Page 1

Nº37 abr mai jun 2018

MaiSBEM

Foto: iStock

Revista Online da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

MICROBIOTA INTESTINAL O efeito no metabolismo do hospedeiro

NEOPLASIAS ENDÓCRINAS MÚLTIPLAS Dr. Cleber Camacho apresenta fenótipos e centros de referência

DESTAQUES Teste oral de tolerância à glicose em pacientes com SOP pode ser sensível Sistema reprodutivo - O impacto dos desreguladores endócrinos

E MAIS TI-RADS: classificação Trabalhos premiados no EBT 2018 CBEM 2022: vamos batalhar juntos?


Palavra do Presidente

#CBEM2022EmSP

O

último Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM) realizado em São Paulo foi em 1998. De lá para cá, o CBEM passou duas vezes pelo Rio de Janeiro e pelas regiões sul (Gramado e Curitiba) e nordeste (Recife e Salvador). Em 2016, a Diretoria da SBEM-SP apresentou a candidatura para o CBEM 2020, mas foi vencida por Brasília. Agora, 20 anos após o último CBEM em SP, apresentamos novamente a candidatura da cidade para sediar o maior evento da Endocrinologia brasileira.

Índice

E por que São Paulo? Somos a quarta maior metrópole e a 14ª cidade mais globalizada do mundo. Malha aérea internacional, restaurantes, hotelaria e teatro são alguns bons motivos para recebermos colegas do Brasil inteiro, que encontrarão em Sampa as facilidades indispensáveis

para uma boa estada. Convidamos você para conosco pleitear o CBEM 2022 em SP. Juntos somos mais fortes! Nesta MaiSBEM, trazemos assuntos que ainda ecoam do EBT 2018: a classificação TI-RADS e os trabalhos premiados de jovens investigadores. Você também lerá sobre: microbiota intestinal, desreguladores endócrinos, neoplasias endócrinas múltiplas, doença de Cushing, highlights do congresso sobre osteoporose na Polônia, alerta de endocrinopediatras e TOTG em pacientes com SOP. Para seu paciente, matéria sobre a importância do teste do pezinho. Nossa revista está cada vez mais científica. Leia e compartilhe! Dr. José Augusto Sgarbi - presidente da SBEM-SP

Repórter Médico

Impacto adverso do meio ambiente no sistema reprodutivo

pág. 3

A classificação do TI-RADS Neoplasias endócrinas múltiplas

pág. 4 pág. 4

Microbiota intestinal: Efeito no metabolismo do hospedeiro

pág. 6

Atualizando

Palavra de Especialista Informe-se

T3S afeta a homeostase de osteoblastos humanos Fusão AGK-BRAF em carcinoma papilífero da tireoide pediátrico

pág. 7 pág. 7

SBEM-SP no Sábado

Diagnóstico e tratamento da doença de Cushing: aspectos práticos

pág. 8

Em Debate Alerta dos endocrinopediatras Microcarcinoma papilífero da tireoide: culpado ou inocente? 35º CBEM: convite

pág. 8 pág. 9 pág. 9

Giro Endócrino

Congresso Mundial de Osteoporose

pág. 10

De Olho na Pesquisa TOTG em mulheres com SOP

pág. 10

Informação ao Paciente Teste do pezinho

SBEM |

págs. 11 e 12

Regional SP

Presidente: Dr. José Augusto Sgarbi | Vice-Presidente: Dra. Laura Sterian Ward | Secretário-Executivo: Dr. Felipe Henning Gaia Duarte | Secretária-Executiva Adjunta: Dra. Larissa Garcia Gomes | Tesoureiro-Geral: Dr. João Roberto Maciel Martins | Tesoureiro-Geral Adjunto: Dr. Adriano Namo Cury CONSELHO FISCAL Membros Efetivos: Dr. Antonio Mendes Fontanelli, Dr. Marcio Krakauer e Dr. Sérgio Setsuo Maeda | Membros Suplentes: Dra. Angela Maria Spinola e Castro, Dr. Sonir Roberto Rauber Antonini e Dra. Vania dos Santos Nunes Contato: Damaris Villela – Assistente Administrativa | Tel: 11 3822-1965 - Fax: 11 3826-4677 | E-mail: contato@sbemsp.org.br - Site: www.sbemsp.org.br Endereço: Av. Angélica, 1.757, conj. 103, Santa Cecília - CEP: 01227-200 – São Paulo – SP

MaiSBEM |

Revista Online da SBEM Regional São Paulo

Conteúdo Editorial: Gengibre Comunicação | Tel: 11 94466-0408 | www.gengibrecomunicacao.com.br | Jornalista Responsável: Regiane Chiereghim - MTB: 036768 | Edição e Redação: Patrícia de Andrade e Regiane Chiereghim | Colaboração: Débora Torrente | Revisão: Patrícia de Andrade, Paulo Furstenau e Regiane Chiereghim | Diagramação: www.trovare.com.br | Periodicidade: Trimestral

Prezado associado: queremos saber quais são suas pesquisas recentes, novas alternativas de tratamento da sua especialidade e atuais pautas científicas. Se você tem algum estudo em desenvolvimento, recém-lançado, ou quer comentar algum artigo científico, envie seus contatos para imprensa@gengibrecomunicacao.com.br.

sbemsp.org.br @SBEMSP

Sbem-São-Paulo

sbemsp


Repórter Médico

Impacto adverso do meio ambiente no sistema reprodutivo Qualidade do sêmen está baixa no mundo todo

A

industrialização global tem aumentado a exposição da população às toxinas do meio ambiente, e o declínio da qualidade do esperma nas últimas décadas levanta a suspeita do impacto adverso do meio ambiente no sistema reprodutivo masculino. E como se dá essa ação? O que fazer do ponto de vista clínico? Conversamos com a Dra. Elaine Frade Costa, endocrinologista que estuda a ação de substâncias expostas no meio ambiente em nosso sistema endócrino.

é comprometida pela impossibilidade de se realizar estudos com alto grau de evidência, ou seja, com exposição controlada, caracterizando o principal entrave das pesquisas em humanos.

MaiSBEM - Na reportagem do portal da BBC Brasil, os pesticidas e plásticos são indicados como causas da baixa qualidade do sêmen. Do ponto de vista científico, como se dá essa ação?

Dra. Elaine - A abordagem atual das patologias endócrinas na prática clínica, especialmente aquelas que apresentam um aumento secular da prevalência como infertilidade masculina e feminina, falência ovariana prematura, hipogonadismo masculino, obesidade, nódulos tireoidianos etc., deve levar em consideração a influência do meio ambiente. Uma vez detectada a exposição excessiva e/ou prolongada, é preciso adotar medidas educativas, de esclarecimento dos possíveis efeitos nocivos e, consequentemente, redução da exposição. Portanto a prática clínica deve ser baseada no princípio de precaução e redução de danos. Uma revisão completa sobre o assunto, abordando os principais desreguladores endócrinos e seus mecanismos de ação sobre o sistema reprodutivo masculino, pode ser encontrada em artigos publicados recentemente. Os autores ainda sugerem regulamentações para evitar o uso indiscriminado de tais substâncias. Foto: iStock

Dra. Elaine - Alguns pesticidas, herbicidas ou fungicidas e componentes do plástico como bisfenol A e ftalatos apresentam uma estrutura química muito semelhante aos esteroides sexuais, especialmente estradiol. Consequentemente, eles são capazes de se ligar aos receptores estrogênicos em vários tecidos, ora desenvolvendo uma ação estrogênica, ora antiestrogênica. A maioria dos pesticidas afeta a qualidade do esperma, incluindo redução da espermatogênese, danos no DNA nuclear e mitocondrial, redução das enzimas antioxidantes no testículo. O mecanismo ainda não é totalmente conhecido, mas possivelmente age através de ação estrogênica comprovada no DDT e seus metabólitos.

MaiSBEM - Da pesquisa para a prática clínica, como deve ser a conduta de seguimento dos endócrinos, levando em conta esses agentes desreguladores?

MaiSBEM - O sistema reprodutivo feminino também sofre a ação dessas substâncias? Dra. Elaine - Vários estudos indicam que ftalatos, bisfenol A, pesticidas e cigarro exercem impacto negativo na função ovariana através do aumento da atresia dos folículos pré-antrais, levando a uma falência ovariana prematura. Esse efeito pode ocorrer com exposições em diferentes fases da vida, do pré-natal à vida adulta, possivelmente por distintos mecanismos. Uma recente revisão conclui que poluentes ambientais são, provavelmente, a principal causa de falência ovariana prematura.

MaiSBEM - Houve alguma descoberta recente de novos agentes desreguladores endócrinos? Dra. Elaine - São inúmeros os componentes existentes no meio ambiente com atividade de desregulador endócrino, incluindo phthalates, bifenil policlorinado (PCB), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), retardantes de chamas brominados (BFRs), dioxinas, alquifenóis (APs) e compostos perfluorinados (PFCs). MaiSBEM - Como estão as pesquisas sobre o tema? Quais os avanços? Quais os principais entraves? Dra. Elaine - Há um crescente número de pesquisas relacionadas ao estudo dos efeitos dos desreguladores endócrinos na reprodução humana. Cada vez mais, nos convencemos da relação causal da influência de substâncias do meio ambiente nos sistemas endócrinos de humanos, especialmente sobre a fertilidade. A relação causal dos desreguladores endócrinos no sistema reprodutivo de modelos animais machos e fêmeas está comprovada. No entanto, essa comprovação em humanos

Referências Mehrpour O, Karrari P, Zamani N, Tsatsakis AM, Abdollahi M. Occupational exposure to pesticides and consequences on male semen and fertility: a review. Toxicol Lett. 2014 Oct 15;230(2). Vabre P, Gatimel N, Moreau J, Gayrard V, Picard-Hagen N, Parinaud J, Leandri RD. Environmental pollutants, a possible etiology for premature ovarian insufficiency: a narrative review of animal and human data. Environ Health. 2017 Apr 7;16(1):37. Mima M, Greenwald D, Ohlander S. Environmental Toxins and Male Fertility. Curr Urol Rep. 2018 May 17;19(7):50.

3


Atualizando

A revisão do TI-RADS

Classificação busca complementar diagnóstico

V

árias sociedades profissionais e grupos de pesquisadores propuseram diferentes critérios para orientar os especialistas na recomendação de punção aspirativa por agulha fina (PAAF) com base em características ecográficas. Um desses critérios apresentado como uma melhoria de classificação é o TI-RADS, sigla de thyroid imaging, reporting and data system, à semelhança da classificação de BI-RADS do Colégio Americano de Radiologia (ACR). Por causa de diversas classificações, com variações de complexidade e falta de conformidade entre elas, foi publicado no ano passado o sistema de classificação sob recomendação do Colégio Americano de Radiologia - o ACR TI-RADS. O ACR TI-RADS busca integrar os achados ultrassonográficos do nódulo de tireoide em cinco critérios: composição, ecotextura, morfologia, contornos e focos ecogênicos. “Podemos dizer que, de certa forma, ele é complementar aos critérios ultrassonográficos da Associação Americana de Tireoide (ATA). A diferença é que, enquanto o TI-RADS pontua, a ATA classifica”, explica a Dra. Rosa Paula M. Biscolla, endocrinologista da SBEM-SP.

buscando diferenciar as lesões benignas e não benignas. Trata-se de uma ajuda na conduta clínica para apontar as lesões com maior chance de malignidade, sem substituir a análise citológica. Com base na pontuação ACR TI-RADS, a PAAF é recomendada para lesões suspeitas (TR3-TR5), de acordo com critérios de tamanho (TR3 > 2,5 cm; TR4 > 1,5 cm; TR5 > 1,0 cm). No caso de múltiplos nódulos, os dois que exibirem a mais alta classificação devem ser puncionados, em vez dos dois maiores. No áudio que segue, Dra. Maria Izabel Chiamolera, médica da SBEM-SP, comenta como o TI-RADS pode ajudar na prática clínica. O assunto fez parte da grade de simpósios do Encontro Brasileiro de Tireoide 2018.

O sistema de classificação do Colégio Americano de Radiologia descreve critérios ultrassonográficos para a categorização de nódulos

Neoplasias endócrinas múltiplas Busca por centros de referência deve ser estimulada Por Dr. Cleber Camacho

A

s neoplasias endócrinas múltiplas (do inglês multiple endocrine neoplasia – MEN) são um subgrupo de síndromes hereditárias que têm o potencial de afetar vários membros de uma família, e com acometimento multiglandular (tabela 1). As MEN1 geram alterações na hipófise, paratireoide e pâncreas, sendo os tumores neuroendócrinos a principal causa de morte nos dias de hoje. As MEN2 afetam a tireoide e a adrenal, o que promove a ocorrência do carcinoma medular da tireoide (CMT) e feocromocitoma nesses indivíduos. Elas podem ser divididas em MEN2A, caso ocorram alterações na paratireoide, ou MEN2B se houver outras alterações antropométricas, como o habitus marfanoide. O CMT e o feocromocitoma podem ocorrer isoladamente na forma esporádica, sem que exista risco para outros membros da família. Todos os pacientes com essas doenças devem ser investigados através do rastreamento genético para identificar mutações nos genes MEN1 ou RET para afastar, respectivamente, as MEN1 e MEN2. O Prof. Dr. Rui Maciel, do Laboratório de Endocrinologia Molecular e Translacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), elaborou há alguns anos um projeto de pesquisa para estudar os casos de MEN2 e CMT que, resumidamente, chamamos de BRASMEN (seguindo o primeiro consórcio para a avaliação dessa doença, que ocorreu na Europa e foi chamado de EUROMEN). O projeto teve patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o que permitiu a formação de um consórcio brasileiro que abrangeu vários estados (tabela 2). Machens e cols. publicaram um artigo com enfoque na distribuição geográfica das famílias com variantes patogênicas (mutações) no gene RET1. Nesses estudos, os autores discutem dois trabalhos publicados pelo BRASMEN, onde duas grandes famílias brasileiras com MEN2A são descritas2,3. O BRASMEN foi um projeto que permitiu a colaboração entre vários centros brasileiros especializados no tratamento de indivíduos e

famílias com CMT e MEN. Alguns centros tradicionais contribuíram com uma base sólida na avaliação e seguimento desses pacientes, enquanto os novos centros permitiram expandir o conhecimento para áreas pouco assistidas do Brasil. O artigo compilando a maior parte dessa experiência está em fase de submissão e será publicado em breve. Nas MEN1, apesar de não existir uma correlação genótipo-fenótipo, o hiperparatireoidismo costuma ser a primeira doença a surgir. Já nas MEN2, existe uma correlação genótipo-fenótipo, o que gera certa variabilidade de fenótipos, sendo que alguns podem ser considerados um sinal de alerta. A doença de Hirschsprung pode ser considerada um sinal para alguns casos hereditários de MEN2A, enquanto os neuromas mucosos podem sinalizar a presença das MEN2B. No entanto, a melhor forma de avaliar os casos familiares é através do rastreamento genético para mutações no gene RET, no caso das MEN2A e MEN2B. O BRASMEN permitiu a colaboração entre os centros existentes e a formação de novos núcleos para a avaliação dessas doenças. Por serem doenças raras, a busca por centros de referência deve ser estimulada pelos colegas endocrinologistas, onde existem equipes com experiência em diagnosticar e tratar os casos esporádicos e reconhecer e aconselhar os casos familiares. Problemas regulatórios têm dificultado o acesso a alguns desses centros, mas devemos estimular o correto encaminhamento dos pacientes para esses serviços, garantindo a melhor assistência para os indivíduos acometidos por essas síndromes e o suporte adequado para as famílias. 1. Machens A, Lorenz K, Weber F, Dralle H. Geographic epidemiology of medullary thyroid cancer families: unearthing European ancestral heritage. Endocr Relat Cancer. 2018;25(4):L27-L30. 2. Cunha LL, Lindsey SC, Franca MI, et al. Evidence for the founder effect of RET533 as the common Greek and Brazilian ancestor spreading multiple endocrine neoplasia 2A. Eur J Endocrinol. 2017;176(5):515-519. 3. Martins-Costa MC, Cunha LL, Lindsey SC, et al. M918V RET mutation causes familial medullary thyroid carcinoma: study of 8 affected kindreds. Endocr Relat Cancer. 2016;23(12):909-920.


Atualizando Tabela 1. Compilação de fenótipos presentes nas neoplasias endócrinas múltiplas (a lista abaixo é apenas um resumo, não englobando todos os fenótipos presentes nas síndromes) Fenótipos Síndromes Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 1

Hiperparatireoidismo Adenomas Hipofisários Tumores Neuroendócrinos Pancreáticos Tumores Neuroendócrinos – Tímicos, Brônquicos e Gástricos

Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A

Carcinoma Medular da Tireoide Feocromocitoma Hiperparatireoidismo

Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2B

Carcinoma Medular da Tireoide Feocromocitoma Habitus Marfanoide Neuromas Mucosos Ganglioneuromatose Intestinal

Von Hippel-Lindau

Carcinoma de Células Renais Hemangioblastoma de SNC Angioma de Retina Cistos Viscerais Feocromocitoma Tumores Neuroendócrinos Pancreáticos

Complexo de Carney

Mixomas Cardíacos, Cutâneos ou Mamários Lesões Pigmentadas Tipo Sardas Tumores Testiculares Síndrome de Cushing Associada com PPNAD

Neurofibromatose Tipo 1

Neurofibromas Manchas Café com Leite Feocromocitoma Hiperparatireoidismo Tumores Hipotalâmicos ou do Nervo Óptico Nódulos de Lisch

McCune-Albright

Hiperfunção de uma ou mais Glândulas Displasia Fibrosa Manchas Café com Leite

Tabela 2. Centros brasileiros associados para a realização do projeto BRASMEN em ordem alfabética CENTROS - BRASMEN HCB - Hospital de Câncer de Barretos HGF - Hospital Geral de Fortaleza - CE HSRC - Hospital Santa Rita de Cássia – ES ICESP - Instituto do Câncer do Estado de São Paulo / Hospital das Clínicas – Universidade de São Paulo (USP) IEDE - Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione - RJ INCA - Instituto Nacional de Câncer – RJ SEMPR – UFPR - Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná UFC - Hospital Universitário Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará UFMG - Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais UFRGS - Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Universidade Federal do Rio Grande do Sul UNESP - Hospital das Clínicas de Botucatu - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” UNICAMP - Hospital de Clínicas - Universidade Estadual de Campinas UNIFESP - Hospital São Paulo - Universidade Federal de São Paulo USP-RP - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo

5


Palavra de Especialista

Por Dr. Marcio Mancini*

Microbiota intestinal

Efeito no metabolismo do hospedeiro

O

trato gastrointestinal é um ambiente rico em nutrientes que propicia diversidade de espécies de bactérias e riqueza de seus genes (que complementam o genoma humano). A tradução disso é uma relação harmônica mutualística de simbiose da microbiota intestinal (MI) com o hospedeiro (eubiose), funcionando coletivamente como um órgão metabólico. A composição da MI pode sofrer influência da genética (isto é, famílias - sobretudo gêmeos - têm MI parecida), tipo de parto (a diversidade é maior no parto vaginal), alimentação (uma dieta rica em fibras promove aumento de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta – AGCC – e uma dieta rica em gordura, de bactérias produtoras de lipopolissacárides – LPS) e remédios (como antibióticos e inibidores de bomba de prótons). A MI participa de funções muito importantes para o hospedeiro humano, como regular o metabolismo, manter uma barreira de mucosa com junções intercelulares competentes, modular a resposta imune e suprimir o crescimento de patógenos através de colonização de resistência. Pessoas com obesidade, síndrome metabólica, resistência à insulina e diabetes tipo 2 (DM2) hospedam uma MI em disbiose, que produz menos AGCC (acetato, butirato, propionato) e mais LPS, que podem ser fatores de perpetuação de doenças. Os AGCC agem em receptores FFAR 2/3 expressos nas células L e estimulam a produção de glucagon-like peptide 1 (GLP-1). Um estudo em humanos com suplementação de propionato resultou em diminuição de apetite e aumento de GLP-1 e outros peptídeos sinalizadores intestinais de saciedade. A injeção de acetato em roedores alterou a expressão de neuropeptídeos hipotalâmicos, acarretando redução da massa adiposa e efeitos metabólicos. Estudos de transferência de MI entre roedores e/ou humanos demonstram que a colonização bacteriana pode transferir consigo

também o fenótipo do doador. Por exemplo, a consequência da transferência entre doadores humanos magros e obesos, e receptores camundongos gnotobióticos (ou germ-free) é, respectivamente, a manutenção de um peso saudável e o aumento da gordura corporal. Depois da introdução de técnicas de sequenciamento, houve um crescimento exponencial de publicações sobre a MI, de cerca de 10 por ano no início do século 21 para mais que 10 por dia desde 2016. Edições inteiras de revistas como Nature e Science foram dedicadas ao tema. As teses de doutorado de duas alunas que oriento objetivam avaliar a MI (pelo sequenciamento do gene 16S a partir do DNA extraído de amostra de fezes) em mulheres com obesidade, eutrofia, anorexia nervosa e magreza constitucional com um estudo de design transversal (com fomento do Grupo Fleury e da Fapesp nº processo 2017/05305-5) em colaboração com o Instituto de Medicina Tropical, Laboratório de Investigações Médicas LIM-18 da FMUSP e Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP. Enquanto a endocrinologista Paula Waki Rosa avalia a relação da MI com parâmetros antropométricos, metabólicos, psicológicos e de consumo alimentar, a nutricionista Ariana Ester Fernandes analisa a influência da MI através dos AGCC e a metilação de um painel de genes envolvidos na sinalização desses ácidos graxos, e os que apresentarem metilação diferenciada terão a expressão gênica também avaliada (por PCR em tempo real). Um terceiro projeto, em colaboração do Grupo de Obesidade com o Serviço de Endoscopia, avalia o transplante de MI em pacientes com obesidade e síndrome metabólica. Muitos outros estudos, usando técnicas de sequenciamento, selecionam alguns desses diversos parâmetros relacionados à MI como possíveis alvos de intervenções para tratamento das doenças metabólicas. Só o futuro dirá. Referências

CÉREBRO Diminui saciedade MICROBIOMA INTESTINAL Composição alterada Fermentação alterada Maior retenção de energia

1. Adrian TE et al. Rectal taurocholate increases L cell and insulin secretion, and decreases blood glucose and food intake in obese type 2 diabetic volunteers. Diabetologia (2012) 55:2343–7. 2. Ang Z et al. FFAR2-FFAR3 receptor heteromerization modulates short-chain fatty acid sensing. FASEBJ. 2018:32,289–303.

FÍGADO Aumenta ácidos graxos de cadeia curta Aumenta inflamação

TECIDO ADIPOSO Aumenta incorporação de triglicérides Aumenta inflamação

MÚSCULO Diminui oxidação de ácidos graxos

3. Cani PD et al. Metabolic endotoxemia initiates obesity and insulin resistance.Diabetes. 2007;56:1761–72. 4. Chambers ES et al. Effects of targeted delivery of propionate to the human colon on appetite regulation, body weight maintenance and adiposity in overweight adults. Gut2015;64:1744–4. 5. Frost G et al. The short-chain fatty acid acetate reduces appetite via a central homeostatic mechanism. Nat Comm. 2014;5:3611. 6.

Mancini MC. Avaliação da microbiota intestinal e de seu impacto metabólico em mulheres com obesidade, eutrofia, magreza constitucional e anorexia nervosa (01/03/2018-29/02/2020). Auxílio à Pesquisa – Regular – ProcessoN.o17/05305-5, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP). Secretaria da Saúde (São Paulo - Estado). São Paulo, SP, Brasil.

7. Meijnikman AS et al. Gut microbiota and human metabolic disease – evaluating causality of gut microbiota in obesity and diabetes in humans. Endocrine Rev. 2017;DOI: 10.1210/er.2017-00192. 8. Pussinen PJ et al. Endotoxemia is associated with an increased risk of incident diabetes. DiabCare. 2011; 34:392–7. 9. Ridaura VK, et al. Cultured gut microbiota from twins discordant for obesity modulate adiposity and metabolic phenotypes in mice. Science 2013;341:doi:10.1126/science.1241214.

EPITÉLIO

10. Turnbaugh PJ, et al. A core gut microbiome in obese and lean twins. Nature. 2009; 457(7228):480–4.

Aumenta permeabilidade do epitélio

11. Turnbaugh PJ, et al. Short-chain fatty acids stimulate glucagon-like peptide-1 secretion via the g-protein–coupled receptor FFAR2. Diabetes. 2012;61:364–71.

Diminui PYY/GLP-1 das células L

12. VriezeA et al. Transfer of intestinal microbiota from lean donors increases insulin sensitivity in individuals with metabolic syndrome. Gastroenterol. 2012;143:913-6.

*Dr Marcio C. Mancini é chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do HC-FMUSP e autor/coordenador do Tratado de Obesidade


Informe-se

T3S afeta a homeostase de osteoblastos humanos Estudo recebeu Prêmio Jovem Cientista Apresentação Oral - (Básico) no EBT 2018

Por Bruna Moretto Rodrigues (Orientadora: Dra. Célia Regina Nogueira)

MODULAÇÃO DE VIAS MOLECULARES PELO HORMÔNIO TRIIODOTIRONINA (T3) EM CONCENTRAÇÃO SUPRAFISIOLÓGICA EM OSTEOBLASTOS HUMANOS IDENTIFICADAS A PARTIR DE RNASEQ

Os osteoblastos, células efetoras no metabolismo ósseo, atuam no controle do processo de remodelação óssea, promovendo a formação do osso e modulando a osteoclastogênese/reabsorção, sendo assim ponto-chave no desenvolvimento da patologia da osteoporose. Os mecanismos moleculares de ação do triiodotironina (T3) no tecido ósseo em geral ainda são pouco elucidados, mas sabe-se que o T3 atua diretamente em osteoblastos. Nesse contexto, investigamos, por meio da análise do transcriptoma global (RNAseq), as ações do T3 suprafisiológico (T3S) – mimetizando o quadro de hipertireoidismo – em osteoblastos humanos cultivados in vitro. Verificamos que a condição T3S modulou a expressão de 659 genes, e a maioria (55,5%) sofreu aumento de expressão. Muitos deles estão envolvidos com vias de sinalização intracelular e, frente às descobertas, nós propomos um modelo inovador das vias moleculares de ação do T3S em osteoblastos humanos. O T3S modula vias de mecanotransdução (adesões célula-matriz extracelular – priorizando adesões focais – e cisalhamento de fluidos) e vias bioquímicas: prostaglandinas, calmodulina - associadas às vias de cálcio - e TGF-ß associada à via BMP. Vimos que o T3S modula genes do desenvolvimento ósseo e diferenciação e morfogênese das células. Além disso, ele regulou negativamente processos de proliferação celular e ossificação e a via das BMPs, que atuam na diferenciação e desenvolvimento das células. Unindo essas informações ao fato de que as vias TGF-ß, cálcio e prostaglandinas - identificados no estudo - são moduladores da reabsorção óssea, o estudo nos aponta mecanismos pelos quais o T3S afeta a homeostase de osteoblastos humanos, elucidando fatores que podem favorecer o desequilíbrio da remodelação óssea e contribuir para o desenvolvimento da osteoporose.

Fusão AGK-BRAF em carcinoma papilífero da tireoide pediátrico Trabalho ganhou o Prêmio Jovem Cientista Apresentação Oral - (Clínico) no EBT 2018 Por Luiza Sisdelli (Orientadora: Dra. Janete M. Cerutti)

Alterações genéticas que ativam a via MAPK têm sido associadas à patogênese do carcinoma papilífero da tireoide (CPT). BRAF é o mais prevalente oncogene e importante alvo terapêutico. Em adultos, a mutação V600E é a mais frequente (40%). Entretanto sua ativação pode ocorrer via fusão in frame do domínio quinase de BRAF a domínios 5’ de outros genes. Nosso grupo descreveu, pela primeira vez na literatura, a fusão AGK-BRAF em 3/30 casos de carcinomas pediátricos esporádicos (Cordioli et al., 2016b; Figura 1); entre os positivos, todos tinham extensão extratireoideana e a maioria apresentava metástase a distância e tumores multicêntricos. Figura 1. Triagem para a presença do oncogene de fusão AGK-BRAF em CPT pediátrico esporádico (A) Casos positivos mostraram a faixa de tamanho adequada (113 pb), como mostrado no controle positivo (C+) (B) Sequenciamento de Sanger confirmando a presença de AGK-BRAF (C) FISH break-apart confirmando a quebra de BRAF. Núcleos exibindo rearranjo mostram a presença de um sinal vermelho e verde (seta vermelha), além do sinal amarelo ou vermelho-verde (seta branca). Figura retirada de Cordioli et al. 2016b

Nesse estudo multicêntrico, tivemos como objetivo avaliar a prevalência de alterações em BRAF em uma casuística expandida de CPT pediátrico. Para isso, realizamos screening de mutação V600E no gene BRAF por sequenciamento. Para screening de rearranjos envolvendo BRAF, utilizamos a metodologia de FISH break-apart (BA) e a análise da fusão AGK-BRAF foi realizada por RT-PCR. Alterações em BRAF foram identificadas em pacientes pediátricos com CPT, sendo AGK-BRAF a alteração mais prevalente. Figura 1. Representação dos genes e funções modulados pelo T3S. 659 genes foram diferencialmente expressos (DE), sendo 293 genes com diminuição de expressão (DOWN) e 366 com aumento (UP). Os genes UP (55,5%) estão envolvidos com 30 termos/mecanismos funcionais, destacando-se: metabolismo ósseo, vias de sinalização mecânicas (adesão célulamatriz extracelular e cisalhamento de fluidos) e vias de sinalização bioquímicas (prostaglandinas, calmodulina, TGF-ß/BMP)

Nossos dados sugerem que AGK-BRAF ocorre preferencialmente em pacientes pediátricos mais jovens, estando associada a características que influenciam a agressividade da doença. Assim, é um potencial indicador de prognóstico para tumores pediátricos.

7


SBEM-SP no Sábado

Diagnóstico e tratamento da doença de Cushing

Aspectos práticos foram debatidos no SBEM-SP no Sábado

A combinação de opções terapêuticas é, muitas vezes, necessária para alcançar o controle ou remissão da DC. Apesar de desafiador em grande parte dos casos, o tratamento adequado pode melhorar a qualidade de vida do paciente e diminuir a alta morbi-mortalidade dessa condição.” Foto: iStock

A

Reunião de Atualização Clínica, mais conhecida como SBEM-SP no Sábado, de 5 de maio, trouxe atualizações sobre neuroendocrinologia. A Dra. Silvia Regina Correa da Silva foi a responsável pelo tema Aspectos práticos no diagnóstico e tratamento da doença de Cushing, e ela traz um sumário sobre o que foi apresentado durante o evento. Confira abaixo. “A síndrome de Cushing (SC) endógena possui um espectro clínico variável e é associada ao aumento de mortalidade (duas a cinco vezes). Na suspeita clínica da SC, e após a exclusão do uso de glicocorticoides exógenos, deve-se confirmar laboratorialmente o hipercortisolismo e, posteriormente, classificar a SC em ACTH-dependente ou ACTHindependente através da dosagem de ACTH. A doença de Cushing (DC) forma ACTH-dependente causada por um adenoma hipofisário (na maioria das vezes < 1 cm), representando 75% de todas as causas de SC. O achado de adenomas maiores que 0,6 cm na ressonância magnética (RM) de hipófise confirma a DC. No entanto, se o adenoma for menor que 6 mm ou não for visualizado pela RM, deve-se realizar o cateterismo de seios petrosos inferiores. O tratamento de escolha da DC é a cirurgia transesfenoidal, que pode levar à remissão da DC em 40% a 90% dos casos. Se houver insucesso ou impedimento cirúrgico, outras opções terapêuticas podem ser utilizadas, como tratamento farmacológico, radioterapia e/ ou adrenalectomia bilateral. O tratamento farmacológico pode resultar na inibição da secreção de ACTH e diminuição do adenoma hipofisário (cabergolina, pasireotide), inibição da esteroidogênese adrenal (cetoconazol, metirapona, etomidato) ou bloqueio do receptor glicocorticoide (mifepristone).

Em Debate

Óleo de lavanda está associado à puberdade precoce Endocrinopediatras fazem alerta

N

ovo estudo apresentado no ENDO 2018 fornece evidências para suposta ligação entre ginecomastia pré-puberal e exposição regular ao óleo de lavanda ou óleo de tea tree (melaleuca), ao relatar que os principais químicos nesses óleos agem como desreguladores endócrinos. Lavanda e óleo de melaleuca estão entre os chamados óleos essenciais, que se tornaram populares como alternativas para tratamento médico, higiene pessoal e produtos de limpeza e aromaterapia. Produtos como sabonetes, loções, xampus, produtos para cabelo, colônias e detergentes para roupa contêm tais substâncias.

competem ou prejudicam os hormônios que controlam as características masculinas, o que poderia afetar a puberdade e o crescimento.

Ginecomastia masculina ocorrendo antes da puberdade é relativamente rara, mas uma quantidade crescente de casos foi relatada com a exposição tópica ao óleo de lavanda e melaleuca, e a doença desapareceu depois que os meninos pararam de usar os produtos contendo óleo, segundo pesquisadores. Foram encontradas evidências laboratoriais de que esses óleos têm propriedades estrogênicas (semelhantes ao estrogênio) e antiandrogênicos (testosterona inibidora), o que significa que eles

“Importante salientar que ainda são pesquisas, mas que depende muito do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual. É preciso ficar alerta, ler os rótulos dos produtos e investigar sempre que houver queixa de ginecomastia com possível etiologia de desregulador endócrino em crianças fora do período pré puberal, ou seja, nas quais não se espera o início da puberdade. Mas vale pesquisar outras causas também”, alerta a Dra. Angela Spinola, diretora da SBEM-SP.

Nos testes da pesquisa, as substâncias químicas demonstraram propriedades estrogênicas e/ou antiandrogênicas variadas, com algumas mostrando alta, pouca ou nenhuma atividade. Para os estudiosos, essas mudanças são consistentes com as condições hormonais endógenas ou corporais que estimulam a ginecomastia em meninos na pré-adolescência.


Em Debate

Microcarcinoma papilífero da tireoide

U

ma das grandes novidades do Encontro Brasileiro de Tireoide deste ano foi a sessão interativa Julgamento simulado: o microcarcinoma de tireoide é acusado de ser agressivo. Do lado da acusação, esteve o Dr. Claudio Roberto Cernea, da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Na defesa, Dra. Laura Ward, vice-presidente da SBEM-SP.

Foto: iStock

Culpado ou inocente?

O debate trouxe várias referências científicas de ambos os lados, e a interação com o público, que pôde acompanhar os argumentos da defesa e da acusação, foi a característica marcante da atividade. Para Dr. Cernea, fatores como idade do paciente e multicentricidade devem ser levados em consideração para avaliar a potencial agressividade do microcarcinoma, tanto no aspecto de invasão de estruturas adjacentes quanto na propensão para se disseminar por metástases linfonodais. “Na verdade, existem indícios de que alguns microcarcinomas papilíferos de tireoide podem apresentar um potencial de agressividade ainda não totalmente compreendido, particularmente em indivíduos mais jovens”, conta Dr. Cernea. Já Dra. Laura mostrou evidências de que grande parte dos tumores acaba não evoluindo clinicamente. “Cerca de 999 de cada 1.000 casos nunca evoluem clinicamente. Não devemos operar todo mundo. É preciso ter calma e conversar com o paciente para avaliar se estamos diante de um tumor que vai evoluir ou da grande maioria, que nunca evolui”, comenta ela. O aplicativo do evento registrou inúmeras perguntas dos congressistas para definir o veredicto: afinal, o que fazer com o microcarcinoma papilífero da tireoide: cirurgia ou acompanhamento? Dois terços dos votantes o declararam culpado (183 votos no total, sendo 126 para culpado e 57 para inocente), ou seja, optaram pelo seguimento cirúrgico. “Na minha opinião, esse julgamento vai ter outro resultado muito em breve. Acumulam-se evidências de que não operar seja melhor para grande número de pacientes”, declara Dra. Laura.

Já para Dr. Cernea, o resultado espelhou o entendimento da plateia quanto ao risco potencial de microcarcinomas papilíferos de tireoide apresentarem risco real para seus portadores. “De fato, devido à escassez de estudos confirmando os achados dos professores Akira Miyauchi e Yasuhiro Ito e que avaliem o papel dos fatores moleculares no estabelecimento da expectativa prognóstica desses tumores em pacientes mais jovens, a recomendação da conduta expectante para todos os microcarcinomas papilíferos ainda é prematura”, conclui.

35º CBEM - Convidamos você a votar na cidade de São Paulo! Juntos somos mais fortes

S

ão Paulo é a cidade candidata da SBEM-SP para receber o 35º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, que será realizado em 2022. Os motivos da candidatura são inúmeros, como a ampla rede hoteleira, integração da malha aérea e do transporte público, além da riqueza da gastronomia e eventos culturais, que atraem mais de 13 milhões de turistas por ano. “A SBEM-SP, maior Regional do País com aproximadamente 1.500 associados, tem tradição na organização de eventos regionais e nacionais de sucesso, como o COPEM, hoje reconhecido como um dos mais importantes eventos científicos da Endocrinologia nacional, e o CBAEM. Queremos superar expectativas e desafios e continuar contribuindo com a Endocrinologia nacional”, ressalta o presidente da SBEM-SP, Dr. José Augusto Sgarbi. Várias entidades já apoiam a candidatura da cidade - entre elas, a

Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado de São Paulo (ABIH-SP), o São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB) e a companhia aérea Azul, que farão parcerias para viabilizar descontos e facilidades aos congressistas. A presidente do Comitê Executivo do CBEM, Dra. Marise Lazaretti Castro, acredita que, após 20 anos desde o último Congresso realizado em São Paulo, em 1998, chegou a oportunidade de mostrar a hospitalidade e capacidade de trabalho dos paulistanos. “Queremos fazer do CBEM 2022 um evento memorável e grandioso, à altura da nossa cidade e da nossa SBEM. A escolha será feita pelo Conselho Deliberativo, que se reunirá durante o Congresso em Belo Horizonte. Precisaremos do empenho de todos os associados paulistas e simpatizantes nessa campanha. Pedimos o seu apoio para angariar votos a nosso favor, para que consigamos trazer o CBEM para São Paulo em 2022! Agora é a nossa vez!”

9


Giro Endócrino

Congresso Mundial de Osteoporose Microbiota e anticorpo monoclonal estiveram na pauta

“1. Um balanço do FRAX depois de 10 anos de uso ainda está em constante aprimoramento, e o estudo britânico SCOOP mostrou que sua utilização como screening ajudou a diminuir as fraturas de quadril. Futuramente, devem ser incorporados em seu algoritmo o diabetes, as quedas e a sarcopenia. 2. Falou-se bastante na sarcopenia. Vale ressaltar que o músculo forma um binômio com o osso, e uma intervenção que melhore a performance muscular também tem efeito positivo na saúde óssea. O uso de suplementos, vitaminas e micronutrientes teve pouco impacto, e o exercício continua sendo o principal estímulo para melhorar a performance e massa muscular. 3. A microestrutura óssea através de técnicas como a HR-pQCT (high resolution peripheral quantitative computed tomography) foi abordada em diversas situações como o diabetes, osteoporose e doença renal crônica.

4.

A microbiota tem papel na manutenção da massa óssea. Depleção estrogênica diminui a proteção, aumentando a permeabilidade intestinal com expansão da inflamação, e probióticos restauram a permeabilidade intestinal.

5. OSSURE LOEP é um material de implante que é reabsorvido e osso é formado em seu lugar - há resultados bastante interessantes no colo de fêmur. 6. Por fim, foram apresentados dados clínicos animadores sobre o uso do anticorpo monoclonal contra o FGF-23 no raquitismo hipofosfatêmico.” Foto: arquivo pessoal

D

iretor da SBEM-SP, Dr. Sérgio Setsuo Maeda esteve presente no World Congress on Osteoporosis, evento da International Osteoporosis Foundation (IOF) que ocorreu entre 19 e 22 de abril, na Cracóvia (Polônia). Confira os seis destaques de acordo com o Dr. Maeda.

Charlles Moura, Pérola Plapler, Sergio Maeda, Marise L. Castro, Cristiano Zerbini.

De Olho na Pesquisa

TOTG em mulheres com SOP

Trabalho fez parte do ENDO 2017 Por Dra. Larissa Gomes Garcia

TESTE ORAL DE TOLERÂNCIA À GLICOSE É MAIS SENSÍVEL DO QUE HEMOGLOBINA GLICADA PARA DIAGNÓSTICO DE PRÉ-DIABETES E DIABETES EM MULHERES COM SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICÍSTICOS

A

síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma doença prevalente, associada a um risco aumentado de pré-diabetes (pré-DM) e diabetes mellitus tipo 2 (DM2). O teste oral de tolerância à glicose (TOTG) é recomendado para rastreio de pré-DM/DM2 na SOP. Contudo o TOTG é dispendioso de tempo, dificultando sua ampla realização. Em 2010, a American Diabetes Association instituiu a hemoglobina glicada (A1c) para diagnóstico de pré-DM/DM2 na população geral. Dentro desse contexto, avaliamos a performance da A1c, glicemia de jejum (GJ) e glicemia em 120 minutos (G120) após TOTG-75g no rastreio de pré-DM/DM2 nas pacientes com diagnóstico de SOP que iniciaram seguimento em nosso ambulatório. MÉTODOS: Incluímos 48 pacientes com SOP pelos critérios de Rotterdam, idade média de 27,8 anos e TOTG-75g e dosagens de A1c realizados no estudo inicial. Avaliação de concordância entre GJ, G120 e A1c foi calculada pelo índice kappa. Correlações entre A1c e G120 com IMC, LDL, HDL e TT foram calculadas utilizando teste de Spearman.

RESULTADOS: Sobrepeso e obesidade foram encontrados em 77% das pacientes. Dezoito foram diagnosticadas com pré-DM pelo TOTG: uma pela GJ, 15 pela G120 e duas pelos dois testes. Apenas 2/18 das pacientes possuíam A1c entre 5,7% e 6,4%. A sensibilidade da A1c, GJ e G120 no diagnóstico de pré-DM foi 11%, 17% e 83%, respectivamente. Três pacientes foram diagnosticadas com DM2 pelo TOTG através da G120 e apenas 1/3 possuía A1c > 6,5% e 2/3 apresentavam A1c entre 5,7-6,4%. A sensibilidade da A1c e G120 para diagnóstico de DM2 foi de 33% e 100%, respectivamente. A1c e GJ apresentaram baixa concordância, em contraste com a G120, que apresentou boa concordância no diagnóstico de pré-DM/DM2. A1c e G120 demonstraram correlação negativa com HDL e G120 se correlacionou positivamente com IMC e LDL. A1 e G120 não apresentaram correlação com TT. Concluímos que 43,8% das pacientes foram diagnosticadas com pré-DM/DM2. A1c não foi eficiente como ferramenta de screening para pré-DM/DM2 nessa coorte brasileira de SOP. G120 demonstrou boa sensibilidade como teste de rastreio e se correlacionou com significância com HDL, LDL e IMC, reforçando seu papel como marcador de risco metabólico. Reforçamos que o TOTG deve ser realizado em todas as mulheres com SOP. Esse trabalho foi feito com a ajuda das alunas de doutorado Raiane Pina Crespo e Thais Rocha, ambas da USP.


Informação ao Paciente Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP)

Foto: iStock

TESTE DO PEZINHO

Informação ao Paciente

Você sabe o que é o teste do pezinho?

Entenda a importância desse exame

O teste do pezinho é de extrema importância e deve ser realizado entre o terceiro e, no máximo, quinto dia após o nascimento do bebê. Seu objetivo é diagnosticar precocemente - na fase sintomática - doenças que causam complicações graves, que vão desde retardo mental até a morte. O exame faz parte do Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), que atualmente representa um dos principais avanços em medicina preventiva no Brasil, sendo reconhecido pelos Centers for Disease Control and Prevention (EUA) como um dos programas de saúde pública de maior sucesso do século 21. A triagem neonatal é um processo complexo, pois não se restringe apenas à realização dos testes para diferentes doenças, mas também envolve a busca rápida dos bebês com testes positivos para a confirmação diagnóstica da doença, por meio de exames mais específicos, e início do tratamento no menor tempo possível e acompanhamento por uma equipe multiprofissional. Ainda é preciso aprimorar o Programa para elevar sua cobertura para 100% dos recém-nascidos no País, através da conscientização da população e dos profissionais de saúde, explicando a importância do exame, assim como a época ideal de sua realização. O teste do pezinho deve ser feito, sem falta, entre o terceiro e quinto dia de vida do recém-nascido.

Foto: iStock

As doenças rastreadas pelo teste do pezinho • Hipotireoidismo congênito: com o diagnóstico tardio, a criança terá retardo mental grave chamado de cretinismo; • Fenilcetonúria: doença rara, congênita e genética, que afeta o sistema neurológico; • Anemia falciforme: doença do sangue causada por uma alteração genética no formato das hemácias, diminuindo sua capacidade de transportar oxigênio para as células do corpo e gerando sintomas como dor generalizada, fraqueza e apatia; • Fibrose cística: conhecida também como mucoviscidose, é uma doença genética, hereditária, autossômica e recessiva, ou seja, passa de pai/mãe para filho(a). Ela afeta os aparelhos digestivo e respiratório e as glândulas sudoríparas;


Informação ao Paciente Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP)

TESTE DO PEZINHO • Hiperplasia adrenal congênita: doença que afeta os hormônios essenciais da vida, como cortisol e aldosterona. Sem o tratamento precoce, leva o bebê à desidratação grave nos primeiros dias de vida, frequentemente evoluindo para óbito; • Deficiência de biotinidase: doença metabólica hereditária que pode causar convulsões, surdez, ataxia, hipotonia, dermatite, queda de cabelo e atraso no desenvolvimento. Desde junho de 2014, todos os estados brasileiros estão habilitados a realizar o teste, tanto no sistema público de saúde quanto na rede particular.

Como é feito? Com uma agulha bem fina, é retirado o sangue do calcanhar do bebê e as gotinhas são colocadas em um papel, que segue para os laboratórios públicos ou privados habilitados a realizar o teste. As maternidades da rede particular fazem a coleta do material. Já no sistema público, isso não acontece em todos os municípios, e a mãe precisa ficar atenta ao prazo limite (até o quinto dia após o nascimento) para levar o recém-nascido a uma unidade básica de saúde para colher o sangue.

Onde fazer Sistema público de saúde: as unidades básicas de saúde (UBS) realizam a coleta entre o terceiro e quinto dia após o nascimento. Rede particular: todas as maternidades da rede particular realizam o teste do pezinho, dentro do período estipulado. Atenção: o importante não é somente coletar o sangue, mas também cobrar a liberação rápida dos resultados. As mães devem exigir o resultado do teste por escrito e não apenas aceitar ouvir que está tudo bem se o bebê não foi chamado para repetição.

Importante!

Teste positivo: o que fazer?

Foto: iStock

Uma vez que o resultado tenha dado positivo para uma das doenças que fazem parte do rol do teste do pezinho, é preciso tirar a prova com um novo teste comprobatório. Mesmo que seja difícil e assuste os pais, o resultado positivo nem sempre quer dizer que a criança desenvolverá a doença em questão. Nesses casos, o teste deve ser repetido rapidamente com o acompanhamento do pediatra, que deve ficar atento às manifestações clínicas da doença.

Dia Nacional do Teste do Pezinho

As mães geralmente confundem a imagem digitalizada do pezinho com o teste. São coisas muito diferentes. A foto do pezinho é só para a identificação do bebê na maternidade.

Todos os anos, em 6 de junho, é comemorado o Dia Nacional do Teste do Pezinho. Dra. Tania Bachega, médica da SBEM-SP que acompanhou a reformulação do PNTN no Ministério da Saúde, ressalta que, no Brasil, nascem quase três milhões de crianças por ano e a cobertura da triagem nos recém-nascidos vai depender de cada estado. Em São Paulo, são cerca de 50 mil crianças nascidas, e como a cobertura de recém-nascidos triados gira em torno de 90% a 95%, está quase na totalidade. Mas, infelizmente, há ainda uma grande falta de conhecimento da população.

Fontes: Dra. Tania Bachega e Dra. Léa Maria Zanini Maciel, médicas endocrinologistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP)

Aviso importante: a informação contida neste material não deve ser usada para diagnosticar ou prevenir doenças sem a opinião de um especialista. Antes de iniciar qualquer tratamento, procure um médico.

MaiSBEM - Edição nº37  
MaiSBEM - Edição nº37  
Advertisement