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“BURACO NA AUGUSTA” Por San Picciarelli

http://sanpicciarelli.co.cc sanpicciarelli@gmail.com @sanpicciarelli

2011 © todos os direitos reservados

1ª Edição 2


FOI CONTADA UMA HISTÓRIA... E de todos os seus traços, aquele mais bem descarado da mentira pareceu aquele com maior apelo. Sim, porque pouco daquilo que se podia ler como real. Só os tais rabiscos análogos sobre “as moças”, é que foram ouvidos. Enquanto a plasticidade de todos os exageros não poderia senão preencher as brechas daquele grupo de ouvidos ali reunidos, outra vez... A história falava de um túnel sob a rua, donde correm fios e maldades, e também por onde circula o sinal que leva a TV para todas as casas da vizinhança, e um pouco mais de sedativo. O olhar está fora do ar, mas a cena é nítida: o homem colhe sem saber sequer se foi plantado. Falando em plantado, neste túnel sob a terra, foram colhidos dois dos menos sortudos que estavam a maquinar mais uma maquiavelice. Algo que não se pode orgulhar, nada nobre, sem qualquer labor justo. 3


O fato visto foram os fios da televisão a cabo, fortuna miserável cheia de certitudes no câmbio negro. Já o fato gerado foram duas mulheres, com data de nascimento e localização geográfica. Uma senhora de sessenta anos, uma menina-moça de 29 anos, daqui do bairro, violentadas e depositadas à sorte nas veias da rua. A semente é então semeada e o chão rumoroso dos silêncios barulhentos, como sempre, já é bem arado. A hora era duas e pouco da manhã, mas lá ficam os oficiais militares por mais vinte e poucas badaladas. O dia trocou de sol e chega a polícia científica. Cheios de sigilos e composturas, deixando escapar uma ou outra anedota, em meio aos populosos curiosos. “Cuidado que o local é perigoso agora a noite...”. Nunca foi, mas agora é, porque disse o oficial. Três fotos, meia dúzia de anotações e um par e meio de “nadas a declarar”. Bem regado o solo é fértil, arrancam-se as ervas daninhas com sementes e tudo. O joio e o trigo convertem-se quase que imediatamente no pão do dia.  4


Para não perder o registro, eternizei uma manta suja e o tênis velho sobre a tampa do bueiro. E ali, ao redor de um pequeno portal semicircular com destino a um inferno de mentirinhas, sobram os restos dos cochichos e comichões das senhoras de todas as portarias.  Mastiga-se o pedaço de pizza frio, sorvem-se copinhos e mais copinhos de café quente. Sobre a mesa são deixadas as sobras da sensação de que falam mudas a senhora e senhorita. Pseudo enterradas, pseudo mortas, à espera de uma saída menos científica e que vá além das fotografias faladas por todos, mas jamais vistas por ninguém.. Mas como tirar dali o que não mais existe, senão na quimera urbana destas doces senhoras? Fofoqueiras como o demônio, bem intencionais como o pai dele... Mês que vem o buraco é candidato a mito, mas os túneis são de facto sub-caminhados noite ou outra. Sabe-se por verdade verificada que o cobre tem seu preço, vale quase como ouro em algumas bandas. No sistema circulatório do meu bairro, cá no centro, produz-se oxigênio flébil e incerto. O sangue das moças assassinadas nunca foi 5


encontrado. Mas, se nasceram como mito, bem que poderiam ter sido mortas pela língua ferina das velhinhas inconformadas com a velocidade do mundo. Não fosse a televisão perto da hora de dormir... Vira e mexe alguém fica sem a sua dose de radiação e a imagem da tv desaparece junto com todas as curiosidades. A hospedaria da frente do buraco despacha-se na monitoria. Os transeuntes imitam os locais no olhar de pergunta “E foi ali, foi?”. Sim... e porque não foi? Mesmo que não tenha sido...

FIM.

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1ª Edição 7


Buraco na Augusta  

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