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Lucarelli neles Vice-campeã da Liga Mundial, a mais nova joia do vôlei brasileiro mostra que veio para ficar e já bota banca, com direito a prêmio de melhor ponteiro e tudo mais

Grand Prix As candidatas a estrelas da nova edição

Liga Mundial Nem tudo foi amargo em Mar del Plata

Sheilla Oposta vira protagonista fora das quadras


FOtO: MauriciO KaYe/cBV

PrÉ-JOGO

dante únicO reManescente da GeraçãO Mais VitOriOsa dO VÔLei MundiaL, POnteirO caLcuLa Os PassOs Para aGuentar atÉ O riO-2016

era na FaZenda da FaMÍLia, nO interiOr de GOiÁs, Que dante traçaVa Os PLanOs Para O FuturO. neLes, haVia centenas de aniMais e MetrOs e Mais MetrOs de terra. Mas, Para Virar PatrãO, antes eLe teVe Que cOnhecer O dia a dia da Vida nO caMPO. e issO iMPLicaVa acOrdar cOM O tetO ainda escurO, carreGar MarMita e suar cOMO uM tÍPicO BOia-Fria. aOs POucOs, O cheirO dO GadO Perdeu O encantO. e FOi deixadO cOMPLetaMente de LadO aPÓs uM teLeFOneMa Que Mudaria Para seMPre O destinO dO POnteirO. cOnVOcadO Para a seLeçãO JuVeniL aPÓs uMa rÁPida exPeriÊncia nO sesi de GOiânia, dante trOcOu a BOta de cauBÓi PeLO tÊnis. e eLe nãO saiu Mais de seus PÉs nOs úLtiMOs 16 anOs, PerÍOdO eM Que aJudOu a cOnstruir a GeraçãO Mais VencedOra da histÓria dO VOLeiBOL. Os MuitOs tÍtuLOs, POrÉM, nãO MudaraM O JeitãO dO MeninO de ituMBiara, Que nO FiM de JuLhO FaturOu a MedaLha de Prata na LiGa MundiaL. na entreVista Que seGue, dante MOstrOu Que É BOM taMBÉM de PrOsa. e de FaZer rir. sV: VOcÊ cheGOu a deixar O VÔLei POr causa da FaZenda da FaMÍLia. O Que te atraiu tantO POr LÁ? d: eu venho de uma família de fazendeiros. Passei minha infância inteira cuidando dos animais, andando a cavalo. era o que eu mais gostava de fazer. depois, fui com meu irmão tiago para Goiânia, comecei a jogar vôlei no sesi, mas percebi que o meu destino era a fazenda. devagarzinho, vi que aquilo não era pra mim. eu queria vida de patrão. (risos)

sV: dePOis dissO VOcÊ FOi chaMadO Para a seLeçãO de Base? d: isso. nessa época, eu estava com 14, 15 anos. um dia, ligaram lá em casa para falar que eu estava convocado. Meu pai até brincou, disse que devia ter outro dante em Goiás, já que eu não tinha jogado nada naquele ano. (risos) até hoje não sei como aconteceu. sV: e nesse PerÍOdO tOdO VOcÊ nãO Quis Mais saBer dO VÔLei? d:


Foto: Divulgação/FIVB

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Não. Eu ficava só na fazenda. Às vezes jogava, mas era só uma brincadeira. Meu pai é formado em Educação Física, então eu sempre fui muito ligado a esporte, fazia um pouco de tudo. SV: COM A CONVOCAÇÃO, VOCÊ ENXERGOU QUE ALI ERA A SUA CHANCE DE VIRAR PATRÃO? D: Foi. (risos) Ali eu percebi que seguiria no vôlei. A seleção juvenil era muito boa, tinha o William, Douglas Cordeiro, Rodrigão, Ezinho, Alan, André Nascimento, Boi, Deníson, Guilherme... Diziam que era uma das melhores gerações que o Brasil tinha tido. Depois disso, fui para o time de Três Corações, disputei a primeira Superliga lá. SV: FOI A PARTIR DAÍ QUE VOCÊ CHAMOU A ATENÇÃO DO RADAMÉS LATTARI E FOI PARA A SELEÇÃO ADULTA? D: Isso. Na minha primeira Superliga, fui convocado para a seleção adulta. Foi tudo muito rápido. Eu estava na base ainda, joguei o Mundial juvenil em 1999, no ano seguinte já estava nas Olimpíadas de Sydney. SV: NA SUA PRIMEIRA OLIMPÍADA, EM SYDNEY, VOCÊ TINHA 19 ANOS. FOI DIFÍCIL LIDAR COM TANTA PRESSÃO? D: Não, não senti nenhum tipo de pressão, nada. Estava super tranquilo, como se já tivesse passado por tudo aquilo. Não fiquei deslumbrado, nada. E eu tinha que agir assim. Imagina, eu tinha 19 anos, se fosse pensar no tamanho da competição, corria o risco de travar. Tinha que fugir dessa pressão. SV: VOCÊS PERDERAM NAS QUARTAS DE FINAL PARA A ARGENTINA. O BRASIL ENTROU CONFIANTE DEMAIS PARA AQUELA PARTIDA? D: Aquela derrota não estava no papel. Ninguém imaginava perder para eles. Todo mundo dava como certo o Brasil nas semis. Mas mérito deles. Acho que a Argentina nunca mais vai jogar como jogou aquela partida. (risos)

Esse jogo é melhor esquecer. (risos) SV: DEPOIS DE SYDNEY, A SELEÇÃO SOFREU A TROCA DE TÉCNICO, COM A CHEGADA DO BERNARDINHO. ERA O MOMENTO DE LEVAR O BRASIL A OUTRO PATAMAR? D: Entrou uma nova filosofia, um novo jeito de trabalhar. Fomos conquistando confiança e respeito dos adversários. Isso faz muita diferença. Quando você está muito confiante, tudo dá muito certo. Ganhamos muitos jogos na camisa, jogando mal. Eu sempre digo que time bom é aquele que ganha jogando mal. SV: VOCÊ COMENTOU QUE COM O BERNARDINHO PASSOU A TREINAR MAIS. D: Eu não gostava muito de treinar, só gostava de jogar. (risos) Todo mundo dizia que eu tinha um talento natural, que fazia tudo muito fácil no treino, que parecia não fazer esforço, só dar ‘migué’. Mas eu sempre me esforcei. Acontece que tenho mais facilidade. E, por causa disso, o Bernardo pegava no meu pé, mandava os outros irem falar comigo para eu me esforçar mais. (risos) Depois ele percebeu que era meu jeito. (risos) SV: EM 2002, UM ANO DEPOIS DE O BERNARDINHO ASSUMIR A SELEÇÃO, VOCÊS CONQUISTARAM O PRIMEIRO GRANDE TÍTULO NO MUNDIAL DA ARGENTINA. D: Chegamos como um dos favoritos, estávamos jogando um voleibol bem rápido. Treinamos que nem uns cavalos para esse Mundial. Estava tudo redondinho. Podíamos jogar com os olhos vendados que saberíamos o que fazer. Ali foi a confirmação que estávamos no caminho certo. SV: DEPOIS DESSE MUNDIAL, VOCÊ FOI JOGAR NA ITÁLIA. O QUE TE LEVOU A MODENA? D: Na verdade, era para eu ter ido para Treviso. Eles pagaram passagem para o meu pai conhecer o time, estava tudo certo. Mas,


PRÉ-JOGO

logo depois, o Modena cobriu a oferta do Treviso. Se eu acertei ou não ter escolhido Modena, eu não sei. (risos)

ao ginásio. Sempre tinham quatro, cinco mil pessoas nos nossos jogos. Era lindo, coisa de outro mundo. Foram três anos maravilhosos.

SV: MAS VOCÊ SE ARREPENDE DA ESCOLHA? D: Não, não me arrependo. Cresci muito no Modena. Tive uma escola ao meu lado. Joguei com o Ball, Cantagalli, Gardini... Tinha jogadores sensacionais. O Cantagalli me ajudou muito, me ensinou a usar a mão de fora. Antes eu achava que era sorte esse tipo de jogada, mas via que ele jogava assim, aí pensei: ‘não deve ser só sorte’. (risos) Ele me explicou que era preciso ver a mão do bloqueador. Pensei: ‘como que eu vou ver a mão do cara enquanto eu ataco? Não dá tempo. Vou ter que aprender isso também’. Devagarzinho, peguei os truques com ele. (risos)

SV: VOCÊ GOSTOU MAIS DE MORAR NA GRÉCIA DO QUE NA ITÁLIA? D: Eu gostei. Adorei morar lá, tinha muito calor humano, as praias eram lindas. Depois, eu fui para a Rússia, um país completamente diferente, com um clima bem diferente. (risos) Joguei um ano lá, depois voltei por causa do meu filho. Quis voltar para ficar perto do Antônio. Assinei com o São Bernardo, joguei o Paulista, os Jogos Abertos e o Sul-americano. Só que o Dínamo começou a me ligar. Eu recusei umas quatro ofertas deles. Na quinta, não teve jeito. Conversei com o pessoal do São Bernardo, e o Dínamo pagou a multa rescisória.

SV: NA ITÁLIA, ENTÃO VOCÊ APRENDEU A JOGAR USANDO MAIS A CABEÇA? D: Foi, tive que aprender que só a força bruta não adiantava. No Brasil, eu só pensava em dar pancada. (risos)

SV: NÃO FICOU UM CLIMA RUIM COM O PESSOAL DO SÃO BERNARDO POR VOCÊ SAIR NO MEIO DA TEMPORADA? D: Não, foi tudo conversado antes de eu assinar. Abri o jogo. Não tinha como recusar, a proposta era muito boa. Na Rússia, aprendi a jogar contra o bloqueio, é o talento deles. Você pode pegar o último colocado do campeonato, mas vai ter problema para passar pelo bloqueio.

SV: FALA-SE MUITO NA RIVALIDADE ENTRE BRASILEIROS E ITALIANOS. NA VERDADE, ELES TE AJUDARAM A SE TORNAR UM JOGADOR MELHOR? D: Eles são marrentos, mas eu fui feliz lá e aprendi muita coisa. E dei sorte porque não joguei com nenhum marrento. (risos) O Giani, Gardini e Cantagalli são muito dez, nem parecem italianos. (risos) Fui bem amparado. SV: QUANDO VOCÊ RESOLVEU IR JOGAR NO PANATHINAIKOS, FOI PELA PROPOSTA OU VOCÊ QUERIA TROCAR DE ARES? D: Foi pelos dois. No último ano, eu já estava mal, com a cabeça ruim, já queria sair de lá. O meu terceiro ano no Modena foi horrível. A Grécia me trouxe a vontade de jogar de novo. Lá a torcida é como a de futebol, é fanática, vai em peso

SV: ENTÃO FOI BOM TER APRENDIDO A USAR A MÃO DE FORA NA ITÁLIA? D: Foi. (risos) Lá eu usei muito o bloqueio. Eu fui muito feliz na Rússia, me tornei um ídolo. Muita gente acha que russo é frio, mas não é. Eles se fazem. (risos) Fiz muitos amigos lá, no fim do jogo tirava foto com os torcedores, chamava a intérprete para poder conversar com eles, saber o que estavam achando do time. (risos) SV: DURANTE ESSE TEMPO, VOCÊ PASSOU UM PERÍODO DIFÍCIL COM O SEU FILHO ANTÔNIO, FICOU DOIS ANOS AFASTADO DA SELEÇÃO... FOI O


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MOMENTO MAIS COMPLICADO DA SUA VIDA? (ANTÔNIO SOFREU UMA CIRURGIA NO CORAÇÃO E UMA PARALISIA CEREBRAL) D: Foi, foi bem crítico mesmo. Quando me apresentei à seleção, falei com o Bernardo, disse que ali eu poderia ser substituído, mas na vida do meu filho não. Posso dizer que o Antônio bateu lá em cima e voltou. Ele só me fez ficar mais forte. Às vezes, sinto uma dor no ombro e penso: ‘isso aqui não é nada perto do que ele passou’. Me fortaleceu também como homem. Foi a chave do meu crescimento, da passagem do menino para o homem. SV: ENTÃO É UM DANTE DIFERENTE DEPOIS DA DOENÇA DO SEU FILHO? D: Com certeza. Hoje eu sou mais maduro, sensato, racional. Virei outro Dante. E tudo isso eu devo ao Antônio. SV: E COMO É O DANTE PAI? GOSTA DE BRINCAR, DE DAR BRONCA? D: Eu sempre fui um pouco duro. Mas, depois que o Antônio passou por tudo isso, não tem como dar bronca. Ele ganha qualquer um. (risos) Ele tem uma alma de outro mundo, deixa todo mundo em paz. Um dos motivos para eu voltar para o Brasil foi para ficar perto do Antônio e da Giovanna. Quando o Antônio estava mal, o pessoal do Dínamo me ajudou bastante, me liberou por uma semana para ficar com ele. E eu sempre deixei bem claro que queria voltar para ficar perto dos meus filhos. Eles entenderam que eu não estava saindo por causa de outra proposta. SV: VOLTANDO À SELEÇÃO... VOCÊS CONQUISTARAM TRÊS MUNDIAIS CONSECUTIVOS ENTRE 2002 E 2010. CHEGOU A IMAGINAR UM DIA IGUALAR O FEITO DA ITÁLIA DA DÉCADA DE 90? D: Não, nunca. Se me falassem que eu seria tricampeão mundial, campeão olímpico, hepta da Liga Mundial nos últimos dez anos, com certeza eu não acreditaria. Vai aparecer outra seleção super vencedora, assim como o Brasil após a Itália, mas é complicado bater os nossos números. Fomos também a três finais olímpicas consecutivas, sendo que em Londres ninguém acreditava em nós. SV: NO ÍNTIMO DE VOCÊS, QUAL ERA O SENTIMENTO SOBRE A DESCONFIANÇA GERAL PARA LONDRES? D: Eu tinha uma raiva danada. Estávamos trabalhando forte, dando o maior duro. Era difícil escutar da imprensa brasileira que não conseguiríamos uma medalha. Mas foi bom por um lado, porque fortaleceu ainda mais o grupo. SV: MAS DEPOIS DAQUELA LIGA MUNDIAL, EM QUE O BRASIL SEQUER AVANÇOU PARA A SEMIFINAL, A IMPRENSA NÃO TINHA O DIREITO DE NÃO ACREDITAR NA SELEÇÃO? D: É que a crítica sempre vende mais. (risos) Mas é complicado analisar os times em ano olímpico. A Rússia nem foi para a Fase Final e, semanas depois, ganhou o ouro em Londres. A Itália, que ficou em terceiro nas Olimpíadas, também nem se classificou. Já a Polônia, campeã da Liga Mundial, saiu nas quartas de final. SV: VOLTANDO AO MUNDIAL... NESSA TRAJETÓRIA DO TRI, O JOGO COM A BULGÁRIA, NA EDIÇÃO DE 2010, FICOU BASTANTE MARCADO. QUANDO SE OPTOU POR JOGAR COM RESERVAS, COM O THEO COMO LEVANTADOR, VOCÊS IMA-

GINARAM O TAMANHO DA REPERCUSSÃO QUE GERARIA? D: Nós tínhamos noção, lógico. Poderiam imaginar que queríamos entregar o jogo. Mas, na Bulgária, o Kaziyski e o Nikolov, por exemplo, nem jogaram. E falaram só do Brasil. O pessoal achou que entregamos o jogo, mas não teve nada disso. SV: DE UMA CERTA FORMA, A ATITUDE NO JOGO COM A BULGÁRIA MANCHOU A IMAGEM VITORIOSA DO BRASIL? ALI MESMO, NO GINÁSIO, A TORCIDA VAIOU, VIROU-SE DE COSTAS... D: Acho que não. O que manda é a vitória. É chegar à final e conquistar o título. SV: ENTRE SEUS PRINCIPAIS TÍTULOS, ALÉM DO TRI DO MUNDIAL, TEM O OURO NOS JOGOS DE ATENAS. VENCER UMA OLIMPÍADA É DIFERENTE? D: Ah, com certeza. O mundo todo está de olho em você. É como chegar ao último degrau. Tem também a questão do ambiente olímpico, você respira aquela competição o tempo inteiro, dedica-se muito tempo. Foi sensacional. SV: DEPOIS DE ATENAS, FORAM DUAS PRATAS CONSECUTIVAS EM PEQUIM E LONDRES. A COR FOI A MESMA, MAS TEVE UM SABOR DIFERENTE? D: Teve sim. Em Pequim, os Estados Unidos acabaram com a gente taticamente. Já em Londres, contra a Rússia, ainda não desce. Estava dominado, o clima ali dentro estava muito bom. Você olhava para eles, e eles não nos enfrentavam. Eu pensava: ‘poxa, os caras estão sentindo. Já era’. SV: NO TERCEIRO SET DA FINAL, VOCÊ PEDIU PARA SAIR. NÃO ESTAVA MAIS AGUENTANDO AS DORES NO JOELHO? D: Não estava. Eu senti o joelho no segundo set. Fui até muito acima do que podia. Eu perdi a força, não tinha apoio mais, a perna estava fraca. Só falei para o Bruno que estava com dor, pedi para ele dar uma segurada. Ao mesmo tempo que eu queria ficar na quadra, sabia que era um cara a menos para atacar, defender e bloquear. Uma hora os russos iam perceber. Eu não conseguia mais me mexer. Aí você perde a lucidez, a concentração, só se preocupa com a dor. SV: SUA SAÍDA, NO FINAL DO TERCEIRO SET, NÃO FOI UMA FORMA DE HOMENAGEAR O GIBA? D: Não, não foi. Escutei isso de muita gente. Antes fosse. Ele merece todas as homenagens por ter revolucionado o vôlei brasileiro, sido uma referência durante muitos anos. Se fosse isso mesmo, sairia numa boa. SV: JÁ SÃO QUATRO OLIMPÍADAS NAS COSTAS. DÁ PARA AGUENTAR ATÉ 2016? D: Na hora boa, vou ficar fora? (risos) Eu tenho o projeto de estar em 2016, mas tem que ser muito bem estudado. Pretendo conversar com o Bernardo sobre isso, para dar uma parada antes. Nunca tirei férias. A única que consegui foi para cuidar do Antônio. Mas aquilo não foi folga, foi muito pior. SV: E VOCÊ IRIA PARA A OLIMPÍADA MESMO SEM TER TANTAS CONDIÇÕES DE JOGO, DE REPENTE PARA EXERCER MAIS O PAPEL DE LÍDER? D: Ah, eu iria. Eu não me preocupo em jogar. Lógico que eu quero jogar, estar entre os titulares, mas se for para ser líder, passar experiência, eu vou assim também.


IMAGENS


Fotos: Divulgação/FIVB

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COMO É PODEROSA ESTA TAL BOLA. PROVOCA RAIVA EM QUEM TEM FOME. PROVOCA DESESPERO EM QUEM ESTÁ PERTO DA ELIMINAÇÃO. PROVOCA RISOS EM QUEM FLERTA COM ZEBRAS.


EDITORIAL

POR AMOR FOTOS: ALEXANDRE ARRUDA E LUIZ PIRES

“Não desista do seu sonho”. “Quando se tem paixão pelo que faz, não há limite”. As frases são batidas, mas dizem muito sobre os personagens da nova edição de Saque Viagem. Por amor ao vôlei, a técnica Sandra Mara Leão, do Uniara, se endividou para cobrir a folha de pagamento da equipe durante a última temporada. Arrependida pelo empréstimo feito junto ao banco? Que nada. Quando se acredita, vale tudo. Mesmo amor que fez Daniel lutar até o limite para continuar a jogar em alto nível no Sada Cruzeiro. Após o vice-campeonato da Superliga, no entanto, o levantador jogou a toalha. Resolveu abandonar a carreira para se recuperar de um reumatismo no quadril, negra herança do esporte profissional. Apesar de já não sentir as mesmas dores, o armador tem saudades das quadras. Sabe por quê? E Dante? Campeão olímpico, tri mundial e hepta da Liga Mundial, o ponteiro poderia muito bem se esticar no sofá e curtir pela TV os Jogos do Rio-2016. Mas ele não quer. No que depender de seu desejo, aos 36 anos, viverá pela quinta vez na carreira a experiência olímpica. A idade? Um mero detalhe para este goiano que, apesar das inúmeras conquistas, ainda sente o prazer de jogar. Afinal, a paixão é o que dá sentido à vida. Vanessa Kiyan vanessa@saqueviagem.com.br

SAQUE VIAGEM

IMPRESSÃO

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A revista Saque Viagem é uma publicação da Editora Circuito das Águas www.circuitoeditora.com.br www.saqueviagem.com.br Dúvidas ou sugestões: contato@saqueviagem.com.br

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ADMINISTRATIVO/FINANCEIRO

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Douglas Rodrigues, Préu Leão e Carol Coelho

10 mil exemplares

EDITORA CIRCUITO DAS ÁGUAS

Sergio Marini

Os textos assinados são de responsabilidade de seus autores. Não estão autorizados a falar pela revista pessoas que não constem neste expediente e que não possuam uma carta de referência assinada pelo presidente.


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LARGADINHAS » PÁG 13

SHEILLA » PÁG 16 Um ano após o bi olímpico, a oposta vira também protagonista fora das quadras

Técnica Sandra Mara arma táticas para pagar as contas do Uniara Vôlei

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Camila Brait, do Molico/Nestlé, e Serginho, do Sada Cruzeiro, trocam experiências da profissão

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DE CRAQUE PARA CRAQUE » PÁG 18

LIGA MUNDIAL » PÁG 24 Pavlov, Lucarelli, Spiridonov... Relembre o que de melhor aconteceu em Mar del Plata

GRAND PRIX » PÁG 26 ESTREIA DE PRATA » PÁG 20 Bixo nunca mais! Lucarelli passa com sobras pelo primeiro vestibular na seleção de Bernardinho

Especialistas indicam quem deve brilhar na edição 2013

PENSANDO LONGE » PÁG 28 Líbero Michelle desabrocha o lado empreendedor e prepara um produto para os praticantes do vôlei

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FOCO NO TEMPO PERDIDO » PÁG 30 iv

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Após a temporada marcada por lesões, Suelle corre para recuperar o espaço

PELO MUNDO – GONCHAROVA » PÁG 32

ÍDOLO DO ÍDOLO – EDER » PÁG 33 O tricampeão mundial Ayrton Senna é a inspiração do central Eder

É dela a responsabilidade de fazer os russos esquecerem Gamova e Sokolova

MINHA SELEÇÃO DOS SONHOS - IDA » PÁG 34 Brasileiras dominam a seleção da medalhista de bronze nos Jogos de Atlanta-1996


FOtO: arQuiVO PessOaL

LarGadinhas

uM QuÊ de BeYOncÉ CentraL FLÁVIa aSSIS aBre SeU arQUIVO PeSSOaL e MOStra OS enSaIOS FOtOgrÁFICOS FeItOS na rePÚBLICa tCHeCa esqueça a imagem daquela Flávia assis de rabo de cavalo, camisa, joelheira e tênis. com exceção do sorriso sempre marcante, a que voltou da república tcheca, onde jogou pelo Vc Prostejov, trouxe na bagagem um lado mais sexy a ser exibido, que pode ser confirmado nos dois ensaios fotográficos realizados. tem - por que não? - um quê de Beyoncé, a diva dos cabelos esvoaçantes.

entre uma folga e outra no clube. tempo suficiente para as fotos ficarem do agrado da central. “Foi muito engraçado. Precisei da ajuda da solange, que joga lá há 12 anos, para entender o que deveria fazer nas fotos. isso até me ajudou a relaxar”, conta Flávia. “não sabia que ia gostar tanto do trabalho. acabei ficando empolgada.”

Bem produzida, a meio de rede ora aparece provocante dentro de peças menores, ora escondida em um uniforme de jogo. O primeiro, diz ela, é mais íntimo, uma espécie de nu artístico, enquanto o segundo é “mais tranquilo, dá para mostrar”. “Fiz as fotos pra mim, não para comercializar, e adorei o resultado final. Meus amigos viram e acharam incrível, disseram que eu parecia a Beyoncé”, brinca a jogadora.

e o que será que os fãs tchecos achariam dos ensaios? “eles são bem tímidos, não falariam nada. Mas eles elogiam muito o desempenho do atleta em quadra. recebia cartas, bilhetinhos, mas era algo muito respeitoso. sempre foi assim. eles nem te tocam. são muito cavalheiros mesmo”, diz a campeã do campeonato tcheco e da copa da república tcheca. e, agora, campeã também dos flashs.

a concepção partiu da fotógrafa local, que a dirigiu o tempo todo em tcheco. ao todo, foram três horas em cada ensaio, feito


FOtO: diVuLGaçãO

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sandra Mara BanK tÉCnICa dO UnIara VÔLeI PreCISa tIrar dInHeIrO dO PrÓPrIO BOLSO Para arCar COM a FOLHa de PagaMentO dO QUIntO COLOCadO dO PaULISta FeMInInO não experimente abrir uma conta-corrente, tampouco solicitar crédito. Financiar a sonhada casa própria também não é possível. O banco de sandra Mara Leão serve exclusivamente para cobrir as contas do uniara Vôlei, que na última temporada teve dificuldade para honrar os compromissos com as atletas. sem patrocinadores que arcassem com uma folha de 25 mil reais mensais, sandra Mara pediu socorro a um banco de araraquara, no interior de são Paulo. O empréstimo foi o suficiente para liquidar os salários das jogadoras, mas deixou a professora universitária endividada por meses. nada, porém, que a fizesse se arrepender da decisão. “É um amor que a gente acredita. se eu não tivesse tirado dinheiro do bolso, eu teria perdido atletas muito importantes. não sei se esse dinheiro volta um dia. Fiz o empréstimo por acreditar no trabalho. na verdade, não é simplesmente um trabalho, a gente ama aquilo que faz. Quanto maior o

problema, maior a vontade de vencer”, garante sandra. tal qual uma instituição financeira, a técnica optou pelo sigilo. as jogadoras não souberam dos problemas, para que pudessem pensar exclusivamente no trabalho dentro de quadra. e a equipe respondeu bem. tão bem que ficou na quinta posição do último campeonato Paulista, na frente dos tradicionais são Bernardo Vôlei e são cristóvão saúde/são caetano. “as atletas confiaram na gente, não podíamos faltar com a palavra. elas treinaram direitinho, ficaram longe da família, abdicaram da vida social. não era justo que ficassem sem receber. a nossa maior preocupação sempre foi não dar um passo maior que a perna, mas perdemos patrocinadores. espero que seja diferente agora.” se depender da torcida da técnica, o sandra Mara Bank já pode decretar falência.


FOtO: diVuLGaçãO

LarGadinhas

tÁ russO LeVantadOr MarLOn Se adaPta BeM aO dÍnaMO KraSnOdar e atÉ Se arrISCa na LÍngUa LOCaL Quando foi contratado pelo dínamo Krasnodar na última temporada, Marlon decidiu que não queria ser tratado como um estrangeiro dentro do grupo. a providência foi tornar a comunicação mais amigável, ainda que o russo, à primeira vista, assustasse. no Brasil, o levantador contratou um professor particular para chegar melhor preparado ao novo destino. “O aprendizado da língua russa foi muito difícil e exigiu muito empenho, mas meu professor, renan carneiro, foi muito hábil e me apresentou o idioma em apenas dois meses. Quando cheguei aqui, já retomei os estudos, mas tenho que encaixar com os horários dos treinos”, explica o brasileiro, que havia jogado antes na itália e Japão. Os primeiros meses na rússia, no entanto, foram complicados, e Marlon sentia dificuldades na “percepção dos sons das palavras e na formação correta das frases dentro do padrão gramatical exigido”. Mas nem por isso ficou de mal com os livros. “Falava como

uma criança, literalmente”, lembra o armador. a recompensa veio aos poucos, dia após dia, a ponto de o brasileiro hoje conseguir desenvolver uma conversa com os companheiros. no calor do jogo, porém, o tom muda. “estamos muito exaltados e precisamos trocar informações em segundos. aí, ocorre uma mistura de inglês com russo, fica muito engraçado, mas o resultado tem sido positivo.” e foi tão positivo que Marlon virou o capitão do dínamo Krasnodar na última temporada. O time, porém, não teve lá muito o que comemorar. no campeonato russo, sequer chegou às semifinais. apesar disso, o craque resolveu renovar seu contrato para 2013/14. e para gastar um pouco mais dos aprendizados na nova língua.


FOtO: WashinGtOn aLVes/ViPcOMM

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BatendO O cartãO aPÓS aBandOnar aS QUadraS, POr COnta de UM reUMatISMO, eX-LeVantadOr danIeL tenta Se aCOStUMar À rOtIna de UM eSCrItÓrIO a rotina de treinos, jogos e viagens não faz mais parte da vida de daniel, vice-campeão da última superliga pelo sada cruzeiro. Vítima de um reumatismo descoberto em 2011, quando treinava com a seleção em saquarema (rJ), o então levantador precisou antecipar a aposentadoria. desde maio, entrou para o grupo dos ex-jogadores de vôlei. isso com apenas 29 de idade. e, desde junho, virou funcionário da BsK contabilistas, baseada em são Paulo, para onde se mudou com a família desde que pendurou as joelheiras. Vivendo no bairro das Perdizes, daniel agora tenta se acostumar à vida longe das quadras. diariamente, sai de casa às 7 e só retorna às 20 horas. Passa o tempo todo no escritório, no centro da capital, cuidando de assuntos relacionados à administração de obras. em paralelo, ele se dedica aos últimos semestres de contabilidade, curso que começou ainda na época de sada cruzeiro. “tem sido bem diferente. sempre tive a vivência do esporte, desde quando comecei no Banespa, aos 15 anos. Por ser atleta, sempre fui muito ativo.

agora, fico o dia todo no mesmo lugar. ainda estou me acostumando, mas estou gostando desta nova vida. a rotina é diferente, mas o objetivo é o mesmo do vôlei: trabalhar em grupo por uma empresa”, compara. antes de descobrir a doença, daniel pensava em jogar por mais seis anos. e bem que o irmão de Mari Paraíba tentou ter um fim diferente. Por meses, buscou auxílio médico, na tentativa de diminuir as dores no quadril. O momento mais difícil foi vivido na última temporada, quando passou a conviver com picos de inflamação em intervalos cada vez menores. “se você trata bem a doença, esses picos tendem a diminuir. Mas isso é impossível para um atleta de alto rendimento. Por isso, comecei a pensar mais na minha saúde. Foi difícil deixar o vôlei, mas não havia outra solução. infelizmente, a doença não tem cura. É uma decisão definitiva”, garante.


UM ANO DE LONDRES

UMA NOVA SHEILLA BICAMPEÃ OLÍMPICA DEIXA TIMIDEZ DE LADO E VIRA PROTAGONISTA FORA DAS QUADRAS Na cartilha dos grandes ídolos do esporte, não podem faltar aparições em programas de TV, presenças em eventos badalados, homenagens de todas as esferas e contratos publicitários com grandes marcas. Se for mulher, e bonita, convites para protagonizar ensaios sensuais também passam a fazer parte da lista. Na cartilha de Sheilla, bastava jogar. Isso até os Jogos de Londres. Desde que alcançou o bicampeonato olímpico, que completa o primeiro aniversário neste 11 de agosto, a principal atleta do País passou a conviver com uma rotina mais comum às estrelas, com participações em festas e programas de TV fora do mundo esportivo. “A imagem do atleta é muito mal explorada no Brasil. Tirando o pessoal do futebol, os outros não têm o mesmo espaço. Sempre pensei em explorar mais a imagem, não só após Londres, mas acontece que o espaço é limitado. E não falo só do vôlei. Em outros países, trabalha-se melhor isso. O Brasil não tem essa


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cultura de usar a imagem dos atletas”, lamenta ela. Esta nova Sheilla, que surpreendeu ao ficar só de lingerie para a revista VIP, parece mais confortável para atrair a atenção das câmeras. Está, também, mais disposta a ser cada vez mais protagonista fora das quadras. Neste ritmo, ela faz crescer a base de fãs e garante fôlego à modalidade que ajudou a fortalecer com os recentes títulos. “Eu sempre entendi a minha importância para o vôlei feminino do Brasil, mas, me expor, é mais difícil. Eu sou tímida, não topo qualquer coisa. Mas o que puder fazer para ajudar no crescimento do vôlei, vou fazer. Por isso, esse trabalho de marketing é importante, porque atraímos mais gente. Só jogando é mais difícil, já que o vôlei não passa sempre em canal aberto”, lembra Sheilla. Em recente passagem pelo Nordeste com a seleção brasileira, a craque de Osasco foi a jogadora mais festejada pelas torcidas de Maceió e Natal. Com seu jeito tímido, distribuiu acenos. Dentro de quadra, distribuiu pancadas, que reforçaram os gritos de “Sheilla, Sheilla” vindos das arquibancadas. Por trás destas mudanças está a XYZ, empresa que desde o fim do ano passado cuida da carreira da bicampeã olímpica. É deles a responsabilidade pela captação de patrocínios e gerenciamento de campanhas, contratos de endorsement e licenciamentos, além do trabalho de sua imagem como produto de marketing. “Como produto, a Sheilla é completa: além de ser jovem, inspiradora e bonita, também é uma vencedora e líder. Ela é um produto muito competitivo, pois tem grande aceitação por parte dos fãs e da mídia, além de ser muito admirada pelo essencial em sua profissão, que é ser atleta, e também pelo caráter e companheirismo”, explica Guilherme Schaeffer,

Foto: Préu Leão

vice-presidente de esportes da XYZ.

“Eu sempre entendi a minha importância para o vôlei feminino do Brasil”


DE CRAQUE PARA CRAQUE

DE SERGINHO PARA CAMILA QUAL É A SUA OPINIÃO SOBRE O NÚMERO DE EQUIPES COMPETITIVAS NA SUPERLIGA FEMININA NA ÚLTIMA TEMPORADA? É muito pouco ter apenas dez equipes na Superliga feminina. Já demonstramos que somos o país do vôlei, com as conquistas nas Olimpíadas de Pequim e Londres. Vencemos também o Mundial de Clubes. As empresas poderiam incentivar mais o vôlei, dar mais valor a tudo isso. Pra mim, o número ideal de equipes seria de 14 a 16. QUAL É A SUA EXPECTATIVA PARA O PRÓXIMO CICLO OLÍMPICO? Estou fazendo a minha parte e treinando bastante. Vou fazer de tudo para aproveitar a oportunidade. Sei que sou nova ainda, mas já tenho a experiência de cinco Superligas, de viajar também com a seleção. Nem sempre jogava, mas estava ali com as meninas para adquirir experiência

Foto: João Pires

TOMAR UMA PANCADA ATRÁS DA OUTRA E CONVIVER COM MANCHAS ROXAS NA PELE NÃO É O SONHO DA MAIORIA DAS PESSOAS. MAS PARA CAMILA BRAIT, DO Molico/Nestlé, E SERGINHO, DO SADA CRUZEIRO, PASSOU A SER MOTIVO DE ORGULHO. LÍBEROS DE DUAS DAS PRINCIPAIS EQUIPES DO BRASIL, AMBOS COMPARTILHAM, ALÉM DAS MARCAS DA PROFISSÃO, SONHOS, ANSEIOS E MUITA COMPETÊNCIA NAQUILO QUE EXERCEM.

internacional. Substituir a Fabi é uma responsabilidade muito grande. Ela tem uma história no voleibol, na seleção. É vencedora, guerreira, líder. Ela é demais no que faz. Se eu for substituí-la, vou tentar fazer o meu melhor. QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES DA POSIÇÃO DE LÍBERO? É tomar porrada. Na verdade, é não poder atacar, já que você só passa ou defende. Se você não faz o fundamento muito bem, fica tudo muito visível. Uma atacante, por exemplo, se não está passando bem, ela pode compensar no ataque, no saque. Já a líbero precisa sempre estar muito bem no passe e na defesa. É importante também liderar e orientar as meninas, já que vemos o jogo todo do fundo. Me considero muito guerreira, por isso, gosto de defender.


Foto: João Pires/VipComm

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DE CAMILA PARA SERGINHO VOCÊ ESTÁ COM 34 ANOS. GERALMENTE, O LÍBERO TEM UMA VIDA MAIS LONGA NAS QUADRAS. ACHA QUE TEM CONDIÇÕES DE JOGAR ATÉ QUANDO? Nunca parei para pensar até quando vou jogar. Vivo um momento sensacional no meu time e o fato de nunca ter tido lesões graves pesa a meu favor no quesito longevidade nas quadras. Enquanto eu estiver jogando em alto nível e em um time de ponta permanecerei em atividade. SE VOCÊ NÃO JOGASSE VÔLEI, QUE CARREIRA TERIA SEGUIDO? GOSTARIA, POR EXEMPLO, DE FAZER UMA FACULDADE? Passei no vestibular para Relações Públicas quando tinha 18 anos, mas não iniciei o curso porque me transferi de Belo Horizonte para jogar na Ulbra,

no Rio Grande do Sul, em 1999. Voltei a estudar em 2001, quando retornei a Minas Gerais, e me formei em Administração de Empresas. Atualmente, estudo Inglês. VOCÊ JÁ GANHOU MUITOS TÍTULOS NA CARREIRA. QUAL VOCÊ CONSIDERA A MAIOR CONQUISTA? Todos os títulos têm sua importância e seria injusto destacar apenas um. Tenho boas recordações de todos. Individualmente, destaco o prêmio de melhor líbero, recepção e defesa do Mundial de Clubes. Foi um momento mágico para um atleta inexperiente internacionalmente como eu. Jogar contra os melhores do mundo aumenta ainda mais a credibilidade da conquista.

“Enquanto eu estiver jogando em alto nível, e em um time de ponta, permanecerei em atividade”


Foto: Divulgação/FIVB MATÉRIA DE CAPA


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LUCARELLI É ESCOLHIDO PARA A SELEÇÃO DA LIGA MUNDIAL

Estreia de gente grande Aos 21 anos, Lucarelli mostra personalidade e impressiona NA primeira competição com a seleção de Bernardinho Era 7 de junho. Em Varsóvia, quase 5 mil pessoas resolveram aproveitar aquele fim de tarde da primavera polonesa dentro do ginásio Torwar. Ali, aconteceria a estreia dos donos da casa na Liga Mundial. Eram os atuais campeões em quadra. Era a badalada turma de Kurek contra a nova geração do Brasil. Bem distante da capital polonesa, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), a família de Lucarelli colava os olhos na TV. O motivo era mais do que especial: tratava-se da estreia do filho de Sérgio Ricardo e Rosa Maria na seleção adulta. Ainda desconhecido do público mundial, o ponteiro começou tímido. Ou melhor, nervoso. Nada mais natural para quem, dois anos antes, ainda integrava a seleção juvenil. Mas só foi o corpo aquecer e a emoção passar para Lucarelli apresentar seu repertório. E não poderia ter um palco melhor para isso, frente a uma das mais apaixonadas plateias da modalidade. Foram 17 pontos marcados. Outros 159 seriam assinados pelo jogador do Sesi-SP até a final com a Rússia. Nenhum outro brasileiro pontuou tanto na campanha da medalha de prata. “Foi uma surpresa pra mim ter ido bem neste primeiro jogo com a seleção. Só esperava não ficar tão nervoso e, aos poucos, meu jogo foi se

soltando. A galera me ajudou bastante também para que eu me sentisse bem. Foi legal poder ter contribuído para a vitória”, vibra Lucarelli. Passada a tensão do debut, o ex-minastenista subtraiu, de jogo em jogo, toneladas dos ombros. Parecia leve, quase um vetarano com a camisa verde-amarela. Virou, nessa toada, um dos homens de confiança do levantador Bruninho. Recebeu também elogios de todas as partes. “Ele é muito mais precoce do que eu. Ele já entrou na seleção este ano como titular e está encantando todo mundo por aí. Não só o Bernardo e a comissão técnica, mas também o público. Todos estão muito contentes com a atuação dele”, diz Murilo. Após a vitória sobre a França, em São Paulo, Bernardinho chegou a compará-lo a Giba e Nalbert, dois dos maiores ícones da posição. Até a FIVB se rendeu ao camisa 8, eleito, junto com o italiano Zaytsev, o melhor ponteiro do campeonato. “Eu nem sabia que tinha esse tipo de premiação. Quando me chamaram, eu fiquei bastante surpreso. O prêmio não serviu para consolar a derrota (na final para a Rússia), mas foi uma boa recordação. Em partes, estou feliz, mas poderia ter sido melhor se tivéssemos sido campeões.”


FOTO: ALEXANDRE ARRUDA/CBV

MATÉRIA DE CAPA

ASCENSÃO METEÓRICA O espírito competitivo – e por vezes fominha – sempre foi a marca do vice-campeão da Liga Mundial, nascido Ricardo Lucarelli Santos de Souza, em 14 de fevereiro de 1992. Ainda pequeno, não admitia perder nas partidas para os amigos. E o repertório era vasto, ia do futebol ao handebol, da natação ao basquete. Até xadrez fazia parte da rotina. Havia também programas mais condizentes com a sua idade, como as travessuras em cima das árvores de Contagem. “Nunca fui muito de vídeo game. Gostava mesmo dessas coisas.” A rotina de pular de esporte de tempos em tempos cessou a partir do momento em que Lucarelli foi acompanhar um treino da irmã, aspirante a jogadora de vôlei, no Centro Cultural Urbano. Curioso, pegou uma bola e tentou encaixar um saque. Rapidamente, tomou gosto pela modalidade e passou a organizar “contras” na Praça da Glória. “Jogava mais por diversão no início, mas depois comecei a levar mais a sério e fui treinar em um clube, onde fiquei de 2005 a 2008”, conta. Isso até o garoto atrair o olhar apurado de José Francisco Filho, o Pelé do Minas Tênis Clube. O novo endereço lhe deu projeção, a ponto de ser convocado para defender o Brasil no Sul-americano infanto-juvenil de 2008, conquistado sobre a Argentina, em Poços de Caldas (MG). “Foi ali


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que percebi que o vôlei poderia ser a minha profissão. Nem achava que fosse jogar o Sul-americano, mas fui entrando aos poucos e disputei a final. Meus pais foram me ver, foi muito legal.” A conquista injetou mais ânimo em Lucarelli, que despontou como um dos grandes nomes para levar o País ao título do Mundial juvenil, disputado dentro de casa, em 2011. A atmosfera do Rio de Janeiro, no entanto, não foi o suficiente para evitar a amarga quinta posição geral. “Foi muito triste. Sabíamos que tínhamos condições de estar na final, havíamos feito amistosos com as duas seleções finalistas (Rússia e Argentina) e tínhamos ganhado das duas.” Se no combinado nacional os planos não vingaram, no Vivo/Minas o cenário foi bem mais animador. A ascensão ao time titular foi rápida e aconteceu já na temporada 2011/12. Mas foi na seguinte que ele foi à forra. Foram 462 acertos em toda a Superliga, marca que nenhum outro atacante atingiu. E o desempenho de gente grande começou a ser desenhado longe daqui, em Londres, quando o camisa 8 ganhou a oportunidade de participar dos treinos do Brasil nos Jogos Olímpicos.

Foto: Divulgação/FIVB

“Não esperava já estar na seleção adulta um ano depois da base. Quando penso nisso, fico até meio assustado, mas feliz por tudo que aconte-

ceu. Eu só treinava com eles em Londres, mas isso me ajudou bastante a vivenciar o clima das Olimpíadas. É diferente você ver os melhores do mundo. Voltei de lá mais confiante, sabendo mais. Foi bom ter ido para ter a noção do valor de uma Olimpíada, e essa experiência foi fundamental para a minha temporada no Minas”, analisa. Como consequência, os olhos dos grandes clubes cresceram sobre o fã de Murilo, Serginho e Dante. Mas, antes de definir o futuro, Lucarelli jogou o Sul-americano de Clubes, naquela que foi sua despedida oficial do Minas. Era a oportunidade de entrar para a história da tradicional equipe. Pena que, no caminho, havia um surpreendente UPCN. “Estávamos muito confiantes (na final), talvez isso tenha atrapalhado. Teria sido uma despedida perfeita sair com o título. Fiquei muito triste por não ter conseguido isso para a torcida.” O próximo passo é o Sesi-SP, com quem assinou para 2013/14. Será a primeira vez que Lucarelli residirá fora de Minas Gerais e longe da proteção dos pais. Mas isso não o assusta. Pelo contrário. Tanto fora quanto dentro das quadras, o jogador só pensa em evoluir. “Tomei a decisão de ir para o Sesi junto com os meus pais. É um time com muita cobrança, feito para ganhar, o que é um desafio a mais. Sei que tudo isso vai ser bom para o meu amadurecimento.” E bom também para o Brasil.

“O prêmio não serviu para consolar a derrota (na final para a Rússia), mas foi uma boa recordação. Em partes, estou feliz, mas poderia ter sido melhor se tivéssemos sido campeões”


LIGA MUNDIAL

Adiós,

Mar del Plata O VICE-CAMPEONATO DA LIGA MUNDIAL NÃO ERA O FIM QUE DESEJAVA A SELEÇÃO DE BERNARDINHO. FICOU O GOSTO AMARGO POR NÃO TER TIDO A MENOR CHANCE CONTRA A RÚSSIA, QUE DEIXOU MUITA GENTE BOQUIABERTA COM O VOLEIBOL AGRESSIVO EXIBIDO NA DISPUTA DO OURO. MAS HOUVE TAMBÉM BOAS NOTÍCIAS. ISAC, LUCARELLI, WALLACE, MAURÍCIO E MAURÍCIO SOUZA CONFIRMARAM QUE VIERAM PARA FICAR. MARIO JR. SEGUROU BEM NA RECEPÇÃO E DEFESA. BRUNINHO FOI O LÍDER DE SEMPRE. REPAGINADO, O GRUPO ACUMULOU VITÓRIAS SOBRE GIGANTES. NA RETA FINAL, AINDA PRECISOU LIDAR COM AS CONTUSÕES DE ÚLTIMA HORA DE LEANDRO VISSOTTO, DANTE E EDER, NADA MENOS DO QUE TRÊS TITULARES. MESMO TODO REMENDADO, METEU-SE PELA 11ª VEZ EM UMA FINAL DE LIGA MUNDIAL NA ERA BERNARDINHO. UM RECORDE. E UMA BOA PERSPECTIVA DE QUE A VOLTA AO LUGAR DE HÁBITO ESTÁ PRÓXIMA.

PRECOCE LUCARELLI Havia gente muito mais experiente para dividir a ponta com Dante. Thiago Alves e Lipe eram bons exemplos. Mas Lucarelli ganhou a confiança de Bernardinho logo na partida de estreia, contra a Polônia e dentro da Polônia. E ele respondeu da melhor maneira, com 17 pontos e o status de maior pontuador. Um belo cartão de visitas para o que faria na sua primeira competição oficial pela seleção adulta. Outras boas atuações aqui, com mais outros pontos ali, empurraram a maior revelação dos últimos anos para a seleção da Liga Mundial.

ESTRELA PAVLOV Se você não acompanha o vôlei russo, na certa não conhece Pavlov. Ou melhor, não conhecia. Nesta Liga Mundial, o carequinha mostrou que oposto da Rússia não vive só de pancadas, mas também de técnica. Letal em todos os setores da quadra, o camisa 7 cansou o braço com tanta bola que derrubou. O faro de artilheiro foi reconhecido pela FIVB, que o nomeou o grande nome da edição. E agora, Mikhaylov?

MANCADAS ARGENTINA, CUBA E POLÔNIA Nas casas de apostas, a Polônia estava bem posicionada no bloco dos favoritos ao caneco. E nem poderia ser diferente. Atual campeã, a equipe de Kurek era nome obrigatório na Fase Final. Era. O fraco início complicou a caminhada rumo ao bicampeonato. De favorita, a Polônia amargou a queda já na primeira fase. Assim como Cuba, que venceu apenas um dos dez duelos e terminou na lanterna do Grupo B. E a Argentina só não passou pelo mesmo vexame porque, na condição de país-sede da Fase Final, pôde disputar a etapa decisiva. Uma maquiagem em uma equipe que só triunfou uma vez nas 12 partidas realizadas.


LATINO

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Foto: Divulgação/FIVB

SPIRIDONOV Há quem diga que russo é frio. Frio não. Gelado. Não é o caso de Spiridonov, que tirou do sério boa parte dos adversários em Mar del Plata. Com seu jeito provocativo de jogar, o Tintim do vôlei chegou a ser chamado de “insano” e “doente mental” por Bernardinho. Contra a Itália, na semifinal, o camisa 9 fez valer as palavras do técnico e teve a proeza de ser expulso da partida. Fato raríssimo. Como consequência, o bad boy virou alvo preferido da TV argentina nos duelos da Rússia.

PEDRA NO SAPATO CANADÁ E FRANÇA Canadá e França sempre foram ofuscados por seus vizinhos mais badalados. Mas, nesta edição, quiseram provar o sabor do protagonismo. E gostaram. Pela primeira vez classificados à Fase Final, os norte-americanos azedaram o jogo russo. Já os Bleus ficaram na primeira fase, mas tiraram pontos de todos os adversários, com direito a vitórias sobre Brasil, Polônia e Argentina. Feito de gente grande.


GRAND PRIX

PRONTAS PARA BRILHAR Foto: Alexandre Arruda/CBV

Cadê a Gamova? E a Lo Bianco? E a Berg? A nova edição do Grand Prix marca oficialmente o início do novo ciclo. Antigas peças, que por anos ficaram penduradas no hall dos grandes ídolos, a partir de agora serão meras telespectadoras. Isso se as palavras não perderem força até o Rio de Janeiro. Outras têm fôlego de sobra para atrair mais uma vez os holofotes. Com a ajuda de especialistas, Saque Viagem mostra quem tem tudo para arrebentar neste Grand Prix, o 21º da história.

Darnel Oposta – Turquia Está difícil para rodar? Chama a Darnel. Quer um saque forte? Chama a Darnel. Precisa de um ídolo para ser a porta-bandeira nos Jogos de Londres? Chama a Darnel. Personagem mais conhecida do emergente vôlei turco, a oposta por pouco não levou sua seleção às quartas de final na Terra da Rainha. A Turquia ficou pelo caminho, para o nosso alívio (elas eram rivais diretas do Brasil pela classificação), mas deixou uma boa impressão. Agora, sob o comando do italiano Massimo Barbolini, a trupe de Darnel tenta repetir os bons resultados do último ano. “Entre as estrangeiras, a minha favorita para destaque individual é a turca Darnel. Oposta canhota e muito versátil no ataque, ela é considerada uma das maiores estrelas do esporte na Turquia” Marco Freitas, comentarista do SporTV

Dani Lins Até os Jogos Olímpicos, Dani Lins teve que conviver com os fantasmas de Fernanda Venturini e Fofão. Não que as veteranas cogitassem um regresso à seleção. O que pesava, e muito, eram as comparações com as maiores gênias da posição. Mas nada que um título olímpico, com direito a um show particular, não fizesse a pernambucana enterrar de vez a sombra das antecessoras. E, por que não, as desconfianças dos torcedores. No Montreux Volley Masters e Torneio de Alassio, ela só confirmou que a medalha dourada em Londres lhe fez muito bem. “Acredito que a Dani esteja madura para assumir essa condição de protagonista durante muito tempo. Sempre é bom ter concorrentes, mas, pela confiança que ganhou nas Olimpíadas, acredito que ela esteja pronta para assumir este posto” Nalbert, comentarista do SporTV

Foto: Divulgação/FIVB

Levantadora – Brasil


Sheilla

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Foto: Préu Leão

Oposta – Brasil Não que Sheilla não fosse querida pela torcida verde-amarela. Bem longe disso. Apesar da timidez, a oposta é uma das jogadoras mais idolatradas pelos fãs do vôlei. Mas, depois daquelas inesquecíveis quartas de final com a Rússia, nos Jogos de Londres, a bicampeã olímpica ganhou um lugar cativo, ou eterno, no coração deles. Um pouco da popularidade ela sentiu na recente excursão do Brasil pelo Nordeste. No maior estilo pop star, teve seu nome cantado pelo público de Maceió e Natal. “Com a segunda medalha olímpica de ouro conquistada e, principalmente, depois das merecidas férias, acho que a Sheilla volta com tudo neste Grand Prix. A maior atuação individual que assisti na minha vida foi a dela, contra a Rússia, nas quartas de final em Londres. Nenhuma jogadora da sua função conjuga tão bem a força e a habilidade” Marco Freitas, comentarista do SporTV

Natália A Natália (do pancadão) voltou. E para a alegria dos fiéis da Unilever, que pacientemente esperaram a ponteira se recuperar das cirurgias na canela. E valeu a pena. Como valeu. Na temporada que marcou a sua recuperação, Natália deixou uma Superliga e um Sul-americano de Clubes de herança aos cariocas. De volta à seleção, e agora com um parafuso a menos na região lesionada, a atacante garante estar livre das dores que a atormentaram nos últimos anos. E livre também para soltar o braço. Sorte do Brasil e do Vôlei Amil. Azar das adversárias. “Depois do longo tempo afastada devido a uma grave cirurgia, a Natália cresceu de produção e terminou como um dos destaques da nossa última Superliga. Acredito que ela esteja bem motivada para dar prosseguimento a esta evolução. A Natália é jovem e muito forte física e tecnicamente. A sua completa recuperação é fundamental para o sucesso da nossa seleção” Radamés Lattari, comentarista do Esporte Interativo

Foto: Préu Leão

Ponteira – Brasil


Foto: Préu Leão/Divulgação

PENSANDO LONGE Com a experiência nas quadras, Michelle assina produto inédito para a prática do vôlei


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Foto: Felipe Christ

Dentro das quatro linhas, a líbero Michelle já deu mostras que, para ser uma boa líbero, é necessário ter visão de jogo. Só assim para melar o ataque rival. E essa sensibilidade adquirida nas quadras ela carrega para o mundo dos negócios. Com o faro empreendedor, a jogadora do Vôlei Amil prepara para as próximas semanas o lançamento do BraC, o protetor de antebraço para ser usado por profissionais e amadores da modalidade. O produto é inédito no mercado, embora já tenha sido confeccionado de forma artesanal por atletas como Camila Brait e Fabi. E foi com a ajuda da dupla da seleção, assim como a de outras colegas das quadras, que Michelle chegou ao modelo que considera ideal: sem costura, que amortece o impacto da bola e, com isso, diminui os hematomas no braço. Ganham também as levantadoras, que recebem as bolas com menos suor. “Desde o início, quando comecei a jogar, sentia que a bola machucava o braço. Além disso, sempre transpirei muito, e isso atrapalha as levantadoras. As pessoas usavam blusa de frio, e aí começamos a fazer adaptações com o cochal no braço. Sentia falta de um produto que fosse pensado para a proteção do antebraço, que fosse criado para as necessidades dos praticantes de vôlei. A opinião das atletas foi fundamental para chegarmos ao BraC”, explica Michelle. O sonho de dar vida ao protetor era antigo. Mas foi só no ano passado, quando passou a temporada inteira se recuperando de uma lesão, que a defensora colocou o plano em andamento. Primeiro, contou com a ajuda da especialista em Marketing, Thaiana Silva, hoje sua sócia na TM7 Sports. Também teve o apoio de Famara, empresa que acreditou no projeto e topou confeccioná-lo em escala industrial. Outra providência foi buscar uma especialização na área administrativa. Perto de onde morava, no bairro da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, Michelle frequentou as aulas do curso de Processos Gerenciais por dois semestres. Na sala, sugou o quanto pôde as dicas dos professores. Fora dali, conversou também com especialistas da área médica, com o intuito de oferecer um produto que atendesse às necessidades do praticante. “O curso foi muito importante para eu entender o empreendedorismo, a parte mais burocrática do negócio. Como atleta, não tinha essa visão. Aprendi todas as partes do processo, a pesquisar o melhor material. Fiz questão também de ir atrás de um médico especializado em mãos. Conversamos sobre os benefícios da proteção para não estourar vasinhos no braço. Não é marra ou estilo, o protetor é um conforto”, defende ela. EMPREENDEDORA DESDE CRIANÇA Com o mesmo entusiasmo que fala sobre o novo negócio, Michelle relembra os tempos de criança, quando, sem perceber, esboçou os primeiros traços do seu perfil empreendedor que apresenta hoje. Aos 12 anos, no interior de Minas Gerais, vendia gelinho aos colegas da escola.

E fazia sucesso. O irmão a ajudava a carregar o isopor, de onde saíam os gelados a R$0,10 cada. “Eu conseguia mais de R$10 por dia. Ficava muito feliz com tudo aquilo.” Nem os limões da fazenda do avô passaram imunes ao desejo de Michelle de encher o cofrinho. Aos vizinhos, ela negociava os frutos. Também chegou a vender cachorrinho, a lavar carro dos tios... “Eu topava tudo para conseguir um dinheiro, apesar de ser uma criança. Minha mãe conta que sempre tive essa veia empreendedora, mas, com o vôlei, deixei isso meio de lado por conta da dedicação que a profissão exige.” Em processo final para colocar o BraC no mercado, a líbero do Vôlei Amil já colhe os frutos de ter nas mãos um produto inovador. Segundo ela, mais de 600 potenciais clientes já lhe fizeram pedidos pelas redes sociais. Fabi e Brait toparam usar a proteção no Grand Prix. “Meu sonho é transformar o vôlei com o BraC. Já temos o melhor vôlei do mundo, imagine se todo mundo passa a usar a proteção como usa a joelheira?” A resposta ela terá nos próximos meses.


Sem jogar desde dezembro, em razão de uma cirurgia no ombro direito, Suelle treina duro na Vila Leopoldina para voltar logo às quadras

Foco no tempo perdido

Até hoje Suelle não esquece aquele 7 de dezembro de 2012. A ponteira do Sesi-SP se preparava para visitar o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte (MG), pela quinta rodada da Superliga feminina. Sua participação, no entanto, nunca se concretizaria. Nem naquela partida e nem em nenhuma outra da competição. Acusada uma grave lesão em seu ombro direito, Suelle dava adeus à temporada com apenas quatro jogos disputados no Nacional. Deixava também pausado o melhor momento da carreira. Era apenas o início de um longo processo de recuperação. No começo de janeiro, a ponteira entrou na mesa de cirurgia. Depois, passou um mês em casa, no bairro da Vila Leopoldina, em São Paulo, proibida de fazer qualquer movimento com o braço. “Este foi o período mais difícil. Eu não podia fazer nada com a mão direita, tudo tinha que ser com a esquerda, como escovar os dentes, pentear o cabelo. Não podia levantar o braço. Minha mãe veio de Curitiba para me ajudar, me dava banho, fazia comida para mim. Foi difícil também não poder dirigir, porque em São Paulo não se pode fazer nada sem carro”, conta ela, que

também recebeu a assistência da líbero Michelle, hoje no Vôlei Amil. Mas nem tudo foi negativo durante a recuperação. A ponteira aproveitou a folga entre uma sessão e outra de fisioterapia para cuidar mais de si. O vôlei, pela primeira vez em anos de carreira, ficou em segundo plano. “Mudei o foco completamente para não desanimar. Foi bom, comecei a rever muita coisa da minha vida, fiz planos. Quero voltar a estudar. Como atleta, a gente vive no limite o tempo todo, é um estresse constante, é muita cobrança.” Mais relaxada, e de bem com a vida, Suelle agora corre para fazer de 2013/14 a temporada da volta por cima. A vontade é acionar o botão “voltar” para resgatar a boa fase vivida até dezembro. E “play” para não sair mais de dentro das quatro linhas. Não custa também um “rec” para gravar na mente do técnico Talmo de Oliveira a recuperação plena, a certeza de que a Suelle de oito meses atrás está ainda melhor. E sem qualquer dor. SV: EM QUE ESTÁGIO VOCÊ ESTÁ DA RECUPERAÇÃO DA LESÃO NO


Fotos: Préu Leão

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OMBRO DIREITO? S: Ainda não estou atacando. Devo recomeçar só em setembro. Fiquei tanto tempo fora que parece que eu não joguei a (última) Superliga. SV: VOCÊ SE MACHUCOU NO MELHOR MOMENTO DA SUA CARREIRA? S: Sim. Foi difícil porque eu vinha de uma fase muito boa, e essa contusão freou tudo. Voltei a estudar, a fazer faculdade de Administração, estava com mil atividades e aí, com a contusão, precisei parar com tudo. Por outro lado, serviu para eu pensar mais em mim. Foi muito bom fazer a faculdade, sair do ambiente do voleibol, conviver com outras pessoas. Mas resolvi trancar as aulas, porque quero focar 100% no meu retorno. SV: VOCÊ PASSOU A MAIOR PARTE DA TEMPORADA SEM PODER MOSTRAR TRABALHO. TEVE RECEIO DE NÃO CONSEGUIR RENOVAR COM O SESI? S: Nunca fiquei preocupada de não conseguir renovar. Eu pensava que, como me machuquei no trabalho, o mínimo que eu poderia ter deles era o suporte na recuperação. Em nenhum momento, eles hesitaram.

SV: QUANDO VOLTAR ÀS QUADRAS, VOCÊ TERÁ UMA CONCORRÊNCIA FORTE NO SESI. PELO FATO DE VOCÊ SER UMA PONTEIRA DE MAIS VOLUME, ACREDITA QUE LARGUE NA FRENTE DAS DEMAIS? S: Todas as ponteiras que têm esse perfil levam vantagem. Eu peco às vezes na virada de bola, mas sempre dei uma boa estrutura ao time por ser boa passadora. Não que isso garanta a vaga. O fato de eu dar mais volume não me deixa tranquila em relação à disputa. Preciso correr atrás do tempo perdido por causa da lesão. Mas eu tenho certeza que logo vou chegar ao mesmo nível das outras e disputar a vaga. SV: A SELEÇÃO SEGUE DENTRO DOS SEUS PLANOS? S: Sim, eu quero retornar à seleção. Quando eu estive lá (na Copa Pan -americana de 2011), acho que fiz bem o meu papel. O Zé Roberto já me conhece. Sei que preciso melhorar a minha virada de bola para ser mais completa. Acho que é isso que me falta. Eu quero ser aquela jogadora que está ali porque passa, ataca, defende e saca bem. Mas penso em um passo de cada vez. Primeiro, eu preciso me recuperar.


Foto: Divulgação/FIVB

PELO MUNDO

A nova “ova” Goncharova mantém fama das “ovas” e vira nova protagonista da Rússia Na máquina da renovação da Rússia, uma nova “ova” está pronta para assumir o papel que por anos coube à Gamova, Sokolova e Artamonova. É de Nataliya Goncharova a missão de manter a bandeira branca, azul e vermelha no pódio dos principais campeonatos do mundo. Alta e técnica, a irmã da central Valeriya assumiu o protagonismo na seleção nos Jogos Olímpicos de Londres-2012, em que anotou 122 pontos, números que lhe renderam a sexta posição na lista das maiores artilheiras. Um desempenho e tanto para quem passou a vestir o uniforme com o escrito Rússia apenas dois anos antes. Nascida em Lvov, na Ucrânia, a atacante de 26 anos defendeu seu país natal até 2008. Pelo quadro azul e amarelo, participou dos Mundiais infanto-juvenil e juvenil de 2005 e 2007, respectivamente. Foi, ainda, campeã do Europeu infanto-juvenil.

A essa altura, já era realidade no Dínamo Moscou e estava adaptada ao vôlei russo, para onde se transferiu aos 16 anos, quando decidiu seguir a carreira na modalidade. Os laços com a Rússia, além da oportunidade de brigar por títulos, levaram Goncharova a solicitar a naturalização. Foi também no novo endereço que ela conheceu o líbero Obmochaev, com quem oficializou a relação no ano passado. Desde então, passou a estampar Obmochaeva na camisa. Mas, na maneira de jogar, segue sendo “ova”. E das melhores já produzidas. “A Goncharova é a grande jogadora para substituir as mais experientes. Ela é muito alta (1,94m), mas é bem habilidosa para a estatura que tem. Além disso, passa, saca e bloqueia de forma eficiente. É completa, faz bem todos os fundamentos. Mas tem a evoluir no ataque, que ainda é previsível, tanto que, contra o Brasil nos Jogos de Londres, ela caiu de produção quando começou a ser bem marcada”, observa Cacá Bizzocchi, técnico e comentarista do Bandsports.


ÍdOLO dO ÍdOLO

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PerFecciOnisMO de caMPeãO assim como acontecia em dezenas de residências do Brasil, fazia parte da rotina da família de eder se reunir em frente à tV, todas as manhãs de domingo, para torcer por ayrton senna em algum circuito do mundo. com o tempo, o menino de caxias do sul-rs passou a gostar do programa. e aquele piloto escondido embaixo do capacete amarelo, guiando um carro branco e vermelho, virou sua fonte de admiração e inspiração, uma espécie de espelho para o jogador guiar seus saltos dentro das quadras. “Me inspirei muito no ayrton senna em relação a como encarava as coisas dentro e fora da pista. dentro dela, sempre foi muito competitivo, sempre buscou a vitória. entrava na pista e não queria perder de jeito nenhum”, comenta o central do sada cruzeiro, vice-campeão da Liga Mundial com a seleção. um dos episódios mais vivos na memória de eder foi registrado no autódromo de interlagos. era 1991, no GP do Brasil, e senna tinha apenas duas marchas funcionando em sua McLaren. a vitória foi dramática, a ponto de derrubar o campeão, que não teve força para sair do carro, tampouco para erguer o troféu no pódio. era, para o atacante, o exemplo concreto de garra e competividade do ídolo. Outro aconteceu em uma situação adversa para senna, ainda pouco habilidoso na pista molhada. com muito treino, o tricampeão mundial virou especialista sob a chuva, e o jovem aprendeu que a dedicação sem limites faz parte da vida de todo campeão. somente assim, é possível chegar perto da perfeição. “na primeira corrida que o senna fez na chuva, ele foi muito mal e se esforçou para melhorar, para se tornar bom em uma coisa em que era ruim. são nesses pensamentos que me espelho. ser muito competitivo, sempre preocupado em ganhar e sempre ver meus erros e melhorar a cada dia, para me tornar o melhor possível dentro de quadra.”


MINHA SELEÇÃO DOS SONHOS

IDA

LEVANTADORA Fernanda Venturini - bronze nas Olimpíadas de Atlanta-96 É muito técnica. Sua habilidade e ótima visão de jogo facilitam a distribuição das jogadas OPOSTA Sheilla - bicampeã olímpica em Pequim-2008 e Londres-2012 É craque de bola, tem liderança, habilidade e técnica de sobra PONTEIRAS Isabel Salgado - participou das Olimpíadas de 1980 e 1984 Liderou uma geração importante para o vôlei brasileiro, além de ter sido uma jogadora que decide

Imagine juntar três gerações da seleção brasi-

Ana Moser - bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta-96 Tem liderança e coragem para decidir o jogo a qualquer momento, inclusive nos mais difíceis

leira em uma só, fazer um bem-bolado e formar um time recheado de estrelas. Pois foi isso que Ida promoveu quando escalada para ser a “manager” do “Minha seleção dos sonhos”. Montar uma equipe guerreira, corajosa e técnica foi o obje-

CENTRAIS Thaísa - bicampeã olímpica em Pequim-2008 e Londres-2012 Além de ter técnica, liderança e raça, ela é alta e muito vibrante. Ela chama o jogo e embala o time

tivo da ex-meio de rede, que defendeu a seleção por quase duas décadas. No time de Ida, a geração que empurrou o Brasil para o cenário mundial foi representada por Isabel. Já a época comandada por Bernardinho, que trouxe o primeiro grande título para o País, com o Grand Prix de 1994, teve três representantes, entre as quais ela mesma, que não se fez de rogada e se escalou. Ida fechou a lista com outras três da geração que conquistou o bicampeonato olímpico. E para comandar tantas divas juntas? “Bernardinho, lógico”, cravou Ida, sem pestanejar.

Ida - bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta-96 Pela habilidade, velocidade e técnica, mas também por ter participado de três gerações importantes do vôlei nacional e por ter ficado tanto tempo na seleção com apenas 1,78m de altura LÍBERO Fabi - bicampeã olímpica em Pequim-2008 e Londres-2012 Tem muita coragem e raça, além de ser habilidosa até mesmo com os pés TÉCNICO Bernardinho - campeão olímpico em Atenas-2004, prata em Pequim-2008 e Londres-2012, bronze em Atlanta-96 Ele tem muita qualidade de treinamento e um planejamento impecável. É parceiro do trabalho da atleta e joga junto com o time


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