção” generalizada do soro da verdade, por assim dizer... Lembro-me do peso do soro da verdade enchendo-me em todos os meus lugares vazios, pulmões, estômago e rosto. Lembro-me de quão impossível me parecia que Tris tivesse aguentado peso suficiente para mentir. — Não vai funcionar — eu digo. — Eles estão GPS, lembra? GPS podem resistir ao soro da verdade. — Isso não é necessariamente verdade — Matthew replica, torcendo o cordão que envolve seu pescoço. — Nós não vemos muitos Divergentes resistindo ao soro da verdade. Apenas Tris, nos últimos tempos. A capacidade para a resistência ao soro parece ser maior em algumas pessoas do que outras – veja você mesmo como exemplo, Tobias — Matthew dá de ombros. — Ainda assim, é por isso que eu te convidei, Caleb. Você trabalhou nos soros antes. Pode conhecê-los, assim como eu. Talvez possamos desenvolver um soro da verdade que seja mais difícil de resistir. — Eu não quero mais fazer esse tipo de trabalho — Caleb responde. — Oh, cale... — começa Tris, mas Matthew a interrompe. — Por favor, Caleb. Caleb e Tris trocam um olhar. A pele do rosto dele e os dedos de sua irmã tem quase a mesma cor, roxo-azul-esverdeado, como se desenhado com tinta. Isto é o que acontece quando os irmãos se chocam – se ferem da mesma maneira. Caleb afunda de volta contra a borda da bancada, tocando os armários de metal com a parte de trás da cabeça. — Tudo bem — Caleb fala. — Contanto que você prometa que não vai usar isso contra mim, Beatrice. — Por que eu? — Tris pergunta. — Eu posso ajudar — diz Cara, levantando uma mão. — Eu trabalhei em soros também, como uma Erudita. — Ótimo — Matthew bate palmas — enquanto isso, Tris bancará


a espiã. — E eu? — Christina pergunta. — Eu estava esperando que você e Tobias pudessem se aproximar de Reggie — Tris responde — David não quis me contar sobre as medidas de segurança no laboratório de armas, mas Nita pode não ter sido a única que sabia sobre elas. — Você quer que eu me aproxime do cara que detonou os explosivos que colocaram Uriah em coma? — Christina pergunta. — Vocês não tem de ser amigos — Tris responde — só precisa falar com ele e ver o que ele sabe. Tobias pode ajudá-la. — Eu não preciso de Quatro, posso fazer isso sozinha. Ela desce da mesa de exame, rasgando o papel debaixo dela a coxa, e me dá outro olhar azedo. Eu sei que deve ser o rosto pálido de Uriah que ela vê quando olha para mim. Sinto que há algo preso em minha garganta. — Você precisa de mim, na verdade, porque ele já confia em mim — aponto. — E essas pessoas são muito sigilosas, o que significa que isso vai exigir sutileza. — Eu posso ser sutil — diz Christina. — Não, você não pode. — Ele tem um ponto... — Tris canta com um sorriso. Christina bate-lhe no braço, e Tris bate nas costas dela. — Está tudo resolvido, então — Matthew fala. — Acho que devemos nos encontrar novamente depois que Tris for à reunião do conselho, que é na sexta-feira. Venham aqui às cinco horas. Ele se aproxima de Cara e Caleb e fala algo sobre compostos químicos que não entendo bem. Christina sai, me batendo com o ombro enquanto passa por mim. Tris levanta os olhos para os meus. — Nós devemos conversar — eu digo. — Tudo bem — ela responde, e eu a sigo no corredor. Ficamos ao lado da porta até que todos os outros saem. Seus ombros se retraem como se ela estivesse tentando fazer-se ainda menor, tentando evaporar no local, e nós estamos muito longe, toda a largura do corredor entre nós. Tento me lembrar da última


vez que a beijei e eu não consigo. Finalmente estamos sozinhos, e o corredor está tranquilo. Minhas mãos começam a formigar e ficar dormentes, da forma como sempre ficam quando eu entro em pânico. — Você acha que jamais vai me perdoar? — pergunto. Ela balança a cabeça, mas diz: — Eu não sei. Acho que isso é o que preciso descobrir. — Você sabe... você sabe que eu nunca quis que Uriah se machucasse, certo? — Olho para os pontos cruzando sua testa e acrescento: — Ou você. Eu nunca quis que você se machucasse também. Ela está batendo o pé, seu corpo se movendo com o movimento. Ela acena com a cabeça. — Eu sei disso. — Eu tinha que fazer alguma coisa. Eu tinha que fazer. — Um monte de gente se machucou — ela fala. — Tudo porque você rejeitou o que eu disse, porque, isto é a pior parte, Tobias, porque você pensou que eu estava sendo mesquinha e ciumenta. Apenas uma garota boba de dezesseis anos, né? — ela balança a cabeça. — Eu nunca te chamaria de boba ou pequena — digo com firmeza. — Pensei que o seu julgamento estivesse nublado, sim. Mas isso é tudo. — Isso é o suficiente — os dedos dela deslizam pelo cabelo e se enrolam ao redor dele. — É a mesma coisa mais uma vez, não é? Você não me respeita, não importa o quanto diga que sim. Quando algo acontece, acredita que não posso pensar racionalmente... — Não é o que está acontecendo! — respondo com veemência. — Eu respeito a você mais do que ninguém. Mas agora quero saber o que a incomoda mais, que eu tomei uma decisão estúpida ou que eu não tomei a sua decisão. — O que quer dizer? — Quero dizer que você pode ter dito que só queria que fôssemos honestos um com o outro, mas acho que você queria na verdade que eu sempre concordasse com você.


— Não posso acreditar que está dizendo isso! Você estava errado... — Sim, eu estava errado! — Eu estou gritando agora, e não sei de onde a raiva veio, só que posso senti-la girando de dentro de mim, violenta, cruel e mais forte do que senti em dias. — Eu estava errado, cometi um erro enorme! O irmão do meu melhor amigo está praticamente morto! E agora você está agindo como um pai, me punindo por isso, porque eu não fiz como me foi dito. Bem, você não é meu pai, Tris, e não pode me dizer o que fazer, o que escolher...! — Pare de gritar comigo — ela me interrompe em voz baixa, e finalmente olha para mim. Eu costumava ver todos os tipos de coisa em seus olhos, amor, a saudade e curiosidade, mas agora tudo o que vejo é raiva. — Apenas pare. Sua voz calma freia a raiva dentro de mim, e eu relaxo contra a parede atrás de mim, empurrando minhas mãos nos bolsos. Eu não queria gritar com ela. Não queria ficar com raiva de tudo. Eu olho, chocado, enquanto lágrimas descem por seu rosto. Eu não a vi chorar em um longo tempo. Ela funga, engole e tenta parecer normal, mas não consegue. — Eu só preciso de um tempo — diz ela, engasgando em cada palavra. — Ok? — Ok. Ela limpa o rosto com as mãos e caminha pelo corredor. Eu assisto a cabeça loira até que ela desaparece ao redor da curva, e me sinto nu, como se não houvesse mais nada para me proteger contra a dor. Sua ausência me fere mais que tudo.


Capítulo 34 Tris — Aqui está ela — Amar diz quando me aproximo do grupo. — Temos que pegar o seu colete, Tris. — Meu... colete? Como prometido por David ontem, estou indo para a fronteira esta tarde. Não sei o que esperar, o que geralmente me deixa nervosa, mas estou tão desgastada nos últimos dias que mal sinto qualquer coisa. — Colete à prova de balas. A fronteira não é um local seguro — diz ele, e se aproxima de uma caixa perto das portas, buscando através de uma pilha de coletes pretos e grossos para encontrar o tamanho certo. Ele surge com um que ainda parece grande demais para mim. — Desculpe, não há muita variedade aqui. Isso vai funcionar muito bem. Braços para cima. Ele me veste o colete e aperta as correias nas laterais. — Eu não sabia que você estaria aqui. — Bem, o que você acha que faço no Centro? Apenas vago por aí contando piadas? — Ele sorri. — Encontraram um bom uso para a minha experiência na Audácia. Sou parte da equipe de segurança. Assim como George. Nós geralmente apenas lidamos com a segurança do complexo, mas quando querem ir à fronteira, sou voluntário. — Falando sobre mim? — pergunta George, que estava no


grupo perto das portas. — Oi, Tris. Espero que ele não tenha dito nada ruim. George coloca o braço sobre os ombros de Amar, e eles sorriem um para o outro. George parece melhor do que a última vez que o vi, mas a dor deixa sua marca na expressão dele, formando rugas nos cantos dos olhos quando sorri, mostrando a covinha em sua bochecha. — Eu estava pensando se deveria dar-lhe uma arma — diz Amar. Ele olha para mim. — Nós normalmente não damos armas a potenciais membros do futuro conselho porque eles não têm ideia de como usá-las, mas é claro que você sabe. — Está realmente tudo bem — respondo. — Eu não preciso... — Não, você provavelmente é melhor em tiro do que a maioria deles — George aponta. — Nós poderíamos usar outro Audacioso a bordo conosco. Deixe-me ir pegar uma. Poucos minutos depois, estou armada e andando com Amar para o caminhão. Ele e eu ficamos na parte de trás; George e uma mulher chamada Ann se sentam no meio, e dois agentes de segurança mais velhos chamados Jack e Violet ficam na frente. A parte de trás do caminhão é coberta por um material preto e duro. As portas traseiras parecem opacas e pretas pelo lado de fora, mas por dentro são transparentes, para que possamos ver onde estamos indo. Estou situada entre Amar e pilhas de equipamentos que bloqueiam a nossa visão da frente do caminhão. George põe a cabeça sobre o equipamento e sorri quando o caminhão começa a andar, mas fora isso, estamos apenas Amar e eu. Assisto o complexo desaparecer atrás de nós. Dirigimos através dos jardins e anexos que o cercam, e assomando-se atrás da borda do complexo estão os aviões, brancos e


parados no chão. Chegamos à cerca, e as portas se abrem para nós. Ouço Jack falar com o soldado na cerca externa, contando-lhe nossos planos e o conteúdo do veículo – em uma série de palavras que eu não entendo – antes que possamos ser soltos na natureza. Eu pergunto: — Qual o propósito desta patrulha? Além de me mostrar como as coisas funcionam, quero dizer. — Nós sempre mantemos um olho na fronteira, que é a área de geneticamente deficientes mais próxima fora do complexo. Principalmente apenas para pesquisa, estudar como se comportam — diz Amar. — Mas depois do ataque, David e o conselho decidiram que precisávamos de mais vigilância lá para podermos evitar que um ataque volte a acontecer. Passamos pelo mesmo tipo de ruínas que vi quando deixamos a cidade – os edifícios em colapso sob seu próprio peso, as plantas selvagens crescendo sobre a terra, rompendo o concreto. Eu não conheço Amar, e não confio exatamente nele, mas tenho que perguntar: — Então você acredita em tudo isso? Toda a coisa sobre deficiências genéticas sendo a causa... disso? Todos os seus antigos amigos no experimento foram GDs. Pode acreditar que eles são danificados, que há algo de errado com eles? — Você não? Da forma como vejo, a terra tem convivido com eles há um longo, longo tempo. Mais longo do que podemos imaginar. E antes da Guerra da Pureza, ninguém nunca tinha feito isso, certo? — Ele acena com a mão para indicar o mundo exterior. — Eu não sei — respondo. — Acho que é difícil acreditar


que eles não o fizeram. — Que visão sombria da natureza humana que você tem. Eu não respondo. Ele continua: — De qualquer forma, se algo assim tivesse acontecido em nossa história, o Centro saberia. Isso parece-me ingênuo para alguém que já morou na minha cidade e viu, pelo menos nas telas, quantos segredos mantivemos uns dos outros. Evelyn tentou controlar as pessoas por meio do controle de armas, mas Jeanine era mais ambiciosa, ela sabia que quando você controla informações ou as manipula, não precisa de força para manter as pessoas sob seu polegar. Elas ficam lá por vontade própria. Isso é o que o Centro e todo o governo, provavelmente, está fazendo: condicionando as pessoas a serem felizes sob seu polegar. Nós continuamos em silêncio por um tempo, apenas com o som de equipamentos sacudindo e o motor nos acompanhando. No começo eu olho para cada edifício que passa, me perguntando o que ele já abrigou, e então eles começam a se parecer para mim. Quantos tipos diferentes de ruína você tem que ver antes desistir e simplesmente chamar tudo de “ruína”? — Estamos quase na fronteira — George fala a partir do meio do caminhão. — Vamos parar por aqui e avançar a pé. Todo mundo deve levar algum equipamento e configurá-lo – exceto Amar, que deve cuidar de Tris. Tris, você está convidada a sair e dar uma olhada, mas fique com Amar. Sinto que todos os meus nervos estão à flor da pele, e o menor toque vai fazê-los disparar. A fronteira foi de onde minha mãe saiu depois de testemunhar um assassinato – foi onde o Centro a encontrou


e a salvou porque suspeitava que o código genético dela fosse sadio. Agora vou caminhar até lá, para o local onde, de certa forma, tudo começou. O caminhão para, e Amar abre as portas. Ele segura a arma em uma mão e acena para mim com a outra. Eu salto para fora atrás dele. Há edifícios aqui, mas eles não são tão proeminentes quanto as casas improvisadas, feitas de sucata de metal e lonas de plástico amontoadas uma ao lado da outra como se estivessem mantendo a construção ao lado de pé. Nas ruelas estreitas entre elas estão as pessoas, a maioria crianças, vendendo coisas em bandejas, carregando baldes de água ou cozinhando em fogueiras. Quando os mais próximos nos veem, um rapaz sai correndo e gritando: — Ataque! Ataque! — Não se preocupe — Amar diz para mim. — Eles pensam que somos soldados. Às vezes, eles atacam para levar as crianças para orfanatos. Eu mal reconheço o comentário. Em vez disso, começo a andar para uma das ruelas, enquanto a maioria das pessoas corre ou se fecha dentro de seus alpendres feitos papelão ou mais lona. Vejo-os através das fendas entre as paredes, suas casas não muito mais do que uma pilha de comida e suprimentos de um lado e colchonetes do outro. Eu me pergunto o que eles fazem no inverno. Ou o que fazem se querer ir ao banheiro. Penso nas flores dentro do complexo, nos pisos de madeira e todas as camas do hotel que estão desocupadas, e digo: — Vocês os ajudam? — Acreditamos que a melhor maneira de ajudar o nosso


mundo é corrigindo as suas deficiências genéticas — diz Amar, como se estivesse recitando da memória. — Alimentar as pessoas é apenas colocar um pequeno curativo em uma ferida aberta. Ele pode parar o sangramento por um tempo, mas a ferida ainda vai estar lá. Não posso responder. Tudo que faço é balançar a cabeça um pouco e continuar caminhando. Estou começando a entender por que minha mãe se juntou à Abnegação quando deveria se juntar à Erudição. Se ela tivesse ansiado segurança para crescer longe da corrupção da Erudição, poderia ter ido para Amizade ou Franqueza. Mas ela escolheu a facção onde poderia ajudar os mais desamparados, e dedicou parte de sua vida para ter certeza de que os sem facção fossem ajudados. Eles devem tê-la lembrado deste lugar, da fronteira. Viro a cabeça para longe de Amar, de modo que ele veja as lágrimas em meus olhos. — Vamos voltar para o caminhão. — Você está bem? — Sim. Nos viramos para voltar ao caminhão, mas depois ouvimos tiros. E logo após, um grito. — Ajuda! Todo mundo em torno de nós se espalha. — Foi George — Amar diz, e começa a correr para um dos caminhos à nossa direita. Eu o sigo pelas estruturas de sucata de metal, mas ele é rápido demais para mim, este lugar é um labirinto e eu o perco em segundos, então fico sozinha. Por mais automática que seja a simpatia por causa da


Abnegação para com as pessoas que vivem neste lugar, também tenho medo delas. Se elas são como os sem facção, certamente são desesperados como os sem facção, e estou desconfiada de pessoas desesperadas. Uma mão se fecha em torno de meu braço e me arrasta para trás, em um dos alpendres de alumínio. Dentro tudo é azul da lona que cobre as paredes, isolando a estrutura contra o frio. O chão é coberto por madeira compensada, e de pé na minha frente está uma mulher pequena e magra com um rosto sujo. — Você não quer estar lá fora — diz ela. — Eles vão atacar a qualquer um, não importa quão jovem seja. — Eles? — Há muitas pessoas com raiva aqui na fronteira — a mulher responde. — E a raiva de algumas pessoas as faz querer matar todos que pensam como um inimigo. Os feitos de algumas pessoas podem ser mais construtivos. — Bem, obrigada pela ajuda. Meu nome é Tris. — Amy. Sente-se. — Não posso — eu digo. — Meus amigos estão lá fora. — Então você deve esperar até que as hordas de pessoas corram para onde seus amigos estão, e depois se aproxime sorrateiramente por trás. Isso soa inteligente. Eu afundo no chão, a minha arma cavando minha perna. O colete à prova de balas é tão duro, é difícil ficar confortável, mas faço o melhor que posso para parecer relaxada. Ouço as pessoas correndo e gritando do lado de fora. Amy move o canto da lona para ver o lado de fora. — Então, você e seus amigos não são os soldados — diz Amy, ainda olhando para fora. — O que significa que você


deve ser do Bem-Estar Genético, certo? — Não — respondo. — Quero dizer, eles são, mas eu sou da cidade. Quero dizer, de Chicago. As sobrancelhas de Amy sobem. — Droga. Foi dissolvida? — Ainda não. — Isso é lamentável. — Lamentável? — Eu franzo a testa para ela. — É da minha casa que você está falando, sabe. — Bem, a sua casa está perpetuando a crença de que as pessoas geneticamente deficientes precisam ser corrigidas, que elas são deficientes e ponto, o que não somos. Então, sim, é lamentável que os experimentos ainda existam. Não vou pedir desculpas por dizer isso. Eu não tinha pensado nisso dessa forma. Para mim, Chicago tem que continuar existindo porque as pessoas que perdi moravam lá, porque o modo de vida que uma vez que amei continua lá, embora de uma forma quebrada. Mas não percebi que a própria existência de Chicago pode ser prejudicial para as pessoas de fora que só querem ser pensadas como um todo. — É hora de você ir — diz Amy, soltando o canto da lona. — Eles estão, provavelmente, em uma das áreas de reunião, a noroeste daqui. — Obrigada mais uma vez. Ela acena com a cabeça para mim, e eu me arrasto para fora de sua casa improvisada, as placas rangendo sob os meus pés. Percorro os corredores rapidamente, contente de que todas as pessoas se foram quando chegamos, então não há ninguém para bloquear meu caminho. Salto sobre uma poça


de... bem, eu não quero saber o que é, e emerjo em uma espécie de pátio onde um garoto desengonçado e alto tem uma arma apontada para George. Uma pequena multidão envolve o menino com a arma. Eles distribuíram entre eles os equipamentos de vigilância que George carregava e estão destruindo-o, pisando com os sapatos, quebrando com rochas ou martelos. Os olhos de George se movem para mim, mas toco um dedo aos lábios, às pressas. Estou atrás da multidão agora, com uma arma, e não sabem que eu estou lá. — Abaixe a arma — diz George. — Não! — o menino responde. Seus olhos claros se movem de George para as pessoas ao seu redor e atrás. — Tive muitos problemas para conseguir isso, não vou dá-la para você agora. — Então só... deixe-me ir. Pode ficar com ela. — Não até que você nos diga para onde está levando nosso povo! — diz o menino. — Nós levamos ninguém do seu povo — George fala — não somos soldados. Somos apenas os cientistas. — Ah, claro — diz o menino. — Um colete à prova de balas? Se isso não é a merda de soldado, então sou o garoto mais rico dos Estados Unidos. Agora me diga o que preciso saber! Dou um passo para trás de modo que estou de pé atrás de um dos alpendres, em seguida, coloco a minha arma em torno da borda da estrutura e grito: — Ei! Todos na multidão se viram de uma vez, mas o garoto com a arma não deixa de mirar em George, como eu esperava. — Tenho você na minha mira — digo. — Libere-o agora e


eu vou deixar você ir. — Eu vou matá-lo! — E eu vou atirar em você — respondo. — Estamos com o governo, mas não somos soldados. Não sabemos onde está a sua gente. Se você deixá-lo ir, vamos todos sair calmamente. Se matá-lo, garanto que haverá soldados aqui em breve para prendê-lo, e eles não vão ser tão indulgentes quanto nós. Naquele momento Amar emerge no pátio atrás George, e alguém no meio da multidão grita: — Há mais deles! E todos se espalham. O menino com a arma mergulha no corredor mais próximo, deixando George, Amar e eu sozinhos. Ainda assim, mantenho a arma próxima, para o caso de decidirem voltar. Amar envolve seus braços em volta de George e George bate em suas costas com um punho. Amar me olha, o seu rosto acima do ombro de George. — Ainda não acredita que a deficiência genética é culpada por qualquer um destes problemas? Passo por um dos alpendres e vejo uma menina agachada perto da porta, os braços envoltos ao redor dos joelhos. Ela me vê pela fresta nas camadas de lona e choraminga um pouco. Eu me pergunto quem ensinou essas pessoas a ficarem tão aterrorizadas por soldados. E me pergunto o que fez um jovem ficar desesperado o suficiente para apontar uma arma para um deles. — Não — respondo. — Não acredito. Tenho pessoas melhores para culpar. +++


No momento em que voltamos ao caminhão, Jack e Violet estão programando uma câmara de vigilância que não foi roubada pelas pessoas da fronteira. Violet tem uma tela nas mãos com uma longa lista de números ali, e ela os lê para Jack, que programa em sua tela. — Onde vocês estavam? — ela pergunta. — Fomos atacados — diz George. — Temos que sair agora. — Felizmente, esse é o último conjunto de coordenadas — Violet fala. — Vamos embora. Nos apertamos no caminhão novo. Amar fecha as portas atrás de nós, e ponho a arma no chão, feliz por me livrar dela. Não pensava que estaria apontando uma arma perigosa para alguém quando acordei hoje. Não achei que eu iria testemunhar esses tipos de condições de vida, também. — É a Abnegação em você — diz Amar. — Isso te faz odiar aquele lugar. Eu posso dizer. — Há um monte de coisas em mim. — É apenas algo que notei em Quatro, também. Abnegação produz pessoas profundamente graves. Gente que vê automaticamente as coisas como necessidade — diz ele. — Tenho notado que quando as pessoas mudam para a Audácia, cria-se alguns certos tipos. Alguém da Erudição que muda para a Audácia tende a se transformar em cruel e brutal. Franqueza que muda para a Audácia tende a se tornar barulhentos, adeptos viciados em adrenalina. E Abnegação que vira Audácia... Eu não sei, soldados, acho. Revolucionários. Isso é o que ele poderia ser, se confiasse mais em si — acrescenta. — Se Quatro não estivesse tão atormentado com sua insegurança, acredito que seria um


ótimo líder. Sempre pensei isso. — Acho que você está certo. É quando ele é um seguidor que se põe em apuros. Como com Nita. Ou Evelyn. E você? eu me pergunto. Você queria fazer dele um seguidor também. Não, eu não, digo a mim mesma, mas não tenho certeza se acredito nisso. Amar assente. Imagens da fronteira continuam aumentando em meu interior. Imagino que criança minha mãe foi, agachada em um desses alpendres, lutando por armas porque significava um pingo de segurança, engasgando com fumaça para se aquecer no inverno. Não sei por que estava tão disposta a abandonar esse lugar depois de ter sido resgatada. Ela foi absorvida pelo complexo, em seguida, trabalhou em seu nome pelo resto da vida. Será que ela se esqueceu de onde veio? Ela não podia ter. Passou toda a sua vida tentando ajudar os sem facção. Talvez não fosse o cumprimento de seu dever como alguém da Abnegação, talvez fosse o desejo de ajudar as pessoas como as que ela deixou. De repente, eu não suporto pensar nela, ou naquele lugar, ou nas coisas que vi lá. Agarro-me ao primeiro pensamento que vem à minha mente para me distrair. — Então, você e Tobias eram bons amigos? — Alguém tem uma boa amizade com ele? — Amar balança a cabeça. — Eu dei a ele o apelido, no entanto. Assisti-o enfrentar seus medos e vi como ele estava preocupado, e percebi que ele poderia aproveitar de uma nova vida, então comecei a chamá-lo de “Quatro”. Mas não, eu não diria que nós éramos bons amigos. Não era tão


bom quanto eu gostaria que fosse. Amar inclina a cabeça contra a parede e fecha os olhos. Um pequeno sorriso enrola seus lábios. — Oh — eu digo. — Você... gosta dele? — Agora, por que pergunta isso? Eu dou de ombros. — O jeito que você fala sobre ele. — Eu não gosto mais dele, se é isso que você realmente está perguntando. Mas, sim, uma vez eu o fiz, e estava claro que ele não retornava esse sentimento em particular, então eu recuei — diz Amar. — Preferiria que não falasse nada. — Para Tobias? Claro que não vou. — Não, quero dizer, não fale nada a ninguém. E não estou falando só da coisa de Tobias. Ele olha para a parte de trás da cabeça de George, agora visível acima da pilha consideravelmente menor de equipamentos. Ergo uma sobrancelha para ele. Não estou surpresa que ele e George estivesse atraídos um pelo outro. Ambos são Divergentes que tiveram que fingir sua própria morte para sobreviver. Ambos são forasteiros em um mundo desconhecido. — Você tem que entender — Amar fala — o Centro está obcecado com a procriação, com repasse genes. E George e eu somos ambos GPs, portanto, qualquer ligação que possa não produzir um código genético mais forte... Não é incentivada, isso é tudo. — Ah — eu aceno com a cabeça. — Você não tem que se preocupar comigo. Eu não estou obcecada com a produção de genes fortes. Sorrio ironicamente.


— Obrigado. Por alguns segundos, nos sentamos em silêncio, olhando as ruínas virarem um borrão enquanto o caminhão ganha velocidade. — Acho que você é boa para Quatro, você sabe — diz ele. Eu fico olhando para as minhas mãos, cruzadas em meu colo. Não tenho vontade de explicar a ele que estamos à beira de romper. Eu não o conheço, e mesmo que conhecesse, não quero falar sobre isso. Tudo o que consigo responde é: — Oh? — Sim. Posso ver o que você traz para fora nele. Você não sabe disso porque nunca experimentou, mas Quatro sem você é uma pessoa muito diferente. Ele é... obsessivo, explosivo, inseguro... — Obsessivo? — Do que mais você chama alguém que vai repetidamente em sua própria paisagem do medo? — Eu não sei... determinado — faço uma pausa. — Valente. — Sim, claro. Mas também um pouco louco, certo? Quero dizer, a maioria da Audácia preferiria saltar do abismo do que manter-se indo em sua paisagem do medo. Há valentia e depois masoquismo, e a linha ficou um pouco nebuloso com ele. — Estou familiarizada com a linha — eu digo. — Eu sei — Amar sorri. — De qualquer forma, o que estou dizendo é que quando se mistura duas pessoas diferentes entre si, tem-se problemas, mas posso ver que o que vocês têm vale a pena, isso é tudo. Eu enrugo o nariz.


— Misturar pessoas umas contra as outras, mesmo? Amar pressiona as palmas das mãos e as esfrega para frente e para trás, para ilustrar. Eu rio, mas não posso ignorar a sensação dolorida em meu peito.


Capítulo 35 Tobias Caminho até o conjunto de cadeiras mais próximo às janelas na sala de controle e abro as filmagens de diferentes câmeras em toda a cidade, uma por uma, em busca de meus pais. Acho Evelyn primeiro – ela está no átrio da sede da Erudição, conversando perto de uma esquina com Therese e um homem sem facção, seu segundo e terceiro em comando agora que eu me fui. Aumento o volume do alto-falante, mas ainda não consigo ouvir nada, apenas resmungos. Através das janelas dos fundos da sala de controle, vejo o mesmo céu noturno vazio daquele sobre a cidade, interrompido apenas por pequenas luzes azuis e vermelhas que marcam as pistas para aviões. É estranho pensar que temos isso em comum quando tudo é tão diferente aqui. Agora as pessoas na sala de controle sabem que fui eu quem desativou o sistema de segurança na noite antes do ataque, embora não tivesse sido eu que colocou um dos seus trabalhadores do turno da noite no soro da paz para que eu tivesse acesso, foi Nita. Mas na maior parte eles me ignoraram, contanto que eu fique longe de suas mesas. Em outra tela, percorro as imagens novamente, à procura de Marcus ou Johanna, qualquer coisa que possa me mostrar o que está acontecendo com os Convergentes. Cada parte da


cidade aparece na tela, a ponte perto do Mart Impiedoso, a Pira, a rua principal do setor da Abnegação, o Eixo, a rodagigante e os campos da Amizade, agora trabalhado por todas as facções. Mas nenhuma das câmeras me mostra o que quero. — Você vem muito aqui — Cara fala enquanto se aproxima. — Assustado com o resto do complexo? Ou é outra coisa? Ela tem razão, tenho vindo muito à sala de controle. É apenas algo para passar o tempo enquanto espero minha sentença de Tris, enquanto espero por nosso plano para atacar o Centro, enquanto espero por alguma coisa, qualquer coisa. — Não. Estou apenas mantendo um olho em meus pais. — Os pais que você odeia? — Ela está ao meu lado, com os braços cruzados. — Sim, posso ver por que você gostaria de passar horas olhando para as pessoas com que não quer ter contado. Faz perfeito sentido. — Eles são perigosos — respondo. — Mais perigosos porque ninguém sabe como eles são perigosos além de mim. — E o que você vai fazer daqui, se eles fazem algo terrível? Enviar um sinal de fumaça? Eu apenas a encaro. — Tudo bem, tudo bem — ela ergue as mãos em sinal de rendição. — Eu só estou tentando lembrá-lo que você não está mais no seu mundo, está neste. Isso é tudo. — Bem lembrado. Eu nunca pensei nos Eruditos como sendo particularmente perspicazes sobre relacionamentos ou emoções, mas o olhar perspicaz de Cara vê todos os tipos de coisas. Meu medo.


Minha busca por uma distração em meu passado. É quase alarmante. Começo a virar a câmera num ângulo e, em seguida, paro volto para trás. A cena é escura por causa da hora, mas vejo as pessoas surgindo como um bando de pássaros em torno de um edifício não reconheço, seus movimentos sincronizados. — Eles estão fazendo isso — diz Cara, animada. — Os Convergentes estão realmente atacando. — Ei! — Eu grito para uma das mulheres nas mesas da sala de controle. O mais velho, que sempre me dá um olhar desagradável quando apareço, levanta a cabeça. — Câmera vinte e quatro! Depressa! A mulher toca em sua tela, e todos em torno da área de vigilância se reúnem em torno dela. Pessoas passando no corredor param para ver o que está acontecendo, e dirijo-me a Cara. — Você pode ir buscar os outros? — Pergunto. — Acho que eles deveriam ver isto. Ela acena com a cabeça, seus olhos selvagens, e corre para longe da sala de controle. As pessoas ao redor do prédio desconhecido não usam uniforme para distingui-los, nem braçadeiras de sem facção, e carregam armas. Tento escolher um rosto, qualquer traço que eu reconheça, mas a imagem está borrada demais. Eu os assisto se organizar, gesticulando para se comunicarem, braços escuros acenando na noite mais escura. Aperto o polegar entre meus dentes, impaciente por alguma coisa, que qualquer coisa aconteça. Alguns minutos depois Cara chega com os outros a sua volta. Quando chegam na multidão de pessoas reunidas nas telas principais, Peter diz:


“Desculpe-me!” alto o suficiente para fazer as pessoas se virarem. Quando eles veem quem é, dão espaço para ele. — O que está acontecendo? — Peter me pergunta quando está mais perto. — O que está acontecendo? — Os Convergentes formaram um exército — respondo, apontando para a tela À esquerda. — Há pessoas de cada facção, mesmo Amizade e Erudição. Tenho assistido muito ultimamente. — Erudição? — Caleb pergunta. — Os Convergentes são os inimigos dos novos inimigos, os sem facção — Cara responde. — O que dá à Erudição e aos Convergentes um objetivo comum: usurpar Evelyn. — Você disse que havia integrantes da Amizade em um exército? — Christina me pergunta. — Eles não estão realmente participando da violência — eu digo. — Mas estão participando do esforço. — Os Convergentes invadiram seu primeiro armazém de armas há poucos dias — a jovem mulher sentada na mesa da sala de controle mais próxima de nós diz sobre o ombro. — Este é o seu segundo. É aí que eles pegam essas armas. Após o primeiro ataque, Evelyn realocou a maioria das armas, mas este armazém não teve tempo de ser mudado. Meu pai sabe o que Evelyn sabia: que o poder de fazer as pessoas temem-no é o único poder que você precisa. As armas vão fazer isso por ele. — Qual é o seu objetivo? — Caleb pergunta. — Os Convergentes são motivados pelo desejo de voltar para o nosso propósito original na cidade — Cara responde. — O que significa o envio de pessoas para o lado de fora da cerca, como instruído por Edith Prior – o que pensamos ser importante na época, embora eu tenha aprendido que suas


instruções não eram realmente importantes – ou restabelecer as facções pela força. Eles estão armando-se para um ataque contra a fortaleza sem facção. Isso é o que Johanna e eu discutimos antes de eu sair. Nós não discutimos fazer aliança com seu pai, Tobias, mas acho que ela é capaz de tomar suas próprias decisões. Quase me esqueci que Cara foi uma das líderes dos Convergentes antes de sairmos. Agora não tenho certeza de que ela se preocupa se as facções sobrevivem ou não, mas ela ainda se preocupa com as pessoas. Posso dizer pelo jeito que ela assiste as telas, ansiosa, mas com medo. Mesmo por sobre a conversa das pessoas ao nosso redor, ouço os tiros quando eles começam, são como estalos e palmas nos alto-falantes. Toco no vidro a minha frente algumas vezes e o ângulo da câmera muda para dentro do edifício que os invasores acabaram de forçar a entrada. Em uma mesa há uma pilha de pequenas peças – munição – e algumas pistolas. Não é nada em comparação com as armas eles aqui têm, em toda a sua abundância, mas na cidade, sei que é valioso. Vários homens e mulheres com braçadeiras sem facção guardam a mesa, mas eles estão caindo rapidamente, em desvantagem pelos Convergentes. Reconheço um rosto familiar entre eles – Zeke, batendo a coronha de sua arma no queixo de um homem sem facção. Os sem facção são superados dentro de dois minutos, caindo por causa balas que vejo somente quando já estão enterradas na carne. Os Convergentes se espalham pela sala, pisando sobre os corpos como se fossem apenas mais detritos, e reunem tudo o que podem. Zeke recolhe as armas sobre a mesa, um olhar duro em seu rosto que só vi algumas vezes.


Ele ainda não sabe o que aconteceu com Uriah. A mulher no balcão toca a tela em alguns lugares. Em uma das telas menores acima dela está uma imagem – cenas das imagens de vigilância que acabamos de ver, congeladas em um determinado momento no tempo. Ela bate de novo e a imagem se aproxima de seu objetivo, um homem com o cabelo cortado rente e uma mulher com cabelos longos e escuros cobrindo um lado do rosto. Marcus, claro. E Johanna – carregando uma arma. — Entre eles, eles conseguiram reunir a maioria dos membros de facções leais à sua causa. Surpreendentemente, porém, os Convergentes ainda não superam os sem facção — a mulher se inclina para trás na cadeira e balança a cabeça. — Havia muito mais sem facção do que jamais se esperava. É difícil obter uma contagem de população precisa numa população dispersa, depois de tudo. — Johanna? Liderando uma rebelião? Com uma arma? Isso não faz sentido — diz Caleb. Johanna me disse uma vez que se as decisões fossem somente dela, ela teria apoiado a ação contra a Erudição em vez da passividade que o resto de sua facção defendia. Mas ela estava à mercê de sua facção e seu medo. Agora, com as facções desfeitas, parece que ela tornou-se algo diferente do que a porta-voz da Amizade ou mesmo o líder dos Convergentes. Ela tornou-se um soldado. — Faz mais sentido do que você pensa — respondo, e Cara acena junto com as minhas palavras. Eu os assisto esvaziar a sala de armas e munições e seguir em frente rapidamente, espalhando como sementes ao vento. Me sinto mais pesado, como se estivesse ganhando uma nova carga. Me pergunto se as pessoas ao meu redor –


Cara, Christina, Peter e até mesmo Caleb – se sentem da mesma maneira. A cidade, a nossa cidade, está ainda mais perto da destruição total do que esteve antes. Podemos fingir que não fazemos mais parte lá, uma vez que estamos vivendo em relativa segurança neste lugar, mas fazemos. Sempre faremos.


Capítulo 36 Tris Está escuro e nevando quando nos dirigimos à entrada do complexo. Os flocos caem na estrada, leves como açúcar em pó. É apenas uma neve de início do outono, que terá ido pela manhã. Tiro meu colete à prova de balas assim que saio e o ofereço a Amar junto com minha arma. Estou desconfortável por segurá-la agora. Costumava pensar que o meu desconforto iria embora com o tempo, mas agora eu não tenha tanta certeza. Talvez nunca vá embora, e talvez esteja tudo bem em ser assim. O ar quente me rodeia enquanto passo através das portas. O complexo parece mais limpo do que nunca, agora que vi a fronteira. A comparação é inquietante. Como posso andar por este piso e usar essas roupas cerimoniosamente quando sei que aquelas pessoas estão lá fora, abraçadas em suas casas de lona para se aquecer? Mas na hora em que chego ao hotel-dormitório, o sentimento inquieto desapareceu. Examino o espaço em busca de Christina, ou Tobias, mas nenhum deles está lá. Só Peter e Caleb, Peter com um grande livro em seu colo, fazendo anotações em um bloco de notas, e Caleb lendo o diário da nossa na tela, os olhos vidrados. Tento ignorar isso. — Algum de vocês viu... — Mas quem é que quero falar,


Christina ou Tobias? — Quatro? — completa Caleb, decidindo por mim. — Eu o vi na sala de genealogia mais cedo. — A... que sala? — A que tem os nomes dos nossos antepassados em exposição em uma sala. Posso pegar um pedaço de papel? — Ele pergunta a Peter. Peter rasga uma folha na parte de trás de seu bloco de notas e a entrega para Caleb, que rabisca algo como direções. Caleb diz: — Eu encontrei os nomes de nossos pais lá mais cedo. No lado direito da sala, segundo painel depois da porta. Ele me dá as direções sem olhar para mim. Olho sua caligrafia limpa e organizada. Se eu não o tivesse socado, Caleb teria insistido em me levar até lá, desesperado por tempo para se explicar para mim. Mas, recentemente, ele manteve a distância, ou porque tem medo de mim ou porque finalmente se rendeu. Nenhuma das opções me faz sentir bem. — Obrigada. Hum... Como está seu nariz? — Está tudo bem — ele responde — acho que a contusão realmente ressalta meus olhos, não é? Ele sorri um pouco, e eu também. Mas é claro que nenhum de nós sabe o que fazer a partir daqui, porque nós dois ficamos sem palavras. — Espere, você saiu hoje, certo? — ele pergunta depois de um segundo. — Alguma coisa está acontecendo na cidade. Os Convergente se levantaram contra Evelyn, atacaram um de seus depósitos de armas. Eu fico olhando para ele. Não perguntei sobre o que estava acontecendo na cidade por alguns dias, estive envolvida


demais no que está acontecendo aqui. — Os Convergentes? As pessoas atualmente lideradas por Johanna Reyes... atacaram um depósito? Antes de sairmos, eu tinha certeza de que a cidade estava prestes a explodir em outro conflito. Acho que agora aconteceu. Mas me sinto separada dele, quase todos que me importa estão aqui. — Liderados por Johanna Reyes e Marcus Eaton — corrige Caleb. — Mas Johanna estava lá, segurando uma arma. Foi ridículo. As pessoas do Centro pareciam realmente incomodados por isso. — Uau — balanço a cabeça. — Acho que era apenas uma questão de tempo. Nós caímos em silêncio novamente, e em seguida, caminhamos para longe um do outro. Ao mesmo tempo, Caleb retornar ao seu catre e eu ando pelo corredor, seguindo as instruções de Caleb. Vejo a sala de genealogia à distância. As paredes de bronze parecem brilhar com luz quente. De pé na porta, sinto que estou dentro de um pôr do sol, o brilho ao meu redor. O dedo de Tobias está passando ao longo das linhas da árvore de sua família – assumo – mas ociosamente, como se não estivesse realmente prestando atenção a ela. Sinto que posso ver essa corrente obsessiva a que Amar estava se referindo. Eu sei que Tobias tem estado observando seus pais nas telas, e agora ele está olhando para os seus nomes, embora não haja nada nesta sala que ele já não soubesse. Eu estava certo ao dizer que ele estava desesperado, desesperado por uma conexão com Evelyn, desesperado para não ser deficiente, mas nunca pensei sobre como as coisas estavam conectadas. Eu não sei como


seria a sensação, odiar sua própria história e ao mesmo tempo rogar pelo amor das pessoas que te deram essa história ao mesmo tempo. Como eu nunca vi a cisma dentro de seu coração? Como nunca percebi antes que, para todas as partes fortes e amáveis dentro dele, também há partes feridas e quebradas? Caleb me falou que a nossa mãe disse que não havia mal em todos, e o primeiro passo para amar alguém é reconhecer o mal em nós mesmos, para que possamos perdoá-los. Então, como espero usar o desespero de Tobias para amá-lo, como se eu fosse melhor do que ele, se eu nunca deixei que meu desespero me cegasse? — Hey — eu digo, enfiando as direções de Caleb no meu bolso de trás. Ele se vira e sua expressão é severa, familiar. Parece a maneira como ele era nas primeiras semanas em que o conheci, como uma sentinela guardando seus pensamentos mais íntimos. — Ouça — digo — se supunha que era para eu descobrir se eu poderia perdoá-lo ou não, mas agora estou pensando que você não fez nada para mim que eu precise perdoar, exceto, talvez, me acusar de ter ciúmes de Nita... Ele abre a boca para responder, mas eu ergo a mão para detê-lo. — Se ficarmos juntos, eu vou ter que te perdoar uma e outra vez, e se você ainda estiver nessa, terá que me perdoar uma e outra vez também — continuo. — Então, o perdão não é o ponto. O que eu realmente deveria estar tentando descobrir é se nós ainda somos bons um para o outro ou não. Todo o caminho de volta pensei sobre o que Amar disse,


que todo relacionamento tem seus problemas. Pensei sobre meus pais, que argumentavam com mais frequência do que qualquer outro par de pais da Abnegação que eu conhecia, e que, no entanto, passaram por todos os dias juntos, até que morreram. Então pensei em quão forte eu me tornei, como me sinto segura com a pessoa que sou agora, e como ao longo do caminho, ele me disse que eu sou corajosa, respeitada, amada e digna de ser amada. — E então? — ele pergunta, com a voz, os olhos e as mãos um pouco trêmulos. — E eu acho que você ainda é a única pessoa suficiente forte para se manter na raia com alguém como eu. — Eu sou — ele concorda asperamente. E eu o beijo. Seus braços caem ao meu redor e me abraçar forte, me levantando para as pontas dos meus dedos. Eu enterro meu rosto em seu ombro e fecho os olhos, apenas respirando o cheiro limpo dele, o cheiro do vento. Eu costumava pensar que quando as pessoas se apaixonavam, simplesmente aterrissavam onde aterrissavam, não tinham escolha no assunto depois. E talvez isso fosse verdade no começo, mas não é verdade agora. Eu me apaixonei por ele. Mas não estou com ele por omissão, como se não houvesse mais ninguém disponível para mim. Estou com ele porque eu escolho, a cada dia que acordo, a cada dia que nós lutamos ou mentimos ou decepcionamos um ao outro. Eu o escolho uma e outra vez, e ele me escolhe.


Capítulo 37 Tris Chego ao escritório de David para a minha primeira reunião do conselho assim que o meu relógio muda para as dez, e ele se empurra para o corredor logo depois. Parece ainda mais pálido do que a última vez que o vi, e os círculos escuros sob seus olhos estão pronunciadas, como hematomas. — Olá, Tris — diz ele. — Ansioso, não é? Chegou bem na hora. Ainda sinto um pouco do peso em meus membros do soro da verdade que Cara, Caleb e Matthew testaram em mim mais cedo, como parte de nosso plano. Eles estão tentando desenvolver um soro da verdade mais poderoso, que mesmo GPs resistentes a soros como eu sou não sejam imunes. Ignoro a sensação de peso e respondo: — É claro que estou ansiosa. É a minha primeira reunião. Quer ajuda? Você parece cansado. — Tudo bem, tudo bem. Vou para trás dele e aperto a estrutura da cadeira de rodas para colocá-lo em movimento. Ele suspira. — Suponho que eu estou cansado. Fiquei acordado a noite toda lidando com nossa crise mais recente. Vire à esquerda


aqui. — Que crise? — Oh, você vai descobrir logo, não vamos apressar as coisas. Nós manobramos pelos corredores escuros do Terminal 5 – que é marcado pelo “nome antigo”, como David falou – que não têm janelas, nenhum indício do mundo exterior. Quase posso sentir a paranoia que emana das paredes, como o próprio terminal tem pavor de olhos estranhos. Se eles soubessem o que os meus olhos estavam procurando. Enquanto ando, tenho um vislumbre das mãos de David, pressionadas contra os apoios para braços. A pele ao redor das unhas está machucada e vermelha, como se ele tivesse mastigado a ponta dos dedos durante a noite. As próprias unhas estão irregulares. Lembro-me de quando minhas próprias mãos ficavam daquela forma, quando as memórias das simulações do medo penetravam em cada sonho e cada pensamento ocioso. Talvez seja a memória de David do ataque que está fazendo isso com ele. Eu não me importo, penso. Lembre-se que ele fez. O que ele faria novamente. — Aqui estamos nós — diz David. Eu o empurro através de um conjunto de portas duplas, mantidas abertas com pesinhos nas laterais. A maioria dos membros do conselho parece estar lá, mexendo pequenas pazinhas em pequenas xícaras de café, a maioria deles homens e mulheres com a idade de David. Há alguns membros mais jovens – Zoe está lá, e me dá um tenso, mas educado sorriso quando ando para dentro. — Tenhamos ordem! — David diz, enquanto se conduz para a cabeceira da mesa de conferência.


Sento-me em uma das cadeiras ao longo da borda da sala, ao lado de Zoe. É claro que não é suposto que eu fique na mesa com todas as pessoas importantes, e estou bem com isso – vai ser mais fácil de cochilar se as coisas ficarem chatas, mas se esta nova crise for grave o suficiente para manter David acordado durante a noite, duvido que eu vá cochilar. — Noite passada recebi um telefonema desesperado das pessoas de nossa sala de controle — David fala. — Evidentemente, Chicago está prestes a explodir em violência novamente. Os partidários das facções que se autodenominam Convergentes têm se rebelado contra o controle dos sem facção, atacando esconderijos de armas. O que eles não sabem é que Evelyn Johnson descobriu uma nova arma – estoques de soro da morte mantidos escondidos na sede da Erudição. Como sabemos, ninguém é capaz de resistir ao soro da morte, nem mesmo os Divergentes. Se os Convergentes atacarem o governo sem facção e Evelyn Johnson revidar, as baixas serão obviamente catastróficas. Fico olhando para o chão na frente dos meus pés enquanto a sala explode em conversa. — Silêncio — diz David. — Os experimentos já estão em perigo de serem fechados se não pudermos provar aos nossos superiores que somos capazes de controlá-los. Outra revolução em Chicago iria apenas fomentar a sua crença de que este esforço tem perdido sua utilidade, algo que não podemos permitir que aconteça se quisermos continuar a lutar contra a deficiência genética. Em algum lugar atrás da expressão exausta e abatida de David, está algo mais duro, mais forte. Eu acredito nele.


Acredito que ele não vai permitir que isso aconteça. — É hora de usar o vírus do soro da memória para uma reinicialização em massa — diz ele. — E acho que deve ser usado em todos os quatro experimentos. — Reinicializá-los? — pergunto, porque eu não posso me impedir. Todos na sala olham para mim de uma só vez. Eles parecem ter esquecido que eu, um ex-membro dos experimentos a que eles estão se referindo, estou na reunião. — Reinício é o termo que usamos para apagamento de memória generalizada — diz David. — É o que fazemos quando os experimentos que incorporam modificação comportamental estão em perigo de desmoronar. Nós fizemos isso quando criamos cada primeiro experimento que tinha um componente de modificação comportamental, e a última em Chicago foi feita algumas gerações antes da sua — ele me dá um sorriso estranho. — Por que você acha que havia tanta devastação física no setor dos sem facção? Houve uma revolta, e nós tivemos que reprimi-la de forma tão limpa quanto possível. Sento-me atordoada em minha cadeira, imaginando as estradas quebradas, janelas estilhaçadas e postes derrubados no setor sem facção da cidade, a destruição tão evidente como em nenhum outro lugar, nem mesmo ao norte da ponte, onde os prédios estão vazios, mas parecem ter sido desocupados pacificamente. Sempre encarei os setores quebrados de Chicago com naturalidade, como prova do que acontece quando as pessoas não tem uma comunidade. Nunca imaginei que fossem resultado de uma revolta e uma posterior reinicialização. Sinto-me doente de raiva. Eles querem parar a revolução


não para salvar vidas, mas para salvar o seu precioso experimento, o que seria suficiente. Mas por que eles acreditam que têm o direito de arrancar as memórias das pessoas, suas identidades, para fora de suas cabeças só porque é conveniente para eles? Mas, claro, eu sei a resposta para essa pergunta. Para eles, as pessoas em nossa cidade são apenas recipientes GDs de material genético, apenas valiosos pelos genes corrigidos que passam, e não pelos cérebros em suas cabeças ou o coração em seu peito. — Quando? — Um dos membros do conselho pergunta. — Dentro das próximas quarenta e oito horas — David responde. Todos concordam com a cabeça como se fosse sensato. Eu lembro do que ele me disse em seu escritório. Se vamos ganhar esta luta contra a deficiência genética, temos de fazer sacrifícios. Você entende isso, não é? Eu deveria saber, então, que ele ficaria feliz em trocar milhares de memórias GDs – vidas – pelo controle dos experimentos. Que ele iria trocar sem sequer pensar em alternativas – sem sentir como se precisasse se incomodar a salvá-los. Eles estão danificados, depois de tudo.


Capítulo 38 Tobias Apoio meu sapato na beira da cama de Tris e aperto os cadarços. Através das grandes janelas vejo a luz da tarde refletindo nos painéis laterais dos aviões estacionados na pista de pouso. GDs em roupas verdes passam sob as asas e rastejam debaixo do nariz, verificando os aviões antes da decolagem. — Como o seu projeto com Matthew vai indo? — pergunto a Cara, que está a duas camas de distância. Tris deixou Cara, Caleb e Matthew testarem seu novo soro da verdade sobre ela esta manhã, mas não a vejo desde então. Cara está passando uma escova pelo cabelo. Ela olha ao redor do cômodo para se certificar de que está vazio antes de responder. — Não muito bem. Até agora Tris permaneceu imune à nova versão do soro que criamos – não teve efeito algum. É muito estranho que os genes de uma pessoa a tornem tão resistentes à manipulação da mente de qualquer tipo. — Talvez não sejam seus genes — aponto, encolhendo os ombros. Movo meus pés. — Talvez seja uma espécie de teimosia sobre-humana. — Oh, nós estamos na parte de insulto pela separação? —


ela pergunta. — Porque tenho muita prática após o que aconteceu com Will. Tenho várias coisas acerca o nariz dela. — Nós não nos separamos — sorrio. — Mas é bom saber que você tem esses sentimentos calorosos para com a minha namorada. — Peço desculpas, não sei por que pulei essa conclusão — as bochechas de Cara ficam vermelhas. — Meus sentimentos para com sua namorada são misturados, sim, mas na maior parte eu tenho muito respeito por ela. — Eu sei. Só estava brincando. É bom vê-la perturbada de vez em quando. Cara olha pra mim. — Além disso — pergunto — o que há de errado com o nariz dela? A porta do dormitório se abre e Tris entra, cabelo despenteado e olhos selvagens. Me perturba vê-la tão agitada, como se o chão em que estou de pé em não seja mais sólido. Eu me levanto e passo minha mão em seu cabelo para colocá-lo de volta no lugar. — O que aconteceu? — pergunto, minha mão descansando em seu ombro. — Reunião do conselho — Tris responde. Ela cobre a minha mão com a sua brevemente, então se senta em uma das camas, as mãos pendendo entre os joelhos. — Eu odeio ser repetitiva — Cara diz — mas... o que aconteceu?


Tris balança a cabeça como se estivesse tentando sacudir a poeira de fora. — O conselho tem feito planos. Grandes planos. Ela nos conta, aos trancos e barrancos, sobre o plano do conselho para reinicializar as experiências. Enquanto ela fala, prende as mãos sob as pernas e pressiona-as para a frente até os pulsos ficam vermelhos. Quando ela termina, sento-me ao lado dela, colocando meu braço sobre seus ombros. Olho pela janela para os aviões parados na pista, brilhantes e prontos para o voo. Em menos de dois dias esses aviões provavelmente vão liberar o vírus do soro da memória nos experimentos. Cara pergunta para Tris: — O que você pretende fazer a respeito? — Eu não sei — ela responde — sinto como se eu não soubesse mais o que é certo. Eles são semelhantes, Cara e Tris, duas mulheres afiadas pela perda. A diferença é que a dor de Cara a fez ter mais certeza, e Tris apenas guardou sua incerteza, protegeu-a, apesar de tudo o que passou. Ela ainda aborda tudo com uma pergunta em vez de uma resposta. É algo que admiro nela, algo que eu provavelmente deveria admirar mais. Por alguns segundos, nós permanecemos em silêncio, e eu sigo o caminho dos meus pensamentos, que se trombam em minha mente. — Eles não podem fazer isso — eu digo. — Eles não podem apagar a memória de todos. Eles não deveriam ter o poder de fazer isso — faço uma pausa. — Tudo o que posso pensar é que seria muito mais fácil se estivéssemos lidando


com um conjunto completamente diferente de pessoas que pudessem realmente ver a razão. Então, poderíamos ser capazes de encontrar um equilíbrio entre proteger os experimentos e abri-los a outras possibilidades. — Talvez devêssemos importar um novo grupo de cientistas — sugere Cara, suspirando. — E descartar os velhos. O rosto de Tris se contorce e ela toca a testa, como se esfregando algumas breves dores inconvenientes para longe. — Não. Nós não precisamos mesmo fazer isso. Ela olha para mim, os olhos brilhantes ainda me prendendo. — Soro da memória — diz ela. — Alan e Matthew criaram uma maneira de fazer os soros se comportarem como vírus, para que eles pudessem se espalhar através de uma população inteira sem injetar todos. É assim que eles estão planejando reinicializar as experiências. Mas poderíamos reinicializá-los — ela fala mais rápido enquanto a ideia toma forma em sua mente, e seu entusiasmo é contagiante, borbulha dentro de mim como se a ideia fosse minha e não dela. Mas para mim não parece que ela está sugerindo uma solução para o nosso problema. Parece que está sugerindo causar mais um problema. — Reinicializar o Centro, e reprogramá-los sem a propaganda, sem o desdém para com GDs. Assim nunca arriscariam as memórias das pessoas nos experimentos novamente. O perigo irá embora para sempre. Cara levanta as sobrancelhas. — Apagar suas memórias também não iria apagar todos os seus conhecimentos? Tornando-os inúteis assim?


— Eu não sei. Acho que há uma maneira de direcionar memórias, dependendo de onde o conhecimento é armazenado no cérebro – caso contrário, os primeiros membros das facções não saberiam como falar, amarrar seus sapatos ou qualquer outra coisa — Tris se levante. — Devemos perguntar a Matthew. Ele sabe melhor como funciona do que eu. Levanto-me, também, para me colocar em seu caminho. Os raios de sol refletidos nas asas do avião me cegam, então não posso ver seu rosto. — Tris, espere. Você realmente quer apagar as lembranças de toda uma população contra a sua vontade? É a mesma coisa que eles estão planejando fazer para os nossos amigos e familiares. Protejo os olhos do sol para ver em seu rosto a fria expressão que vi em minha mente antes mesmo de eu enxergá-la. Para mim ela parece maior do que jamais pareceu – mais severa, dura e desgastada pelo tempo. Me sinto da mesma maneira, também. — Essas pessoas não têm nenhum respeito pela vida humana — ela diz. — Estão prestes a limpar as memórias de todos os nossos amigos e vizinhos. Eles são responsáveis pela morte da grande maioria da nossa antiga facção — ela se esquiva de mim e marcha até a porta. — Acho que eles têm sorte por eu não matá-los.


Capítulo 39 Tris Matthew junta as mãos atrás das costas. — Não, não, o soro não apaga todo o conhecimento de uma pessoa — diz ele. — Você acha que projetaríamos um soro que faz as pessoas se esquecerem de como falar ou caminhar? — Ele balança a cabeça. — Ele tem como alvo memórias explícitas – como o seu nome, onde você cresceu, o nome de sua primeira professora – e deixa lembranças implícitas – como a forma de falar, amarrar os sapatos ou andar de bicicleta – intocadas. — Interessante — Cara comenta. — Isso realmente funciona? Tobias e eu trocamos um olhar. Não há nada como uma conversa entre um Erudito e alguém que pode muito bem ser um Erudito. Cara e Matthew estão de pé bem perto, e quanto mais eles falam, mais gestos fazem. — Inevitavelmente, algumas memórias importantes serão perdidas — Matthew fala — mas se nós tivermos um registro de descobertas científicas ou de histórias das pessoas, elas podem reaprendê-las no período nebuloso após suas memórias forem apagadas. As pessoas são muito maleáveis, então. Eu me inclino contra a parede.


— Espere — digo. — Caso o Centro carregue todos os aviões com o vírus do soro da memória para reinicializar os experimentos, haverá algum soro restante para usar contra o complexo? — Nós teremos que obtê-lo primeiro — Matthew responde. — Em menos de 48 horas. Cara não parece ter ouvido o que eu disse. — Depois que você apagar as memórias, não vai ter que programá-las com memórias novas? Como é que isso funciona? — Nós apenas temos que voltar a ensinar-lhes. Como eu disse, as pessoas tendem a ficar desorientadas por alguns dias depois de ter sido reinicializadas, o que significa que vai ser mais fácil de controlá-las — Matthew senta, e gira em sua cadeira uma vez. — Nós podemos apenas dar-lhes um novo tipo de história. Aquele que ensina fatos em vez de propaganda. — Nós poderíamos usar o slide da fronteira para complementar a lição básica da história — aponto. — Eles têm fotografias de uma guerra causada por GPS. — Ótimo — Matthew concorda. — O grande problema, no entanto: o vírus do soro da memória está no Laboratório de Armas. O mesmo que Nita tentou – e falhou – em invadir. — Christina e eu deveríamos falar com Reggie — diz Tobias — mas penso que, dado este novo plano, deveríamos falar com Nita em seu lugar. — Acho que você está certo — concordo. — Vamos descobrir onde ela errou. +++


Quando cheguei aqui, imaginei que com o complexo fosse enorme e irreconhecível. Agora eu nem sequer tenho que consultar as placas para me lembrar de como chegar ao hospital, e nem Tobias, que mantém o ritmo comigo no caminho. É estranho como o tempo pode fazer um lugar encolher, tornar sua estranheza comum. Nós não dizemos nada um ao outro, embora eu possa sentir a conversa se aproximando de nós. Finalmente decido perguntar. — O que há de errado? Você mal falou durante a reunião. — Eu só... — ele balança a cabeça. — Eu não tenho certeza se esta é a coisa certa a fazer. Eles querem apagar a memória dos nossos amigos, e por isso você decide apagar a deles? Viro-me para ele e toco seus ombros levemente. — Tobias, temos 48 horas para detê-los. Se puder pensar em qualquer outra ideia, qualquer outra coisa que possa salvar nossa cidade, estou aberta a sugestões. — Eu não posso — seus olhos azuis-escuros estão derrotados, tristes. — Mas estamos agindo por desespero para salvar algo que é importante para nós, assim como o Centro é. Qual é a diferença? — A diferença é o que é certo — digo com firmeza. — As pessoas na cidade, como um todo, são inocentes. As pessoas do Centro, que forneceram a Jeanine o soro da simulação de ataque, não são inocentes. Sua boca se aperta, e posso dizer que ele não aceitou completamente. Eu suspiro. — Não é uma situação perfeita. Mas quando você tem que escolher entre duas opções ruins, você escolhe a única que


salva as pessoas que ama mais e acredita. Apenas faz-se isso. Ok? Ele pega minha mão, a mão dele é quente e forte. — Tudo bem. — Tris! — Christina empurra as portas giratórias do hospital e corre em nossa direção. Peter está em seus calcanhares, com o cabelo escuro penteado suavemente para o lado. No começo acho que ela está animada, e sinto uma onda de esperança – será que Uriah acordou? Mas quanto mais perto ela chega, mais óbvio fica que ela não está animada. Ela está frenética. Peter perdura atrás dela, os braços cruzados. — Acabei de falar com um dos médicos — diz ela, sem fôlego. — O médico disse que Uriah não vai acordar. Algo sobre... sem ondas cerebrais. Um peso se instala em meus ombros. Eu sabia, é claro, que Uriah poderia nunca mais acordar. Mas a esperança que manteve a dor na represada está diminuindo, esvaindo a cada palavra que ela fala. — Eles iam tirá-lo do suporte vital imediatamente, mas eu implorei a eles — ela limpa seus olhos ferozmente com as costas da mão, limpando uma lágrima antes de cair. — Finalmente, o médico disse que me daria quatro dias. Assim eu posso contar à sua família. Sua família. Zeke ainda está na cidade, assim como sua mãe na Audácia. Nunca me ocorreu antes que não soubessem o que aconteceu com Uriah, e nunca me preocupou contarlhes, porque estávamos todos tão concentrados em... — Eles vão reinicializar a cidade em 48 horas — eu digo de repente, e aperto o braço de Tobias. Ele parece atordoado.


— Se não pudermos impedi-los, significa Zeke e sua mãe vão esquecê-lo. Eles vão esquecê-lo antes que tenham a chance de dizer adeus a Uriah. Será como se ele nunca tivesse existido. — O quê? — Exige Christina, os olhos arregalados. — Minha família está lá. Eles não podem reinicializar todos! Como poderiam fazer isso? — Muito facilmente, na verdade — diz Peter. Eu tinha esquecido que ele estava lá. — O que você está fazendo aqui? — exijo. — Fui ver Uriah — ele responde. — Existe uma lei contra isso? — Você nem sequer se preocupa com ele — cuspo. — Que direito você tem de... — Tris — Christina balança a cabeça. — Agora não, ok? Tobias hesita, a boca aberta como se palavras esperassem em sua língua. — Nós temos que ir — diz ele. — Matthew disse que poderíamos vacinar as pessoas contra o soro da memória, certo? Então vamos entrar, inocular a família de Uriah apenas neste caso, e trazê-los para o complexo para dizer adeus a ele. Temos que fazê-lo amanhã, ou seria tarde demais — ele faz uma pausa. — E você pode inocular sua família também, Christina. Eu deveria ser a pessoa que falará com Zeke e Hana, de qualquer maneira. Christina concorda. Eu aperto-lhe o braço, em uma tentativa de reafirmação. — Eu também vou — diz Peter. — A menos que queiram que eu conte a David o que estão planejando. Todos paramos para olhar para ele. Eu não sei o que Peter quer com uma viagem para a cidade, mas não pode ser


bom. Ao mesmo tempo, não podemos permitir que David descubra o que estamos fazendo, não agora, quando não há tempo. — Tudo bem — Tobias responde — mas se você causar algum problema, me reservo o direito de socá-lo até a inconsciência e trancá-lo em um prédio abandonado em algum lugar. Peter revira os olhos. — Como é que vamos chegar lá? — Christina pergunta. — Não é como se eles simplesmente deixassem as pessoas pegarem carros emprestados. — Aposto que poderíamos chamar Amar — eu digo. — Ele me disse hoje que sempre se voluntária para patrulhas. Então ele conhece todas as pessoas certas. E tenho certeza de que ele concordaria em ajudar Uriah e sua família. — Eu deveria ir perguntar a ele agora. E alguém provavelmente deve sentar-se com Uriah... certificar-se de que o médico não vai voltar atrás em sua palavra. Christina, não Peter — Tobias esfrega a parte de trás do seu pescoço, arranhando a tatuagem do símbolo da Audácia como se quisesse arrancá-la de seu corpo. — E então eu deveria descobrir como contar à família de Uriah que ele foi morto quando eu deveria estar cuidando dele. — Tobias... — começo, mas ele levanta a mão para me parar. Ele começa a se afastar. — Eles provavelmente não vão me deixar visitar Nita de qualquer maneira. Às vezes é difícil saber como cuidar de pessoas. Enquanto observo Peter e Tobias se afastarem – mantendo distância um do outro, penso que é possível que Tobias precise de


alguém para correr atrás dele, porque as pessoas seguem deixando-o ir embora, deixando-o retirar-se, durante toda a sua vida. Mas ele está certo: ele precisa fazer isso por Zeke, e eu preciso falar com Nita. — Vamos lá — diz Christina. — O horário de visitas está quase no fim. Vou voltar a me sentar com Uriah. +++ Antes de entrar no quarto de Nita – identificável pelo guarda sentado ao lado da porta – paro para visitar Uriah em sua cama com Christina. Ela se senta na cadeira ao lado dele, que está amassada com o contorno de suas pernas. Tem sido um longo tempo desde que falei com ela como uma amiga, um longo tempo desde que rimos juntas. Eu estava perdida no nevoeiro do Centro, na promessa de pertencer. Estou ao seu lado e olho para ele. Ele realmente não parece mais ferido – há algumas contusões, alguns cortes, mas nada sério o suficiente para matá-lo. Inclino a cabeça para ver a tatuagem de uma cobra enrolada em torno de sua orelha. Sei que é ele, mas ele não se parece muito com Uriah sem um sorriso largo no rosto e seus olhos escuros brilhantes, alertas. — Ele e eu nem sequer éramos realmente próximos — diz ela. — Só... no fim. Porque ele tinha perdido alguém que morreu, e por isso eu... — Eu sei. Você o ajudou, de verdade. Arrasto uma cadeira para sentar-me ao lado dela. Ela aperta a mão de Uriah, que permanece imóvel na cama. — Às vezes sinto como se tivesse perdido todos os meus


amigos — ela fala. — Você não perdeu Cara. Ou Tobias. E Christina, você não me perdeu. Nunca vai me perder. Ela se vira para mim, e em algum lugar na névoa de tristeza, nós envolvemos nossos braços em torno uma da outra, da mesma forma desesperada que fizemos quando ela me disse que tinha me perdoado por matar Will. Nossa amizade tem permanecido no âmbito de um peso incrível, o peso de eu atirar em alguém que ela amava, o peso de muitas perdas. Outras relações teriam quebrado. Por alguma razão, esta não. Ficamos agarradas juntos por um longo tempo, até que o desespero se desvanece. — Obrigada — ela fala. — Você não vai me perder, também. — Tenho certeza que se fosse perder, já teria perdido — sorrio. — Escute, tenho algumas coisas para te por em dia. Conto a ela sobre o nosso plano para impedir o Centro de reinicializar os experimentos. Enquanto falo, penso nas pessoas que ela está prestes a perder – o pai e a mãe, sua irmã – todas essas conexões, para sempre alteradas ou descartadas, em nome da pureza genética. — Sinto muito — falo quando termino. — Sei que você provavelmente vai querer nos ajudar, mas... — Não se desculpe — ela olha para Uriah. — Ainda estou feliz por estar indo para a cidade — ela acena com a cabeça algumas vezes. — Você vai impedi-los de reinicializar o experimento. Eu sei que vai. Espero que ela esteja certa. +++


Eu só tenho dez minutos até o horário de visitas termine quando chego ao quarto de Nita. O guarda olha para cima de seu livro e levanta a sobrancelha para mim. — Posso entrar? — pergunto. — Na verdade, eu não deveria deixar as pessoas lá dentro — ele responde. — Fui eu quem atirou nela. Isso conta para alguma coisa? — Bem — ele encolhe os ombros. — Contanto que você prometa não vai atirar novamente. E sair em dez minutos. — Certo. Ele me faz tirar o casaco para mostrar que não estou carregando armas, e então me deixa no quarto. Nita se endireita tanto quanto ela pode, de qualquer maneira. Metade de seu corpo está envolto em gesso, e uma de suas mãos está algemada à cama, como se ela pudesse escapar, mesmo se quisesse. Seu cabelo está bagunçado e preso, mas é claro, ela ainda está bonita. — O que você está fazendo aqui? — ela pergunta. Eu não respondo – verifico os cantos da sala em busca de câmeras, e há uma do outro lado de mim, apontada para a cama de hospital de Nita. — Não há microfones — diz ela. — Eles realmente não fazem isso aqui. — Ótimo — puxo uma cadeira e me sento ao lado dela. — Estou aqui porque preciso de informações importantes de você. — Eu já contei tudo o que tinha para lhes falar — ela me encara fixamente — não tenho nada mais a dizer. Especialmente para a pessoa que atirou em mim. — Se eu não tivesse atirado em você, não seria a pessoa


favorita de David, e não saberia de todas as coisas que sei — olho para a porta, mais por paranoia do que uma preocupação real de que alguém esteja escutando. — Nós temos um novo plano. Matthew, eu e Tobias. E isso vai exigir entrar no Laboratório de Armas. — E você pensou que eu poderia ajudá-la com isso? — Ela balança a cabeça. — Eu não pude entrar na primeira vez, lembra-se? — Preciso saber como é a segurança. David é a única pessoa que conhece o código de acesso? — Não exatamente... a única pessoa. Isso seria estúpido. Seus superiores a conhecem, mas ele é o único do complexo, sim. — Ok, então qual é a medida de segurança de backup? O que é ativado se você explodir o portas? Ela aperta os lábios de modo que eles quase desaparecem, e olha para o gesso que cobre metade de seu corpo. — É o soro da morte — ela responde. — Na forma de aerossol, é praticamente imparável. Mesmo se você usar um traje impermeável ou algo assim, ele trabalha o seu caminho eventualmente. Só dá um pouco mais de tempo dessa maneira. É o que dizem os relatórios de laboratório. — Então eles apenas matam automaticamente qualquer um que abre seu caminho para que a sala sem o código de acesso? — Isso te surpreende? — Acho que não — equilibro meus cotovelos sobre os joelhos. — E não há maneira de entrar sem o código de David. — Que, como você descobriu, ele é completamente incapaz de dividir.


— Não há nenhuma chance de um GP conseguir resistir ao soro da morte? — Não. Definitivamente não. — A maioria dos GPs não pode resistir ao soro da verdade, também — respondo. — Mas eu posso. — Se você quer ir flertar com a morte, fique à vontade — ela se inclina para trás nos travesseiros. — Terminei com isso agora. — Só mais uma pergunta. Digamos que eu queira flertar com a morte. Onde posso obter explosivos para quebrar as portas? — Como se eu fosse te dizer isso. — Não acho que você entenda — eu digo. — Se este plano for bem sucedido, você não vai mais ser presa pela vida toda. Vai se recuperar e ficar livre. Portanto, é do seu melhor interesse me ajudar. Ela olha para mim como se estivesse me pesando e me medindo. Ela dá puxões contra a algema, apenas o suficiente para que o metal faça uma linha em sua pele. — Reggie tem os explosivos. Pode te ensinar como usá-los, mas ele não é bom em ação, então pelo amor de Deus, não o leve junto a menos que queria se sentir como uma babá. — Entendido — respondo. — Diga-lhe que vai exigir o dobro do poder de fogo para passar por aquelas portas do que por outra qualquer. Elas são extremamente resistentes. Concordo com a cabeça. Meu relógio emite um sinal sonoro pela hora, sinalizando que o meu tempo acabou. Fico de pé e empurro minha cadeira de volta para o canto onde a encontrei. — Obrigada pela ajuda.


— Qual é o plano? — ela pergunta. — Se você não se importa de me contar. Faço uma pausa, hesitando sobre as palavras. — Bem — digo finalmente. — Vamos apenas dizer que ele irá apagar a frase “geneticamente deficiente” do vocabulário de todos. O guarda abre a porta, provavelmente para gritar comigo por ultrapassar o meu limite de tempo, mas já estou fazendo meu caminho para fora. Olho por cima do ombro apenas uma vez antes de ir, e vejo que Nita está dando um pequeno sorriso.


Capítulo 40 Tobias Amar aceita nos ajudar a entrar na cidade sem a necessidade de muita persuasão, ansioso por uma aventura, como eu sabia que ele estaria. Combinamos de nos encontrar à noite no jantar para falar do plano com Christina, Peter e George, que nos ajudará a conseguir um veículo. Depois que falo com Amar, ando para o dormitório e me deito com um travesseiro sobre minha cabeça por um longo tempo, rodando através de um roteiro do que vou dizer a Zeke quando eu encontrá-lo. Sinto muito, eu estava fazendo o que pensei que tinha que fazer, e todo mundo estava cuidando de Uriah, e não achei... As pessoas vêm para o quarto e o deixam, o aquecedor é ligado e calor chega através das aberturas de ventilação e, em seguida, é desligado novamente, e todo o tempo estou pensando nesse roteiro, inventando desculpas e, em seguida, descartando-as, escolhendo o tom certo, os gestos certos. Finalmente minha frustração chega ao limite, eu tio o travesseiro do rosto e o arremesso contra a parede oposta. Cara, que está alisando uma camisa limpa sobre os quadris, salta para trás. — Pensei que você estivesse dormindo — diz ela.


— Sinto muito. Ela toca em seu cabelo, garantindo que cada fio está no lugar. Ela é tão cuidadosa em seus movimentos, me lembra dos músicos da Amizade puxando as cordas do banjo. — Eu tenho uma pergunta — me sento. — É um pouco pessoal. — Tudo bem — ela se senta na minha frente, na cama de Tris. — Pergunte. — Como você foi capaz de perdoar Tris depois do que ela fez com seu irmão? Supondo que você tenha perdoado, isto é. — Hmm — Cara abraça os braços perto de seu corpo. — Às vezes penso que a perdoei. Às vezes não tenho tanta certeza. Não sei como responder isso, é como perguntar como você continua com a sua vida depois que alguém morre. Você simplesmente o faz, e no dia seguinte também. — Havia... alguma maneira de ela ter tornado isso mais fácil para você? Ou algo que ela fez? — Por que você está perguntando isso? — Ela põe a mão no meu joelho. — É por causa de Uriah? — É — respondo com firmeza, e movo um pouco minha perna de modo que a mão dela cai. Não preciso de um tapinha ou toque de consolação, como uma criança. Não preciso de suas sobrancelhas erguidas, sua voz suave, para persuadir uma emoção de mim que eu preferiria conter. — Tudo bem — ela endireita, e quando fala de novo, soa casual, do jeito que normalmente é. — Acho que a coisa mais importante que ela fez – obviamente sem querer – foi se confessar. Há uma diferença entre admitir e confessar.


Admitir envolve amolecimento, dar desculpas a coisas que não tem justificativa; confessar apenas nomeia o delito em toda a sua gravidade. Isso era algo que eu precisava. Concordo com a cabeça. — E depois que você confessar a Zeke — diz ela — acho que seria bom se o deixasse sozinho pelo tempo que ele queira estar assim. Isso é tudo o que você pode fazer. Concordo com a cabeça novamente. — Mas, Quatro — acrescenta ela — você não matou Uriah. Você não detonar a bomba que o feriu. Você não armou o plano que levou a essa explosão. — Mas eu participei do plano. — Oh, cale-se, ok? — Ela diz que suavemente, sorrindo para mim. — Aconteceu. Foi horrível. Você não é perfeito. Ninguém é. Não confunda o seu sofrimento com a culpa. Ficamos no silêncio e na solidão do dormitório vazio por mais alguns minutos, e tento deixar que suas palavras trabalhem em mim. +++ Eu janto com Amar, George, Christina e Peter no refeitório, entre o balcão de bebidas e uma fileira de latas de lixo. A tigela de sopa diante de mim esfriou antes que eu pudesse comer tudo, e ainda há biscoitos boiando no caldo. Amar nos diz onde e quando nos encontraremos, então vamos para o corredor perto das cozinhas, para que não sejamos vistos, e ele tira uma pequena caixa preta com


seringas dentro dela. Ele dá uma para Christina, Peter e eu, junto com uma gaze antibacteriana embalada individualmente para limpar, algo que suspeito que só Amar se incomodaria. — O que é isso? — Christina pergunta. — Não vou injetar em meu corpo a menos que eu saiba o que é. — Tudo bem — Amar cruza as mãos. — Há uma chance de que o vírus do soro da memória seja liberado enquanto ainda estivermos na cidade. Você vai precisar disto para se inocular contra ele, a menos que queira esquecer tudo. É a mesma coisa que você vai injetar nos braços de sua família, assim não se preocupe com isso. Christina estica seu braço e bate no interior de seu cotovelo até que uma veia se tensiona. Por costume, insiro a agulha na lateral do meu pescoço, da mesma maneira que fiz todas as vezes que passei pela minha paisagem do medo, o que acontecia várias vezes por semana. Amar faz a mesma coisa. Percebo, no entanto, que Peter apenas finge injetar-se – quando ele pressiona o êmbolo, o fluido corre para baixo em sua garganta, e ele o seca casualmente com uma manga. Gostaria de saber o que ele sente para voluntariamente querer esquecer tudo. +++ Depois do jantar, Christina caminha até mim e diz: — Precisamos conversar.


Nós caminhamos pela longa escadaria que leva ao espaço GD no subterrâneo, nossos joelhos movendo-se em uníssono a cada degrau pelo corredor multicolorido. No final, Christina cruza os braços, e luz roxa cobre seu nariz e boca. — Amar não sabe que estamos tentando parar a reinicialização? — Diz ela. — Não. Ele é leal ao Centro. Eu não quero envolvê-lo. — Você sabe, a cidade ainda está à beira de uma revolução — ela fala, e a luz fica azul. — A razão para o Centro reinicializar nossos amigos e famílias é impedi-los de matar uns aos outros. Se pararmos a reinicialização, os Convergentes atacarão Evelyn, Evelyn vai revidar com o soro da morte e um monte de pessoas vai morrer. Ainda posso estar com raiva de você, mas não acho que você queira as pessoas na cidade morram. Seus pais, em particular. Eu suspiro. — Honestamente? Eu realmente não me importo com eles. — Você não pode estar falando sério — diz ela, franzindo o cenho. — Eles são seus pais. — Estou falando, na verdade. Eu quero contar a Zeke e sua mãe o que eu fiz de Uriah. Depois disso, realmente não me importo com o que acontece com Evelyn e Marcus. — Você pode não se preocupar com a sua família permanentemente bagunçada, mas deve se preocupar com todos os outros! — Ela pega meu braço com uma mão forte e me gira bruscamente para que eu olhe para ela. — Quatro, minha irmãzinha está lá. Se Evelyn e os Convergentes


lutarem um contra o outro, ela pode se machucar, e eu não vou estar lá para protegê-la. Vi Christina com sua família no dia da visita, quando ela ainda era apenas uma iniciada da Franqueza transferida para mim. Vi sua mãe arrumar o colarinho da camisa de Christina com um sorriso orgulhoso. Se o vírus do soro da memória for implantado, essa memória seria apagada da mente de sua mãe. Se não for, sua família vai ser apanhada no meio de uma batalha por toda a cidade pelo controle. — Então o que você está sugerindo que façamos? — pergunto. Ela me libera. — Tem que haver uma maneira de evitar uma grande batalha que não envolva apagar forçosamente as memórias de todos. — Talvez — eu cedo. Eu não tinha pensado sobre isso porque não parecia necessário. Mas é necessário, é claro que é — você tem alguma ideia de como parar isso? — É basicamente um de seus pais contra o outro — diz Christina. — Não há algo que você possa dizer-lhes que vai impedi-los de tentarem se matar? — Algo que eu possa dizer a eles? — repito. — Você está brincando? Eles não ouvem ninguém. Eles não fazem qualquer coisa que não os beneficiem diretamente. — Portanto, não há nada que você possa fazer. Você apenas vai deixar a cidade se rasgar em pedaços. Eu fico olhando para os meus sapatos, banhados em luz verde, ponderando sobre isso. Se eu tivesse pais diferentes, se tivesse pais razoáveis, menos impulsionados pela dor,


raiva e o desejo de vingança, isso poderia funcionar. Eles poderiam ser obrigados a escutar o seu filho. Infelizmente, não tenho pais diferentes. Mas eu poderia. Eu poderia se quisesse. Um pouco do soro da memória em seu café da manhã ou sua água à noite, e eles seriam novas pessoas, uma folha limpa, sem máculas pela história. Eles ainda teriam que aprender que tiveram um filho, para começar, seriam obrigados a aprender o meu nome novamente. É a mesma técnica que estão usando para curar o complexo. Eu poderia usá-la para curá-los. Eu olho para Christina. — Consiga-me um pouco do soro da memória. Enquanto você, Amar e Peter estiverem à procura da família de vocês e da de Uriah, vou cuidar deles. Provavelmente não terei tempo suficiente para chegar a ambos os meus pais, mas um deles eu consigo. — Como é que vai fazer para separar-se do resto de nós? — Eu preciso... não sei, precisamos adicionar uma complicação. Algo que torne necessário que um de nós saia da patrulha. — Que tal pneus furados? — Christina pergunta. — Nós vamos à noite, certo? Então posso pedir a Amar para parar, então vou ao banheiro ou algo assim, furo os pneus, e então nós vamos ter que nos separar, para que possamos encontrar outro caminhão. Considero por um momento. Eu poderia contar a Amar o que está realmente acontecendo, mas isso exigiria desfazer o denso nó de propagandas e mentiras que Centro amarrou


em sua mente. Supondo que eu poderia mesmo desfazê-lo, mas não temos tempo para isso. Mas temos tempo para uma mentira bem contada. Amar sabe que meu pai me ensinou como ligar um carro apenas com os fios quando eu era mais jovem. Ele não estranharia eu me voluntariar para encontrar outro veículo. — Isso vai funcionar. — Ótimo — ela inclina a cabeça. — Então você realmente vai apagar as lembranças de um dos seus pais? — O que você faz quando seus pais são malvados? Consegue novos pais. Se um deles não tiver toda a bagagem que eles têm atualmente, talvez os dois possam negociar um acordo de paz ou algo assim. Ela franze a testa para mim por alguns segundos, como se quisesse dizer alguma coisa, mas, eventualmente, apenas balança a cabeça.


Capítulo 41 Tris O cheiro de lixívia incomoda meu nariz. Estou ao lado de um esfregão num armazém do subsolo; imóvel pelas consequências do que acabei de dizer a todos – que quem invadir o Laboratório de Armas estará indo em uma missão suicida. O soro da morte é imparável. — A questão é: — Matthew diz — isto é algo pela qual estamos dispostos a sacrificar uma vida? Este é o local onde Matthew, Caleb e Cara estavam desenvolvendo o novo soro, antes de os plano serem alterados. Frascos, copos e anotações em cadernos estão espalhados sobre a mesa do laboratório em frente Matthew. O cordão que ele usa amarrado no pescoço está em sua boca agora, e ele mastiga distraidamente. Tobias se inclina contra a porta, os braços cruzados. Lembro-me dele de pé desse jeito durante a iniciação, enquanto nos observava lutar entre si, tão alto e tão forte que eu nunca sonhei que ele me daria mais do que um olhar superficial. — Não se trata apenas de vingança — eu digo. — Não é sobre o que fizeram com a Abnegação. É sobre pará-los antes que eles façam algo igualmente ruim para as pessoas em todos os experimentos – tirar o seu poder de controlar milhares de vidas.


— Vale a pena — Cara fala. — Uma morte para salvar milhares de pessoas de um destino terrível? E cortar o poder do complexo pela raiz, por assim dizer? Sequer é questionável? Eu sei que ela está fazendo a pesagem de uma única vida contra tantas vidas e memórias, desenvolvendo uma conclusão óbvia das escalas. Assim é como a mente Erudita funciona, e a maneira como uma mente Abnegada funciona, mas não tenho certeza se essas são as mentes que precisamos no momento. Uma vida contra milhares de memórias, é claro que a resposta é fácil, mas tem que ser uma das nossas vidas? Será que tem que ser os que atuam? Mas porque conheço a resposta da minha pergunta, meus pensamentos se voltam para outra questão. Se tem que ser um de nós, quem deve ser? Os meus olhos mudam de Matthew para Cara, de pé atrás da mesa, para Tobias, Christina – que está o braço apoiado sobre um cabo de vassoura – e pousam em Caleb. Ele. Um segundo depois, sinto-me enjoada. — Oh, apenas acabe com isso — diz Caleb, levantando os olhos para mim. — Você quer que eu faça isso. Todos querem. — Ninguém disse isso — Matthew observa, cuspindo o colar da boca. — Todos estão olhando para mim. Não pensem que eu não sei disso. Fui o único que escolheu o lado errado, que trabalhou com Jeanine Matthews, o único com que nenhum de vocês se preocupa, por isso devo ser o único a morrer. — Por que acha que Tobias se ofereceu para tirá-lo da cidade, antes que fosse executado? — Minha voz sai fria,


baixa. O odor de água sanitária penetra em meu nariz e inunda minha cabeça. — Porque eu não me importo se você vive ou morre? Porque eu não me importo com você, afinal? Ele deve ser o único a morrer, parte de mim pensa. Eu não quero perdê-lo, outra parte argumenta. Eu não sei em que parte devo confiar, em que parte devo acreditar. — Acha que não reconheço o ódio quando vejo? — Caleb balança a cabeça. — Eu o vejo toda vez que você olha para mim. Nas raras ocasiões em que olha para mim. Seus olhos estão brilhantes de lágrimas. É a primeira vez desde a minha quase execução que o vi cheio de remorso em vez de na defensiva ou cheio desculpas. Também pode ser a primeira vez desde que o vi como meu irmão, em vez do covarde que me vendeu a Jeanine Matthews. De repente, tenho dificuldade para engolir. — Se eu fizer isso... — ele começa. Nego com a cabeça, mas ele ergue a mão. — Pare. Beatrice, se eu fizer isso... você será capaz de me perdoar? Para mim, quando alguém peca contra você, você quer compartilhar o fardo desse delito, a dor dela pesa sobre os dois. O perdão, então, significa escolher suportar todo o peso sozinho. A traição de Caleb é algo que ambos carregam, e uma vez que ele fez isso, tudo o que eu queria é que ele levasse o peso para longe de mim. Não estou certa de que sou capaz de assumir tudo sozinha, não tenho certeza de que sou suficientemente forte, ou suficientemente boa. Mas ao vê-lo armar-se contra esse destino, sei que tenho


que ser forte o suficiente, e boa o suficiente, se ele vai se sacrificar para todos nós. Concordo com a cabeça. — Sim — eu sufoco. — Mas não é uma boa razão para fazer isso. — Eu tenho razões de sobra — diz Caleb. — Vou fazer isso. É claro que vou. +++ Não tenho certeza do que aconteceu. Matthew e Caleb ficam para trás para arrumar para Caleb o traje impermeável que irá mantê-lo vivo no Laboratório de Armas por tempo suficiente para liberar o vírus do soro da memória. Espero até que os outros saiam antes de eu deixar a sala. Quero andar de volta para o dormitório com apenas meus pensamentos como companhia. Algumas semanas atrás, eu teria me oferecido para ir a uma missão suicida – e o fiz. Eu me ofereci para ir à sede da Erudição, sabendo que a morte esperava por mim lá. Mas não foi porque eu era altruísta, ou porque eu estava brava. Foi porque eu era culpada e uma parte de mim queria perder tudo, uma parte afligida e doente de mim queria morrer. É isso o que está motivando Caleb agora? Devo realmente permitir que ele morra para que ele se sinta que sua dívida por mim foi reembolsada? Ando pelo corredor com o seu arco-íris de luzes e subo as escadas. Não consigo nem pensar em uma alternativa – eu estaria mais disposta a perder Christina, Cara ou Matthew? Não. A verdade é que eu estaria menos disposta a perdê-los, porque eles têm sido bons amigos para mim e Caleb não, e


não foi por um longo tempo. Mesmo antes de ele me trair, ele me deixou para a Erudição e não olhou para trás. Fui a único que foi visitá-lo durante a minha iniciação, e ele passou o tempo todo perguntando por que eu estava lá. E eu não quero mais morrer. Estou pronta para o desafio de assumir a culpa e a dor, até enfrentar as dificuldades que a vida colocou em meu caminho. Alguns dias são mais difíceis que outros, mas estou pronta para viver cada um deles. Eu não posso me sacrificar, desta vez. Nas partes mais honestas de mim, sou capaz de admitir que foi um alívio ouvir Caleb se voluntariar. De repente, não posso mais pensar sobre isso. Chego à entrada do hotel e caminho até o dormitório, na esperança de que eu apenas possa entrar em colapso na minha cama e dormir, mas Tobias está esperando no corredor por mim. — Você está bem? — Sim — respondo. — Mas eu não deveria estar — toco momentaneamente a minha testa. — Sinto como se eu já estivesse de luto por ele. Como se ele tivesse morrido no segundo em que o vi na sede da Erudição enquanto eu estava lá. Entende? Confessei a Tobias, logo depois, que eu tinha perdido toda a minha família. E ele me garantiu que ele era a minha família agora. É assim que ele se sente. Como tudo entre nós está torcido juntos, a amizade, o amor e a família, então não posso dizer a diferença entre qualquer um deles. — A Abnegação tem ensinamentos sobre isso, você sabe — ele fala. — Sobre quando deixar os outros sacrificarem-se por você, mesmo que seja egoísta. Eles dizem que se o sacrifício é a melhor forma de uma pessoa mostrar que te


ama, e se deve deixá-la fazer isso — ele se inclina um ombro contra a parede. — Nesta situação, é o maior presente que você pode lhes dar. Assim como foi quando seus pais morreram por você. — Eu não tenho certeza de que é o amor que o está motivando, no entanto — fecho os olhos. — Parece mais como culpa. — Talvez — Tobias admite. — Mas por que ele iria se sentir culpado por te trair se ele não a amasse? Concordo com a cabeça. Sei que Caleb me ama, e sempre amou, mesmo quando estava me machucando. Sei que o amo também. Mas isso parece errado de qualquer maneira. Ainda assim, sou capaz de ser momentaneamente aplacada, sabendo que isso é algo que meus pais poderiam ter compreendido, se estivessem aqui agora. — Este pode ser um momento ruim — ele diz — mas há algo que quero te contar. Eu imediatamente fico tensa, com medo de que ele vá nomear algum erro meu que passou despercebido, ou uma confissão que o está devorando por dentro, ou algo igualmente difícil. Sua expressão é ilegível. — Eu só quero te agradecer — ele fala, a voz baixa. — Um grupo de cientistas disse que meus genes eram danificados, que havia algo de errado comigo. Mostraram-me os resultados dos testes que provaram isso. E mesmo eu comecei a acreditar nisso. Ele toca meu rosto, o polegar roçando minha bochecha, e seus olhos estão sobre os meus, intensos e insistentes. — Você nunca acreditou — ele continua. — Nem por um segundo. Você sempre insistiu em que eu era... Eu não sei, completo.


Cubro a sua mão com a minha. — Bem, você é. — Ninguém nunca me disse isso antes — ele fala em voz baixa. — É o que você merece ouvir — respondo com firmeza, os olhos começando a nublar com lágrimas. — Que você é completo, que você é digno de amor, que você é a melhor pessoa que eu já conheci. Assim que a última palavra sai da minha boca, ele me beija. Eu o beijo de volta com tanta força que dói, e torço os dedos em sua camisa. Eu o empurro para o corredor e através de uma das portas para uma sala pouco mobiliada perto do dormitório. Fecho a porta com um chute do meu calcanhar. Assim como tenho insistido sobre o seu valor, ele sempre insistiu na minha força, insistiu que a minha capacidade é maior do que acreditam. E eu sei, sem precisar ser dito, que isso é o que o amor faz quando está certo – te torna mais do que você era, mais do que você pensou que poderia ser. Isso é certo. Seus dedos deslizam sobre o meu cabelo e se enrolam nele. Minhas mãos tremem, mas não me importo se ele percebe, não me importo se ele sabe que tenho medo de como isso parece intenso. Enrolo a camisa em meus punhos, puxandoo para mais perto, e suspiro seu nome contra a sua boca. Esqueço que ele é outra pessoa, em vez disso parece que ele é outra parte de mim, tão essencial quanto um coração, um olho ou um braço. Puxo sua camisa para cima e sobre a cabeça dele. Corro minhas mãos sobre a pele exposta como se fosse a minha própria. Suas mãos agarram a minha camisa e estou retirando-a, e


em seguida eu me lembro, me lembro de que sou pequena, sem peito e doentiamente pálida, e me puxo para trás. Ele olha para mim, não como se estivesse esperando por uma explicação, mas como se eu fosse a única coisa no quarto que vale a pena olhar. Eu olho para ele, também, mas tudo o que vejo me faz sentir pior, ele é tão bonito, e até mesmo a ondulação de tinta preta em sua pele o torna uma obra de arte. Um momento atrás, eu estava convencida de que combinávamos perfeitamente, e talvez ainda combinemos, mas apenas pelas nossas roupas. Mas ele ainda está olhando para mim desse jeito. Ele sorri, um pequeno sorriso tímido. Em seguida, coloca suas mãos na minha cintura e me puxa para ele. Ele se abaixa e beija entre os seus dedos sussurrando “linda” contra a minha barriga. E eu acredito nele. Ele se levanta e aperta seus lábios nos meus, sua boca aberta, suas mãos em meus quadris nus, os polegares deslizando na parte superior do meu jeans. Toco seu peito, inclinando-me para ele, sentindo seu suspiro em meus ossos. — Eu te amo, você sabe. — Eu sei — ele responde. Com um movimento de sua sobrancelha, ele se inclina e envolve um braço em volta dos meus tornozelos, me jogando sobre seu ombro. Uma risada irrompe da minha boca, metade alegria e metade nervosismo, e ele me carrega por toda a sala, me deixando cair sem cerimônia no sofá. Ele deita-se ao meu lado, e corro meus dedos sobre as chamas envolvendo sua caixa torácica. Ele é forte, ágil e


certeiro. E ele é meu. Encaixo minha boca na dele. +++ Eu estava com tanto medo de que iríamos apenas continuar colidindo uma e outra vez, se ficássemos juntos, e que eventualmente, o impacto me quebraria. Mas agora sei que sou como uma lâmina, e ele é como a pedra de amolar – eu sou forte demais para quebrar tão facilmente, e me torno melhor, mais afiada, cada vez que o toco.


Cápitulo 42 Tobias A primeira coisa que eu vejo quando acordo, ainda no sofá do cômodo do hotel, são os pássaros que voam pela clavícula dela. Sua camisa, recuperada do chão no meio da noite por causa do frio, está erguida em um lado onde ela está apoiada. Dormimos próximos um do outro antes, mas desta vez parece diferente. Das outras vezes em que estivemos juntos fora para nos consolar ou proteger; desta vez estamos aqui só porque queremos estar... e porque adormecemos antes que pudéssemos voltar ao dormitório. Estendo a mão e toco a ponta dos dedos em suas tatuagens, e ela abre os olhos. Ela envolve um braço em mim e puxa-se através das almofadas para que esteja contra mim, quente, macia e flexível. — Bom dia — eu digo. — Shh — diz ela. — Se você não reconhecer a hora, talvez ela vá embora. Puxo-a para mim, a minha mão está em seu quadril. Seus olhos estão arregalados, alertas, apesar de tê-los aberto só agora. Eu beijo sua bochecha, então seu queixo, sua garganta, demorando-me lá por alguns segundos. Suas mãos apertam em volta da minha cintura, e ela suspira em meu ouvido.


Meu autocontrole está prestes a desaparecer em cinco, quatro, três... — Tobias — ela sussurra: — Eu odeio dizer isso, mas... acho que nós temos apenas algumas coisas para fazer hoje. — Eles podem esperar — respondo em seu ombro, e beijo a primeira tatuagem lentamente. — Não, eles não podem! Caio de volta para as almofadas, e eu sinto frio sem o seu corpo encostado ao meu. — Yeah. Sobre isso, eu estava pensando que seu irmão poderia treinar a pontaria. Apenas por precaução. — Essa pode ser uma boa ideia — ela concorda em voz baixa. — Ele só disparou uma arma... o que, uma vez? Duas? — Eu posso ensiná-lo. Se há uma coisa em que sou bom, é pontaria. E pode fazê-lo sentir melhor fazer alguma coisa. — Obrigada — ela se senta e passa os dedos pelo cabelo para penteá-lo. À luz da manhã a sua cor parece mais brilhante, como se estivesse entrelaçado com ouro. — Eu sei que você não gosta dele, mas... — Mas se você vai deixar para trás o que ele fez — eu completo, pegando a mão dela — então vou tentar fazer o mesmo. Ela sorri e beija minha bochecha. +++ Tiro a água do chuveiro que ficou em minha com a palma a mão. Tris, Caleb, Christina e eu estamos na sala de treinamento na área subterrânea dos GDs – está fria, escura e cheia de equipamentos: armas de treino, esteiras, capacetes e alvos, tudo o que se poderia precisar. Seleciono a arma de


prática certa, uma que tem o tamanho de uma pistola, mas mais volumosa, e ofereço-a para Caleb. Os dedos de Tris deslizam entre os meus. Tudo vem facilmente esta manhã, cada riso e cada sorriso, cada palavra e cada movimento. Se tivermos êxito no que tentaremos esta noite, amanhã Chicago estará segura, o Centro mudará para sempre, e Tris e eu seremos capazes de construir uma nova vida só para nós em algum lugar. Talvez vá ser um lugar onde eu troque minhas armas e facas por ferramentas mais produtivas, como chaves de fenda, pregos e pás. Esta manhã, sinto que eu poderia ser tão feliz. Eu poderia. — Não dispara balas de verdade — eu digo — mas parece que eles projetaram tão próximo quanto possível de uma das armas que você vai usar. Parece de verdade, de qualquer maneira. Caleb segura a arma com apenas as pontas dos dedos, como se estivesse com medo de fosse quebrá-la em suas mãos. Eu rio. — Primeira lição: não tenha medo dela. Agarre-a. Você já atirou com uma antes, lembra? Nos ajudou a sair da sede da Amizade com um disparo. — Aquilo foi apenas sorte — diz Caleb, girando a arma para vê-la de todos os ângulos. Sua língua está empurrando a bochecha como se ele estivesse resolvendo um problema. — Não é o resultado da habilidade. — Sorte é melhor do que azar. Podemos trabalhar habilidade agora. Eu olho para Tris. Ela sorri para mim, depois se inclina para sussurrar algo para Christina. — Você está aqui para ajudar ou que, Careta? — pergunto. Eu me ouço falar na voz que eu usava como instrutor de


iniciação, mas desta vez uso-a em tom de brincadeira. — Você poderia praticar com o braço direito, se lembro corretamente. Você também, Christina. Tris faz uma careta para mim, então ela e Christina atravessam a sala para pegar suas próprias armas. — Ok, agora enfrente o alvo e destrave a arma — oriento. Há um alvo do outro lado da sala, mais sofisticado do que o alvo de madeira de bordo nas salas de treinamento da Audácia. Ele tem três anéis em três cores diferentes, verde, amarelo e vermelho, por isso é mais fácil dizer onde as balas acertaram. — Deixe-me ver como você atiraria naturalmente. Ele levanta a arma com uma mão, move os pés e os ombros como se estivesse prestes a levantar algo pesado, e atira. A arma dá um coice para trás e para cima, fazendo a bala acertar perto do teto. Cubro a boca com a mão para disfarçar meu sorriso. — Não há necessidade de rir — diz Caleb, irritado. — Livros não lhe ensinam tudo, não é? — Christina comenta. — Você tem que segurá-la com ambas as mãos. Não parece tão legal, mas também não acerta o teto. — Eu não estava tentando parecer legal! Christina para, com as pernas ligeiramente desniveladas, e ergue os dois braços. Ela olha para o alvo por um momento, em seguida, dispara. A bala de treinamento atinge o círculo externo do alvo e salta para fora, rolando no chão. Ela deixa um círculo de luz sobre o alvo, marcando o local do tiro. Eu gostaria de ter tido esta tecnologia durante o treinamento da iniciação. — Ah, bom — eu digo. — Você acertou o ar ao redor do corpo do seu alvo. Que útil. — Estou um pouco enferrujada — Christina admite, sorrindo. — Acho que a maneira mais fácil para você aprender seria me


imitar — falo para Caleb. Estou do jeito que sempre fico de pé – fácil, natural, e ergo ambos os braços, apertando a arma com uma mão e firmandoa com a outra. Caleb começa a me imitar, começando com os pés e ajeitando o resto do corpo. Tão ansiosa quanto Christina foi para provocá-lo, é sua capacidade de analisar que o torna bem sucedido – posso vê-lo mudando ângulos e distâncias, tensão e relaxamento enquanto ele me olha por cima, tentando fazer tudo certo. — Bom — eu digo quando ele termina. — Agora se concentre no que está tentando acertar, e nada mais. Eu fico olhando para o centro do alvo e tento deixá-lo me engolir. A distância não me incomoda – a bala vai viajar em linha reta, como seria se eu estivesse mais perto. Eu inspiro e me fortaleço, expiro e atiro, e a bala vai para a direita, onde eu quis colocá-la: no círculo vermelho, no centro do alvo. Dou um passo para trás para assistir Caleb tentar. Ele tem o pé do jeito certo, a maneira correta de segurar a arma, mas está rígido, uma estátua com uma arma na mão. Ele suga a respiração e a prende enquanto dispara. Desta vez o coice não o assusta tanto, e a bala acerta o topo do alvo. — Bom — repito. — Acho que o que você precisa no geral é se sentir confortável. Você está muito tenso. — Você pode me culpar? — ele pergunta. Sua voz treme, mas apenas no final de cada palavra. Ele tem a aparência de alguém que está prendendo o terror dentro de si. Assisti duas classes de iniciados com essa expressão, mas nenhum deles jamais esteve enfrentando o que Caleb está enfrentando agora. Balanço a cabeça e digo baixinho: — Claro que não. Mas você tem que perceber que, se não


puder deixar a tensão ir até hoje à noite, não poderá fazê-lo no Laboratório de Armas, e que bem isso faria a qualquer um? Ele suspira. — A técnica física é importante — continuo. — Mas é principalmente um jogo mental, o que é uma sorte para você, porque você sabe como jogar. Não se pratica apenas o tiro, também pratica-se o foco. E então, quando você está em uma situação onde está lutando por sua vida, o foco estará tão entranhado que isso vai acontecer naturalmente. — Eu não sabia que a Audácia era tão interessada em treinar o cérebro — diz Caleb. — Posso ver você disparar, Tris? Acho que nunca te vi atirar sem um ferimento à bala em seu ombro. Tris sorri um pouco e enfrenta o alvo. Quando vi pela primeira vez seu tiro durante o treinamento na Audácia, ela parecia incômoda como um pequeno pássaro. Mas sua forma fina e frágil tornou-se magra, mas musculosa, e quando ela segura a arma, parece fácil. Ela aperta os olhos um olho um pouco, move seu peso e atira. Sua bala erra o centro do alvo, mas apenas por alguns centímetros. Obviamente impressionado, Caleb levanta as sobrancelhas. — Não fique tão surpreso! — Diz Tris. — Desculpe. Eu só... você costumava ser tão desajeitada, lembra? Não sei como não notei que você não era mais assim. Tris dá de ombros, mas quando ela olha para o lado, as bochechas estão coradas e ela parece satisfeita. Christina atira novamente, e desta vez atinge o alvo mais próximo do centro. Dou alguns passos para trás para deixar Caleb praticar, e assisto Tris atirar de novo, vejo as linhas retas do seu corpo enquanto ela levanta a arma, e como ela é calma quando atira. Toco seu ombro perto da orelha dela. — Lembra-se do treinamento, como a arma quase te acertou no rosto?


Ela acena com a cabeça, sorrindo. — Lembra-se do treinamento, quando eu fiz isso? — pergunto, e a envolvo com um braço para pressionar minha mão contra seu estômago. Ela segura a respiração. — Não é como se eu fosse esquecer tão cedo — ela murmura. Ela se vira e puxa meu rosto para o dela, as pontas dos dedos no meu queixo. Nós nos beijamos, e ouço Christina falar alguma coisa sobre isso, mas, pela primeira vez, eu não me importo com nada. +++ Não há muito o que fazer após a prática de pontaria além de esperar. Tris e Christina pegam os explosivos de Reggie e Caleb ensina como usá-los. Em seguida, Matthew e Cara debruçam-se sobre um mapa, examinando diferentes rotas para atravessar o complexo até o Laboratório de Armas. Christina e eu nos encontramos com Amar, George e Peter para estudar a rota que vamos seguir para a cidade por toda aquela noite. Tris é chamada para uma reunião do conselho de última hora. Matthew inocula as pessoas com o soro da memória durante o dia – Cara, Caleb, Tris, Nita, Reggie e ele próprio. Não há tempo suficiente para pensar sobre o significado do que vamos tentar fazer: parar uma revolução, salvar os experimentos, alterar o Centro para sempre. Enquanto Tris está fora, vou para o hospital para ver Uriah uma última vez antes de eu trazer sua família de volta para ele. Quando chego lá, não posso entrar. A partir daqui, através do vidro, posso fingir que ele está apenas dormindo, e que se eu o tocasse, ele iria acordar, sorrir e fazer uma piada. De lá, eu seria capaz de ver quão sem vida ele está agora, como a


pancada em seu cérebro tomou as últimas partes dele que foram Uriah. Aperto minhas mãos em punhos para disfarçar o tremor. Matthew se aproxima do final do corredor, com as mãos nos bolsos de seu uniforme azul-escuro. Seu andar é relaxado, seus passos pesados. — Hey. — Oi — eu digo. — Eu estava apenas inoculando Nita — diz ele. — Ela está com o ânimo melhor hoje. — Bom. Matthew bate no vidro com os nós dos dedos. — Então... você está indo buscar a família dele mais tarde? Foi o que Tris que me disse. Concordo com a cabeça. — O irmão e a mãe. Conheci a mãe de Zeke e Uriah antes. Ela é uma mulher pequena com o poder em seu porte, e uma das raras pessoas da Audácia que resolve as coisas com calma e sem cerimônia. Eu gostava dela e ficava com medo dela ao mesmo tempo. — Nenhum pai? — Matthew pergunta. — Morreu quando eles eram jovens. Não é surpreendente, entre a Audácia. — Certo. Ficamos em silêncio por um tempo, e sou grato por sua presença, que me impede de ser oprimido pela tristeza. Sei que Cara estava certa ontem ao me dizer que não matei Uriah, não realmente, mas ainda sinto como se eu o tivesse feito, e talvez sempre sinta. — Eu tive vontade de lhe perguntar — falo depois de um


tempo. — Por que você está nos ajudando com isso? Parece um grande risco para alguém que não está pessoalmente interessado no resultado. — Eu estou, no entanto. É uma espécie de uma longa história. Ele cruza os braços, então puxa o cordão em torno de sua garganta com o polegar. — Havia uma garota — ele conta. — Ela era geneticamente deficiente, e isso significava que eu não deveria sair com ela, certo? Nós devemos ter certeza de que combinamos com parceiros “ideais”, para que produzamos descendentes geneticamente superiores, ou algo assim. Bem, eu estava me sentindo rebelde, e havia algo atraente sobre como era proibido, então ela e eu começamos a namorar. Eu nunca pensei que se tornaria algo sério, mas... — Mas se tornou — eu termino. Ele concorda com a cabeça. — Sim. Ela, mais do que qualquer outra coisa, me convenceu de que a posição do complexo sobre deficiências genéticas estava torcida. Ela era uma pessoa melhor do que eu, do que jamais serei. E então ela foi atacada. Um bando de GPs a espancou. Ela era meio boca aberta, nunca se contentava em apenas ficar onde estava, e acho que teve algo a ver com isso, ou talvez não, talvez as pessoas só fizessem coisas assim do nada, e tentar encontrar uma razão apenas frustra a mente. Eu olho de perto para o cordão com que ele está brincando. Sempre pensei que fosse preto, mas quando olho de perto, vejo que ele é na verdade verde – a cor dos uniformes do pessoal de apoio. — De qualquer forma, ela se machucou muito, mas um dos GPs era filho de um membro do conselho. Ele alegou que o ataque foi provocado, e essa foi a desculpa que eles usaram quando permitem que ele e os outros GPs saíssem com algum


serviço comunitário, mas eu sabia melhor — ele começa a balançar junto com suas próprias palavras. — Eu sabia que os deixaram livres porque pensavam nela como algo menos valioso do que eles. Como se os GPs houvessem espancado um animal. Um tremor começa no topo da minha espinha e viaja pelas minhas costas. — O que... — O que aconteceu com ela? — Matthew olha para mim. — Ela morreu um ano mais tarde, durante um procedimento cirúrgico para corrigir algumas das deficiências. Foi um golpe de sorte, uma infecção — ele deixa cair suas mãos. — O dia em que ela morreu foi o dia em que comecei a ajudar Nita. Não acho que seu plano recente foi uma boa, porém, e foi por isso que não a ajudei com ele. Mas então, eu também não tentei exatamente pará-la. Eu percorro as coisas que você deveria dizer em momentos como estes, as desculpas e a simpatia, e não encontro uma única frase que parece boa para mim. Em vez disso eu apenas deixar o silêncio entre nós. É a única resposta adequada para o que ele me disse, a única coisa que faz jus à tragédia em vez de remenda-la às pressas e seguir em frente. — Eu sei que não parece — Matthew diz — mas eu os odeio. Os músculos de sua mandíbula tensionam. Ele nunca me pareceu uma pessoa calorosa, mas nunca foi frio, também. Isso é o que ele é agora, um homem envolto em gelo, os olhos duros e sua voz exalando frio. — E eu teria me oferecido para morrer em vez de Caleb... se não fosse o fato de eu realmente querer vê-los sofrerem as repercussões. Quero vê-los se atrapalhar sob o soro da memória, não sabendo mais quem eles são, porque foi o que me aconteceu quando ela morreu.


— Isso soa como uma punição adequada — aponto. — Mais adequado do que matá-los. E, além disso, eu não sou um assassino. Eu me sinto desconfortável. Não é sempre que se depara com a pessoa real por trás de uma máscara de boa índole, as partes mais escuras de alguém. Não é confortável quando você o faz. — Sinto muito pelo o que aconteceu com Uriah — diz Matthew. — Vou deixá-lo com ele. Ele coloca as mãos nos bolsos e continua pelo corredor, os lábios franzidos.


Cápitulo 43 Tris A reunião de emergência do conselho foi mais do mesmo: a confirmação de que o vírus seria liberado ao longo das cidades nesta noite, as discussões sobre que os aviões seriam usados e em quais horários. David e eu trocamos palavras amigáveis quando a reunião acabou, e então eu escapei enquanto os outros ainda estavam tomando café e caminhei de volta para o hotel. Tobias me leva para o lobby, perto do dormitório do hotel, e passamos algum tempo lá, conversando, beijando e apontando as plantas estranhas. Parece como algo que as pessoas normais fazem – ter encontros, falar sobre pequenas coisas, rir. Nós tivemos tão poucos desses momentos. A maior parte do nosso tempo junto foi gasto correndo de uma ameaça ou de outra, ou correndo em direção a uma ameaça ou de outra. Mas posso ver um tempo no horizonte quando isso não será mais necessário. Vamos reinicializar as pessoas no composto, e trabalhar para reconstruir este lugar juntos. Talvez então possamos descobrir se somos bons nos momentos de calmaria como somos nos de agitação. Estou desejando que chegue logo. Finalmente chega a hora de Tobias sair. Eu estou no degrau mais alto da escada e ele fica no logo abaixo, então estamos da mesma altura. — Não gosto de não poder estar com você esta noite — diz ele.


— Não me sinto bem deixando-a sozinha com algo tão grande. — O que, você acha que não posso lidar com isso? — pergunto, um pouco na defensiva. — Obviamente não é o que eu penso — ele toca meu rosto e inclina a testa contra a minha. — Só não quero que você tenha que suportar isso sozinha. — E eu não quero que você tenha que falar com a família de Uriah sozinho — respondo baixinho. — Mas penso que essas são coisas que temos que fazer separadamente. Estou feliz por estar com Caleb antes de... você sabe. Vai ser bom não ter que me preocupar com você ao mesmo tempo. — Yeah — ele fecha os olhos. — Mal posso esperar até amanhã, quando eu estiver de volta e você tiver feito o que se propôs a fazer, e nós podemos decidir o que vem a seguir. — Posso dizer-lhe que vai envolver um monte de presentes — falo, e pressiono meus lábios nos dele. Suas mãos mudam de meu rosto para os meus ombros e deslizam cuidadosamente nas minhas costas. Seus dedos encontram a barra da minha camisa, depois deslizar sob ela, quentes e insistentes. Sinto-me ciente de tudo ao mesmo tempo – da pressão de sua boca, o gosto do nosso beijo, a textura de sua pele, a luz laranja brilhante contra as minhas pálpebras fechadas e o cheiro de coisas verdes, coisas que crescem, no ar. Quando me afasto e ele abre os olhos, vejo tudo sobre eles – o feixe de luz azul em seu olho esquerdo, o azul escuro que me faz sentir que estou segura em seu interior, como se estivesse sonhando. — Eu te amo. — Eu também te amo — ele responde. — Te vejo em breve. Ele me beija de novo, suavemente, e em seguida deixa o lobby. Eu fico parada naquele raio de sol até o sol desaparece. É hora de ficar com meu irmão.


Cápitulo 44 Tobias Verifico as telas antes de sair para encontrar Amar e George. Evelyn está escondida na sede da Erudição com seus partidários sem facção, inclinando-se sobre um mapa da cidade. Marcus e Johanna estão num edifício na Avenida Michigan, ao norte do edifício Hancock, realizando uma reunião. Espero que seja onde ambos estarão, em poucas horas, quando eu decidir qual dos meus pais reinicializar. Amar nos deu pouco mais de uma hora para localizar e vacinar a família de Uriah e voltar para o complexo despercebidos, então só tenho tempo para um deles. +++ Neve cai sobre a calçada do lado de fora, flutuando no vento. George me oferece uma arma. — É perigoso lá agora — diz ele. — Com todo esse negócio Convergente acontecendo. Pego a arma sem sequer olhar para ele. — Vocês estão todos familiarizados com o plano? — George pergunta. — Eu vou monitorá-los a partir daqui, desta sala de controle de pequeno porte. Vamos ver quão útil sou esta noite, no entanto, com toda essa neve obscurecendo as câmeras. — E onde é que os outros seguranças estarão? — Bebendo? — George dá de ombros. — Eu disse a eles para tirar a noite de folga. Ninguém vai notar que o caminhão está desaparecido. Vai ficar tudo bem, eu prometo.


Amar sorri. — Tudo bem, vamos. George aperta o braço de Amar e acena para o resto de nós. Enquanto os outros seguem Amar até o caminhão estacionado fora, pego George e o seguro. Ele me dá um olhar estranho. — Não me pergunte sobre isso porque eu não vou responder — falo. — Mas se inocule contra o soro da memória, ok? Tão rapidamente quanto possível. Matthew pode ajudá-lo. Ele franze a testa para mim. — Apenas o faça — eu digo, e vou para o caminhão. Flocos de neve se agarram ao meu cabelo e nuvens de vapor saem da minha boca a cada respiração. Christina choca-se contra mim em nosso caminho para o caminhão e desliza algo em meu bolso. Um frasco. Vejo os olhos de Peter em nós enquanto fico no banco do passageiro. Ainda não sei por que ele estava tão ansioso para vir com a gente, mas sei que preciso ter cuidado com ele. O interior do caminhão é quente, e logo estamos todos cobertos com gotas de água em vez de neve. — Sorte sua — diz Amar. Ele me dá um aparelho de vidro com linhas brilhantes emaranhadas através da tela como veias. Olho mais de perto e vejo que as linhas são ruas, e a linha mais brilhante traça nosso caminho através delas. — Você vai ser o homem do mapa. — Você precisa de um mapa? — levanto as sobrancelhas. — Será que não te ocorreu apenas... seguir os edifícios gigantes? Amar faz uma careta para mim. — Não estamos apenas dirigindo em linha reta para a cidade, estamos tomando uma rota cautelosa. Agora cale a boca e seja homem do mapa. Acho um ponto azul no mapa que marca a nossa posição. Amar acelera o caminhão na neve, que cai tão rápido que só posso ver alguns metros à frente de nós. Os edifícios por onde dirigimos refletem o passado como figuras escuras que espreitam através de uma mortalha branca. Amar


conduz rápido, confiando no peso do caminhão para nos manter firmes. Entre os flocos de neve, vejo as luzes da cidade à frente. Eu tinha esquecido quão perto estávamos dela, porque tudo é tão diferente do lado de fora dos limites. — Não posso acreditar que vamos voltar — Peter fala em voz baixa, como se não esperasse uma resposta. — Nem eu — concordo, porque é verdade. A distância que o Centro tem mantido do resto do mundo é um mal diferente da guerra que eles pretendem travar contra as nossas memórias – é mais sutil, mas, à sua maneira, tão sinistro quanto. Eles tinham capacidade para nos ajudar, acabar com as nossas facções, mas em vez disso vamos desmoronar. Deixem-nos morrer. Vamos matar uns aos outros. Só agora que estamos prestes a destruir mais do que um nível aceitável de material genético eles decidem intervir. Nós balançamos para trás e para frente no caminhão enquanto Amar dirige ao longo dos trilhos da ferrovia, ficando perto da parede de cimento à nossa direita. Olho para Christina no espelho retrovisor. Seu joelho direito salta rápido. +++ Eu ainda não sei que memória vou levar: Marcus ou Evelyn? Normalmente eu iria tentar decidir qual escolha seria mais altruísta, mas, neste caso, qualquer escolha parece egoísta. Reinicializar Marcus significaria apagar o homem que odeio e temo do mundo. Significaria a minha liberdade de sua influência. Reinicializar Evelyn significaria torná-la uma nova mãe, uma que não iria me abandonar, ou tomar decisões a partir de um desejo de vingança, ou controlar todos em um esforço para não ter que confiar neles. De qualquer forma, com qualquer um dos pais, eu fico melhor. Mas o que poderia ajudar mais a cidade?


Eu não sei. +++ Mantenho as mãos sobre as saídas de ar para aquecê-las enquanto Amar continua a dirigir ao longo dos trilhos da ferrovia e passa o vagão de trem abandonado que vimos em nosso caminho, os faróis refletindo em seus painéis de prata. Chegamos ao lugar onde o mundo exterior termina e o experimento começa, uma mudança abrupta como se alguém tivesse desenhado uma linha no chão. Amar dirige sobre essa linha como se ela não estivesse lá. Para ele, eu suponho, ela se desvaneceu com o tempo, à medida que cresceu mais e mais e se acostumou ao seu novo mundo. Para mim, parece como se mover da verdade para a mentira, da idade adulta para a infância. Observo o mundo de pavimento, vidro e metal se transformar em um campo vazio. A neve está caindo suavemente agora, e posso ver vagamente o horizonte da cidade à frente, os edifícios apenas um tom mais escuro que as nuvens. — Onde devemos encontrar Zeke? — Amar pergunta. — Zeke e sua mãe juntaram-se à revolta — respondo. — Então onde a maioria deles está é a minha melhor aposta. — As pessoas da sala de controle disseram que a maioria deles fixou residência ao norte do rio, perto do edifício Hancock — diz Amar. — Sente-se animado para ir de tirolesa? — Absolutamente não. Amar ri. Nos leva mais uma hora para chegar perto. Só quando vejo o edifício Hancock à distância começo a me sentir nervoso. — Hum... Amar? — Christina chama da parte traseira. — Eu odeio dizer isso, mas eu realmente preciso parar. E... você sabe. Xixi. — Agora? — Amar pergunta. — Yeah. Veio em de repente.


Ele suspira, mas para o caminhão ao lado da estrada. — Vocês fiquem aqui, e não olhem! — Christina diz antes de sair. Vejo o movimento de silhueta na parte de trás do caminhão, e espero. Tudo o que sinto quando ela fura os pneus é um ligeiro movimento do caminhão, tão pequeno que tenho de certeza que só eu senti porque estava esperando por isso. Quando Christina volta, espana os flocos de neve de sua jaqueta, e tem um pequeno sorriso. Às vezes, tudo o que é preciso para salvar as pessoas de um terrível destino é uma pessoa disposta a fazer algo sobre isso. Mesmo que esse “algo” seja uma falsa vontade de ir ao banheiro. Amar dirige por mais alguns minutos antes de acontecer qualquer coisa. Em seguida, o caminhão treme e começa a saltar, o que faz todos balançarmos. — Merda — Amar pragueja, de cara feia para o velocímetro. — Não posso acreditar nisso. — Furado? — pergunto. — Yeah — ele suspira, e pisa nos freios até que o veículo desliza até parar ao lado da estrada. — Vou verificar — eu digo. Salto do banco do passageiro e caminho até a parte de trás do caminhão. Os pneus traseiros estão totalmente furados, esfolados pela faca que Christina trouxe com ela. Espio pela parte de trás da janela para ter certeza de que há apenas um pneu sobressalente, em seguida, retornar à minha porta aberta para dar a notícia. — Ambos os pneus traseiros estão furados e só temos um de reposição. Vamos ter que abandonar o caminhão e procurar um novo. — Merda! — Amar bate no volante. — Nós não temos tempo para isso. Temos que ter certeza de Zeke e sua mãe e a família de Christina estão inoculados antes que o soro da memória seja liberado, ou eles serão inúteis. — Acalme-se — falo. — Eu sei onde podemos encontrar outro veículo. Por que vocês não continuam à pé e eu vou encontrar algo para dirigir?


A expressão de Amar se ilumina. — Boa ideia. Antes de me mover para longe do caminhão, reviso para ver se há balas em minha arma, mesmo não tendo certeza se vou precisar delas. Todos descem para fora do caminhão, Amar tremendo de frio e pulando nas pontas dos pés. Verifico o meu relógio. — Então você precisa para inoculá-los que horas? — O horário de George diz que temos uma hora antes de reinicializarem a cidade — diz Amar, verificando o seu relógio também, para ter certeza. — Se você quiser que a gente poupe Zeke e sua mãe da dor e os deixemos esquecer, eu não o culpo. Farei isso se precisar. Balanço a cabeça. — Não foi possível fazer isso. Eles não sentiriam dor, mas não seria real. — Como eu sempre disse — Amar fala, sorrindo — uma vez Careta, sempre Careta. — Você pode... não contar a eles o que aconteceu? Só até eu chegar lá — peço. — Apenas os inocule. Quero ser aquele quem conta. O sorriso de Amar encolhe um pouco. — Claro. Claro. Meus sapatos já estão encharcados por verificar os pneus, e meus pés doem quando tocam o chão frio novamente. Estou prestes a ir embora do caminhão quando Peter fala: — Eu vou com você. — O quê? Por quê? — Eu olho para ele. — Você pode precisar de ajuda para encontrar um caminhão — ele responde. — É uma cidade grande. Eu olho para Amar, que encolhe os ombros. — Ele tem um ponto. Peter se inclina para mais perto e fala em voz baixa, para que só eu possa ouvir. — E se não quiser que eu diga a ele que está planejando algo,


você não vai se opor. Seus olhos se dirigem para o meu bolso, onde o soro da memória está. Eu suspiro. — Tudo bem. Mas você faz o que eu digo. Eu assisto Amar e Christina irem embora sem nós, indo em direção ao edifício Hancock. Uma vez que eles estão longe demais para nos ver, dou alguns passos para trás, deslizando minha mão no bolso para proteger o frasco. — Eu não vou buscar um caminhão — digo. — Você pode muito bem saber agora. Vai me ajudar com o que estou fazendo, ou tenho que atirar em você? — Depende do que você está fazendo. É difícil chegar a uma resposta quando nem eu tenho certeza. Fico de frente para o edifício Hancock. À minha direita estão os sem facção, Evelyn, e sua coleção de soro da morte. À minha esquerda estão os Convergentes, Marcus, e o plano de insurreição. Onde é que eu tenho a maior influência? Onde posso fazer a maior diferença? Essas são as perguntas que eu deveria fazer a mim mesmo. Em vez disso, estou me perguntando por qual destruição estou mais desesperado. — Eu vou parar uma revolução — respondo. Eu viro à direita, e Peter me segue.


Capítulo 45 Tris Meu irmão está parado atrás do microscópio, seu olho pressionado na lente. A luz do microscópio lança sombras estranhas em seu rosto, fazendo-o parecer anos mais velho. — Definitivamente é — diz ele. — O soro da simulação de ataque, quero dizer. Sem dúvidas. — É sempre bom ter outra pessoa para verificar — Matthew comenta. Estou de pé com meu irmão nas horas antes de ele morrer. E ele está analisando soros. É tão estúpido. Sei por que Caleb quis vir aqui: ter certeza de que estava dando a vida por uma boa razão. Eu não o culpo. Não há uma segunda chance depois de ter morrido por algo, pelo menos tanto quanto eu sei. — Diga-me o código de ativação de novo — diz Matthew. O código de ativação permitirá ativar o soro da memória, e outro botão ira liberá-lo imediatamente. Matthew fez Caleb repeti-lo a cada poucos minutos desde que chegamos aqui. — Eu não tenho problema em memorizar sequências de números! — Caleb exclama. — Não duvido disso. Mas não sabemos em que condições estarão a sua mente quando o soro da morte começar a seguir seu curso, e estes códigos precisam estar


profundamente enraizados. Caleb recua com as palavras “soro da morte”. Fico olhando para os meus sapatos. — 080712 — recita Caleb. — E, em seguida, pressionar o botão verde. Agora Cara está passando algum tempo com as pessoas da sala de controle para que possa batizar suas bebidas com soro paz e apagar as luzes do complexo enquanto eles estão bêbados demais para perceber, assim como Nita e Tobias fizeram há algumas semanas. Quando ela fizer isso, vamos correr para o Laboratório de Armas, despercebidos pelas câmeras no escuro. Postos à minha frente numa mesa do laboratório estão os explosivos que Reggie nos deu. Eles parecem tão comuns – estão dentro de uma caixa preta com garras de metal nas bordas e um detonador remoto. As garras irão prender a caixa no segundo conjunto de portas do laboratório. O primeiro conjunto ainda não foi reparado desde o ataque. — Acho que é isso — diz Matthew. — Agora tudo o que temos a fazer é esperar mais um pouco. — Matthew — falo — acha que poderia nos deixar a sós um pouco? — É claro — Matthew sorri. — Vou voltar quando for a hora. Ele fecha a porta atrás de si. Caleb passa as mãos por cima do seu traje impermeável, dos explosivos, a mochila onde carregará. Ele os coloca em uma linha reta, arrumando este canto e aquele. — Eu fico pensando sobre quando éramos crianças e brincávamos de “Franqueza” — ele relembra — você costumava sentar-se em uma cadeira na sala de estar e eu


lhe fazia perguntas. Lembra-se? — Sim — inclino meus quadris na mesa do laboratório. — Você media o meu pulso e me dizia que, se eu mentisse, você seria capaz de perceber, porque a Franqueza sempre pode dizer quando outras pessoas estão mentindo. Não era muito agradável. Caleb ri. — Uma vez, você confessou ter roubado um livro da biblioteca da escola, e quando mamãe voltou para casa... — Eu tive que ir até a bibliotecária e pedir desculpas! — Eu rio muito. — Aquela bibliotecária era horrível. Sempre chamava de todos de “jovenzinho” ou “jovenzinha”. — Oh, ela me amava, apesar de tudo. Sabia que quando eu era voluntário da biblioteca e supostamente arrumava as prateleiras de livros durante a minha hora de almoço, eu estava na verdade de pé nos corredores lendo? Ela me pegou algumas vezes e nunca disse nada sobre isso. — Sério? — sinto uma pontada em meu peito. — Eu não sabia disso. — Havia muita coisa que não sabíamos sobre o outro, eu acho — ele bate com os dedos na mesa. — Eu gostaria que tivéssemos sido capazes de ser mais honestos um com o outro. — Eu também. — E é tarde demais agora, não é? — ele olha para cima. — Não totalmente — puxo uma cadeira da mesa de laboratório e sento-me nela. — Vamos jogar Franqueza. Vou responder a uma pergunta e, em seguida, você tem que responder uma também. Honestamente, é claro. Ele parece um pouco irritado, mas concorda. — Tudo bem. O que você realmente fez para quebrar os


copos na cozinha quando alegou que estava levando-os para fora para limpar as marcas de água? Reviro os olhos. — Essa é a única pergunta que você quer uma resposta honesta? Vamos, Caleb. — Tudo bem, tudo bem — ele limpa a garganta, e seus olhos verdes fixam nos meus, sérios. — Você realmente me perdoou ou apenas disse que sim porque eu estou prestes a morrer? Fico olhando para as minhas mãos, que descansam em meu colo. Tenho sido capaz de ser gentil e agradável com ele, porque cada vez que penso sobre o que aconteceu na sede da Erudição, empurro de imediato o pensamento para o lado. Mas isso não pode ser perdão, se eu o houvesse perdoado, seria capaz de pensar no que aconteceu sem que o ódio revirasse meu intestino, certo? Ou talvez o perdão seja apenas o contínuo afastamento de lembranças amargas até que o tempo embota a ferida e a raiva, e o erro é esquecido. Pelo amor de Caleb, escolho a acreditar que o último. — Sim, perdoei — faço uma pausa. — Ou, pelo menos, eu quero desesperadamente, e acho que pode ser a mesma coisa. Ele parece aliviado. Passo para o lado para que ele possa tomar o meu lugar na cadeira. Eu sei o que quero lhe perguntar desde que ele se ofereceu para fazer este sacrifício. — Qual é o maior motivo por você estar fazendo isso? O mais importante? — Não me pergunte isso, Beatrice.


— Não é uma armadilha — eu digo. — Isso não vai me fazer não te perdoar. Eu só preciso saber. Entre nós estão a roupa impermeável, os explosivos e a mochila, dispostos em uma linha no aço escovado. Eles são os instrumentos de sua ida, e não voltarão. — Sinto como se fosse a única maneira de eu poder escapar da culpa por todas as coisas que fiz. Eu nunca quis nada mais do que me livrar dela. Suas palavras doem dentro de mim. Eu tinha medo que ele dissesse isso. Sabia que ele diria isso o tempo todo. Desejava que ele não tivesse dito. Uma voz fala através do intercomunicador, no canto. — Atenção todos os residentes do complexo. Começa o procedimento de bloqueio de emergência, em vigor até às cinco horas. Repito, começa o procedimento de bloqueio de emergência, em vigor até às cinco horas. Caleb e eu trocamos um olhar alarmado. Matthew abre a porta. — Merda — diz ele. E então, mais alto: — merda! — Bloqueio de emergência? — repito. — Isso é o mesmo que um exercício de ataque? — Basicamente. Isso significa que nós temos que ir agora, enquanto ainda há caos nos corredores e antes que eles aumentem a segurança. — Por que eles fariam isso? — Caleb pergunta. — Pode ser que eles só queiram aumentar a segurança antes de liberar o vírus — Matthew responde. — Ou pode ser que descobriram que vamos tentar algo, e provavelmente estão vindo para nos prender. Eu olho para Caleb. Os minutos que eu tinha a sós com ele caem como folhas mortas arrancadas de ramos.


Atravesso a sala e recolho nossas armas do balcão, mas o pensamento no fundo da minha mente é o que Tobias disse ontem – a Abnegação diz que só se deve deixar alguém se sacrificar por você se for a melhor forma para que eles mostrem que te amam. E para Caleb, esse não é o caso.


Capítulo 46 Tobias

Meus pés tocam na neve da calçada. — Você não se inoculou ontem — falo para Peter. — Não, eu não me inoculei — diz Peter. — Por que não? — Por que eu deveria te dizer? Passo meu polegar sobre o frasco e digo: — Você veio comigo porque sabe que eu tenho o soro da memória, certo? Se quiser que eu te dê isso, me dar uma razão não faria mal. Ele olha para o meu bolso mais uma vez, como fez anteriormente. Deve ter visto Christina dá-lo a mim. Ele responde: — Eu prefiro tomar isso de você. — Faça-me o favor — levanto os olhos para o céu, vejo a neve que derrama das bordas dos edifícios. Está escuro, mas a lua fornece luz suficiente para enxergar. — Você pode pensar que é muito bom em combate, mas não é bom o suficiente para me vencer, juro. Sem aviso, ele me empurra com força e eu escorrego no chão coberto de neve e caio. Minha arma faz barulho ao atingir o chão, meio enterrada na neve. Isso vai me ensinar a não ser convencido, penso, e fico de pé rapidamente. Ele


agarra meu pescoço e me puxa para a frente para que eu escorregue novamente, só que desta vez mantenho meu equilíbrio e dou-lhe uma cotovelada no estômago. Ele me chuta forte na perna, tornando-a dormente, e pega a frente da minha blusa para me puxar para ele. Sua mão se atrapalha em meu bolso, onde o soro está. Tento afastá-lo, mas o equilíbrio é muito incerto e minha perna ainda está muito dormente. Com um gemido de frustração, trago o meu braço livre para trás e bato-lhe o cotovelo em sua boca. Dor se espalha através do meu braço por bater em alguém nos dentes, mas valeu a pena. Ele grita, deslizando de volta para a rua, com o rosto agarrado entre as duas mãos. — Sabe por que ganhou lutas como um iniciado? — pergunto enquanto fico de pé. — Porque você é cruel. Porque gosta de machucar as pessoas. E acha que é especial, acha que todos ao seu redor são um bando de maricas que não podem fazer as escolhas difíceis como você. Ele começa a se levantar, e eu o chuto nas costelas de modo que ele cai novamente. Então aperto meu pé em seu peito, logo abaixo da garganta, e nossos olhares se encontram, seus olhos arregalados e inocentes, nada como o que está dentro dele. — Você não é especial — eu digo. — Eu gosto de ferir as pessoas também. Posso fazer a escolha mais cruel. A diferença é que às vezes eu não a faço, e você sempre, e isso faz com que você mal. Passo por cima dele e começo a descer a Avenida Michigan novamente. Mas antes que eu dê mais do que alguns passos, ouço sua voz.


— É por isso que eu quero — ele fala, com a voz trêmula. Eu paro. Não viro. Não quero ver seu rosto agora. — Eu quero o soro porque estou cansado de ser assim. Estou cansado de fazer as coisas ruins e gostar, e me perguntar o que há de errado comigo. Quero que isso acabe. Quero começar de novo. — E você não acha que é a saída de um covarde? — pergunto sobre meu ombro. — Acho que eu não me importo se é ou não. Sinto a raiva que estava inchando dentro de mim desinflar enquanto viro o frasco em meus dedos, dentro do meu bolso. Ouço-o levantar-se e espanar a neve de suas roupas. — Não tente se meter comigo de novo — falo — e prometo que vou deixar você se reinicializar quando tudo isso estiver feito. Não tenho nenhuma razão para não fazê-lo. Ele assente, e continuamos pela neve sem marcas para o prédio onde vi minha mãe pela última vez.


Capítulo 47 Tris Há um tipo de calma nervosa no corredor, mas há pessoas em todos os lugares. Uma mulher me acerta com o ombro e, em seguida, murmura um pedido de desculpas. Me aproximo de Caleb para que eu não o perca de vista. Às vezes, tudo o que quero é ser alguns centímetros mais alta para que o mundo não pareça com uma densa coleção de torsos. Nós nos movemos rapidamente, mas não tão rapidamente. Quanto mais seguranças vejo, mais sinto a pressão se formando dentro de mim. A mochila de Caleb, com a roupa impermeável e explosivos, bate contra as suas costas enquanto caminhamos. As pessoas estão se movendo em direções diferentes, mas em breve, vamos chegar a um corredor que ninguém tem qualquer motivo para estar. — Acho que algo deve ter acontecido a Cara — Matthew fala. — As luzes deveriam ter se apagado por agora. Concordo com a cabeça. Sinto a arma raspando em minhas costas, disfarçada por minha camisa folgada. Eu esperava não ter que usá-la, mas parece que precisarei, e mesmo assim pode não ser o suficiente para nos levar ao Laboratório de Armas. Toco o braço de Caleb e de Matthew, parando nós três no


meio do corredor. — Tenho uma ideia. Vamos nos separar. Caleb e eu corremos para o laboratório, e Matthew causa algum tipo de distração. — Distração? — Você tem uma arma, não é? — pergunto. — Atire para o alto. Ele hesita. — Faça isso — digo entre os dentes. Matthew puxa a arma para fora. Pego o cotovelo de Caleb e o guio para o corredor. Por cima do meu ombro assisto Matthew levantar a arma sobre a cabeça e atirar para cima, em um dos painéis de vidro acima dele. Depois do estrondo agudo, eu explodo em uma corrida, arrastando Caleb comigo. Gritos e estilhaços de vidro enchem o ar, e guardas de segurança passam por nós, sem perceber que estamos fugindo dos dormitórios, correndo em direção a um lugar que não deveríamos ir. É estranho sentir meus instintos e o treinamento da Audácia surgirem dentro de mim. Minha respiração torna-se mais profunda enquanto seguimos o caminho determinado nesta manhã. Minha mente parece mais nítida, mais clara. Olho para Caleb, esperando ver a mesma coisa acontecendo com ele, mas todo o sangue parece ter drenado de seu rosto, e ele está ofegante. Mantenho a mão firme em seu cotovelo para firmá-lo. Nós viramos uma esquina, sapatos derrapando no azulejo, e um corredor vazio com um teto espelhado se estende à nossa frente. Sinto uma onda de triunfo. Conheço este lugar. Não estamos longe agora. Vamos conseguir.


— Parem! — Uma voz grita atrás de mim. Os guardas da segurança. Eles nos encontraram. — Parem ou vamos atirar! Caleb estremece e ergue as mãos. Levanto as minhas também, e olho para ele. Sinto tudo abrandar dentro de mim, meus pensamentos de corrida e as batidas do meu coração. Quando olho para ele, não vejo o jovem covarde que me vendeu a Jeanine Matthews, e não ouço as desculpas que ele deu depois. Quando olho para ele, vejo o menino que segurou a minha mão no hospital quando nossa mãe quebrou o pulso e me disse que ficaria tudo bem. Vejo o irmão que me disse para fazer minhas próprias escolhas na noite anterior à Cerimônia de Escolha. Acho que de todas as coisas notáveis, ele é inteligente, entusiasta e observador, quieto, sério e gentil. Ele é uma parte de mim, sempre será, e eu sou uma parte dele também. Eu não pertenço à Abnegação, à Audácia, ou mesmo os Divergentes. Eu não pertenço ao Centro, ao experimento ou à fronteira. Pertenço às pessoas que amo e elas me pertencem – elas, o amor e a lealdade que lhes dou formam minha identidade muito mais do que qualquer palavra ou grupo jamais poderia. Eu amo meu irmão. Eu o amo, e ele está tremendo de terror com a ideia da morte. Eu o amo e tudo o que posso pensar, tudo que posso ouvir em minha mente, são as palavras que eu disse a ele alguns dias atrás: eu nunca te entregaria para a sua própria execução. — Caleb — chamo. — Dê-me a mochila. — O quê? Deslizo a mão sob a parte de trás da minha camisa e pego a


minha arma. Aponto para ele. — Dê-me a mochila. — Tris, não — ele balança a cabeça. — Não, eu não vou deixar você fazer isso. — Abaixe sua arma! — o guarda grita no final do corredor. — Abaixe sua arma ou vamos atirar! — Eu poderia sobreviver ao soro da morte — falo a Caleb. — Sou boa em lutar contra soros. Há uma chance de eu sobreviver. Não há nenhuma para você. Dê-me a mochila ou vou atirar em sua perna e tirá-la de você. Então ergo a minha voz para que os guardas possam me ouvir. — Ele é meu refém! Cheguem mais perto e eu vou matá-lo! Naquele momento ele me lembra de nosso pai. Seus olhos estão cansados e tristes. Há uma sombra de uma barba em seu queixo. Suas mãos tremem enquanto puxa a mochila para a frente de seu corpo e me oferece. Eu a pego e a balanço por cima do meu ombro. Mantenho a arma apontada para ele e me movo, de modo que ele está bloqueando a minha visão dos soldados no fim do corredor. — Caleb, eu te amo. Seus olhos brilham com lágrimas enquanto ele responde: — Eu amo você, também, Beatrice. — Deitem-se no chão! — Eu grito, para benefício dos guardas. Caleb afunda de joelhos. — Se eu não sobreviver — falo — diga a Tobias que eu não queria deixá-lo. Retrocedo, apontando por cima do ombro de Caleb para um dos seguranças. Inspiro e firmo minha mão. Expiro e atiro. Ouço um grito aflito e corro para o outro lado com o som


de tiros em meus ouvidos. Corro por um caminho irregular, por isso é mais difícil de me acertar, e em seguida, mergulho numa esquina. A bala atinge a parede logo atrás de mim, fazendo um buraco nela. Enquanto corro, balanço a mochila ao redor do meu corpo e abro o zíper. Tiro os explosivos e o detonador. Há gritos e passos atrás de mim. Eu não tenho tempo. Não tenho nenhum tempo. Corro mais rápido, mais rápido do que pensei que pudesse. O impacto de cada passo estremece através de mim e eu viro a próxima esquina, onde há dois guardas parados na porta que Nita e os invasores quebraram. Segurando os explosivos e o detonador em meu peito com a mão livre, disparo contra um guarda na perna e o outro no peito. O que acerto na perna pega a arma e eu disparo novamente, fechando os olhos depois de apontar. Ele não se move novamente. Corro passando pelas portas quebradas e no corredor entre eles. Coloco os explosivos contra a barra de metal, onde as duas portas se unem, e prendo as garras em torno da barra para que ele fique preso. Então corro de volta para o final do corredor, contorno a esquina e me agacho, de costas para as portas, enquanto pressiono o botão de detonação e protejo os ouvidos com as palmas das mãos. O ruído vibra em meus ossos enquanto a pequena bomba detona, e a força da explosão me joga de lado, minha arma deslizando pelo chão. Pedaços de vidro e metal pulverizam o ar, caindo no chão onde estou deitada, atordoada. Mesmo que tenha tapado meus ouvidos com as mãos, ainda ouço a explosão quando as baixo para longe, e me sinto insegura em meus pés.


No final do corredor, os guardas já me alcançaram. Eles atirar, e uma bala me acerta na parte carnuda do braço. Eu grito, batendo a mão sobre a ferida, e minha visão fica irregular nas bordas quando me jogo ao virar na esquina de novo, meio caminhando e meio tropeçando para as portas abertas. Além delas há um pequeno vestíbulo com um conjunto de portas seladas na outra extremidade. Através dos vidros daquelas portas vejo o Laboratório de Armas, os contornos de dispositivos, máquinas escuras e frascos de soro, iluminados por baixo como se estivessem em exibição. Ouço um som de borrifo e sei que o soro da morte está flutuando no ar, mas os guardas estão atrás de mim, e não tenho tempo para colocar o traje que vai atrasar os seus efeitos. Eu também sei, apenas sei, que posso sobreviver a isso. Eu passo para o vestíbulo.


Capítulo 48 Tobias O quartel general dos sem facção – mas esse edifício será sempre a sede da Erudição para mim, não importa o que aconteça – permanece silencioso na neve, com nada além de janelas brilhantes sinalizando que há pessoas dentro. Paro na frente das portas e faço um som descontente com a garganta. — O que foi? — Peter pergunta. — Odeio isso aqui. Ele afasta o cabelo, encharcado pela neve, dos olhos. — Então, o que a gente vai fazer, quebrar a janela? Procurar pela porta dos fundos? — Eu só vou entrar — respondo. — Sou o filho dela. — Você também a traiu e deixou a cidade quando ela proibiu qualquer um de fazer isso — ele aponta — e ela mandou pessoas atrás de você para te impedir. Pessoas com armas. — Você pode ficar aqui se quiser. — Onde o soro for, eu vou. Mas se você levar um tiro, eu vou pegar o frasco e correr. — Não espero nada mais que isso. Ele é um tipo estranho de pessoa. Entro no lobby, onde alguém recolocou o retrato de Jeanine Matthews na parede, mas desenhou um X em tinta vermelha em cada um dos seus olhos e escreveu “Escória


das facções” na parte inferior. Várias pessoas vestindo braçadeiras de sem facção avançam sobre nós com armas erguidas. Algumas delas eu reconheço dos acampamentos sem facção, do tempo que passei ao lado de Evelyn como um líder da Audácia. Outras são completamente estranhas, me lembrando de que a população sem facção é maior do que suspeitávamos. Ponho as mãos para o alto. — Estou aqui para ver Evelyn. — É claro — um deles diz. — Até porque nós deixamos qualquer um que quer vê-la entrar. — Eu tenho uma mensagem das pessoas de fora — falo. — Uma mensagem que tenho certeza de que ela quer ouvir. — Tobias? — uma mulher sem facção pergunta. Eu a reconheço, mas não de um setor sem facção – da Abnegação. Ela era minha vizinha. Grace é o nome dela. — Olá Grace. Só quero falar com a minha mãe. Ela morde a parte interna da bochecha e me avalia. O aperto em sua pistola vacila. — Bom, nós ainda não podemos deixar ninguém entrar. — Pelo amor de Deus — Peter diz. — Então vá falar para ela que nós estamos aqui e veja o que ela diz. Podemos esperar. Grace entra na multidão que se acumulou enquanto nós estávamos conversando, e então abaixa a arma e corre até uma passagem próxima. Esperamos pelo o que parece um longo tempo, até que meus ombros ficam com câimbras por suportar meus braços no alto. Em seguida Grace retorna e acena para nós. Baixo meus braços e entro na sala de estar, passando pelo centro da multidão como uma linha no buraco de uma agulha. Ela


nos leva até um elevador. — O que você está fazendo segurando uma arma, Grace? — pergunto. — Eu nunca soube de alguém da Abnegação que segurou uma arma. — Sem mais fantasias de facções — ela diz. — Agora eu me defendo. Eu tenho um senso de autopreservação. — Bom — eu digo e realmente quis dizer isso. A Abnegação era tão degradada quanto as outras facções, mas o mal dela era menos óbvio, camuflada enquanto eles estavam sob o disfarce de Abnegação. Mas pedir a uma pessoa que desapareça, desvaneça no fundo aonde quer que ela vá, não é melhor do que encorajá-la a socar uns aos outros. Nós vamos para o andar onde fica o escritório administrativo de Jeanine – mas não é para lá que Grace nos leva. Ao invés disso, ela nos leva até uma sala de reuniões com mesas, sofás e cadeiras arranjadas em quadrados perfeitos. Grandes janelas ao longo da parede dos fundos deixam a luz do luar entrar. Evelyn está sentada em uma mesa à direita, olhando para a janela. — Você pode ir, Grace — Evelyn diz. — Tem uma mensagem para mim, Tobias? Ela não olha para mim. Seu cabelo grosso está amarrado para trás em um coque, e ela está vestindo uma camisa cinza com uma braçadeira dos sem facção sobre ela. Ela parece exausta. — Se importa de esperar no corredor? — pergunto a Peter, e para a minha surpresa, ele não discute. Apenas vai para fora, fechando a porta atrás dele. Minha mãe e eu estamos sozinhos. — As pessoas lá de fora tem mensagens para nós — eu


digo, chegando mais perto dela. — Eles queriam apagar a memória de todos desta cidade. Acreditam que não podem raciocinar conosco sem apelar para o melhor de nossa natureza. Eles decidiram que seria mais fácil nos apagar do que falar com a gente. — Talvez eles estejam certos — Evelyn diz. Finalmente ela se volta para mim, descansando a bochecha nas mãos fechadas. Ela tinha um circulo tatuado em um de seus dedos como uma aliança. — Para que vocês vieram aqui, então? Eu hesito, a mão no frasco em meu bolso. Eu olho para ela, e posso ver a forma como o tempo agiu sobre ela como um pedaço de pano velho, as fibras expostas e esfiapadas. E posso ver a mulher que eu conhecia quando criança também, a boca que se torcia em um sorriso, os olhos que brilhavam de alegria. Mas quanto mais olho para ela, mais estou convencido de aquela mulher feliz nunca existiu. Aquela mulher é só uma versão pálida da minha verdadeira mãe, vista através dos olhos de uma criança. Eu sento de frente para ela na mesa e coloco o frasco do soro da memória entre nós. — Eu vim para fazer você beber isto — digo. Ela olha para o frasco, e penso ver lágrimas em seus olhos, mas poderia ter sido apenas o reflexo da luz. — Pensei que essa fosse a única forma de prevenir uma destruição total. Sei que Marcus, Johanna e seu grupo vão atacar, e sei que você vai fazer o possível para impedi-los, inclusive usar aquele soro da morte que você possui como melhor vantagem — inclino minha cabeça. — Estou errado? — Não — ela responde. — As facções são más. Elas não


podem ser restauradas. Antes eu preferiria que todos nós fôssemos destruídos. Sua mão aperta os cantos da mesa, as juntas brancas. — A razão pela qual as facções eram más era porque não havia nenhuma maneira de sair delas — eu digo. — Eles nos deram uma ilusão de escolha sem nos dar realmente uma escolha. É a mesma coisa que você está fazendo aqui, abolindo-as. Você está dizendo “Façam escolhas. Mas garantam que não escolham as facções ou vou moê-los em pedacinhos!” — Se você pensa assim, por que não me falou? — ela pergunta, sua voz mais alta e os olhos evitando os meus, evitando a mim. — Por que, ao invés de me trair? — Porque eu tenho medo de você! — As palavras irrompem de mim e eu me arrependo, mas também estou satisfeito por tê-las dito, satisfeito porque antes de eu pedir a ela para desistir de sua identidade, posso pelo menos ser honesto com ela. — Você... Você me lembra dele! — Não ouse — ela fecha suas mãos em punhos e praticamente cospe as palavras. — Não ouse! — Eu não me importo se não quer ouvir isto — falo, ficando em pé. — Ele era um tirano em nossa casa e agora você é uma tirana nesta cidade, e não pode nem ver que é a mesma coisa! — Então é por isso que você trouxe isto — ela diz, e pega o frasco e olha para ele. — Porque pensa que esta é a única maneira de consertar as coisas. — Eu... Estou prestes a dizer que esta é a maneira mais fácil, a melhor maneira, talvez a única maneira de eu confiar nela. Se eu apagar suas memórias, posso criar para mim uma


nova mãe, mas... Mas ela é mais do que minha mãe. Ela é uma pessoa com seus próprios direitos, e ela não pertence a mim. Não posso escolher o que ela pode se tornar só porque não posso lidar com quem ela é. — Não — eu falo. — Não, eu vim para de dar uma escolha. De repente eu me sinto assustado, minhas mãos dormentes, meu coração disparado... — Pensei em ver Marcus esta noite, mas não fui — eu respiro fundo. — Vim te ver ao invés disso porque... Porque acho que há esperança de reconciliação entre nós. Não agora, não logo, mas um dia. E com ele não há esperança, não há possibilidade de reconciliação. Ela me encara, seus olhos ferozes, mas com lágrimas brotando. — Não é justo para mim te dar esta escolha — continuo. — Mas tenho que fazer isso. Você pode liderar os sem facção, pode lutar contra os Convergentes, mas vai ter que fazer isso sem mim, para sempre. Ou você pode deixar essa guerra, e... E terá seu filho de volta. É uma oferta débil, eu sei disso, por isso estou com medo – com medo de que ela vá se recusar a escolher, que vai escolher o poder ao invés de mim, que vai me chamar de criança ridícula, o que eu sou. Eu sou uma criança. Tenho um metro e oitenta e estou lhe perguntando o quanto ela me ama. Os olhos de Evelyn, escuros como terra molhada, enfrentam os meus por um longo tempo. E então ela sai do outro lado da mesa e me aperta ferozmente em seus braços, que formam uma gaiola em volta de mim, surpreendemente fortes.


— Que tenham a cidade e tudo o que está nela — ela diz nos meus cabelos. Eu não consigo me mover, não consigo falar. Ela me escolheu. Ela me escolheu.


Capítulo 49 Tris O soro da morte cheira a fumaça e pimenta, e meus pulmões o rejeitam no primeiro fôlego que tomo. Eu tusso e gemo, e sou engolida pela escuridão. Caio em meus joelhos. Sinto meu corpo como se alguém tivesse trocado meu sangue por melado, e meus ossos por chumbo. Uma ameaça invisível me puxa para o sono, mas quero ficar acordada. É importante que eu queira ficar acordada. Eu imagino esse querer, esse desejo, queimando no meu peito como uma chama. O fio puxa com mais força, e alimento as chamas com nomes. Tobias. Caleb. Christina. Matthew. Cara. Zeke. Uriah. Mas não posso suportar o peso do soro. Meu corpo cai para o lado, e meu braço ferido está pressionado no chão gelado. Eu estou flutuando... Seria bom flutuar para longe, uma voz diz em minha cabeça. Ver para onde eu vou... Mas o fogo, o fogo. O desejo de viver. Eu não estou pronta ainda. Não estou. Sinto como se eu estivesse cavando através da minha própria mente. É difícil me lembrar como eu vim parar aqui e por quê. É difícil saber porque me preocupo em me livrar deste peso. Mas então minhas mãos arranhando encontram a memória do rosto da minha mãe, e os ângulos estranhos


de seus membros na calçada, o sangue escorrendo do corpo do meu pai. Mas eles estão mortos, a voz diz. Você pode se juntar a eles. Eles morreram por mim, eu respondo. E agora tenho algo a fazer, em retorno. Tenho que impedir outras pessoas de perder tudo. Tenho que salvar a cidade e as pessoas que minha mãe e meu pai amavam. Se eu for me juntar aos meus pais, quero carregar comigo uma boa razão, não esse colapso sem sentido. O fogo. O fogo. Ele se inflama, uma fogueira e em seguida um inferno, e meu corpo é seu combustível. Sinto isso correndo através de mim, devorando o peso. Não há nada que possa me matar agora; eu sou poderosa, invencível e eterna. Sinto o soro se espalhando pela minha pele como óleo, mas a escuridão retrocede. Apoio uma mão pesada no chão e me empurro para cima. Apoiada na cintura, empurro meus ombros contra as portas duplas, e elas rangem no chão enquanto suas fechaduras se quebram. Respiro ar limpo e me levanto ereta. Eu estou lá, estou lá. Mas não estou sozinha. — Não se mexa — David ordena, erguendo sua arma. — Olá, Tris.


Capítulo 50 Tris — Como você se vacinou contra o soro da morte? — ele me pergunta. Ele continua sentado em sua cadeira de rodas. Mas você não precisa ser capaz de andar para disparar uma arma. Eu pisco pra ele, continuo tonta. — Eu não me vacinei. — Não seja estúpida. Você não pode sobreviver ao soro da morte sem uma vacina, e eu sou a única pessoa no complexo que possui essa substância. Eu apenas o encaro, sem certeza do que falar. Eu não me vacinei. O fato de que continuo parada em pé é impossível. Não há nada mais para falar. — Suponho que isso não importa mais — ele diz. — Nós estamos aqui agora. — O que você está fazendo aqui? — balbucio. Sinto meus lábios estranhamente grandes, difícil de falar. Ainda sinto aquele peso oleoso na minha pele, como se a morte estivesse se prendendo a mim, mesmo depois de eu tê-la derrotado. Estou consciente de que deixei minha arma no corredor atrás de mim, certa de que não precisaria dela se chegasse até tão longe. — Eu sabia que alguma coisa estava acontecendo — David diz. — Você tem andado por aí com pessoas geneticamente danificadas a semana inteira, Tris, pensou que eu não notaria? — Ele balança sua cabeça. — E depois, sua amiga Cara foi pega tentando manipular as luzes, mas ela sabiamente fugiu antes de poder falar


qualquer coisa para nós. Então eu vim para cá, só pra checar. Estou triste em dizer que não estou surpreso em ver você. — Você veio aqui sozinho? — pergunto. — Você não é muito esperto, é? Seus olhos brilhantes se espremem um pouco. — Bom, você vê, eu tenho resistência ao soro da morte e uma arma, e você não tem como lutar contra mim. Não há como você roubar quatro dispositivos de vírus enquanto tenho você na mira da arma. Temo que tenha vindo até aqui por razão nenhuma, e isso vai custar sua vida. O soro da morte pode não ter te matado, mas eu vou. Tenho certeza de que você entendeu – oficialmente nós não permitimos morte como punição, mas não posso deixar que você sobreviva a isto. Ele acha que estou aqui para roubar as armas que irão reinicializar os experimentos, não para ativar uma delas. É claro que ele acha isso. Tento esconder minha expressão, embora eu tenha certeza de que ela continua ali. Deslizo meus olhos pelo cômodo, buscando pelo dispositivo que vai lançar o vírus do soro da memória. Eu estava lá quando Matthew o descreveu para Caleb detalhadamente mais cedo: uma caixa preta com um teclado prateado, marcado com uma listra azul com um número modelo escrito nele. É um dos únicos itens no balcão ao longo da parede esquerda, somente alguns centímetros longe de mim. Mas não posso me mover, ou então ele vai me matar. Vou ter que esperar pelo momento certo, e fazer isso rápido. — Eu sei o que você fez — digo. Começo a me afastar, esperando que aquela acusação o distraia. — Sei que você projetou a simulação de ataque. Sei que você é responsável pela morte dos meus pais – pela morte da minha mãe. Eu sei. — Eu não sou responsável pela morte dela! — David responde, as palavras irrompendo dele, altas e súbitas. — Eu avisei a ela o que estava vindo logo antes de o ataque começar, então ela tinha tempo suficiente para escoltar os seus amados para uma casa segura. Se ela tivesse permanecido segura, teria vivido. Mas ela


era uma mulher tola que não entendia sobre fazer sacrifícios para o bem maior, e isso a matou! Eu franzo minha testa para ele. Há algo em sua reação – sobre a translucidez de seus olhos – alguma coisa que ele murmurou quando Nita injetou-o com o soro do medo – alguma coisa sobre ela. — Você a amou? — pergunto. — Todos os anos ela te mandava correspondência... o motivo pela qual você queria que ela permanecesse lá... o motivo pela qual você disse a ela que você não podia mais ler as suas notícias, depois de ela casar com o meu pai... David permanecesse parado como uma estátua, como um homem de pedra. — Eu a amei — ele diz. — Mas esse tempo passou. Esse é o motivo pela qual ele me acolheu em seu circulo de confiança, o motivo pela qual me deu tantas oportunidades. Porque eu sou uma parte dela, vestindo seu cabelo e falando com a sua voz. Porque ele passou sua vida buscando por ela e nunca teve nada. Eu escuto passos no corredor lá fora. Os soldados estão vindo. Bom – porque preciso que eles se exponham ao soro no ar, para espalhá-lo pelo resto do complexo. Com sorte vão esperar até que o ar esteja limpo do soro da morte. — Minha mãe não era tola. Ela apenas entendia algo que você não. Não é sacrifício se é a vida de outro que você está jogando fora, é apenas maldade. Eu me afasto outro passo e digo: — Ela me ensinou sobre sacrifícios reais. Que deve ser feito por amor, não confundido com desgosto pela genética de outra pessoa. Que deve ser feito por necessidade, não sem esgotar todas as outras opções. Deve ser feito para pessoas que precisam de força porque elas não têm o suficiente para si mesmas. Por esse motivo eu tive que te impedir de “sacrificar” todas aquelas pessoas e suas memórias. Por esse motivo preciso livrar o mundo de você de uma vez por todas.


Eu balanço a minha cabeça. — Eu não vim aqui para roubar nada, David. Invisto na direção do dispositivo. A arma dispara e dor corre pelo meu corpo. Eu não sei nem onde a bala me acertou. Ainda posso ouvir Caleb repetindo o código para Matthew. Com uma mão trêmula, digito os números no teclado. A arma dispara novamente. Mais dor, e pontos pretos na minha visão, mas escuto a voz de Caleb falando de novo. O botão verde. Muita dor. Mas como, se sinto meu corpo dormente? Eu começo a cair, e deslizo a mão no teclado enquanto caio. Uma luz acende atrás do botão verde. Eu escuto um bip, e um som agitado. Deslizo para o chão. Sinto alguma coisa quente em meu pescoço, e embaixo do meu queixo. Vermelho. Sangue é uma cor estranha. Escuro. Pelo canto do meu olho, vejo David se afundando na cadeira de rodas. E minha mãe saindo de trás dele. Ela está vestida com as mesmas roupas que vestia da última vez que a vi, cinza da Abnegação manchado com seu sangue, os braços nus mostrando a tatuagem. Ainda há buracos de tiros em sua camisa; através deles eu posso ver sua pele machucada, vermelha mas não mais sangrando, como se ela estivesse congelada no tempo. Seu cabelo loiro opaco está amarrado para trás em um coque, mas alguns fios soltos moldam seu rosto em ouro. Sei que ela não pode estar viva, mas não sei se estou vendo-a agora porque estou delirando por conta da perda de sangue, ou se o soro da morte bagunçou meus pensamentos ou se ela está aqui de alguma outra forma. Ela se ajoelha perto de mim e toca uma mão fria em minha bochecha. — Olá, Beatrice — ela diz, e sorri. — Eu já estou pronta? — pergunto, e não tenho certeza se eu


realmente falei isso ou se eu só pensei e ela ouviu. — Sim — ela responde, seus olhos brilhantes de lágrimas. — Minha querida filha, você se saiu tão bem. — E os outros? Eu engasgo com um soluço enquanto uma imagem de Tobias vem a minha mente, quão escuros e firmes seus olhos eram, quão forte e quente sua mão era, quando nós ficamos pela primeira vez face a face. — Tobias, Caleb, meus amigos? — Eles vão cuidar uns dos outros — ela diz. — Isso é o que as pessoas fazem. Eu sorrio e fecho meus olhos. Sinto o fio me puxando de novo, mas desta vez sei que não é uma força sinistra me arrastando para a morte. Desta vez sei que é a mão do meu irmão, me trazendo para seus braços. E eu vou tão feliz para o seu abraço. +++ Posso ser perdoada por tudo o que fiz para chegar aqui? Eu quero ser. Eu posso. Eu acredito nisso.


Capítulo 51 Tobias Evelyn enxuga as lágrimas dos olhos com o polegar. Estamos de pé perto das janelas, ombro a ombro, observando a neve redemoinhar. Alguns dos flocos juntam-se no peitoril da janela do lado de fora, acumulando no cantos. A sensação voltou para as minhas mãos. Enquanto olho para o mundo, polvilhado de branco, sinto como se tudo começasse de novo, e que será melhor desta vez. — Acho que posso entrar em contato com Marcus no rádio para negociar um acordo de paz — diz Evelyn. — Ele vai ouvir, seria estúpido não fazer isso. — Antes de fazer isso, tem uma promessa que tenho que cumprir — eu digo. Toco o ombro de Evelyn. Eu esperava ver tensão nas bordas do seu sorriso, mas não vejo. Sinto uma pontada de culpa. Eu não vim aqui para pedir-lhe para estender os braços para mim em troca de tudo pelo o que ela trabalhou só para me ter de volta. Mas, novamente, eu não vim aqui para lhe dar qualquer escolha. Acho Tris estava certa, quando você tem que escolher entre duas opções ruins, você escolhe a que salva as pessoas que você ama. Eu não teria salvado Evelyn dando-lhe o soro. Eu a teria destruído. Peter está sentado de costas para a parede no corredor. Ele olha para mim quando inclino-me sobre ele, seu cabelo escuro grudado à testa pela neve derretida. — Reinicializou sua mãe? — Não — respondo.


— Não acho que você teria coragem. — Não se trata de coragem. Sabe o quê? Tanto faz — balanço minha cabeça e ergo o frasco do soro da memória. — Você ainda tem certeza sobre isso? Ele confirma com a cabeça. — Você poderia simplesmente trabalhar nisso, sabe — lembro. — Você pode tomar decisões melhores, fazer uma vida melhor. — Sim, eu poderia. Mas eu não vou. Nós dois sabemos disso. Eu sei disso. Sei que a mudança é difícil, vem lentamente, e que é o trabalho de muitos dias seguidos em uma longa fila da qual a origem está esquecida. Ele tem medo de que não será capaz de se colocar ao trabalho, que ele vai desperdiçar esses dias, e que eles vão deixá-lo pior do que está agora. E eu entendo esse sentimento – entendo ter medo de si mesmo. Então, sento-o em um dos sofás e pergunto o que ele quer que eu diga a ele sobre si mesmo depois que suas memórias desaparecerem como fumaça. Ele apenas balança a cabeça. Nada. Ele não quer lembrar-se de nada. Peter pega o frasco com uma mão trêmula e torce a tampa. O líquido treme em seu interior, está quase derramando sobre seu lábio. Ele o aproxima do nariz para sentir o cheiro. — Quanto devo beber? — pergunta, e eu acho que ouvi seus dentes tremerem. — Não acho que isso faça diferença. — Tudo bem. Então... aqui vai — ele levanta o frasco contra a luz, como se estivesse me convidando a brindar. Quando o frasco toca a sua boca, eu digo: — Seja corajoso. Então ele engole. E eu vejo Peter desaparecer. +++ O ar exterior tem gosto de gelo. — Ei! Peter! — Eu grito, minha respiração se condensando no ar.


Peter está próximo da porta da sede da Erudição, parecendo confuso. Ao som de seu nome – que eu lhe disse pelo menos dez vezes desde que ele bebeu o soro – ele levanta as sobrancelhas, apontando para seu peito. Matthew nos disse que as pessoas ficariam desorientadas por um tempo depois de beber o soro da memória, mas não pensava que “desorientado” significava “estúpido” até agora. Eu suspiro. — Sim, é você! Pela décima primeira vez! Vamos, vamos lá. Pensei que quando olhasse para ele depois de ter bebido o soro, eu ainda veria o iniciado que enfiou uma faca de manteiga no olho de Edward, o rapaz que tentou matar a minha namorada e todas as outras coisas que ele fez, puxando do fundo da minha mente desde que o conheço. Mas é mais fácil do que eu pensei ver que ele não tem mais ideia de quem é. Seu olhar ainda é arregalado e inocente, mas dessa vez eu acredito. Evelyn e eu andamos lado a lado, com Peter trotando atrás de nós. A neve parou de cair, mas uma quantidade suficiente se acumulou no chão, que chia debaixo dos meus pés. Nós andamos para o Parque Millennium, onde a grande escultura de metal reflete a luz da lua, e depois descemos um lance de escadas. À medida que descemos, Evelyn envolve a mão em volta do meu cotovelo para manter o equilíbrio, e trocamos um olhar. Eu me pergunto se ela está nervosa em ver meu pai novamente. Me pergunto se ela está cada vez mais nervosa. Na parte inferior dos degraus está um pavilhão com dois blocos de vidro em cada ponta, cada um com pelo menos três vezes a minha altura. Este é o lugar onde dissemos que iríamos encontrar Marcus e Johanna – ambas as partes armadas para ser realista, mas ainda assim. Eles já estão lá. Johanna não está segurando uma arma, mas Marcus sim, e ele a tem apontada para Evelyn. Aponto a arma que Evelyn me deu para ele, só em caso de segurança. Noto a superfície lisa de seu crânio, à mostra por seu cabelo raspado, e o caminho irregular que seu nariz torto esculpe no rosto.


— Tobias! — Johanna diz. Ela está vestindo um casaco vermelho da Amizade salpicado de flocos de neve. — O que você está fazendo aqui? — Tentando impedi-los de matar uns aos outros — eu digo. — Estou surpreso que você esteja carregando uma arma. Aceno para uma protuberância no bolso de seu casaco, o contorno inconfundível de uma arma. — Às vezes você tem que tomar medidas difíceis para assegurar a paz — Johanna responde. — Acredito que você concorda com isto, como um princípio. — Não estamos aqui para bater papo — Marcus interrompe, olhando para Evelyn. — Você disse que queria fazer um acordo. Nas últimas semanas tem acontecido alguma coisa com ele. Posso ver isso nos cantos curvados de sua boca, na pele roxa debaixo dos olhos. Percebo os meus olhos fixados em sua cabeça e penso em meu reflexo na paisagem do medo, quando eu estava apavorado, sentindo o medo propagando-se pela minha pele como se fosse uma erupção cutânea. Ainda temo que eu me torne igual a ele, mesmo agora, de pé em desacordo com ele com minha mãe a meu lado, como sempre sonhei que seria quando era criança. Mas não acho que eu ainda esteja com medo. — Sim — Evelyn responde. — Tenho alguns termos para nós dois concordarmos. Acho que você irá achá-los justos. Se concordar com eles, vou depor todas as armas que meu povo não está usando para proteção pessoal. Vou deixar a cidade e não retornar. Marcus ri. Não tenho certeza se é uma risada zombeteira ou incrédula. Ele é capaz de qualquer um desses sentimentos, um homem arrogante e profundamente desconfiado. — Deixe-a terminar — Johanna diz calmamente, colocando as mãos dentro das mangas. — E em troca — Evelyn continua — você não vai atacar ou tentar tomar o controle da cidade. Vai permitir que aqueles que optem por ficar possam votar em novos líderes e em um novo sistema social. E o mais importante, você, Marcus, não será elegível para dominá-los.


É o único termo puramente egoísta do acordo de paz. Ela me disse que não podia suportar a ideia de Marcus enganando as pessoas para segui-lo, e eu não queria discutir com ela. Johanna levanta as sobrancelhas. Percebo que ela tem o cabelo puxado para trás de ambos os lados, revelando a cicatriz em sua totalidade. Ela parece melhor assim – forte, quando não está se escondendo atrás de uma cortina de cabelo, escondendo quem ela é. — Sem acordo — Marcus responde. — Eu sou o líder dessas pessoas. — Marcus — Johanna alerta. Ele a ignora. — Você não pode decidir se eu vou liderá-los ou não porque você tem rancor de mim, Evelyn! — Desculpe-me — Johanna diz em voz alta. — Marcus, o que ela está oferecendo é bom demais para ser verdade, obtemos tudo o que queremos, sem violência! Como você pode dizer não? — Eu sou o líder legítimo destas pessoas! Sou o líder dos Convergentes! Eu... — Não você não é — Johanna fala calmamente. — Eu sou a líder dos Convergentes. E você vai aceitar esse acordo, ou eu vou dizerlhes que você teve a chance de acabar com esse conflito sem derramamento de sangue se sacrificasse seu orgulho, e você disse não o fez. A máscara passiva de Marcus desaparece, revelando o rosto malicioso que se escondia sob ela. Mas mesmo assim ele não foi capaz de argumentar com Johanna, cuja perfeita calma e ameaça dominou-o. Ele balança a cabeça, mas não discute novamente. — Eu concordo com os termos — diz Johanna, e ela estende a mão, seus passos rangendo na neve. Evelyn remove sua luva dedo por dedo, e treme. — Pela manhã, nós devemos reunir todos e contar-lhes o novo plano — Johanna fala. — Você pode garantir um acordo seguro? — Vou fazer o meu melhor — responde Evelyn. Checo meu relógio. Uma hora se passou desde que Amar e


Christina se separaram de nós, perto do edifício Hancock, o que significa que ele sabe que o vírus não funcionou. Ou talvez ele não saiba. De qualquer forma, tenho que fazer o que vim fazer aqui, tenho que encontrar Zeke e sua mãe e dizer a eles o que aconteceu com Uriah. — Eu devo ir — digo para Evelyn. — Tenho outra coisa para fazer. Mas vou encontrá-la nos limites da cidade amanhã à tarde, tudo bem? — Está bem — Evelyn concorda, e esfrega meu braço rapidamente com uma mão enluvada, como costumava fazer quando eu chegava do frio quando criança. — Você não vai voltar, suponho? — Johanna me pergunta. — Encontrou uma vida para si mesmo lá fora? — Encontrei — confirmo. — Boa sorte aqui. As pessoas de fora – elas vão tentar derrubar a cidade. Você deve estar preparada. Johanna sorri. — Tenho certeza de que podemos negociar com eles. Ela me oferece a mão, e eu a cumprimento. Sinto os olhos de Marcus em mim como um peso opressivo ameaçando esmagarme. Eu me forço a olhar para ele. — Adeus — digo a ele, e quero realmente dizer isso. +++ Hana, a mãe de Zeke, tem pés pequenos que não tocam o chão quando ela se senta na poltrona em sua sala de estar. Ela está usando um roupão de banho e ásperos chinelos pretos, mas o ar que ela tem, com as mãos dobradas no colo e as sobrancelhas levantadas, é tão digno que sinto que estou de pé na frente de um líder mundial. Olho para Zeke, que está esfregando o rosto com os punhos para acordar. Amar e Christina os encontraram, mas não entre outros revolucionários perto do edifício Hancock, mas no apartamento da família na Pira, acima da sede da Audácia. Eu só os encontrei porque Christina pensou em deixar para mim e Peter uma nota


com a nova localização no caminhão inutilizado. Peter está esperando na nova van que Evelyn encontrou para dirigirmos até o Centro. — Sinto muito — digo. — Eu não sei por onde começar. — Você pode começar com o pior — Hana sugere. — Como o que exatamente aconteceu com o meu filho. — Ele ficou gravemente ferido durante um ataque — respondo. — Houve uma explosão, e ele estava muito perto. — Oh Deus — diz Zeke, e ele balança a cabeça para trás e para frente como se seu corpo quisesse ser uma criança novamente, acalmado pelo movimento como uma criança. Mas Hana só inclina a cabeça, escondendo o rosto de mim. Sua sala de estar tem cheiro de alho e cebola, talvez os restos do jantar daquela noite. Inclino meu ombro na soleira da porta. Pendurado torto ao meu lado está um retrato da família – Zeke é uma criança, Uriah um bebê no colo da mãe. O rosto de seu pai possui piercings em vários lugares – nariz, orelhas e lábios, mas o seu sorriso largo e brilhante e a pele escura são mais familiares para mim, porque ele os passou para seus filhos. — Ele está em coma desde então — digo. — E... — E ele não vai acordar — completa Hana, com a voz tensa. — Isso é o que você veio nos dizer, não é? — Sim — respondo. — Eu vim para buscá-la para que você possa tomar uma decisão em seu nome. — Zeke — diz Hana, e ela balança a cabeça. Ele afunda de volta no sofá. As almofadas parecem envolvê-lo. — É claro que não queremos mantê-lo vivo dessa maneira. Ele gostaria de seguir em frente. Mas gostaríamos de vê-lo. Concordo com a cabeça. — Claro. Mas há algo mais que eu deveria dizer. O ataque... foi uma espécie de revolta que envolveu algumas pessoas do lugar onde estávamos. E eu participei dele. Fico olhando para as rachaduras nas tábuas que estão bem na minha frente, na poeira que se reuniu há muito tempo, e espero por uma reação, qualquer reação. O que me é dado é apenas o silêncio.


— Eu não fiz o que você me pediu — falo para Zeke. — Não cuidei dele do jeito que deveria. E sinto muito. Eu olho para ele, e Zeke permanece sentado, olhando para uma xícara vazia na mesa de café. Está pintado com rosas desbotadas. — Acho que precisamos de algum tempo com isso — diz Hana. Ela limpa a garganta, mas não consegue disfarçar a voz trêmula. — Eu gostaria de poder dá-lo a você. Mas voltaremos para o complexo muito em breve, e você tem que vir com a gente. — Tudo bem — Hana responde. — Se puder esperar do lado de fora, estaremos lá em cinco minutos. +++ A viagem de volta para o complexo é lenta e escura. Vejo a lua desaparecer e reaparecer atrás das nuvens enquanto balançamos na estrada. Quando alcançamos os limites exteriores da cidade, começa a nevar de novo, bastante, flocos de luz que giram na frente dos faróis. Me pergunto se Tris está assistindo a neve do outro lado da calçada se reunindo em pilhas perto dos aviões. Eu me pergunto se ela está vivendo em um mundo melhor do que aquele que eu saí, entre as pessoas que já não recordam o que é ter genes puros. Christina se inclina para sussurrar em meu ouvido. — Então, você o fez? Funcionou? Concordo com a cabeça. Pelo espelho retrovisor, vejo-a tocar o rosto com as duas mãos, sorrindo entre suas palmas. Eu sei como ela se sente: segura. Estamos todos a salvo. — Você inoculou sua família? — pergunto. — Sim. Nós as encontramos com os Convergentes, no edifício Hancock — diz ela. — Mas a hora para a reinicialização passou – parece que Tris e Caleb a pararam. Hana e Zeke murmuram um para o outro no caminho, maravilhados com o mundo estranho e escuro que estamos passando. Amar dá a explicação básica à medida que avançamos, olhando para eles ao invés de para a estrada vezes demais para o


meu desconforto. Tento ignorar meus surtos de pânico quando ele quase bate em postes ou barreiras na estrada, e concentro-me na neve. Sempre odiei o vazio que o inverno traz à paisagem em branco e a diferença gritante entre o céu e a terra, a forma como ele transforma as árvores em esqueletos e a cidade em um terreno baldio. Talvez neste inverno eu possa ser convencido do contrário. Passamos pelas cercas e paramos nas portas da frente, que já não estão vigiadas por guardas. Nós saímos, e Zeke pega a mão de sua mãe para firmá-la enquanto ela treme na neve. À medida que caminhamos para o composto, eu sei de fato que Caleb conseguiu, porque não há ninguém à vista. Isso só pode significar que eles foram reinicializados, suas memórias para sempre alteradas. — Onde estão todos? — Amar pergunta. Nós passamos pelo posto de segurança abandonado sem parar. Do outro lado, vejo Cara. A lateral do rosto está muito machucada, e há uma bandagem em sua cabeça, mas isso não é o que me preocupa. O que me preocupa é o olhar perturbado em seu rosto. — O que aconteceu? — pergunto. Cara balança a cabeça. — Onde está Tris? — Sinto muito, Tobias. — Sinto muito por quê? — Christina devolve. — Diga-nos o que aconteceu! — Tris foi para o Laboratório de Armas ao invés de Caleb — Cara conta. — Ela sobreviveu ao soro da morte, e detonou o soro da memória, mas ela... ela foi baleada. E ela não sobreviveu. Eu sinto muito. Na maioria das vezes eu posso dizer quando as pessoas estão mentindo, e esta deve ser uma mentira, porque Tris ainda está viva, os olhos brilhantes, as faces coradas e seu corpo pequeno cheio de poder e força, de pé em uma faixa de luz no lobby. Tris ainda está viva, ela não me deixaria aqui sozinho, ela não iria para o laboratório de armas no lugar de Caleb.


— Não — diz Christina, sacudindo a cabeça. — De jeito nenhum. Tem que haver algum engano. Os olhos de Cara se enchem de lágrimas. É então que percebo: é claro que Tris iria para o Laboratório de Armas em vez de Caleb. É claro que ela faria isso. Christina grita alguma coisa, mas para mim a voz dela soa abafada, como se eu tivesse minha cabeça submersa em água. Os detalhes do rosto de Cara também se tornaram difíceis de ver, o mundo se espalhando em cores sem graça. Tudo o que posso fazer é ficar parado, me sinto como se apenas ficando parado, posso impedir esse fato de ser verdade, posso fingir que está tudo bem. Christina se debruça, incapaz de suportar sua própria dor, e Cara a abraça, e tudo o que eu faço é ficar parado.


Capítulo 52 Tobias Quando o seu corpo bateu inicialmente na rede, tudo o que registrei foi um borrão cinza. Puxei-a através dele e sua mão era pequena, mas acolhedora, e então ela estava diante de mim, pequena, magra e lisa de todas as maneiras banais – exceto que ela tinha saltado primeiro. A Careta tinha saltado primeiro. Até eu não pulei primeiro. Seus olhos eram tão severos, tão insistentes. Lindos.


Capítulo 53 Tobias Mas essa não foi a primeira vez que eu a vi. Eu a vi nos corredores da escola, no falso funeral de minha mãe, e andando pelas calçadas do setor Abnegação. Eu a vi, mas não a vi, ninguém a viu do jeito que ela realmente era até que ela pulou. Suponho que um fogo que arde tão forte não é feito para durar.


Capítulo 54 Tobias Eu verei o corpo dela... Alguma hora. Não sei quanto tempo se passou desde que Cara me disse o que aconteceu. Christina e eu andamos ombro a ombro; andamos nos calcanhares de Cara. Não me lembro da viagem da entrada até o necrotério, na verdade, apenas algumas imagens borradas e qualquer som que eu possa ter feito que subiu através da barreira dentro da minha cabeça. Ela encontra-se em uma mesa, e por um momento penso que ela está apenas dormindo, e quando eu tocá-la, ela vai acordar, sorrir para mim e beijar a minha boca. Mas quando eu a toco, ela está fria, seu corpo rígido e inflexível. Christina funga e soluça. Eu aperto a mão de Tris, rezando para que se eu fizer isso com força suficiente, vou enviar a vida de volta para seu corpo e ela irá se encher de cor e acordar. Não sei quanto tempo leva para eu perceber que isso não vai acontecer, que ela se foi. Mas quando sinto toda a força sair de mim, caio de joelhos ao lado da mesa e acho que choro, ou pelo menos eu quero, e tudo dentro de mim grita por apenas mais um beijo, mais uma palavra, mais um olhar, só mais um.


Capítulo 55 Nos dias que se seguem, é movimento, não quietude, que ajuda a manter a dor sob controle, então ando pelas salas do complexo em vez de dormir. Vejo todo mundo se recuperar do soro da memória que os alterou permanentemente como se de uma grande distância. Aqueles perdidos no nevoeiro do soro da memória são reunidos em grupos e expostos à verdade: que a natureza humana é complexa, que todos os nossos genes são diferentes, mas nem deficientes nem puros. Eles também são expostos a uma mentira: a de que suas memórias foram apagadas por causa de um acidente, e que eles estavam à beira de pressionar o governo pela igualdade dos GDs. Eu continuo me sentindo sufocado pela companhia de outras pessoas e, em seguida, prejudicado pela solidão quando eu os deixo. Não sei do que estou com medo, porque já perdi tudo. Minhas mãos tremem quando paro na sala de controle para ver a cidade nas telas. Johanna está organizando o transporte para aqueles que querem deixar a cidade. Eles virão aqui para saber a verdade. Eu não quero saber o que vai acontecer com aqueles que permanecerem em Chicago, e não tenho certeza se me importo. Enfio minhas mãos nos bolsos e assisto por alguns minutos, em seguida, ando de novo, tentando coincidir meus passos com as batidas do meu coração, ou evitando as fissuras entre os azulejos. Quando passo pela entrada, vejo um pequeno grupo de pessoas reunidas perto da escultura de pedra, uma deles em uma cadeira de rodas – Nita.


Passo por uma barreira de segurança inútil e fico a uma certa distância, observando-os. Reggie pisa na laje de pedra e abre uma válvula no fundo do tanque de água. As gotas se transformam em um fluxo de água, e logo a água jorra para fora do tanque, molhando a laje inteira, molhando a parte inferior das calças de Reggie. — Tobias? Tremo um pouco. É Caleb. Dirijo-me para longe da voz, em busca de uma rota de fuga. — Espere. Por favor — ele diz. Eu não quero olhar para ele para ver quanto – ou quão pouco – ele chorou por ela. Não quero pensar sobre como ela morreu por um covarde miserável, sobre como ele não valia a sua vida. Ainda assim, olho para ele, querendo saber se posso ver um pouco dela em seu rosto, ainda faminto por ela, mesmo agora, sabendo que ela se foi. Seu cabelo está sujo e despenteado, os olhos verdes injetados, a boca se contorcendo em uma careta. Ele não se parece com ela. — Eu não quero incomodá-lo — ele diz. — Mas tenho algo a lhe dizer. Algo... ela me disse para te dizer, antes... — Anda logo com isso — respondo, antes que ele tente terminar a frase. — Ela me disse que se não sobrevivesse, eu devia te dizer... — Caleb engasga, então arruma sua postura, relutando contra as lágrimas. — Que ela não queria deixá-lo. Eu deveria sentir alguma coisa, suas últimas palavras para mim, não deveria? Eu não sinto nada. Me sinto mais longe do que nunca. — É? — pergunto asperamente. — Então por que ela fez


aquilo? Por que ela não te deixou morrer? — Você acha que não estou me fazendo a mesma pergunta? — Caleb replica. — Ela me amava. O suficiente para me manter longe de uma arma para que ela pudesse morrer por mim. Eu não tenho ideia do porquê. Ele vai embora sem me deixar responder, e é provavelmente melhor assim, porque eu não posso pensar em nada para dizer que seja equivalente à minha raiva. Eu pisco e as lágrimas caem no chão, bem no meio do lobby. Eu sei por que ela quis me dizer que não queria me deixar. Ela queria que eu soubesse que esta não era outra sede de Erudição, não era uma mentira contada para me fazer dormir enquanto ela ia morrer, não um ato de sacrifício desnecessário. Empurro meus dedos contra os olhos como se eu pudesse empurrar minhas lágrimas de volta para dentro. Sem chorar, eu me castigo. Se eu deixar um pouco de emoção sair, tudo vai sair e isso nunca vai acabar. Algum tempo depois eu ouvi vozes por perto – Cara e Peter. — Esta escultura era um símbolo de mudança — ela conta a Peter. — A mudança gradual, mas agora eles estão trazendo-a abaixo. — Oh, mesmo? — Peter parece ansioso. — Por quê? — Hum... Vou explicar mais tarde, se estiver tudo bem — diz Cara. — Você se lembra de como voltar ao dormitório? — Sim. — Então... volte para lá por um tempo. Alguém vai estar lá para ajudá-lo. Cara caminha até mim, e eu me encolho em antecipação a sua voz. Mas tudo o que ela faz é sentar-se ao meu lado no chão, as mãos cruzadas no colo, as costas retas. Alerta, mas


relaxada, ela observa a escultura onde Reggie está sob a água jorrando. — Você não tem que ficar aqui — eu digo. — Eu não tenho que estar em nenhum lugar. E o silêncio é bom. Então, nós ficamos sentados lado a lado, olhando para a água, em silêncio. +++ — Aí está você — diz Christina, se movendo em nossa direção. Seu rosto está inchado e sua voz é apática como um suspiro pesado. — Vamos lá, está na hora. Eles estão desconectando-o. Eu tremo ao ouvir a palavra, mas fico em pé do mesmo jeito. Hana e Zeke estavam pairando sobre o corpo de Uriah desde que chegamos aqui, seus dedos encontrando os dele, os olhos à procura de vida. Mas não resta mais vida, apenas a máquina fazendo com que seu coração bata. Cara anda atrás de Christina e eu enquanto vamos para o hospital. Eu não durmo há dias, mas não me sinto cansado, não da maneira como normalmente me sinto, embora meu corpo doa quando ando. Christina e eu não nos falamos, mas sei que estamos pensando a mesma coisa, em Uriah, em seus últimos suspiros. Nós vamos para a janela de observação fora da sala de Uriah, e Evelyn está lá – Amar buscou-a ao invés de mim, há poucos dias. Ela tenta tocar meu ombro e eu não deixo, não quero ser consolado. Dentro da sala, Zeke e Hana estão um de cada lado de Uriah. Hana está segurando uma de suas mãos, e Zeke está


segurando a outra. Um médico está perto do monitor cardíaco, uma prancheta estendida, não para Hana ou Zeke, mas para David. Sentado em sua cadeira de rodas. Curvado e aturdido, como os outros que perderam suas memórias. — O que ele está fazendo lá? Sinto que todos os meus músculos, ossos e nervos estão pegando fogo. — Ele ainda é tecnicamente o líder do Centro, pelo menos até que o substituam — Cara responde atrás de mim. — Tobias, ele não se lembra de nada. O homem que você conhecia não existe mais, é como se ele estivesse morto. Esse homem não se lembra de ter matad... — Cale a boca! — grito. David assina a prancheta e se vira, empurrando-se para a porta. A porta abre e eu não consigo me impedir, invisto em direção a ele, e apenas Evelyn me impede de envolver minhas mãos em torno de sua garganta. Ele me dá um olhar estranho e segue para o corredor enquanto estou pressionado contra o braço da minha mãe, que é como uma barra de ferro em meus ombros. — Tobias — diz Evelyn. — Se acalme. — Por que alguém não o prende? — exijo, e meus olhos estão muito borrados para conseguir ver. — Porque ele ainda trabalha para o governo — diz Cara. — Só porque eles declararam que aquilo foi um lamentável incidente, não significa que vão demitir todos. E o governo não vai prendê-lo só porque ele matou um rebelde sob coação. — Um rebelde — repito. — Isso é tudo o que ela é agora? — Era — Cara diz suavemente. — E não, claro que não, mas é assim que o governo a vê.


Estou prestes a responder, mas Christina interrompe. — Gente, eles vão desligá-lo. No quarto de Uriah, Zeke e Hana juntam suas mãos livres sobre o corpo de Uriah. Vejo os lábios de Hana se movimentarem, mas não consigo dizer o que ela está falando. Os Audaciosos tem orações para a morte? A Abnegação reage à morte com silêncio e serviços, não com palavras. Descubro que minha raiva está desaparecendo, e estou perdido em pesar novamente, desta vez não apenas por Tris, mas por Uriah, cujo sorriso arde em minha memória. O irmão do meu amigo, e depois meu amigo também, embora não por tempo suficiente para deixar que seu humor trabalhasse o seu caminho em mim, e não por tempo suficiente. O médico aperta alguns interruptores, traz sua prancheta para perto de si, e as máquinas param de respirar por Uriah. Os ombros de Zeke tremem, e Hana aperta sua mão com força, até que os nós dos dedos fiquem brancos. Em seguida, ela diz algo e suas mãos se abrem, e ela se afasta do corpo de Uriah. Deixando-o ir. Eu me afasto da janela, caminhando a princípio, depois correndo, fazendo meu caminho através de corredores, descuidado, cego, vazio.


Capítulo 56 28 de janeiro de 2014 Capítulo cinquenta e seis No dia seguinte, levo um caminhão do composto. As pessoas de lá ainda estão se recuperando de sua perda de memória, ninguém vai tentar me parar. Dirijo ao longo dos trilhos de trem em direção à cidade, meus olhos vagando sobre o horizonte, mas não enxergando realmente. Quando chego aos campos que separam a cidade do mundo exterior, piso com força no acelerador. O caminhão esmaga a grama e a neve abaixo dos pneus, e logo o terreno volta para o pavimento no setor Abnegação, e mal sinto a passagem do tempo. As ruas são todas iguais, mas minhas mãos e pés sabem para onde ir, mesmo que minha mente não se preocupe em orientá-los. Eu paro na casa perto do semáforo, com a calçada da frente rachada. A minha casa. Passo pela porta da frente e subo as escadas, ainda com aquela sensação abafada em meus ouvidos, como se eu estivesse flutuando longe do mundo. As pessoas falam sobre a dor do luto, mas eu não sei o que elas querem dizer. Para mim, o luto é um entorpecimento devastador, cada sentimento adormecido. Pressiono a palma da mão no painel que cobre o espelho e o empurro para o lado. Embora a luz laranja do pôr do sol passe pelo chão e ilumine o meu rosto por baixo, eu nunca


pareci tão pálido – os círculos sob meus olhos nunca foram mais pronunciados. Passei os últimos dias em algum lugar entre o sono e a vigília, não totalmente capaz de permanecer em qualquer um dos extremos. Ligo a máquina de cortar cabelo na tomada perto do espelho. A lâmina já está no lugar certo, de modo que tudo o que tenho que fazer é passar a máquina em meu cabelo, puxando as orelhas para baixo para protegê-las da lâmina, virando a cabeça para checar a parte de trás do meu pescoço e ver se esqueci algum lugar. O cabelo cortado cai sobre meus pés e ombros, pinicando a pele nua. Passo a mão sobre a minha cabeça para ter certeza de que está nivelada, mas não preciso verificar, não de verdade. Eu aprendi a fazer isso quando era jovem. Gasto muito tempo tirando os cabelos dos meus ombros e pés, em seguida, varro-os com uma pá de lixo. Quando termino, fico na frente do espelho de novo, e posso ver as bordas da minha tatuagem, a chama da Audácia. Pego o frasco do soro da memória em meu bolso. Sei que um frasco irá apagar a maior parte da minha vida, mas se centrará em memórias, não em fatos. Eu ainda vou saber escrever, falar, montar um computador, porque os dados foram armazenados em diferentes partes do meu cérebro. Mas não vou me lembrar de mais nada. O experimento acabou. Johanna negociou com sucesso com o governo – os superiores de David – para permitir que os ex-membros das facções fiquem na cidade, desde que sejam autossuficientes, submetam-se à autoridade do governo e permitam que a pessoas de fora possam vir e se juntar a eles, tornando Chicago apenas outra área metropolitana, como Milwaukee.


O Centro, uma vez no comando do experimento, será agora responsável por manter a ordem nos limites da cidade de Chicago. Vai ser a única área metropolitana do país governado por pessoas que não acreditam em deficiências genéticas. Uma espécie de paraíso. Matthew me disse que espera que as pessoas da fronteira preencham todos os espaços vazios e encontrem lá uma vida mais próspera do que a que eles deixaram. Tudo o que quero é me tornar alguém novo. Neste caso, Tobias Johnson, filho de Evelyn Johnson. Tobias Johnson pode ter vivido uma vida monótona e vazia, mas ele é, pelo menos, uma pessoa inteira, e não este fragmento de pessoa que eu sou, muito danificado pela dor para poder me tornar algo útil. — Matthew me disse que você roubou um pouco do soro da memória e um caminhão — diz uma voz no final do corredor. Christina. — Tenho que te dizer, eu realmente não acreditei nele. Não devo tê-la ouvido entrar na casa por conta do abafamento em meus ouvidos. Mesmo sua voz soa como se estivesse viajando através da água para chegar até mim, o que me faz levar alguns segundos para entender o que ela diz. Quando entendo, olho para ela e digo: — Então por que você veio se não acredita nele? — Só em caso de dúvidas — diz ela, vindo em minha direção. — Além disso, eu queria ver a cidade mais uma vez antes que tudo mude. Me dê esse frasco, Tobias. — Não — cruzo os dedos sobre ele para protegê-lo dela. — Esta é a minha decisão, não a sua. Seus olhos escuros se alargam, e seu rosto está radiante com a luz solar. A luz faz cada mecha do seu cabelo grosso


e escuro brilhar como se estivesse em chamas. — Esta não é a sua decisão — diz ela. — Esta é a decisão de um covarde, e você é muita coisa, Quatro, mas não um covarde. Nunca. — Talvez eu seja agora — respondo de forma passiva. — As coisas mudaram. Eu estou bem com isso. — Não, você não está. Me sinto tão esgotado que tudo o que eu posso fazer é revirar os olhos. — Você não pode se tornar uma pessoa que ela iria odiar — Christina fala, calmamente dessa vez. — E ela teria odiado isso. Tumultos raivosos chegam até mim, quentes e animados, e o sentimento abafado em torno de meus ouvidos some, fazendo com que até mesmo esta pacata rua da Abnegação seja barulhenta. Tremo só com a força do barulho. — Cale a boca! — Eu grito. — Cale a boca! Você não sabe o que ela iria odiar, você não sabe, você... — Eu sei o suficiente. Sei que ela não iria querer que você a apague de sua memória como se ela nem sequer importasse para você! Eu invisto em direção a ela, prendendo seu ombro na parede, e inclinando-me mais perto de seu rosto. — Se você ousar dizer isso novamente, eu vou... — Vai o quê? — Christina me empurra para trás, com força. — Me bater? Sabe, há uma palavra para homens grandes e fortes que atacam mulheres, e essa palavra é covarde. Eu me lembro dos gritos de meu pai enchendo a casa, e sua mão ao redor da garganta da minha mãe, batendo-a em paredes e portas. Lembro de assistir da minha porta, minha


mão ao redor da moldura. E me lembro de ouvir soluços silenciosos através da porta de seu quarto, já que ela se trancava, assim eu não poderia entrar. Dou um passo para trás e caio contra a parede, deixando meu corpo escorregar. — Sinto muito — eu digo. — Eu sei. Nós ainda ficamos ali por alguns, apenas olhando um para o outro. Lembro-me de odiá-la na primeira vez que a conheci, porque ela era da Franqueza, porque as palavras simplesmente saíam de sua boca sem controle, sem cuidado. Mas com o tempo ela me mostrou quem ela realmente era, uma amiga indulgente, fiel à verdade, corajosa o suficiente para tomar uma atitude. Não posso impedir que ela me agrade agora, não posso deixar de ver o que Tris viu nela. — Eu sei como se sente ao querer esquecer tudo — diz ela. — Eu também sei como é alguém que você ama ser morto sem qualquer razão, e querer trocar todas as suas memórias pela paz apenas por um momento. Ela envolve a mão ao redor da minha, que está enrolada em torno do frasco. — Eu não conhecia Will há muito tempo — ela fala — mas ele mudou a minha vida. Ele me mudou. E eu sei que Tris te mudou ainda mais. A expressão dura que ela usava há pouco se derrete, e ela toca meus ombros levemente. — A pessoa em que você se transformou com ela é uma que vale a pena ser. Se tomar o soro, nunca será capaz de encontrar o caminho de volta para ela. As lágrimas vêm novamente, como quando vi o corpo de Tris, e desta vez, a dor vem com elas, quente e afiada em


meu peito. Aperto o frasco no meu punho, desesperado pelo o alívio que oferece, a proteção contra a dor de cada memória arranhando dentro de mim como um animal. Christina coloca os braços em volta dos meus ombros, e seu abraço só piora a dor, porque me lembra de todas as vezes que os braços finos de Tris escorregaram em torno de mim, inseguros no começo, mas em seguida mais fortes, mais confiantes, mais segura de si mesma e de mim. Faz-me lembrar que nenhum abraço nunca vai ser o mesmo outra vez, porque ninguém nunca vai ser como ela de novo, porque ela se foi. Ela se foi, e chorando eu me sinto tão inútil, tão estúpido, mas é tudo o que posso fazer. Christina me mantém de pé e não diz uma palavra por um longo tempo. Eventualmente eu me afasto, mas as suas mãos permanecem sobre os meus ombros, quentes e ásperas com calos. Talvez da mesma maneira em que a pele cresce mais forte num calo depois de uma dor contínua, uma pessoa também faça o mesmo. Mas não quero me tornar um homem calejado. Existem outros tipos de pessoas neste mundo. Não como Tris, que depois de sofrimento e traição, ainda pode encontrar amor suficiente para dar sua vida em vez de seu irmão. Ou como Cara, que ainda poderia perdoar a pessoa que atirou na cabeça de seu irmão. Ou Christina, que perdeu amigo após amigo, mais ainda decidiu continuar aberta para fazer novos. Aparecer na minha frente é outra escolha, mais brilhante e mais forte do que as que eu me dei. Abrindo os olhos, ofereço o frasco para ela. Ela pega e o coloca no bolso.


— Eu sei que Zeke ainda continua estranho com você — ela diz, jogando um braço sobre os meus ombros. — Mas posso ser sua amiga enquanto isso. Podemos até trocar pulseiras se você quiser, como as meninas da Amizade costumavam fazer. — Não acho que isso será necessário. Nós descemos as escadas e saímos juntos para a rua. O sol sumiu atrás dos edifícios de Chicago, e ao longe ouço um trem correndo sobre os trilhos, mas estamos caminhando para longe deste lugar e tudo o que ele significou para nós, o que está tudo bem. +++ Há tantas maneiras de ser corajoso neste mundo. Às vezes, a bravura implica em entregar sua vida por algo maior do que si mesmo, ou por outra pessoa. Às vezes implica abrir mão de tudo o que você já conhecia ou todos que já amou, por causa de algo maior. Mas às vezes isso não acontece. Às vezes não é nada mais do que ranger os dentes com a dor, e o trabalho de cada dia, a lenta caminhada em direção a uma vida melhor. Esse é o tipo de coragem que devo ter agora.


Epílogo Dois anos e meio depois

Evelyn está no lugar onde dois mundos se encontram. Marcas de pneus revestem o chão agora, por conta do frequente vai e vem de pessoas da fronteira que entram e saem, ou moradores do antigo complexo do Centro indo e voltando. A bolsa repousa contra a sua perna, em um dos poços na terra. Ela levanta a mão para me cumprimentar quando me aproximo. Quando ela entra na caminhonete, beija minha bochecha, e eu deixo. Sinto um sorriso em meu rosto, e o deixo ficar lá. — Bem-vinda de volta — eu digo. O acordo, quando ofereci-lhe mais de dois anos atrás, e quando ela repassou-o a Johanna, pouco depois, foi que ela iria deixar a cidade. Agora, tanta coisa mudou em Chicago que não vejo mal em sua volta, e nem ela o faz. Apesar de dois anos terem se passado, ela parece mais jovem, seu rosto mais pleno e seu sorriso mais largo. O tempo longe fez bem a ela. — Como você está? — ela pergunta. — Eu estou... bem. Vamos espalhar as cinzas dela hoje. Olho para a urna empoleirada no banco de trás como se fosse outro passageiro. Durante muito tempo, deixei as cinzas de Tris no necrotério do Centro, não sabendo que tipo de funeral ela iria querer, e não tenho certeza de que eu poderia fazer um a ela. Mas hoje seria o Dia da Escolha, se ainda tivéssemos facções, e é hora


de dar um passo a frente, mesmo que seja um pequeno. Evelyn põe a mão no meu ombro e olha para os campos. As culturas que antes eram isoladas nas áreas ao redor da sede da Amizade se espalharam, e continuam a se espalhar por todos os espaços gramados ao redor da cidade. Às vezes sinto falta da desolação, da terra vazia. Mas agora não me importo de passar por fileiras e fileiras de milho ou trigo. Vejo pessoas entre as plantas, verificando o solo com dispositivos portáteis projetados por excientistas do Centro. Eles vestem vermelho, azul, verde e roxo. — Como é viver sem facções? — Evelyn pergunta. — É bem normal — sorrio para ela. — Você vai adorar. +++ Levo Evelyn para o meu apartamento, ao norte do rio. É num dos andares inferiores, mas através das grandes janelas posso ver uma grande extensão de edifícios. Fui um dos primeiros moradores da nova Chicago, então pude escolher onde morar. Zeke, Shauna, Christina, Amar e George optaram por viver nos pisos superiores do edifício Hancock, e Caleb e Cara voltaram para os apartamentos perto do Parque Millennium, mas vim aqui porque era bonito, e porque é longe de qualquer um dos meus antigos lares. — Meu vizinho é um especialista em história, ele veio da fronteira —digo enquanto procuro as chaves em meus bolsos. — Ele chama Chicago de “a quarta cidade” porque foi destruída por um incêndio há séculos, depois novamente pela Guerra da Pureza, e agora estamos na quarta tentativa de nos estabelecer aqui. — A quarta cidade — Evelyn repete enquanto abro a porta. — Eu gosto disso. Quase não há móveis no interior, apenas um sofá e uma mesa, algumas cadeiras, uma cozinha. Luz solar reflete nas janelas do prédio do outro lado do rio pantanoso. Alguns dos ex-cientistas do Centro estão tentando restaurar o rio e o lago à sua antiga glória, mas ainda vai demorar um pouco. Mudança, como a cura, leva


tempo. Evelyn deixa sua bolsa no sofá. — Obrigada por me deixar ficar com você por um tempo. Prometo que vou encontrar outro lugar em breve. — Sem problemas — digo. Me sinto nervoso por ela estar aqui, mexendo em meus poucos pertences, passando por meus corredores, mas não podemos ficar distantes para sempre. Não quando prometi a ela que gostaria de tentar preencher essa lacuna entre nós. — George diz que precisa de alguma ajuda com o treinamento de uma força policial — Evelyn diz. — Você não se ofereceu? — Não — respondo. — Eu te disse, estou farto de armas. — Certo. Você está usando suas palavras agora — diz Evelyn, franzindo o nariz. — Eu não confio em políticos, você sabe. — Você vai confiar em mim porque sou seu filho. De qualquer forma, não sou um político. Ainda não, de qualquer maneira. Apenas um assistente. Ela se senta à mesa e olha em volta, inquieta e ágil como um gato. — Você sabe onde está seu pai? — ela pergunta. Eu dou de ombros. — Alguém me disse que ele foi embora. Eu não perguntei para onde. Ela repousa o queixo na mão. — Não há nada que você queira dizer a ele? Nada mesmo? — Não — rodo as chaves ao redor do meu dedo. — Eu só queria deixá-lo no passado, onde ele pertence. Dois anos atrás, quando eu estava na frente dele no parque com a neve caindo ao nosso redor, percebi que, assim como atacá-lo na frente da Audácia no Mart Impiedoso não fez eu me sentir melhor sobre a dor que ele me causou, gritar com ele ou insultá-lo não o faria também. Restava apenas uma opção: deixá-lo ir. Evelyn me dá um olhar estranho, e depois atravessa a sala e abre a bolsa que deixou no sofá. Ela pega um objeto feito de vidro azul. Parece água caindo, suspensa no tempo. Lembro de quando ela me deu. Eu era jovem, mas não muito para


perceber que era um objeto proibido na facção da Abnegação, algo inútil e, portanto, autoindulgente. Eu perguntei-lhe para que servia, e ela me disse, para nada obviamente. Mas poderia ser capaz de fazer algo aqui. Então ela colocou a mão em seu coração. Coisas bonitas às vezes fazem. Durante anos foi um símbolo da minha rebeldia tranquila, minha pequena recusa em ser uma criança obediente e atenciosa da Abnegação, um símbolo do desafio da minha mãe também, mesmo que eu acreditasse que ela estava morta. Escondi debaixo da minha cama, e no dia que decidi deixar a Abnegação, coloqueio na mesa para que meu pai pudesse vê-lo, ver a minha força, e a dela. — Quando você se foi, isso me fez lembrar de você — ela diz, segurando o vidro perto de si. — Lembrou-me de quão corajoso você era, sempre foi — ela sorri um pouco. — Pensei que você poderia mantê-lo aqui. Eu pretendia dá-lo para você, depois de tudo. Não tenho certeza se minha voz vai permanecer estável se eu falar, então apenas sorrio de volta e aceno com a cabeça. +++ O ar da primavera é frio, mas deixo as janelas da caminhonete abertas, então posso senti-lo no meu peito, picando os meus dedos, um lembrete do inverno prolongado. Paro na plataforma de trem perto do Mart Impiedoso e pego a urna do banco de trás. É prata e simples, sem gravuras. Eu não a escolhi, foi Christina. Ando pela plataforma em direção ao grupo que já se reuniu. Christina está com Zeke e Shauna, que está sentada na cadeira de rodas com um cobertor sobre o colo. Ela tem uma cadeira de rodas melhor agora, uma sem alças na parte de trás, para que ela possa manobrá-la com mais facilidade. Matthew está na plataforma com os pés sobre a borda. — Oi — digo, apoiando uma mão sobre o ombro de Shauna.


Christina sorri para mim e Zeke me bate no ombro. Uriah morreu poucos dias depois de Tris, mas Zeke e Hana fizeram suas despedidas apenas algumas semanas depois, espalhando suas cinzas no abismo, em meio ao barulho de todos os seus amigos e familiares. Nós gritamos o nome dele no eco da câmara. Ainda assim, sei que Zeke está se lembrando dele hoje, assim como o resto de nós, mesmo que este último ato de bravura da Audácia seja para Tris. — Tenho uma coisa para lhe mostrar — diz Shauna, e ela joga o cobertor para o lado, revelando hastes metálicas complicadas nas pernas. Elas percorrem todo o caminho até seus quadris e enrolam em torno de sua barriga, como uma gaiola. Ela sorri para mim, e com um som de raspagem de engrenagens, coloca os pés no chão na frente da cadeira, e aos trancos e barrancos, ela fica de pé. Apesar da ocasião séria, eu sorrio. — Bem, olhe para isso — digo. — Eu tinha esquecido quão alta você é. — Os companheiros de laboratório de Caleb fizeram para mim — ela conta. — Ainda estou pegando o jeito, mas eles dizem que eu poderia ser capaz de andar algum dia. — Bom. Onde ele está, afinal? — Ele e Amar vão nos encontrar no fim da linha — ela responde. — Alguém tem que estar lá para pegar a primeira pessoa. — Ele ainda é uma espécie de maricas — Zeke diz. — Mas estou começando a me acostumar com ele. — Hm — eu digo, não me comprometendo. A verdade é, eu fiz as pazes com Caleb, mas ainda não consigo ficar perto dele por muito tempo. Seus gestos, suas inflexões, sua maneira, são os dela. Eles o fazem apenas um sussurro dela, e isso não é o suficiente, mas também é demais. Eu diria mais, mas o trem está chegando. Ele vem em nossa direção nos trilhos polidos, então chia enquanto para em frente à plataforma. Uma cabeça se inclina para fora da janela do primeiro vagão, onde os controles ficam – é Cara, seu cabelo em uma trança apertada.


— Vamos! — Ela diz. Shauna se senta na cadeira de novo e empurra-se através da porta. Matthew, Christina e Zeke a seguem. Eu fico por último, oferecendo a urna para Shauna segurar, e fico na porta, minha mão segurando a alça. O trem começa a andar de novo, a velocidade aumentando a cada segundo, e o ouço assobiando ao longo dos trilhos, sinto o poder dele subindo dentro de mim. O ar chicoteia todo o meu rosto e pressiona a roupa em meu corpo. Posso ver a cidade expandindo em minha frente, os prédios iluminados pelo sol. Não é o mesmo que costumava ser, mas superei isso há muito tempo. Todos nós já encontramos novos lugares. Cara e Caleb trabalham nos laboratórios do complexo, que agora é um pequeno segmento do Departamento de Agricultura, que trabalha para tornar a agricultura mais eficiente, capaz de alimentar mais pessoas. Matthew trabalha com pesquisa psiquiátrica em algum lugar na cidade – da última vez que perguntei a ele, ele estava estudando algo sobre memória. Christina trabalha em um escritório que ajuda as pessoas da fronteira que querem se mudar para a cidade. Zeke e Amar são policiais, e George treina a força policial – policiais da Audácia, eu os chamo. E eu sou assistente de um dos representantes da nossa cidade no governo: Johanna Reyes. Estico meu braço para agarrar a outra alça e inclino-me para fora do trem, quase pendurado sobre a rua dois andares abaixo de mim. Sinto um arrepio no estômago, o medo – emoção que é o verdadeiro amor da Audácia. — Ei — diz Christina, de pé ao meu lado. — Como está sua mãe? — Bem. Vamos ver, eu acho. — Vai atirar pela tirolesa? Eu observo a pista na nossa frente, todo o caminho até o nível da rua. — Sim — respondo. — Acho que Tris iria querer que eu experimentasse pelo menos uma vez. Dizer o nome dela ainda me dá uma pontada de dor, uma pontada


que me permite saber que a sua memória ainda é valiosa para mim. Christina observa os trilhos à nossa frente e se inclina para o meu ombro, só por alguns segundos. — Acho que você está certo. Minhas memórias de Tris são algumas das memórias mais poderosas que tenho, já entorpecidas pelo tempo, como memórias ficam, e elas já não machucam tanto quanto costumavam machucar. Às vezes eu realmente gosto de ir até elas em minha mente, mas não com frequência. Às vezes falo delas com Christina, e ela escuta melhor do que eu esperava, sendo tão franca quanto é. Cara faz o trem parar, e subo para a plataforma. No topo das escadas, Shauna sai da cadeira e faz o seu caminho para baixo com o aparelho, um passo de cada vez. Matthew e eu levamos a cadeira vazia atrás dela, que é incomoda e pesada, mas não impossível de carregar. — Alguma notícia de Peter? — Pergunto a Matthew quando chegamos ao final das escadas. Depois que Peter saiu da neblina do soro da memória, alguns dos aspectos mais nítidos e mais duros de sua personalidade voltaram, mas não todos. Perdi contato com ele depois disso. Eu não o odeio mais, mas isso não significa que eu tenha que gostar dele. — Ele está em Milwaukee — Matthew responde. — Não sei o que ele está fazendo, apesar de tudo. — Ele está trabalhando em um escritório em algum lugar — Cara responde do final da escada. Ela tem a urna embalada nos braços, tirada do colo de Shauna no caminho do trem. — Acho que é bom para ele. — Sempre achei que ele iria se juntar aos rebeldes GD na fronteira — diz Zeke. — Mostra que eu não o conheço. — Ele está diferente agora — Cara fala com um encolher de ombros. Ainda há rebeldes na fronteira que acreditam que outra guerra é a única maneira de obter a mudança que queremos. Acredito mais


em trabalhar na mudança sem violência. Eu tive violência o suficiente por uma vida inteira, e eu a carrego, ainda assim, não em cicatrizes em minha pele, mas nas memórias que surgem em minha mente quando menos quero – o punho do meu pai colidindo com meu queixo, minha arma apontada para Eric, os corpos da Abnegação esparramados pelas ruas da minha antiga casa. Andamos pelas ruas até a tirolesa. As facções se foram, mas essa parte da cidade tem mais Audaciosos do que qualquer outra, ainda reconhecível por seus piercings no rosto e peles tatuadas, embora não mais pelas cores – as roupas que usam são, por vezes, extravagantes. Alguns vagam pelas calçadas conosco, mas a maioria está no trabalho – todos em Chicago são obrigados a trabalhar, se forem capazes. Diante de mim vejo o edifício Hancock apontando para o céu, sua base mais larga que o topo. As vigas negras perseguem umas as outras até o telhado, cruzando, apertando, se expandindo. Eu não estive tão perto daqui a um longo tempo. Entramos no saguão, com seus reluzentes pisos polidos e suas paredes manchadas com grafites brilhantes da Audácia, deixados aqui por residentes do edifício como uma espécie de relíquia. Este é um lugar da Audácia, porque foram eles que o adotaram, por sua altura e, uma parte de mim também suspeita, sua solidão. A Audácia gostava de preencher espaços vazios com o seu ruído. É algo que sempre gostei sobre eles. Zeke pressiona o botão do elevador com o dedo indicador. Nós nos juntamos, e Cara pressiona o número 99. Fecho meus olhos quando o elevador sobe. Quase posso ver a abertura do espaço sob meus pés, um poço de escuridão, e apenas um palmo de terra firme entre mim e a queda, eu afundando, caindo, despencando. O elevador estremece e para, e me agarro à parede para me equilibrar quando as portas se abrem. Zeke toca meu ombro. — Não se preocupe, cara. Nós fazíamos isso o tempo todo, lembra? Concordo com a cabeça. Ar corre através da abertura no teto, e


acima de mim está o céu, azul e brilhante. Me misturo com os outros em direção à escada, entorpecido demais com o medo de fazer meus pés se moverem mais rápido. Acho a escada com a ponta dos dedos e me concentro em um degrau de cada vez. Acima de mim, Shauna sobre desajeitadamente as escadas, usando principalmente a força de seus braços. Perguntei a Tori uma vez, enquanto estava tatuando os símbolos nas minhas costas, se ela achava que éramos as últimas pessoas que restaram no mundo. Talvez, foi tudo o que ela disse. Não acho que ela gostava de pensar nisso. Mas aqui em cima, no telhado, é possível acreditar que somos as últimas pessoas que restam em qualquer lugar. Fico olhando para os prédios ao longo do pântano e meu peito aperta como se estivesse prestes a entrar em colapso. Zeke atravessa o telhado até a tirolesa e prende alças que suportam um homem ao cabo de aço. Ele a bloqueia para que não deslize para baixo e olha para o grupo com expectativa. — Christina — ele diz. — É toda sua. Christina está perto da alça, batendo um dedo no queixo. — O que você acha? De barriga pra cima ou ao contrário? — Ao contrário — Matthew responde. — Eu queria ir de barriga pra cima para não molhar minhas calças, e não quero você me copiando. — Ir de barriga pra cima só fará mais provável que isso aconteça, sabe — Christina observa. — Então vá em frente e faça para que eu possa começar a te chamar de calças-molhadas. Christina se prende nas alças, os pés primeiro, barriga para baixo, de modo que ela vai ver o prédio ficar menor enquanto viaja. Eu tremo. Não posso ver. Fecho os olhos enquanto Christina viaja cada vez mais longe, e até quando Matthew e em seguida Shauna fazem o mesmo. Posso ouvir seus gritos de alegria, como canto de passarinhos no vento. — Sua vez, Quatro — diz Zeke. Eu balanço a cabeça. — Vamos lá — diz Cara. — É melhor acabar logo com isso,


certo? — Não — respondo. — Vai você. Por favor. Ela me oferece a urna, e em seguida respira fundo. Prendo a urna contra o meu estômago. O metal está quente devido ao toque de muitas pessoas. Cara sobe no suporte, instavelmente, e Zeke a prende ali. Ela cruza os braços sobre o peito e ele a empurra para fora, ao longo do Lago Shore Drive, sobre a cidade. Eu não ouço nada dela, nem sequer um suspiro. E então só restamos eu e Zeke, olhando um para o outro. — Não acho que posso fazer isso — digo, e embora minha voz seja firme, meu corpo está tremendo. — Claro que pode — ele diz. — Você é o Quatro, a lenda da Audácia! Pode enfrentar qualquer coisa. Cruzo meus braços e ando alguns centímetros para mais perto da borda do telhado. Mesmo que eu esteja a vários metros de distancia, sinto meu corpo caindo ao longo da borda, e balanço a cabeça de novo, de novo e de novo. — Ei — Zeke coloca as mãos em meus ombros. — Isso não é sobre você, lembra? É sobre ela. Fazer algo que ela teria gostado de fazer, algo que ela teria ficado orgulhosa de você fazer. Certo? É isso aí. Não posso evitar isso, não posso voltar atrás agora, não quando eu ainda me lembro de seu sorriso enquanto ela subia a roda-gigante comigo, ou sua mandíbula apertada enquanto enfrentava seu medo nas simulações. — Como é que ela entrou? — Cabeça primeiro — diz Zeke. — Tudo bem ��� eu lhe entrego a urna. — Coloque isso atrás de mim, ok? E abra a tampa. Subo para o suporte, minhas mãos tremendo tanto que mal posso apertar as correias. Zeke aperta as correias nas minhas costas e pernas, então prende a urna atrás de mim, virada para fora, para que as cinzas se espalhem. Olho para o Lago Shore Drive, engolindo a bile, e começo a deslizar. De repente, quero levá-la de volta, mas é tarde demais, já estou


mergulhando em direção ao chão. Estou gritando tão alto que quero cobrir meus próprios ouvidos. Sinto o grito vivo dentro de mim, enchendo meu peito, garganta e cabeça. O vento pica meus olhos, mas eu os forço a ficarem abertos, e no meu momento de pânico cego eu entendo porque ela fez isso desta forma – cabeça primeiro – porque a fazia sentir como se estivesse voando, como se fosse um pássaro. Ainda posso sentir o vazio debaixo de mim, e é como o vazio dentro de mim, como uma boca prestes a me engolir. Percebo, então, que parei de me mover. Os últimos flocos de cinzas flutuam no vento como de neve cinzenta, e em seguida desaparecem. O chão está a apenas alguns metros abaixo de mim, perto o suficiente para saltar. Os outros se reuniram lá em um círculo, seus braços entrelaçados para formar uma rede de ossos e músculos para me pegar. Pressiono meu rosto no suporte e rio. Lanço a urna vazia para eles, então torço os meus braços atrás das costas para soltar as tiras que me seguram e caio nos braços de meus amigos como uma pedra. Eles me pegam, seus ossos beliscam minhas costas e pernas e me colocam no chão. Há um silêncio constrangedor enquanto olho para o edifício Hancock, maravilhado, e ninguém sabe o que dizer. Caleb sorri para mim, cauteloso. Christina pisca as lágrimas de seus olhos e diz: — Oh! Zeke está vindo. Zeke se arremessa em nossa direção no suporte preto. A princípio parece um ponto, em seguida, uma bolha, e depois uma pessoa envolta em preto. Ele grita de alegria quando para e chego do outro lado para pegar o antebraço de Amar. No meu outro lado, agarro um braço pálido que pertence a Cara. Ela sorri para mim, e há certa tristeza em seu sorriso. O ombro de Zeke atinge os nossos braços com força e ele sorri loucamente enquanto nos deixa segurá-lo como um berço. — Isso foi bom. Quer ir de novo, Quatro?


Não hesito antes de responder. — Absolutamente não. +++ Caminhamos de volta para o trem em um grupo relaxado. Shauna anda com seus aparelhos, Zeke empurra a cadeira de rodas vazia e conversa com Amar. Matthew, Cara e Caleb caminham juntos, conversando sobre algo que os deixa contentes. Christina anda ao meu lado e coloca uma mão no meu ombro. — Feliz Dia da Escolha — diz ela. — Eu vou te perguntar como realmente está. E você vai me dar uma resposta honesta. Falamos assim, às vezes, dando ordens um ao outro. De alguma forma, ela tornou-se um dos melhores amigos que tenho, apesar de nossas brigas frequentes. — Eu estou bem — digo. — É difícil. E sempre será. — Eu sei. Andamos na parte de trás do grupo, além dos edifícios ainda abandonados com suas janelas escuras, sobre a ponte que atravessa o rio pantanoso. — É, às vezes a vida é realmente péssima — ela fala. — Mas você sabe o que eu estou esperando? Eu levanto minhas sobrancelhas. Ela levanta as dela, me imitando. — Os momentos que não são péssimos — ela diz. — O truque é notá-los quando eles vêm por aí. Então ela sorri, e eu sorrio de volta, e subimos as escadas da plataforma do trem lado a lado. +++ Desde que eu era jovem, eu sempre soube o seguinte: a vida nos danifica, cada um de nós. Não podemos escapar do dano. Mas agora, também estou aprendendo isso: nós podemos ser


reparados. Reparamo-nos uns aos outros.

FIM


03 - Convergente - Veronica Roth