Óbvio Cotidiano

Page 1


óbvio cotidiano

Carregar em si a origem nipônica faz de Sandra Hiromoto uma artista impregnada de paradoxos. O imaginário maior constrói no espectador a esperança de se deparar com uma obra que se mostre singela, onde tecidos brocados e traços dançantes ornamentem uma delicada composição. E dessa forma ocorre de imediato um desequilíbrio entre o percebido e o imaginado. Sua personalidade artística ironiza com essa expectativa em sua criação, suprimindo os limites da arte conceitual inspirada em Claes Olderburg e expondo de maneira incisiva uma experiência estética que discute o estatuto da mais sofisticada visão Pop. Diversamente de Claes, Sandra não abandona a pintura o que para nós espectadores é uma satisfação. Com essa atitude, suas “coisasimagens” são apresentadas nas formas de belos traços, belas combinações de cor e o vigor de quem tem uma visão privilegiada do real. Sua obra é regalia dos olhos amendoados que compreendem um cotidiano óbvio, porém com toques de artista que explode em poesia Pop. Sandra expõe nesta série de pinturas uma agitação que coloca em discussão a sua capacidade de negar um modo de expressão comum prestando-nos um serviço ao exibir o encanto de sua interpretação para um cotidiano construído pela combinação de pintura e mídia eletrônica. O que para nós resulta em beleza e força constituindo mais uma face do paradoxo citado. Uma artista que reconhece sua experiência no mundo transformando esse mundo, ou melhor, transformando esse cotidiano em arte. Sua obra é a verdade de sua época e seu pensamento se abre puramente para uma estética da força substituindo os traços dançantes e delicados que esperamos dela por beleza intensa e significativa. Gaston Bachelard diria: “A cada grande objeto corresponde uma personalidade onírica”. No caso da arte de Sandra Hiromoto poderíamos acrescentar: “A cada óbvio cotidiano corresponde um vigor estético de quem sabe olhar”. Gladys Mariotto

Artista plástica Mestre em Filosofia/Estética - PUCPR

obvious routine

Carrying the oriental background on her shoulders makes Sandra Hiromoto an artist filled with paradox. A greater imaginary builds in the audience the hope of facing a work that is naïve with its texture and dancing marks ornamenting a delicate composition. Through this effect, an instant unbalanced takes place between the perceived and the imagined. Her artistic personality creates a feeling of irony with the expectation of her creation suppressing the limits of conceptual art inspired in Claes Olderburg. Also, it shows the salient way an aesthetic experience that discusses the statute of the most sophisticated Pop view. Differently of Claes, Sandra has not abandoned painting and this is such a pleasure for us, the audience. By this attitude, her things-images are presented in beautiful marks and nice color matching with the strength of whom has an enhanced view of the reality. Her work is a gift of the oriental eyes that have understood an obvious routine yet, by her artistic touch they are fulfilled in Pop poetry. Sandra presents in theses array of paintings an unrest that discusses her capacity to negate a way of common expression. Also, the artist shows an enchanting interpretation for a routine constructed by a combination of painting and electronic-media. Resulting in beauty and strength that results in another face of the paradox already mentioned. She is an artist that recognizes her own experience in the world being affected and transformed by it in her routine and, consequently, in her art. Her work is the truth of her time and her thinking open up to an aesthetic of strength replacing the delicate dancing marks that are expected from her meaningful and intense beauty. Gaston Bachelard would have said: ‘For each great object corresponds an oniric personality’. Talking about Sandra Hiromoto we could add: “For each obvious routine corresponds an aesthetic strength of whom knows how to look`. Gladys Mariotto Plastic Artist / Master in Philosophy / aesthetic-PUCPR


umaconversacomoentorno

I Este texto pretende dialogar com a obra de Sandra Hiromoto, particularmente com a série Óbvio Cotidiano, cujas trabalhos nasceram a partir de viagens que a artista realizou por grandes metrópoles como Berlim, Madri e Paris. O impacto causado por essas cidades sugeriram à artista que se debruçasse sobre tantas imagens, espaços e pessoas, e possibilitou lançar seu olhar atento a aspectos novos da paisagem, marco que sempre dá início ao seu processo artístico. O que surgiu após tal contato é uma obra pontuada por signos da cidade: pessoas, bicicletas, torres, tratores, etc. Surgiu, também, uma “conversa com o entorno”, segundo suas palavras. Nas paisagens urbanas de Hiromoto, porém, a cidade não aparece como cenário, mas como organismo vivo que nos desafia a experimentar sensações novas. Olhar a paisagem significa também vivê-la em sua totalidade. Sensação, imaginação e entendimento fundem-se para criar um novo espaço a partir daquele na qual a artista se inspirou. Neste caso, temos várias experiências sensoriais: a primeira (o olhar da artista sobre a paisagem), a segunda (a obra realizada a partir de sua intervenção sobre a paisagem retratada), a última, e talvez a mais importante, o olhar do espectador sobre uma paisagem que é reconhecível sem parecer uma “imitação” da paisagem real, o que seria impossível, mesmo que a artista assim o quisesse. Sua fatura utiliza recursos técnicos atuais, mas seu resultado é próximo dos grandes paisagistas. Hiromoto juntou a fotografia digital com os princípios da pintura. Seu vigor plástico é uma mistura do domínio gráfico apreendido durante sua vivência diária com o lápis e o papel, e de sua sensibilidade pictórica apreendida a partir do contato com as tintas. Será necessário retomar estes aspectos ao final. Desta forma, as milhares de fotografias brutas, realizadas pelo olhar atento da artista, sofreram interferências digitais e posteriormente foram impressas em telas e pintadas com tinta acrílica. II A influência do artista pop sueco, naturalizado americano, Claes Oldenburg (1929) é assumida pela artista. O artista foi objeto de extensa pesquisa empreendida por Hiromoto e resultou numa importante monografia. Oldenburg trabalha com a idéia de “monumento”, próximo da idéia de objeto comum, usado, por exemplo, pela Pop Art. Mesmo sendo comuns, esses objetos guardam um grande fascínio, principalmente quando trabalhados pelas mãos do artista. Podemos aceitar o interesse de Hiromoto na obra de Oldenburg por causa da associação entre arte-cidade presente na obra do artista sueco. Esta associação fascinou Hiromoto, mas os resultados são diferentes. Segundo o historiador Carlo Giulio Argan, “com Oldenburg, desaparece qualquer vestígio de pintura, permanecem apenas as coisas-imagens, ampliadas e exageradas nas cores berrantes, intrometidas demais num espaço que parecem roubar à nossa existência” (Arte Moderna, p.577). Em Hiromoto os objetos são apenas o meio, a pintura é o fim. Não há a dissolução do objeto com um fim crítico, como em Oldenburg ou na Pop Art, mas a apreensão do objeto de forma afetuosa. A cidade, o homem e seu “contorno” estão no centro da obra de Hiromoto. Seu olhar é, antes de tudo, carinhoso. Não há a impiedosa crítica de Oldenburg, pois Hiromoto não deforma a paisagem, a torna, sim, mais intensa. Ambos, porém, parecem fascinados pelos objetos. III Traçando, portanto, um caminho próprio, Hiromoto une sua habilidade gráfica com um projeto artístico que se complementam. A artista uniu um fazer técnico que a tornou conhecida (o grafismo, a fotografia, o desenho) com um talento pictórico desenvolvido no decorrer dos anos. Sua obra é, assim, fruto de um repertório técnico (adquirido a partir de sua profissão de designer) com uma fatura pictórica que nunca foi relegada em função do trabalho gráfico. Ao unir estes dois aspectos, Hiromoto apresenta um trabalho artístico no qual formas contemporâneas fundem-se com um fazer também contemporâneo. Sempre atenta a novas tecnologias, Hiromoto não se furta em utilizá-las. Seu universo agrega o que há de mais avançado com uma pincelada muito bem visível. Uma pincelada, porém, como disse novamente Argan, pode nos dizer mais do que o objeto pintado. Eis o que disse textualmente Argan: “uma pincelada pode ser tão ou mais significativa do que a descrição de um objeto” (Clássico anticlássico, p. 17). O que pode ser um paradoxo, é uma das grandes qualidades da obra de Hiromoto. Esse equilíbrio entre uma fatura tradicional (o uso do pincel e da tinta) e uma fatura moderna (o uso da fotografia digital e do computador) transformam sua obra numa experiência única. Daí a atenção que essa obra desperta. João Coviello

Artista plástico / Ensaísta / Mestre em Filosofia – PUC-PR


a talk with the edge

I This text intends to discuss the work of Sandra Hiromoto, especially the series named ‘Obvious Everyday’ in which the works were born due to trips that the artist made to big cities like Berlim, Madri, and Paris. The impact caused by such cities made the artist to stare attentively upon so many images, spaces, and people, as a result, such attentive stare upon new aspects of the landscape made her to start her process of producing. Being this attentive stare one of the features of her work. The work that turned out after this contact is marked by sighs of the city : people, bicycles, towers, bulldozers, etc. Also, the trip triggered a ‘talk with the edge’ according to the artist. In the urban landscape of Hiromoto, the city is not portrayed as an ordinary thing but as an living organism which challenges us to experience new sensations. Looking the landscape means keeping its totality, as well. Sensation, imagination, and understanding are put altogether in order to create a new space from the one that the artist got inspired. In this case, we have many sensorial experiences: the first one (the stare of the artist upon the landscape); the second one (the work made from her intervention of the scene portrayed); the last one and maybe the most important, is the stare of the viewer upon a landscape that is recognizable without being an imitation of the actual landscape ,even if the artist might have tried. We can see that her work uses up to date technical resources but the result is compared to the great artists who portrayed landscapes. Hiromoto mixed the digital photography and the painting altogether. Her plastic strength is a mixture of her good graphic command learned through her experience with pencil and paper. Also, her pictorical sensibility that was learned through her experience with ink. As a consequence, millions of raw photographs that were taken by her, passed through digital interference and were later printed and painted in canvas with acrylic ink. II The influence of the Swedish artist who became an American citizen, Claes Oldenburg 1929, is assumed by Sandra Hiromoto. The artist was the object of a great research started by Hiromoto and it resulted in a good monograph. Olderburg works with the idea of a ‘monument’ next to the idea of a common object and it is used by the Pop Art. Even tough these objects are common; they keep a great amazement on us mainly when they are used by the artist hands. We can see the Sandra Hiromotos`s interest in the work of Oldenburg due to the association between city-art present in the work of Olderburg. Such association amazed Hiromoto from the beginning. According to the researcher Carlo Giulio Argan ‘on Oldenburg every singles signal of painting disappears remaining just the thing-images which are enlarged and highlighted in bright colors. Such colours seem to steal our existence’. Modern Art, p.577. In Hiromoto`s work the objects are just a means of painting not the end. There is no dissolution of the object as a means of criticism as in Oldenburg or in the Pop but the perception of the object is more affectionate. The city, the man and his edge are in the center of Hiromoto`s art. Her look is above all tender. Her work is not like Oldenburg because she does not distort the landscape but makes it more colorful. However, both artist are mesmerized by the objects III Thus, building her own path, Hiromoto uses her graphic ability and artistic project in a way that they complement each other. The artist put together a technical doing which is known as – graphism, photography, and drawing with a pictorical skill developed through the years. Her work is the result of a technical repertoire- since she has being a designer. Putting together these two aspects her work contemporary shapes clashes in a contemporary doing. Being always attentive to new technologies she does not hesitate in using them. The universe of the artist uses the most up- to- date brushes. A brush, as Argan said: ‘A brush can say many things and such a brush can say more than the real object.’ Classical, Anticlassical, p,17. Something that can be paradox is one of the most distinctive qualities of her work. The mixture of the traditional and the modern makes her work unique. João Coviello Plastic Artist / Write /Master in Philosophy – PUC-PR