Page 7

SRTE/SP

Quanto ao polo de destino, como já vimos, os trabalhadores e trabalhadoras tirados do solo pátrio – árido, estéril e abandonado – se dirigem como um rio às regiões que demandam mão-de-obra fácil e barata, especialmente braçal. Como diria Karl Marx, trata-se de um imenso “exército de reserva” que não mora, acampa. Sempre pronto a deslocar-se ao menor sinal de trabalho, nem que seja por um pedaço de pão. Habitam em alojamentos, pensões coletivas ou porões sórdidos, sempre em condições de extrema precariedade, onde a dignidade humana se vê aviltada. Igualmente precárias são as condições de trabalho e saúde, não raro eliminando os mais frágeis e fragilizando os mais fortes. Desempenham os serviços mais sujos e perigosos, pesados e mal remunerados, “pau-para-toda-obra”, como se costuma dizer. No caso dos imigrantes em situação irregular, os “sem papéis”, tudo isso se agrava: a situação de clandestinidade lhes cerra todas as portas, impedindo o acesso aos direitos habituais de uma cidadania justa e digna. Entre os dois polos de origem e destino, está o trânsito. Neste, tanto o transporte como a hospedagem carecem das mínimas condições de humanidade. As promessas do “gato” de que os custos de viagem ficam por conta da empresa morrem logo na chegada. A partir daí, as dívidas começam a acumular-se, numa espiral galopante, fora do alcance dos parcos salários. Isto vale tato para os bolivianos da indústria têxtil em São Paulo, quanto para os peões aliciados para o desmatamento e a preparação de uma fazenda de gado. Os preços das mercadorias compradas no local de alojamento e trabalho são exorbitantes e, por mais que os salários lhes corram atrás, mal conseguem tocar seus calcanhares. O

Haitianos escravizados em oficina de costura em São Paulo cumpriam jornadas de mais de 15 horas sentadas em cadeiras de plástico inadequadas.

Devido à abundância de carências locais e regionais, os jovens em especial se tornam presa fácil desses “gatos”, através de promessas de trabalho e futuro promissor. Quanto mais subdesenvolvido o lugar, tanto mais vulneráveis e expostos ao aliciamento se encontram as pessoas. migrante ou imigrante torna-se um eterno endividado, sem jamais poder saldar seus débitos. Não é uma peça no sentido tradicional, não está atado ao senhor, ao eito ou à mina; mas permanece prisioneiro da ilusão envernizada pela eloquência ou pelas ameaças do “gato”.

Combate e erradicação Como fugir desse círculo fechado, dessa “gaiola de ferro”, para usar a expressão de Max Weber? Eis uma pergunta cuja resposta se bifurca em diferentes direções. Resta para nós o enorme desafio de combater e erradicar o trabalho escravo, o Tráfico de Pessoas e a migração forçada – três lados de um problema único

e extremamente complexo. Cabe o empenho das organizações não governamentais, dos movimentos e pastorais sociais, das entidades de direitos humanos, das campanhas de libertação, das iniciativas de Igrejas em geral, dos órgãos do governo, tais como Ministério do Trabalho, Ministério Público e Polícia Federal. Cabe um enorme mutirão pela liberdade e pela dignidade do ser humano, com direito ao trabalho e à cidadania onde quer que se encontre. Combate e erradicação são as palavras chaves desses esforços sem tréguas. Aqui, mais do que em qualquer outro campo de luta, as ações devem ser integradas. A regra é uma só: unir forças, estabelecer parcerias, costurar redes de apoio e solidariedade. As atividades devem ter alcance simultaneamente local e global, sempre respaldadas por organismos de “costas largas”, pois as ameaças e os riscos são muitos. Velada ou explicitamente, o crime organizado não tem escrúpulos em liquidar pessoas e comprar o silêncio e a conivência das autoridades. Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs Vigário geral da Congregação dos Missionários de São Carlos Scalabrinianos Esperança | 2º semestre de 2014 | 5

Revista Esperança nº12  
Revista Esperança nº12  
Advertisement