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O OUTRO LADO DA MEIA-NOITE AUTOR: SIDNEY SHELDON Dados da Edição: Publicações Europa-América, Mem Martins, 1993, 2ª Edição. Colecção: "Obras de Sidney Sheldon". Título original: The Other Side of Midnight. Género: Romance. Digitalização: Dores Cunha correcção: Maria Fernanda Pereira. Estado da Obra: Corrigida. Numeração de Página: Rodapé. Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Obras De Sidney Sheldon Título original: The Other Side of Midnight Tradução de Manuel Cabral Obras Publicadas Nesta Colecção: 1- Memórias Da Meia Noite 2 - O Outro Lado Da Meia Noite 3 - Um Estranho Ao Espelho 4 - Laços De Sangue 5 - O Rosto Nu 6 - Conspiração - Dia Do Juízo Final 7 - A Fúria Dos Anjos 8 - O Brilho Das Estrelas


Sidney Sheldon O Outro Lado Da Meia Noite 2. Edição Publicações Europa-américa Título original: The Other Side of Midnight Tradução de Manuel Cabral Tradução portuguesa O de P. E. A. Capa: estúdios P. E. A. O Sidney Sheldon, 1973 Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de pequenos textos ou passagens para apresentação ou crítica do li vro. Esta excepção não deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva àtranscrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis de procedimentojudicial Editor: Francisco Lyon de Castro PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA. Apartado 8 2726 MEM MARTINS CODEX PORTUGAL Edição: 161202/5937 Execução técnica: Gráfica Europam, Lda. Mira-Sintra - Mem Martins Depbsito legal ": 71 X6l1193 PARA JORIA que me dá prazer de mil e uma maneiras


AGRADECIMENTOS Desejo manifestar a minha gratidão a todos quantos, com a sua generosidade, me ajudaram a compor o mosaico deste romance com os azulejos dos seus conhecimentos, saber e recordações. Em ocasiões onde senti que a história seria benefciada, fiz uso da liberdade literária, mas quaisquer erros factuais são da minha inteira responsabilidade. Os meus reconhecidos agradecimentos vão para as seguintes pessoas: Em Londres Sra. V. SHRUBBALL, do Departamento de História do Ar, Ministério da Defesa britânico, pelas inestimáveis informações fornecidas sobre a Esquadrilha Águia, o grupo de pilotos americanos que voou com a R.A.F. antes da entrada dos Estados Unidos na segunda guerra mundial.Earl Boebert, por informações complementares acerca da Esquadrilha Águia. Em Paris: ArrnR WEiL-CuRIEL, ex-vice-presidente da Câmara de Paris, por sugestões e recordações úteis de Paris durante a ocupação alemã. Madame HEVAULER, chefe do Arquivo da Comédie Française, por me ter facultado o acesso aos seus arquivos da história do teatro francês. Cinune BnicrrREs, jornalista de Le Figaro, pelo apoio prestado na obtenção de fontes de informação de primeira-mão sobre a ocupação da França. Em Atenas: Sra. ASPA LAMBROU, que por magia abriu todas as portas e foi infalível e generosamente prestável. JEAN PIERRE DE VITRY D’ AVAUCOURT, piloto pessoal de AristótelesOnassis, por conselhos e sugestões técnicos. COSTAS EFSTATHIADES, distinto advogado, pela ajuda prestadasobre os procedimentos do direito criminal grego. Em Los Angeles: RAOUL AGLION, Conselheiro Económico do Banco Nacional deParis, por partilhar o seu conhecimento da história e costumes franceses. Exceptuando a referência a vários dirigentes da história universal, todas as


personagensdeste livro são fictícias. PRÓLOGO Atenas: 1947 Através do pára-brisa sujo de pó do seu automóvel, o chefe de polícia Georgios Skouri observava o colapso sucessivo dos edifícios de escritórios e hotéis da baixa de Atenas, que se desintegravam numa dança lenta, como filas de pinos gigantes numa pista de boliche cósmico. - Vinte minutos - prometeu o polícia fardado que se encontrava ao volante. - Não há trânsito. Skouri anuiu distraidamente e fitou os edifícios. Sempre se sentiufascinado por esta ilusão. O calor difuso do sol implacável de Agosto envolvia os edifícios em vagas ondulantes, dando a impressão de que os mesmos desciam em cascata sobre as ruas numa queda de água graciosa de aço e vidro. Passavam dez minutos do meio-dia, e nas ruas quase desertas os poucos transeuntes estavam demasiado letárgicos e apenas se limitaram a dar um relance breve e curioso às três viaturas da polícia que se deslocavam velozmente para oriente na direcção de Hellenikon, o aeroporto situado a trinta quilómetros do centro de Atenas. O chefe Skouri viajava no carro da frente. Em circunstâncias normais, teria ficado no conforto climatérico do seu gabinete enquanto os subordinados iam trabalhar sob o calor abrasador do meio-dia, mas as presentes circunstâncias estavam longe de ser normais, e Skouri tinha razões redobradas para estar aqui em pessoa. Em primeiro lugar, no decurso do dia de hoje, os aviões trariam pessoas importantes de várias partes do globo, e era necessário assegurarlhes uma boa recepção e o mínimo de maçada na passagem pela alfândega. Em segundo lugar, e mais importante, o aeroporto estaria cheio de repórteres da imprensa estrangeira, bem como de operadores de câmara das atualidades cinematográficas. O chefe Skouri não era nenhum idiota, e ocorrera-lhe, enquanto se barbeava esta manhã, que a sua carreiranão sairia prejudicada se ele aparecesse nas actualidades cinematográficas no momento em que tomava a seu cargo os eminentes visitantes. Era um acaso extraordinário do destino que um acontecimento mundial desta sensação se realizasse nos seus domínios, e ele seria estúpido se não tirasse partido. Discutira o caso em grande pormenor com as duas pessoas que na vida lhe estavam mais próximas: a mulher e a amante. Anna, uma mulher de meia-idade, feia, azeda e de origem camponesa, dissera-lhe que ele não deveria ir ao aeroporto, mas ficar em segundo plano, para que não lhe lançassem as culpas de algum percalço. Melina, o seu anjo doce, belo e jovem, aconselhara-o a receber os dignitários. Ela concordou com a opinião de que um acontecimento destes o catapultaria para a fama imediata. Se Skouri conduzisse bem o assunto, no mínimo seria aumentado e - se Deus quisesse - poderia até tornar-se comissário de polícia quando o actual comissário se reformasse. Pela centésima vez, Skouri reflectia sobre a ironia de Melina ser a sua mulher e Anna a sua amante, e interrogava-se de novo onde errara ele. Skouri preocupava-se agora com o que ia passar-se. Devia garantir um êxito total no


aeroporto. Acompanhavam-no doze dos seus melhores homens. Sabia que o seu principal problema seria controlar a imprensa. Ficara espantado com o elevado número de repórteres de jornais e revistas importantes que chegaram a Atenas vindos de todos os cantos domundo. Ele próprio fora entrevistado seis vezessempre numa língua diferente. As suas respostas foram traduzidas para alemão, inglês, japonês, francês, italiano e russo. Mal começara a desfrutar desta nova notoriedade quando o comissário o chamou para lhe fazer sentir a inconveniência de o chefe da polícia comentar publicamente umjulgamento de homicídio que ainda não se realizara. Skouri tinha a certeza de que a verdadeira motivação do comissário era a inveja, mas prudentemente decidira não complicar as coisas e recusara todas as outras entrevistas. Contudo, o comissário não poderia certamente apresentar queixa se ele, Skouri, se encontrasse no aeroporto no centro da actividade no momento em que as câmaras estivessem a fotografar as celebridades que iam chegar. Quando o carro acelerou na Avenida Sygrou e virou à esquerda, à beira- mar, em direcção a Phaleron, Skouri sentiu um nó no estômago. Estavam agora apenas a cinco minutos do aeroporto. Mentalmente, examinou a lista das celebridades que chegariam a Atenas antes do anoitecer. Armand Gautier enjoava quando andava de avião. Tinha um medo arraigado de voar, proveniente do amor excessivo que sentia por si próprio e pela vida, o qual, combinado com a turbulência geralmente sentida ao largo da Grécia no Verão, lhe causava um enjoo terrível. Era um homem alto, asceticamente magro e com ares eruditos, uma testa alta e uma boca perpetuamente sardónica. Aos 22 anos, Gautier ajudara a criar La Nouvelle Vague na difícil indústria do cinema francês, e, nos anos que se seguiram, arrebatara triunfos ainda maiores no teatro. Actualmente reconhecido como um dos maiores realizadores do mundo, Gautier vivia este papel em pleno. Até aos últimos vinte minutos, o voo fora muito agradável. As hospedeiras, assim que o reconheceram, atenderam os seus pedidos e deram-lhe a entender que estavam disponíveis para outras actividades. Vários passageiros vieram ao seu encontro durante o voo para exprimir a grande admiração que sentiam pelos seus filmes e pelas suas peças, mas ele estava mais interessado na bonita universitária inglesa que frequentava St. Anne's em Oxford. Ela estava a fazer uma tese de mestrado sobre teatro, e como tema escolhera Armand Gautier. Conversaram sem problemas até à altura em que ela mencionou o nome de Noelle Page. - Você é que era o realizador dela, não era? - disse. - Tenho esperança de poder ir ao julgamento. Vai ser uma palhaçada. Gautier deu por si agarrado aos braços do lugar onde se sentava, e a força da sua reacção surpreendeu-o. Mesmo depois de todos estes anos, a lembrança de Noelle evocava nele a dor aguda de sempre. Nunca ninguém o enternecera como ela, e nenhuma outra mulhervoltaria afazê-lo. Desde que Gautier soubera, através dosjornais, da prisão de Noelle três meses antes, não conseguia pensar noutra coisa. Enviara-lhe um telegrama e escreveralhe, pondo-se à sua disposição para o que fosse preciso, mas nunca recebera uma resposta. Não tencionara assistir ao julgamento, mas sabia que não conseguiria ignorá-lo. Disse a si próprio que o seu único interesse era ver se ela se modificara desde que viveram juntos. E, no entanto, confessou que havia outra razão. O lado teatral que havia nele tinha


de estar presente para testemunhar o drama, para observar o rosto de Noelle quando o juiz lhe dissesse se ela ia viver ou morrer. A voz metálica do piloto surgiu no alto-falante para anunciar que aterrariam em Atenas dentro de três minutos, e a excitação da expectativa de rever Noelle fez que Armand Gautier esquecesse o enjoo que sentia quando viajava de avião. O Dr. Israel Katz viajava para Atenas vindo da Cidade do Cabo, onde era o neurocirurgião residente e chefe de equipe em Groote Schuur, um grande hospital de construção recente. Israel Katz era reconhecido como um dos principais neurocirurgiões do mundo. As revistas médicas publicavam abundantes descobertas de sua autoria. Entre os seus doentes contavam-se um primeiro-ministro, um presidente e um rei. Recostou-se no assento do avião da BOAC, este homem de estatura média, rosto forte e inteligente, olhos castanhos e profundos e mãos compridas, esguias e irrequietas. Como estava cansado, o Dr. Katz começou a sentir a dor habitual numa perna direita inexistente, uma perna que lhe fora amputada seis anos antes por um gigante com um machado. Fora um dia cheio. Fizera uma operação ainda o sol não tinha nascido, visitara meia dúzia de doentes e depois saíra de uma reunião da Administração para apanhar o avião com destino a Atenas e assistir ao julgamento. A mulher, Esther, tentara dissuadi-lo. - Não há nada que possas fazer por ela agora, Israel. Talvez tivesse razão, mas Noelle Page arriscara certa vez a vida para salvar a dele, pelo que ficara em dívida para com ela. Pensou em Noelle e teve a mesma sensação indescritível que sempre sentira quando estava a seulado. Parecia que o simples facto de se lembrar dela bastava para dissipar os anos entretanto passados. Era naturalmente uma fantasia romântica. Nada poderia trazer de volta esses anos. O Dr. Israel Katz sentiu o avião estremecer quando baixou as rodas e iniciou a descida. Olhou pela janela, e, estendida sob o seu olhar, estava a cidade do Cairo, onde faria transbordo para um avião da TAE que o levaria a Atenas e a Noelle. Seria ela culpada de homicídio? Quando o avião se fez à pista, pensou no outro homicídio medonho que ela cometera em Paris. Philippe Sorel estava junto à amurada do seu iate observando a chegada ao porto de Pireu. Gostara da viagem por mar porque foi uma das raras oportunidades que teve para poder estar longe das admiradoras. Sorel era uma das poucas atracções capazes de garantir umêxito de bilheteira, e no entanto as desvantagens contra a sua ascensão imparável ao estrelato foram tremendas. Não era um homem bonito. Pelo contrário, tinha o rosto dum pugilista vencido na última dúzia de combates, partira o nariz várias vezes, tinha o cabelo ralo e coxeava ligeiramente. Nada disto importava, pois Philippe Sorel era sexualmente atraente. Era um homem culto e afável, e a combinação da delicadeza inata com o rosto e o corpo de camionista deixava as mulheres frenéticas e fazia dele um herói aos olhos dos outros homens. Agora, à medida que o iate se aproximava do porto, Sorel interrogava-se de novo sobre a razão da sua presença aqui. Adiara o início das filmagens dum novo filme para assistir aojulgamento de Noelle. Estava bem consciente de que seria um alvo fácil para a imprensa mal se sentasse na sala de audiências diariamente, completamente desprotegidopelo seu pessoal de apoio. Os repórteres iriam decerto desvirtuar a sua


presença, alegando que se tratava de umajogada para se aproveitar dojulgamento da examante. Fosse qual fosse o prisma por que visse a questão, ia ser uma experiência agonizante, mas Sorel tinha de rever Noelle, tinha de saber se podia ajudá-la de alguma forma. Quando o iate deslizou para o quebra-mar de rochas brancas, pensou na Noelle que conhecera, com quem vivera e a quem amara, e chegou a uma conclusão: Noelle era perfeitamente capaz de matar. Ao mesmo tempo que o iate de Philippe Sorel se aproximava da costa da Grécia, o assistente especial do presidente dos Estados Unidos viajava num clipper da Pan America, uma centena de milhas aéreas a noroeste do Aeroporto de Hellenikon. William Fraser eraum homem de 50 anos, grisalho e elegante, com um rosto áspero e modos que impunham respeito. Fitava um documento que tinha na mão, mas havia mais de uma hora que não virava uma página nem se mexia. Fraser pedira uma licença para fazer esta viagem, apesar de a altura ser muito inconveniente, em plena crise do Congresso. Sabia como lhe seriam dolorosas as próximas semanas, e, no entanto sentia que não podia fazer outra coisa senão estar presente. Era uma viagem de vingança, e a ideia encheu-o de fria satisfação. Deliberadamente, afastou da ideia ojulgamento que começaria amanhã e olhou para fora dajanela do avião. Lá em baixo viu um barco de turismo balançando em direcção à Grécia, cuja costa se vislumbrava à distância. Auguste Lanchon andava enjoado e aterrorizado havia três dias. Enjoado porque o navio em que embarcara em Marselha fora apanhado na parte final dum mistral, e aterrorizado porque receava que a mulher descobrisse no que ele andava metido. Auguste Lanchon tinha sessenta e poucos anos, era um homem gordo e calvo com perninhas atarracadas e um rosto bexigoso, com olhos de porco e lábios finos que prendiam constantemente um charuto ordinário. Lanchon era dono duma casa de modas em Marselha e não podia dar-se ao luxo ou pelo menos era o que dizia constantemente à mulher - de tirar férias como os ricos. Obviamente, lembrou a si próprio, isto não eram férias no verdadeiro sentido da palavra. Tinha de rever a sua querida Noelle. Desde que o deixara, Lanchon seguia avidamente a carreira dela nas colunas de mexericos, nos jornais e nas revistas. Quando fez a primeira peça, meteu-se no comboio para Paris só para ir vê-la, mas a estúpida da secretária de Noelle não o permitiu. Mais tarde, assistiu aos filmes de Noelle, vendo-os repetidamente e lembrando-se da forma como ela um dia fizera amor com ele. Sim, esta viagem sairia cara, mas Augusto Lanchon sabia que iria compensar todos os tostões gastos. A sua preciosa Noelle lembrar-se-ia dos bons tempos que passaram juntos e pediria a protecção dele. Subornaria um juiz ou outro funcionário - se não fosse demasiado caro, e Noelle seria libertada, e ele dar-lhe-ia num pequeno apartamento em Marselha onde ela ficaria sempre à sua disposição. Mas a mulher não poderia descobrir no que ele andava metido. Na cidade de Atenas, Frederick Stavros trabalhava no seu minúsculo escritório de advogado no segundo andar dum velho edifício em ruínas do bairro antigo de Monastiraki. Stavros era umjovem intenso, ansioso e ambicioso, que lutava para ganhar a vida com a profissão que escolhera. Porque não podia pagar a um ajudante, via-se forçado a procedersozinho a toda a entediante pesquisa da base legal dos processos. Por hábito, detestava esta fase do trabalho, mas desta vez não se importava porque sabia que se


ganhasse este caso os seus serviços seriam de tal forma requisitados que deixaria de ter preocupações até ao fim da vida. Ele e Elena poderiam casar-se e constituir família. Mudarse-ia para um escritório luxuoso, empregaria escriturários e tornar-se-ia membro dum clube elegante como o Lesky Ateniense, onde se encontravam potenciais clientes endinheirados. A metamorfose já começara. Todas as vezes que Frederick Stavros caminhava nas ruas de Atenas, era reconhecido e retido por alguém que vira a sua fotografia no jornal. Em poucas semanas saltara do anonimato para ser conhecido como o advogado que ia defender Larry Douglas. No íntimo, Stavros admitia a si próprio que tinha o cliente errado. Teria preferido defender a deslumbrante Noelle Page em vez de uma nulidade como Larry Douglas, mas ele próprio também era uma nulidade. Bastava-lhe ser um participante importante no caso de homicídio mais sensacional do século. Se o acusado fosse absolvido, a glória chegaria para todos. Havia apenas uma coisa que atormentava Stavros, e em que pensava constantemente. Ambos os réus eram acusados do mesmo crime, mas Noelle Page ia ser defendida por outro advogado. Se Noelle Page fosse condenada... Stavros teve um arrepio e preferiu não pensar no assunto. Os jornalistas perguntavam-lhe a toda a hora se pensava que os réus eram culpados. Sorriu perante a ingenuidade. Que importava se eram culpados ou inocentes? Tinham direito aos melhores advogados que o dinheiro podia comprar. No seu caso, admitiu que a descrição era um pouco forçada. Mas no caso do advogado de Noelle Page... Ah, isso já era outra coisa. Napoleon Chotas tinha direito a sua defesa, e não havia advogado criminal mais brilhante no mundo. Chotas nunca perdera um caso importante. Enquanto pensava nisso, Frederick Stavros sorriu. Não teria confessado a ninguém, mas planejava chegar à vitória através do talento de Napoleon Chotas. Enquanto Frederick Stavros labutava no seu minúsculo escritório de advogado, Napoleon Chotas encontrava-se numa festa de gala numa casa luxuosa do bairro elegante de Kolanak em Atenas. Chotas era um homem magro de aspecto macilento, com os olhos grandes e tristes de um cão de caça num rosto enrugado. Ocultava um cérebro incisivo e brilhante atrás de uns modos brandos, vagamente atarantados. Entretido com a sobremesa, Chotas estava sentado, preocupado, a pensar nojulgamento que começaria amanhã. A maior parte da conversa nessa tarde centrara-se à volta do julgamento que em breve se realizaria. A discussão fora genérica, pois os convidados eram demasiado discretos para lhe fazerem perguntas directas. Mas para o fim, quando o ouzo e o brande corriam mais livremente, a anfitriã perguntou: - Diga-nos, acha que eles são culpados? Chotas respondeu inocentemente: - Como poderiam ser? Um deles é meu cliente. - Provocou uma gargalhada de apreço. - Como é que Noelle Page é na realidade? Chotas hesitou. - É uma mulher muito fora do vulgar - respondeu cuidadosamente. -É bela e talentosa... Para sua surpresa, descobriu que ficou repentinamente relutante em falar dela. Além disso, não havia palavras que pudessem descrever Noelle. Até há alguns meses, ele tivera apenas


uma vaga ideia dela como uma figura deslumbrante que surgia nas colunas dos mexericos e adornava as capas das revistas de cinema. Nunca a vira pessoalmente, e se alguma vez tivesse pensado nela fora com o tipo de desprezo indiferente que sentia por todas as actrizes. Só corpo e sem cérebro. Mas, Deus, como se enganara! Desde que conhecera Noelle apaixonara-se irremediavelmente por ela. Por causa de Noelle Page quebrara a sua regra fundamental: nunca se envolver emocionalmente com uma cliente. Chotas lembravase nitidamente da tarde em que fora sondado para aceitar a defesa de Noelle. Estava a fazer as malas para viajar com a mulher para Nova Iorque, onde a filha dera à luz o primeiro filho. Nada, acreditara, poderia tê-lo impedido de fazer essa viagem. Mas só foram precisas duas palavras. Na imaginação, viu o mordomo entrar no quarto, entregar-lhe o telefone e dizer: Constantin Demiris. À ilha só se chegava de helicóptero e iate, e tanto o aeródromo como o porto privativo eram patrulhados vinte e quatro horas por dia por guardas armados com pastores-alemães treinados. A ilha era domínio privado de Constantin Demiris, e ninguém entrava sem convite. Ao longo dos anos fizeram parte dos seus visitantes reis e rainhas, presidentes eexpresidentes, estrelas de cinema, cantores de ópera e famosos escritores e pintores. Todos partiam estupefactos. Constantin Demiris era o terceiro homem mais rico e um dos homens mais poderosos do mundo, tinha gosto e estilo e sabia como gastar o seu dinheiro na criação de beleza. Demiris estava sentado na sua biblioteca ricamente guarnecida, descontraído numa poltrona funda, fumando um cigarro egípcio achatado especialmente fabricado para ele, pensando nojulgamento que começaria amanhã de manhã. A imprensa tentava entrevistá-lo havia meses, mas ele tornara-se simplesmente indisponível. Já chegava que a amante fosse ajulgamento por homicídio, que o seu nomefosse arrastado para o caso, mesmo indirectamente. Recusava alimentar a agitação com uma entrevista. Gostava de saber o que sentia Noelle neste momento, na sua cela da Prisão da Rua Nikodemous. Estaria a dormir? Acordada? Em pânico por causa da provação que se aproximava? Pensou na última conversa com Napoleon Chotas. Confiava em Chotas e sabia que o advogado não iria decepcioná-lo. Demiris pagava-lhe para defendê-la. Não, não tinha razões para se preocupar. Ojulgamento seria um êxito. Porque Constantin Demiris era um homem que nunca esquecia nada, lembrou-se que as flores preferidas de Catherine Douglas eram triantafylias, as belas rosas da Grécia. Estendeu o braço e pegou num bloco de notas de cima da secretária. Fez uma anotação: Triantafylias. Catherine Douglas. Era o mínimo que podia fazer por ela. LIVROPRIMEIRO CATHERINE Chicago: 1919-1939 Todas as grandes cidades têm uma imagem distintiva, uma personalidade que lhes dá um cunho próprio e especial. Chicago, nos anos 20, era uma cidade gigantesca, irrequieta e dinâmica, rude e sem maneiras, presa ainda à era implacável dos maganates


queparticiparam na sua fundação: William B. Ogden e John Wentworth, Cyrus McCormìck e George M. Pullman. Era um reìno que pertencia aos Philip Armour e Gustavus Swift e aos Marshall Field. Era o domínio de bandidos profissionais e audaciosos como Hymie Weiss e Scarface Al Capone. Catherine Alexander ainda se lembrava de quando o pai a levava a um bar que tinha um soalho coberto de serradura e a empoleirava num banco vertiginosamente alto. Pedia umcopo enorme de cerveja para ele e uma Green River para ela. Ela tinha então 5 anos, e lembrava-se do orgulho do pai quando os estranhos a cercavam em grande número para a admirar. Todos os homens pediam bebidas, e era o pai quem as pagava. Recordava-se quepassava o tempo a encostar-se ao braço do pai para ter a certeza de que ele não se tinha ido embora. Regressara a casa apenas a noite passada, e Catherine sabia que em breve partiriaoutra vez. Era caixeiro-viajante, e explicara-lhe que por causa do trabalho tinha de ir para cidades distantes e ficar longe dela e da mãe meses e meses seguidos para poder trazer presentes bonitos no regresso. Catherine tentara desesperadamente fazer um acordo com ele. Se não se fosse embora, ela não queria mais presentes. O pai rira-se e elogiara a sua precocidade, partindo para só regressar seis meses depois. Durante esses primeiros anos a mãe, a quem ela via todos os dias, parecia-lhe uma figura obscura e amorfa, enquanto o pai, que via só em breves ocasiões, era um ser alegre e maravilhosamente nítido. Catherine lembrava-se dele como um homem elegante e risonho, cheio de humor espirituoso e gestos sinceros e generosos. Quando chegava a casa, a hora era de férias, plena de festas, presentes e surpresas. Quando Catherine tinha 7 anos, o pai foi despedido, e a vida tomou novo rumo. Mudaramse para Gary, no Estado de Indiana, onde arranjou emprego como empregado de balcão numajoalharia. Catherine matriculou-se na escola primária. Tinha um relacionamento circunspecto e distante com as outras crianças e tinha pavor dos professores, que erradamente viam a sua reserva solitária como vaidade. O paijantava em casa todas asnoites, e pela primeira vez na vida Catherine sentiu que eram uma família a sério, como as outras famílias. Ao domingo os três iam até Miller Beach e alugavam cavalos, quemontavam durante uma hora ou duas ao longo das dunas de areia. Catherine gostava de viver em Gary, mas, seis meses após a mudança, o pai ficou novamente desempregado e mudaram-se para Harvey, um subúrbio de Chicago. As aulasjá se haviam iniciado, e Catherine era a nova aluna da turma, isolada das amizades que, entretanto se formaram. Ficou conhecida como uma criança solitária. Os colegas, protegidos na segurança dos seus próprios grupos, aproximavam-se da recém-chegada em grupo e ridicularizavam-na cruelmente. Durante os anos que se seguiram Catherine vestiu uma armadura de indiferença, que usava como escudo contra os ataques das outras crianças. Quando a armadura era trespassada, contra-atacava com um espírito mordaz e cáustico. Era sua intenção alhear-se dos seusatormentadores, de modo a que a deixassem sozinha, mas a coisa teve um efeito inesperadamente diferente. Colaborava com ojornal da escola, e na primeira crítica que fezsobre um sarau musical organizado pelos colegas escreveu: Tommy Belden fez um solo com trompete no segundo acto, mas executou a música. A frase foi amplamente citada, e surpresa das surpresas - Tommy Belden veio ter com ela no átrio e disse-lhe que achara piada.


O professor de Inglês mandou os alunos ler O Capitão Horácão Corneteiro. Catherinedetestou. A análise da leitura só tinha uma frase: e quem lê este livro fica a ver navios, e o professor, que era um marinheiro de fim de-semana, deu-lhe um vinte. Os colegas começaram a citar as suas observações e pouco tempo depois era conhecida como aespirituosa da escola. Nesse ano Catherine fez 14 anos, e o corpo começou a mostrar promessas da mulher que amadurecia. Costumava mirar-se ao espelho horas a fio,matutando na forma de alterar a desgraça que via. Por dentro era uma Myrna Loy, que enlouquecia os homens, mas o espelho - seu inimigo figadal - reflectia uns cabelos irremediavelmente emaranhados e rebeldes, uns olhos cinzentos e solenes, uma boca emconstante crescimento e um nariz ligeiramente arrebitado. Talvez não fosse realmente feia, disse a si própria cautelosamente, mas por outro lado ninguém arrombaria uma porta parafazer dela uma actriz. Chupando as faces e semicerrando os olhos sedutoramente tentou imaginar-se um modelo. Foi deprimente. Fez outra pose. Olhos arregalados, expressão ansiosa, um sorriso grande e afável. Não adiantou. Também não era do género tipicamente americano. Não era nada. O corpo não ia ser problema, supôs melancolicamente, mas nada de especial. E isso, obviamente, era o que mais queria no mundo: ser qualquer coisa de especial, ser alguém, ser lembrada, e nunca, nunca, nunca, nunca morrer. No Verão em que fez 15 anos, veio sem querer parar às mãos de Catherine um exemplar de Ciência e Saúde, da autoria de Mary Baker Eddy, e nas duas semanas seguintes passou uma hora por dia à frente do espelho, desejando que a sua imagem ficasse bela. Ao fim desse tempo, a única alteração que conseguiu detectar foi uma nova marca de acne no queixo e uma espinha cutânea na testa. Pôs de lado os doces, Mary Baker Eddy e o espelho. Catherine e a familia voltaram a mudar-se para Chicago e instalaram-se num apartamentozinho sombrio e de renda barata em Ftogers Park. O país afundava-se cada vez mais numa depressão económica. O pai de Catherine trabalhava menos e bebia mais, e ele e a mãe recriminavamse mutuamente, o que levava Catherine a sair de casa. Ia até à praia, situada a meia dúzia de quarteirões, e caminhava pela areia, deixando que o vento agreste desseao seu corpo magro. Contemplava durante longas horas o lago cinzento e agitado, com uma ansiedade desesperada inexplicável. Era tal o seu desejo que por vezes a devorava numa vaga repentina de dor insuportável. Descobrira Thomas Wolfe, e os seus livros foram como a imagem reflectida duma nostalgiaagridoce que a preenchia, mas era uma nostalgia de algo que ainda não acontecera, como se algures, outrora, tivesse vivido uma vida maravilhosa e estivesse inquieta por voltar avivê-la. Viera-lhe a menstruação, e, embora fisicamente estivesse atornar-se mulher, sabia que essa carência dolorosa que sentia - as necessidades e as ansiedades que a devoravam - não era física e nada tinha a ver com sexo. Era uma ansiedade feroz e urgente de ser desconhecida, de elevar-se acima dos bilhões de pessoas que proliferavam na Terra, para que todos soubessem quem ela era e, quando passassem por ela, dissessem:ali vai Catherine Alexander, a grande... A grande o quê? Era aí que residia o problema. Não sabia o que queria, apenas que sofria desesperadamente para isso alcançar. Aos sábados à tarde, sempre que o dinheiro chegava, ia ao State and Lake Theatre, ao McVickers ou ao Chicago para ver um filme. Perdia-se completamente no mundo sofisticado e maravilhoso de Cary Grant e Jean Arthur, ria-se com Wallace Beery e Marie Dressler e agonizava com as desgraças românticas de Bette Davis. Sentia-se mais próxima de Irene Dunne do que da mãe.


Catherine estava no último ano do liceu, e o seu arquinimigo, o espelho, tornarasefinalmente um amigo. Arapariga do espelho tinha um rosto interessante e vivo. Os cabelos eram de um negro retinto e a pele era alva e macia. As feições eram regulares e finas, comuma boca sensível e generosa e uns olhos cinzentos inteligentes. Tinha uma figura bonita com peitos firmes e bem desenvolvidos, ancas delicadamente curvas e pernas bemtorneadas. Havia um ar de altivez na sua imagem, uma arrogância que Catherine não sentia, como se a sua imagem possuísse uma característica que ela não tinha. Supunha que fazia parte da carapaça protectora que usava desde a escola primária. A depressão trazia a nação presa num torno cada vez mais apertado, e o pai de Catherine estava incessantemente envolvido em grandes planos que nunca chegavam a materializarse. Estava sempre a desfiar sonhos, a inventar coisas que iam fazê-lo ganhar milhões de dólares. Inventou um conjunto de macacos que se encaixavam sobre as rodas dum automóvel e que se podiam baixar carregando num botão do tablier. Nenhum fabricante de automóveis se mostrou interessado. Concebeu um painel eléctrico rotativo para suporte de anúncios no interior das lojas. Houve uma breve agitação de reuniões optimistas, mas a ideia acabou por morrer. Pediu dinheiro emprestado ao irmão mais novo, Ralph, que vivia em Omaha, para equipar uma carrinha-sapataria que percorreria a vizinhança. Passou horas a falar no assunto com Catherine e com a mãe. - Não pode falhar - explicou. - Imaginem o sapateiro vir à vossa porta! É a primeira vez quese faz uma coisa dessas. Eu agora tenho lá fora um sapatomóvel, não é verdade? Basta fazer vinte dólares por dia, o que dá cento e vinte dólares por semana. Duas carrinhas farão duzentos e quarenta por semana. Cento e vinte e cinco mil por ano. E isso é apenas o começo... - Dois meses depois, o sapateiro e a carrinha desapareceram, e foi o fim de mais um sonho. Catherine esperava poder ingressar na Universidade de Northwestern. Era a melhor aluna da turma, mas mesmo com uma bolsa de estudo ser-lhe-ia difícil prosseguir os estudos, emais tarde ou mais cedo ia chegar o dia, Catherine sabia-o, em que teria de deixar de estudar para trabalhar a tempo inteiro. Empregar-se-ia como secretária, mas estavadeterminada a nunca renunciar ao sonho que ia enriquecer maravilhosamente a sua vida; e o facto de desconhecer quer o conteúdo quer o significado do sonho tornava tudo mais insuportavelmente triste e fútil. Pensou que estava provavelmente a atravessar a fase da adolescência. Fosse o que fosse, era um inferno. As crianças são novas de mais para terem de passar pela adolescência, pensou amargamente. Havia dois rapazes que pensavam estar apaixonados por Catherine. Um era Tony Korman, que iria trabalhar no escritório de advogacia do pai e que era trinta centímetros mais baixo do que Catherine. Tinha a pele oleosa e uns olhos míopes e aguados que a adoravam. O outro se chamava Dean McDermott, e era gordo e tímido e queria ser dentista. Mas, como não podia deixar de ser, havia Ron Peterson, que era um caso à parte. Ron era a estrela de futebol do Liceu de Senn, e todos diziam que o seu ingresso na faculdade com uma bolsa de estudo do atlética eram favas contadas. Era alto e espadaúdo, tinha o ar de ídolo de filme de matiné e era, sem favor, o aluno mais popular da escola. A única coisa que impedia o compromisso imediato de Catherine com Ron era o facto de ele ignorar por completo a sua existência. Sempre que se cruzavam no corredor da escola,


ocoração dela começava a bater descontroladamente. Pensava em algo inteligente e provocador para lhe dizer, a fim de que lhe pedisse para sair. Mas quando se aproximava alíngua emperrava, e eles cruzavam-se em silêncio. Como o Queen Mary e uma barcaça de lixo, pensou Catherine sem esperança. O problema financeiro agudizava-se. A renda estava com três meses de atraso, e só não foram despejados porque a senhoria se deixou encantar pelo pai de Catherine com os seus planos e invenções grandiosos. Ao ouvi-lo Catherine ficava repleta de uma tristeza pungente. Era ainda uma pessoa alegre e optimista, mas ela via além da fachada desgastada. O encanto maravilhoso e descuidado que sempre cobrira de alegria tudo o que fazia tinha desaparecido. Catherine via nele um rapazinho num corpo dum homem de meia-idade, desfiando contos do futuro glorioso para esconder os falhanços esfarrapados do passado. Por mais que uma vez, vira-o oferecer um jantar a uma dúzia de convidados no Henrici e depois alegremente chamar um deles à parte e pedìr-lhe emprestado o suficiente para pagar a conta e dar uma gorjeta generosa, obviamente. Sempre generosa, pois tinha de manter areputação. Apesar de tudo isto e do facto de Catherine saber que fora, em relação a ela, um pai despreocupado e indiferente, adorava este homem. Amava o entusiasmo e a energia sorridente que possuía num mundo de pessoas tristonhas e mal-encaradas. Era o dom quetinha e com o qual fora sempre generoso. No fundo, Catherine pensou, o pai, com os seus sonhos maravilhosos que nunca se concretizariam, era mais feliz do que a mãe, que tinha medo de sonhar. Em Abril a mãe de Catherine morreu de um ataque cardíaco. Foi a primeira confrontação de Catherine com a morte. Amigos e vizinhos acorreram em grande número ao pequeno apartamento, apresentando pêsames, com as falsas piedades murmuradas a tragédia invocada. A morte reduzira a mãe de Catherine a uma mulherzinha mirrada sem seiva ou vitalidade, ou talvez tivesse sido a vida que a transformara nisso, pensou Catherine. Tentou lembrar-se de recordações que ela e a mãe tivessem partilhado, momentos de boa disposição que tivessem tido juntas, ocasiões em que os seus corações se tivessem encontrado; mas era o pai que lhe surgia constantemente na ideia, sorridente, ansioso e alegre. Era como se a vidada mãe fosse uma sombra pálida que se recolhia perante a luz da memória. Catherine fixou o olhar na figura cerácea da mãe deitada no caixão, num vestido preto simples de gola branca, e pensou no desperdício que fora aquela vida. Para que servira? Os sentimentos que Catherine vivera há uns anos voltaram de novo: a determinação em ser alguém, deixar uma marca no mundo, para que não acabasse numa sepultura anónima, ignorada pelo mundoque nem soubera que Catherine Alexander vivera, morrera e regressara à terra. Os tios de Catherine, Ralph e Pauline, chegaram no avião de Omaha para assistir ao funeral. Ralph era dez anos mais novo do que o pai de Catherine e totalmente o oposto do irmão. Dedicava-se, com muito êxito, ao comércio de vitaminas pelo correio. Era um homem grande e encorpado, de ombros quadrados, maxilares quadrados, queixo quadradoe, Catherine estava certa, espírito igualmente quadrado. A mulher era um passarinho, cheia de tremeliques e chilreios. Eram boas pessoas, e Catherine sabia que o tio emprestara muitodinheiro ao irmão, mas Catherine sentia que ela nada tinha em comum com eles. Tal


como a mãe de Catherine, eram pessoas sem sonhos. Após o funeral, o tio Ralph disse que queria falar com Catherine e com o pai. Sentaram-se na minúscula sala dejantar do apartamento, enquanto Pauline saltitava pela sala combandejas de café e biscoitos. - Sei que em termos de dinheiro as coisas não te têm corrido bem- disse o tio Ralph ao irmão - és um sonhador, sempre foste. Mas és meu irmão. Não te posso deixar ir ao fundo. Eu e Pauline estivemos a falar sobre o assunto. Quero que venhas trabalhar comigo. - Em Omaha? - Vais estabilizar a tua vida, e vocês podem viver conosco. Temos uma casa enorme. O coração de Catherine desfaleceu. Omaha! Era o fim de todos os sonhos. - Deixa-me pensar no assunto - dizia o pai. - Nósvamos apanhar o comboio das seis horas-respondeu o tio. - Digam qualquer coisa antes de partirmos. Quando Catherine e o pai ficaram a sós, ele resmungou: - Omaha! Aposto que nem sequer há lá uma barbearia decente! Mas Catherine sabia que o pai estava a representar. Com ou sem barbeiro decente, não tinha outra solução. A vida acabara por apanhá-lo. Ela só queria saber como reagiria espiritualmente à ideia de ter umemprego fixo e monótono com um horário regular. Seria como um pássaro selvagem batendo as asas contra a gaiola, morrendo no cativeiro. Quanto a ela, teria de pôr de lado aideia de ir para a Universidade de Northwestern. Candidatara-se a uma bolsa de estudo, mas não tivera resposta. Nessa tarde o pai telefonou ao irmão para dizer que aceitava o emprego. Na manhã seguinte, Catherine foi ver o reitor com a ideia de informá-lo da transferência para uma escola de Omaha. Ele estava de pé atrás da secretária e, antes que ela falasse, disse: - Parabéns, Catherine. Conseguiste uma bolsa de estudo completa para a Universidade de Northwestern. Catherine e o pai discutiram a fundo o assunto nessa noite, e no fim ficou decidido que ele iria para Omaha e Catherine iria para a Faculdadee viveria nas camaratas universitárias. Epor isso, dez dias depois, Catherine acompanhou o pai à estação da Rua de La Salle para se despedir dele. Uma sensação profunda de solidão apoderou-se de si por vê-lo partir, umatristeza em dizer adeus à pessoa que mais amava; e, no entanto, estava ansiosa pela partida do comboio, tomada pela excitação deliciosa da ideia de poder ficar livre, vivendo a sua própria vida pela primeira vez. Ficou no cais a ver o rosto do pai que se assomara à janela para a ver pela última vez; um homem andrajosamente elegante com a crença sincera


deque um dia seria senhor do mundo. No regresso da estação Catherine lembrou-se de uma coisa e riu-se em voz alta. Para leválo até Omaha, para um emprego de que desesperadamente precisava, o pai reservara um compartimento privado. O dia da matrícula em Northwestern era uma excitação quase insuportável. Para Catherine teve um significado especial que não conseguia exprimir por palavras: era a chave queabriria a porta para todos os sonhos e ambições inomináveis que ardiam ferozmente dentrode si havia muito tempo. Percorreu o olhar pelo enorme átrio onde centenas de estudantesfaziam fila para a inscrição e pensou: Um dia todos vocês hãode saber quem eu sou e dizer: Andei na escola com Catherine Alexander. Inscreveu-se no maior número possível de cursos e atribuíram-lhe uma camarata. Nessa mesma manhã arranjou um emprego atrabalhar à tarde como caixa no Roost, um bar popular de sanduíches e cerveja que ficava em frente à universidade. O ordenado era de quinze dólarespor semana, e, embora omesmo não lhe consentisse luxos, daria para os livros e necessidades básicas. A meio do segundo ano Catherine chegou à conclusão de que devia ser a única virgem emtoda a universidade. Durante a sua fase de crescimento, ouvira por acaso fragmentos esporádicos de conversas quando as mais velhas falavam de sexo. Parecia que era maravilhoso, e o seu maior receio era de que isso não acontecesse na altura e que elapudesse desfrutá-lo. Parecia que acertara. Pelo menos no que a ela dizia respeito. O sexo parecia ser o único tema de conversa na escola. Falava-se dele nas camaratas, nas salas de aula, nas casas de banho e no Roost. Catherine ficava chocada pela frontalidade das conversas. - Jerry é incrível. Parece o King Kong. - Estás a falar da pila ou do cérebro dele? - Ele não precisa de cérebro, rica. Foram seis vezes ontem à noite. - Já saíste com Ernie Robbins? É pequenote, mas é possante. - Alex pediu-me que eu saísse com ele hoje à noite. Qual é o fenómeno em relação a ele? - Ele próprio. Não te metas com ele. Levou-me para a praia a semana passada. Baixou-me as cuecas e começou a apalpar-me, e eu comecei a apalpá-lo, mas não encontrei nada. Risos. Catherine achava as conversas ordinárias e nojentas e tentava não perder uma palavra. Eraum exercício de masochismo. Enquanto as raparigas descreviam as suas explorações sexuais, Catherine imaginava-se na cama com um rapaz, em frenético acto sexual. Sentia uma dor física no ventre e premia os punhos com força contra as coxas, tentando magoarse, para tirar a outra dor do pensamento. Meu Deus, pensou ela, vou morrer virgem. A única virgem de 19 anos de Northwestern. Northwestern, uma ova, talvez até em toda a


América! A Virgem Catherine A Igreja vai beatificar-me e as pessoas vão acender-me velas uma vez por ano. Que se passa comigo? Pensou ela. Eu respondo, disse ela a si própria. Ninguém te pediu e são precisas duas pessoas. Isto é, para fazeres como deve ser, são precisas duas pessoas. O nome que mais frequentemente surgia nas conversas sexuais era o de Ron Peterson. Ele matriculara-se em Northwestern com uma bolsa de estudo atlética e era tão popular aqui quanto no Liceu de Senn. Fora eleito presidente dos calouros. Catherine viu- na aula de Latim no dia em que o período começou, estava com mais corpo e o rosto assumira uma maturidade viril. Depois daaula, dirigiu-se a Catherine, e o coração dela começou a bater com força. - Catherine! - Olá, Ron. - Estás nesta turma? - Estou. - Que sorte a minha. - Por quê? - Por quê? Porque não sei nada de Latim e tu és um génio. Vamos ser bons amigos. Tens que fazer hoje à noite? - Nada de especial. Vamos estudarjuntos? - Vamos até à praia, onde poderemos estar sozinhos. Podemos estudar noutra altura. Ele olhava fixamente para ela. - Eh!... ah... ? -Tentando lembrar-se do nome dela. Engoliu em seco, tentando ela própria desesperadamente lembrar-se. - Catherine - disse depressa. - Catherine Alexander. - Ah, pois. Que tal a escola? Uma maravilha, não é? Ela tentou pôr um tom de ansiedade navoz para lhe agradar, concordar com ele, cortejá-lo. - Pois é - entusiasmou-se ela -, é a mais... Ele estava a olhar para uma loira estonteante que o aguardava à porta. - Até um dia destes - disse ele, e afastou-se para ir ter com a rapariga. E assim terminou a história da Gata Borralheira e do Principe Encantado, pensou ela. Viveram felizes para sempre, ele no seu harém e ela numa caverna ventosa do bete.


De vez em quando Catherine via Ron a passear na universidade, sempre com uma raparigadiferente e por vezes duas ou três. Meu Deus, será que ele não se cansa? Interrogou-se ela. Ainda pensou que ele um dia lhe pediria ajuda em Latim, mas ele nunca mais lhe falou. À noite, sozinha na cama, pensava em todas as outras raparigas a terem relações sexuais com os namorados, e o rapaz que lhe vinha sempre ao pensamento era Ron Peterson. Imaginava a despi-la depois ela despia-o lentamente, como nos livros românticos, tirandolhe a camisa e passando os dedos suavemente sobre o peito dele depois desapertava-lhe as calças e baixava-lhe as cuecas. Ele levantava-a e levava-a para a cama. Nessa altura o sentido cómico Catherine levaria a melhor sobre ela e ele daria um mau jeito nas costas ecairia no chão, lamentando-se e gemendo de dor. - Idiota - dizia ela a si própria -, nem nas tuas fantasias consegues fazer como deve ser. Talvez devesse ir para freira. Gostava de saber se as freiras tinham fantasias sexuais e se era pecado masturbarem-se. Gostaria de saber se os padres tinham relações sexuais. Estava sentada num pátio fresco com árvores de sombra numavelha e encantadora abadia nos arredores de Roma, passando os dedos na água aquecida pelo sol do que fora um lago de peixes. O portão abriu-se, e um padre alto entrou no pátio. Trazia um chapéu deaba larga e uma longa batina preta e parecia-se mesmo com Ron Peterson. - Ah, scusi, signorina - murmurou ele -, eu não sabia que tinha uma visita. Catherine pôs-se de pé rapidamente. - Eu não devia estar aqui - desculpou-se ela. - Isto era tão bonito não resisti a sentar-me e desfrutar esta beleza. É muito bem-vinda. -Aproximou-se dela, os olhos escuros e ardentes. -Mia cara... eu mentilhe. - Sim. - Os olhos dele perfuravam os seus. - Eu sabia que você estava aqui, porque eu a segui. Ela sentiu um frémito invadi-la. - Mas... o senhor é padre. -Bella signorina, primeiro sou homem e depois padre. -Avançou num passo cambaleante para tomá-la nos braços, mas tropeçou na bainha da batina e caiu no lago. Porra! Ron Peterson vinha ao Roost todos os dias depois das aulas e sentava-se num lugar da


mesado fundo, que logo se enchia de amigos e tornava-se o centro de gabarolices. Catherine ficava atrás do balcão perto da caixa registadora e, quando Ron entrava, dava-lhe um sinal distante e agradável com a cabeça e seguia em frente. Nunca se lhe dirigia pelo nome. Já não se lembra, meditava Catherine. Mas todos os dias à chegada ela dava-lhe um grande sorriso, esperando que acumprimentasse, lhe pedisse para sair, um copo de água, a virgindade, qualquer coisa. Ela não era mais que um móvel. Examinando as raparigas do quarto com objectividade total, concluiu que era mais bonita do que todas menos uma, a belíssima Jean-Anne, a loirasulista que era muitas vezes vista com Ralph e que valia por todas juntas. Que havia então de errado com ela, em nome de Deus? Por que é que nenhum rapaz saía com ela? Soube aresposta no dia seguinte. Ia cheia de pressa pelo lado sul para o Roost quando viu Jean-Anne e uma morena que nãoconhecia atravessarem o relvado na sua direcção. - Olha, lá vai a Sabichona - disse Jean-Anne. E a Mamuda, pensou Catherine com inveja. Em voz alta disse: - Isso foi um gracejo de literatura mortífero, não foi? - Não sejas condescendente - disse Jean-Anne friamente. - sabes o suficiente para dar o curso de Literatura. E isso não é tudo o que sabes, pois não, rica? Algo no seu tom fez Catherine corar. - Não... não entendo. - Deixa-a em paz - disse a morena. - Por que havia de deixar? - disse Jean-Anne. - Quem é que ela pensa que é? -Virou-se para Catherine. - Queres saber o que dizem de ti? Eu, não. - Quero. - Que és uma fufa. Catherine olhava para ela, incredulamente. - Sou uma o quê? - Uma lésbica, rica. Não enganas ninguém com esse teu ar de santinha. - Isso é ridículo - Catherine balbuciou.


- Julgavas que podias enganar as pessoas? - perguntou Jean-Anne. - Só te falta andares com um cartaz. - Mas eu nunca... - Os rapazes bem andam atrás de ti, mas tu não lhes dás hipótese. - Eu realmente... - Catherine falava sem pensar. - Vai bugiar - disse Jean-Anne. - Não és das nossas. Afastaram-se, deixando-a ali a olhá-las inquiridoramente. Nessa noite, Catherine estava deitada na cama, sem conseguir dormir. - Que idade tem, Catherine? - Dezenove. - Já teve relações com um homem? - Nunca. - Gosta de homens? - Gostamos todas, não? - Já desejou ter relações com uma mulher? Catherine pensou no assunto demorada e seriamente. Sentira-se atraída por outras raparigas, professoras, mas isso fizera parte do crescimento. Pôs-se a pensar que estava afazer amor com uma mulher, os corpos entrelaçados, os lábios nos lábios da outra mulher, seu corpo a ser acariciado por mãos femininas e macias. Estremeceu. Não! Em voz alta disse: - Sou normal. - Então por que estava ali? Por que não saíra para ter relações sexuais comoqualquer outra pessoa? Talvez fosse frígida. Talvez precisasse de submeter se a uma operação. A uma lobotomia, provavelmente. Quando o céu a oriente começou a clarear no exterior dajanela da camarata, os olhos de Catherine estavam ainda abertos, mas ela tomara uma decisão. Ia perder a virgindade. E ofelizardo ia ser o companheiro de cama de todas as raparigas solteiras: Ron Peterson.


NOELLE Marselha-Paris: 1919-1939 2 Nasceu princesa real. A recordação mais antiga que tinha era um berço branco coberto por um dossel de renda, decorado com laços cor- de-rosa e cheio de bonecos de peluches macios, belas bonecas e rocas de ouro. Depressa aprendeu que, se abrisse a boca e soltasse um choro, alguém seapressaria a dar-lhe colo e mimos. Depois dos seis meses o pai costumava levá-la, no carrinho, até aojardim e deixava-a tocar nas flores e dizia: - São lindas, Princesa, mas tu és mais bonita que todas elas. Em casa gostava que o pai lhe pegasse com os seus braços fortes e a levasse até àjanela, donde via os telhados e os prédios altos, ele dizia: - Aquele é o teu reino, Princesa. - Apontava para os mastros dos navios que balançavam fundeados na baía. - Estás a ver aqueles barcos grandes? Um dia serão todos teus. Vinham visitantes ao castelo para vê-la, mas apenas os especiais podiam pegar-lhe ao colo. Os outros olhavam para ela, deitada no berço, e faziam exclamações sobre as suas feições inacreditavelmente delicadas, os seus belos cabelos loiros, a sua pele macia, e o pai dizia com orgulho: - Mesmo quem não saiba de quem se trata dirá que é uma princesa! -E inclinava-se sobre o berço e sussurrava: -Um dia um príncipe virá buscar-te. - E com ternura aconchegava-lhe o cobertor quente e cor-de-rosa, e ela deixava-se levar num sono de contentamento. Todo o seu mundo era um sonho cor-de-rosa de mastros altos e castelos, e só aos 5 anos se deu conta de que era dum vendedor de peixe de Marselha, e que os castelos que via dajanela do pequeno sótão mais não eram que os armazéns que rodeavamo fétido mercado de peixe onde o pai trabalhava, e que a sua armadase resumia a uma frota de velhos barcos de pesca que saíam todas asmadrugadas de Marselha e regressavam ao princípio da tarde paradespejar a carga malcheirosa nas docas da zona portuária. Este era o reino de Noelle Page. Os amigos do pai de Noelle costumavam chamar-lhe a atençãopara o que ele estava a fazer. - Não lhe deves meter essas fantasias na cabeça, Jacques. Ainda acaba por pensar que é superior aos outros. E estas profecias tornaram-se realidade. Exteriormente, Marselha era uma cidade de violência, do tipo deviolência primária


geradaem qualquer cidade portuária, repleta demarinheiros esfaimados, com dinheiro para gastar, e predadoresastutos que sabem aproveitar-se. Mas, ao contrário dos restantesfranceses, a população de Marselha possui um espírito de solidariedade resultante da luta em comum pela sobrevivência, pois a alma dacidade vem do mar, e os pescadores de Marselha pertencem à familiade pescadores de todo o mundo. Partilham de igual modo, quer no mau tempo quer na bonança, as desgraças inesperadas e as safrasabundantes. Era por isso que os vizinhos de Jacques Page se regozijavam coma sorte de ele ter uma filha tão maravilhosa. Etambém eles reconheciam o milagre de como, no meio da imundíciee duma cidade torpe e suja, nascera uma verdadeira princesa. Os pais de Noelle não conseguiam refazer-se da maravilha dabeleza delicada da filha. A mãe de Noelle era uma mulher pesada, defeições grosseiras e rústicas, com seios caídos ecoxas e ancas grossas. O pai de Noelle era atarracado, de ombros largos e olhinhos desconfiados de bretão. O cabelo era da cor da areia molhada das praias da Normandia. De início parecera-lhe que a natureza cometera um erro,que esta delicada criatura loira não podia realmente pertencerlhe a ele e à sua mulher, e que, quando Noelle crescesse, se tornaria umarapariga vulgar e sem graça como as filhas dos amigos. Mas o milagre erescia e desabrochava, e Noelle era cada vez mais bela. A mãe de Noelle não ficou tão admirada como o marido pelo aparecimento de uma belezade cabelos dourados na familia. Nove meses antes do nascimento de Noelle, a mãe conhecera umrubusto marinheironorueguês, desembarcado num cargueiro. Eraum deus víquingue gigantesco, de cabelos loiros e com um sorrisolargo, afável e sedutor. Enquanto Jacques estava no trabalho, o marinheiro passara um quarto de hora activo na cama dela, no minúsculo apartamento. A mãe de Noelle ficara cheia de medo quando viu que a filha era tão loira e tão bonita. Andou apavorada, à espera do momento em que o marido lhe apontasse um dedo acusador e exigisse a identidade do verdadeiro pai. Mas, por incrível que fosse, uma ânsia de vaidade deve tê-lo levado a aceitar a criança como sua. - Deve ter herdado algum sangue escandinavo da minha familia- gabava-se ele aos amigos , mas vê-se que é a minha cara. A mulher ouvia, acenando com a cabeça, e pensava como os homens eram tolos. Noelle adorava estar na companhia do pai. Adorava a sua alegria desastrada e os cheiros estranhos e insistentes que trazia sempre consigo, e ao mesmo tempo sentia-se aterrorizadapela sua brutalidade. Arregalava os olhos quando o via gritar com a mãe e bater-lhe violentamente no rosto, com as veias do pescoço salientes pela raiva. A mãe


gritava de dor, mas havia qualquer coisa mais além de dor nos seus gritos, algo de animalesco e sexual, eNoelle estremecia de ciúmes e desejava poder estar no lugar da mãe. Mas o pai era sempre meigo com ela. Gostava de levá-la até às docas e mostrá-la aos homens rudes e grosseiros com quem trabalhava. Todos na doca a tratavam por Princesa, oque a deixava orgulhosa, tanto pelo pai como por si própria. Queria agradar ao pai, e porque comer era uma coisa que ele adorava Noelle começou a cozinhar para ele, preparando-lhe os pratos preferidos, afastando, aos poucos, a mãe da cozinha. Aos 17 anos, a promessa da beleza inicial de Noelle estava mais do que cumprida. Transformara-se numa mulher belíssima. Tinha feições finas e delicadas, olhos de um violeta-vivo e cabelos macios de um louro-cinza. A pele era fresca e dourada como se tivesse sido embebida em mel. Tinha uma figura espantosa, com seios jovens, fartos efirmes, e uma cintura fina, anca estreita e pernas compridas e bem torneadas, com tornozelos delicados. A voz era bem timbrada, doce e macia. Havia uma sensualidade forte e ardente em Noelle, mas essa não era a sua magia. A sua magia residia no facto de, sobaquela sensualidade, parecer haver uma ilha de inocência intocada, e o resultado era irresistível. Não descia uma rua sem que recebesse proposta dos transeuntes. Não eram as ofertas casuais que as prostitutas de Marselha recebiam como pagamento diário, pois, mesmo os homensmais obtusos, se apercebiam de que Noelle tinha algo de especial, algoinédito e único, e cada um deles pagaria o que fosse preciso para ser dono disso, por muito fugazmente que fosse. O pai de Noelle também não ignorava a beleza da filha. De facto, o pensamento de Jacques Page ia um pouco mais longe. Via o interesse que Noelle provocava nos homens. Embora nem ele nem a mulher tivessem falado de sexo com Noelle, tinha a certeza de que ela eraainda virgem, um pequeno capital feminino. A sua mente perspicaz e rústica considerou, longa e seriamente, a melhor forma de usufruir da sorte que a natureza inesperadamente lhe concedera. A sua missão era garantir que a beleza da filha revertesse o mais generosamentepossível a favor de Noelle e de si próprio. Afinal de contas, fora ele que a gerara, alimentara, vestira, instruíra - ela devia-lhe tudo. E agora era chegada a hora da recompensa. Se conseguisse torná-la a amante dum homem rico, seria bom para ela, e ele poderia viver a vida desafogada a que tinha direito. As dificuldades em ganhar a vida honestamente eram crescentes. O fantasma da guerra começara a espalhar-se por toda a Europa. Os nazis ocuparam a Áustria com um golpe de Estado relâmpago que deixara a Europa atordoada. Meses depois, os nazis ocuparam a área dos montes Sudetos emarcharam sobre a Eslováquia. Apesar de Hitler garantir o seu desinteresse em mais conquistas, persistia a sensação de que ia haver um conflito de grandes proporções. O impacto dos acontecimentos fez-se sentir marcadamente em França. Houve faltas nas lojas e nos mercados quando o Governo começou a preparar um esforço de defesa maciço. Em breve, receava Jacques, teriam de acabar com a pesca, e que seria dele? Não, a solução do seu problema era encontrar o amante certo para a filha. O problema era que ele não conhecia nenhum homem rico. Os amigos eram todos uns borra botas como ele, e não estava nas suas intenções deixar um pelintra aproximar-se dela.


A resposta ao dilema de Jacques foi inadvertidamente dada pela própria Noelle. Ultimamente, Noelle andava cada vez mais agitada. Tinha boas notas, mas a escola andava a maçá-la. Disse ao pai que queria arranjar um emprego. Ele estudou-a em silêncio,sopesando perspicazmente as possibilidades. - Que tipo de trabalho? - perguntou ele. - Não sei - respondeu Noelle. - Eu podia ser modelo, papá. Foi tão simples quanto isso. Nas tardes da semana seguinte Jacques Page chegava a casadepois do trabalho, lavava-se com cuidado para tirar o cheiro a peixe das mãos e do cabelo, vestia o melhor fato quepossuía e ia até Cana bire, a rua principal que se estendia do antigo cais até aos bairros mais ricos. Subia e descia a rua, explorando todas as lojas de roupa de senhora, um rústico desajeitado num mundo de rendas e sedas, mas não dava conta de que estava deslocado,nem se importava. Só tinha um fim, e encontrou quando chegou ao Bon Marché. Era a melhor loja de roupa de senhora de Marselha, mas não foi por isso que a escolheu. Escolheu-a porque o dono era o sr. Auguste Lanchon. Lanchon tinha uns 50 anos, era um homem calvo e feio, com umas perninhas de batoque e uma boca sôfrega e torcida. A esposa, uma mulherzinha com o perfil dum machado bem afiado, trabalhava na sala deprovas, supervisionando espalhafatosamente as costureiras. Jacques Page olhou para o Sr. Lanchon e para a esposa e viu que encontrara a solução para o seu problema. Lanchon olhou com repugnância o estranho miseravelmente vestido que entrava na loja. - Pois não? Em que posso servi-lo? Jacques Page piscou o olho, encostou um dedo grosso ao peito de Lanchon e sorriu afectadamente: - Eu é que posso servir o senhor. Vou deixar que a minha filha trabalhe para si. Augusto Lanchon olhou fixamente para o pobre diabo que tinha diante de si, com umaexpressão de incredulidade no rosto. - Você vai deixar... - Ela estará cá amanhã, pelas nove horas. - Eu não... Jacques Page havia saído. Minutos depois, Auguste Lanchon esquecera o incidente por completo. Às nove horas da manhã seguinte, ergueu o olhar e viu Jacques Page entrar na loja. Preparava-se para dizer ao gerente que expulsasse o homem da loja, quando, atrás dele, viu Noelle. Vinham na sua direcção, o pai e a filha, incrivelmente bela. E o velho ria-se todo:


- Aqui está ela, pronta para trabalhar. Augusto Lanchon mirou a rapariga e lambeu os lábios. - Bom dia, Monsieur - disse Noelle, sorrindo. - O meu pai disse que o senhor tem umemprego para mim. Auguste Lanchon fez um sinal afirmativo com a cabeça, já que não confiava na voz. - Sim, acho. Acho que se pode arranjar qualquer coisa – conseguiu gaguejar. Mirou o rosto e o corpo da rapariga e não queria acreditar no que via. Já estava a imaginar como seria aquele corpo nu debaixo do seu. Jacques Page dizia: - Bem, vou deixá-los conhecerem-se melhor. - E deu a Lanchon uma pancada sentida no ombro e um piscar de olhos que teve uma dúzia de significados, nenhum deles deixando qualquer dúvida no pensamento de Lanchon sobre as suas intenções. Durante as primeiras semanas Noelle teve a sensação de que fora transportada para umoutro mundo. As mulheres que vinham à loja trajavam belos vestidos e tinham boas maneiras, e os homens que as acompanhavam estavam a uma grande distância dos pescadores grosseiros e gabarolas com quem ela crescera. Pela primeira vez na vida, pareceu a Noelle que o mau cheiro do peixe se lhe afastara das narinas. Nunca tivera consciência do mesmo, pois sempre fizera parte da vida dela. Mas agora tudo se alterou repentinamente. E tudo graças ao pai. Estava orgulhosa da forma como o pai se dava com o Sr. Lanchon. O pai vinha à loja duas ou três vezes por semana, e ambos saíam sorrateiramente para irem beber um conhaque ou uma cerveja e, quando regressavam, havia um ar de camaradagem entre eles. No início Noelle não gostava do Sr. Lanchon, mas o seu comportamento em relação a ela era sempre circunspecto. Noelle ouviu uma das raparigas dizer que a mulher de Lanchon oapanhara certa vez no armazém com um modelo e que agarrara num par de tesouras, não o tendo castrado por um triz. Noelle reparou que os olhos de Lanchon aseguiam por toda a parte, mas era sempre escrupulosamente cortês. Provavelmente, pensou ela, com satisfação, tem medo do meu “pipi". Em casa, o ambiente pareceu alegrar-se de repente. O pai de Noellejá não batia na mãe e as discussões constantes pararam. Havia bifes e assados às refeições, e depois do jantar o pai de Noelle puxava de um cachimbo novo e enchia- com rico tabaco aromático que tirava de uma bolsa de cabedal. Comprou um novo fato domingueiro. A situação internacional piorava e Noelle ouvia as conversas enbre o pai e os amigos.


Todos pareciam estar alarmados pela ameaça iminente ao seu modo de subsistência, mas Jacques Page parecia singularmente despreocupado. A 1 de Setembro de 1939, as tropas de Hitler invadiram a Polóniae, dois dias depois, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Deu-se início à mobilização, e da noite para o dia as ruas encheram-se de fardas. Havia umar de resignação sobre o que estava a acontecer, uma sensação requentada de rever um filme antigo; mas não havia medo. Outros países podiam ter razões para se sentirem apreensivos perante o poderio dos exércitos alemães, mas a França era invencível. Tinha a Linha Maginot, uma fortaleza impenetrável que poderia proteger a França contra uma invasão durante mil anos. Foi imposto o recolher obrigatório e começou o racionamento,mas nada disto incomodou Jacques Page. Estava diferente, mais calmo. A única vez que Noelle o viu enfurecer-se foi uma noite em que ela estava na cozinha às escuras a beijar um rapaz com quem ocasionalmen te saía. De repente, as luzes acenderamse e Jacques Pageestava porta tremendo de fúria. - Vai-te embora - gritou ele ao rapaz aterrorizado. - E tira as mãos da minha filha, seu porco nojento. O rapaz fugiu em pânico. Noelle tentou explicar ao pai que eles não estavam a fazer nada de mal, mas ele estava furioso de mais par ouvir. - Não quero que te entregues a qualquer um - vociferou ele. Ele é um zé-ninguém que não presta para a minha Princesa. Noelle ficou acordada nessa noite, maravilhada pelo amor que opai lhe tinha, e jurou que não voltaria a fazer nada que o entristecesse. Certa noite, exactamente antes da hora de encerramento, entrouna loja uma cliente, eLanchon pediu a Noelle para passar alguns vestidos. Quando Noelle acabou, já todos tinham saído da loja excepto Lanchon e a esposa, que estava no escritório, entretida com a contabilidade. Noelle entrou no quarto de vestir para trocar de roupa. Estava de cuecas esoutien, quando Lanchon entrou no quarto. Mirou-a e os seus lábios começaram a contorcer-se. Noelle apanhou vestido, mas, antes que pudesse pô-lo no corpo, Lanchonaproximou-se dela rapidamente e meteu-lhe a mão entre as pernas. Apele de Noelle começou a eriçar subitamente. Tentou afastar-se, Lanchon prendia-a com força, a ponto dea magoar. - És bela - sussurrou ele. - Bela. Vou dar-te umas horas de prazer. Nesse momento, a mulher de Lanchon chamou por ele, e com relutância largou-a e apressou a saída do quarto. A caminho de casa, Noelle debatia-se sobre se devia contar ao pai o que acontecera. Se calhar ele ainda matava Lanchon. Ela detestava e não conseguiria suportar ficar perto dele,


mas precisava do emprego. Além disso, o pai poderia ficar desapontado se ela sedespedisse. Decidiu por agora manter-se calada e arranjar forma de resolver a questão sozinha. Na sexta feira seguinte telefonaram a Madame Lanchon a dizer que tinha a mãe doente, em Vichy. Lanchon levou a mulher à estação e regressou à loja a toda a pressa. Chamou Noelle aoescritório e disse que ia levá-la para fora durante o fim-de-semana. Noelle fitou-o, pensando a princípio que devia ser uma brincadeira. - Iremos a Viena - balbuciou ele. - Existe lá um dos melhores restaurantes do mundo, Le Pyramide. Claro, mas isso não importa, pois eu sei ser generoso com quem me quer bem. Levas muito tempo a aprontar-te? Ela olhou-o fixamente. - Nem pensar -foi tudo quanto ela conseguiu dizer. -Nem pensar. - E virou-se saindo a correr até à porta da loja. Lanchon seguiu-a com o olhar por um momento, com a marca da raiva no rosto, depois agarrou no telefone que estava na secretária. Uma hora depois, o pai de Noelle entrou na loja. Foi direito a ela, e o rosto dela iluminouse de alívio. Pressentira que havia algo de errado e viera salvá-la. Lanchon estava à porta que dava para o escritório. O pai de Noelle pegou-lhe pelo braço e arrastou-a para o escritório de Lanchon. Voltou-se para a olhar de frente. - Ainda bem que o pai apareceu - disse Noelle. - Eu... - O Sr. Lanchon disse-me que te fez uma oferta esplêndida e que tu recusaste. Ela fitou, pasmada. - Oferta? Ele pediu-me para ir passar o fim de-semana fora comele. - E tu recusaste? Antes que Noelle pudesse responder, o pai levantou a mão e esbofeteou-a violentamente na face. Ela não queria acreditar. Com os ouvidos a zunir e por entre um atordoamentoindistinto, ouvia o pai dizer: - Sua estúpida! Sua estúpida! Já é tempo de começares a pensar nos outros, minha cabraegoísta! - E voltou a bater-lhe.


Meia hora depois, com o pai na esquina a ver o carro em andamento, Noelle e Monsieur Lanchon partiam para Viena. No quarto do hotel havia uma cama de casal enorme, mobilia barata e um lavatório a um canto. Monsieur Lanchon não era homem de esbanjar dinheiro. Deu ao paquete umapequena gorjeta, e, quando este se retirou, Lanchon virou-se para Noelle e começou a despi-la. Pôs as mãos sobre os seios quentes e húmidos e apertou-os com força. - Meu Deus, tu és bela! - arfava. Tirou-lhe a blusa e as cuecas e atirou-a para cima da cama. Noelle ficou imóvel, sem se importar, como se estivesse a sofrer um choque. Não proferira uma palavra durante a viagem. Lanchon esperava que ela não estivesse doente. Não seria capaz de explicar àpolícia ou, quisesse Deus, à mulher. Despiu-se à pressa, atirando a roupa para o chão, e depois meteu-se na cama ao lado de Noelle. O corpo dela era ainda mais esplêndido do que imaginara. - O teu pai disse-me que nunca ninguém te tocou - disse ele, arreganhando os dentes. – Poisbem, vou-te mostrar o que é um homem. - Deitou a barriga roliça sobre Noelle e impeliu com força o membro entre as pernas dela. Começou a fazer uma pressão cada vez maior, forçando a penetração. Noelle não sentia nada. Na sua mente só ouvia o pai gritar: Deviasestar agradecida por um cavalheiro atencioso como Monsieur Lanchon querer olhar por ti. Só tens de ser simpática com ele. Vais fazer isso por mim. E por ti própria. Etoda a cena fora um pesadelo. Tinha a certeza de que o pai devia ter entendido mal, mas quando ela começou a explicar ele tornara a bater-lhe e a gritar: - Vais fazer o que eu te mando. Outras ficariam felizes se tivessem a tua sorte. A sorte dela. Olhou para Lanchon. O corpo feio e atarracado, tromba arfante, aqueles olhosde porco. Foi a este príncipe que a vendera, o seu amado pai que a amava e não aceitava que ela se entregasse a um homem indigno. E lembrou-se dos bifes que apareceramsubitamente na mesa, dos cachimbos novos do pai e do fato novo, e só lhe apeteceu vomitar. Noelle teve a sensação de, nas horas que se seguiram, ter morrido e renascido. Morrera princesa e renascera prostituta. Aos poucos ganhou consciência do que a rodeava e do que estavaa acontecer lhe. Sentiuum ódio como nuncapensara serpossível sentir. Nunca perdoaria a traição do pai. Pormuito estranho que parecesse, não odiava Lanchon, pois entendia-o. Era um homem com afraqueza comum a todos os homens. Dali em diante decidiu fazer dessa fraqueza a sua força. Aprenderia a usá-la. O pai tivera semprerazão. Ela era uma princesa e o mundopertencia-lhe. E agora sabiacomo consegui-lo. Era tão simples. Os homens mandavam no mundo porque deles eram a força, o dinheiro e o poder; por conseguinte,era preciso mandar nos homens ou, pelo menos, num homem. Mas,para atingir isso, tinha de preparar-se. Tinha muito que aprender.


Esta foi a primeira lição. Concentrou-se em Monsieur Lanchon. Estava debaixo dele, sentindo, experimentando como o órgão masculino se acomodava e o quepodia fazer a uma mulher. No frenesi de ter esta bela criatura debaixo da gordura e dos solavancos do seu corpo, Lanchon nem sequer reparou que Noelle nem semexia, mas também não se teria ralado. Sódeleitar a vista nela bastava para se deixar inflamar por uma paixão que não sentia haviaanos. Estava habituado ao corpo de meia-idade e deformado da mulher e da mercadoriaestafada das prostitutas de Marselha, e ter estajovem virgem debaixo dele era um milagrena sua vida. Mas para ele era só o princípio do milagre. Após ele se ter esgotado a ter relações com Noelle pela segunda vez, ela falou: - Fica quieto. Começou a usar a língua, a boca e as mãos, tentando novas coisas,encontrando as partesmacias e sensíveis do corpo dele e acariciou-asaté Lanchon gritar de prazer. Era como carregar numa série debotões. Quando Noelle fazia assim, ele gemia e quando ela faziaassim, ele contorcia-se de êxtase. Era tão fácil. A escola dela era esta e este era o curso. Era o início do seu poder. Ficaram por lá três dias e não foram ao Le Pyramide uma só vez. Durante todos esses dias e todas essas noites Lanchon ensinou-lheo pouco sexo que sabia, e Noelle descobriu muitíssimo mais. Quando regressaram a Marselha de automóvel, Lanchon era ohomem mais feliz de toda a França. Antes tivera casos passageiroscom funcionárias da loja, em gabinetes particularesnum restauranteque tinha uma sala de jantar privada com um divã; tinha regateadocom prostitutas, sido sovina com presentes para as amantes e famigeradamente avaro com a mulher e os filhos. Agora deu por si a dizer magnanimamente: - Vou montar-te um apartamento, Noelle. Sabes cozinhar? - Sei - respondeu Noelle. - Óptimo. Venho almoçar todos os dias e depois fazemos amor. E duas ou três noites por semana vireijantar. - Pousou a mão no joelho dela e acariciou. - Que tal? - Maravilhoso - disse Noelle. - Até te vou dar uma mensalidade. Não será nada por aí além - acrescentou logo -, mas o bastante para poderes comprar umas coisas bonitas de vez em quando. Só te peço que eu seja a única pessoa da tua vida. Agora pertences-me.


- Como queiras, Auguste - disse ela. Lanchon suspirou de contentamento, e, quando falou, a sua voz era macia. - Nunca senti isto por ninguém. E sabes porquê? - Não, Auguste. Porque tu me fazes sentirjovem. Nós os dois vamos viver uma vida maravilhosajuntos. Chegaram a Marselhajá de noite, viajando em silêncio. Lanchon com os seus sonhos, Noelle com os dela. - Encontramo-nos na loja amanhã às nove horas - disse Lanchon. Reflectiu. - Se estiveres cansada, fica mais um pouco na cama. Vem às nove e meia. - Obrigada, Auguste. Tirou uma mãocheia de notas e deu-lhas. - Toma. Amanhã à tarde procura um apartamento. Isto é para o depósito até eu poder ir vêlo. Ela fitava os francos que estavam na mão dele. - Passa-se alguma coisa? - perguntou Lanchon. - Eu queria que o nosso ninho fosse realmente bonito - disse Noelle -, para gostarmos de estar juntos. - Eu não sou rico - protestou ele. Noelle sorriu compreensivamente e colocou a mão na coxa dele. Lanchon olhouademoradamente e assentiu com a cabeça. - Tens razão - disse ele. Começou a tirar mais dinheiro da carteira, observando o rosto dela enquanto o fazia. Quando lhe pareceu satisfeita, parou e corou com a sua própria generosidade. Ao fim e ao cabo, que importância tinha? Lanchon era um homem de negócios perspicaz e sabia que assim Noelle nunca oabandonaria. Noelle observava-o quando ele se afastou feliz. Depois subiu as escádas, fez a mala e tirouas poupanças que guardara. Às dez horas dessa noite, estava num comboio com


destino a Paris. Quando o comboio chegou a Paris na manhãzinha do dia seguinte, a Estação de PiMapinhava-se de passageiros ansiosos que chegavam à cidade, bem como de outros ansiosos por partir. A algazarra da estação era ensurdecedora, pois as pessoas saudavam alegremente quem chegava, despediam-se com lágrimas, empurrando e abrindocaminho sem modos, mas Noelle não se importava. Assim que se apeou do comboio, antes mesmo de poder ver a cidade, sabia que estava em casa. Marselha é que era uma cidade estranha e Paris a cidade aque ela pertencia. Era uma sensação esquisita e intoxicante, emque Noelle se deleitava, absorvendo os ruídos, as multidões, a excitação de lhe pertencer, aquilo de que tinha detomar a posse. Agarrou na mala e encaminhou-se para a saída. Láfora, à luz do sol brilhante e no zumbido louco do trânsito, Noelle hesitou, apercebendose repentinamente de que não tinha para onde ir. Havia uma fila de seis táxis à frente da estação. - Para onde? Hesitou. - Recomendava-me um hotel simpático e não muito caro? O motorista voltou-se para olhála como quem a avaliava. - É a primeira vez que está cá? - Sim. Ele fez um sinal de concordância com a cabeça. - Então deve querer arranjar trabalho. - É verdade. - Está com sorte - disse ele. - Já fez passagem de modelos? O coração de Noelle deu umsalto. - Por acaso - disse ela. - A minha irmã trabalha numa grande casa de moda -confiou o motorista. -Ainda esta manhã me disse que uma das raparigas se despediu. Quer ir ver se a vaga ainda não foi ocupada? - Seria maravilhoso - respondeu Noelle. - Para levá-la lá, vou ter de cobrar dez francos.


Ela franziu o sobrolho. - Não os dará por mal empregues - prometeu ele. - Muito bem. - Ela recostou-se no assento. O motorista meteua mudança e mergulhou no trânsito louco que se dirigia para o centro da cidade. Tagarelou no percurso, mas Noelle não ouviu uma palavra do que ele disse. Ela estava embriagada com a cidade. Supôs que, por causa do blackout, Paris estaria mais calma do que o normal, mas Noelle sentia uma cidade de pura magia. Tinha uma elegância, um estilo e mesmo um aromapróprio. Passaram por NotreDâme e atravessaram a Pont Neuf em direcção à Margem Direita, curvando em direcção à Avenida Foch. Ao longe, Noelle viu a Torre Eiffel,dominando a cidade. Pelo espelho retrovisor, o motorista viu a expressão do rosto dela. - É bonito, não? - É belo - respondeu Noelle calmamente. Ainda não queria crer que estava ali. Era um reinotalhado para uma princesa...para ela. O táxi encostou à frente de um prédio velho e sombrio da Rua de Provence. - Chegámos - anunciou o taxista. - o taxímetro marca dois francos, e para mim são dezfrancos. - Como é que eu sei se o emprego ainda está livre? - perguntou Noelle. O motorista encolheu os ombros. - Eujá lhe disse a outra rapariga foi-se embora esta manhã. Se não quer entrar, levo-a de volta para a estação. - Não - disse Noelle de imediato. Abriu a carteira, tirou doze francos e deu-os ao motorista. Ele fitou o dinheiro, depois olhou para ela. Envergonhada, ela meteu a mão na carteira e tirou mais um franco. Ele assentiu, sem sorrir, e observou-a enquanto tirava a mala do carro. Quando ele se preparava para se ir embora, Noelle perguntou: - Desculpe, qual é o nome da sua irmã? - Pois não? - Desculpe -disse Noelle. -Disseram- me que há uma vaga para modelo. A mulher olhou para ela e pestanejou.


- Quem a mandou? - O irmão de Jeanette. - Entre. - Ela abriu mais a porta e Noelle penetrou num átrio decorado no estilo do século XVIII. Do tecto pendia um enorme lustre de Baccarat, e havia alguns mais espalhados peloátrio, edo outro lado de uma porta aberta Noelle viu uma sala de estar recheada de mobiliário antigo e umas escadas que davam para o piso superior. Numa bela mesaembutida havia cópias do Fígaro e do Echo de Paris. - Aguarde aqui. Vou ver se Madame Delys a pode receber. - Obrigada - disse Noelle. Pousou a mala no chão e foi até um espelho enorme de parede. A viagem de comboio amarrotara-lhe a roupa, e de repente arrependeu-se do impulso de ter vindo aqui sem se arranjar. Era importante causar boa impressão. Porém, ao olhar-se, viu que era bela. Sabia-o sem presunção, aceitando a sua beleza como um trunfo. Noellevoltouse quando, pelo espelho, viu uma rapariga descer as escadas. Ajovem tinha uma bonita figura e vestia uma saia comprida castanha e uma blusa de golaalta. Era evidente que a qualidade dos modelos era elevada. Deu a Noelle um sorriso breve e entrou na sala de visitas. Momentos depois Madame Delys entrou na sala. Tinha cerca de quarenta anos, uma figura baixa e atarracada e uns olhos frios e cal culistas. Trazia um vestido que Noelle calculou tercustado dois mil francos no mínimo. - Regina disse-me que andas à procura de emprego - indagou ela. - É verdade - respondeu Noelle. - Donde és? - De Marselha. Madame Delys riu com desdém. - O recreio de marinheiros bêbados. O rosto de Noelle assumiu uma expressão desapontada. Madame Delys bateu-lhe noombro. - Não tem importância, minha querida. Que idade tens? - Dezoito. Madame Delys anuiu.


- Isso é bom. Acho que os meus clientes gostarão de si. Tem alguma familia em Paris? - Não. - Excelente. Está pronta para começar já a trabalhar? - Oh, sim - assegurou Noelle. De cima veio o som de uma gargalhada e, um momento mais tarde, uma rapariga ruiva desceu as escadas trazida pelo braço de um homem gordo e de meia-idade. A raparigavestia apenas um negligé muito fino. - Acabaram? - perguntou Madame Delys - Gastei a Angela -riu-se o homem. Depois viu Noelle. - Quem é esta pequena beleza? - É Yvette, a nossa nova rapariga - respondeu Madame Delys. E acrescentou, sem hesitar: É de Antibes, filha de um príncipe. - Nunca comi uma princesa - disse o homem. - Quanto? - Cinquenta francos. - Deve estar a brincar. Trinta. - Quarenta. E acredite-me, vale o seu dinheiro. - Negócio fechado. Voltaram-se para Noelle. Mas ela desaparecera. Noele vagueou pelas ruas de Paris, horas a fio. Caminhou pelos Champs Elisées, descendo por um lado, subindo pelo outro, parando em cada loja para apreciar as incríveisjoalhariase vestidos e malas e perfumes, e interrogou-se sobre como seria Paris quando não havia falta de nada. Os artigos expostos nas montras eram atraentes, e, enquanto uma parte dela se sentia como uma provinciana, outra parte sabia que um dia possuiria aquelas coisas. Mais tarde, começou a sentir-se cansada e com fome. Deixara a mala e a carteira em casa de Madame Delys, mas não tencionava lá voltar. Mandaria alguém buscar as suas coisas. Noelle não ficara chocada nem zangada pelo que acontecera. Apenas sabia a diferença entre uma cortesã e uma prostituta. As prostitutas não mudavam o curso da história; mas as cortesãs sim. Entretanto, estava sem um tostão. Tinha de encontrar uma maneira de sobreviver até conseguir arranjar um emprego, no dia seguinte. O dia começava a morrer e os porteiros dos hotéis afadigavam-se a pôr as cortinas nasjanelas, por causa dos possíveisataques aéreos. Para resolver o seu problema imediato, Noelle precisava de encontrar alguém que lhe pagasse um bomjantar quente. Pediu informações a um polícia e


dirigiu-se para o Hotel Crillon. Lá fora, asjanelas estavam tapadas por folhas de chapa, mas, dentro, a recepção era uma obra-prima de elegância contida, suave e discreta. Noelle entrou, cheia de confiança, como se o seu lugar fosse ali, e sentou-se num sofá em frente ao elevador. Nunca fizera aquilo antes e estava um pouco nervosa. Mas lembrou-se de como fora fácil lidar com Auguste Lanchon. Os homens são realmente muito simples. Havia apenas uma lição que uma rapariga tinha de aprender: um homem fica mole quando está teso, e é teso quando está mole. Era portanto apenas uma questão de o manter teso até ele dar aquilo que se pretendia.

Agora, perscrutando a recepção do hotel, Noelle decidiu que seria coisa simples agarrar oolhar de um homem que fosse a caminho do seu jantar solitário. - Perdão, Mademoiselle. Noelle voltou a cabeça para olhar para um homem alto, de fato escuro. Ela nunca vira umdetective na sua vida, mas não tinha qualquer dúvida na sua mente. - A Mademoiselle está à espera de alguém? - Sim - respondeu Noelle, tentando manter a voz firme. Estou à espera de um amigo. Teve subitamente consciência do seu vestido amarrotado, e do facto de que não trazia a sua mala de mão. - O seu amigo está hospedado neste hotel? Noelle sentiu o pânico crescendo dentro de si. - Ah... não... não propriamente. O homem estudou Noelle por um momento, e depois disse com voz dura: - Posso ver os seus documentos? - Não... não os tenho comigo - gaguejou ela. – Perdi-os... O detective disse: - Talvez seja melhor acompanhar-me. - Pôs-lhe a mão firmemente no braço e forçou-a a levantar-se. Nesse mesmo momento, alguém lhe agarrou no outro braço e disse: - Desculpa vir atrasado, chérie, mas sabes como são estes malditos cocktails. Têm de sair à força. Estás aqui há muito tempo?


Noelle voltou-se, espantada, para ver quem estava a falar consigo. Era um homem muitoalto, de corpo bem feito, esguio, e usava um uniforme estranho, invulgar. Tinha cabelo escuro e olhos da cor do martempestuoso, com longas pestanas espessas. Tinha um rostoque fazia lembrar uma velha moeda florentina. Era um rosto irregular, em que as duas faces não coincidiam exactamente. Era o rosto de alguém extraordinariamente vivo e móvel, de forma que se percebia que estava sempre pronto a rir, a fazer caretas. A única coisa que oimpedia de ter um ar femininamente belo era um queixo largo com um sulco pronunciado ao meio. O homem gesticulou para o detective. - Este homem está a maçar-te? A voz dele era profunda, e tinha um ligeiro sotaque. - Não... não... - respondeu Noelle com aflição na voz. Desculpe-me, senhor... -dizia o detective do hotel. -Fiz confusão. Temos tido problemas ultimamente com... - Voltou-se para Noelle. - Aceite asminhas desculpas, Mademoiselle. O estranho voltou-se para Noelle: - Não sei... que dizes? Noelle engoliu em seco e assentiu com a cabeça. O homem voltou-se para o detective. - A Mademoiselle está a ser generosa. De futuro, tenha mais cuidado. Pegou no braço de Noelle e dirigiram-se para a saída. Quando chegaram à rua, Noelle disse: - Não sei como lhe agradecer, Monsieur. - Sempre odiei polícias. - O homem sorriu. - Quer que lhe chame um táxi? Noelle ficou a olhar para ele, o pânico a começar a crescer dentro de si, ao lembrar-se da situação em que estava. - Não. - Certo. Boa noite. Ele afastou-se e começou a entrar para um táxi, mas voltou-se e viu que ela ficara ali, de pé,a olhar para ele. À porta do hotel, o detective observava-os. O estranho hesitou, e depois


veio ter com Noelle. - É melhor sair daqui - aconselhou. - O nosso amigo continua interessado em si. - Não tenho para onde ir - respondeu ela. Ele acenou e meteu a mão no bolso. - Não quero seu dinheiro - disse ela rapidamente. Ele olhou-a surpreendido. - Então que quer? - Jantar consigo. Ele sorriu e disse: - Desculpe. Tenho um compromisso e já estou atrasado. - Então vá - respondeu ela. - Eu fico bem. Ele meteu as notas outra vez no bolso. - Como queiras, boneca. Au reuoir. Voltou-se e começou a andar para o táxi. Noelle seguiu- com o olhar, interrogando-se sobreo que estaria errado com ela. Sabia que se tinha comportado estupidamente, mas também sabia que não poderia ter feito mais nada. No preciso momento em que o vira, experimentara uma sensação que nunca conhecera, uma onda de emoção tão forte quequase conseguia estender as mãos e agarrá-la. Nemsequer sabia o nome dele, e provavelmente nunca mais o veria. Noelle olhou para o hotel e viu o detective dirigir-sedeclaradamente para si. Era culpa dela. Desta vez, não seria capaz de o convencer. Sentiu uma mão pousarlhe no ombro, e, quando se voltou para ver quem era, o estranho agarrou-lhe o braço e obrigou-a a entrar no táxi, e entrou rapidamente a seguir a ela. Deu umendereço ao condutor. O táxi arrancou, deixando o detective na esquina, a olhar para eles. - Então e o seu compromisso? - inquiriu Noelle. - Era apenas uma festa. Mais uma menos uma, não faz diferença. Como se chama? - Noelle Page. - De onde és, Noelle? Ela olhou para os brilhantes olhos negros dele e disse: - De Antibes. Sou filha de um príncipe. Ele riu-se, mostrando dentes muito brancos e direitos.


- Ainda bem para ti, princesa. - É inglês? - Americano. Ela olhou para o uniforme dele. - A América não está em guerra. - Estou na R.A.F. - explicou ele. - Formaram agora um grupo de pilotos americanos. Chama-se Esquadrilha Águia. - Mas por que hão-de vocês combater pela Inglaterra? - Porque a Inglaterra está a combater por nós - disse ele. - Só que nós ainda não o sabemos. Noelle abanou a cabeça. - Não acredito nisso. O Hitler é um palhaço boche. - Talvez... mas é um palhaço que sabe o que o povo alemão quer: governar o mundo. Noelle escutava fascinada, enquanto Larry discutia a estratégia militar de Hitler, a súbita saída da Sociedade das Nações, o pacto de defesa mútua entre o Japão e a Itália, não por causa do que ele estava a dizer, mas porque gostava de apreciar a cara dele enquanto falava. Os olhos negros de Larry brilhavam, cheios de uma vitalidade irresistível. Noelle nunca encontrara ninguém como ele. Ele era - raridade das raridades -um homem que não se gabava. Era aberto, caloroso e vivo, amante da vida, assegurando-se de que todos os que o rodeavam gostassem dele. Era como um imã que atraísse para a sua órbita todos os que se aproximassem.

Chegaram à festa, que era num pequeno apartamento da rua Chemin Vert. O apartamento estava cheio de um grupo de gente risonha, quase toda muito nova. Larry apresentou Noelle à anfitriã, uma ruiva sensual com ar de predadora, e depois foi engolido pelamultidão. Noelle viu-o ocasionalmente durante toda a noite, rodeado porjovens, todas a tentar chamar a atenção dele. E, no entanto, ele não parecia nada convencido. Era como se estivesse absolutamente inconsciente de como era atraente. Alguém arranjou uma bebida a Noelle, e outra pessoa qualquer ofereceu-se para lhe trazer um prato de comida do buffet, mas ela perdera subitamente todo o apetite. Queria apenas estar com o americano, queria vê-lo longe das raparigas que o assediavam. Havia homens que vinham ter com ela e tentavam entabular conversa, mas o espírito de Noelle estava longe dali. A partir do momento em que tinham entrado, o americano ignorara-a completamente, como se ela não existisse. Por que


não? Pensava Noelle. Por que havia de se preocupar com ela, se podia ter qualqueruma das raparigas que estavam ali? Dois homens estavam a tentar meter conversa com ela, mas ela não se conseguia concentrar. A sala tornara-se repentinamente insuportavelmente quente. Olhou à sua volta, procurando uma escapatória. Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido: - Vamos. - E, um momento depois, ela e o americano estavam na rua, no ar frio da noite. Não conseguiram encontrar um táxi, e por isso caminharam e jantaram num bistrot da Place des Victoires, e Noelle descobriu que estava esfomeada. Estudou o americano que estava sentado à sua frente, e interrogou-se sobre o que lhe estava a acontecer. Era como se ele lhe tivesse tocado nalgum ponto sensível lá muito no fundo doseu ser, de cuja existência ela nem tinha consciência. Nunca antessentira tão feliz. Falaram de tudo. Ela contou-lhe os seus antecedentes, e ele disse-lhe que era do sul de Bóston e de ascendência irlandesa. A mãe dele nascera no Condado de Kerry. - Onde aprendeste a falar francês tão bem? - perguntou Noelle. - Costumava passar o Verão em Cap d’Antibes quando era miúdo. O meu pai foi um dos patrões da Bolsa até que os ursos deram cabo dele. - Ursos? Assim, Larry teve de explicar-lhe as intricadas astúcias do mercado de acções americano. Noelle não se importava com o que ele dizia, só queria que ele não parasse de falar. - Onde moras? - Em lado nenhum. Contou-lhe do taxista, de Madame Delys e do homem gordo que acreditara que ela era uma princesa e se prontificara a pagar quarenta francos por ela, e Larry riu se alto. - Lembras-te de onde fica essa casa? - Sim. Quando chegaram à casa da Rue de Provence, a porta foi aberta pela mesma criada fardada. Os seus olhos brilharam quando viu o jovem americano, mas depois voltaram a ficar baços, quando viu com quem ele vinha. - Queremos ver Madame Delys - disse Larry. Ele e Noelle entraram para o átrio. Havia várias raparigas na sala ao lado. A rapariga saiu e, minutos depois, entrou Madame Delys.


- Boa noite, Monsieur - disse para Larry. Depois, voltou-se para Noelle e disse: - Esperoque tenha mudado de ideias. - Não mudou - respondeu Larry, sorrindo. - Mas a senhora tem algo que pertence àprincesa. Madame Delys fitou-o com ar interrogativo. - A mala e a carteira dela. Madame Delys hesitou por um momento, depois saiu da sala. Minutos depois, a criada regressou com a mala e a carteira de Noelle. - Merci - disse Larry. Virou-se para Noelle. -Vamos embora, princesa. Nessa noite, Noelle mudou-se para casa de Larry, uma pequena pensão muito limpa na ruaLafayette. Não houve qualquer discussão quanto a isso. Era inevitável para ambos. Quando fizeram amor nessa noite, foi mais excitante do que alguma coisa que Noelle alguma vez tivesse experimentado, uma explosão selvagem, primitiva, que os abalou aos dois. Ficou nos braços de Larry durante toda a noite, abraçando-o, mais feliz do que alguma vez julgara ser possível. Na manhã seguinte, acordaram, fizeram amor e saíram para explorar a cidade. Larry era um óptimo guia, e fez que Paris parecesse a Noelle um maravilhoso brinquedo. Almoçaram nas Tulherias, passaram a tarde na Mal Maison e passaram horas a vaguear pela Place des Vosges. Ele mostrou-lhe sítios que estavam fora das rotas batidas pelos turistas, a Place Maubert com o seu colorido mercado de rua e o Quai de La Mégisserie, com as suas gaiolas de pássarose animais estranhos. Levou-a ao Marché de Buci e ouviram os pregões dos vendedores, apregoando os méritos dos seus produtos, dos seus tomates frescos e alfaces, das suas ostras, dos queijos. Foram até Montparnasse. Jantaram num Bateau Mouche e acabaram por comer uma sopa de cebola às quatro da manhã nas Halles, com os magarefes e os camionistas. Ainda não tinhaa acabado e já Larry agrupara uma série de amigos, e Noelle compreendeu que isso se devia ao facto de ele ter o dom do riso. Ensinara-a a rir, e ela não sabia que o riso estava dentro de si. Era como uma dádiva dos deuses. Estava grata a Larry e muito apaixonada por ele. Era madrugada quando regressaram ao quarto da pensão. Noelle estava exausta, mas Larry estava cheio de energia. Noelle ficou deitada a vê-lo, de pé, a admirar o nascer do Sol sobre os telhados de Paris. - Adoro Paris - disse ele. - É como um templo das melhores coisas que o homem já fez. É uma cidade de beleza, de comida e de amor. -Voltou-se para ela e sorriu. -Não necessariamente por esta ordem. Noelle olhou-o enquanto ele tirava a roupa e entrava na cama, para o seu lado. Agarrou-o, sentindo o cheiro másculo dele. Lembrou-se do seu pai e de como ele a tinha traído. Enganara-se ao avaliar todos os homens pelo exemplo do pai e de Auguste Lanchon. Sabia agora que também havia homens como Larry Douglas. E também sabia que nunca maispoderia haver ninguém para ela.


- Sabes quem foram os dois maiores homens que já viveram, princesa? - Um és tu - respondeu ela. - Não. Wilbur e Orville Wright. Eles deram ao homem a sua verdadeira liberdade. Alguma vez voaste? -Ela abanou a cabeça. - Nós tínhamos uma casa de Verão em Montauk... ao fim de Long Island...e, quando eu era miúdo, costumava observar as gaivotas rodopiando pelos ares sobre a praia... e daria a minha alma para poder estar lá em cima com elas. Sabia que havia de ser piloto antes mesmo de começar a andar. Um amigo da família levou-me a dar uma volta no seu biplano quando eu tinha nove anos, e aos catorze tive a primeira aula de pilotagem. É quando estou no ar que me sinto verdadeiramente vivo. - Depois, acrescentou: - Vai haver uma guerra mundial. A Alemanha quer o mundo todo para ela. - Não apanharão a França, Larry. Ninguém conseguirá passar pela Linha Maginot. Ele riu. - Já a atravessei mais de cem vezes. Ela olhou para ele surpreendida. - Pelo ar, princesa. Esta vai ser uma guerra aérea... a minhaguerra. Depois de uma pausa, disse casualmente: - E se nos casássemos? Foi o momento mais feliz da vida de Noelle. O domingo foi um dia de descontracção, de preguiça. Tomaram opequeno-almoço numa pequena e splanada em Monmartre, voltarampara o quarto e passaram o resto do dia na cama. Noelle não podiaacreditar que alguém fosse capaz de um tal êxtase. Era magia pura,quando faziam amor, mas ficava igualmente feliz só por ver Larry andar irrequieto pelo quarto. O simples facto de estar perto dele bastava-lhe. Era estranha, pensou ela, a forma como as coisas se tinhamresolvido. Crescera habituada a ser tratada por princesa pelo pai,eagora, embora tivesse acontecido só por uma piada, Larry chamava-lhe também princesa. Quando estava com Larry, era alguém. Ele recuperara a sua fé nos homens. Ele era o mundo dela, e Noelle sabia porquê. Que nunca precisaria de mais nada, e parecia-lhe incrível quepudesse ter tido tanta sorte ao ponto de ele sentir o mesmo por ela. - Não tencionava casar antes de esta guerra ter acabado – disse-lhe ele. -Mas que se lixe. Os planos são feitos para serem alterados,não é, princesa? Ela assentiu, cheia de uma felicidade que ardia dentro de si.


- Vamos arranjar um maitre qualquer de província que nos case.A não ser que queiras um casamento à grande. Noelle abanou a cabeça. - O campo serve perfeitamente. Ele acenou com a cabeça. - Negócio fechado. Tenho de me apresentar na minha esquadrilha esta noite. Encontramonos aqui na próxima sexta feira. Quetal? - Eu... não sei se consigo aguentar todo esse tempo sem ti. – Avoz dela tremia. Larry agarrou-lhe as mãos. - Amas- me? - Mais do que à minha própria vida - respondeu ela com simplicidade. Duas horas mais tarde, Larry estava de regresso a Inglaterra. Não a deixou ir levá-lo ao aeroporto. - Não gosto de despedidas - disse ele. Deu-lhe um maço de notas. - Compra um vestido de noiva, princesa. Vemo-nos para a semana. E partiu. Noelle passou a semana seguinte num estado de euforia, regressando aos lugares onde tinha ido com Larry, passando horas a sonhar com a sua vida a dois. Os dias pareciam arrastar-se, os minutos recusavam-se a passar, até ao ponto em que Noelle chegou a pensar que ia enlouquecer. Foi a uma dúzia de lojas à procura de um vestido de noiva, e por fim encontrou o que queria na Madeleine Vionett. Era um belo vestido de organza branca, com um corpete alto, longas luvas com seis botões de pérola e três saiotes de crinolina. Foi muito mais caro do que Noelle esperara, mas não hesitou. Gastou todo o dinheiro que Larry lhe dera e mais uma parte das suas economias. Todo o seu ser estava concentrado em Larry. Pensou em formas de lhe agradar, perscrutou na sua mente memórias que o pudessem divertir, histórias que o entretivessem. Sentia-se como uma colegial. E foi assim que Noelle esperou que chegasse a sexta-feira, numa agonia de impaciência. E, quando finalmente chegou, ficou acordada até de madrugada e passou duas horas a tomar banho e a vestir-se, a mudar outra vez, tentando adivinhar que vestido agradaria mais a Larry. Pôs o vestido de noiva, mas tirou-o de novo, rapidamente, com medo de que isso desse azar. Estava excitadíssima.


Às dez horas, Noelle estava frente ao espelho do quarto e teve a certeza de que nunca estivera mais bonita. Não havia vaidade na sua avaliação; estava apenas satisfeita por Larry, feliz por lhe poder dar esse presente. Ao meio-dia, ele ainda não tinha aparecido, e Noelle desejou que ele lhe tivesse dito a que horas chegaria. Telefonou continuamente para a recepção, de dez em dez minutos, para saber se havia algum recado para ela. Às seis da tarde, ainda não tinha notícias dele. À meia-noite, ainda nada. Noelle sentou-se numa cadeira e ficou a fitar o telefone, à espera de que tocasse. Adormeceu e quando acordou já era madrugada de sábado. Ainda estava na cadeira, rígida e gelada. O vestido que escolhera com tanto cuidado estava todo amarrotado, e tinha uma malha na meia. Trocou de roupa e ficou no quarto todo o dia, frente à janela, dizendo a si mesma que, se ficasse ali, Larry acabaria por aparecer; sesaísse dali, algo de terrível aconteceria. À medida que o sábado foi decorrendo, ficou convencida de que tinha havido um acidente. O aviãode Larry ter-se-ia despenhado, ele estaria deitado num campo ounum hospital, ferido ou morto. Tinha o espírito cheio de visões aterradoras. Ficou a pé toda a noite, agoniada com a preocupação, commedo de sair do quarto e de não saber como chegar perto de Larry. Quando chegou o meio-dia de domingo, Noelle continuava sem saber dele, não aguentoumais. Tinha de telefonar. Mas como? Com apequena, era difícil fazer uma chamadainternacional, e ela nem sequertinha a certeza de onde estaria Larry. Sabia apenas que eleestava numa esquadrilha americana da R. A. F. Pegou no telefone e falou coma operadora. - É impossível - respondeu a rapariga. Noelle explicou a situação, e nunca soube se teria sido pelo desespero da sua voz ou por aquilo que disse, mas duas horas mais tardeestava a falar com o Ministério do Ar, emLondres. Não a podiam ajudar, mas transferiram a chamada para Whitehall, que a transferiupara as Operações de Combate, onde lhe desligaram antes de conseguir qualquerinformação. Passaram mais quatro horas até queNoelle conseguiu outra ligação, e nessa altura estava quase histérica. As Operações Aéreas não lhe podiam dar nenhumainformação esugeriram que tentasse o Ministério da Guerra. - Mas já falei com eles! - gritou Noelle para o telefone. Começou a soluçar e, do outro lado da linha, a voz masculina deum inglês disse,embaraçada: - Por favor, Miss, não pode ser assim tão mau. Espere ummomento. Noelle ficou com o auscultador na mão, certa de que não havia esperança, e que Larry estava morto e de que nunca saberia como ou onde tinha morrido. E estava quase a desligarquando a voz inglesavoltou a falar e disse, alegremente: - O que quer, Miss, é a Esquadrilha Águia. São os ianques, têmuma base em Yorkshire. É um pouco contra os regulamentos, mas voupassá-la para Church Fenton, a base deles. Os


tipos de lá poderãoajudá-la. E a linha foi cortada. Eram onze da noite quando conseguiu de novo uma ligação. Umavoz anónima respondeu: - Base Aérea de Church Fenton. - A ligação era tão má queNoelle quase não ouvia. Eracomo se estivessem a falar por debaixode um oceano. Ele estava obviamente comdificuldade em ouvi- la. - Fale mais alto, por favor - disse ele. Nessa altura, os nervos de Noelle estavam já tãotensos que quase não conseguia controlar a voz. - Estou à procura de... - mas nem sabia qual era o posto dele. Tenente? Capitão? Major? Estou à procura de Larry Douglas. É a noiva. - Não consigo ouvi-la, Miss. Pode falar mais alto, por favor? À beira do pânico, Noellevoltou a gritar as palavras, certa de que o homem que estava do outro lado da linha lheestava a tentar esconder que Larry estava morto. Por um instante milagroso, a linha ficoumais nítida, e ouviu a voz dizer, como se estivesse no quarto ao lado: - O tenente Larry Douglas? - Sim - respondeu, controlando-se. - Só um momento, por favor. Noelle esperou o que lhe pareceu ser uma eternidade, e então a mesma voz regressou à linha e disse: - O tenente Larry Douglas está de licença de fim-de-semana. Se é urgente, pode ser encontrado na sala de baile do Hotel Savoy, em Londres, numa festa dada pelo general Davis. - E desligou. Quando a criada chegou para limpar o quarto, na manhã seguinte, encontrou Noelle caída no chão, quase inconsciente. Arapariga olhou para ela por um momento, tentou meter-se na sua vida e sair. Por que aconteciam aquelas coisas sempre nos seus quartos? Aproximou-se e tocou na testa de Noelle. Ardia em febre. Resmungando, a criada desceu à recepção e pediu ao porteiro para mandar o gerente. Uma hora depois, uma ambulância apareceu à porta da pensão e dois homens subiram ao quarto de Noelle. Estava inconsciente. Ojovem médico de serviço levantou-lhe uma pálpebra, pôs-lhe o estetoscópio no peito e escutou enquanto ela respirava. - Pneumonia - disse para o outro. - Vamos levá-la daqui. Puseram Noelle numa maca e, cinco minutos depois, a ambulância corria para o hospital. Puseram-na a oxigénio, e só quatro dias mais tarde voltou a estar plenamente consciente. Arrancou-se penosamente da lama da inconsciência, sabendo subconscientemente que algo


terrível tinha acontecido e esforçando-se por não descobrir o que era. À medida que esse facto terrível se aproximava mais e mais da sua consciência e ela se esforçava por afastá-lo, surgiu-lhe subitamente, claro e evidente. Larry Douglas. Noelle começou a chorar, sacudindo-se em soluços, até que finalmente caiu numa sonolência leve. Sentiu uma mão a pegar delicadamente na sua, e soube queLarry tinha regressado para ela, que estava tudo bem. Noelle abriuos olhos e fitou um estranho que lhe estava a tomar o pulso. - Ora seja bem-vinda - disse o estranho alegremente. - Onde estou? - perguntou Noelle. - No Hotel Deus, o hospital. - Que estou aqui a fazer? - Está a pôr-se boa. Teve uma peneumonia dupla. O meu nomeé Israel Katz. Era jovem, com um rosto forte e inteligente e os olhos de um castanho-profundo. - O senhor é o meu médico? - Eu sou interno - disse. - Fui eu que a trouxe. - Ele sorriu-lhe. - Ainda bem que o fiz. Nós não tínhamos a certeza. - Há quanto tempo estou aqui? - Há quatro dias. - Far-me-ia um grande favor? - perguntou ela com voz fraca. - Se estiver ao meu alcance... - Telefone para o Hotel Lafayette. Pergunte... - hesitou -...pergunte se há alguma mensagem para mim. - Bem, eu estou tremendamente ocupado... Noelle levantou a mão com dificuldade. - Por favor. É importante. O meu noivo está a tentar entrar emcontacto comigo. Ele assentiu. - Não o censuro por isso. Está bem. Eu trato disso - prometeu. - Agora veja se dorme.


- Não conseguireifazê-lo sem ter alguma notícia sua - disse ela. Ele saiu, deixando Noelle ali deitada. Claro que Larry estava atentar contactá-la. Houvera um terrível mal-entendido. Ele explicar-Lhe-ia tudo, e as coisas ficariam bem outra vez. Passaram-se duas horas até Israel Katz voltar. Encaminhou-separa a cama onde ela estava e pousou lá uma mala. - Puxe as suas roupas. Eu próprio fui ao hotel - disse. Ela olhou-o e pôde ver sinais de tensão no seu rosto. - Lamento - disse ele, embaraçado. -Não havia qualquer mensagem. Noelle olhou-o durante algum tempo, depois voltou o olhar, fixo,para a parede. Dois dias mais tarde, Noelle teve alta do hospital. Israel Katz veio despedir-se dela. - Tem algum sítio para onde ir? - perguntou. - Ou um emprego? Ela abanou a cabeça. - Qual é a sua profissão? - Sou modelo. - Talvez eu possa ajudá-la. Recordou o motorista de táxi e Madame Delys. - Eu não preciso de ajuda - disse ela. Israel Katz escreveu um nome numa folha de papel. - Se mudar de ideias, vá até lá. É uma pequena boutique. Pertence a uma tia minha. Eu falar-lhe-ei acerca de si. Tem algum dinheiro? Ela nãorespondeu. - Tome. - tirou alguns francos do bolso e deu-lhos. - Lamento não ter mais. Os internos não são lá muito bem pagos... - Obrigada - disse Noelle. Foi sentar-se num pequeno café de rua, a beber um café quente e tentando decidir da melhor forma de reconstruir a sua vida. Sabia que tinha de sobreviver, pois agora tinha uma


razão forte para isso. Estava cheia de uma raiva que a queimava, que a consumia de uma forma que não deixava espaço para mais nada. Sentia-se uma Fénix renascendo das cinzas das emoções que Larry Douglas matara dentro de si. Não descansaria enquanto não o destruísse. Não sabia como, nem quando, mas sabia que um dia ela faria que isso acontecesse. Naquele momento precisava, isso sim, de um emprego e de um sítio para dormir. Noelle abriu a carteira e tirou a folha de papel que ojovem médico interno lhe dera. Olhou para ela por um instante e depois se decidiu. Naquela mesma tarde, foi procurar a tia de Israel Katz, que lhe deu um emprego como modelo numa pequena boutique de segunda na Rua Boursault. A tia de Israeel Katz era uma senhora de meia-idade, cabelo grisalho, com um rosto humano e alma de anjo. Tratava todas as raparigas como se fossem suas próprias filhas, e elas adoravam-na. Era Madame Rose. Deu a Noelle um avanço sobre o seu salário earranjou-lhe um pequeno apartamento perto da loja. A primeira coisa que Noelle fez quando abriu as malas foi pendurar o seu vestido de noiva. Pô-lo encostado à porta do armário para que fosse a primeira coisa que via de manhã e a última que via antes de se despir, à noite. Noelle soubera que estava grávida muito antes de haver quaisquersinais exteriores que o mostrassem, antes de fazer análises, antes delhe faltar o período. Podia sentir a nova vida que se desenvolvia no seuventre, e à noite ficava deitada, olhando para o tecto e pensando nela,os olhos brilhando como os de um animal selvagem. No seu primeiro dia de folga, Noelle telefonou a Israel Katz e marcou um encontro para almoçarem juntos. - Estou grávida - disse-lhe ela. - Como sabe? Já fez análises? - Não preciso fazer nada disso. Ele abanou a cabeça. - Noelle, imensas mulheres pensam que vão ser mães quandonão vão. Quantos períodos já lhe faltaram? Ela evitou a pergunta, impacientemente. -Preciso da sua ajuda. Ele olhou-a. - Para se livrar do bebé? Já discutiu o assunto com o pai?


- Ele não está cá. - Sabe que o aborto é ilegal... ? Eu posso meter-me num grave sarilho por causa disso. Noelle observou por um momento. - Qual é o seu preço? O seu rosto adquiriu uma expressão zangada. - Pensa que tudo tem um preço, Noelle? - Claro - disse ela simplesmente. - tudo pode ser vendido oucomprado. - Isso inclui-a a si? - Sim, mas eu sou muito cara. Ajuda- me? Houve um longo momento de hesitação. - Está bem. Mas primeiro quero fazer algumas análises. - Muito bem. Na semana seguinte, Israel Katz arranjou maneira de Noelle ir aolaboratório do hospital. Quando, dois dias mais tarde, os resultados dos testes chegaram,ele telefonou-lhe para o emprego. - Tinha razão - disse. - Está grávida. - Eu sei. - Arranjei maneira de fazer o aborto no hospital. Disse-lhes queo seu marido morreu num acidente e que você não está em condições de ter o bebé. Faremos a operação no sábado. - Não - disse ela. - Sábado não é um bom dia para si? - Eu ainda não estou preparada para fazer o aborto, Israel. Queria apenas ter a certeza de que poderia contar consigo para me ajudar. Madame Rose notou uma certa alteração em Noelle, não apenas uma alteração física, mas algo que era muito mais profundo, uma aura, um brilho interior que parecia preenchê-la. Noelle andava sempre com um sorriso nos lábios, como se ocultasse um bom segredo.


- Arranjou um amante -disse Madame Rose. -Vê-se nos seus olhos. Noelle assentiu. - Sim, Madame. - Ele é bom para si. Agarre-o bem. - É o que farei - prometeu Noelle. - Pelo menos, enquanto puder. Três semanas mais tarde, Israel Katz telefonou-lhe. - Nunca mais soube nada de si - disse. - Pensei que se tinha esquecido. - Não - disse Noelle. - Estou sempre a pensar nisso. - Como se sente? - Maravilhosamente bem. - Estive a ver um calendário. Acho que está na hora. - Ainda não estou preparada - disse Noelle. Passaram-se três semanas antes de Israel Katz voltar a telefonar-lhe. - Que tal jantarmos juntos? - perguntou. - Está bem. Combinaram encontrar-se num cafezinho barato na Rua do Gato que Pesca. Noelle pensara sugerir um restaurante melhor, mas depois lembrou-se do que Israel dissera acerca do facto de os internos não terem muito dinheiro. Ele já estava à sua espera quando ela chegou. Conversaram calmamente durante o jantar, e só quando o café chegou é que Israel começou a falar acerca do que lhe ia na mente. - Ainda está a pensar fazer o aborto? - perguntou. Ela acenou com a cabeça em sinal de negação. - Não, ainda não, Israel.

- É a primeira vez que está grávida?


- É. - Então diga-me uma coisa, Noelle. Até aos três meses, um aborto é um processo relativamente fácil. O embrião ainda não está completamente formado e tudo o que é necessário é uma pequena intervenção, mas depois disso... - hesitou -... é preciso um outro tipo de operação, e pode ser perigoso. Quanto mais esperar mais perigoso se torna. Eu quero que o faça já. Noelle inclinou-se para a frente. - Como é o bebé? - Agora? -Ele encolheu os ombros. -Apenas um amontoado de células. Claro que todo o conjunto está lá para formar um ser humano completo. - E depois dos três meses? - O embrião começa a transformar-se numa pessoa. - Pode sentir alguma coisa? - Responde a ruídos, por exemplo. Ela permaneceu sentada, os seus olhos fixos nos dele. - Pode sentir a dor? - Suponho que sim. Mas está protegido dentro do saco amniótico. - De repente, sentiu-se incomodado. -Seria bastante difícil alguma coisa magoá-lo. Noelle baixou os olhos e ficou a olhar para a mesa, silenciosa, pensativa. Israel estudou-a por um instante e depois disse envergonhadamente: - Noelle, se quer ficar com essa criança mas tem medo porque não tem pai para ela... bem...eu estaria disposto a casar consigo e a dar-lhe o meu nome. Ela olhou para ele com surpresa. - Já lhe disse. Eu não quero este bebé. Eu quero fazer um aborto. - Então, pelo amor de Deus, faça-o! -gritou Israel. Baixou a voz quando se apercebeu de que os outros clientes estavam a olhar para ele. - Se esperar muito mais tempo, não haverá médico algum em França que lho faça. Não consegue compreender? Se esperar muito, pode morrer.


- Eu entendo - disse Noelle calmamente. - Se eu quisesse ter esta criança, que tipo de alimentação me recomendaria? Ele passou os dedos pelo cabelo, espantado. - Muito leite e fruta, carne... Nessa noite, quando se dirigia para casa, Noelle parou no mercado perto do apartamento e comprou dois quartos de leite e uma grande caixa de fruta fresca. Dez dias depois, Noelle foi ao escritório de Madame rose e disse- lhe que estava grávida e pediu-lhe uma licença. - Durante quanto tempo? - perguntou Madame Rose olhando para a figura de Noelle. - Seis ou sete semanas. Madame Rose suspirou. - Tem a certeza de que está a fazer o melhor para si? - Tenho - respondeu Noelle. - Posso fazer alguma coisa? - Nada. - Muito bem. Volte o mais depressa que puder. Pedirei ao tesoureiro para lhe dar umadiantamento sobre o seu salário. - Obrigada, Madame. Durante as quatro semanas que se seguiram, Noelle nunca saiu do apartamento a não ser para comprar mantimentos. Não sentia fome e comia muito pouco, mas bebia enormes quantidades de leite para o bebé se alimentar e enchia o organismo de frutas. Não estava sozinha no apartamento. O bebé estava lá e ela falava com ele constantemente. Sabia que era um rapaz, do mesmo modo que soubera da sua gravidez. Chamou-lhe Larry. - Quero que sejas grande e forte - dizia enquanto bebia o leite. - Quero que sejas saudável... Saudável e forte quando morreres. Deitava-se na cama todos os dias, a magicar a sua vingança contra Larry e o filho dele. Ele era o pai da criança, e ela ia matá-lo. Fora a única coisa que lhe deixara, e ela ia destruí-la, tal como ele tentara destruí-la a ela. Como Israel Katz a entendera! Ela não estava interessada num embrião que não sabia nada. Queria que o fruto de Larry sentisse o que lhe estava a acontecer, que sofresse como ela também sofrera. O vestido de noiva estava agorajunto da cama dela, sempre à vista, um


talismã do mal, recordando-lhe a vingança. Primeiro ofilho de Larry, depois... o próprio Larry. O telefone tocou várias vezes, mas Noelle deixou-se ficar na cama, perdida nos seus sonhos até ele se calar. Tinha a certeza de que era Israel Katz a tentar encontrá-la. Uma noite bateram à porta. Noelle ficou deitada, ignorando o facto, masfinalmente, porque continuavam a bater, levantou-se e foi abrir. Israel Katz estava ali, o seu rosto transparecendo preocupação. - Meu Deus, Noelle. Há dias que te telefono... Olhou para o seu estômago dilatado. - Pensei que o tivesses feito noutro lado qualquer. Ela abanou a cabeça. - Não. Quando é que fais fazê-lo. Israel fixou o olhar nela. - Não compreendeste nada do que te disse? É muito tarde. Ninguém o fará. Ele viu as garrafas de leite vazias e a fruta fresca sobre a mesa. Depois tornou a olhar para ela. -Queres o bebé - disse. - Por que não o admites? - Diz-me, Israel... Como é ele agora? - Quem? - O bebé. Já tem olhos e orelhas? Tem dedos das mãos e dos pés? Pode sentir a dor? - Pelo amor de Deus, Noelle, pára com isso. Falas como se... se... - O quê? - Nada. -Ele abanou a cabeça desesperadamente. -Não te entendo. Ela sorriu com suavidade. - Não. Não entendes. Ele ficou ali durante um minuto, tentando decidir-se.


- Está bem, vou arriscar-me por ti, mas, se estás mesmo decidida a fazer o aborto, vamos fazê-lo já... Tenho um amigo médico que me deve um favor... Ele... - Não... Ele ficou a olhar para ela. - Larry ainda não está pronto - disse ela. Três semanas mais tarde, às quatro horas da manhã, Israel Katz foi acordado por umbatimento furioso na sua porta. - Telefone, Sr. Mocho da Noite -gritavam. -E diga a quem lhe ligou que estamos a meio danoite, nas horas em que as pessoas devem estar a dormir. Israel saiu estremunhadamente da cama dirigiu-se ao vestíbulopara atender o telefone,pensando no que teria acontecido de grave. Levantou o auscultador. - Israel? Não reconheceu a voz do outro lado do telefone. - Sim? - Agora... - Era um murmúrio, sem corpo e anónimo. - Quem fala? - Agora. Vem agora, Israel... Havia algo de sinistro na voz, uma caracteristica que o fez arrepiar-se. - Noelle? - Agora. - Por amor de Deus - explodiu. - Não o farei. É muito tarde. Vais morrer, e eu serei oresponsável. Vai a um hospital. Ouviu o clique do telefone a desligar-se no seu ouvido. Pousou o auscultador e voltou parao quarto, o seu espírito fervilhando. Sabia que não podia fazer nada agora, ninguém podia. Estava grávida de cinco meses e meio. Avisara-a vezes sem conta, mas ela recusara-se a ouvir. Bom, a responsabilidade era dela. Ele não queria participar duma coisa dessas. Começou a vestir-se tão depressa quanto podia, gelado de medo.


Quando Israel Katz entrou no apartamento, Noelle estava estendida no chão numa poça de sangue, com hemorragias. O seu rosto estava tão pálido como o de uma morta, mas não mostrava sinais da agonia por que o seu corpo passara. Estava vestida com o que parecia ser um vestido de noiva. Israel ajoelhou-se a seu lado. - Que aconteceu? - perguntou. - Como é que... ? - Parou, os seus olhos fixaram-se numcabide ensanguentado que estava junto dos pés dela. - Jesus Cristo. - Estava cheio de raiva e, ao mesmo tempo, de um sentimento de impotência para a ajudar. O sangue saía com intensidade. Não havia tempo a perder. - Vou chamar uma ambulância. - Começou a levantar-se. Noelle estendeu o braço e agarrou-o com uma força surpreendente, puxando-o para si. - O bebé de Larry está morto - disse ela, e o seu rosto iluminou- se com um belo sorriso.

Uma equipa de seis médicos trabalhou durante seis horas para salvar a vida de Noelle. Odiagnóstico foi envenenamento séptico, ventre perfurado, envenenamento do sangue echoque. Todos os médicos eram de opinião de que havia muito poucas hipóteses de ela sobreviver. Mas às seis horas dessa tarde Noelle estava fora de perigo e, dois dias mais tarde, já estava sentada na cama e capaz de falar. Israel veio vê-la. - Todos os médicos dizem que é um milagre estares viva, Noelle. Ela abanou a cabeça. Simplesmente, não chegara a hora dela. Concluíra a sua primeira vingança contra Larry, mas esta era apenas o começo. Havia mais. Mas primeiro ela tinha de o encontrar. E fá-loia.

Chicago: 1939 -1940 3 Os crescentes ventos de guerra que sopravam pela Europa reduziam-se apenas a défires suaves e sinais quando chegavam às costas dos Estados Unidos. Na Universidade de Northwestern, mais alguns rapazes ingressaram no Corpo de Instrução de Oficiais na Reserva, havia manifestações estudantis incitando o presidente Roosevelt a declarar guerra à Alemanha e alguns finalistas assentaram praça nas Forças Armadas. Nogeral, porém, o mar de complacência permanecia inalterável, e o movimento subterrâneo que em breve assolaria o país era praticamente imperceptível.


Quando se dirigia a pé para o seu emprego de caixa no Roost nessa tarde de sábado, Catherine Alxander interrogava-se se a guerra, a acontecer, iria alterar a sua vida. Sabia de uma alteração a que teria de proceder, e estava determinada a fazê-la logo que possível. Queria desesperadamente descobrir como era sentir um homem abraçá-la e amá-la, e sabia que desejava isso em parte por causa das suas necessidades físicas, mas também porque sentia que estava a perder uma experiência importante e maravilhosa. Meu Deus, e se fosse atropelada por um carro e se durante a autópsia descobrissem que era virgem? Não, tinha de fazer alguma coisa. Já. Catherine percorreu o olhar pelo Roost cuidadosamente, mas não viu o rosto que procurava. Quando Ron Peterson entrou uma hora mais tarde com Jean-Anne, Catherine sentiu um formigueiro no corpo e o coração começou a bater depressa. Virou o rosto quando elespassaram por ela, e do canto do olho viu os dois dirigirem-se à mesa de Ron e sentarem-se.Havia faixas enormes penduradas na sala: PROVE O NOSSO HAMBURGER DUPLO ESPECIAL. PROVE A NOSSA DELÍCIA DOS NAMORADOS. PROVE A NOSSA CANECA DE CERVEJA. Catherine respirou fundo e encaminhou-se para a mesa. Ron Peterson estava a ver a lista,tentando decidir-se. - Não sei que é que vou comer - dizia ele. - Estás com muita fome? - perguntou Jean-Anne. - Estou morto de fome. - Então prove isto. Ambos ergueram o olhar surpresos. Era Catherine que ali estava junto à mesa. Entregou aRon Peterson um papel dobrado, virou-se e regressou à máquina registadora. Ron desdobrou o papel, leu e desatou a rir-se. Jean-Anne fitava-o impávida. - É uma piada pessoal ou pode-se saber o que está aí? - É pessoal - disse Ron com um sorriso largo. Meteu o papel no bolso. Ron e Jean-Anne saíram pouco depois. Ron não disse nada quando pagou a conta, mas deua Catherine um olhar demorado e especulativo, sorriu e saiu de braço dado com JeanAnne. Catherine seguius, sentindo-se uma idiota. Nem sabia atirar-se a um rapaz com êxito. No fim do turno, Catherine vestiu o casaco, despediu-se da rapariga que ia rendê-la e saiu. Estava uma noite quente de Outono com uma brisa refrescante que soprava do lago. Estava uma noite perfeita para - quê? Catherine fez uma lista mental. Posso ir para casa e lavar acabeça. Posso ir até à biblioteca estudar para o exame de Latim que tenho amanhã. Posso ir ao cinema. Posso esconder-me nos arbustos e violar o primeiro marinheiro que apareça. Posso empenhar-me. Empenhar-me, decidiu ele.


Quando ia a dirigir-se para a biblioteca, surgiu um vulto por detrás de um poste da luz. Olá, Cathy. Aonde é que vais? Era Ron Peterson que lhe sorria, e o coração de Catherine pôs-se a bater com tanta força que lhe saltou para fora do peito. Viu-o levantar voo por si só, batendo sozinho no ar. Apercebeu-se de que Ron a fitava. Não era de admirar. Quantas raparigas conhecia ele que sabiam fazer aquele truque com o coração? Queria desesperadamente pentear-se, retocar a maquilhagem, ver as costuras das meias, mas esforçou-se para que o seu nervosismo não desse qualquer sinal. Regra número um: manter a calma. - Hum... - murmurou ela. - Aonde vais? Deveria dar-lhe a lista? Nem pensar! Ainda ia pensar que ela era maluca. Era a sua grande oportunidade, e ela devia fazer tudo para que não a destruísse. Olhou para ele, com uns olhos tão ardentes e convidativos como os de Carole Lombard em Nada é Sagrado. - Não tinha nada de especial planeado - disse ela convidativamente. Ron analisava-a, ainda desconfiado dela, devido a algum instinto primitivo que o tornava cauteloso. - Gostavas de fazer algo de especial? - perguntou ele. Aí estava. A Proposta. O ponto sem regresso. - Di-lo - respondeu -, e eu sou tua. - E encolheu-se por dentro. Pareceu tão piegas. Ninguém dizia di-lo, e eu sou tua excepto nos romances de cordel de Fannie Hurst. Ele ia dar meia-volta e afastar-se, desgostoso. Mas não. Incrivelmente, sorriu, pegou-a pelo braço e disse: - Vamos. Catherine acompanhou, atónita. Fora tão simples quanto isso. Ia ter relações sexuais. Começou a tremer por dentro. Se ele descobrisse que ela era virgem, estaria destruída. E de que ia falar quando estivesse na cama com ele? As pessoas falavam durante o acto, ou esperavam até acabarem? Ela não queria ser malcriada, mas não fazia ideia de quais eram as regras. - Já jantaste? - perguntou Ron. - Sejájantei? - Olhou para ele, tentando pensar. Já deveria ter jantado? Se dissesse que sim, ele podia levá-la já para a cama e ela podia despachar-se com aquilo. -Não – disserapidamente. -Não jantei.


Por que é que eu respondi assim? Deitei tudo a perder. Mas Ron não pareceu aborrecido. - Óptimo. Gostas de comida chinesa? - É a minha preferida. - Detestava, mas os deuses por certo não se importariam com uma pequena mentira amarela na noite mais importante da sua vida. - Há um óptimo restaurante chinês para as bandas de Estes. O Lum Fong. Conheces? Não, masnunca se esqueceria enquanto fosse viva. Que fizeste na noite em que perdeste a virgindade? Oh, primeiro fui ao Lum Fong jantar comida chinesa com Ron Peterson. Era boa? Claro. Mas sabes como é a comida chinesa. Uma hora depois, eujá estava outra vez excitada. Estavam ao pé do carro dele, um carro descapotável de cor castanha. Ron abriu a porta aCatherine, e ela sentou-se no lugar onde todas as outras raparigas que ela invejava também se haviam sentado. Ron era encantador, bonito, um atleta de primeira. E um tarado sexual. Seria um bom título para um filme. O Tarado Sexual e a Virgem. Talvez devesse ter insistido para que fossem a um restaurante mais agradável como o Henrici na Baixa, e aí Ron teria pensado: É uma rapariga como esta que quero mostrar à Mãe. - Um cêntimo pelos teus pensamentos - disse ele. Oh, óptimol Então ele não era oconversador mais brilhante do mundo. Mas não era por isso que ela estava aqui, pois não? Olhou para ele com ternura. - Eu estava a pensar em ti. - Aconchegou-se a ele. Ele deu um sorriso largo. - Enganaste-me à certa, Cathy. - Enganei? - Pensei sempre que eras do género reservado... quero dizer, que não te interessasses por homens. A palavra em que estás a pensar é lésbica, pensou Catherine, mas em voz alta disse: - É que eu gosto de escolher a hora e o lugar. - Estou feliz por me teres escolhido a mim. - Também eu. E estava. Na verdade. Podia ter a certeza de que Ron era um bom amante. Fora experimentado e aprovado por todas as estudantes assanhadas num raio de duzentos quilómetros. Teria sido humilhante se a sua primeira experiência sexual tivesse sido com alguém tão ignorante quanto ela. Ron era um mestre. Depois desta noite não voltaria a


autodenominar-se Santa Catarina. Em vez disso, ficaria provavelmente conhecida como Catarina, a Grande. E desta vez sabia qual o significado de Grande, seria fantástica na cama. O truque era não entrar em pânico. Todas as coisas maravilhosas que lera nos livrinhos de capa verde que mantivera escondidos da mãe e do pai estavamprestes a acontecer-lhe. O corpo dela ia ser um órgão repletode música harmoniosa. Oh, sabia que iadoer na primeira vez; doíasempre. Mas não deixaria que Ron soubesse. Mexer-seiabastanteporque os homens detestavam mulheres passivas. E quando Ron apenetrassemorderia o lábio para ocultar a dor e disfarçá-la com umgritinho de excitação. - Quê? Voltou-se para Ron, assustada, e apercebeu-se de que dera umgrito em voz alta. - Eu... eu não disse nada. - Deste um grito esquisito. - Dei? - Forçou um risinho. - Estás a um milhão de quilómetros daqui. Analisou a estratégia e concluiu que era má. Devia ser mais comoJean-Anne. Pôs-lhe amão no braço e aproximou-se. - Estou bem aqui - disse ela. Tentou fazer uma voz gutural, como Jean Arthur em CalamityJane. Ron desceu o olharsobre ela, confuso, mas a única coisa quepôde ler no seu rosto foi uma excitação ansiosa. OLum Fong era umrestaurante chinês de aspecto sombrio e barato, localizado sob a linhaférrea elevada. Durante ojantar ouviram o matraquear dos comboiosquando passavam porcima, estremecendo a loiça. O restaurante eraidêntico a milhares de restaurantes chinesesem toda a América, masCatherine cuidadosamente fixou os pormenores docompartimentoem que estavam sentados, empenhando-se para memorizar o papelde parede barato e sujo, o bule de porcelana rachado, as manchas demolho de soja na mesa. Um criado chinês de baixa estatura aproximou-se da mesa e perguntou se desejavam umabebida. Catherine bebera já alguns uísques antes e detestava a bebida, mas agora era aNoite de Natal, o 4de Julho, o Fim da Virgindade. Adequava-se à comemoração. - Vou tomar um bem forte. - Um uísque com água tónica. O empregado retirou-se com uma vénia. Catherine gostava de saber se era verdade que asmulheres orientais eram oblíquas. - Não entendo como que é que não nos tornámos amigos antesdizia Ron. - Toda a gente diz


que és a aluna mais brilhante da universidade. - Sabes como as pessoas exageram. - E tu és muito bonita. - Obrigada. Ela tentou imitar a voz de Katherine Hepburn em Alice Adams e deu-lhe um olhar cheio de significado. Já não era Catherine Alexander. Era uma máquina de sexo. Estava à beira de se juntar a Mae West, Marlene Dietrich, Cleópatra. Iam ser irmãs através do prepúcio. O empregado trouxe a bebida, que ela bebeu num trago rápido e nervoso. Ron observavaasurpreso. - Calma - aconselhou ele. - Essa bebida é fortíssima. - Eu aguento - sossegou-o Catherine confiadamente. - Mais uma rodada - disse ele ao criado. Ron debruçou-se sobre a mesa e acariciou-lhe a mão. -É engraçado. Todos nós nos enganámos a teu respeito. - Engano. Ninguém na escola pensava em mim. Ele fitou-a. Cuidado, não te armes em esperta. Para a cama os homens preferiam mulherescom glândulas mamárias e músculos glúteos excessivamente grandes, mas cérebros excessivamente pequenos. - Eu sentia uma... coisa por ti há muito tempo - disse ela, apressadamente. - Não há dúvida de que guardaste bem o segredo. -Ron tirou do bolso o papel que ela escrevera e desdobrou-o calmamente. -Experimente a nossa empregada da caixa - leu ele em voz alta, e riu-se. - Até agora estou a gostar mais do que de banana split. Percorreu as mãos pelo braço de Catherine, o que lhe causava minúsculos arrepios pela espinha abaixo, exactamente como os livros diziam que aconteceria. Talvez depois desta noite escrevesse um manual sobre sexo para esclarecer todas as virgens idiotas e infelizes que não sabiam o que era a vida. Depois da segunda bebida, Catherine começou a sentir pena delas. - É uma pena. - O quê? Falara de novo em voz alta. Decidiu ser audaz.


- Estava a pensar na pena que sinto de todas as virgens do mundo - disse ela. Ron deu-lhe um sorriso largo. - Isso merece um brinde. Ele ergueu o copo. Ela olhou para ele, ali sentado à sua frente obviamente desfrutando da companhia dela. Não tinha nada com que se preocupar. Tudo corria às mil maravilhas. Perguntou-lhe se queriamais uma bebida, mas Catherine recusou. Não fazia tenções deficar num estupor alcoólico quando fosse desflorada. Desflorada? Ainda se usava a palavra desflorada? De qualquer modo, queria lembrar-se de cadamomento, cada sensação. Oh, meu Deus! Ela nãotomava nada! E ele? Certamente umhomem com a experiência deRon Peterson teria alguma coisa para usar, uma protecçãopara queela não engravidasse. E se ele estava a contar com a mesma coisa? Ese ele estavaa pensar que uma rapariga com a experiência de Catherine Alexander decerto teria algumaprotecção? Poderia perguntar-lhe directamente? Preferia morrer, ali à mesa. Que levassemo seucorpo e lhe dessem uma cerimónia fúnebre chinesa. Ron pediu ojantar de seis pratos que custava um dólar e setentae cinco cêntimos, eCatherine fingiu que comia, mas poderia igualmente saber a papelão chinês. Sentia-se tãotensa que não conseguiasaborear nada. A língua ficou repentinamente seca e o céu da bocaparecia estranhamente dormente. E se Lhe desse uma coisa? Poderia morrer se tivesserelações logo a seguir a um ataque. Devia avisar Ron. A sua reputação sairia prejudicada seencontrassem umamulher morta na cama dele. Ou talvez a mesma saísse reforçada. - Que se passa? - Ron perguntou. - Estás pálida. - Sinto-me óptima - disse ela, despreocupadamente. – Estarcontigo excita-me. Ron olhou-a apreciativamente, os seus olhos castanhos abarcando todos os pormenores doseu rosto, descendo até aos seios, onde sedetiveram. - Também sinto o mesmo - respondeu ele. O criado tinha levado os pratos, e Ron tinha pago a conta. Olhoupara ela, mas Catherinenão conseguia mexer-se. - Queres mais alguma coisa? - perguntou Ron. Se quero? Oh, sim. Quero ir para a China num barco a vapor.Quero estar na caldeira dumcanibal para servir de jantar. Quero aminha mãe! Ron observava-a, à espera. Catherine respirou fundo.


- Não consigo pensar em nada. - Óptimo. - Pronunciou a palavra longa e demoradamente,como se tivesse posto uma camana mesa entre eles. - Vamos. Levantou-se e Catherine seguiu-o. A sensação de euforia causada pela bebida haviadesaparecido por completo, e as pernas delacomeçaram a tremer. Estavam cá fora ao relento da noite quente quando Catherine foiatingida por umpensamento repentino que a encheu de alívio. Ele não me vai levar para a cama esta noite. Os homens nunca fazem isso a uma rapariga no primeiro encontro. Ele vai-me convidar para jantar fora outra vez e da próxima vez iremos até ao Henrici e então iremos conhecer-nos melhor. Conhecer-nos realmente. E provavelmente vamos apaixonar-nos...loucamente... e ele vai levar-me a conhecer os pais e depois tudo estará bem... e eu não sentirei este pânico estúpido. - Tens alguma preferência por motéis? - perguntou Ron. Catherine olhou para elefixamente, muda. Idos eram os sonhos de uma noite calma e agradável com os pais dele. O malandro estava mesmo com ideias de dormir com ela num motel! Bem, era o que elaqueria, não era? Não foi para isto que escrevera aquele bilhete idiota? Ron tinha agora a mão sobre o ombro de Catherine, deslizando pelo braço. Teve umasensação de calor no ventre. Engoliu em seco e disse: - Quem conhece um motel conhece todos. Ron olhou para ela com um ar estranho. Mas tudo o que disse foi: - Está bem. Vamos. Entraram no carro e dirigiram-se para oeste. O corpo de Catherine tornara-se um bloco degelo, mas a sua mente corria a um ritmo febril. A última vez que se alojara num motel foraaos 8 anos quando atravessou o país na companhia da mãe e do pai. Desta vez ia dormircom um homem que desconhecia totalmente. Que sabia ela a respeito dele? Apenas que erabonito, popular e sabia reconhecer uma rapariga fácil. Ron estendeu o braço e tomou lhe a mão. - Tens as mãos frias - disse ele. - Mãos frias, pernas quentes. Oh, Deus, pensou ela, elá estou eu outra vez. Por alguma razão, a letra de Ah, Doce Mistério da Vida veio-lhe à lembrança. Bem, ela estava prestes a solucionar o mistério. Preparava-se para descobrir tudo sobre o assunto. Os livros, os anúncios sedutores, os versos eróticos tenuemente velados -Embala-me no Berço do Amor, Vamos a Isso Outra


Vez, eAté Os Passarinhos Gostam. Pronto, pensou ela. Chegou a vez de Catherine. Ron virou para sul, entrando na Clark Street. Na frente deles, dos dois lados da rua, piscavam olhos enormes de cor vermelha, letreiros luminosos acesos a noite inteira, anunciando aos quatro ventos assuas ofertas de abrigos baratos e temporários aosjovens amantes quenão podiam esperar. - MOTEL DO BOM DESCANSO, MOTELUMANOITE, ESTALAGEMABERTA(esta só podia serfreudiana!),REPOUSO DOS VIAJANTES. A pobreza da imaginação ressaltava,mas os proprietários destes lugaresestavam atarefados de mais naincitação dosjovens casais à fornicação para sepreocuparem com literatura. - Parece que este é o melhor de todos - disse Ron, apontandopara um letreiro em frente. A ESTALAGEM DO PARAÍSO - QUARTO VAGO. Era um símbolo. Havia um quarto vago no Paraíso, e ela, Catherine Alexander, ia ocupá-lo. Ron meteu o carro num pátio que ficava ao lado dum pequenoescritório caiado com umletreiro que dizia: TOQUE À CAMPAINHAE ENTRE. No pátio havia cerca de duasdezenas de casas de madeiranumeradas. - Que te parece? - perguntou Ron. Como o Inferno de Dante. Como o Coliseu de Roma quando osCristãos estavam prestes aser lançados às feras. Como o Templo deDelfos quando uma das virgens vestais ia serpunida por ter pecado. Catherine teve de novo aquela sensação no ventre. - Uma maravilha - disse ela. - Simplesmente maravilhoso. Ron esboçou um sorriso entendedor. - Volto já. Pôs a mão no joelho de Catherine, deslizando-a até à coxa, deu-lhe um beijo rápido eimpessoal, saindo do carro, e entrou no escritório. Ela ficou ali, a olhar para ele, tentandonão pensar em nada. Ouviu o uivo duma sirene ao longe. Oh, meu Deus, pensou ela aflita,Huma rusga! Fazemmuitas rusgas e estes sítios! A porta do escritório do gerente abriu-se e Ron saiu. Trazia uma chave e, aparentemente, ignorava a sirene que se aproximava cada vez mais. Caminhou até ao lado onde Catherine se sentava e abriu a porta. - Tudo em ordem - disse ele. A sirene era um carpido estridente cada vez mais próximo. Poderia a polícia prendê-los só


por estarem no pátio? - Anda daí - disse Ron. - Não estás a ouvir? - O quê? A sirene passou por eles e desceu ululante a rua, afastando-se,morrendo na distância. Bolas! - Os pássaros - disse ela, num tom frágil. Havia um ar de impaciência no rosto de Ron. - Se há alguma coisa que esteja a incomodar-te... - disse ele. - Não, não - Catherine logo interrompeu. -Já vou. - Saiu do carro e dirigiram-se para um dos apartamentos. -Oxalá te tivessem dado o meu número de sorte - disse ela alegremente. - Que disseste? Catherine olhou para ele e repentinamente apercebeu-se de que não dissera nenhumapalavra. Tinha a boca completamente seca. - Nada - disse ela num tom rouco. Chegaram à porta com o número treze. Era exactamente o que ela merecia. Era um sinaldos Céus de que ia engravidar, de que Deus ia castigar Santa Catarina. Ron abriu a porta e segurou-a para que ela passasse. Acendeu a luz e ela entrou. Não queria acreditar. O quarto parecia ter apenas uma cama enorme. Os únicos móveis eram uma poltrona com um ar desconfortável a um canto, um pequeno toucador com um espelho e, ao lado da cama, um rádio velho com uma ranhura onde se punha uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Quem entrasse aqui nunca se enganaria sobre a finalidade deste quarto: um sítio para onde um rapaz trazia umarapariga para ter relações. Ninguém poderia dizer: bem, esta é a cabana de esqui, ou a sala dosjogos de guerra, ou a suíte nupcial do Hotel Embaixador. Não. Isto não passava de um reles ninho de amor. Catherine virou-se para ver o que Ron fazia, e ele estava a trancar a porta. Bom. Se a Brigada de Costumes os procurasse, teria de arrombar a porta primeiro. Imaginou-se a ser levada nua pelos dois polícias enquanto era fotografada para a primeira página do Chicago Daily News. Ron aproximou-se deCatherine e abraçou-a. - Estás nervosa? perguntou ele. Ela olhou e forçou um sorriso que teria deixado Margaret Sullivan orgulhosa.


- Nervosa, eu? Ron, não sejas parvo. Ele continuava a analisá-la, inseguro. - Não é a primeira vez, pois não, Cathy? - Eu não tenho nenhuma tabela. - Tenho uma sensação esquisita a teu respeito. Pronto. Ia mandá-la embora com a sua virgindade e dizer-lhe fosse tomar um duche frio. Bem, ela não ia deixar que isso acontecesse. Não esta noite. - Que espécie de sensação? - Não sei. - A voz de Ron revelava perplexidade. - Tanto estás sedutora e, sabes, com vontade, e logo a seguir o teu pensamento está longe daqui e ficas frígida como o gelo. É como se tivesses uma dupla personalidade. Qual delas é a verdadeira Catherine Alexander? Frígida como o gelo, disse ela automaticamente a si própria, acrescentando em voz alta: - Eu vou-te mostrar. -Abraçou-o e beijou na boca de tal forma que sentiu o cheiro dos ovos que haviam comido. Ele beijou-a com mais força e puxou- a parajunto de si. Passou-lhe as mãos pelos seios, acariciandos, introduzindo-lhe a língua na boca. Catherine sentiu uma humidade quente interior e as calcinhashumedecerem. Pronto, pensouela. Vaimesmo acontecer. Vai mesmo acontecer! Abraçou- com mais força, possuída por uma excitação crescente quase insuportável. - Vamos tirar a roupa - disse Ron com a voz rouca. Recuou e começou a tirar o casaco. - Não - disse ela. - Deixa-me ser eu a tirar. - A sua voz tinha uma confiança nova. Se esta era a noite das noites, ela ia portar-se à altura. Ia lembrar-se de tudo o que lera ou vira. Ron não ia voltar para a escola e rir-se com as outras de como fizera amor com uma virgenzita estúpida. Catherine podia não ter a medida do busto de Jean-Anne, mas tinhaum cérebro dez vezes mais útil, e ia pô-lo a funcionar para tornar Ron feliz de uma formainsuportável. Tirou-lhe o casaco e colocou-o na cama, depois pegou na gravata. - Calma - disse Ron. - Quero ver-te a tirares a roupa. Catherine olhou-o fixamente, engoliuem seco, alcançou lentamente o fecho de correr e saiu do vestido. Ficou de soutien, combinação, cuecas, sapatos e meias. - Continua. Ela hesitou por um momento, depois baixou-se e tirou a combinação. Feras 2-Cristãos 0, pensou ela.


- Fantástico! Continua. Catherine sentou-se lentamente na cama e cuidadosamente tirou os sapatos e as meias, tentando dar à pose o máximo de sedução. Repentinamente, sentiu Ron atrás de si, desapertando-lhe o soutien. Deixou-se cair na cama. Ele ergueu-a e começou a tirar-lhe as cuecas. Ela respirou fundo e fechou os olhos, desejando estar noutro lugar com outro homem, um ser humano que a amasse, que ela amasse, que desse filhos esplêndidos a quem daria o nome dele, que lutasse por ela e matasse por ela e para quem ela seria uma companheira adorável. Uma prostituta na cama dele, uma óptima cozinheira na cozinha dele, uma anfitriã encantadora na sala de visitas dele. Um homem que matasse um safado como Ron Peterson por ousar trazê-la para este quarto nojento e degradante. As cuecas caíram no chão. Catherine abriu os olhos. Ron olhava para ela, com um rosto cheio de admiração. - Meu Deus, Cathy, como és bela - disse ele. - És mesmo bela. Curvou- se e beijou-lhe os seios. Ela viu um relance no espelho do toucador. Parecia uma farsa francesa, sórdida e suja. Tudo dentro dela, à excepção da dor quente que sentia no ventre, lhe dizia que isto era triste, feio e errado, mas agora não havia maneira de parar. Ron estava a arrancar a gravata e a desabotoar a camisa, afogueado. Desapertou o cinto e ficou de cuecas, sentando-se depois na cama para tirar os sapatos e as meias. - É verdade, Catherine - disse ele, com a voz estrangulada de emoção. - és a coisa mais bela que eu já vi. As palavras dele apenas serviram para aumentar o pânico de Catherine. Ron pôs-se de pé, um sorriso largo de antecipação no rosto, deixando que as cuecas caíssem para o chão. O seu órgão masculino estava erecto, como um salame enorme e inchado rodeado de pêlos. Catherine nunca vira coisa maior e mais incrível. - Gostas? - disse ele, baixando o olhar com orgulho. Sem pensar, Catherine disse: - Às fatias com centeio. Sem mostarda nem alface. E ela ficou a vê- lo murchar. No segundo ano de Catherine houve uma alteração no ambiente na universidade. Pela primeira vez sentia-se uma preocupação crescente sobre o que estava a passar-se na Europa e um pressentimento crescente de que a América ia envolver-se. O sonho de Hitler de que o Terceiro Reich dominaria o mundo por mil anos estava a concretizar-se. Os nazis ocuparam a Dinamarca e invadiram a Noruega. Nos últimos seis meses o tema de conversa nas universidades do país deixara de ser o sexo, as roupas e os bailes para girar à volta do Corpo de Instrução de Oficiais na Reserva, do alistamento e doempréstimo e Arrendamento. Um número crescente de alunosuniversitários aparecia com a farda do Exército e da Marinha.


Certo dia, Susie Roberts, companheira na escola em Senn, deteve Catherine no corredor. - Quero despedir-me de ti, Cathy. Vou-me embora. - Para onde vais? - Para Klondike. - Klondic? - Washington. As mulheres lá valem ouro. Diz-se que há pelo menos cem homens para uma mulher. Agrada-me esta proporção. Olhou para Catherine. - Para que é que queres ficar agarrada a este sítio? As aulas são uma seca. Temos um mundo inteiro à nossa espera. - Não posso ir assim sem mais nem menos - disse Catherine. Não sabia porquê: nada a prendia de facto a Chicago. Correspondia-se regularmente com o pai em Omaha, e telefonava- lhe uma ou duas vezes por mês, e, de cada vez que o fazia, a voz dele parecia a dum prisioneiro. Catherine estava agora sozinha. Quanto mais pensava em Washington, mais excitante a ideia lhe parecia. Nessa noite telefonou ao pai e disse-lhe que queria abandonar os estudos e ir trabalhar para Washington. Ele perguntou-lhe se elagostaria de voltar para Omaha, mas Catherine apercebeu-se de uma certa relutância na voz dele. Ele não queria que ela ficasse com as pernas cortadas, como ele ficara. Na manhã seguinte, Catherine foi falar com a reitora das alunas e comunicou-lhe que ia deixar a escola. Enviou um telegrama a Susie Roberts e no dia seguinte estava num comboio a caminho de Washington.

Paris: 1940 4 No sábado, 14 de Junho de 1940, o Quinto Exército alemão marchou sobre Paris, deixando a cidade atordoada. A Linha Maginot tornara-se no maior fracasso da história da guerra e a França ficou indefesa perante uma das mais poderosas máquinas militares que o mundo já conhecera. O dia começara envolto numa mortalha estranha e cinzenta que pairava sobre a cidade, uma aterradora nuvem de origem desconhecida. Durante as últimas quarenta e oito horas o fogo intermitente quebrava o silêncio anormal e assustado de Paris. Os canhões ribombavam nas imediações da cidade, mas os ecos reverberavam no coração de Paris. Surgira uma torrente de boatos transportados como uma vaga gigantesca na rádio, nos jornais e de boca em boca. Os boches invadiam a costa francesa... Londres fora destruída... Hitler chegara a um acordo


com o Governo inglês... Os alemães iam devastar Paris com uma nova bomba mortífera. De início, cada boato fora aceite como um evangelho, criando o seu próprio pânico, mas as crises constantes acabam por surtir um efeito entorpecente, como se a mente e o corpo, incapazes de absorver qualquer outro terror, se retraíssem numa concha protectora de apatia. Neste momento as fábricas estavam completamente paradas, osjornais deixaram de imprimir-se e as antenas das estações de rádio calaram-se. O instinto humano vencera as máquinas, e os parisienses pressentiam que era chegado o dia de decisão. A nuvem cinzenta era um presságio. E nessa altura os gafanhotos alemães começaram a chegar em enormes enxames. De um momento para o outro, Paris era uma cidade cheia de soldados e civis estrangeiros, que falavam uma língua estranha e gutural, desfilavam pelas avenidas largas ladeadas de árvores em grandes Mercedes agitando bandeiras nazis ou empurravam as pessoas aolongodos passeios que agora lhes pertenciam. Eram na verdade ossuper-homens, destinados aconquistar e dominar o mundo. No espaço de duas semanas acontecera uma transformação surpreendente. Os letreiros emalemão apareciam em toda a parte. Asestátuas dos heróis franceses haviam sido derrubadase a suásticaesvoaçava em todos os edifícios públicos. Os esforços alemães paraerradicartudo o que era gaulês atingiram proporções ridículas. Asmarcas nas torneiras mudaram dequente e frio para heiss e halt. APraça de Broglie em Estrasburgo passou a chamar-seAdolf HitlerPlatz. As estátuas de Lafayette, Ney e Kleber foram dinamitadas por sapadoresnazis. As inscrições sobre os monumentos aos mortosforam substituídas por TOMBADOS PELA ALEMANHAH. As tropas alemãs da ocupação divertiam-se. Embora a comidafrancesa fosse demasiadorica e servida com demasiados molhos,constituía ainda assim uma mudança agradável dasrações de guerra. Os soldados ignoravam e pouco se importavam que Paris fosse acidadede Baudelaire, Dumas e Molière. Para eles, Paris era umaputa espampanante, ávida e comexcesso de maquilhagem e com asaia puxada até às coxas, que eles violaram, um de cadavez. Os soldados da Tempestade levavam as raparigas francesas para a cama àforça, porvezes na ponta da baioneta, enquanto os chefes como Goering e Himmler violavam oLouvre e as ricas propriedades privadasque gananciosamente confiscavam aos inimigosrecentes do reich. Se a corrupção e o oportunismo franceses vieram à superfície neste tempo crítico, o mesmose deu com o heroísmo. Uma das armas secretas da resistência foram os Bombeiros, osquais em França estãosobjurisdição do Exército. Os alemães apoderaram-se de dezenas deedifícios para uso militar, a Gestapo e vários ministérios, e a localização destes edifíciosnão era obviamente nenhum segredo. Numquartel-general da resistência subterrânea em St. Rémy, os chefesda Resistência, debruçavam-se sobre enormes mapas assinalandoempormenor a localização de cada edifício. Os peritos recebiam então os seus alvos, e no diaseguinte um carro em alta velocidade ou umciclista com ar inocente passava por um desses edifícios e atirava umabomba de fabrico caseiro através de umajanela. Até esse ponto osprejuízos eram de pouca monta. A engenhosidade do plano residia no que acontecia depois. Os alemães chamavam os bombeiros para apagarem o fogo. Como em todos os países,sempre que há uma deflagração os bombeiros encarregam-se de tudo, e em


Paris não eradiferente. Os bombeiros precipitavam-se para o interior do edifício enquanto os alemães ficavam docilmente à parte a vê-los destruir tudo o que estava à vista com mangueiras de alta pressão, machados e - sempre que surgia a oportunidade - as suas próprias bombasincendiárias. Deste modo, a Resistência conseguia destruir registos alemães de valorinestimável guardados nas fortalezas da Wehrmacht e da Gestapo. O AltoComandoprecisou de quase seis meses para se dar conta do que estava a acontecer, mas por essa alturajá tinham sido causados prejuízos irreparáveis. A Gestapo nada podia provar, mas todos os elementos dos bombeiros foram agrupados para combater na frente russa. Havia falta de tudo, desde comida a sabão. Não havia gasolina, nem carne, nem lacticínios. Os alemães confiscaram tudo. As lojas que comercializavam produtos de luxo permaneciam abertas, apenas frequentadas por soldados que pagavam com marcos de ocupação, os quais eram idênticos aos marcos regulares, só que não tinham a tarja branca nas bordas, nem o aval de pagamento, impresso mas não assinado. - Quem nos trocará isto? -lamentavam-se os lojistas franceses. E os alemães respondiam, sorrindo: - O Banco de Inglaterra. Nem todos os Franceses sofriam, porém. Para os que tinham dinheiro e ligações haviasempre o mercado negro. A vida de Noelle Page sofreu poucas alterações com a ocupação. Trabalhava como modelo na boutique Chanel na Rua Canbon, num edifício de pedra cinzenta com 150 anos e de aspecto vulgar, mas cujo interior estava elegantemente decorado. A guerra, como todas as guerras, produzira milionários da noite para o dia, e não havia falta de clientes. Noelle recebia propostas como nunca; a única diferença era que a maioria delas eram agora feitas em alemão. Quando não estava a trabalhar, tinha por hábito sentar-se horas a fio empequenasesplanadas dos Campos Elísios ou na Margem Esquerda, junto à Pont Neuf. Havia centenas de homens em uniformes alemães, muitos deles acompanhados dejovens francesas. Os civis franceses ou eram velhos demais ou aleijados, e Noelle supunha que os mais novos tinham sido enviados para acampamentos ou chamados a cumprir o serviço militar. Reconhecia os alemães à primeira vista, mesmo quando não estavam fardados. tinham um ar de arrogância estampado nos rostos, o ar que os conquistadores tinham desde os dias de Alexandre e Adriano. Noelle não os odiava, mas também não gostava deles. Eram-lhe simplesmente indiferentes. Tinha uma vida interior completa, planejando com cuidado cada um dos seus movimentos. Sabia exactamente o que desejava, e sabia que nada poderia impedi-la. Assim que pôde, contratou um detective privado que tratara do divórcio duma modelo com quem trabalhava. O detective chamava-se Christian Barbet e tinha um escritoriozinho miserável da Rua de São Lázaro. Na tabuleta da porta lia-se: INVESTIGAÇÕESPESSOAIS E COMERCIAIS CONFIDENCIAISVIGILÂNCIASPROVAS

INQUÉRITOS

INFORMAÇÕES


A tabuleta era quase maior que o escritório. Barbet era baixo e careca e tinha uns dentes amarelos e partidos, olhos pequenos e estrábicos e uns dedos que a nicotina manchara. - Em que posso servi-la? - perguntou a Noelle. - Desejo informações sobre uma pessoa que se encontra em Inglaterra. Ele pestanejou com um ar suspeito. - Que tipo de informações? - De todo o género. Se é casado, com quem se encontra. Sej a o que for. Quero fazer um arquivo sobre ele. Barbet coçou a virilha cautelosamente e olhou fixamente para ela. - Ele é inglês? - É americano. É piloto da Esquadrilha Águia da R. A. F. Barbet coçou a cabeça calva, embaraçado. - Não sei - resmungou ele. - Estamos em guerra. Se me apanham a tentar obter informações de Inglaterra sobre um aviador... A voz arrastou-se e encolheu os ombros expressivamente. - Os alemães atiram primeiro e fazem perguntas depois. - Eu não quero nenhuma informação militar - assegurou-lhe Noelle. Abriu a carteira e tirou um maço de francos. Barbet olhou-os sofregamente. - Eu tenho ligações em Inglaterra-disse ele cautelosamente, mas isso vai sair-lhe caro. E foi assim que começou. Passaram-se três meses quando o pequeno detective telefonou a Noelle. Ela foi ao escritório, e as suas primeiras palavras foram: - Ele está vivo? E, quando Barbetfez um sinal afirmativo com a cabeça, o seu corpo deixou transparecer o alívio que ela sentiu, e Barbet pensou: Deve ser maravilhoso termos alguém que nos ame tanto. - O seu namorado foi transferido - disse-lhe Barbet.


- Para onde? Ele olhou para um bloco de notas que estava sobre a secretária. - Ele estava adstrito à Esquadrilha 609 da R.A.F. Foi transferido para a Esquadrilha 121 em Martlesham East, em East Anglia. Ele anda a pilotar Hurricanes… - Isso não me interessa. - A senhora está a pagar por tudo - disse ele. - Deve querer dar o seu dinheiro por bem empregue. - Voltou a olhar para os apontamentos. - Ele anda a pilotar Hurricanes. Antes, voava com Búffalos americanos. Virou uma página e acrescentou: - Agora é um pouco pessoal. - Diga - disse Noelle. Barbet encolheu os ombros. - Aqui está uma lista das mulheres com quem se encontra. Eu não sei se queria... - Eu disse-lhe: tudo. Havia na voz dela um tom estranho que o confundiu. Havia neste caso alguma coisa que não era completamente normal, algo que não soava a verdade. Christian Barbet era um investigador de terceira classe que se ocupava de clientes de terceira classe, mas por causa disso ele desenvolvera um instinto brutal pela verdade, um nariz que farejava os factos. A bela rapariga que se encontrava no seu escritório perturbava-o. A princípio, Barbet pensara que ela poderia estar a tentar envolvê-lo em alguma espécie de espionagem. Depois concluiu que era uma mulher abandonada em busca de provas contra o marido. Admitiu ter-se enganado, e agora andava às aranhas para entender o que queria a sua cliente... ou porquê. Entregou a Noelle a lista das namoradas de Larry Douglas e observou o rosto dela enquanto a lia. Era como se estivesse a ler o rol da lavandaria. Terminou e ergueu o olhar. Christian Barbet não fazia a mínima ideia do que ela ia proferir a seguir. - Estou muito satisfeita - disse Noelle. Olhou-a e pestanejou rapidamente. - Por favor, telefone-me quando tiver mais informações. Muito depois de Noelle Page ter saído, Barbet sentou-se a olhar fixamente parafora dajanela, tentando adivinhar as verdadeiras pretensões da sua cliente.


Os teatros de Paris registavam novas enchentes. Os alemães frequentavam-no para comemorar a glória das suas vitórias e exibir as belas francesas que traziam pelo braço como se fossem troféus. Os franceses frequentavam para esquecer por algumas horas que eramum povo infeliz e derrotado. Noelle tinha ido ao teatro em Marselha várias vezes, mas vira peças amadoras, onde predominava o desleixo, representadas por actores de quarta categoria para plateias indiferentes. O teatro em Paris era novamente algo de especial. Estava vivo e resplandecente, com o espírito e a graça de Molière, Racine e Colette. O incomparável Sacha Guitry inaugurara o seu teatro, e Noelle foi vê-lo actuar. Assistiu a uma reposição de A Morte de Danton de Biichner e a uma peça intitulada Asmodée, da autoria dum novo e prometedorjovem escritor chamado François Mauriac. Foi à Comédie Française ver ACada Um a Sua Verdade, de Pirandello, e Cyrano de Bergerac, de Rostand. Noelle ia sempre sozinha, alheia aos olhares de admiração dos que a rodeavam, completamente perdida no drama que se desenrolava no palco. Um pouco da magia que se prolongava atrás das luzes da ribalta fazia-lhe lembrar algo. Tal como os actores do palco, também elarepresentava um papel, fingindo ser uma coisa que não era, escondendo-se por detrás deuma máscara. Uma peça em particular, Huis Clos, de Jean-Paul Sartre, tocou-lhe profundamente. O actor principal era Philippe Sorel, um dos ídolos daEuropa. Sorel era feio, baixo e gordo, e tinha um nariz torto e um rosto de pugilista. Mas quando falava o momento era de magia. Transformava-se num homem sensível e elegante. É como a história do Príncipe e doSapo,pensou Noelle ao vê-lo representar. Só que ele é os dois. Foi vê-lo repetidamente, sentando-se na primeira fila para analisar a actuação dele, tentando captar o segredo daquele magnetismo. Certa noite, durante o intervalo, um arrumador entregou a Noelle um bilhete que dizia o seguinte: Tenho-a visto na plateia noites seguidas. Por favor, venha aos bastidores esta noite para eu a conhecer. P.S. Noelle voltou a lê-lo, saboreando-o. Não porque Philippe Sorel fosse alguma coisa, mas porque sabia que isto era o início daquilo que procurava. Dirigiu-se aos bastidores no final do espectáculo. Um velho que estava à porta levou-a ao camarim de Sorel. Estava diante de um espelho, apenas de cuecas, tirando a maquilhagem. Analisou Noelle pelo espelho. - E incrível - disse ele por fim. - Você é ainda mais bonita de perto. - Obrigada, Sr. Sorel. - Donde é? - Marselha. Sorel voltou-se paravê-la melhor. Começou a analisá-la desde os pés até à cabeça, sem perder nada. Noelle deixou-se estar sob o olhar atento sem se mexer.


- A procura de emprego? - perguntou ele. - Não. - Eu nunca pago - disse Sorel. - do que lhe posso arranjar é uma entrada permanente para as minhas peças. Se quer dinheiro, meta-se com um banqueiro. Noelle deixou-se ficar, observando-o calmamente. Por fim, Sorel disse: - Anda à procura de quê? - Acho que de si. Jantaram e depois voltaram para o apartamento de Sorel, situado na bonita rua MauriceBarres e que dava para a esquina onde começava o Bosque de Bolonha. Philippe Sorel era um amante habilidoso, surpreendentemente atencioso e abnegado. Sorel só estava a contar com a beleza de Noelle, e ficou espantado com a sua versatilidade na cama. - Caramba! - disse ele. - és fantástica. Onde aprendeste tudo isto? Noelle pensou na pergunta durante um momento. Não era de facto uma questão de aprender. Era uma questão de sentir. Para ela o corpo dum homem era um instrumento para se aproveitar, para explorar até às mais íntimas profundezas, encontrando os pontos sensíveis para os manipular, sendo o seu corpo um meio para criar harmonias delicadas. - Nasceu comigo - disse ela simplesmente. As pontas dos dedos começaram a tocar levemente os lábios dele, toques rápidos e leves de borboleta, e depois desceram até ao estômago. Viu ganhar nova erecção. Levantou-se para ir à casa de banho e regressou logo depois, metendo o pénis na boca.Tinha a boca quente, cheia de água morna. - Oh, Deus - disse ele. Passaram a noite a fazer amor, e de manhã Sorel convidou Noelle a morar com ele. Noelle viveu com Philippe Sorel durante seis meses. Não foi feliz nem infeliz. Sabia que a sua presença deixava Sorel arrebatadoramente feliz, o que para Noelle não tinha a mínima importância. Considerava-se simplesmente uma aluna, determinada a aprender uma coisa nova todos os dias. Ele era uma escola que ela frequentava, uma parte ínfimo do seu imenso plano. Para Noelle não havia nada de pessoal na relação deles, pois ela não se entregava. Cometera esse erro duas vezes e não voltaria a cometê-lo. Só havia lugar para um homem no pensamento de Noelle, e esse homem era Larry Douglas. Sempre que passava pela Praça des Victoires ou por um parque ou restaurante aonde Larry a tinha levado, Catherine sentia um ódio intenso que a sufocava, de tal forma que era difícil respirar, e havia algo mais naquele ódio, algo que Noelle não conseguia identificar.


Dois meses depois de ter ido viver com Sorel, Noelle recebeu uma chamada de Christian Barbet. - Tenho mais um relatório para si - disse o pequeno detective. - Ele está bem? - perguntou logo Noelle. Barbet voltou a sentir-se completamente embaraçado. - Sim, está - disse ele. A voz de Noelle encheu-se de alívio. - Vou já para aí.

O relatório dividia-se em duas partes. A primeira referia-se à carreira militar de Larry Douglas. Abatera cinco aviões alemães e foi o primeiro americano a tornar-se um ás da guerra. Fora promovido a capitão. A segunda parte do relatório interessou a mais. Tornarase muito popular na vida social de Londres em tempo de guerra e estava comprometido com a filha de um almirante inglês. Seguia-se uma lista de raparigas com quem Larrydormia, que ia desde coristas à mulher dum subsecretário do Ministério. - Quer que eu vá por diante? - perguntou Barbet. - Naturalmente -respondeu Noelle. Tirou um envelope da carteira e entregou- a Barbet. Telefone-me quando tiver mais notícias. E foi-se embora. Barbet suspirou e olhou para o tecto. - Louca - disse ele pensativamente. Se Philippe Sorel tivesse feito a mínima ideia do que se passava na cabeça de Noelle, teria ficado espantado. Noelle parecia totalmente dedicada a ele. Fazia tudo por ele: cozinhava refeições maravilhosas, fazia compras, dirigia a limpeza do apartamento dele e fazia amor sempre que ele tinha vontade. E nada pedia em troca. Sorel felicitava-se por ter encontrado a amante perfeita. Levava-a a todo o lado, e ela conheceu todos os amigos dele. Ficavam encantados com ela e achavam que Sorel era um homem cheio de sorte. Uma noite, quando ceavam depois do espectáculo, Noelle disse-lhe: - Eu quero ser actriz, Philippe. Ele abanou a cabeça.


- Deus sabe como és bastante bela, Noelle, mas estoufarto de andar com actrizes. És diferente, e eu quero que continues assim. Não quero dividir-te com ninguém. -Acaricioulhe a mão. -Não te dou tudo o que precisas? - Dás, Philippe - respondeu Noelle. Quando regressaram ao apartamento nessa noite, Sorel quis fazer amor. Quando acabaram, ele estava esgotado. Noelle nunca fora tão excitante e Sorel congratulou-se por ela apenas precisar da firme orientação dum homem. No domingo seguinte era o aniversário de Noelle, e Philippe Sorel ofereceu-lhe um jantar no Maxim. Reservara a enorme sala de jantar privada do andar de cima, decorada com veludo vermelho e painéis de madeira escura. Noelle ajudara a fazer a lista de convidados, incluindo um nome de que não deu conhecimento a Philippe. Havia quarenta pessoas na festa. Brindaram ao aniversário de Noelle e deram-lhe presentes caros. Findo ojantar, Sorel levantou-se. Bebera uma boa quantidade de brande e champanhe e estava um pouco desequilibrado, as palavras eram pronunciadas de forma um tanto indistinta. - Meus amigos-disse ele-, bebemos em honra da mulhermais bonita do mundo e demos-lhe belos presentes, mas tenho um presente que a vai deixar boquiaberta. - Sorel baixou o olhar para Noelle e sorriu, voltando-se depois para a multidão. -Nós vamos casar-nos. Houve um aplauso de apoio, e os convidados apressaram-se a bater nas costas de Sorel e desejar sorte à futura noiva. Noelle deixou-se estar, sorrindo, murmurando o seu agradecimento. Um dos clientes não se levantara. Estava sentado a uma mesa no fundo da sala, fumando uma longa boquilha e contemplando a cena sardonicamente. Noelle apercebeu-se de que estivera a observá-la durante todo o jantar. Era um homem alto e muito magro, com um rosto intenso e meditativo. Parecia divertir-se com tudo o que estava a acontecer à sua volta, mais observador do que participante. O olhar de ambos cruzou-se, e ela sorriu. Armand Gautier era um dos principais encenadores de França. Dirigia o Teatro de Repertório Francês, e as suas produções tinham sido aclamadas no mundo inteiro. O nome de Gautier à frente de uma peça ou de um filme era garantia de êxito quase certo. Tinha a fama de ser particularmente competente na direcção de actrizes e lançara meia dúzia de estrelas importantes. Sorel estava ao lado de Noelle, a falar com ela. - Ficaste surpreendida, minha querida? - perguntou ele. - Fiquei, Philippe - disse ela. - Vamos casarjá. A cerimónia vai ser na minha casa de campo. Sobre o ombro, Noelle via que Armand Gautier a observava, com aquele seu sorriso enigmático. Alguns amigos aproximaram-se e levaram Philippe, e quando Noelle se voltou Gautier estava ao pé dela.


- Parabéns - disse ele. Havia um tom trocista na voz dele. -Você pescou um peixe graúdo. - Não me diga. - Philippe Sorel é uma boa presa. - Para algumas pessoas, talvez - disse Noelle com indiferença. Gautier olhou-a surpreendido. - Está a tentar dizer-me que não está interessada? - Não estou a tentar dizer nada. - Boa sorte. - E fez menção de se afastar. - Sr. Gautier... Ele deteve-se. - Posso vê-lo hoje à noite? - perguntou Noelle calmamente. Gostava de falar consigo a sós. Armand Gautier olhou-a por um momento, depois encolheu os ombros. - Como quiser. - Irei ter à sua casa. Está bem assim? - Sim, claro. A morada é... - Eu tenho a morada. Meia-noite? - Meia-noite. Armand Gautier vivia num velho edifício de apartamentos elegantes da Rua Marbeu. Um porteiro conduziu Noelle ao átrio, e um ascensorista levou-a ao quarto piso e indicou o apartamento de Gautier. Noelle tocou à campainha. Alguns momentos depois, a porta foi aberta por Gautier. Trazia um roupão às flores. - Entre - disse ele. Noelle entrou no apartamento. Não era muito entendida na matéria, mas sentiu que estava decorado com bom gosto e que os objectos de arte eram valiosos. - Desculpe não estar vestido - Gautier desculpou-se. - Estive ao telefone. Os olhos de Noelle firmaram-se nos dele. - Não será necessário vestir-se. - Ela aproximou-se do sofá e sentou- se.


Gautier sorriu. - Também pressenti isso, Noelle. Mas há uma coisa que me intriga. Porquê eu? Você está comprometida com um homem famoso e rico. Se o seu desejo é andar à procura de outras actividades, estou certo de que poderia achar homens mais atraentes que eu, e certamente mais ricos e jovens. Que quer de mim? - Quero que me ensine a representar - disse Noelle. Armand Gautier fitou-a por uminstante, depois suspirou. - Você desaponta-me. Estava à espera de algo mais original. - A sua profissão é trabalhar com actores. - Com actores, não com amadores. Já representou? - Não. Mas você vai ensinar-me. - tirou o chapéu e as luvas. Onde é que fica o seu quarto? perguntou ela. Gautier hesitou. A sua vida estava cheia de mulheres bonitas que desejavam ingressar no teatro ou que desejavam um papel maior, ou o principal papel de uma nova peça, ou um camarim maior. Eram todas umas chatas. Sabia que seria uma parvoíce envolver-se com mais uma. E, no entanto não havia necessidade nenhuma de se envolver. Aqui estava uma rapariga bonita que se oferecia. Bastaria levá-la para a cama e depois mandá-la embora. - Ali - disse ele, apontando para uma porta. Ficou a ver Noelle caminhar na direcção do quarto. Perguntou a si próprio que pensaria Philippe Sorel se soubesse que a futura noiva ia passar a noite ali. Mulheres. Todas umas putas. Gautier serviu-se de brande e fez vários telefonemas. Quando por fim entrou no quarto, Noelle estava deitada, nua, à espera dele. Gautier tinha de admitir que ela era um refinado produto da natureza. O rosto era de cortar a respiração, o corpo impecável. A pele era da cor do mel, excepto o triângulo de pêlos louros e macios entre as pernas. Gautier sabia por experiência que as mulheres bonitas eram quase invariavelmente narcisistas, tão preocupadas com os seus próprios egocentrismos que não valiam nada na cama. Sentiam que a sua contribuição no acto de amor simplesmente se limitava à sua presença na cama dum homem, de forma que o homem acabava por fazer amor com um monte inerte de barro e devia ficar grato pela experiência. Ah, bem, talvez pudesse ensinar alguma coisa a esta. Sob o olhar de Noelle, Gautier despiu-se, deixando a roupa descuidadamente espalhada no chão, e dirigiu-se para a cama. - Não te vou dizer que és bela - disse ele. - Já ouviste isso muitas vezes. - A beleza de nada vale - Noelle encolheu os ombros - se não for usada para dar prazer.


Gautier olhou-a bruscamente surpreso, depois sorriu. - Concordo. Vamos usar a tua. Sentou-se ao lado dela. Como a maior parte dos franceses, Armand Gautier orgulhava-se de ser um amante habilidoso. Divertia- se com as histórias que ouvira de alemães e americanos que pensavam que fazer amor era saltar para cima de uma rapariga, ter um orgasmo instantâneo e depois pôr o chapéu e partir. Quando Armand Gautier se envolvia emocionalmente, usava muitos artificios paraaumentar o prazer da relação sexual. Havia sempre um jantar perfeito, os vinhos propícios. Criava o ambiente de forma a agradar aossentidos, o quarto era delicadamente perfumado e havia música suave. Excitava asmulheres com ternos sentimentos de amor e mais tarde com uma linguagem grosseira de viela. E Gautier era um adeptodas brincadeiras manuais que precediam o sexo. No caso de Noelle,dispensou tudo isto. Só por uma noite não havia necessidade de perfume, nem de música ou ternuras vazias. Ela estava aqui simplesmente para ser parceira dum acto sexual. Seria uma idiota chapadase estava a pensar poder trocar uma coisa que todas as mulherestinham entre as pernas pelo grande e único génio que Armand Gautier possuía na cabeça. Deitou-se em cima dela. Noelle deteve-o. - Espera - sussurrou ela. Enquanto ele olhava, intrigado, ela agarrou em dois pequenos tubos que colocara em cima da mesinha-de-cabeceira. Espremeu o conteúdo de um deles e começou a esfregar o pénis dele com a mão. - Para que é isso? - perguntou ele. Ela sorriu. - Já vais ver. Beijou-lhe os lábios, bicando-lhe o interior da boca com a língua. A língua depois desceu até ao ventre, o cabelo escorregando pelo corpo dele como dedos leves e sedosos. Sentia o órgão ficar erecto. Meteu-lhe a língua entre as pernas e desceu até aos pés, chupando-lhe osdedos em suaves movimentos. O órgão estava agora duro e erectoe elamontou-se nele. À medida que a penetrava, o calor da vagina iaactuando sobre ocreme que colocara no pénis, e a sensação tornou-seinsuportavelmente excitante. Enquanto o montava, movimentando-se para baixo e para cima, a mão esquerda acariciava-lhe os testículos, que começaram a aquecer. O creme tinha mentol, e a sensaçãode frescura nomeio do calor dela, juntamente com o calor dos testículos, levaram-no à loucura completa. Fizeram amor durante toda a noite, e de cada vez Noelle faziaamor de maneira diferente. Foi a experiência mais sensual e mais incrível que ele alguma vez tivera.


De manhã, Armand Gautier disse:

- Se conseguir levantar-me, vamos tomar o pequeno-almoço fora. - Deixa-te estar deitado - disse Noelle. Foi até ao guarda fatos, donde escolheu um roupão que vestiu. - Fica a descansar que eu volto já. Trinta e cinco minutos depois Noelle regressou com o pequeno-almoço num tabuleiro. Havia suco de laranja acabado de espremer, uma deliciosa omelete de salsicha e cebola, croissants quentes com manteiga e compota e café. Sabia tudo muito bem. - Não vais comer nada? - perguntou Gautier. Noelle abanou a cabeça. - Não. Ficou sentada numa poltrona enquanto ele comia. Era ainda mais bonita com o roupão dele aberto em cima, revelando a curva dos seus deliciosos seios. O cabelo estava despenteado e solto. Armand Gautier modificara radicalmente a primeira avaliação que fizera de Noelle. Ela não era apenas uma parceira fácil; era um tesouro absoluto. Contudo, ele encontrara muitos tesouros na sua carreira no teatro, e não ia perder tempo e talento como director com uma amadora de olhos brilhantes que queria entrar à viva força para o teatro, independentemente da sua beleza ou habilidade na cama. Gautier era um homem dedicado que levava a arte muito a sério. Recusara comprometê-la no passado e não ia começar agora. A noite anterior decidira passá-la com Noelle e mandá-la fazer as malas de manhã. Agora, enquanto tomava o pequeno-almoço e a analisava, tentava descortinar uma maneira de ter Noelle como amante até se fartar dela, sem encorajá-la como actriz. Sabia que tinha de encontrar um motivo. Abordou a questão com cautela. - Estás a pensar casar com Philippe Sorel? - Claro que não - respondeu Noelle. - Não é isso que quero. Era agora. - Que é que tu queres? - perguntou Gautier. - Já te disse - respondeu Noelle calmamente. - Quero ser actriz. Gautier começou a comer outro croissant, fazendo um compasso de espera. - Claro - disse ele. Depois acrescentou:


- Há muitos professores de drama que eu te podia recomendar, Noelle, e que... - Não - disse ela. Noelle observava com agrado e paixão, como se estivesse ansiosa por aceder a tudo o que ele sugerisse. E no entanto Gautier sentia que dentro dela havia um coração de aço. Poderia ter dito não de muitas maneiras. Com raiva, censura, decepção, amuo, mas dissera com meiguice. E definitivamente. A coisa ia ser mais difícil do que previra. Por um momento, Gautier esteve tentado a dizer-lhe, como dizia a dezenas de raparigas todas as semanas, que se fosse embora, que não tinha tempo para perder com ela. Mas pensou nas sensações incríveis por que passara durante a noite, e sabia que seria um idiota se a deixasse partir tão cedo. Ela valia um compromisso leve, muito leve. - Muito bem -disse Gautier. -Vou dar-te uma peça para estudares. Quando a souberes de cor, vou pedir-te que me leias e veremos se tens talento. Depois poderemos decidir o que fazer contigo. - Obrigada, Armand - disse ela. - Não havia qualquer triunfo nas palavras dela, nem mesmo qualquer prazer que ele pudesse detectar. Apenas uma simples aceitação do inevitável. Pela primeira vez, Gautier sentiu uma ponta de dúvida. Mas isso obviamente era ridículo. Ele era um mestre em lidar com as mulheres. Enquanto Noelle se vestia, Armand Gautier entrou no escritório cheio de livros e procurou entre os volumes gastos tão seus conhecidos que havia nas prateleiras. Por fim, com um sorriso malicioso, tirou Andrógena, de Eurípedes. Era um dos clássicos mais difíceis de representar. Regressou ao quarto e entregou a peça a Noelle. - Aqui está, minha querida-disse ele. -Quando souberes o teu papel de cor, vamos lêlajuntos. - Obrigada, Armand. Não te irás arrepender. Quanto mais pensava no assunto, mais satisfeito ficava com o seu plano. Noelle precisaria de uma ou duas semanas para memorizar o papel, ou, o que era o mais provável, viria ter com ele e confessaria que fora incapaz de decorá-lo. Ele mostrar-se-ia compreensivo com ela, explicar-lhe-ia como era difícil a arte da representação, e poderiam assumir uma relação isenta da ambição dela. Depois de Gautier combinarjantar com ela nessa noite, ela foi-se embora. Quando Noelle regressou ao apartamento que partilhava com Philippe Sorel, encontrou-o à espera dela. Estava muito embriagado. - Sua cabra - gritou ele. - Onde é que passaste a noite? A explicação dela não teria importância. Sorel sabia que ia ouvir as desculpas, bater-lhe, depois levá-la para a cama e perdoá-la.


Mas, em lugar de pedir desculpa, Noelle disse simplesmente: - Com outro homem, Philippe. Vim buscar as minhas coisas. E, enquanto Sorel a observava com descrença atónita, Noelle foi para o quarto e começou a fazer as malas. - Pelo amor de Deus, Noelle-suplicou ele. – Nãofaçasisto! Nós amamo-nos. Nós vamos casar. Falou-lhe durante a meiahora seguinte, discutindo, ameaçando, adulando, e nessa altura já Noelle acabara de fazer as malas e saíra do apartamento, e Sorel não fazia ideia nenhuma por que a perdera, pois nunca soube que ela jamais lhe pertencera. Armand Gautier encenava uma nova peça que se estrearia dali a duas semanas, de forma que ele passava o dia no teatro em ensaios. Por regra, durante a fase da produção, Gautier não pensava noutra coisa. Parte do seu génio provinha da concentração intensa que conseguia pôr no seu trabalho. Para ele só existiam as quatro paredes do teatro e os actores com quem trabalhava. Hoje, contudo, era diferente. Gautier dava por si a divagar constantemente sobre Noelle e sobre a noite incrível que passaramjuntos. Os actores representavam uma cena e depois ficavam à espera dos comentários dele, e Gautier de repente apercebia-se de que não estivera a prestar atenção. Furioso consigo próprio, tentava concentrar-se no que fazia, mas as imagens de Noelle nua e daquilo que ela lhe fizera não o abandonavam. A meio de uma cena dramática viu que circulava pelo palco com uma erecção, e pediu licença para se retirar. Porque era dotado de um espírito analítico, Gautier tentou descobrir o que havia naquela mulher que tanto o afectava. Noelle era bela, mas ele dormira com algumas das mais belas mulheres do mundo. Era extremamente hábil na arte de amar, mas o mesmo podia dizer de outras mulheres que possuíra. Parecia inteligente, mas não brilhante; a sua personalidade era agradável, mas não complexa. Havia mais qualquer coisa, mas que o director tinha dificuldade em definir. E depois lembrou-se do suave não que ela lhe dissera e sentiu que era uma pista. Havia nela uma força irresistível, que conseguiria tudo o que quisesse. Havia nela alguma coisa de intocável. E, como outroshomens antes de si, Armand Gautier sentiu que, embora Noelle o tivesse afectado mais profundamente do que desejava admitir a si próprio, ele não a afectara minimamente, o que era um desafio que a sua masculinidade não podia recusar. Gautier passou o dia num estado de espírito confuso. Ansiava a chegada da noite com uma antecipação tremenda, não tanto porque quisesse fazer amor com Noelle, mas porque queria provar a si próprio que andara a preocupar-se em vão. Queria que Noelle o desiludisse, para poder afastá-la da sua vida. Quando faziam amor nessa noite, Armand Gautier ficou bem consciente dos truques, recursos e artifícios a que ela recorria para perceber que tudo era mecânico, sem emoção. Mas enganou-se. Ela entregou-se-lhe total e completamente, apenas desejando dar-lhe um prazer que ele nunca conhecera antes e deleitar-se nesse seu prazer. Quando a manhã chegou, Gautier estava mais firmemente enfeitiçado por ela do que nunca. Noelle preparou o pequeno-almoço outra vez, desta vez crepessaborosos com bacon e


compota e café quente, e tudo estava magnífico.

Muito bem", disse Gautier a si próprio. Encontraste uma rapariga que é bonita de se ver, que sabe amar e cozinhar. Bravo! Mas issobasta para um homem inteligente? Depois deamares e de comeres, tens de falar. De que poderá ela falar contigo? A resposta era que isso não tinha nenhuma importância. Não se voltara a falar da peça e Gautier estava com a esperança de que Noelle se esquecera ou não conseguira decorar o papel. Quando saiu nessa manhã, prometeu jantar com ele nesse dia. - Consegues ver-te livre de Philippe? - Gautier perguntou. - Já o deixei - disse Noelle simplesmente. Deu a Gautier a sua nova morada. Olhou para Noelle fixamente. - Compreendo. Mas não compreendia nada. Não fazia a mínima ideia. Passaram novamente a noite juntos. Quando não faziam amor, conversavam. Ou, antes, era Gautier quem falava. Noelle parecia tão interessada que ele dava por si a falar de coisas que não falava havia anos, coisas pessoais que nunca revelara a ninguém. Não se falou da peça que lhe dera a ler, e Gautier congratulou-se por ter resolvido o problema tão habilmente. Na noite seguinte, depois dojantar e quando estavam se preparando para sair,Gautierdirigiu-se ao quarto. - Ainda não - disse Noelle. Ele voltou-se, surpreendido. Disseste que me ias ouvir a representar a peça. - Bem, pois claro - gaguejou Gautier -, quando estiveres preparada. - Estou preparada. Ele abanou a cabeça. - Não quero que tu a leias, querida - disse ele. - Quero ouvi-la quando a souberes de cor para que eu possa realmente avaliar-te como actriz. - Já a sei toda de cor - respondeu Noelle. Ele fitou-a incrédulo. Era impossível que tivesse decorado tudo em apenas três dias. - Estás pronto para me ouvir? - perguntou ela. Armand Gautier não tinha alternativa. - Claro - disse ele. Apontou para o meio da sala. - O teu palco é aqui. O público ficará ali.


Sentou-se num sofálargo e confortável. Noelle começou a representar. Gautier sentiu a pele arrepiar-se; era o seu próprio sinal pessoal, o que lhe acontecia sempre que estava diante de um talento verdadeiro. Não que Noelle fosse perfeita. Longe disso. A sua inexperiência transparecia em cada gesto e movimento, mas tinha algo muito superior à mera aptidão. Tinha uma honestidade rara, um talento natural que davam a cada frase um novo significado e uma nova energia. Quando Noelle terminou o solilóquio, Gautier disse calorosamente: - Acho que um dia serás uma actriz de nomeada, Noelle. Digo-o com sinceridade. Vais falar com Georges Faber, que é o melhor professor de arte dramática de toda a França. Trabalhando com ele, poderás... - Não. Olhou para ela surpreendido. Era novamente o mesmo não suave. Definitivo e final. - Não, o quê? - perguntou Gautier um quanto confuso. Faber só aceita os maiores actores. Só te irá aceitar porque serei eu a pedir-lhe. - Eu vou trabalhar contigo - disse Noelle. Gautier sentia a raiva crescer dentro de si. - Eu não treino ninguém - ripostou ele. - Não sou professor. Dirijo actores profissionais. Quando fores profissional, então trabalharás sob a minha direcção. - Esforçava-se para conter a raiva davoz. - Percebes? Noelle anuiu. - Sim, Armand, percebo. - Então estamos conversados. Amolecido, abraçou Noelle e recebeu dela um beijo sentido. Sabiaagora que se preocupara desnecessariamente. Ela era igual às outras,precisava de ser dominada. Não teria maisproblemas com ela. A relação sexual que tiveram essa noite ultrapassou tudo o queacontecera antes,possivelmente, pensou Gautier, por causa da excitação acrescida da breve briga quetìveram. Durante a noite disse-lhe: - Podes de facto ser uma actriz maravilhosa, Noelle. Vou ficarmuito orgulhoso de ti. - Obrigada, Armand - murmurou ela. Noelle preparou o pequeno-almoço de manhã, e Gautier foi paraO teatro. Quando telefonou


a Noelle durante o dia, ela não atendeu,e quando chegou a casa nessa noite elanão estava lá. Gautier esperou que regressasse, e como ela não aparecia ficou acordado apensarse ela podia ter tido um acidente. Telefonou para o apartamento dela,mas ninguématendeu. Enviou um telegrama que não foi entregue, e,quando parou no apartamento deladepois do ensaio, ninguém veio àporta. Durante a semana seguinte, Gautier andava frenético. Os ensaioseram um inferno. Gritavacom os actores e perturbava-os de tal forma que o contra-regra sugeriu que tirassem o dia, eGautier concordou. Depois de os actores terem saído, sentou-se no palco sozinho,tentandoperceber o que lhe acontecera. Disse a si próprio que Noele era apenas mais uma mulher,uma loira reles e ambiciosa comcoração de caixeira que queria ser uma estrela. Denegriu-ade todaa maneira e feitio, mas no fim sabia que não adiantava. tinha de sersua. Nessa noitedeambulou pelas ruas de Paris, embebedando-se embotequins onde não era reconhecido. Tentou pensar em maneiras dealcançar Noelle, mas não conseguiu. Não tinha ninguémcom quempudesse sequer falar sobre ela, salvo Philippe Sorel, e isso, naturalmente, estavafora de questão. Uma semana depois do desaparecimento de Noelle, Armand Gautierchegou a casa às quatro da manhã,bêbado, abriu a porta e foi para a sala de visitas. As luzes estavamtodas acesas. Noelle estava encolhida numa cadeira de descanso vestida numdos seus roupões, lendo um livro. Ela ergueu o olhar quando ele entrou, e sorriu. - Olá, Armand. Gautier fitou-a, o coração a bater, uma sensação de alívio e felicidade sem fim invadindo. Disse: - Começamos a trabalhar amanhã.

CATHERINE Washington: 1940 Washington era a cidade mais excitante que Catherine já conhecera. Sempre pensara em Chicago como a principal cidade, mas Washington foi uma revelação. O verdadeiro centro da América estava aqui, o coração palpitante do poder. Aprincípio, Catherine ficarapasmada com a variedade de fardas que enchiam as ruas: Exército, Corpo Aéreo daMarinha, Fuzileiros. Pela primeira vez, Catherine começou a sentir que a possibilidadesombria da guerra podia tornar-se real. Em Washington, a presençafisica da guerra estava por toda a parte. Esta era a cidade onde a guerra, a acontecer, teria o seu começo. Aqui seria declarada, mobilizada e conduzida. Esta era a cidade que trazia nas mãos o destino do mundo. E ela, Catherine Alexander, ia fazer parte da mesma.


Fora viver na companhia de Susie Roberts, que morava num apartamento alegre e bonito num quarto andar sem elevador, com uma sala de tamanho razoável, dois pequenos quartos de cama contíguos, uma casa de banho minúscula e uma cozinhota feita para um anão. Susie parecera contente de a ver. As suas primeiras palavras foram estas: - Desfazjá as malas e engoma o teu melhor vestido. Tens um encontro para jantar hoje à noite. Catherine pestanejou. - Por que demoraste tanto tempo?- Cathy, em Washington, são as mulheres que marcam os encontros. Esta cidade está tão cheia de homens solitários que até mete dó.

Jantaram nessa primeira noite no Hotel Willard. O companheiro de Susie era umcongressista do Indiana e o de Catherine era um politiqueiro do Oregão, e os dois homens estavam na cidade sem as mulheres. Depois do jantar foram dançar ao Country Club de Washington. Catherine tivera esperanças de que o político pudesse arranjar-lhe um emprego. Em vez disso ofereceu-lhe um carro e um apartamento, o que declinou agradecendo. Susie trouxe o congressista para o apartamento, e Catherine foi dormir. Pouco tempo depois, ouviu-os entrar no quarto de Susie, e as molas do colchão começaram a ranger. Catherine pôs a cabeça debaixo da almofada para abafar o som, mas era impossível. Imaginou Susie na cama com o companheiro a fazer amor louca e apaixonadamente. De manhã, quando Catherine se levantou para tomar o pequeno-almoço, Susiejá estava a pé, com um ar vivo e alegre, pronta para ir trabalhar. Catherine procurou rugas denunciadoras e outros sinais de cansaço em Susie, mas não havia nenhum. Pelo contrário, parecia radiante, a sua pele perfeitamente impecável. Meu Deus, pensou Catherine, ela é como Dorian Gray. Um dia há-de entrar aqui com um aspecto estupendo, e eu parecerei ter cento e dez anos. Alguns dias depois, ao pequeno- almoço, Susie disse: - Soube de uma vaga que te poderá interessar. Uma das raparigas que estava na festa de ontem à noite disse que se vai despedir para regressar ao Texas. Só Deus sabe a razão por que uma pessoa do Texas quer voltar para lá. Lembro-me de que estive em Amarillo aqui há uns anos... - Onde é que ela trabalha? - Catherine interrompeu. - Quem? - A tal rapariga - disse Catherine com paciência. - Ah. trabalha com Bill Fraser. É o encarregado das relações públicas do Departamento de Estado. A Newsweek escreveu um artigo de fundo sobre ele o mês passado. Parece que é um emprego agradável e bem pago. Só soube ontem à noite; se fores lá agora, deves chegar


primeiro que as outras. - Obrigada-disse Catherine agradecidamente. -William Fraser, aqui vou eu a caminho. Vinte minutos depois, Catherine dirigia-se para o Departamento de Estado. Quando chegou, o guarda disse-lhe onde ficava o gabinete de Fraser, e ela subiu pelo elevador. Relações Públicas. Era mesmo o tipo de trabalho de que andava à procura. Catherine parou no corredor exterior do gabinete e tirou o espelho para ver a maquilhagem. Estava bem. Ainda não eram nove e meia, pelo que teria o campo livre. Abriu a porta e entrou. O gabinete exterior estava cheio de raparigas de pé, sentadas, encostadas à parede, aparentemente falando ao mesmo tempo. A recepcionista nervosa que se encontrava atrás da secretária assediada tentava em vão pôr ordem na sala. - O Sr. Fraser tem muito que fazer agora - repetia ela. - Não sei se as poderá receber. - Ele está a entrevistar secretárias ou não? - perguntou uma das raparigas. - Sim, mas... - Olhou em volta desesperadamente para a multidão. - Meu Deus! Isto é ridículo! A porta do corredor abriu-se e três outras raparigas forçaram a entrada, empurrando Catherine para o lado. - A vaga já foi preenchida? - perguntou uma delas. - Talvez ele queira um harém - sugeriu outra rapariga. Assim podemos ficar todas. A porta do gabinete interior abriu-se e um homem saiu de lá. Tinha pouco menos de um metro e oitenta e um corpo quase esbelto de alguém que era atleta, mas que se mantém em forma frequentando o ginásio três manhãs por semana. O cabelo era louro e encaracolado e com fontes grisalhas e tinha olhos azul-brilhantes e um queixo forte bastante agressivo. - Que diabo se passa aqui, Sally? - A sua voz era profunda e de respeito. - Estas raparigas souberam da vaga, Sr. Fraser. - Puxa! Eu próprio só soube dela há uma hora atrás. - Os olhos dele percorreram a sala. Parecem tambores da selva. - Quando os seus olhos se moveram na direcção de Catherine, ela endireitou-se e deu-lhe o seu mais quente sorriso de eu-serei-uma-óptima-secretária, mas os olhos dele passaram por ela e regressaram à recepcionista. -Preciso de uma cópia da Life -disse-lhe ele. -Uma edição de há três ou quatro semanas. - Traz uma fotografia de Estaline na capa. - Vou encomendá-la, Sr. Fraser - disse a recepcionista. - Preciso dela agora. - Começou a dirigir-se para o gabinete.


- Vou ligar para os escritórios da Time Life - disse a recepcionista - para ver se conseguem desencantar um exemplar. Fraser parou à porta. - Susie, eu tenho o senador Borah na linha. Quero ler-lhe um parágrafo dessa edição. Tem dois minutos para me encontrar uma cópia. Entrou no gabinete e fechou a porta. As raparigas que estavam na sala entreolharam-se e encolheramos ombros. Catherine deixou-se ficar, concentrada. Virou-se e saiu da sala. - Ainda bem. É menos uma - disse uma das raparigas. A recepcionista pegou no telefone e marcou o número das informações. - Queria o número dos escritórios da Time Life - disse ela. A sala ficou em silêncio enquanto as raparigas a observavam. - Obrigada. - Pousou o auscultador, voltando a levantá-lo para marcar. Está sim? Aqui é do gabinete do Sr. William Fraser do Departamento de Estado. O Sr. Fraser necessita urgentemente de um número atrasado da Life. É uma que traz Estaline na capa... Não têm aí edições atrasadas? Com quem é que eu poderiafalar?... Percebo. Obrigada. - Desligou. - Pouca sorte, querida - disse uma das raparigas. Uma outra acrescentou: - Eles lembram-se de cada coisa, não é? Se ele quiser aparecer no meu apartamento esta noite, eu leio-lhe o artigo. - Houve uma gargalhada. O intercomunicador soou. Ela carregou no botão. - Os seus dois minutos acabaram - disse Fraser. - Onde é que está a revista? A recepcionista respirou fundo. - Acabei de falar para os escritórios da Time Life, Sr. Fraser, e eles disseram que seria impossível arranjar... A porta abriu-se e Catherine entrou em passo apressado. Na mão trazia uma cópia da Life com a fotografia de Estaline na capa. Abriu caminho até à secretária e colocou a revista na mão da recepcionista. A recepcionista olhou para a publicação incredulamente. - Eu. eu tenho uma cópia aqui, Sr. Fraser. Já lha levo. - Levantou-se, deu a Catherine um sorriso de agradecimento e precipitou-se para o gabinete. As outras raparigas fitaram Catherine com hostilidade. Cinco minutos depois, a porta do gabinete de Fraser abriu-se, deixando ver Fraser e a recepcionista. A recepcionista apontou para Catherine. - É aquela rapariga. William Fraser virou-se para olhar Catherine especulativamente. - Queira entrar, por favor.


- Pois não. - Catherine seguiu atrás de Fraser, sentindo que os olhos das outras raparigas a apunhalavam. Fraser fechou a porta.

O gabinete era o escritório burocrático típico de Washington, mas ele decorara com estilo, imprimindo-lhe o seu gosto pessoal em mobiliário e arte. - Sente-se... - Alexander, Catherine Alexander. - Sally disse-me que foi você quem lhe trouxe a Life. - Fui, sim. - Assumo que não foi um acaso que lhe pôs uma edição de há três semanas na carteira. - Claro que não. - Como é que a encontrou tão depressa? - Desci até à barbearia. Nas barbearias e nos dentistas há sempre edições antigas. - Percebo. - Fraser sorriu, e o seu rosto duro pareceu menos severo. - Acho que isso a mim nunca me teria ocorrido - disse ele. Você é sempre assim tão brilhante? Catherine pensou em Ron Peterson. - Não sou, não - respondeu ela. - Anda à procura de emprego de secretária? - Nem por isso. - Catherine viu o seu olhar de surpresa. - Fico com o emprego - acrescentou precipitadamente. - Eu realmente queria era ser sua assistente. - Por que não começamos hoje como secretária? - disse Fraser secamente. - Amanhã poderá ser minha assistente. Ela olhou- esperançosamente. - Está a querer dizer que o emprego é meu? - À experiência. - Premiu o botão do intercomunicador e inclinou-se sobre o aparelho. -


Sally, agradeça às outras jovens. Diga-lhes que a vaga foi preenchida. - Certo, Sr. Fraser. Ele largou o botão. - Trinta dólares semanais chegam? - Oh, sim. Obrigada, Sr. Fraser. - Pode começar amanhã de manhã, às nove horas. Peça uma ficha a Sally e preencha-a. Assim que saiu do gabinete, Catherine foi ao Washington Post. O polícia que estava à secretária no corredor deteve-a. - Sou a secretária pessoal de William Fraser - disse ela com altivez -, do Departamento de Estado. Preciso de umas informações do vosso arquivo. - Que tipo de informações? - Sobre William Fraser. Analisou-a por um momento e disse: - É o pedido mais estranho que tive esta semana. O seu patrão anda a chateá-la ou quê? - Não - disse ela afavelmente. - Tenciono escrever um artigo sobre ele. Cinco minutos mais tarde, um funcionário levou-a ao arquivo. Tirou a pasta sobre William Fraser, e Catherine começou a ler. Uma hora mais tarde, Catherine era uma das autoridades mais competentes sobre William Fraser. Ele tinha 45 anos, licenciara-se em Princeton com distinção e louvor, fundara uma agência de publicidade, a Fraser Associates, que se tornara uma das agências mais bem sucedidas do ramo, e metera licença havia um ano, a pedido do presidente, para trabalhar para o Governo. Fora casado eom Lydia Campion, uma figura abastada da alta sociedade. Tinham-se divorciado havia quatro anos. Não tiveram filhos. Fraser era milionário e tinha uma casa em Georgetown e uma residência de Verão em Bar Harbor, no Maine. Ocupava os tempos livres ajogar ténis, a andar de barco e a jogar pólo. Vários artigos da imprensa referiam-se a ele como Hum dos solteirões mais elegíveis da América, Quando Catherine chegou a casa e contou a Susie a boa nova, esta insistiu que saíssem para comemorar. Na cidade havia dois cadetes ricos de Anápolis. O companheiro de Catherine revelou-se um rapaz bastante agradável, mas ela passou a noite a compará-lo mentalmente com William Fraser, e, comparado com Fraser, o rapaz


parecia imaturo e maçador. Catherine interrogou-se se ia apaixonar-se pelo seu novo patrão. Não tivera nenhuma sensação estranha, própria de uma adolescente, quando estiverajunto dele, mashavia outra coisa, uma simpatia por ele como pessoa e um sentimento de respeito. Concluiu que a sensação estranha provavelmente só existia nos romances franceses sobre sexo. Os cadetes levaram as raparigas a um restaurantezinho italiano nos arredores de Washington, onde comeram um excelente jantar, depois foram ver Arsénico e Rendas Velhas, de que Catherine gostou imenso. Ao fim da noite os rapazes trouxeram-nas a casa, e Susie convidou-os para uma última bebida. Quando pareceu a Catherine quesepreparavam para passar a noite, pediu desculpa e disse que tinha de ir deitar-se. O companheiro dela protestou. - Nós ainda nem começámos - disse ele. - Olha para eles. Susie e a companhia dela estavam no sofá, presos num abraço apaixonado. O companheiro de Catherine agarrou-lhe o braço. - Pode haver uma guerra em breve - disse ele sinceramente. Antes que Catherine pudesse detê-lo, ele pegou-lhe na mão e pô-la de encontro ao volume que tinha entre as pernas. Não ias mandar um homem para a guerra neste estado, pois não? Catherine retirou a mão, esforçando-se para não se zangar. - Já pensei muito nisso - disse ela serenamente -, e decidi dormir só com os feridos que consigam andar. - Voltou-se e foi para o quarto, trancando a porta atrás de si. Custou-lhe adormecer. Ficou na cama a pensar em William Fraser, no seu novo emprego e no volume duro e másculo do rapaz de Anápolis. Uma hora depois de se deitar, ouviu as molas da cama de Susie ranger impetuosamente. Daí em diante foi impossível dormir. As oito e meia da manhã do dia seguinte, Catherine chegou ao seu novo local de trabalho. A porta não estava trancada, e a luz da sala de recepção estava acesa. Do gabinete interior vinha uma voz de homem, e ela entrou. William Fraser estava à secretária, ditando para uma máquina. Ergueu o olhar quando Catherine entrou e desligou a máquina. - Chegou cedo - disse ele. - Quis vir ambientar-me e orientar-me antes de começar a trabalhar. - Sente-se. -Havia algo no tom dele que aintrigou. Pareciazangado. Catherine sentou-se. Não gosto de bisbilhoteiros, Catherine.


Catherine sentiu o rosto ruborizar-se. - Não... não entendo. - Washington é uma cidade pequena. Não é uma cidade pequena. Não passa de uma aldeia. Não há nada que aconteça aqui que toda a gente não saiba cinco minutos depois. - Continuo a não... - O editor do Post telefonou-me dois minutos depois de você lá ter chegado a perguntar-me por que razão andava a minha secretária a fazer investigações sobre a minha pessoa. Catherine ficou atordoada, sem saber o que dizer. -Descobriu todos os mexericos que desejavasaber? Ela sentiu que o seu embaraço se transformava rapidamente em raiva. - Eu não estava a bisbilhotar - disse Catherine. Pôs-se de pé. - A única razão por que eu queria informar-me a seu respeito era para saber com que tipo de homem eu ia trabalhar. - A sua voz tremia de indignação. -Acho que uma secretária eficiente se deve adaptar ao chefe, e eu queria saber a que coisas me devia adaptar. Fraser deixou-se estar, a sua expressão hostil. Catherine fitou-o, cheia de ódio, a ponto de chorar. - Já não precisa de se preocupar mais, Sr. Fraser. Despeço-me. - Virou-se a fim de se dirigir para a porta. - Sente-se - disse Fraser, numa voz que parecia uma chicotada. Catherine virou-se, chocada. - Detesto primas-donas. Ela olhou-o ferozmente. - Eu não sou nenhuma... - Está bem. Perdão. Agora sente-se. Está bem? -Pegou num cachimbo que estava sobre a secretária e acendeu-o. Catherine ficou sem saber que fazer, cheia de humilhação. - Não acho que isto vá resultar - começou ela. - Eu... Fraser mordeu o cachimbo e riscou o fósforo. - Claro que vai resultar, Catherine - disse ele apaziguadoramente. - Não pode despedir-se agora. Veja o trabalho que eu tive para arranjar uma secretária nova. Catherine olhou para ele e viu o clarão de divertimento nos seus olhos azul-brilhantes. Ele


sorriu, e relutantemente os lábios dela esboçaram um breve pequeno sorriso. Afundou-se numa cadeira. - Assim está melhor. Já lhe disseram que é sensível demais? - Acho que sim. Desculpe. Fraser inclinou-se para trás na cadeira. - Ou talvez seja eu o hipersensível. É uma chatice chamarem a uma pessoa um dossolteirões mais elegíveis da América. Catherine bem gostaria que ele não usasse aquela palavra. Mas que é que a incomodava mais? interrogou-se. Chatice ou solteirão? Talvez Fraser tivesse razão. Talvez o seu interesse por ele não fosse tão impessoal como pensava. Talvez no seu subconsciente...um alvo para todas as idiotas solteiras do mundo dizia Fraser. - Você não acreditaria se eu lhe dissesse que as mulheres são muito agressivas. Será que não? “Experimente a nossa caixa." Catherine corou ao pensar nisso. - É o suficiente para um homem dar em maricas. - Fraser suspirou. – Já que esta parece ser a Semana Nacional da Investigação,fale-me de si. Namorados? - Nenhum - disse ela. - Isto é, ninguém em especial - acrescentou logo a seguir. Olhou-a curiosamente. - Onde vive? - Divido um apartamento com uma rapariga que foi minha colega de faculdade. - De Northwestern. Olhou-o surpresa, concluindo depois que ele devia tervisto afichade inscrição que ela preenchera. - É verdade. - Vou dizer-lhe uma coisa sobre mim que não vinha no arquivodojornal. Sou o pior companheiro de trabalho. Você vai achar-mejusto, mas tenho a mania da perfeição, o que não facilita o convívio. Achaque vai aguentar? - Tentarei - disse Catherine. - Bom. Sally vai pô-la ao corrente da rotina. A coisa mais importante a não esquecer é que


passo a vida a beber café. Gosto dele puroe quente. - Não me esquecerei. - Pôs-se de pé e fez menção de se dirigirpara a porta. - Mais uma coisa, Catherine. - Pois não, Sr. Fraser? - Quando chegar a casa esta noite, tente dizer alguns palavrõesem frente do espelho. Se vaicontinuar a melindrar-se sempre que eudisser uma palavra de cinco letras, issovaifazerme trepar às paredes. Lá estava ele outra vez, fazendo-a sentir-se uma criança. - Está bem, Sr. Fraser - disse ela friamente. Saiu furiosa do gabinete, quase batendo com aporta atrás de si. O encontro não decorrera nada como Catherine esperara. Já nãogostava de William Fraser. Achava-o um palerma cheio de presunção, arrogante e dominador. Não era de admirar que a mulher otivesse deixado. Bem, já que estava ali ia trabalhar, mas decidiu procurar outroemprego, onde pudesse trabalhar com um ser humano emvez de um déspota. Quando Catherine saiu a porta, Fraser recostou-se na cadeira,com um sorriso disfarçado nos lábios. As raparigas eram ainda tão dolorosamentejovens, tão atentas e dedicadas? Na sua ira, com os olhos flamejantes e os lábios trementes, Catherine parecera tão indefesa que Fraser desejou abraçá-la e protegê-la. Contra sua vontade, admitiu pesarosamente. Havia nela uma espécie de virtude resplandecente antiquada que ele quase esquecera poder existir nas raparigas. Era amorosa e era brilhante, e tinha vontade própria. Ia tornar-se a secretária mais competente que elejá tivera. E, bem no íntimo, Fraser teve um pressentimento de que ia ser muito mais do que isso. Até que ponto, ainda não sabia. Queimara-se tantas vezes que um sistema de alerta automático disparava no momento em que as suas emoções eram despertadas por qualquer mulher. Essas alturas aconteciam muito raramente. O cachimbo apagara-se. Voltou a acendê-lo, e o sorriso ainda lhe estava no rosto. Um pouco mais tarde, quando Fraser a chamou para lhe ditar uma carta, Catherine foi cortês mas fria. Esperou que Fraser dissesse algo pessoal para que pudesse mostrar-lhe a sua distância, mas ele foi frio e profissional. Era óbvio, pensou Catherine, que tinha varrido da mente o incidente desta manhã. Quão insensível poderia um homem ser? Contra a sua vontade, Catherine achou o novo emprego fascinante. O telefone tocava constantemente, e os nomes das pessoas que ligavam enchiam-na de excitação. Durante a primeira sessão, o vice -presidente dos Estados Unidos telefonou duas vezes, meia dúzia de senadores, o secretário de Estado e uma actriz famosa que se encontrava na cidade a fazer publicidade ao seu último filme. A semana atingiu o clímax com um telefonema do presidente Roosevelt, e Catherine ficou tão nervosa que deixou cair o telefone e desligou a chamada da secretária do presidente. Para além dos telefonemas, Fraser tinha uma rodaviva de encontros no gabinete, no clube ou nos melhores restaurantes. Após as primeiras


semanas, Fraser autorizou-a a marcar-lhe os encontros e a fazer-lhe as reservas. Começou asaber quais as pessoas que Fraser queria receber e as que queria evitar. O trabalho era tão absorvente que no fim do mês ela se esqueceu por completo de procurar outro emprego. O relacionamento de Catherine com Fraser estava ainda num nível impessoal, masjá o conhecia o suficiente para perceber que o seu distanciamento não era antipatia. Era uma dignidade, um muro de reserva que servia de escudo contra o mundo. Catherine sentia que Fraser era realmente muito solitário. O seu trabalho obrigava-o a conviver, mas ela pressentiu que por natureza ele era um homem solitário. Apercebeu-se também de que William Fraser não estava ao seualcance. Por esse motivo, também está a maioria dos homens americanos, concluiu ela. De vez em quando ainda saía com Susie, mas achava que a maioria dos companheiros eram atletas sexuais casados, e preferia ir ao cinema ou ao teatro sozinha. Viu Gertrude Lawrence, e umjovem comediante chamado Danny Kaye em Lady in the Dark e Life with Father e Alice in Arms, com umjovem actor chamado Kirk Douglas. Adorou Kitty Foyle com Ginger Rogers porque lhe fez lembrar-se de si própria. Numa noite, durante uma representação de Hamlet, viu Fraser sentado num camarote acompanhado de uma bela rapariga que trazia um vestido de noite branco e caríssimo que Catherine vira na Vogue. Não fazia ideia de quem se tratava. Fraser marcava os seus próprios encontros pessoais, e ela não sabia aonde ia ou com quem. Elepercorreu a plateia e viu-a. Na manhã seguinte, ele não se referiu ao assunto até ter acabado o ditado. - Gostou de Hamlet? - perguntou ele. - A peça vai ter êxito, mas eu não gostei muito dos desempenhos. - Eu gostei dos actores - disse ele. - Achei que a actriz que fazia de Ofélia era particularmente boa. Catherine anuiu e fez menção de se retirar. - Não gostou de Ofélia? - insistiu Fraser. - Se quer a minha opinião sincera - disse Catherine cuidadosamente -, achei que ela não conseguiu salvar a situação. -Voltou-se e saiu. Quando Catherine chegou ao apartamento nessa noite, Susie estava à espera dela. - Tiveste uma visita - disse Susie. E quem é - Um tipo do FBI. Andam a investigar-te. Meu Deus pensou Catherine. Descobriram que sou virgem, e deve haver alguma guerra contra isso em Washington. Em voz altadisse:


- Por que andaria o FBI a investigar-me? - Agora trabalhas para o Governo. - Pois é. - Como é que está o Sr. Fraser? - O Sr. Fraser está óptimo - disse Catherine. - Que achará ele de mim? Catherine fitou a alta, esguia e morena companheira de quarto. - Óptima para o pequeno-almoço.

À medida que as semanas iam passando, Catherine travava conhecimento com as outras secretárias dos gabinetes próximos. Algumas delas tinham casos com os chefes, e pareciam não dar importância ao estado civil dos homens. Invejavam Catherine por trabalhar para William Fraser. - Como é mesmo esse borrachão? - perguntou-lhe uma delas um dia ao almoço. - Já te arrastou a asa? - Oh, não se dá a esse trabalho - disse Catherine com franqueza. - Eu chego às nove da manhã, rebolamos no sofá até à uma, depois paramos para almoçar. - Diz lá, que é que achas dele? - irresistível - mentiu Catherine. Os seus sentimentos em relação a William Fraser tinham abrandado consideravelmente desde a primeira discussão. Ele dissera-lhe a verdade quando afirmou que tinha a mania da perfeição. Sempre que ela dava um erro, era repreendida, mas achara-o justo ecompreensivo. Vira-o tomar do seu próprio tempo para ajudar outras pessoas, pessoas que nada podiam fazer por ele, e ele fazia sempre as coisas por forma a que não se soubesse que ele interferira. Sim, gostava muitíssimo de William Fraser, mas isso era assunto seu. Certa vez, quando tinham muito trabalho para pôr em dia, Fraser pedira a Catherine que jantasse na casa dele para que pudessem ficar a trabalhar até tarde. Talmadge, o motorista de Fraser, aguardava na limusina à frente do edifício. Várias secretárias que saíam do prédio aperceberam-se de quando Fraser indicou a Catherine o banco traseiro e se sentou ao lado dela. A limusina juntou-se suavemente ao trânsito do fim de tarde. - Vou arruinar a sua reputação - disse Catherine. Fraser riu- se. - Vou dar-lhe um conselho. Se algum dia quiser ter um caso com uma figura pública, faça ao ar livre.


- E se ficar constipada? Ele deu um sorriso largo. - Eu estava a dizer-lhe que levasse o seu galanteador, se é que ainda se usa esta palavra, para lugares públicos, restaurantes conhecidos, teatros. - Ver Shakespeare? - perguntou Catherine inocentemente. Fraser não fez caso. - As pessoas andam sempre à procura de motivos sinuosos. Pensarão: hum, aquele anda com fulana em público. Com quemandará a encontrar-se às escondidas? As pessoas nunca vêem o óbvio. - É uma teoria interessante. - Edgar Allan Poe escreveu um conto sobre enganar as pessoas com o óbvio - disse Fraser. Não me lembro do título. - Foi Arthur Conan Doyle. Era A Carta Roubada. - Mal o disse, Catherine desejou não tê-lo feito. Os homens não gostavam de mulheres espertas. Mas que importava isso? Ela não era a mulher dele, apenas a sua secretária. Fizeram o resto do caminho em silêncio. A casa de Fraser em Georgetown parecia ter saído de um livro ilustrado. Era uma casa georgiana de quatro pisos que devia ter mais de duzentos anos. A porta foi aberta por um mordomo de casa branca. Fraser disse: - Frank, esta é Miss Alexander. - Olá, Frank. Já nos falámos ao telefone - disse Catherine. - É verdade. Prazer em conhecê-la, Miss Alexander. Catherine examinou o átrio de entrada. Tinha uma bela e velha escadaria quedava para o segundo piso, feita da antiga madeira de carvalho polida e brilhante. O chão era de mármore, e no tecto havia um lustredeslumbrante. Fraser examinava o rosto dela. - Gosta? - perguntou. - Se gosto? Oh, sim! Ele sorriu, e Catherine interrogou-se se mostrara entusiasmo a mais, como se fosse uma rapariga atraída pela fortuna, como aquelas mulheres agressivas que o perseguiam a todo o momento. - É... é agradável - acrescentou desajeitadamente. Fraser olhou-a com um ar trocista, e


Catherine teve a terrível sensação de que ele lhe adivinhava o pensamento. - Venha até ao escritório. Catherine seguiu até ao interior duma sala cheia de livros decorada com painéis escuros. Tinha a aura duma outra era, a graciosidade dum estilo de vida mais fácil, mais ameno. Fraser analisava-a. - Então? - perguntou ele num tom grave. Catherine não ia deixar-se apanhar outra vez. - É menor que a Biblioteca do Congresso - disse ela, na defensiva. Ele deu uma gargalhada. - Tem razão. Frank entrou na sala, trazendo um balde de gelo de prata. Colocou-o sobre o bar situado num canto. - A que horas deseja jantar, Sr. Fraser? - Às sete e meia. - Vou dizer ao cozinheiro. - Frank retirou-se da sala. - Que posso arranjar-lhe para beber? - Nada, obrigada. Ele olhou para ela. - Não bebe, Catherine? - Quando estou a trabalhar, não - disse ela. - É que depois troco as letras, o que não deve acontecer. Por isso é que me paga um resgate real todas as semanas. - Quanto é que eu lhe pago? - perguntou Fraser. - Trinta dólares e jantar na mais bela casa de Washington. - Tem a certeza de que não vai mudar de ideias quanto à bebida? - Não, obrigada - disse Catherine. Fraser arranjou um martini para ele, e Catherine andou pela sala a ver os livros. Lá estavam todos os clássicos tradicionais e, além disso, uma secção completa de livros em italiano e outra em árabe.


Fraser pôs-se ao lado dela. - Não fala italiano nem árabe? - perguntou Catherine. - Falo. Vivi no Médio Oriente durante alguns anos e aprendi árabe. - E italiano? - Andei com uma actriz italiana por uns tempos. O rosto dela corou. - Desculpe. Não era minha intenção intrometer-me. Fraser olhou-a com uns olhosdivertidos, e Catherine sentiu-se uma colegial. Não sabia se odiava William Fraser ou se o amava. De uma coisa estava certa: era o homem mais simpático que conhecera. O jantar foi soberbo. Todos os pratos eram franceses com molhos divinos. A sobremesa foi Jubileu de Cerejas. Não admirava que Fraser fizesse manutenção física no clube três manhãs por semana. - Que tal? - perguntou-lhe Fraser. - Não se compara à comida do refeitório - disse ela, e sorriu. Fraser riu-se. - Tenho de comer no refeitório um dia destes. - Eu não o faria se fosse a si. Ele olhou-a. - A comida é assim tão má? - Não é a comida. São as raparigas. Não o largavam. - Que a faz pensar assim? - Estão sempre a falar de si. - Está a dizer-me que fazem perguntas a meu respeito? - Digamos que sim - disse ela com um sorriso largo. - Imagino que no fim se devem sentir frustradas pela falta de informação. Ela abanou a cabeça.


- Enganou-se. Eu invento todo o tipo de histórias a seu respeito. Fraser estava recostado na cadeira, relaxando enquanto bebia um brande. - Que tipo de histórias? - Tem a certeza de que quer ouvir? - Toda. - Bem, digo-lhes que o senhor é um papão e que passa o dia a gritar comigo. Ele sorriu, mostrando os dentes. - Não o dia todo. - Digo-lhes que é doido por caça e que anda com uma espingarda carregada pelo escritórioenquanto dita, e que eu estou sempre cheia de medo de que a arma dispare e me mate. - Isso deve prender-lhes a atenção. - Divertem-se bastante tentando imaginá-lo como é na realidade. - Disse-lhes como sou na realidade? - O tom de Fraser tornara-se sério. Ela olhou para dentro dos seus olhos azul-brilhantes por um momento, depois desviou oolhar. - Acho que sim - disse ela. - Quem sou eu? Catherine sentiu uma súbita tensão dentro de si. A brincadeira chegara ao fim e a conversa ganhava um novo tom. Um tom excitante, um tom perturbador. Ela não respondeu. Fraser fitou-a por um momento, depois sorriu. - Eu sou um assunto sem graça. Mais sobremesa? - Não, obrigada. Vou ficar uma semana sem comer. - Então mãos à obra. Trabalharam até à meia-noite. Fraser acompanhou Catherine àporta, e Talmadge aguardava lá fora para levá-la de volta ao apartamento. Pensou em Fraser durante todo o trajecto para casa. Na sua forma, no seu humor, na sua


compaixão. Alguém uma vez dissera que umhomem tinha de ser muito forte antes de poder permitir-se ser meigo. William Fraser era muito forte. Esta noite fora um dos serões maisagradáveis da vida de Catherine, e isso preocupava-a. receava quepudesse transformarsenuma daquelas secretárias ciumentas quepassa o dia no gabinete com raiva de todas asmulheres que telefonamao chefe. Bem, não ia permitir que isso acontecesse. Todas asmulheres elegíveis de Washington se atiravam à cabeça de Fraser. Ela nãoia ser mais uma. Quando Catherine regressou ao apartamento, Susieestava acordada à espera dela. Começoua fazer perguntas assim queCatherine entrou. - Diz lá - Susie perguntou. - Que aconteceu? - Não aconteceu nada - replicou Catherine. - Jantámos. Susie fitou-a com incredulidade. - Ele nem sequer se atirou a ti? - Não, claro que não. Susie suspirou. - Eu devia ter calculado. Ele teve medo. - Que queres dizer com isso? - O que eu quero dizer com isso, minha querida, é que tu saístede lá como a Virgem Maria. Ele devia estar com medo de que tu começasses aos gritos, a dizer que estavas a ser violadae desmaiavas, sete tocasse com um dedo. Catherine sentiu um rubor nas faces. - Não estou assim tão interessada nele - disse ela asperamente. - E não sou a Virgem Maria. Sou como a Virgem Catarina. A querida e velha Santa Catarina. Tudo o que fizera foi mudar o seu santuário para Washington. Nadamais havia mudado. Ainda trabalhava na velha igreja de sempre. Durante os seis meses que se seguiram, Fraser ausentou-se com muita frequência. Esteve em Chicago, São Francisco e na Europa. Catherine teve sempre bastante que fazer, e noentanto o gabinete parecia solitário e vazio com Fraser ausente. Havia sempre uma correntede visitantes interessantes, a maior parte homens, e Catherinedeu por si assediada de convites. Podia escolher almoços, jantares, viagens à Europa e camas. Não aceitou nenhum dos convites, em parte porque não se interessava por nenhum dos homens, mas principalmente porque sentia que Fraser não aprovaria que ela misturasse negócios com prazer. Se Fraser soubesse das oportunidades constantes que ela declinava.


No dia seguinte, depois de ter jantado em casa dele, recebeu um aumento de dez dólares semanais. Catherine achava que a cidade tinha um ritmo diferente. As pessoas movimentavam-se mais depressa, cada vez mais tensas. Os títulos anunciavam invasões e crises na Europa. A rendição da França afectara os Americanos muito mais profundamente que outrosacontecimentos ocorridos na Europa, pois sentiam uma sensação de violação pessoal, uma perda de liberdade num país que era um dos berços da Liberdade. A Noruega caíra. Londres lutava pela sobrevivência na Batalhade Inglaterra, e aAlemanha, a Itália e o Japão haviam assinado umpacto. Todos pressentiam que a entradada América na guerra era inevitável. Um dia, Catherine falou no assunto a Fraser. - Acho que o nosso envolvimento é só uma questão de tempo disse ele pensativamente. - Se a Europa não conseguir deter Hitler,vamos ter de o fazer. - Mas o senador Borah diz... - O símbolo daqueles que põem a América acima de tudo deviaser um avestruz - comentou Fraser, zangado. - Que vai fazer se houver uma guerra? - Ser herói - disse ele. Catherine imaginou-o numa farda de oficial a partir para a guerra, elegante, e detestou a ideia. Achava estúpido que numa época iluminada os povos ainda pensassem que podiam pôr fim às suas desavenças destruindo-se mutuamente. - Não se preocupe, Catherine - disse Fraser. - Não acontecerá nada por enquanto. E, quando acontecer, nós estaremos preparados. - E a Inglaterra? - perguntou ela. - Se Hitler decide invadir, os ingleses serão capazes de o enfrentar? Ele está cheio de aviões etanques, e os ingleses não têm nada. - Vão ter - assegurou-lhe Fraser. - Muito em breve. Elemudara de assunto, e regressaram ao trabalho. Uma semana depois, os títulos só falavam do novo conceito de Roosevelt sobre Empréstimo e Arrendamento. Afinal Fraser soubera do assunto e tentara tranquilizá-la sem revelar qualquer informação. As semanas passaram-se velozmente. Catherine aceitava um encontro ocasional, mas de todas as vezes dava por si a comparar o seu companheiro a William Fraser, e perguntou a si própria por que se maçava em sair com outras pessoas. Sabia que se tinha enfiado num canto emocional perigoso, mas não sabia como sair dele. Disse para consigo que era apenas uma paixoneta por Fraser e que ia passar, mas, entretanto os seus sentimentos impediam-na de desfrutar a companhia de outros homens porque todos ficavam muito aquém dele. Certa noite, já tarde, enquanto Catherine trabalhava, Fraser regressou ao gabineteinesperadamente depois de uma ida ao teatro. Ergueu o olhar, espantada, quando


ele entrou. - Mas que diabo temos nós aqui? - resmungou ele. - Um navio de escravos? - Eu queria acabar este relatório primeiro - disse ela -, para o poder levar amanhã para São Francisco. - Poderia ter mo enviado pelo correio - respondeu ele. Sentou-se numa cadeira em frente aCatherine e examinou-a. - Não tem coisas melhores para fazer à noite du que fazerrelatórios maçadores?- perguntou ele. - Não tinha nenhum compromisso esta noite. Fraser recostou-se na cadeira, entrelaçou os dedos e colocou-os sob o queixo, fitando-a. - Lembra-se do que me disse no dia em que entrou nesta sala pela primeira vez? - Eu disse tantas parvoíces. - Disse que não queria ser secretária. Queria ser minha assistente. Ela sorriu. - Eu não sabia fazer outra coisa. - Agora sabe. Ela olhou-o. - Não estou a perceber. - É muito simples, Catherine - disse ele calmamente. -Nos últimos três meses, você foirealmente minha assistente. Agora vou oficializar o facto. Ela fitou-o, incrédula. - Tem a certeza de que... ? - Não lhe dei o título ou um aumento de salário antes porque nãoqueria amedrontá-la. Mas agora você sabe que é capaz de exercer ocargo. - Não sei que dizer - gaguejou Catherine. - Eu... não se arrependerá, Sr. Fraser. - Já estou arrependido. As minhas assistentes tratam-me porBill. - Bill.


Mais tarde, nessa mesma noite, quando Catherine estava deitada, lembrou-se do modocomo ele a olhara e como ela se sentira, e sómuito tempo depois conseguiu adormecer. Catherine escrevera ao paidiversas vezes perguntando-lhe quando vinha a Washington visitá-la. Estava ansiosa por lhe mostrar a cidade e apresentá-lo aos amigos e a Bill Fraser. Não recebera resposta às duas últimas cartas. Preocupada, telefonou para casa do tio em Omaha. Foi o tio quematendeu o telefone. Cathy! Eu... eu ia telefonar-te. O coração de Catherine baqueou. - Como é que está o pai? Seguiu-se uma pausa breve. - Teve uma trombose. Eu quis ligar-te mais cedo, mas o teu paipediu-me que aguardasse asmelhoras dele. Catherine apertou o auscultador. - Ele está melhor? - Parece-me que não, Cathy - disse a voz triste do tio. – Ficouparalisado. - Vou já para aí - disse Catherine. Foi ter com Bill Fraser e deu-lhe a notícia. - Lamento - disse Fraser. - Posso ajudar em alguma coisa? - Não sei. Quero ir ter com ele agora mesmo. - Claro. Ele pegou no telefone e fez umas chamadas. O motorista levouCatherine ao apartamento,onde atirou umas roupas para dentro deuma mala, e depois levou-a ao aeroporto, ondejá tinha uma reservaque Fraser lhe fizera. Quando o avião aterrou no aeroporto de Omaha, os tios de Catherine estavam à espera dela, e bastou olhá-los para saber que chegara tarde de mais. Viajaram em silêncio até à casa mortuária, e quando Catherine entrou no edifício foi invadida por uma inefável sensação de perda. Uma parte de si morrera e não poderia ser recuperada. Levaram-na até à pequena capela. O corpo do paijazia num caixão simples, envergando o seu melhor fato. O tempo encolhera-o, como se o desgaste constante de viver o tivesse esgotado e diminuído. O tio entregara a Catherine os objectos pessoais do pai, as recordações e os tesouros duma vida inteira, que se resumiam a cinquenta dólares em dinheiro, umas fotografias antigas, alguns


recibos, um relógio de pulso, um canivete de prata suja e um maço das cartas dela, cuidadosamente atadas com um cordel e gastas de tanta leitura. Era um legado pobre para qualquer homem deixar, e o coração de Catherine chorou pelo pai. Lembrou-se da vitalidade dele quando era uma miúda e da excitação quando chegava a casa de viagem com os bolsos cheios de dinheiro e os braços cheios de presentes. Lembrou-se das suas invenções maravilhosas que nunca funcionavam totalmente. Não eram muitas as lembranças, mas era tudo o que restava dele. Havia subitamente tantas coisas que Catherine queria dizer-lhe, tanto que queria fazer por ele; e seria sempre tarde de mais. O pai foi enterrado num pequeno cemitériojunto à igreja. Catherine tencionara passar a noite com os tios e apanhar o comboio de regresso no dia seguinte, mas de repente não podia ficar nem mais um momento, e telefonou para o aeroporto a fazer uma reserva no primeiro avião para Washington. Bill Fraser estava à espera dela no aeroporto, e pareceu a coisa mais natural do mundo que ele estivesse lá aguardando-a, olhando por ela quando ela precisava dele. Levou Catherine a jantar numa velha estalagem campestre na Virgínia, e ouviu-a enquanto ela falou do pai. A meio duma história engraçada, Catherine começou a chorar, mas estranhamente a presença de Bill Fraser não a embaraçou. Ele sugeriu que Catherine tirasse umas férias, mas ela queria manter se ocupada, não queria pensar na morte do pai. Ganhou o hábito dejantar com Fraser uma ou duas vezes por semana, e Catherine sentiu-se próxima dele como nunca. Aconteceu sem qualquer plano ou premeditação. Tinham ficado a trabalhar até tarde no escritório. Catherine estava a verificar uns papéis e sentiu a presença de Bill Fraser atrás de si. Os dedos dele tocaram-lhe no pescoço, numa carícia lenta. - Catherine... Voltou-se para o ver, e um instante depois estava nos seus braços. Era como se tivessem trocado mil beijos, como se este fosse o seu passado bem como o seu futuro, a que sempre pertencera. É assim tão simples, pensou Catherine. Sempre foi assim tãosimples, mas eu não sabia. - Traz o teu casaco, querida - disse Bill Fraser. -Vamos paracasa. No carro que os levou a Georgetown, sentaram-sejuntos, Catherine abraçada por Fraser, gentil e protectoramente. Ela nunca conhecera tamanha felicidade. Tinha a certeza de que ele estava apaixonado por ela. Ela gostava dele, e isso deixava-a feliz. Quando pensounaquilo que a teria deixado feliz antes de ron Peterson - teve umarrepio. – Passa-se alguma coisa? Catherine pensou no quarto da pensão com o espelho sujo e quebrado. Olhou para o rosto inteligente do homem que a abraçava.


- Agora não - disse ela graciosamente. - Engoliu em seco. -Tenho de dizer-te uma coisa. estou virgem. Fraser sorriu e sacudiu a cabeça maravilhado. - É incrível - disse ele. - Como é que vim dar com a única virgem de Washington? - Eu tentei emendar isso - disse Catherine francamente -, sóque não resultou. - Ainda bem que não - disse Fraser. - Isso quer dizer que não te importas? Ele sorria para ela outra vez, um sorriso provocador que lhe iluminou o rosto. - Sabes qual é o teu problema? - perguntou ele. - Se sei! - Tens-te preocupado de mais com isso. - Eu que o diga! - É preciso é descontracção. Ela abanou a cabeça gentilmente. - Não, querido. O que é preciso é paixão. Meia hora depois, o carro estacionou defronte da casa dele. Fraser levou Catherine para a biblioteca. - Queres tomar alguma coisa? Olhou para ele. - Vamos subir. Abraçou-a e beijou-a com força. Ela abraçou-o ferozmente, desejando devorá-lo. Se alguma coisa correr mal esta noite, pensouCatherine, mato-me. Palavra que me mato. - Anda - disse ele. Pegou na mão de Catherine. O quarto de Bill Fraser era um espaço enorme, com aspecto masculino, e tinha uma cómoda espanholaencostado a uma parede. Ao fundo havia umaalcova com uma lareira, que tinha à frente uma mesa de pequeno-almoço. Contra umaparede havia uma enorme cama de casal. A esquerda estava o quarto de vestir com a casade banho ao lado. - Tens a certeza de que não te apetece uma bebida? - perguntou Fraser. - Não preciso.


Abraçou-a de novo e beijou-a. Ela sentiu a erecção dele, e um calor delicioso atravessoulhe o corpo. - Já venho - disse ele. Catherine viu-o entrar no quarto de vestir. Era o homem maissimpático e maravilhoso queconhecera. Ficou a pensar nele, depoisrepentinamente entendeu por que ele saíra do quarto. Queria deixá-la despir-se sozinha, para não ficar embaraçada. Catherine começou a tirar aroupa à pressa. Permaneceu um minuto nua e baixou os olhos para ver o seu corpo epensou: Adeus, Santa Catarina. Deitou-se, puxou as roupas e enfiou-se entre os lençóis. Fraser entrou vestido num roupão roxo de seda moiré. Aproximou-se da cama econtemplou-a. O cabelo negro dela estava abertoem leque contra a almofada branca,enquadrando o seu belo rosto. Era tanto mais excitante porque ele sabia que nada fora planeado. Deixou cair o roupão e meteu-se na cama ao lado dela. De repente, ela lembrou-se. - Eu não uso nada - disse Catherine. - Achas que vou engravidar? - Esperemos que sim. Olhou-o, intrigada, e abriu a boca para lhe perguntar o que queria dizer com isso, mas elepôs os seus lábios nos dela e as suas mãoscomeçaram a percorrer-lhe o corpo, queexplorava com gentileza, eela esqueceu-se de tudo menos do que estava a acontecerlhe,todaa sua atenção concentrada numa parte do corpo, sentindo que ele queria penetrá-la, rígido e palpitante, forçando, um instante de dor aguda e inesperada, depois deslizando, movimentando-se cadavez maisdepressa, um corpo estranho dentro do corpo dela,mergulhando nassuas profundezas, movendo-se num ritmo cada vez mais frenético,até que ele disse: - Estás pronta? Ela não sabia para quê, mas disse “sim”, e de repente ele gritou: - Oh, Cathy! - E deu um último impulso esporádico e permaneceu inerte em cima dela. E quando acabou disse: - Achaste maravilhoso? Ao que ela respondeu: - Sim, foi maravilhoso. E ele disse: - Ainda é melhor com a prática. E ela ficou cheia de alegria por ter conseguido dar-lhe esta felicidade e tentou ficar sériacom o desapontamento que tudo aquilo forapara ela. Talvez fosse como as azeitonas.


Tinha de tomar-lhe o gosto. Ficou nos braços dele, deixando que o som da voz dele a embalasse,confortando-a, e pensou: Isto é que é importante, estarmos juntoscomo dois seres humanos, amando-se epartilhando-se mutuamente. Lerademasiados romancesfantásticos, ouvirademasiadasfalsascanções de amor. Esperara demasiado. Ou talvez - e se a verdade eraesta teria deencará-la - ela fosse frígida. Como se estivesse a ler osseus pensamentos, Fraser puxou-amais para junto de si e disse: - Não te preocupes se ficaste desapontada, querida. A primeiravez é sempre traumatizante. Como Catherine não respondia, Fraser ergueu-se sobre um cotovelo e olhou para ela,preocupado, e disse: - Como é que te sentes? - Muito bem -disse ela de imediato. Ela sorriu. -foste o melhor amante que eu já tive. Beijou-o e abraçou-o, sentindo-se quente e segura até que finalmente o nó duro dentro de sicomeçou a desfazer-se, e uma sensaçãode descontracção apoderou-se deixando-a satisfeita. - Queres tomar um brande? - perguntou ele. - Não, obrigada. - Acho que vou arranjar um para mim. Não é todas as noites queum homem dorme comuma virgem. - Importaste-te com isso? - disse ela. Ele olhou-a com aquele ólhar estranho e entendedor, ia dizer alguma coisa, mas mudou de ideia. -Não - disse. Havia qualquer coisa na voz dele que escapou a Catherine. - Eu portei-me... ? - Ela engoliu. - Sabes... bem? - Foste maravilhosa - disse ele. - A sério? - A sério. - Sabes que estive quase a não vir para a cama contigo? - Porquê?


- Receava que não quisesses voltar a ver-me. Deu uma gargalhada. - Isso é uma história antiga de esposas protegidas por mães nervosas que querem manter asfilhas puras. O sexo não separa as pessoas, Catherine. Aproxima-as. E era verdade. Ela nunca se sentira tão próxima de outra pessoa. Por fora podia parecer amesma, mas Catherine sabia que mudara. A rapariga que viera a esta casa no princípio da noite desaparecera para sempre e no seu lugar estava uma mulher. A mulher de William Fraser. Encontrara por fim o misterioso Santo Graal de que andara à procura. A busca terminara. Agora até o FBI ficaria satisfeito.

NOELLE Paris: 1941 Para alguns, a Paris de 1941era uma cornucópia de fortunas eoportunidades; para outrosera um inferno vivo. A Gestapo tornara-se um mundo de terror, e as histórias das suas actividades transformaram-se - embora sussurradas - num dos principais temas deconversa. As agressões contra os judeus franceses, começadas quasecomo uma brincadeira de partirmontras de lojasjudias, tinham sidoorganizadas pela eficiente Gestapo num sistema deconfiscação, segregação e extermínio. A 29de Maio foi publicada uma nova lei. Éuma estrela de seis pontas com as dimensões da palma da mão e umasarja preta. Deverá ser de tecido amarelo e levar em letra preta a inscrição JUDEU. Deve ser usada desde os 6anos, visivelmente, no ladoesquerdo do peito e firmemente pregada no tecido. Enem todos osfranceses se mostravam dispostos a ser espezinhados pela botaalemã. OMaquis, aresistência subterrânea francesa, travava umaluta dura e inteligente, e os seus elementos,quando presos, eram condenados à morte das maneiras mais engenhosas. Umajovemcondessa, cuja família possuía um castelo nos arredores de Chartres, viu-se forçada a alojar os oficiais do comando alemãolocal nos quartos térreos durante seis meses, durante osquais escondeu cinco membros do Maquis, procurados pelas autoridades, nospisossuperiores do castelo. Os dois grupos nunca se cruzaram, mas em três meses o cabelo dacondessa embranquecerapor completo.


Os alemães seguiam à risca o estatuto de conquistadores, mas para o francês comum haviaescassez de tudo, excepto frio e miséria. Ogás de cozinha era racionado, e não haviaaquecimento. Os parisienses resistiam ao Inverno comprando serradura às toneladas,armazenavam-na numa parte das suas casas e aqueciam a outra metade emfornos especiaisonde queimavam serradura. Tudo era reles, doscigarros ao couro, passando pelo café. Osfranceses diziam por graçaque não importava o que se comia; o paladar era sempre omesmo. Asfrancesas - por tradição as mulheres mais bem vestidas do mundo – usavamcasacos velhos feitos de pele de carneiro em vez de lã e sapatos com solas de madeira, deforma que o barulho das mulheres queandavam nas ruas de Paris parecia o som dos cascosdos cavalos. Até os baptizados foram afectados, poisfaltava doce de amêndoas,a iguaria tradicional dacerimónia baptismal, e as lojas de doces expunham convites à entrada e à inscrição paraarranjarem o doce deamêndoas. Havia alguns táxis Renault na rua, mas a forma detransporte mais popular eram os carros de dois lugares puxados por bicicletas também. Oteatro, como sempre sucede em épocas de crise prolongada, florescia. As pessoasencontravam refúgio às esmagadoras realidadesda vida quotidiana nas telas e nos palcos. Do dia para a noite, NoellePage transformara-se numa estrela. Outros artistas do teatro,roídosde inveja, diziam que isso se devia unicamente ao poder e ao talentode Armand Gautier, e, embora fosse verdade que Gautier tivesse treinado a sua carreira, é um axioma entre os que trabalham no teatro queninguém pode fabricar uma estrela excepto o público, esse árbitrosem rosto, adorador e inconstante na carreira dum actor. O públicoadoravaNoelle. Quanto a Armand Gautier, lamentava amargamente o papel quedesempenhara no início dacarreira dela. Ela já não precisava dele;tudo o que os ligava era uma fantasia, e ele vivianum terror constante do dia em que ela o deixasse. Gautier trabalhara quase a vida inteirano teatro, mas nunca conhecera ninguém como Noelle. Ela era umaesponja insaciável, queaprendia tudo quanto ele tinha para lhe ensinar e exigia mais. Fora uma experiênciafantástica observar a metamorfose que se operara nela à medida que passava do contacto inicial e hesitante com um papel até ao domínio interior e cheio de segurança. Gautier soubera desde o princípio que Noelle ia ser umaestrela. - sobre isso nunca houve qualquerdúvida -, mas o que o surpreendia, à medida que a conhecia melhor, era que o estrelato nãoera o objectivo dela. A verdade era que Noelle nem sequer estava interessada emrepresentar. No início, Gautier simplesmente não queria acreditar nisso. Seruma estrela era o topo daescada, o sine qua non. Mas para Noelle representar era simplesmente um degrau, e Gautier não tinha a mínima indicação de qual era o seu verdadeiro objectivo. Ela era um mistério, um enigma, e quanto mais Gautier procurava saber maior era o enigma, como as caixas chinesas que se abriam e revelavam outras caixas no interior. Gautier orgulhava-se de entender as pessoas, em particular as mulheres, e o facto de não saber absolutamente nada sobre a mulher com quem vivia e que amava deixava frenético. Pediu a Noelle que casasse com ele, e ela disse: Está bem, Armand, mas ele sabia que ela não quis dizer nada com isso, que isso para ela não significava mais do que o compromisso com Philippe Sorel ou só Deus sabia com quantos outros mais na sua vida passada. Sabia que o casamento


nunca se realizaria. Quando Noelle estivesse pronta, partiria. Gautier estava certo de que todos os homens que a conheciam tentavam dormir com ela. Também sabia através dos seus amigos invejosos que nenhum deles o conseguira. - És um tipo cheio de sorte - dissera-lhe um amigo. - Deves ser um touro. Ofereci-lhe um iate, um castelo só dela e um séquito de criados em Cap d'Antibes, e ela riu-se na minha cara. Outro amigo, um banqueiro, disse-lhe: - Descobri finalmente a primeira coisa que o dinheiro não consegue comprar. - Noelle? O banqueiro fez um sinal afirmativo com a cabeça. - É verdade. Pedi-lhe que dissesse um preço. Não se mostrou interessada. Que é que tu lhedás, meu amigo? Isso queria Armand Gautier saber. Gautier lembrava-se da altura em que encontrara a primeira peça para ela. Não lera mais de uma dúzia de páginas quando viu que era exactamente aquilo que procurava. Era uma grande peça, um drama sobre uma mulher cujo marido fora para a guerra. Um dia um soldado bate-lhe à porta e diz-lhe que fora camarada do marido com quem servira na Frente russa. Com o desenrolar da peça, a mulher apaixona-se pelo soldado, sem saber que se tratava de um homicida psicopata e que a sua vida corria perigo. Era um grande papel feminino, e Gautier aceitou dirigi-la imediatamente, contanto que o papel principal fosse entregue a Noelle Page. Os financiadores mostraram-se relutantes em ver o papel principal entregue a uma desconhecida. Mas concordaram em vê-la numa audição. Gautier foi a correr para casa dar a notícia a Noelle. Viera ao encontro dele porque queria ser uma estrela e agora ele ia satisfazer-lhe o desejo. Disse a si próprio que isto iria uni-los, iria fazê-la amá-lo realmente. Casariam e ela seria sua, para sempre. Mas quando Gautier lhe deu a novidade Noelle olhou simplesmente para ele e disse: - Isso é maravilhoso, Armand, obrigada. -Exactamente no mesmo tom de voz com o qual poderia ter-lhe agradecido por lhe ter dito as horas ou acendido o cigarro. Gautier observou-a por um longo momento, sabendo que Noelle era, de uma forma estranha, uma doente, que alguma emoção dentro de si morrera ou nunca estivera viva e que nunca ninguém iria possuí-la. Sabia isto e no entanto não conseguia acreditar, porque o que via era uma rapariga bela e afectuosa que lhe satisfazia qualquer capricho alegremente e nada pedia em troca. Porque a amava, Gautier pôs as suas dúvidas de lado, e eles iam trabalhar na peça.


Noelle foi brilhante na audição e conseguiu o papel sem hesitações, como Gautier sempre soubera. Quando a peça se estreou em Paris, dois meses depois, Noelle tornouse,subitamente, a maior estrela de França. Os críticos tinham-se preparado para zurzir a peça e Noelle porque sabiam que Gautier entregara o papel principal à amante, uma actrizinexperiente, o que era algo delicioso de mais para deixarem passar em branco. Mas ela cativara-os completamente. Buscaram novos superlativos para descrever o seu desempenho e a sua beleza. A peça foi um verdadeiro êxito de bilheteira. Todas as noites, depois de cada actuação, o camarim de Noelle enchia-se de visitas. Recebia toda a gente: empregados de sapatarias, soldados, milionários e caixeiros, a todos tratando com a mesma delicadeza paciente. Gautier observava espantado. Quase parece uma princesa recebendo os seus súbditos, pensou ele. No decurso de um ano, Noelle recebeu três cartas de Marselha. Rasgou-as, sem as abrir, até que deixou de as receber. Na Primavera, Noelle fez um filme realizado por ArmandGautier, o qual, depois do lançamento, lhe aumentou a fama. Gautier maravilhava-se com a paciência de Noelle em dar entrevistas e ser fotografada. A maioria das estrelas detestava-o e fazia-o para aumentar o seu valor de bilheteira ou por razões egoístas. Noelle era indiferente a ambas as motivações. Mudava de assunto quando Gautier a questionava sobre a razão por que se dispunha a deixar passar uma oportunidade de descansar no Sul deFrança para ficar em Paris, com frio e chuva, a tirar fotografias maçadoras para Le Matin,La Petite Parisiènne ou L'lllustration. Era preferível assim, pois Gautier teria ficadopasmado se soubesse a verdadeira razão. A motivação de Noelle era muito simples. Tudo o que fazia era por causa de Larry Douglas. Quando Noelle tirava fotografias, imaginava oseu antigo apaixonado pegar numa revista e reconhecer o seu retrato. Quando fazia umacena num filme, via Larry Douglas sentado numa sala, numa noite, num país distante,vendo-a. O trabalho dela era uma recordação para ele, um recado do passado, um sinal que o traria de volta um dia para o pé dela; e isso era tudo quanto Noelle queria, que voltasse para ela, para que pudesse destruí-lo. Graças a Christian Barbet, Noelle tinha um arquivo que não parava de crescer sobre Larry Douglas. O pequeno detective mudara-se dos seuspobres escritóriosparaumasuite enorme e luxuosa na Rua Richer, perto do Folies Bergères. A primeira vez que Noelle fora vê-lo nas suas novas instalações, Barbet sorrira perante a expressão de surpresa e dissera: - Arranjei isto por um bom preço. Estes escritórios estavam ocupados por um judeu. - Disse que tinha notícias para mim - disse Noelle cortando a conversa. O sorriso afectado desapareceu do rosto de Barbet. - Ah, sim. Tinha de facto novidades. Era difícil obter informações de Inglaterra mesmo nas barbas dos nazis, mas Barbetlá se arranjara. Subornava marinheiros de navios neutrais que passavam cartas de uma agência em Londres. Mas essa era apenas uma das suas fontes. Apelava ao patriotismo da resistência francesa, à humanidade da Cruz Vermelha Internacional e à cobiça dos candongueiros com ligações ultramarinas. A cada um contava uma história


diferente, e o fluxo de informação não parava de chegar. Pegou num relatório que estava sobre a secretária. - O seu amigo foi abatido no canal da Mancha - disse sem qualquer preâmbulo. Do canto do olho observou o rosto de Noelle, à espera de que a sua fachada distantequebrasse, tirando prazer da dor que lhe infligia. Mas a expressão de Noelle não se alterou. Olhou para ele e disse confiante- Ele foi salvo. Barbet fitou-a, engoliu em seco e respondeu com relutância: - Bem, é verdade. Um barco de salvamento inglês recolheu-o. E perguntou a si próprio como teria ela sabido. Tudo o que dizia respeito a esta mulher o confundia, e ele odiava-a como cliente e esteve tentado a abandonar o caso, mas Barbet sabia que isso teria sido uma estupidez. Tentara uma vez fazer-se a ela, dando a entender que os seus serviços seriam mais baratos, mas Noelle pusera-o no seu lugar de um modo que o fizera sentir-se um parolo desajeitado, e ele nunca mais a perdoaria por causa disso. Um dia, Barbet prometeu a si próprio, calmamente, que a cabrona iria pagá-las. Agora que Noelle estava no seu escritório, com um olhar de desdém no belo rosto, Barbet passou logo ao relatório, ansioso por se ver livre dela. - A esquadrilha mudou-se para Kirton, no Lincolnshire. De momento pilotam Hurricanes e... - Noelle estava interessada noutra coisa. - O compromisso que ele tinha com a filha do almirante - disse ela - foi cancelado, não foi? Barbet ergueu o olhar surpreendido e murmurou: - Foi. Ela descobriu que ele andava com outras mulheres. -Até parecia que Noelle já tinha visto o relatório. De facto não tinha, mas não importava. Os laços de ódio que uniam Noelle a Larry Douglas eram tão fortes que dava a impressão de que ela sabia tudo o que se passava na vida dele. Noelle pegou no relatório e saiu. Quando regressou a casa, leu o relatório com vagar, arquivando depois cuidadosamente entre os outros relatórios, e trancou-o onde não poderia ser achado. Numa sexta-feira à noite, depois do espectáculo, Noelle estava no camarim a tirar a pintura com a ajuda dum creme quando bateram à porta, e Marius, o porteiro do palco, um homem idoso e coxo, entrou. - Desculpe-me, Miss Page, mas um cavalheiro pediu-me que lhe trouxesse isto.


Noelle olhou de relance pelo espelho e viu que trazia um enorme ramo de rosas vermelhas dentro de uma jarra invulgar. - Põe-nas ali, Marius - disse Noelle, e ficou a vê-lo pôr ajarra de rosas sobre a mesa. Estava-se no fim de Novembro e ninguém em Paris via rosas há mais de três meses. Deviam ser umas quatro dúzias, de um vermelhorubi, pé alto, ainda húmidas de orvalho. Curiosa, Noelle levantou-se e pegou no cartão. Dizia assim: Para a bela Nuelle Page. Pousou-as na jarra onde estavamgostaria de cear comigo? General Hans Scheider. A jarra das flores era de porcelana de Delft, com um desenho intrincado, e muito cara. O general Scheider não olhara a meios. - Ele queria receber uma resposta - disse o porteiro. - Diz-lhe que eu nunca ceio, e tu leva estas flores e dá-as à tuamulher. Ele fitou-a surpreendido. - Mas o general... - É tudo. Marius abanou a cabeça, pegou najarra e saiu à pressa. Noelle sabia que iria logo espalhara história de que ela desafiara um generalalemão. O mesmojá acontecera antes com outros oficiais alemães, e os franceses consideravam-na uma espécie de heroína. Era ridículo. Averdade era que Noelle nada tinha contra os nazis, apenas não lhesligava. Não eramparte da sua vida, nem dos seus planos, pelo quesimplesmente os tolerava, aguardando odia em que pudessemregressar à pátria. Sabia que se se envolvesse com quaisquer alemãessairia prejudicada. Agora não, talvez, mas não era o presente quepreocupava Noelle; era ofuturo. Achava que a ideia de o TerceiroReich governar o mundo durante mil anos era umamerda. Qualquerestudante de História sabia que todos os conquistadores acabavampor serconquistados. Por isso não iria fazer nada que virasse os seusconcidadãos contra elaquando os alemães fossem finalmente expulsos. A ocupação nazi não a afectavaminimamente e, quando o assunto vinha à baila - o que acontecia com frequência -, Noelle evitavapronunciar se. Fascinado pela sua atitude, Armand Gautier tentava muitas vezes levá-la a pronunciar-se. - Não te importas que os nazis tenham conquistado a França? perguntava-lhe ele. - Teria importância se eu me importasse? - A questão não é essa. Se todos sentissem o que tu sentes, estaríamos desgraçados. - Seja como for, estamos desgraçados, não estamos? - Não se acreditarmos na força de vontade. Achas que a nossavida já está traçada desde onosso nascimento?


- Em certa medida. Dão-nos o corpo, uma terra e um trabalho,mas isso não significa quenão possamos mudar. Podemos ser tudoaquilo que queremos.

- Exactamente o que eu penso. Por isso devemos combater os nazis. Ela fitou. - Porque Deus está do nosso lado? - Sim - respondeu ele. - Se Deus existe - respondeu Noelle sensatamente - e se Ele os criou, então Ele também deve estar do lado deles. Em Outubro, no primeiro aniversário da peça de Noelle, os financiadores deram uma festa em honra do elenco naTour d'Argent. Havia uma amálgama de actores, banqueiros e homens de negócios influentes. Os convidados eram na sua maioria franceses, mas havia uma dúzia de alemães na festa, alguns fardados, todos acompanhados por francesas, menos um. A excepção era um oficial alemão na casa dos 40, de rosto comprido, magro e inteligente, olhos fundos verdes e um corpo atlético e elegante. Uma ténue cicatriz ia do maxilar ao queixo. Noelle apercebeu-se de que ele a observou toda a noite, embora não se tivesse aproximado. - Quem é aquele homem? - perguntou ela informalmente a um dos anfitriões. Ele olhou de relance para o oficial que estava sentado sozinho a uma mesa bebericando champanhe, depois voltou-se para Noelle surpreso. - É estranho que me faça essa pergunta. Pensei que fosse um amigo seu. É o general Hans Scheider. Faz parte do Estado-Maior. Noelle lembrou-se das rosas e do cartão. Por que é que pensou que era meu amigo? - perguntou ela. O homem pareceu perturbado. - Concluí naturalmente... quero dizer, todas as peças e filmes produzidos em França têm de ser aprovados pelos alemães. Quando a censura tentava proibir a produção de um novofilme seu, o general intervinha pessoalmente e dava a sua aprovação. Nesse momento, Armand Gautier aproximou-se com alguém para apresentar a Noelle e a conversa mudou.


Noelle não voltou a prestar atenção ao general Scheider. Na noite seguinte, quando chegou ao camarim, havia uma rosa numa pequenajarra com um cartãozinho que dizia: Talvez devamos começar com coisas maispequenas. Posso encontrar-me consigo? Hans Scheider. Noelle rasgou o bilhete e atirou a flor para o cesto dos papéis.

Depois dessa noite, Noelle apercebeu-se de que o general Scheider se encontrava presente em quase todas as festas a que ela e Armand Gautier iam. Ficava sempre a um canto a observá la. Eram vezes de mais para ser coincidência. Noelle concluiu que ele devia esforçar-se para se manter informado sobre os seus movimentos e receber os mesmos convites que ela. Perguntava a si própria a razão de tanto interesse, mas era uma especulação ociosa, e ela não estava para se maçar. Ocasionalmente, Noelle divertia-se aceitando um convite e não aparecia, perguntando no dia seguinte à anfitriã se o general Scheider estivera lá. A resposta era sempre afirmativa. A despeito da punição rápida e letal imposta pelos nazis a quem se lhes opusesse, a sabotagem continuava a aumentar em Paris. Além do Maquis, havia dezenas de pequenos grupos de amantes da liberdade franceses que arriscavam a vida para combater o inimigo com todas as armas que tinham à mão. Matavam os soldados alemães quando os apanhavam desprevenidos, rebentavam camiões de abastecimentos e minavam pontes e comboios. As suas actividades eram denunciadas na imprensa diária controlada como actos de infâmia, mas para os franceses leais os feitos de infâmia eram feitos gloriosos. O nome dum homem surgia sempre nosjornais - tinha a alcunha de Le Cafard, a barata, porque parecia correr por toda a parte, e a Gestapo mostrava-se impotente para o apanhar. Ninguém sabia quem era. Alguns pensavam que era um inglês que vivia em Paris; uma outra teoria sustentava que era um agente do general De Gaulle, o chefe das Forças da França Livre; e alguns diziam mesmo que era um traidor alemão. Fosse quem fosse, começaram a aparecer desenhos de baratas por toda a cidade de Paris, em edifícios, ruas e até no quartel-general do exército alemão. A Gestapo concentrava os seus esforços para prendê-lo. De um facto não havia dúvida: Le Cafard tornara- se um herói popular. Numa tarde chuvosa de Dezembro, Noelle foi à inauguração duma exposição de arte dumjovem artista que ela e Armand conheciam. A exposição realizava-se numa galeria da Rua du Faubourg St. Honoré. A sala estava apinhada. Estavam presentes muitas celebridades, e os fotógrafos estavam por toda a parte. Enquanto Noelle circulava, observando todos os quadros, sentiu alguém tocar-lhe no braço. Voltou-se e deparou com Madame Rose. Noelle levou um minuto a reconhecê-la. Era o mesmo rosto feio, e, no entanto envelhecera vinteanos, como se uma alquimia temporal a tivesse transformado na sua própria mãe. Vestiauma capa negra enorme, e Noelle captou um pensamento quase imperceptível de que elanão trazia a estrela amarela que os Judeus deviam usar obrigatoriamente. Noelle começou a falar, mas a mulher mais velha impediu-a, apertando-lhe o braço. - Pode encontrar-se comigo? -perguntou ela numa voz praticamente inaudível. - Les Deux


Magots. Antes que Noelle pudesse responder, Madame Rose misturou-se com a multidão, e Noelle viu-se rodeada por fotógrafos. Enquanto posava e se ria para eles, Noelle lembrava-se de Madame Rose e do seu sobrinho, Israel Katz. Ambos a tinham valido numa altura crítica. Israel salvara-lhe a vida duas vezes. Noelle interrogou-se sobre o objectivo de Madame Rose. Dinheiro, era o mais certo. Vinte minutos depois, Noelle saiu sorrateiramente e apanhou um táxi para a Praça de St. Germain des Prés. A chuva deixara o dia molhado, e era agora uma neve fria e impetuosa. Quando o táxi em que viajava parou defronte de Les Deux Magots e um frio cortante envolveu Noelle, um homem de gabardina e chapéu de aba largajuntou-se-lhe vindo não se sabia donde. Noelle levou algum tempo a reconhecê-lo. Tal como a tia, parecia mais velho, mas a mudança ia mais além. Havia uma autoridade, uma força que antes não existira. Israel Katz emagrecera desde a última vez que o vira, e tinha os olhos encovados, como se não tivesse dormido nos últimos dias. Noelle reparou que ele não usava a estrela amarela de seis pontas. - Vamos sair da chuva - disse Israel Katz. Pegou no braço de Noelle e entraram. Havia uma dúzia de clientes no café, todos franceses. Israel levou Noelle para uma mesa situada num canto. - Quer beber alguma coisa? - perguntou ele. - Não, obrigada. Ele tirou o chapéu ensopado pela chuva, e Noelle examinou-lhe o rosto. Viu naquele instante que não a convidara àquele lugar para lhe pedir dinheiro. Ele observava-a. - Você mantém-se bonita, Noelle - disse com uma voz calma. Vi todos os seus filmes, bem como as suas peças. É uma grande actriz. - Por que é que nunca me procurou nos bastidores? Israel hesitou, depois sorriuacanhadamente. - Não queria embaraçá-la. Noelle fitou-o por um momento antes de entender o que ele queria dizer. Para ela, judeu era apenas uma palavra que aparecia nos jornais de tempos a tempos, e não significava nada na sua vida; mas como devia ser viver aquela palavra, serjudeu num país apostado em dizimar, exterminar a sua raça, particularmente quando não era a própria pátria? - Quem escolhe os meus amigos sou eu - respondeu Noelle. Ninguém me diz quem é que eu devo ver.


Israel deu um sorriso de desagrado. - Não desperdice a sua coragem - aconselhou. -Use-a sempre que for útil. - Fale-me de si - disse ela. Ele encolheu os ombros. - Vivo uma vida apagada. Agora sou cirurgião. Fui aluno do Dr. Angibouse. Já ouviu falar dele? - Não. - É um grande cirurgião-cardiologista. Decidiu proteger-me. Depois os nazis tiraram-me a licença para exercer Medicina. - Ergueu ao alto umas mãos belamente esculpidas e examinou-as como se pertencessem a outra pessoa. - De forma que me tornei carpinteiro. Olhou para ele durante um momento. - É só isso? - perguntou. Israel examinou-a, surpreso. - Claro - disse ele. – Porquê? Noelle pôs de lado uma ideia que lhe surgiu. - Por nada. Por que me quis ver? Inclinou-se mais para ela e baixou a voz. - Preciso de um favor. Um amigo... Nesse momento, a porta abriu-se e quatro soldados da Gestapo, na sua farda verdeacinzentada, entraram no café, liderados por um cabo. O cabo disse em voz alta: - Achtung! Queremos ver a vossa identificação. Israel Katz empertigou-se, como se tivesse posto uma máscara. Noelle viu-o a meter a mão no bolso do sobretudo. Os olhos apontaram na direcção da passagem estreita que dava para a porta dos fundos, mas um dos soldadosjá lá estava, bloqueando-a. Israel disse em tom baixo e apressado. - Afaste-se de mim. Saia pela porta da frente. Já. - Porquê? - perguntou Noelle.


Os alemães examinavam os documentos duns clientes que se sentavam a uma mesa junto à entrada. - Não faça perguntas - ordenou ele. - Apenas vá. Noelle hesitou um momento, depois levantou-se e começou a dirigir-se para a porta. Os soldados aproximavam-se da mesa seguinte. Israel puxara a cadeira para trás para ter mais espaço. O movimento chamou a atenção de dois soldados. Vieram ter com ele. - Identifique-se. Noelle pressentiu que os soldados andavam atrás de Israel, e que ele tentaria escapar, mas que seria abatido. Não tinha hipótese. Virou-se e chamou-o. - François! Vamos chegar tarde ao teatro. Paga a conta e vamos. Os soldados olharam-na surpresos. Noelle voltava para a mesa. O cabo Schultz foi ao encontro dela. Tinha o cabelo louro, as maçãs rosadas e pouco mais de vinte anos. - Está com este senhor, Fraulein? - perguntou ele. - Claro que estou! Não tem mais nada que fazer senão incomodar cidadãos franceseshonestos? - perguntou Noelle, num tom irado. - Lamento, minha boa Fraulein, mas... - Não sou sua boa Fraulein coisa nenhuma! - ripostou Noelle. - O meu nome é Noelle Page. Sou actriz do Teatro Variétés, e trabalhamos os dois namesma peça. Hoje, quando estiver a jantar com o meu caro amigo general Hans Scheider, vou dar-lhe conta deste seu comportamento, e ele vai ficar furioso consigo. Noelle viu o reconhecimento que invadiu os olhos do cabo, mas, se foi do seu nome ou dogeneral Scheider, não tinha a certeza. - Peço... peço desculpa, Fráulein -gaguejou ele. - Claro que estou a reconhecê-la. - Virou-se para Israel Katz, que se sentava em silêncio, com a mão enfiada no bolso. - Mas não estou a reconhecer este cavalheiro. - Reconhecê-lo-ia se os bárbaros fossem ao teatro - disse Noelle com desprezo contundente. - Estamos presos ou podemos ir embora? Ojovem cabo estava consciente de que todos o olhavam. Tinha de tomar uma decisãonaquele instante. - Claro que a Fraulein e o seu amigo não estão presos -disse ele.


- Peço desculpa se a macei. Eu... Israel Katz ergueu o olhar para o soldado e disse friamente: - Está a chover, cabo. Será que um dos seus homens nos poderia arranjar um táxi? - Pois não... É parajá. Israel entrou no táxi acompanhado por Noelle, e o cabo alemão ficou à chuva vendo-os partir. Quando o táxi parou num semáforo três quarteirões adiante, Israel abriu a porta, apertou a mão de Noelle e sumiu sem uma palavra. Por volta das sete horas, ao entrar no camarim, Noelle deparou com dois homens que a aguardavam. Um era o cabo alemão do café dessa tarde. O outro estava à paisana. Era albino, completamente calvo, com olhos cor de-rosa, o que de certo modo lembrou a Noelle um bebé sem forma. Tinha trinta e poucos anos e um rosto de Lua cheia. A voz era aguda e quase ridiculamente feminina, mas havia uma qualidade inefável, algo nele que arrepiava. - Miss Noelle Page? - Sim. - Sou o coronel Kurt Muller, da Gestapo. Julgo que conhece o cabo Schultz. Noelle virou-se para o cabo, com um ar de indiferença: - Não, não creio. - No café hoje à tarde - disse o cabo num tom solícito. Noelle virou-se para Muller. - Conheço tantas pessoas! O coronel fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Deve ser difícil lembrar-se de todas as pessoas quando se tem muitos amigos, Fraulein. Concordou. - É verdade. - Por exemplo, o amigo que a acompanhava esta tarde. - Fez uma pausa, observando os olhos de Noelle. - Disse ao cabo Schultz que ele entrava na peça consigo? Noelle olhou para o homem da Gestapo surpreendida. - O cabo não me deve ter percebido bem.


- Não, Fráulein - respondeu o cabo indignado. - A Fráulein disse... O coronel deu-lhe um olhar mortal, e a boca do cabo fechou-se a meio da frase. - Talvez - disse Kurt Muller num tom amigável. - Essas coisas podem acontecer tão facilmente quando estamos a tentar comunicar numa língua estrangeira. - Lá isso é verdade - disse Noelle rapidamente. Do canto do olho viu o rosto do cabo enrubescer de raiva, mantendo, no entanto, a boca fechada. - Lamento tê-la maçado por nada - disse Kurt Muller. Noelle sentiu os ombros descontrair e de repente deu conta da tensão em que estivera. - Não há qualquer problema - disse ela. - Talvez queiram bilhetes para a peça. - Eu já a vi - disse o homem da Gestapo -, e o cabo Schultz já comprou bilhete. De qualquer forma, muito obrigado. Ia dirigir-se para a porta, mas fez uma pausa. - Quando chamou o cabo Schultz de bárbaro, ele decidiu comprar um bilhete para a veractuar. Quando olhava para as fotografias dos actores no átrio, não viu o seu amigo do café. Foi quando me telefonou. O coração de Noelle começou a bater mais depressa. - Apenas para informação, Mademoiselle. Se não era seu coadjuvante, quem era ele? - Um... um amigo. - O nome? - A voz aguda era ainda suave, mas tornara-se perigosa. - Que diferença faz? - perguntou Noelle. - O seu amigo corresponde à descrição dum criminoso que procuramos. Sabe-se que foi visto nas vizinhanças da Praça de St. Germain des Prés esta tarde. Noelle continuava a fitá-lo, o seu pensamento galopando. - Como se chama o seu amigo? - A voz do coronel aMuller era insistente. - Não... não sei. - Ah, então era um desconhecido?


- Era. Ele fitou-a, perfurando-a com os seus olhos cor-de-rosa. - Estava na companhia dele. Impediu que os soldados vissem os documentos dele. Porquê? - Senti pena dele - disse Noelle. - Ele veio ter comigo... - Onde? Noelle pensava rapidamente. Alguém podia tê-los visto entrar juntos no café. - Cá fora. Disse-me que os soldados o procuravam porque tinha roubado comida numa mercearia para a mulher e para os filhos. Parecia um crime tão insignificante que eu... - Olhou suplicante para aMller. - Eu ajudei. Miiller examinou-a por um momento e abanou a cabeça num gesto de admiração. - Agora entendo porque é uma grande actriz. - O sorriso morreu no rosto dele, e quando voltou a falar tinha a voz mais suave. Deixe-me dar lhe um conselho, Mademoiselle Page. Nós queremos estar de boas relações com os franceses. Queremos que sejam nossos amigos e nossos aliados. Mas todo aquele que ajudar o inimigo torna-se nosso inimigo. Havemosde apanhar o seu amigo, Mademoiselle, e quando o conseguirmos vamos interrogá-lo, e prometo- lhe que ele há-de falar. - Eu não tenho medo de nada - disse Noelle. - Engana-se. - Ela mal podia ouvi-lo. - Tem de ter medo de mim. - O coronel Muller fez um sinal ao cabo e dirigiu-se novamente para a porta. Voltou-se uma vez mais. - Se tiver notícias do seu amigo, informe-me de imediato. Se o não fizer... - Sorriu-lhe. E os dois homens partiram. Noelle afundou-se numa cadeira, esgotada. Sabia que não fora convincente, mas tinha sido apanhada completamente desprevenida. Acreditara que o incidente tinha sido esquecido. Lembrava-se agora de algumas histórias que ouvira sobre a Gestapo, e teve um arrepio breve. Se calhar tinham apanhado Israel Katz, e ele falou. Podia confessar-lhes que eram velhos amigos, que Noelle mentira ao dizer que não o conhecia. Mas por certo isso não podia ser importante. A menos que... o nome que pensara no restaurante veio-lhe subitamente à ideia outra vez. Le Cafard. Meia hora depois, quando entrou no palco, Noelle conseguiu esquecer tudo menos a personagem que desempenhava. Era uma plateia apreciadora, e quando veio agradecer recebeu uma tremenda ovação. Ouvia ainda o aplauso quando regressava ao camarim e abriu a porta. Sentado numa cadeira estava o general Hans Scheider. Pôs-se de pé assim


que Noelle entrou e disse polidamente: - Informaram-me de que vamos cear esta noite. Cearam no Fruit Perdu, um restaurante na margem do Sena, a cerca de trinta quilómetros de Paris. Uma limusina preta e brilhante levou-os até lá. A chuva parara, e a noite estava fresca e agradável. O general não se referira ao incidente do dia antes do fim darefeição. O primeiro impulso de Noelle fora lhe não fazer companhia, mas decidiu que devia saber oque sabiam os alemães ao certo e em que medida a complicação a envolvera. - Recebi uma chamada do quartel-general da Gestapo esta tarde - dizia o general Scheider. Disseram-me que você tinha dito a um certo cabo Schultz que ia cear comigo esta noite. Noelle observava-, sem dizer nada. Ele prosseguiu. - Achei que seria muito desagradável para si se negasse, e muito agradável para mim se confirmasse. - Ele sorriu. - Por isso eisnos aqui. - É tudo tão ridículo - protestou Noelle. - Ajudar um homem que roubou umas coi... - Não! – Avoz do general foi cortante. Noelle olhou-o surpresa. - Não cometa o erro de pensar que todos os alemães são parvos. E não subestime a Gestapo. Noelle disse: - Eles nada têm a ver comigo, general. Ele brincava com o pé do copo de vinho. - O coronel Muller suspeita que você tenha ajudado um homem muito procurado por ele. Se for verdade, meteu-se num grande sarilho. O coronel Muller não perdoa nem esquece. Olhou para Noelle. Por outro lado - disse cuidadosamente -, se não voltar a ver o seuamigo, tudo isto poderá simplesmente passar ao esquecimento. Quer um conhaque? - Agradeço - disse Noelle. Mandou vir dois brandes Napoléon. - Há quanto tempo vive com Armand Gautier? - Tenho a certeza de que sabe a resposta - retrucou Noelle. O general Scheider sorriu. - De facto, sei. O que eu realmente queria perguntar era a razão por que recusou jantar comigo antes. Era por causa de Gautier? Noelle sacudiu a cabeça. - Não.


- Entendo - disse ele com dureza. Houve um tom na sua voz que a surpreendeu. - Paris está cheia de mulheres - disse Noelle. - Tenho a certeza de que poderia arranjar uma. - Você não me conhece - disse o general calmamente -, ou então não teria dito isso. Parecia embaraçado. - Tenho mulher e filho em Berlim. Amo-os muito, mas há mais de um ano que estou longe deles, e não faço ideia de quando voltarei a vê-los. - Quem o forçou a vir para Paris? - Noelle perguntou cruelmente. - Eu não estava a pedir compaixão. Apenas queria explicar-me um pouco. Não sou um homem promíscuo. A primeira vez que a vi no palco - disse ele - aconteceu-me algo. Senti um enorme desejo de a conhecer. Gostaria que fôssemos bons amigos. Havia uma dignidade calma na maneira como falava. - Não lhe posso prometer nada - disse Noelle. Ele anuiu. - Entendo. Claro que não entendia. Porque Noelle tencionava não voltar a vê-lo. O general Scheider mudou habilmente de assunto e falaram de formas de representação e de teatro, e Noelle achou surpreendentemente culto. Tinhaum espírito ecléctico e uma inteligência profunda. Casualmente, ia mudando de assunto, pondo em destaque os interesses mútuos que os dois partilhavam. Era uma actuação habilidosa, e Noelle divertia-se. Esforçara-se bastante para se informar a respeito dela. Em tudo era o típico general alemão no seu uniforme verdeazeitona, fórte e autoritário, mas havia uma gentileza que ao mesmo tempo revelava umcerto tipo de homem, uma qualidade intelectual que pertencia mais ao erudito do que ao soldado. E no entanto havia aquela cicatriz que lhe atravessava o rosto. - Como é que fez essa cicatriz? Passou os dedos pela incisão profunda. - Foi num duelo há muitos anos - disse, encolhendo os ombros. - Na Alemanha, damos a isto o nome de Wildfleisch, que significa pele orgulhosa. Falaram da filosofia nazi. - Não somos monstros - declarou o general Scheider. - E não desejamos governar o mundo. Mas também não tencionamos ficar sentados e ser castigados durante mais tempo por uma guerra que perdemos há mais de vinte anos. O Tratado de Versalhes é um cativeiro de que o povo alemão se libertou finalmente. Falaram da ocupação de Paris. - Não foram os soldados franceses que nos facilitaram a empreitada - disse o general Scheider. - Uma grande dose de


responsabilidade devia cair sobre os ombros de Napoleão III. - O senhor está a brincar - respondeu Noelle. - Estou a falar muito a sério - assegurou-lhe ele. - No tempo de Napoleão, as massasrevoltosas usavam constantemente as ruas emaranhadas e sinuosas de Paris para erguerem barricadas e emboscadas contra os soldados de Napoleão. Para os impedir, incumbiu o barão Eugène Georges Haussmann de endireitar as ruas e encher a cidade de belas e largas avenidas. - Ele sorriu. -As avenidas onde as nossas tropas desfilaram. Receio que a história não poupará o projectista Haussmann. Depois do jantar, no regresso a Paris, perguntou: - Está apaixonada por Armand Gautier? O tom era informal, mas Noelle teve a sensação de que a resposta era importante para ele. - Não - disse calmamente. Ele abanou a cabeça, satisfeito. - Foi o que eu pensei. Eu poderia fazê-la muito feliz. - Tanto quanto faz feliz a sua mulher? O general Scheider empertigou-se por um momento como se lhe tivessem batido e depoisvoltou-se para Noelle. - Posso ser um bom amigo - disse ele calmamente. - Façamos votos para que nuncavenhamos a ser inimigos. Quando Noelle regressou ao apartamento, eram quase três horas da manhã, e ArmandGautier estava à espera dela num estado de agitação. - Onde é que estiveste? - perguntou ele, assim que ela entrou a porta. - tive um compromisso. - Noelle desviou o olhar e contemplou a sala. Parecia que um ciclone passara por lá. As gavetas da secretária estavam abertas e as coisas espalhadas no chão. Revolveram os armários, um candeeiro fora derrubado e uma mesinha estava de lado, com uma perna partida. - Que aconteceu? - perguntou Noelle. - A Gestapo esteve aqui! Meu Deus, Noelle, que é que tu fizeste?


- Nada. - Então como é que se justifica que tenham feito isto? Noelle começou a andar pelo quarto, endireitando a mobílìa, concentrando-se. Gautier agarrou-a pelos ombros e virou-a. - Quero saber o que está a acontecer. Ela respirou fundo. - Está bem. Contou-lhe o encontro que tivera com Israel Katz, omitindo o nome e a conversa que tevemais tarde com o coronel Muller. - Não sei se o meu amigo é Le Cafard, mas é possível. Gautier afundou-se numa cadeira, abismado. - Meu Deus! - exclamou. - Não me importo quem ele seja! Só quero é que não te metas nisso. Podem prejudicar-nos por causa disto. Odeio os alemães tanto quanto tu... -Detevese, não sabendo se Noelle odiava os alemães ou não. Recomeçou: - Querida, enquanto forem os alemães a ditar as leis, temos de lhes obedecer. Nenhum de nós se pode dar ao luxo de provocar a Gestapo. Estejudeu; como é que disseste que ele se chamava? - Eu não disse. Olhou para ela um momento. - Foi teu amante? - Não, Armand. - Significa alguma coisa para ti? - Não. - Ainda bem. - Gautier pareceu aliviado. -Acho que não temos de nos preocupar. Não te vão culpar só porque o encontraste por acaso. Se não voltares a vê-lo, vão esquecer o caso. - Claro que vão - disse Noelle. A caminho do teatro, na noite seguinte, Noelle foi seguida por doishomens da Gestapo. Desse dia em diante, Noelle era constantemente seguida. Tudo começou por ser um pressentimento, uma premonição de que estava a ser vigiada. Noelle virava-se e via numa multidão umjovem de aparência teutónica vestido à civil, com ar de quem não lhe prestava


atenção. Depois o pressentimento voltava, e destavez era outrojovem teutónico. Era sempre alguém diferente e, embora vestidos à civil, envergavam um uniforme exclusivo: uma atitude de desprezo, superioridade e crueldade, e as emanações eram inconfundíveis. Noelle nunca contou a Gautier o que estava a acontecer, pois não via motivo para opreocupar ainda mais. O incidente com a Gestapo no apartamento deixara muito nervoso. Só falava no que os alemães poderiam fazer às suas carreiras, e Noelle sentiu que ele tinha razão. Bastava olhar para os jornais diários para saber que os nazis eram impiedosos com os inimigos. Recebera vários recados telefónicos do general Scheider, mas Noelle ignorara-os. Se não queria ter os nazis como inimigos, também não os queria como amigos. Decidiu ser como a Suíça: neutra. Os Israel Katz que se cuidassem. Noelle ficou umtanto curiosaquanto ao que ele queria, mas não tinha intenção de se envolver. Duas semanas depois do encontro de Noelle com Israel Katz, os jornais publicaram na primeira página que a Gestapo prendera um grupo de sabotadores chefiados por Le Cafard. Noelle leu a notícia com cuidado, mas não referia se o próprio Le Cafard fora preso ou não. Lembrava-se do rosto de Israel Katz quando os alemães o cercaram, e sabia que ele nunca se entregaria vivo. Claro, disse Noelle a si própria, poderia ser imaginação minha. Ele deve ser um carpinteiro inofensivo, como disse. Mas, se era inofensivo, por que se interessava a Gestapo por ele? Seria Le Cafard? E fora preso ou fugira? Noelle foi até à janela do apartamento, que dava para a Avenida Martigny. Duas figuras de gabardina preta estavam sob um candeeiro, à espera. De quê? Noelle começou a sentir a mesma sensação de ansiedade que Gautier, mas também uma sensação de raiva. Lembrou-se das palavras do coronel Muller: Tem de ter medo de mim. Era um desafio. Noelle tinha o pressentimento de que ia voltar a ter notícias de Israel Katz. A mensagem chegou na manhã seguinte através da pessoa mais insuspeita: o porteiro. Era um homem baixo de olhos lacrimejantes, de setenta e tal anos, com um rosto comprido e rijo e maxilar inferior desdentado, pelo que era difícil entendê-lo. Noelle chamou o elevador e encontrou o porteiro lá dentro. Desceram sozinhos, e quando se aproximaram do átrio murmurou: - O bolo de aniversário que encomendou está pronto na padaria da Rua Passy. Noelle fitou-o por um momento, sem saber se o percebera bem, depois disse: - Mas eu não encomendei nenhum bolo. - Rua Passy - repetiu ele teimosamente. E Noelle de repente compreendeu. Mesmo nessa altura não teria feito nada em relação ao assunto se não tivesse visto os dois agentes da Gestapo à sua espera no outro lado da rua. Ser seguida como uma criminosa! Os dois homens conversavam. Ainda não a tinham visto. Irada, Noelle virou-se para o porteiro e disse: - Onde é que fica a entrada de serviço?


- Por aqui, Mademoiselle. Noelle seguiu-o por um corredor traseiro, desceu um lanço deescadas até à cave e saiu para uma viela. 15 minutos depois estava num táxi, ao encontro de Israel Katz. A padaria era uma loja de aspecto normal situada num bairro degradado de classe média. Oletreiro da montra formavam a palavra PADARIA, e as letras estavamjá meio apagadas e a cair. Noelle abriu a porta e entrou. Foi recebida por uma mulherzinha que vestia um avental impecavelmente branco. - Pois não, Mademoiselle? Noelle hesitou. Ainda estava a tempo de se ir embora, de regressar e não se envolver numa coisa perigosa que nada tinha a ver com ela. A mulher aguardava. - A senhora, a senhora tem um bolo de aniversário para mim, disse Noelle, sentindo que fazia figura de parva, como se de alguma forma a gravidade do que estava a passar-se fosse diminuída pelos artifícios infantis que eram utilizados. A mulher abanou a cabeça. - Está pronto, Miss Page. -Pôs a tabuleta de ENCERRADO na porta, trancou-a e disse: Por aqui. Ele estava deitado num catre no pequeno quarto dos fundos da padaria, o seu rosto uma máscara de dor, banhado de transpiração. O lençol que o enrolava estava empapado em sangue, e tinha um grande torniquete no joelho esquerdo. - Israel. Mexeu-se para olhar para a porta, e o lençol caiu, revelando uma massa esponjosa de osso e carne esmagados no que antes fora um joelho. - Que aconteceu? - perguntou Noelle. Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. A voz estava rouca e cheia de dor. - Pisaram Le Cafard, mas as baratas não morrem logo. Afinal ela tinha acertado. - Eu li a notícia - disse Noelle. - Vai ficar bom? Israel inspirou profunda e dolorosamente e disse que sim com a cabeça. Ofegava ao falar. - A Gestapo anda a virar Paris do avesso para me encontrar. Só me resta sair da cidade.Se conseguir chegar ao Havre, tenho amigos que me ajudarão a apanhar um barco para fora do


país. - Não consegue arranjar um amigo que o tire de Paris numa viatura? -perguntou Noelle. – Poderiaesconder-se nacarroçaria dum caminhão... Israel sacudiu a cabeça com dificuldade. - As estradas estão bloqueadas. Nem um rato consegue sair de Paris. Nem mesmo uma barata, pensou Noelle. - Pode viajar com essa perna assim? - perguntou ela, num compasso de espera para chegar a uma decisão. Os lábios dele comprimiram-se num esgar. - Eu não vou viajar com esta perna assim - disse Israel. Noelle fitou-o sem perceber, e nesse momento, a porta abriu-se e entrou um homem enorme, de ombros pesados e barbado. Trazia um machado na mão. Caminhou até à cama e retirou o lençol, e Noelle ficou sem pinga de sangue. Pensou no general Scheider e no albino calvo da Gestapo e no que lhe fariam se a prendessem. - Eu vou ajudá-lo - disse Noelle.

CATHERINE Washington-Hollywood: 1941 7 Catherine Alexander tinha a impressão de que a sua vida entrara numa nova fase, como se estivesse num nível emocional mais elevado, um clímax estonteante e feliz. Quando Bill Fraser não se ausentava, jantavam semprejuntos e iam a concertos, ao teatro ou à ópera. Ele achou um pequeno apartamento encantador perto de Arlington. Queria pagar a renda, mas Catherine insistiu em ser ela afazê-lo. Ele oferecia-lhe roupas ejóias. No começo resistira, embaraçada por uma moral profundamente enraizada, mas o prazer de Fraser era tão óbvio que por fim Catherine deixou de discutir por causa disso. Quer queiras, quer não, pensou ela, és uma amante. Nunca gostara dessa palavra, cheia de conotações de mulheres fáceis e ordinárias que viviam em apartamentos de ruas estreitas e cujas vidas eram umafrustração emocional. Agora, que se encontrava em situação semelhante, verificou que as coisas não eram bem assim. Apenas significava que dormia


com o homem que amava. Não parecia sujo ou sórdido, parecia perfeitamente natural. É interessante, pensou ela, como as coisas parecem horríveis quando feitas por outros, e, no entanto quando somos nós a fazê-las parecem tão normais. Quando lemos as experiências sexuais de outras pessoas, vemo-las como As Verdadeiras Confissões, mas as nossas parecem tiradas da Crónica Feminina. Fraser era um companheiro atencioso e compreensivo, e a relação de ambos parecia de longa data. Catherine era capaz de prever as reacções que ele teria em relação a quase todas as situações e conhecia quase todos os estados de espírito. Ao contrário do que Fraserdissera, as relações sexuais entre eles não se tornou mais excitante, mas Catherine disse a si própria que o sexo era apenas uma pequena parte duma relação. Não era nenhuma colegial que precisasse de estímulos constantes, era uma mulher madura. Dá ou tira um pouco, pensou ela, com desagrado. A agência publicitária de Fraser era dirigida na sua ausência por Wallace lZrner, um perito contabilista. William Fraser tentava envolver-se o mínimo possível no negócio, para poder dedicar-se às funções que tinha em Washington, mas, sempre que surgia um problema importante na agência e era necessário o seu conselho, Fraser costumava discuti-lo com Catherine, sondando as suas reacções. Descobriu que ela tinha umjeito especial para o negócio. Catherine tinha com frequência ideias para campanhas que se revelavam eficazes. - Se eu não fosse tão egoísta, Catherine - disse Fraser uma noite ao jantar -, punha-te na agência e dava-te carta branca para algumas das nossas campanhas. - Cobriu a mão dela com a sua. - Eu ia ficar cheio de saudades - acrescentou ele. - Quero-te aquijunto a mim. - Quero ficar aqui, Bill. Sou feliz assim. E era verdade. Em tempos pensara que se um dia estivesse numa situação destas quereria logo casar-se, mas agora não via urgência nisso. No fundamental, já estavam casados. Certa tarde, quando Catherine terminava uma tarefa, Fraser entrou no gabinete. - Gostavas de ir dar um passeio pelo campo esta noite? - perguntou ele. - Adorava. Aonde vamos? - À Virgínia. Vamos jantar com os meus pais. Catherine ergueu o olhar surpreendida. - Eles sabem o que há entre nós? - perguntou ela. - Nem tudo - disse ele num sorriso largo. - Apenas sabem que tenho uma colaboradora fantástica e que vou levá-la para jantar. Se sentiu uma angústia de desapontamento, não deu a entender.


- Óptimo - disse ela. - Tenho de ir a casa mudar de roupa. - Vou buscar-te às sete horas. - Combinado. 150

A residência dos Fraser, situada nas belas colinas ondulantes da Virgínia, era uma enorme casa de campo colonial rodeada de sessenta acres de relva viçosa e terras de cultivo, que datava do século XVII. - Nunca vi nada assim - disse Catherine maravilhada. - É uma das melhores quintas de criação de cavalos da América- informou Fraser. O carro passou por uma cavalariça cheia de belos exemplares, por penenos muito bem tratados e pela casa do guarda. - Isto é outro mundo - exclamou Catherine. - É como se fõssemos donos do nosso próprio país. Haviam chegado à porta da casa. Fraser virou-se para ela. - O meu pai e a minha mãe são um pouco formais - advertiu ele- mas não te preocupes. Sê natural. Nervosa? - Não -disse Catherine. -Em pânico. -E, quando o disse, sentiu para seu espanto quementia. Na tradição clássica de todas as raparigas prestes a conhecer os pais do namorado, deveria sentir-se aterrorizada. Mas apenas sentia curiosidade. Mais tarde, com tempo, examinaria por quê. Iam a sair do carro quando um mordomo de libré abriu a porta, cumprimentandoos com um sorriso de boas-vindas. O coronel Fraser e a esposa podiam ter saído de um livro de contos de antes da guerra. A primeira coisa que surpreendeu Catherine foi o aspecto idoso e frágil de ambos. O coronel Fraser era uma cópia pálida do homem bonito e cheio de vida de outrora. Trouxe a Catherine a forte lembrança de alguém, e, obviamente, concluiu de quem se tratava: uma versão velha e gasta do filho. O coronel tinha pouco cabelo branco e coxeava dolorosamente. Os olhos eram de um azul-pálido e as mãos antes poderosas estavam deformadas pela artrite. A mulher parecia uma aristocrata e guardava ainda traços da jovem


bela que fora. Mostrou-se delicada e amável com Catherine. Apesar do que Fraser lhe dissera, Catherine teve a sensação de que estava ali para ser examinada. O coronel e a mulher passaram o serão a interrogá-la. Foram muito discretos, porém minuciosos. Catherine falou-lhes dos pais e da infância, e quando se referiu às muitas escolas que frequentou deu a entender que fora uma aventura divertida, e não a agonia que tinha sido. Enquanto falava via o orgulho radiante de Bill Fraser por ela. O jantar foi soberbo. Comeram à luz da vela numa sala dejantar enorme e antiquada com umalareira de mármore a sério e criados de libré. Prata antiga, dinheiro antigo, vinho velho. Olhou para Bill Fraser e foi invadida por uma agradável vaga de gratidão. Teve a sensação de que poderia ter esta vida se o desejasse. Sabia que ambos se amavam. E, no entantofaltava qualquer coisa: o entusiasmo. Possivelmente, pensou, estou a pedir demais. Devo ter sido arrastada por Gary Cooper, Humphrey Bogart e Spencer Z'acy! O amor não é um cavaleiro de armadura brilhante. E um fazendeiro de fato cinzento às riscas. Malditos filmes e livros! Sempre que olhava para o coronel, via Fraser daqui a vinte anos, igualzinho ao pai. Esteve muito calada o resto do serão. No regresso Fraser perguntou: - Gostaste do serão? - Bastante. Gostei dos teus pais. - Eles também gostaram de ti. - Sinto-me feliz. - E sentia-se. Fora o pensamento que a perturbava vagamente, de que deveria ter estado mais nervosa por conhecê-los. Na noite seguinte, enquanto Catherine e Fraser jantavam no Jockey Club, Fraser disse-lhe que tinha de ir a Londres por uma semana. - Na minha ausência - disse ele -, vais ter um trabalho interessante. Querem que o nosso gabinete supervisione um filme de recrutamento para o Corpo Aéreo do Exército¹ a rodar nos estúdios da M. G. M. em Hollywood. Queria que te encarregasses do filme na minha ausência.

¹Antiga designação da actual Força Aérea Americana. (N. do T.) Catherine não queria acreditar. - Eu? Nem sequer sei pôr o rolo numa máquina fotográfica. Que é que eu sei sobre a produção de um filme de instrução? - Quase o mesmo que qualquer pessoa - sorriu Fraser. - É tudo novidade, mas não tens que


te preocupar. Eles têm lá um produtor e outros técnicos. O Exército vai usar actores no filme. - Porquê? - Parece que os soldados não convencem no papel de soldados. - Isso só podia vir do Exército. - Falei longamente com o general Mathews esta tarde. Deve ter usado a palavra deslumbre uma centena de vezes. É isso que elespretendem vender. Vão iniciar uma grande campanha de recrutamento dirigida aosjovens daélite americana. Esta é uma das primeiras armas. - Que é que eu tenho de fazer? - perguntou Catherine. - Apenas tentar que tudo corra sem problemas. Terás a última palavra. Tens uma reserva para Los Angeles num avião que sai amanhã às nove da manhã. Catherine anuiu. - Muito bem. - Vais ter saudades minhas? - Sabes que sim - respondeu ela. - Vou trazer-te uma prenda. - Eu não quero prendas. Quero é que regresses bem. - Ela hesitou. - A situação está a piorar, não está, Bill? Eleconcordou. - É verdade - disse ele. - Acho que em breve estaremos em guerra. - Que horror. - O horror será maior se nós não entrarmos - disse ele calmamente: - A Inglaterra escapou em Dunquerque por milagre. Se Hitler decide atravessar a Mancha, duvido muito que os ingleses o consigam deter. - Terminaram o café em silêncio, e ele pagou a conta. - Queres ir dormir a minha casa? - perguntou Fraser. - Hoje não - disse Catherine. - Temos de nos levantar cedo. - Tens razão.


Deixou-a em casa. Quando ia deitar-se, Catherine pôs-se a pensar por que não fora com Bill na véspera da sua partida. Não obteve resposta. Catherine crescera em Hollywood, apesar de nunca lá ter estado. Passara centenas de horas em salas de cinema às escuras, perdida nos sonhos mágicos fabricados pela capital do cinema, e sentir-se-ia sempre grata pela alegria dessas horas felizes. Quando o avião de Catherine aterrou no aeroporto de Burbank, ficou toda excitada. Aguardava-a uma limusina que a levou ao hotel. Quando percorriam as ruas largas e ensolaradas, Catherine reparou logo nas palmeiras. Lera coisas a seu respeito e vira fotografias, mas a realidade era esmagadora. Estavam por toda a parte, projectando a sua altura deencontro ao céu, e nua era a parte inferior dos seus troncos graciosos, bela e verdejante a parte superior. No centro de cada árvore havia copas frondosas, como se fossem um saiote sujo, pensou Catherine, pendendo desalinhadamente debaixo de um manto verde. Passaram por um edifício enorme que parecia uma fábrica. Sobre a entrada via-se um cartaz grande que dizia Warner Bros, e por baixo lia-se A aliança do bom cinema com a boa cidadania. Quando o carro passoujunto ao portão, Catherine pensou em James Cagney em Yankee Doodle Dandy, e Bette Davis em Vitória Negra, e sorriu feliz. Passaram pelo Pavilhão de Hollywood, que do exterior parecia enorme, viraram para Highland Avenue e seguiram para oeste em direcção a Hollywood Boulevard. Passaram pelo Teatro Egípcio e, dois quarteirões para oeste, pelo Grauman's Chinese, e Catherine estava no céu. Foi como rever dois velhos amigos. O motorista desceu o Sunset Boulevard e dirigiu-se para o Hotel Beverly Hills. - Vai gostar deste hotel. É um dos melhores do mundo. Era certamente um dos mais belos hotéis que Catherine já vira. Ficava a norte do Sunset, num semicírculo de palmeiras protectoras rodeadas porjardins enormes. Uma estrada graciosa ia dar à porta principal do hotel, de um rosa-delicado. Um subgerente, jovem e ansioso, acompanhou Catherine ao quarto, que era afinal um apartamento luxuoso situado nosjardins, atrás do edifício central do hotel. Havia um ramo de flores sobre a mesa com os cumprimentos da gerência e um ramo ainda maior e mais bonito com um cartão que dizia: Pudesse eu estar on outu nqui. Amte, Bill. O subgerente entregou a Catherine trés recados telefónicos. Eram de Allan Benjamin, o produtor do filme. Quando Catherine estava a ler o cartão de Bill, o telefone tocou. Ela precipitou-se, levantou o auscultador e disse ansiosamente. - Bill?- Afinal, tratava-se de Allan Benjamin. - Bem-vinda à Califórnia, Miss Alexander. - tinha uma voz estridente. - Fala o cabo Allan Benjamin, produtor da trapalhada. Um cabo. Pensaria sempre que a tarefa teria sido entregue a um capitão ou um coronel. - Começamos a rodar amanhã. Disseram-lhe que vamos usar actores em vez de soldados? - Sim, ouvi dizer - respondeu Catherine.


- As filmagens começam amanhã às nove horas. Gostaria quepudesse cá estar por volta das oito para os ver. Sabe o que o Corpo Aéreo do Exército quer. - Está bem - disse Catherine bruscamente. Não fazia a mínima ideia do que o Corpo Aéreo do Exército queria, mas supunha que bastaria o bom senso de escolher quem tivesse ar de piloto. - Vou mandar um carro buscá-la às sete e meia - dizia a voz. Até à Metro é só meia hora. Fica em Culver City. Fico à sua espera no Palco Treze. Eram quase quatro da manhã quando Catherine adormeceu, ejulgou ouvir, no momento em que fechou os olhos, que o telefone tocou e a telefonista lhe disse que uma limusina estava à espera dela. Trinta minutos depois, Catherine ia a caminho da Metro-Goldwyn-Mayer. Era o maior estúdio cinematográfico do mundo. Havia um bloco principal que tinha trinta e dois estúdios de som, o enorme Edifício da Administração Thalberg, onde se instalavam Louis Bill Mayer, vinte e cinco executivos e alguns dos realizadores, produtores e argumentistas mais famosos do cinema. O segundo bloco continha os enormes cenários exteriores fixos que eram estavam sempre a ser redecorados para vários filmes. No espaço de três minutos, era possível atravessar os Alpes Suíços, uma cidade do Oeste, um quarteirão de casas de Manhattan e uma praia do Havai. O bloco três, situado no extremo do Washington Boulevard, albergava adereços e cenários de interiores no valor de milhões de dólares e era usado na filmagem de espectáculos ao ar livre. Tudo isto foi explicado a Catherine pela guia, uma jovem que estava incumbida de a levar ao Estúdio 13. - Isto é uma autêntica cidade - dizia ela com orgulho. - Produzimos a electricidade que consumimos, fazemos seis mil refeições diárias e construímos os nossos próprios cenários naquele bloco. Somos completamente auto-suficientes. Não precisamos de ninguém. - A não ser do público. Enquanto caminhavam ao longo da rua, passaram por um castelo de fachada apoiado em dois suportes. À frente havia um lago, e ao fundo do quarteirão havia o átrio dum teatro de S. Francisco. Não havia sala, só o átrio. Catherine deu uma gargalhada, e a rapariga voltou-se para olhá-la. - Passa-se alguma coisa? - perguntou. - Não - disse Catherine. - E tudo maravilhoso. Dezenas de figurantes andavam na rua, cowboys e índios em conversa amigável enquanto se dirigiam para os estúdios de som. Um homem surgiu inesperadamente de uma esquina e,


quando Catherine recuou para não chocar com ele, viu que era um cavaleiro de armadura. Atrás dele vinha um grupo de jovens em fato de banho. Catherine achou que ia gostar desta sua breve incursão no mundo do espectáculo. Como desejava que o pai pudesse ter visto isto! Teria gostado muito. - Chegámos-disse a guia. Estavam defronte de um enorme edifício cinzento. Ao lado, um cartaz dizia ESTÚDIO 13. -Vou deixá-la aqui. Não há problema? - Nenhum - disse Catherine. - Muito obrigada. A guia fez um sinal com a cabeça e retirouse. Catherine dirigiu–se para o estúdio de som. Sobre a porta havia um letreiro que dizia: NÃO ENTRAR COM A LUZ VERMELHAACESA. Como a luz estava apagada,Catherine abriu a porta. Ou tentou, pois era inesperadamente pesada e teve de usar toda a sua força para conseguir abri-la. Lá dentro, Catherine confrontou-se com uma segunda porta tão pesada e maciça como a primeira. Era como entrar numa câmara de descompressão. No interior do estúdio de som, que parecia uma caverna, dezenas de pessoas corriam dum lado para o outro, todas ocupadas com uma tarefa misteriosa. Um grupo de homens trajava fardas do Corpo Aéreo, e Catherine concluiu que eram os actores que iriam aparecer no filme. Num canto do estúdio de som havia o cenário dum gabinete com uma secretária, cadeiras e um mapa militar enorme pendurado na parede. Os técnicos estavam a iluminar o cenário. - Desculpe-me - disse ela a um homem que passava por perto. - O Sr. Allan Benjamin está por aqui? - O cabozinho? - Esticou o braço. - Acolá. Catherine voltou-se e viu um homem baixo e franzino, cujas divisas de cabo assentavam numa farda que lhe ficava grande. Gritava com um homem com estrelas de general. - Que se lixe o que o director de cena disse - gritava ele. - Estou farto de generais. Quero é pessoal não graduado. - Ergueu as mãos em desespero. - Quer tudo ser chefe, ninguém quer ser índio. - Perdão - disse Catherine. - Chamo-me Catherine Alexander. - Graças a Deus! - disse o homenzinho. Virou-se para os outros,com amargura na voz: Acabou-se a brincadeira, seus malandros. Washington chegou. Catherine pestanejou. Antes que pudesse falar, o pequeno cabo disse: - Não sei o que estou a fazer aqui. Tinha um emprego a ganhar trinta e cinco mil dólares por ano em Dearborn na edição dum catálogo de mobiliário quando me recrutaram para o


Corpo de Sinaleiros e me puseram a escrever argumentos de filmes. Que sei eu de produção ou realização? Isto é a coisa mais desorganizada que eujá vi. - Anotou e tocou no estômago. -Já arranjei uma úlcera –queixou-se, gemendo -, e nem sequer faço parte do mundo do espectáculo. Com licença. Voltou-se e apressou-se para a saída, deixando Catherine ali plantada. Ela olhou em volta, sem saber o que fazer. Todos pareciam fitá-la, à espera que desse uma ordem. Um homem de camisola, magro e grisalho, aproximou-se dela, com um sorriso divertido no rosto. - Precisa de ajuda? - perguntou-lhe calmamente. - Preciso de um milagre - disse Catherine abertamente. - Deram-me a chefia disto e não sei o que fazer. Ele deu-lhe um sorriso largo. - Bem-vinda a Hollywood. Sou Tom O'Brien, o A. R. Olhou para ele, com um olhar cómico. - O assistente de realização. O seu amigo, o cabo, devia ser o realizador, mas pressinto que ele não vai voltar. O homem exprimia uma segurança calma que agradou a Catherine. - Há quanto tempo trabalha na Metro-Goldwyn-Mayer? - perguntou ela. - Há vinte e cinco anos. - Acha que seria capaz de realizar isto? Ela viu-o esboçar um sorriso. - Eu poderia tentar-disse gravemente. -Já fiz seis filmes com Willie Wyler. -Fez um olhar sério. -A situação não é tão má quanto parece - disse ele. - Só precisa de um pouco de organização. O guião está escrito e o cenário está pronto. - Isso é um princípio - disse Catherine. Olhou para os actores fardados que estavam no estúdio. Os uniformes assentavam mal e os homens que os usavam não estavam à vontade. -Parecem anúncios de recrutamento para a Marinha - comentou. O'Brien riu com gosto. - Quem é que forneceu estas fardas?


- A Western Costume. O nosso Departamento de Guarda-Roupa esgotou-se. Estamos a rodar três filmes de guerra. Catherine examinou os homens criticamente. - Só meia dúzia deles é que são mesmo maus - concluiu ela. Vamos mandá-los lá outra vez para ver se lhes arranjam coisa melhor. O'Brien concordou com um aceno de cabeça. - Está bem. Catherine e O'Brien aproximaram-se do grupo de figurantes. A algazarra no estúdio enorme era ensurdecedora. - Vamos a calar, rapazes - gritou O'Brien. - Esta é Miss Alexander. Quem vai mandar aqui é ela. Ouviram-se alguns assobios. - Obrigada - Catherine sorriu. - Estão quase todos vestidos adequadamente, mas alguns vão ter de voltar à Western Costume para arranjar outras fardas. Ponham-se em linha para os vermos melhor. - A si é que eu queria poder ver bem. Tem alguma coisa que fazer hoje ao jantar? - gritou um dos homens. - Vou jantar com o meu marido - disse Catherine -, depois do combate de boxe que ele tem. O'Brien dispôs os homens numa filla desalinhada. Catherine ouviu risos e vozes por perto e voltou-se, incomodada. Um dos figurantes estavajunto a uma parte do cenário, falando com três raparigas que lhe bebiam as palavras e davam risinhos histéricos de tudo quanto dizia. Catherine observou-o um momento, depois encaminhou-se até a ele e disse: - Desculpe. Importava-se de ir para o pé dos outros? O homem virou-se lentamente. - Está a falar comigo? - perguntou ele num tom arrastado. - Estou, sim-disse Catherine. -Nós queríamos começar atrabalhar. - Ela afastou-se. Sussurrou qualquer coisa às raparigas, que as fez dar uma sonora gargalhada, e lentamente foi atrás de Catherine. Era alto, esbelto e másculo, muito bonito, cabelo negro-azulado e olhos escuros e arrebatadores. A voz, quando falou, era profunda e insolentemente trocista. - Em que posso servi-la? - perguntou a Catherine. - Quer trabalhar? - respondeu Catherine.


- Quero, quero - garantiu ele. Catherine lera certa vez um artigo sobre figurantes. Eram pessoas estranhas que consumiam as vidas anónimas nos estúdios, emprestando ambiente às cenas de multidões em que as estrelas apareciam. Eram pessoas sem rosto e sem voz, daí sem ambições para procurarem um emprego a sério. O homem que tinha à sua frente era um exemplar perfeito. Por ser extremamente bonito, devem ter-lhe dito na terra dele que poderia ser uma estrela, e lá viera ele para Hollywood para saber que o talento era tão necessário como a beleza, optando pelo estatuto de figurante. A solução fácil. - Vamos ter de alterar algumas das nossas fardas -disse Catherine pacientemente. - A minha tem algum defeito? - perguntou ele. Catherine olhou com mais atenção para a farda dele. Teve de admitir que a mesma lhe assentava perfeitamente, destacando os seus ombros largos, mas não em demasia, adelgaçando-se na cintura estreita. Examinou o casaco. Os ombros ostentavam os galões de capitão. No peito pregara uma série de fitas de cores vivas. - As fitas impressionaram-na assim tanto, chefe? - perguntou ele. - Quem é que lhe disse que ia fazer de capitão? Olhou-a, com um ar sério. - A ideia foi minha. Não acha que eu dava um bom capitão? Catherine abanou a cabeça. - Não. Não acho. Ele apertou os lábios pensativamente. - Primeiro-tenente? - Não. - E segundo-tenente? - Realmente, não o vejo como oficial. Os seus olhos escuros olhavam-na de modo trocista. - Oh! ? Há mais alguma coisa que não esteja bem? – perguntou-lhe. - Sim - disse ela. - As medalhas. Você deve ser muito valente. Ele riu-se. - Pensei que poderiam dar a este desgraçado filme um pouco de cor.


- Esqueceu-se foi de uma coisa - disse Catherine num tom brusco. -É que nós ainda não estamos em guerra. Deve ter ganho essas nalguma festa de Carnavàl. 159 Sorriu-lhe. - Tem razão - admitiu ele acanhado. - Não pensei nisso. Vou tirar algumas. - Tire todas - disse Catherine. Deu-lhe novamente aquele sorriso demorado e insolente. - A chefe é quem manda. Ela quase ripostou: “Deixe de me tratar por chefe”, mas pensou: que vá para o diabo que o carregue, e retirou-se para ir falar com O'Brien. Catherine mandou oito homens trocarem as fardas e passou a hora seguinte a debater a cena com OBrien. O pequeno cabo tinha voltado, mas desaparecera pouco depois. Ainda bem, pensou Catherine. Só sabia queixar-se e enervar toda a gente. O'Brien acabou de filmar a primeira cena antes do almoço, e Catherine achou que não comera muito mal. Apenas um incidente lhe ensombrara a manhã. Catherine dera ao odioso extra mais um texto só para o humilhar. Quisera ridicularizá-lo, para se vingar da impertinência dele. Lera o texto com perfeição, desempenhara a cena com grande segurança. Depois de acabar, voltou-se para ela e disse: - Estive bem, chefe? Quando a companhia se separou para almoçar, Catherine foi até ao enorme refeitório do estúdio e sentou-se a uma pequena mesa do canto. A uma mesa enorme ao lado estava um grupo de soldados fardados. Catherine estava virada para a porta, quando viu o figurante entrar acompanhado por três raparigas que se atrelavam a ele, todas esforçando-se para estarem ao pé dele. Catherine sentiu o sangue vir-lhe ao rosto. Pensou que era uma mera reacção química. Havia pessoas que se odiavam à primeira vista, tal como havia outras de quem se gostava à primeira vista. A sua arrogância petulante deixava-a furiosa. Teria dado umgigolo perfeito, e isso devia ser exactamente o que ele era. Escolheu uma mesa para as raparigas se sentarem, ergueu o olhar e viu Catherine, depois debruçou-se e disse-lhes qualquer coisa. Viraram-se todas para ela e desataram-se a rir. Parvalhão! Viu-o aproximarse da mesa dela. Baixou o olhar e fitou-o, com aquele sorriso lento e demolidor no rosto. - Deixava-me sentar por um momento? - perguntou ele. - Eu... - Mas ele já estava sentado, examinando-a, com um olhar curioso e brincalhão. - Que é que deseja? - perguntou Catherine.


O sorriso dele alargou-se. - Deseja realmente saber? Apertou os lábios com raiva. - Ouça. - Eu queria perguntar-lhe - disse ele rapidamente - como é que eu me saí esta manhã. – Inclinou-se para a frente ansioso. -Fui convincente? - Pode ser convincente com elas - disse Catherine, apontando na direcção das raparigas -, mas, se quer a minha opinião, acho que você não vale nada. - Fiz alguma coisa que a ofendesse? - Tudo o que você faz me ofende - disse ela tranquilamente. É que nem sequer gosto do seu tipo. - De que tipo sou eu? - Você é um embuste. Gosta de usar esse uniforme e pavonear-se por aí no meio das raparigas, masjá pensou em alistar- se? Olhou-a incredulamente. - E levar um tiro? - perguntou ele. - Isso é bom é para idiotas. - Debruçou-se e sorriu. - Assim tem muito mais graça. Os lábios de Catherine tremiam de raiva. - Não pode ser convocado por sorteio? - Tecnicamente, parece que sim, mas tenho um amigo que conhece um tipo em Washington e... - baixou a voz -julgo que nunca irei lá parar. - Eu acho-o uma pessoa desprezível - explodiu Catherine. - Porquê? - Se você não sabe porque, eu não seria capaz de lhe explicar. - Por que não tenta? Hoje à noite ao jantar. Na sua casa. Sabe cozinhar? Catherine levantou-se, as faces afogueadas de raiva. - Escusa de voltar ao estúdio - disse ela. - Vou dizer ao Sr. O'Brien que lhe envie um cheque pelo trabalho de hoje. Ia afastar-se quando se lembrou e perguntou: - Como é que você se chama?


- Douglas - disse ele. - Larry Douglas. Fraser telefonou de Londres para Catherine na noite seguinte, saber como tinham corrido as coisas. Ela informou-o dos acontecimentos do dia, mas não fez qualquer referência ao incidente com Larry Douglas. Quando Fraser voltasse para Washington, iria comtar-lhe e rir se-iam juntos. Logo pela manhã seguinte, enquanto Catherine se vestia para ir para o estúdio, a campainha da porta tocou. Abriu e deu de caras com um paquete que trazia um enorme ramo de rosas. - Catherine Alexander? - perguntou ele. - Sou, sim. - Assine aqui, por favor. Ela assinou o recibo que ele lhe entregou. - São lindas - disse ela, aceitando as flores. - São quinze dólares. - Desculpe? - Quinze dólares. Vêm à cobrança. - Não per... - Comprimiu os lábios. Catherine pegou no cartão apenso às flores e retirou-o do envelope. O cartão dizia: Eu têlas-iapago, mas estou desempregado. Com amor, Larry. Ela fitou o cartão incredulamente. - Então, fica com elas ou não? - perguntou o moço de fretes. - Não - ripostou ela. Atirou-lhe as flores para os braços. Ele fitou-a, intrigado. - Ele disse que a senhora iria achar graça. Que era uma brincadeira entre os dois. - Não estou a achar graça nenhuma - disse Catherine. Bateu com a porta furiosamente. Durante o dia, o incidente não a largou. Tinha conhecido homens egoístas, mas nunca nenhum se mostrara tão insultuosamente vaidoso como o Sr. Larry Douglas. Tinha a certeza de que sempre se saíra vitorioso com louras acéfalas e morenas de busto grande que morriam por se deitarem com ele. Mas o facto de a pôr na mesma categoria fez que Catherine se sentisse uma mulher fácil e humilhada. Só de pensar nele ficava com a pele arrepiada. Decidiu nunca mais pensar nele. Às sete horas dessa tarde, Catherine preparava-se para abandonar o estúdio. Um ajudante aproxímou-se dela com um envelope mão.


- Isto é para a senhora pagar? - perguntou ele. Era uma nota de débito da Secção de Actores onde se lia: Uma farda (capitão) Seis fitas militares (sortidas) Seis medalhas (sortidas) Nome do Actor: Larry Douglas... (a debitar na conta Catherine Alexander - MGM). Catherine ergueu o olhar, o rosto afogueado. - Não! - disse ela. O homem ficou a olhar. - Que é que eu lhes digo? - Diga que pago as medalhas se lhe forem agraciadas a título póstumo. As filmagens terminaram três dias depois. Catherine viu a primeira versão no dia seguinte e aprovou-a. O filme não conquistaria quaisquer prémios, mas era simples e eficaz. Tom O'Brien fizera um bom trabalho. No sábado de manhã, Catherine embarcou num avião para Washington. Nunca deixara um sítio com tanto prazer. Na segunda- feira de manhã estava de volta ao escritório, tentando pôr em dia o trabalho que, entretanto se amontoara durante a sua ausência. Quase à hora do almoço, Annie, a secretária, chamou-a pelo intercomunicador. - Está ao telefone um tal Sr. Larry Douglas a falar de Hollywood, com chamada a pagar no destino. Aceita a chamada? - Não -gritou ela. -Diga-lhe que eu... deixe estar, eu própria lhe direi. - Inspirou fundo e premiu o botão do telefone. - Sr. Douglas? - Bom dia. - Falou com uma voz doce. - Não me foi fácil encontrá-la. Não gosta de rosas? - Sr. Douglas... -começou Catherine. Avoz tremia-lhe de fúria. Inspirou fundo e disse: - Sr. Douglas, eu adoro rosas. Não gosto é de si. Tudo o que vem de si me desgosta. Isto é claro? - Você não sabe nada a meu respeito. - Sei mais do que quero saber. Acho que você é covarde e desprezível, e não quero que torne a telefonar-me. - A tremer, bateu com o auscultador, os olhos cheios de lágrimas de


raiva. A ousadia! Ficaria tão contente quando Bill voltasse. 15 dias depois, Catherine recebia pelo correio uma fotografia dez por doze de Lawrence Douglas. Fazia uma dedicatória: Para a chefe, com amor, de Larry. Annie fitou o retrato pasmada e disse: - Meu Deus! Ele existe mesmo? - É falso - retorquiu Catherine. - A única coisa verdadeira é o papel em que vem impresso. Furiosamente, rasgou a fotografia em pedacinhos. Annie testemunhava a cena, desolada. - Que desperdício. Nunca vi ninguém assim em carne e osso. - Em Hollywood - disse Catherine ferozmente -, há cenários que só têm fachada... não têm alicerces. Acabaste de ver um. Durante as duas semanas que se seguiram, Larry Douglas telefonou pelo menos uma dúzia de vezes. Catherine deu instruções a Annie para lhe dizer que não voltasse a telefonar e para não se incomodar a informá-la das chamadas dele. Uma manhã, enquanto escrevia as notas ditadas, Annie ergueu o olhar e disse em tom de desculpa. - Sei que não quer ser incomodada com as chamadas do Sr. Douglas, mas ele voltou a telefonar e parecia tão desesperado e, bem... quase perdido. - Ele está perdido - disse Catherine friamente -, e se você é esperta não tentará encontrá-lo. - Ele tem um ar divino. - Foi ele que inventou o melaço. - Fez muitas perguntas a seu respeito. - Viu o olhar de Catherine. - Mas, claro - acrescentou ela de seguida -, eu não lhe disse nada. - Foi muito inteligente de tua parte, Annie. Catherine começou a ditar de novo, mas não era nisso que pensava. Achava que o mundo estava cheio de Larry Douglas. Isso fê-la dar ainda mais valor a William Fraser. Bill Fraser regressaria na manhã do próximo domingo, e Catherine foi ao aeroporto esperálo. Contemplava enquanto se desembaraçava na Alfândega e se dirigia para a saída onde ela se encontrava. O seu rosto iluminou-se assim que a viu. - Cathy - disse ele. - Que surpresa tão boa. Não contava que estivesses à minha espera.


- Não podia esperar. -Sorriu e deu-lhe um abraço sentido, o que o levou a olhar para ela curiosamente. - Tiveste saudades minhas - disse ele. - Mais do que pensas. - Como estava Hollywood? -perguntou ele. -Correu tudo bem. Hesitou. - Optimamente. Ficaram muito satisfeitos com o filme. - Foi o que me disseram. - Bill, da próxima vez que te ausentares - disse ela -, leva-me contigo. Olhou para ela, satisfeito e comovido. - Fica combinado -disse Fraser. -Senti a tua falta. Tenho pensado muito em ti. - Verdade? - Amas-me? - Muito, Sr. Fraser. - Também te amo - disse ele. - Por que não vamos sair esta noite para comemorar? Ela sorriu. - Maravilhoso. - Vamos jantar ao Jefferson Club. Fraser ficou em casa. - Tenho milhares de chamadas para fazer - disse ele. - Podes ir ter comigo ao clube? Oito horas. - Sem falta. Catherine voltou para casa, lavou um pouco de louça e passou a ferro. Sempre que passava pelo telefone, tinha a leve esperança de que o mesmo tocasse, mas permaneceu mudo. Imaginou Larry Douglas a tentar tirar nabos da púcara a seu respeito através de Annie, e deu por si a ranger os dentes. Talvez falasse a Fraser para pôr o nome de Douglas na lista de mobilização. Não, não me vou maçar com isso, pensou ela. Talvez o recusassem. Seria posto à prova e dado como inapto. Lavou o cabelo, tomou um banho demorado e lascivo, e


estava a secar o cabelo quando o telefone tocou. Ficou tensa e foi atender. - Sim? - disse ela friamente. Era Fraser. - Viva - disse ele. - Passa-se alguma coisa? - Claro que não... Bill - disse ela apressadamente. - Eu... estava na banheira. - Desculpa. -A voz assumiu um tom provocador. - Isto é, desculpa não estar ao pé de ti. - Também eu queria - respondeu ela. - Telefonei para te dizer que sinto a tua falta. Não te atrases. Catherine sorriu. - Está bem. Pousou o telefone lentamente, pensando em Bill. Pela primeira vez sentiu que ele estava pronto para lhe pedir a mão. Ia pedir-lhe que se tornasse na Srà William Fraser. Disse o nome em voz alta: Sra.William Fraser. O nome soava bem e tinha dignidade. Meu Deus,pensou. Estou a ficar blasée. Há seis meses, teria pulado de alegria, sóo que sei dizer é que o nome é digno e soa bem. Emudara tanto assim? Não era um pensamento reconfortante. Olhou para o relógio e começou a vestir-se à pressa. O Jefferson Club ficava na rua F, um discreto edifício de tijolo separado da rua por um gradeamento de ferro forjado. Era um dos clubes mais exclusivos numa cidade cheia de clubes exclusivos. O processo mais fácil de ser sócio era ser filho dum sócio. Quem não estava nessa condição precisava da recomendação de três membros. As propostas de associação eram votadas uma vez por ano, e bastava um voto contra para afastar alguém do Jefferson Club para sempre, pois era ponto assente que nenhum candidato poderia ser proposto duas vezes. O pai de William Fraser fora sócio fundador do clube, e Fraser e Catherine jantavam lá pelo menos uma vez por semana. O chefe de cozinha trabalhara na casa dos Rothschild franceses durante vinte anos, a cozinha era soberba e a adega encontrava-se entre as três melhores da América. A decoração do clube estivera a cargo dum dos principais decoradores mundiais, que prestou um cuidado especial às cores e luzes, de forma que as mulheres fossem banhadas pelo fulgor das velas que acentuava a sua beleza. Todas as noites os comensais cruzar-se-iam com o vice-presidente, membros do Governo, do Supremo Tribunal, senadores e os poderosos industriais que controlavam impérios multinacionais. Fraser estava no salão à espera de Catherine quando ela chegou. - Estou atrasada? - perguntou ela. - Não teria importância se estivesses - disse Fraser, olhando-a com uma admiração


declarada. - Sabias que estás fantasticamente bela? - Claro - respondeu ela. - Toda a gente sabe que eu sou a fantasticamente bela Catherine Alexander. - A sério, Catherine. - O tom dele era tão sério que a embaraçou. - Obrigada, Bill-disse ela semjeito. -E pára de me fitares de se modo. - Não consigo - disse ela. Tomou-lhe o braço. Louis, o maitre d'hôtel, levou-os para uma mesa do canto. - É esta mesa, Miss Alexander, Sr. Fraser; bom apetite para jantar. Catherine gostava que o maitre do Jefferson Club soubesse quem ela era. Sabia que era infantil e ingénuo da sua parte, mas isso dava-lhe a sensação de ser alguém, de pertencer àquele meio. Sentou-se, descontraída e satisfeita, examinando a sala. - Vais tomar uma bebida? - perguntou Fraser. - Não, obrigada - disse Catherine. Ele abanou a cabeça. - Tenho de ensinar-te alguns maus hábitos. - Já ensinaste - murmurou Catherine. Sorriu-lhe e pediu um uísque com soda. Ela examinou, pensando no homem querido e delicado que ali estava. Tinha a certeza de que poderia torná-lo muito feliz. E ela seria feliz como mulher dele. Muito feliz, disse a si própria com ímpeto. Perguntem a qualquer pessoa. Perguntem à Time. Odiava-se pela forma como raciocinava. Que havia de errado com ela? - Bill - começou ela... e ficou gelada. Larry Douglas vinha na direcção deles, um sorriso de reconhecimento nos lábios assim que viu Catherine. Envergava o uniforme do Corpo Aéreo do Exército da Secção de Actores. Não queria acreditar quando o viu aproximar-se da mesa, sorrindo alegremente e dizendo: - Viva. Mas não se dirigia a Catherine. Dirigia-se a Bill, que se levantou e lhe apertou a mão. - Que prazer em ver-te, Larry.


- Que bom ver-te, Bill. Catherine fitou os dois homens, a mente paralisada, recusando-se a funcionar. Fraser dizia: - Cathy, este é o capitão Lawrence Douglas. Larry, esta é Miss Alexander... Catherine. Larry desceu o olhar para a ver, os olhos escuros troçando dela. - Não consigo exprimir o prazer que sinto, Miss Alexander - disse ele solenemente. Catherine abriu a boca para falar, mas repentinamente apercebeu-se de que não havia nada que pudesse dizer. Fraser observava-a, à espera de que falasse. Mas tudo o que conseguiu fazer foi um sinal afirmativo com a cabeça. Não confiava na voz. - Fazes-nos companhia, Larry? - perguntou Fraser. Larry olhou para Catherine e disse modestamente: - Se tens a certeza de que eu não sou um intruso... - Claro que não. Senta-te. Larry sentou-se ao lado de Catherine. - Que é que tomas? - perguntou Fraser. - Um uísque com soda. - Também tomo - disse Catherine imprudentemente. - Pede um duplo. Fraser olhou para ela surpreso. - Não posso acreditar. - Disseste que me querias ensinar maus hábitos - explicou- se Catherine. - Acho que gostaria de começar agora. Depois de Fraser pedir as bebidas, virou-se para Larry e disse: - O general Terry contou-me algumas das tuas proezas... tanto no ar como em terra. Catherine olhava fixamente para Larry, o pensamento num rodopio, tentando acostumar-se à ideia. - Essas medalhas... - disse ela. Ele mirava-a com um ar inocente. - Sim?


Ela engoliu em seco. - Onde é que as arranjou? - Ganhei-as numa festa de Carnaval - disse ele num tom sério. - Que festa - riu-se Fraser. - Larry pilotou na R. A. F. Era o chefe da esquadrilha americana. Convidaram-no a chefiar uma base de caças em Washington para preparar alguns dos nossos rapazes para combate. Catherine voltou-se para olhar para Larry. Ele sorria-lhe benevolamente, os seus olhos irrequietos. Como na reposição dum filme antigo, Catherine lembrou-se de cada palavra do seu primeiro encontro. Mandara tirar os galões de capitão e as medalhas, e ele obedecera alegremente. Fora presumida e prepotente - e chamara-lhe cobarde! Só lhe apetecia meterse debaixo da mesa. - Devias ter-me avisado de que vinhas à cidade - dizia Fraser. - Teria mandado matar uma vitela gorda em tua honra. Devíamos ter dado uma grande festa para comemorar o teu regresso. - Prefiro assim - disse Larry. Olhou para Catherine, e ela desviou o olhar, incapaz de o olhar de frente. - Na realidade - Larry prosseguia inocentemente -, andei à tua procura quando estive em Hollywood, Bill. Ouvi dizer que ias produzir um filme para a Força Aérea. Parou para acender um cigarro, e cuidadosamente apagou o fósforo com um sopro. - Estive no local das filmagens, mas não te encontrei lá. - Tive de ir a Londres -respondeu Fraser. - Quem esteve lá foi Catherine. Espanta-me que vocês não se tenham encontrado. Catherine ergueu o olhar para Larry, e ele observava-a, com um olhar divertido. Era chegada a hora de contar o que se passara. Contaria a Fraser e todos ririam como se fosse uma anedota divertida. Mas, sem sabér porque, as palavras ficaram-lhe presas na garganta. Larry esperou um momento, depois disse: - Havia lá muita gente. Acho que não demos um pelo outro. Não gostou nada que a tivesse ajudado, pois se tornaram companheiros numa conspiração contra Fraser. Quando as bebidas chegaram, Catherine engoliu a dela rapidamente e pediu outra. Ia ser a noite mais terrível da sua vida. Não podia aguentar até ao fim para se ver longe de Larry


Douglas. Fraser quis saber das suas experiências de guerra, e, pelo tom de Lary, as mesmas pareceram fáceis e divertidas. Obviamente, não levava nada a sério. Era um estoura-vergas. Catherine admitiu, porém com relutância que um estoura-vergas não se ofereceria como voluntário na R. A. F. nem se tornava um herói no combate à Luf twaffe. Irracionalmente, detestava ainda mais por ser um herói. Não entendia a sua própria atitude, na qual matutou durante o terceiro uísque duplo. Que diferença fazia se era um herói ou um vagabundo? E foi então que se apercebeu de que, sendo um vadio, pertencia a uma classe que ela poderia controlar. Atordoada pela bebida, recostou-se e ouviu a conversa entre os dois. Larry falava com um entusiasmo e uma vitalidade tão transbordantes que a deixavam comovida. Parecia-lhe o homem mais alegre que já conhecera. Catherine tinha uma sensação de que a vida dele era um livro aberto, de que se entregava a tudo de alma e coração e de que troçava de quem tinha medo de se entregar. Dos que tinham medo, ponto final. Como ela. Mal tocou na comida, e nem sabia o que comia. Olharam-se de frente, e era como se fossejá seu amante, como sejá tivessem estado juntos, se tivessem pertencido um ao outro, e sabia que isso era uma loucura. Ele era um ciclone, uma força da natureza, e qualquer mulher que fosse sugada no seu turbilhão seria destruída. Lary sorria-lhe. - Receio que estejamos a deixar Miss Alexander fora da conversa- disse ele educadamente. -Acho que ela é mais interessante do que nós dois juntos. - Engana-se - disse Catherine prontamente. -Vivo uma vida muito monótona. Trabalho com Bill. - Assim que falou, apercebeu-se do que dissera e corou. - Não foi isso que eu quis dizer - disse ela. - O que eu quis dizer foi que... - Eu sei o que quis dizer - disse Larry em tom de ajuda. E ela detestou-o. Virou-se para Bill: - Onde é que a encontraste? - Tive sorte - disse Fraser calorosamente. - Muita sorte. Ainda não te casaste? Larry encolheu os ombros. - Quem havia de me querer? Parvalhão, pensou Catherine. Olhou em redor da sala. Meia dúzia de mulheres olhavam para Larry, umas disfarçadamente, outras abertamente. Era um íman sexual. - Como eram as inglesas? - perguntou Catherine imprudentemente. - Bonitas - disse num tom educado. - Claro que me faltava tempo para essas coisas. Era um piloto ocupado.


Oh!Santas é que não tinhas, pensou Catherine. Aposto que não deixaste uma virgem intacta numa área de cem quilómetros. Em voz alta, disse: - Tenho pena dessas pobres raparigas. Não sabem o que perderam. - Exprimiu-se num tom mais mordaz do que intencionara. Fraser olhava para ela, pasmado com a sua má-criação. - Cathy - disse ele. - Vamos tomar outra bebida -interrompeu Larry prontamente. - Acho que Catherinejá bebeu o suficiente - respondeu Fraser. - Não é bem assim - começou Catherine e, para seu horror, deu por si a balbuciar. - Acho que quero ir para casa - disse ela. - Está bem -Fraser voltou-se para Larry. - Catherine por norma não bebe - disse em tom de desculpa. - Acho que ficou muito contente por voltar a ver-te - disse Larry. Catherine sentiu vontade de lhe atirar um copo de água à cara, quando era apenas vadio, odiava-o menos. Agora odiava-o mais. Não sabia por quê. Na manhã seguinte, Catherine acordou com uma ressaca que na sua opinião pertenceria à história da Medicina. Tinha pelo menos três cabeças sobre os ombros, todas ressoando. Ficar deitada era umamania, mas tentar mexer-se era pior. Enquanto esteve ali a controlar os vómitos, o que se passara na noite anterior veio- lhe à lembrança, e a dor aumentou. Sem razão, culpou Larry pela ressaca, pois, se não tivesse sido ele, não teria bebido nada. Dolorosamente, Catherine virou a cabeça e olhou para o relógio da mesinha-de-cabeceira. Dormira demais. Não sabia se ficava deitada ou se chamava uma brigada de reanimação. Com cuidado, saiu do leito de morte e arrastou-se até à casa de banho. Foi a tropeçar até ao chuveiro, abriu a torneira da água fria e deixou que osjactos gelados corressem pelo seu corpo. Deu um grito quando a água a atingiu, mas, no fim do duche, sentia-se melhor. Apenas melhor. Quarenta e cinco minutos depois estava à escrivaninha. Annie entrou excitada. - Adivinhe - disse ela. - Hoje não - sussurrou Catherine. - Porta-te bem e fala baixinho. - Veja! - Annie atirou-lhe o jornal. - É ele. Na primeira página havia uma fotografia de Larry Douglas fardado, sorrindo-lhe insolentemente. Dizia a legenda: HEROIAMERICANO DA R.A.F. REGRESSAAWASHINGTONPARADIRIGIRUMAUNIDADE DE CAÇAS. Seguia-se


uma história, a duas colunas. - Não é excitante? - gritou Annie. - Muito - disse Catherine. Atirou o jornal para o cesto dos papéis. - Podemos continuar a trabalhar? Annie olhou para ela, surpresa. - Desculpe - disse. - Eu... como era seu amigo, pensei que pudesse estar interessada. - Ele não é um amigo - Catherine corrigiu-a. - É mais um inimigo. - Viu o olhar de Annie. Será que podíamos simplesmente esquecer o Sr. Douglas ? - Claro - disse Annie com uma voz intrigada. - Eu disse-lhe que você talvez gostasse de saber. Catherine fitou-a. - Quando? - Quando telefonou esta manhã. Ligou três vezes. Catherine fez um esforço para falar num tom informal. - Por que não me disse nada? - Pediu-me para não a informar dos telefonemas dele. - Observava Catherine, o seu rosto cheio de confusão. - Deixou algum número? Não. - Ainda bem. - Catherine via o rosto dele, aqueles olhos grandes, escuros e provocadores. Ainda bem - disse outra vez, mais firmemente. Acabou de ditar algumas cartas e, depois de Annie sair do gabinete, Catherine foi ao cesto dos papéis e apanhou ojornal. Leu a história sobre Larry palavra por palavra. Era um ás, com um crédito de oito aviões alemães. Fora atingido duas vezes na Mancha. Chamou Annie pelo intercomunicador. - Se o Sr. Douglas voltar a ligar, passe-me a chamada. Houve apenas uma pausa de segundos. - Pois não, Miss Alexander.


Afinal de contas não havia razão para ser malcriada com homem. Catherine iria simplesmente desculpar-se pelo comportamento que tivera no estúdio e pedir-lhe que não voltasse a telefonar -lhe. Ela ia casar-se com William Fraser. Esperou que ele voltasse a telefonar-lhe toda a tarde. Ele não ligara até às seis horas. E por que havia de o fazer? Perguntou Catherine a si própria. Anda para aí com outras mulheres. Tens sorte. Meteres-te com ele seria o mesmo que ires ao talho. Tiravas a ficha e aguardavas a tua vez. À saída disse a Annie. - Se o Sr. Douglas telefonar amanhã, diz-lhe que eu não estou. Annie nem sequerpestanejou. - Pois não, Miss Alexander. Boa noite. - Boa noite. Catherine apanhou o elevador, perdida em pensamentos. Tinha a certeza de que Bill Fraser queria casar-se com ela. A melhor coisa a fazer seria dizer-lhe que desejava casar-se imediatamente. Dir-lhe-ia hoje à noite. Iriam passar a lua de-mel fora. No regresso, Larry Douglas teria deixado a cidade. Ou coisa no género. A porta do elevador abriu-se no átrio, e ali estava Larry Douglas, encostado à parede. Mostrara as medalhas e fitas e usava os galões de segundo-tenente. Sorriu e encaminhou-se até ela. - Assim está melhor? - perguntou vivamente. Catherine olhou-o fixamente, o coração dela batendo acelerada mente. - O uso de insígnias falsas não é contra o regulamento? - Não sei - disse ele com sinceridade. - Pensei que você se encarregasse de tudo isso. Ficou a olhar para ela, que disse numa voz sem força: - Não me faça isso. Deixe-me em paz. Eu pertenço a Bill. - Onde é que está a aliança de casamento? Catherine passou à frente dele e começou a dirigir-se para a porta da rua. Quando a alcançou, elejá lá estava, abrindo-a para que ela saísse. Na rua ele agarrou-lhe o braço. Um choque percorreu-lhe o corpo. Havia nele uma electricidade que a queimava. - Cathy... - começou ele. - Pelo amor de Deus-disse ela desesperadamente. -Que quer de mim?


- Tudo - disse ele calmamente. - quero-a a si. - Bem, não posso ser sua - disse ela num gemido. - Vá torturar outra pessoa. - Virou-se parase ir embora, e ele deteve-a. - Que significa isso? - Não sei - disse Catherine, cujos olhos estavam rasos de água. - Não sei o que estou a dizer. Eu... estou com uma ressaca. Quero morrer. Ele sorriu com um ar de compreensão. - Tenho uma cura maravilhosa para ressacas. - Levou-a para a garagem do prédio. - Aonde é que vamos? - perguntou ela em pânico. - Buscar o meu carro. Catherine olhou-o, à espera de encontrar no rosto dele um sinal de triunfo, mas tudo o que viu foi a sua face forte e incrivelmente bonita cheia de carinho e compaixão. O empregado da garagem trouxe um descapotável castanho-amarelado com a capota para trás. Larry ajudou Catherine a entrar na viatura e sentou-se ao volante. Tinha o olhar fixo no horizonte, sabendo que estava a deitar a sua vida a perder e não era capaz de voltar atrás. Era como se tudo aquilo estivesse acontecer a outra pessoa. Queria dizer à coitada que estava dentro ào ano que se fosse embora. - Para a sua casa ou para a minha? - perguntou Larry com gentileza. Abanou a cabeça. - Tanto faz - disse ela sem esperança. - Vamos para minha casa. Afinal, não era totalmente insensível. Ou antes, receava competir com a sombra de William Fraser. Observava-o enquanto ele conduzia com perícia o automóvel porentre o trânsito do fim do dia. Não, não tinha medo de nada. Era parte da atracção danada que possuía. Tentou convencer-se de que era livre de lhe dizer não, livre de partir. Como podia amar William Fraser e sentir isto por Larry? - Se lhe serve de consolo - disse Larry calmamente -, estou tão nervoso como você.


Catherine olhou para ele. - Obrigada - disse ela. Claro que mentia. Devia dizer a mesma coisa a todas as vítimas quando as levava para a cama para as seduzir. No entanto, não se gabava disso. O que mais a incomodava era que traía Bill Fraser. Era um homem bom de mais para ser magoado, e isto ia deixá-lo muito abalado. Catherine sabia e sabia que agia errada e insensatamente, mas já não tinha vontade própria. Tinham chegado a uma zona residencial agradável, com árvores enormes e frondosas que flanqueavam a rua. Larry parou o carro à frente de um edifício de apartamentos. O apartamento de Larry fora decorado para ser habitado por um homem. Tinha cores sólidas e fortes e mobília de aspecto masculino. Assim que entraram, Larry tirou o casaco de Catherine, e ela tremia. - Está com frio? - perguntou ele. - Não. - Quer tomar alguma coisa? - Não. Gentilmente abraçou-a, e beijaram-se. Parecia que tinha o corpo em chamas. Sem uma palavra, Larry levou-a para o quarto. Havia uma urgência crescente à medida que ambos se iam despindo. Ela deitou-se na cama nua, e ele deitou-se a seu lado. - Larry. Mas ele já tinha os lábios nos dela, e as mãos dele começaram percorrer o seu corpo, explorando com suavidade, e esqueceu tudo menos o prazer que sentia, e as mãos dela começaram a acariciar o corpo dele. E sentiu-o quente, duro e palpitante, e os dedos dele estavam dentro dela, abrindo-a suave e amorosamente, e pôs-se em cima dela e dentro dela, e havia uma alegria imensa inimaginável e depois ficaram juntos, vibrando num ritmo fantástico que abalava o quarto, o mundo e o universo até que houve uma explosão que foi um êxtase delírio, uma viagem incrível e arrasante, uma chegada e uma partida, um fim e um começo, e Catherine ficou deitada exausta e entorpecida apertando-o nos braços, não querendo deixá-lo sair, não querendo que a sensação chegasse ao fim. Nada do que lera ou ouvira poderia tê-la preparado para isto. Era inacreditável que o corpo de outra pessoa pudesse trazer tamanha alegria. Ficou ali em paz: uma mulher. E sabia que, se não voltasse a vê-lo, lhe ficaria eternamente grata. - Cathy?


Virou-se para olhar para ele, lenta e indolentemente. - Sim? - Até a voz lhe pareceu mais profunda, mais madura. - Podias tirar as unhas das minhas costas? Subitamente deu conta de que cravara as unhas na carne dele. - Oh, desculpa? - exclamou ela. Pôs-se a examinar as costas dele, mas ele agarrou-lhe as mãos e puxou-a para junto de si. - Não tem importância. Estás feliz? - Feliz? - O lábio dela tremeu, e para seu desgosto começou a chorar. Soluços sentidos que lhe contorciam o corpo. Ele abraçava-a, acariciando-a docemente, deixando que a tempestade se extinguisse. - Desculpa - disse ela. - Não sei por que reagi assim. - Desilusão? Catherine olhou logo para ele para protestar, depois viu que estava a provocá-la. Tomou-a nos braços e fez amor de novo. Foi ainda mais incrível do que antes. Depois ficaram na cama e ele pôs-se a falar, mas ela não ouviu. Tudo o que queria ouvir era o som da sua voz, e não se importava com o que dizia. Sabia que este seria o único homem, para elasó haveria este homem. E sabia que na sua vida só haveria este homem e que provavelmente nunca mais o veria, que era apenas mais uma conquista. Deu conta de que a voz se calara e de que ele a observava. - Não ouviste uma palavra do que eu disse. - Desculpa - disse ela. - Estava a sonhar acordada. - Eu devia estar ofendido - disse num tom reprovador. - Só estás interessada em mim por causa do meu corpo. Passou a mão pelo peito e o estômago bronzeado e esbelto. - Não sou nenhuma especialista - disse ela -, mas parece-me que vai servir muito bem. - Serviu muito bem. Quis perguntar-lhe se a apreciara, mas teve receio. - És bela, Catherine.


Comoveu-se por ouvi-lo dizer isso, mas ao mesmo tempo ficou ressentida. Tudo o que lhe dizia dissera-o milhares de vezes a outras mulheres. Gostava de saber como iria ele despedir-se. Telefonas -me? Ou: Depois telefono-te? Talvez quisesse mesmo vê-la uma ou duas vezes antes de atacar nova presa. Bem, a culpa era só dela. Soube sempre no que ia meter-se. Meti-me nisto com os olhos e as pernas bem abertos. Aconteça o que acontecer, nunca deverei culpá-lo. Ele abraçou-a e apertou-a. - Sabes que és uma rapariga muito especial, Cathy? Sabes que és uma rapariga muito especial... Alice, Susan, Margaret, Peggy, Lana... - Senti isso a primeira vez que te vi. Nunca senti isso por ninguém antes. Janet, Evelyn, ftuth, Georgia, ad infinitum. Enterrou a cabeça no peito dele, incapaz de falar, e apertou-o com força, dizendo adeus em silêncio. - Tenho fome - disse Larry. - Sabes o que me apetecia? Catherine sorriu. - Claro que sei. Larry sorriu-lhe. - Sabes uma coisa? - perguntou ele. - És uma tarada sexual. Ela ergueu o olhar. - Obrigada. Levou-a para o chuveiro e abriu-o. Tirou uma touca de um gancho da parede e colocou-a sobre a cabeça de Catherine, ajeitando-lhe o cabelo. - Anda - disse ele, e puxou-a para o jacto de água penetrante. Pegou no sabonete e pôs-se a esfregar-lhe o corpo, começando no pescoço, nos braços e em círculos lentos sobre os seios, descendo até ao estômago e às coxas. Ela começou a sentir uma excitação no ventre, e tirou-lhe o sabonete da mão e começou a lavá-lo, enchendo-lhe o peito de espuma e depois entre as pernas. O órgão dele endureceu-lhe nas mãos. Abriu-lhe as pernas e penetrou-a, e Catherine ficou nova mente arrebatada, inundada pela torrente de água que lhe fustigava o corpo, enquanto o seu interior se enchia com a mesma alegria insuportável, até que deu um grito de loucura total. Depois, vestiram-se, entraram no carro e foram para Maryland, onde encontraram um restaurantezinho ainda aberto e pediram lagosta e champanhe. Às cinco da manhã, em casa, Catherine marcou o número de casade William Fraser e ficou a ouvir os longos toques a cento e cinquenta quilómetros, até que finalmente a voz ensonada de Fraser surgiu no aparelho e disse: - Estou? - Bill. É Catherine.


- Catherine! Ando a tentar telefonar-te toda a noite. Onde é que estás? Estás bem? - Estou óptima. Estou no Maryland com Larry Douglas. Acabámos de casar.

Paris: 1941 8 Christian Barbet era um homem infeliz. O pequeno detective calvo estava sentado à secretária, um cigarro entre os dentes manchados e partidos, e contemplava com um ar sombrio a pasta que tinha diante de si. A informação nela contida ia custar-lhe um cliente. Cobrava a Noelle Page honorários exorbitantes pelos seus serviços, mas não era apenas a perda do rendimento que o entristecia: iria perder a própria cliente. Odiava Noelle Page, e, no entanto era a mulher mais excitante quejá conhecera. Barbet imaginava as mais loucasfantasias com Noelle, nas quais acabava sempre dominadapor ele. Agora a missão estava prestes a chegar ao fim, e não voltaria vê-la. Mantivera-a à espera na sala enquanto tentava pensar numa maneira de abordar o assunto de forma a poder sacar mais algum dinheiro para prolongar o caso. Mas relutantemente concluiu que não havia forma. Barbet suspirou, apagou o cigarro e abriu a porta. Noelle estava sentada no sofá preto da napa, e ao vê-la ficou extremamente emocionado por um momento. Era injusto uma mulher ser assim tão bela. - Boa tarde - disse ele. - Entre. Entrou no gabinete movimentando-se com a graça dum modelo. Era vantajoso para Barbet ter uma cliente como Noelle Page, e ele se rogava em mencionar o nome dela sempre que podia. Atraía outros clientes, e Christian Barbet não era homem de perder o sono com ética. - Por favor, sente-se - disse ele, apontando para uma cadeira. Quer que lhe arranje umbrande, um aperitivo? Parte da sua fantasia era embriagar Noelle para ela implorar que ele a seduzisse. - Não - respondeu ela. - Vim aqui saber de notícias. A gaja podia pelo menos tomar uma última bebida com ele! - É verdade - disse Barbet. - De facto, tenho várias notícias. Debruçou-se sobre a secretária e fingiu analisar o processo, o qual já sabia de cor. - Parajá - informou ele -, o seu amigo foi promovido a capitão e transferido para133 à esquadrilha, de que é comandante. O campo é em Coltisall, Duxtford, no Cambridgeshire. Pilotavam... -falava lenta e deliberadamente, sabendo que não estava interessada na parte técnica - Hurricanes e Spitfires II e depois mudaram para Lark V. Depois começaram a pilotar...


- Isso não me interessa - interrompeu Noelle impacientemente. - Onde é que está ele agora? Barbet aguardava a pergunta. - Nos Estados Unidos. - Reparou na reacção que teve antes de poder dominar-se, eaproveitou-se sem escrúpulos da mesma. -Em Washington - prosseguiu ele. - De licença? Barbet abanou a cabeça. - Não. Saiu da R.A.F. É capitão da Força Aérea Americana. Contemplou Noelle, que digeria a informação e cuja expressão não dava nenhum indício do que sentia. Mas Barbet ainda não tinha acabado. Apanhou um recorte de jornal com os dedos em forma de salsicha e amarelos da nicotina e entregou-lho. - Acho que vai achar isto interessante - disse ele. Viu Noelle empertigar-se, parecendo que sabia do que se tratava. Era um recorte do Daily News de Nova Iorque. A legenda dizia Herói daguerra casa-se sob uma fotografia de Larry Douglas com a noiva. Noelle olhou-a demoradamente, depois estendeu a mão para receber o resto do processo. Christian Barbet encolheu os ombros e meteu todos os papéis num envelope amarelo e entregou-lho. Quando abriu a boca para fazer o discurso de despedida, Noelle Page disse: - Se não tem correspondente em Washington, arranje um. Ficarei à espera de relatórios semanais. - E partiu, deixando Christian Barbet a olhá-la num estado de total confusão. Quando regressou ao apartamento, Noelle foi para o quarto, transportada e retirou os recortes do envelope. Pô-los sobre a cama e examinou-os. Larry, na fotografia, era exactamentecomo se lembrava dele. Aliás, a imagem mental que tinha era mais nítida do que a do jornal, pois Larry estava mais vivo na sua mente do que na realidade. Não passava um dia sem que Noelle se lembrasse dos dias que vivera com ele. Era como se tivessem ambos sido protagonistas duma peça havia muito tempo, e conseguia facilmente recordar-se de cenas, representando umas em certos dias e guardando outras para outros dias, de forma que cada lembrança fosse sempre viva e fresca. Noelle prestou atenção à noiva de Larry: que via era um rosto bonito, jovem e inteligente com um sorriso nos lábios. O rosto do inimigo. Um rosto que teria de ser destruído da mesma forma que Larry. Noelle permaneceu trancada com a fotografia a tarde inteira. Horas mais tarde, quando Armand Gautier bateu à porta do quarto, Noelle disse-lhe que se fosse embora. Aguardou na sala, apreensivo em relação à disposição dela, mas, quando por fim saiu, parecia alegre e bem-disposta como nunca, como se tivesse recebido uma óptima notícia. Não deu qualquer explicação a Gautier, e ele conheci-a o bastante para não lhe pedir nenhuma. Depois do


teatro, nessa noite, amou-o com uma paixão desenfreada como nos primeiros dias que passaram juntos. Depois Gautier permaneceu deitado, tentando perceber a bela rapariga que dormia a seu lado, mas não tinha um indício. À noite Noelle Page sonhou com o coronel Muller. O oficial albino e imberbe torturava-a com um ferro em brasa, gravando-lhe suásticas a fogo na carne. Interrogava-a continuamente em voz tão baixa que Noelle mal o ouvia, mantendo o metal quente sobre ela, mas de repente era Larry gritando de dor. Noelle acordou banhada em suores frios, o coração a bater, e acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Acendeu um cigarro com dedos trementes e tentou acalmar-se, Pensou em Israel Katz. A perna dele fora amputada com um machado, e, embora não o tivesse visto desde aquela tarde na padaria soubera pelo porteiro que estava vivo, embora debilitado. Era cada vez mais difícil escondê-lo, e só por si não conseguia. As buscas tinham-se intensificado. Se ia ser levado para fora de Paris, teria de ser rapidamente. Noelle de facto nada fizera para que a Gestapo pudesse prendê-la: até agora. Seria o sono uma premonição, advertência para não ajudar Israel Katz? Ficou na cama perdida em lembranças. Ajudara-a na altura do aborto. Ajudara-a a matar o filho de Larry. Dera-lhe dinheiro para arranjar um emprego. Muitos outros homens tinham-lhe feito coisas mais importantes do que isso. Mas Noelle não se sentia em dívida para com eles. Todos eles, incluindo o pai, quiseram algo em troca, e ela pagara na íntegra tudo o que alguma vez recebera. Israel Katz nunca lhe pedira nada. Tinha de ajudá-lo. Noelle não subestimou o problema. O coronel Muller já estava desconfiado dela. Lembrouse do sonho e teve um arrepio. Devia ter cuidado para que Muller não fosse capaz de provar nada contra ela. Israel Katz tinha de ser levado às escondidas para fora de Paris, mas como? Noelle tinha a certeza de que todas as saídas estavam rigorosamente vigiadas. As estradas e o rio deviam estar igualmente vigiados. Os nazis podiam ser porcos, mas eram porcos eficientes. O desafio poderia ser fatal, mas estava disposta a enfrentá-lo. O problema era que não havia ninguém a quem pudesse recorrer. Os nazis haviam reduzido Armand Gautier a uma gelatina trémula. Não, teria defazeristo sozinha. Pensou no coronel Muller e no general Scheider, e perguntou a si própria qual deles sairia vitorioso em caso de embate. Na noite a seguir ao sonho, Noelle e Armand foram a uma ceia. O anfitrião era Leslie Rocas, um abastado patrono das artes. Era uma colecção eclética de convidados banqueiros, artistas, dirigentes políticos e um grupo de mulheres bonitas cuja presença, na opinião de Noelle, vertia principalmente em proveito dos alemães que ali estavam. Gautier reparara na preocupação de Noelle, mas quando lhe perguntou o que se passava respondeulhe que estava tudo bem. Quinze minutos antes do anúncio da ceia, chegou um novo convidado; assim que Noelle o viu, sabia que o seu problema ia ser resolvido. Aproximou-se da anfitriã e disse: - Querida, seja um anjo e sente-me ao lado de Albert Heller. Albert Heller era o dramaturgo mais conhecido de França. Era um homem enorme e corpulento com os seus 60 anos, uma farta cabeleira branca e ombros largos e descaídos.


Como francês era invulgarmente alto, mas ter se-ia destacado numa multidão de qualquerpois possuía um rosto notavelmente feio e uns olhos verdes penetrantes, aos quais nada escapava. Heller tinha uma imaginação muito fértil e escrevera acima de uma vintena de peças. Andava atrás de Noelle para que integrasse o elenco duma outra peça sua, e enviara-lhe uma cópia do manuscrito. Assim que se sentou a seu lado ao jantar, Noelle disse: - Acabei de ler a peça que me mandou, Albert. Adorei. O seu rosto iluminou-se. - Quer fazê-la? Noelle colocou a mão sobre a dele. - Bem me apetecia, querido. Armand já me comprometeu para uma outra peça. Ele franziu o sobrolho, depois suspirou resignadamente. - Merde! Ah, bem, um dia havemos de trabalharjuntos. - Gostaria muito - disse Noelle. - Adoro o seu estilo de escrever. Fascina-me a forma como os escritores criam os enredos. Não sei como conseguem fazê-lo. Ele encolheu os ombros. - Da mesma forma como você representa. É a nossa profissão, a modo de ganharmos a vida. - Não - respondeu ela. - A habilidade com que usa a sua imaginação é para mim um milagre. - Deu uma gargalhada de embaraço. - Eu bem sei. Eu tenho tentado escrever. - Oh? - disse ele num tom educado. - Sim, mas emperrei. - Noelle respirou fundo e depois passou o olhar pela mesa. Todos os outros convidados entretinham-se nas suas conversas. Inclinou-se, e Albert Heller baixou a voz. - Estou num ponto em que a minha heroína tenta fazer sair o amante de Paris. Os nazis andam à procura dele. - Ah. - O homem enorme ficou calado, a brincar com o garfo que batia no prato. Depois disse: - É fácil. Vista-lhe uma farda alemã e misture-o com eles. Noelle suspirou e disse. - Há um problema. Ele foi ferido. Não pode andar. Perdeu uma perna.


O tamborilar parou de repente. Houve uma longa pausa, depois Heller disse: - Uma barcaça no Sena? - Vigiado. - E andam a fazer buscas a todo o transporte que sai de Paris: - Andam. - Então terá de pôr os nazis a fazerem o serviço por si. - Como? - A sua heroína - disse ele, sem olhar para Noelle -, ela é atraente? - É. - Faça de conta - disse ele - que a sua heroína se tornava amiga dum oficial alemão. Umaalta patente. É possível? Noelle virou-se para olhá lo, mas ele evitou-lhe o olhar. - É. - Então não há problemas. Ela que marque um encontro com o oficial. Vão passar o fim desemana fora de Paris. Os amigos podiam esconder o seu herói no porta-bagagens do carro. O oficial tem de ser muito importante para não revistarem o carro. - Se a mala do carro estiver trancada-perguntou Noelle -, não poderá sufocar? Albert Heller sorveu um pouco de vinho, calmamente, perdido em pensamentos. Disse por fim: - Não necessariamente. Falou com Noelle durante cinco minutos, em voz baixa, e quando terminou disse: - Boa sorte. - E nem nessa altura olhou para ela. Logo de manhã Noelle telefonou ao general Scheider. Atendeu a telefonista, e momentos depois ligaram Noelle a um ajudante e por fim à secretária do general. - Quem deseja falar com o general Scheider, por favor? - Noelle Page - disse ela, pela terceira vez. - Lamento, mas o general está numa reunião. Não pode ser incomodado.


Hesitou. - Posso voltar a ligar mais tarde? - Estará em reunião todo o dia. Sugiro que escreva uma carta ao general a expor o seu assunto. Noelle considerou a ideia por um momento, e um sorriso irónico aflorou-lhe aos lábios. - Deixe estar - disse ela. - Diga-lhe apenas que eu telefonei. Uma hora depois, o telefone tocou. Era o general Scheider. - Peço imensa desculpa - disse ele. -Aquele idiota só agora me deu o seu recado. Eu teria dado ordens para que me passassem as suas chamadas, mas nunca me ocorreu que você me telefonasse. - Quem deve pedir desculpa sou eu - disse Noelle. - Sei que está muito ocupado. - Por favor. Que posso fazer por si? Noelle hesitou, escolhendo as palavras. - Lembra-se do que disse a nosso respeito ao jantar? Houve então uma curta pausa. - Lembro-me. - Tenho pensado muito em si, Hans. Gostaria muito de vê- lo. - Querjantar comigo hoje à noite? - Houve uma ansiedade repentina na voz dele. - Não em Paris - respondeu Noelle. - Se vamos estar juntos, gostaria que fosse longe daqui. - Onde? - perguntou o general Scheider. - Quero que seja um lugar especial. Conhece Etratat? - Não. - É uma aldeiazinha amorosa a cerca de cento e cinquenta quilómetros de Paris, perto do Havre. Há lá uma velha estalagem, que é um sossego. - É uma ideia maravilhosa, Noelle. Mas será difícil ausentar- me agora - disse ele em tom de desculpa. - Estou a meio de...


- Compreendo - interrompeu Noelle gelidamente -, talvez numa outra altura. - Espere! - Houve uma longa pausa. - Quando é que poderia sair? - Sábado à noite depois do espectáculo. - Vou tratar de tudo - disse ele. - Podemos apanhar um avião para... - Por que nãovamos de carro? -perguntou Noelle. -É tão agradável. - Como queira. Passo no teatro para buscá-la. Noelle raciocinava rapidamente. - Primeiro tenho de vir a casa mudar-me. Passe no meu apartamento, está bem? - Como queira, minha querida. Até sábado à noite. Quinze minutos depois, Noelle falava com o porteiro. Ele escutava enquanto ela falava, sacudindo a cabeça em vigoroso protesto. - Não, não, não! Darei o recado ao nosso amigo, Mademoiselle, mas ele irá recusar. Estaria louco se aceitasse! Já agora, pedia também que lhe arranjassem um emprego no quartelgeneral da Gestapo. - Não irá falhar -assegurou-lhe Noelle. -Foi uma ideia do melhor cérebro de França. Quando saiu da entrada do prédio nessa tarde, viu um homem encostado à parede fingindo que lia absorvido um jornal. Assim que Noelle pôs o pé na rua invernosa, o homem endireitou-se e pôs-se asegui-la a uma distância discreta. Noelle vagueou pelas ruas vagarosamente, parando para ver todas as montras. Cinco minutos depois de Noelle ter deixado o prédio, o porteiro saiu, olhou em volta para ter a certeza de que não era observado, depois mandou parar um táxi e deu a morada duma loja de artigos de desporto em Montmartre. Duas horas mais tarde o porteiro informou Noelle. - Virão entregá-lo sábado à noite. Sábado à noite, quando Noelle acabou a sua actuação, o coronel Kurt Muller da Gestapo esperava-a nos bastidores. Noelle sentiu um arrepio. O plano de fuga fora pensado até ao segundo, e não havia lugar para quaisquer demoras. - Vi a sua representação na primeira fila, Frãulein Page - disse o coronel Muller. - Cada vez melhor. A voz fina e aguda trouxe-lhe de volta a memória viva do seu sonho.


- Obrigada, coronel. Se me dá licença, vou ter de me trocar. Noelle fez menção de caminhar para o camarim, e ele colocou-se junto dela. - Eu acompanho-a - disse o coronel Muller. Ela entrou no camarim, seguida pelo coronel albino e calvo. Ele instalou-se numa poltrona. Noelle hesitou por um momento e começou a despir-se enquanto ele a observava com indiferença. Sabia que erahomossexual, o que o privava de uma arma valiosa - a sua sexualidade. - Um passarinho contou-me uma coisa ao ouvido - disse o coronel Muller. - Ele vai tentar fugir esta noite. O coração de Noelle bateu forte, mas o seu rosto não se alterou. Começou a tirar a pintura para fazer tempo e perguntou: - Quem é que vai tentar fugir esta noite? - O seu amigo, Israel Katz. Noelle voltou-se, e só então se apercebeu subitamente de que tirara o soutien. - Não conheço ninguém... - Captou o fulgor rápido e triunfante! E com os olhos róseos deu conta da armadilha mesmo em cima da hora: - Espere - disse ela. - Está a falar dum jovem médico interno? - Ah, afinal lembra-se dele. - Muito pouco. Tratou-me de uma pneumonia aqui há uns tempos. De um aborto provocado - disse o coronel Muller naquela voz fina e aguda. O medo invadiu-a de novo. A Gestapo não se teria dado a tanto trabalho se não tivesse a certeza do seu envolvimento. Era uma idiota por ter-se metido nisto; mas, enquanto reflectia, sabia que era tarde de mais para voltar atrás. As rodas já estavam em movimento e dentro de algumas horas Israel Katz estaria livre... ou morto. E ela? O coronel Muller dizia: - Disse que o viu pela última vez no café aqui há umas semanas. Noelle abanou a cabeça. - Eu não disse nada disso, coronel. O coronel Muller fitou-a, deixando cair insolentemente o olhar sobre os seus seios nus, o


ventre e parando nas cuecas transparentes. Depois voltou a olhar Noelle de frente e suspirou. - Adoro coisas belas - disse suavemente. - Seria uma pena ver uma beleza como a sua ser destruída. E tudo por causa de um homem que não lhe diz nada. Qual é o plano de fuga do seu amigo, Fràulein? Havia uma calma na voz dele que lhe causou um arrepio na espinha. Transformou-se em Annette, a personagem inocente e desamparada da peça. - Realmente não sei do que é que está a falar, coronel. Gostaria de ajudá-lo, mas não seicomo. O coronel Mulller olhou para Noelle durante muito tempo, depois rigidamente pôs-se de pé. - Eu dir-lhei como, Fraulein - prometeu ele suavemente, o que me dará o maior prazer. Virou-sejunto à porta para dar uma derradeira alusão. – Apropósito, aconselhei o general Scheider a não sair consigo este fimde semana. Noelle sentiu um peso no coração. Era tarde de mais para entrarem contacto com Israel Katz. - Os coronéis interferem sempre na vida privada dos generais - Desta vez, não - disse o coronel Muller pesarosamente. General Scheider irá comparecer ao encontro. - Voltou-se e saiu. Noelle ficou especada, o coração a bater depressa. Olhou para o relógio de ouro que estava sobre o toucador e começou rapidamente a vestir-se. Quando faltava um quarto de hora para a meia-noite, o porteiro telefonou a Noelle para avisar que o general Scheider ia caminho do apartamento. A voz tremia-lhe. - O motorista está no carro? - perguntou Noelle. - Não, madenoiselle - respondeu o porteiro cautelosamente. - Vai a subir com o general. - Obrigada. Noelle desligou o telefone e dirigiu-se apressadamente para o quarto para verificar a bagagem uma vez mais. Nada podia correr mal. A campainha da porta da frente tocou, e Noelle atravessou a sala e abriu a porta. O general Scheider estava no corredor, tendo atrás de si o motorista, umjovem capitão. O general Scheider estava à civil e tinha um ar muito distinto num fato cinzento-escuro impecável, camisa de um azul-suave e uma gravata preta.


- Boa noite - disse ele formalmente. Entrou e fez um sinal com a cabeça para o motorista. - As minhas malas estão no quarto - disse Noelle. Indicou a porta. - Obrigado, Fraulein. O capitão entrou no quarto: O general Scheider aproximou-se de Noelle e pegou-lhe nas mãos. - Sabe no que estive a pensar todo o dia? - perguntou ele. - Que poderia não encontrálaaqui, que poderia ter mudado de ideias. Sempre que o telefone tocava, eu receava. - Eu nunca falto ao prometido - disse Noelle. Observava o capitão que saía do quarto com o estojo de maquilhagem e a mala de fim-desemana na mão. - Há mais alguma coisa? - perguntou ele. - Não - disse Noelle. - É tudo. O capitão pôs as malas à porta. - Pronta? - perguntou o general Scheider. - Vamos tomar uma bebida para a viagem - sugeriu Noelle. Abriu uma garrafa de champanhe que estava no bar, dentro de um balde de gelo. - Permita-me. -Aproximou-se do balde de gelo e abriu o champanhe. - Vamos brindar a quê? - A Etratat. Examinou-a por um momento, dizendo em seguida: - A Etratat. Tocaram os copos num brinde e beberam. Quando Noelle colocava o copo na mesa, olhou sub-repticiamente para o relógio de pulso. O general Scheider falava com ela, mas Noelle só ouvia metade do que dizia. O pensamento dela visualizava o que estava a acontecer lá em baixo. Devia ser cautelosa. Se se adiantasse ou atrasasse demais, seria fatal. Para todas as pessoas. - Está a pensar em quê? - perguntou o general Scheider. Noelle virou-se rapidamente.


- Em nada. - Mas não estava a prestar atenção. - Desculpe. Acho que estava a pensar em nós. - Voltou-se para ele e deu-lhe um sorriso fugaz. - Você intriga-me - disse ele. - As mulheres não são todas um enigma? - Não como você. Eu nunca apostaria que você é caprichosa e, no entanto... - ele fez um gesto -primeiro não me quer ver, e de repente vamos passar um fim desemana no campo. - Está arrependido, Hans? - Claro que não. No entanto, gostava de saber: porquê o campo? - Já lhe expliquei. - Ah, pois - disse o general Scheider. - É romântico. Aí está outra coisa que me intriga. Julgo-a uma realista e não romântica. - Que está a tentar dizer? - perguntou Noelle. - Nada - respondeu o general à vontade. - Estou só a pensar em voz alta. Gosto de solucionar mistérios, Noelle. Com o tempo vou saber o que você é. Ela encolheu os ombros. - Quando souber a solução, o mistério poderá não ser interessante. - Veremos. - Ele pousou o copo. - Vamos? Noelle levantou os copos de champanhe vazios. - Vou só pôr isto no lava-louça. O general Scheider seguiu-a com o olhar enquanto ela se dirigia para a cozinha. Noelle era uma das mulheres mais bonitas e desejáveis que conhecera, e fazia tenções de possuí-la. Isso não significa porém, que fosse estúpido ou cego. Ela andava atrás de qualquer coisa. Tencionava descobrir do que se tratava. O coronel Muller prevenira-o de que era muito provável que ela estava a dar ajuda a umamigo perigoso do reich, e o coronel Muller raramente se enganava. Se tinha razão, Noelle Page estava provavelmente a contar com o general Scheider para protegê-la de alguma forma. Se assim fosse, ela nada sabia da mentalidade militar alemã e muito menos a seu respeito. Entregá-la-ia à Gestapo sem a


mínima hesitação, mas primeiro queria satisfazer o seu desejo. Esperava pelo fim-desemana com ansiedade. Noelle saiu da cozinha. Trazia uma expressão preocupada no rosto. - Quantos sacos levou o seu motorista para baixo? - perguntou ela. - Dois - respondeu ele. - Uma mala de fim de-semana e um estojo de maquilhagem. Ela fez uma careta. - Oh, que maçada. Desculpe, Hans. Ele esqueceu-se desta. Importa-se? Fitou Noelle, que se dirigiu para o telefone, levantou e falou. - Importa-se de pedir ao motorista do general que suba outra vez? - disse ela. - Há mais uma mala. - Desligou o telefone. - Sei que vamos só por um fim-de-semana - sorriu ela -, mas quero agradar-lhe. - Se deseja agradar-me - disse o general Scheider -, não vai precisar de muita roupa. - Ele olhou de relance para o retrato de Armand Gautier que estava sobre o piano. - O Sr. Gautier sabe que vai sair comigo? - perguntou. - Sabe - mentiu Noelle. Armand estava em Nice reunido com um produtor por causa de um filme, e ela não vira razão para alarmá-lo com os seus planos. A campainha da porta tocou e Noelle foi até à porta e abriu-a. Era o capitão. - Parece que há mais um saco - disse ele. - Sim - desculpou-se Noelle. - Está no quarto. O capitão fez um sinal afirmativo com a cabeça e entrou no quarto. - Quando é que tem de estar de volta a Paris? - perguntou-lhe o general Scheider. Noelle virou-se e olhou para ele. - Eu quero ficar o máximo possível. Regressaremos segunda-feira à tardinha. Teremos dois dias. O capitão saiu do quarto. - Desculpe-me, Fraulein. Como é que é a mala? - É uma mala grande azul - disse Noelle. Virou-se para o general. - Arrumei lá dentro um vestido novo que ainda não estreei. Guardei para si.


Falava agora pelos cotovelos, tentando disfarçar os nervos. O capitão regressara ao quarto. Momentos depois, voltou a sair. - Desculpe - disse ele. - Não consigo achá-la. - Dê-me licença - disse Noelle. Entrou no quarto e começou a procurar dentro do roupeiro. A idiota da criada deve tê-la guardado aí num canto - disse ela. Os três procuraram em todos os armários do apartamento. Foi o general que finalmente encontrou a mala no roupeiro da entrada. Levantou-a e disse: - Parece que está vazia. Noelle abriu logo a mala e examinou-a. Não havia nada lá dentro. - Oh, aquela tonta - disse ela. - Deve ter encafuado o meu lindíssimo vestido novo na outra mala. Espero que não fique todo amarrotado. -Suspirou de desespero. - Na Alemanha também têm tantos problemas com as criadas? - Parece-me que é assim em todo o sítio - respondeu o general Scheider. Ele observava Noelle atentamente. Tinha um comportamento estranho, falando demasiado. Reparou no olhar dele. -A sua presença faz-me sentir uma colegial - disse Noelle. - Não me lembro de ter estado assim tão nervosa. O general Scheider sorriu. Afinal era isso. Ou estaria ela a pregar-lhe alguma partida? Seestava, em breve descobriria. Olhou de relance para o relógio. - Se não formos agora, vamos lá chegar muito tarde. - Estou pronta - disse Noelle. Pediu a Deus que os outros também estivessem. Quando chegaram ao átrio, depararam com o porteiro, branco como a cal da parede. Noelle pensou que alguma coisa correra mal. Olhou para ele e busca de um sinal, um gesto, mas, antes que respondesse, o general tomara o braço de Noelle e fê-la sair a porta. A limusina do general Scheider estava parado mesmo à frente da porta. O portabagagensestava fechado. A rua estava deserta. O motorista apressou-a a abrir a porta. Noelle virou-se para ver se viao porteiro no átrio, mas o general mexeu-se e tapou-lhe a vista. Depósito? Noelle olhou para a bagageira num relance, mas ficou na mala. Só dali a umas horas saberia do êxito dos seus planos, e a aflição seria insuportável. - Lido bem consigo? - O general Scheider olhava-a fixamente. Pressentia que algo correra muito mal. tinha de encontrar uma desculpa para voltar àportaria, para falar a sós com o porteiro por uns segundos. Forçou um sorriso nos lábios.


- Lembrei-me agora - disse Noelle. - Um amigo meu vai telefonar-me. Tenho de deixar um recado... O general Scheider agarrou-lhe o braço com força. - Tarde de mais - sorriu ele. - A partir de agora, só deve pensar em mim. - E meteu-a nocarro. Um momento depois iam de viagem. Cinco minutos depois de a limusina do general Scheider se ter afastado do edifício, umMercedes preto travou bruscamente à frente do prédio, e do veículo saíram o coronelMuller e dois homens da Gestapo. O coronel Muller deu um olhar rápido para os dois lados da rua. - Já se foram embora - disse ele. Os homens correram até à portaria do prédio de Noelle e tocaram à campainha do porteiro. A porta abriu-se e o porteiro surgiu no corredor, com um ar assustado. - O que é que... ? - O coronel Muller empurrou- para dentro do pequeno apartamento. - A Fraulein Page! - perguntou bruscamente. - Onde é queestá Ela? O porteiro olhou-o, cheio de pânico. - Ela... ela saiu - disse ele. - Isso sei eu, estúpido! Quero saber é para onde. O porteiro abanou a cabeça sem saber o que dizer. - Não faço ideia, senhor. Só sei que saiu com um oficial do exército. - Ela não lhe disse onde poderia ser contactada? - N... não, senhor. Mademoiselle Page não confia em mim. O coronel Muller lançou ao velho um olhar feroz por um momento e rodou sobre os calcanhares. - Não devem estar longe - disse aos seus homens. - Contactem as patrulhas de estrada o mais rápido possível. Que retenham o carro do general Scheider até eu chegar, e que me telefonem imediatamente! Por causa da hora, o trânsito militar era escasso, o que significa que não havia virtualmente trânsito nenhum. O carro do general Scheider virou para a Rua Oeste, que era uma saída de Paris, para Versalhes. Atravessaram Mantes, Vernon e Gaillon e em vinte e cinco minutos aproxìmavam-se do principal cruzamento rodoviário, do qual partiam as estradas para


Vichy, Havre e a Côte d'Azur. Noelle julgou que se dera um milagre. Iam sair de Paris sem que lhe tivessem mandado parar. Devia ter adivinhado que até os alemães, apesar de toda a sua eficiência, não seriam capazes de verificar todas as ruas da cidade. E nesse preciso momento surgiu da escuridão em frente uma patrulha de estrada. No centro da estrada piscavam umas luzes vermelhas intermitentes, e atrás das luzes um camião do exército alemão bloqueava a autostrada. Na beira da estrada estavam meia dúzia de soldados alemães e dois carros da Polícia Francesa. Um tenente alemão fez sinal à limusina e, assim que a mesma parou, dirigiu-se na direcção do motorista. - Saia e identifique-se! O general Scheider abriu o vidro, pôs a cabeça de fora e disse num tom irritado. - General Scheider. Mas que raio se passa aqui? O tenente pôs-se em sentido. - Desculpe, meu general. Não sabia que era o seu carro. Os olhos do general percorreram a barricada. - Qual a razão de tudo isto? - Temos ordens para inspeccionar todos os veículos vindos de Paris, Herr General. Todas as saídas da cidade estão bloqueadas. O general virou-se para Noelle. - Esta Gestapo. Lamento muito, Liebchen. Noelle conseguia sentir o sangue a esvair-se-lhe do rosto, e ficou grata pela escuridão do carro. Quando falou, a voz estava controlada- Não tem importância - disse ela. Pensou na carga que estava na bagageira. Se o plano tinha falhado, Israel Katz estava lá dentro, e dentro de um minuto seria preso. Tal como ela. O tenente alemão voltou-se para o motorista. - Abra o porta-malas, por favor. - Só trazemos malas lá dentro, nada mais - protestou o capitão. - Eu próprio as coloquei. - Lamento, capitão. As ordens que recebi são bem claras. Todos os veículos vindos de Paris


têm de ser inspeccionados. Abra. A resmungar, o motorista abriu a porta e preparou-se para abri-lo. O pensamento de Noelle galopava furiosamente. Tinha de achar meio para os impedir, sem levantar suspeitas. O motorista estavafora do carro. O tempo esgotara-se. Noelle lançou um olhar de soslaio para o rosto do general Scheider. Tinha os olhos semicerrados e os lábios comprimidos de raiva. Virou-se para ele e disse ingenuamente: - Vamos ter de sair, Hans? Vão revistar-nos? Sentia o corpo dele tenso de fúria. - Espere! -Avoz do general pareceu o estalo dum chicote. -Vá para o carro - disse ele ao motorista. Virou-se para o tenente com a voz cheia de raiva. - Diga a quem lhe deu essas ordens que as mesmas não se aplicam a generais do Exército Alemão. Eu não recebo ordens de tenentes. Afaste a patrulha do meu caminho. O pobre tenente fixou o rosto furioso do general, bateu os calcanhares e disse: - Pois não, general Scheider. - Fez sinal ao condutor do camião que bloqueava a estrada, e o camião encostou-se à beira. - Vamos embora - ordenou o general Scheider. E o carro desapareceu na noite. Lentamente Noelle descontraiu o corpo, sentindo que a tensão a abandonava. A crise passara. Como gostaria de saber se Israel Katz estava na mala do carro. E se estava vivo. O general Scheider virou-se para Noelle e ela sentiu que a raiva ainda fervilhava nele. - Peço desculpa - disse ele, extenuado. - Esta guerra é estranha. Às vezes é preciso lembrar à Gestapo que é a tropa quem dirige guerra. Noelle sorriu-lhe e meteu o braço no dele. - E que a tropa é dirigida pelos generais. - Exactamente - concordou ele. - A tropa é dirigida por generais. O coronel Muller vai ter de aprender uma lição. Dez minutos depois de o carro do general Scheider ter passado a barricada, telefonaram do Quartel-General da Gestapo a alertar para estarem atentos ao carro. - Já passou por aqui - informou o tenente, invadido por um pressentimento. Um momento depois, tinha o coronel Muller na linha.


- Há quanto tempo? - perguntou o oficial da Gestapo em tom leve. - Dez minutos. - Revistaram-lhes o carro? O tenente sentiu uma revolta nos intestinos. Não, coronel. O general não deixou... - Scheiss! Para onde é que ia? O tenente engoliu em seco. Quando voltou a falar, fê-lo na voz desesperançada dum homem que sabia ter o futuro destruído. - Não tenho a certeza - respondeu ele. - Este cruzamento é muito grande. Poderia ter seguido para o interior em direcção aosul ou para o litoral, na direcção do Havre. - Apresente-se no Quartel-general da Gestapo amanhã às nove horas. No meu gabinete. - Sim, meu coronel - respondeu o tenente. Furiosamente, o coronel Muller desligou. Virou-se para os outros dois homens que estavama seu lado e disse: - O Havre. Vá buscar o meu carro. Vamos à caça das baratas. A estrada para o Havre serpenteia ao longo do rio, por entre o vale do Sena com a suas ricas colinas e quintas férteis. A noite estava clara e estrelada e as casas das quintas ao longe eram poços como oásis na escuridão. No conforto do assento traseiro da limusine Noelle e o general Scheider conversavam. Falou-lhe da mulher e filhos e de como era difícil o casamento para um oficial do exército. Noelle escutou com compreensão e disse-lhe como era difícil a actriz tervida romântica. Cada um estava consciente de que a vida era um jogo, ambos mantendo-a a um nível superficial que traísse algo mais profundo. Noelle nem por um instante subestimou a inteligência do homem que se sentava a seu lado, e compreendeu perfeitamente o perigo enorme da aventura em que se metera. Sabia que o general Scheider era esperto demais para acreditar que elao tinha achado repentinamente irresistível, que devia desconfiar que ela andava atrás de alguma coisa. Noelle contava que puderia levarlhe a melhor no jogo que jogavam. O general mal falou no assunto da guerra, mas disse algo que se lembrou durante muito tempo. - Os ingleses são uma raça estranha - disse ele. - em paz são de relacionamento impossível, mas numa crise são magníficos. Um marinheiro inglês só o é verdadeiramente quando o navio está a ir ao fundo. Chegaram ao Havre às primeiras horas da manhã, a caminhoda aldeia de Ertrat.


- Podemos parar para comer? - perguntou Noelle. - Estou a morrer de fome. O general Scheider anuiu. - Claro, se quiser. -Elevou avoz. -Veja se encontra um daqueles restaurantes que estão abertos toda a noite. - Tenho a certeza de que há um junto ao cais - sugeriu Noelle. O capitão obedientemente virou o carro para a zona portuária. Parou o carro junto à água, onde vários cargueiros estavam atracados. No quarteirão seguinte um letreiro dizia Café. O capitão abriu a porta e Noelle saiu, seguida pelo general Scheider. - Deve estar sempre aberto por causa dos trabalhadores da doca - disse Noelle. Ouviu o som dum motor e virou-se. Era uma empilhadora que se aproximara e pararajunto à limusina. Dois homens de fato- macaco e bonés de pala comprida que lhes ocultavam o rosto saíram da máquina. Um deles lançou um olhar demorado a Noelle, depois tirou a mala das ferramentas e começou a apertar o garfo da empilhadora. Noelle sentiu uma contracção nos músculos do estômago. Deu o braço ao general Scheider, e dirigiram-se para o café. Noelle virou-se para o motorista que se sentava ao volante. - Ele não quererá tomar um café? - perguntou Noelle. - Ele fica no carro - disse o general. Noelle fitou. O motorista não podia ficar no carro, ou tudo iria por água abaixo. Noelle, porém, não se atreveu a insistir. Caminharam até à esplanada sobre um pavimento empedrado e desnivelado. De repente, ao dar um passo, torceu o tornozelo e caiu, emitindo um grito agudo de dor. O general Scheider ainda esticou um braço para socorrê-la, mas já o seu corpo batera nas pedras. - Não se aleijou? - perguntou ele. O motorista, vendo o que acontecera, abandonou o volante do carro e veio a correr ao encontro deles. - Desculpe - disse Noelle -, mas torci o tornozelo. Parece que está partido. O general Scheider passou a mão destramente sobre o tornozelo. - Não está inchado. Deve ter sido apenas uma entorse. Consegue pôr-se de pé? - Não... não sei - disse Noelle. O motorista chegou, colocando-se a seu lado, e os dois homens ergueram-na. Noelle deu


um passo e o tornozelo deu de si. - Desculpem-me - gemeu ela. - Se me pudesse sentar. - Ajude-me a levá-la até ali - disse o general Scheider, apontando para o café. Com os dois homens a apoiá-la em ambos os lados Noelle entrou no restaurante. Quando atravessou a porta, arriscou um olhar rápido para o carro. Os dois trabalhadores da doca estavam junto ao porta-bagagens da limusina. - Tem a certeza de que não preferia seguirjá para Ertrat? - perguntava o general. - Não, eu vou ficar bem, acredite - respondeu Noelle. O proprietário levou-os para uma mesa do canto, e os dois homens instalaram-na numa cadeira. - Dói-lhe? - perguntou o general Scheider. - Um pouco - respondeu Noelle. Pôs a mão sobre a dele. - Não se preocupe. Não deixarei que isto nos prejudique, Hans. Na altura em que Noelle e o general Hans Scheider estavam no café, o coronel Muller e dois dos seus homens aproximavam-se rapidamente dos limítrofes da cidade do Havre. O comandante da polícia local fora acordado e aguardava os homens da Gestapo em frente à esquadra da polícia. - Um agente localizou o carro do general -disse ele. -Está estacionado na zona do cais. Um brilho de satisfação surgiu no rosto do coronel Muller. - Leve-me até lá - ordenou ele. Cinco minutos depois, o carro da Gestapo que transportava o coronel Muller, os seus dois homens e o comandante da polícia parara de rompante junto à viatura do general Scheider no cais. Os homens saíram e cercaram o carro. Nesse momento, o general Scheider, Noele e o motorista preparavam-se para abandonar o café. O motorista foi quem primeiro reparou nos homens que se encontravam junto ao carro. Correu na sua direcção. - Que se passa? - perguntou Noelle, reconhecendo nesse preciso momento a figura do coronel Muller ao longe e sentindo um calafrio invadi-la. - Não sei - disse o general Scheider. Começou a andar na direcção da limusina com passos largos, deixando Noelle atrás coxeando. - Que faz você aqui? - perguntou o general Scheider ao coronel Muller assim que chegou ao carro.


- Lamento perturbar as suas férias - respondeu o coronel Muller, sem maneiras. - Gostava de inspeccionar a mala do seu carro, general. - Só há lá bagagem. Noelle chegou ao ajuntamento. Reparou que a empilhadora já lá não estava. O general e os homens da Gestapo entreolhavam-se furiosamente. - Tenho de insistir, meu general. Tenho razões para crer que um inimigo procurado pelo Terceiro Reich está escondido ali dentro e que a sua convidada é cúmplice dele. O general Scheider fitou longamente e depois virou-se para examinar Noelle. - Não faço ideia do que ele está a dizer - disse ela com firmeza. Os olhos do general baixaram até ao tornozelo dela, tomando depois uma decisão, e voltou-se para o motorista. - Abra. - Pois não, meu general. Todos os olhares se fixaram no porta-bagagens quando o motorista deu a volta ao manípulo. Noelle sentiu subitamente que ia perder os sentidos. Lentamente, a porta abriuse. O porta-bagagens estava vazio. - Roubaram-nos a bagagem! - exclamou o motorista. O rosto do coronel Muller estava contorcido de fúria. - Ele fugiu! - Quem é que fugiu? - Le Cafard - trovejou o coronel Muller. - Umjudeu chamado Israel Katz. Saiu de Paris no porta-bagagens deste carro. - Isso é impossível - retorquiu o general Scheider. - O porta-bagagens estava trancado. Ele teria sufocado. O coronel Muller examinou o porta-bagagens por um momento, depois voltou-se para um dos seus homens. - Meta-se lá dentro. - Sim, meu coronel.


Obedientemente, o homem enfiou-se no porta-bagagens. O coronel Muller fechou bem a porta e olhou para o relógio. Nos quatro minutos seguintes, todos permaneceram em silêncio, cada um entretido nos seus pensamentos. Por fim, depois do que pareceu ter sidouma eternidade para Noelle, o coronel Muller abriu a porta. O homem perdera os sentidos. O general Scheider voltou-se para o coronel Muller com uma expressão de desdém no rosto. - Se estava alguém aí dentro - declarou o general -, encontraram foi o cadáver dele. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa, coronel? O oficial da Gestapo abanou a cabeça, fervilhando de raiva e frustração. O general Scheider voltou-se para o motorista. - Vamos embora. Ajudou Noelle a entrar no carro, e seguiram para Ertrart, afastando-se do grupo de homens, que diminuíam na distância. O coronel Kurt Muller ordenou uma busca imediata à zona do cais, mas só na tarde do dia seguinte encontraram uma garrafa de oxigénio dentro de um barril num canto dum armazém abandonado. Um cargueiro africano levantara ferros do Havre com destino à Cidade do Cabo na noite anterior, estando agora algures em alto mar. A bagagem desaparecida surgiu dias depois na secção de perdidos e achados da Gare du Nord em Paris. Noelle e o general Scheider passaram o fim-de-semana em Ertrat e regressaram a Paris ao fim da tarde de segunda-feira, a tempo de Noelle actuar na sessão dessa noite.

CATHERINE Washington: 1941-1944 9 Catherine deixara de trabalhar para William Fraser na manhã seguinte depois do casamento com Larry. Fraser convidou-a a almoçar com ele no dia em que regressou a Washington. Tinha um ar abatido e macilento e tornara-se subitamente mais velho. Catherine sentira compaixão por ele, mas nada mais do que isso. Estava sentada à frente de um estranho alto e elegante por quem sentira afeição, mas agora nem queria acreditar que um dia pensara casar-se com ele. Fraser deu-lhe um sorriso pálido. - Então és uma mulher casada - disse ele. - A mulher mais casada do mundo.


- Deve ter acontecido muito repentinamente. Como eu teria desejado poder competir! - Nem eu consegui - disse Catherine honestamente. - Apenas aconteceu. - Larry é uma ��ptima pessoa. - É sim. - Catherine - Fraser hesitou - não sabes realmente muita coisa a respeito de Larry, pois não? Catherine sentiu o corpo empertigar-se. - Sei que o amo, Bill - disse ela tranquilamente - e sei que ele me ama. E um começo muitobom, não é? Ele franziu o sobrolho, em silêncio, com dificuldade em exprimir-se. - Catherine. - Sim? - Tem cuidado. - Com quê? - perguntou ela. Fraser falava lentamente, apalpando com cautela o campo de minas que é o terreno das palavras. - Larry é... diferente. - Em que sentido? -perguntou ela, dificultando-lhe a conversa. - Bem, ele não é como a maioria dos homens. -Viu o ar com que ela ficou. - Oh, que diabo disse ele. - Não ligues ao que eu estou a dizer. - Conseguiu um sorriso forçado. -Já deves ter lido a biografia que Esopo fez de mim. A raposa e as uvas verdes. Catherine tomou-lhe a mão afectuosamente. - Nunca me esquecerei de ti, Bill. Espero que possamos ser amigos. - Também eu espero isso - disse Fraser. -Tens a certeza de que não queres continuar atrabalhar no meu gabinete? - Larry quer que eu me despeça. É um bota de-lástico. Acha que os maridos devem sustentar as mulheres.


- Se algum dia mudares de ideias - disse Fraser - diz-me. Passaram o resto do almoço a falar de assuntos de trabalho e da pessoa que substituiria Catherine. Sabia que ia ter muitas saudades de Bill Fraser. Achava que o primeiro namorado ocuparia sempre um lugar especial na vida duma mulher, mas Bill significara para ela um, pouco mais do que isso. Era um homem amoroso e um bom amigo. Catherine ficou perturbada com a atitude dele em relação a Larry. Foi como se Bill quisesse preveni-la de alguma coisa, e depois parou para não lhe estragar a felicidade. Ou foi, como dissera, apenas um caso de uvas verdes? Bill Fraser não era um homem mesquinho, nem ciumento. Certamente desejava a felicidade dela. E no entanto Catherine tinha a certeza de que tentara dizer-lhe alguma coisa. Tinha um vago pressentimento. Mas, uma hora depois, quando se encontrou com Larry e ele lhe sorriu, esqueceu-se de tudo, excepto da felicidade de estar casada com este ser humano incrível e alegre. Catherine nunca tivera uma companhia como a de Larry. Cada dia era uma aventura, um feriado. Viajavam para o campo todos os fins de-semana e hospedavam-se em pequenas pousadas e iam de feiras de região. Ia a Lake Placid e escorregavam no enorme tobo e a Montauk, onde remavam e pescavam. Catherine morria de medoda água porque nunca aprendera a nadar, mas Larry disse-lhe que não se preocupasse com isso, e na companhia dele ela sentia-se segura. Larry era meigo e atencioso e parecia completamente alheio da atracção que produzia nas outras mulheres. Catherine parecia ser tudo o que ele desejava. Durante a lua-de-mel Larry descobrira um passarinho de prata numa loja de antiguidades e Catherine gostara tanto que Larry lhe comprou um de cristal que se tornara o primeiro duma colecção. Num sábado à noite foram até ao Maryland para comemorar o terceiro mês de casados e jantaram no mesmo restaurantezinho. No domingo, 7 de Dezembro, osjaponeses atacaram Pearl Harbor. A declaração de guerra da América contra o Japão surgiu no dia seguinte, quando passavam trinta e dois minutos das treze horas, a menos de vinte quatro horas após o ataquejaponês. Na segunda-feira, enquanto Larry estava na Base Aérea de Andrews, Catherine, incapaz de suportar estar sozinha no apartamento, apanhouum táxi para o Capitólio para ver o que estava a acontecer. Grupos de pessoas aglomeravam-se em torno dos aparelhos de rádio espalhados entre a multidão que enchia os passeios da Praça do Capitólio. Catherine viu o cortejo presidencial que se aproximavado portão e paroujunto à entrada do Capitólio. Catherine estava suficientemente perto para ver o presidente Roosevelt sair ajudado por dois ajudantes. Havia dezenas de polícias em cada esquina, atentos a tumultos. O espírito que predominava na multidão pareceu, no ver de Catherine, ser de violência, como se fosse um grupo de linchadores ávido de entrar em acção. Cinco minutos depois de ter entrado no Capitólio, o presidente Roosevelt falava na rádio, quando se dirigia à Sessão Plenária do Congresso. A sua voz era forte e firme, plena de determinação irada. - AAmérica não se esquecerá desta chacina... O poder dosjustos vencerá... Será um triunfo inevitável, se Deus quiser.


Quinze minutos depois de Roosevelt ter entrado no Capitólio, o Plenário aprovou aResolução n. 254, que declarava guerra ao Japão. Foi aprovada por unanimidade, excepto pela deputada Jeanette Rantin do Estado de Montana, que votou contra a declaração de guerra, de forma que a votação final foi de 388 votos a favor e 300contra. O digníssimo presidente Roosevelt demorara dez minutos exactos – a fazer a mais curta mensagem de guerrajá alguma vez dirigida ao Congresso americano. A multidão na rua ovacionava, um rugido de aprovação em plena voz, uma raiva e uma promessa de vingança. A América entrava finalmente em acção. Catherine examinou os homens e as mulheres que se encontravam junto dela. Nos rostos dos homens havia o mesmo ar de regozijo que vira no rosto de Larry no dia anterior, como se todos pertencessem a um clube secreto cujos membros sentiam que a guerra era um desporto excitante. Até as mulheres pareciam tomadas pelo entusiasmo espontâneo que arrebatava a multidão. Mas Catherine gostava de saber o que sentiriam quando os homens partissem e elas ficassem sozinhas à espera de notícias dos maridos e dos filhos. Lentamente, Catherine virou-se e voltou a pé para casa. Na esquina viu soldados com as baionetas caladas. Em breve, pensou, o país inteiro estaria fardado. Aconteceu ainda mais cedo do que Catherine previra. Num ápice, Washington transformou-se num exército de cidadãos vestidos de caqui. No ar havia uma excitação eléctrica e contagiante. Era como se a paz fosse uma letargia, um miasma que enchia a raça humana com uma sensação de aborrecimento, e só uma guerra conseguia estimular o homem a ser completamente feliz. Larry ficava entre dezesseis e dezoito horas na Base Aérea, e frequentemente passava lá anoite. Disse a Catherine que a situação em Pearl Harbor e Hickman Field era muito pior do que se dizia. O ataque traiçoeiro fora um êxito devastador. A Marinha americana e uma boa parte da Força Aérea tinham ficado praticamente destruídas. - Estás a dizer que podemos perder a guerra? - perguntou Catherine, chocada. Larry olhou para ela pensativamente. - Tudo depende da rapidez da nossa reacção - respondeu ele. Toda a gente pensa que os japoneses são uns homenzinhos engraçados com os olhos em bico. Isso é conversafiada. Eles são rijos e não têm medo de morrer. Nós somos moles. Nos meses seguintes nada parecia deter osjaponeses. Os diários gritavam os seus êxitos: estavam a atacar Wake... de das Filipinas para a invasão. Desembarque em Guam. Em Bo em Hong-Kong. Manila declarada cidade aberta pelo general Arthur, e as tropas americanas encurraladas nas Filipinas renderam-se. Certo dia de Abril, Larry telefonou a Catherine da Base para lhe dizer que fosse ter com ele à Baixa para um jantar de celebração no Hotel Willard.


- Celebrar o quê? - perguntou Catherine. - Digo-te hoje à noite - respondeu Larry. A sua voz tinha um tom de grande excitação. Quando Catherine desligou, estava totalmente possuída por um mau pressentimento. Tentou imaginar todas as razões possíveis que Larry teria para comemorar, mas pensava sempre na mesma e achava que não teria força suficiente para enfrentar. Às cinco horas dessa tarde Catherine estava arranjada, sentada na cama com o olhar fixo no espelho do toucador. Posso estar enganada, pensava. Talvez tenha sido promovido. É isso que vamos comemorar. Ou então tem boas notícias sobre a guerra. Catherine queria em vão convencerse. Mirou-se no espelho demoradamente, tentando ser objectiva. Embora não tirasse o sono a Ingrid Bergman, era, concluiu com imparcialidade, uma mulher atraente. Tinha um corpo sinuoso e provocante. És inteligente, alegre, educada, amável e atraente, disse a si própria. Por que estaria um homem normal e de sangue quente ansioso por te deixar para ir morrer numa guerra? Às sete horas Catherine entrou na sala dejantar do Hotel Willard. Larry ainda não tinha chegado, e o maitre d'hôtel conduziu-a à mesa. Não quis beber nada, depois nervosamente mudou de ideia e pediu um Martini. Quando o empregado trouxe a bebida, Catherine levou o copo à boca e viu que as mãos tremiam. Ergueu o olhar e viu Larry vir em direcção à mesa. Caminhava por entre as mesas, respondendo às saudações que lhe dirigiam. Trazia consigo aquela vitalidade incrível, aquela aura que fazia que todos os olhares se virassem para ele. Catherine olhavao, lembrando-se do dia em que viera à mesa dela no refeitório da MGM em Hollywood. Recordou-se do pouco que sabia dele na altura, desejando saber quanto o conhecia agora. Ele chegou e deu-lhe um beijo rápido na face. - Desculpa o atraso, Cathy - pediu desculpa. - A Base hoje parecia um manicómio. Sentou-se, cumprimentou o chefe de mesa pelo nome e pediu um Martini. Se reparou que Catherine bebia, não fez nenhum comentário. O pensamento de Catherine gritava: Conta-me a tua surpresa. Diz-me o que vamos celebrar. Mas ficou calada. Diz um velho provérbio húngaro que só os idiotas dão logo as más notícias. Sorveu um pouco mais do Martini. Bem, talvez não fosse um velho provérbio húngaro. Talvez fosse um novo provérbio de Catherine Douglas, destinado a proteger os fracos. Talvez o Martini estivesse a deixá-la um pouco embriagada. Se não se enganara, estaria bêbeda antes do fim do jantar. Mas, ao olhar agora para Larry, o seu rosto repleto de amor, Catherine viu que tinha de estar enganada. A Larry custaria igualmente deixá-la. Estivera a magicar um pesadelo. Com a expressão de felicidade no rosto, ele só tinha uma boa notícia para lhe dar. Larry debruçava-se sobre ela, com o seu sorriso de adolescente, segurando-lhe a mão. - Não te passa pela cabeça o que aconteceu, Cathy. Vou para o Havai.


Foi como se uma cortina transparente descesse, deixando tudo irreal e confuso. Larry estava sentado a seu lado, mexendo os lábios, mas o rosto dele surgia focado e desfocado, e Catherine não conseguia ouvir o que dizia. Olhou por cima do ombro dele, e as paredes do restaurante moviam-se. Ficou a olhar, fascinada. - Catherine! - Larry abánava-lhe o braço e lentamente os olhos dela focaram-no e tudo voltou ao normal. - Estás bem? Catherine disse que sim com a cabeça, engoliu em seco e disse, com a voz trémula: - Sinto-me bem. Fico sempre bem quando recebo uma notícia boa. - Aceitas que eu tenha de ir, não aceitas? - Sim, aceito. – Averdade é que nunca aceitaria nem que vivesse um milhão de anos, meu querido. Mas se to dissesse ias detestar-me, não ias? Quem é que quer uma mulher chata? As mulheres dos heróis despedem-se dos maridos com um sorriso nos lábios. Larry observava-a, preocupado. - Estás a chorar. - Não estou nada - disse Catherine indignada e viu, cheia de raiva, que estava. - Só tenho de me habituar à ideia. - Vou ter a minha própria esquadrilha - disse Larry. - Ah é? - Catherine tentou encher a voz de orgulho. Uma esquadrilha. Quando era rapazinho, devia ter um combo completo para brincar. E agora que era um menino crescido tinha uma esquadrilha só para ele. Só que estes brinquedos eram verdadeiros, com a garantia de serem abatidos, sangrarem e morrerem. - Apetecia-me outra bebida - disse ela. - Com certeza. - Vais-te embora quando? - Só para o mês que vem. Dava a entender que estava ansioso por partir. Custava-lhe muito sentir que a estrutura do casamento era fortemente abalada. No palco um cantor entoava Uma viagem até à Lua em asas de fina gaze... Gaze fina, pensou ela. É disso que o meu casamento é feito: gaze. A ColePorter nada escapava.


- Temos muito tempo antes da minha partida - dizia Larry. Muito tempo para quê? Perguntava Catherine a si própria. Muito tempo para constituirmos família, esquiarmos com os nossos filhos em Vermont, envelhecermosjuntos... - Que gostarias de fazer hoje à noite? - perguntou Larry. Gostava de te levar ao hospital para te extraírem um dedo do pé. Ou furarem-te um tímpano. Em voz alta, Catherine disse: - Vamos para casa fazer amor. - E havia uma urgência feroz e desesperada na sua atitude. As quatro semanas seguintes voaram. Os relógios avançavam num pesadelo kafkiano que transformava os dias em horas e as horas em minutos, e depois, incrivelmente, chegou o dia de Larry. Catherine levou-o ao aeroporto. Estava falador, feliz e alegre, e ela estava taciturna, calada e infeliz. Os últimos minutos foram um caleidoscópio de embarque... um beijo de despedida dado à pressa... Larry a entrar no avião que ia afastá-lo dela... e um último adeus. Catherine ficou no campo a ver o avião reduzir-se a um ponto minúsculo no céu até desaparecer. Esteve por lá uma hora, e por fim, quando escureceu, regressou ao apartamento vazio. No ano a seguir ao ataque a Pearl Harbor, combateram-se dezandes batalhas navais e aéreas contra os japoneses. Os Aliados venceram apenas três, mas duas delas foram decisivas: Midway e a batalha de Guadalcanal. Catherine lia palavra por palavra as notícias que osjornais descreviam todas as batalhas e ainda pedia a William Fraser que lhearranjasse mais pormenores. Escrevia a Larry diariamente, mas só oito semanas depois é que recebeu a primeira carta dele. Estava optimista e cheio de entusiasmo. A carta fora abundantemente censurada, de forma que Catherine não fazia ideia donde ele estava ou do que fazia. Fosse o que fosse, teve a sensação de que estava a gostar, e nas horas longas e solitárias nocturnas Catherine deitavase na cama a matutar no assunto, tentando descobrir o que levava Larry a reagir ao desafio da guerra e da morte. Não que desejasse morrer, pois Catherine nunca conhecera pessoa tão bem-disposta e cheia de vida; mas talvez fosse simplesmente o reverso da medalha: o que aguçava o sentido da vida era uma preocupação constante com a morte. Foi almoçar com William Fraser. Catherine soube que tentara alistar-se, mas a Casa Branca dissera- lhe que seria mais útil no seu posto. Fora uma amarga desilusão. Porém, nunca tocara no assunto com Catherine. Agora que estava sentado em frente a ela à mesa do almoço perguntou lhe: - Tiveste notícias de Larry? - Recebi uma carta na semana passada. - Que é que ele dizia? - Bem, segundo a carta, a guerra é uma espécie de jogo de futebol. Perdemos o primeirojogo, mas agora entraram os séniores e estamos a recuperar.


Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Isso é mesmo de Larry. - Mas a guerra não é isso - disse Catherine num tom calmo. Não é uma partida de futebol. Vão morrer milhões de pessoas antes do fim da guerra. - Já que estamos envolvidos, Catherine - disse ele gentilmente -, acho que é mais fácil pensar na guerra como uma partida de futebol. Catherine decidira recomeçar a trabalhar. O Exército criararamo para mulheres denominado WACS, Women Amy Corps Se ce, e ela pensara alistar-se, mas sentira que poderia ser mais útilfazendo outras coisas para além de conduzir viaturas ou atender telefones. Embora tivesse ouvido que o WACS era bastante agradável. Eram tantas as grávidas, que se dizia que quando as voluntárias iamfazer o exame físico os médicos lhes punham um carimbo na barriga. As mulheres tentavam ler as palavras, mas não conseguiam. Que uma delas se lembrou de usar uma lupa. Dizia o seguinte: quemconseguir ler isto a olho nu, consulte-me. Durante o almoço com Bill Fraser, disse: - Quero trabalhar. Quero ser útil em alguma coisa. Examinou-a por um momento, depois fez um sinal de concordância com a cabeça. - Acoisa que sei exactamente aquilo de que precisas, Catherine. O Governo está a tentar vender filmes de Guerra. Acho que podias fazer parte da organização. Duas semanas depois, Catherine começou a trabalhar na organização das vendas de filmes de Guerra ao lado de gente famosa. Parecera um projecto ridiculamente fácil, mas a sua concretização mostrou-se algo bem diferente. Descobriu que as estrelas de cinema eram como crianças, ansiosas e excitadas por ajudar no esforço de guerra, mas que era difícil cumprirem uma data. Os horários eram constantemente alterados. A culpa não era muitas vezes delas, uma vez que os filmes atrasavam-se ou os prazos eram alterados. Catherine viu-se em viagens constantes de Washington para Hollywood e Nova Iorque. Habituou-se a ter de se ausentar com uma hora de aviso, levando na mala apenas a roupa necessária para cada deslocação. Conheceu dezenas de celebridades. - Falou mesmo com Cary Grant? - perguntou-lhe a secretária no regresso de uma viagem a Hollywood. - Almoçámos juntos. - É tão encantador como dizem? - Se ele pudesse metê-lo num saco - declarou Catherine -, seria o homem mais ricco do mundo. Aconteceu tão gradualmente que Catherine quase nem deu conta. Seis meses antes, quando


Bill Fraser lhe contou um problema que Wallace rner tinha com um dos contratos de publicitários de que Catherine fora responsável, ela delineara uma nova campanha recorrendo ao humor, o que deixou o cliente bastante satisfeito. Semanas depois, Bill pedira a Catherine que ajudasse na prossecução de outro contrato, e, antes que se apercebesse, estava a dedicar mais de metade do seu tempo à agência de publicidade. Era responsável por meia dúzia de contratos, todos eles bem encaminhados. Fraser dera-lhe um óptimo salário e uma percentagem. Ao meio dia da véspera de Natal, Fraser entrou no gabinete dela. O restante pessoal já havia saído, e Catherine terminava um trabalho de última hora. - Entretida? - perguntou ele. - Ganhando a vida - sorriu ela, e acrescentou com afecto: - e bem. Obrigada, Bill. - Não me agradeças. Mereces todos os tostões e... mais alguns. É desses mais alguns que te quero falar. Estou a oferecer-te sociedade. Olhou-o surpreendida. - Sociedade? - Metade dos novos contratos que fizemos nos últimos seis meses, devemo-los a ti. Ficou a olhá-la pensativamente, sem dizer mais nada. E ela entendeu o quanto aquilo significava para ele. - Tens uma sócia - disse ela. O rosto dele iluminou-se. - Não sei como exprimir a minha satisfação. -Desajeitadamente, estendeu a mão. Ela abanou a cabeça, passou ao lado do braço estendido, abraçou-o e deu-lhe um beijo na face. - Agora que somos sócios - disse ele jocosamente - posso beijar-te. -Sentiu que a apertou mais, de repente. -Cathy-disse ele- eu. Catherine pôs-lhe um dedo sobre os lábios. - Não digas nada, Bill. Vamos deixar as coisas como estão. - Sabes que estou apaixonado por ti. - E eu amo-te - disse ela com afecto. A semântica, pensou. A diferença entre amo-tee estou apaixonada por ti era um


abismointransponível. Fraser sorriu. - Não te vou maçar, prometo. Respeito os teus sentimentos por Larry. - Obrigada, Bill. -Ela hesitou. - Não sei se serve para alguma coisa, mas, se um dia houvesse outra pessoa, serias tu. - É umagrande esperança – disse num sorriso largo. – Nãovai deixar dormir esta noite. NOELLE Paris: 1944 10 Durante o ano que terminava, Armand Gautier deixara de abordar a questão do casamento. No começo sentira-se numa posição superior em relação a Noelle. Agora, contudo, a posição quase se invertera. Quando davam entrevistas aosjornais, era a Noelle que as perguntas eram dirigidas, e aonde quer que fossemjuntos Noelle era a atracção, ele ficava em segundo plano. Noelle era a amante perfeita. Preocupava-se com o conforto de Gautier, fazia o papel de anfitriã e, com efeito, fazia dele um dos homens mais invejados de França; mas na verdade ele não tinha um momento de descanso, pois sabia que Noelle não lhe pertencia, e estava para chegar o dia em que iria deixá-lo.Sempre que se lembrava do que sofrera quando Noelle o abandonara, Gautier sentia um nó no estômago. Contra a sua vontade, a sua experiência e o seu conhecimento das mulheres, estava louco e incontrolavelmente apaixonado por Noelle. Ela era a única coisa que tinha importância na vida dele. Passava noites em branco a imaginar surpresas complicadas para a fazer feliz e, quando resultavam, recebia como recompensa um sorriso e um beijo ou uma noite de amor não suplicado. Sempre que Noelle olhava para outro homem, Gautierficava cheio de ciúmes, mas preferia calar-se. Certa vez, numa festa, depois de ela ter passado a noite inteira a falar com um médico de renome, Gautier enfurecera-se com ela. Noelle escutara a diatribe dele e depois respondera calmamente: - Se o facto de eu falar com outros homens te incomoda, Armand, saio de casa hoje mesmo. Ele não voltara a tocar no assunto. No início de Fevereiro, Noelle inaugurou o dia em que recebia. Começara por um simples pequeno almoço de domingo bem servido na companhia de alguns dos amigos do teatro, mas, à medida que se espalhava, a notícia expandiu-se rapidamente e começou a incluir políticos, cientistas, escritores - toda a gente que o grupo pensava ser interessante ou divertida. Noelle era a anfitriã e uma das atracções principais. Todos se sentiam ansiosos


por lhe dirigirem a palavra, pois Noelle fazia perguntas incisivas e lembrava-se das respostas. Aprendeu política com políticos e finança com banqueiros. Um conhecido perito de arte ensinou-lhe arte, e pouco depois sabia tudo sobre os grandes artistas franceses que viviam em França. O director das vinhas do Barão ftothschild ensinou-lhe tudo sobre vinhos, e Corbusier foi o seu mestre em arquitectura. Noelle tinha os melhores professores do mundo, e eles, por sua vez, tinham uma bela e fascinante aluna. Tinha um espírito ágil e curioso e era uma ouvinte inteligente. Armand Gautier tinha a sensação de estar a ver uma princesa rodeada pelos seus ministros, e, tivesse ele sabido, esta e a forma mais próxima de poder compreender o carácter de Noelle. Com o passar dos meses; Gautier começava a sentir-se mais seguro. Pareceu-lhe que Noelle conhecera todas as pessoas que poderia ter importância e que não mostrara interesse pornenhuma delas. Ela ainda não conhecera Constantin Demiris. Constantin Demiris era o senhor dum império maior e mais perigoso do que muitos países. Não possuía título ou posição oficial, regularmente comprava e vendia primeiros-ministros, cardeais, embaixadores e reis. Demiris era um dos dois ou três homens mais do mundo, e o seu poder era lendário. Possuía a maior frota de guerreiros que cruzavam os oceanos, uma companhia aérea, jornais, bancos, siderurgias, minas de ouro - os seus tentáculos estavam em toda a parte, inextricavelmente tramado e urdido no tecido económico de dezenas de países. Possuía uma das maiores colecções de arte do mundo, uma esquadrilha de aviõesparticulares e uma dúzia de apartamentos e villas espalhadas pelo globo. Constantin Demiris era um homem relativamente alto, de peito e ombros largos. Eramoreno e tinha um nariz grego enorme e uns olhos tão negros como a cor da azeitona que resplandeciam com inteligência. Não se preocupava muito com o que vestia, mas fazia sempre parte da lista dos homens mais bem vestidos e dizia-se que tinha mais dequinhentos fatos. Eram sempre feitos por medida onde quer que se encontrasse. Saíam dasmãos de Hawes e Curtis em Londres, as camisas eram feitas por Brioni em Roma, ossapatos por Daliet Grande em Paris e as gravatas vinham de uma dúzia de países. Demiris tinha uma presença magnética. Quando entrava numa sala, mesmo quem o desconhecia voltava-se para mirá-lo. Jornais e revistas de todo o mundo escreviam um rio infindável de histórias sobre Constantin Demiris e as suas actividades, quer comerciais, quer sociais. A imprensa atribuía-lhe uma cotação alta. Quando umjornalista lhe perguntou se os amigos tinham contribuído para o seu sucesso, respondera: - Para se ter êxito, precisamos de amigos. Para se ter muito êxito, precisamos de inimigos. Quando lhe perguntaram quantos empregados tinha, Demiris respondera:


- Nenhum. Apenas acólitos. Quando estão emjogo tanto poder e tanto dinheiro, o negócio transforma-se numa religião e os escritórios em templos. Crescera no seio da Igreja Ortodoxa Grega, mas referia-se nestes termos à religiãoorganizada: - Cometeram-se mais de mil crimes em nome do amor do que em nome do ódio. Sabia-se que era casado com a filha oriunda duma velha familia de banqueiros gregos, que era uma mulher atraente e graciosa e que, quando Demiris recebia os amigos no seu iate ou na sua ilha particular, raramente o acompanhava. Em vez disso, aparecia na companhia duma bela actriz ou bailarina ou da sua paixão do momento. As suas aventuras românticas eram tão lendárias e pitorescas como as financeiras. Dormira com dezenas de actrizes de cinema, com as mulheres dos melhores amigos, com uma novelista de 15 anos, com viúvas ainda de luto e até corria o boato de que uma vez um grupo de freiras se puseram à sua disposição porque precisavam de um novo convento. Havia meia dúzia de livros publicados sobre Demiris, mas nunca nenhum tocara na essência do homem ou conseguira revelaraorigem do seu sucesso. Sendo uma das figuras mais públicas do mundo, Constantin Demiris levava uma vida secreta e manipulava a imagem pública como uma fachada que ocultava a sua verdadeira personalidade. Tinha dezenas de amigos íntimos em todos os extractos sociais, e, no entanto, ninguém realmente o conhecia. Os factos eram um assunto do conhecimento público. Nascera em Pireu, filho dum estivador, numa família de catorze irmãos e irmãs onde a comida nunca chegava e, quando alguém queria um pouco mais, tinha de lutar por isso. Demiris foi sempre insatisfeito e lutou para obter o que queria. Mesmo em criança, Demiris convertia tudo em matemática automaticamente. Sabia quantos degraus havia no Partenon, quantos minutos levava a chegar à escola, o número de barcos que havia no cais num dado dia. O tempo era um número dividido em segmentos, e Demiris aprendeu a não o desperdiçar. O resultado foi que, sem qualquer esforço, conseguia realizar muito trabalho. O seu sentido de organização era instintivo, um talento que funcionava automaticamente mesmo nas coisas mais pequenas que fazia. Cedo se tornou um jogo em que sabia usar a sua esperteza contra a dos outros. Embora Demiris estivesse consciente de que era mais inteligente que a maior parte dos homens, isso não o deixava demasiado vaidoso. quando uma mulher bonita queria dormir com ele, nem por instante se gabava que era pelo seu aspecto ou pela sua personalidade, mas nunca deixava que isso o incomodasse. O mundo era um mercado, e as pessoas ou compravam ou vendiam. Algumas mulheres, sabia, eram atraídas pelo dinheiro dele, umas pelo seu poder e outras - muito poucas - pela sua mente e imaginação. Quase todas as pessoas que conhecia queriam algo dele: um donativo para uma obra de caridade, dinheiro para um projecto de negócios ou simplesmente o poder que a sua amizade podia conceder. Demiris apreciava o desafio de conjecturar aquilo que as pessoas desejavam, pois raramente era o que parecia ser. O seu espírito político era céptico quanto à verdade superficial, pelo que não acreditava em nada e não confiava em ninguém. Osjornalistas que falavam da vida dele apenas podiam ver a sua genialidade e o seu gènerode homem urbano e sofisticado do mundo. Não suspeitavam de que, aquela superfície, Demiris era um assassino, um lutador cujo instinto procurava sempre a veia jugular.


Para os antigos Gregos apalavra thekaeossini, justiça, era por vezes sinónimo deekthekissás, vingança, e Demiris estava obcecadopor ambas. Nunca esquecia uma desconsideração, e quem tinha o azar de cair na sua inimizade arrependia-se para sempre. Nemsequer se apercebiam, pois o espírito matemático de Demiris vingava-se com armadilhas complicadas, tecendo teias complexas que acabavam por prender e destruir as suas vítimas. Quando Demiris tinha 16 anos, fizera o primeiro negócio com um homem mais velho, de nome Spyros Nicholas. Demiris concebera a ideia de abrir uma pequena banca nas docas para servir comida quente aos estivadores do turno da noite. Juntara todosos tostões para realizar a sua parte, mas, quando o negócio se tornou rendível, Nicholascorreu com ele e ficou sozinho à frente do negócio. Demiris aceitou o seu destino semprotestar e dedicou-se a outros negócios. Nos vinte anos seguintes, Spyros Nicholas enveredara pelo negócio de embalagem de carne e enriquecera com sucesso. Casara, tinha três filhos e era um dos homens mais importantes da Grécia. Durante esse tempo, Demiris esperou pacientemente e deixou Nicholas construir o seu império. Quando concluiu que Nicholas estava mais realizado e feliz do que nunca, Demiris atacou. Porque o negócio prosperava, Nicholas andava a pensar comprar umas quintas para criar o seu próprio gado e abrir uma cadeia de talhos. Precisava de muito dinheiro. Constantin Demiris era proprietário do banco com que Nicholas trabalhava, e o banco encorajou Nicholas a fazer um empréstimo para expansão do negócio ajuros a que Nicholas não podia resistir. Nicholas não olhou para trás, e a meio da expansão o banco pediu o pagamento. Quando o homem, desnorteado, protestou que não podia pagar, o banco deu início imediato a uma acção de falência. Osjornais que Demiris possuía publicaram logo a história na primeira página, e outros credores começaram a assediar Nicholas. Dirigiu-se a outros bancos e instituições de crédito, mas, por motivos que não conseguiu descobrir, negaram-lhe ajuda. No dia seguinte a ter abrido falência, Nicholas suicidou-se. O sentido que Demiris dava a de thekaeossini era uma espada de dois gumes. Tal como nuns perdoava uma injúria, também nunca esquecia um favor. Uma senhora que alimentara e vestira o jovem quando era pobre demais para lhe pagar viu-se subitamente dona dum prédio de apartamentos, sem fazer ideia de quem era o seu beneficiário. Uma rapariga que recolhera o jovem e pobre Demiris na sua casa recebera uma boa pensão vitalícia anonimamente. As pessoas que tinham lidado com ojovem e ambicioso rapaz grego quarenta anos antes não faziam ideia de como a relação casual com ele afectaria as suas vidas. Ojovem e dinâmico Demiris precisara de ajuda de banqueiros e advogados, comandantes de navios e de sindicatos, políticos e financeiros. Alguns haviamnoencorajado e ajudado, outros haviam-no recebido mal e enganado. Na cabeça e no coração, o grego orgulhoso conservara um registo indelével de todas as transacções. Melina, a esposa, acusara-o uma vez de fazer o papel de Deus. - Todos os homens fazem o papel de Deus - dissera-lhe Demiris. - Uns estão mais capacitados para esse papel do que outros. - Mas não está certo destruir a vida das pessoas, Costa. - Não é uma questão de estar certo. É justiça. - Vingança.


- Às vezes é a mesma coisa. A maioria dos homens não pagam o mal que fazem. Eu estou numa posição de os fazer pagar. Isso é justiça. Gostava das horas que passava a urdir armadilhas contra os seus adversários. Estudava as vítimas cuidadosamente, analisando as suas personalidades, avaliando-lhes os pontos fortes e os fracos. Quando Demiris tinha três pequenos cargueiros e precisou de um empréstimo para aumentar a frota, fora falar com um banqueiro suíço em Basileia. O banqueiro não só não o recebeu como telefonou a outros banqueiros amigos seus prevenindo-os de que não dessem dinheiro nenhum ao jovem grego. Demiris conseguira finalmente arranjar o dinheiro na Turquia. Demiris dera tempo ao tempo. Concluiu que a ganância do banqueiro era o seu calcanharde-Aquiles. Demiris estava em negociações com IhnSaud da Arábia para a concessão da exploração dum novo poço de petróleo. As concessões trariam um lucro de várias centenas de milhões de dólares para a companhia de Demiris. Deu instruções a um agente para que fizesse chegar aos ouvidosdo banqueiro suíço o negócio que ia realizar-se. O banqueiro teria uma participação de 25% na nova companhia se participasse com cinco milhões de dólares em dinheiro para comprar acções da Bolsa. Quando o negócio se concluísse, os cinco milhões de dólares valeriam mais de cinquenta milhões. O banqueiro certificou-se de imediato do negócio e confirmou a sua autenticidade. Não dispondo daquela quantia na sua conta pessoal, levantou o dinheiro sem informar ninguém, pois não tinha desejo de partilhar aquele lucro inesperado. A transacção realizar-se-ia na semana seguinte, altura em que poderia repor o dinheiro que levantara. Assim que Demiris teve o cheque do banqueiro na mão, anunciou aosjornais que o compromisso com a Arábia fora cancelado. As acções caíram bruscamente. Não havia maneira de o banqueiro cobrir o prejuízo, e o peculato que cometera foidescoberto. Demiris comprou as acções do banqueiro por pouco menos de um dólar cada uma e depois concretizou o negócio do petróleo. O valor das acções subiu em flecha. O banqueiro foi acusado de peculato e condenado a vinte anos de prisão. Havia algunsjogadores nojogo de Demiris de quem ainda não se desforrara, mas não tinha pressa. Gostava da antecipação, da preparação e da execução. Era como um jogo de xadrez, e Demiris era um mestre em xadrez. Hoje em dia não fazia inimigos, de forma que a sua caça se limitava àqueles que se haviam atravessado no seu caminho no passado. Era, portanto, este homem que apareceu num domingo à tarde em casa de Noelle Page. Estava a passar uns dias em Paris a caminho do Cairo, e umajovem escultora com quem saía sugeriu que parassem em casa de Noelle. Assim que Demiris viu Noelle, sentiu que a desejava. Tirando a própria realeza; que estava fora do alcance da filha do pescador de Marselha, Constantin Demiris provavelmente era quem mais se aproximava de um rei. Três dias depois de o ter conhecido, Noelle deixou a peça sem aviso prévio, fez as malas e partiu para a Grécia ao encontro de Constantin Demiris. Por causa da posição de destaque que cada um ocupava, era de esperar que o caso entre Noelle Page e Constantin Demiris se tornasse uma célebre causa internacional. Fotógrafos


ejornalistas tentavam constantemente entrevistar a mulher de Demiris, mas, se se sentia chocada, disso não deu sinal. O único comentário de Melina Demiris à Imprensa foi que o marido tinha muitos bons amigos espalhados pelo mundo e que ela não via nada de errado nisso. Em privado, disse aos pais encolerizados que Constantin tivera outros casos e que este teria o seu fim como todos os outros. O marido partia em viagens de négócios prolongadas, e ela via fotografias dele nos jornais com Noelle em Constantinopla, Tóquio ou Roma. Melina Demiris era uma mulher orgulhosa, mas estava determinada em suportar a humilhação porque amava verdadeiramente o marido. Aceitava o ultràge, embora não soubesse a razão por que alguns homens precisam de mais de uma mulher, e que mesmo um homem apaixonadopela mulher podia dormir com outra. Preferia morrer a ser tocada por outro homem. Nunca reprovou Constantin, porque sabia que isso só o afastaria dela. Apesar de tudo, era um casamento feliz. tinha consciência de que não era uma mulher ardente, mas deixava que o marido se servisse dela na cama sempre que desejava, e tentava dar-lhe o máximo prazer de que era capaz. Se tivesse sabido das formas de amor que Noelle fazia com o marido, teria ficado chocada, e se tivesse sabido como o marido apreciava tersia sentido infeliz. A maior atracção que Noelle causava em Demiris, para quem as mulheresjá não tinham surpresas, era a surpresa constante que ela constituía. Para quem tinha uma paixão por enigmas, ela era uma solução desafiadora. Nunca conhecera ninguém assim. Aceitava as coisas belas que ele lhe dava, mas ficava igualmente feliz quando não lhe trazia nada. Comprou-lhe uma villa magnífica em Portofino, à beira de uma baía em forma de ferradura, de um azul belíssimo, mas sabia que não teria sido diferente se lhe tivesse dado um pequeno apartamento no velho bairro de Plaka em Atenas. Demiris conhecera muitas mulheres na vida que tentaram usaro sexo para o manipular de uma forma ou de outra. Noelle nunca lhe pediu nada. Algumas mulheres aproximaram-se dele para se aquecerem no reflexo da sua glória, mas neste caso era ela quem aturava osjornalistas e os fotógrafos. Era uma estrela de pleno direito. Durante um tempo, Demiris comprazera-se com a ideia de que talvez e estivesse apaixonada pelo que ele era, mas era honesto de mais manter a ilusão. No começo foi um desafio tentar chegar ao âmago profundointerior de Noelle, subjugá lo e possuí-lo. De início, Demiris tentara fazê-lo sexualmente, mas, pela primeira vez na vida, conhecera uma mulher que era mais do que uma parceira. Os seus apetites sexuais excediam os dele. Tudo o que ele sabia fazer, ela fazia-o melhor mais vezes e com mais saber, até que por fim aprendeu a relaxar na cama e a desfrutá-la como nunca desfrutara nenhuma outra mulher na vida. Era um fenómeno, em revelação constante de novas faces para ele desfrutar. Noelle sabia cozinhar tão bem como qualquer cozinheiro a quem ele pagava um resgate real e sabia tanto como os conservadores de museu que contratava para encontrar quadros e esculturas para ele comprar. Gostava de os ouvir falar de arte com Noelle e de os ver admirados com a profundidade dos conhecimentos. Demiris comprara recentemente um Rembran. Noelle encontrava se por acaso na ilha de Verão,quando o quadro chegou. Estava lá um jovem conservador que lhe descobrira o quadro. - É uma das melhores obras do Mestre - dissera o conservador quando o destapou. Era uma bela pintura, representando mãe e filha. Noelle estava sentada numa cadeira, sorvendo um ouvo, a observar calmamente.


- É uma beleza - concordou Demiris. Virou-se para Noelle. Que achas? - É maravilhoso-disse ela. Virou-se para o conservador. -Onde é que o descobriu? - Encontrei num negociador particular de Bruxelas-respondeu com orgulho - e convenci-o a vender-mo. - Quanto pagou por ele? - perguntou Noelle. - Duzentas e cinquenta mil libras. - É uma pechincha - declarou Demiris. Noelle tirou um cigarro, e o homem precipitou-se a acendê-lo. - Obrigada - disse ela. Olhou para Demiris. - Teria sido uma pechincha ainda maior se o tivesse comprado directamente ao dono. - Não entendo - disse Demiris. O conservador olhava-a com estranheza. - Se é genuíno - explicou Noelle - provém do património do duque de Toledo em Espanha. - Voltou-se para o conservador. - Não é verdade? - perguntou ela. O homem empalidecera. - Não... não faço ideia - gaguejou ele. - O negociante não me disse. - Deixe-se disso - Noelle censurou-o. - Não me diga que comprou um quadro por esse dinheiro todo sem se certificar da proveniência do mesmo! ? Custa a crer. O preço atribuído ao quadro é de cento e setenta e cinco mil libras. Alguém foi lesado em setenta e cinco mil libras. E veio a provar-se que era verdade. O conservador e o negociantede arte foramjulgados por fraude e presos. Demiris devolveu o quadro. Ao pensar no assunto mais tarde, concluiu que a honestidade de Noelle o impressionou mais que o seu conhecimento. Se o tivesse desejado, poderia simplesmente ter chamado o conservador à parte, ameaçado chantageálo, e dividido o dinheiro com ele. Ao invés, dissera abertamente diante de Demiris sem outro motivo. Comprara-lhe um colar de esmeraldas caríssimo em atenção, que ela aceitara com a mesma deferência com que teria aceite um isqueiro. Demirisinsistia em levar Noelle para todo o lado. Ele não confiava em ninguém nos negócios, e por isso era obrigado a tomar todas as decisões sozinho. Achou útil debater os negócios com Noelle. Estava surpreendentemente bem informada em relação ao mundo dos negócios, e o simples facto de poder falar com outra pessoa de vez em quando facilitava as decisões de Demiris. Com o tempo, Noelle sabia mais dos seus negócios do que outra pessoa, excepto os seus


advogados e contabilistas. Antes de Demiris sempre tivera várias amantes ao mesmo tempo, mas agora Noelle dava-lhe tudo o que desejava, e, uma a uma, deixou-as todas. Aceitaram o desemprego sem rancor, pois Demiris era um homem generoso. Tinha um iate com cento e trinta e cinco pés de comprimento e quatro motores a diesel.Estava equipado com um hidroavião, vinte e quatro tripulantes, duas lanchas, e tinha uma piscina de água doce. Tinha doze quartos de hóspedes ricamente mobilados e um enorme apartamento para ele, cheio de quadros e antiguidades. Quando Demiris recebia amigos no iate, Noelle era a sua anfitriã. Quando Demiris viajava de avião ou de barco para a sua ilha particular, era Noelle que o acompanhava, enquanto Melina permanecia em casa. Tomava o cuidado de nunca juntar a mulher e Noelle, mas claro que tinha a certeza de que a mulher sabia da sua existência. Noelle era tratada como uma rainha aonde quer que fosse. Mas merecia-o. A menina que olhara para a sua frota de navios através da janela da casa degradada de Marselha mudarase para a maior frota do mundo. Noelle não ficou impressionada com a riqueza de Demiris, nem com a sua reputação: ficou impressionada com a sua inteligência e força. Tinha a mente e a vontade dum gigante e, em comparação com os outros homens, tornava-se pusilânime. Pressenti nele a crueldade implacável, mas, sem saber como, isto tornava ainda mais excitante, pois fazia parte dela também. Noelle recebia ofertas constantes para entrar em peças e filmes mas mostrava-se indiferente. Fazia o papel principal da sua própria vida, e era mais fascinante que tudo o que qualquer autor pudesse imaginar. Jantava com reis, primeiros-ministros e embaixadores, todos a procuravam porque sabiam que Demiris a ouvia. Deixavam cair insinuações subtis sobre o que pretendiam e prometiam-lhe mundo se ela os ajudasse. Mas Noelle já era dona do mundo. Deitava-se na cama edizia-lhe o que cada homem lhe pedira, e a partir desta informação Demiris avaliava as suas necessidades, os seus pontos fortese os fracos. Depois aplicaria as pressões adequadas, e daí correria mais dinheiro para os seus cofres já transbordantes. A ilha particular de Demiris era uma das suas grandes alegrias. Comprara uma ilha inóspita, que transformara num paraíso. Tinha uma villa espectacular no topo da colina em que vivia, uma dúzia de casas encantadoras para os convidados, uma reserva de caça, um lago artificial de água doce, umjardim zoológico, um porto onde podia ancorar o iate e um aeródromo para os seus aviões. A ilha tinha oito criados e guardas armados para afastar os intrusos. Noelle gostava da solidão da ilha, e ainda gostava mais quando não havia outros convidados. Constantin Demiris sentia-se lisonjeado, pensando ser ele a razão desta preferência de Noelle. Teria ficado abismado se tivesse exibido o estado de preocupação em que ela se encontrava por um homem com cuja existência ele nem sonhava. Larry Douglas estava a meio mundo de distância de Noelle, combatendo em batalhas secretas em ilhas secretas, e no entanto ela sabia mais acerca dele do que a mulher, com quem se correspondia com muita regularidade. Noelle ia a Paris para ver Christian Barbet pelo menos uma vez por mês, e o detectivezinho calvo e míope tinha sempre um relatório


actualizado para ela. Da primeira vez que Noelle regressara a Paris para se encontrar com Barbet e tentara depois regressar, houve problemas com o visto de saída. Ficara à espera no gabinete da Alfândega durante cinco horas e fora por fim autorizada afazerum telefonema para Constantin Demiris. Dez minutos depois deterfalado com Demiris, um oficial alemão entrara apressado para lhe apresentar as maiores desculpas em nome do seu Governo. Noelle recebera um visto especial, e nunca mais lhe barraram o caminho. O detective ansiava pelas visitas de Noelle. Cobrava-lhe uma fortuna, mas o seu nariz apurado pressentia que havia muito mais dinheiro. Estava satisfeito com a sua ligação a Constantin Demiris. Tinha opressentimento de que, de uma forma ou de outra, o facto ia trazer-lhe grandes benefícios financeiros. Primeiro tinha de saber que Demiris não estava a par do interesse da sua amante por Larry Douglas, depois tinha de saber o valor que a informação teria para Demiris. Ou para Noelle Page, se quisesse mantê-lo calado. Estava à beira de um grande golpe, mas tinha dejogar as cartadas com cuidado. A informação que Barbet conseguia recolher sobre Larry era surpreendentemente substancial, pois Barbet podia remunerar generosamente as suas fontes. Ao mesmo tempo que a mulher de Larry lia uma carta com um carimbo postal anónimo, Christian Barbet informava Noelle. - Ele está a voar com o Décimo-Quarto Grupo de Caças, Quadragésima-Oitava Esquadrilha de Caças... Catherine lia a carta: K... tudo o que teposso dizeré que estou algures no País. . E Christian Barbet dizia a Noelle: - Eles estão em Tarawa. A seguir é Guam. Tenho muitas saudades de ti, Cathy. As coisas estão a melhorar por aqui. Não te posso dar mais pormenores, mas finalmente os nossos aviões são melhores que os aerosjaponeses... - O seu amigo está a pilotar aviões P-Trinta e Oito, Puarenta e P-Quarenta e Um. Fico satisfeitopor saber que estás ocupada em Washington. Sê-me fiel, querida. Aqui está tudo bem. Conto-te as novidades quando estivermosjuntos... - O seu amigo recebeu a Cruz de Distinção Aérea e foi promovido a tenente-coronel. Ao mesmo tempo que Catherine pensava no marido e pedia a Deusque regressasse são e salvo, Noelle seguia todos os passos de Larry também pedia a Deus que Larry regressasse são e salvo. Aguerra terminaria em breve, e Larry Douglas estaria de regresso a casa. Para ambas.


CATHERINE Washington: 1945-1946 11 Na manhã do dia 7 de Maio de 1945, na cidade francesa de Reims, a Alemanha rendeu-se incondicionalmente aos Aliados. O reinado dos mil anos do Terceiro Reich chegara ao fim. Quem conhecia por dentro a destruição devastadora de Pearl Harbor, quem observara como faltara pouco para que Dunquerque se tivesse transformado numa nova Waterloo, quem comandara a RAF e sabia como teriam sido inúteis as defesas de Londres contra um ataque generalizado da Luftwaffe: todas estas pessoas reconheciam a série de milagres que deram a vitória aos Aliados - e sabiam que só por um triz não sucedera o contrário. Os poderes do mal quase triunfaram, e a ideia era tão monstruosa, tão contrária à ética cristã de o Bem triunfar sobre o Mal, que nem quiseram levá-la em conta de tão horrorizados, agradecendo a Deus e enterrando os seus erros aos olhos da posteridade nas montanhas de arquivos assinalados com CONFIDENCIAL. Aatenção do mundo livre voltava-se agora para o Extremo Oriente. Os japoneses, essas figurinhas cómicas e de vistas curtas, defendiam sangrentamente cada centímetro da terra que possuíam, e parecia que ia ser uma guerra longa e dispendiosa. E foi então que, no dia 6 de Agosto, uma bomba atómica caiu em Hiroxima. A destruição foi inacreditável. Em poucos e breves minutos, a maior parte da população duma grande cidade jazia morta, vítima de uma pestilência maior que as duas guerras juntas e as pestes da Idade Média. A 9 de Agosto, três dias depois, caiu uma segunda bomba atómica, desta vez em Nagasáqui. Os resultados foram ainda mais devastadores. A civilização atingira finalmente a sua hora maior; fora capaz de causar um genocídio que podia calcular-se numa proporçãode milhões de habitantes por segundo. Os japoneses não aguentaram, e, no dia 2 de Setembro de 1945, a bordo do couraçado Missouri, o general Douglas MacArthur recebeu a rendição condicional do Governo japonês. A segunda guerra mundial chegava ao fim. Durante um longo momento, quando a notícia corria veloz, o mundo susteve a respiração e depois emitiu uma ovação de sincero agradecimento. Cidades e aldeias do mundo encheram-se de desfiles histéricos de pessoas que comemoravam o fim da guerra para nunca mais haver guerras para acabarem com as guerras. No dia seguinte, como por uma mágica que nunca explicaria a Catherine, Bill Fraser conseguiu estabelecer uma ligação telefónica com Larry Douglas numa ilha algures no Pacífico Sul. Ia ser uma surpresa para Catherine. Fraser pediu-lhe que o aguardasse no escritório para irem almoçar juntos. Às duas e meia da tarde, ela perguntou a Bill pelo intercomunicador: - Quando é que vamos almoçar? Já são quase horas de jantar. - Senta-te bem - Fraser respondeu. - Estarei aí num minuto. Cinco minutos depois, disse-lhe pelo intercomunicador:


- Tens uma chamada na linha um. Catherine pegou no telefone. - Sim? - Ouviu um estalido e sons oscilantes que pareciam ondas dum oceano distante. Sim? - repetiu ela. Uma voz de homem perguntou: - Sra. Douglas? - Sou, sim - disse Catherine, intrigada. - Quem fala? - Só um momento, por favor. Através do auscultador ouviu um som agudo. Outro estalido depois uma voz que dizia: - Cathy? Permaneceu sentada, o coração a bater depressa, incapaz de uma palavra. - Larry? Larry? - Sim, sou eu, querida. - Oh, Larry! - Ela começou a chorar, e inesperadamente seu corpo tremia. - Como estás, amor? Fincou as unhas no braço, tentando ferir-se o bastante parapor termo à histeria que de repente se apossara dela. - Estou b... bem - disse. - Onde... onde estás? - Se te disser, cortam-nos a chamada-disse ele. -Estou algures no Pacífico. - Isso esclarece bastante! - Começou a dominar a voz. - Estás bem, querido? - Estou óptimo. - Quando regressas? - A qualquer momento - prometeu ele. Os olhos de Catherine voltaram a encher-se de lágrimas.


- Ainda bem. Vamos acertar os nossos relógios. - Estás a chorar? - Claro que estou a chorar, seu idiota! Ainda bem que não podes ver o rímel a borrar-me a cara. Oh Larry... Larry... - Tenho tido tantas saudades tuas - disse ele. Catherine pensou nas noites longas e solitárias que se tornaram semanas e meses e anos sem a sua presença, sem os seus braços aconchegando-a, sem o seu corpo forte e maravilhoso a seu lado, sem o seu conforto, a sua protecção e o seu amor. E disse: - Também tive saudades tuas. Uma voz masculina interrompeu-os. - Peço desculpa, coronel, mas vamos ter de desligar. Coronel! - Não me disseste que tinhas sido promovido. - Receei que isso te subisse à cabeça. - Oh, querido, eu... O som das ondas aumentou, e de repente fez-se silêncio e a ligação foi cortada. Catherine recostou-se na cadeira com o olhar fixo no telefone. E em seguida enterrou a cabeça nos braços e começou a chorar. Dez minutos mais tarde, a voz de Fraser surgia no intercomunicador. - Vamos almoçar quando estiveres pronta - disse ele. - Eu estou pronta para qualquer coisa - disse ela cheia de alegria. -Dá-me cinco minutos. Sorriu afectuosamente quando pensou no que Fraser fizera e no muito trabalho que isso lhe dera. Era o homem mais querido que conhecera. Depois de Larry, naturalmente. Catherine imaginara a chegada de Larry tantas vezes que a chegada quase foi um anticlímax: Bill Fraser explicara-lhe que Larry ia possivelmente chegar num avião do Comando de transporte Aéreo ou num avião dos Serviços Militares de Transporte Aéreo, que nãotinham horário como os aviões das companhias aéreas comerciais. Aproveitava-se a boleia no primeiro avião que se arranjava - quase sem dar importância ao destino do avião -, desde que fosse nadirecção desejada. Catherine passou o dia em casa à espera de Larry. Tentou ler, masestava nervosa demais.


Sentou-se e ouviu as notícias e pensou noregresso definitivo de Larry para junto dela. Por volta da meia-noite, ainda não tinha chegado. Concluiu que só estaria de volta no diaseguinte. Às duas horas da manhã, quando já não conseguia ter os olhos abertos, Catherine foi deitar-se. Foi acordada por uma mão quelhe tocava o braço, e abriu os olhos e ele ali estava junto dela, o seuLarry estava ali, a olhar para ela, um sorriso largo no rosto magro ebronzeado, e num ápice Catherine estava nos braços dele e toda apreocupação, dor esolidão dos quatro anos desapareceram num fluxo purificador de alegria que encheu todasas fibras do seu ser. Abraçou-o de tal forma que receou quebrar-lhe os ossos. Queria ficarassim para sempre, sem se separar dele. - Calma, querida - disse Larry por fim. Largou-a,com um sorriso no rosto. -Vai ter piada aparecer nosjornais “Piloto regressa daguerra acasa ileso e morre no abraço da mulher.” Catherine acendeu todas as luzes, inundando o quarto de formaa poder vê-lo, examinálo,devorá-lo. O seu rosto tinha uma nova maturidade. Havia rugas em redor dos olhos e da boca, que antes nãoexistiam. No conjunto, estava ainda mais bonito. - Eu quis ir ter contigo - Catherine balbuciou -, só que nãosabia para onde ir. Telefonei para a Força Aérea, mas não me puderam dar nenhuma informação, por isso fiquei aqui à espera... Larry aproximou-se dela e calou-a com um beijo. Foi um beijosentido e urgente. Catherine esperara sentir a mesma ansiedadefísica, e ficou surpreendida por descobrir que tal não aconteceu. Amava-o muito e, no entanto, teria preferido ficar ali sentada com ele aconversar, em vez de fazer amor como ele tão ansiosamente desejava. Sublimara o desejo sexual durante tanto tempo que o mesmo seencontrava profundamente enterrado, e levariatempo antes que pudesse ser estimulado e voltar à superfície. Mas Larry não lhe dava tempo. Despia-se à pressa e dizia: - Meu Deus, Cathy, não sabes como eu sonhei com este momento. Ia dando em maluco. E, vendo-te agora, ainda te acho mais bonita do que antes. Arrancou as cuecas e ficou nu. E de certa maneira era um estranho que a empurrava para a cama, e ela só queria que Larry lhe desse tempo para se habituar à presença e à nudez dele novamente. Mas já estava em cima dela sem qualquer preparação, forçando a penetração, e ela sabia que não estava pronta. Estava a rasgá-la, a magoá-la, e ela fincou os dentes na mão para não chorar, enquanto sobre o seu corpo ele a possuía como um animal selvagem. O marido regressara a casa. Durante o mês seguinte, com o consentimento de Fraser, Catherine esteve ausente do escritório, passando quase todos os dias com Larry. Fazia-lhe os pratos preferidos, e ouviam discos e falavam, tentando preencher todos os espaços vazios dos anos que haviam perdido. À noite iam a festas ou ao cinema e quando regressavam a casa faziam amor. O corpo delajá estava pronto para o receber, e achava o excitante amante de sempre. Quase. Não queria admiti-lo, nem mesmo a si própria, mas Larryjá não era o mesmo. Estava mais exigente e menos generoso. Antes do acto de amor, ainda havia o período de excitação, mas


era tudo mecânico, como se fosse uma obrigação, antes de passar ao ataque sexual. E era um ataque, uma posse selvagem e feroz, como se o corpo dele procurasse vingar-se de alguma coisa, impondo um castigo. Quando terminavam, Catherine sentia-se dorida e abalada, como se tivesse sido espancada. Talvez, pensava em defesa dele, se devesse ao facto de ter estado muito tempo sem uma mulher. Com o passar do tempo, continuava a amá-la da mesma forma, o que a levou por fim a procurar outras mudanças produzidas em Larry. Tentou examiná-lo desapaixonadamente e esquecer que era o marido que adorava. Via um homem bem constituído, alto e de cabelo negro, olhos muito escuros e rosto avassaladoramente belo. Ou talvez belo já não fosse a palavra certa. As rugas em redor da boca acrescentavam uma crueldade aos seus traços. Olhando para este estranho, Catherine teria pensado: Eis um homem que podia ser egoísta, implacável e frio. E, no entanto, achou que estava a ser ridícula. Este era o seu Larry, amoroso, amável e atencioso. Orgulhosamente, apresentou-o a todos os seus amigos e às pessoas com quem trabalhava, mas as mesmas não o entusiasmavam. Nas festas divagava pelos cantos e passava a noite a beber. Catherine achava que ele não se esforçava para ser sociável. - Porquê? - ripostou-lhe uma noite quando ela tentou falarsobre o assunto. - Onde é que estavam esses financiadores de campanhas políticos quando eu andava lá em cima a arriscar a vida? Por vezes, Catherine abordava o assunto do que ia ser o futuro dele. Pensara que era seu desejo ficar na força Aérea, mas uma das primeiras coisas que Larry fez quando regressou foi pedir a passagem à reserva. - A tropa é uma coisa para idiotas. Lá só se desce - dissera ele. Era quase uma paródia à primeira conversa que tiveram em Hollywood. Só que na altura fora uma brincadeira de Larry. Catherine tinha de falar com alguém para discutir o assunto, e decidiu por fim dirigir-se a Bill Fraser. Disse-lhe o que a perturbava, sem se referir aos pormenores de carácter pessoal. - Se te serve de consolo - disse Fraser solidariamente -, há milhões de mulheres por esse mundo fora na mesma situação. É realmente muito simples, Catherine,estás casada com um estranho. Catherine olhava para ele, sem dizer uma palavra. Fraser calou-se para encher o cachimbo e acendê-lo. - Não estavas à espera de retomar a vida no ponto em que ficou quando Larry partiu, pois não? Esse tempo já não existe. Uultrapassaste-o, assim como Larry. Uma das bases do casamento são as experiências comuns do casal. Fortalece-os a eles e ao casamento. Vocês terão de encontrar uma plataforma comum outra vez. - Sinto-me infiel só de falar no assunto, Bill. Fraser sorriu.


- Eu conheci-te primeiro - recordou-lhe ele. - Lembras-te? - Lembro-me. - Tenho a certeza de que Larry está a procurar um rumo - prosseguiu Fraser. - Conviveu com mil homens durante quatro anos, e agora tem de se habituar à ideia de viver com uma mulher. Ela sorriu. - Tens razão em tudo o que disseste. Acho que só precisava de alguém que mo dissesse. - Todos nós temos muitos conselhos úteis para lidar com os feridos - observou Fraser -, mas há feridas que não se vêem. Por vezes, são muito fundas. - Viu o olhar no rosto de Catherine. - Não estou a referir-me a nada de especial - acrescentou logo de seguida. -Estou apenas a falar dos horrores de que qualquer soldado em combate é testemunha. A não ser que um homem seja um idiota chapado, isso reflecte-se no seu comportamento. Entendes o que quero dizer? Catherine fez um sinal afirmativo. - Entendo. - A pergunta era: que reflexo tivera? Quando Catherine regressou por fim ao trabalho, os homens da agência regozijaram-se aovê-la. Durante os primeiros três dias, nada mais fez se não analisar campanhas e projectos para novos contratos e pôr em dia os atrasados. Trabalhava de manhã à noite, tentando compensar o tempo perdido, estafando os redactores e os desenhadores e acalmando os clientes nervosos. Era uma profissional excelente e adorava o trabalho que fazia. Larry costumava aguardar o regresso de Catherine a casa à noite. A princípio, ela perguntava-lhe o que fazia na ausência dela, mas as suas respostas eram sempre vagas e por fim deixou de lhe perguntar. Ele construíra um muro, e ela não sabia como quebrá-lo. Ele ofendia-se com quase tudo o que Catherine dizia, e discutiam constantemente por tudo e por nada. Ocasionalmente, jantavam com Fraser, e ela esforçava-se portornar essas noites alegres e agradáveis para que Fraser não pensasse que algo corria mal. Mas Catherine tinha de enfrentar o facto de que algo corria muito mal. Sentia que a culpa era em parte dela. Ainda amava Larry. Gostava da figura, do contacto e da recordação dele, mas sabia que a relação, a continuar assim, destruiria os dois. Ela almoçava com William Fraser. - Como está Larry? A resposta pavloniana de óptimo ia surgir-lhe nos lábios automaticamente, mas deteve-se. - Ele precisa de um emprego - disse Catherine bruscamente. Fraser inclinou-se para trás e


fez um sinal de compreensão com a cabeça. - Está a ficar impaciente por não fazer nada? Ela hesitou, não desejando mentir. - Ele não quer trabalhar apenas por trabalhar - disse ela cuidadosamente. - Teria de ser o trabalho certo. Fraser examinou-a, tentando avaliar o significado subjacente às palavras dela. - Ele gostaria de ser piloto? - Não quer voltar para a tropa. - Eu estava a pensar numa companhia aérea. Um amigo meu é diretor da PanAm. Ficariam contentes se contratassem alguém com a experiência de Larry. Catherine pôs-se a pensar no assunto, tentando colocar-se na mente de Larry. Pilotar era a coisa de que ele mais gostava no mundo. Seria um bom emprego, fazendo o que gostava de fazer. - É uma óptima ideia - disse cautelosamente. - Achas mesmo que conseguerias arranjar, Bill? - Vou tentar - disse ele. - Por que não o sondas primeiro para veres como ele reage? - É o que vou fazer. - Catherine segurou-lhe a mão agradecidamente. - Muito obrigada. - Por quê? - perguntou Fraser despreocupadamente. - Por nunca me faltares quando preciso. Ele pôs a mão sobre a dela. - São ossos do ofício. Quando Catherine lhe falou na sugestão de Bill Fraser nessa noite, Larry disse: - Foi a melhor coisa que ouvi desde que cheguei. E dois dias depois tinha uma entrevista marcada com Carl Estman na sede da PanAm em Manhattan. Catherine passou-lhe o fato, escolheu a camisa e a gravata e engraxou-lhe os sapatos até se ver reflectida neles. - Telefono-te assim que puder a contar como é que tudo correu. - Beijou-a e, com seu sorriso de adolescente, saiu.


Em muitas coisas Larry era um menino, pensou Catherine. Podia ser petulante, irritadiço e malcriado, mas também era amoroso e generoso. Sorte minha, suspirou Catherine. Tenho de ser a única pessoa perfeita de todo o universo. Tinha muito que fazer, mas só conseguia pensar em Larry e na entrevista que ele ia ter. Era mais do que um emprego. Tinha a sensação de que o seu casamento dependia inteiramente do que ia acontecer. Ia ser o dia mais longo da sua vida. A sede da Pan Am era um edifício moderno situado numa esquina da 5ª Avenida com a 53ª Rua. O gabinete de Carl Eastman era grande e confortavelmente mobilado, sendo óbvio que ocupava um posto importante. - Entre e sente-se - saudou quando Larry entrou na sala. Eastman era um homem de 35 anos, elegante e de queixo saliente, com uns olhos cor de avelã e penetrantes aos quais nada escapava. Indicou um sofá a Larry, sentando-se depois na cadeira que havia em frente. - Café? - Não, obrigado - disse Larry. - Soube que gostaria de trabalhar para nós. - Se houver uma vaga. - Existe uma vaga - disse Eastman -, só que são mais de cem cães a um osso. -Abanou a cabeça com tristeza. -É incrível. A Força Aérea ensina milhares dejovens brilhantes a pilotar as máquinas mais complicadas do mundo. Depois, quando as dominam com perfeição, manda-os dar uma volta. Não têm nada para lhes oferecer. Suspirou. - Você não iria acreditar nas pessoas que estiveram cá hoje. Pilotos de primeira, ases como você. Há apenas uma vaga para todos os milhares de candidatos... e todas as outras companhias aéreas estão exactamente na mesma posição. Uma sensação de desapontamento invadiu Larry. - Por que me recebeu? - perguntou ele tensamente. - Por duas razões. Primeiro, porque o chefe me disse que o fizesse. Larry sentiu crescer uma raiva dentro de si. - Eu não quero...


E inclinou-se para a frente. - A segunda, porque a sua folha de serviços é um espanto. - Obrigado - disse Larry secamente. Eastman examinou-o. - Teria de sujeitar-se a um estágio aqui, sabe. Seria como voltar à escola. Larry hesitou, sem saber o rumo que a conversa tomava. - Quanto a isso, não há problema - disse ele, cautelosamente. - Terá de estagiar no aeroporto La Guardia em Nova Iorque. Larry abanou a cabeça, à espera. - São quatro semanas de teoria e um mês de voo. - Os vossos aviões são DC-4? - perguntou Larry. - Exacto. Quando terminar o estágio, começará como navegador. O ordenado-base de estagiário será de cento e cinquenta dólares por mês. Conseguira o emprego! O sacana torturara com aquela conversa de que havia milhares de pilotos à porta. Mas o emprego era dele! Por que se preocupara? Na Força Aérea, ninguém tinha uma folha de serviços igual à dele. Larry deu um sorriso largo. - Não me importo de começar como navegador, Eastman, mas eu sou um piloto. Quando é que isso vai acontecer? Eastman suspirou. - As companhias aéreas têm sindicatos. A promoção passa exclusivamente pelaantiguidade. Há muita gente à sua frente. Quer arriscar? Larry abanou a cabeça. - Que tenho eu a perder? - Muito bem - disse Eastman. - Tratarei de todas as formalidades. Terá de fazer um exame médico, claro. Algum problema?


Larry deu um sorriso largo. - Osjaponeses não viram nada de errado em mim. - Quando é que pode começar a trabalhar? - Hoje à tarde é cedo de mais? - Segunda feira. - Eastman rabiscou um nome num cartão e entregou a Larry. Tome.Estarão à sua espera segunda-feira de manhã. Quando Larry telefonou a Catherine para lhe dar a novidade, exprimiu-se com uma excitação que Catherinejulgara perdida. Sentiu então que tudo ia correr pelo melhor.

NOELLE Atenas: 1946 12 Constantin Demiris possuía uma frota de aviões para uso pessoal, mas o seu orgulho era um Hawker Siddeley convertido que transportava dezesseis passageiros em luxuoso conforto, atingia uma velocidade de trezentas milhas por hora e levava uma tripulação de quatro elementos. Era um palácio voador. O interior fora decorado por Frederick Sawrin, e Chagall pintura os murais das paredes. Em vez de assentos normais, a cabina possuía poltronas e sofás. O compartimento da cauda fora convertido num luxuoso quarto de cama. Junto à cabina de pilotagem havia uma cozinha moderna. Sempre que Demiris ou Noelle viajavam no avião, havia um chefe de cozinha a bordo. Demiris contratara como seus pilotos particulares um aviador grego de nome Paul Metaxas e um ex-piloto de caças da R.A.F. chamado Ian Whitestone. Metaxas era um homem forte e simpático, sempre com um sorriso nos lábios e uma gargalhada sincera e contagiosa. Fora mecânico, aprendera a pilotar sozinho e servira na R.A.F. durante a Batalha de Inglaterra, onde conhecera Ian Whitestone. Whitestone era um homem alto, ruivo e dolorosamente magro, com o modo desconfiado dum mestre-escola no primeiro dia de aulas numa escola dos subúrbios frequentada por rapazes incorrigíveis. No ar, Whitestone era porém uma coisa diferente. Tinha a perícia rara e natural dum piloto nato, um sentimento que não se pode aprender ou ensinar. Whitestone e Metaxas voaramjuntos durante três anos contra a Luftwaffe, e ambos tinham uma grande consideração um pelo outro. Noelle viajava frequentemente no avião grande, às vezes em negócios com Demiris, outras em passeio. Acabara por conhecer os pilotos,mas não lhes prestava uma atenção especial.


Mas um dia ouviu-os recordarem-se de uma experiência que tiveram na R.A.F. A partir desse momento, Noelle passava parte do voo na cabina emconversa com os homens ou convidava um deles a fazer-lhe companhia na sala. Encorajava-os a falarem das suas experiências e, semnunca lhes fazer uma pergunta directa, acabou por saber queWhitestone fora oficial de ligação da esquadrilha de Larry Douglas antes da saída de Larry da R.A.F. e que Metaxasjá não conheceu Larry quando entrou para a esquadrilha. Noelle começou a concentrar a suaatenção no piloto inglês. Encorajado e lisonjeado pelo interessedaamante do patrão, Whitestone falava à vontade da sua vida passadae das suas ambiçõesfuturas. Disse a Noelle que sempre se interessara por electrónica. Tinha um cunhado na Austrália que abrira umapequena firma de electrónica e queria dar-lhe sociedade, masWhitestone não tinha capital. - Com o meu modo de vida - disse ele a Noelle, rindo-se - nunca conseguirei. Noelle continuou a ir a Paris mensalmente para ver ChristianBarbet. Barbet estabeleceraligação com uma agência privada de detectives em Washington, e os relatórios sobre LarryDouglas chegavam a toda a hora. Pondo Noelle cautelosamente à prova, o pequenodetective oferecera-se para enviar os relatórios para Atenas, mas eladisse-lhe que preferialevantá-los pessoalmente. Barbet abanoucheio de manha e disse em tom de conspiração: - Entendo, Miss Page. Afinal ela não queria que Constantin Demiris soubesse do seu interesse por Larry Douglas. As possibilidades de chantagem assaltaram o espírito de Barbet. - O senhor tem sido muito útil - disse Noelle - e muito discreto. Ele sorriu untuosamente. - Obrigado, Miss Page. O meu negócio depende da discreção. - Exactamente - respondeu Noelle -, sei que é discreto porqueConstantin Demiris nunca me falou de si. No dia em que o fizer, pedir-lhe-ei que o destrua. - Falou num tom agradável e natural, masfuncionou como uma bomba: Barbet olhou-a fixamente, chocado, lambendo os lábios. Coçou avirilha nervosamente egaguejou: - G... garanto-lhe, mademoiselle, que eu nunca... - Tenho a certeza de que não - disse Noelle e partiu. No avião comercial que a trazia de volta à Grécia, Noelle lia o relatório confidencial que seencontrava no sobrescrito amarelo selado.


AGÊNCIA DE SEGURANÇA ACME fla D, 1402 Washington 2 de Fevereiro, 1946 Caro Sr. Barbet: Um dos nossos agentes falou com um contacto da Divisão de Pessoal da Pan Am a pessoa em causa é tida como um piloto de combate competente, mas ignoram se é sufcientemente disciplinado para se integrar numa grande organização estruturada. O estilo de vida da pessoa em causa segue o padrão dos nossos relatórios anteriores. Seguimo-lo até aos apartamentos de várias mulheres que convidara, onde permaneceu por períodos de uma até cinco horas, e presumimos que esteja a ter uma série de relações sexuais com estas mulheres. (Os nomes e as moradas estão em arquivo, caso os deseje.) Em vista do novo emprego da pessoa em causa, é possível que este padrão se altere. Continuaremos as investigações a seu pedido. Junto remetemos a nossa factura. Muito atentamente, R. Ruttenberg Director Noelle voltou a meter o relatório no sobrescrito, recostou-se no assento e fechou os olhos. Via Larry, inquieto e atormentado, casado com uma mulher que não amava, preso numa armadilha em que caíra por causa da sua fraqueza. O novo emprego na companhia aérea poderia atrasar um pouco,mas ela tinha paciência. Com o tempo, traria Larry parajunto de si. Entretanto, havia várias medidas que tinha detomar para o processo avançar. Ian Whitestone estava encantado por ter sido convidado para almoçar com Noelle Page. Noinício, gabara-se de que ela se sentiaatraída por ele, mas todos os encontros entre elesdecorriam numabase agradável masformal, que lhe recordou o seu estatuto de empregado e o facto de que ela era intocável. Sempre se sentira intrigado sobre o que Noelle desejava dele, pois Whitestone era um homem inteligente e teve a sensação estranha de que as suas conversas esporádicas lhe interessavam mais a ela do que a ele. Neste dia particular, Whitestone e Noelle foram almoçar a uma pequena cidade do litoral perto de cabo Sunion. Noelle trazia um vestido branco de Verão e sandálias, e o seu cabelo louro e macio esvoaçava ao vento, e nunca esteve tão bela. Ian Whitestone estava noivo dum modelo que vivia em Londres apesar de ser uma mulher bonita, não se comparava a Noelle. Whitestone nunca conhecera ninguém que pudesse, e teria invejado Constantin Demiris, só que Noelle lhe parecia mais desejável na ausência. Quando Whitestone estava de facto na companhia dela, sentia-se ligeiramente intimidado. Noelle começara a falar dos planos que ele tinha para o futuro, e passou-lhe pela cabeça, novamente, se ela estaria a querer sondar por ordem de Demiris se ele era leal ao patrão.


- Eu adoro o meu trabalho - assegurou a Noelle com sinceridade. - Gostava de o conservar enquanto os meus olhos puderem ver o caminho. Noelle examinou-o por um momento, apercebendo-se das suas suspeitas. - Estou desapontada-disse ela com pesar. -Esperava que fosse mais ambicioso. Whitestone fitou-a. - Não estou a perceber. - Não me disse que gostava de ter uma firma de electrónica um dia? Lembrou-se de lhe ter falado no assunto certa vez, e surpreendeu o facto de não se ter esquecido. - Isso era um sonho impossível -respondeu ele. - Precisaria de muito dinheiro. - Um homem com as suas capacidades - disse Noelle - não deveria desistir por falta de dinheiro. Whitestone ficou pouco à vontade, sem saber o que noelle Page esperava que dissesse. Gostava sem dúvida do emprego que tinha. Nunca ganhara tão bem na vida, tinha um bom horário de trabalho e o trabalho era interessante. Por outro lado, estava às ordens dum bilionário excêntrico que contava com a sua disponibilidade a todas as horas do dia e da noite. Transformara-lhe a vida num inferno, e a noiva não estava nada satisfeita com o que ele fazia, ganhasse ele o que ganhasse. - Tenho falado com um amigo a seu respeito - disse Noelle. Ele gosta de investir em companhias novas. A sua voz tinha um domínio controlado, como se estivesse excitada com o que dizia, e, no entanto, era muito cautelosa para não o entusiasmar de mais. Os olhos de Whitestone ergueram-se e cruzaram-se com os dela. - Ele ficou muito interessado por si - disse ela. Whitestone engoliu em seco. - Não sei o que diga, Miss Page. - Não estou à espera de que diga nada agora - assegurou-lhe Noelle. - Só quero que pense no assunto. Ele ficou a pensar em tudo aquilo. - O Sr. Demiris está a par disto? - perguntou ele por fim. Noelle sorriu em tom de conspiração.


- Receio que o Sr. Demiris não consentiria. Ele não gosta de perder os empregados, especialmente os bons. Porém... - deteve-se por um segundo -, acho que você tem direito a tirar o melhor proveito da vida. A não ser, é claro - acrescentou ela -, que queira continuar a trabalhar para os outros o resto da vida. - Não quero - disse Whitestone de imediato, e subitamente deu conta de que dava a sua palavra. Examinou o rosto de Noelle para encontrar um indício de que se tratava de uma armadilha, mas apenas encontrou a compreensão de quem entendia. - Todo aquele que se preza merece ter um negócio próprio - disse ele em tom de defesa. - Claro - concordou Noelle. - Pense no assunto e depois falamos. - E disse como quem advertia: - Isto deve ficar entre nós. - Está certo - disse Whitestone -... e obrigado. Se tudo correr bem, ficarei muito feliz. Noelle concordou. - Tenho um pressentimento de que tudo vai correr bem.

CATHERINE Washington-Paris: 1946 13 Eram nove horas da manhã de segunda-feira quando Larry Douglas se apresentou ao pilotochefe, comandante Hal Sakowitz, nosescritórios da Pan American no aeroporto LaGuardia, em Nova Iorque. Assim que Larry entrou, Sakowitz pegou na cópia da folha de serviço de Larry que estivera a examinar e guardou-a numa gaveta dasecretária. O comandante Sakowitz era um homem entroncado e agreste,tinha um rosto cheio decicatrizes e marcado e as maiores mãos queLarry já vira. Sakowitz era um verdadeiroveterano da aviação. Começara nos tempos dos circuitos aéreos itinerantes, voara nos monomotores do Estado para transporte de conelo e era piloto aéreo havia vinte anos, cinco dos quais como pilotochefe da Pan American. - Muito gosto em tê-lo na companhia, Douglas - disse ele. - Igualmente - respondeu Larry. - Desejoso de voltar a ter um avião? - Quem precisa de um avião? - sorriu Larry. - Basta indicar-me um rumo, que eu levanto voo.


Sakowitz indicou-lhe uma cadeira. - Sente-se. Gosto de travar conhecimento com os rapazes quevêm tomar o meu lugar. Larry riu-se. - Você deu por isso. - Oh, não os censuro. São todos pilotos importantes, com uma excelente folha de serviço,entram aqui e pensam: Se um idiota comoSakowitz pode ser piloto chefe, eu ainda chego a presidente da Administração. Nenhum quer ser navegador por muito tempo. É apenasumdegrau para o posto de piloto. Pronto, está certo. É assim que deve ser. - Ainda bem que pensa assim - disse Larry. - Mas há uma coisa que você tem de saber desdejá. Todos nós pertencemos a um sindicato, Douglas, e as promoções baseiam-se exclusivamente na antiguidade. - Entendo. - A única coisa que você pode não entender é que estes empregos são muito bons e há mais pessoas a entrar do que a sair. Isso atrasa o ritmo de promoção. - Arriscarei - respondeu Larry. A secretária de Sakowitz trouxe café e bolos, e os dois homens passaram a hora seguinte a conversar e a conhecer-se. Sakowitz era simpático e agradável, e muitas das perguntas que fez eram aparentemente irrelevantes e triviais, mas, quando Larry saiu para comparecer na primeira aula, Sakowitz sabia bastante a respeito de Larry Douglas. Minutos depois de Larry sair, Carl Eastman entrou no escritório. - Como é que correu? - perguntou Eastman. - Foi tudo bem. Eastman lançou-lhe um olhar duro. - Que é que achas, Sak? - Vamos pô-lo à prova. - Eu pedi a tua opinião. Sakowitz encolheu os ombros. - Está bem. Vou dizer o que penso. Tenho para mim que é um excelente piloto. Pela folha


de combate, tem de ser. Mete-o num avião por entre uma carrada de caças inimigos a quererem atingi-lo e nenhum o abate. - Hesitou. - Continua - disse Eastman. - A questão é que não há muitos caças em Manhattan. Tenho conhecido tipos como Douglas. Por razões que nunca entendi, as suas vidas são orientadas para o perigo. Fazem coisas incríveis: escalam montanhas impossíveis, mergulham no fundo do mar ou lembramse de outras loucuras perigosas. Quando rebenta uma guerra, sobem como a nata numachávena de café a escaldar. -Girou a cadeira e olhou para a rua. Eastman deixou-se estar, em silêncio, à espera. - Sinto não sei o quê em relação a Douglas, Carl. Há qualquer coisa de errado com ele. Se fosse comandante dum dos nossos aparelhose o pilotasse, talvez conseguisse fazê-lo. Mas não julgo que esteja psicologicamente preparado para receber ordens de um mecânico, de um primeiro-oficial e de um piloto, especialmente quando acha que é melhor que eles. Girou de novo para olhar para Eastman. - E o engraçado é que deve sê-lo. - Estás a deixar-me nervoso - disse Eastman. - Também a mim - confessou Sakowitz. - Não acho que ele seja... - parou, à procura da palavra certa - estável. Quando se fala com ele, fica-se com a sensação de que tem uma carga de dinamite dentro do corpo, pronta a explodir. - Que tencionas fazer? - Já tomámos medidas. Fará o curso, e vamos tê-lo debaixo de olho. - Talvez reprove - disse Eastman. - Não sabes com quem estás a lidar. Vai ser o melhor da aula. Sakowitz acertou em cheio. O estágio constava de quatro semanas de teoria, seguidas de mais um mês de treino de voo. Como os estagiários já eram pilotos experientes com muitos anos de voo atrás de si, o curso destinava-se aatingir dois objectivos: o primeiro era rever matérias como navegação, rádio, comunicações, leitura de mapas e pilotagem de instrumentos, a fim de refrescar a memória dos homens e apontar com precisão as suas fraquezas potenciais, e a segunda erafamiliarizá-loscom o novo equipamento que iriam utilizar. A pilotagem de instrumentosera feita numa cabina simulada assente numa base móvel,possibilitando qualquer manobraao piloto que se encontrava no interior da cabina, incluindo paragens, loops, parafusos erolamentos. Havia um pano preto sobre o topo da cabina para que o piloto voasse às escuras, utilizando


apenas os instrumentos que tinha à sua frente. O instrutor, que se encontrava no exterior, enviava ordens ao piloto, dando-lhe instruções para as descolagens e aterragens em facedeforte velocidade de vento, tempestades, cadeias de montanhas etodas as outras ocorrênciaspossíveis. Os pilotos mais experientes entravam no simulador confiantes, mas em breveaprendiam que a operação dos pequenos simuladores era muito mais difícil do que parecia. Era uma sensação estranha estar-se sozinho na cabina minúscula, sem qualquer ligação ao exterior. Larry era um aluno dotado. Prestava atenção às aulas e absorvia tudo o que lhe ensinavam. Cumpria as tarefas extraaula correcta e cuidadosamente. Não mostravasinais de impaciência, nervosismo ouenfado. Pelo contrário, era oaluno mais interessado do curso e certamente o maisdestacado. A única área que constituía novidade para Larry era o equipamento, os DC-4. Os aviões de Douglas eram naves compridas e silenciosas, parcialmente apetrechadas com equipamento inexistente no início da guerra. Larry passava horas a estudar cada milímetro do aparelho, examinando a forma como fora montado e como funcionava. À noite, mergulhava nas dezenas de manuais de manutenção do avião. Certa noite, a altas horas, já os outros alunos tinham abandonado o hangar, Sakowitz fora encontrar Larry num dos DC, deitado de costas sob a cabina, a examinar a parte eléctrica do avião. - Podes acreditar: o gajo está a fazer-se ao meu lugar - disse Sakowitz a Carl Eastman na manhã seguinte. - Agindo dessa maneira, talvez o consiga - disse Eastman com um sorriso largo. Ao fim das oito semanas, houve uma pequena cerimónia para a entrega dos diplomas. Catherine deslocou-se cheia de orgulhos a Nova Iorque, para estar presente na entrega das asas de navegador a Larry. Tentava não dar importância à ocasião. - Cathy, é apenas um bocado de tecido que nos dão para nos lembrarmos da nossa função quando entramos numa cabina. - Oh, não é, não, senhor - disse ela. - Falei com o comandante Sakowitz, que referiu as tuas qualidades. - Que sabe um polaco estúpido? - disse Larry. - Vamos comemorar. Nessa noite, Catherine e Larry e quatro colegas de curso de Larry e as suas mulheres foram jantar ao Clube Twentyne, na 52ª Rua, na parte oriental de Nova Iorque. O salão estava repleto, e o maitre d'hotel disse-lhes que só tinha mesa quem tivesse feito reserva. - Este lugar não interessa a ninguém - disse Larry. - Vamos ao Toots Shor, aqui mesmo ao lado. - Espera um minuto - disse Catherine.


Dirigiu-se ao chefe de mesa e disse que queria falar com Jerry Berns. Alguns momentos depois, um homem baixo e magro com uns olhos cinzentos curiosos apareceu. - Sou Jerry Berns - disse ele. - Em que posso servi-la? - O meu marido e eu estamos com alguns amigos - explicou Catherine. - Ao todo, somos dez. Começou a abanar a cabeça. - Se não tiverem reserva... - Sou sócia de William Fraser - disse Catherine. Jerry Berns olhou para Catherine com um ar de censura. - Por que não me disse logo? Pode dar-me um quarto de hora? - Obrigada - disse Catherine agradecidamente. Juntou-se aogrupo. - Surpresa! - disse Catherine. - Arranjámos mesa. - Como é que conseguiste? perguntou Larry. - Foi fácil - disse Catherine. - Falei no nome de Bill Fraser. Apercebeu-se da expressão no olhar de Larry. - Ele vem cá muitasvezes – acrescentoulogo Catherine. -E disse-me que falasse no nome dele se por acaso viesse cá e não houvesse mesa. Larry voltou se para os outros. - Vamos mas é embora daqui. Isto é para idiotas. – o grupo começou a dirigir-se para a porta. Larry voltou-se paraCatherine. - Vens? - Claro - disse Catherine com hesitação -, eu só queria dizer-lhes que nós não vamos... - Estes gajos que se lixem - disse Larry em voz alta. - Ficas ouvens? As pessoas viravam-se, cóm olhares reprovadores. Catherinesentiu o rosto enrubescer. - Vou - disse ela. Virou-se e seguiu atrás de Larry até à porta. Foram a um restaurante italiano da Sexta Avenida, onde jantaram muito mal. Por fora, Catherine agia como se nada tivesse acontecido, mas por dentro estava cheia de raiva. Estava furiosa comLarry pelo seu comportamento infantil e pela sua humilhação em público. Quando chegaram a casa, foi para a casa de banho sem dizer umapalavra, despiu-se, apagou a luz e meteu-se na cama. Ouviu Larryna sala, a misturar uma bebida. Dez minutos depois entrou no quarto, acendeu a luz e aproximou-se da cama.


- Estás a armar-te em vítima? - perguntou ele. Ela sentou-se, furiosa. - Não tentespôr-me à defesa – disseela. -O teu comportamento desta noite foi indesculpável. Que é que te deu? - O mesmo que te deu a ti. Ela fitou-o. - Oquê? - Estou a falar do Sr. Perfeição. Bill Fraser. Olhou, sem perceber. - Bill nunca fez outra coisa que não ajudar-nos. - Podes crer - disse ele. - deves-lhe a firma. Eu devo-lhe o emprego. Agora nem nos podemos sentar num restaurante sem a autorização de Fraser. Bem, estou farto de o ver à minha volta todo o santo dia. - O tom de Larry abalou Catherine ainda mais do que as palavras que proferia. Sentia-se tão frustrado e impotente que ela compreendeu pela primeira vez o tormento em que devia estar. E por que não? Regressara de quatro anos de combate para descobrir a mulher associada ao antigo namorado. E, para piorar o caso, ele próprio não fora capaz de arranjar um emprego sem a ajuda de Fraser. Enquanto olhava para Larry, Catherine deu conta de que o casamento deles havia chegado a um ponto de viragem. Se ficasse com ele, ele teria de vir em primeiro lugar. Antes do trabalho dela, antes de tudo. Pela primeira vez, Catherine sentiu que realmente entendia Larry. Como se lhe lesse o pensamento, Larry disse em tom de penitência: - Desculpa ter-me comportado como um boçal esta noite. Mas, quando conseguimos arranjar mesa só através do nome mágico de Fraser, subitamente fiquei até aqui. - Desculpa, Larry-disse Catherine- não voltarei afazer o que fiz. E caíram nos braços um do outro, e Larry disse: - Por favor, nunca me abandones, Cathy. E Catherine pensou que estivera à beira de o fazer, e abraçou mais e disse: - Nunca te abandonarei, meu amor, nunca.


A primeira missão de Larry como navegador foi no voo 147 de Washington para Paris. Ficava em Paris durante quarenta e oito horas depois de cada voo, depois regressava a casa durante três dias antes de voltar a voar. Uma manhã, Larry telefonou a Catherine para o escritório, excitado. - Descobri um óptimo restaurante. Podes sair para almoçar? Catherine olhou para a quantidade de projectos que tinham de ser concluídos e aprovados antes do meio-dia. - Claro - disse ela, num tom imprudente. - Vou buscar-te dentro de quinze minutos. - Não me vai abandonar! - queixou-se Lucia, a assistente. Stuyvesant vai dar uivos se não lhe aprontarmos a campanha hoje. - Isso fica para depois - disse Catherine. - Vou almoçar com o meu marido. Lucia encolheu os ombros. - Não a censuro. Quando se cansar dele, diga-me, está bem? Catherine sorriu. - Nessa altura você será velha demais. Larry parou em frente ao escritório, e Catherine entrou no carro. - Estraguei-te o dia? - perguntou ele maliciosamente. - Claro que não. Ele riu-se. - Os executivos vão ter todos um ataque. Larry tomou o caminho do aeroporto. - O restaurante fica muito longe? - perguntou Catherine. Tinha cinco entrevistas à tarde, sendo a primeira às duas horas. - Não é muito longe... Tens muito que fazer à tarde? - Não - mentiu ela. - Nada de especial.


- Óptimo. Quando chegaram à rotunda do aeroporto, Larry virou em direcção à entrada. - O restaurante fica dentro do aeroporto? - No outro lado - respondeu Larry. Estacionou o carro, deu o braço a Catherine e levou-a para a sala da Pan Am. A rapariga atraente que se encontrava ao balcão cumprimentou-o pelo nome. - É a minha esposa - disse Larry orgulhosamente. - Amy Winston. Cumprimentaram-se com um olá. - Anda. - Larry pegou no braço de Catherine e levou-a até à plataforma de embarque. - Larry... - começou Catherine a dizer. - Para onde... ? - Bolas, és a mulher mais faladora com quem já almocei. Chegaram à porta 37. Dois homens ao balcão processavam os embarques. No quadro de informações lia-se Voo 147 com destino a Paris - Partida 13: 00 HRS. Larry foi ter com um dos homens que estava ao balcão. - Cá está ela, Tony. -Entregou-lhe uma passagem aérea. -Cathy, Tony Lombardi. Catherine. - Já ouvi falar muito de si - sorriu o homem. - O seu bilhete está em ordem. - Entregou a passagem a Catherine. Catherine ficou o olhar no papel, atónita. - Para que é isto? - Eu menti-te - sorriu Larry. - Não te vou levar a almoçar. Vou levar-te a Paris, ao Maxim. A voz de Catherine falhou. - M... Maxim? Em Paris? Agora? - É verdade. - Não posso - lamentou-se Catherine. - Não posso ir para Paris agora. - Claro que podes - disse ele num sorriso largo. - Tenho o teu passaporte no bolso.


- Larry - disse ela - estás doido! Não tenho roupa. Tenho um milhão de compromissos. Eu... - Eu compro-te algumas roupas em Paris. Anula os teus compromissos. Fraser pode muito bem passar sem ti durante alguns dias. Catherine fitou-o, sem saber o que dizer. Lembrou-se das decisões que tomara. Larry era o marido. Tinha de vir em primeiro lugar. Catherine percebeu que para Larry não era só levála a Paris que estava em causa. Ele estava a exibir-se diante dela, pedindo-lhe que viajasse no avião de que ia ser navegador. E ela quase deitara tudo a perder. Agarrou-lhe na mão e sorriu-lhe. - Estamos à espera de quê? - perguntou Catherine. - Estou morta de fome. Paris era um turbilhão de divertimento. Larry conseguira arranjar uma semana de folga, e Catherine achava que todas as horas do dia e da noite transbordavam de coisas para fazer. Hospedaram-se num encantador hotelzinho na Margem Esquerda. Na primeira manhã que passaram em Paris, Larry levou Catherine a uma loja nos Campos Elíseos, onde quis comprar-lhe a loja inteira. Ela comprou apenas o que precisava e ficou chocada com os preços. - Sabes qual é o teu problema? - disse Larry. - Preocupas-te demasiado com o dinheiro. Tu estás em lua-de-mel. - Está bem, meu amo - disse ela. Mas recusou-se a comprar um vestido de noite desnecessário. Quando tentou perguntar a Larry a origem de todo aquele dinheiro, não quis falar no assunto, mas ela insistiu. - Adiantaram-me sobre o ordenado - disse-lhe Larry. - Qual é o problema? E Catherine não teve coragem de lhe dizer. Parecia uma criança quando tem dinheiro, generoso e descuidado, e isso era parte do seu encanto. Tal como fora parte do encanto do pai. Larry deu a volta turística por Paris: o Louvre, as joalherias e os Inválidos para ver o túmulo de Napoleão. Levou-a a um restaurantezinho típicojunto à Sorbonne. Visitaram as Halles, o lendário mercado de Paris, e viram a fruta, as hortaliças e a carne do diaproduzidas nas quintas de França e passaram a última tarde de domingo que lhes restava em Versalhes, e depoisjantaram nojardim lindíssimo do Coq Hardi nos arredores de Paris. Foi uma segunda lua-de-mel perfeita. Hal Sakowitz estava no escritório, examinando os relatórios semanais do pessoal. Diante de si tinha o relatório sobre Larry Douglas. Sakowitz estava recostado na cadeira, analisando, puxando pensativamente pelo


lábioinferior. Por fim, inclinou-se para a frente e premiu o botão do intercomunicador. Mande-o entrar - disse ele. Um momento depois, Larry entrou, vestido com o uniforme da PanAm e o seu saco de voo na mão. Lançou um sorriso rápido a Sakowitz. - Bom dia, chefe - disse ele. - Sente-se. Larry afundou-se numa cadeira que se encontrava diante da secretária e acendeu um cigarro. Sakowitz disse: - Tenho aqui a informação de que na passada segunda-feira emParis você chegou à reunião de voo com quarenta e cinco minutos deatraso. A expressão de Larry alterou-se. - Fui retido por uma parada nos Campos Elíseos. O avião levantou voo à hora certa. Não sabia que isto aqui era um campo de escoteiros. - Isto é uma companhia aérea-disse Sakowitz, calmamente. E cumprimos todas as regras. - Tudo bem - disse Larry num tom irado. - Não me aproximarei dos Campos Elíseos. Mais alguma coisa? - Sim. O comandante Swif acha que você bebeu uns copos antes da descolagem dos últimos voos. - Ele é um grande mentiroso! - ripostou Larry. - Por que mentiria ele? - Porque está com medo de que eu fique com o lugar dele. - Havia uma raiva aguda na voz de Larry. - O sacana é uma carcaça que já se devia ter reformado há anos. - Você voou com quatro comandantes diferentes - disse Sakowitz. - De qual gostou mais? - De nenhum deles - retorquiu Larry. Deu pela armadilha tarde de mais. Apressadamente, acrescentou: - Quer dizer... são todos competentes. Não tenho nada contra eles. - Eles também não gostam de voar consigo - disse Sakowitz tranquilamente. - Você enervaos.


- Que diabo significa isso? - Significa que se houver uma emergência eles querem saber quem é o homem que está ao lado deles. Não sabem ao certo o que pensam a seu respeito. - Pelo amor de Deus! - explodiu Larry. - Vivi quatro anos de emergências na Alemanha e no Pacífico Sul, pondo a vida em risco todos os dias, enquanto eles estavam aqui todos refastelados, a ganhar bons ordenados, e agora não confiam em mim? Você deve estar a brincar! - Ninguém duvida das suas qualidades num avião de combate - respondeu Sakowitz calmamente. - Mas nós transportamos passageiros. Isto é um jogo muito diferente. Larry deixou-se ficar, de punhos cerrados, tentando dominar a raiva. - Muito bem - disse ele com maus modos. - Entendi a mensagem. Se já terminou, tenho um voo daqui a alguns minutos. - Vai outra pessoa no seu lugar - disse Sakowitz. - Você está demitido. Larry fitou-o incredulamente. - Estou quê? - De certo modo, acho quea culpa é minha, Larry. Eu nunca o deveria ter contratado. Larry pôsse de pé, os olhos ardendo de fúria. - Então por que diabo o fez? - perguntou ele. - Porque a sua mulher tem um amigo chamado Bill Fraser...justificou-se Sakowiz. Larry contornou a secretária, esmagando o punho na cara de Sakowitz. O murro atirou Sakowitz contra a parede. No ressalto deu dois socos em Larry, depois recuou, tentando dominar-se. - Ponha-se daqui para fora - disse ele. - Já! Larry fitou-o com o rosto distorcido de ódio. - Seu filho da puta -disse ele. -Eu não punha os pés nesta companhia aérea outra vez nem que você me implorasse! - Voltou-se e saiu do escritório furioso. Sakowitz permaneceu onde estava, vendo sair. A secretária entrou a correr. Viu a cadeira derrubada e o lábio ensanguentado de Sakowitz.


- O senhor está bem? - perguntou ela. - Óptimo - disse ele. - Pergunte ao Sr. Eastman se pode vir aqui. Dez minutos depois, Sakowitz dera por terminado o relato do incidentc a Carl Eastman. - Que achas que há de errado com Douglas? - perguntou Eastman. - Sinceramente? Acho que é um psicopata. - Eastman fitou com os seus olhos penetrantes cor de avelã. - Isso é muito forte, Sak. Ele não estava durante o voo. Ninguémpode sequer provar quetinha tomado uma bebida em terra. E toda agente pode atrasar se de vez em quando. - Se fosse só isso, não o teria despedido, Carl. Douglas ferve em pouca água. Para te dizera verdade, eu hoje estava a tentar provocá-lo, e não foi difícil. Se ele tivesse aguentado apressão, eu poderia tercorrido o risco de o ter deixado ficar. Sabes o que me preocupa? – Oquê? Sakowitz disse: - Aqui há uns dias encontrei-me com um velho amigo que voava comDouglas na R.A.F. Contou-me uma história incrível. Parece que quando Douglas estava naEsquadrilha Águia se apaixonoupor uma rapariga inglesa que era noiva dum rapazchamado Clark,que fazia parte da Esquadrilha de Larry. Douglas não a deixava empaz,mas a rapariga não lhe ligava nenhuma. Uma semana antes docasamento, a Esquadrilhadescolou para apoiar uns B-17num ralisobre Diepe. Douglas voava na retaguarda daEsquadrilha. As fortalezas lançaram as bombas e todos regressaram à base. Quandosobrevoavam a Mancha, foram atingidos por alguns Messerschmidt, e Clark foi abatido. - Fez uma pausa, perdido nalgum pensamento. Eastman aguardou que continuasse, até que por fim Sakowitz olhou para ele. -Segundo o meu amigo, não havia nenhum Messerschmidt perto de Clark quando foi atingido. Eastman fitava, incrédulo. - Santo Deus! Tu estás a dizer que Larry Douglas...? - Não estou a dizer nada. Estou a apenas a contar-te uma história interessante que ouvi. Levou o lenço de novo ao lábio. O sangue estancara. - É difícil saber o que está a acontecer durante uma luta de cães. Talvez a Clark tivesse apenas faltado gasolina. Uma coisa é certa: faltou-lhe foi sorte. - Que aconteceu à rapariga? - Douglas andou com ela até regressar aos Estados Unidos e depois deu-lhe com os pés. Olhou para Eastman pensativamente. Só te digo esta certeza. Sinto pena da mulher de Douglas.


Catherine estava na sala de conferências numa reunião de pessoal quando a porta se abriu e Larry entrou. Tinha o olho negro e inchado, um golpe na face. Ela foi logo ao seu encontro. - Larry, que aconteceu? - Despedi-me - murmurou ele. Catherine levou-o para o gabinete dela, longe dos olhares de pasmo dos outros, e pôs-lhe um pano molhado no olho e na face. - Conta-me o que se passou - disse ela, dominando a ira perante o que lhe haviam feito. - Há muito tempo que andavam a embirrar comigo, Cathy. Acho que me invejavam porque eu estive na guerra e eles não. Mas hoje passou dos limites. Sakowitz chamou-me e disseme que só me contrataram foi porque tu eras a queridinha de Bill Fraser. Catherine olhou para ele, sem saber o que dizer. - Eu bati-lhe - disse Larry. -não pude evitar. - Oh, querido! - disse Catherine. - lamento tanto. - Sakowitz lamenta ainda mais - respondeu Larry. - Ia dando cabo dele. Com ou sem emprego, não ia permitir que ninguém falasse daquele modo a teu respeito. Ela abraçou-o, animadoramente. - Não te preocupes. Podes trabalhar em qualquer companhiaaérea do país. Catherine revelou-se uma má profetiza. Larry apresentou a sua candidatura em todas as linhas aéreas, sendo entrevistado por várias, mas nenhuma voltou a contactá-lo. Bill Fraser almoçou com Catherine, e ela contou-lhe o sucedido. Fraser não disse nada, mas esteve pensativo durante todo o almoço. Várias vezes sentiu que ele ia dizer-lhe alguma coisa, mas parava sempre. Por fim disse: - Conheço muitas pessoas, Cathy. Queres que lhe arranje qualquer coisa noutro lugar? - Obrigada - disse Catherine agradecidamente. - Mas penso que não. Havemos de nos arranjar. Fraser olhou-a por um momento, depois anuiu. - Se mudares de ideia, diz-me.


- Está descansado - disse ela reconhecidamente. - Ando sempre a aborrecer-te com os meus problemas. AGÊNCIA DE SEGURANÇA ACME Rua D, 1402 Washington Relá 2-179-2101 de Abril, 1945 Ex. m" Sr. Barbet: Agradeço a sua carta do passado dia 15 de Março, bem como a ordem de pagamento. Desde o meu último relatório, a pessoa em causa empregou-se como piloto na Flying Wheels, uma pequena companhia independente de aviões de aluguel com sede em Long Island. Após uma pequena investigação junto do Banco Dun e Bradstreet, sabemos que dispõe de um capital de 750 000 dólares. Está equipada com um 26 e um DC transformados. Contraiu empréstimos bancários num valor superior a 400000 dólares. O vice-presidente do Banco de Paris em Nova Iorque, onde tem os seus maiores depósitos, assegurou-me que a companhia tem um potencial de crescimento e futuro excelentes. O Banco está a estudar a hipótese de emprestar o dinheiro suficiente para a aquisição de mais aviões com base nas receitas actuais de 80000 dólares anuais, com aumentos previstos de 30% ao ano, nos próximos cinco anos. Se desejar mais pormenores sobre os aspectos financeiros da companhia, queira solicitarmos. A pessoa em causa começou a trabalhar a 19 de Março. O chefe do pessoal (que é também um dos proprietários) informou o meu agente de que se sentia feliz por a pessoa em causa estar ao seu serviço. Seguirão mais pormenores. Atentamente, R. Ruttenberg Director Bunco de Paris Nova Iorque Philippe Chardon Presidente da Administração Cara Noelle: És mesmo má! Não sei que te fez esse, mas, fosse o que fosse, pagou bem. Foi despedido da Flying Wheels, e o meu amigo disse-me que teve um ataque de fúria. Penso ir a Atenas, e estou a contar ver-te. As minhas lembranças a Costa - e não estejas preocupada, porque o meu pequeno favor será o nosso segredo.


Teu amigo dedicado, Philippe

AGÊNCIA DE SEGURANÇA ACME Rua D, 1402 Washington Reli n" 2-179-210 22 de Maio, 1946 Ex. m" Sr. Barbet: O presente relatório reporta-se ao por mim enviado a de Maio, p. p. No dia 14 de Maio, p. p. a pessoa em causa foi despedida da companhia Flying Wheels. Tenho tentado fazer investigações discretas das razões do sucedido, mas deparei sempre com um muro cerrado. Nenhum dos trabalhadores quis fazer comentários, o que me leva a concluir que a pessoa em causa cometeu um acto grave e ninguém quer falar no assunto. A pessoa em causa anda à procura de outro emprego na aviação, mas aparentemente não tem perspectivas imediatas. Continuarei a tentar obter mais informações sobre os motivos que estão na base do seu despedimento. Atentamente, R. Ruttenberg Director TELEGRAMA 29 de Maio, 1946 Christian Barbert Telegramas Chrisbar Paris, França TELEGRAMA RECEBIDO SOBREOPROCESSO DE IMEDIATO INVESTIGAÇÃO SOBRE CAUSA DO DESPEDIMENTO DA PESSOA EM CAUSA STOPEXECUTAREI ORESTO COMO ATÉ AQUI CUMPRIMENTOS R. UTTENBERG AGÊNCIA SEGURANÇ'A ACME

AGÊNCIA DE SEGURANÇA ACME Rua D, 1402 Washington


Reli " 2-179-210, 16 de Junho, 1946 Ex. m" Sr. Barbet: Agradeço a sua carta de 10 de Junho, bem como a ordem de pagamento. No dia 15 de Junho, a pessoa em causa empregou-se como co-piloto da Global Airways, uma linha aérea regional subsidiária que opera entre Washington, Bóston e Filadélfia. A Global Airways é uma nova companhia com uma frota de três aviões de guerra convertidos, e, tanto quanto pude apurar, encontra se subcapitalizada e endividada. Um vice-presidente da firma informou-me de que o Frist National Bank de Dalas lhes prometeu um empréstimo dentro dos próximos sessenta dias, o qual lhes permitirá consolidar as dívidas e a expansão. A pessoa em causa é muito estimada na empresa, onde parece ter um bom futuro.Queira informar-me se deseja outras informações sobre a Global Airways. Atentamente, R. ftuttenberg Managing Supervisor 250

AGÊNCIA DE SEGURANÇA ACME Rua D, 1402 Washington Refá n." 2-17-210, 20 de Julho, 1946 Ex. m" Sr. Barbet: A Global Airways abriu falência inesperadamente e vai deixar de operar. Pelo que pude apurar, esta acção coube a dever-se à recusa do First National Bank de Dalas na concessão do empréstimo prometido. A pessoa em causa está novamente desempregada e regressou aos antigos padrões de comportamento, como descrevi em relatórios anteriores. Não procederei a nenhuma investigação sobre a razão da recusa do empréstimo por parte do banco à Global Airways, nem sobre as dificuldades financeiras da companhia, a não ser que me recomende expressamente que o faça. Atentamente, R. Ruttenberg, Director Noelle guardava todos os relatórios e recortes numa pasta de cabedal para o efeito, de que


só ela tinha a chave. A pasta estava guardada numa mala trancada e arrumada no fundo do roupeiro do quarto, não porque pensasse que Demiris fosse mexer nas suas coisas, mas apenas porque sabia o quanto ele gostava de intriga. Isto era uma vingança pessoal de Noelle, e queria ter a certeza de que Demiris se mantivesse longe da mesma. Constantin Demiris desempenharia um papel no seu plano de vingança, do qual, no entanto, nunca teria conhecimento. Noelle olhou uma vez mais para o memorando e trancou, satisfeita. Estava pronta para começar. Tudo começou com um telefonema. Catherine e Larry jantavam em casa num ambiente que o silêncio tornava incómodo. Larry ultimamente quase não parava em casa, mostrando-se grosseiro e malcriado quando estava. Catherine entendia a sua infelicidade. - Parece que o azar não me larga -dissera-lhe quando a Global Airways abrira falência. E era verdade. Tivera uma maré de azar incrível. Catherine tentava incutir-lhe confiança, lembrava-o constantemente do excelente piloto que era e como se sentiriam afortunadas as empresas que trabalhariam com ele. Mas era como se vivesse com um leão ferido. Catherine não sabia quando se atiraria a ela; e, porque tinha medo de o abandonar, tentava entender as suas raivas enfurecidas e ignorálas. O telefone tocou no momento em que ela lhe servia a sobremesa. Levantou o auscultador. - Estou? Era a voz dum inglês no outro lado da linha que perguntava: - Posso falar com Larry Douglas, por favor? Aqui fala Ian Whitestone. - É só um momento. -Deu-lhe o telefone. -É para ti. Ian Whitestone. Ele franziu o sobrolho, intrigado. - Quem? - Depois o rosto iluminou-se. - Não me digas! - Levantou-se e tirou-lhe o telefone da mão. - Ian? - Deu uma gargalhada breve. -Meu Deus, já lá vão quase sete anos. Como é que conseguiste dar comigo? Catherine via-o abanar a cabeça e sorrir enquanto escutava. Ao fim de cinco minutos, disse: - Bem, issoparece interessante, meu amigo. Claro que posso. Onde? - Prestou atenção. Certo. Meia hora. Então até já. - Pensativamente, voltou a colocar o auscultador. - Era um amigo teu? - perguntou Catherine. Larry voltou-se para ela.


- Não, realmente não. Por isso é que é tão esquisito. Voei com ele na R.A.F. Nunca fomos muito chegados. Mas diz que tem uma proposta a fazer-me. - Que tipo de proposta? - perguntou Catherine. Larry encolheu os ombros. - Ficarás a saber quando eu voltar. Eram quase três da manhã quando Larry chegou a casa. Catherine estava sentada na cama, a ler. Larry apareceu na porta doquarto. - Viva. Alguma coisa lhe acontecera. Irradiava uma excitação que Catherine não vira nele havia muito tempo. Aproximou-se da cama. - Como é que correu o encontro? - Acho que correu muito bem - disse Larry, cautelosamente. De facto, correu tão bem que ainda nem acredito. Parece-me que vouarranjar emprego. - A trabalhares para Ian Whitestone? - Não. Ian é piloto... como eu. Já te disse que voámos juntos. - É verdade. - Bem... depois da guerra, por intermédio de um amigo grego arranjou emprego como piloto particular de Demiris. - O magnata dos barcos? - Barcos, petróleo, ouro... Demiris é dono de metade do mundo. Whitestone tinha uma boa situação lá. - Que aconteceu? Larry olhou para ela e deu um sorriso largo. - Whitestone deixou o emprego. Vai viver para a Austrália, onde, através de alguém, conseguiu estabelecer-se por conta própria. - Ainda não consigo compreender-disse Catherine. -Que temtudo isso a ver contigo - Whitestone falou a Demiris na possibilidade de eu ficar com o lugar dele. Despediu-se de repente, e Demiris não teve ocasião paraarranjar um substituto. Whitestone acha que sou a pessoa certa. - Hesitou. - Não imaginas o que isto pode significar, Cathy.


Catherine pensou nas outras vezes, nos outros empregos, e lembrou-se do pai e dos seus sonhos vazios, e manteve uma voz neutra,não desejando encorajar nenhuma falsaesperança em Larry, e no entanto não querendo abater o entusiasmo dele. - Não disseste que tu e Whitestone não eram lá grandes amigos? Hesitou. - Pois disse. Uma pequena ruga surgiu-lhe na testa. De facto, Ian Whitestone e ele nunca morreram de amores um pelo outro. A chamada telefónica desta noite fora uma grande surpresa. Noencontro, Whitestone parecera estranhamente pouco à vontade. Quando explicou asituação, Larry disse: - Surpreende-me que te tenhas lembrado de mim. Houve um momento de embaraço, tendoWhitestone dito depois: - Demiris quer um bom piloto, e isso tu és. Whitestone parecia estar a impingir-lhe o emprego, e Larry estar a fazer-lhe um favor. Deusinais de alívio quando Larry se mostrou interessado e em seguida pareceu ansioso por ir-se embora. Vistas bem as coisas, fora um encontro estranho. - Uma oportunidade como esta só acontece uma vez na vidadisse Larry a Catherine. Demiris pagava quinze mil dracmas mensais a Whitestone. São quinhentos dólares, pelo que vivia como um rei. - Mas não terias de viver na Grécia? - Nós teríamos viver na Grécia - corrigiu-a Larry. - Com esse dinheiro todo, podíamospoupar o suficiente para termos a nossa independência dentro de um ano. Tenho de arriscar. Catherine estava hesitante, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Larry, é tão longe, e tu nem sequer conheces Constantin Demiris. Deve haver por cá um emprego de piloto que... - Não! - O seu tom foi agressivo. - Aqui todos se marimbam para as qualidades dum bompiloto. Só lhes interessam os anos que temos de sindicato. Lá, serei independente. Tem sidoo meu sonho, Cathy. Demiris tem uma frota de aviões inacreditável, e, querida, vou sernovamente piloto. Só teria de agradar a Demiris, e Whitestone diz que vou cair nas boasgraças dele. Pensou de novo no emprego que Larry teve na Pan Am e nas esperanças que tivera lá e nos


desaires nas companhias pequenas. Meu Deus, pensou ela. Em que me vou eu meter? Significaria abandonar o negócio que empreendera, ir viver num lugar estranho com gente estranha, com um marido quase estranho. Ele olhava para ela. - Apoias-me? Olhou o seu rosto ansioso. Era o marido dela e se não queria destruir o casamento teria deviver onde ele vivesse. E como seria maravilhoso se tudo acabasse bem! Voltaria a ser oLarry de outros tempos. O homem maravilhoso, encantador e divertido. Ttinha de arriscar. - Claro que te apoio - disse Catherine. - Por que não vais falar com Demiris? Se ficares com o emprego, depois irei ao teu encontro: Deu aquele sorriso largo e encantador de adolescente. - Eu sabia que podia contar contigo, amor. - Abraçou-a e apertou-a. - É melhor tirares a camisa de noite - disse ele -, ou então vou enchê-la de buracos. Mas, enquanto ele a despia, Catherine pensava como iria comunicar a Bill Fraser. Logo na manhã seguinte, Larry apanhou um avião com destino a Atenas para se encontrar com Constantin Demiris. Durante os dias que se seguiram, Catherine não teve notícias do marido. Com o arrastar da semana, deu por si a desejar que as coisas não tivessem resultado na Grécia e que Larry estivesse de volta a casa. Mesmo que fosse trabalhar para Demiris, a duração era por todos desconhecida. Certamente conseguira arranjar um emprego nos Estados Unidos. Seis dias depois da partida de Larry, Catherine recebeu uma chamada internacional. - Catherine? - Olá, querido. - Faz as malas. Estás a falar com o novo piloto pessoal de Constantin Demiris. Dez dias depois, Catherine estava a caminho da Grécia.

LIVRO DOIS NOELLE E CATHERINE


Atenas: 1946 14 O homem molda cidades, e há cidades que moldam o homem. Atenas é uma bigorna que resistiu ao martelo dos séculos. Foi capturada e despojada por Sarracenos, Anglos, e Turcos, mas conseguiu sempre sobreviver pacientemente. Fica situada no extremo sul da grande planície central de Ática, que se estende num declive tranquilo até o golfo Sarónico a sudoeste, sendo dominada a leste pelo majestoso monte Himeto. Sob a brilhante patina da cidade, ainda era possível encontrar-se uma vila cheia de vélhos fantasmas e enraizada na rica tradição de glórias intemporais, onde os cidadãos viviam tanto no passado como no presente, uma cidade de surpresas constantes, cheia de revelações e impossível de conhecer. Larry estava no aeroporto de Hellenikon à espera do avião de Catherine. Viu avançar em passo rápido para a plataforma, de rosto ansioso e excitado quando corria ao seu encontro. Estava mais bronzeado e mais magro do que quando o vira pela última vez, e parecia tranquilo. - Tive saudades tuas, Cathy - disse quando a elevou nos braços. - Também eu. -E, ao dizê-lo, apercebeu-se da sinceridade das palavras. Esquecia-se sempre do forte impacto físico que Larry exercia sobre ela sempre que se reviam após uma separação, o que aconteceu desta vez também. - Como é que Bill Fraser aceitou a notícia? - perguntou Larry quando a desembaraçava na Alfândega. - Reagiu muito bem. - Não teve outro remédio, pois não? - disse Larry, sardonicamente. Catherine lembrou-se do encontro com Bill Fraser. Fitara-a, chocado. - Vais-te embora para viver na Grécia? Por que carga de água? - Está em letra miúda no meu contrato de casamento - respondera ela com ar de brincadeira. - Mas como é que Larry não consegue arranjarum emprego aqui? - Não faço ideia, Bill. Há sempre qualquer coisa que corre mal. Masjá tem um emprego na Grécia e acha que agora as coisas endireitaram. Após o impulso do primeiro protesto, Fraser fora maravilhoso.


Facilitara-lhe a vida e pedira-lhe que não cortasse de vez com a firma. Não te vais afastar para sempre, passava a vida a dizer. Catherine pensava agora nestas palavras enquanto observavaLarry, que arranjava umbagageiro para lhe levar as malas até a limusina. Falou com o bagageiro em grego, e Catherine maravilhou-se coma facilidade que Larrytinha para as línguas. - Espera até conheceres Constantin Demiris - disse Larry. O homem parece um rei. Todos os manda-chuvas da Europa parecempassar o tempo a pensar no que poderão fazer para lhe agradar. - Ainda bem que gostas dele. - E ele gosta de mim. Nunca o vira tão feliz e entusiasmado. Era um bom presságio. A caminho do hotel, Larry descreveu o seu primeiro encontroDemiris. Um motoristafardado aguardava-o no aeroporto. Larry quis ver a frota de aviões, e o motorista levara a um hangare, no lado extremo do aeródromo. Havia três aviões, e Larry inspecionou um a um criticamente. O Hawker Siddeley era uma beleza. Ele só desejava sentar-se aos comandos e pilotá-lo. Ao lado estava um Piper de seis lugaresem perfeito estado. Calculou que facilmenteatingiria trezentas milhas por hora. O terceiroavião era umdois lugares transformado, com motor Lycoming, um avião malhoso paravoos mais curtos. Era uma frota particular importante. Depois de terminar a inspecção,Larry voltou para juntodo atento motorista. - Nada mau - disse Larry. - Vamos. O motorista levara-o para uma vivenda em Varkiza, o aristocrático subúrbio situado a vinte e cinco quilómetros de Atenas. - Não vais acreditar no lugar onde Demiris mora - disse Larry a Catherine. - Como é? - perguntou Catherine, ansiosamente. - Não se pode descrever. São cerca de dez ares com portões eléctricos, guardas, cães-deguarda, tudo. O exterior da vivenda é um palácio, o interior um museu. Tem piscina interior, um teatro e um cinema. Hás-de vê-la um dia. - Ele foi simpático? - perguntou Catherine. - Se foi... - Larry sorriu. -Estenderam-me o tapete vermelho. Deviam estar a par da minha


reputação. Na verdade, Larry ficara numa pequena antessala durante três horas à espera de ser recebido por Constantin Demiris. Em circunstâncias normais, teria ficado furioso com a desconsideração, mas sabia o que estava em jogo neste encontro e sentia-se nervoso de mais para se exaltar. Dissera a Catherine da importância que o emprego tinha para ele. Mas não lhe dissera da urgência. Voar era o que ele sabia fazer e, sem isso, sentia-se perdido. Era como se a sua vida se tivesse afundado num mar de emoções inexploradas, e as pressões que sentia eram grandes de mais para as suportar. Tudo dependia deste emprego. Ao fim de três horas, um mordomo veio anunciar que o Sr. Demiris ià poder recebê-lo. Conduziu Larry por uma sala de recepções enorme que parecia pertencer ao palácio de Versalhes. As paredes eram de tons delicados de ouro, verde e azul, e nas paredes pendiam tapeçarias de Beauvais, encaixilhadas em molduras de pau-rosa. No chão via-se um magnífico tapete oval da Savonnerie, iluminado por um enorme lustre de cristal de rocha e bronze dourado. À entrada da biblioteca havia duas colunas em ónix verde com capitéis de bronze dourado. A biblioteca em si era de grande beleza, projectada por um notável artista, e as paredes eram revestidas com painéis de madeiras preciosas. A meio duma parede estava um fogão de sala de mármore branco com ornamentações douradas, sobre o qual havia dois belos Chénets de bronze de Philippe Caffieri. Do topo da lareira até ao tecto havia um tremó de espelho densamente gravado com uma pintura de Jean Honoré Fragonard. Por entre a abertura duma janela panorâmica, Larry viu uma nesga dum pátio enorme que dava acesso a um parque particular cheio de estátuas e fontes. Ao fundo da biblioteca havia uma enorme escrivaninha da Bureau Plat, e atrás dela uma magnífica cadeira de espaldar alto revestida por tapeçaria Aubusson. Em frente da escrivaninha havia duas poltronas com estofos gobelinos. Demiris encontrava-se junto à escrivaninha, examinando um mapa Mercator enorme pendurado na parede, cheia de alfinetes coloridos. Voltou-se assim que Larry entrou e estendeu a mão. - Constantin Demiris - disse ele, com um sotaque muito ténue. Larry tinha visto fotografias dele em revistas nestes últimos anos, mas nada o preparara para a força vital deste homem. - Eu sei - disse Larry, ao apertar-lhe a mão. - Sou Larry Douglas. Demiris viu que Larry fucou os olhos no mapa de parede. - O meu império - disse ele. - Sente-se. Larry ocupou uma cadeira em frente à escrivaninha. - Ao que parece, você e Ian Whitestone foram companheiros de voo na R.A.F.


- É verdade. Demiris recostou-se na cadeira e examinou Larry. - Ian tem-no em muito boa conta. Larry sorriu. - Também o tenho em boa conta. É um piloto fantástico. - Foi o que ele disse a seu respeito, só que usou a palavra óptimo. Larry teve de novo a sensação de surpresa que sentira quando Whitestone lhe falara pela primeira vez na proposta. Obviamente dera uma imagem pormenorizada de si,desproporcionada para a relação que ele e Whitestone haviam tido. - Eu sou competente - disse Larry. - É a minha profissão. Demiris fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Gosto de pessoas competentes na sua profissão. Sabia que amaioria das pessoas do mundo não o são? - Nunca dei muita importância a essas questões – confessou Larry. - Eu dou. - Deu a Larry um sorriso gelado. - As pessoas da minha profissão,a maioria delas detesta o que faz, Sr. Douglas. Em vez de procurarem formas de ocupação de que gostem, ficam paradas avida inteira, como insectos acéfalos. É raro ver-se um homem que gosta do que faz. Quando se encontra alguém, é quase certo é bem sucedido. - Suponho que tem razão - disse Larry modestamente. - Você não é bem sucedido. Larry ergueu os olhos para Demiris, subitamente desconfiado. - Depende do que entende por bem sucedido, Sr. Demiris - disse ele cuidadosamente. - Sei, por exemplo - disse Demiris de chofre -, que você foi brilhante na guerra, mas que não está a sair-se muito bem na paz. Larry sentiu uma contracção nos músculos do maxilar. Percebeu que estava a ser posto à prova e tentou conter a sua ira. A sua mente galopava freneticamente, tentando imaginar o que podia dizer para salvar este emprego de que precisava tão desesperadamente. Demiris observava, os seus olhos negros cor de azeitona examinando-o calmamente, sem nada perderem. - Que aconteceu ao emprego que tinha na Pan Am, Sr. Douglas? Larry deu um sorriso forçado. - Não me agradava a ideia de ficar quinze anos à espera para ser co-piloto.


- Por isso agrediu o homem com quem trabalhava. Larry mostrou a surpresa que sentiu. - Quem lhe contou isso? - Oh, vá lá, Sr. Douglas - disse Demiris com impaciência -, se você vier a trabalhar para mim, vou pôr a minha vida nas suas mãos sempre que voar consigo. Acontece que prezo muito a minha vida. Chegou a pensar que eu ia contratá-lo sem saber tudo a seu respeito? - Acho que não - disse Larry. - Você foi despedido de dois empregos depois da Pan Am -prosseguiu Demiris. - É um currículo pobre. - Não teve nada a ver com as minhas capacidades - retorquiu Larry, num momento em que a ira se apossava dele novamente. Uma companhia tinha pouco serviço, e a outra não conseguiu obter um empréstimo bancário e abriu falência. Eu sou um óptimo piloto. Demiris examinou-o por um momento, depois sorriu. - Eu sei que é -disse ele. -Mas não reage bem à disciplina, pois não? - Não gosto de receber ordens de idiotas que sabem menos do que eu. - Espero não vir a pertencer a essa categoria - disse Demiris secamente. - Só se estiver nos seus planos dizer-me como pilotar os seus aviões, Sr. Demiris. - Não, isso seria tarefa sua. Também seria tarefa sua levar-meao meu destino comeficiência, conforto e segurança. Larry fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Daria o meu melhor, Sr. Demiris. - Acredito que sim - disse Demiris. - Esteve a ver os meusaviões. Larry tentou não manifestar surpresa. - É verdade. - Que tal os achou? Larry não podia esconder o seu entusiasmo. - São uma beleza.


Demiris reagiu à expressão do olhar de Larry. - Já alguma vez pilotou um Hawker Siddeley? Larry hesitou um momento, tentado a mentir. - Ainda não. Demiris abanou a cabeça. - Seria capaz de aprender? Larry deu um sorriso largo. - Se tem alguém que possa despender dez minutos... Demiris inclinou-se para a frente e apertou os seus longos dedosmagros. - Eu devia decidir-me por um piloto que conhecesse todos osmeus aviões. - Mas não o fará - disse Larry -, porque um dia terá de comprar aviões novos, e vai querer alguém que saiba adaptar-se a tudoquanto comprar. Demiris abanou a cabeça. - Tem razão - disse ele. - Eu ando à procura é de um piloto. Um piloto a sério... um homem que se sinta totalmente feliz quandoestiver nos céus. Foi nesse momento que Larry soube que o emprego era seu. Larry nunca deu conta de que por um triz não fora contratado.Muito do êxito de Constantin Demiris era devido a um instinto almente apurado de adivinhar problemas, o qual lhe servira vezes demais para não ser levado em conta. Quando Ian Whitestone o informara da sua partida, Demiris teve um sobressalto silencioso, devido ao modo como Whitestone o fez. Agiu de uma forma natural e pareceu não estar à vontade. Não era uma questãode dinheiro, garantiu ele a Demiris. Surgira-lhe uma oportunidade de montar o seu próprio negócio com o cunhado em Sydney, e queria arriscar. Depois recomendara outro piloto. - É americano, mas voamosjuntos na R.A.F. Não é apenas bom, é óptimo, Sr. Demiris. Não conheço melhor aviador. Demiris escutava calmamente enquanto Ian Whitestone continuava a exaltar as virtudes do amigo, tentando encontrar a nota falsa que o levasse a desafinar. Reconheceu-a por fim. Whitestone exagerava nos elogios, mas possivelmente isso devia-se ao embaraço que sentia por se demitir tão abruptamente. Porque Demiris não era homem que deixasse ao acaso nem o mínimo pormenor, fez vários telefonemas para vários países depois de Whitestone sair. Antes do fim da tarde, Demiris tinha apurado que alguém decidira financiar Whitestone numa pequena firma de electrónica na Austrália com o cunhado. Falara com um


amigo do Ministério do Ar inglês, e duas horas depois recebera um relatório verbal sobre Larry Douglas. “Não se deu muito bem em terra”, dissera o amigo, mas era um piloto espantoso. Demiris fizera depois vários telefonemas para Washington e Nova Iorque e ficara rapidamente informado em relação à situação presente de Larry Douglas. À superfície tudo parecia isento de outras leituras. E, no entanto, Constantin Demiris tinha aquela vaga sensação de inquietação, um pressentimento de que vinham aí problemas. Falara no assunto a Noelle, sugerindo que talvez pudesse oferecer mais dinheiro a Ian Whitestone para ficar. Noelle escutara com atenção e dissera: - Não. Deixa-o ir, Costa. E já que recomenda tanto esse piloto americano... devíamos experimentá-lo. E isso levara-o a decidir-se. A partir do momento em que soube que Larry Douglas vinha para Atenas, Noelle não conseguia pensar noutra coisa. Pensou nos anos que demorara, na organização cuidadosa e paciente dos planos, no apertar lento e inexorável da teia, e estava certa de que Constantin Demiris se teria orgulhado dela se tivesse sabido. Era irónico, reflectia Noelle. Se nunca tivesse conhecido Larry, poderia ter sido feliz com Demiris. Completavam-se um ao outro perfeitamente. Ambos amavam o poder e sabiam usá-lo. Estavam acima das pessoas vulgares. Eram deuses, destinados a mandar. No fim, nunca podiam sairvencidos, porque tinham uma paciência profunda quase mítica. Podiam esperar eternamente. E agora, para Noelle, a espera acabara. Noelle passou o dia no jardim deitada numa rede, revendo o plano; e, quando o Sol começou a descer a ocidente, sentia-se satisfeita. De certo modo, pensou ela; era uma pena ter ocupado grande parte destes seis últimos anos com planos de vingança. tinha motivado quase todos os momentos em que estivera acordada, dado à sua vida uma vitalidade, um impulso e uma excitação, e agora dentro de poucas semanas a perseguição teria chegado ao fim. Nesse momento, deitada sob o sol grego que morria com as brisas do fim de tarde que começavam a arrefecer o jardim verde e calmo, Noelle não fazia ideia de que tudo estava apenas no início. Na noite anterior à chegada de Larry, Noelle não pregara olho. Ficou acordada a noite inteira, lembrando-se de Paris e do homem que lhe dera o dom da alegria e lho tirara de novo... sentindo o filho de Larry no ventre, possuindo o corpo dela como o pai lhe possuíra o pensamento. Lembrou-se daquela tarde em Paris no lúgubre apartamento de Paris e na agonia que sentiu quando o cabide metálico e pontiagudo lhe rompia a carne cada vez mais fundo, rasgando o bebé com a dor deliciosa e insuportável que a levou a um ataque de histeria, e o rio interminável de sangue que saía de dentro de si. Lembrou-se de todas estas coisas e reviveu-as novamente... a dor, a agonia e o ódio... As cinco da manhã, Noelle estava a pé e vestida, sentada no quarto a olhar para a bola de fogo enorme que nascia do Egeu. Fez-lhe lembrar uma outra manhã em Paris quando se levantara cedo e se vestira e ficara à espera de Larry - só que desta vez ele ia chegar. Por que ela tratara disso. Tal como


antes Noelle precisou dele, tambémagora Larry precisava dela, mesmo que ainda não o soubesse. Demiris mandou dizer que gostaria de tomar o pequeno-almoçocom ela, mas Noelle estava excitada demais e receava que a sua disposição pudesse levantar suspeitas. Aprendera há muito que Demiris tinha a sensibilidade dum gato: nada lhe escapava. Mais umavez, Noelle lembrou-se que devia agir com cautela. Queria encarregar-se de Larry sozinha e à sua maneira. Pensara demoradamente no facto de estar a usar Constantin Demiris como instrumento involuntário. Se um dia viesse a saber, ele não iria gostar. Noelle bebeu meia chávena de espesso café grego e comeu um pãozinho fresco com manteiga. Estava sem apetite. O espírito estava febrilmente concentrado no encontro que se efectuaria dali a umas horas. Tomara um cuidado invulgar na maquilhagem e na escolha do vestido, e sabia que estava bonita. Pouco depois das onze horas, Noelle ouviu a limusina parar à frente da casa. Respirou fundo para dominar os nervos, aproximando-se depois lentamente da janela. Larry Douglas estava a sair do carro. Noelle viu-o caminhar até à porta da frente, e foi como se os anos voltassem atrás e os dois estivessem de novo em Paris. Larry estava um pouco mais velho, e a guerra e a vida haviam-lhe acrescentado mais rugas ao rosto, mas as mesmas ainda o tornavam mais bonito. Olhando através dajanela a uma distância de dez metros, Noelle sentiu ainda o magnetismo selvagem, sentiu ainda o antigo desejo apossar -se dela, misturado de ódio, até que se viu assaltada por uma sensação de felicidade quase idêntica a um clímace. Viu-se ao espelho uma última vez e desceu as escadas para se encontrar com o homem que se preparava para destruir. Enquanto descia as escadas, Noelle pensava na reacção que Larry teria quando a visse. Terse-ia gabado aos amigos e talvez mesmo à mulher que Noelle Page se apaixonara por eleem tempos? Interrogou-se, como o fizera vezes sem conta, se alguma vez reviveu a magia das noites e dos dias que passaram juntos em Paris e se estava arrependido do que lhe fizera. Como devia ter-lhe roído a alma saber que Noelle se tornara mundialmente famosa ao passo que a vida dele não passava de uma série de pequenos desaires. Noelle queria ver um pouco disso nos olhos de Larry quando se enfrentassem pela primeira vez em quase sete anos. Noelle já estava no átrio quando a porta da frente se abriu e o mordomo o fez entrar. Larry contemplava a sala enorme quando se voltou e viu Noelle. Olhou-a demoradamente, o seu rosto iluminando-se de admiração à vista duma mulher bela. - Viva - disse ele num tom educado. - Chamo-me Larry Douglas. Tenho uma entrevista marcada com o Sr. Demiris. E no rosto dele não havia sinal de que a reconhecera. Nem o mínimo.

Ao percorrer de automóvel as ruas de Atenas em direcção ao hotel, Catherine estava atónita com a sucessão de ruínas e monumentos que surgiam à sua volta. Em frente viu o espectáculo impressionante do Partenão em mármore branco que se ergue no cimo da Acrópole. Havia hotéis e prédios de escritórios por toda a parte, e no entanto


Catherine teve a sensação esquisita de que os edifícios mais recentes pareciam temporários e impermanentes, ao passo que o Partenão se agigantava, imortal e intemporal na claridade cinzelada do ar. - Impressionante, não é? - disse Larry com um sorriso largo. A cidade é toda assim. Uma ruína enorme e bela. Passaram por um parque enorme situado no centro da cidade com fontes dançantes no meio. Centenas de mesas com mastros de cor verde e laranja enchiam o parque, protegidas por toldos azuis. - É a Praça da Constipação - disse Larry. - O quê? - O nome verdadeiro é Praça da Constituição. As pessoas sentam-se àquelas mesas durante todo o dia a beberem café grego e a verem o mundo passar. Em quase todos os quarteirões havia esplanadas, e nas esquinas havia homens a vender esponjas de recolha recente. Por toda a parte havia flores à venda, e as bancas das floristas eram uma onda de flores violentamente coloridas. - A cidade é tão branca - disse Catherine. - É ofuscante. A suite do hotel era ampla e encantadora, com vista sobre a Praça Syntagma, a grande praça do centro da cidade. No quarto havia flores lindíssimas e uma fruteira enorme cheia de peças frescas. - É linda, querido - disse Catherine, circulando pela suite. O paquete pousara as malas, e Larry deu-lhe uma gorjeta. - Parapolee - disse o rapaz. - Parapolee - respondeu Larry. O rapaz saiu, fechando a porta atrás de si. Larry aproximou-se de Catherine e abraçou-a. - Bem-vinda à Grécia. Beijou-a sofregamente, e sentiu o corpo rijo de Larry contra a fragilidade do seu, eCatherine viu a falta que lhe fizera e ficou satisfeita. Levou-a para o quarto. No toucador estava um pequeno embrulho. - Abre - disse-lhe Larry. Os dedos dela rasgaram o papel e numa caixinha que estava lá dentro encontrava-se um pássaro minúsculo dejade. Apesar de estar tão ocupado, Larry lembrara-se, o que comoveu


Catherine. De certa forma, o pássaro era um talismã, um presságio de que as coisas iam correr bem, que os problemas do passado haviam ficado para trás. Quando faziam amor, Catherine disse uma pequena oração de gratidão, agradecida por estar nos braços do marido a quem tanto amava, numa das mais excitantes cidades do mundo, começando uma vida nova. O Larry de sempre voltara, e todos os problemas por que haviam passado apenas fortaleceram o seu casamento. Agora nada poderia prejudicá-los. Na manhã seguinte, Larry falou com um agente imobiliário para mostrar alguns apartamentos a Catherine. O agente era um homem baixo, moreno e de bigode forte, chamado Dimitropolous, que se exprimia tão rapidamente que ela acreditava sinceramente ser um inglêsperfeito, mas mais não eram do que palavrasgregas interligadas por uma expressão ocasional num inglês indecifrável. Ao entregar-se à sua mercê - um truque que viria a usar nos meses seguintes -, Catherine persuadiu-o a falar muito lentamente para poder descobrir algumas das palavras inglesas e tentar adivinhar o que dizia. A quarta casa que lhe mostrou era um apartamento cheio de luz e ensolarado, com quatro divisões, situado naquele que, como mais tarde veio a saber, era o bairro Kolonaki, a periferia elegante de Atenas, cheio de belos edifícios residenciais e lojas requintadas. Quando Larry voltou ao hotel nessa noite, Catherine falou-lhe do apartamento, e dois dias depois mudaram-se. Larry passava o dia fora, mas tentava estar em casa para almoçar com Catherine. O almoço em Atenas tomava-se a qualquer hora entre as nove e o meio-dia. Entre as duas e às cinco da tarde, todos dormiam a sesta, e as lojas reabriam ficando abertas até tarde. Catherine ficou completamente absorvida pela cidade. Na sua terceira noite em Atenas, Larry trouxe um amigo para casa, o conde George Pappas, um grego atraente de 45 anos, alto e esbelto, de cabelo escuro com um ligeiro toque grisalho nas têmporas. Havia nele uma curiosa e antiquada dignidade de que Catherine gostava. Levou-os a jantar numa tasca na Plaka, a parte antiga da cidade. A Plaka compreendia àlgumas ruas íngremes amontoadas a esmo no centro da Baixa de Atenas, com becos sinuosos e em ruínas, escadas gastas que desembocavam em casinhas construídas durante o domínio turco, quando Atenas era uma simples aldeia. A Plaka era um lugar de estruturas caiadas e desconexas, frutafresca e flores, café torrado que inundavao ar com um aroma maravilhoso, mios de gatos e brigas de rua barulhentas. O efeito era encantador. Em qualquer outra cidade, pensouCatherine, semelhante área pertenceria aos bairros de lata. Aqui eraum monumento. A tasca aonde o conde Pappas os levou ficava num terraço ao arlivre que dava para acidade; os criados vestiam fardas coloridas. - Que gostaria de comer? - perguntou o conde a Catherine. Sem saber o que dizer, examinou a ementa estrangeira. - Importava-se de escolher por mim? Não vá eu mandar vir odono.


O conde Pappas encomendou um sumptuoso banquete, escolhendo uma variedade de pratos para que Catherine tivesse a oportunidade de provar tudo. Comeram dolmades, almôndegas embrulhadasem parras; mousaha, uma suculenta empada de carne e beringela;stifado, lebre guisada com cebola - Catherine só soube o que eradepois de ter comido metade, enão conseguiu dar outra dentada – etaramosalata, a salada grega de caviar com azeite e limão. O condemandou vir uma garrafa de retsina. - É o nosso vinho nacional - explicou ele. Observava Catherine com divertimento enquanto ela o provava. Tinha um sabor acre e a resina, e Catherine engoliu com dificuldade. - Tivesse eu o que tivesse - disse ela com a voz entrecortada -, acho isto horrivel. Quando comiam, três músicos começaram a tocar música Bozouia. Era viva, alegre e contagiante e, enquanto o grupo observava,alguns clientes começaram a dirigir-se para apista de dança paradançar ao som da música. O que surpreendeu Catherine foi ver queos dançarinos eram todoshomens, e eram magníficos. Estava a divertir-se tremendamente. Quando saíram da esplanada já passava das três da manhã. Oconde levou-os de carro atéao apartamento. - Já visitou alguma coisa? - perguntou ele a Catherine. - Nem por isso confessou ela. - Estou à espera de que Larrytenha uns dias de folga. O conde virou-se para Larry. - Talvez eu pudesse mostrar a Catherine algumas vistas enquanto o aguardamos. - Seria óptimo - disse Larry. - Se acha que não é muita maçada. Será um prazer - respondeu o conde. Virou-se para Catherine. - Importa-se que eu seja seu cicerone? Olhou para ele e pensou em Dimitropolous, o homenzinho da agência de propriedades que falava um palavreado fluente. - Adorava - respondeu ela sinceramente. As semanas seguintes foram fascinantes. Catherine passava as manhãs a arrumar oapartamento, e à tarde, se Larry não estava em casa, o conde vinha buscá-la para a levar apassear. Foram até Olímpia. - Este é o estádio dos primeiros Jogos Olímpicos - disse-lhe o conde. - Realizaram-se aqui anualmente durante mil anos a despeito das guerras, das pestes e das fomes. Catherine contemplava atónita as ruínas da grande arena, pensando na grandiosidade das


provas que ali se haviam realizado durante os séculos, nos triunfos, nas derrotas. - E ainda falam nos campos dejogos de Eton - disse Catherine. - Aqui foi onde o espírito do desporto de facto começou, não foi? o conde riu-se. - Receio que não - disse ele. - A verdade é um tanto embaraçante. Catherine ergueu o olhar, interessada. - Porquê? - A primeira corrida de quadrigas que se realizou foi viciada. - Viciada? - Receio bem que sim - confessou o conde Pappas. -Sabe, havia um príncipe rico chamado Pelops que tinha uma contenda com um rival. Decidiram fazer uma corrida de quadrigas aqui para ver quem seria o melhor homem. Na noite anterior à corrida, Pelops destruiu a roda da quadriga do rival. Quando a próva começou, todos os camponeses vieramincentivar o seu favorito. A primeira curva, a roda da quadriga do rival saltou, e a quadriga capotou. O rival de Pelops ficou emaranhado nas rédeas e foi arrastado até morrer. Pelops prosseguiu a marcha até à vitória. - Que coisa terrível - disse Catherine. - Que lhe fizeram? - Essa é que é a parte desagradável da história - respondeu o conde. -Nesta alturajá a populaça sabia o que Pelops tinha feito. Fizeram dele um herói tão grande que mandaram erigir um frontão enorme em sua honra no Templo de Zeus em Olímpia. Ainda lá está. - Sorriu com desagrado. - Creio que o nosso vilão prosperou e viveu feliz para sempre. De facto - acrescentou -, toda a região a sul de Corinto lhe deve o nome de Peloponeso. - Quem disse que o crime não compensa? - admirou-se Catherine. Sempre que Larry estava de folga, os dois iam explorar a cidade sozinhos. Descobriram lojas maravilhosas onde passavam horas a regatear preços, e pequenos restaurantes afastados a que se habituaram. Larry era um companheiro alegre e encantador, e Catherine estava grata por ter deixado o emprego nos Estados Unidos para estarjunto do marido. Larry Douglas nunca fora tão feliz na vida. O emprego que Demiris lhe dera era o sonho duma vida. O ordenado era bom, mas Larry não estava interessado em dinheiro. Interessavam-no apenas as máquinas magníficas que pilotava. Precisou apenas de uma hora para aprender a pilotar o Hawker Siddeley e mais cinco para dominá-lo. Voava quase sempre com Paul


Metaxas, o pequeno co-piloto grego sempre bemdisposto de Demiris. Metaxas ficara surpreendido pela partida repentina de Ian Whitestone e apreensivo com a sua substituição. Ouvira histórias a respeito de Larry Douglas e não sabia se gostou do que ouviu. Douglas, contudo, parecia genuinamente entusiasmado com o novo emprego, e, da primeira vez que Metaxas voou com ele, soube que Douglas era um piloto soberbo. Aos poucos, Metaxas foi perdendo a desconfiança, e os dois homens tornaram-se amigos. Sempre que estava em terra, Larry passava o tempo a inteirar- se de toda a idiossincrasia da frota aérea de Demiris. Antes de terminar, sabia pilotar todos como ninguém. Larry estava fascinado com a variedade do seu emprego. transportava membros do pessoal de Demiris em viagens de negócios para Brindisi, Corfu e Roma, ou ia buscar convidados e levá-los para a ilha de Demiris para uma festa, ou para o chalé que tinha na Suíça, para esquiarem. Acostumou-se a transportar pessoas cujas fotografias via constantemente nas primeiras páginas dos jornais e nas capas das revistas, e regalava Catherine com histórias sobre elas. Transportou um presidente dum país balcã, um primeiro ministro britânico, um magnata do petróleo árabe todo o seu harém. Transportou cantores de ópera, uma companhia debailado e o elenco duma peça da Broadway que fora a Londres dar um único espectáculo no aniversário de Demiris. Transportou magistrados de Supremos Tribunais, um congressista e um antigo presidente dos Estados Unidos. Durante os voos, Larry passava a maior parte do tempo na cabina, mas de vez em quando vinha até à cabina dos passageiros para se certificar do conforto deles. Às vezes ouvia partes de conversas entre os magnates sobre fusões iminentes ou negociação de acções. Larry poderia terfeito uma fortuna com as informações que recolhia, mas simplesmente não estava interessado. O que o preocupava era o avião que pilotava, poderoso e vivo sob o seu controlo. Só passados dois meses é que Larry transportou o próprio Demiris. Ia no Piper levar o patrão de Atenas para Dubrovnik. O dia estava nebuloso, e a previsão indicava vento forte e chuva ao longo da rota. Larry havia escolhido cuidadosamente a rota menos tempestuosa, mas o ar estava tão turbulento que foi impossível evitá-la. Uma hora depois de saírem de Atenas, acendeu o sinal de apertar o cinto e disse a Metaxas: - Aguenta-te, Paul. Isto pode custar-nos o emprego. Para surpresa de Larry, Demiris apareceu na cabina. - Posso fazer-lhes companhia? - disse ele. - À vontade - disse Larry. - A coisa vai ficar feia. Metaxas ofereceu o seu lugar a Demiris, que se sentou e apertou o cinto. Larry teria preferido ter o co-piloto sentado a seu lado, pronto a agir se algo corresse mal, mas o avião pertencia a Demiris. A tempestade durou quase duas horas. Larry sobrevoou as grandes montanhas de nuvens que se acumulavam à frente deles, maravilhosas, brancas e mortais. - Lindo - comentou Demiris.


- São assassinas - disse Larry. - Cúmulos. O vento que transportam é que as torna belas e fofas. O interior daquela nuvem pode desfazer um avião em dez segundos. É possível subir e cair trinta mil pés em menos de um minuto sem qualquer controle do avião. - Estou certo de que você não permitirá que isso aconteça-disse Demiris calmamente. Os ventos batiam no avião e tentavam tirá-lo da rota, mas Larry esforçou-se para mantê-lo sob controle. Esqueceu-se de que Demiris estava ali, centrando toda a sua atenção no avião que pilotava, usando toda a perícia que aprendera. Por fim, viram-se livres da tempestade. Larry voltou-se, exausto, e viu que Demiris abandonara a cabina. Metaxas ocupava o seu lugar. - Como primeira viagem, proporcionei-lhe um péssimo voo, Paul- disse Larry. - Posso ter arranjado um sarilho. Estava a fazer-se à pequena pista rodeada de montanhas do aeroporto de Dubrovnik quando Demiris apareceu na ombreira da porta da cabina. - Você tinha razão - disse Demiris a Larry. - É um profissional muito bom. Estou satisfeito. E Demiris retirou-se. Certa manhã, quando Larry se preparava para ir a Marrocos, o conde Pappas telefonou a sugerir que gostava de levar Catherine num passeio de carro pelo campo. Larry insistiu que ela fosse. - Não tens ciúmes? - perguntou ela. - Do conde? - Larry riu-se. E Catherine de repente entendeu. Durante o tempo que passara com o conde, nunca lhe fizera uma atitude imprópria, nem mesmo lhe dirigira um olhar sugestivo. - É homossexual? - perguntou ela. Larry concordou. - Por isso é que te entreguei aos seus ternos cuidados. O conde veio buscar Catherine de manhã cedo, e partiram para Sul em direcção à vasta planície da Tessália. Camponesas vestidas de preto caminhavam ao longo da estrada curvadas sob pesadas cargas de lenha atadas às costas. - Por que é que os homens não fazem o trabalho pesado? - perguntou Catherine. O conde atirou-lhe um olhar divertido, de relance.


- As mulheres não os deixam fazer - respondeu ele. – Queros homens frescos à noite para outras coisas. Eis uma lição para todas nós, pensou Catherine com umacareta. Ao fim da tarde aproximaram-se dos montes Pindus, de aspecto ameaçador, os seus picos rochosos erguendo-se como torres em direcção ao céu. A estrada estava bloqueada por um rebanho de carneiros conduzidos por um pastor e um cão de pastor magricela; conde Pappas parou o carro enquanto esperavam que os carneiros desocupassem a via. Catherine contemplava maravilhada. O cão mordiscava as patas dos carneiros afastados, mantendo-os em forma e obrigandos a seguir na direcção que ele desejava. - Aquele cão é quase humano - exclamou Catherine com admiração. O conde deu-lhe um olhar breve. Houve nisso qualquer coisa que ela não entendeu. - Qual é o problema? - perguntou ela. O conde hesitou. - É uma história muito desagradável. - Já sou crescida. Disse o conde: - Isto é uma região selvagem. A terra é rochosa e inóspita. Mesmo nos melhores anos, as colheitas são magras, e quando o tempo é mau nem essas há, apenas muita fome. - A sua voz diminuiu de intensidade. - Continue - interessou-se Catherine. - Aqui há uns anos houve uma grande tempestade por estas bandas e as colheitas perderamse. Havia pouca comida para as pessoas. Todos os cães de pastor da região se revoltaram. Abandonaram as quintas onde trabalhavam e agruparam-se numa grande matilha. Enquanto contava, tentava afastar o horror da voz. - Começaram a atacar as quintas. - E mataram os carneiros! - disse Catherine. Seguiu-se um silêncio antes que respondesse. - Não. Mataram os donos e comeram-nos. Catherine fitou, chocada. - Tiveram de mandar tropas federais de Atenas para restabelecer o domínio humano aqui. Levou quase um mês.


- Que coisa horrível. - A fome provoca coisas terríveis - disse o conde Pappas calmamente. Os carneiros haviam já atravessado a estrada. Catherine olhou para o cão de pastor e arrepiou-se. À medida que as semanas passavam, Catherine começou a familiarizar-se com tudo aquilo que lhe parecera estrangeiro e estranho. Olhava as pessoas abertas e amistosas. Aprendeu onde fazer as compras e onde comprar a roupa na Rua Voukourestiou. A Grécia era uma maravilha de ineficiência organizada, e uma pessoa tinha de descontrair e desfrutá-la. Ninguém tinha pressa, e, quando se perguntar a um transeunte onde ficava qualquer lugar, ele era bem capaz de levar a pessoa até ao destino. Ou então, quando se perguntava a distância, respondia enos cigarou dromos, o que, como Catherineaprendeu, significava fica a um cigarro daqui. Caminhava pelas ruas, explorava a cidade e bebia o vinho escuro e quente do Verão grego. Catherine e Larry visitaram Mykonos com os seus moinhos pitorescos, e belos, onde a Vénus de Milo foi descoberta. Mas o lugar preferido de Catherine era Paros, uma ilha graciosa e verdejante dominada por uma montanha coberta de flores. Quando o barco deles acostou, estava um guia no cais. Perguntou-lhes se queriam que os guiasse até ao cume da montanha, de mula, e eles empoleiraram-se em cima de duas mulas esqueléticas. Catherine trazia um chapéu de palha de aba larga para se proteger do sol quente. Durante a escalada pelo caminho íngreme que ia dar ao cimo da montanha, mulheres vestidas de negro diziam nKe-let meh-raw e davam a Catherine ofertas de ervas frescas, orégãos e manjerico para pôr na fita do chapéu. Depois de uma viagem de horas, chegaram a um planalto, uma bela extensão plana repleta de árvores com milh��es de flores em botão espectaculares. O guia parou as mulas, e eles ficaram estupefactos pela profusão incrível de cores. - É o vale das Borboletas - disse o guia num inglês imperfeito. Catherine olhou em volta à procura de uma borboleta, mas não viu nenhuma. - Por que lhe deram esse nome? - perguntou ela. O guia deu um sorriso largo, já à espera daquela pergunta. - Eu mostro-lhe - disse ele. Desceu da mula e apanhou um galho caído. Aproximou-se deárvore e bateu com o galho contra a árvore com toda a sua força. Segundo, as flores das centenas de árvores desprenderam-se imediatamente num arco-íris de voo turbulento, deixando as árvores despidas. O ar encheu-se de centenas de milhares de borboletas coloridas que dançavam ao sol. Catherine e Larry não acreditavam no que viam. O guia observou-as, o rosto transbordando


de profundo orgulho, como se sentisse responsável pelo belo milagre que testemunhavam. Era um dia maravilhoso da vida de Catherine, e pensou que, se pudesse escolher um dia para reviver, seria o dia que passou com Larry em Paros. - Eia, temos uma pessoa importante esta manhã - sorriu Metaxas prazenteiramente. – Esperaaté veres quem é. - De quem se trata? - De Noelle Page, a amante do patrão. Podes olhar, mas não podes tocar. Larry Douglas lembrou-se do breve instante que tivera da mulher na casa de Demiris na manhã em que chegara a Atenas. Era bela e pareceu lhe familiar, mas isso obviamente foi porque a vira no ecrã, num filme francês que Catherine o levara a ver àforça. Larry não precisava de que lhe dissessem as regras da auto-conservação. Mesmo que no mundo não abundassem as mulheres ávidas, nunca se teria aproximado da namorada de Constantin Demiris. Larry gostava demasiado do seu emprego para o pôr em perigo ao fazer uma coisa tão estúpida. Bem, talvez lhe pedisse um autógrafo para Catherine. A limusina que transportava Noelle para o aeroporto afrouxou a marcha várias vezes por causa de trabalhos na estrada, mas Noelle aceitou os atrasos com agrado. Ia ver Larry Douglas pela primeira vez desde o encontro em casa de Demiris. Noelle ficara profundamente abalada pelo que acontecera. Ou, mais rigorosamente, pelo que não acontecera. Durante os últimos seis anos Noelle imaginara o encontro entre eles de mil e uma maneiras diferentes. Representara em espírito a cena vezes sem conta. A única coisa que nunca lhe ocorrera foi que Larry não a reconheceria. O acontecimento mais importante da vida dela nada mais significara para Larry do que uma aventura banal, uma entre muitas. Bem, antes de o destruir, ele iria lembrar-se. Larry atravessava o campo de aviação, com o plano de voo na mão, quando uma limusina parou à frente do enorme avião, e Noelle Page saiu. Larry caminhou até ao carro e disse num tom agradável: - Bom dia, Miss Page, o meu nome é Larry Douglas. Sou eu que vou levar a si e aos seus convidados a Cannes. Noelle voltou-se e passou por ele como se não tivesse falado, como se não existisse. Larry ficou imóvel, a olhar para ela, atónito. Trinta minutos depois, os outros passageiros, num total de doze, se encontravam a bordo, e Larry e Paul Metaxas descolaram. Iamlevar o grupo para a Côte d'Azur, donde seguiriam para o iate de Demiris. Foi um voo tranquilo, à excepção da turbulência normal ao da costa sul de França no Verão, e Larry aterrou o avião suavemente e conduziu-o até ao local onde umas limusinas aguardavam os passageiros. Quando Larry saía do avião com o seu co-


piloto baixo e atarracado, Noelle dirigiu-se a Metaxas, ignorando Larry, e disse num tom cheio de desdém: - O novo piloto é um amador. Tem de ensiná-lo a voar. - E Noelle meteu-se no carro, que se afastou, deixando Larry especado, invadido por uma raiva atordoada e impotente. Disse para consigo que se tratava de uma gaja tramada e que provavelmente a tinha apanhado num mau dia. Mas o episódio seguinte, uma semana depois, convenceu-o de que enfrentava um problema sério. Por ordem de Demiris, Larry foi a Oslo buscar Noelle e levou-a para Londres. Por causa do que acontecera, Larry executara o plano de voo com especial cuidado. Havia uma zona de altas pressões a norte e possibilidade de trovoadas a leste. Larry elaborou uma rota que contornasse estas zonas, e o voo veio a revelar-se tranquilo. Fez aterragem impecável, e ele e Paul Metaxas foram até à cabina de passageiros. Noelle Page estava a pintar os lábios. - Espero que tenha gostado do voo, Miss Page - disse eleem tom educado. Noelle olhou de relance, com um rosto inexpressivo, voltando- se depois para Paul Metaxas. - Fico sempre nervosa quando viajo com um incompetente. Larry sentiu que corava. Ia começar a falar, mas Noelle viroupara Metaxas: - Por favor, diga-lhe que só volte a falar comigo quando eu lhedirigir a palavra. Metaxas engoliu em seco e balbuciou: - Pois não. Larry fitava Noelle com os olhos cheios de fúria, quando elalevantou e saiu do avião. Oseu impulso fora esbofeteá-la, mas sabia que isso o teria arruinado. Nunca fizera nada com tanto gosto como neste emprego, e não fazia tenções de permitir que nada o prejudicasse. Sabia que, se fosse despedido, este poderia ser o último emprego que arranjaria como piloto. Não, teria de ser muito cuidadoso dali diante. Quando Larry chegou a casa, contou o sucedido a Catherine. - Ela embirrou comigo - disse Larry. - Isso não é bom sinal - respondeu Catherine. - Será quefaltaste ao respeito de algumaforma, Larry ? - Quase nem falei com ela.


Catherine segurou na mão dele. - Não te preocupes - disse ela, consolando-o. - Sem dares por isso, irás encantá-la. Vais ver. No dia seguinte, quando Larry transportava Constantin Demiris numa breve viagem denegócios à turquia, Demiris entrou na cabina e sentou-se no lugar de Metaxas. Mandou sairo co-piloto com um aceno da mão, e Larry e Demiris ficaram sozinhos. Permaneceram em silêncio, a contemplar os pequenos estratos de nuvens que se desfaziam em figurasgeométricas quando o avião as atravessava. - Miss Page tomou-o de ponta - disse Demiris por fim. Larry sentiu as mãos apertarem os comandos, e deliberadamente esforçou-se para as descontrair. Fez um esforço para manter a voz calma. - Ela... disse porquê? - Disse que você lhe faltou ao respeito. Larry abriu a boca para protestar, depois pensou no que ia fazer. Teria de resolver o assunto à sua maneira. - Peço desculpa. Tentarei ter mais cuidado, Sr. Demiris - disse ele serenamente. Demiris pôs-se de pé. Faça isso. E sugiro-lhe que nunca mais volte a faltar ao respeito a Miss Page. - Saiu da cabina. Nunca mais! Larry deu voltas à cabeça, tentando pensar no que poderia ter feito que a ofendesse. Talvez ela simplesmente não gostasse do tipo dele. Ou talvez pudesse ter ciúmes pelo facto de Demiris gostar dele e nele confiar, mas isso não fazia sentido. Nada do que Larry pudesse pensarfazia sentido. E, no entanto, Noelle Page estava a fazer tudo para que ele fosse despedido. Larry pensou no que significaria estar desempregado, na indignidade de preencher formulários de candidatura como se fosse um menino da escola, nas entrevistas, nas esperas, nas horas infindáveis a tentar passar o tempo em botequins e com prostitutas amadoras. Lembrou-se da paciência e tolerância de Catherine e de como a odiara por causa disso. Não, não podia voltar a passar por tudo isso outra vez. Não seria capaz de enfrentar outro fracasso. Durante uma pernoitada em Beirute, alguns dias depois, Larry passou por um cinema e reparou que o filme em exibição era com NoellePage. Num impulso, foi vê-lo, preparado para detestar o filme e a actriz principal, mas Noelle teve um desempenho tão brilhante que o deixou completamente arrebatado. Mais uma vez teve a sensação estranha de que a conhecia. Na segunda feira seguinte, Larry levou Noelle Page e alguns sócios de Demiris a Zurique. Esperou que Noelle Page estivesse sozinha, aproximando-se então dela. Hesitara falar-lhe, lembrando-se da sua última advertência, mas concluíra que a única maneira de


pôr termo ao seu antagonismo era esforçar-se para ser simpático com ela. Todas as actrizes eram egoístas e gostavam de ouvir elogios, e por isso acercou-se dela dizendo com cuidadosa cortesia: - Desculpe-me, Miss Page, só lhe queria dizer que há dias a vi no filme O Terceiro Rosto. Acho que é uma das maiores actrizes que conheço. Noelle fitou-o por um momento, respondendo em seguida: - Eu gostava de sabê-lo melhor crítico do que piloto, mas duvido muito de que tenha a inteligência ou o gosto. - E afastou-se. Larry ficou especado no lugar onde se encontrava, como se tivesse sido fulminado por um raio. A cabrona de merda! Por um instante, tentou-se a segui-la e dizer lhe o que pensava dela, mas sabia isso seria dar-lhe trunfos. Não. De agora em diante, limitar-se-ia fazer o seu serviço e a manter-se o mais possível longe dela. Durante as semanas seguintes, Noelle foi sua passageira em vários voos. Larry não lhe dizia rigorosamente nada, e tudo fazia a evitar. Não ia à cabina e encarregava Metaxas da comunicação com os passageiros. Noelle Page não fez mais observações, e Larry congratulou-se por ter dado uma solução ao problema que o afligira. Como veio a verificar-se, congratulou-se cedo demais. Demanhã, Demiris solicitou a presença de Larry na vivenda. - Miss Page vai a Paris para me representar num negócio confidencial. Quero que a acompanhe. - Pois não, Sr. Demiris. Demiris examinou-o por um momento, ia acrescentar algumacoisa, mas depois mudou de ideia. - É tudo. Noelle era a única passageira do voo para Paris, e Larry decidiulevar o Piper. Deu aMetaxas a incumbência do conforto de Noelle ficou na cabina, sem aparecer durante todo ovoo. Quando aterrou, Larry foi até ao lugar dela e disse: - Desculpe-me, Miss Page. O Sr. Demiris pediu-me que a acompanhasse durante a sua estada em Paris. Ela ergueu o olhar com desdém e disse: - Muito bem. Mas não me faça sentir a sua presença. Ele acenou com a cabeça, numsilêncio de gelo. Saíram de Orly para a cidade numa limusina particular. Larry sentou-se ao lado do


motorista, enquanto Noelle ocupou o banco traseiro. Não lhe falou durante o trajecto para a cidade. Aprimeira paragem foi em Paribas, o Banco de Paris e dos Países Baixos. Larry entrou no átrio ao lado de Noelle; aguardou-a enquanto foi conduzida ao gabinete do presidente e depois desceu até à cave onde se guardavam os cofres-fortes. Noelle demorouse cerca de trinta minutos, e quando regressou passou de rompante por Larry sem lhe dirigir uma palavra. Ficou a olhá-la um momento, depois voltou-se e seguiu-a. A próxima paragem foi na Rua Faubourg de St.-Honoré. Noelle dispensou o carro. Larry entrou com ela nuns armazéns e manteve-se por perto enquanto ela escolhia os artigos que desejava, dando-lhe depois os embrulhos para levar. Parou em meia dúzia de lojas: Hermès, carteiras e cintos, Guerlain, perfumes, Céline, sapatos, até que Larry ficou sobrecarregado de embrulhos. Se Noelle se deu conta do desconforto dele, não deu sinal. Larry parecia um animal de estimação que ela levava por onde andava. Quando saíam da sapataria Céline, começou a chover. Os transeuntes precipitavam-se em busca de abrigo. - Espere-me aqui - ordenou Noelle. Larry deixou-se ficar e viu-a entrar num restaurante situado no outro lado da rua. Esperou debaixo de uma chuva impetuosa durante duas horas, com os braços cheios de embrulhos, amaldiçoando-a a ela e a ele também por tolerar o comportamento dela. Caíra numa armadilha e não sabia como livrar-se. E teve um pressentimento terrível de que a situação ia piorar. Aprimeira vez que Catherine se encontrou com Constantin Demiris foi na vivenda dele. Larry fora lá entregar uma encomenda que trouxera de Copenhaga, e Catherineacompanhara-o. Estava à espera no átrio, admirando uma pintura, quando a porta se abriu e Demiris surgiu. Observou-a por um momento e disse depois: - Gosta de Manet, Sra. Douglas? Catherine voltou-se e deu de caras com a lenda de que tanto ouvira falar. Teve de imediato duas impressões: Constantin Demiris era mais alto do que imaginara, e havia nele uma energia irresistível quase assustadora. Catherine ficou espantada por ele saber o nome dela e quem era. Parecia esforçar-se para pô-la à vontade. Perguntou a Catherine se gostava da Grécia, se o apartamento era confortável, e disse-lhe que o informasse no caso de ele poder tornar a estada dela mais agradável. Até sabia - embora só Deus soubesse como! - que ela coleccionava pássaros em miniatura. - Vi um maravilhoso -disse-lhe ele. -Fá-la-ei chegar às suas mãos. Larry apareceu, saindo acompanhado de Catherine. - Gostaste de Demiris? - perguntou Larry. - É encantador - disse ela. - Não admira que gostes de trabalhar para ele.


- E vou continuar a trabalharpara ele. - Houve uma crueldade na sua voz de que Catherine não deu conta. No dia seguinte, um belo pássaro de porcelana foi entregue a Catherine. Catherine viu Constantin Demiris duas vezes depois disso: a primeiravez quando foi às corridas de cavalos com Larry e a segunda numa festa de Natal que Demiris ofereceu na sua residência. De ambas as vezes, tudo fez para ser encantador com ela. No conjunto, pensou Catherine, Constantin Demiris era um homem notável. Em Agosto, teve início o Festival de Atenas. Durante dois meses a cidade viu peças, bailados, óperas, concertos - tudo realizado Herodes Átticus, o antigo teatro ao ar livre situa-se na base da Acpole. Catherine viuvárias peças com Larry, e quando o marido não estava ia com o conde Pappas. Era fascinante ver as peças antigas representadas no palco nos cenários originais pelo povo que as criara. Uma noite, depois de Catherine e o conde Pappas terem ido, uma produção de Medec, falavam sobre Larry. - É um homem interessante - disse o conde Pappas. - Polyn chanos. - Que significa isso? - Não é fácil traduzir. - O conde pensou durante um momento Significa fértil em expedientes. - O senhor quer dizer cheio de recursos? - Sim, mas mais do que isso. Alguém que tem sempre uma ideia nova, um plano novo. - Polym. echanos - disse Catherine. - É isso mesmo que ele é. Acima deles havia um quarto crescente belo e enorme. A noite estava quente e perfumada. Atravessaram a Plaka em direcção à Praça Omonia. Quando se preparavam para atravessar a estrada, um carro virou a esquina em alta velocidade, avançou direito a eles e o conde puxou Catherine para o passeio. - Idiota! - gritou ele atrás do condutor que desaparecia. - Parece que todas as pessoas guiam assim nesta terra - disse Catherine. O conde Pappas sorriu com tristeza. - Os Gregos não fizeram a transição para o automóvel. No íntimo, ainda conduzem burros. - O senhor está a fazer troça.


- Infelizmente, não. Se quer conhecer os Gregos, Catherine, não leia os guias; leia as velhas tragédias gregas. A verdade é que ainda pertencemos a outros séculos. Emocionalmente, somos muito primitivos. Estamos repletos de paixões grandiosas, alegrias profundas e grandes mágoas, e não aprendemos a disfarçá-las com um verniz de civilização. - Não sei se isso é tão mau assim - respondeu Catherine. - Talvez não. Mas distorce a realidade. Quando os forasteiros nos olham, não estão a ver o que vêem. É como quem olha para uma estrela longínqua. Não estamos realmente a ver a estrela, estamos apenas a olhar para um reflexo de luz que esteve lá há um milhão de anos atrás. O mesmo se passa conosco. Em nós, você vê um reflexo do passado. Tinham alcançado a praça. Passaram por uma fila de pequenas lojas, onde havia letreiros nas montras que diziam: CaRrnaivrE. - Há muitos cartomantes por aqui, não há? - perguntou Catherine. - Somos um povo supersticioso. Catherine abanou a cabeça. - Desculpe, mas não acredito nisso. Haviam chegado a uma pequena taberna. Na montra havia um letreiro manuscrito quedizia: MADAME PIRIS, CARTOMÂNCIA - Acredita em bruxas? - perguntou o conde Pappas. Catherine olhou-o para ver se estava a provocá-la. O rosto deleestava sério. - Só no Dia das Bruxas. - Por bruxa não me refiro a cabos de vassoura, gatos pretos e caldeirões em ebulição. - A que se refere então? Abanou a cabeça na direcção do letreiro. - Madame Piris é uma bruxa. Sabe ler o passado e o futuro. Viu o cepticismo no rosto de Catherine. - Vou contar-lhe uma história - disse o conde Pappas. - Aqui há muitos anos, o comandante da Polícia de Atenas era um homem chamado Sófocles Vasilly. Era meu amigo, e eu usei a minha influência para o ajudar a conseguir um lugar na instituição. Vasilly era um homem muito honesto. Havia pessoas que desejavam corrompê-lo e, como não se deixava corromper, concluíram que teria de ser eliminado. -Pegou no braço de Catherine e


atravessaram a rua na direcção do parque. -Um dia, Vasilly veio dizer-me que o tinham ameaçado de morte. Era um homem valente, mas a ameaça perturbou-o porquê veio de um chantagista poderoso e implacável. Incumbiram-se detectives para vigiar o chantagista e proteger Vasilly, que continuava a ter a sensação desconfortável de que não tinha muito tempo de vida. Foi então que me procurou. Catherine escutava, fascinada. - Que é que o senhor fez? - perguntou ela. - Aconselhei-o a consultar Madame Piris: - Ficou em silêncio, com o pensamento rondando inquietantemente em alguma zona escura do passado. - E ele foi? - perguntou ela por fim. - O quê? Oh, sim. Ela disse a Vasilly que a morte iria ao encontro dele inesperada e rapidamente e advertiu-o a estar atento ao leão ao meio-dia. Não há leões na Grécia, tirando alguns velhos e sarnosos do jardim zoológico e os de pedra que viu em Delfos. Catherine sentia a tensão na voz de Pappa enquanto ele prosseguia. - Vasilly foi até aojardim zoológico pessoalmente para inspeccionar asjaulas, de modo a certificar-se de que os animais estavam presos, e fez investigações para saber da entrada recente em Atenas de algum animal selvagem. Não havia nenhum. Passou-se uma semana sem que nada acontecesse, e Vasilly concluiu que a bruxa velha se enganara e que fora um tanto supersticioso por lhe prestar atenção. Num sábado de manhã passei pela polícia para ir buscá-lo. O filho dele fazia quatro anos, e nós íamos apanhar um barco com destino a Kyron para irmos à festa. Parei o carro em frente à esquadra exactamente no momento em que o relógio da Câmara batia as doze badaladas. Quando cheguei à entrada, houve uma tremenda explosão que veio do interior do edifício. Corri para o gabinete de Vasilly. - A voz saía-lhe abafada e estranha. -Não sobrou nada do gabinete... nem de Vasilly. - Que coisa horrível - murmurou Catherine. Prosseguiram por um momento em silêncio. Mas a bruxa tinha-se enganado, não tinha? - perguntou Catherine. - Não foi um leão que o matou. - Ah, mas foi, sabe. A polícia reconstruiu o sucedido. Como lhe disse, era o aniversário do filho dele. A secretária de Vasilly estava amontoada de prendas que ia levar ao filho. Alguém lhe trouxera uma prenda, um brinquedo, e colocara-a sobre a mesa de Vasilly. Catherine sentiu o rosto ficar sem pinga de sangue.


- Um leão de brincadeira. O conde Pappas fez um sinal afirmativo com a cabeça. - É verdade. Cuidado com um leão ao meio-dia. Catherine estremeceu. - Essa história causa-me arrepios. Ele olhou-a com compreensão. - Madame Piris não é cartomante com quem se brinque. Tinham atravessado o parque e chegado à Rua Piraios. Um táxi vazio passava por ali. O conde mandou parar, e dez minutos depois Catherine estava de volta ao apartamento. Enquanto se preparava para se deitar, contou a história a Larry, e, durante a narrativa, a pele voltou a arrepiar-se. Larry abraçou-a com força e fez amor com ela, mas só muito tempo depois é que Catherine conseguiu adormecer.

Atenas 1946 15 Se não fosse Noelle Page, Larry Douglas não teria preocupações. Estava onde queria estar, fazia o que queria fazer. Gostava do trabalho, das pessoas que conhecia e do homem para quem trabalhava. Em terra tinha uma vida igualmente satisfatória. Quando não voava, passava boa parte do tempo com Catherine; mas, porque se deslocava com frequência, Catherine nem sempre sabia do seu paradeiro, e Larry tinha inúmeras oportunidades de sair sozinho. Ia a festas com o conde Pappas e Paul Metaxas, o seu co-piloto, e muitas delas acabavam em orgias. As mulheres gregas ardiam de fogo e paixão. Conhecera uma nova, Helena, uma hospedeira que trabalhava para Demiris, e quando faziam uma escala longe de Atenas ela e Larry partilhavam um quarto de hotel. Helena era uma rapariga de olhos negros, bela, esbelta e insaciável. Sim, pensando bem, Larry Douglas concluiu que tinha uma vida perfeita. A excepção da cabrona da amante loira de Demiris. Larry fazia a mínima ideia da razão por que Noelle Page o detestava, fosse qual fosse, a mesma ameaçava-lhe a vida. Larry tentara educado, distante e amistoso, e de todas as vezes Noelle Page conseguiu ridicularizá-lo. Larry sabia que poderia ir falar com Demiris, mas não tinha ilusões quanto ao seu destino se a escolha fosse entre ele e Noelle. Por duas vezes, encarregara Paul Metaxas de pilotode voo de Noelle, mas pouco antes das viagens a secretária de Demiris telefonara a dizer-lhe que o Sr. Demiris gostaria que o piloto fosseo próprio Larry. Numa manhãzinha em finais de Novembro, Larry recebeu a informação telefónica de que teria de levar Noelle a


Amsterdão nessa tarde. Larry contactou o aeroporto, donde lheforneceram uma informação negativa sobre o tempo que fazia em Amsterdão. Caía nevoeiro e à tarde esperavam que a visibilidade fosse nula. Larry telefonou à secretária de Demiris para lhe dizer que seria impossível voar para Amsterdão nesse dia. A secretária disse que voltaria a contactá-lo. Quinze minutos depois, telefonou a dizer que Miss Page estaria no aeroporto às duas horas, pronta para a viagem. Larry contactou o aeroporto, pensando que houvera uma aberta no tempo, mas a informação foi a mesma. - Meu Deus - exclamou Paul Metaxas. - Deve estar com uma pressa dos diabos para ir a Amsterdão. Mas Larry pressentiu que Amsterdão não era a verdadeira questão. Era uma luta de vontades entre os dois. Pouco se importava que Noelle Page se esmagasse no alto duma montanha e bons ventos a levassem, mas raios o partissem se ia arriscar a pele por causa daquela cabrona de merda. Tentou telefonar a Demiris para lhe falar no assunto, mas estava numa reunião e não podia atender ninguém. Larry desligou o telefone, furioso, a ferver. Só lhe restava agora ir ao aeroporto e tentar dissuadir a passageira de fazer a viagem. Chegou ao aeroporto às 1:30. Às três horas Noelle Page não tinha aparecido. - Deve ter mudado de ideia - disse Metaxas. Mas Larry não se deixou enganar. A medida que o tempo passava, ficou cada vez mais furioso, até que entendeu ser essa a intenção dela. Estava a tentar descontrolá-lo, o que lhe custaria o emprego. Larry estava no terminal do aeroporto a falar com o director quando o conhecido Rolls Royce cinzento de Demiris parou e Noelle Page saiu. Larry foi ao seu encontro. - Sinto muito, mas o voo foi cancelado, Miss Page - disse ele, numa voz sem expressão. - O aeroporto de Amsterdão está coberto de nevoeiro. Noelle ignorou a presença de Larry e disse a Paul Metaxas: - O avião possui equipamento de aterragem automática, não possui? - Possui, sim - disse Metaxas, embaraçado. - Muito me espanta - respondeu ela - que o Sr. Demiris tenha contratado um piloto cobarde. Irei ter uma conversa com ele sobre oassunto. Noelle voltou-se e caminhou na direcção do avião. Metaxas seguiu-a com o olhar e disse: - Caramba! Não sei o que lhe deu. Nunca se comportou assim. Sinto muito, Larry. Larry fitava Noelle, que atravessava o campo e cujo cabelo louro esvoaçava ao vento. Nunca odiara ninguém assim na vida.


Metaxas observava-o. - Vamos? - perguntou ele. - Vamos. O co-piloto deu um suspiro profundo e expressivo, e os dois homens encaminharam-se lentamente para o avião. Noelle Page estava sentada na cabina dos passageiros, folheando uma revista de modas descontraidamente quando entraram no avião. Larry fitou-a momentaneamente, tão cheio de raiva que teve medo de falar. Entrou para a cabina e iniciou a verificação de início de voo. Dez minutos depois, recebeu autorização da torre, e o avião transportou-os para Amsterdão. A primeira metade do voo decorreu sem incidentes. A Suíça era um manto de neve. Quando sobrevoavam a Alemanha, estava escuro. Larry contactou Amsterdão pelo rádio a pedir um boletim do tempo. Foi informado de que o nevoeiro vinha do mar do Norte e era cada vez mais cerrado. Amaldiçoou a sua má sorte. Se os ventos tivessem mudado e o nevoeiro tivesse levantado, o problema dele estaria resolvido, mas agora tinha de decidir se arriscaria uma aterragem automática em Amsterdão ou aterraria num aeroporto alternativo. Sentiu-se tentado a ir lá atrás falar com a passageira, mas podia imaginar o olhar desdenhoso no rosto dela. - Voo especial um-zero-nove, comunique o seu plano de voo, por favor. - Era a torre de Munique. Larry tinha de tomar uma decisão rapidamente. Poderia aindaaterrar em Bruxelas, Colónia ou no Luxemburgo. Ou em Amsterdão. A voz ouviu-se outra vez no alto-falante. - Voo especial um-zero-nove, comunique o seu plano de voo, por favor. Larry ligou o emissor. - Voo especial um-zero-nove para torre de Munique. Destino Amsterdão. - Desligou o interruptor e deu conta de que Metaxas observava. - Ena, o meu seguro de vida devia ter sido duas vezes maiordisse Metaxas. - Achas que vamos conseguir? - Queres saber a verdade? - disse Larry, amargamente. -Estou-me nas tintas. - Bestial! É num avião com dois tarados dos diabos! - lamentou-se Metaxas.


Durante a hora seguinte Larry ficou totalmente absorvido pela pilotagem do avião, atento, sem um comentário, às previsões metereológicas frequentes. Ainda esperava uma mudança do vento, mas a trinta minutos de Amsterdão a previsão era a mesma. Nevoeiro cerrado. O aeroporto estava fechado a todo o tráfego aéreo à excepção de emergências. Larry entrou em contacto com a torre de controlo de Amsterdão. - Voo especial um-zero-nove para torre de Amsterdão. Aproximação ao aeroporto a 75 milhas a leste de Colónia, hora prevista para a chegada dezenove horas. Quase instantaneamente, uma voz respondeu: - Torre de Amsterdão para voo especial um-zero-nove. O nosso aeroporto está encerrado. Sugerimos que volte para Colónia ou aterre em Bruxelas. Larry falou pelo microfone de mão. - Voo especial um-zero-nove para torre de Amsterdão. Negativo. Temos uma emergência. Metaxas virou-se para fitá-lo, surpreendido. Uma nova voz surgiu no alto-falante. - Voo especial um-zero-nove, fala o chefe de operações do aeroporto de Amsterdão. Estamos completamente mergulhados no nevoeiro. Visibilidade zero. Repito: visibilidade zero. Qual é a natureza da emergência? - Estamnos a ficar sem combustível - disse Larry. - Mal dá para chegarmos aí. Os olhos de Metaxas caíram sobre os indicadores de combustível, os quais acusavam depósito a meio. - Caramba! - explodiu Metaxas. - Dava para ir até à China! o rádio calou-se. De repente, explodiu de vida novamente. - Torre de Amsterdão para voo Especial um-zero-nove. Concedida autorização de emergência. Daremos instruções de aterragem. - Roger. - Larry desligou o interruptor e voltou-se para Metars. – Alija o combustível ordenou ele. Metaxas engoliu em seco e disse com uma voz engasgada: - A... alijar o combustível? Ouviste o que eu disse, Paul. Deixa apenas o bastante para aterrarmos. - Mas, Larry. - Porra, não discutas. Se aterrarmos com um depósito cheio de gasolina, ficamos sem os brevets em três tempos. Metaxas concordou contrariado e alcançou o manípulo de ejecção de combustível. Começou a bombear, com os olhos no indicador. Cinco minutos depois, penetravam no


nevoeiro, ficando envoltos num algodão branco e macio que tudo invadia excepto a cabina vagamente iluminada onde se sentavam. Era uma sensação estranha estarem separados do tempo e do espaço e do resto do mundo. A última vez que Larry passara por isto foi no simulador. Mas nesse jogo não havia riscos. Aqui o que estava emjogo eram a vida e a morte. Gostava de saber o efeito de tudo isto sobre a passageira. Esperava que lhe causasse um ataque cardíaco. A torre de controle de Amsterdão entrou de novo em contacto. - Torre de Amsterdão para voo Especial um-zero-nove. Como a visibilidade é zero, vou descê-lo no A. L. S. Por favor, siga as minhas instruções rigorosamente. Já o temos no nosso radar. Gire três grau para oeste e mantenha a altitude actual até novas instruções. Se mantiver a actual velocidade aerodinâmica, deve aterrar dentro dezoito minutos. A voz do rádio parecia tensa. E tinha boas razões para isso, pensou Larry sinistramente. Um pequeno erro e o avião cairia. Larry executou a correcção e afastou tudo da ideia, excepto a voz e corpo que era o seu único elo com a sobrevivência. Pilotou o avião como se fizesse parte de si próprio, pilotando com o coração, a alma e o pensamento. Mal se apercebia de Paul Metaxas, que suava a seu lado, numa verificação constante de instrumentos em voz baixa e tentando, mas, se saíssem disto vivos, seria obra de Larry Douglas. Larry nuncavira um nevoeiro assim. Era um inimigo fantasmagórico, que o atacava de todos os lados, cegando, atraindo, procurando levá-lo a cometer um erro fatal. Deslizava através do céu a duzentos e cinquenta milhas por hora, incapaz de ver para além do pára-brisas da cabina. Os pilotos odiavam o nevoeiro, e a primeira regra era: sobvoá-lo ou subvoá-lo, mas sair dele! Agora não havia hipótese, porque estava fechado num destino impossível por causa de um capricho duma leviana. Estava indefeso, à mercê de instrumentos que podiam falhar e de homens em terra que podiam errar. A voz do encarregado surgiu novamente no altofalante, e Larry achou que a mesma mostrou nervosismo. - Torre de Amsterdão para Voo especial um-zero-nove. Echegar ao primeiro ponto do seu esquema de aterragem: baixe oaerodinâmico e inicie a descida. Desça para dois mil pés... mil e quinhentos... mil pés... Ainda não havia qualquer sinal do aeroporto. Poderiam ter estado no meio de parte nenhuma. Podia sentir a terra vir ao encontro do avião. - Reduza a velocidade para cento e vinte... desça as rodas... está a seiscentos pés... velocidade a cem... está a cem pés... E ainda assim não havia sinal do maldito aeroporto! A camada de algodão asfixiante parecia mais espessa agora. A testa de Metaxas brilhava com suor. - Onde raio é que está? - sussurrou ele. Larry deu um olhar rápido para o altímetro. O ponteiro estava a descer para os trezentos pés. Depois ficou abaixo dos trezentos pés. A terra precipitava-se ao seu encontro a cem milhas por hora. O altímetro indicava apenas cento e cinquenta pés. Passava-se algo de errado. Já deveria ter avistado a iluminação do aeroporto. Esforçou-se para ver algo à frente do avião, mas só via o nevoeiro ofuscante e traiçoeiro que fustigava o vidro.


Larry ouviu a voz de Metaxas, tensa e rouca. - Descemos aos sessenta pés. - E ainda nada. - Quarenta pés. E o chão precipitando-se ao seu encontro na escuridão. - Vinte pés. Não adiantava. Mais dois segundos e a margem de segurança teria desaparecido e colidiriam no solo. Tinha de tomar uma decisão instantânea. - Vou subir outra vez - disse Larry. A mão dele apertou o comando e começou a puxar, e nesse instante uma fila de setas eléctricas brilhou no solo à sua frente, iluminando a pista em baixo. Dez segundos depois, estavam no solo, em direcção ao terminal de Schiphol. Quando o avião ficou imobilizado, Larry desligou os motores com os dedos dormentes e não se mexeu durante muito tempo. Por fim, pos-se de pé e ficou surpreendido ao ver que os seusjoelhos tremiam. Notou um cheiro estranho no ar e virou-se para Metaxas, que sorria. - Desculpa, Larry - disse ele -, mas caguei-me. Larry olhou para ele e abanou a cabeça. - Cagaste-te pelos dois - disse ele. Voltou-se e foi até à cabina dos passageiros. Lá estava a cabrona, folheando calmamente uma revista. Larry ficou a observá-la, desejando insultá-la, desejando desesperadamente saber o que a fazia vibrar. Noelle Page devia ter-se apercebido da proximidade que estivera da morte nos minutos recentes, e mesmo assim permanecia impávida e serena, sem um cabelo fora do lugar. - Amsterdão - anunciou Larry. Viajaram para Amsterdão num silêncio pesado, com Noelle no banco traseiro do Mercedes 300 e Larry à frente com o motorista. Metaxas ficara no aeroporto por causa da manutenção do avião. O nevoeiro era ainda cerrado, de forma que se deslocavam lentamente, até que subitamente, quando chegaram Lindenplatz, começou a levantar. Atravessaram a Praça da Cidade, transpuseram a Ponte Eider sobre o rio Amstel e pararam à frente do Hotel Amstel. Quando entraram no salão, Noelle disse a Larry:


- Venha buscar-me às dez em ponto. Voltou-se depois para o elevador, à frente do gerente do hotel que a seguia cheio de salamaleques. Um paquete levou Larry a um quartinho desconfortável nas traseiras do hotel no primeiro andar. O quarto ficava ao lado da cozinha, e através da parede Larry ouvia o barulho dos pratos e cheirava os aromas das panelas fumegantes. Larry olhou para o quartinho e disse irado: - Eu não punha o meu cão aqui. - Lamento - disse o paquete em tom de desculpa. - Miss Page pediu o quarto mais barato para o senhor. Muito bem, pensou Larry, hei-de arranjar maneira de a vencer. Constantin Demiris não é o único homem do mundo que tem piloto particular. Amanhã começo a arranjar emprego. Conheci todos dos amigos ricos dele. Há meia dúzia deles que ficariam mui satisfeitos se me contratassem. Mas depois pensou: Mas Demiris não me pode despedir. Se o fizer, nenhum dos outros olhará para mim. Tenho de me aguentar. A casa de banho ficava no átrio, e Larry abriu a mala e tirou um roupão para ir tomar banho, depois pensou: que se lixe, não preciso de tomar banho por causa dela. Só queria eracheirar a porco. Foi até ao bar do hotel tomar uma bebida muitíssimo desejada. Estava no terceiro martini quando olhou para o relógio bar e viu que eram 10:15. Às dez em ponto, dissera ela. Umpânico repentino invadiu-o. Precipitadamente, atirou umas notas para cima do balcão e dirigiu-se para o elevador. Noelle estava na Suite Imperador no quinto andar. Deu por si a correr pelo longo corredor e a amaldiçoar-se por permitir que ela o fizesse passar por isto. Bateu à porta da suite, imaginando desculpas para o atraso. Ninguém respondeu, e quando Larry girou o puxador reparou que a porta não estava trancada. Entrou na sala enorme, luxuosamente mobilada, e deixou-se ficar um momento, sem saber o que fazer, chamando depois em voz alta: - Miss Page. Não houve resposta. Então era esse o plano dela. Desculpa, Costa, mas eu avisei-te de que ele não era de confiança, querido. Disse-lhe que me viesse buscar às dez horas, mas ficou no bar a embebedar-se. Vi-me na obrigação de sair sozinha. Larry ouviu um barulho na casa de banho e foi ver o que era. A porta da casa de banho estava aberta. Entrou no momento em que Noelle Page saía da banheira. Só trazia uma toalha turca enrolada na cabeça. Noelle virou-se e deparou com ele. Aos lábios de Larry veio logo uma desculpa, tentando afastar a indignação dela, mas antes que pudesse falar Noelle disse com indiferença:


- Passe-me aquela toalha. Como se ele fosse uma criada. Ou um eunuco. Larry podia ter tolerado a indignação ou a raiva dela, mas a sua indiferença arrogante fez que algo explodisse dentro de si. Dirigiu-se a ela e agarrou-a, com a consciência de que, enquanto o fazia, estava a deitar fora tudo quanto desejava pela satisfação primária de uma vingança mesquinha, mas nada o impediu de o ter feito. A raiva vinha aumentando dentro de si nosúltimos meses, alimentada pelas desconsiderações que recebera daparte dela, pelos insultos gratuitos, pela humilhação, pelo arriscar da vida. Tudo isto ardia dentro dele quando agarrou o seu corpo nu. Se Noelle tivesse gritado, Larry tê-la-ia agredido até a deixar sem sentidos. Mas ela viu a ira da expressão dele e manteve-se muda quando a agarrou e a levou para o quarto. Algures no pensamento de Larry uma voz gritava-lhe que parasse, que pedisse desculpa, que dissesse que estava bêbado, que saísse antes que fosse tarde de mais, mas ele sabia quejá era tarde de mais. Não podia voltar atrás. Atirou-a violentamente para cima da cama aproximou-se dela. Concentrou-se no corpo dela, recusando que o pensamento o lembrasse do castigo que ia sofrer por este seu acto. Não tinha ilusões quanto ao que Demiris lhe faria por isto, pois a honra do grego não se daria por satisfeita apenas com o despedimento. Larry conhecia o suficiente do magnata para saber que a sua vingança seria muito mais terrível, e apesar disso Larry não conseguiu deter-se. Ela estava deitada a olhá-lo, com os olhos em chama. Ele pôs-se em cima dela e penetrou-a, sem se aperceber até àquele instante de quanto desejara fazer isto desde sempre, e de alguma forma a necessidade confundia-se com o ódio, e sentiu os braços dela a afagarem-lhe o pescoço, a abraçá-lo, como se não quisesse largá-lo nunca mais, e ela disse: - Bom regresso. E Larry num relance pensou que era louca ou estava a confundi-lo com alguém, mas não se importou porque o corpo dela se torcia e contorcia debaixo dele, e esqueceu o resto na sensação do que estava a acontecer-lhe e na tomada de conhecimento súbita, ofuscante e maravilhosa de que agora tudo ia ficar bem.

NOELLE E CATHERINE Atenas: 1946 16 Inexplicavelmente o tempo tornara-se o maior inimigo de Catherine. Não se deu conta disso a princípio, e em retrospectiva não poderia ter sido capaz de precisar o momento em que o


tempo começara a agir contra ela. Não se deu conta de quando o amor de Larry desaparecera, porquê ou como, mas um dia desaparecera simplesmente algures no decurso infindável do tempo e tudo o que sobrou foi um eco frio e vazio. Ficava sozinha no apartamento dias seguidos, tentando perceber o que acontecera, o que correra mal. Não havia nada de específico em que Catherine pudesse pensar, nenhum momento de revelação para que pudesse apontar e dizer: Foi isso, foi nessa altura que Larry deixou de me amar. Possivelmente, começara quando Larry regressou depois de três semanas em África, para onde fora com Constantin Demiris num safari. Ele está sempre fora, pensou ela. É como durante a guerra, só que desta vez não há inimigo. Mas estava enganada. Havia um inimigo. - Ainda não te contei a boa nova - disse Larry. - Fui aumentado. Setecentos dólares por mês. Que tal? - Que bom - respondeu ela. - Assim poderemos voltar para casa muito mais cedo. Viu que o rosto dele se contraiu. - Que se passa? - A nossa casa é aqui - disse Larry com brevidade. Fitou-o incompreensivelmente. - Bem, por enquanto - concordou ela, num tom pouco convincente -, mas não me parece que queiras viver aqui para sempre. - Nunca viveste tão bem - retorquiu Larry. - Parece que vivemos numa estância de férias. - Mas não é o mesmo que vivermos na América, pois não? - A América que se lixe - disse Larry. -Arrisquei a vida por ela durante quatro anos e que paga tive? Uma mão-cheia de medalhas que não valem nada. Nem sequer me arranjaram um emprego depois da guerra. - Isso não é verdade - disse ela. – Eu... - Eu quê? Catherine não queria causar uma discussão, especialmente na primeira noite após oregresso dele. - Nada, querido -disse ela. -Estás cansado. Vamos deitar-nos cedo. - Não vamos nada. - Foi até ao bar e arranjou uma bebida. Vai estrear-se um novo espectáculo na Boite Argentina. Eu disse a Paul Metaxas que iriamos ter com ele e com alguns amigos.


Catherine olhou para ele. - Larry... - Teve de se esforçar para manter a voz firme. - Larry, nós não nos vemos há quase um mês. Nunca temos ocasião para... sentar e conversar. - Não tenho culpa que o meu trabalho me afaste de casa - respondeu ele. - Não achas que eu gostava de estar perto de ti? Abanou a cabeça e disse: - Não sei. Vou ter de consultar as tábuas de Ouija. Abraçou-a e deu aquele seu sorriso de adolescente pleno de inocência. - Metaxas e os outros que vão para o diabo. Esta noite é só paranós dois. Está bem? Catherine olhou para ele e viu que não estava a ser razoável. Que não tinha culpa pelo facto de o trabalho dele o manter afastado dela. E quando chegava a casa era natural quequisesse ver outras pessoas. - Se te apetecer podemos sair - decidiu ela. - Hum hum. - Puxou-a para junto de si. - Só nós dois. Não saíram do apartamento durante todo o fim de semana. Catherine cozinhou, amaram-se, sentaram-se à frente da lareira conversaram, jogaram às cartas e leram, e Catherine não poderia ter pedido mais nada. No domingo à noite, após um delicioso jantar preparado por Catherine, foram deitar-se e voltaram a amar-se. Ela estava deitadaa observar Larry que se dirigia para a casa de banho, nu, e ela pensou no homem belo que era e como ela tinha sorte por lhe pertencer, e soma ainda quando Larry apareceu à porta da casa de banho e disse casualmente - Arranja que fazer para a semana, para não ficarmos colados um ao outro assim outra vez sem nada que fazer. - E voltou para a casa de banho, deixando Catherine com o sorriso ainda pregado no rosto. Ou talvez o problema tivesse começado com Helena, a bela hospedeira grega. Numa tarde quente de Verão, Catherine saíra para fazer compras. Larry não estava na cidade. Esperava o regresso dele no dia seguinte e decidira surpreendê-lo com os seus pratos preferidos. Quando Catherine ia a sair do mercado com os braços cheios de mercearia, passou um táxi por ela. No banco traseiro ia Larry, com o braço sobre uma rapariga fardada de hospedeira. Catherine teve um breve lampejo das duas faces juntas rindo-se, e depois o táxi vìrou uma esquina e desapareceu. Catherine ficou entorpecida, e só quando uns miúdos se aproximaram dela a correr é que se deu conta de que os embrulhos da mercearia lhe haviam escorregado dos dedos nervosos. Ajudaram Catherine a apanhar tudo e foi para casa aos tropeções, incapaz de pensar. Tentara convencer-se de que não fora Larry quem vira no táxi, mas alguém parecido com ele. Mas a verdade é que no mundo não havia ninguém parecido com Larry. Era único, uma obra original de Deus, uma criação de valor


incalculável da natureza. E era todo seu. Seu e da morena do táxi, e de quantas mais? Catherine ficou a pé toda a noite à espera de que Larry entrasse, e, como não chegou, sabia que nenhuma desculpa dele poderia salvar o casamento, nem nenhuma desculpa que ela pudesse dar a si própria. Era um mentiroso e um embusteiro, e não podia continuar casada com ele por mais tempo. Larry só voltou a casa ao fim da tarde do dia seguinte. - Viva-disse elejovialmente, quando entrou no apartamento. Pôs o saco no chão e reparou no rosto dela. - Que se passa? - Quando é que voltaste? - perguntou-lhe Catherine formalmente. Larry olhou para ela, intrigado. - Há cerca de uma hora. Porquê? - Vi-te ontem num táxi com uma mulher. Foi tão simples quanto isso, pensou Catherine. Foram essas aspalavras que puseram termo ao meu casamento. Vai negar, e eu vou chamar-lhe mentiroso e não voltarei a vê-lo. Larry deixou-se estar, com o olhar fixo. - Anda - disse ela. - Diz-me que não eras tu. Larry olhava para ela, abanando a cabeça. - Claro que era eu. A dor repentina e aguda que Catherine sentiu na boca do estômago fê-la compreender o quanto desejava que ele negasse. - Bolas - disse ele -, que andas tu a magicar? Ela ia falar, mas a voz tremeu-lhe de raiva. - Eu... Larry levantou uma mão. Não digas nada de que te venhas a arrepender. Catherine olhou para ele incredulamente. - De que me venha a arrepender? - Regressei ontem a Atenas durante quinze minutos para vir buscar Helena Merelis e levá-la


para Creta, a pedido de Demiris. Helena trabalha para ele como hospedeira. - Mas... Era possível. Larry podia ter dito a verdade; ou erapolymechan fértil em recursos? - Por que é que não me telefonaste? - perguntou Catherine. - Mas eu telefonei-disse Larry. -Ninguém respondeu. Saíste não saíste? Catherine engoliu em seco. - Eu... tinha ido comprar-te ojantar. - Estou sem fome - ripostou Larry. - As brigas tiram-me sempre a vontade de comer. Voltou-se e saiu a porta, deixando Katherine, com a mão direita ainda no ar, como se lhe fizesse um sinal silencioso para que regressasse. Foi pouco depois disso que Catherine começou a beber. Comia sem importância e de uma forma inofensiva. Ficava à espera de que Larry chegasse a casa parajantar às sete horas, e quando eram oito horas e ainda não tinha chegado Catherine tomava um brande ajudar a matar o tempo. Às dez horas, já tinha tomado vários quando ele chegava a casa, quando chegava, o jantarjá teriaarrefecido, e ela estava um pouco tocada. Era mais fácil enfrentar o que estava a passar-se na sua vida. Catherine não poderia continuar a ocultar de si própria o facto de que Larry a enganava e a enganara desde o dia em que se casaram. Ao verificar as calças do uniforme um dia antes de as mandar para a lavandaria, encontrou um lenço de seda manchado com sémen seco. Havia baton nas cuecas dele. Imaginou Larry nos braços duma outra mulher. E teve vontade de o matar.

Atenas: 1946 17 Assim como o tempo se tornara inimigo de Catherine, de igual maneira se tornara amigo de Larry. A noite de Amsterdão não fora senão um milagre. Larry arriscara-se a um desastre, e ao fazê-lo tinha incrivelmente, achado a solução para todos os seus problemas. Sorte dos Douglas, pensou com satisfação. Mas ele sabia que eramais do que sorte. Havia nele um instinto obscuro e perverso que o levava a enfrentar o Destino, ir de encontro aosparâmetros da morte e destruição, uma prova, uma autocomiseração contra o Destino pelos desafios da vida ou morte.


Larry lembrou-se de uma manhã, quando sobrevoava as ilhas uk, em que uma esquadrilha de Zeros - surgira por detrás de uma nuvem. Ele ia à frente, de forma que concentraram o ataque sobre Três Zeros haviam-no afastado do resto da esquadrilha e abrira fogo sobre ele. Numa espécie de clarividência que se apossava dele em momentos de perigo, viu, no meio da ofuscação, a ilha no solo, as dezenas de navios que balançavam nos mares ondulantes, dos aviões rasantes que se digladiavam num céu azul e brilhante. Foi um dos momentos mais felizes na vida de Larry: realizar a Vida e troçar da Morte. Colocara o avião em parafuso e aproximara-se da cauda dum dos Zeros. Vira-o explodir quando abriu fogo. Os outros dois aviões haviam-se aproximado de ambos os lados. Larry viu-os largar contra si, e no último instante inverteu o rumo e os dois aviões japoneses chocaram em pleno céu. Era um momento que Larry saboreava mentalmente com frequência. Por alguma razão voltara a senti-lo na noite de Amsterdão. Tratara Noelle de uma forma arrebatada e violenta, e depois ela ficara nos braços dele, falando dos doisjuntos em Paris antes da guerra, e ele de repente lembrou-se vagamente de uma jovem ansiosa, mas, santo Deus, foram centenas asjovens ansiosas desde então, e Noelle não era senão uma breve lembrança, quase esquecida do seu passado. Que sorte, pensou Larry, que os seus caminhos se haviam cruzado de novo sem querer, após todos estes anos. - Pertences-me - disse Noelle. - Agora és meu. Algo no tom dela fez que Larry se sentisse embaraçado. E, no entanto, disse a si próprio, que tenho eu a perder? Com Noelle sobcontrole, podia continuar a trabalhar com Demiris para sempre, se fosse essa a sua vontade. Examinava-o como se estivesse a ler-lhe o pensamento, e havia uma expressão esquisita nos olhos dela que Larry não entendeu. Ainda bem que foi assim. Numa viagem de regresso de Marrocos, Larry levou Helena ajantar fora e passou a noite no apartamento dela. De manhã foi para o aeroporto a fim de inspeccionar o avião. Almoçou com Paul Metaxas. - Parece que te saiu a sorte grande - disse Metaxas. - Podes dar-me um bocado? - Meu rapaz - disse Larry, com um sorriso largo -, não sabias que fazer. É preciso um mestre. Tiveram um almoço agradável e depois Larry voltou para a cidade para ir buscar Helena, que devia seguir no voo dele. Bateu à porta do apartamento dela e, após uma longa espera,


Helena abriu-a lentamente. Estava nua. Larry olhou-a fixamente, sem a reconhecer. O corpo e o rosto dela eram uma massa de nódoas feias e hematomas. Os seus olhos eram fendas de dor. Fora espancada por um profissional. - Santo Deus! - exclamou Larry. - Que aconteceu? Helena abriu a boca e Larry viu que lhe haviam partido três dentes superiores frontais. - D... doishomens-balbuciou ela. -Entraram assim que tu s... saiste. - Não chamaste a polícia? - perguntou Larry, horrorizado. - Eles d... disseram que me matavam se eu abrisse a boca. E falavam a sério, L... Larry. Estava em estado de choque, agarrada à porta para não cair. - Roubaram-te alguma coisa? - N... não. Forçaram a entrada e violaram-me... e depois bateram-me. - Veste qualquer coisa - ordenou ele. - Vou levar-te ao hospital. - Não p... posso sair com a cara neste estado - disse ela. Claro que tinha razão. Larry telefonou a um médico amigo, com quem combinou a vinda dele ao apartamento. - Desculpa, mas não posso ficar - disse Larry a Helena. Tenho de levar Demiris dentro de meia hora. Virei ver-te assim que voltar. Mas nunca mais a viu. Quando Larry regressou, dois dias depois, o apartamento estava vazio, e a senhoria disse-lhe que ajovem se mudara e não deixara morada. Mesmo nessa altura Larry não desconfiou de nada. Só algumas horas depois, quando fazia amor com Noelle, é que teve uma alusão ao que acontecera. - És fantástica - disse ele. - Nunca conheci ninguém como tu. - Dou-te tudo o que tu queres? - perguntou ela. - Sim - gemeu ele. - Oh, se dás. Noelle interrompeu o que fazia. - Então não voltes a ir para a cama com outra mulher - disse ela com ternura. - Da próxima vez, mato-a. Larry lembrou-se das palavras dela: tupertences-me. E de repente assumiram um significado novo e luminoso. Pela primeira vez teve a premonição de que este não era um caso passageiro a que pudesse pôr termo quando lhe apetecesse. Sentiu o núcleo frio, mortal e intocável que havia em Noelle Page, teve um arrepio e ficou cheio de medo.


Várias vezes ao longo da noite começou a puxar o assunto de Helena, e de todas as vezes parou porque tinha medo de saber, medo de exprimir por palavras, como se as palavras tivessem mais poder que o próprio feito. Se Noelle foi capaz disso... Ao pequenoalmoço, na manhã seguinte, Larry reparava e Noelle sem que se apercebesse, à procura de sinais de crueldade, sadismo, mas tudo o que via era uma mulher bela e apaixonante, lhe contava histórias divertidas, que se antecipava às necessidades dele e delas cuidava. Tenho que estar enganado a respeito dela- pensou ele. Mas depois disso tratou de não andar com outras mulheres, e em poucas semanas perdera todo o desejo de o fazer, porquese sentia totalmente obcecado por Noelle. Desde logo Noelle avisou Larry de que era fundamental manterem o caso longe de Constantin Demiris. - Nunca deverá haver o mais leve murmúrio de suspeita sobre nós - avisou Noelle. - Por que não alugamos um apartamento? - sugeriu Larry. Um sítio onde nós... Noelle abanou a cabeça. - Mas não em Atenas. Alguém poderia reconhecer-me. Dois dias depois, Demiris mandou chamar Larry. A princípio Larry ficou apreensivo, julgando que o magnata grego pudesse ter sabido de alguma coisa sobre eles, mas Demiris cumprimentou-o agradavelmente e teve com ele uma conversa sobre um novo avião que tencionava comprar. - É um bombardeiro Mitchell transformado - disse-lhe Demiris. - Gostava que o visse. O rosto de Larry iluminou-se. - É um óptimo avião - disse ele. -Pelo peso e tamanho, não encontrará melhor. - Quantos passageiros pode transportar? Larry pensou um momento. - Nove no maior conforto, mais o piloto, o navegador e o engenheiro de voo. Atinge quatrocentas milhas por hora. - Parece interessante. Veja-me isso e traga-me um relatório. - É para já - sorriu Larry. Demiris pôs-se de pé. - A propósito, Douglas, Miss Page vai a Berlim de manhã. Quero que a leve lá. - Certamente - disse Larry. E depois acrescentou, inocentemente. - Miss Page disse-lhe que já nos damos melhor?


Demiris ergueu o olhar. - Não - disse ele intrigado. - De facto, ainda esta manhã ela se queixou da sua insolência. Larry fitou-o surpreendido, e depois, assim que deu conta, tentou à pressa disfarçar a mancada que dera. - Eu faço por isso, Sr. Demiris - disse com veemência. -Vou esforçar-me ainda mais. Demiris fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Faça isso. Você é o melhor piloto quejá tive, Douglas. Seria muito desagradável se... Deixou a voz diminuir de intensidade e a mensagem foi clara. A caminho de casa, Larry amaldiçoou o disparate que cometera. Não podia esquecer-se de que agora ojogo era alto. Noelle fora suficientemente inteligente para perceber que qualquer alteração repentina na sua atitude poderia levantar as suspeitas de Demiris. Arelação anterior entre eles era uma cobertura perfeita para o quefaziam.Demiris estava a tentar aproximá-los. A ideia provocou emLarry uma gargalhada. No voo para Berlim, Larry entregou o leme a Paul Metaxas e disse que ia lá atrás falar com Noelle Page. - Não tens medo que te corte a cabeça à dentada? - Metaxas perguntou. Larry hesitou, tentado que se sentiu a gabar-se. Mas dominou o impulso. - É uma cabra assanhada - Larry encolheu os ombros -, mas se eu não conseguir amansá-la ainda vou parar ao olho da rua. - Boa sorte - disse Metaxas com ponderação. - Obrigado. Larry fechou a porta da cabina cuidadosamente e foi para o salão onde Noelle se encontrava. As duas hospedeiras estavam na retaguarda do avião. Larry fez menção de sentar-se em frente a Noelle. - Tem cuidado - avisou ela em voz baixa. - Constantin recebe relatórios de todas as pessoas que trabalham para ele. Larry olhou de relance na direcção das hospedeiras e pensou em Helena. - Encontrei um sítio para nós - disse Noelle. Havia prazer e excitação na voz dela. - Um apartamento?


- Uma casa. Sabes onde fica Rafina? Larry abanou a cabeça. - Não. - É uma aldeiazinha à beira-mar, a cem quilómetros de Atenas. Temos lá uma vivenda retirada. Ele anuiu. - Em nome de quem a alugaste? - Comprei-a - disse Noelle - em nome de outra pessoa. Larry gostava de saber que sensação causava poder-se comprar uma vivenda só para ir para a cama com alguém uma vez por outra. - Óptimo - disse ele. - Quem me dera ir vê-la já. Ela examinou-o por um momento. - Tens dificuldades em afastar-te de Catherine? Larry olhou para Noelle surpreso. Era a primeira vez que se referira à mulher dele. Ele não fizera obviamente segredo do casamento, mas foi uma sensação estranha ouvir Noelle usar o nome de Catherine. Obviamente Noelle fizera as suas investigações, e conhecendo-a como começava a conhecê-la as mesmas deveriam ser muito completas. Ela ficou à espera de uma resposta. - Não - respondeu Larry. - Posso entrar e sair quando me apetecer. Noelle anuiu, satisfeita. - Óptimo. Constantin vai num cruzeiro de negócios a Dubrovnik. Já lhe disse que não o posso acompanhar. Vamos passar dez dias maravilhosos juntos. É melhor ires agora. Larry virou-se e regressou à cabina. - Como é que foi? - perguntou Metaxas. - Conseguiste acalmá-la? - Nem porisso-respondeu Larry, cuidadosamente. – Vailevar o seu tempo. Larry tinha um carro, um - Citroen descapotável, mas, por insistência de Noelle, foi a uma pequena agência de aluguel de automóveis em Atenas e alugou uma viatura. Noelle fora para Rafina sozinha e Larry ficou de ir ter com ela. Foi uma viagem agradável por uma estrada sinuosa e poeirenta muito acima do nível do mar. Duas horas e meia depois de ter


saído de Atenas, Larry chegou a uma aldeiazinha encantadora anichada na costa. Noelle dera-lhe instruções precisas de forma a não ter de parar e perguntar na vila. Quando alcançou os arredores da aldeia, virou à esquerda e desceu uma estrada suja que ia dar ao mar. Havia várias vivendas, todas retiradas atrás de muros altos de pedra. No fim da estrada, construída num alto rochedo sobre um promontório que se projectava pelo mar adentro, estava uma vivenda enorme de aspecto luxuoso. Larry subiu até ao portão e tocou à campainha. Um momento depois o portão eléctrico abriu-se. Entrou e o portão fechou-se atrás de si. Deu por si num pátio enorme com uma fonte ao centro. Os flancos do pátio eram uma profusão de flores. A casa em si era uma vivenda tipicamente mediterrânica, tão inexpugnável como uma fortaleza. A porta frontal abriu-se e Noelle surgiu, num vestido branco de algodão. Ficaram a olhar um para o outro, sorridentes, para, pouco depois, ela cair nos seus braços. - Vem ver a tua nova casa - disse ela, ansiosamente, e levou para dentro. O interior da casa parecia cavernoso, com salas grandes e espaçosas de tectos altos abobadados. Havia uma sala de estar enorme no rés-do-chão, uma biblioteca, uma sala de jantar formal e uma cozinha antiga com um fogão a lenha circular, colocado no centro. Os quartos ficavam em cima. - Não há criados? - perguntou Larry. - Estás a olhar para eles. Larry olhou-a surpreendido. - Tu é que vais cozinhar e limpar? Elaconcordou. - Quando não estivermos cá, vem um casal de criados fazer a limpeza, mas nunca nos verão. Tratei do assunto numa agência. Larry sorriu sardonicamente. Havia um tom de advertência na voz de Noelle. - Nunca cometas o erro de subestimar Constantin Demiris. Se descobrir o que se passa entre nós, mata-nos aos dois. Larry sorriu. - Estás a exagerar -disse ele. -O velho pode não gostar, mas... Os olhos cor de violeta de Noelle fixaram-se nos dele.


- Ele mata-nos aos dois. - Algo na voz dela lhe causou uma sensação de apreensão. - Estás a falar a sério, não estás? - Nunca falei tão a sério na vida. Ele é implacável. - Mas quando dizes que nos vai matar - protestou Larry - ele não... - Não usará balas - disse Noelle peremptoriamente. - Arranjará uma maneira complicada e engenhosa de o fazer, e nunca será castigado por isso. - O tom dela aligeirou-se. - Mas não háde descobrir, querido. Anda, deixa-me mostrar-te o nosso quarto. -Pegou na mão dele e subiram a escada íngreme. - Temos quatro quartos de hóspedes -disse, acrescentando com um sorriso -, e podemos experimentar todos. - Levou para o quarto principal, uma suite enorme que fazia esquina sobre o mar. Dajanela Larry avistou um terraço enorme e o caminho breve que serpenteava até à água. Havia uma doca com um enorme veleiro e um barco a motor atracados. - De quem são aqueles barcos? - Teus - disse ela. - É o teu presente de boas-vindas. Voltou-se para ela e viu que tirara o vestido de algodão. Estava nua. Passaram o resto da tarde na cama. Os dez dias que se seguiram voaram. Noelle era azougada, uma ninfa, um génio, doze belas criadas que satisfaziam todos os desejos de Larry antes mesmo de saber o que queria. Encontrou a biblioteca da vivenda repleta com os seus livros e discos preferidos. Noelle esmerou-se na confecção de todos os seus pratos predilectos, navegou com ele, nadou na água do mar morna com ele, amou-o, massageava-o à noite até adormecer. De certa maneira eram prisioneiros, pois não ousavam ver ninguém. Todos os dias Larry descobria novas facetas em Noelle. Entretinha-o com histórias fascinantes sobre pessoas famosas que ela conhecia. Tentou falar de negócios e política com ele, até que descobriu que isso não lhe interessava. Jogaram póquer e outrosjogos, e Larry ficou furioso porque nunca conseguia ganhar. Noelle ensinou-lhe xadrez e gamão, mas nem aí conseguiu batê-la. No primeiro domingo que passaram na vivenda preparou um saboroso almoço-piquenique, e sentaram-se na praia ao sol e deliciaram-se. Enquanto comiam, Noelle ergueu o olhar e viu dois homens ao longe. Caminhavam na sua direcção ao longo da praia. - Vamos para dentro - disse Noelle. Larry ergueu o olhar e viu os homens. - Bolas, não sejas tão assustadiça. São apenas dois aldeões a passear na praia. - Já - ordenou ela.


- Está bem - disse ele de má vontade, irritado pelo incidente e pelo tom dela. - Ajuda-me a arrumar as coisas. - Por que não deixamos tudo aqui? - perguntou ele. - Porque ia levantar suspeitas. Rapidamente meteram tudo no cesto do piquenique e puseram-se a caminho da casa. Larry esteve calado o resto da tarde. Sentou-se na biblioteca, preocupado, enquanto Noelle trabalhava na cozinha. Ao fim da tarde entrou na biblioteca e sentou-se aos pés dele. Com o dom misterioso que tinha de ler o pensamento, disse: - Não penses mais neles. - Eram apenas uns pobres aldeões - ripostou Larry. – Detesto ter de me esconder como se fosse um criminoso. - Olhou-a, e o tom de voz mudou. - Não preciso de esconder-me de ninguém. Amo-te. E Noelle sabia que desta vez era verdade. Pensou nos anos em que planejara destruir Larry e no prazer feroz que tivera quando imaginava a destruição dele: e, no entanto, ao revê-lo, soube naquele instante que havia algo mais profundo do que o ódio que a consumia. Quando quase o matara, forçando a arriscar a vida de ambos naquele terrivel voo para Amsterdão, foi como se estivesse a pôr à prova o amor que tinha por ela num desafio selvagem do destino. Esteve com Larry na cabina, partilhando a pilotagem e o sofrimento de Larry, sabendo que se ele morresse morreriam juntos, e que ele salvara a vida de ambos. E quando fora ter com ela ao quarto de Amsterdão e a amara, o ódio e o amor interpenetraram-se nos seus dois corpos, e de alguma forma o tempo dilatara-se e contraírase e estavam de volta ao quartinho do hotel em Paris, e Larry dizia-lhe: Vamos casar; falamos com o presidente duma câmara de província, e o presente e o passado explodiram estonteantemente num só e Noelle soube então que eram intemporais, sempre o foram, que nada realmente mudara e que as raízes do seu ódio por Larry nasceram da grandiosidade do seu amor. Se o destruísse estaria a destruir-se a si própria, pois se entregara totalmente a ele havia muito tempo, e isso nada jamais poderia alterar. Noelle achava que tudo o que alcançara na vida fora através do ódio. A traição do pai moldara-a e dera-lhe forma, fortalecera-a e enrigecera-a, enchendo-a de fome porvingança que apenas poderia ser saciada com um reino de que seria dona e senhora, no qual não pudesse voltar a ser traída, nem ferida. Havia finalmente alcançado isso. E agora estava pronta a sacrificá-lo por este homem. Porque sabia agora que o que sempre quisera fora o amor e a vida de Larry. O que, por fim, obteve. E esse, afinal de contas, era o seu verdadeiro reino.


Atenas 1946 18 Para Larry e Noelle, os três meses que se seguiram foram um daqueles raros períodos idílicos em que tudo correu bem, um tempo mágico de deslizar de um dia maravilhoso para outro, sem a mais ténue nuvem no horizonte. Larry passava as horas de trabalho a fazer aquilo que adorava fazer: voar; e, sempre que tinha um tempo livre, ia até à casa de Rafina e passava um dia ou um fim-de-semana com Noelle. No início, Larry receara que o compromisso se tornasse um fardo que o arrastaria para o tipo de vida doméstica que detestava; mas, de cada vez que via Noelle, ficava mais encantado e começava a desejar ansiosamente pelas horas que iria passar com ela. Quando ela teve de cancelar um fim-desemana por ter de acompanhar Demiris numa viagem inesperada, Larry ficou sozinho na casa, e deu por si irado e ciumento, pensando em Noelle e Demiris juntos. Quando viu Noelle na semana seguinte, ela ficou surpreendida e satisfeita com ansiedade dele. - Tiveste saudades minhas - disse ela. Ele abanou a cabeça. - Muitas. - Que bom. - Como é que está Demiris? Ela hesitou um momento. - Está bem. Larry reparou na hesitação dela. - Que se passa? - Estava a pensar numa coisa que disseste. - Em quê? - Disseste que detestavas a sensação de andares escondido como um criminoso. Eu também. Todos os momentos que passei com Constantin, queria passá-los contigo. Disse-te uma vez, Larry, que te quero só para mim. E disse a sério. Não te quero dividir com ninguém. Quero que cases comigo. Ele fitou-a surpreso, apanhado desprevenido. Noelle observava.


- Queres casar comigo? - Sabes bem que sim. Mas como? Passas a vida a dizer-me o que Demiris fará se descobrir que andamos juntos. Ela abanou a cabeça. - Ele não irá saber. Temos de ser espertos e planejar tudo como deve ser. Ele não manda em mim. Eu deixo-o. Terá de se conformar. É demasiado orgulhoso para tentar impedir-me. Um ou dois meses depois, tu despedias-te. Iremos para um sítio qualquer, separadamente, talvez para os Estados Unidos. Podemos casar-nos lá. O dinheiro que tenho chega e sobra. Compro-te uma companhia de cherters, ou uma escola de pilotos ou o que tu quiseres. Ele só ouvia o que ela dizia, sopesando as perdas contra os ganhos. E que iria ele perder? Um reles emprego de piloto. A ideia de ser dono dos seus aviões emocionou-o. Seria dono de um Mitchell transformado. Ou talvez do novo DC-6 que acabara de sair. Quatro motores radiais, oitenta e cinco passageiros. E Noelle, sim, ele desejava Noelle. Deus, por que hesitava ele? - E a minha mulher? - perguntou ele. - Diz-lhe que te queres divorciar. - Não sei se irá aceitar. - Não lhe peças - respondeu Noelle. - Diz-lhe. - Havia um tom decisivo e implacável na voz dela. Larry concordou com a cabeça. - Está bem. - Não te arrependerás, querido. Prometo - disse Noelle. Para Catherine, o tempo perdera o seu ritmo normal; ela cai numa confusão das horas, e o dia e a noite eram um só. Larry quase não estava em casa, e ela deixara de visitar os amigos, porque já nãotinha coragem para dar mais desculpas ou enfrentar as pessoas. Conde Pappas fizera meia dúzia de tentativas para vê-la e acabara por desistir. Só conseguia lidar com as pessoas de forma indirecta: por telefone, carta ou telegrama. Mas quando as enfrentava não reagia, e as conversas descambavam em futilidades. O tempo causava dor, assim como as pessoas, e o único consolo que Catherine achou foi o maravilhoso esquecimento do álcool. Oh, como aliviava o sofrimento, suavizava as arestas agudas das repulsas e diminuía a luz impiedosa da realidade que abatia todas as pessoas. Quando Catherine chegara a Atenas, ela e William Fraser escreviam-se com frequência,


trocando notícias e mantendo-se ambos actualizados com as actividades dos amigos e inimigos mútuos. Desde que os problemas de Catherine com Larry começaram, todavia, não tinha tido coragem de escrever a Fraser. As últimas três cartas dele não receberam resposta, e a última nem sequer fora aberta. Simplesmente, nem forças tinha para se ocupar com nada para além do microcosmos de autocomiseração em que ficara presa. Um dia chegou um telegrama para Catherine, o qual, uma semana depois, ainda estava por abrir em cima da mesa, quando a campainha da porta tocou e William Fraser surgiu. Catherine fitou-o, incrédula. - Bill! - disse ela, com uma voz grossa. - Bill Fraser! Ele ia começar a falar e ela viu a expressão excitada no olhar dele que se transformava em espanto e choque. - Bill, querido - disse ela. - que fazes tu aqui? - Tive de vir a Atenas em negócios - explicou Fraser. - Não recebeste o meu telegrama? Catherine olhou para ele, tentando lembrar-se. - Não sei - disse ela por fim. Conduziu-o até à sala de estar, cheia de jornais velhos, cinzeiros e pratos com restos de comida. Desculpa a casa estar neste desarranjo - disse ela, acenando uma mão vaga. - Tenho tido que fazer. Fraser analisava-a preocupadamente. - Estás bem, Catherine? - Eu? Fantástica. Que tal uma bebida? - São apenas onze horas da manhã. Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Tens razão. Tens toda a razão, Bill. Ainda não são horas de beber, e, para te dizer a verdade, eu só ia beber para comemorar a tua vinda. És a única pessoa do mundo que me faria tomar uma bebida às onze horas da manhã. Fraser observava-a com tristeza enquanto se arrastava até ao bar, e encheu um copo grande para ela e um mais pequeno para ele. - Gostas de aguardente grega? - perguntou ela quando lhe trazia a bebida. - Eu detestava, mas uma pessoa habitua-se. Fraser aceitou a bebida e pousou-a. - Onde está Larry? - perguntou ele calmamente.


- Larry? Oh, o nosso amigo Larry anda por aí a voar. Trabalha para o homem mais rico do mundo, sabes. Demiris é dono de tudo, até de Larry. Ele examinou-a por um momento. - Larry sabe que tu bebes? Catherine pousou o copo com força e ficou a balançar à frente dele. - Que queres dizer com isso de Larry saber que eu bebo? - perguntou ela indignada. - quem é que disse que eu bebo? Lá porque quero comemorar a visita dum velho amigo, não comeces a atacar-me! - Catherine - começou ele -, eu... - Pensas que podes chegar aqui e chamar-me de bêbeda? - Desculpa, Catherine - disse Fraser condoído -, acho que estás a precisar de ajuda. - Pois estás muito enganado - retorquiu ela. - Não preciso de ajuda nenhuma. Sabes porquê? Porque eu consigo... consigo... consigo... - procurou a palavra, acabando por desistir. - Eu não preciso de ajuda nenhuma. Fraser observou-a por um momento. - Tenho de ir para uma reunião agora - disse ele. - Janta comigo esta noite. - Está bem. - Concordou ela. - Óptimo. Venho buscar-te às oito. Catherine seguiu Bill Fraser com o olhar. Depois, a trocar o passo, foi para o quarto e lentamente abriu a porta do roupeiro, fixando o olhar no espelho que estava pendurado atrás da porta. Ficou gelada, incapaz de acreditar no que via, certa de que o espelho estava pregar-lhe uma partida pavorosa. No interior era ainda a menina bonita adorada pelo pai, ainda ajovem colegial no quarto dum motel com Ron Peterson, a ouvi-lo dizer: Meu Deus, Cathy, tu és a coisa mais bonita que eujá vi, e Bill Fraser que a abraçava e lhe dizia: tão bonita, Catherine, e Larry dizendo-lhe: Fica sempre assim Cathy, tu és um sonho, e ela olhava para a figura reflectida no espelho e disse em voz alta e rouca: - Quem és tu? E a mulher triste e disforme do espelho começou a chorar, desesperançada, lágrimas vazias que escorreram pelo rosto inchado e obsceno. Horas depois a campainha da porta tocou. Ouviu a voz de Bill Fraser chamar.


- Catherine! Catherine, estás aí? - E depois a campainha tocou um pouco mais, e por fim a voz calou-se e a campainha deixou de tocar, e Catherine ficou sozinha com a estranha que estava no espelho. Às nove horas da manhã seguinte, Catherine apanhou um táxi até à Rua Patission. O médico chamava-se Nikodes, e era um homem entroncado e corpulento, com umajuba branca desgrenhada, um rosto sensato com olhos meigos, e modos fáceis e informais. Uma enfermeira conduziu Catherine ao consultório e o Dr. Nikodes indicou-lhe uma cadeira. - Sente-se, Sra. Douglas. Catherine sentou-se, nervosa e tensa, tentando impedir que o corpo tremesse. - Qual é o seu problema? Começou a responder e depois parou, impotente. Oh, Deus, pensou ela, Por onde poderei começar? - Preciso de ajuda - disse ela por fim. Tinha a voz seca e áspera, e ansiava por uma bebida. O médico estava recostado na cadeira a observá-la. - Que idade tem? - Vinte e oito. Observou o rosto dele quando respondeu. Tentou ocultar a expressão de choque, mas ela apanhou-a, e de uma forma perversa a mesma a satisfez. - É americana? - Sou. - Vive em Atenas? Ela fez um sinal de concordância. - Há quanto tempo vive cá? - Há mil anos. Mudamo-nos para cá antes da Guerra do Peloponeso. O médico sorriu. - Por vezes também sinto isso.


Ofereceu-lhe um cigarro. Ela estendeu a mão. Querendo controlaros dedos trementes. Se o Dr. Nikodes reparou, nada disse. Acendeu-lho. - De que tipo de ajuda precisa, Sr. Douglas? Catherine olhou-o desamparada. - Não sei - sussurrou ela. - Não sei. - Sent-se doente? - Estou doente. Sinto que devo estar muito doente. Fiquei tão feia. - Sabia que não estava a chorar e no entanto as lágrimas corriam-lhe pelas faces abaixo. - A senhora bebe? - perguntou o médico mansamente. Catherine fitou em pânico, sentindose encurralada, atacada. - Às vezes. - Quanto? Respirou fundo. - Não muito. Depende. - Hoje já bebeu? - perguntou ele. - Não. Pôs-se a examiná-la. - A senhora não é nadafeia, sabe-disse elegentilmente. -Está com peso a mais, o seu corpo está inchado e não tem cuidado da pele nem do cabelo. Sob essa fachada, há uma mulher muito atraente. Caiu num pranto, e ele ficou a vê-la chorar. Vagamente acima do som dos seus soluços angustiados, Catherine ouviu a campainha da secretária dele tocar várias vezes, mas o médico ignorou-a. O ataque de choro por fim passou. Catherine tirou um lenço e assoou o nariz. - Desculpe-me - disse ela. - Pode ajudar-me? - Isso depende inteiramente de si - respondeu o Dr. Nikodes. Ainda não sabemosexactamente qual é o seu problema. - Olhe para mim - respondeu Catherine.


Ele abanou a cabeça. - Isso não é um problema, Sra. Douglas, mas um sintoma. Perdoe-me a brusquidão, mas se quer a minha ajuda devemos ser totalmente honestos um com o outro. Quando uma mulher nova e atraente se desleixa assim, é porque deve haver uma razão muito forte. O seu marido é vivo? - Aos feriados e fins-de-semana. Ele examinou-a. - Vive com ele? - Quando está em casa. - Qual é a profissão dele? - É o piloto pessoal de Constantin Demiris. - Viu a reacção no rosto dele, mas, se reagia ao nome de Demiris ou se sabia algo sobre o assunto, não percebeu. - Já ouviu falar do meu marido? - perguntou ela. - Não. - Mas podia estar a mentir. - Ama o seu marido, Sra. Douglas? Catherine abriu a boca para responder, mas deteve-se. Sabia que o que ia dizer era muito importante, não apenas para o médico mas para si própria. Sim, amava o marido, mas às vezes tinha-lhe tanta raiva que seria capaz de o matar, e sim, às vezes, rendia-se de tal forma à ternura que sentia por ele que seria capaz de morrer de boa vontade por ele; e que palavra resumiria tudo isso? Talvez fosse amor. - Sim, amo-o - disse ela. - E ele ama-a? Catherine pensou nas outras mulheres da vida de Larry e na infidelidade dele e pensou na desconhecida horrível que vira no espelho a noite passada, e não podia culpar Larry por não a desejar. Mas quem sabia o que acontecera primeiro? A mulher do espelho foi criada pela infidelidade dele ou a infidelidade dele criou a mulher do espelho? Deu-se conta de que as suas faces ficaram novamente humedecidas pelas lágrimas. Catherine abanou a cabeça sem saber o que dizer. - Eu... não sei. - Já alguma vez teve um esgotamento nervoso? Observou-o agora com um olhar cauteloso.


- Não. Acha que preciso de um? Ele não sorriu. Falava lentamente, escolhendo as palavras com cuidado. - O espírito humano é uma coisa delicada, Sra. Douglas. Tem uma capacidade de dor limitada, por isso a dor, quando se torna insuportável, procura refúgio em lugares recônditos do espírito que só agora estamos exactamente a começar a explorar. As suas emoções chegaram a um extremo. - Olhou para ela por um momento. - Fez muito bem em ter procurado ajuda. - Sei que estou um pouco nervosa - disse Catherine na defensiva. - Por isso é que eu bebo. Para descontrair. - Não - disse ele bruscamente. - A senhora bebe para não enfrentar. - Nikodes ergueu-se e aproximou-se dela. - Acho que existem muitas coisas que nós podemos fazer por si. Por nós incluo-me a mim e a si. Não será muito simples. - Diga-me o que preciso de fazer. - Para começar, vou mandá-la a uma clínicafazer um exame médico completo. Tenho a sensação de que não encontrarão basicamente nada de errado consigo. A seguir, vai parar de beber. Depois vai fazer uma dieta. Tudo bem até agora? Catherine hesitou, depois fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Vai inscrever-se num ginásio, onde fará exercícios regularmente para que o seu corpo volte a ser o que era. Conheço um excelente fisioterapeuta que lhe fará as massagens. Irá a um salão de beleza uma vez por semana. Tudo isto levará o seu tempo, Sra. Douglas. Não chegou a este ponto da noite para o dia, e não o mudará da noite para o dia. - Sorriu-lhe para lhe inspirar confiança. - Mas posso prometer-lhe que dentro de algums meses, até de semanas, começará a parecer e a sentir-se uma outra mulher. Quando se olhar no espelho, sentirá orgulho; e, quando o seu marido olhar para si, irá achá-la atraente. Catherine fitou-o, sentindo um alívio no coração. Foi como se lhe tivessem tirado um peso insuportável de dentro de si, como se de repente tivesse ganho uma nova oportunidade de viver. - É preciso que tenha perfeita consciência de que eu só lhe posso sugerir este programa dizia o médico. - Só a senhora o poderá cumprir. - Irei cumpri-lo - disse Catherine com fervor. - Prometo. - O mais difícil vai ser deixar de beber. - Não vai, não - disse Catherine. E ao dizê-lo sabia que era verdade. O médico acertara: andava a beber só para não enfrentar. Agora tinha um objectivo, um caminho. Ia


reconquistar Larry. - Não tocarei noutra gota - disse ela com firmeza. O médico viu a expressão do seu rosto e abanou a cabeça, satisfeito. - Acredito em si, Sra. Douglas. Catherine pôs-se de pé. Admirou-se com o corpo sem graça e deselegante que tinha, mas tudo isso iria mudar agora. -Acho melhorir-me embora já e começar a comprar roupas estreitas - sorriu e o médico escreveu algo num cartão. - É a morada da clínica. Estarão à sua espera. Voltarei a vê-laquando os seus exames ficarem prontos. Na rua, Catherine procurou um táxi, depois pensou: Nem pensar. Voujá começar a fazer exercícios para me ir habituando. Começou a andar. Passou por uma montra e parou para ver a sua imagem. Fora tão precipitada em culpar Larry pela desintegração do casamento sem nunca questionar que parte da culpa era sua. Por que quereria ele vir para casa e encontrar uma pessoa com o aspecto dela? Lenta e subtilmente, esta estranha instalara-se dentro de si sem que se tivesse apercebido. Gostava de saber quantos casamentos não tiveram fim semelhante, não com uma explosão, mas com uma lamúria, como dissera o grande T. S. Elliot. Bem, isso eram águas passadas. A partir de agora não olharia para trás, apenas olharia para frente em busca do futuro maravilhoso. Catherine chegara ao bairro chique de Salonika. Passava por um salão de beleza e num impulso repentino virou-se e entrou. A recepção era em mármore branco, grande e elegante. Uma recepcionista insolente olhou-a com um ar reprovador e disse: - Pois não, em que posso servi-la? - Quero fazer uma reserva para amanhã de manhã - disse Catherine. - Quero fazer tudo. Serviço completo. - O nome do melhor cabeleireiro salão veio-lhe de repente à ideia. Quero que seja Aleko a pentear-me. A mulher abanou a cabeça. - Posso fazer-lhe a reserva, mas terá de ser outra pessoa a penteá-la. - Ouça - disse Catherine num tom firme -, diga a Aleko que me faça o trabalho, ou espalho por toda a cidade de Atenas que sou cliente regular dele. Os olhos da mulher arregalaram-se, surpreeendida e chocada. - Vou... vou ver o que posso fazer - disse ela precipitadamente.- Esteja cá às dez da manhã.


- Obrigada - disse Catherine com um sorriso largo. - Cá estarei. - E saiu. À sua frente viu a pequena taberna com um letreiro na montra que dizia “MADAME PIRIS – CARTOMANTE”. Pareceu-lhe vagamente familiar e subitamente lembrou-se do dia em que o conde Pappas lhe contara uma história sobre Madame Piris. Tinha a ver com um polícia e um leão - mas não conseguia recordar-se dos pormenores. Catherine não acreditava em cartomantes e, no entanto, o impulso de entrar foi irresistível. Precisava de confiança, alguém que lhe confirmasse a sensação sobre o futuro novo e maravilhoso que tinha pela frente, que lhe dissesse que a vida ia ser novamente bela, que ia valer a pena voltar a viver. Abriu a porta e entrou. Por causa do sol brilhante, Catherine precisou de alguns momentospara se habituar à escuridão cavernosa da sala. Distinguiu um bar no canto e uma dúzia de mesas e cadeiras. Um criado com ar cansado aproximou-se dela e dirigiu-se-lhe em grego. - Não desejo beber nada, obrigada - disse Catherine. Gostou de ouvir a sua voz dizer as palavras e repetiu-as. -Não vou beber nada. Quero falar com madame Piris. Ela está? O criado apontou para uma mesa vazia ao fundo da sala, e Catherine foi até lá e sentou-se. Uns minutos depois, sentiu alguém a seu lado e olhou para cima. A mulher era incrivelmente velha e magra, vestida de negro, com um rosto que o tempo marcara com ângulos e planos. - Pediu para falar comigo? - O seu inglês era imperfeito. - Pedi, sim - disse Catherine. - Queria uma consulta, por favor. A mulher sentou-se e ergueu uma mão, e o empregado abeirou-se da mesa trazendo uma chávena de café puro e espesso numa pequena bandeja. Pousou-a à frente de Catherine. - Eu não quero - disse Catherine. - Eu... - Beba - disse Madame Piris. Catherine olhou-a surpreendida, depois pegou na chávena e sorveu um pouco de café. Era forte e amargo. Pousou a chávena. - Mais - disse a mulher. Catherine ia protestar, mas pensou: O que perdem com a cartomância, recuperam no café. Bebeu mais um gole. Era horrível. - Mais um bocado - disse Madame Piris. Catherine encolheu os ombros e deu um último gole. No fundo da chávenahavia qualquer coisa espessa eviscosa. Madame Piris fezum sinal afirmativo com a cabeça, estendeu a mão


e tirou a chávena Catherine. Olhou para o interior longamente, sem dizer nada. Cathrine sentiu-se uma idiota. Que faz uma rapariga simpática e inteligente como eu num lugar destes, a ver uma velha grega maluca olhar para dentro de uma chávena de café vazia? - A senhora vem de um lugar distante - disse a mulher repentinamente. - Em cheio - disse Catherine com petulância. Madame Piris olhou-a bem de frente, e havia algo no olhar da velha que arrepiou Catherine. - Volte para casa. Catherine engoliu em seco. - Eu... eu... estou em casa. - Volte para o sítio donde veio. - Refere-se à América? - Seja onde for. Vá-se embora daqui... depressa! - Porquê? - disse Catherine, invadida lentamente por uma sensação de medo. - Que se passa? A velha abanou a cabeça. A sua voz era ríspida, e tinha dificuldades em expressar se. - Cerca-a por toda a parte. - O quê? - Saia! - Havia uma urgência na voz da mulher, um som alto, agudo e penetrante como se fosse um animal em sofrimento. Catherine sentia o couro cabeludo arrepiar-se. - A senhora está a meter-me medo - gemeu ela. - Por favor, diga-me o que há de errado. A mulher abanava a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse fora de si. - Vá-se embora antes que isso a apanhe. Catherine sentiu um pânico crescer dentro de si. Respirava com dificuldade. - Antes que o quê me apanhe? O rosto da velha contorcia-se de dor e terror.


- A morte. Anda atrás de si. - E a mulher levantou-se e desapareceu no quarto dos fundos. Catherine deixou-se ali estar, com o coração a bater com força, as mãos a tremer, e ela apertou-as para que parassem. Cruzou o olhar com o do empregado e ia mandarvir uma bebida, mas deteve-se. Não ia permitir que uma mulher maluca estragasse o seu futuro brilhante. Respirou profundamente até se dominar, e após um longo tempo levantou-se, pegou na carteira e nas luvas e saiu da taberna. Cá fora, sob a luz de um sol ofuscantemente brilhante, Catherine sentiu-se novamente melhor. Fora idiota ao deixar-se amedrontar por uma velha. Um horror daqueles devia estar preso em vez de andar à solta a amedrontar as pessoas. A partir de hoje, disse Catherine a si própria, contentas-te com os bolinhos da sorte. Entrou no apartamento e olhou para a sala de estar, e foi como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Era um espectáculo desolador. O pó estava por toda a parte, e havia peças de roupa espalhadas por toda a sala. Catherine não queria acreditar que na tontura causada pelo álcool nem disso dera conta. Bem, a primeira tarefa que ia ter era pôr a casa num brinco. Ia para a cozinha quando ouviu uma gavetafechar-se no quarto. O coração deu um salto de apreensão repentina, e dirigiu-se cautelosamente para a porta do quarto. Larry estava no quarto. Havia uma mala fechada sobre a cama, e acabava de embalar uma segunda. Catherine ficou ali um momento, a observá-lo. - Se é para a Cruz Vermelha - disse ela -, eu já dei. Larry olhou para cima de relance. - Estou de saída. - Mais uma viagem para Demiris? - Não - disse ele sem parar -, esta é para mim. Vou-me embora desta casa. - Larry. - Não temos nada a dizer. Ela entrou no quarto, esforçando-se para se dominar. - Há, sim. Temos muito que conversar. Hoje fui ao médico, e ele disse-me que eu vou ficar boa. - As palavras saíam numa torrente. - Vou deixar de beber e... - Cathy, acabou-se. Quero o divórcio. As palavras atingiram-na como se lhe tivessem dado uma série de murros no estômago. Deixou-se estar, cerrando os dentes para não baterem, tentando vencer o vómito que sentia


na garganta. - Larry - disse ela, falando lentamente para que a voz não tremesse -, não te censuro pelo que sentes. Eu tenho muitas culpas... talvez a maior parte... mas vai ser diferente. Euvou mudar... mas vou mudar mesmo. -Estendeu a mão, como se suplicasse. - Só peço uma oportunidade. Larry virou o rosto, e os seus olhos escuros estavam frios e cheios de desprezo. - Estou apaixonado por outra mulher. Só quero que me dês o divórcio. Catherine deixou-se ali estar um longo momento, depois voltou-se, regressou à sala de estar e sentou-se no sofá, a passar os olhos por uma revista de moda grega enquanto ele acabava de fazer as malas. Ouviu a voz de Larry dizer: - O meu advogado entrará em contacto contigo -, ao que a seguiu uma pancada forte da porta. Catherine permaneceu sentada a virar cuidadosamente aspáginas da revista, e, quando acabou, arrumou-a no centro da mesa, para a casa de banho, abriu o armário dos medicamentos, tirou a lâmina e cortou os pulsos.

Atenas: 1946 19 Fantasmas de branco flutuavam em redor de Catherine e depois afastavam-se no espaço com leves murmúrios numa linguagem que não conseguia compreender, mas sabia que aquilo era o Inferno e que tinha de pagar pelos seus pecados. Tinham-na presa à cama, supondo ela que aquilo fazia parte do castigo, mas ainda bem que estava presa porque sentia a terra girar no espaço e tinha medo de poder cair do planeta. O mais diabólico que lhe fizeram foi exporem-lhe os nervos à superfície do corpo, o que lhe aumentou enormemente o sofrimento, duma forma insuportável. O corpo estava vivo e dele vinham barulhos aterradores e desconhecidos. Ouvia o sangue correr-lhe nas veias, e era como um rio vermelho e ruidoso movimentando-se dentro dela. Ouvia o bater do coração, cujas pancadas pareciam dadas por gigantes em tambores. Não tinha pálpebras e a luz branca entrava-lhe ajorros no cérebro, encandeando-a com o seu brilho. Todos os músculos do corpo estavam vivos, em movimento constante e incansável, como se fossem um ninho de víboras sob a pele, prontas a atacar. Cinco dias depois de Catherine ter entrado no Hospital Evangelismos, abriu os olhos e deu por si num pequeno quarto branco de hospital. Uma enfermeira num uniforme impecavelmente branco compunha-lhe a roupa da cama, e o Dr: Nikodes trazia o estetoscópio ao peito.


- Ai, isso é frio - protestou ela, debilmente. Olhou para ela e disse: - Ora, ora, vejam quem acordou. Catherine percorreu o quarto com um olhar lento. A luz parecianormal e já não ouvia o correr barulhento do sangue, nem o bater do coração ou a morte do corpo. - Pensei que estava no Inferno. - A sua voz era um sussurro. - E esteve. Olhou para os pulsos. Sem saber porquê, estavam ligados. - Há quanto tempo estou aqui? - Há cinco dias. De repente lembrou-se da razão das ligaduras. - Parece que fiz um disparate - disse ela. É verdade. Fechou os olhos com força e disse: - Perdão. E abriu-os, erajá noite, e Bill Fraser estava sentado numa cadeira perto da cama dela, observando-a. Havia flores e uma caixa de chocolates sobre a mesinha-de-cabeceira. - Olá - disse ele num tom alegre. - Estás com muito melhor aspecto. - Melhor em que sentido? -perguntou ela lentamente. Colocou a sua mão sobre a dela. Pregaste-me um susto tão grande, Catherine. - Lamento muito, Bill. -Engasgou-se, receando que ia começar a chorar. - Trouxe-te umas flores e uma caixa de chocolates. Quando te sentires mais forte, trago-te uns livros. Olhou para ele, para o rosto forte e meigo, e pensou: Por que razão não o amo? Por que estou apaixonada pelo homem que odeio? Por que é que Deus tem de ser como Groucho Marx?


- Como é que vim aqui parar? - perguntou Catherine. - De ambulância. - Sim... mas quem é que me encontrou? Fraser fez uma pausa. - Fui eu. Tentei telefonar-te várias vezes e como não respondias fiquei preocupado e arrombei a porta. - Suponho que é minha obrigação agradecer-te - disse ela. Mas, para te ser franca, aindanão tenho a certeza. - Queres falar sobre o assunto? Catherine abanou a cabeça, o que lhe causou um latejo. - Não - disse ela muito baixinho. Fraser deu um sinal de compreensão. - Parto de manhã para a América. Estarei em contacto. Sentiu um beijo na testa e fechou os olhos para se retirar do mundo e, quando voltou a abrilos, estava sozinha e era noite cerrada. Logo pela manhã seguinte Larry veio visitá-la. Catherine observou-o quando entrou noquarto e se sentou numa cadeira junto à cama. Esperara encontrá-lo abatido e infeliz, mas a verdade é que estava maravilhoso, elegante, bronzeado e descontraído. Catherine desejou desesperadamente ter podido pentear-se e pôr um pouco de bâton. - Como te sentes, Cathy? - perguntou ele. - Óptima. O suicídio estimula sempre. - Não esperavam que sobrevivesses. - Lamento ter-te desapontado. - Isso não é coisa que se diga. - Mas é verdade, não é, Larry? Ter-te-ias visto livre de mim. - Pelo amor de Deus, não me quero ver livre de ti dessa maneira, Catherine. Só quero o divórcio. Olhou para ele, para o homem bonito e bronzeado com quem se casara, o rosto agora um


pouco agastado, a boca um pouco mais desgraciosa, o encantojuvenil um pouco diminuído. A que se prendia ela? A sete anos de sonhos? Entregara-se-lhe com um amor e uma esperança de que não podia separar-se, não queria admitir ter cometido um erro que fizera da sua vida um campo estéril. Lembrou-se de Bill Fraser e dos amigos de Washington e dos bons tempos que passaram juntos. Não conseguia recordar-se da última vez em que dera uma gargalhada, ou mesmo sorrido. Mas nada disso tinha importância. Afinal, o que a impedia de deixar Larry partir era o amor que tinha por ele. Ele veio à procura de uma resposta. - Não - disse Catherine. - Nunca te darei o divórcio. Larry encontrou-se com Noelle nessa noite no mosteiro abandonado de Kaissariani situado nas montanhas e contou-lhe a conversa que teve com Catherine. Noelle escutou com atenção e disse: - Achas que mudará de ideias? Larry abanou a cabeça. - Catherine consegue ser mais teimosa que uma mula. - Tens de voltar a falar com ela. E Larry fê-lo. Nas três semanas que se seguiram esgotou todos os argumentos em que pôde pensar. Implorou, lisonjeou, enfureceu-se, ofereceu-lhe dinheiro, mas nada moveuCatherine. Ainda o amava e tinha a certeza de que se ele quisesse poderia voltar a amá-la. - És meu marido - disse ela teimosamente. - Vais ser meu marido até eu morrer. Ele repetiu a Noelle as palavras de Catherine. Noelle anuiu. - Está bem - disse ela. Larry olhou para ela, intrigado. - Está bem o quê? Estavam deitadosna praia da casa, sobre toalhas macias, que lhes protegia os corpos da areia quente. O céu era de um azul-profundo e ofuscante, com farrapos brancos de cirros que o manchavam. - Tens de te ver livre dela. - Pôs-se de pé e caminhou em passo largo e firme para casa, com as pernas longas e esbeltas movendo-se graciosamente na areia.


Larry deixou-se ficar, espantado, julgando tê-la entendido mal. Por certo não lhe dissera que ele matasse Catherine. Foi então que se lembrou de Helena. Jantavam no terraço. - Não entendes? Ela não merece viver - disse Noelle. - Só não te deixa porque é vingativa. Está a tentar dar cabo da tua vida, da nossa vida, querido. Estavam na cama a fumar, as cinzas brilhantes do que restava dos cigarros reflectiam-se na infinidade dos espelhos que cobriam o quarto. - Era um favor que lhe fazias. Já se tentou matar. Ela quer morrer. - Eu nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas, Noelle. - Não serias? Ela acariciou-lhe a perna nua, subindo suavemente até ao vestido, fazendo pequenoscírculos com as pontas dos dedos. - Eu ajudo-te. Ele ia abrir a boca para protestar, mas as duas mãos de Noelle já se haviam apossado dele, movendo-se em direcções opostas, uma suave e lentamente, a outra firme e rapidamente. E Larry gemeu e abraçou-a, afastando Catherine do pensamento. Acertahora da noite Larry acordou com suoresfrios. Sonhara que Noelle fugira, abandonando-o. Mas ela dormia a seu lado, e ele, depois de a tomar nos braços, apertou-a contra si. Ficou acordado o resto da noite, pensando no que seria dele se a perdesse. Não deu conta de que tomara uma decisão, mas de manhã, enquanto Noelle se preparava paratomar o pequeno- almoço, Larry disse repentinamente: - E se formos apanhados? - Se formos inteligentes, ninguém nos apanha. - Se ficou satisfeita com a capitulação dele, não o deu a entender. - Noelle - disse ele com veemência -, não há coscuvilheiro em Atenas que não saiba que eu e Catherine não nos damos bem. Se lhe acontecesse alguma coisa, a polícia ficaria mais que desconfiada. - Claro que ficaria-concordou Noelle calmamente. -É por isso que teremos de planejar tudo com muito cuidado. Ela serviu a refeição de ambos e sentou-se para começar a comer. Larry afastou o prato para o lado, sem ter tocado na comida.


- Não está bom? - perguntou Noelle, preocupada. Fitava-a, tentando saber que género de pessoa seria ela, capaz de saborear uma refeição enquanto planejava a morte duma outramulher. Maistarde, enquantovelejavam, voltaramafalarsobreoassunto, e quanto mais falavam mais verdadeiro se afigurava, e o que começara como uma ideia sem importância tornara-se um facto consumado. - Tem de parecer um acidente - disse Noelle -, para que não haja investigações. A polícia de Atenas é muito esperta. - E se houver investigações? - Não vai haver. O acidente não irá dar-se aqui. - Então onde? - Jânina. Debruçou-se e começou a falar. Escutou-a enquanto ela entrava em pormenores sobre o plano, rebatendo todas as objecções que ele levantava, improvisando com brilho. No fim, quando Noelle terminou, Larry teve de admitir que o plano era perfeito. Sairiam perfeitamente ilibados.

Paul Metaxas estava nervoso. O rosto geralmente alegre do piloto grego estava contraído e tenso, e ele sentia um tique nervoso repuxar-lhe o canto da boca. Não marcara entrevista com Constantin Demiris, e ninguém entrava sem avisar para falar com o patrão, masMetaxas dissera ao mordomo que era urgente, e pouco depois Paul Metaxas deu por si no átrio enorme da vivenda de Demiris, fitando-o e gaguejando atrapalhado: - Peço imensas desculpas por estar a incomodá-lo, Sr. Demiris. - Metaxas sub-repticiamente enxugou a palma da mão nas calças da farda de voo. - Aconteceu alguma coisa com um dos meus aviões? - Oh, não. Eu... é... é um assunto pessoal. Demiris examinou-o sem interesse. Tinha como regra nunca envolver-se nos assuntos dos seus subalternos. Tinha secretárias para se ocuparem desses assuntos. Esperou que Metaxasprosseguisse. A cada segundo, Paul Metaxas ia ficando mais nervoso. Passara muitas noites sem dormirantes de tomar a decisão que o trouxera aqui. O que fazia agora era contra a sua


maneira de ser e, portanto, repugnante, mas era um homem de grande lealdade, e o seu primeirocompromisso de fidelidade era para com Constantin Demiris. - E sobre Miss Page - disse ele, por fim. Seguiu-se um momento de silêncio. - Entre para aqui -disse Demiris. Conduziu o piloto até à biblioteca almofadada e fechou asportas. Demiris tirou um cigarro egípcio achatado de uma cigarreira de platina e acendeuo. Ergueu o olhar para Metaxas, que transpirava. - que se passa com Miss Page? Perguntou, quase distraidamente. Metaxas engoliu em seco, duvidando se cometera um erro. Se avaliara correctamente a situação, a sua informação seria apreciada, mas se errara... Amaldiçoou-se pela imprudência de ter vindo aqui, mas agora só lhe restava atirar-se de cabeça. - É... é sobre ela e Larry Douglas. - Observou a face de Demiris, tentando ler a expressão dele. Não havia sequer o mínimo de interesse. Caramba! Metaxas esforçou-se para prosseguir, gaguejando. Estão a viver juntos numa casa de praia em Rafina. Demiris deitou a cinza do cigarro num cinzeiro de ouro em forma de cúpula. Metaxas teve a sensação de que ia ser despedido, de que cometera um erro crasso e que isso ia custar-lhe o emprego. Tinha de convencer Demiris de que estava a dizer a verdade. Começou a deixarescapar as palavras. - A minha... a minha irmã é governanta numa das vivendas ao lado. Vê-os semprejuntos na praia. Reconheceu Miss Page pelas fotografias dosjornais, mas só aqui há duas semanas é que deu importância ao caso quando foi até ao aeroporto parajantar comigo. Apresentei-a a Larry Douglas e... bem, ela disse-me que era o homem com quem Miss Page vive. Os olhos cor de azeitonafitaram-no, completamente vazios de expressão. - Apenas julguei que o senhor quisesse saber - terminou Metaxas de uma forma poucoconvincente. Quando Demiris falou, a sua voz era apática. - O que Miss Page faz com a sua vida privada só a ela diz respeito. Tenho a certeza de que não gostaria de ser espiada por ninguém. A testa de Metaxas estava coalhada de suor. Meu Deus, ele interpretara tudo ao contrário. E quisera apenas ser leal.


- Creia-me, Sr. Demiris, eu apenas quis... - Estou certo de que pensou estar a servir os meus melhores interesses. Enganou-se. Maisalguma coisa? - Não, não. - Metaxas voltou-se e desapareceu. Constantin Demiris recostou-se na cadeira, com os olhos fixos no tecto, a olhar a para ovazio. Às nove horas da manhã seguinte, Paul Metaxas recebeu ordens para se apresentar nacompanhia mineira de Demiris no Congo, onde Metaxas devia passar dez dias a transportar equipamento de Brazzaville para a mina. Numa quarta-feira de manhã, durante o terceirovoo, o avião despenhou-se na selva verde e densa. Nunca se encontraram vestígios do corpo de Metaxas ou do avião sinistrado. Duas semanas depois de Catherine ter tido alta, Larry foi visitá-la. Era um sábado à tarde, e Catherine estava na cozinha a fazeruma omelete. O barulho do óleo impediu-a de ouvir a porta da frente abrir, e só se deu conta da presença de Larry quando se virou e o viu na ombreira da porta. Assustou-se sem querer, e ele disse: - Desculpa se te assustei. Passei por aqui só para ver como é que estavas. Catherine sentiu o coração a bater mais depressa e sentiu raiva de si própria por ainda se deixar afectar por ele daquela maneira. - Estou óptima - disse ela. Virou-se e tirou a omelete da frigideira. - Cheira bem - disse Larry. - Não tive tempo para jantar. Se não for muita maçada, fazes-me uma para mim assim? Olhou-o durante um longo momento, encolhendo depois os ombros. Fez-lhe o jantar, mas estava tão enervada com a presença dele que não conseguia tocar emnada. Larry conversava com ela, falando-lhe da viagem que acabava de fazer e de um episódio engraçado que se passara com um amigo de Demiris. Era o Larry de sempre, carinhoso, encantador e irresistível como se nada tivesse corrido mal entre eles, como senão tivesse escaqueirado a vida dos dois. Depois do jantar, Larry ajudou Catherine a lavar e a limpar a louça. Ficou ao lado dela no lava-louça, e a sua proximidade perturbava-a fisicamente. Havia quanto tempo? Era insuportável pensar no assunto. - Gostei muito - disse Larry, com aquele seu sorriso de rapaz sempre nos lábios. Obrigado, Cathy.


E as coisas, pensou Catherine, iam ficar por aí. Três dias depois, o telefone tocou e era Larry que falava de Mai a dizer que ia regressar a Atenas e a convidá-la parajantar fora com ele nessa noite. Catherine fincou a mão no telefone, escutando a voz simpática e afável, determinada a não ir. - Posso jantar fora esta noite - disse ela. Jantaram no Tourkolimano no porto de Pireu. Catherine mal conseguiu tocar na comida. Estar na companhia de Larry era uma herança demasiado dolorosa de outros restaurantes onde haviam estado, das muitas noites excitantes que estiveram juntos no passadolongínquo, do amor que com eles viveria uma vida inteira. - Não estás a comer, Cathy. Queres que peça outra coisa para ti?- perguntou ele, preocupado. - Almocei tarde - mentiu ela. Não deve convidar-me outra vez para jantar fora, pensou Catherine, mas se o fizer digo que não. Passados uns dias, Larry telefonou e almoçaram num restaurante encantador situado num labirinto escondido perto da Praça Syntagma. Chamava-se Gerofinikas, a Palmeira Velha, e só se chegava lá por um caminho frio onde ao fundo havia uma palmeira. Tomaram uma excelente refeição, com Hymettus, o vinho grego leve e seco. Larry estava muito divertido. No domingo seguinte pediu a Catherine que fosse a Viena com ele. Jantaram no Hotel Sacher e regressaram nesse mesmo dia. Fora uma noite maravilhosa, cheia de vinho, música, velas, mas Catherine teve a sensação esquisita de que nada daquilo lhe pertencia a ela. Pertencia à outra Catherine Douglas, há muito morta e enterrada. Quando regressaram ao apartamento, ela disse: - Obrigada, Larry, foi um dia maravilhoso. Aproximou-se dela, abraçou-a e ia para beijá-la. Catherine recuou, tensa, a mente invadida por um pânico repentino e inesperado. - Não - disse ela. - Cathy. - Não! Ele abanou a cabeça. - Está bem. Eu entendo.


O corpo dela tremia. - Entendes? - perguntou ela. - Sei que me comportei muito mal - disse Larry suavemente. Se me deres umaoportunidade, mostrarei o meu arrependimento, Cathy. Santo Deus, pensou ela. Apertou os lábios, esforçando-se para não chorar e sacudiu acabeça, os olhos brilhantes com lágrimas contidas. - É tarde de mais - murmurou. E ficou a vê-lo sair a porta. Catherine voltou a ter notícias de Larry naquela semana. Mandava-lhe flores com bilhetinhos e, depois disso, pássaros emminiatura de vários países aonde ia. Era óbvio que não se poupara a esforços, pois haviauma variedade espantosa, um de porcelana, outro de madeira de teca, e elaficousensiblizada pelo facto de ele se ter lembrado. Quando um dia o telefone tocou e Catherine ouviu a voz de Larry no outro lado a dizer: Sabes, descobri um restaurante grego maravilhoso que serve a melhor comida chinesa neste lado de Pequim, ela riu-se e disse: - Vamos lá já. E foi aí que tudo realmente recomeçou. Devagar, por tentativas e com hesitações, mas foium começo. Larry não tentou beijá-la novamente, nem ela o teria deixado, porqueCatherine sabia que se se deixasse levar pelas emoções, se se entregasse totalmente a este homem que amava e ele a traísse, isso a deixaria destruída. Definitivamente e para sempre. E assimjantava e divertia-se com ele, mas em todo o tempo o seu íntimo secreto e pessoal manteve-se reservado, cautelosamente distante, intocado e intocável. Estavam juntos quase todas as noites. Às vezes Catherine cozinhava em casa, outras Larry levava-a a comer fora. Certa vez ela referiu-se à mulher por quem ele dissera estar apaixonado, e ele respondeu peremptoriamente: - Acabou. - E Catherine não voltou a falar do assunto. Esteve atenta a sinais que lhe dissessem se Larry andava com outras mulheres, mas não encontrou nenhum. Só tinhaatenção para ela, sem pressões ou exigências. Era como se cumprisse penitência pelo que fizera no passado. E, no entanto Catherine admitia que ha mais alguma coisa. Parecia realmente interessado nela como mulher: À noite costumava pôr-se àfrente do espelho, nua, a examinar a imagem reflectida e a tentar entender porquê. O rosto estava assimassim, pois era a face duma rapariga outrora bonita que sofrera a dor manifestada na tristeza dos olhos cinzentos que a fitavam. A pele estava um pouco inchada e o queixo estava mais pesado do que dantes.Mas o que havia de errado com o resto do corpo seria facilmente dado com uma dieta e uma massagem. Lembrou-se da última vez e que pensara fazer isso e acabara com os pulsos cortados. Sentiu arrepio. Larry que fosse para o Inferno, pensou ela desafiadoramente. “Se realmente me deseja, terá de me aceitar como sou.”


Foram a uma festa e Larry trouxera-a para casa às quatro da manhã. A noite tinha sido maravilhosa, e Catherine esteve muito atraente no seu novo vestido e divertira as pessoas, e Larry sente- se orgulhoso dela. Quando entraram no apartamento, Catherine ia acender a luz e Larry pôs a mão sobre a dela e disse:

- Espera. O que eu tenho para dizer custa-me menos dizê-lo às escuras. -O corpo dele estavajunto ao dela, sem a tocar, mas Catherine sentia as ondas físicas que a atingiam. Amo-te, Cathy - disse ele. - Nunca amei mais ninguém. Quero outra oportunidade. Acendeu a luz então para olhá-la. Ali estava, tensa e assustada, à beira do pânico. - Sei que podes ainda não estar preparada, mas podíamos começar aos poucos. - Ele sorriu. Aquele sorriso querido de menino. Podíamos começar por dar as mãos. Tomou a mão dela. E ela abraçou-o, e estavam a beijar-se e os lábios dele eram meigos, ternos e delicados, e os dela eram vorazes e furiosos com toda a ansiedade que estivera presa no seu corpo duranteestes longos e solitários meses. E estavam juntos na cama, amando-se como se o tempo não tivesse passado e estivessem em lua de-mel. Mas era mais do que isso. A paixão ainda ardia, renovada e maravilhosa, mas também reforçada pelo que tinham passado juntos, a certeza de que agora tudo correria bem, de que não fariam mal um ao outro. - Gostavas de ter uma segunda lua-de-mel? - perguntou-lhe Larry. - Oh, sim, meu amor. Podemos? - Claro, vou ter umas férias. Partiremos no sábado. Conheço um sítio maravilhoso para onde podemos ir. Chama-se Jânina.

Atenas: 1946 20 A viagem até Jânina demorou nove horas. Para Catherine, a paisagem parecia quase bíblica, qualquer coisa de outra era. Viajaram ao longo do mar Egeu, por casas de campo caiadas com cruzes nos telhados e campos a perder de vista cheios de árvores de fruto: limoeiros, cerejeiras, macieiras e laranjeiras. Cada centímetro de terra estava tratado e cultivado, e as janelas e os telhados das casas das quintas estavam pintados de um azul-alegre como se desafiassem a vida dura que era arrancada ao solo de pedra. Plantações de ciprestes altos e graciosos cresciam em profusão nas encostas íngremes das serras.


- Olha, Larry - exclamou Catherine -, não são belos? - Para os Gregos, não - disse Larry. Catherine olhou para ele. - Que queres dizer com isso? - Para eles são de mau agouro. Usam-nos na decoração de cemitérios. Passaram por campos sucessivos onde se viam espantalhos primitivos, com um trapo atado à vedação. - Por certo deve haver corvos ingénuos por aqui - disse Catherine na brincadeira. Atravessaram uma série de aldeiazitas com nomes impossíveis: Mesologian e Agelkastron, Etolikon e Amfilhoia. Ao fim da tarde chegaram à vilade Rion, que descia suavemente até ao rio, onde apanhariam o barco para Jânina. Cinco minutos depois navegavam em direcção à ilha de Épiro, onde se situava Jânina. Catherine e Larry sentaram-se num banco cá fora, no convéssuperior do barco, donde avistavam uma ilha enorme que se avultava na névoa vespertina à distância. Catherine achou-a selvagem e decerta forma um tanto luminosa. Tinha um aspecto primitivo como sefora obra dos deuses gregos, e os meros mortais não mais do que intrusos indesejáveis. Amedida que o barco se aproximava, Catherineviu que um anel de rochas separava a base dailha do mar. No ponto onde o homem escavara uma estrada o monte mostravaseameaçador. Vinte e cinco minutos mais tarde o barco atracava no pequenocais de Épiro, euns momentos depois Catherine e Larry subiam amontanha rumo a Jânina. Catherine lia o guia a Larry. - Aninhada no alto dos montes Pindos, numa concavidade escarpada rodeada pelos Alpes altaneiros, Jânina assume de longe aforma duma águia bicéfala, tendo nas garras o lagoPamvotis semfundo, donde os barcos de excursão levam os passageiros para aságuasverde-escuras da ilha situada no centro do lago e depois paraas praias distantes do outrolado do lago. - Parece perfeita - disse Larry. Chegaram ao fim da tarde e seguiram directamente para o hotel,um edifício de um pisomuito bem conservado, situado no alto dumacolina que dominava a cidade e onde oshóspedes se alojavam emapartamentos térreos espalhados pelos jardins. Um homem idosoveio recebê-los, no seu uniforme. Olhou para os rostos felizes. - Estão em lua-de-mel - disse ele.


Catherine olhou de relance para Larry e sorriu. - Como é que adivinhou? - Vê-se logo - declarou o velho. Conduziu-os ao átrio onde procederam ao registo, levando-os emseguida para oapartamento. Tinha sala, quarto, casa de banho, cozinha e um terraço enorme. Sobre ascopas dos ciprestes tinham umavista magnífica da aldeia e do lago, ao fundo, escuro e comar de quemmedita. Tinha a beleza irreal da beleza dum cartão postal. - Não é nada de especial - disse Larry -, mas é nosso. - Fico com ele - exclamou Catherine. - Feliz? Concordou com a cabeça. - Não me lembro de ter sido tão feliz. - Aproximou-se dele eabraçou com força. – Nuncame abandones - sussurrou ela. Os seus braços fortes envolveram-na, apertando-a. - Nunca - prometeu ele. Enquanto Catherine desfazia as malas, Larry voltou ao salão para falar com o empregadode quartos. - Que se pode fazer por estas bandas? - perguntou Larry. - Tudo - disse o empregado com orgulho. -No hotel temos uma estação termal. Nosarredores da vila pode-se passear, pescar, nadar e andar de barco. - Qual é a profundidade do lago? -perguntou Larry num tom informal. O empregado encolheu os ombros. - Ninguém sabe. É um lago vulcânico. Não tem fundo. Larry abanou a cabeçapensativamente. - E as grutas perto daqui? - perguntou ele. - Ah! As grutas de Perama. Ficam apenas a alguns quilómetros daqui. - Já foram exploradas?


- Algumas já. As outras ainda estão fechadas. - Entendo - disse Larry. O empregado prosseguiu. - Se gosta de escalar montanhas sugiro o monte Tzoumerka. Se a Sra.Douglas não temmedo de alturas. - Não tem, não - sorriu Larry. - É uma alpinista de primeira - Então irá gostar. O tempo está do vosso lado. Estávamos à espera do meltemi, mas nãochegou. Agora já não deve vir. - Que é o meltemi? - perguntou Larry. - E um vento medonho que sopra do norte. Parece um furacão quando aparece, toda a gente se mete dentro de casa. Em Atenas, os transatlânticos ficam proibidos de deixar o porto. - Ainda bem que não o apanhámos - disse Larry. Quando Larry regressou ao apartamento, sugeriu a Cathi que fossemjantar à vila. Tomaram o caminho íngreme e rochoso ia dar à entrada da vila. Jânina tinha uma rua principal, aAvenida do Rei Jorge, e umas três ruas menos importantes de cada lado. Nessas ruas, havia uma quantidade de pequenas estradas que davam acesso a casas e prédios. Os edifícioseram velhos e gastos pelo tempo, feitos de pedra transportada dos montes em caças. O meio da Avenida do Rei Jorge era dividido por cordas, paraque os carros usassem o ladoesquerdo da rua e os peões tivessem espaço para caminhar no lado direito. - Deviam experimentar isto na Avenida da Pensilvânia - disse Catherine. Na praça da cidade havia um parquezinho encantador com uma torre alta que tinha um enorme relógio iluminado. Uma rua ladeada de plátanos desembocava no lago. Pareceu a Catherine que todas as ruas acabavam na água. Sentiu que o lago tinha um ar assustador. Parecia estranho e pensativo. Ao longo das praias cresciam tufos de juncos altos que se estendiam como dedos vorazes, como se estivessem à espera de alguém. Catherine e Larry percorreram o pequeno e colorido centro de comércio, com as lojas de ambos os lados cheias de gente. Havia uma joalharia, uma taberna, uma sapataria. Havia crianças no exterior duma barbearia, que observavam em silêncio um cliente que fazia a barba. Catherine achou que nunca vira crianças tão belas. Antes, Catherine falara a Larry em ter um filho, mas ele afastara sempre a ideia, alegandonão estar ainda preparado para assentar. Agora, contudo, talvez pensasse de maneiradiferente. Catherine olhou de relance enquanto caminhava a seu lado, mais alto do que osoutros homens, parecendo um deus grego, e decidiu que voltaria ao assunto antes


departirem. Afinal de contas, estavam em lua-de-mel. Passaram por um cinema, o Paládio. Estavam em exibição dois velhíssimos filmes americanos. Pararam para ver os cartazes. - Estamos com sorte - gracejou Catherine. -A Sul do Panamá, com Roger Pryor e VirginiaVale, e O Senhor Procurador-Geral e o Caso Carter. - Nunca ouvi falar - troçou Larry. - Este cinema deve ser mais antigo do que parece. Comeram ousinha na praça, ao ar livre e sob uma enorme lua cheia, incrível, e depois regressaram ao hotel e amaram-se. Fora um dia perfeito. De manhã Catherine e Larry passearam de carro pelo campo, explorando a estrada estreitaque serpenteava ao longo do lago, percorrendo a costa rochosa por alguns quilómetros e tecendo um regresso ébrio até às colinas. Havia casas de pedra empoleiradas à beira das encostas íngremes. Muito acima da costa, metido entre os bosques, deparou-selhes num relance um edifício enorme caiado que parecia um castelo antigo. - Que é aquilo? - perguntou Catherine. - Não faço ideia - disse Larry. - Vamos ver o que é. - Está bem. Larry meteu o carro na estrada de terra que ia dar ao edifício, através de um prado,passando por umas cabras que pastavam e um pastor que os fitou quando passaram por ele. Pararam defronte da entrada abandonada do edifício. De perto parecia uma velha fortaleza em ruínas. - Deve ser o que sobrou do castelo dum ogre - disse Catherine. - Talvez dos Irmãos Grimm. - Queres realmente saber? - perguntou Larry. - Claro. Podemos estar mesmo a tempo de salvar uma donzelaemtenpo. Larry deu a Catherine um olhar rápido e estranho. Saíram do carro e caminharam até àporta de madeira maciça com uma aldraba enorme de ferro ao centro. Larry bateu-a váriasvezes e aguardaram. Só se ouviam os zunidos de insectos de Verão no prado e o sussurrodabrisa na erva. - Parece que não está ninguém em casa - disse Larry.


- Devem estar a desembaraçar-se dos corpos - murmurou Catherine. De repente, a porta enorme começou a ranger e abrir-se lentamente. Uma freira toda vestida de preto apareceu-lhes pela frente. Catherine foi apanhada desprevenida. - D... Desculpe - disse ela. - Não sabíamos que lugar era este. Não há qualquer tabuleta nem nada. A freira olhou os dois por um momento, fazendo depois um gesto para que entrassem. Atravessaram a ombreira da porta e viramnum pátio grande que era o centro dumcomplexo. Havia uma atmosfera estranhamente calma, e Catherine de repente sentiu o que escutava: o som de vozes humanas. Virou-se para a Irmã e disse: - Que lugar é este? A Irmã abanou a cabeça em silêncio e fez-lhes sinal para que esperassem ali. Viram-na dirigir-se para um velho edifício de pedra ao fundo do complexo. - Foi buscar Bela Lugosi - sussurrou Catherine. Para lá do edifício, na direcção de um promontório que se erguiaacima do nível do mar, podiam avistar um cemitério enquadradopor filas de altos ciprestes. - Este lugar dá-me arrepios - disse Larry. - É como se tivéssemos entrado noutro país - respondeu Catherine. Sem darem conta disso, falavam em voz baixa, como se tivessem receio de perturbar o silêncio pesado. Através da janela do edifício principal viam rostos curiosos que os fitavamdo interior, todos vestidos de negro. - Deve ser um manicómio religioso - concluiu Larry. Uma mulher alta e magra surgiu doedifício e pôs-se a caminhar animadamente em direcçãoa eles. Usava um hábito de freira e tinha um rosto agradável e amigo. - Sou a Irmã Teresa - disse ela. - Posso ajudá-los? - Estávamos apenas de passagem -disse Catherine -, e este lugar despertou a nossa curiosidade. - Olhou para os rostos furtivos das janelas. - Não era nossa intenção perturbálas. - Não são muitas as pessoas que nos dão a honra da sua visitadisse a Irmã Teresa. – Quasenão temos contacto com o mundo exterior. Pertencemos à Ordem das Irmãs


Carmelitas. Fizemos voto de silêncio. - Por quanto tempo? - perguntou Larry. - Giapanta. Para o resto da vida. Aqui só eu poderei falar e apenas quando é necessário. Catherine contemplou o pátio grande e silencioso e reprimiu um arrepio. - Nunca ninguém sai daqui? A Irmã Teresa sorriu. - Não. Não há razão para isso. A nossa vida é dentro destas paredes. - Perdoe-nos o incómodo - disse Catherine. A Irmã fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Não têm de quê. Que Deus vos acompanhe. Assim que Catherine e Larry saíram, o enorme portão fechou-se lentamente atrás deles. Catherine virou-se para olhar. Parecia uma prisão, mas, de certa forma, pior que as outras. Talvez porque fosse uma penitência voluntária, um desperdício, e Catherine pensou nas raparigas que vira à janela, enclausuradas, isoladas do mundo para o resto da vida, vivendono silêncio permanente e profundo da sepultura. Sabia que nunca se esqueceria deste lugar.

Atenas: 1946 21 Logo pela manhã do dia seguinte Larry desceu à vila. Pediu aCatherine que oacompanhasse, mas ela recusou, dizendo-lhe quequeria ficar a dormir até tarde. Assim queele saiu, Catherine levantou-se, vestiu-se à pressa e foi até ao ginásio do hotel quedescobrira na véspera. A instrutora, uma amazona grega, mandou-a despir-se, examinando depois o corpo dela criticamente. - Tem sido muito, muito desleixada - ralhou ela com Catherine. -Já teve um belo corpo. Seestá disposta a trabalhar seriamente, Theo Thellondos, se Deus quiser, poderá reavê-lo. - Estou disposta - disse Catherine. - Vamos ver como é que Deus o faz.


Sob a tutela da amazona, Catherine fazia ginástica todos os dias,passando pela agonia dasmassagens em todo o corpo, uma dieta espartana e exercícios estafantes. Escondeu tudo istode Larry, mas aofim do quarto dia a transformação que nela se operara era bastante notávelpara ele fazer um comentário. - Este lugar realmente diz contigo - disse ele. - pareces outra mulher. - Sou uma mulher diferente - respondeu Catherine, subitamente acanhada. No domingo de manhã Catherine foi à igreja. Nunca assistira auma missa ortodoxa grega. Numa vila tão pequena como Jânina, esperara encontrar uma pequena igreja de campo, maspara sua surpresa entrou numa igreja enorme e ricamente decorada, com belas ecomplicadas gravuras no tecto e nas paredes e um chão de mármore. Frente ao altar havia uma dúzia de enormes candelabros de prata, epor todo o templo havia afrescos de cenas bíblicas. O padre era magro e moreno, com barba negra. Usava uma batina primorosa dourada e vermelha e um chapéu alto e preto, e sentava-se naquilo que pareceu a Catherine ser uma cadeirinha, sobre um estrado alçado. Ao longo da parede havia bancos de madeira individuais e ao lado uma fila de cadeiras de madeira. Os homens sentavam-se à frente e as mulheres na retaguarda. Parece que os homens chegam primeiro ao Paraíso, pensou Catherine. Ouviu-se o entoar dum cântico em grego, e o padre desceu do estrado e dirigiu-se para o altar. Uma cortina vermelha abriu-se, surgindo um patriarca de barba branca, ricamente vestido. Numa mesa à sua frente encontrava-se um chapéu simbólico coberto de jóias euma cruz de ouro. O homem idoso acendeu três velas, que representavam, supôs Catherine, a Santíssima trindade, e entregou-as ao padre. Amissa durou umahora, e Catherine deixou-se estar, desfrutando o que via e ouvia, pensando na sorte que tinha, e fez uma vénia, orando depois em gratidão. Na manhã seguinte Catherine e Larry tomavam o pequeno-almoço no terraço doapartamento que dava para o lago. Estava um dia perfeito. O sol brilhava, e uma brisaindolente soprava da água. A comida fora trazida por um criadojovem e simpático. Catherine estava de combinação, e, quando o criado entrou, Larry abraçara Catherine ebeijara-a no pescoço. - Que noite - murmurara Larry. O criado abafara um sorriso e retirara-se discretamente. Catherine ficara um tantoembaraçada. Larry não era muito dado a intimidades diante de estranhos. Estava mesmomudado, pensou Catherine. Parecia que, quando uma criada ou um paquete entravam noquarto, Larry abraçava Catherine e lhe mostrava o seu carinho, como se quisesse que omundo inteiro soubesse o quanto a amava. Catherine achou isso muito comovente.


- Tenho excelentes planos para esta manhã-disse Larry. Apontou para este, onde se podia ver um pico gigantesco que se elevava em direcção ao céu. - Vamos escalar o monteTzoumerka. - Tenho uma regra - declarou Catherine. - Nunca escalar um sítio cujo nome não seisoletrar. - Anda lá, dizem que lá de cima se tem uma vista fantástica. Catherine viu que Larry falava a sério. Olhou de novo para o monte. Parecia subir sempre a direito. - Escalar não é das melhores coisas que eu faço, querido - disse ela. - É um passeio fácil. Há caminhos até lá cima. - Ele hesitou. Se não queres ir comigo, posso ir sozinho. - Havia um desapontamento profundo na sua voz. Seria tão simples dizer não, tão simples ficar ali e desfrutar o dia. A tentação foi quaseirresistível. Mas Larry queria que ela o acompanhasse. Para Catherine isso bastava. - Está bem. Vou ver se arranjo um chapéu de alpinista – disseela. Larry sentiu um alívio tão grande que Catherine ficou feliz por ter decidido ir. Além disso,poderia ser interessante. Nunca antes escalara um monte. Foram até um prado no extremo da vila, onde começava o caminho para o monte, earrumaram o carro. Havia uma barraca de comidajunto à estrada, e Larry comprou unssanduíches, fruta, barras de chocolate e um termo enorme de café. - Se lá em cima estiver agradável - disse ele ao dono -, eu e a minha noiva talvez queiramos passar a noite. - Deu um abraço a Catherine, e o proprietário sorriu. Catherine e Larry caminharam até ao início do caminho. Na realidade, havia dois caminhos, que bifurcavam em direcções opostas. Catherine reconheceu que a escalada seria fácil. Os carreiros pareciam largos e não muito íngremes. Quando virou a cabeça para contemplar o cimo da montanha, o mesmo pareceu-lhe sinistro e ameaçador, mas eles também não iriam até ao topo. Subiriam um pouco e fariam um piquenique. - Por aqui - disse Larry, e conduziu Catherine na direcção do carreiro do lado esquerdo. Quando começaram a subir, o proprietário grego observou-os com preocupação. Correria atrás deles e dizer-lhes que se tinham enganado no caminho? Aquele por onde seguiam eraperigoso, destinado apenas a montanhistas experimentados. Nesse momento, chegaram unsclientes e o dono da venda esqueceu os dois americanos. O Sol estava quente, mas, à medida que subiam, a brisa era cada vez mais fresca, eCatherine pensou que as duas sensações eram uma combinação deliciosa. O dia estava lindo, e ela seguia na companhia do homem que amava. De vez em quando, Catherine olhava de relance para baixo e surpreendia-se com a altura a quejá se encontravam. O ar parecia cada vez mais rarefeito, e estava a tornar-se mais difícil respirar. Seguia atrás de


Larry, pois o carreiro era estreito de mais para deixá-los caminhar lado a lado. Queria saber quando iriam parar e fazer o piquenique. Larry apercebeu-se de que Catherine caminhava com dificuldade atrás e parou para esperar por ela. - Desculpa - arfou Catherine. - A altitude está a afectar-me. - Olhou para baixo. - Vamos demorar a descer. - Não, não vamos - respondeu Larry. Virou-se e retomou a escalada pelo caminho estreito. Catherine olhou, suspirou e tenazmente prosseguiu a marcha. - Devia ter-me casado com um jogador de xadrez - disse-lhe ela. Larry não respondeu. Chegaram a uma curva apertada que surgiu subitamente, e à frente viram uma pequena ponte de madeira com uma única corda a servir de corrimão que fora construída sobre umprecipício fundo. A ponte oscilava com o vento e não parecia suficientemente segura para aguentar o peso duma pessoa. Larry pôs um pé numa das travessas apodrecidas, que começou a dar de si com o peso dele, e depois parou. O precipício tinha cerca de trezentosmetros. Larry começou a atravessar, estudando cuidadosamente cada passo, e ouviu a vozde Catherine - Larry! Virou-se. Ela chegara ao início da ponte. - Não vamos atravessar isto, vamos? -perguntou Catherine. Isto nem com um gato aguenta! - Temos de atravessar, a não ser que consigas voar. - Mas não parece segura. - Há a quem a transponha todos os dias. Larry virou-se e começou a atravessá-la outra vez, deixando Catherine no início da ponte. Catherine pôs um pé na ponte, que começou a vibrar. Olhou para o precipício, e o medo começou a invadi-la. A aventura deixou de ter graça; era perigosa. Catherine olhou em frente e viu que Larryjá estava quase na outra ponta. Cerrou os dentes, agarrou a corda e começou a atravessar, com a ponte a oscilar a cada passo seu. No outro ladoLarry virara-se para observá-la. Catherine avançava lentamente, mantendo uma mão agarrada à corda,


tentando não olhar para o abismo lá em baixo. Larry podia ver o medo estampado no seu rosto. Quando Catherine chegou ao lado de Larry, tremia por causa do medo, ou por causa do vento frio que começava a assolar os cumes dos montes cobertos de neve. Catherine disse: - Acho que não nasci para alpinista. Podemos descer agora, querido? Larry olhou para ela surpreso. - Ainda nem vimos o panorama, Cathy. - Já vi que chegue para o resto da vida. Abraçou-a. - Vou dizer-te uma coisa - sorriu: - o sítio lá em cima agradável e sossegado para fazermos o piquenique. Paramos lá. Que tal? Catherine consentiu com relutância. - Está bem. - Bonita menina. Larry deu-lhe um sorriso breve, depois voltou-se e retomou a marcha. Catherine seguiaatrás dele. Catherine teve de admitir que o panorama da vila e do vale lá ao fundo era impressionante, uma cena idílica e pacífica tirada de um bilhete postal. Sentiu-se realmente contente por ter vindo. Havia tanto tempo que Larry não se mostrava tão exuberante... Parecia possuído de uma excitação que crescia à medida que subiam. Tinha o rosto afogueado e dizia banalidades como se tivesse de falar para libertar um pouco da sua energia nervosa. Tudo parecia excitá-lo: a escalada, o panorama, as flores ao longo do caminho. Cada coisa parecia assumir uma importância extraordinária, como se os sentidos dele tivessem sido estimuladospara além do normal. Subia sem esforço, sem perder o fôlego, ao passo que o ar cada vez mais rarefeito fazia Catherine arfar. As pernas começavam a pesar-lhe como chumbo. Respirava com extrema dificuldade. Não sabia há quanto tempo subiam, mas quando baixava o olhar a aldeia era uma miniatura. Parecia a Catherine que o caminho se tornava cada vez mais íngreme e estreito. Serpenteava ao longo da beira dum precipício, e por isso Catherine encostava-se o mais possível ao lado da montanha. Larry dissera que e uma escalada fácil. Para uma cabramontanhesa, pensou Catherine. O caminho quase desaparecera, e não havia sinais de quetivesse sido pisado por mais alguém. As flores escasseavam, e a única vegetação era musgoe uma erva acastanhada de aspecto estranho queparecia crescer das pedras. Catherine nãosabia quanto tempo mais poderia continuar a subir. Quando contornaram uma curvaapertada, o caminho de repente foi subitamente interrompido e um abismo vertiginososurgiu sob os seus pés.


- Larry! - Era um grito. Ele apareceu logo ao lado de Catherine. Agarrou-a por um braço e puxou-a para trás, guiando-a sobre as rochas até ao local onde o caminho recomeçava. O coração de Catherine batia turbulentamente. Devo estar louca, pensou ela. Já não estou em idade para andar emsafaris. A altitude e o esforço deixavam-na tonta, e a cabeça dela andava à roda. Virousepara falar com Larry, e sobre ele, a seguir à curva seguinte, ela viu o cume do monte. Haviam chegado. Catherine deitou-se no chão plano para recuperar forças, sentindo a brisa fresca que lheagitava o cabelo. O terror passara. Agora se acabaram os receios. Larry dissera que a descida era fácil. Larry sentou-se a seu lado. - Sentes-te melhor? - perguntou ele. Assentiu. - Sinto-me. O coração deixara de bater com força, e começava a respirar normalmente outra vez. Respirou fundo e sorriu-lhe. - O pior já passou, não foi? - perguntou Catherine. Catherine apoiou-se num cotovelo. Para servir de miradouro haviam colocado um estrado de madeira no pequeno planalto. Existia gradeamento velho na beira, donde se tinha uma vista especta cular do panoramavertiginoso lá em baixo. A uns cinco metros dali Catherine pôde ver o caminho que descia do outro lado da montanha. - Oh, Larry, é lindo - disse Catherine. - Pareço Fernão de Magalhães. Sorriu lhe, mas Larry estava a olhar para outro lado e Catherine apercebeu-se de que não a escutava. Parecia preocupado - tenso, como se estivesse apoquentado com alguma coisa. Catherine olhou para cima de relance e disse: - Olha! -Uma nuvem branca e fofa deslizava ao encontro deles, empurrada pela brisa forte da montanha. - Vem para este lado. Nunca estive nas nuvens. Deve ser como estar no Céu. Larry olhava para Catherine quando ela se pôs de pé e se aproximou da beira do precipício,encostando-se ao gradeamento sem segurança. Larry debruçou-se sobre os cotovelos,subitamente pensativo,observando a nuvem à medida que se movimentava na direcção deCatherine. Mal a alcançara, começou a envolvê-la. - Vou ficar aqui dentro -gritou ela- e deixá-la atravessar-me. Um instante depois, Catherine estava perdida na névoa cinzentaque girava em turbilhão.


Calmamente, Larry pôs-se de pé. Ficou parado um momento, completamente imóvel,depois começou a avançar em silêncio na direçãodela. Em segundos ficou imerso nonevoeiro. Parou, sem saber exactamente onde ela estava. Depois, à frente, ouviu a voz delaa gritar: Oh, Larry, isto é maravilhoso! Vem para o pé de mim. Começou a andar lentamente em frente, na direcção donde vinhaa voz, abafada pelanuvem. Parece uma chuva miúda - gritou ela. - Sentes? A voz dela estava agora mais próxima, apenas a alguns metros àfrente dele. Deu outropasso em frente, de mãos estendidas à procuradela. - Larry! Onde estás? Conseguia distinguir o vulto dela, esfumado na névoa, exactamente à frente dele, mesmo à beira do precipício. Alcançou-a e nesse momento a nuvem desapareceu, e ela voltou-se eestavam frente à frente, a menos de um metro um do outro. Ela recuou um passo surpreendida e o pé direito ficou mesmo naponta do declive. - Oh! Assustaste-me - exclamou ela. Larry deu mais um passo na direcção dela, sorrindo confiante, eestendeu as duas mãos parasegurá-la, e nesse momento uma voz disse em alto som: - Caramba, em Denver temos montes mais altos do que este! Larry virou-se, assustado, com o rosto lívido. Um grupo de turistas conduzidos por um guia grego surgiu do caminho mais afastadodo outro lado da montanha. O guia parou assim queviu Catherine eLarry. - Bom dia - disse ele admirado. - Devem ter subido pela outranascente. - É verdade - disse Larry num tom firme. O guia abanou a cabeça. - São malucos. Deviam ter-lhes dito que esse caminho é perigoso. A outra vertente é muitomais fácil. - Para a próxima não me esqueço - disse Larry. tinha a voz rouca. A excitação antes testemunhada por Catherine parecia ter desaparecido dele, como se uminterruptor tivesse repentinamente sido desligado. - Vamos embora já daqui - disse Larry.


- Mas... acabamos de chegar. Passa-se alguma coisa? - Não - ripostou ele. - Só que detesto ajuntamentos. Desceram pelo caminho mais fácil, e durante o trajecto Larry não abriu a boca. Parecia que uma raiva glacial tomara conta dele, e Catherine não conseguia imaginar porquê. Tinha a certeza de que nada dissera ou fizera que o ofendesse. Foi quando as outras pessoas apareceram que os seus modos se alteraram tão abruptamente. De repente, Catherine pensou que adivinhara a razão para o comportamento dele e sorriu. Quisera amá-la dentro da nuvem! Foi por isso que começara a avançar para ela de braços estendidos. E os planos haviam saído gorados pelo grupo de turistas. Quase riu em voz alta de alegria. Via Larry descer o caminhar em passo largo, e sentiu-se invadida por uma sensação de excitação. Vou compensá-lo quando chegarmos ao hotel, prometeu a si própria. Mas, quando regressaram ao apartamento e Catherine o abraçou e quis beijá-lo, Larrydisselhe que estava cansado. Às três horas da manhã Catherine estava deitada na cama, excitada de mais para dormir. O dia fora longo e assustador. Pensou no caminho damontanha, na ponte oscilante e na escalada da rocha. E acabou por adormecer. Na manhã seguinte Larry foi falar com o recepcionista. - Aquelas grutas de que falou no outro dia - começou Larry. - Ah, sim - respondeu o empregado. - As grutas de Perama. Muito pitorescas. Muitointeressantes. Não deixe de vê-las. - Acho que terei mesmo de vê-las - disse Larry num tom despreocupado. - Não sou grandeapreciador de grutas, mas a minha mulher soube delas e não me larga para eu a levar lá. Adora esse género de coisas. - Estou certo de que ambos gostarão de ver, Sr. Douglas. Mas não se esqueçam de levar um guia. - É mesmo preciso? - perguntou Larry. O empregado assentiu. - É aconselhável. Tem havido várias tragédias lá, pessoas que se perderam. - Baixou a voz. - Há umjovem casal que até hoje ainda não foi encontrado. - Se é assim tão perigoso - perguntou Larry -, por que permitem a entrada? - É apenas a nova secção que é perigosa - explicou o recepcionista. - Ainda não foi explorada e não há luz. Mas com um guia não terá de se preocupar. - A que horas fecham as caves?


- Às seis. Larry encontrou Catherine cá fora, reclinada sob uma oxya, o velho carvalho grego, a ler. - Que tal o livro? - perguntou ele. - De pôr em cima da mesa. Agachou-se a seu lado. - O empregado do hotel falou-me de umas grutas que há aqui perto. Catherine ergueu o olhar, vagamente apreensiva. - Grutas? - Disse que ninguém as deve perder. Todos os noivos vão lá. Pensa-se num desejo, e acontece. - A voz tinha um tom adolescente de ansiedade. - Que tal? Catherine hesitou um momento, pensando que Larry parecia realmente um rapazinho. - Se te apetecer - disse ela. Sorriu. - Óptimo. Vamos depois do almoço. Continua com as tuas leituras. Vou até à cidade decarro comprar umas coisas. - Queres que eu vá contigo? - Não - disse ele à vontade - volto já. Não te preocupes. Elaconcordou. - Está bem. Voltou-se e partiu. Na vila Larry descobriu uma pequena loja onde comprou umalanterna, pilhas novas e um novelo de fio. - O senhor está hospedado no hotel? - perguntou o lojista que contava o troco de Larry. - Não - disse Larry. -Estou só de passagem a caminho de Atenas. - Eu se fosse a si tinha cuidado - aconselhou o homem. Larry olhou para ele de maneirapenetrante. - Com quê?


- Vem aí uma tempestade. As ovelhas já estão a dar sinal. Larry regressou ao hotel às trêshoras. Às quatro, Larry e Catherine partiram para as grutas. Levantara-se um vento agitado,e a norte começavam a formarem-se enormes cúmulos de trovoada, apagando o sol do céu. As grutas de Perama situam-se a trinta quilómetros a leste de Jânina. Com o decurso dosséculos, formaram-se estalactites e estalagmites com formas de animais, palácios e jóias, eas grutas tornaram-se uma atracção turística importante. Quando Catherine e Larrychegaram às grutas, eram cinco horas, faltando umahora para fechar. Larry comprou dois bilhetes e um panfleto na bilheteira. Um guia pobremente vestido apareceu e ofereceu os seus serviços. - Por apenas cinquenta dracmas - entoou ele -, e terão a melhor visitaguiada. - Não precisamos de guia - disse Larry, bruscamente. Catherine olhou para ele, surpreendida com o seu tom ríspido. Pegou no braço de Catherine. - Anda. - Tens a certeza de que não precisamos de levar um guia? - Para quê? É uma vigarice. Só vamos entrar e ver a gruta. O panfleto diz-nos o que temos a fazer. - Está bem - disse Catherine num tom agradável. A entrada para a gruta era maior do que Catherine estava à espera, brilhantemente iluminada com projectores e cheia de turistas que se movimentavam lentamente. As paredes e o tecto da gruta pareciam estar cheios defiguras heróicas esculpidas nas rochas: pássaros, gigantes, flores e coroas. - É fantástico - exclamou Catherine. Estava a ler o panfleto. Ninguém sabe quantos anosisto tem. A voz dela parecia vazia, ecoando no tecto de rocha. Por cima da cabeça deles haviaestalactites. Um túnel escavado na rocha ia dar a um compartimento menor, iluminado por lâmpadas simples presasjunto ao tecto da gruta. Havia mais figuras fantásticas, numaexposição irregular de arte natural. Ao fundo da gruta havia uma tabuleta que dizia: Perigo. Mantenha-se afastado. A seguir à tabuleta flcava a entrada para uma gruta negra e escancarada. Como se o fizesse por acaso, Larry foi até lá e olhou emredor. Catherine examinava um relevo junto àentrada. Larry tiroua tabuleta e atirou-a para o lado. Voltou para o pé de Catherine. - Está húmido aqui - disse ela. - Vamos embora? - Não. - O tom de Larry foi firme.


Ela olhou surpreendida. - Há mais para ver - explicou Larry. - O empregado do hoteldisseme que a parte mais interessante é a nova secção. Disse que nãopodíamos perder. - Onde é que é? - perguntou Catherine. -Acolá. - Larry pegou-a pelo braço e dirigiram-se para a retaguarda da gruta e pararam à frente da enorme abertura negra. - Não podemos entrar ali - disse Catherine. - Está escuro. Larry bateu-lhe levemente sobre o ombro. - Não te preocupes. Ele disse-me que trouxesse uma lanterna. -tirou-a do bolso. – Aquiestá, vês? Acendeu-a, e o pequeno foco de luz iluminou um corredor escuroe comprido da velha rocha. Catherine deixou-se ficar, fitando o túnel. - Parece tão grande - disse ela, pouco segura. - Tens a certeza de que não oferece perigo? - Claro - respondeu Larry. - Isto é visitado por crianças da escola. Catherine ainda hesitou, desejando acompanhar os outros turistas. Sentia que isto era perigoso. - Está bem - disse ela. Entraram no corredor. Tinham percorrido apenas uns metrosquando o círculo de luz dagruta central que deixaram atrás foi engolido pela escuridão. O corredor curvavaabruptamente para a esquerda e depois para a direita. Estavam sozinhos num mundo frio,intemporal e primitivo. No foco de luz da lanterna de Larry, Catherine viuo rosto dele noreflexo da luz e viu de novo aquele olhar animado. Eraigual ao olhar que mostrara nomonte. Catherine apertou-lhe o braço. Àfrente, o túnel bifurcava. Catherine conseguia ver a pedra áspera no tecto baixo no pontoque dava origem a direcções diferentes. Imaginou Teseu e o Minotauro na gruta e perguntou a si própria seiria encontrar-se comeles. Abriu a boca para sugerir que regressassem, mas antes que pudesse falar Larry disse: - Vamos para o lado esquerdo. Olhou para ele e esforçou-se por dizer num tom natural: - Querido, não achas que devíamos pensar em regressar? Está afazer-se tarde. As


grutasdevem estar a fechar. - Estão abertas até às nove - respondeu Larry. - Há uma gruta em particular que gostava dever. Foi recentemente descoberta. Dizem que é um espanto. - Começou a andar para afrente. Catherine hesitou, à procura de uma desculpa para não continuar. Afinal de contas por quedeviam explorar? Larry estava a divertir-se. Se era necessário isso para o fazer feliz, tornar-se-ia na maior- qual era a palavra? - espeleóloga do mundo. Larry estava parado à esperadela. - Vens? - perguntou com impaciência. Tentou mostrar entusiasmo. - Sim. Mas não me percas - disse ela. Larry não respondeu. Tomaram o túnel da esquerda e começaram a andar, cautelosos porcausa das pedrinhas que escorregavam sob os seus pés. Larry meteu a mão no bolso, epouco depois Catherine ouviu algo a cair no chão. Larry continuava a andar. - Deixaste cair alguma coisa? - perguntou Catherine. - Pareceu-me ouvir. - Dei um pontapé numa pedra - disse ele. -Vamos andar mais depressa. - E avançaram, semque Catherine se apercebesse de que atrás deles se desenrolava um novelo de fio. O tecto dagruta parecia ser mais baixo neste lugar e as paredes mais húmidas e - Catherine riu de si própria por o pensamento lhe ter ocorrido - ominoso. Era como se o túnel estivesse a fechar-se sobre eles, ameaçador e malévolo. - Não me parece que este lugar goste de nós - disse Catherine. - Não sejas ridícula, Cathy; é apenas uma gruta. - Por que julgas que somos as únicas pessoas aqui? Larry hesitou. - Nem todos sabem da existência desta secção. Continuaram a andar até que Catherine começou a perder a noção do tempo e do espaço. O caminho estreitava-se novamente, e as rochas laterais repuxavam-nos com pontasaguçadas que surgiam quando menos contavam. - Ainda falta muito? - perguntou Catherine. - Devemos estar a chegar à China. - Estamos quase.


Quando falavam, as vozes pareciam abafadas e ocas, como uma série de ecos contínuos e moribundos. Começava a arrefecer, mas era um frio húmido e pegajoso. Catherine tremia. Àfrente, o clarão da lanterna iluminou mais uma bifurcação. Chegaram lá e pararam. O túnel da direita parecia mais pequeno que o da esquerda. - Deviam pôr sinais de trânsito luminosos - disse Catherine. Devemos ter ido longe de mais. - Não - disse Larry. - Tenho a certeza de que é o da direita. - Estou a ficar com muito frio, amor - disse ela. - Vamos voltar agora. Voltou-se para olhar para ela. - Estamos a chegar, Cathy. -Apertou-lhe o braço. - Eu aqueço-te quando chegarmos aoapartamento. -Viu a relutância no rosto dela. - Vou dizer-te uma coisa: se não tivermosencontrado o lugar dentro de dois minutos, voltamos e vamos para casa. Está bem? Catherine sentiu o coração iluminar-se. - Está bem - disse ela num tom de agradecimento. - Anda. Viraram para o túnel da direita, com o clarão da lanterna formando uma figura dinâmica e medonha sobre a rocha cinzenta em frente. Catherine olhou de relance sobre o ombro e atrás de si só havia completa escuridão. Parecia que a pequena lanterna retirava luz dastrevas tenebrosas, atirando-a para a frente uns poucos de metros de cada vez, que depois os encapsulava no seu minúsculo ventre de luz. Larry parou de repente. - Bolas! - disse ele. - que é que foi? - Parece que nos enganámos no caminho. Catherine assentiu. - Não há problema. Voltamos para trás. - Deixa-me ter a certeza. Fica aqui. Olhou para ele surpreendida. - Aonde é que vais? - São só alguns metros. Vou até à entrada. - A voz dele parecia tensa e pouco natural. - Vou contigo. - Sozinho é mais rápido, Catherine. Só quero ver a bifurcação onde curvámos da últimavez.


-Parecia impaciente. -Volto dentrode segundos. - Está bem - disse ela constrangidamente. Catherine ficou a ver Larry afastar-se e desaparecer na escuridão donde tinham vindo,envolto num halo de luz como se fosse um anjoem movimento nas entranhas da terra. Um momento depois, a luz desapareceu, e ela ficou mergulhada na escuridão mais profunda quejá conhecera. Ficou ali, a tremer, contando os segundos mentalmente. E depois os minutos. Larry não voltava. Catherine esperou, sentindo a escuridão envolvê-la como ondas invisíveis e malévolas. Gritou: - Larry? - E a voz era rouca e incerta, e ela aclarou a voz e voltou a tentar, desta vez maisalto. - Larry? Ouviu o som morrer a alguns metros de distância, na escuridão. Era como se nada pudesse viver neste sítio, e Catherine começou a sentir os primeiros indícios de temor. Claro que Larry vai voltar daqui a pouco, disse a si própria. Só tenho de ficar onde estou e manter a calma. Os minutos de escuridão arrastavam-se, e ela começou a enfrentar o facto de que algo correra muito mal. Larry podia ter tido um acidente, podia ter escorregado nas pedras soltas e batido com a cabeça nas paredes aguçadas da gruta. Talvez neste momento estivesse prostrado a apenas uns metros dela, cheio de sangue. Ou talvez estivesse perdido. As pilhas da lanterna podiam ter-se gasto, e talvez ele estivesse algures nas entranhas desta gruta perdido, tal como ela estava perdida. Catherine começou a ter uma sensação de asfixia, engasgando-a, enchendo-a de pânico irracional. Virou-se e começou a andar lentamente no sentido donde viera. O túnel era estreito, e se Larry estivesse caído, impotente e ferido, ela tinha uma boa oportunidade de oencontrar. Em breve chegaria ao local onde o caminho se dividia. Avançou com cautela, sentindo as pedras soltas rolarem-lhe sob os pés. Pensou ter ouvido um som distante e parou para ouvir. Larry? Desapareceu, e ela recomeçou a andar, ouvindo depois novamente. Era um zumbido, como se alguém estivesse a ouvir um gravador. Ha alguém aqui. Catherine gritou alto e pôs-se à escuta enquanto o som da sua voz se afogava no silêncio. Lá estava ele outra vez! O zumbido. Vinha daqui. Aumentou de volume, aproximando-se rapidamente dela numa enorme lufada de vento. Estava cada vez mais perto. De repente, atacou-a na escuridão uma pele fria e pegajosa roçou as suas faces e beijou-lhe os lábios e sentiu algo rastejando-lhe na cabeça, e umas garras afiadas no cabelo, e o rosto dela erafustigado pelo bater desenfreado de asas que pertenciam ao horror sem nome que a atacava na escuridão. Desmaiou. Estava deitada sobre uma rocha aguçada, e o desconforto da posição devolveu-lhe a consciência. Tinha a face quente e pegajosa, e só um minuto depois é que Catherine se


apercebeu de que era sangue. Lembrou-se das asas e das garras que a atacaram na escuridão e começou a tremer. Havia morcegos na gruta. Tentou lembrar-se do que sabia sobre morcegos. Lera algures que eram ratos voadores e que se agrupavam aos milhares. A outra coisa que conseguiu retirar da memória era que havia morcegos-vampiros, e rapidamente pôs de parte semelhante pensamento. Com relutância, Catherine sentou-se, com as palmas das mãos doloridas por terem sido arranhadas nas pedras afiadas. Não podes ficar sentada, disse a si própria. Tens de te levantar e fazer alguma coisa. Cheia de dores, lá se pôs de pé. Perdera um sapato e o vestido estava rasgado, mas Larry comprar-lhe-ia um novo amanhã. Imaginou os dois a entrarem na lojinha da vila, sorridentes e felizes, para comprarem um vestido branco de Verão para ela, mas, sem saber como, o vestido tornou-se uma mortalha, e o pensamento foi invadido por nova sensação de pânico. Devia continuar a pensar no dia de amanhã, não no pesadelo que a devorava agora. Devia continuar a andar. Mas para onde? Estava confusa. Se seguisse pelo caminho errado, iria descer mais para o fundo da gruta, e noentanto sabia que não podia ficar aqui. Catherine tentou calcular o tempo que passara desde quehaviam entrado na gruta. Devia ter sido uma hora, possivelmente duas. Não havia maneira de saber quanto tempo estivera inconsciente. Certamente estariam à procura dela e de Larry. E se ninguém desse pela falta deles? Não havia registo das pessoas que entravam e saíam das grutas. Podia ficar aqui para sempre. Descalçou o outro sapato e começou a andar, dando passos lentos e cuidadosos, estendendo as mãos em brasa para evitar esbarrar com os flancos ásperos do túnel. A viagem mais longa precisa apenas de um passo para começar, disse Catherine a si própria. Foram os Chineses que o disseram, e vejam como eles são espertos. Inventaramo fogo de artifício e o chop suey, e foram espertos de mais para se deixar apanhar num buraco escuro na terra onde ninguém os poderia e contrar. Se continuar a andar, vou chocar com Larry ou alguns turistas, e vamos regressar ao hotel, beber e rir por causa disto. Não posso parar. Parou repentinamente. Ao longe ouviu o zumbido outra vez, que vinha na direcção dela como um comboio fantasma, e o corpo dela começou a tremer incontrolavelmente, e ela começou a gritar. Um instante depois, atacavam-na, centenas deles, cobrindo-a, batendo-lhe com as suas asas frias e pegajosas e roçando com os seus corpos peludos de roedores num pesadelo de horror indescritível. A última coisa de que se lembrou antes de perder a consciência foi de chamar o nome de Larry. Estava caída no chão frio e húmido da gruta. Tinha os olhos fechados, mas a sua mente despertara repentinamente, e pensava: Larry quer matar-me. Foi como se o seusubconsciente tivesse posto essa ideia lá intacta. Numa série de lampejos caleidoscópicos, ouvia Larry dizer: Estou apaixonado por outra pessoa... Quero divorciar me... e Larry avançar para ela através da nuvem no cume da montanha, com as mãos estendidas para a agarrar... Lembrava-se de olhar para baixo para a montanha íngreme e dizer: Vamos levar muito tempo a descer, e Larry responder: Não, não vamos... , e Larry dizer: Não precisamos de guia... Parece que nos enganámos no caminho. Espera aqui...


Volto dentro de dez segundos... E depois a escuridão aterradora. Larry nunca tencionara voltar para ela. A reconciliação, a lua demel... foi tudo fingimento, parte de um plano para a matar. Durante o tempo que passou pretensiosamente a agradecer a Deus por lhe dar uma segunda oportunidade, Larry estava a tramar matá-la. E conseguira, pois Catherine sabia que nunca sairia daqui. Estava enterrada viva numa sepultura de horror. Os morcegos haviam desaparecido, mas ela ainda sentia e cheirava o muco viscoso e nojento que lhe deixaram no rosto e no corpo, e ela sabia que acabariam por voltar. Não sabia se seria capaz de manter a sanidade se fosse de novo atacada. Só de pensar nisso tremeu de novo e esforçou-se por inspirar lenta e profundamente. E foi então que Catherine ouviu de novo e sabia que não seria capaz de passar novamente por aquilo. Começou por um zumbido passando depois para uma vaga de som maisalto, avançando na direcção dela. Seguiu-se um grito repentino e angustiado, que ecoou na escuridão, e o outro som aproximava-se cada vez mais intenso, e do túnel negro surgiu uma luz, e ouviu vozes que chamavam por alguém e mãos que começaram a tocar-lhe e a ergueram, e ela queria avisálos da presença dos morcegos, mas não conseguia parar de gritar.

Atenas: 1946 22 Manteve-se quieta e hirta para que os morcegos não a encontrassem e pôs-se à escuta para ver se ouvia o zunido das suas asas, com os olhos bem fechados. Uma voz de homem disse: - Foi um milagre termo-la encontrado. - Ela vai ficar bem. Era a voz de Larry. O terror reapossou-se dela subitamente. Parecia que todos os nervos do seu corpo aaconselhavam aos gritos a fugir. O seu assassino voltara. Gemeu: - Não... - E abriu os olhos. Estava deitada na cama do apartamento. Larry encontrava-se aos pés da cama, e a seu lado estava um homem que ela nunca vira antes. Larry aproximou-se dela. - Catherine... Retraiu-se quando ele se chegou.


- Não me toques! - tinha a voz fraca e rouca. - Catherine! - No rosto de Larry havia a marca do sofrimento. - Afasta-te de mim - implorou Catherine. - Ainda está em estado de choque - disse o estranho. - Talvez fosse melhor esperar no outro quarto. Larry examinou Catherine por um momento, com um rosto inexpressivo. - Claro. Só quero o melhor para ela. - Voltou-se e saiu. O estranho fechou a porta. Era um homem baixo e gordo com um rosto agradável e um sorriso simpático. Falava inglês com bastantesotaque. - Sou o Dr. Kazomides. A senhora passou por uma experiênciaextremamente desagradável, mas garanto-lhe que vai pôr-se boa.Uma ligeira concussão e um choque muito forte, mas dentro de algunsdias ficará como nova. - Suspirou. - Deviam encerrar aquelas malditas grutas. É o terceiro acidente este ano. Catherine começou a abanar a cabeça, depois parou por ter começado a latejarviolentamente. - Não foi acidente - disse ela com uma voz grossa. - Ele tentoumatarme. Olhou para ela. - Quem é que tentou matá-la? Tinha a boca seca e a língua inchada. Tinha dificuldade em falar. - O meu... o meu marido. - Não - disse ele. Não acreditava nela. Catherine engoliu e tentou outra vez. - Abandonou-me na gruta para eu morrer. Ele abanou a cabeça. - Foi um acidente. Vou dar-lhe um sedativo e quando acordarirá sentir-se melhor. Uma vaga de medo invadiu-a. - Não! - implorou. - Não entende? Nunca mais vou acordar. Tire-me daqui. Por favor!


O médico sorria para inspirar confiança. - Eu disse-lhe que vai pôr-se boa, Sr. à Douglas. Só precisa é deum bom sono. - Meteu a mão na maleta preta e começou a procura deuma seringa. Catherine tentou sentar-se, mas uma dor dilacerante atacou-lhe a cabeça e ficouinstantaneamente banhada de suor. Deixou-separa trás, com uma dor de cabeçainsuportável. - Ainda não deve tentar mexer-se - avisou o Dr. Kazomides. Passou por um momento muito difícil. - tirou a seringa, enfiou aagulha numa ampola com um líquido âmbar e disse-lhe: - Viva, por favor. Quando acordar, vai sentir-se uma novapessoa. - Eu não vou acordar - sussurrou Catherine. - Ele vai matar-me enquanto eu estiver adormir. O rosto do médico mostrava preocupação. Aproximou-se- Por favor, vire- se, Sra.Douglas. Ela fitou-o, os olhos teimosos. Gentilmente, virou Catherine para o outro lado, puxou-lhe a camisa de noite para cima, eela sentiu uma picada aguda na coxa. - Pronto, já está. Voltou-se de costas e murmurou: - O senhor acaba de me matar. - tinha os olhos cheios de lágrimas como uma pessoa semamparo. - Sra. Douglas - disse o médico calmamente -, sabe como a encontrámos? Começou a abanar a cabeça, depois se lembrou da dor. A voz dele era meiga. - Foi o seu marido que nos levou até si. Ela fitou-o, sem compreender o que dizia. - Ele enganou-se na curva e perdeu-se na gruta - explicou. Quando viu que não conseguia encontrá-la, ficou desvairado. Chamou a polícia e organizámos imediatamente uma equipa de busca. Ela olhou-o, ainda sem perceber. - Larry... pediu por socorro?


- Ele estava num estado horrivel. Disse que a culpa era só dele. Ela ficou impávida,tentando compreender, tentando ajustar-se à nova informação. Se Larry tivesse tentado matá-la, não teria organizado uma equipa de busca para encontrá-la, não teria ficado desvairado por causa da segurança dela. Estava muitíssimo confusa. O médico observava-a com ar de compreensão. - Agora vai dormir - disse-lhe ele. - Virei vê-la de manhã. Acreditara que o homem amado era um assassino. Sabia que tinha de contar a Larry e pedir-lhe perdão, mas sentiu a cabeça pesada e os olhos estavam sempre a fechar. Depois lhe conto, pensou ela, quando acordar. Irá entender e perdoar-me. E tudo será maravilhoso outra vez, tal como era... Foi acordada por um estampido, agudo e repentino, e os seus olhos abriram-se num ápice, o pulso descontrolado. Uma torrente de chuva batia violentamente na janela do quarto, e um relâmpago azulpálido iluminou o quarto, transformando numa fotografia com excesso de luz. O vento arranhava a casa, tentando entrar à força, e a chuva que caía no telhado e nas janelas soava como mil tambores minúsculos. De poucos em poucos segundos ouvia-se uma trovoada ominosa seguida por um relâmpago. Foi o som da trovoada que acordara Catherine. Sentou-se com dificuldade e olhou para o despertador que estava sobre a mesa-de-cabeceira. O sedativo que o médico lhe aplicara deixou-a tonta e teve de semicerrar os olhos para ler os números do mostrador. Eram três da manhã. Estava sozinha. Larry devia estar no outro quarto em vigília, preocupado com ela. Tinha de vê-lo, pedir-lhe desculpa. Cuidadosamente, Catherine pôs os pés no chão e tentou levantar-se. Teve uma tontura. Perdeu o equilíbrio e agarrou-se aos pés da cama até se recompor. Foi a cambalear até a porta, sentindo os músculos emperrados por falta de uso, e a cabeça num latejar doloroso. Parou por um instante, agarrada ao puxador da porta para se apoiar, depois abriu a porta e dirigiu-se para a sala de estar. Larry não estava lá. Havia uma luz acesa na cozinha, e foi para lá aos tropeções. Larry estava na cozinha, de costas, e ela chamou: - Larry! - Mas a voz dela foi levada pela trovoada medonha. Antes que pudesse chamá-lo de novo, viu uma mulher. Larry dizia: - É perigoso que tu... - O vento uivante abafou as outras palavras. Tinha de vir. Queria ter a certeza... Ver-nosjuntos. Ninguém irá... Eu disse-te. Eu tratava de tudo... Correu mal. Não há nada que eles possam...


Agora, enquanto ela está a dormir. Catherine ficou paralisada, incapaz de se mexer. Ouvia sons intermitentes, expressões breves e vibrantes. O resto das frases perdeu-se no vento uivante e nos trovões que explodiam. - ... Temos de nos despachar antes que ela... Todos os antigos medos voltaram, arrepiando-a, devorando-anum pânico indescritível e de causar náuseas. O seu pesadelo foiverdadeiro. Larry queria matá-la. Tinha de sair daqui antes queencontrassem, antes que a matassem. Lentamente, com o corpotremente,começou a recuar. Roçou num candeeiro, que tombou,apanhou antes que batesse no chão. O bater do seu coração eraforte que receou que o ouvissem, apesar do barulho da trovoadaechuva. Chegou à porta da rua e abriu-a, e o vento quase lha arrarrancou das mãos. Catherine entrou na noite escura, fechando a porta logo atrás de si. Ficou logo encharcada pela chuva fria e impetuosa, e foi então que deu conta de que não trazia senão uma camisa de noite transparente. Não tinha importância. Tinha de fugir. Por entre a torrente dechuva, via as luzes do salão do hotel ao longe. Podia ir lá pedir ajuda. Mas acreditariam nela? Lembrou-se da cara que o médico fez quando lhe contou que Larry queria matá-la. Não,iriam pensar que estava histérica e entregá-la a Larry. Tinha de fugir daqui. Foi ter ao caminho íngreme e rochoso que dava para a aldeia. A torrente tempestuosa tornara o caminho numa poça lamacenta e escorregadia que lhe prendia os pés descalços e lhe atrasava o passo de tal forma que pensava que corria num pesadelo, tentando em vão escapar em movimento lento dos perseguidores que corriam atrás de si. Estava sempre a escorregar e a cair ao chão, e tinha os pés a sangrar por causa das pedras afiadas do caminho, mas nem se apercebia disso. Estava em estado de choque, movimentando-se como um autómato, caindo quando uma rabanada de vento a derrubava, levantando-se para retomar a marcha até à vila, alheia ao chão que pisava. Já nem sabia que chovia. O caminho subitamente desembocou numa rua escura e deserta à beira da vila. Cambaleava em frente como um animal acossado, colocando, indiferente a tudo, um pé à frente do outro, aterrorizada pelos sons horriveis que se apoderaram da noite e pelos clarões dos relâmpagos que tornavam o céu num inferno. Chegou ao lago e contemplou-o, com o vento a fustigar-lhe a camisa de noite transparente, enrolando-a no corpo. As águas tranquilas haviam-se transformado num oceano revolto e agitado impelido por ventos demoníacos que formavam ondas enormes que se esmagavam brutalmente umas nas outras. Catherine manteve-se imóvel, tentando lembrar-se do que fazia naquele lugar. E de repente lembrou-se. Ia encontrar-se com Bill Fraser. Estava à espera dela na sua bela mansão para se casarem. Do outro lado do lago, viu uma luz amarela por entre a chuva impetuosa. Bill estava lá, à espera. Mas como poderia encontrar-se com ele? Olhou para o chão e viu os barcos a remos presos ao ancoradouro, girando nas águas turbulentas, prestes a soltarem-se. Viu então o que tinha de fazer. Arrastou-se até lá e saltou para dentro de um barco. Lutando


para manter o equilíbrio, desamarrou a corda que o prendia à doca. Nesse instante, o barco saltou da doca, inchando na sua liberdade repentina. Catherine caiu. Levantou-se, sentou-se e apanhou os remos, tentando lembrar-se da maneira como Larry os usava. Mas Larry não existia. Devia ter sido Bill. Sim, lembrou-se de Bill a remar na companhia dela. Iam ver os pais dele. Tentava usar os remos, mas as ondas gigantescas sacudiam constantemente o barco de um lado para o outro, fazendo-o girar, e a água arrancou-lhe os remos e sugou-os. Viu-os desaparecerem da vista. O barco avançava violentamente em direcção ao centro do lago. Catherine começou a bater o dente por causa do frio e a tremer num espasmo incontrolável. Sentiu qualquer coisa bater-lhe nos pés e, ao olhar para baixo, viu que o barco estava a meter água. Pôs-se a chorar, porque o vestido de noiva ia molhar-se todo. Fora Bill Fraser quem lho comprara, e agora ia zangar-se com ela. Usava um vestido de noiva porque ela e Bill estavam numa igreja, e o padre, que se parecia com o pai de Bill, dizia: Se alguém se opõe a este casamento que fale agora ou... ", e então uma voz de mulher disse: agora, enquanto ela está a dormir", e as luzes apagaram-se e Catherine estava de volta à gruta e Larry empurrava-lhe a cabeça para baixo e a mulher atirava-lhe água, afogando-a. Olhou em volta à procura da luz amarela na casa de Bill, mas a mesma desaparecera. Já não queria casar-se com ela, e ela agora estava sozinha, sem ninguém. A margem estava agora muito longe, escondida algures além da chuva impetuosa que caía, e Catherine estava sozinha na noite tempestuosa, com o meltemi, o vento que lhe gritava aos ouvidos e anunciava a sua morte. O barco começou a balançar traiçoeiramente quando as ondas enormes rebentavam violentamente contra ele. Mas Catherine já perdera o medo. Uma calidez deliciosa invadiu-lhe lentamente o corpo, e a chuva parecia veludo macio sobre a sua pele. Apertou as mãos sobre osjoelhos como uma criança e começou a dizer a oração que aprendera quando era menina. - Agora vou dormir... Peço a Deus que olhe pela minha alma... Se eu morrer antes de acordar... Peço a Deus que leve a minha alma. E ficou maravilhosamente feliz porque sabia que finalmente estava tudo bem. Ia para casa. Nesse momento, uma onda enorme apanhou a popa do barco, deixando-o de quilha voltada para o ar no lago negro sem fundo.

LIVRO TRES O JULGAMENTO Atenas: 1947 23


Cinco horas antes do início do julgamento de homicídio de Noelle Page e Larry Douglas, jáa sala 33 do tribunal Arsakion de Atenas transbordava de espectadores. O tribunal é umedifício cinzento enorme que ocupa toda a extensão dum quarteirão da Rua daUniversidade. Das trinta salas de audiência do edifício apenas três estão reservadasajulgamentos de homicídio: salas 21, 30 e 33. A sala número 33 fora a escolhida para estejulgamento por ser a maior. Os corredores no exterior da sala 33 abarrotavam de gente, e os agentes da polícia fardados de cinzento colocaram-se em ambas as entradas para controlar a multidão. O bar do corredor esgotou os produtos nos primeiros cinco minutos e havia uma fila enorme à porta da cabina telefónica. Georgios Skouri, o chefe da Polícia, supervisionava pessoalmente as operações desegurança. Havia fotógrafos por toda a parte e Skouri sentia-se satisfeito por ser fotografado com frequência. Os passes para entrar na sala de audiências valiam umafortuna. Durante semanas, os funcionários da Justiça grega foram assediados com pedidos de amigos e parentes. Pessoas bem colocadas no interior do aparelho que conseguiram obtêlos negociaram-nos em troca de outros favores ou venderam-nos a especuladores que os vendiam pela quantia exorbitante de quinhentos dracmas cada um. O cenário dojulgamento era comum. A sala de audiências 33, situada no segundo piso do tribunal, era húmida e velha, palco de milhares de batalhas legais que se travavam havia anos. A sala tinha cerca de doze metros de largura por noventa de comprimento. Os assentos dividiam-se por três filas, distanciados dois metros entre si,com nove bancos de madeira em cada fila. Na parte da frente da sala de audiências havia um estrado alto atrás de uma divisória de mogno polido, com dois metros de comprido, completada por poltronas decouro de costas altas para os trêsjuízes que presidiam. A poltrona domeio destinava-se ao presidente do tribunal e por cima estava pendurado um espelho quadrado e sujo que reflectia uma parte da sala. Em frente ao estrado estava o banco das testemunhas, um pequeno estrado alçado no qual se fixava uma pequena estante de leituracom um suporte de madeira para pôr papéis. Sobre a estante em folha de ouro estava o crucifixo, Jesus na cruz com dois dos seus discípulos de cada lado. Encostada à parede do outro lado estava a banca dos jurados, jáocupada pelos seus dezmembros. No canto esquerdo estava o bancoonde os acusados se sentavam. À frente dobanco dos réus estava amesa dos advogados. As paredes da sala eram de estuque e o chãodelinóleo, o que contrastava com os soalhos gastos das salas do primeiroandar. Do tectopendiam uma dúzia de lâmpadas, cobertas porglobosde vidro. Num canto da sala, a conduta de ar dum aquecedor antiquado estendia-se até ao tecto. Uma parte da sala tinha sido reservadapara a imprensa, e havia representantes da Reuter, United Press, International News Service, Shsin Hau Agency, Freneh Press Agencye Tass, entre outros. Só as circunstâncias do julgamento de homicídio teriam sido bastante sensacionais, mas os protagonistas eram tão famosos que o público excitado não sabia para onde olhar primeiro. Era como um circo de três pistas. Na primeira fila estava Philippe Sorel, o actor, que,a fazer fé no boato que corria, era ex-amante de Noelle Page. Sorelpartira uma máquinafotográfica a caminho da sala de audiências eescusara-se terminantemente a falar àimprensa. Sentou-se


no seulugar, reservado e silencioso, com um muro invisível à suavolta. - Atrás de Skouri sentava-se Armand Gautier. Orealizador alto e sombrioperscrutava constantemente a sala de audiências como se estivesse a tomar notas mentaispara o próximo filme. Junto de Gautierestava Israel Katz, o famoso cirurgião francês eherói da Resistência. Dois lugares depois se encontrava William Fraser, assistente especial do presidente dos Estados Unidos. Ao lado de Fraser estava umlugar reservado, e na salaespalhou-se como uma bomba o boato deque Constantin Demiris ia estar presente. Paraonde os espectadoresolhassem viam uma cara conhecida: um político, um cantor, um escultor célebre, um escritor de renome mundial. Embora o recinto estivesse repleto de celebridades, o principal foco de atenção recaía na pista do meio. Num extremo do banco dos réus estava Noelle Page, extremamente bela, a sua pele cor de mel um pouco mais pálida do que o costume e vestida como se tivesse saído da boutique de Madame Chanel. Noelle tinha um atributo régio, uma presença nobre que elevava o drama do que estava a suceder. Aguçava a excitação dos espectadores e estimulava o seu desejo ardente de sangue. Como disse um semanário americano: emoção que afluía na direcção de Noelle Page vinda da multidão que viera assistir ao seujulgamento era tão forte que se tornou uma presença quase física na sala. Não era um sentimento de compaixão ou de ódio, era simplesmente um sentimento de expectativa. A mulher que o tribunal iajulgar por homicídio era uma supermulher, uma deusa num pedestal de ouro, muito acima deles, e eles estavam ali para ver o ídolo cair ao nível deles e ser destruído. O sentimento que enchia a sala de audiências deve ter sido idêntico ao que existira no coração dos camponeses que viram Maria Antonieta na carroça a caminho da guilhotina. Noelle Page não era a única atracção daquele circo. Na outra ponta do banco dos réus sentava-se Larry Douglas, dominado por uma ira latente. Trazia pálido o seu rosto belo e emagrecera, mas isso só servia para acentuar as suas feições perfeitas, e muitas dasmulheres presentes na sala de audiências tinham vontade de o abraçar e consolar desta ou daquela maneira. Desde que fora preso, Larry recebera centenas de cartas de mulheres de todo o mundo, dezenas de presentes e propostas de casamento. A terceira estrela do circo era Napoleon Chotas, um homem tão conhecido na Grécia quanto Noelle Page. Napoleon Chotas era reconhecido como um dos maiores advogados criminais do mundo. Defendera clientes que iam de chefes de Governo apanhados a abotoarem-se com os dinheiros públicos até assassinos apanhados em flagrante pela Polícia, sem nunca ter perdido um caso importante. Chotas era magro e macilento e observava do seu lugar o público, com os seus olhos grandes e tristes de cão de caça num rosto velho. Quando Chotas se dirigia ao júri, o seu discurso era lento e hesitante, e tinha grande dificuldade em exprimir-se. Às vezes era tal o seu embaraço que um jurado deixava escapar a palavra que procurava, e quando isto acontecia o rosto do clausídico mostrava um alívio tão grande e uma gratidão tão inexprimível que todo o painel dejurados sentia uma onda de afeição pelo homem. Fora da sala de audiências Chotas era um orador incisivo e animado com umdomínio perfeito da palavra e da sintaxe. Falava sete línguasfluentemente, e quando a sua agenda o permitia dava palestras parajuristas em todo o mundo. Sentado no banco dos advogados, a alguns metros de Chotas, estava Frederick Stavros, o advogado de defesa de Larry Douglas. Diziam os entendidos que, embora Stavros fosse bastante competente em casos de rotina, não tinha qualquerhipótese neste caso em particular.


Noelle Page e Larry Douglas haviam sido jájulgados nosjornais e nas mentes do povo e considerados culpados. Ninguém duvidou da sua culpa por um momento. Jogadores profissionais apostavam de trinta para um em como os réus seriam condenados. Ojulgamento ganhou assim mais interesse porque nele participaria o maior advogado criminal da Europa, que iria usar todo o seu saber numa situação muitíssimo adversa. Quando se soube que Chotas ia defender Noelle Page, a mulher que traiu Constantin Demiris e o expusera ao ridículo público, a notícia causou furor. Embora Chotas fosse poderoso, Constantin Demiris era-o cem vezes, e não passava pela cabeça de ninguém por que Chotas enfrentaria Constantin Demiris. A verdade era ainda mais interessante do que os boatos bizarros que corriam céleres. O advogado aceitara a defesa de Noelle Page a pedido pessoal de Demiris. Três meses antes da marcação do julgamento, o próprio directorda prisão foi à cela de Noelle na Prisão da Rua de São Nicodémus para lhe dizer que Constantin Demiris queria vê-la. Noellejá se interrogara quando teria notícias de Demiris. Não tivera notícias dele desde que fora presa, apenas um silêncio profundo. Noelle viveu com Demiris o tempo suficiente para saber a profundidade do seu amorpróprio e o trabalho a que se dava para se vingar até da mais pequena ofensa. Noelle humilhara-o como nunca ninguemo fizera antes, e era suficientemente poderoso para reclamaruma retribuição terrível. A única questão era: que faria ele? Noelle tinha a certeza de queDemiris desdenhariaqualquer coisa tão simples como subornar umjúri ou os juízes. Só uma trama complexa emaquiavélica o deixariasatisfeito, e Noelle ficara acordada no catre da cela noites a fio, pondo-se na pele de Demiris, eliminando estratégias consecutivas, tal como ele devia ter feito, em busca do plano perfeito. Era comojogar umapartida de xadrez mental com Demiris, só que ela e Larry eram os peões, e as apostas eram a vida e a morte. Era provável que Demiris quisesse destruir os dois, mas Noelle conhecia como ninguém a mente subtil de Demiris, pelo que era igualmente possível que planejasse destruir apenas um deles e deixar o outro viver em sofrimento. Se Demiris se decidisse pela execução de ambos, atingiria a sua vingança, mas tratar-se-ia de um final rápido demais - não sobraria nada para saborear. Noelle examinara cuidadosamente todas as possibilidades, todas as variações possíveis do jogo, e pareceu-lhe que Constantin Demiris deixaria que Larry morresse e ela vivesse, ou na prisão ou sob o controle de Demiris, porque seria a melhor maneira de prolongar a sua vingança indefinidamente. Primeiro Noelle sofreria a dor de perder o homem que amava, e depois teria de suportar todas as torturas refinadas que Demiris planejara para o futuro dela. Parte do prazer que Demiris tiraria da sua vingançaera contar a Noelle de antemão, para que ela sentisse o desespero em toda a sua extensão. Daí que Noelle não se sentira surpresa quando o director da prisão foi à cela dizer-lhe que Constantin Demiris desejava vê-la. Noelle chegara primeiro. Fora levada para o gabinete particular do director,


ondediscretamente a deixaram sozinha com um estojo de maquilhagem trazido pela criada, como fim de se preparar para a visita de Demiris. Noelle ignorou os cosméticos, os pentes e as escovas que estavam sobre a mesa, foi atéàjanela e olhou para fora. Era a primeira vista da rua que tinha em três meses, tirando os relances da altura em que foi da Prisão da Rua de São Nicodémus até ao Arsakion, o tribunal, no dia do seujulgamento. Fora para o tribunal num carro celular gradeado e sob escolta até à cave, donde um elevador estreito a levara a ela e aos guardas até ao corredor do segundo piso. Prestara declarações, fora enviada para julgamento e regressara à prisão. Noelle olhava pela janela e observava o trânsito na Rua da Universidade: homens, mulheres e crianças a caminho de casa para se reunirem às familias. Pela primeira vez na vida, Noelle teve medo. Perdera as ilusões de ser absolvida. Lera osjornais e sabia que ia ser mais do que um julgamento. Ia ser um banho de sangue em que ela e Larry iam servir de vítimas para satisfazer a consciência duma sociedade ultrajada. Os gregos odiavam-na porquetroçara da santidade do matrimónio, invejavam-na porque era nova, bonita e rica edesprezavam-na porque sentiam que era indiferente aos sentimentos deles. Dantes Noelle dava pouca importância à vida, esbanjando o tempo sem qualquer preocupação, como se o mesmo fosse eterno: mas agora estava diferente. A perspectiva de morte iminente fizera que Noelle se apercebesse pela primeira vez do quanto desejava viver. Era como um receio ìdêntico a um cancro em evolução, e, se pudesse, estava disposta a tudo para viver, mesmo que soubesse que Demiris encontraria maneiras de lhe fazer a vida negra. Enfrentaria isso quando acontecesse. Na altura própria, encontraria uma maneira de ser mais esperta do que ele. Entretanto, precisava da ajuda dele para viver. Tinha uma vantagem. Sempre aceitara despreocupadamente a ideia de morrer, de forma que Demiris não fazia ideia do quanto a vida significava para ela. Se fizesse, por certo a deixaria morrer. Noelle de novo se interrogou sobre as teias que tecera em seu redor nos últimos meses, e, no momento exacto em que pensava nisso, ouviu a porta do gabinete abrir, voltou-se e viu Constantin Demiris na ombreira da porta e, depois do olhar chocado, Noelle viu que nada mais tinha a recear. Constantin Demiris envelhecera dez anos nos poucos meses desde que o vira pela última vez. Estava pálido e abatido, e as roupas caíam-lhe largas sobre o corpo. Mas foram os olhos que prenderam a atenção de Noelle. Eram os olhos duma alma que passara por um grande sofrimento. A essência do poder de Demiris, o núcleo de vitalidade dinâmica e esmagadora desaparecera. Foi como se um interruptor tivesse sido desligado, e o que restava era o reflexo pálido do esplendor de outrora. Deixou-se estar, fitando-a, com os olhos cheios de mágoa. Numa fracção de segundo, Noelle pensou se se tratava de alguma brincadeira, parte de um plano, mas não havia ninguém no mundo que pudesse ser tão bom actor. Foi Noelle que quebrou o longo silêncio. - Desculpa, Costa - disse ela. Demiris anuiu num aceno lento, como se o movimento lhe custasse um esforço.


- Desejei matar-te - disse ele agastado, e era a voz dum velho.- Eu tinha tudo preparado. - Por que não o fizeste? Respondeu calmamente: - Porque tu me mataste primeiro. Nunca precisei de ninguém. Chego mesmo a pensar que nunca sofri no passado. - Costa... - Não. Deixa-me terminar. Não sou um clemente. Se pudesse viver sem ti, acredita que eraisso que eu faria. Mas não posso. Já não posso sofrer mais. Quero-te de volta, Noelle. Esforçou-se para não mostrar o que sentia dentro de si. - Mas isso não depende de mim, pois não? - Se eu te pudesse libertar, voltavas para mim? De vez? De vez. Mil imagens passaram velozes pela mente de Noelle. Nunca mais veria Larry, não voltaria a tocar-lhe, a abraçá-lo. Noelle não tinha saída, mas, mesmo que tivesse, a vida valia mais. E enquanto fosse viva havia sempre uma oportunidade. Olhou para Demiris. - Voltava, Costa. Demiris fitou-a, emocionado. Quando falou, tinha a voz rouca. - Obrigado - disse ele. - Vamos esquecer o passado. O que lá vai lá vai. - A voz ganhou vida. - O futuroé que me interessa. Vou contratar um advogado para te defender. - Quem? - Napoleon Chotas. E nesse momento Noelle soube de facto que vencera a partida de xadrez. Xeque. Xequemate. Napoleon Chotas estava sentado no banco dos advogados a pensar na batalha que ia realizar-se. Chotas teria preferido que ojulgamento acontecesse em Jânina em vez de Atenas, mas isso era impossível, dado que, conforme a lei grega, nenhum julgamento podia realizar-se no distrito onde o crime fora cometido. Chotas não tinha a menor dúvida em relação à culpa de Noelle Page, mas para ele isso era irrelevante, pois, como qualquer advogado criminal, sentia que a culpa ou a inocência dum cliente era insignificante. Todas as pessoas tinham direito a um julgamento justo. Ojulgamento que estava prestes a começar era um pouco diferente, porém. Pela primeira vez na vida profissional, Napoleon Chotas deixara-se envolver emocionalmente por uma cliente: estava apaixonado por Noelle Page. Fora vê-la a pedido de Constantin Demiris e,


embora Chotas não desconhecesse a imagem pública de Noelle Page, não estava nada preparado para a realidade. Ela recebera-o como se ele estivesse afazer uma visita de carácter social. Noelle não mostraranervosismo, nem medo, e a princípio Chotas atribuíra isso à falta de conhecimento que ela tinha da gravidade da situação. O inverso também aconteceu. Noelle era a mulher mais inteligente e fascinante que jamais conhecera, e certamente a mais bela. Chotas, embora desmentido pela aparência, era grande conhecedor de mulheres, e reconheceu os atributos especiais que Noelle possuía. Só poder sentar-se junto dela e falar-lhe era uma alegria para Chotas. Falaram de Direito, Arte, Criminalidade e História, e ela revelou-se uma surpresa constante. Conseguiu compreender perfeitamente a ligação de Noelle aum homem como Constantin Demiris, mas o seu envolvimento com Larry Douglas intrigava-o. Sentia que ela estava muito acima de Douglas, e, no entanto Chotas supunha que havia uma química inexplicável que fazia as pessoas apaixonarem-se pelos parceiros mais improváveis. Cientistas brilhantes casavam com louras estouvadas, grandes escritores casavam com actrizes estúpidas, estadistas ilustres casavam com simplórias. Chotas lembrava-se do encontro com Demiris. Conheceram-se socialmente durante anos, mas a firma de advogados de Chotas nunca trabalhara para ele. Demiris pedira a Chotas que fosse à sua casa de Varkiza. Demiris abordara o assunto sem rodeios: - Como deve saber - dissera ele -, tenho em relação a este julgamento um profundointeresse. Noelle Page é a única mulhér a quem verdadeiramente amei. Os dois homens falaram durante seis horas, abordando todos aspectos do caso, todas as estratégias possíveis. Ficou decidido que sentença de Noelle seria inocente. Quando Chotas se levantou para se retirar, haviam chegado a um acordo. Para aceitar a defesa de Noelle, Napoleon Chotas receberia o dobro dos honorários, e a sua fama seria o principalconsultorjurídico do vasto império de Constatin Demiris, um negócio no valor incalculável. - Pouco me importa como irá fazê-lo - concluíra Demiris, num tom feroz. - Garanta apenas que tudo corra bem. Chotas aceitara o contrato. E depois, ironicamente, apaixonara-se por Noelle Page. Chotas era solteiro, embora mantivesse diversas amantes, e agora que encontrara a mulher com quem desejava estar, ela era inacessível. Olhoupara Noelle, sentada no banco dos réus, bela e serena. Trazia um fato de seda preta simples e uma blusa gola alta branca sem enfeites, e parecia uma princesa dum conto de fadas. Noelle virou-se e viu que Chotas a fitava, e deu-lhe um sorrisosimpático. Devolveu-lhe o sorriso, mas o seu pensamento concentrava-sejá na tarefa difícil que se apresentava pela frente. O oficial de diligências abria a sessão. O público ergueu-se quando dois juízes entraram e tomaram os seus lugares na tribuna. Seguiu-se o terceirojuiz, o presidente do tribunal, que tomou o lugar do meio. Disse: - synethriassis archetai.


O julgamento começara. Peter Demonides, o promotor especial da República, ergueu-se nervosamente para fazer o discurso de abertura ao júri. Demonides era um procurador hábil e com prática, mas confrontara-se já com Napoleon Chotas - muitas vezes, de facto -, e os resultados foram invariavelmente os mesmos. O diabo do velho era invencível. Quase todos os advogados tratavam com arrogância as testemunhas de acusação, mas Chotas acarinhava-as. Tratavaas bem e, antes de ele dar por findo o seu interrogatório, entravam em contradição em relação a tudo, tentando ajudá-lo. Tinha um jeito especial para tornar as provas irrefutáveis em especulações e as especulações em fantasia. Chotas tinha o raciocínio legal maisbrilhante que Demonidesjamais conhecera e o maior conhecimento de jurisprudência, mas esse não era o seu prato-forte. O melhor nele era o conhecimento que tinha das pessoas. Umjornalista perguntara uma vez a Chotas como aprendera ele tanto sobre a natureza humana. - Não entendo absolutamente nada sobre a naturezahumana -respondera Chotas. -Apenas entendo depessoas. -E a observação fora amplamente citada. Para além de tudo o mais, era um julgamento à medida para Chotas levar à presença de um júri, repleto que estava de fascínio, paixão e morte. De uma coisa Demonides estava certo: Napoleon Chotas não olharia meios para ganhar esta causa. Mas Demonides também não. Sabia que havia fortes provas contra os réus, e, embora Chotas pudesse ser capaz de convencer o júri a menosprezar as provas, não seria capaz de manipular os trêsjuízes que se sentavam na tribuna. Por isso, foi com um sentimento misto de determinação e apreensão que o promotor especial da fontepública deu início ao seu discurso de abertura. Em traços largos e hábeis, Demonides delineou o caso que o Estado apresentava contra os dois réus. Segundo o preceito legal, o presidente dos dez jurados era um advogado, deforma que a ele Demonides dirigiu a argumentação legal e aos restantes membros a argumentação geral. - Antes do fim do julgamento - disse Demonides -, o Estado provará que estas duas pessoas conspiraram em conjunto para matar Catherine Douglas a sangue-frio porque era um obstáculo aos seus planos. O seu crime foi amar o marido, e por isso mataram-na. Os dois réus estavam no local do crime. Só eles tiveram o motivo e a oportunidade. Provaremos sem margem para qualquer dúvida... Demonides fez um discurso breve e sem rodeios, e depois coube a vez ao advogado de Defesa. Os espectadores olhavam para Chotas enquanto reunia desajeitadamente os papéis e se preparava para fazer o discurso de abertura. Lentamente aproximou-se da banca dojúri, de uma forma difícil e hesitante como se se sentisse apavorado pelo ambiente que o rodeava. Ao vê-lo, William Fraser não pôde deixar de se maravilhar com a sua habilidade. Se não tivesse certa noite conversado com Chotas numa festa na Embaixada britânica, também Fraser se teria deixado iludir pela atitude do homem. Via osjurados esticando-se com


esforço para a frente para ouvirem as palavras que caíam suavemente dos lábios de Napoleon Chotas. - Esta mulher que está na barra do tribunal - dizia Chotas aos jurados - não está a serjulgada por homicídio. Não houve homicídio. Se tivesse havido homicídio, tenho a certeza de que o meu brilhante colega em representação do Estado teria sido capaz de mostrar-nos o corpo da vítima. Não o fez, porém, pelo que devemos assumir que não há corpo. E, por conseguinte, nem homicídio. - Deteve-se para coçar a coroa da cabeça e olhou para o chão como se estivesse a tentar lembrar-se onde parara. Abanou a cabeça, depois olhou para o júri. - Não, meus senhores, não é disso que trata este julgamento. A minha cliente está a serjulgada porque infringiu outra lei, uma lei tradicional que diz que não se deve fornicar com o marido de outra mulher. Osjornaisjá a culparam dessa acusação, e o público culpoua, e agora exigem que ela seja castigada. Chotas parou para tirar um enorme lenço branco, fitou-o um momento como se seinterrogasse como viera ali parar, assoou o nariz e voltou a guardar o lenço no bolso. - Muito bem. Se infringiu uma lei, castiguemo-la. Mas não por homicídio, meus senhores. Não por um homicídio que nunca foi cometido. Noelle Page foi culpada de ser a amante de... -fez uma pausadelicadamente -... um homem importantíssimo. O seu nome é segredo, mas, se querem saber de quem se trata, podem encontrá- lo na primeira página dequalquerjornal. Seguiu-se uma gargalhada divertida da parte do público. Auguste Lanchon girou sobre o lugar onde se sentava e lançou um olhar feroz para os espectadores, com os seus olhinhos de suíno a arder de raiva. Como ousavam rir-se da sua Noelle! Demiris não significava nada para ela, nada. Era o homem a quem uma mulher oferecia a sua virgindade que ela lembrava sempre com prazer. O comerciante baixo e gordo de Marselha não conseguira comunicar com Noelle até ao momento, mas pagara quatrocentos preciosos dracmas por um passe para entrar na sala de audiências, e podia ver a sua amada Noelle todos os dias. Se fosse absolvida, Lanchon oferecer-se-ia para tomar conta dela. Concentrou-se no advogado. - Foi dito pela acusação que os dois réus, Noelle Page e Larry Douglas, mataram a mulher do Sr. Douglas parapoderem casar-se. Olhem para eles. Chotas virou o olhar para Noelle Page e Larry Douglas, no que foi seguido por todos os olhos da sala de audiências. - Estão apaixonados um pelo outro? Talvez. Mas isso torna-os conspiradores, maquinadores e assassinos? Não. Se há vítimas neste julgamento, estão a vê-las neste momento. Examineicom cuidado todas as provas e fiquei convencido, tal como os senhores ficarão, de queestes dois seres humanos estão inocentes. Gostaria de deixar bem claro aojúri que


nãorepresento Larry Douglas. Ele tem o seu próprio advogado, que, diga-se a propósito, setrata de um colega competente. Mas alegou a acusação de que as duas pessoas ali sentadasconspiraram e mataram juntas. Pelo que, se um é culpado, ambos o são. Afirmolhes queambos são inocentes. E só o corpo do delito me fará mudar de ideia. E não há nenhum. A voz de Chotas estava cada vez mais inflamada. - É uma invenção. Aminha cliente sabe tanto como vós se Catherine Douglas está a morta ou está viva. Como saberia ela? Nunca a conheceu, quanto mais prejudicá-la. Imaginem a enormidade que é uma pessoa ser acusada de matar alguém que nunca viu mais gordo. Há muitas teorias quanto ao fim que a Sra. Douglas poderia ter levado. Que poderia ter sido morta é um deles. Mas apenas um. A teoria mais provável é ter descoberto de alguma forma que o marido e Noelle Page estavam apaixonados, e ofendida... não com medo, cavalheiros. Ofendida, tenha fugido. É tão simples quanto isso, e por causa disso não se executa umamulher inocente e um homem inocente. Frederick Stavros, o advogado de Larry Douglas, deu um suspirosubreptício de alívio. Era seu pesadelo constante que Noelle Page pudesse ser absolvida, enquanto o seu cliente seria condenado. Se isso acontecesse, seria o bombom da festa dos outros advogados. Stavros andara à procura de uma maneira para se pendurar à estrela de Napoleon Chotas, e agora Chotas dera-lhe o ensejo. Ao estabelecer a ligação entre os dois réus da forma como fizera, a defesa de Noelle tornara-se a defesa do seu próprio cliente. Avitória destejulgamento ia alterar todo o futuro de Frederick Stavros, dar-lhe tudo o que sempre desejara. Invadia-o uma sensação de sentida gratidão pelo velho mestre. Stavros notou com satisfação que o júri seguia atentamente cada palavra de Chotas. - Esta mulher não é das que se interessam por coisas materiais- dizia Chotas comadmiração. - Estava disposta a desistir de tudo, sem hesitar, pelo homem que amava. Todossabemos, caros amigos, que esse não é o carácter duma homicida maquinadora e conivente. À medida que Chotas prosseguia, as emoções dosjurados mudavam de forma visível,alcançando em relação a Noelle Page uma empatia e compreensão crescentes. Lenta ehabilmente, o clausídico construiu o retrato duma bela mulher, amante dum dos mais ricos e poderosos homens do mundo, que possuía todos os luxos e privilégios,mas que no fimsucumbira ao amor por um jovem piloto sem vintém que conhecera havia apenas poucotempo. Chotas brincava com as emoções dos jurados como um maestro, fazendos rir, chorare mantendo sempre presa a sua atenção. Quando acabou o discurso de abertura, Chotascaminhou desajeitadamente para a mesa comprida e, com embaraço, sentou-se, e issoimpediu que o público aplaudisse em uníssono. Larry Douglas estava sentado no banco das testemunhas ouvindo a defesa de Chotas e ficou furioso. Não precisava de ninguém que o defendesse. Não cometera nenhum crime, sendo este julgamento um erro estúpido; se havia alguma culpa, a mesma recaía sobre Noelle. Fora tudo ideia dela. Larry olhava para ela agora, bela eserena. Mas não sentiu nenhumaemoção de desejo, apenas a lembrança de uma paixão, um laivo distante e emocional, e admirou-se por ter feito perigar a vida por esta mulher. Os olhos de Larry


voltaram-se na direcção da bancada da imprensa. Uma repórter atraente de vinte e poucos anos fitava-a. Deu-lhe um sorriso breve e viu o rosto dela iluminar-se. Peter Demonides interrogava uma testemunha. - Queira identificar-se perante o tribunal. - Alexis Minos. - Ocupação? - Advogado. - Importa-se de olhar para os dois réus sentados no banco dos réus, Sr. Minos, e dizer ao tribunal se já alguma vez os viu? - Já, sim. Um deles. - Quem? - O homem. - O Sr. Larry Douglas? - Correcto. - Dizia-nos, por favor, em que circunstâncias viu o Sr. Douglas? - Esteve no meu escritório há seis meses. - Foi consultá-lo na sua qualidade profissional? - Foi, sim. - Por outras palavras, consultou-o como advogado? - Sim. - E importava-se de dizer-nos que desejava ele de sua parte? - Pediu-me que lhe tratasse do divórcio. - E contratou-o para esse fim? - Não. Quando me explicou as circunstâncias, disse-lhe que lhe seria impossível obter odivórcio na Grécia.


- E quais eram as circunstâncias? - Primeiro disse que o assunto não podia vir a público, e depois que a mulher não lhe queriadar o divórcio. - Por outras palavras, tinha pedido o divórcio à mulher, que lho negou? - Foi o que me disse. - E explicou-lhe que não o podia ajudar? Que sem o consentimento da mulher lhe seriadifícil ou impossível consegui- lo e que o caso poderia muito bem vir a público? - Exactamente. - Portanto, a não ser que tomasse medidas drásticas, nada havia que o réu pudesse... - Protesto! - Deferido. - A testemunha é sua. Napoleon Chotas levantou-se da cadeira com um suspiro e caminhou lentamente até àtestemunha. Peter Demonides não estava preocupado. Minos era um advogado experiente de mais para ser enganado pelas artimanhas forenses de Chotas. - O senhor é advogado, Sr. Minos. - Sou, sim. - E um advogado excelente, estou certo. Surpreende-me o facto de os nossos caminhos profissionais não se terem cruzado mais cedo. A firma em que me encontro lida com muitos ramos da lei. Será que o senhorjá se confrontou com um dos meus sócios em algum litígio corporativo? - Não. Não faço trabalho corporativo. - Peço desculpa. Talvez num caso fiscal, então? - Não sou advogado de assuntos fiscais. - Oh. - Chotas começava a ficar intrigado e pouco à vontade, como se estivesse a fazer figura de parvo. - Seguros?


- Não. -Minos começava a desfrutar a humilhação do advogado. O seu rosto assumiu uma expressão presunçosa, e Peter Demonides começou a preocupar-se. Quantas vezes vira aquele olhar nos rostos das testemunhas que Napoleon Chotas preparava para o abate? Chotas coçava a cabeça com perplexidade. - Desisto. - disse habilmente. - Em que ramo da lei é especialista? - Casos de divórcio. - A resposta foi uma flecha mordaz, em cheio no alvo. Chotas assumiu uma expressão pesarosa e sacudiu a cabeça. - Eu devia ter calculado que o meu amigo Sr. Demonides mandaria um especialista para aqui. - Obrigado. -Alexis Minos não tentou disfarçar a sua presunção desta vez. Nem todas as testemunhas tinham oportunidade de humilharChotas, e Minos estavajá a compor a história que ia contar no clube nessa noite. - Nunca me ocupei de um caso de divórcio - confiava Chotas com uma voz embaraçada -, de forma que terei de submeter- me aos seus conhecimentos. O velho advogado estava a desmoronar por completo. A história seria ainda melhor do que Minos previra. - Aposto que tem sempre muito que fazer. - Não tenho mãos a medir. - Não tem mãos a medir! -Houve uma admiração sincera na voz de Napoleon Chotas. - Às vezes é de mais. Peter Demonides olhou para o chão, incapaz de ver o que se passava. A voz de Chotas assumiu um tom de respeito. - Não é meu desejo imiscuir-me na sua vida profissional, Sr. Minos, mas, como curiosidade profissional, quantos clientes diria que entram no seu escritório por ano? - Bem, não me é fácil responder. - Vamos lá, Sr. Minos. Não seja modesto. Faça um cálculo. - Oh, acho que uns duzentos. É só uma aproximação, sabe.


- Duzentos divórcios por ano! Só a burocracia deve meter medo. - Bem, na realidade, não há duzentos divórcios. Chotas coçou o queixo, perplexo. - Que disse? - Nem todos são divórcios. Um olhar intrigado surgiu no rosto de Chotas. - Mas não disse que só tratava de casos de divórcio? - Sim, mas... - A voz de Minos vacilou. - Mas o quê? - perguntou Chotas espantado. - Bem, o que eu quis dizer é que nem todos acabam em divórcio. - Mas não é por isso que as pessoas o consultam? - Sim, mas algumas. Bem. Acabam por mudar de ideias por diferentes razões. Chotas assentiu num entendimento repentino. - Ah! Quer dizer que há uma reconciliação ou coisa do género? - Exactamente - disse Minos. - Então está a dizer-me que, digamos, uns dez por cento não se importam de passar por umá acção de divórcio? Minos mexeu-se na cadeira embaraçado. A percentagem é um pouco superior. - Quanto? Quinze por cento? Vinte? - Quase quarenta. Napoleon Chotas fitou espantado. - Sr. Minos, está a dizer-nos que cerca de metade das pessoas que o procuram acabam por não se divorciar? - Estou, sim.


Começaram a aparecer gotículas de suor na testa de Minos. Voltou-se para olhar para Peter Demonides, mas Demonides estava estudiosamente concentrado numa fenda do soalho. - Bem, estou certo de que não se trata de falta de confiança nas suas capacidades - disse Chotas. - Claro que não - disse Minos em tom de defesa. - Muitas pessoas às vezes vêm consultarme num impulso estúpido. Um casal tem uma briga e sente que se odeia; acha que quer divorciar-se, mas quando vai passar ao concreto, na maioria dos casos, muda de ideias. Parou abruptamente quando se apercebeu do que estava realmente a dizer. - Obrigado -disse Chotas com gentileza. -As suas declarações foram de grande utilidade. Peter Demonides interrogava a testemunha. - Diga-me o seu nome, por favor. - Kasta. Irene Kasta. - Casada ou solteira? - Sou viúva. - Qual é a sua profissão, Sra. Kasta? - Sou governanta. - Onde é que trabalha? - Na casa duma família rica em Rafina. - É uma vila à beira-mar, não é? Cem quilómetros a norte de Atenas? - Sim. - Importa-se de olhar para os dois réus que estão ali sentados? Já os viu antes? - Por certo. Muitas vezes. - Dizia-nos em que circunstâncias? - Vivem na casa perto da moradia onde eu trabalho. Via-os muito na praia. Nús. Houve um arquejo por parte do público, logo seguido de um burburinho breve. Peter Demonides olhou de relance para ver se Chotas ia protestar, mas o velho advogado


permaneceu sentado, com um sorriso sonhador no rosto. O sorriso deixou Demonides mais nervoso do que nunca. Voltou-se para a testemunha. - Tem a certeza de que são estas as pessoas que viu? Lembre-se de que está sobjuramento. - Oh, se são! - Quando estavam juntos na praia, pareciam amigos? - Bem, irmão e irmã é que não pareciam. Uma gargalhada por entre o público. - Obrigado, Sra. Kasta. - Demonides virou-se para Chotas. A testemunha é sua. Napoleon Chotas assentiu amigavelmente, ergueu-se e coxeou até à mulher de grande porte que se encontrava no banco das testemunhas. - Há quanto tempo trabalha nessa moradia, Sra. Kasta? - Sete anos. - Sete anos! A senhora deve ser uma boa profissional. - Pode crer. - Talvez me possa recomendar uma boa governanta. Tenho andado com a ideia de comprar uma casa na praia de Rafina. O meu problema é que preciso de alguma privacidade para poder trabalhar. Da lembrança que tenho dessas vivendas, estão todas juntas. - Oh, não, senhor doutor. Todas as moradias são separadas por um muro enorme. - Oh, óptimo. E não estão juntas umas das outras. - Não, senhor doutor, de maneira nenhuma. As moradias ficam longe umas das outras pelo menos cem metros. Sei de uma que está à venda. O senhor doutor ia ter toda a privacidade que deseja, e a minha irmã podia ir lá limpar lhe a casa. Ela sabe o que faz, é arrumada e ajeita-se na cozinha. - Bem, obrigado, Sra. Kasta, isso parece óptimo. Talvez eu lhe possa telefonar esta tarde. - Ela trabalha a dias. Às seis estará em casa. - Que horas são agora? - Não uso relógio.


- Ah. Há um relógio grande naquela parede. Que horas são? - Bem, custa a ver. Fica lá ao fundo. - A que distância acha que fica o relógio? - Cerca de cento e cinquenta metros. - Setenta metros, Sr. Kasta. Não tenho mais perguntas. Corria o quinto dia do julgamento. A perna amputada do médico Israel Katz doía-lhe novamente. Quando fazia uma operação, podia apoiar-se na perna artificial durante horas, e isso não o importunava. Mas sentado aqui sem a concentração intensa para lhe desviar a atenção, as extremidades dos nervos enviavam mensagens constantes para um membro que deixara de existir. Katz mexia-se impacientemente no lugar, tentando aliviar a tensão que sentia na anca. Desde que chegou a Atenas tentava ver Noelle todos os dias, mas em vão. Falara com Napoleon Chotas, e o advogado explicara-lhe que Noelle estava perturbada demais para ver velhos amigos e que seria melhor esperar até ao final dojulgamento. Israel Katz pedira-lhe que dissesse a Noelle que ele viera ajudá-la de todas as maneiras possíveis, mas não tinha a certeza se recebera o recado. Sentava-se no tribunal dia após dia, na esperança de que Noelle olhasse para o lugar onde se sentava, mas ela nem sequer olhava de relance para os espectadores. Israel Katz devia-lhe a vida e sentia-se frustrado por não saber como pagar-lhe essa dívida. Não fazia ideia de como decorria ojulgamento, ou se Noelle seria condenada ou absolvida. Aprendera com Chotas que pela lei só havia dois veredictos possíveis: culpado ou inocente. Se Noelle fosse considerada inocente, seria libertada. Se fosse considerada culpada, seria executada. Uma testemunha da acusação prestava juramento. - Nome? - Christian Barbet. - O senhor é um cidadão francês, Sr. Barbet? - Sou, sim. - Onde é que reside? - Em Paris. - Queira dizer ao tribunal qual é a sua ocupação. - Sou proprietário duma agência de detective privados.


- E onde se localiza essa agência? - A sede é em Paris. - Que géneros de casos trata? - Muitos géneros. Roubos comerciais, pessoas desaparecidas, vigilância por conta demaridos e esposas ciumentos... - Sr. Barbet, queira ter a bondade de ver se nesta sala de audiências se encontra alguém que já tenha sido cliente seu. Um olhar lento e demorado pela sala. - Há, sim, senhor doutor. - Dizia a este tribunal de quem se trata, por favor? - A senhora que está sentada além. Miss Noelle Page. Um murmúrio de interesse por parte dos espectadores. - Está a dizer-nos que Miss Page o contratou para lhe pedir os seus préstimos comodetective? - Estou, senhor doutor. - E diz-nos exactamente do que constava esse trabalho? - Pois não, senhor doutor. Estava interessada num homem chamado Larry Douglas. Queria que eu descobrisse tudo quanto pudesse a respeito dele. - É o mesmo Larry Douglas que está sob julgamento nesta sala de audiências? - Exacto. - Diga-nos, Sr. Barbet, como procedeu para obter essas informações sobre o Sr. Douglas? - Foi muito difícil, senhor doutor. Sabe, eu estava em França, e o Sr. Douglas estava em Inglaterra e mais tarde nos Estados Unidos, e com a França ocupada pelos Alemães... - Perdão? - Eu disse com a França ocupada... - Só um momento. Quero ter a certeza se entendo o que está a dizer-me, Sr. Barbet. Foi-nos dito pelo advogado de Miss Page que ela e Larry Douglas se conheceram há uns poucos de


meses e se apaixonaram loucamente. Agora o senhor vem dizer-me que o caso amoroso entre eles começou... há quanto tempo? - Há pelo menos seis anos. Pandemónio. Demonides lançou a Chotas um olhar triunfante. - A testemunha é sua. Napoleon Chotas coçou os olhos, ergueu-se do lugar onde estava sentado e caminhou nadirecção do banco das testemunhas. - Não tomarei muito do seu tempo, Sr. Barbet. Sei que deve estar ansioso por voltar parajunto da sua família em França. - Pode demorar o tempo que quiser, senhor doutor - disse ele pretensiosamente. - Obrigado. Perdoe-me a intimidade, mas o fato que traz vestido é muito bonito, Sr. Barbet. - Obrigado, senhor doutor. - Fabricado em Paris? - Foi, sim. - Fica-lhe muito bem. Já eu não tenho tanta sorte com os meus fatos. Já experimentou osalfaiates ingleses? Dizem que são excelentes. - Não, senhor doutor. - Estou certo de que já esteve em Inglaterra muitas vezes. - Bem... não. - Nunca? - Não, senhor doutor. - Já esteve nos Estados Unidos? - Não. - Nunca.


- Não, senhor doutor. - Já esteve no Pacífico Sul? - Não, senhor doutor. - Então o senhor deve ser úm detective fantástico, Sr. Barbet. Tiro-lhe o meu chapéu. Estes seus relatórios cobrem as actividades de Larry Douglas em Inglaterra, nos Estados Unidos e no Pacífico Sul... e no entanto diz-me que nunca esteve em nenhum destes sítios. O senhor deve ser um médium. - Permita-me que o corrija, senhor doutor. Eu não precisava de ter estado em nenhum desses lugares. Utilizo aquilo a que chamamos agências correspondentes em Inglaterra e na América. - Ah, perdoe a minha estupidez. Mas é claro! Foram então essas pessoas que de factocobriram as actividades do Sr. Douglas? - Exactamente. - Portanto, o senhor não tem conhecimento pessoal dos movimentos de Larry Douglas? - Bem... não, senhor doutor. - Portanto, na realidade, todas as suas informações são em segunda mão? - Suponho que... de certa maneira o são. Chotas voltou-se para os juízes. - Peço a anulação de todo o depoimento desta testemunha, Meretíssimos Juízes, com base de que se trata de boatos. Peter Demonides pôs-se de pé num salto. - Protesto, Meretíssimos Juízes! Miss Page contratou o Sr. Barbet para obter informações sobre Larry Douglas. Isso não é boato. - O meu doutor colega apresentou os relatórios como prova - disse Chotas com gentileza. Estou totalmente disposto a aceitá-los... se desejar trazer aqui os homens que de facto conduziram a vigilância do Sr. Douglas. De outro modo, devo pedir ao tribunal que assuma que não houve semelhante vigilância e pedir que o depoimento desta testemunha seja anulado. O presidente do tribunal virou-se para Demonides.


- Consegue trazer as testemunhas à nossa presença? - Isso é impossível - balbuciou Peter Demonides. - O Sr. Chotas sabe que levaria meses a localizá-los! O presidente voltou-se para Chotas. - Moção concedida. Peter Demonides estava a interrogar. - Queira identificar-se. - George Mousson. - Qual é a sua ocupação? - Sou recepcionista no Hotel Palace em Jânina. - Importa-se de olhar para os dois réus ali sentados. Já os viu antes? - O homem já. Esteve hospedado no nosso hotel em Agosto último. - Seria o Sr. Larry Douglas? - Sim, senhor doutor. - Estava sozinho quando se registou no hotel? - Não, senhor doutor. - Dizia-nos quem o acompanhava? - A mulher. - Catherine Douglas? - Sim, senhor doutor. - Registaram-se como Sr. e Sra. Douglas? - Sim, senhor doutor. - Alguma vez falou com o Sr. Douglas sobre as grutas de Perama? - Falei, sim, senhor doutor.


- Quem falou no assunto primeiro? - Se bem me lembro, foi ele. Fez-me perguntas e disse que a mulher estava ansiosa porconhecê-las. Que adorava grutas. Isso me pareceu anormal. - Oh? E porquê? - Bem, as mulheres não se interessam por explorações e coisas parecidas. - Por acaso nuncafalou nas grutas com a Sra. Douglas, pois não? - Não, senhor doutor. Apenas com o Sr. Douglas. - E que é que lhe disse? - Bem, lembro-me de lhe dizer que as grutas podiam ser perigosas. - Foi feita qualquer referência a um guia? O empregado assentiu. - Sim, tenho a certeza de que lhe sugeri que levasse um guia. Recomendo um a todos os nossos hóspedes. - Não tenho mais perguntas. A testemunha é sua, Sr. Chotas. - Há quanto tempo está na actividade hoteleira, Sr. Mousson? - Há mais de vinte anos. - E antes disso era psiquiatra? - Eu? Não, senhor doutor: - Talvez psicólogo? - Não, senhor doutor. - Oh. Então o senhor não é nenhum especialista do comportamento feminino! - Bem, posso não ser nenhum psiquiatra, mas na actividade hoteleira aprende-se muita coisa sobre mulheres. - Sabe quem é Osa Johnson? - Osa... ? Não.


- É uma famosa exploradora mundial. Já ouviu falar de Amelia Earhart? - Não, senhor doutor. - Margaret Mead? - Não, senhor doutor. - É casado, Sr. Mousson? - De momento não. Mas fui casado três vezes, por isso sou um especialista em mulheres. - Pelo contrário, Sr. Mousson. O que eu penso é que se fosse de facto um especialista em mulheres teria sido capaz de aguentar um casamento. Não tenho mais perguntas. - Nome, por favor? - Christopher Cocyannis. - Qual é a sua ocupação? - Sou guia nas grutas de Peramam. - Há quanto? - Há dez anos. - Gosta do que faz? - Gosto muito. Todos os anos vêm milhares de turistas ver as grutas. - Importa-se de olhar para o homem que está sentado ali? Já viu o Sr. Douglas antes? - Já sim, senhor doutor. Esteve nas grutas em Agosto. - Tem a certeza? - Absoluta. - Mas isso espanta-nos a todos, Sr. Cocyannis. De todos os milhares de turistas que visitam as grutas, o senhor consegue lembrar-se de um indivíduo? - Era dificil esquecê-lo. - Por que diz isso, Sr. Cocyannis?


- Antes de mais, porque não quis levar um guia. - Todos os visitantes levam guias? - Os alemães e os franceses são forretas, mas os americanos levam todos. Risos. - Compreendo. Havia outra razão para que se lembrasse do Sr. Douglas? - Sem dúvida. Não teria reparado nele só por causa da questão do guia, e a mulher que o acompanhava ficou embaraçada quando ele disse que não. Depois, cerca de uma hora mais tarde, vi-o sair pela entrada apressado, vinha sozinho e parecia bastante perturbado, e eu pensei que talvez a mulher tivesse tido um acidente ou coisa no género. Fui ter com ele e perguntei se a senhora estava bem; fitou-me de um modo estranho e disse: que senhora? e eu disse: A senhora que levou para as grutas consigo. Ficou pálido e eu pensei que me fosse bater. Depois começou a gritar: Não a encontro. Preciso de ajuda, e começou a agir como um doido. - Mas só pediu ajuda quando lhe perguntou onde estava a mulher de quem deu falta? - É verdade. - Que aconteceu a seguir? - Bem, reuni os outros guias e começamos a busca. Um idiota qualquer tinha tirado o aviso de Perigo da nova secção, que ainda não está aberta ao público. Foi onde acabamos por encontrá-la cerca de três horas mais tarde. Estava muito mal. - Uma última pergunta. E responda com muito cuidado. Quando o Sr. Douglas saiu da gruta, estava à procura de alguém a quem pedir ajuda, ou teve a impressão de que estava a ir-se embora? - Estava a ir-se embora. - A testemunha é sua. A voz de Napoleon Chotas era muito gentil. - Sr. Cocyannis, o senhor é psiquiatra? - Não, senhor doutor. Sou guia. - E não é médium? - Não sou, não.


- Faço-lhe esta pergunta porque na semana passada tivemos recepcionistas peritos em psicologia humana, testemunhas pitosgas, e agora vem o senhor dizer-nos que consegue olhar para um homem que chamou a sua atenção porque lhe pareceu agitado e soube adivinhar-lhe o pensamento. Como é que o senhor sabia que ele não estava à procura de ajuda quando foi ter com ele e lhe falou? - Porque deu a entender. - E consegue lembrar-se assim tão bem do comportamento dele? - É verdade. - É óbvio que tem uma memória notável. Gostaria que percorresse o olhar pela sala de audiências. Já viu algum dos presentes sem ser hoje? - O réu. - Sim. E além dele? Veja bem. - Não. - Se tivesse, ter-se-ia lembrado? - Sem dúvida. - Nunca me viu antes? - Não, senhor doutor. - Queira olhar para este pedaço de papel, por favor. Pode dizer-me do que se trata? - É um bilhete. - De quê? - Das grutas de Perama. - E qual é a data? - Segunda-feira. Há três meses. - Pois é. Esse bilhete foi comprado e utilizado por mim, Sr. Cocyannis. Éramos um grupo de cinco. O senhor foi o nosso guia. Não tenho mais perguntas.


- Qual é a sua profissão? - Sou paquete do Hotel Palácio em Jânina. - Olhe por favor para a ré que se encontra sentada naquele banco. Já a viu antes? - Sim, senhor doutor. No cinema. - Já a tinha visto antes? - Já sim, senhor doutor. Entrou no hotel e perguntou-me em que quarto estava o Sr. Douglas hospedado. Eu disse-lhe que devia perguntar na recepção e ela disse-me que não queria maçá-los, por isso dei-lhe o número do apartamento. - E isso aconteceu quando? - No dia um de Agosto. No dia do meltemi. - E tem a certeza de que era a mesma mulher? - Como é que eu a poderia esquecer? Deu-me uma gorjeta de duzentos dólares. Ojulgamento ia na quarta semana. Todos concordavam que Napoleon Chotas conduzia a melhor defesa de sempre. Apesar disso, a culpa ia tecendo uma teia cada vez mais apertada. Peter Demonides construía um quadro de dois amantes, que queriam desesperadamente estarjuntos, casados, sendo Catherine Douglas a única pedra no seu caminho. Lentamente, dia após dia, Demonides especulou sobre a trama que ia matá-la. O advogado de Larry Douglas, Frederick Stavros, abdicara com todo o prazer do seu papel e confiara em Napoleon Chotas. Mas agora até o próprio Stavros começava a sentir que seria preciso um milagre para se conseguir uma absolvição. Stavros fixou o olhar na cadeira vazia que se encontrava na sala apinhada de gente e interrogou-se se Constantin Demiris iria estar mesmo presente. Se Noelle Page fosse condenada, o magnata grego não deveria aparecer, pois isso significaria a sua derrota. Por outro lado, se o magnata soubesse que ia haver uma absolvição, deveria aparecer. A cadeira vazia iase tornando num símbolo do desfecho do julgamento. O lugar permaneceu vazio. Foi numa sexta-feira que o caso explodiu finalmente. - Queira dizer-nos o seu nome, por favor. - Dr. Kazomides. John Kazomides.


- Alguma vez esteve com o Sr. ou a Sra. Douglas, doutor? - Já sim, com ambos. - Em que ocasião? - Recebi uma chamada para ir às grutas de Perama. Uma mulher perdera-se por lá, e quando a equipa de busca finalmente a encontrou ela estava em estado de choque. - Estava fisicamente magoada? - Sim. Havia múltiplas contusões. As mãos, os braços e as faces estavam cheios de arranhões causados pelas rochas. Tinha caído e batido com a cabeça, daí eu ter diagnosticado uma possível concussão. Dei-lhe de imediato uma injecção de morfina para as dores e disse-lhes que a levassem ao hospital local. - E foi para lá? - Não foi, não. - Importa-se de dizer ao júri por que não? - Por insistência do marido levaram-na de volta para o apartamento do Hotel Palace. - Não achou isso estranho, doutor? - O marido disse que queria ser ele a olhar por ela. - De forma que a Sra. Douglas foi levada de volta para o hotel. Acompanhou-a até lá? - Exacto. Insisti em ir com ela até ao apartamento. Queria estar à beira da cama dela quando despertasse. - E estava lá quando ela acordou? - Estava, sim. - A Sra. Douglas disse-lhe alguma coisa? - Disse. - Dizia ao tribunal o que foi? - Disse-me que o marido tinha tentado matá-la. Só depois de uns bons cinco minutos é que o tumulto gerado na sala acalmou, e opresidente


teve de ameaçar que mandaria evacuar a sala para o burburinho terminar. Napoleon Chotas fora até ao banco da ré e conferenciava apressadamente com Noelle Page. Pela primeira vez, parecia perturbada. Demonides prosseguia com o interrogatório. - O doutor disse no seu testemunho que a Sra. Douglas estava em estado de choque. Na suaopinião de médico, ela estava lúcida quando lhe disse que o marido tentou matá-la? - Estava, sim. Eujá lhe tinha dado um sedativo nas grutas e ela estava relativamente calma. Contudo, quando lhe disse que lhe ia dar mais um sedativo, ficou extremamente agitada eimplorou-me que não o fizesse. O presidente do tribunal inclinou-se para frente e perguntou: - Explicou porquê? - Sim, Meretíssimo. Disse que o marido a mataria durante o sono. O presidente recostou-se na cadeira pensativamente e disse a Peter Demonides. - Pode continuar. - Dr. Kazomides, chegou a administrar um segundo sedativo à Sra. Douglas? - Administrei, sim. - Enquanto estava deitada no apartamento? - Exacto. - Como o administrou? - Por via hipodérmica. Na anca. - E ela já dormia quando o senhor se foi embora? - Já, sim. - Havia alguma hipótese de a Sra. Douglas poder ter acordado a qualquer altura nas horas que se seguiram, saído da cama sem ajuda, ter-se vestido e saído daquela casa sem ajuda? - No estado em que se encontrava? Não. Seria muitíssimo improvável. Estava fortemente medicada. - É tudo, obrigado, doutor. Osjurados olhavam fixamente para Noelle Page e Larry Douglas, e os seus rostos tornaram-


se frios e inamistosos. Um estranho podia ter entrado na sala e adivinhado o rumo que o caso tomara. Os olhos de Bill Fraser brilhavam de satisfação. Depois do depoimento do Dr. Kazomides já não podia haver a menor dúvida de que Catherine fora assassinada por Larry Douglas e Noelle Page. Nada havia que Napoleon Chotas pudesse fazer para irradicar das mentes dos jurados a imagem duma mulher aterrorizada, drogada e indefesa, implorando para que não fosse abandonada às mãos do seu assassino. Frederick Stavros entrara em pânico. Deixara alegremente que Napoleon Chotas desse as cartas, indo atrás dele com fé cega, confiante de que Chotas era capaz de garantir uma absolvição para a sua cliente e logo para o seu cliente. Neste momento sentia-se traído. Ia tudo por água abaixo. O depoimento do médico fora irreparavelmente prejudicial, tanto pelo impacto das provas como pelo impacto emocional. Tirando o lugar misteriosamentereservado, a sala estava cheia. A imprensa mundial estava presente, à espera de relatar o que aconteceu depois. Stavros viu-se momentaneamente a erguer-se, confrontar o médico e transformar odepoimento dele em retalhos. O seu cliente seria absolvido e ele, Stavros, seria um herói. Sabia que seria a sua última oportunidade. O desfecho deste caso traçaria a linha entre a fama e a obscuridade. Stavros sentia de facto os músculos da coxa contraírem-se, exigindolhe que se erguesse. Mas não conseguia mexer-se. Permaneceu sentado, paralisado, perante o espectro esmagador do fracasso. Voltou-se para olhar para Chotas. Os olhos tristes e profundos do rosto de cão de caça examinavam o médico sentado no banco das testemunhas, como se tentassem chegar a alguma conclusão. Lentamente, Napoleon Chotas pôs-se de pé. Mas, em vez de se aproximar da testemunha, foi até à tribuna e calmamente dirigiu-se aos juízes. - Sr. Presidente, Meretíssimos Juízes, não desejo contra-interrogar a testemunha. Com permissão do tribunal, gostava de pedir um intervalo para conferenciar no gabineteparticular com a Mesa e o advogado de Acusação. O presidente do Tribunal virou-se para a Acusação. - Sr. Demonides? - Não me oponho - disse Demonides, com uma voz desconfiada. A sessão foi interrompida. Ninguém saiu do lugar. Trinta minutos depois, Napoleon Chotas regressou à sala de audiências sozinho. Noinstante que atravessou a porta do gabinete, todos na sala sentiram que algo importante acontecera. Havia um arde auto-satisfação secreta no rosto do advogado, cujo andar estavamais rápido e ágil, como se tivesse resolvido alguma charada ejá não fossem necessários mais jogos. Chotas aproximou-se do banco dos réus e fitou Noelle: ela ergueu o olhar para ele, com uns olhos cor de violeta, penetrantes e ansiosos. E de repente um sorriso aflorou aos lábios do


advogado, e do brilho dos olhos dele Noelle sabia que de alguma forma conseguira, realizara o milagre apesar de todas as provas, apesar de todos os contras. Ajustiça triunfara, mas era ajustiça de Constantin Demiris. Também Larry Douglas olhava fixamente para Chotas, cheio de medo e de esperança. Fosse o que fosse, Chotas fizera-o em benefício de Noelle. E ele? Chotas dirigiu-se a Noelle numa voz cuidadosamente neutra. - O presidente do tribunal deu-me autorização para falar consigo no gabinete particulardele. - Voltou-se para Frederick Stavros, que estava numa agonia de incerteza, sem saber oque se passava. O senhor e o seu cliente têm permissão para vir connosco se o desejarem. Stavros assentiu. - Naturalmente. Pôs-se de pé à pressa, quase tropeçando na cadeira, tal era a ansiedade. Dois oficiais dejustiça acompanharam-nos ao gabinete particular do presidente, que se encontrava vazio. Quando os oficiais de justiça saíram e ficaram sozinhos, Chotas voltou-se para Frederick Stavros. - O que eu vou dizer - disse ele calmamente - é para o bem da minha cliente. Porém, porque são corréus, consegui que ao seu cliente fosse concedido o mesmo privilégio. - Diga! - exigiu Noelle. Chotas virou-se para ela. Falava lentamente, escolhendo as palavras com grande cuidado. - Acabei de ter uma conferência com osjuízes - disse ele. - Ficaram impressionados com o caso que a acusação fez contra os dois. Contudo - fez uma pausa, delicadamente -, consegui... ah... convencê-los de que os interesses dajustiça não seriam servidos com o vosso castigo. - Que vai acontecer? - perguntou Stavros com grande impaciência. Havia um tom de profunda satisfação na voz de Chotas quando prosseguiu: - Se os réus estiverem dispostos a confessar a sua culpa, os juízes concordaram em dar uma pena de cinco anos a cada um. - Sorriu e acrescentou - Quatro dos quais serão de pena suspensa. Na realidade, não terão de cumprir mais de seis meses. - Virou-se para Larry. Pelo facto de ser americano, Sr. Douglas, será deportado. Nunca mais poderá voltar à Grécia. Larry concordou, invadido por uma onda de alívio. Chotas voltou-se de novo para Noelle. - Não foi fácil de alcançar. Devo dizer-lhe com toda a honestidade que a primeira razão para a benevolência do tribunal é o interesse do seu... ah... patrono. Sentem quejá sofreu indevidamente por causa de toda a publicidade e estão ansiosos para que isto chegue ao fim.


- Entendo - disse Noelle. Napoleon Chotas hesitou com embaraço. - Há mais uma condição. Olhou para ele. - Sim? - O seu passaporte ser-lhe-á retirado. Nunca poderá deixar a Grécia. Ficará aqui sob a protecção do seu amigo. Afinal, tudo fora conseguido. Constantin Demiris não faltara ao combinado. Noelle nem por sombras acreditava que os juízes foram benevolentes porque se preocupavam com o facto de Demiris ter sido sujeito à publicidade inconveniente. Não, tivera de pagar um preço pela liberdade dela, e sabia que devia ter sido um preço bem elevado. Mas em troca Demiris tinha-a de volta e obrigava-a a nunca mais poder deixá-lo. Ou rever Larry. Voltou-se para Larry e viu o alívio no rosto dele. Ia ser posto em liberdade, e não estava interessado noutra coisa. Não havia mágoa por perdê-la ou pelo que acontecera. Mas Noelle entendia, porque conhecia Larry, pois ele era o seu alter ego, o seu Doppelganger, e tinham ambos o mesmo prazer irresponsável pela vida, os mesmos apetites insaciáveis. Eram espíritos gémeos para além da mortalidade, para além das leis que nunca fizeram e a que nunca obedeceram. A sua maneira, Noelle sentiria muito a falta de Larry, e quando se fosse embora parte dela iria com ele. Mas conhecia agora o valor precioso da vida e o medo de perdê-la. Feitas bem as contas era uma boa troca, e aceitou-a agradecidamente. Virou-se para Chotas e disse: - Isso é satisfatório. Chotas olhou para ela, e nos seus olhos havia não só tristeza, mas também satisfação. Noelle também entendeu isso. Estava apaixonado por ela e tivera de usar todo o seuengenho para salvá-la de outro homem. Noelle encorajara deliberadamente Chotas a apaixonar-sepor ela porque precisava dele, precisava ter a certeza de que nada o impediria de salvá-la. E tudo resultara. - Acho que é absolutamente maravilhoso-balbuciava Frederick Stavros. - Absolutamente maravilhoso. Em boa verdade, Stavros sentiu que era um milagre, quase tão eficaz como uma absolvição, e, embora fosse verdade que Napoleon Chotas ficaria com os louros quase todos para si, a irradiação periférica seria ainda assim tremenda. A partir deste momento, Stavros teria a sua selecção de clientes, e sempre que contasse o conto dojulgamento acrescentaria um ponto ao papel que nele representou.


- Parece um bom acordo - dizia Larry. - Só que nós estamos inocentes. Não matamos Catherine. Frederick Stavros voltou-se para ele furioso. - Quem se importa que estejam ou não inocentes? - gritou ele.- Estamos a dar-lhes a vossa vida de presente. - Lançou um olhar rápido a Chotas para ver se reagia ao nós, mas oadvogado estava a ouvir, com uma atitude neutra e distante. - Quero que perceba - disse Chotas a Stavros - que eu estou apenas a aconselhar a minhacliente. O seu cliente é livre de tomar a sua própria decisão. - Que nos teria acontecido a nós sem este acordo? - perguntou Larry. - O júri teria... - principiou Frederick Stavros. - Quero que seja ele a dizê-lo -interrompeu Larry, asperamente. Voltou-se para Chotas. - Numjulgamento, Sr. Douglas -respondeu Chotas -, o factor mais importante não é ainocência ou a culpa, mas a impressão de inocência ou culpa. Não há verdade absoluta,existe apenas a interpretação da verdade. Neste caso, não interessa se o senhor está inocenteem relação ao homicídio, pois o júri tem a impressão de culpa. Seria esse o motivo por queteria sido condenado, e acabariam pormatá-lo também. Larry olhou para ele demoradamente, depois assentiu: - Está bem - disse ele. - Vamos para frente com isso. Quinze minutos depois, os dois réus encontravam-se diante da tribuna dos juízes. Opresidente do tribunal estava sentado ao centro, ladeado pelos dois juízes. Napoleon Chotasestava ao lado de Noelle Page, e Frederick Stavros ao lado de Larry Douglas. A sala deaudiências tinha uma carga de tensão eléctrica, pois correra o boato de que ia haver umaevolução dramática. Mas, quando aconteceu, apanhou todas as pessoas desprevenidas. Numa voz formal e pedante, como se não tivesse feito uma troca secreta com os três juízes da tribuna, Napoleon Chotas disse: - Sr. Presidente, Meretíssimos Juízes, a minha cliente deseja declarar-se culpada. O presidente do tribunal recostou-se na cadeira e fitou Chotas surpreendido, como se estivesse a ouvir a notícia pela primeira vez. Está a levar ojogo até ao fim, pensou Noelle. Quer fazer por merecer o dinheiro que vai ganhar ou o que Demiris lhe vai dar. O presidente inclinou-se para a frente e aconselhou-se junto dos outrosjuízes numa agitação de murmúrios. Concordaram, e o presidente baixou o olhar para Noelle e disse:


- Deseja declarar-se culpada? Noelle aquiesceu e disse com firmeza: - Desejo. Frederick Stavros expressou-se com rapidez, como se receasse ficar de fora do processo. - Meretíssimos Juízes, o meu cliente deseja declarar-se culpado. O presidente voltou-se e olhou para Larry. - Deseja declarar-se culpado? Larry olhou de relance para Chotas e aquiesceu. - Desejo. O presidente examinou os dois prisioneiros com o rosto grave. - Foram advertidos pelos vossos advogados de que à luz do direito grego a pena por crime premeditado é a execução? - Sim, senhor doutor juiz. - A voz de Noelle era forte e clara. O presidente voltou-se para Larry. - Sim, senhor doutor juiz. Seguiu-se nova consulta sussurrada entre osjuízes. O presidente do tribunal voltou-se para Demonides. - O procurador da República tem alguma objecção a fazer em relação à alteração daalegação? Demonides olhou para Chotas longamente, dizendo depois: - Nenhuma. Noelle interrogou-se se ele também fazia parte da folha de pagamentos, ou se estavasimplesmente a ser usado como peão. - Muito bem - disse o presidente. - Ao tribunal só resta aceitar a decisão. - Voltou-se para ojúri. - Meus senhores, em vistadesta evolução, ficam deste modo libertados do vosso dever de jurados. Com efeito, o julgamento chegou ao seu término. O tribunal irá ditar a sentença. Agradeço os vossos serviços e a vossa cooperação. A sessão será suspensa por duas horas. No momento seguinte, os repórteres começaram a sair da sala aos atropelos, correndo para


os telefones e máquinas do teletipo para dar notícia do recente e sensacionaldesenvolvimento dojulgamento porhomicídio de Noelle Page e Larry Douglas. Duas horas depois, a sala de audiências estava apinhada de público quando o tribunal voltou a reunir. Noelle deu um relance pelos rostos dos espectadores. Olhavam-na com expressões de expectativa ansiosa, e foi tudo quanto Noelle podia fazer para não se rir em voz alta da sua ingenuidade. Eram pessoas comuns, o povo, que realmente acreditavam que ia fazer-sejustiça, que em democracia todos os homens eram iguais, que um pobre tinha os mesmos direitos e privilégios que um rico. - Levantem-se os réus e aproximem-se da tribuna. Graciosamente, Noelle pôs-se de pé e avançou em direcção à tribuna, ladeada por Chotas. Do canto do olho viu Larry e Stavros avançarem. Teve a palavra ojuiz-presidente. - Assistimos a umjulgamento longo e difícil -começou por dizer. - Em casos importantes onde se verifica uma dúvida razoável de culpa, o tribunal inclina-se sempre para dar aos acusados o benefício da dúvida. Devo confessar que neste casosentimos que tal dúvida existia. O facto de que a Acusação não conseguiu apresentar ocorpo do delito era um ponto muito forte em favor dos réus. - Olhou para Napoleon Chotas. - Estou certo de que o competente advogado de Defesa está bem ciente de que os tribunais gregos nunca se decidiram pela pena de morte num caso em que a prática do homicídio não tenha ficado definitivamente provada. Uma ligeira sensação de mal-estar começou a invadir Noelle, nada de alarmante, porém,apenas uma sugestão, uma leve insinuação. O presidente prosseguia. - Eu e os meus colegas ficamos, por essa razão, sinceramente surpreendidos quando os réus decidiram passar as suas alegações para culpados, em plenojulgamento. A sensação estava agora na boca do estômago de Noelle, a crescer,a subir, a começar aapertar-lhe a garganta, de tal forma que começou a ter dificuldades em respirar. Larry fitavaojuiz, ainda sem compreender totalmente o que estava a passar-se. - Damos valor à introspecção agonizante que deve ter acontecido antes de os réus terem decidido confessar-se culpados perante este tribunal e perante o mundo. Todavia, o alívio das suas consciências não pode ser aceite como atenuante do crime terrível que confessaram ter cometido: a morte a sangue-frio duma mulher impotente e indefesa. Foi nesse momento que Noelle soube, com uma certeza súbita e esmagadora, que foraludibriada. Demiris preparara uma charada para acalmá-la num sentimento de falsasegurança para que pudesse fazer-lhe isto. Este foi o seujogo, esta foi a armadilha quemontara. Ele sabia do medo que ela tinha de morrer, de forma que lhe atirou a corda da vidae ela aceitou-a, acreditou nele, e ele enganou-a. Demiris queria vingar- se agora,


nãodepois. Podia ter salvo a vida. Claro que Chotas sabia que não seria condenada à morte anão ser que se apresentasse um cadáver. Não fizera nenhum contrato com osjuízes. Chotastinha montado toda a defesa para atrair Noelle até à morte. Voltou-se para olhá-lo. Ergueu o olhar para enfrentar a contemplação dela, e os olhos dele estavam cheios de pura tristeza. Amava-a e matara-a, e se tivesse de o fazer outra vez faria a mesma coisa, porque afinal de contas era um homem de Demiris, tal como ela era uma mulher de Demiris, e nenhum deles conseguia combater o poder dele. O presidente dizia: E pelos poderes de que estou investido pelo Estado e em conformidade com as leisvigentes, declaro que os dois réus, Noelle Page e Lawrence Douglas, serão executados porum pelotão de fuzilamento... pena que será executada dentro de noventa dias contados a partida desta data. O tribunal era um pandemónio, mas Noelle já não ouvia nem via nada. Algo a fizera a olharpara trás. O lugar vaziojá não estava desocupado. Constantin Demiris estava sentado nele. Acabara de sair do barbeiro. Vestia um fato azul de seda crua, impecavelmente talhado, uma camisa azul-clara e uma gravata de seda. Os seus olhos cor de azeitona estavam brilhantes e vivos. Não havia sinal do homem derrotado e desfeito que fora vê-la à prisão, porque esse homem nunca existira. Constantin Demiris viera ver Noelle no momento da sua derrota,para saborear o temor que ela sentia. Os seus olhos negros estavam cravados nos dela, e por um milésimo de segundo ela viu neles uma satisfação profunda e malévola. E havia algo mais. Remorso, talvez, masjá tinha desaparecido antes que ela pudesse captá-lo, e de qualquer formajá era tarde de mais. A partida de xadrez findara por fim. Larry ouvira as últimas palavras do presidente com descrença chocada, e, quando umoficial de diligências avançou e o levou pelo braço, Larry soltou-se e voltou-se de novo para a tribuna. - Esperem! - gritou ele. - Eu não a matei! Isto foi uma armadilha! Outro oficial de diligências precipitou-se e os dois homens seguraram Larry. Um deles tirou um par de algemas. - Não! - gritava Larry. - Ouçam-me! Eu não a matei! Tentou desprender-se das mãos dosoficiais de diligências, mas as algemas fecharam-se-lhe nos pulsos e ele foi arrastado parafora da sala. Noelle sentiu uma pressão sobre o braço. Uma mulher-polícia aguardava-a para escoltá-la para fora da sala. - Estão à sua espera, Miss Page.


Parecia a chamada para o palco. Estão à sua espera, Miss Page. Só que, desta vez, quando o pano descesse, não voltaria a levantar-se. Ao pensar nisso, Noelle apercebeu-se de que seria a última vez na vida que estaria em público, a última vez que estaria rodeada de pessoas, fora das grades. Era a hora da despedida, e esta sala de audiências grega, suja e medonha, o seu último teatro. Bem, pensou ela desafiadoramente, pelo menos a sala está cheia.Percorreu o olhar pela sala apinhada de gente uma última vez. Viu Armand Gautier que afitava em silêncio espantado, despido ao menos uma vez do seu cinismo. Lá estava Philippe Sorel, de rosto congestionado, esforçando-se por um sorriso encorajante, sem o conseguir. Do outro lado da sala estava Israel Katz, de olhos fechados e os lábios movimentandosecomo se dissesse uma oração silenciosa. Noelle lembrou-se da noite em que o meteu noporta-bagagens do carro do general, nas barbas do oficial albino da Gestapo, e do medo queentão sentira. Mas isso não era nada quando comparado ao medo que a possuía agora. Os olhos de Noelle percorreram a sala e descansaram no rosto de Auguste Lanchon, o lojista. Não conseguiu lembrar-se do nome dele, mas lembrava-se da cara de suíno e docorpo atarracado e grosseiro e do quarto medonho do hotel em Viena. Quando a viu olharpara ele, pestanejou e baixou os olhos. Um homem com ar de americano, alto, atraente e de cabelos grisalhos, olhava-a fixamente como se desejasse dizer-lhe qualquer coisa. Noelle não fazia ideia de quem se tratava. A guarda empurrava-lhe agora o braço, dizendo: - Vamos, Miss Page... Frederick Stavros estava em estado de choque. Não só fora testemunha de uma trama asangue-frio; fizera parte da mesma. Podia ir ter com o presidente do tribunal e contar-lhe oque acontecera: o que Chotas prometera. Mas iriam acreditar nele? Aceitariam a palavradele contra a de Napoleon Chotas? Realmente não importava, pensou Stavrosamargamente. Depois disto, estava destruído como advogado. Ninguém solicitaria os seusserviços nunca mais. Alguém o chamou e ele voltou-se; era Chotas que dizia: - Se estiver livre amanhã, porque não vem almoçar comigo, Frederick? Gostaria queconhecesse os meus sócios. Acho que você tem um futuro muito prometedor. Sobre o ombro de Chotas, Frederick Stavros viu o presidente do tribunal sair da sala e entrar no gabinete particular. Seria a altura de lhe falar, de lhe explicar o sucedido. Stavros voltou-se para Napoleon Chotas, completamente horrorizado com a acção deste homem, e ouviu-se a si próprio dizer: - É muita gentileza sua. Que hora mais lhe convinha... ? Pela lei grega, as execuções realizam-se na pequena ilha de Agena, situada a uma hora de distância do porto de Pireu. Um barco especial do Estado transporta até à ilha


osprisioneiros condenados. Uma série de pequenos rochedos cinzentos ladeiam o caminhoque vai dar ao próprio porto, e bem no cimo duma colina está um farol construído numa saliência duma rocha. A prisão de Agena fica no lado norte da ilha, fora da vista do portinho onde os barcos de excursão deixam regularmente turistas excitados para uma ou duas horas de compras e de passeio antes de prosseguirem viagem até à próximailha. Aprisão não faz parte do programa turístico, e ninguém se aproxima a não ser por razões oficiais. Eram quatro horas duma manhã de domingo. A execução de Noelle estava marcada para as seis da manhã. Trouxeram a Noelle o seu vestido preferido, um Dior de lã cor de vinho, e sapatos de camurça a condizer. Ia estrear roupa interior bordada à mão e um peitilho de renda branca de Veneza. Constantin Demiris mandara-lhe a cabeleireira habitual. Parecia que Noelle se preparava para uma festa. Racionalmente, Noelle sabia que não haveria perdão de última hora, que dentro de pouco tempo o seu corpo seria brutalmente violado e o seu sangue se espalharia pelo chão. E, no entanto, emocionalmente, continuava a esperar que Constantin Demiris fizesse um milagre e lhe poupasse a vida. Nem precisava de ser um milagre bastava apenas um telefonema, uma palavra, um aceno com a sua mão dourada. Se a poupasse agora, compensá-lo-ia. Faria tudo. Se ao menos pudesse vê-lo, dir-lhe-ia que não voltaria a olhar para outro homem, que se dedicaria a fazê-lo feliz para o resto da vida. Mas sabia que não adiantava implorar. Se Demiris viesse ter com ela, estava bem: se tinha de ir ter com ele, não. Ainda faltavam duas horas. Larry Douglas estava noutra secção da prisão. Desde a condenação, o seu correioaumentara dez vezes. Chegavam cartas de mulheres de todo o mundo, e o guarda, que seconsiderava um homem sofisticado, ficava chocado com algumas delas. Larry Douglas tê-las-ia provavelmente apreciado se tivesse tido conhecimento das mesmas. Mas estava drogado num mundo de meio-crepúsculo onde nada o atingia. Nos primeiros dias na ilha, ficara num estado de violência, gritando noite e dia que era inocente e exigindo um novojulgamento. O médico da prisão ordenara por fim que ficasse sob o efeito de tranquilizantes. Quando faltavam dez minutos para as cinco horas da manhã, hora a que os guardas vieram à cela de Larry Douglas, estava sentado no beliche, calmo e retirado. Oguarda teve de dizer o nome dele duas vezes para que Larry desse conta de que o tinham vindo buscar. Pôs-se de pé, com movimentos sonâmbulos e letárgicos. O guarda levou-o; e caminharam em lenta procissão até umaporta guardada ao fundo docorredor. Assim que chegaram à porta, o guarda abriu-a e estavam no exterior, num pátio murado. O ar do princípio do dia era frio e Larry tremia quando atravessou a porta. No céu havia estrelas e uma lua cheia. Vieram-lhe à ideia as manhãs nas ilhas do Sul do Pacífico quando os pilotos deixavam os seus beliches quentes e se agrupavam sob as estrelas frias para uma última verificação das instruções de voo antes da descolagem. Ouvia o som do mar ao longe, e tentou lembrar-se em que ilha estava e qual era a sua missão. Uns homens levaram-no para um poste em frente a uma parede e ataram-lhe as mãos atrás das costas.


Não sentia qualquerraiva agora, apenas uma espécie de admiração sonolenta pela forma como as instruções de voo estavam a ser feitas. Estava possuído por uma enorme lassidão, mas sabia que não podia adormecer porque tinha de comandar a missão. Ergueu a cabeça e viu os homens de uniforme alinhados. Apontavam as armas para ele. Surgiram instintos antigos e esquecidos. Eles atacariam de todas as direcções e tentariam separá-lo do resto da esquadrilha, porque tinham medo dele. Viu um movimento a três quartos e sabia que vinham atrás dele. Esperavam que saísse do alcance, mas em vez disso meteu os comandos afundo e fez um loop exterior que quase destruiu asasas do seu avião. Desceu até aoextremo do voo a pique e executou um torreau para a esquerda. Não havia sinal deles. Tinha-os despistado. Começou a subir, quando avistou em baixo um Zero. Deu uma gargalhada e virou a alavanca dos comandos e o leme da direcção para a direita, até o Zero ficar enquadrado na mira das suas metralhadoras. Depois mergulhou como um anjovingador, reduzindo a distância com uma velocidade estonteante. O dedo começou a apertaro gatilho quando uma dor repentina e excruciante se espalhou pelo seu corpo. E mais uma. E mais outra. Sentia a carne rasgar-se e as tripas saltarem, e pensou: Oh, meu Deus, dondeé que ele apareceu?. Há um piloto melhor que eu... quem será... ? E então fez um parafuso súbito, e a escuridão tomou conta de tudo e fez-se silêncio. Na sua cela, Noelle arranjava o cabelo quando ouviu um trovão ribombar no céu. - Vai chover? A cabeleireira olhou para ela intrigada por um momento e viu que ela não sabia realmente que barulho era. - Não - disse ela calmamente -, vai estar um dia lindo. Então Noelle entendeu. A seguir era ela. Às cinco horas e trinta minutos, meia hora antes da hora aprazada para a execução, Noelle ouviu passos aproximarem-se da cela. O coração deu um salto involuntário. Tivera a certeza de que Constantin Demiris quereria vê-la. Sabia que nunca estivera tão bela, e talvez quando ele a visse... talvez... O director da prisão apareceu, acompanhado por uma guarda e uma enfermeira que trazia uma maleta de médico preta. Noelle olhou para trás delas em busca de Demiris. O corredor estava vazio. O guarda abriu a porta da cela, e o director e a enfermeira entraram. Noelle deu conta de que tinha o coração aos pulos, que a vaga de medo começava a afectá-la outra vez, afogando a ténue esperança que a agitava. - Ainda não são horas, pois não? - perguntou Noelle. O director ficou embaraçado. - Não, Miss Page. A enfermeira veio dar-lhe um clister. Olhou para ele, sem perceber. - Não quero clister nenhum. Ficou ainda mais embaraçado. - É para não a deixar ficar... mal.


E depois Noelle percebeu. E o seu receio tornou-se uma agonia violenta, que lhe rasgava o estômago. Abanou a cabeça em consentimento, pelo que o director girou e saiu da cela. A guarda trancou a porta e discretamente ficou no corredor, ficando fora de vista. - Não queremos estragar este vestido tão bonito - dizia a enfermeira suavemente. - Por que não o tira num instante e se deita ali? É só um minuto. A enfermeira deu início à sua tarefa, mas Noelle não deu por nada. Estava com o pai, que lhe dizia: Olhem para ela, um estranho diria que era de sangue-azul, e as pessoas esforçavam-se por pegá-la ao colo. Havia um padre na cela, que disse: Gostava de confessar-se a Deus, minha filha?, mas ela abanou a cabeça impacientemente porque o pai estava a falar e queria ouvir o que estava a dizer. Nasceste princesa, e este é o teu reino. Quando cresceres, casarás com um belo príncipe e viverás num palácio magnífico. Descia um corredor comprido acompanhada de alguns homens, e alguém abriu uma porta e ela deu por si num pátio frio no exterior. O pai segurava-ajunto a umajanela, donde viu os mastros altos de navios que balançavam na água. Os homens conduziram-na para um poste que havia em frente a uma parede e amarraramlhe as mãos atrás das costas e prenderam-na ao poste, e o pai disse: Estás a ver aqueles navios, Princesa? É a tua frota. Um dia levar-te-ão a todos os lugares mágicos do mundo. Eapertou-a e ela sentiu-se segura. Não se lembrava do motivo, mas ele zangara-se com ela,mas agora estava tudo bem, e amava-a outra vez, e ela voltou-se para ele, mas o rosto deleera uma sombra indistinta, e não conseguia lembrar-se como era. Não conseguia lembrar-seda cara dele. Ficou com uma tristeza esmagadora, como se tivesse perdido algo precioso, e sabia quetinha de se lembrar dele ou então morreria, e começou a concentrar-se ao máximo, mas,antes que pudesse apercerber-se, houve um som violento e repentino e mil facas de agoniarasgaram-lhe a carne, e na sua cabeça ouvia-se o grito: Não! Ainda não! Deixem-me ver acara do meu pai! Mas o rosto do pai perdera-se eternamente na escuridão.

EPÍLOGO O homem e a mulher percorriam o cemitério, com os rostos escurecidos pelas sombras dosciprestes altos e graciosos que ladeavam o caminho. Caminhavam lentamente no calortremeluzente do sol do meio-dia. A Irmã Teresa dizia:


- Quero exprimir-lhe uma vez mais o nosso profundo agradecimento. Não sei o que seria denós sem a sua ajuda. Constantin Demiris acenou uma mão em ar de protesto. - Arhaito - disse ele. - Não é nada, Irmã. Mas a Irmã Teresa sabia que sem este salvador o convento teria encerrado há anos. Ecertamente era um sinal do Céu de que agora conseguira pagar-lhe na mesma medida. Eraum thriamvos, um triunfo. Agradeceu a São Dionísio uma vez mais por as Irmãs terempodido salvar a amiga americana de Demiris das águas do lago na terrível noite datempestade. Era incontestável que o cérebro da mulher ficara afectado, pois parecia umacriança, mas seria tratada. O Sr. Demiris pedira à Irmã Teresa para mantê-la dentro destasparedes, abrigada e protegida do mundo exterior para sempre. Que homem tão bom ecarinhoso. Haviam chegado ao fim do cemitério. Havia um caminho que serpenteava até um promontório onde a mulher se encontrava, contemplando o lago calmo e verde-esmeralda lá em baixo. - Lá está ela - disse Irmã Teresa. - Vou deixá-lo agora. Hayretay. Demiris observou a Irmã Teresa retomar o caminho de volta para o convento, depois desceu o caminho até onde a mulher se encontrava. - Bom dia - disse ele, gentilmente. Ela voltou-se lentamente e olhou para ele. Os seus olhos estavam tristes e vazios, e o seu rosto estava irreconhecível. - Trouxe-lhe uma coisa - disse Constantin Demiris. Tirou um pequeno estojo do bolso e deu-lho. Fitou como se fosse uma criança. - Tome, é para si. Lentamente, estendeu a mão e segurou no estojo. Abriu-o e lá dentro, aninhado em algodão, havia um pássaro de ouro em miniatura, de fabrico refinado, com olhos de rubi e asasabertas em pose de voo. Demiris olhava enquanto a mulher criança o retirava do estojo e osegurava. O sol brilhante reflectiu-se no ouro e no faiscar dos olhos rubis e causouminúsculos arcos-íris no ar. Virou-o de um lado para o outro, observando as luzes quedançavam à volta da cabeça dela. - Não voltarei a vê-la - disse Demiris -, mas não se preocupe. Ninguém lhe fará mal. Osmaus morreram.


Enquanto ele falava, o rosto dela voltou-se por acaso na sua direcção, e por um breveinstante pareceu a Demiris que um clarão de inteligência, um olhar de alegria apareceramno olhar dela, desaparecendo logo a seguir, e apenas ficou o olhar vazio e ausente. Poderiater sido uma ilusão, um raio de sol que tivesse reflectido o brilho do pássaro de ouro nosseus olhos. Pensava nisso quando subia lentamente a colina, e saiu o enorme portão depedra do convento, onde o aguardava a limusina que o levaria de volta a Atenas. Chicago Londres Paris Atenas Jânina Los Angeles ISBN 972-1-03305-7 5 601072 612020 Fim


Sidney sheldon o outro lado da meia noite