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RETRATOS

Na Fábrica de Braço de Prata (ao Poço do Bispo, em Lisboa), há um fotógrafo a erguer um original e ambicioso projecto documental e expositivo.Para documentar a vida de uma sociedade, Fabrice Ziegler propõe-se recuperar aquele que foi o primeiro métier dos fotógrafos:fazer retratos. TEXTO Sarah Adamopoulos

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FOTOGRAFIA Clément Darrasse

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fotógrafo ao seu dispor 64 » noticiasmagazine 20.ABR.2008


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á quem acabe a tirar o retrato por acaso, porque foi à Fábrica de Braço de Prata a um lançamento de um livro, por exemplo. Ou porque foi lá comprar um livro raro ou já fora do circuito comercial das livrarias convencionais – trata-se de um espaço que resulta da fusão de dois projectos livreiros, a Ler Devagar e a Eterno Retorno, anteriormente sediadas no Bairro Alto e dedicando-se ambas ao mercado de fundos de livros. Ou ouvir um concerto de jazz.Ou participar numa Roda de Choro. Ou comprar produtos do Comércio Justo e trapos em segunda mão. Ou visitar Michel na sua sala denominada Pétaouchnock – «o lugar de que sempre se falou e que nunca existiu». Ou só beber uma cerveja ou um chá de chocolate. Ou ouvir uma conferência. Ou ver uma exposição de fotografia ou de pintura. Ou assistir a um espectáculo de teatro de rua feito por acrobatas e outros habilidosos cheios de talento. Ou ver um filme de Tarkovski ou de Ingmar Bergman, na sala chamada Visconti. Ou dançar pela noite fora debaixo da enorme tenda, entretanto montada na zona exterior da antiga fábrica de espingardas, morteiros, metralhadoras e demais parafernália militar. Um lugar excepcional, irrepetível, infranchisável, único em Lisboa, onde o francês Fabrice Ziegler encontrou o espaço e o contexto para produzir um happening alargado no tempo chamado Retratos à Sexta. Um ano de retratos Um happening tornado de tal forma popular, que há também quem vá à Fábrica de Braço de Prata de propósito para fazer o retrato, no estúdio ali montado (de 15 em 15 dias, às sextas-feiras, entre as 21h30 e as 02h00) pelo fotógrafo Ziegler. Imagens que os retratados podem ver imediatamente após a sessão, no computador de Fabrice Ziegler, e 48 horas depois na internet, no site www.retratosasexta.blogspot.com, podendo usá-las para

fins restritos – mostrar aos amigos, à família ou imprimir para pôr na parede da sala lá de casa. Imagens que alguns dos retratados por Ziegler desde Outubro passado poderão voltar a ver no início de Outubro próximo, no espaço da Fábrica. «Cerca de um ano depois de ter iniciado o projecto, vou expor uma grande parte das fotografias aqui na Fábrica, num formato relativamente pequeno, de forma a poder mostrar muitas. Vou ter de escolher, claro, não vai ser possível incluir todas [nesta data mais de cinco mil]. Em 2009, farei outra exposição, também em Lisboa, mas num espaço ainda por identificar. Essa terá outras características, construída com a ajuda de curadores, integrando em princípio cerca de quarenta imagens de grandes dimensões, no máximo sessenta. Estou a negociar com a Câmara Municipal de Lisboa a cedência de um espaço para acolher esta exposição, e espero também ter alguns parceiros privados.» O primeiro métier do fotógrafo Em 1991 Ziegler estava no Gard, região do Sul de França, quando lançou mãos ao projecto de retratar as populações rurais de zonas com uma densidade populacional a decrescer velozmente, em favor de uma desertificação, que na Europa constitui desde há muito um flagelo generalizado. O fotógrafo conta que «infelizmente houve um problema de financiamento e o projecto ficou suspenso». Um projecto que não se chamou Retratos à Sexta, mas cujo princípio programático era o mesmo: «Pegar no primeiro métier dos fotógrafos, e que era o de substituir-se aos pintores a fazer os retratos das pessoas, democratizando o retrato – durante mais de um século a função principal do fotógrafo foi essa: retratar as pessoas. Hoje é raro haver pessoas a solicitar este serviço, mas antigamente o fotógrafo acompanhava a vida das pessoas, do nascimento até à morte. Nos momentos especiais da vida de cada um estava lá, e por vezes era sempre o mesmo, sim.» Às vezes, os estúdios de fotografia eram negócios de família, o pai era fotógrafo, o avô porventura também já tinha sido, e o filho seguia as pisadas e já agora herdava a carteira de clientes.

«Algumas aldeias tinham fotógrafo, outras não, e nesse caso o fotógrafo deslocava-se em dia marcado, chegava com guarda-roupa, e as pessoas vestiam-se para parecer ricas e distintas, nos retratos que muitos de nós temos nos nossos arquivos familiares.» Um outro olhar sobre si próprio Ziegler diz que na origem do projecto está um desejo de criar «uma memória da sociedade» passível também de poder «interessar antropólogos, sociólogos e todos os interessados nas ciências humanas. É uma matriz extraordinária para estudar qualquer tipo de sociedade. Hoje quase ninguém vai ao fotógrafo tirar uma fotografia. Toda a gente tem acesso à fotografia graças à massificação deste meio, mas cujo grande drama, do meu ponto de vista, é o desaparecimento da estética». A facilidade com qualquer um de nós tira fotografias, as reproduz, as manipula e as descarta vai talvez fazer com que a maior parte destas imagens desapareçam. «Trata-se de registos, com certeza, embora por vezes mal conservados, porque as pessoas não fazem ideia de qual vai ser o futuro de toda a informação digital que vão acumulando. Por outro lado, parece-me que ninguém fica entusiasmado, do ponto de vista técnico e estético, com as fotografias que tira com a família e os amigos durante as férias. Feita a constatação, tive a ideia de pegar novamente no projecto que tinha lançado no Gard no princípio dos anos noventa, adaptando-o a uma sociedade urbana, de uma forma que pudesse suscitar a curiosidade das pessoas.» Ziegler quis «propor um outro olhar sobre si próprio. Que é no fundo o que estou a fazer: reabituar as pessoas a confiar a imagem delas a um fotógrafo profissional». Sendo certo que a função do fotógrafo é não só captar a imagem, mas também trabalhar a luz, produzi-la de tal forma que possa «dar volume, acentuar as expressões». Olhò fotógrafo! Colocou-se depois a Ziegler uma outra questão: como anunciar às pessoas a existência do seu estúdio temporário? Como informá-las da possibilidade de fazerem o seu retrato,

O fotógrafo

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abrice Ziegler nasceu em 1968 em Thioville, na região francesa da Alsácia-Lorena, e cresceu em Estrasburgo. Viveu em Paris, e depois na Provença, onde diz ter descoberto a luz, o que para um fotógrafo não é coisa de somenos. Fotógrafo de publicidade, mora em Lisboa há dez anos. Diz que o que o trouxe à capital portuguesa não foi a luz (esse grande cliché) nem o fado (esse outro), antes um amor e o seu trabalho. Para ele, «Lisboa é a cidade que fica ao lado do Tejo. O resto é conversa, e é igual ao que se encontra em qualquer cidade do mundo. Estou sempre a 500 metros, máximo a um quilómetro, do rio. Aí vivo e me movo, nessa faixa junto ao rio. Gosto das cidades mediterrânicas. Lisboa é muito parecida com Marselha, tem o mesmo espírito romano, a mesma capacidade de integração de outros povos e culturas. A mim interessam-me as diferenças. Como neste projecto fotográfico. Se toda a gente fosse igual não tinha interesse».

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gratuitamente, em determinados sítio, dia e hora? «Como marcar encontros com as populações? Onde instalar-me, de forma regular, podendo respeitar um certo calendário, e habituar as pessoas a um programa que se estende ao longo de vários meses?» A resposta já a conhecemos: Fábrica de Braço de Prata, onde o fotógrafo tem desde Outubro passado a oportunidade de poder lançar às pessoas de Lisboa um novo desafio de 15 em 15 dias. Um desafio que a internet tornou exequível, mantendo as pessoas constantemente informadas sobre os temas passados e futuros, plataforma mediática de excelência para quem pretende divulgar e dinamizar um projecto envolvendo comunidades. Quando as pessoas passam pelo site do Retratos à Sexta, podem não só ter acesso ao conjunto dos temas já propostos, como àqueles que o autor já calendarizou para os próximos meses. «Cada tema [até à data cerca de 16] pretende suscitar a criatividade de cada um e, ao mesmo tempo, revelar as qualidades do actor que há em todos nós. E tem sido incrível, porque as pessoas participam em massa. Sim, há uma tentação teatral muito forte. Apesar de uma certa timidez, mas que se sente apenas no início. A maioria das pessoas têm uma atitude activa, encaram isto como um desafio.» Fazer parte da história Muitos já sabem o que querem fazer, porque passaram pelo blog e já conhecem o tema. Outros chegam apenas com uma vaga ideia, baseada na informação de algum amigo que já conhece o projecto. Outros ainda chegam sem a menor ideia do que fazer com determinado tema, mas, diz Ziegler, estão dispostos a improvisar. «Sim, a generalidade das pessoas é tímida, mas ultrapassa essa timidez. Na entrada, há um painel onde ponho uma grande parte das fotografias que já fiz, e as pessoas ficam imenso tempo paradas a olhar para aquele enorme conjunto de retratos. E depois de fazerem o seu retrato, querem saber quando vão estar no painel! É como uma marcação de território, as pessoas também querem lá estar, fazer parte da história desta casa de cultura.» O fotógrafo congratula-se pela boa relação que estabeleceu com os responsáveis pela Fábrica, José Pinho e Nuno Nabais. «São pessoas extraordinárias, com uma grande abertura de espírito e uma vontade inabalável de propor coisas diferentes à cidade. O meu projecto encontrou aqui o contexto ideal, neste espaço aberto à experimentação. Por outro lado, este trabalho permite fazer um levantamento da população que frequenta a Fábrica, e isso também é interessante para eles.» Uma troca Mas quem fotografa Ziegler na Fábrica às sextas-feiras? «Todo o tipo de pessoas. Embora pertencendo a uma categoria social sobretudo das classes média e média-alta culti67 » noticiasmagazine 20.ABR.2008


vo em cada sala (e nalguns momentos da noite sê-lo-á mesmo), a Fábrica de Braço de Prata surge como uma imensa casa da música, com músicos em todos os cantos, e até mesmo alguns a ensaiar nos corredores. Passa Nuno Nabais numa azáfama, cadeiras para um lado e para outro, cheio de questões práticas para resolver. Chegam raparigas aos pares de amigas. Fabrice Ziegler fotografa primeiro uma, depois outra, depois ambas. Chega então alguém com um busto de si próprio, enorme, pesadíssimo, de tal forma que o modelo descansa uns minutos, pousando o busto no chão, sentando-se num banquinho durante uns breves minutos, antes de ir fazer o retrato consigo próprio na forma do busto. Não será tímido, o senhor do pesado busto. Mas a generalidade das pessoas é-o, e haverá sempre qualquer coisa de enternecedor num adulto maior e vacinado, intimidado diante da objectiva do fotógrafo. Que somos sempre crianças, em frente ao fotógrafo. Que um retrato será sempre o de um ser múltiplo, contendo a criança, o jovem, o adulto.«

vadas. Pessoas que vêm à procura de cultura e de enriquecimento pessoal. Já fotografei pessoas de todas as idades, desde crianças a sujeitos de noventa anos. Houve noites em que fotografei 150, é uma maratona!» No dia em que é publicado este trabalho, Fabrice Ziegler terá já retratado qualquer coisa como 750 pessoas. «A matéria para a minha exposição são as caras das pessoas, e eu proponho uma troca: ofereço as imagens, que disponibilizo no blog com resolução para impressão (podem imprimi-las com garantia de uma boa qualidade), e as pessoas cedem os direitos de utilização.» No final das sessões, os modelos e o fotógrafo assinam um documento que assegura a este último o direito à sua posterior utilização, para fins expositivos e editoriais (quando ligados ao trabalho do autor). Neste documento, Fabrice Ziegler responsabiliza-se pelo conteúdo das legendas que acompanham a reprodução pública das fotografias, o qual não deverá evidentemente prejudicar a reputação ou a vida privada dos retratados. Um projecto que revela um apreciável grau de elaboração. O que fazer com um tema Um tema que mobilizou uma quantidade impressionante de gente foi o das Férias. As pessoas tinham acabado de voltar das férias de Verão, já cheias daquela nostalgia por antecipação que tão bem nos caracteriza. «Nessa noite retratei cerca de 180 pessoas (!), o que parece inacreditável. Foi uma grande surpresa. Quando na sessão seguinte houve apenas 15 pessoas, foi quase um choque [risos].» Já o Segundo Sexo, na ordem do dia 8 de Março último, Dia Internacional da Mulher, revelou-se um tema difícil. «Constatei que 68 » noticiasmagazine 20.ABR.2008

muito poucos sabiam do que estávamos a falar. Ou seja, apesar de o nível cultural da generalidade das pessoas ser bom, poucos sabiam o que era o Segundo Sexo[um livro de Simone de Beauvoir, publicado em 1949, sobre a condição – biológica, psicológica, social e política – da mulher, onde ficou por exemplo dito que «ninguém nasce mulher»]. Fiquei muitíssimo surpreendido, mas mesmo assim fiz cerca de cinquenta retratos, embora um quarto dessas pessoas se tenha completamente alheado do tema. Eu estava um bocado receoso, pensei que fosse só ter mulheres com mais de cinquenta anos, esclarecidas, já com uma experiência de vida como mulheres, a aderir ao tema, mas não: todos participaram, homens e mulheres, de todas as idades, embora o tema tenha sido um bocado posto de lado, pouco participado. Já o tema 2008, na primeira sessão do ano, foi muito apreciado. As pessoas levaram para os retratos os seus desejos para o Ano Novo.» Ziegler confessa-se muito surpreendido e grato com a participação em massa. «É uma grande sorte que tenho, poder conviver com todas estas pessoas e sentir a sua satisfação. É muito gratificante. Isto são retratos, nada mais do que isso. Mas que têm o meu olhar particular.» Documentar a vida No dia em que fazemos esta reportagem, o tema é Narciso. Tema complexo – talvez mais do que pareça. No corredor que dá acesso ao estúdio do fotógrafo há imensa gente. Muitos encenarão o seu retrato narcísico para Ziegler nessa noite. Alguns chegam com espelhos, molduras, narcisos, fotografias de quando eram crianças. Ouve-se música por todo o lado. Parece haver um concerto ao vi-

Próximos temas >Desajeitado – 2 de Maio >Correspondência – 16 de Maio >Dualismo – 30 de Maio Fábrica de Braço de Prata Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1 (em frente aos correios do Poço do Bispo). Tel.: 218686105 info@bracodeprata.org www.retratosasexta.blogspot.com www.bracodeprata.org


Retratos à Sexta