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Revista de Gestão Pessoal • Ano 1 • número 1 • abril de 2019

Um convite ao

AUTOCONHECIMENTO Saúde financeira em tempos de incerteza

O que você vai ser quando crescer?

Mandar embora ou deixar ir?

Oito sinais de que sua mente lhe sabota

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Página 07

Página 23

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Editorial • Revista de Gestão Pessoal

EDITORIAL

Um convite ao autoconhecimento Vivemos tempos de grandes exigências profissionais. Trabalhamos mais horas, ficamos mais tempo conectados e os processos de qualificação e networking vão consumindo a cada dia mais os momentos que antes eram reservados para lazer, entretenimento, convivência familiar e amizades. O trabalho se tornou central na nossa vida e, neste contexto, quem prioriza qualidade de vida tem a gestão pessoal, integrando todos os aspectos da existência, como um grande desafio. Como harmoni-

EXPEDIENTE Saber-se é uma publicação da Editora Pragmatha. Todos os direitos reservados.

zar as necessidades afetivas, de saúde, lazer, aperfeiçoamento intelectual e lazer com as metas profissionais? O projeto Gestão Pessoal, no universo do Saber-se (agora também em formato revista) evidencia o autoconhecimento

Editora: Sandra Veroneze MTB 10.210

como fundamental para o melhor entendimento e gerenciamento de quem somos, de onde vivemos e para onde vamos. Assim como fazemos nos livros que formam a coleção Gestão Pessoal, da Editora Pragmatha, queremos nesta publicação compartilhar ferramentas, percepções, motivações e experiência para uma vida em equilíbrio, mais plena e feliz. Desejo boas vindas a este universo incrível das jornadas interiores e existenciais.

Colaboradores: Larissa Missel Braga Natália Masiero Melissa Kamimura Clarisse Rozales Sonya Fhernandes Andrea Guerreiro de Souza Lorena Fontoura

Sandra Veroneze Editora

Reportagem Tuanny Prado MTB 18.650

São Paulo / SP Abril de 2019 www.pragmatha.com


Revista de Gestão Pessoal • Sumário

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De turista de academia a 3 mil kms de bike ao ano

SUMÁRIO

Larissa Missel Braga.............................................................................. 05

O que você vai ser quando crescer?

Natália Masiero..................................................................................... 07

Saúde financeira em tempos de incerteza

Melissa Kamimura................................................................................. 09

Rompendo com o destino de origem

Clarisse Rozales..................................................................................... 11

O caminho é onde você está

Sonya Fhernandes................................................................................ 15

Resoluções! Neste ano dá!

Tuanny Prado........................................................................................ 17

Feliz 1976!

Andrea Guerreiro de Souza................................................................... 19

Conexões profundas. Preciamos?

Sandra Veroneze................................................................................... 21

Mandar embora ou deixar ir?

Sandra Veroneze................................................................................... 23

Ler e escrever como terapia

Sandra Veroneze................................................................................... 25

Você é emocionalmente inteligente?

Lorena Fontoura.................................................................................... 27

Oito sinais de que sua mente lhe sabota

Sandra Veroneze................................................................................... 29

Manter-se tranquilo em meio à turbulência

Sandra Veroneze................................................................................... 31


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De turista de academia a 3.000 kms de bike ao ano Larissa Missel Braga Você já deve ter lido vários textos e artigos sobre autossuperação - fazer mais com seu tempo e fazer melhor. Eu também já li e continuo lendo. Mas muita gente lê e acaba esquecendo, dificilmente coloca em prática. E continua a viver, dentro da sua rotina, fazendo mais do mesmo. Pois é. Mas que tal colocar algo em prática dessa vez? Começo falando por mim, aquela aluna que fugia dos exercícios da educação física. Se não fosse para jogar bola, então era chato. Dia de correr, melhor era inventar uma desculpa, uma crise asmática na infância, ou alguma dor, até roupa inapropriada dava para tentar usar como argumento. E quando a escola acaba, a vida adulta começa. Junto com ela queremos melhorar nossa aparência, verão chegando, afinal no sul do Brasil são três meses em que se pode colocar o biquíni. Então, que tal se inscrever em uma academia? Isso aí, três meses de academia completos, verão acabando, chega de malhar, é hora de usar casacos compridos. A idade vai passando, você está estável no trabalho, faculdade concluída, relacionamentos e família tudo certinho e você começa a perceber que não cuidou de si. Dava prioridades a outras áreas, mas nada de levar uma vida sem sedentarismo. Pois bem, seja qual for sua referência, para ter um lazer, para melhorar a saúde, emagrecer, formar novos amigos ou para se autossuperar, qualquer argumento é válido. Eu, por exemplo, resgatei uma paixão de infância, que era pedalar. Sempre tive bicicleta, mas usava para dar pequenas voltas. Casei com o companheiro com o mesmo gosto. Assim encontrei uma amiga, logo várias amigas e amigos, depois um grupo. Ok, mas o que isso tem a ver com autossuperação na prática? Bom, quando eu comecei, não queria subir morros, buscava meus repertórios de desculpas guardados lá do tempo da escola. Mas com o incentivo, com metas e equipamentos corretos é sim pos-

sível mudar nossa forma de enxergar algumas coisas. Ter pessoas que acreditam em você é um primeiro passo. Aquelas que te ajudam a não desistir no primeiro tombo ou na primeira subida alta demais. Afinal, se você busca autossuperação em qualquer área da vida, é importante ter o apoio de pessoas que lhe inspiram e lhe mostram como você é capaz de fechar aquele negócios, ser aceito em um emprego, conquistar a pessoa que você ama. Ter metas. A maioria das pessoas quer viver o agora. Tudo bem, só se vive uma vez, mas enquanto eu estou vivendo não posso deixar as páginas em branco. Que tal colocar lá no final da agenda que neste ano você quer pedalar 1.000 km, quer sair do nível básico do inglês, quer ter a casa própria. Sem saber onde queremos chegar, não se vai a lugar algum. Parece clichê, mas é verdade. Eu por exemplo, em 2018, iniciei com a meta de pedalar no mínimo 50km por semana, ou seja, quando eu puder eu ando mais, quando não der, pelo menos completo minha meta. Tudo também depende da prioridade que damos na nossa vida para cumprir os acordos conosco mesmo. Imprevistos acontecem, como lesões, doenças, mau tempo, ou mesmo muito trabalho, mas ainda assim é possível tirar aquela forcinha para completar o combinado com nós mesmos. Equipamentos são importantes, uma boa bicicleta, uma roupa adequada, capacete para proteção, tudo melhora o desempenho, porém a força está dentro de nós. Será que eu consigo vencer essa subida ou ela me vence? Ir até outra cidade pedalando é loucura pra mim? Mas quando subo na minha bicicleta, percebo que a gente sempre pode um pouco mais, sempre tem uma forcinha interior guardada para percorrer os últimos quilômetros, para “sprintar” na linha de chegada. A turista de academia aqui, no ano passado, pedalou mais de três mil quilômetros. E você, que tal começar hoje mesmo? * Larissa Missel Braga é publicitária


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O que você vai ser quando crescer? Natália Masiero Certamente você já ouviu esta pergunta na sua infância: o que você quer ser quando crescer? As respostas poderiam ser as mais variadas possíveis. Eu respondia que queria ser secretária ou professora. E realmente já exerci funções parecidas com uma secretária e sou professora. A questão é que, durante este percurso, influências diversas faz com que mudemos nossos sonhos. Conheço pessoas que fizeram suas escolhas bem jovens e hoje, na vida adulta. são felizes. Outras não tiveram muita escolha, foram induzidas e são frustradas. E também as que foram evoluindo na sua trajetória, iniciaram em uma área e hoje estão em outra diferente. Uma das possibilidades que vêm sendo discutidas e até por vezes sendo uma válvula de escape para a rotina estressante do dia a dia profissional é a dedicação a um hobby. O conceito do hobby é bem diferente de trabalho, pois você o faz na hora que quiser, durante o tempo que quiser, faz por prazer e satisfação sem receber nada em troca. Eu já tive vários hobbys que viraram fonte de renda, mas como era mais jovem e a imaturidade interfere em nossas escolhas, me dediquei, inicialmente gostei, mas depois a rotina se tornou desgastante e desisti. Você pode pensar: eu amo fazer doces caseiros, é um hobby, pode ser que dê certo... E aquela pergunta lá do início da nossa conversa, o que você quer ser quando crescer, parece ter uma resposta: isso aí, eu gostava de brincar de cozinhar quando era pequena e talvez até tenha pensando em ser uma grande chef! Então investe em materiais, começa a divulgar nas redes sociais seu novo negócio, sua nova profissão... As pessoas ficam admiradas: “nossa, como você tem tempo pra fazer tudo isso?”, “não acredito que você vai largar sua carreira pra vender brigadeiros” e por aí vai. Amigos para elogiar sempre temos, mas para criticar e julgar temos sempre muito mais! Tenho amigas que abriram mão de suas profissões, se dedicando ao que inicialmente era um hobby, e estão felizes com suas escolhas. Problemas sempre terão, mas encontraram nessa atividade que faziam sem compromisso

uma forma de auxiliar ou ser a principal renda da família. Fazer o que se gosta é tão importante para nossa autoestima! Amar o que fazemos profissionalmente é uma meta para quem tem noção da importância desta atividade durante tantos dias da nossa vida. Preenche muitas horas da nossa semana e é realmente necessário nos sentirmos bem no ambiente laboral. Há dez anos atrás, eu e meu esposo começamos a cantar em eventos particulares. Inicialmente, em festas de amigos, depois em festas maiores, como o carnaval da cidade e no coral de uma universidade. O nosso dom para música, que começou há mais de 20 anos, dentro de grupos de jovens da Igreja Católica, estava nos levando a conhecer pessoas e lugares diferentes. O que começou com um hobby (que convenhamos, música é tudo de bom!), foi se tornando também uma fonte de renda para nossa família. Porém, a questão dos ensaios começou a impactar. Não tínhamos tempo, pois cada um trabalha em áreas diferentes, com viagens durante a semana, e cantar em um evento sem ensaiar é falta de comprometimento com o cliente que contratou, com as pessoas que estão assistindo e consigo mesmo. Decidimos diminuir o ritmo. Ter um hobby me ajuda a ser uma pessoa mais leve, muito embora, por vezes, a dedicação nesta atividade seja maior do que no trabalho. Sabemos que nada é perfeito, que por vezes temos que recuar, diminuir a intensidade (de ambos, trabalho e hobby) em detrimento dos nossos projetos e sonhos futuros. É possível conciliar nossa atividade profissional com uma atividade prazerosa, seja cozinhando, escrevendo, pintando, cultivando uma horta, andando de bicicleta, costurando, dançando, fazendo um trabalho voluntário. Afinal, são infinitas as possibilidades. Descubra a sua, aproveite, divirta-se, e quem sabe um dia esse hobby seja também uma atividade profissional. Com planejamento, organização e paciência, pode dar certo, basta começar! * Natália Masiero é Gestora de RH


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Saúde financeira em tempos de incerteza Melissa Kamimura No Brasil vivemos à sombra de alguns fantasmas, como crise, recessão e estagnação econômica, e de um modo geral as pessoas e as organizações tendem a conter despesas e custos quando vislumbram um cenário econômico desfavorável. De certa forma esta atitude de preservação colabora para o aumento de um cenário econômico desfavorável, pois quanto menos se gasta, menos recursos financeiros circulam no mercado, o comércio fatura menos e as indústrias diminuem suas produções. Por outro lado, continuar despendendo recursos sem manter uma atitude de preservação pode ser prejudicial para a própria saúde financeira, pois não se sabe como se comportarão a economia e as finanças de um modo geral. Diante deste impasse tendemos a preservar nosso patrimônio, e muitas vezes paramos de investir, seja em negócios, em bens, e até mesmo em nós mesmos. Ficamos receosos em investir em cursos de atualização profissional, curso de idioma, contratação de coach, planejamento de carreira, até mesmo na contratação de um profissional que possa nos auxiliar a nos organizarmos neste momento. Muitas vezes deixamos de olhar para o futuro do caminho que estamos traçando, ou para uma nova carreira, uma nova graduação ou para um curso de alguma área de interesse, muitas vezes diferente da rotina em que estamos inseridos. Reinventar-se, muitas vezes, não é fácil, mas é necessário. Ampliar o leque de opções e estar atento às novas oportunidades é essencial em momentos de incertezas, e estas incertezas podem vir de uma remodelação interna, pessoal e emocional, ou mesmo do ambiente externo, como crise, recessão e estagnação econômica. Conhecer-se possibilita aplicar melhor os recursos disponíveis, tanto os financeiros e de tempo como os emocionais. Quando nos conhecemos podemos dispor de recursos da melhor forma possível no momento em que é necessário.

Poder se desenvolver e crescer em momentos de incertezas e mudanças nos fortalece para enfrentarmos cada vez mais adversidades, por isso é importante e muito saudável continuarmos investindo no nosso crescimento, aprendizado e desenvolvimento. Nos reinventarmos faz parte do percurso e torna mais fácil seguir em frente. A tão em voga resiliência. Investir em um curso de empreendedorismo não é importante somente para alguém que deseja abrir um negócio, mas também para alguém que queira melhorar seu desempenho no ambiente de trabalho, com uma nova visão, uma nova perspectiva e novos alinhamentos. Fazer um curso de idioma em outro país proporciona uma experiência fantástica, de inserção em outra cultura, outra realidade, angústias e preocupações, possibilita um aprendizado incrível de novas relações e pode proporcionar o desenvolvimento do sentimento da famosa empatia. Claro que para realizar algum investimento também é necessário ter uma reserva de recursos financeiros. Por este motivo é importante a rotina de fazer uma reserva, seja um valor mensal, ou uma parte do aumento de salário recebido como promoção, ou até mesmo o tão esperado décimo terceiro salário. Existem também cursos, palestras e treinamentos que não exigem um desembolso financeiro muito grande, algumas instituições de ensino e associações de classe proporcionam conhecimento a baixo custo e com qualidade. Para encontrar estas oportunidades é importante ficar atento às programações e aos pré-requisitos para realização de inscrições. Não existe somente um caminho quando falamos de nos reinventarmos, o importante é nos conhecermos e identificarmos o que nos traz felicidade e satisfação, e de que forma podemos ir em busca do que queremos. * Melissa Kamimura é Especialista em Finanças


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Rompendo com o destino de origem Clarisse Rozales Quem me conhece sabe que tenho uma propensão ao realismo e ao sarcasmo. O que a maioria não sabe é que herdei essas características da minha mãe. Tudo para ela sempre é muito simples, branco ou preto, certo ou errado, direita ou esquerda... Minha mãe nunca acreditou em sonhos, nunca esperou que a vida lhe desse mais do que o que se espera para alguém do seu tipo, seja que tipo for – mulher, pobre, iletrada, cristã e todas as palavras que nos colocam naquelas caixinhas alinhadas nas prateleiras da vida. Apesar desse olhar pragmático para a existência, minha mãe ensinava a quem quisesse com ela aprender que o futuro nós construímos desde cedo, que não se deve sonhar apenas – porque quem sonha muitas vezes dorme no ponto – mas que é preciso batalhar, dia após dia, pelo que se acredita e pelo que se quer. Lembro de uma ocasião, no auge dos meus saudosos 10 anos, em que, cansada das correrias e brincadeiras de rua, me atirei sobre a cama de minha mãe enquanto ela pregava alguns botões e cerzia algumas meias (falava-se assim naquela época). Fiquei olhando o movimento da agulha, curtindo o tédio inerente de quem tem o mundo pela frente. Minha mãe questionou: “não tem tema pra fazer, filha?”. Com um ar displicente respondi com um desentusiasmado “não ‘tô’ com vontade”. Sem tirar os olhos da costura, com a mesma calma de antes e como se aquilo fosse banal, sua única observação foi: “tá certo... tu tá na quarta série, já sabe ler e escrever, pra empregada doméstica já é o suficiente... Pra que estudar mais, não é?” Arregalei meus olhos, dei um pulo da cama e fui rapidamente para os livros. Com aquela simples observação minha mãe me fez ver que para ir além da sua programação original, aquilo que podemos chamar de “destino de origem”, há um esforço muito maior, que exige muito mais aplicação e trabalho do que para quem já tem o caminho parcialmente trilhado (ou um destino de origem “melhor posicionado”).

Eu sou filha de pedreiro. Seria diferente se fosse filha de médico? Com relação ao que se espera como “destino de origem”, certamente sim. Vejo que a questão já então dizia respeito não a maior ou menor valia desta ou daquela profissão, mas da possibilidade de ir além do que a minha situação inicial previa. A grande diferença era se eu buscaria ou não realizar meu sonho de expandir a caixa em que fora colocada quando nasci. Confúcio já dizia que “sonhar com o impossível é o primeiro passo para torná-lo possível.” A simplicidade da minha mãe me fez ver que não se trata de sonhar, apenas, mas de ‘correr atrás’, esse conceito desconhecido pelas novas gerações. Eu não tinha, na infância, muitos caminhos a seguir, e isto é o que ocorre com a maioria das pessoas, e escolher o caminho certo dá trabalho. O caminho certo não envolve apenas fazer o que é legal ou moralmente correto, mas também fazer aquilo que reverbera no nosso interior, aquilo que queremos e do que nos orgulhamos.

Muito se fala que a nova geração não dará resultados no mundo corporativo - e isto não é necessariamente um mal - porque são jovens imediatistas e acreditam que tudo está ao alcance de suas mãos. Em termos de sobrevivência, isto provavelmente será um grande problema. Vejo tantos colegas que possuem um espírito livre sofrendo em empregos formais, pessoas que se formaram em Direito querendo ajudar pessoas e que sofrem diariamente por estar inseridas no mundo corporativo, médicos cujo sonho era sarar a humanidade e que se encontram atolados em consultas insignificantes de males inventados pelo próprio ser humano, artistas que escolhem profissões tradicionais unicamente por medo de não conseguir dinheiro suficiente para sua subsistência... Fazer escolhas não é uma tarefa fácil, mas é a única tarefa sobre a qual temos total controle.


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Minha mãe tinha dificuldade em entender que o que ela queria para suas filhas não era nada além de um sonho e, com isso, incutiu em nós o desejo de planejar e realizar. Muito se fala que a nova geração não dará resultados no mundo corporativo – e isto não é necessariamente um mal – porque são jovens imediatistas e acreditam que tudo está ao alcance de suas mãos. Em termos de sobrevivência, isto provavelmente será um grande problema, pois nós, os “sábios” nascidos no século passado, sabemos que não há recursos e possibilidades para todos. Temos uma geração muito boa em sonhos, mas que não tem ideia do que seja planejar e este é o risco do sonho: imaginar que tudo no mundo acontece num passe de mágica. A questão é que o acesso à informação desdiz qualquer pesquisa ou estudo sério a esse respeito. Pululam na rede casos de youtubers que ficaram milionários com um canal falando sobre tudo e nada, startups criadas em um apartamento que passaram a render milhões com ideias muitas vezes até simples, especuladores que ganham dinheiro sem construir absolutamente nada. E então vem o pensamento: “se eles fizeram, a minha vez vai chegar também, vou ter uma ideia que vai impactar o mundo e ficarei milionário!”

A realização sem qualquer planejamento apenas é possível àquela pequena gama de afortunados para quem a vida acontece no ritmo e forma certos, sem qualquer esforço, mas se isso não aconteceu com você até agora comece a imaginar que talvez você integre os 99% que precisam trabalhar para concretizar seus projetos.

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O que a maioria não vê – ou não quer ver – é que mesmo por trás disso houve um grande planejamento. Nenhuma startup nasce do nada para o sucesso. Envolve investimento, não só financeiro, mas de tempo, paciência e muita tentativa e erro. Na fase do planejar é que muitos sonhos são abandonados, às vezes com sabedoria, porque nem tudo que sonhamos é viável, às vezes por ansiedade ou descrença no próprio potencial. Como definiu Ambrose Bierce: “Planejar: preocupar-se por encontrar o melhor método para conseguir um resultado acidental.” Apesar dessa definição do sarcástico Bierce, o certo é que sem planejamento dificilmente o resultado, ainda que acidental, acontece. A realização sem qualquer planejamento apenas é possível àquela pequena gama de afortunados para quem a vida acontece no ritmo e forma certos, sem qualquer esforço, mas se isso não aconteceu com você até agora comece a imaginar que talvez você integre os 99% que precisam batalhar para concretizar seus projetos... “São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades” – esta frase de Alvo Dumbledore (J.K. Rowling) nos faz lembrar que o que define nossas vidas é o que fazemos de fato. De nada adianta ter muitas qualidades se elas não retornam em nada concreto. Quantos meninos e meninas prodígio têm uma vida adulta de desespero por não alcançarem a totalidade de seu potencial, geralmente por força de acreditarem que suas qualidades eram suficientes para que a vida retornasse os benefícios decorrentes de suas habilidades. Mas, como diz a música de Ana Vilela, “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. A vida passa muito rápido, somos apenas um grão de poeira no universo, mas podemos aproveitar esse curto recorte de espaço e tempo para construir algo além de nós mesmos, para construir a pessoa que queremos ser e a realização dos nossos sonhos está apenas em nossas mãos e, se não está, talvez esse sonho não seja realmente nosso

* Clarisse Rozales é Advogada


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O caminho é onde você está Sonya Fhernandes Quando paro para pensar em como minha vida já mudou, fico impressionada e admirada com a beleza de toda essa impermanência. Quando adolescente, queria ser psicóloga, como a maioria das meninas daquela época. E foi num teste vocacional onde tive uma das minhas primeiras experiências com decisões sobre escolhas profissionais. O relatório do teste indicava um gráfico perfeito para uma psicóloga, se não fosse o tal item que recebia o nome de “abstração”. Lembro-me como se fosse hoje daquela devolutiva, ímpar e pouco habilidosa, quando se trata de falar sobre expectativas e sonhos para uma adolescente com um pouco mais de dezessete anos. No primeiro momento fiquei triste, ou melhor, arrasada. Logo em seguida, pensei em como poderia aproveitar todos os recursos que eu tinha, e fazer o melhor com aquilo, direcionar para uma profissão que eu pudesse me desenvolver (já comentei em outro artigo que tenho a habilidade da resiliência bem presente e desenvolvida comigo, e foi o que ajudou na época também). Escolhi então, entre tantas opções, cursar Ciências Contábeis (pois é, sou uma Contadora de formação, e por vezes uma Contadora de Histórias). Fiz toda a formação de Ciências Contábeis, o que foi muito importante. Através dela consegui ter uma base forte de Gestão de Processos, Negócios, Aspectos Legais, Jurídicos e Relações Humanas, entre tantos outros aprendizados. Além das pessoas incríveis que me ensinaram muito, teve uma pessoa em especial, sogra da minha colega que dividiu comigo o trabalho de Conclusão de curso. Ela é massoterapeuta. Fui fazer algumas massagens na época do trabalho de conclusão, período em que estava muito esgotada mentalmente: trabalhava oito horas por dia, fazia sete cadeiras e mais o TCC. No primeiro atendimento ela percebeu que eu tinha problema de circulação, e eu contei que se tratava do Fenômeno de Raynaud, ou seja, uma hipersensibilidade

às mudanças de temperatura, e que apresentava má circulação sanguínea nas regiões periféricas do corpo, como mãos e pés. Ela me disse que eu deveria fazer trabalhos com as mãos, e que isso certamente ajudaria na redução dos sintomas. Na época, nem passava pela minha cabeça fazer qualquer atividade que eu tivesse que usar as mãos como instrumento de algo na minha carreira. Claro que hoje eu não atuo como Contadora. Minha verdade era trabalhar com pessoas e para as pessoas. Percorri um caminho que sempre esteve ligado com essa minha paixão e as mudanças foram acontecendo naturalmente. A verdade é que as coisas vão mudando e passam a fazer sentido, e é isso que precisamos olhar e seguir. Depois da minha formatura, busquei especializações e novas formações na área de desenvolvimento humano, comportamental, autoconhecimento e também voltados para espiritualidade, e segui esse caminho. Quando percebi, já estava atuando como Coach, dando aulas de Yoga, e usando o Reiki nos meus atendimentos e projetos. E hoje utilizo minhas mãos como ferramenta do meu trabalho também. Aprendi muito durante o percurso da minha jornada e sei que ainda tenho muito a aprender. Compartilho aqui os meus principais aprendizados: Não procure o conforto, procure a sua verdade Às vezes, o que é mais confortável pode parecer o caminho certo. Mas preste bem atenção para ouvir se o seu coração quer mesmo que você continue neste caminho, só porque ele é confortável. Um bom dia para morrer - Hoje pode ser um bom dia para morrer. Qual é a parte de mim que precisa morrer? O que eu preciso deixar ir para abrir espaço para o novo? Mudando a mim e ao entorno - Não podemos ficar paralisados pelo medo de perder pessoas se a gente mudar. * Sonya Fhernandes é Instrutora de Yoga


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Resoluções Neste ano dá! Tuanny Prado Toda virada de ano é aquilo: um carregamento de promessas para serem cumpridas nos 365 dias seguintes. Muitas pessoas têm o costume de organizar em listas os objetivos a serem realizados: começar aquela tão prometida dieta, comer alimentos mais saudáveis, se inscrever e ir na academia, fazer um curso de idiomas, sair daquele emprego que não faz feliz, viajar. O findar de um ano traz o encerramento de um ciclo e, assim, nos sentimos energizados e motivados a recomeçar. É a hora de sonhar com um mundo de possibilidades. O novo ciclo que inicia provoca a sensação de que é possível atingirmos tudo o que quisermos, se nos planejarmos. Estamos condicionados a esperar o início de algum período para realizarmos essas promessas. O novo ano, a segunda-feira, o aniversário, o novo emprego, a mudança de residência. A chegada de uma nova etapa, da mesma forma, possibilita que simpatias sejam feitas, justamente para que novos ventos soprem e os itens da lista sejam alcançados com uma ajudinha mística. Mas, também, como qualquer planejamento, está sujeita a mudanças. E já na primeira semana, aquela dieta programada começa a ficar em segundo plano, devido aos doces da virada terem sobrado mais que o esperado. Além disso, acontecimentos diversos podem influenciar no direcionamento dos projetos. Daqui a pouco, surge uma viagem que muda completamente a ideia do curso que estava planejado. Ou uma pessoa nova surge, alterando todas as prioridades, fazendo com que a vida seja vista de outra forma. Já estamos em março, portanto resoluções de ano novo bem definidas neste novo ciclo, e conversamos com algumas pessoas para descobrir um pouco mais desse hábito de listar objetivos para o ano que se inicia.

Carla de Matos Affonso Servidora Pública Municipal 34 anos

“Primeiramente faço um balanço do ano anterior e defino quais serão minhas metas para o ano seguinte. Coloco no papel e estipulo prazos. Muitas metas já consegui cumprir dessa maneira. Um exemplo é a conclusão da minha graduação em pedagogia. E já tenho como meta traçada a especialização em psicopedagogia. Mas algumas metas são mais difíceis de cumprir, como por exemplo frequentar a academia e ter um hábito mais saudável de vida. Eu acredito que se a pessoa fizer um planejamento do ano, tiver entusiasmo, força de vontade e disciplina conseguirá com certeza alcançar suas metas.”

Henrique Standt Fotógrafo 25 anos

“A virada de ano sempre foi um momento de bastante superstição na minha família, que ia desde pular sete ondas e fazer um pedido, até colocar alguns grãos de lentilha na carteira para trazer prosperidade financeira. Nunca deu muito certo, pelo menos pra mim. Nessa última decidi não fazer nada, nem mesmo pensar no que poderia acontecer no decorrer do ano. Livre de crenças, livre de necessidades, apenas vivendo o que cada dia me reserva. Talvez essa seja a liberdade moderna que tanto se fala.”


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Natani Perotto Bacharel em Relações Internacionais e estudante de Pedagogia 27 anos Amanda Faleiro Estudante de Fonoaudiologia 21 anos

“Eu sempre faço planejamentos. Meu objetivo neste ano é entregar o trabalho de conclusão de curso, fazer estágio e iniciar a seleção pro mestrado. Estabeleço um plano de ação para executar ao longo do ano, tento fazer um calendário de metas que eu mesma me cobro para cumprir, tanto no que eu estudo, quanto nesses meus planejamentos. Além disso, também faço promessas, não na virada do ano exatamente, mas pra objetivos específicos. E aí, na virada do ano tem mais um sentimento de renovação, de eu focar meus pensamentos no meu crescimento, fatores que devo melhorar, daí é mais pessoal e não necessariamente ligado a um objetivo.” Jonara Cordova Jornalista 25 anos

“Em alguns anos fiz planejamentos bem detalhados e percebi que é mais difícil de seguir. Então, agora, tento ter alguns objetivos maiores e vou planejando ao longo do ano com mais flexibilidade. Mas, em geral, acho interessante fazer planos para o ano novo, pois é um momento legal para repensar tudo e colocar em prática novas ideias. No final do ano é interessante rever o que tinha sido colocado como meta e perceber que muitos objetivos mudaram, porque a mudança de planos é natural e importante também. Por exemplo, eu tinha definido para esse ano conseguir a bolsa de mestrado. Infelizmente, não saiu como o esperado, mas me ajudou a rever minhas prioridades e também os meus sonhos.” Juliana Menezes dos Santos Assistente de Vendas 29 anos

“Eu estabeleço algumas metas, anoto no meu caderno e durante o ano vou tentando realizá-las. Mas muitas vezes aparecem situações que roubam a cena e acabam tirando a prioridade. Mas sempre volto à lista e continuo tentando resolver tudo durante aquele ano. Para 2019, alguns dos meus principais objetivos são relacionados à saúde. Um deles já consegui cumprir no início do ano, o outro, está sendo repensado.”

“Quando o ano novo se aproxima já organizo minha lista de resoluções. Nos últimos anos tenho reduzido minha lista de objetivos e os deixado mais mensuráveis, para não desanimar pelo caminho e conseguir visualizar claramente o que consegui alcançar e o que não deu. Gosto de colocar no papel os objetivos e pelo menos uma vez por mês dar uma conferida, esse é um exercício válido e que me impulsiona.”

Paula Flores de Azeredo Estudante de Psicologia 24 anos

“Planejamento já fiz há algum tempo atrás, porém percebi que conforme os meses passavam algumas vezes a demanda também mudava. Há dois anos decidi que iria apenas pensar no hoje e conforme os interesses fossem chegando faria o possível para realizá-los. Acredito que foi a melhor escolha. Hoje percebo que na grande maioria das vezes cumpro todas as minhas metas, que eu chamo de interesses.” Pedro Oscar Kobielski Auxiliar administrativo 25 anos

“Muitas pessoas encaram as resoluções de ano novo como bobagens. Eu encaro como oportunidades. Não acredito que qualquer tipo de propriedade mística ou metafísica em datas específicas. Mas já existe a convenção social da troca de um ciclo para outro, então não vejo mal algum em utilizar essa passagem para apontar novos direcionamentos para a vida. Eu não costumo estabelecer metas muito específicas, prefiro usar a virada para definir princípios que vão me guiar no ano novo. Pra mim tem funcionado bastante.”

Roberto Caloni Jornalista 26 anos

“Normalmente eu não faço um planejamento escrito, mas costumo pensar nas coisas que fiz no ano anterior e ver o que consegui realizar, o que não deu certo e o que eu podia mudar. Assim consigo pensar um pouco nas coisas que quero fazer para o ano seguinte e como conquistá-las. Não deixo nada fixo, porque sei que outros planos podem surgir e eu também posso mudar de ideia.”


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Feliz 1976!

31 de dezembro de 1975, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos. A felicidade é simples quando se tem seis anos de idade. É a idade do meu filho hoje. A criança ensina-nos a verdadeira resiliência, aquela que não carrega mágoa, que supera limites e nos faz enxergar o lado da bom da vida apesar, dos percalços. Por isso, com certa frequência, visito o passado e o observo a menina de “maria-chiquinha”, cheia de perguntas e uma certeza: a felicidade está nas pequenas coisas do dia a dia. Não me prendo àquele tempo porque já não pertenço mais a ele, apenas aprecio por alguns minutos a sensação de voar alto no balanço de corda e tábua que meu pai fez especialmente para mim, no sabor da bergamota azedinha que meu avô oferecia-me ou no doce que minha avó fazia para os netos – sempre reservando o meu pedaço –, na cumplicidade da nova amizade e na mão da minha mãe protegendo-me de todo mal. A viagem no tempo, às vezes, remete-me ao futuro. Penso no meu filho e nos desafios que ele terá pela frente. Não me prendo a esse tempo porque ainda não me pertence, apenas reflito como posso no momento presente deixar “pistas” de modo que, daqui a alguns anos, ele possa segui-las como João e Maria de volta a seu lar, seu estado de felicidade quando, por um descuido, perder-se por aí. Não sei muito desta vida apesar de ter cumprido uma boa parte dessa caminha. Mas uma coisa aprendi: viver o presente não é simples quando se tem um passado mal resolvido e um futu-

ro tomado pela dúvida. A menina que fui, não perdia tempo pensando nas bonecas quebradas nem se perguntando como seria o seu corpo aos 49 anos. Ela deitava sobre o peito do pai e dormia o sono dos anjos, sentia o olhar atento da mãe a qualquer distância e seguia segura em suas aventuras na copa das árvores. A felicidade está em viver no presente as pequenas coisas do dia a dia. Pode ser receber um cafuné de quem se ama, tomar um banho de mangueira com a galera da quadra, colher macela na beira da estrada no passeio de Páscoa com a família... Incrível como certas coisas marcam a vida da gente. Nenhuma delas, encontra-se no banco. Só se for no banco da praça. As grandes conquistas são importantes, com certeza, porém o que fica mesmo são as pequenas coisas do dia a dia. Ainda hoje, lembro do cheiro da minha mãe morta há mais de 30 anos enquanto me esforço-me em para lembrar a placa do meu carro. A minha “melhor amiga no verão de 1975”, com todo o respeito e carinho aos meus milhares de amigos virtuais, preenche meu coração com uma ternura de um modo que nenhuma tecnologia poderá suprir. Vivi na era do toque, do olho-no-olho, dos diários manuscritos. Não é saudosismo. É a lição que, de tempos em tempos, precisamos resgatar. 31 de dezembro de 2018, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos.

Andrea Guerreiro de Souza é Coach


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Conexões profundas Precisamos? Sandra Veroneze

Ao longo de um dia podem ser dezenas; ao longo de uma vida, dezenas de milhares. Pessoas outras, no mundo, com as quais nos encontrarmos, existem pelo menos sete bilhões. Mas com quantas podemos construir conexões profundas? E por que isso é importante? As relações superficiais são tão necessárias quanto o ar que respiramos. Cabem no happy hour depois do trabalho, no vôlei de praia aos finais de semana, no café ou chopp de vez em quando. A pauta: amenidades... Falamos sobre o desempenho do time do coração, sobre a adequação na escolha de um determinado ator para determinado papel, sobre o meme que foi sensação das mídias sociais naquele dia. Por outro lado, as conexões profundas são vitais, pelo simples motivo de que necessitamos, em alguma medida, elaborar nossas questões. Quanto tempo conseguimos fugir, negar, maquiar nossas dores, frustrações, vulnerabilidades, sem um único “eu te entendo”, mesmo que venha acompanhado de um “você sabe que vacilou, não”? Terapeutas estão com os consultórios lotados, por representarem esse espaço de escuta, de acolhimento e de direção. Varia de frequência e de intensidade, mas é bem provável que toda pessoa emocionalmente ativa, pelo menos uma vez na vida, precisou de intimidade. Precisou de alguém com quem se sentir em casa.

Um ouvido atencioso, um colo para deitar a cabeça e refletir um pouco melhor sobre algo que estivesse angustiando, livre de julgamentos, de reprimendas, de castrações ou de cobranças. E como construir esse espaço? Falar sobre o quanto o mundo em que vivemos não colabora para a criação e manutenção de conexões profundas é terreno estéril. Porque nunca se trata de fora, mas de dentro. Cada um reage, e age, a partir de si, de seus gatilhos pessoais e intransferíveis. Tanto é assim que pessoas diferentes respondem com palavras, sentimentos e ações de formas distintas aos mesmos acontecimentos. E isso simplifica bastante a equação: basta que as duas pessoas ou mais pessoas de fato queiram e permitam esse espaço de encontro, de conexão, para que ele exista. Às vezes, simplesmente acontece. Existem pessoas com as quais você só quer se distrair um pouco, eventualmente beijar na boca. E existem outras com as quais a alma pede mais. Quer estar perto, fazer trocas, sentar ao lado e dizer “que bom que você chegou, meu amigo, ou meu amor”. Essas dão mais trabalho. Exigem atenção, presença (mesmo que virtual), alguma dose de entrega. Mas são, também, as que ficam, as que marcam, e que transformam. Sandra Veroneze é Filósofa Clínica


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Mandar embora Ou deixar ir? Sandra Veroneze

Para muitas relações, o fim é inevitável. Existem encontros com prazo de validade – combinado ou não. Funcionaram para um verão, para um projeto, para um momento da vida. É o cliente que rompeu o contrato, um amigo na infância que mudou de cidade ou colégio, uma paixão arrebatadora que não deve evoluir, um amigo que se isolou... Como lidar com esta fase de necessária despedida, se o coração ainda pulsa e deseja a conexão? Há quem prefira cortes bruscos, ancorados na razão. São pessoas que aprenderam ao longo de suas vidas que dói menos “mandar embora”. Ao menor sinal de que é chegada a hora de se afastar, disparam um comando interno, se posicionam radicalmente, deixam de fazer contato e prejudicam qualquer aproximação - com a situação, com os sentimentos, com lembranças e até mesmo com as pessoas envolvidas ou que possam reavivar a experiência daquele encontro. Há até quem crie em suas mentes quadros negativos, para facilitar o afastamento: “nem era tão bom”, “não vai fazer falta”, “vida que segue” podem dizer a si mesmos. Existem muitas formas de dizer “não me procure mais”. São diversos os recursos para criar distâncias. Ligações não atendidas, respostas evasivas ou secas nas mensagens de texto e até mesmo a total falta de resposta, deixando o outro “no vácuo”, são alguns. A função “bloquear” nos aplicativos de conversa podem ser de grande utilidade. Uma forma um pouco mais sofisticada, muitas vezes aplicada de maneira inconsciente, é gerar briga, desentendimento, para que reste algo ruim, desagradável, levando à conclusão a ambos de que “não quero isso para a minha vida”. Freud explica. E se em vez de “mandar embora” simplesmente “deixemos ir”? “Deixar ir”, que pode ser tão ou até mais doloroso do que mandar embora, pressupõe res-

peitar o ritmo da fase final deste encontro, com todas suas dores e desafios. Vai bater saudade, vai bater a dúvida, e nestes momentos podemos contar a nós mesmos muitas histórias para aliviar a dor: não era para ser, era o que tinha a ser feito, não tive escolha... Estamos falando de histórias de amor? Provavelmente, estejam elas na embalagem de um relacionamento a dois, de amizade, profissional ou até mesmo familiar. Quando os encontros são reais, seja por uma atração, seja por um projeto que foi construído conjuntamente e que tem muito de nosso afeto, suor e dedicação, há um laço diferente envolvendo as pessoas que sonharam e realizaram junto. Que o digam os inúmeros gestores que se veem obrigados a dissolver equipes após concluir um trabalho temporário, ou demitir algum funcionário porque ele mudou, ou porque a empresa e suas necessidades mudaram. Sofrem, cada um na justa medida do quanto quis, do quanto se envolveu, e do quanto se permitiu, porque, salvo pessoas com sérios distúrbios emocionais, todo e qualquer corte deixa sua marca. Existem, porém, boas notícias. Se o encontro valeu a pena, se mexeu e trouxe crescimento, e respeitando a lei dos ciclos, o laço permanece. O cliente pode se tornar amigo, o amigo de infância que se mudou pode ser buscado via redes sociais, a paixão arrebatadora pode se tornar uma deliciosa amizade, o amigo que se isolou pode resolver suas questões e voltar ao convívio... O outro já não será o mesmo, nem tampouco nós. Seja com o “mandar embora” ou com o “deixar ir”, houve o fim, houve a despedida, e na continuidade do ciclo houve um reencontro, agora com um novo jeito, um novo matiz, novas perspectivas, alegrias e trocas. E vida que segue!

Sandra Veroneze é Filósofa Clínica


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Ler e escrever como terapia Sandra Veroneze

Os caminhos para se chegar a uma melhor condição de bem-estar subjetivo são tão diversos quantos são os indivíduos. Para alguns, conversar semanalmente com o terapeuta é o melhor dos caminhos. Para outros, a alma sorri mesmo é com uma boa conversa jogada fora junto daqueles amigos sinceros que dizem coisas bonitas com a mesma naturalidade com que convidam a refletir sobre as falhas e fissuras no seu jeito de ser e existir. Tão bem faz, igualmente, para algumas pessoas, a prática da fé e da espiritualidade, ou da solidão momentânea, para ficar de encontro com seus próprios pensamentos, com seus próprios sentimentos. A lista é infindável: brincar com os netinhos, tomar chimarrão na praça, paquerar ao pôr do sol, cozinhar para o amor da sua vida, cuidar de plantas e jardins... Tudo isso faz bem, gera prazer e satisfação em viver, para muitas pessoas. Para um sem número de sujeitos, porém, existe um método que historicamente se estabeleceu como charmoso para retratar das dores e alegrias que passeiam pelo íntimo de cada um: a literatura como terapia. Vale para quem lê: quem nunca se identificou com as angústias de Sartre, com as dúvidas de Machado de Assis, com as dores de Florbela Espanca, com o romantismo inocente de Mário Quintana? E assim tornou sua dúvida, seu medo, e sua dor, um pouco menor, um pouco melhor compreendida, e portanto mais acessível de ser trabalhada, lapidada, superada?

Vale para quem escreve: quem nunca, ardendo em paixão, atreveu-se a escrever versos quentes? Quem nunca, aos borbotões, transformou a dor de uma perda em carta triste, que jamais foi enviada. Ou foi? Quem nunca, não conseguindo externar o que sentia, transformou seu diário na melhor companhia, passando a limpo fatos, percepções e sensações que ajudaram a diminuir sua solidão? A literatura traz benefícios, tanto para quem lê quanto para quem escreve. E talvez o primeiro deles seja a qualificação do tempo. Sabe aquele final de tarde em que nada chama a atenção? Você já está há minutos zapeando na televisão, sem encontrar algo de interessante? Talvez esse seja um bom momento para pegar um livro ou se dispor a desenvolver algumas linhas. Mas os benefícios vão muito além e podem até assumir ares de terapia. Diversas abordagens, inclusive, utilizam, de maneira sistematizada, a arte em seus procedimentos. Em se tratando de literatura, no processo de identificação (seja por antipatia ou simpatia) com cada um dos personagens, é possível investigar o próprio íntimo. Os desconfortos ou apreços que personagens e tramas que sentimos não são gratuitos. Antes, são capazes de dizer muito sobre nosso próprio existir. Já havia pensado sobre isso? Bora escrever?

Sandra Veroneze é Filósofa Clínica


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Você é emocionalmente inteligente? Lorena Fontoura

A definição de emoção é muito simples, porém de uma complexidade imensa: a emoção é provocada por um estímulo externo que passa por frações de segundos em nosso cérebro, desencadeando reações fisiológicas e orgânicas que findam em nossas sensações físicas.

Normalmente entendemos melhor as emoções positivas, como alegria e amor, entretanto temos culturalmente um abismo em relação às emoções menos positivas (prefiro usar termos mais leves que ruins, negativas etc), como medo, vergonha, nojo, tristeza e raiva.

Então, como ser emocionalmente inteligen-

- Capacidade de controlar uma emoção: no momento que você sente e entende a emoção que seu corpo exala, torna-se mais fácil seu controle. Mas lembre-se que são habilidades hierárquicas e estamos no degrau que exige uma autoconsciência desenvolvida, pois controlar uma emoção menos positiva, sabendo que esta gera uma certa incapacidade mental de tomada decisão assertiva, é um pouco mais complexa.

te? Nossa inteligência emocional se distingue em quatro termos, segundo Mayer e Salovey: capacidade de sentir; capacidade de entender; capacidade de controlar e capacidade de modificar nosso estado emocional. Estas quatro habilidades atuam de forma hierárquica, ampliando assim nossa inteligência emocional. Vamos entendê-las uma a uma: - Capacidade de sentir a emoção: habilidade básica, não significa que dominamos. Temos uma facilidade de sentir uma emoção, porém identificarmos o que estamos sentindo e qual a energia que esta emoção está gerando em nosso organismo pode ser um pouco mais difícil. Você sabe que está sentindo raiva, por exemplo, mas sabe entender, controlar e modificar esta emoção para que esta trabalhe e seu favor? - Capacidade de entender a emoção: habilidade subsequente à capacidade de sentir, pois agora você já sabe que está sentindo, mas você sabe entender por que está sentindo? O que provoca esta emoção? Por que seu corpo, seu estado de espírito se transforma desta maneira?

- Capacidade de modificar seu próprio estado emocional: requer domínio das outras três habilidades mencionadas anteriormente. Uma vez que você identificou o que sente, entendeu o que sente e controlou o que sente, deve agora apropriar-se destas energias “tóxicas” e transformá-las em energia positiva em seu próprio benefício, decantando, filtrando o que há de positivo em algo ou ação que antes lhe era desagradável, pois agora você sabe todos os porquês de sentir o que sente. Isso é inteligência emocional! Parece aqui muito fácil, mas garanto que é possível, com treinamento e disciplina constante até tornar seus novos métodos em hábitos. Lorena Fontoura é Coach


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8 sinais de que sua mente lhe sabota Sandra Veroneze

O invisível rege o visível. Platão, há mais de dois mil anos, já falava sobre as ideias habitarem um mundo próprio, todo seu, até serem canalizadas para a mente humana e então se materializarem, se tornarem realidade. Sermos criativos, portanto, dependeria de cultivarmos uma mente saudável e em perfeitas condições para receber esse fluxo de energia. Mas você sabe identificar quando sua mente não lhe ajuda? A verdade é que nem tudo que passa pela sua mente serve. Conheça alguns sinais de que a sua mente está lhe sabotando: - Não deixa você descansar. Você deita a cabeça no travesseiro à noite, para dormir, e a mente não para. Passeia infinitamente pelos acontecimentos do dia, pelos compromissos que virão, pelas coisas que não deram certo, gerando estafa e ansiedade. Um dos resultados é a falta de energia e irritabilidade no dia seguinte. - Faz você se comparar com os outros. Por falta de um referencial próprio, interno, sua mente faz com que você preste atenção no desempenho dos outros: colegas de trabalho, amigos... O resultado é uma eterna insatisfação, porque, obviamente, sempre terá alguém melhor que você. - Interpreta de forma equivocada os fatos. Nossa percepção depende dos sentidos. Lemos e experimentamos o mundo pelo olfato, paladar, toque, pela audição e visão. Quando a mente se abstém de filtrar e processas essas informações, ficamos reféns de análises rasas, superficiais, do que está realmente acontecendo. Não conse-

guimos contextualizar, colocar em perspectivas. Ficamos simplórios e, não raras vezes, tacanhos. - Não permite que você aprenda com seus erros. Muitos dissabores são produzidos porque repetimos experiências e situações catastróficas. A mente que atrapalha faz com que as conclusões tiradas a partir de um insucesso não sejam retidos, internalizados, levando você a cometer os mesmos erros. - Não permite que você se concentre. Energia concentrada produz melhores resultados. Esse aspecto, na mente, significa foco. Uma mente que lhe atrapalha estará sempre atenta aos movimentos paralelos, impedindo que você se concentre no que realmente importa. - Fica presa a padrões. Uma das principais características da mente é a velocidade. Os pensamentos são, por natureza, livres. Porém, sua mente pode ficar presa a inúmeros padrões, crenças, impedindo que você desenvolva todo seu potencial. - Traz pensamentos que não lhe confortam. Uma mente que atrapalha trará sempre lembranças negativas, cobranças exageradas, em vez de produzir pensamentos de conforto e esperança. Sobretudo, preste atenção se você anda muito preocupado. O natural é ocupar-se. O pré-ocupar-se, que é diferente de planejamento, é um forte sabotador de seus planos, suas ideias, sua vida. Sandra Veroneze é Filósofa Clínica


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Manter-se tranquilo em meio à turbulência Sandra Veroneze

Existem circunstâncias que podem ser controladas e outras que não - já diziam os filósofos estoicos, dentre eles Sêneca e Epicuro. O conselho, proferido há mais de dois mil anos e muito sábio até os dias atuais, resumia-se basicamente a nos atermos somente aos aspectos controláveis da vida se quiséssemos ter um mínimo de bem-estar. Fenômenos da natureza, atitudes de outras pessoas e trânsito são apenas alguns exemplos do que não controlamos. Por mais que tenhamos força do pensamento, tecnologia e boa vontade para fazer o impossível, esses são elementos que não conseguimos manipular ao sabor de nossos desejos. Por outro lado, existem algumas coisas que conseguimos manter num nível razoável de manejo pessoal. Nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossas ações são alguns exemplos. Como reagimos aos fatos, portanto, está inteiramente sob o nosso controle, certo? Mais ou menos. Algumas teorias antigas dizem que temos somente 5% de livre arbítrio. Todo restante seria resposta automática e condicionada

de nosso inconsciente, de nossos instintos e de nossa educação. Mas o que parece desanimador à primeira vista esconde, na verdade, um grande tesouro. Os 5% que nos cabem podem mudar tudo. Experimente inclinar à esquerda ou à direita cinco graus em uma linha reta que você esteja desenhando no chão ou papel. Não tardará para em pouco tempo estar bastante distanciada do que seria o traçado original, caso continuasse em linha reta. Os 5% influenciam nossas escolhas. Levantar todos os dias está nestes 5%. Alimentar-se bem, ter hábitos saudáveis, praticar algum esporte, manter um bom nível de relacionamento com os colegas de trabalho, prezar por amizades verdadeiras, cultivar pensamentos que favoreçam e tantos outros, também... Ler este artigo está nos 5%. Ou seja, escolher o que fazer com as 24 horas do dia está inteiramente sob o nosso controle. E não é pouca coisa. É, simplesmente, tudo! Sandra Veroneze é Filósofa Clínica


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Revista Saber-se #01 - Abril 2019  

A Revista Saber-se promove conteúdos inspiracionais para ampliação de consciência.

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