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A MENSAGEM DE

I TIMÓTEO E TITO A vida da igreja local A doutrina e o dever

JOHN STOTT


A MENSAGEM DE I TIMÓTEO E TITO

A

sociedade de hoje, totalmente imersa no pluralismo e no relativismo rejeita a verdade absoluta do Evangelho. Como instruir os cristãos a guardarem a fé num meio tão hostil? John Stott percebe que essa era a preocupação do apóstolo Paulo ao escrever a Timóteo e a Tito^jovens líderes da igreja cristã no início do século'I. Mas será que a mensagem do Evangelho consegue sobreviver num ambiente pós-modernò? Este é o desafio desta geração!

John Siott é Reitor Emérito da Igreja Ali Souls, em Langham PI|ce, Londres, e é presidente da Christian Impact. Ele é internacionalmente reconhecido como um mestre da Bíblia e por sua contribuição à missão cristã. É autorsde vários livros, entre os quais: A mensagem de 2a Timóteo, Os desafios da liderança cristã, Ouça o Espírito - ouça o mundo, A mensagem do Sermão dcfMonte, A Mensagem de Atos, Crer é Também Pensar e Romanos entre outros.

EDITORA Respostas bíblicaspara o mundo hoje

www.abub.org.br/editora


A BÍBLIA FALA HOJE Editores da Série: J. A. Motyer (AT) John R. W. Stott (NT)

A Mensagem de 1 TIMÓTEO e TITO


Outros livros desta série: A Mensagem de Rute (Asas de refúgio) - David Atkinson A Mensagem de Eclesiastes (Tempo de chorar, tempo de rir) - Derek Kidner A Mensagem de Daniel (O Senhor é R ei)- Ronald S. Wallace A Mensagem de Oséias (Ame o não-amado)- Derek Kidner A Mensagem de Amós (O Dia do Leão) - J. A. Motyer A Mensagem do Sermão do Monte (A contracultura cristã) - John R. W. Stott A Mensagem de Atos (Até os confins da terra) - John R. W. Stott A Mensagem de 1 Coríntios (A vida na igreja local) - David Prior A Mensagem de Gálatas (Somente um caminho) - John R. W. Stott A Mensagem de Efésios (A nova sociedade) - John R. W. Stott A Mensagem de 2 Timóteo (Tu, Porém) - John R. W. Stott A Mensagem de Apocalipse (Eu vi o céu aberto) - Michael Wilcock Romanos - John R. W. Stott


A MENSAGEM DE 1 TIMÓTEO E TITO Traduzido do original em inglês

The Message of 1 Timothy and Titus Inter-Varsity Press, Leicester, Inglaterra Direitos reservados pela A BU Editora S/C Caixa Postal 2216 - 01060-970 - São Paulo, SP E-mail: editora@abub.org.br Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a permissão escrita da A B U Editora. Tradução: M ilton A zevedo Andrade Revisão: Edison Mendes de Rosa O texto b íb lico utilizado neste livro é segundo a N ova Versão Internacional (NV1), da Sociedade B íb lica Internacional, exceto quando outra versão é indicada. Foram citadas, sempre que possível, as versões da Bíblia em português que mais se aproximam do sentido do texto bíblico em inglês. N os casos em que não há uma correspondência, foi feita a tradução da citação, com a menção da fonte original. Ia. Edição: 2004. A A BU Editora é a publicadora da ABU B - Aliança Bíblica Universitária do Brasil. A A B U B é um m ovim en to m ission ário ev a n g élico interdenom inacional que tem com o objetivo básico a evangelização e o discipulado de estudantes (universitários e secundaristas) e de profissionais, com apoio de igrejas e profissionais cristãos. Sua atuação se dá através dos próprios estudantes e profissionais, por m eio de núcleos de estudo bíblico, acampamen­ tos e cursos de treinamento. A A B U B faz parte da IFES - In tern a tio n a l F ellow sh ip o f Evangelical Stu den ts entidade internacional que congrega m ovim entos estudantis sem e­ lhantes por todo o mundo.

Dados internacionais de catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Stott, John R.W. A m ensagem de l 1 T im ó teo e T ito : a vida da Igreja local : a doutrina e o dever / John R.W. S t o t t ; tradução M ilton Azevedo Andrade. — São P aulo : ABU Editora, 2004. — (A Bíblia fala hoje / editore J.A. M otyer (AT), John R.W. Stott (N T )) T ítu lo original: T he m essage o f 1 T im oth y and T itus 1. Bíblia. N.T. T im óteo, Ia - Crítica e interpretação 2. Bíblia. N.T. T ito - Crítica e interpretação. 3. Vida cristã - Ensino bíblico I. M otyer, J.A.. II. T ítulo. III. Série.)

0 4 -5 1 9 5

C D D - 227.8306 - 227.8506

1. Timóteo, I a : Epístolas Paulinas : interpretação e crítica 227.8306 2 Tito : Epístolas Paulinas : interpretação e crítica 227.8506


Prefácio geral

A Bíblia Fala Hoje é o titulo de uma série de exposições, tanto do Antigo como do Novo Testamento, que se caracterizam por um ideal tríplice: apresentar o texto bíblico com precisão, relacioná-lo com a vida de hoje e proporcionar uma leitura agradável. Assim, esses livros não são “comentários”, pois o objetivo de um comentário é muito mais elucidar o texto do que aplicá-lo, tendendo a ser mais uma obra de referência do que de literatura. E, por outro lado, eles não contêm aquele tipo de “sermão” que tenta ser contemporâneo e agradar o leitor, sem contudo preocupar-se em levar as Escrituras suficientemente a sério. Todos os autores que contribuíram para esta série compartilham a convicção de que Deus ainda fala através daquilo que falou no passado, e de que nada contribui tanto para a vida, a saúde e o crescimento do cristão como ouvir o que o Espírito continua lhes dizendo por intermédio da sua antiga (e eternamente moderna) Palavra.

J.A.MOTYER J.R.W .STOTT Editores da Série


/•

Indice I ’rcfácio geral Prefácio do autor Principais abreviaturas

5 9 14

A autenticidade das Cartas Pastorais 1. A posição da autoria paulina 2. A posição de uma autoria não-paulina 3. As posições favorável e contrária a um autor pseudônimo 4. A hipótese de um amanuense ativo Conclusão

16 16 18 23 25 28

A.

31

A VIKNSAGEM 1)1.1 TIMÓTEO

A vida da igreja local Introdução (1.1-2)

33

I. A doutrina apostólica (1.3-20) I. Os falsos mestres e alei (1.3-11) 2 .0 apóstolo Paulo e o evangelho (1.12-17) 3. Timóteo e o bom combate (1.18-20)

37 39 47 53

2 .0 culto público (2.1-15) 1. Enfoque mundial no culto público (2.1-7) 2. Atribuições segundo o sexo, no culto público (2.8-15) Questões finais

56 57 71 86

3. A Supervisão pastoral (3.1-16) 1. Os supervisores (3.1-7) 2. Os diáconos (3.8-13) 3. Aigreja(3.14-16)

88 90 99 102

4. A liderança local (4.1 -5 .2) 1. A detecção do falso ensino (4.1-10) 2. A recomendação do ensino verdadeiro (4.11-5.2)

109 109 119


5. Responsabilidades sociais (5.3 - 6.2) 1. Viúvas (5.3-16) 2. Presbíteros (5.17-25) 3. Escravos (6.1-2)

128 128 137 144

6. Posses materiais (6.3-21) 1. Instrução quanto aos falsos mestres (6.3-5) 2. Instrução ao cristão pobre (6.6-10) 3. Instrução a um homem de Deus (6.11-16) 4. Instrução ao cristão rico (6.17-19) 5. Uma instrução pessoal para Timóteo (6.20-21)

148 149 151 157 163 166

B.AMENSAGEMDETITO

169

A doutrina e o dever Os temas principais da carta

171

Introdução (1.1-4) 1. Paulo apresenta-se 2. Paulo dirige-se a Tito 3. Paulo deseja a Tito a graça de Deus

172 172 174 176

1. A doutrina e o dever na igreja (1.5-16) 1. Os verdadeiros presbíteros (1.5-9) 2. Os falsos mestres (1.10-16)

177 177 183

'

2. A doutrina e o dever no lar (2.1-15) 1. Os deveres éticos (2.2-10) 2. A sã doutrina (2.11-14)

190 192 197

3. A doutrina e o dever no mundo (3.1-8) 1. Os cristãos na vida pública (3.1-2) 2. Ingredientes de salvação (3.3-8)

203 203 205

4. Mensagens pessoais finais (3.9-15)

214

Guia de Estudo

219

Bibliografia

235


Prefácio do autor Eu era relativamente jovem quando comecei a estudar com seriedade as Cartas Pastorais, de modo que me senti bem à vontade ao me sentar então ao lado de Timóteo e Tito, ouvindo com os ouvidos deles as admoestações do apóstolo, que já era de certa idade. Mas agora a situação é outra. E quase certo que eu tenha mais idade do que tinha o apóstolo, e o natural para mim é sentarme ao lado de Paulo. E claro que não sou um apóstolo, mas creio que sinto um pouco da sua preocupação quanto ao futuro do evangelho e quanto à geração mais jovem que tem a responsabilidade de guardá-lo e passá-lo adiante. É uma questão hermenêutica interessante saber com quem podemos ou devemos nos identificar quando estamos lendo as Escrituras. Minha primeira tentativa de expor as três Cartas Pastorais foi durante o outono de 1972, quando fui convidado a dar palestras sobre elas na Trinity Evangelical Divinity School, que fica nas imediações de Chicago. Mas antes disso, nos anos sessenta, eu havia pregado sobre elas na Igreja Ali Souls de Londres. Posteriormente, 2 Timóteo foi o texto escolhido para as exposições bíblicas na grande convenção missionária estudantil realizada em Urbana, em 1967, e na Convenção de Keswick na Inglaterra, em 1969. Aqueles estudos de 2 Timóteo foram ampliados e publicados em 1973 como um dos primeiros livros da série A Bíblia Fala Hoje, saindo com o título Guard the Gospel.1 A carta de 1 Timóteo foi, então, o texto que me foi dado para as Escolas de Verão da Sociedade Missionária da Igreja da Austrália, em 1986; e para o evento “Comissão 88”, conferência estudantil missionária da África oriental, realizada nas imediações de Nairobi, no final de 1988. Assim, este penúltimo livro da séri&A Bíblia Fala Hoje (a se completar com a exposição do evangelho de Mateus por Roy Clements e Peter Comont) enfoca 1 Timóteo e Tito. Abordo a questão da autenticidade das Cartas Pastorais num capítulo introdutório. Neste Prefácio, limito-me a considerar a relevância destas cartas para o mundo e para a igreja de hoje, especialmente a importância que 1 Timóteo e Tito têm. *> A relevância de 1 Timóteo e Tito Redigir uma lista de tópicos para os quais estas duas cartas dão uma substancial contribuição é compilar uma variedade enorme e heterogênea de temas. O subtítulo que dei à exposição de 1 Timóteo foi “A vida da igreja local”. 1 Publicado no Brasil pela A BU Editora sob o título de Tu, Porém , em 1982.


Pois ela contém a instrução apostólica quanto à prioridade da oração, quanto à parte que compete a homens e mulheres na condução do culto público, quanto à relação entre a igreja e o estado e quanto à base bíblica para a evangelização mundial. O apóstolo prossegue, escrevendo sobre a liderança da igreja local, sobre as condições para a eleição de pastores e sobre como líderes jovens poderão fazer com que seu ministério seja aceito, e não desprezado ou rejeitado por causa da sua juventude. Outros assuntos incluem a doutrina da criação e sua aplicação no nosso comportamento do dia-a-dia; os princípios que governam a obra social da igreja; a remuneração e a disciplina de pastores; a superioridade, em relação à cobiça, de se contentar com o que se tem; o chamado para uma santidade radical; e os perigos e deveres de quem é rico. À exposição de Tito dei o subtítulo de “A doutrina e o dever”, pois, embora o contexto seja ainda a igreja local, a ênfase é outra. O principal enfoque de Paulo agora é que, nas três esferas em que atuamos - da igreja, do lar e do mundo - nossos deveres cristãos na presente era serão reforçados por uma abrangente doutrina da salvação e especialmente pelas duas vindas de Cristo, a passada e a futura. Mas a preocupação dominante do apóstolo em todas as três Cartas Pastorais é com a verdade, para que ela seja guardada e transmitida fielmente. A relevância desse tema, nos dias de hoje, é evidente, pois a cultura contemporânea está sendo ultrapassada e suprimida pelo espírito do pós-modernismo. O pósmodemismo inicia-se como sendo uma reação autoconsciente ao modernismo do Iluminismo, especialmente à sua desmedida confiança na razão, na ciência e no progresso. A mente pós-modemista acertadamente rejeita esse otimismo tão ingênuo. Mas a partir daí prossegue declarando não haver o que seja uma verdade objetiva e universal; que toda a assim chamada “verdade” é puramente subjetiva, sendo influenciada pela cultura e que, portanto, cada um de nós tem a sua verdade, que tem tanto direito de ser respeitada quanto a verdade de qualquer outra pessoa. O pluralismo é um subproduto do pós-modemismo; ele afirma a validade que há em cada fé e ideologia e exige de maneira incisiva que abandonemos, como sendo totalmente arrogante, qualquer tentativa de converter alguém (e muito menos todas as pessoas) à nossa posição pessoal. Em contraste a essa relativização da verdade, é muito agradável ler o claro compromisso que Paulo tinha para com ela. Ele mesmo havia sido designado diz ele - como “mestre da verdadeira fé aos gentios” (lT m 2.7); a igreja é “coluna e fundamento da verdade” (lT m 3.15); e é a verdade que “conduz à piedade” (Tt 1.1). Os falsos mestres, por outro lado, “desviaram-se da verdade” e até mesmo “resistem à verdade” (lTm 6.21; 2Tm2.18; 3.8; cf. 4,4). A medida que o apóstolo desenvolve a sua tese, vamos tendo ciência da existência de quatro grupos de pessoas e da interação que há entre eles, a saber: Paulo e os demais apóstolos, os falsos mestres, Timóteo e Tito e os pastores que eles têm que selecionar e nomear.


Primeiro, o próprio Paulo. No início de cada uma das três cartas, ele se apresenta como um apóstolo de Jesus Cristo, acrescentando em duas delas que seu apostolado é pela vontade ou por ordem de Deus. E nessas cartas, ele demonstra estar sempre consciente da sua autoridade apostólica, uma vez que dá ordens e espera ser obedecido. Também com freqüência ele se refere ao que chama, indiscriminadamente, de “a verdade”, “a fé”, “a sã doutrina”, “o ensino” e “o depósito”. O que se deduz de forma bem clara é que existe um corpo de doutrina que, tendo sido revelado e dado por Deus, objetivamente é verdadeiro. E o ensino dos apóstolos. Paulo constantemente manda que Timóteo e Tito se voltem para esse ensino, junto com as igrejas que supervisionam. Em segundo lugar, em oposição a Paulo, há os falsos mestres. Eles são heterodidaskaloi (lTm 1.3; 6.3), envolvidos no ensino do que é heteros, diferente e estranho ao ensino dos apóstolos. Eles são essencialmente causadores de desvios, uma vez que “se desviaram” da fé ou “a abandonaram” (lT m 1.6; 4.1; 2Tm 2.18). Paulo não mediu palavras. O que eles estavam disseminando não era uma verdade alternativa, mas eram “mentiras”, “conversas profanas”, “fábulas” e “controvérsias tolas”.2 Em terceiro lugar, estão Timóteo e Tito. Eles posicionam-se entre o apóstolo e a igreja, no sentido de que o representam e transmitem o ensino dele à igreja. Eles haviam sido designados para supervisionar as igrejas em Efeso e em Creta, respectivamente, e a especificação de suas funções foi escrita por Paulo. Por duas vezes em sua primeira carta a Timóteo, ele lhe diz que espera ir visitá-lo em breve (3.14; 4.13). Entretanto, antes que isso acontecesse, era para Timóteo dedicar-se à exposição pública das Escrituras, baseando nelas o seu ensino e a sua exortação, e também seguir as instruções que Paulo lhe dava por escrito. Com efeito, os ensinamentos de Paulo por via escrita foram, pela providência divina, o que Deus usou para substituir as instruções que pessoalmente ele poderia ter dado. É por isso que não poucas vezes, mas por dez vezes em 1 Timóteo e Tito, Paulo escreve “ensine estas coisas”, “ordene e ensine estas coisas”, “procure observar essas instruções”.3 Em cada uma das ocorrências, tauta (“estas coisas”) significa o ensino que Paulo estava dando a Timóteo e a Tito. Não apenas eles mesmos teriam que se firmar nesse ensino, guardando o precioso depósito da verdade (lTm 1.19; 3.9; 6,20), e assim lutar por ele contra os falsos mestres ( lTm 1.18; 6.12), mas também teriam que transmiti-lo fielmente à igreja. Em quarto lugar, há os verdadeiros pastores, dignos de confiança, que estão para ser designados por Timóteo e Tito. Nas duas cartas, Paulo estabelece as condições que tais pessoas teriam que atender para ser eleitas (lTm 3 e Tt 1).

- lTm 1.4SS.; 4.2,7; 6.3ss.,20; Tt 1.14; 3.9; cf. 2Tm 2.16; 4.4. ’ lTm 3.14; 4.6,11,15; 5.7,21; 6.2,17; Tt 2.15; 3.8.


Além de um caráter moral consistente e uma vida familiar cristã, os escolhidos teriam de ser leais ao ensino do apóstolo e ter um dom de ensino, para que pudessem tanto ensinar a verdade como também refutar o erro (lT m 3.2;T tl.9). Aqui, então, acham-se os três estágios do ensino que estão por trás das Cartas Pastorais. Confrontando os falsos mestres, primeiramente, há a instrução apostólica dada por Paulo com autoridade; em segundo lugar, há Timóteo e Tito, que ensinam “estas coisas” a outros, especialmente aos pastores que estão para ser designados; e, em terceiro lugar, há esses pastores cuja tarefa é a de “encorajar a outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela” (Tt 1.9). Tais estágios são claramente estabelecidos em 2 Timóteo 2.2, onde o que Timóteo ouviu de Paulo deve ser confiado “a homens fiéis” (os pastores) que, por sua vez, “sejam também capazes de ensinar a outros” (todos os que fazem parte da igreja). E digno de nota que, nesse versículo, a fidedignidade (à Palavra) e a habilidade de ensino são as duas qualificações essenciais para o pastorado, que Paulo já havia estabelecido em 1 Timóteo 3.2 e Tito 1.9. Nesses três estágios de instrução, é vital preservar a descontinuidade entre Paulo, de um lado, e Timóteo, Tito, os pastores e as igrejas, de outro. A verdadeira sucessão apostólica é uma continuidade não de autoridade, mas de doutrina, isto é, o ensino dos apóstolos sendo passado de geração a geração. E o que faz com que essa sucessão doutrinária seja possível é que o ensino dos apóstolos foi escrito e deixado para nós no Novo Testamento. Assim como Paulo disse a Timóteo, no tempo em que estaria ausente, que observasse as Escrituras do Antigo Testamento e também as instruções escritas, desse mesmo modo temos nós hoje que proceder, pois agora Paulo está permanentemente ausente de nós. Sua morte, que se avizinhava, é perceptível por trás dessas três Cartas Pastorais, especialmente em 2 Timóteo, na qual ele afirma explicitamente que o tempo da sua partida havia chegado (2Tm 4.6). Assim, sua maior preocupação era assegurar a preservação do seu ensino após a sua morte. Agoira, já faz muito tempo que ele morreu. E não há mais um apóstolo com vida que possa tomar o seu lugar. Entretanto, temos seus escritos. De fato, temos toda a Bíblia, tanto o Antigo como o Novo Testamento, o legado escrito que nos deixaram os profetas e os apóstolos. “E is ... a diferença entre os apóstolos e seus sucessores”, escreveu Calvino: Os primeiros eram fiéis e genuínos escritores do Espírito Santo, e seus escritos devem ser, portanto, considerados oráculos de Deus; mas a única função dos demais é ensinar o que fo i fornecido e selado nas Escrituras Sagradas. Portanto, ensinamos que os ministros que agora são fiéis não mais têm a permissão de estabelecer qualquer doutrina nova, mas têm simplesmente que se apegar à doutrina a que Deus sujei­ tou todos os homens, sem exceção.4


Muita confusão na igreja em nossos dias é decorrente de não se fazer uma distinção suficientemente clara entre o período apostólico e o pós-apostólico. Nossos antepassados compreenderam isso melhor do que nós. A explicação feita por Oscar Cullmann dificilmente poderia ser melhorada: ... a igreja em sua infância distinguia muito bem a tradição apostólica da tradição eclesiástica, claramente subordinando esta última a aque­ la; em outras palavras, subordinando-se à tradição apostólica.s A fixação do cânon cristão das Escrituras [o Novo Testamento] signifi­ ca que a própria igreja, num determinado momento, traçou uma linha clara e definida, pondo uma demarcação entre o período dos apóstolos e o da igreja, entre o tempo de fundação e o de construção, entre a comunidade apostólica e a igreja dos bispos; em outras palavras, entre a tradição apostólica e a tradição eclesiástica. Se isso não fo r verdade, a formação do cânon não teria significado.6 Finalmente, agradeço ao Professor Stephen Williams e a Nelson Gonzáles por sua amável contribuição na compilação da Bibliografia. Sou ainda grato ao Nelson, que tem uma excepcional e desconcertante habilidade para localizar os pontos fracos de meus argumentos; ao Dr. Alastair Campbell, do Spurgeon’s College, que também está escrevendo sobre as Cartas Pastorais; a David Stone, que produziu mais um de seus valiosos guias de estudo bíblico; e a Jo Bramwell, por sua meticulosa tarefa de revisão do texto. Todos eles leram o texto digitado e fizeram sugestões, a que procurei responder tanto quanto possível. Finalmente, sou extremamente grato a Frances Whitehead, que completou muito bem seus quarenta anos de serviços prestados para a Igreja All Souls e para mim, digitando com perfeição este texto. Dia de Ano Novo de 1996 John Stott

1 ]. Caivino, instituías da Religião Cristã, traduzida para o inglês por F. L. Battles (Collins, 198 6 ), IV 8 .9 . s D e “The Tradition” (A Tradição) em O scar C ullm ann, The E a r ly Church (A ígrc-jii Prim itiva) - SCM, 1956, p. 87. " Ibid., p. 89.


Principais abreviaturas ARC

A Bíblia Sagrada - Edição Revista e Corrigida, trad, de João Ferreira de Almeida (Sociedade Bíblica do Brasil).

BAGD Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, traduzido e adaptado por William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich, segunda edição, revisto e ampliado por F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker, da quinta edição de Bauer, 1958 (University of Chicago Press, 1979), ao qual corresponde, em português, uma edição resumida: Léxico do N. T. Grego/Português - Edições Vida Nova. BJ

A

Bíblia de Jerusalém (São Paulo, Edições Paulinas, 1973).

BV

A

Bíblia Viva (São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1981).

BVN

A

Bíblia Vida Nova (São Paulo, Edições Vida Nova).

Eusébio Ecclesiastical History (História Eclesiástica), traduzida por G. A. Williamson (Penguin, 1965). GT

A Greek-English Lexicon o f the New Testament, de C. L. W. Grimm e J. H. Thayer (T. e T Clark, 1901).

IBB

A Bíblia Sagrada, versão Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira, de Acordo com os Melhores Textos em Hebraico e Grego.

Irineu Against Heresies, trad, por F. M. R. Hitchcock, em W. J. Sparrow Simpson e W K . Lowther Clarke (eds.), Early Church Classics 2 (SPCK, 1916). JBP

The New Testament in M odem English, por J. B. Phillips (Collins, 1958); trad, em port, parcialmente com o título de Cartas Para Hoje, Vida Nova, 1994.

Josefo Obra Completa de Flávio Josefo, trad, de Vicente Pedroso, Rio de Janeiro, CPAD, 1990. LXX

Antigo Testamento em grego, de acordo com a Septuaginta, século III a. C.

Metzger Bruce M. Metzger, ATextual Commentary on the Greek New Testament (United Bible Societies, 1971; edição corrigida, 1975). MM

/. H. Moulton e G Milligan, The Vocabulary of the Greek New Testament, 1930 (Hodder e Stoughton, 1949).

Moffat James Moffat, A New Translation of the Bible (Hodder e Stoughton, Antigo e Novo Testamento em um volume; revisto em 1935).


NEB

The New English Bible (NT, 1961, segunda edição, 1970; AT, 1970).

NRSV

The New Revised Standard Version o f the Bible (1989, Anglicized edition, 1995).

NTLH Bíblia Sagrada - Nova Tradução na Linguagem de Hoje (São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 2000). NVI

Bíblia Sagrada - Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional (Editora Vida, 1998)

RA

A Bíblia Sagrada - Revista e Atualizada no Brasil, 2a. Edição, trad, de João Ferreira de Almeida (Sociedade Bíblica do Brasil, 1988).

REB

The Revised English Bible (1989).

RSV

The Revised Standard Version o f the Bible (NT, 1946; segunda edição, 1971; OT, 1952).

TONT Theological Dictionary o f the New Testament, ed. G Kittel e G. Friedrich, trad, por G. W. Bromiley, 10 volumes (Eerdmans, 1964 1976). Trench R. C. Trench, Synonyms o f the New Testament (8a. edição revisada, Macmillan, 1976).


A Autenticidade das Cartas Pastorais Desde que F. C. Baur de Tübingen rejeitou a autoria paulina das três Cartas Pastorais, em 1835, as vozes da ortodoxia crítica passaram a seguir presunçosamente essa tradição. As cartas são atribuídas a pseudônimos ou consideradas deuteropaulinas, o que vale dizer, redigidas por um discípulo de Paulo que as atribuiu à pena do seu mestre. Contudo, a antiga visão de que essas cartas são autenticamente paulinas recusa-se a desvanecer. Durante o século vinte, e particularmente em seus últimos cinqüenta anos, uma vigorosa defesa foi montada por eruditos, tanto evangélicos como católicos. Dentre eles, destacam-se Newport J. D. White (1910), WalterLock(1924), Joachim Jeremias (1934), C. Spicq(1947), E. K. Simpson (1954), Donald Guthrie (1957), William Hendricksen (1957), J. N. D. Kelly (1963), Gordon D. Fee (1984), Thomas C. Oden (1989), George W. Knight (1992) e Philip H.Towner(1994). Talvez o modo mais proveitoso de tratar essa controvérsia seja relatar resumidamente as hipóteses a favor e contra a autoria paulina, as hipóteses a favor e contra o uso de um pseudônimo e, ainda, considerar a possível contribuição à escrita das cartas de Paulo dada por seus amanuenses. I.

A posição da autoria paulina Essa posição tem se apoiado em dois fundamentos - o interno (as declarações que as cartas fazem, de terem sido escritas pelo apóstolo) e o externo (a aceitação das cartas como genuínas pela igreja desde os seus primeiros dias até o fim do século dezenove). a. Evidencia interna A evidencia interna é clara e tão abrangente que a teoria do pseudônimo teria que creditar ao imitador de Paulo a condição de ser um gênio histórico e literário. As três cartas começam com a declaração de que o autor tem o nome de Paulo e prosseguem identificando-o como “apóstolo de Jesus Cristo” . As duas cartas a Timóteo acrescentam que o seu apostolado é por “ordem” ou “vontade” de Deus. As cartas dizem ser dirigidas a Timóteo e Tito, que Paulo havia colocado em Éfeso e em Creta, respectivamente, para silenciar os falsos mestres (lTm l:3ss.) e destacar verdadeiros mestres em lugar deles (Tt l:5ss.). Paulo também 1 M oule, p. 128.


demonstra seu afetuoso relacionamento com seus representantes chamando cada um deles de “querido filho” e “verdadeiro filho”. Diante desse panorama, pode-se acreditar realmente que tudo foi fabricado? Os livros de 1 Timóteo e de Tito, dos quais estamos tratando neste livro, contêm instruções apostólicas relacionadas à doutrina, à ética e ao bem estar pastoral das igrejas. Esse é o caso, especialmente, de 1 Timóteo, no quai por duas vezes Paulo declara sua intenção de visitar Timóteo pessoalmente (3.14; 4.13) - afirmação que o Professor Moulle chama de “ironia gratuita e de mau gosto”, se tivesse sido feita por um escritor que quisesse se passar por Paulo.1 Em meio às instruções dadas, o apóstolo faz várias referências pessoais à ordenação de Timóteo (1.18; 4.14), àjuventude dele (4.1 lss.) e aos problemas gástricos que ele tinha (5.23), bem como refere-se a si mesmo, dizendo com que violência perseguira anteriormente a igreja e como ocorreu a sua maravilhosa conversão e o comissionamento que recebeu pela pura misericórdia de Deus (1.12ss.). Ele conclui sua carta com um pungente apelo a Timóteo para que tenha uma vida digna de um homem de Deus (6.1 lss.) e especialmente para guardar o depósito da verdade que lhe foi confiado (6.20). Na carta a Tito, que provavelmente se segue a esta cronologicamente, há poucas referências pessoais. No entanto, Paulo tem o cuidado de adaptar suas instruções às circunstâncias particulares que Tito tinha em Creta (l.lOss.) e procura ajustar o comportamento cristão de diferentes grupos da igreja (2.lss.). Iile termina a carta com mensagens específicas para (ou a respeito de) quatro pessoas, citadas pelo nome. Propõe enviar Artemas ou Tíquico a Tito para liberá-lo, de modo que este possa juntar-se consigo em Nicópolis (3.12); e pede a Tito para que ajude na viagem de Zenas e Apoio (3.13). A segunda carta a Timóteo é a mais pessoal das três; ela pretende ser a mensagem de despedida do apóstolo a Timóteo um pouco antes da sua prevista execução (1.13; 2.2; 3.14; 4.1 ss., 6ss.). Além disso, ele se lembra das lágrimas de Timóteo, da fé e do ministério de sua mãe e de sua avó (l:4ss.) e menciona o conhecimento que Timóteo tem do ensino do apóstolo, do seu estilo de vida e dos seus sofrimentos (3.10ss.). Ele pede por duas vezes a Timóteo que venha estar com ele, especialmente antes do inverno, quando a navegação se toma impossível (4.9,21). Então, ele menciona não menos do que dezessete amigos pelo nome, dando notícias, pedindo alguma coisa ou agradecendo a eles. Será que teremos que supor que todas essas referências tão específicas lenham sido inventadas? Alguns eruditos não hesitam em dizer que sim. Veja, por exemplo, L. R. Donelson: “Tendo o propósito de enganar, ele [ou seja, o autor que se passa por Paulo] engendrou todas as notas pessoais”.2 Outros, que não aceitam a autoria paulina, defendem que aquelas referências são autênticas; mas tais pessoas têm que recorrer a engenhosas teorias sobre como •’ D onelson, p. 24.


elas teriam sido primeiramente preservadas e depois incorporadas nas cartas. É muito mais natural sustentar que todos os detalhes quanto a Paulo, Timóteo, Tito, Éfeso, Creta e às demais pessoas, lugares e situações são partes autênticas de cartas autênticas. Acima de tudo, é como o bispo Handley Moule referiu-se a 2 Timóteo: “O coração humano está nela em toda parte. E falsários, com certeza, naquela época, não entendiam nada do coração humano”.3 b. A evidência externa Voltando-nos agora para a evidência externa quanto à autoria paulina das Pastorais, verificamos que praticamente toda a igreja, desde o início, aceitava que elas eram genuínas. As primeiras prováveis referências a elas podem ser encontradas em cartas de Clemente de Roma aos coríntios (c. de 95 d.C.), de Inácio de Antioquia aos efésios (c. de 110 d.C.) e de Policarpo aos íilipenses (c. de 117 d.C.). Depois, lá pelo final do segundo século, há muitas e incontestáveis citações das três Pastorais na obra de Lrineu AgainstHeresies (Contra as Heresias). O Cânon Muratório (c. de 200 d.C.), que lista os livros do Novo Testamento, atribui os três livros a Paulo. A única exceção a esse testemunho positivo ocorre com Marcion, que foi excomungado como herege em 144 d.C., em Roma, devido à sua rejeição à maior parte do Antigo Testamento e às referências veterotestamentárias feitas no Novo Testamento. Assim, ele tinha bases teológicas para repudiar as Pastorais e, principalmente, o seu ensino sobre a criação como sendo boa (lTm 4: lss.). Esse testemunho externo à autenticidade das três Cartas Pastorais permaneceu como uma tradição não quebrada até quando Friedrich Schleiermacher rejeitou 1 Timóteo, em 1807, e F. C. Baur rejeitou as três cartas, em 1835. A questão agora é quanto a se a posição contra a autoria paulina tem forças para derrubar as fortes evidências, tanto internas como externas, em seu favor. 2. A posição de uma autoria não-paulina Os argumentos apresentados contra a autoria paulina das Pastorais podem ser resumidos como históricos, lingüísticos, teológicos e éticos. Vamos considerá-los um de cada vez. a. História Como já vimos, os textos de 1 Timóteo e Tito dão aos leitores a informação que eles precisavam quanto às circunstâncias históricas de como essas cartas foram escritas. Paulo afirma que, quando foi à Macedônia, insistiu muito com Timóteo para que permanecesse em Éfeso para refrear a excessiva heresia que lá grassava; afirma também que, semelhantemente, havia deixado Tito em Creta para completar o que havia sido deixado incompleto, especialmente com referência à designação de bispos para atuar em cada cidade. 3 The Secon d E p istle to Timothy (R eligious Tract Society, 1905), p. 21.


Mas quando foi que esses eventos aconteceram, com respeito à Macedônia, a Éfeso e a Creta? Quando foi, ainda, que Paulo passou o inverno em Nicópolis (Tt 3.12), deixando a capa e os livros em Trôade (2Tm 4.13), e quando foi que abandonou Trófimo, enfermo, em Mileto (2Tm 4.20)? Simplesmente não é possível (embora valorosas tentativas tenham sido feitas) enquadrar as visitas de Paulo a esses lugares no registro feito por Lucas em Atos. E onde colocar sua permanência em Roma, seguida de sua prisão e julgamento (2Tm l.lóss; 4.16ss.)? E difícil conciliar as referências históricas e geográficas que ocorrem nas Pastorais com a narrativa de Lucas, o que levou alguns eruditos, que rejeitavam a noção de que elas teriam sido inventadas, a reviver a cronologia desenvolvida por Eusébio em sua famosa obra do quarto século, História Eclesiástica. Eusébio escreveu que Paulo foi solto depois de um período de dois anos de prisão domiciliar, ponto em que Lucas o deixa em sua narrativa,4 e que então ele retomou suas viagens missionárias, penetrando em regiões tão distantes quanto a Espanha, como pretendia.5 Isso aconteceu antes de ter sido preso novamente, levado a uma prisão, processado e, finalmente, condenado e decapitado. Embora essa reconstrução seja um tanto especulativa, dependente quase que inteiramente de Eusébio, ela provê um esquema em que as referências históricas feitas nas Pastorais pode com facilidade se encaixar, sem a necessidade de acusar o autor de um grave erro, de ficção ou de romancear. b. Vocabulário Em 1921, foi publicado o livro de P. N. Harrison, The Problem ofthe Pastoral Epistles (O Problema com as Cartas Pastorais). E, em grande medida, um estudo lingüístico, que apresenta quatro argumentos contra a autoria paulina. Primeiro, de 848 palavras que ocorrem nas Pastorais, um grande número delas, a saber, 306, não ocorrem nas outras dez cartas atribuídas a Paulo. Além disso, há nas Pastorais um elevado número (175) de hápaxes (hapax legomena, palavras que ocorrem uma só vez), um número bem maior do que em qualquer outra carta paulina. Essas particularidades lingüísticas das Pastorais criam, “de fato, dúvidas muito sérias” quanto à autoria comumente aceita. Segundo, apenas 542 palavras ocorrem tanto nas Pastorais como nas outras dez cartas paulinas. Essa extraordinária baixa freqüência no uso comum de palavras sugere de maneira muito forte que as Pastorais devem ter sido escritas por uma outra mão. Terceiro, o número de palavras genuinamente paulinas, que estão ausentes nas Pastorais, é 1.635, das quais 580 são peculiares a Paulo. A omissão de grande parte da terminologia tipicamente paulina constitui realmente uma objeção muito séria à aceitação da autoria de Paulo nas Pastorais.6 1 A tos 28.20.

5 Romanos 15.24,28.

6 Harrison (1921), pp. 33-34.


Quarto, se em vez de se comparar o vocabulário das Pastorais com o das outras dez cartas paulinas, a comparação for feita com o vocabulário dos pais apostólicos e com o dos apologistas da primeira metade do segundo século, um resultado contrário é obtido. Das 175 hápaxes existentes nas Pastorais, um grande número delas, 94, ocorrem também entre os pais da igreja antiga. Assim, “o autor das Pastorais fala de fato a língua dos pais apostólicos e dos apologistas, divergindo da linguagem dos outros escritores neotestamentários”.7 O principal argumento de P. N. Harrison é lingüístico, tanto em The Problem o f the Pastoral Eplstles (1921), como no “volume que o acompanha como suplemento”, Paulines and Pastorais (Paulinas e Pastorais), quarenta e três anos depois (1964). Suas esmeradas tabelas estatísticas - levando-se em conta que ele não tinha acesso a um computador - devem ser consideradas uma tour de force. Ao mesmo tempo, ele estava por demais confiante em si mesmo quando pronunciou a sua conclusão como “um fato científico rigorosamente provado”.8 Harrison obteve tantos críticos quanto prosélitos. O Dr. Bruce Metzger o repreendeu em 1958 por ignorar a obra de eruditos ingleses, alemães e suecos, que haviam questionado a validade de argumentos baseados simplesmente em estudos estatísticos de um vocabulário literário aplicados a “tratados relativamente curtos”.9 De modo semelhante, o professor C. F. D. Moule escreveu que “não há uma razão convincente para se negar a autoria paulina de uma carta simplesmente porque seu vocabulário e estilo a caracterizam como diferente de outras que se tem como certo que são genuínas”.10 Isso porque há muitas possíveis razões para mudanças na linguagem e no estilo de Paulo. Donald Guthrie as resumiu citando: “diferença no assunto ou tema abordado”, “idade avançada”, “mudança de ambiente” e “diferentes destinatários”.1' Além disso, como o próprio Harrison admitiu, uma completa uniformidade de vocabulário e estilo não se deve esperar em todo autor, “muito menos em alguém com uma mente tão versátil, flexível, original, sadia, impressionável e criativa como a do apóstolo”.12 Com essas palavras, ele parece estar contradizendo sua própria tese. Como, de forma correta, observou E. K. Simpson: “uma grande alma não atua como comediante de si mesma”.13 Há duas outras possíveis explicações para a peculiaridade das Pastorais. A p rim eira delas é o uso que Paulo fazia de um secretário em suas correspondências, a que voltarei mais tarde. A segunda é o surpreendente grau com que, especialmente em 1 Timóteo, Paulo fez uso de textos “prontos”, tais como doxologias, confissões de credo e hinos, muitos dos quais eram introduzidos por fórmulas que revelam essa condição, tais como “esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação” ou “saiba disto” . O Dr. Earle Ellis, que chamou a atenção para esse fenômeno, calcula que textos prontos chegam a representar cerca de 43% em 1 Timóteo, 46% em Tito e 16% em 2 Timóteo.14 7 Ibid., p. 70. 8 Ibid., p. 84. 9 Metzger (1958), p. 94.10 Moule, p. 115.11 Guthrie (1990), p. 240. 12 Harrison (1921), p. 45.

13 Simpson, p. 15.

14 Ellis (1993), pp. 664-665.


c. Doutrina Alguns eruditos são um tanto impetuosos em sua avaliação da teologia (ou da falta dela) por eles discernida nas Pastorais. A. T. Hanson, por exemplo, declara que “há uma total ausência de um tema uniforme” nas Pastorais e até mesmo “a impressão de haver uma relativa incoerência”. E a razão para isso, continua ele, é que o autor das Pastorais não tinha uma teologia própria. Ele é um fornecedor de teologias de outros.15 Mas esse indelicado julgamento tem sido questionado por outros eruditos, incluindo-se entre eles o Dr. Francês Young, que não vê dificuldade alguma na montagem do ensino teológico dessas três cartas. Alguns críticos acusam, dizendo que não encontram nas Pastorais nem a doutrina da trindade, que há nas cartas anteriores, nem o evangelho da salvação. Mas, inquestionavelmente, as Pastorais apresentam a graciosa iniciativa redentora de “Deus nosso Salvador”, que deu seu Filho para morrer como nosso resgate, para remir-nos de todo mal e para purificar um povo especialmente para si. Ele nos justifica por sua graça e nos renova por seu Espírito, para que vivamos uma nova vida de boas obras. O Dr. Philip Towner argumentou que a salvação como uma realidade presente é o “ponto central” da mensagem das Pastorais;16 e que a era presente, que é a era da salvação, é iluminada e inspirada pela encarnação da parousia, os eventos de Cristo que a inauguram e que a finalizam.17 Bem diferente é a avaliação do professor Emst Kãsemann, que escreve que não pode considerar como paulinas cartas em que a igreja tenha se tomado “o lema central da teologia”, “o evangelho tenha sido domesticado” e em que a imagem de Paulo tenha se “manchado em muito pela piedade da igreja”.18 Podese apenas responder que esse é um juízo extremamente subjetivo. As primeiras cartas de Paulo já evidenciavam sua elevada doutrina da igreja e do ministério, e Lucas nos diz que sua linha de ação era a de ordenar presbíteros em toda igreja, desde a sua primeira viagem missionária.19 Suas instruções complementares dadas nas Pastorais, sobre a escolha e a designação de pastores, a condução do culto público na igreja local e a manutenção da sã doutrina são totalmente compatíveis com isso. Simplesmente não é verdade que a estrutura da igreja considerada por Paulo nas Pastorais seja a do segundo século, inclusive com o surgimento do episcopado monárquico associado com o bispo Inácio (c. de 110 d.C). Nas Pastorais, não há a tríplice ordem de bispos, presbíteros e diáconos, pois bispos c presbíteros são ainda a mesma pessoa, a mesma função. d. Etica Foi Martin Dibelius quem, pela primeira vez, aplicou o epíteto “burguês” ao estilo de vida cristão previsto nas Pastorais. E, “é claro que, sendo burguês” -

ls Hanson (1968), p. 110.

16 Towner (1989), pp. 118-119.

I!i Jesus M eans Freedom (SCM, 1969), pp. 89,97.

17 Towner (1986), pp. 427-428.

19 Atos 14:23.


o professor J. H. Houlden acrescentou - “então, certamente, um pequeno burguês”.20 Robert Karris escreveu ainda sobre a “ética da classe média” das Pastorais.21 Esses eruditos estão se referindo à atmosfera de respeitabilidade, de conformidade diante dos valores sociais correntes, que eles sentem que permeiam a instrução ética dada nas Pastorais. E é bem verdade que o autor preocupa-se com a imagem pública da igreja e com a sua eusebeia, que às vezes significa piedade pessoal, mas outras vezes parece ser sinônimo de “religião”. Por outro lado, há uma grande ênfase nas Pastorais, como também em todas as cartas paulinas, nas importantes virtudes cristãs, que são a fé e o amor, e também na pureza, nas boas obras e na futura esperança que elas ensejam. Ter um compromisso com Cristo ainda traz conseqüências radicais; somos peregrinos em viagem para o nosso lar com Deus e convocados a viver essa vida à luz da vida futura (por exemplo: lTm 4.8; 6.7ss.,l 9). O Dr. Towner, em sua monografia The Goal o f Our Instruction (O Alvo da Nossa Instrução), com o subtítulo The Structure ofTheology and Ethics ofthe Pastoral Epistles (A Estrutura da Teologia e da Ética das Epístolas Pastorais), registra um salutar protesto contra aqueles que interpretam as Pastorais como dando evidência a um “cristianismo burguês”, a “um cristianismo que quase nada mais exigia, a não ser viver confortavelmente no mundo”,22 a um cristianismo centrado em si mesmo, sem missão. Pelo contrário, a “existência cristã” para a qual Paulo nos chama é uma combinação de teologia e ética, que tem sua origem no evento da vinda de Cristo e na salvação que ele realizou e que se contrapõe diretamente às perversões de comportamento introduzidas pelos falsos mestres. Ela também estabelece deveres específicos para diferentes grupos de pessoas, e constantemente é motivada pela missão cristã.23 Tendo considerado a linguagem, a doutrina e a ética das Cartas Pastorais, devemos estar em condições de poder concordar com o Dr. J. N. D. Kelly quanto ao fato de “que os argumentos que dão base à posição não-paulina foram sem dúvida enorm em ente exagerados” .24 As diferenças de vocabulário não necessariamente implicam um autor diferente; há outras possíveis razões. Com respeito à teologia, de igual modo, “os críticos também exageraram um pouco. Não apenas as discrepâncias são menores do que afirmam, mas muitas delas, dentre as mais importantes, quando bem examinadas, são desenvolvimentos 20 Houlden, pp. 64-65.

21 Karris (1979), p. 64.

22 Towner (1989), p. 9.

23 Outra crítica ao uso do epíteto “burguês” por Dibelius foi feita por Kidd. Ele descobriu “três sentidos” no entendimento de Dibelius quanto ao cristianism o “burguês”, ou seja, que ser (a) “socialm ente ascendente” (saindo da pobreza que caracterizava os primeiros cristãos); (b) “acom odado culturalmente” (conform ando-se com a cultura prevalecente, em vez de criticá-la; e (c) com uma posição conservadora e tímida (em contraste com o desafio radical da autêntica ética cristã). O Dr. Kidd fez uma cuidadosa avaliação desses três e le m e n to s no p r o c e s so de a v a lia ç ã o do s ta tu s so c io e c o n ô m ic o das ig reja s supervisionadas por T im óteo e Tito. 24 Kelly, p. 30.


de idéias presentes nas cartas anteriores”.25Entretanto, há ainda a possibilidade da hipótese do pseudônimo (alguém usando falsamente o nome do apóstolo), à qual vamos nos voltar agora. 3. As posições favorável e contrária a um autor pseudônimo Há uma concordância geral de que, no mundo greco-romano, a prática de escrever com pseudônimo, ou seja, atribuindo falsamente obras literárias a um grande autor do passado, era bastante freqüente. O que não encontra uma ampla aceitação, porém, é quanto a se esse costume tinha sempre a intenção de enganar, ou não. a. Uma reconstrução que se tentou fazer P. N. Harrison postulou que o autor pseudônimo das Pastorais era “um admirador sincero e fervoroso de Paulo”, que vivia em Roma ou em Éfeso e escreveu as Pastorais no início do reinado do imperador Adriano (ano 117 d.C.). Iile conhecia e havia estudado todas as dez cartas paulinas e ainda tinha acesso a “várias notas pessoais” escritas por Paulo a Timóteo e a Tito. “Ele acreditou honestam ente e de todo o coração no evangelho de Paulo, quando o compreendeu.”26 Diante das ameaças dos falsos ensinos nas áreas da doutrina e da ética, ele e “os melhores cérebros da igreja” ansiaram pelo “retomo do antigo íervor e santidade apostólicos” e por um “despertamento da coragem destemida” de Paulo. Eles consideraram que o melhor meio para se chegar a isso seria através de “uma carta escrita no espírito do grande apóstolo, levando o nome dele e evocando as mesmas palavras que lhe eram peculiares”.27 Se isso for verdade, as Cartas Pastorais não são “genuínas” (ou seja, não são escritas pela mão de Paulo), nem são “espúrias” (isto é, não foram produzidas por um falsário); mas são “pseudônimas” (querendo assim dizer que são obras de alguém que não escondeu o fato de estar escrevendo com o nome de uma outra pessoa)”.28 P. N. Harrison estava ainda convencido de que as passagens com referências pessoais nas três Cartas Pastorais não eram fictícias, criadas pelo autor pseudônim o, mas fragm entos paulinos genuínos que foram por este incorporados na obra, mesmo sem saber quais eram os contextos originais em que se deram. Harrison acreditava ter detectado cinco dessas referências e sugeriu como elas poderiam enquadrar-se na narrativa de Atos. b. O uso de pseudônimos no mundo antigo Já o Dr. Bruce Metzger fez uma distinção entre “uma falsificação literária” e uma “pseudo-epigrafia”. A primeira “é essencialmente uma obra criada ou modificada com a intenção de enganar” .29 Em qual dessas duas categorias as 15 Ibid., p. 31.

“ Harrison, (1921), p. 9.

M etzger (19 7 2 ), p. 4.

27 Ibid., p. 10.

28 Harrison (1964), p. 14.


Pastorais se enquadrariam, na hipótese de serem pseudônimas ? Os eruditos tendem a insistir que “falsificação” é uma palavra inadequada a se usar, no caso. Tal como P. N. Harrison, eles sustentam que o autor pseudônimo das Pastorais “não estava conscientemente enganando ninguém; nem mesmo é necessário supor que ele tenha de fato enganado alguém.”30 Desse modo, há eruditos cristãos que defendem o conceito da pseudo-epigrafia, tendo como base que era um gênero literário aceitável e uma prática totalmente inocente. O professor C. F. D. Moule escreve com respeito ao “que pode ser considerado um uso do pseudônimo com boas intenções, não tendo a intenção de enganar”. De acordo com os que sustentam essa posição, “o escritor pseudônimo escreve com o nome do apóstolo, acreditando que verdadeiramente está transmitindo uma mensagem que teria sido aceitável pelo mestre...”.31 Mas Moule prossegue, considerando insolúvel o problema de como reconciliar esse conceito de pseudonímia “honesta” com o fato de serem forjadas referências paulinas nas Pastorais. O Dr. Metzger tem ainda sérias dúvidas com respeito à pseudo-epigrafia. Ele faz três perguntas perscrutadoras. Eticamente, será “a pseudo-epigrafia compatível com a honestidade e com a sinceridade, quer por critérios morais antigos, quer por modernos?”. Psicologicamente, “como deve ser considerado um autor que finge ser uma pessoa ilustre...?”. Teologicamente, “uma obra que envolve uma fraude, seja ela pia ou não, não deve ser considerada incompatível com a condição de ser uma mensagem de Deus?”.32 É difícil manter a noção da pseudonímia como sendo um procedimento literário, inocente e aceitável. e. Respostas cristãs contemporâneas Primeiro, embora tenha se tornado uma coisa corriqueira, a partir de Baur, o fato dos defensores da pseudonímia continuarem a afirmar que ela era uma prática aceitável e que não havia intenção de enganar ninguém, eles contudo não dão “evidência histórica alguma em favor de suas afirmações de que os textos pseudo-epígrafos do Novo Testamento tenham sido reconhecidos como tais e considerados como inocentes criações...”.33 Pelo contrário, como o Dr. L. R. Donelson admite, “somos forçados a admitir que nos círculos cristãos a pseudonímia foi considerada um esquema vil”.34 Uma obra pseudônima era aceita como verdadeira e assim apreciada, ou era descoberta como falsa e então condenada. Parece não haver evidência alguma de que obras pseudônimas tenham sido ao mesmo tempo descobertas como falsas e apreciadas. Diversos comentaristas citam o julgamento feito por Serapião, um bispo do início do 30 Ibid., p. 15.

31 M oule, p. 116

32 Metzger (1972), p. 4.

33 Ellis (1992), p. 217.

34 Donelson, p. 16. Veja também J. S. Candlish, “On the Moral Character o f Pseudonymous B o o k s”, The E x p o sito r 4 (1891), p. 103.


terceiro século, de Antioquia. Concluindo que o Evangelho de Pedro não era genuíno, ele estabeleceu o seguinte princípio: “Nós, irmãos, recebemos tanto Pedro como os outros apóstolos como se fossem Cristo. Mas rejeitamos pseudocpígrafos com o nome deles...”. Segundo, a afirmação de que um pseudo-epígrafo não tinha a intenção de enganar, e que de fato não enganou, parece ser como algo que alguém tentou lazer, mas que sabia que não daria certo. Se ninguém foi enganado, em que consistiu o ardil empregado? Terceiro, apesar de presunçosas posturas de confiança quanto à inocência da pseudo-epigrafia, muitos de nós acham que a nossa consciência não fica assim tão rapidamente em paz. Lembramo-nos de que as Escrituras enfatizam sempre a santidade da verdade e a pecaminosidade dos falsos testemunhos. Não nos sentimos confortáveis com uma falsidade que não engana, com uma obra pseudo-epígrafa que não seja uma falsificação. “O dicionário define uma ‘falsificação’ como sendo uma imitação fraudulenta” - escreve o Dr. J. I. Packer “não importando quais possam ser as intenções e os incentivos que a pessoa lenha tido. ‘Fraudes’ permanecem ainda sendo fraudulentas, mesmo quando perpetradas a partir de nobres motivações”.33 4. A hipótese de um amanuense ativo Muitos eruditos referem-se à obra de Otto Roller, que tem o curto título de Das Formular (1933). Ela investiga as cartas de Paulo à luz das práticas usadas na antiguidade, em especial o uso de um amanuense (um auxiliar de escrita), Valho-me de um sumário do professor Moule.36 A conclusão de Roller foi a de que um ditado, palavra por palavra, teria sido por demais laborioso para a inaioria dos autores e extremamente inibidora para um “pensador tão fluente como Paulo”. É mais provável, portanto, que primeiro o apóstolo tenha escrito parte de cada carta com sua própria mão (tal como a parte final de Gálatas), dizendo depois ao amanuense o que ele, apóstolo, queria dizer, dando-lhe a liberdade para exprimir isso com as próprias palavras dele; por fim, tomava o produto final para emendá-lo onde fosse necessário, apondo a sua assinatura. O professor Moule propõe isso como uma solução ao problema lingüístico das Pastorais, dizendo que Paulo teria permitido que seu secretário ora tivesse bastante liberdade para usar suas próprias palavras, ora se restringisse ao que ele lhe dissesse, palavra por palavra. Essa tese geral foi consideravelmente elaborada pelo Dr. E. Randolph Richards em sua obra The Secretary in the Letters o f Paul (O Secretário nas Cartas de Paulo) - 1991. Partindo de um exaustivo estudo das práticas da escrita na antiguidade greco-romana, e em especial com respeito às cartas de Cícero, ele 15 “Fundamentalism,” and the Word o f God (IVF, 1958), pp. 183-184. 36 M oule, pp. 129-131.


demonstra que o escritor “podia dar ao secretário um pleno controle sobre o conteúdo, sobre o estilo e até sobre a forma de uma carta, ou poderia dar-lhe bem pouco controle, ou nenhum”.37 Então, ele reduz o seu modo de ver a uma classificação contendo quatro situações. O secretário poderia servir como um anotador, tomando nota do ditado do autor, palavra por palavra; como um editor, trabalhando a partir das instruções do autor, ou tendo um resumo oral ou um rascunho por escrito feito por ele; como co-autor, cooperando com ele no conteúdo, no estilo e no vocabulário; e como “compositor”, em que toda a tarefa lhe seria delegada pelo autor. A primeira situação o Dr. Richards chama de “controlada pelo autor” ; a quarta, “controlada pelo secretário”; e as outras duas, de “assistidas pelo secretário”.38 Para nossos propósitos, a primeira situação é eliminada, uma vez que um ditado palavra por palavra não daria margem para mudanças no vocabulário. Temos também que descartar a quarta, uma vez que uma livre composição destruiria totalmente a autoria paulina, considerando que estamos analisando se a hipótese de se ter um secretário poderia explicar o fenômeno de haver palavras paulinas e não-paulinas lado a lado no texto. Arealidade provavelmente encontra-se nas situações intermediárias, nas que são ditas “assistidas pelo secretário”. A diferença entre essas duas situações é apenas uma questão de graduação,39 contudo, parece-me que a segunda (a do “editor”) tem uma certa preferência sobre a terceira (a do “co-autor”), por causa do que agora vamos considerar. Tem-se com freqüência observado que, na maioria de suas cartas, Paulo associa-se com alguém em sua escrita. Por exemplo: Sóstenes,40 Timóteo41 e Silvano e Timóteo.42 Embora Paulo chame seus companheiros de missão de “colaboradores”, seria um erro chamá-los de “co-autores”. Isso porque Paulo teve todo o cuidado de afirmar a sua autoridade apostólica como autor, distinguindo de si os seus colegas (uma vez que eles não eram apóstolos), referindo-se a eles como “nosso irmão Sóstenes” ou “o irmão Timóteo”. As cartas aos Tessalonicenses são significativas a esse respeito. Embora ambas se iniciem com “Paulo, Silvano e Timóteo” e conquanto o plural da primeira pessoa, “nós”, seja usado na maioria das vezes, não obstante está bem claro que o papel de liderança e a autoridade eram de Paulo. Assim, com freqüência ele se descuida e passa do “nós” para o “eu”.43 A parte final da segunda carta deixa essa questão fora de dúvida: “Eu, Paulo, escrevo esta saudação de próprio punho, a qual é um sinal em todas as minhas cartas. E

37 Richards, p. 23.

38 Ibid., pp. 23-53.

39 Ibid., p. 200.

40 ICo 1.1.

41 2Co 1.1; Fp 1.1; Cl 1.1. 42 lT s 1.1; 2Ts 1.1. Otto Roller sugeriu que os amanuenses eram deliberadamente identificados nas saudações. Veja Longenecker, pp. 107-109. 43 Por exem plo; lT s 2.18; 3.5; 5.27 (“R esponsabilizo-os

2Ts 2.5.


dessa forma que escrevo” .44 Desse modo, a carta era essencialmente dele, escrita com a autoridade apostólica dele. Paulo, Silvano (ou Silas) e Timóteo não eram co-autores, embora não haja razão para negar que Paulo possa tê-los envolvidos na escrita, encorajando-os a contribuir com seus pensamentos. Com um amanuense, entretanto, era diferente. Não apenas seria ele quem nssumiria de fato a mecânica da escrita, mas Paulo poderia ter-lhe dado alguma liberdade para revestir o pensamento do apóstolo com palavras da escolha dele. E possível que tenha sido isso que aconteceu quando Tércio escreveu a carta aos Romanos.45 Mas a única referência neotestamentária especifica para esta prática é a afirmação do apóstolo Pedro de que havia escrito sua primeira carta “com a ajuda de Silvano”,46 literalmente “através de Silvano”, que ele considerava, como acrescentou, ser um “irmão fiel”. Por maior ou menor que fosse a contribuição de um amanuense para uma carta, podemos depreender que o apóstolo a tenha lido quando estivesse completa e tenha emendado o que tivesse necessidade de ser mudado, endossando sua forma final com sua assinatura pessoal, de modo que a carta livesse a evidência de ser dele mesmo e não de uma outra pessoa. Em cada situação, com um amanuense diferente, o processo se daria de um certo modo; presum ivelm ente, quanto m ais “fie l” o irm ão se m ostrasse, m aior responsabilidade lhe seria permitida em sua contribuição. A. T. Hanson foi um tanto cínico ao escrever sobre as Pastorais, ao dizer que “quanto mais atribui-se ao secretário, menos paulina a carta é”.47 Mas o princípio é claro: contamos com o fato de que os amanuenses contribuíram o suficiente para explicar as variações no estilo e na linguagem, mas não para remover de Paulo nem a autoria nem a autoridade das suas cartas. Assim, quem foi o amanuense que escreveu as Pastorais? P. N. Harrison perguntou a si mesmo, em 1921, se o amanuense de Paulo não seria Lucas, uma vez que ninguém mais estava com ele.48 Mas ele cogitou essa possibilidade apenas para descartá-la. Entretanto, o professor C. F. D. Moule, que anteriormente, em seu livro The Birth ofthe New Testament (O Nascimento do Novo Nascimento), de 1962, havia perguntado a si mesmo se não haveria algum envolvimento de Lucas na escrita das Pastorais, desenvolveu numa palestra feita em 1964 a teoria de que Lucas teria tido “plena liberdade na composição” das Pastorais. Ele sugeriu “que Lucas escreveu as três epístolas Pastorais ... quando Paulo estava vivo, conforme Paulo lhe havia ordenado e, cm parte (mas apenas em parte), segundo o que Paulo lhe ditou.”49 Ele então prosseguiu, apresentando alguns paralelos bem interessantes entre Lucas-Atos " 2Ts 3.17; cf. IC o 16:21; G1 6.11; Cl 4.18; Fm 19. Essa autenticação apostólica de suas cartas era necessária devido à circulação de cartas falsas (2Ts 2.2). 45 Rm 16.22. M oule (1964), p. 117.

46 IPe 5.12.

47 Hanson (1982), p. 9.

48 2Tm -+.11.


e as Pastorais:50 “palavras significativas” (como, por exemplo: sã, piedade e honra), “frases significativas (como, por exemplo: o amor ao dinheiro, verdadeiras e falsas riquezas, Cristo o juiz dos vivos e dos mortos e o atleta que completa a corrida) e “idéias significativas” (por exemplo: a “tríplice frase de majestade”, anjos sendo mencionados com Deus e Cristo e uma noção de justiça eqüitativa). Talvez, então, de Lucas se possa dizer que foi “quem estruturou” as Pastorais.51 As obras pseudo-epígrafas eram normalmente compostas depois da morte da pessoa cujo nome era usado, ao passo que Lucas escreveu (de acordo com essa teoria) durante o tempo em que Paulo era vivo e a pedido dele. Outros eruditos tomaram a sugestão do professor Moule, de que Lucas foi o amanuense de Paulo no rascunho das Pastorais, e desenvolveram um pouco mais esse argumento. Uma menção em especial deve ser feita ao livro do Dr. Stephen Wilson, Luke and the Pastoral Epistles (Lucas e as Epístolas Pastorais) -1979. Ele prossegue tendo como base a teoria de Moule, embora, para ele, o Lucas que era companheiro de Paulo não era o mesmo Lucas que escreveu o livro de Atos e, posteriormente, as Pastorais. Ele chama a atenção para semelhanças de linguagem e estilo entre o Lucas de Atos e as Pastorais e para diversos paralelos teológicos (conquanto com diferenças de ênfase), como, por exemplo, na escatologia, na salvação, na cidadania do cristão, na igreja e no ministério, na cristologia, na lei, e nas Escrituras. Sua conclusão, estando ele muito seguro do que dizia, foi que “com certeza, a escolha mais provável quanto a quem foi o autor das Pastorais, entre Paulo e Lucas, recai sobre Lucas”.52 O que ele pretendeu defender foi que Lucas escreveu as Pastorais alguns anos depois de Atos, fazendo uso das “notas de viagem” de Paulo, as quais chegaram às suas mãos. Desse modo, as Pastorais seriam o volume 3 de uma trilogia, logo após a publicação do Evangelho de Lucas e de Atos. A alternativa seria “uma co-autoria”, com a redação feita por Lucas, sob a direção de Paulo, como propôs o professor Moule. Conclusão Nossa investigação nos conduz a uma conclusão com quatro alternativas. A hipótese da autoria paulina das Pastorais ainda permanece. Tanto as afirmações internas como as evidências externas são fortes, substanciais e inflexíveis. O encargo da prova recai naqueles que a negam. ( 2) A hipótese contra a autoria paulina está bem longe de ser inatacável. Os argumentos apresentados - histórico, lingüístico, teológico e ético - podem ser, todos eles, respondidos. Eles não são suficientes para derrubar a hipótese da autoria paulina. 3) A hipótese da autoria pseudônima é insatisfatória. A crença de que um pseudo-epígrafo possa ser aceitável - mesmo admitindo-se que ele fosse 50 Ibid., pp. 123-126.

51 Ibid., p. 127.

52 Ibid., p. 136.


sinceramente inocente - não tem muita evidência. Ela ainda levanta sérias questões de ordem moral quanto à prática de uma falsidade deliberada. 4.'A hipótese de Paulo valer-se de um amanuense (seja Lucas, Tíquico ou algum outro) é razoável e bem pode ser a explicação para algumas das variações de estilo e de vocabulário. Ao mesmo tempo, o amanuense não deve ter tido a liberdade de agir independentemente do autor, que não foi roubado de seu papel de liderança nem da sua autoridade apostólica. A possibilidade mais provável é que Paulo, o apóstolo, tenha escrito as três Pastorais, lá pelo fim de sua vida, abordando questões de seu tempo e comunicando-as através de um amanuense digno de sua confiança.

Todos que são beneficiados pelo que faço, fiquem certos que sou contra a venda ou troca de todo material disponibilizado por mim. Infelizmente depois de postar o material na Internet não tenho o poder de evitar que “ alguns aproveitadores tirem vantagem do meu trabalho que é feito sem fins lucrativos e unicamente para edificação do povo de Deus. Criticas e agradecimentos para: mazinhorodrigues(*)yahoo. com. br

Att: Mazinho Rodrigues.


Parte 1

A mensagem de

1 Timรณteo A vida da igreja local


1 Timóteo 1.1-2

Introdução Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por ordem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, a nossa esperança,2a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé: graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, o nosso Senhor. A maioria dos leitores vê em Timóteo uma pessoa muito parecida conosco. Sentimos que ele é igual a nós em nossas fraquezas. Ele estava bem longe de ser um “santo”, a figurar num vitral de uma igreja. Uma auréola não lhe ficaria bem sobre a cabeça. Não, a clara evidência é a de que ele era, de fato, um ser humano tal como nós, com as fraquezas e a vulnerabilidade que essa condição acarreta. Para início de conversa, ele era ainda relativamente jovem quando Paulo lhe enviou essa carta, pois o apóstolo recomendou-lhe não deixar que ninguém o desprezasse pelo fato de ser jovem (4.12); e, cerca de dois anos depois, instouo a fugir “dos desejos malignos da juventude” (2Tm 2.22). Assim, que idade teria ele? Parece ser bastante improvável o apóstolo o ter convidado para juntarse à sua equipe missionária se ele não estivesse perto dos seus vinte anos;1 e desse modo Timóteo estaria agora, treze ou catorze anos depois, com trinta e poucos anos. Naquele tempo, considerava-se que tal idade ainda estava dentro dos limites da “juventude” (neotçs). De acordo com Irineu, “os trinta anos são o primeiro estágio da idade jovem, que se estende até os quarenta, como todos admitem”.2 Entretanto, Timóteo evidentemente se sentia inexperiente e imaturo diante da pesada responsabilidade que Paulo estava pondo sobre ele. Em segundo lugar, Timóteo era tímido de temperamento e precisava de uma palavra de encorajamento e de confiança. Foi por isso que, alguns anos antes, Paulo havia recomendado aos coríntios que fizessem “tudo para que ele se sentisse bem”, quando fosse estar com eles.3 E, em sua segunda carta a Timóteo, 0 apóstolo sentiu a necessidade de exortá-lo a não envergonhar-se de Cristo,

1 At 1 6 :lss. Para aqueles que gostariam de conhecer Tim óteo pessoalm ente, seria bom ler o livro In the Steps o f Timothy (N os Passos de Tim óteo), IVP, 1995. Pretendendo ser a primeira biografia de Tim óteo escrita há cerca de 1.000 anos e tendo uma firme base na B íblia, ela faz uso de inferências, de su p osições e duma “razoável especu lação” para reconstruir a vida e o m inistério de Tim óteo. ■ ’ Irineu, II.22.5.

3 ICo 16.10 ( n t l h ) .


uma vez que Deus não nos deu “espírito de covardia” (1.7), ou seja, não nos deu espírito de timidez. Não é de todo injusto, portanto, pensarmos a respeito dele como o “tímido Timóteo”. Em terceiro lugar, Timóteo tinha uma enfermidade física e sofria de uma gastrite crônica. Paulo referiu-se à freqüente indisposição de Timóteo, principalmente em seu estômago. Chegou até a prescrever-lhe um pouco de álcool medicinal: “Não continue a beber somente água, tome também um pouco de vinho, por causa do seu estômago e das suas freqüentes enfermidades” (lTm5.23). Esse é, então, o perfil da personalidade de Timóteo, que podemos estabelecer a partir das várias referências que Paulo lhe fez. Ele era jovem, desconfiado e sujeito a erros. Esses três pontos negativos poderiam ter sido considerados como fatores que o desqualificariam para tomar conta das igrejas de Efeso e imediações. Mas esses pontos negativos o valorizam perante nós, e a graça de Deus foi suficiente para a necessidade que ele tinha: “Portanto você, meu filho, fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2.1). Paulo esperava em breve visitar Timóteo na cidade de Efeso e então, como apóstolo, certamente assumiria a responsabilidade pelas igrejas. Mas ele parecia estar antevendo a possibilidade de atrasar a sua ida, e assim enviou a Timóteo essas instruções por escrito, de modo que, antes da sua chegada, Timóteo soubesse como controlar a vida daquelas igrejas (3:14s; 4:13). Essa epístola, portan to , em bora endereçada a T im óteo pessoalm ente, não é uma correspondência particular. Ela é escrita a ele na sua condição oficial e, por toda a carta, Paulo está olhando além de Timóteo, para as igrejas. Uma clara indicação disso é que sua saudação final é expressa no plural: “A graça seja com vocês” (meth ’ hymôn -6:21). Agostinho, no quarto século, e Tomás de Aquino, no décimo terceiro, usaram o adjetivo “pastoral” referindo-se a essas cartas, embora somente em 1703 as três tenham sido chamadas de “Epístolas Pastorais”, por D. N. Berdot. Trata-se de uma expressão apropriada, uma vez que as cartas tratam do cuidado pastoral e da supervisão de igrejas locais. O apóstolo aborda seis tópicos principais. O primeiro é a /doutrina da igreja e como preservá-la intacta, não corrompida pelo falso ensino (1.3 20). O segundo é o cultopúbliccj na igreja, e sua ampla intercessão por toda a humanidade, e as funções dos homens e das mulheres para a sua realização (2.1-15). Em terceiro lugar, o apóstolo escreve sobre a 'função pastoral na igreja e em particular sobre as condições para a eleição de presbíteros e diáconos (3.1-16). Em quarto lugar, depois de apresentar para a igreja uma instrução de ordem moral, que decorre naturalmente da doutrina da criação e requer a piedade na vida pessoal de cada um (4.1-10), Paulo passa a abordar a/liderança local da igreja, em especial o que os líderes mais jovens podem fazer para que o seu ensino seja ouvido e não desprezado (4.11 - 5.2). No quinto tópico, o apóstolo considera


as responsabilidades sociais da igreja, não apenas em relação às viúvas, mas também em relação aos presbíteros (anciãos) e aos escravos (5.3 - 6.2). Sua sexta e última preocupação, numa reação àqueles que pensam que “a piedade é fonte de lucro”, é quanto à atitude da igreja em relação às riquezas materiais (6.3-21); ele refere-se tanto aos que cobiçam o dinheiro como aos que são ricos. Aqui, há sabedoria para a igreja local de todas as gerações e de todos os lugares. Que ninguém diga que as Escrituras estão obsoletas. Calvino, ao dedicar o seu comentário ao Duque de Somerset, em 1556, referiu-se a essa carta como “altamente relevante ao nosso tempo”.4 Mais de 400 anos depois, podemos dizer o mesmo. Verdadeiramente, “a Bíblia fala hoje”. O início da carta é convencional. Paulo apresenta-se como o autor, apresenta Timóteo como o destinatário e apresenta Deus como a fonte da graça, da misericórdia e da paz que deseja que seu discípulo desfrute. Assim, ele descreve as três personagens dessa carta. Ele não se satisfaz, entretanto, com uma saudação seca, tal como “De Paulo a Timóteo: graça”; ele dá um tratamento especial a cada uma das personagens citadas. Em nove de suas treze cartas do Novo Testamento, Paulo refere-se a si mesmo como “apóstolo de Cristo Jesus” e geralmente acrescenta uma referência ao chamado, à comissão, à ordem ou à vontade de Deus. Aqui, é “por ordem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, a nossa esperança” (v. 1). Assim, Paulo reivindica ser um apóstolo de Cristo no mesmo nível dos Doze, a quem Jesus havia chamado de “apóstolos”,5 com toda a autoridade no ensino que essa condição ostentava. Com ênfase ele disse não ter sido destacado como apóstolo por si mesmo, nem pela igreja. Ele não era um dos “apóstolos das igrejas”6, que nos dias de hoje normalmente chamamos de “missionários”. Pelo contrário, ele era um apóstolo de Cristo, sem nenhuma interferência eclesiástica. Pura deixar a questão fora de qualquer dúvida ou incompreensão, Paulo acrescenta que Deus Pai juntamente com Cristo Jesus é que o comissionaram; Ibi pela ordem dada por eles que ele era apóstolo. Essa fórmula por ordem de (kat’epitagçn) aparentemente era usada em notas oficiais, com o sentido de “por comando de”,7 e Lock diz que ela é como a ordem de um rei, que tem de ser obedecida.8 Além disso, Paulo localiza o seu apostolado num contexto histórico, cujo início foi a atividade salvífica de Deus, nosso Salvador, no nascimento, morte e ressurreição de Jesus, e cuja culminação será Cristo Jesus, a nossa esperança, cm sua gloriosa volta em pessoa, o que é objeto da nossa esperança cristã e que fechará a cortina do processo histórico. Paulo pode até mesmo estar I Calvino, p. 182.

5 Lucas 6.13.

II Como, por exem plo, em 2Co 8.23 - onde a palavra “m ensageiro” pode ser traduzida por “apóstolo” (ver nota de rodapé na b j) - e em Fp 2:25. ' Simpson, p. 24.

8 Lock, p. 5.


querendo inferir que o intervalo entre esses dois pontos será preenchido pela divulgação do evangelho apostólico por todo o mundo, Paulo agora se refere a Timóteo com as palavras “meu verdadeiro filho na fé ”, pois se Paulo é um autêntico apóstolo de Cristo, Timóteo é um autêntico filho de Paulo. O termo gnçsios (“verdadeiro” ou “genuíno”) era usado literalmente com respeito a filhos “nascidos de um casamento”, legítimos ( b a g d ). É possível, portanto, que Paulo esteja dando a entender que está se referindo às circunstâncias do nascimento físico de Timóteo. Como o pai dele era grego, a lei judaica o teria considerado como ilegítimo. Espiritualmente, entretanto, Timóteo é um filho genuíno de Paulo, em parte por ter sido o apóstolo o responsável pela conversão dele e em parte porque Timóteo fielmente seguiu o seu ensino e o seu exemplo.9 Ao afirmar essa condição de que Timóteo era um filho genuíno, Paulo estava com isso reforçando a sua autoridade na igreja. Depois de referir-se a si mesmo e a Timóteo, Paulo volta-se a Deus, de cuja família ambos fazem parte. O que os une é que compartilham de uma mesma graça, misericórdia e paz. Cada uma dessas palavras nos diz alguma coisa sobre a condição humana. Pois “graça” é a bondade de Deus para com os culpados e não-merecedores; “misericórdia” é a sua compaixão para com os infelizes que não podem salvar-se por si mesmos; e “paz” é a reconciliação dada por Deus a todos os que antes se achavam alienados da sua presença e dos demais. Todas essas três palavras resultam da mesma fonte, a saber, de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 2b). Desse modo, o Pai e o Filho agora estão juntos como a única fonte de bênçãos divinas, da mesma forma como estavam juntos no versículo 1, dando a ordem divina que constituiu Paulo como apóstolo.

9 Cf. IC o 4.17; Fp 2.22; 2Tm 3.10ss.


1 Timóteo 1.3-20

1. A doutrina apostólica Partindo eu para a Macedônia, roguei-lhe que permanecesse em Efeso para ordenar a certas pessoas que não mais ensinem doutrinas falsas, 4e que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis, que causam controvérsias em vez de promoverem a obra de Deus, que épela fé. 50 objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma f é sincera.6Alguns se desviaram dessas coisas, voltando-se para discussões inúteis, 7querendo ser mes­ tres da lei, quando não compreendem nem o que dizem, nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas. sSabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada, t a m ­ bém sabem os que ela não é fe ita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homici­ das, lopara os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais, para os seqüestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina. nEsta sã doutrina se vê no glorioso evangelho que me foi confiado, o evangelho do Deus bendito. Essa seção de abertura estabelece o cenário histórico e geográfico para a carta. Ela fala de uma visita de Paulo à Macedônia e de uma estada de Timóteo cm Efeso. Como esses eventos não se encaixam na narrativa de Lucas em Atos, os comentaristas, desde os dias mais primitivos da igreja, têm admitido que Paulo teria sido solto após os dois anos em que esteve preso em Roma, ocasião cm que Lucas interrompe o seu relato a respeito dele,1 retomando suas viagens. “Partindo eu para Macedônia”, ele escreve e ao mesmo tempo diz: “rogueilhe que permanecesse em Efeso” (v. 3a). Não podemos afirmar com certeza se Paulo estava em Efeso quando exortou Timóteo para que lá permanecesse. O que está claro é que, não importando como Paulo fez aquele apelo a Timóteo, ou quando isso possa ter ocorrido, agora ele o está confirmando por escrito. A razão pela qual Paulo teve que tomar essa providência, primeiramente, é para que Timóteo pudesse, de modo geral, controlar as atividades das igrejas de

1 A tos 2 8 .3 0 -3 1 .


Éfeso e, em particular, para que ele pudesse ordenar a certas pessoas que não mais ensinassem doutrinas falsas ... (v. 3b). A preocupação de Paulo nesse primeiro capítulo é com a importância de se manter a verdadeira ou “sã” doutrina e de se refutar as doutrinas “falsas”. Essa diferenciação bate como uma nota dissonante nos dias de hoje. Não se trata apenas de que a maioria das sociedades está cada vez mais pluralista de fato (uma mistura étnica e religiosa), mas que o “pluralismo”, como ideologia, cada vez mais está sendo advogado como “politicamente correto”. O que se sustenta é a validade e a independência de toda religião como sendo um fenômeno culturalmente condicionado, e desaprova-se toda tentativa de converter alguém. De fato, um dos principais princípios do “pós-modernismo” é que não existe uma verdade objetiva, e muito menos uma verdade universal e eterna. “Pelo contrário” - dizem - “cada um tem a sua própria verdade; você tem a sua, eu tenho a minha, e as nossas verdades podem divergir totalmente uma da outra, e até mesmo contradizer uma à outra.” Conseqüentemente, a virtude mais apreciada é a tolerância, uma tolerância que tolera tudo, exceto a intolerância daqueles que insistem em que certas idéias são verdadeiras e outras, falsas; que certas práticas são boas, e outras, más. Nenhum seguidor de Jesus Cristo pode abraçar esse total subjetivismo, pois Cristo disse ser a verdade, que veio para dar testemunho da verdade, que o Espírito Santo é o Espírito da verdade e que a verdade nos libertará.2 Assim, a verdade é para valer, a verdade que Deus revelou através de Cristo e pelo Espírito. Jesus também nos alertou para que tivéssemos cuidado com os falsos mestres. O mesmo foi feito pelos seus apóstolos. Com efeito, Paulo insta Timóteo para que permaneça em Éfeso precisamente para impedir a disseminação do falso ensino. Ele refere-se à atividade desses mestres usando a palavra heterodidaskaleô (um verbo que pode até mesmo ter sido um neologismo seu), significando ensinar uma doutrina que é heteros, ou seja, não propriamente “falsa” ( n v i ) , nem “outra” ( r a ) , nem “errada” ( b v ) , nem ainda “nova” ( j b p ) , mas sim “diferente” ou “diversa” ( i b b ) do ensino dos apóstolos. Semelhantemente, Paulo lamenta o fato de os gálatas terem abandonado a graça de Cristo para seguir “outro evangelho”,3 diferente daquele que anteriormente haviam recebido.4 O verbo heterodidaskaleô, que Paulo emprega tanto em 1.3 como em 6.3, indica com clareza que há uma norma de doutrina da qual os falsos mestres haviam se desviado. Ela é indicada de diversas maneiras nas Pastorais. É chamada de “a fé”,5 “a verdade”,6 “a sã doutrina”,7 “o nosso ensino”8 e ainda 2 João 14.6; 18.37; 16.13; 8.32.

3 Gálatas 1.6.

4 2 Coríntios l l . l s s .

5 lT m 1.2, 19; 3.9; 4.1, 6, 21; 2Tm 3.8; 4.7; 6.10, 12, 21; Tt 3.15. 6 lT m 2.4, 7; 3.15; 4.3; 6.3, 5; 2Tm 2.18, 25; 3.7-8; 4.4; Tt 1.1, 14. 7 lT m 1.10; 6.3; 2Tm 1.13; 4.3; Tt 1.9; 2.1.

8 lT m 6.1; Tt 1.9.


“o que lhe foi confiado” ou “o bom depósito”.9 Quase todas essas expressões são precedidas por um artigo definido, indicando que já existia um corpo de doutrina, o qual era admitido como o padrão que podia ser usado para testar e julgar todo ensino. Esse padrão era o ensino de Cristo10 e de seus apóstolos.11 O que Paulo faz nesse primeiro capítulo é referir-se sucessivamente a três mestres ou grupos de mestres. Primeiro, ele descreve os falsos mestres e como eles desvirtuam a lei (vv. 3 a 11). Em segundo lugar, refere-se a si mesmo anteriormente perseguidor de Cristo, mas agora um apóstolo do Senhor - e ao evangelho que tem pregado (vv. 12 a 17). Em terceiro lugar, dirige-se a Timóteo e o insta a lutar o bom combate da verdade (vv. 18 a 20). Além disso, toda a passagem é extremamente pessoal. Paulo inicia cada parágrafo com um verbo na primeira pessoa do singular: “roguei-lhe” (v. 3), “dou graças a Cristo Jesus, nosso Senhor” (v. 12) e “dou-lhe esta instrução” (v. 18). f.) I. Os falsos mestres e a lei (1.3-11) A previsão de Paulo, feita cerca de cinco anos antes, de que “lobos ferozes” penetrariam e devastariam o rebanho de Cristo em Efeso12 tinha se concretizado. Mas quem eram eles? E o que estavam ensinando? Paulo escreve que eles querem ser mestres da lei (v. 7). Assim, os lieterodidaskaloi (falsos m estres) agora são id en tificad o s como nomodidaskaloi (mestres da lei). Essa última palavra pode denotar uma atividade perfeitamente legítima, entretanto. Lucas a emprega em relação aos escribas que ensinavam a lei de Moisés13 e até com respeito ao ilustre Gamaliel.14 Assim, o que há de errado com o ensino da lei? Na verdade, há atualmente uma grande necessidade de mestres cristãos que ensinem a lei moral (os Dez Mandamentos, tal como foram expostos por Jesus no Sermão do Monte), pois é pelo aprendizado da lei que tanto chegamos a ter uma consciência do nosso pecado como também aprendemos as implicações de amarmos o nosso próximo.15 Com efeito, sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira iulequada (v. 8).15 Evidentemente, então, há tanto o uso correto como o uso errado da lei, o modo legítimo e o ilegítimo de fazer uso dela. Consideremos, primeiro, o que os falsos mestres estavam fazendo de errado com respeito à lei. a. () uso.ijKom-lo da lei

'

Timóteo tem que ordenar aos falsos mestres que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis (v. 4). Mythoi significava lendas ou fábulas, que posteriormente Paulo categorizou como sendo “fábulas profanas de velhas” (4.7), “lendas judaicas”17 e uma alternativa “à verdade”.18 Apalavra genealogias, ' ITm 6.20; 2Tm 1.14 ( r a ) .

10 1 Tim óteo 6.3.

" ITm 1.11; 2.7; 2Tm 1.13; 2.2; 3.10, 14.

12 At 20.29ss.

' Rm 3.20; 13.8ss.

17 Tt 1.14.

16 Cf. Rm 7.12, 16.

13 Lc 5.17. 18 2Tm 4.4.

14


por outro lado, refere-se naturalmente aos nomes de (iênesis, que delineiam a linhagem e, portanto, a raça pura dos patriarcas. E bem provável que Lock esteja correto ao realçar que essas duas palavras “devem scr tomadas juntas, lado a lado, isto é, os mythoi sendo definidos pelas genealogiai, histórias legendárias sobre genealogias”, que eram passadas através da Haggada, ou tradição rabínica.19 Há dois antigos documentos judaicos que poderão dar luz ao que Paulo está se referindo. O primeiro é O Livro dos Jubileus,20 que é do período de 135 a 105 a.C. e que a história do Antigo Testamento sob uma perspectiva farisaica, partindo da criação do mundo até quando a lei foi dada no monte Sinai. Ele divide essa história em “jubileus” (períodos de quarenta e nove anos) e afirma a singularidade de Israel em meio às nações- O segundo livro é As Antigüidades Bíblicas de Philo,21 embora M. R. James considere a atribuição da autoria desse livro a Philo “totalmente infundada e até mesmo ridícula”.22 Tendo sido escrito logo após a destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C., ele reconta a história do Antigo Testamento abrangendo um período bem maior, da criação de Adão à morte de Saul. Seu principal objetivo foi manter a validade eterna da lei contra as intromissões do Helenismo. Assim, esses dois livros reescrevem, de maneira tendenciosa, uma parte da história do Antigo Testamento. Ambos enfatizam que Israel e a lei são indestrutíveis. E enfeitam a história que narram com acréscimos fantasiosos. O autor de As Antigüidades Bíblicas suplementa a narrativa das Escrituras “por meio de fabulosas genealogias”,23 que preenchem os capítulos 1, 2, 4 e 8. De modo semelhante, O Livro dos Jubileus fornece-nos o nome de todos os filhos de Adão e Eva, da família de Enoque, dos antecedentes e descendentes de Noé , e das setenta pessoas que desceram até o Egito. I Pode ser, portanto, que seja a esse tipo de literatura fantasiosa que Paulo esteja se referindo ao mencionar a lei, os mitos e as genealogias. Há uma forte evidência de que o falso ensino tenha sido principalmente uma aberração judaica, o que é confirmado pela referência ao “grupo da circuncisão”.24 Ao mesmo tempo, os mestres da lei não eram os “judaizantes”, a quem Paulo tinha se oposto em Gálatas e que ensinavam a salvação pela obediência à lei, pois não há nada nas Pastorais que indique ter havido um retomo dessa controvérsia. É possível eles tenham sido proponentes de alegorias. Certamente, eram especuladores. Tratavam a lei (ou seja, o Antigo Testamento) como um terreno

19 Lock, p. 8. 20 O L ivro d os Jubileus ou O P equeno G ênesis (The Little G enesis), traduzido, editado e apresentado por R. H. Charles (A. e C. Black, 1902). 21 The B ib lic a l A n tiq u ities o f P h ilo, traduzido, editado e apresentado por M. R. James (SPCK , 1917). 22 Ibid., p. 7. 23 Ibid., pp. 33-34. 24 Tito 1.10.


fértil bem adequado para as conjecturas que faziam. Para Paulo, toda a abordagem deles era frívola; Deus havia dado a sua lei ao seu povo com um propósito bem mais sério. Ao mesmo tempo, os falsos mestres demonstravam ter tendências gnósticas e também judaicas. Por exemplo, eles estavam proibindo o casamento e impondo a abstinência a certos alimentos (4.3ss.). Isso indicava um falso ascetismo que era incompatível com a doutrina da criação e era característico da rejeição gnóstica da matéria, por ser má. Alguns dos prim eiros pais da igreja, especialmente Irineu e Tertuliano, prosseguiram a partir desse indício. Ambos afirmaram que Paulo referia-se, em 1 Timóteo 1, ao gnosticismo que nos dias em que viviam, no final do século segundo, estava completamente desenvolvido, e os dois mencionaram o conhecido líder gnóstico do Egito, Valentino. “Quando ele [Paulo] menciona genealogias intermináveis, reconhecemos aí Valentino”, diz Tertuliano.25 Ambos fizeram um breve relato do sistema gnóstico: que a matéria é má; que o Deus supremo, portanto, não poderia ter sido o Criador; que o imenso espaço entre ele e o mundo foi transposto por uma sucessão de intermediários chamados “eões”; que um deles estava bem distanciado de Deus, a ponto de criar o mundo material; e que eles constituíam “a fabulosa genealogia de trinta eões”.26 Há dois problemas mais sérios com essa reconstrução. O primeiro é que Paulo não estava fazendo uma previsão do gnosticismo, que veio a se desenvolver no segundo século, mas estava descrevendo uma realidade que Timóteo tinha que enfrentar naquele tempo, quando o gnosticismo havia apenas começado a desenvolver-se. Em segundo lugar, não há evidência de que os gnósticos tenham se referido aos eões como “genealogias”, como Irineu e Tertuliano fizeram. Tudo o que podemos dizer em conclusão é que as referências de Paulo dão a entender que havia um falso ensino que misturava elementos judaicos com gnósticos, que seria ou “um judaísmo que caminhava para o gnosticismo” ou “formas judaizantes do gnosticismo”.27 Paulo agora nos mostra duas conseqüências do falso ensino, isto é, de doutrinas falsas, que em si mesmas são suficientes para condená-lo: o falso ensino obstrui tanto a fé como o amor. Mitos e genealogias causam controvérsias (v. 4), escreve ele. A palavra é ekzçtesis, que tanto pode significar “controvérsia” ( n v t ) 28 como “especulação inútil” ( b a g d ) . Com efeito, ela parece juntar os dois sentidos. Por um lado, o falso ensino causa “especulações”, em vez de promover a obra de Deus, que é pela f é (v. 4b). A palavra “obra” é a tradução de oikonomia,

25 D e Tertuliano, P re sc riç õ e s con tra 33 H erético s, traduzido por H. B in d ley, em W. J. Sparrow Simpson e W. K. Lowther Clarke (editores). E arly Church C lassics 1 (SPCK, 1914); cf. Irineu. 26 Tertuliano, op. cit.

27 Dibelius e Conzclmann, p. 17.

28 Cf. Tito 1.9.


que pode ser traduzido tanto por “comissionamento” como por “desígnio” ( b j ) . A referência parece ser ao plano de salvação revelado por Deus, do qual somos comissionados e ao qual temos de responder pela fé. Isso porque especulações levantam dúvidas, ao passo que a revelação desperta a fé. Por outro lado, o falso ensino promove “controvérsias”, “discussões e contendas a respeito da lei”,29 ao passo que o alvo deste mandamento ou, talvez, “o objetivo de toda pregação da moral cristã”30 é o amor, que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma f é sincera (v. 5). Esse amor, provindo das fontes interiores do nosso coração, da nossa consciência e da nossa fé, não está contaminado por motivos falsos nem confusos. Alguns se desviaram dessas coisas (do coração puro, da boa consciência e da fé sincera), voltando-se para discussões inúteis. Os dois verbos tanto podem significar “desviar” (astocheô) como também “virar-se para um lado” (ektrepô), e indicam a importância de se manter um curso reto. Assim, Paulo pinta um duplo contraste: entre a especulação e a fé na revelação de Deus e entre a controvérsia e o amor de uns para os outros. Há dois testes de ordem prática que podemos aplicar em todo ensino. O primeiro é o teste da fé: será que ele provém de Deus, estando conforme a doutrina apostólica (de modo a poder ser recebida pela fé), ou será que ele é produto de uma fértil imaginação humana? O segundo é o teste do amor: esse ensino promove a unidade no corpo de Cristo ou, se não (uma vez que a própria verdade pode causar divisões), ele é irresponsavelmente um causador de divisões? “Fé” significa que o recebemos de Deus; “amor” signifiea que ele edifica a igreja. “Ele julga a doutrina por seus frutos”31. O critério final pelo qual julgar qualquer ensino é se ele promove a glória de Deus e o bem da igreja. A doutrina dos falsos mestres não faz nada disso. O que ela faz é promover a especulação e a controvérsia. b. O correto uso da lei

.

Passamos agora do uso indevido da lei para o seu usocorreto. Os falsos mestres, que querem ser mestres da le i... não compreendem nem o que dizem nem as coisas acerca das quais fazem afirmações tão categóricas (v. 7, “o que com tanta confiança afirmam” - i b b ) . Contrastando com a ignorância deles, entretanto, Paulo demonstra o conhecimento que tem. Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada (v. 8, nominôs, “legitimamente”). Também sabemos que ela ... é feita ... para os transgressores (v. 9, anomois, “para os que estão na ilegalidade”). Reunindo essas duas verdades que, como Paulo diz, são coisas que sabemos, chegamos à impressionante afirmação de que o uso legítimo da lei é para os transgressores. Toda a lei destina-se àqueles

29 Tito 3.9.

30 Lock, p. 10.

3' Calvino, p. 190.


cuja tendência natural é não mantê-la, mas quebrá-la. “O alvo da lei não é o santo, mas sim o pecador.”32 Pode ser conveniente abordar essa questão historicam ente, pois os Reformadores trabalharam muito pelo verdadeiro propósito da lei. Lutero expressou a sua posição em sua Exposição sobre Gálatas (1535). “A lei foi dada com dois propósitos” - escreveu ele. O primeiro foi “político” ou “civil”: a lei foi um freio “para coibir os não-civilizados”.33 O segundo e “principal” propósito da lei foi “teológico” ou “espiritual”: ela é um poderoso “martelo” para esmagar a retidão-própria dos seres humanos.34 Pois “ela lhes mostra o pecado, para que pelo reconhecimento do pecado eles se humilhem, se atemorizem, e o possam vencer, e assim almejem a graça e o Bendito Descendente [i. e., Cristo]”.35 É nesse sentido que “a lei foi o nosso tutor até Cristo”.36 De outra feita, Lutero indica que a lei tem um terceiro uso: temos que “ensinar a lei com diligência e gravá-la nas pessoas”, embora ele não tenha enfatizado este ponto.37 A Fórmula de Concórdia (1577), entretanto, que estabeleceu a doutrina de Lutero em áreas controvertidas depois da morte dele, com clareza especificou em seu sexto artigo um triplo uso da lei. Ela é um meio para a preservação da sociedade humana,38 uma intimação ao arrependimento e à fé39 e uma direção para a igreja.40 Esses usos vieram a ser chamados de ususpoliticus (para restringir o mal), ususpedagogus (para levar a Cristo) e usus normativus (para determinar a conduta dos crentes). Calvino concordou com essas três funções da lei, mas mudou a ordem das duas primeiras e enfatizou a terceira. No Livro II, o capítulo 7 das Institutas tem por enfoque considerar por que a lei foi dada. Primeiro, ela tem um propósito “punitivo”, pois nos toma “indesculpáveis” e assim nos leva ao desespero. Então, “nus e de mãos vazias”, “procuramos refúgio na sua [de Deus] misericórdia, descansamos totalmente nela, escondemo-nos muito bem dentro dela e tão somente a ela nos apegamos para a retidão e o merecimento”.41 Em segundo lugar, a lei refreia os que praticam o mal, especialmente “por medo e por vergonha”, em tudo o que eles se atrevem a fazer por sua própria vontade, e desse modo protege a comunidade. Nesse sentido, a lei age como um meio de intimidação externo, embora não mude o coração das pessoas.42 Simpson, p. 31. " L u th er’s Works (Obras de Lutero) 26; ed. Jaroslav Pelikan - Concordia, 1963; pp. 274­ 27 5 , cf. pp. 308 -3 1 0 . 11 Ibid., pp. 309-316.

35 Ibid., p. 327.

36 Gálatas 3.24.

" L ectu res on G ên esis, L u th er’s Works (E xposição de G ên esis, Obras de Lutero) 3, ed. Jaroslav Pelikan - Concordia, 1961; p. 85. 1S Romanos 13.1 ss.

39 Gálatas 3.24.

111Romanos 8.4; 13.8.

" J. C alvino, In stitu tas da R eligião C ristã, traduzido por F. L. B attles (C ollin s, 1986), II.7 .1 -9 . Ibid., II.7 .10-11


“O terceiro uso da lei, que é o seu principal uso”, de fato, seu “propósito especifico”, de acordo com Calvino, é aquele que de algum modo Lutero negligenciou, a saber, “o seu lugar entre os crentes, em cujo coração o Espírito de Deus já vive e reina”. A lei é “o melhor instrumento” tanto para ensinar-nos a vontade do Senhor como para exortar-nos a cumpri-la. Pois “por uma constante meditação nela” os crentes “serão despertados para a obediência, se fortalecerão através dela e serão afastados do escorregadio caminho da transgressão”.43 Com efeito, é nessa “alegre obediência” que a autêntica “liberdade cristã” é para ser encontrada.44 Assim, as três funções da lei, de acordo com Calvino, são: punitiva (condenar os pecadores e levá-los a Cristo); de intimidação (refrear os malfeitores); e, em especial, de educativa (ensinar e exortar os crentes). A qual desses três propósitos Paulo estaria se referindo em sua primeira carta a Timóteo? De qual deles se poderia dizer que “o uso legítimo da lei é para os transgressores”? Com certeza é o segundo, que tem a ver com a repressão à prática do mal. Calvino escreveu: “O apóstolo parece ter aludido especialmente a essa função da lei ao ensinar que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados ...” (lT m 1.9-10).45 Mas as palavras de Paulo parecem aplicar-se também ao primeiro e ao terceiro propósitos da lei, uma vez que a lei expõe e condena os transgressores,46 e então, depois de correrem para Cristo em busca de perdão, ela os dirige para uma vida de obediência à lei. Em outras palavras, todas as três funções da lei relacionam -se com os transgressores, desmascarando-os, julgando-os, refreando-os, corrigindo-os e dando-lhes uma direção. Pelo fato de, como seres humanos decaídos, termos uma tendência natural para a transgressão (pois “o pecado é a transgressão da Lei”),47 é que necessitamos da lei. Essa importante antítese, de que a lei não é feita para os justos, mas para os transgressores (v. 9), não pode referir-se àqueles que são justos no sentido de terem sido “justificados”, uma vez que Paulo insiste, em outros textos, que os justificados ainda necessitam da lei para a sua santificação.48 Nem ainda ela pode ser entendida com o sentido de que há pessoas que são tão justas que não necessitam da lei para guiá-las, mas apenas que há pessoas que pensam desse modo. Semelhantemente, quando Jesus disse: “Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento”,49 ele não quis dizer que há pessoas tão justas que não necessitam ser chamadas ao arrependimento, mas que há pessoas que assim pensam. Em resumo, a palavra “justos”, nesses contextos, tem o significado de “justos a seus próprios olhos”. Esse princípio tão fundamental de que a lei é para os transgressores aplicase a todo tipo de lei. Por exemplo, a razão pela qual temos limites de velocidade 43 Ibid., II.7.12. 46 Romanos 3.20.

44 Ibid., II.19.1-5. 47 1 João 3.4.

45 Ibid., II.7.10. 48 P. ex., Rm 8.4;13.8.

4‘J Lucas 5.32.


é porque há muitos motoristas negligentes nas estradas. A razão por que necessitamos de linhas divisórias e cercas é por ser o único meio de impedir invasões indevidas. E a razão pela qual necessitamos de direitos civis e de uma legislação que regulamente os relacionamentos entre as diversas raças é para proteger os cidadãos de serem insultados, discriminados e explorados. Se todo o mundo pudesse ser digno de confiança, de modo que um respeitasse o direito do outro, não seriam necessárias leis de proteção. O mesmo é verdade com respeito à lei de Deus. Suas proibições e penalidades têm a ver com os transgressores. E Paulo prossegue logo em seguida ilustrando o princípio da “lei para os transgressores” com onze exemplos de quebra da lei. As primeiras seis palavras, que ele coloca em pares, parecem ser mais gerais do que específicas. A lei é feita, escreve ele, para os transgressores e insubordinados (“que não tem princípios nem autocontrole” - j b p ) , para os ímpios e pecadores (que desonram a Deus e se desviam da retidão), para os profanos e irreverentes (que estão destituídos de toda piedade e reverência). Essas palavras são claras em se referir ao nosso dever para com Deus, ao menos de uma maneira geral. Mas devido ao fato de que as cinco palavras seguintes são bastante específicas quanto ao nosso dever em relação ao próximo, é natural que questionemos se as seis primeiras não têm o sentido de ser específicas em relação ao nosso dever em relação a Deus. George W. Knight sugere que sim.50 Trabalhando em sentido inverso, a partir da alusão ao pai e à mãe, ele propõe que irreverentes (bebçlos) significa o que é ímpio no sentido de estar quebrando a lei do sábado (o quarto mandamento); que profanos (anosios) designa aqueles que tomam o nome de Deus em vão (o terceiro mandamento); que pecadores (hamartôlos) faz alusão aos idólatras (o segundo mandamento); e que ímpios (asebçs) denota aqueles que desconsideram o primeiro m andam ento de am ar exclusivam ente um único Deus. Esse entendimento deixa de lado as palavras insubordinados (anypotaktos) e transgressores (anomos), que possivelmente são introdutórias e descrevem Iodos os que rejeitam toda lei e disciplina. Essa reconstrução sem dúvida é engenhosa e pode estar correta, embora não se possa declarar que seja correta. As cinco palavras seguintes, entretanto, evidentemente têm relação com os demais mandamentos, ou seja, do quinto ao nono. Os que matam pai e mãe certamente quebram o quinto mandamento, que é para honrar os pais; a expressão é tão forte que Simpson possivelmente está correto ao entender que ela se refere ao que Êxodo 21:15 diz: “Quem agredir o próprio pai ou a própria mãe terá que ser executado”.51 Homicidas são os que quebram o sexto mandamento: "Não matarás”. Já os que praticam imoralidade sexual (“devassos”, na s b t b , ih b ) e os homossexuais (“sodomitas”, na a r a , s b t u e i b h ) isto é , os pecadores

Knight (1992), pp. 84-85.

51 Simpson, p. 31.


heterossexuais e homossexuais - quebram o sétimo. Pelo menos o primeiro desses dois grupos certamente o quebra (“Não adulterarás), o mesmo podendo ser dito do segundo grupo, se entendermos a proibição como uma restrição de toda relação sexual ao contexto do casamento heterossexual. “Devassos” não é a melhor tradução, nem o é “sodomitas”, pois esses dois termos atualmente carregam preconceitos e implicações que expressam uma certa hostilidade que os cristãos devem evitar. A palavra grega arsenokoitçs, que ocorre somente aqui e em 1 Coríntios 6.9, é uma combinação de arsçn (macho) e koitç (cama) ou keimai (deitar-se). Provavelmente, é uma referência aos textos de Levítico que proíbem a homossexualidade: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher”;52 ela refere-se, portanto, aos homossexuais.53 “Seqüestradores” ( n v i ) o u “mercadores de escravos” ( b j ) são culpados do mais hediondo tipo de roubo; e tanto os mentirosos como os que juram falsamente quebram o nono mandamento, de não dar falso testemunho contra o próximo. O décimo, que proíbe a cobiça, não está incluído na lista de Paulo, talvez por ser um pecado de pensamentos e desejos, não de palavras ou obras. Mas de forma a tornar a sua lista totalmente abrangente, ele acrescenta ainda que a lei foi feita para todo aquele que se opõe à sã doutrina (v. 10). Que doutrina é essa? E a doutrina que é conforme o glorioso evangelho (literalmente, “o evangelho da glória” - r a ) que me fo i confiado, o evangelho do Deus bendito (v. 11). E particularmente digno de nota que os pecados que infringem a lei (quebrando os Dez Mandamentos) são também contrários à sã doutrina do evangelho. Assim, os padrões morais do evangelho não diferem dos padrões morais da lei. Portanto, não é para imaginar que, por termos abraçado o evangelho, agora podemos repudiar a lei! É certo que a lei é impotente para salvar-nos54e que fomos libertos da condenação da lei, de modo que não mais estamos “sob” a lei, nesse sentido.55 Mas Deus enviou o seu Filho para morrer por nós e agora põe o seu Espírito dentro de nós, para que as justas exigências da lei fossem plenamente satisfeitas em nós.56 Não há uma antítese entre a lei e o evangelho com respeito aos padrões morais que ambos ensinam; a antítese acha-se no modo da salvação, uma vez que a lei condena, enquanto o evangelho justifica.

52 Lv 18.22; 20:13 ( r a ) ; l x x . 53 A s ten ta tiv a s que foram fe ita s por R o b in S cr o g g s em The N e w T e sta m e n t a n d H om osexu ality (O N o v o Testam ento e o H om ossexualism o) - U n iversity o f C hicago Press, 1980 - no sentido de argumentar que os arsenokoitçs eram ou um homem prostituto ativo ou um pederasta, não tiveram sucesso. Veja a refutação em Wright (1984) e em minha própria referência a essa questão em meu livro R om anos (A B U Editora, 2000, pp. 8 4 -8 5 ). 54 Romanos 8.3.

55 Romanos 6.15; 7.6; 8.1-2.

36 Romanos 8.3-4.


2 .0 apóstolo Paulo e o evangelho (1:12-17) Dou graças a Cristo Jesus, nosso Senhor, que me deu forças e me consi­ derou fiel, designando-me para o ministério, 13a mim que anteriormente fui blasfemo, perseguidor e insolente; mas alcancei misericórdia, por­ que o fiz por ignorância e na minha incredulidade; 14contudo, a graça de nosso Senhor transbordou sobre mim, com a f é e o amor que estão em Cristo Jesus. 15Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior. ,6Mas por isso mesmo alcancei misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência, usandome como um exemplo para aqueles que nele haveriam de crer para a vida eterna. 17Ao Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. Amém. Deixando o tema dos falsos mestres e do seu mau uso da lei, Paulo agora escreve sobre si mesmo e sobre o evangelho que lhe foi confiado. Ele faz uma declaração estritamente pessoal. Ele reconta a história da sua conversão e do seu comissionamento, em meio a duas exclamações de louvor. “Dou graças a Cristo Jesus”, inicia ele (v. 12), terminando com as palavras: “Ao Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória” (v. 17). Em toda a sua vida, foram abundantes as ações de graças, não apenas por sua salvação, mas também pelo privilégio de ter se tomado apóstolo. Em particular, Paulo menciona aqui três bênçãos que se relacionam entre si. A primeira é: Dou graças a Cristo Jesus, nosso Senhor, que me deu fo rça s... (v. 12a). É interessante que ele se refere à força interior que Cristo lhe deu, mesmo antes de especificar o ministério para o qual ele necessitava ser fortalecido. A sua designação para o ministério teria sido inconcebível se ele não tivesse sido assim preparado. A segunda é: Dou graças a Cristo ... que me considerou fiel (v. 12b). Isso não pode significar que Jesus Cristo confiou nele por tê-lo visto como alguém inerentemente digno de confiança; sua aptidão e sua condição de scr considerado fiel eram decorrentes do fortalecimento interior que lhe havia sido prometido. A terceira bênção é: Dou graças a Cristo (pelo que ele fe z )... designando-me para o ministério (v. 12c). Diakonia é uma palavra genérica, e há muitas formas assumidas pelo serviço, ou ministério cristão. Mas Paulo está, de forma bem clara, referindo-se ao comissionamento que ele recebeu como apóstolo aos gentios. Agora, ele reforça ainda mais suas palavras de ação de graças ao lembrar Timóteo do que ele havia sido, de como recebeu misericórdia e da razão porque Ibi alvo da misericórdia de Deus. Primeiro, ele usa três palavras para descrever o que tinha sido: anteriormente


fui blasfemo, perseguidor e insolente (v. 13a). Sua “blasfêmia” foi ele ter falado mal de Jesus Cristo; ele também “tentava forçá-los [os discípulos de Cristo] a blasfemar”.51 Sua disposição era a de perseguir com violência a igreja de Deus, procurando destruí-la,58 e, ao persegui-la, ele não se dava conta de que estava perseguindo a Cristo.59 Assim, por trás da blasfêmia e da perseguição, havia um homem violento (hybristçs), sendo hybris uma mistura de arrogância com insolência, que encontra satisfação em insultar e em humilhar os outros.60 Talvez o apóstolo estivesse pretendendo mostrar que houve uma escala ascendente de coisas más, partindo de palavras (de blasfêmia), passando por ações (de perseguição), até chegar a pensamentos (de profunda hostilidade). Em segundo lugar, Paulo descreve a forma pela qual recebeu misericórdia. Humanamente falando, não havia esperança para alguém tão mal-intencionado e agressivo como ele. Mas Paulo não estava fora da misericórdia de Deus. Por duas vezes ele usa o mesmo verbo alcancei misericórdia (vv. 13b, 16a) ou, literalmente, do modo como o puritano Thomas Goodwin expressou, “fui totalmente alcançado pela misericórdia”.61 À “misericórdia” Paulo acrescenta agora a “graça”, palavras que ele já havia colocado juntas na saudação inicial (1.2). A graça de nosso Senhor transbordou sobre mim, com a f é e o amor que estão em Cristo Jesus (v. 14). Isto é, a graça “superabundou” ( s b t b , i b b ) , transbordou tal como um rio numa enchente, que não se pode deter, mas que extravasa pelas margens e carrega tudo o que vê pela frente, levando tudo de roldão, não havendo nada que lhe possa resistir. Mas o que o rio da graça trouxe consigo, entretanto, não foi uma devastação, mas bênçãos; em particular, a “fé” e o “amor” a que Paulo já havia dado destaque (vv. 4,5). “O Nilo transborda; as colheitas são abundantes. A graça transbordou e a fé e o amor brotaram.”62 A graça inundou com fé um coração que antes estava cheio de incredulidade e inundou com amor um coração anteriormente poluído pelo ódio. O que aconteceu foi uma Graça Abundante para o Pior dos Pecadores', aliás, esse é o título da autobiografia de Bunyan, cujas palavras ele tomou dos versículos 14 e 15. Não é de admirar que Paulo prossiga citando a expressão “fiel e digna de toda aceitação”, sendo esta a primeira das cinco vezes em que ela ocorre nas Pastorais.63 Em cada uma delas, a declaração é incisiva, quase proverbial, e talvez seja a citação de algo conhecido, de um dos primeiros hinos ou credos, sendo dada por Paulo com o seu endosso apostólico. Com efeito, considerando-se que ele usa com freqüência a palavra pistos (“fiel”) aplicando-a a Deus, ele está declarando que a sua afirmação é “uma fiel apresentação da mensagem de Deus”.64 57 Atos 26.9, 11.

58 Gálatas 1.13.

61 Citado por Simpson, p. 34. 62 Ward, p. 37.

59 Atos 9.4.

60 Ver Trench, pp. 99-100.

63 As outras são: 3.1; 4.9; 2Tm 2.11 e Tt 3.8.

64 Knight (1992), p. 99. Ele argumenta que as palavras “esta afirmação é fiel” contêm em si “uma fórmula que combina uma citação com uma ênfase” e que ao mesmo tempo chama atenção à afirmação que está sendo citada e afirma a sua fidedignidade (Knight, 1968, 1979, pp. 19-20).


Essa primeira ocorrência dessa expressão é um conciso sumário do evangelho: Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior (v. 15). Em primeiro lugar, o conteúdo do evangelho é verdadeiro e digno de aceitação, diferente dos ensinos especulativos e absurdos dos falsos mestres e (poderíamos acrescentar hoje) diferente das mentiras da propaganda secular. Em segundo lugar, o que o evangelho oferece é para ter uma aceitação universal. Na verdade, a maioria das versões diz que ele é digno de “toda” aceitação, com o sentido de que tem de ser uma aceitação completa, sem reservas. Já a j b p traduz “Esta declaração é totalmente confiável e deve ser universalmente aceita”. Isso está de acordo com o contexto, uma vez que Paulo argumenta no capítulo 2 que o evangelho tem de ser feito conhecido às nações. Em terceiro lugar, a essência do evangelho é que Cristo veio para salvar os pecadores. A lei era para a condenação dos pecadores; o evangelho é para a sua salvação. A frase Cristo “veio para salvar” soa como uma das expressões que ele mesmo possivelmente proferiu.65 Ela faz alusão à sua encarnação e também à expiação que ele fez e, sem dúvida, tem como pressuposto o fato da sua preexistência. Com efeito, após um cuidadoso exame de todas as passagens sobre a salvação nas Cartas Pastorais, o Dr. Philip Towner conclui que a salvação, sendo uma realidade presente, embora ainda por se consumar, é “o ponto central da mensagem” e assim também “do ensino sadio” dos apóstolos.66 Em quarto lugar, a aplicação do evangelho é pessoal. Sua abrangência universal é uma coisa (ele é digno “de toda aceitação”, por todos); mas uma coisa bem diferente é o fato de que ele tem que ser individualmente aceito (o que Paulo destaca com a frase “dos quais eu sou o pior”). Ele já havia se chamado de “o menor dos apóstolos”67 e “o menor dos menores de todos os santos”.68 Mas agora ele se humilha ainda mais dizendo-se ser “o principal” ( r a ) , “ o primeiro” ( b j ) , “ o maior” ( b v ) e “o pior” ( n v i ) dos pecadores. De fato, é isso que eu sou, escreve ele, não apenas que “fui”. Mas será que ele queria dizer isso mesmo? Temos que tomar suas palavras literalmente? Essa é uma questão hermenêutica muito interessante. O senso comum nos diz para não tomarmos a sua afirmativa como um fato preciso, científico. Pois ele não havia investigado os registros criminais e pecaminosos de todos os habitantes do mundo, comparando-os com o seu caso e concluindo daí ser ele o pior de todos. A verdade é, porém, que quando somos convencidos do pecado pelo Espírito Santo, resulta de imediato que abandonamos todas essas comparações/Paulo tinha uma convicção tão forte de seus pecados que ele não podia nem mesmo conceber que alguém fosse pior do que ele. Essa é a Iinguagem de todo pecador cuja consciência tenha sido despertada e perturbada C om o, por exem plo, em Lc 19.10; Jo 3.13; 12.46; 17.18; cf. 11.27. “ Towner (1989), pp. 118-119.

w I Corínlios 15.9.

68 Efésios 3.8.


pelo Espírito Santo. Podemos começar tal como o fariseu na parábola de Jesus, dizendo: “Ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens mas terminaremos como o coletor de impostos que, batendo no peito, disse (literalmente): “O Deus, sê propício a mim, o pecador!”J''1 O fariseu perdeu-se em odiosas comparações; ao passo que para o publicano, no que lhe dizia respeito, entretanto, não havia outros pecadores com quem se comparar; era somente ele, e mais ninguém. Podemos, agora, fazer um resumo do que essa afirmação tão rica e “digna de toda aceitação” nos diz sobre o evangelho. Ele é verdadeiro e digno de confiança. Ele destina-se a todo o mundo. Ele diz respeito a Jesus Cristo e à sua obra de salvação. E deve ser recebido por todos nós, individualmente. Não podemos refletir nessa fiel declaração sem lembrar a história de Thomas Bilney, que se converteu através dela. Eleito em 1520 como membro do conselho da universidade de Trinity Hall, em Cambridge, na Inglaterra, o “pequeno Bilney” (como era chamado, devido à sua pequena estatura) buscava a paz, mas não conseguia encontrá-la. “Mas, finalmente” - escreveu ele —, “ouvi falar de Jesus, exatamente quando o Novo Testamento foi pela primeira vez mostrado por Erasm o... E na primeira leitura (como bem me recordo) encontrei por acaso essa sentença de São Paulo (ó que doce e agradável sentença para a minha alma!) em 1 Timóteo 1: ‘Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior e o principal’. Apenas essa sentença, através do esclarecimento de Deus atuando em meu interior, do que então eu não tinha consciência, de tal forma alegrou o meu coração, que antes estava todo ferido com o sentimento de culpa pelos meus pecados, achando-me quase em desespero, que de imediato senti em meu interior um prazer maravilhoso e uma quietude tal que ‘meus ossos, que já estavam todos esmagados, saltaram de alegria’ (SI 51.8). Depois disso, as Escrituras passaram a ser mais agradáveis para mim do que o mel ou o favo de mel...”70 Talvez tenha sido Hugh Laimer a pessoa mais notável que se converteu através de Bilney e que posteriormente se tomou, na Inglaterra, um pregador popular da Reforma. Latimer admirou muito a coragem com que Bilney enfrentou a morte, pois foi queimado por causa da sua fé evangélica; Latimer o chamava, em seus sermões, de “São Bilney”. Tendo considerado a descrição que Paulo fez sobre o que tinha sido antes de sua conversão e como recebeu misericórdia, estamos em condições de agora, em terceiro lugar, perguntar por que Deus teve misericórdia dele. A única resposta possível é “porque Deus é um Deus misericordioso”. Afinal, não há outra 69 Lucas 18.9ss. (ib b ). 70 The A cts and Monuments o f John Foxe (1563), quarta edição, revisada por Josiah Pratt, v o l.4 - R eligiou s Tract Society, 1877, p. 635.


explicação. Seu perdão, cheio de misericórdia, não se origina em nós, como se tivéssemos algum mérito que predispusesse (e muito menos que forçasse) Deus a mostrar misericórdia, mas procede do caráter dele, que é misericordioso, “a quem pertence sempre a misericórdia”, como diz o Livro de Oração da Igreja Anglicana. Não obstante, Paulo menciona dois fatores pelos quais, no seu caso, pode-se dizer que poderiam ter “predisposto” Deus a ser misericordioso para com ele. O primeiro fator diz respeito ao fato de ter sido ele alguém que estava na ignorância e na incredulidade. “Alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância e na minha incredulidade” (v. 13b). Em outras ocasiões, ele disse que era “zeloso por Deus” e que “estava convencido de que deveria fazer todo o possíveljrata se opor ao nome de Jesus, o Nazareno”.71 Preste atenção: a convicção, a ignorância e a incredulidade de Paulo não o isentavam de culpa. EJJtpiãotestá dizendo que sua ignorância estabelecia uma base para que ele r â w id t^ s s e a misericórdia de Deus (pois nesse caso ela deixaria de ser miser.' ‘rdia, e também a graça deixaria de ser graça), mas ele diz tão somení; üé'^stja oposição não era consciente e intencional, pois, se o fosse, i e r i ^ i t o um^bpcado contra o Espírito Santo, e isso o teria desqualificado de recàjeomsencbTdia. É semelhante à conhecida distinção que há no Anti Iç s; injinto entre a desobediência “por ignorância” e aquela que é fe it^ t^ i çrâmmente”.72 Ainda podemos orar por outras pessoas da forma como\T&s k or.,a na cruz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”,73 u m l i Y e z que nos lembremos que todos nós ainda temos que nos arrepáider, ate mesmo dos pecados cometidos “na ignorância”.74 Se o período de/ignorância e incredulidade do passado de Paulo foi uma razão por que ÍM Ís ^ ^ m ise ric ó rd ia dele, uma outra razão relaciona-se com a fé que terútmioutraà pessoas no futuro. "Mas, por isso mesmo alcancei misericónmL pkpà que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus demonstrasse 'ça)TOeza (inexaurível - r e b ) da sua paciência, usando-me como um Vjmra aqueles que nele haveriam de crer para a vida eterna” (v. 16). janto a conversão de Paulo tenha tido muitas características excepcionais ( ír luz do céu, a voz audível, a língua hebraica, a queda ao chão e a sua cegueira), t i a i u i u 11111'l 111 u m

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(JiypOtyptm / 1 . B A( ii )) u c lu u a ô a s & u u & c l[u c íiic &

conversões, pois ela foi uma demonstração da infinita paciência de Cristo. De l ato, a conversão de Saulo de Tarso na estrada de Damasco demonstrou ser precisamente isso. Ela continua sendo uma permanente fonte de esperança para os casos que de outro modo não teriam esperança. É como se Paulo estivesse falando conosco através dos séculos: “Não se desesperem! Cristo

'' Atos 22.3; 26.9. 72 Como em Nm 15.22ss. ( s b tb ) , em especial vv.27 e 30. MLucas 23.34.

14 Atos 3.17, 19.


teve misericórdia até mesmo de mim, o pior dos pecadores; ele terá também misericórdia de você! Em resumo, embora Paulo tivesse sido um blasfemador e um violento perseguidor da igreja, a graça de Cristo o tomou completamente. Ele recebeu misericórdia em parte por sua incredulidade na ignorância e em parte para poder demonstrar a ilimitada paciência de Cristo, em benefício das futuras gerações. Foi essa experiência da graça, da misericórdia e da paciência de Cristo que sustentaram todo o entusiasmo evangelístico de Paulo. Da mesma forma, hoje ninguém pode compartilhar o evangelho com paixão e poder se pessoalmente não tiver tido uma experiência semelhante com Cristo. Não é de admirar que Paulo tenha passado de forma súbita e espontânea para uma doxologia, na qual, entretanto (assim como no versículo semelhante, em 6.15), fez uso de algumas frases de uma forma litúrgica primitiva, o que dá a entender que liberdade e liturgia não são necessariamente incompatíveis. Ele referiu-se a Deus como o Rei, o soberano que tem sob o seu controle todas as coisas, que não apenas reina sobre a ordem natural e sobre os processos históricos, mas que também estabeleceu o seu reino sobre o seu povo redimido, através de Cristo e por meio do Espírito. Paulo agora menciona quatro características do Rei divino. Primeiro, ele é etemo, literalmente “Rei dos séculos” (v. 17 - i b b ) [também como em Apocalipse 15.3, na i b b ] , estando além das flutuações do tempo. Segundo, o Rei é o único Deus. O acréscimo do adjetivo “sábio” no Textus Receptus usado em algumas versões (como na s b t b ) é “sem dúvida uma inserção de um escriba, derivada de Romanos 16.21”.15 O que Paulo está afirmando não é a singularidade da sabedoria de Deus, mas a singularidade do seu ser. Ele não tem rivais. “Eu sou o S e n h o r ” - ele declara - “e não há nenhum outro”.76 Em terceiro lugar, ele é imortal, estando além de qualquer degradação e da morte. Disso decorre toda a loucura dos idólatras, que “trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis”.77 Em quarto lugar, ele é invisível, além dos limites de qualquer horizonte. Pois “ninguém jamais viu a Deus”,78 e de fato ninguém o “pode ver” (6.16); o máximo que os seres humanos podem ver de relance é a sua “glória”, definida como “o brilho exterior de seu ser interior”. Sua glória é demonstrada na criação,79 tanto nos céus como na terra,80 tendo alcançado seu ponto culminante na encarnação do Filho, que é “a imagem do Deus invisível”.81 A esse grande Rei, eterno, único, imortal e invisível, Paulo agora atribui (como é mais do que devido) toda honra e glória para todo o sempre. Amém (v. 17).

75 Metzger, p. 639. 19 Romanos 1.20.

76 Isaías 45.18. 80 SI 19.1; Is 6.3.

17 Romanos 1.23 . 81 Colossenses 1.15.

78 João 1.18; 1 João 4.12.


3. Timóteo e o bom combate (1.18-20) Timóteo, meu filho, dou-lhe esta instrução, segundo as profecias já proferidas a seu respeito, para que, seguindo-as, você combata o bom combate, l9mantendo a f é e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé . 20Entre eles estão Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar. Até aqui, Paulo havia se referido aos mestres da lei (e ao falso evangelho deles), como também a si mesmo na condição de apóstolo (e ao verdadeiro evangelho). Agora, compete a Timóteo escolher a quem seguir, dentre esses dois. Por um lado, o apóstolo está lhe pedindo com insistência para silenciar os falsos mestres; por outro, Timóteo tem de sentir a insidiosa influência das especulações deles. Não é para ele permanecer neutro, ou sobre o muro, embora seja jovem, inexperiente, passível de ser influenciado e tímido. Tanto agora como naquela época, a verdade exige que nos posicionemos. Paulo começa descrevendo o contexto no qual ele está escrevendo. Ele faz com que Timóteo se lembre tanto do relacionamento de pai e filho que em especial os une, como também das circunstâncias da ordenação dele: Timóteo, meu filho, dou-lhe esta instrução, segundo as profecias já proferidas a seu respeito, para que, seguindo-as, você combata o bom combate (v. 18). Não somos informados do conteúdo dessas profecias. Nem está claro se elas foram dirigidas à igreja, a Timóteo (declarando-o chamado por Deus para alguma tarefa em especial, conforme Atos 13. lss.) ou a Paulo (declarando que Timóteo seria um acréscimo conveniente à sua equipe missionária). Pelo menos, o que parece provável é que elas tenham ocorrido durante a “ordenação” dele, ocasião em que um “dom lhe foi dado por uma mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros” (4.14). Foram atos solenes que o separaram para o ministério, dando-lhe dons e autorizando-o a exercê-lo. Era seguindo aquelas profecias (ou: “inspirado pelas profecias”, segundo a r s v ) que Timóteo teria condições de combater o bom combate, o que certamente faria. Pelo menos era essa a instrução que Paulo lhe dava. Mas a palavra, aqui, é mais uma vez parangelia, que significa “mandamento” e que aparece também no grego, nos versículos 3 e 5. “Com freqüência, em contextos militares,... ela expressa a idéia de uma obrigação urgente.”82 Paulo não entra em detalhes sobre que vem a ser esse “bom combate”. Mas como em 6.12 ele ordena que Timóteo “combata o bom combate da fé”, a conclusão lógica é que ele está querendo dizer a mesma coisa aqui. Com certeza, defender a verdade de Deus, que foi revelada, contra aqueles que a negam ou a distorcem e “destruir fortalezas” do erro83 é envolver-se num combate perigoso e difícil, o que exige armas espirituais, em especial, “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”.84 8- Guthrie (1990), p. 77.

83 2 Coríntios 10.4.

84 Efésios 6.17


Em particular, Timóteo tinha que permanecer mantendo a f é e a boa consciência (v. 19a). Embora, aqui, “fé” não tenha o artigo definido “a” no original, no fim do versículo ele aparece: naufragaram na f é (literalmente: sofreram naufrágio no que diz respeito à fé). Assim, certamente devemos pressupor o mesmo significado no início do versículo. Timóteo possui duas coisas valiosas que ele tem de guardar com cuidado: um tesouro não subjetivo que é chamado de “fé”, ou seja, a fé apostólica, e um tesouro subjetivo, referido como “a boa consciência”. Além disso, essas duas coisas precisam ser mantidas juntas (como em 1.5 e em 3.9), que é precisamente o que Himeneu e Alexandre deixaram de fazer. Esse Himeneu presumivelmente é o mesmo herético que ensinou que a ressurreição já havia sido realizada.85 Mas Alexandre era um nome comum, e não há razão para identificarmos esse Alexandre como sendo “o ferreiro”, que lhe havia causado “muitos males”86 e que aparentemente nem mesmo foi cristão de fato. Quem quer que tenham sido esses dois homens, o que deles sabemos é que, “tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre” (vv. 19b-20a - ra) . O texto é claro quanto ao que os hereges rejeitaram: a boa consciência. A palavra empregada na sua rejeição de consciência (apôtheô) significa pôr alguma coisa ou alguém para fora, repudiar. Está implícita “uma violenta e deliberada rejeição”.87 Tendo eles feito isso com sua consciência, naufragaram na fé. Agindo de modo contrário ao deles, seria precisamente preservando uma boa consciência que Timóteo teria como manter a fé. Assim, acham-se bem ligados entre si: a crença e o comportamento; a convicção e a consciência; e o que é intelectual e o que é moral. É por isso que a verdade de Deus contém exigências de ordem ética. Como Jesus disse, “se alguém decidir fazer a vontade de Deus, descobrirá [ou saberá] se o meu ensino vem de Deus...”.88 Em outras palavras, fazer é o que é necessário para descobrir, e obedecer é o que é necessário para ter certeza disso. Por contraste, quando as pessoas estão determinadas a viver fora da retidão (na injustiça) é que elas suprimem a verdade.89 Assim, se não levarmos em conta a voz da consciência, permitindo que o pecado permaneça não confessado e não perdoado, a nossa fé não terá vida longa. Todo aquele cuja consciência tenha sido tão manipulada a ponto de tornar-se insensível acha-se em grande perigo, totalmente aberto aos enganos do diabo (4.1-2). “Uma consciência má é a mãe de todas as heresias” - escreveu Calvino.90 Talvez essa não seja uma regra sem exceções, mas normalmente é verdadeira. Eu mesmo conheço líderes cristãos que, no passado, foram mestres fiéis, mas em razão de uma obstinada desobediência em sua vida, desviaram-se da verdade e desse modo arruinaram o seu ministério. 85 2 Tim óteo 2.18.

86 2 Timóteo 4.14.

89 Romanos 1.18.

90 Calvino, p. 202.

87 Guthrie (1990), p. 78.88Joã


Tão séria era a apostasia de Himeneu e Alexandre que Paulo escreveu a respeito deles: os quais entreguei a Satanás (v. 20). Isso, com grande grau de certeza, é uma alusão à excomunhão, considerando que Paulo fez uso de idêntica expressão no caso daquele que havia cometido o pecado do incesto em Corinto. “Entreguem esse homem a Satanás”91, escreveu, explicando em seguida o que ele queria dizer: “Expulsem esse perverso do meio de vocês”.92 Como a igreja é o lugar em que Deus habita, segue-se que ser eliminado dela é o mesmo que ser enviado de volta para o mundo, onde Satanás habita. Por mais radical que essa punição possa ser, ela não é permanente nem irrevogável. Seu propósito era corretivo, pois eles foram objeto dessa ação “para serem castigados” ( b v ) , para que aprendam a não blasfemar (v. 20). O que se deduz é que, uma vez que tenham aprendido essa lição, os excomungados poderiam ser trazidos de volta à comunhão. Nesse primeiro capítulo, que trata do lugar da doutrina na igreja local, Paulo nos dá uma valiosa instrução com respeito ao falso ensino. Sua característica básica é a heterodidaskalia, um desvio (heteros) da verdade revelada. Seus desastrosos resultados são que ele substitui a fé pela especulação e o amor de Deus pela dissensão. Sua causa fundamental é a rejeição da boa consciência diante de Deus. O que, então, Timóteo deveria fazer em tal situação? Paulo não lhe diz para separar-se da igreja, o que teria sido uma reação extrema. Mas ele também não deveria permanecer em silêncio diante da heresia e muito menos ceder a ela sob qualquer forma, o que teria sido o extremo oposto. Em vez disso, ele deveria permanecer em seu posto e combater o bom combate da fé, acabando com o erro e também lutando vigorosamente pela verdade.

1 Coríntios 5.5.

92 1 Coríntíos 5.13.


1 Timóteo 2.1-15

2 .0 culto público Nessa carta pastoral, Paulo tem em vista não somente Timóteo, a quem ela é dirigida, mas também as igrejas locais que ele, Timóteo, foi chamado a supervi­ sionar. Através dele, o apóstolo tem o propósito de controlar a vida da igreja. Tendo iniciado com doutrina (capítulo 1), exigindo que Timóteo se opusesse ao falso ensino e permanecesse fiel à fé apostólica, ele prossegue abordando como conduzir o culto público (capítulo 2). Da mesma forma como havia rogado (parakaleõ) a Timóteo “que permane­ cesse em Efeso” para combater o que estava errado (1.3), agora ele o exorta a dar prioridade ao culto público: Antes de tudo, recomendo (parakaleÜ de novo) que se façam ... orações ...por todos os homens. “Antes de tudo” referese “não a uma prioridade de tempo, mas a uma prioridade de importância”1, pois a igreja é essencialmente uma comunidade de culto e de oração. Com freqüência, se diz que a tarefa prioritária da igreja é a evangelização. Mas não é bem assim, na verdade. O culto a Deus tem prioridade em relação à evangeliza­ ção, em parte porque o amor a Deus é o primeiro mandamento e o amor ao próximo é o segundo; em parte porque, após ter-se cumprido a tarefa evangelística da igreja, o povo de Deus continuará a cultuá-lo eternamente; e em parte porque a evangelização em si mesma é um aspecto do culto, é um “serviço sacerdotal” no qual os convertidos “tornam-se uma oferta aceitável a Deus”.2 Essa ênfase na prioridade do culto tem uma importância especial para nós que somos chamados de “evangélicos”. Isso porque sempre que não levamos o culto público muito a sério, não estamos sendo os cristãos totalmente bíbli­ cos que declaramos ser. Vamos à igreja por causa da pregação, dizem alguns de nós; não para o louvor. A evangelização tem sido a nossa especialidade, e não 0 culto a Deus. Em conseqüência, ou os nossos cultos tomam-se desleixados, feitos como que para cumprir uma obrigação, feitos de forma mecânica, e tor­ nam-se maçantes; ou, na tentativa de remediar essa situação, caímos no ex­ tremo oposto e eles se tornam repetitivos, não profundos e até mesmo irreve­ rentes. Paulo faz alusão a dois aspectos principais que devem caracterizar o culto de uma igreja local, dividindo o capítulo em duas partes. Primeiro, ele considera o alcance que o culto deve ter e enfatiza a necessidade de um enfoque mundial no 1 Guthrie (1990), p. 74.

2 Romanos 15.16.


culto público (vv. 1-7). Em segundo lugar, ele considera como o culto dever ser conduzido e aborda a questão de qual deve ser o papel que cabe aos homens e às mulheres (vv. 8-15). 1. Enfoque mundial no culto público (2.1-7) Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; 2pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. 3lsso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, 4que deseja que todos os homens sejam salvos e che­ guem ao conhecimento da verdade. 5Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, 6o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos. Esse fo i o testemunho dado em seu próprio tempo. 7Para isso fu i designado pregador e apóstolo (digo-lhes a verdade, não minto), mestre da verdadeira f é aos gentios. O que se destaca nesse parágrafo é a amplitude universal da responsabilida­ de da igreja. Em contraste com os gnósticos heréticos, cuja visão de salvação era restrita a uma elite, àqueles que tinham sido iniciados nela, Paulo salienta que o plano de Deus, e portanto a nossa responsabilidade, tem a ver com todo o mundo. Por quatro vezes, essa mesma verdade é enfatizada. Primeiro, as orações devem ser feitas por todos os homens (v. 1). Segundo, Deus nosso Salvador deseja que todos os homens sejam salvos (ou, como na s b t b , quer que todos os homens se salvem) (vv. 3 e 4). Terceiro, Cristo Jesus se entregou a si mesmo como resgate por todos (v. 6 - na b v : por toda a humanidade). E, finalmente, em quarto lugar, Paulo era mestre da verdadeira f é aos gentios (v. 7), ou seja, a todas as nações, a todo o mundo. Indubitavelmente essa repetição foi feita de propósito. Essas quatro verdades acham-se interligadas entre si na mente de Paulo. Como o desejo de Deus e a morte de Cristo referem-se a todas as pessoas, então as orações e a proclamação da igreja têm de ter o enfoque de alcançar o mundo todo também. a. As orações da igreja devem ser para todas as pessoas (2.1-2) Paulo menciona quatro tipos diferentes de práticas no culto - súplicas, orações, intercessões e ações de graças - três das quais ele já havia menciona­ do em conjuto, numa carta anterior.3 A maioria dos comentaristas sugere que as três primeiras são quase sinônimas e não podem ser distinguidas, uma da outra, ’ F ilipenses 4.6.


com muita clareza. “Admito” - escreveu Calvino com humildade - “que não compreendo completamente a diferença” entre elas. Então, depois de mencio­ nar uma tentativa nesse sentido, ele continuou: “Mas eu mesmo não me dou muito a distinções sutis desse tipo”.4 Com efeito, ele se satisfaz com a ampla distinção entre “gênero” e “espécie”, orações (proseuchç) sendo uma palavra genérica para todo tipo de oração, enquanto súplicas (deçsis) e intercessões (enteuxis) são específicas. Alguns comentaristas modemos dispõem-se a ir um pouco além, sugerindo que deçsis expressa uma necessidade pessoal profunda, enquanto euteuxis significa “entrar na presença de um rei e submeter-lhe uma petição”.5 Talvez G. W. Knight seja quem ofereça a definição mais sucinta quan­ to ao efeito que esses quatro termos devem dar às nossas orações: “deçsis, requerendo necessidades específicas; proseuchas, levando a Deus as que te­ mos em vista; enteuxeis, apelando com ousadia a favor delas; e eucharistias, agradecendo por elas”.6 Embora Paulo use esse conjunto de quatro palavras, todas elas enfocam um único ponto, ou seja, elas devem ser feitas em favor de todos os homens (v. 1). Isso, de imediato, reprova a estreita visão paroquial de muitas igrejas, voltadas para si mesmas em suas orações. Alguns anos atrás, participei de um culto numa certa igreja. O pastor não estava presente, por estar em férias, e um dos líderes leigos conduziu a oração pastoral. Ele orou para que o pastor tivesse um bom período de férias (o que foi bom) e para que duas senhoras, que eram membros da igreja, fossem curadas (o que estava bem, de igual forma, pois devemos orar pelos enfermos). Mas isso foi tudo. A intercessão não chegou a durar nem trinta segundos. Saí de lá aborrecido, com a sensação de que aquela igreja cultuava um deus de um vilarejo de sua própria fabricação. Não havia reconhecimento algum das necessidades do mundo e nenhuma pretensão de alcançar o mundo em oração. O Relatório de Grand Rapids (1982), em contraste total com o que acabei de narrar, ao fazer um resumo das conclusões da Consulta sobre o Relacionamen­ to entre a Evangelização e a Responsabilidade Social, incluiu o seguinte com­ promisso: Tomamos a resolução e apelamos a nossas igrejas para que levem bem mais a sério o período de intercessão nos cultos públicos; que pensem em termos de dez ou quinze minutos, em vez de cinco; que convidem os membros leigos a participar da sua condução, uma vez que eles muitas vezes têm uma profunda compreensão das necessidades do mundo; e que enfoquem suas orações tanto na evangelização do mundo (países 4 Calvino, p. 205. 5 Barclay, p. 58. Cf. Lock, p. 2 4, Guthrie (1 9 9 0 ), pp. 80-81, H endriksen, pp. 91-93 e Barrett, p. 49. 6 K night (1 9 9 2 ), p. 115.


fechados, nações resistentes, missionários, igrejas nacionais etc.) como na busca da paz e da justiça no mundo (lugares de tensão e conflito, livramento do horror nuclear, governadores e governos, os pobres, os necessitados etc.). Almejamos ver toda congregação cristã dobrandose diante de nosso soberano Senhor em humildade e com uma f é cheia de esperança. ”7 Às vezes, questiono-me se a razão do relativamente vagaroso progresso para se alcançar a paz e a justiça no mundo, e para a evangelização mundial, não é a falta de oração por parte do povo de Deus. Quando o presidente Marcos, das Filipinas, foi deposto em 1986, os cristãos filipinos atribuíram a sua queda “não ao poder do povo, mas ao poder da oração”. O que não poderá acontecer se o povo de Deus, por todo o mundo, aprender a depender do Senhor com orações perseverantes e cheias de fé? Em particular, Paulo orientou as igrejas a orar pelos reis e por todos os que exercem autoridade (v. 2a). Essa foi uma instrução impressionante, uma vez que naquele tempo não havia nenhum governante que fosse cristão, em qualquer parte do mundo. O Livro Comum de Orações da Igreja Anglicana (de 1662) está errado, portanto, ao limitar, nos cultos de santa ceia, a intercessão aos líderes cristãos, pedindo a Deus para “salvar e defender todos os reis, príncipes e governantes cristãos” . Em contraste, quando Paulo disse a Timóteo para orar pelos reis, o imperador que reinava era Nero, cuja presunção, crueldade e hos­ tilidade para com a fé cristã eram por todos conhecidas. A perseguição da igreja, que primeiramente ocorria de forma não freqüente, em pouco tempo tornou-se sistemática, e portanto os cristãos ficaram apreensivos. Contudo, eles tinham o recurso da oração. De fato, orar pelas nações pagãs e pelos seus governantes já tinha um precedente no Antigo Testamento. Isso porque Jere­ mias disse aos exilados que orassem pela paz e pela prosperidade da Babilô­ nia,8 e o decreto de Ciro, que ordenou a reconstrução do templo de Jerusalém, incluiu um rogo aos judeus para “orar pela vida do rei e de seus filhos”.9 Chega a ser até mesmo surpreendente ver a igreja primitiva procedendo de acordo com essa disposição, que vem tanto do Antigo como do Novo Testa­ mento. Assim, Clemente de Roma, lá pelo final do século primeiro, incluiu uma oração em sua primeira carta à igreja de Corinto em favor dos dirigentes e governantes: “Concede-lhes, Senhor, saúde, paz, harmonia e estabilidade, de forma a não errarem na administração do governo que tu lhes deste”.10 ' E vangelism and S o cia l R espon sibility: An E van gelical C om m itm ent (E vangelização e Responsabilidade Social: Um Com prom isso E vangélico) - Lausanne O ccasional Paper 21 (Pateraoster, 1 9 8 2 ), p. 49. “ Jeremias 29.7.

9 Esdras 6.10.

111 1 Clem ente, traduzido por K. Lake, em A postolic F athers 1, Loeb C lassical Library H einem ann, 1912; 61.1.


Tertuliano, em sua Apologia, que geralmente é datada de 200 d.C., escreveu: “Oramos também pelos imperadores, pelos seus ministros e por aqueles que estão no poder, para que o seu reinado continue, para que o estado esteja em paz, e para que o fim do mundo seja postergado”.11 Paulo é bem específico ao orientar a igreja, dizendo por que ela deveria orar pelos dirigentes das nações. E em primeiro lugar, e acima de tudo, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica. Isso porque o benefício principal que um bom governo proporciona é a paz, com o sentido de se estar livre tanto da guerra como de conflitos civis. Paulo havia tido muitas experiências dessa bênção, quando os oficiais romanos intervieram em seu favor, até mesmo na própria cidade de Efeso, quando se deu “um grande tumulto por causa do Caminho”, tendo o escrivão da cidade conseguido apaziguá-lo.12 Orar pela paz não é algo que se deva deixar de lado, como se fosse uma atitude egoísta. Sua motivação pode ser altruísta, ou seja, tendo-se em conta que somente numa sociedade em que impere a ordem é que a igreja terá liberda­ de para desincumbir-se, sem qualquer impedimento, das responsabilidades que lhe foram dadas por Deus. Duas características dessa paz que é pedida são mencionadas, e uma terceira está implícita. As que são mencionadas são pieda­ de e dignidade (v. 2b). “Piedade” (eusebeia) é uma das palavras preferidas nas Pastorais,13 onde é usada como sinônimo de theosebeia (2.10) com o sentido de culto a Deus ou devoção religiosa. “Dignidade” (semnotçs), nesse contex­ to, parece significar “diligência moral”.14 Uma tradução inglesa, a n e b , descre­ ve essas duas bênçãos da paz como “a plena observância religiosa e elevados padrões de moralidade”. O terceiro benefício decorrente da paz acha-se implícito no versículo 3. Isso é bom (ou seja, é bom que haja orações pelos que estão em autoridade, para que a paz seja mantida) e é agradável perante Deus, nosso Salvador (v. 3), que deseja que todos os homens sejam salvos ... A lógica, aqui, parece ser que, havendo condições de paz, isso facilita a propagação do evangelho. Com certeza, a pax romana foi um fator importante no seu rápido avanço inicial. O objetivo final das orações em favor de nossos dirigentes nacionais, então, é que no contexto da paz que eles venham a preservar, a religião e a moralidade floresçam e, assim, a evangelização prossiga sem impedimentos. Temos, aqui, um importante ensino apostólico sobre a igreja e o estado e sobre o relacionamento adequado entre eles, mesmo quando o estado não é cristão. É dever do estado manter a paz, proteger seus cidadãos de todo tipo de distúrbio, preservar a lei e a ordem (usando esses termos sem a conotação opressiva que muitas vezes eles têm hoje, com atos arbitrários sobre os dissi11 Tertuliano - A p o lo g ia , traduzido por T. R. Glover, Loeb C lassical Library; Heinemann, 1931; 3 9 .2 . 11 Atos 19.23ss.

13 Veja 3.16; 4.7-8; 6.3, 5-6, 11; 2Tm 3.5; Tt 1.1.

14 Kelly, p. 61.


dentes) e punir o mal e promover o bem (tal como Paulo ensina em Romanos 13.4), de forma que, numa sociedade assim estável, a igreja tenha plena liberda­ de para cultuar a Deus, obedecer às suas leis e divulgar o evangelho. Por outro lado, é dever da igreja orar pelo estado, para que seus dirigentes administrem a justiça e busquem a paz, acrescentando em sua intercessão ações de graças, especialmente pelas bênçãos de um bom governo como uma dádiva da graça de Deus para todos. Desse modo, a igreja e o estado têm deveres um para com o outro; a igreja deve orar pelo estado (e ser, ainda, a sua consciência), e o estado deve proteger a igreja (de modo que esta tenha toda a liberdade para cumprir com suas responsabilidades). Cada uma dessas partes tem que reco­ nhecer que a outra também tem uma origem e um propósito da parte de Deus. Cada uma deve ajudar a outra a cumprir o papel que Deus lhe deu. h. O desejo de Deus para com todos os homens (2.3-4) A razão pela qual a igreja tem que ter uma visão ampla, de modo a incluir todos os homens em suas orações, é que essa é a medida da vontade de Deus. De fato, ele é apropriadamente referido como sendo Deus, nosso Salvador (v. 3b), mas não é para o monopolizarmos, uma vez que ele deseja que não apenas nós, mas que todos os homens sejam salvos (v. 4a). Ao afirmar isso, Paulo pode ter tido em mente aqueles judeus nacionalistas que acreditavam que eram os preferidos e privilegiados de Deus, esquecendo-se da sua promessa original de abençoar todas as famílias da terra através de Abraão.15Outra possibilidade é v, Paulo ter tido em mente os elitistas gnósticos que reservavam a iniciação à gnosis (conhecimento) a uns poucos escolhidos. Em nossos dias, há outras versões desse espírito de monopólio do qual temos que nos arrepender, como, por exemplo o racismo, o nacionalismo, o tribalismo, o classismo e o bairrismo paroquial, juntamente com o orgulho e com os preconceitos que são a causa desses estreitos horizontes. A verdade é que Deus ama o mundo todo, deseja que todos os homens se salvem e, assim, nos ordena a pregar o evangelho a todas as nações e a orar para que se convertam. Será que essa ênfase em “todos os homens”, tirando-nos do elitismo (so­ mente alguns serão salvos), nos levará ao extremo oposto do universalismo (todos serão salvos)? Não. Que Paulo não era universalista, isso é evidente, não apenas nas suas outras cartas, mas também nessa epístola. Mesmo tendo ele recebido misericórdia por causa de sua incredulidade na ignorância, pre­ sumivelmente outros que sejam resistentes em sua descrença não receberão misericórdia (1.13). Alguns cairão “na mesma condenação em que caiu o dia­ bo” (3.6), e mais cedo ou mais tarde todo pecado será julgado (5.24), quando os cobiçosos cairão em desejos nocivos “que levam os homens a mergulha­ rem na ruína e na destruição” (6.9). 15 G ênesis 12.1ss.


Como, então, podemos evitar esses dois extremos opostos, o do elitismo e o do universalismo? Além disso, a doutrina da eleição não é, em si mesma, uma forma de elitismo? E não é ela incompatível com a afirmação feita aqui de que Deus deseja que todos se salvem? Comecemos a responder essas questões afirmando que as Escrituras indu­ bitavelmente ensinam a divina eleição, tanto no Antigo Testamento (p. ex., “e porque amou os seus antepassados e escolheu a descendência deles ...),16 como no Novo Testamento (p. ex., “vocês não me escolheram, mas eu os esco­ lhi ...),17 embora diferentes igrejas formulem uma doutrina diferente a respeito. Contudo, essa verdade não é para ser expressa de um modo a negar a verdade complementar de que Deus deseja que todos se salvem. A eleição geralmente é abordada nas Escrituras para nos humilhar (lembrando-nos de que o crédito da nossa salvação pertence exclusivamente a Deus), para nos tranqüilizar (com a promessa de que o amor de Deus nunca nos abandonará), ou para nos despertar para missões (lembrando-nos de que Deus escolheu Abraão e sua família para, através dele, abençoar todas as famílias da terra). A eleição nunca é abordada de forma a contradizer o alcance universal que o evangelho tem, nem para nos propiciar uma desculpa para não acatarmos a evangelização mundial. Se alguns são excluídos, isso é porque eles mesmos se excluem, rejeitando o que o evange­ lho oferece. Quanto a Deus, ele deseja que todos os homens sejam salvos. Como, então, podemos afirmar que, ao mesmo tempo, Deus deseja que todos sejam salvos e que também há a eleição, por Deus, dos que recebem a salva­ ção? Os cristãos têm enfrentado essa questão em cada geração e têm procura­ do reinterpretar as três palavras que formam a estrutura da sentença do versí­ culo 4 (a saber, “deseja”, “todos” e “salvos”) de modo a afirmar a eleição e a deixar de lado tanto o elitismo como o universalismo. Alguns traduziram o verbo thelei por “quer” (s b t b , por exemplo) e outros, por “almeja” ou “deseja” (como a n v i e a r a ) , enfatizando a diferença que há entre um desejo e um propósito, entre desejar e querer. Isso parece ser consistente com afirmações bíblicas semelhantes, de que Deus não tem “prazer na morte do perverso”18 e que ele é paciente, “não querendo que nenhum pereça, senão que todos che­ guem ao arrependimento”.19 Esses três textos declaram que o “desejo” ou o “prazer” de Deus em relação a todos é a salvação, e não o juízo. Os peritos em lingüística nos dizem, entretanto, que não há diferença alguma entre os dois verbos thelô e boulomai, uma vez que ambos podem ter o sentido tanto de “desejar” como de “querer”. Assim, tudo o que podemos dizer é que a afirma­ ção “Deus deseja que todos os homens sejam salvos” não pode ser forçada a significar que é uma intenção e um propósito estabelecidos por ele de que todos serão salvos, pois, infelizmente, é possível resistir à vontade de Deus.20 ,6 Dt 4.37; cf. 7.6-7; 13.2.

17 João 15.16.

18 Ez 18.23; 33.11.

20 Veja, por exem plo, Mt 23.37; Lc 7.30; Jo 5.40; At 7.51.

19 2 Pedro 3.9.


Em segundo lugar, outros sugerem que o verbo “sejam salvos” significa “serem preservados fisicamente” em vez de “resgatados espiritualmente e mo­ ralmente”, uma vez que acham que esse verbo tem também esse significado em algumas outras passagens (p. ex., 2.11 e 4.10), considerando ainda que o con­ texto imediato é o de governos protegendo e preservando seus cidadãos. Essa proposta não obteve grande aceitação, entretanto, uma vez que Paulo prosse­ gue escrevendo sobre a morte de Cristo pelos nossos pecados, e tendo em vista que o vocabulário da salvação nas Pastorais geralmente se refere à liber­ tação do pecado.21 Em terceiro lugar, uma parte dos comentaristas insiste em dizer que “todos os homens” não pode ser tomado num sentido absoluto, significando cada pessoa individualmente. Em vez disso, “o que o apóstolo quer dizer aqui” escreve Calvino, seguindo Agostinho - “é simplesmente que não há nação sobre a terra e não há segmento algum da sociedade que seja excluído da salvação, uma vez que Deus deseja oferecer o evangelho a todos, sem exce­ ção.” Paulo estaria falando de classes sociais e não de indivíduos.22 Hendriksen argumenta de modo semelhante que “todos” significa “todos os homens, não importando as diferenças de ordem social, nacional ou racial, e não “cada um dos seres humanos, de toda a humanidade presente, passada e futura, incluindo Judas e o anticristo”.23 Além disso, G. W. Knight destaca que essa é a interpretação natural do versículo 1, pois é possível orar por “todos os tipos de pessoa” (por ex., pelos governantes e também pelos governados), mas não é possível orar por todas as pessoas individualmente, de maneira absoluta.24 E em muitas outras passagens das Escrituras, “todos” não é um absoluto, mas é limitado pelo contexto. Por exemplo, quando Jesus comissionou Paulo a ser sua testemunha “a todos os homens”, ele não se referia a “absolutamente todos os homens do mundo”, mas aos “gentios e também aos judeus”.25 Essa forma de entender a questão, pela sua importância, precisa ainda ser confirmada. Entretanto, ela não resolve o problema totalmente. Não importan­ do como interpretemos as palavras “deseja”, “salvos” e “todos” do versículo 4, ainda somos deixados com uma antinomia26 entre a oferta universal do evan­ gelho e o próposito da eleição de Deus, entre “todos” e “não todos”. Além disso, o problema não é exclusivamente paulino; ele, de forma bem clara, achase nos ensinos do próprio Senhor Jesus. Por um lado, ele convidava todos a vir até ele;27 por outro, ele disse que o seu ministério era limitado àqueles que, do inundo, o Pai lhe havia dado.28 Outra vez, em certa ocasião, ele disse: “Vocês não '' Por ex., lT m 1.15; 2Tm 1.9; 3.15; Tt 2.11; 3.5.

22 Calvino, pp. 208-209.

MHendriksen, p. 100.

25 At 22.15, 21; 26.16-17.

24 Knight (1992), p. 115.

U m paradoxo é uma aparente contradição que pode ser resolvida; uma antinomia é uma contradição lógica que não tem solução. ’’ Por ex., M t 11.28; Jo 12.32.

28 Por ex., João 17.6, 9.


querem vir a mim”; em outra, disse: “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair.”29 Assim, por que é que alguns não vêm a Cristo? É por que eles não querem ou por que não podem? Jesus ensinou que é pelas duas razões. Por toda parte nas Escrituras, vemos essa antinomia: a soberania divina e a responsabilidade humana; o oferecimento universal e o propósito da eleição; “todos” e “alguns”; “não querem” e “não podem”. A resposta correta a esse fenômeno não é procurar uma conciliação superficial (manipulando uma parte das evidências), nem afirmar que Jesus e Paulo contradisseram-se, mas é afir­ mar que as duas partes da antinomia são verdadeiras, ao mesmo tempo confes­ sando, com humildade, que no presente a nossa mente limitada não é capaz de resolver a questão. A universalidade do convite do evangelho reside num fundamento que tem duas partes, ou seja, duas verdades: a de que há apenas um Deus e a de que há apenas um mediador. Paulo afirma esses fatos quanto a Deus e a Cristo com uma economia tal de palavras que alguns têm questionado se ele não estava citando as palavras de algum credo primitivo. Mesmo assim, ele o endossa com a sua autoridade apostólica. Ele começa dizendo: pois há um só Deus (v. 5a). O contraste fundamental nos versículos 4 e 5 é entre “todos os homens” que Deus quer que sejam salvos e o “um só Deus” que deseja isso. A razão por que ele quer que todos se salvem é que ele é o único Deus, e que não há outro. Supondo que não haja um único Deus, mas muitos, e que a verdade sobre Deus não seja monoteísta, mas politeísta; e supondo que haja, como os gregos acreditavam, um panteão de muitos deuses, ou como o hinduísmo popular ensina, que haja milhões de divindades; então, presumivelmente, esses muitos deuses dividiriam a humanidade entre si, por algum acerto amigável entre eles, ou então se envolveriam numa luta cruel e competitiva entre si pela lealdade dos seres humanos, como era representado nas grotescas mitologias da Grécia e Roma antigas. Mas se houvesse muitos deuses, nenhuma divindade em par­ ticular presumiria reivindicar o monopólio da adoração de toda a humanidade pelo menos até que tivesse vencido todos os seus rivais numa terrível batalha celestial! Em oposição a essas jocosas especulações, as Escrituras insistem na unici­ dade de Deus. No Antigo Testamento, o Shemá que era recitado começava com a declaração: “Ouça, ó Israel, o S e n h o r , o nosso Deus, é o único S e n h o r ” .30 Era a base através da qual ele exigia do seu povo um amor exclusivo e de todo o coração.31 Essa verdade fundamental foi expressada mais adiante também por Isaías: “Eu sou o S e n h o r , e não há outro; além de mim não há Deus”.32 Decorre daí o “ciúme” de Deus, como se diz. Ciúme é um ressentimento em razão de rivais. 29 João 5.40; 6.44.

30 Deuteronômio 6.4.

32 Is 45.5; cf. 44.6ss.; 45.1 4 , 18ss.; 46.9.

31 Deuteronômio 6.5.


Quanto a ser bom ou mau, isso depende de os rivais terem, ou não, legitimidade. Os rivais de Deus não têm, por serem falsos deuses; na verdade são “não-deuses”. É no contexto da idolatria que o Senhor diz: “Eu, o S e n h o r , o teu Deus, sou Deus zeloso ...”ou: “sou um Deus ciumento” (b j) .33 Ele é intolerante com respeito a rivais; ele se recusa a compartilhar com qualquer outro o culto que só a ele é devido. “Eu sou o S e n h o r ; este é o meu nome! Não darei a outro a minha glória, nem a imagens o meu louvor.”34 Daí, também, o seu convite às nações para nele crerem: “Voltem-se para mim e sejam salvos, todos vocês, confins da terra; pois eu sou Deus, e não há nenhum outro”.35 Desse modo, já é bem claro no Antigo Testamento que é a condição de unicidade de Yahweh como único Deus que justifica o seu “zelo” e a sua missão universal, invocando que todo joelho se dobre diante dele e que toda língua jure pelo seu nome.36 Precisamente o mesmo raciocínio é encontrado no Novo Testamento. De fato, Paulo o repete diversas vezes. “Há um único Deus, o Pai” - escreve ele, dizendo ser o criador e o herdeiro de todas as coisas.37 Mais uma vez, há “um só Deus e Pai de todos”.38 E aqui, em 1 Timóteo, há um só Deus (2.5; cf. 1.17; 6.15). Além disso, é porque “existe um só Deus” que ele não é apenas o Deus dos judeus, mas também o Deus dos gentios.39 Assim, tanto o Antigo como o Novo Testamento afirmam primeiro que Deus é um só e, depois, que a base fundamental para a missão mundial é precisamente esse monoteísmo. Nossa fé exclusiva (há um só Deus, e nenhum outro) leva necessariamente à nossa missão inclusiva (o único Deus deseja que todos os homens sejam salvos). c. A morte de Cristo é para todos (2.5-6) O apóstolo passa, então, do único Deus, que deseja que todos os povos sejam salvos, para o único mediador entre Deus e os homens, o qual se deu em resgate por todos. Essa referência a um só mediador, que ele acrescenta, é indispensável dentro do argumento de Paulo; esse argumento não seria perfei­ to sem ela. É como se ele previsse a nossa possível resposta ao que tinha escrito sobre o monoteísmo. Poderíamos dizer: “Admito que há um só Deus. Não sou idólatra, não sou politeísta. Mas isso não comprova a propriedade, para não dizer a necessidade, da missão cristã. Afinal, os judeus e os muçulma­ nos também são ardorosos monoteístas. Até mesmo alguns religiosos tradicio­ nais (ou ‘animistas’, como eram anteriormente chamados) consideravam, além dos espíritos, um Ser Supremo. A unicidade de Deus não está propriamente em disputa. Em vez disso, a questão pode ser posta de outra forma: ‘por que o Deus único, que deseja que todos se salvem, não salvará as pessoas através de diferentes maneiras, ou seja, uma parte por meio do hinduísmo ou do budismo, outra parte através do judaísmo ou do islamismo, e ainda outros através da ” Êxodo 20.5.

34 Is 42.8; cf. 4 8 .11.

” Isaías 45.22.

17 1 Coríntios 8.6.

38 Efésios 4.6.

n Romanos 3.29-30.

36 Isaías 45.23.


Nova Era e de outras seitas contemporâneas? Por que tem ele que insistir que todas as pessoas têm que ser salvas pelo mesmo modo e têm que chegar ao conhecimento da (mesma) verdade!’” A resposta que Paulo dá é que não há apenas um único Deus Salvador, mas que há também um único mediador entre ele e nós, e portanto há um só caminho para a salvação. . Essa questão tem sido debatida com muito ardor em nossos dias. O status das outras religiões e o relacionamento de Jesus Cristo com elas é uma questão que está viva. Três posições principais estão sendo sustentadas. A primeira, a visão tradicional, sustentada até há bem pouco tempo pela grande maioria dos cristãos, é que Jesus Cristo é. o único Salvador e que a salvação é mediante uma explícita fé nele. Essa posição é usualmente chamada de “exclusivismo”, embora esse seja um termo inadequado, pois tem uma certa conotação negativa e elitista e porque nada diz quanto à condição “inclusivista” que se acha implícita na proposta universal que o evangelho tem. O mais importante expositor dessa posição no século vinte foi Hendrik Kraemer, em The Christian Message in a Non-Christian World (A Mensagem Cristã num Mundo Não-Cristão), de 1938. A segunda posição geralmente é chamada de “inclusivismo”. Ela também afirma que Jesus Cristo é o Salvador, mas acrescenta que ele salva pessoas diferentes através de diferentes processos, especialmente através de suas reli­ giões. O mais bem conhecido expositor dessa posição provavelmente é Karl Rahner, em sua obra Theological Investigations, (Investigações Teológicas), volume V, de 1957. A terceira posição, que está ganhando terreno em nosso mundo pós-moderno, cheio de ceticismo quanto à verdade, é chamada de “pluralismo”. Ela não apenas tolera as diferentes religiões, mas categoricamente afirma a validade salvífica independente que elas têm e, assim, nega a unicidade de Jesus e a sua condição de ser a verdade final. O melhor e mais conhecido representante dessa posição é John Hick, especialmente em The Myth o f Christian Unique­ ness, de 1987. Uma simples citação de sua obra expressa a visão dele. Está sendo reconhecido por pluralistas, escreve ele, “que os judeus estão sendo salvos dentro e através do curso judaico de sua vida religiosa; os muçulmanos, dentro e através do curso de sua vida islâmica; os hindus, dentro e através do curso de sua vida hindu ...” etc.40 Podemos afirmar, entretanto, sem receio algum de que alguém nos contradi­ ga, que, nessa classificação, Paulo teria se declarado um “exclusivista”. Em seus dias, havia uma abundância de religiões e de modos de salvação, “muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores’”.41 Por exemplo, havia as misteriosas religiões 40 J. Hick, The Myth o f Christian Uniqueness (O Mito da Singularidade da Fé Cristã), SCM, 1987, p. 22.


populares do Oriente. Também os gnósticos tinham postulado toda uma suces­ são de emanações angélicas preenchendo a distância entre Deus e o mundo, das quais Jesus era a maior, mas não a única. Paulo insistia, entretanto, que há somente um mediador. Temos de ter clareza, portanto, ao afirmarmos que os cristãos não reivindicam a exclusividade do “cristianismo” como um sistema, qualquer que seja a formulação com que se apresente; ou a exclusividade da igreja como instituição em quaisquer formas culturais com que se expresse; mas reivindicam apenas a exclusividade de Cristo como uma pessoa histórica e como o único qualificado como mediador. Um mediador é um intermediário, a pessoa que se acha no meio, que efetua a reconciliação entre duas partes em rivalidade. Mesitçs era usado nos papiros tanto para um árbitro em disputas legais como para um negociador em relacio­ namentos comerciais. E entre Deus e a raça humana, Paulo escreve, há apenas um único, Jesus, “o único que se põe no meio” .42 Assim, em que consiste essa singularidade de Jesus, pela qual ousamos afirmar que ele não tem competidores nem sucessores? Suas singulares quali­ ficações como mediador são encontradas em sua pessoa e em sua obra, em quem ele é e no que ele fez. Em primeiro lugar, a pessoa de Jesus é singular. Ele é o homem Cristo Jesus (v. 5b). É claro que ele também é Deus. No capítulo anterior, ele foi posto junto com o Pai como a única fonte de graça, de misericórdia e de paz (1.2); por três vezes, ele foi referido como “nosso Senhor” (1.2,12,14); e foi dito que ele “veio ao mundo para salvar os pecadores” (1.15), o que pressupõe um propósito e uma decisão preexistentes. O que Paulo agora acrescenta é que ele se tornou um ser humano. A justaposição de palavras na frase em grego é impressionan­ te: “...um só mediador entre Deus e homens, Cristo Jesus homem”. Um interme­ diário tem de ter condições de representar os dois lados igualmente. Esse foi o desejo de Jó: “Se tão-somente houvesse alguém para servir de árbitro entre nós, para impor as mãos sobre nós dois” .43 E, em Jesus Cristo, “o clamor patético de Jó ... foi respondido ...’,44,pois ele é tanto homem como Deus, e portanto tem condições de mediar entre Deus e nós. Ele é Deus desde o princí­ pio, e a sua divindade deriva de seu Pai,’eternamente; e ele tomou-se humano no ventre de sua mãe Maria, e a sua condição humana deriva dela, no tempo. Assim, o Novo Testamento dá testemunho dele como o único Deus-homem. Não há paralelo em quem quer que seja, nem mesmo nos chamados “avatares” do hinduísmo, cuja historicidade é extremamente duvidosa e cuja pluralidade os coloca à parte da encarnação de Deus em Jesus, que aconteceu uma só vez e por todos e para sempre. Em segundo lugar, a obra de Jesus é singular, especialmente quanto ao que cie fez ao morrer na cruz. Ele se entregou a si mesmo como resgate por todos (v. " 1 Coríntios 8.5.

42 Alford, p. 315.

4;' Jó 9.33.

44 Simpson, p. 42.


6a). Dá para notar o salto impressionante que o apóstolo faz ao passar do nascimento de Jesus (o homem Cristo Jesus) para a sua morte (o qual se entre­ gou a si mesmo). Um leva ao outro. Ele nasceu para morrer. Em seguida, sua morte é descrita tanto como um sacrifício quanto como um resgate. Ele “se entregou a si mesmo” significa que ele “se sacrificou” ( r e b ) , oferecendo-se de forma deliberada e voluntária como sacrifício pelo pecado. A fraseologia repor­ ta-se a Isaías 53.12, onde do servo sofredor se diz que ele “derramou sua vida até a morte”. Jesus aplicou esse conceito a si mesmo como o bom pastor que daria a sua vida pelas suas ovelhas, por sua livre e expontânea vontade.45 Além disso, ele se entregou como resgate. Essa expressão é um claro eco da declaração do próprio Jesus de que o Filho do homem veio para “dar a sua vida em resgate por muitos”.46 As implicações disso são muito claras. Um resgate era o preço pago para a libertação de escravos ou cativos. Ainda em nossos dias, os seqüestradores tomam pessoas para ter um resgate. A palavra implica que estávamos numa escravidão, sujeitos ao pecado e ao juízo, sem condições de nos salvarmos, e que o preço pago para a nossa libertação foi a morte de Cristo em nosso lugar. A versão grega da declaração de Jesus é lytron anti pollôn (“um resgate em vez de muitos”). Paulo reforçou-a, acrescentando a preposição ao nome como um prefixo e pondo ainda uma segunda preposição: antilytron hyper pantôn (“um resgate substitutivo em favor de todos”). A presença das duas preposições é significativa. “Cristo é descrito como o ‘pre­ ço de uma permuta’ em favor de todos e em lugar de todos, sendo essa a base pela qual a libertação pode ser obtida.”47 . Paulo, ainda, em lugar de pollôn (“muitos”) usou pantôn (“todos”). Não se tem certeza, entretanto, se desse modo ele mudou o sentido. Joaquim Jeremias argu­ mentou que, embora em contextos gregos polloi seja “exclusivo”, significando “muitos” em oposição a “todos”, nos contextos judaicos polloi é “inclusivo”, significando “os muitos que não podem ser contados”, na verdade, “todos”.48 Mas Cristo morreu por todos? Por muito tempo, tem havido um longo debate na igreja quanto a se o sacrifício vicário de Jesus foi “limitado” em sua amplitude (ele morreu pelo seu povo) ou se foi “universal” (ele morreu por todos). Não é difícil citar textos que dão suporte a essas duas posições. Por um lado, o bom pastor deu a sua vida pelas ovelhas49 e Cristo amou a igreja e entregou-se por ela”.50 Por outro, ele se entregou a si mesmo como resgate por todos (v. 6) e é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.51 Várias tentativas de concilia­ ção têm sido feitas, e os dois lados têm pontos legítimos que devem ser levados em conta. O ponto dos que defendem uma expiação “limitada” é que a penalidade do pecado não deve ser paga duas vezes, primeiro por Cristo na cruz e depois por 45 Jo 10.11, 18; cf. G1 1.4; 2.20; E f 5.2; Tt 2.14.

46 Marcos 10.45.

47 Guthrie (1990), p. 82.

48 T D N T N l, pp. 536 e seguintes.

50 Efésios 5.25.

51 João 1.29.

49 João 10.11, 18


aqueles que o rejeitarem e forem condenados. O ponto dos que defendem uma expiação “universal” é o fato de que o evangelho é para todos. Assim como acontece com a declaração de que Deus deseja que todos sejam salvos, também com a afirmação de que Cristo entregou a si mesmo por todos é possível argumentar que “todos” significa “todos os tipos de classes sociais” e não, absolutamente, “todas as pessoas”. Contudo, provavelmente, é mais sábio admitir que as Escrituras parecem estar afirmando as duas posições, numa antinomia que no presente não temos condições de resolver. Não impor­ tando qual seja a nossa posição quanto à amplitude da expiação, somos total­ mente proibidos de limitar a extensão da missão mundial. O evangelho é para ser pregado a todos; a salvação é para ser oferecida a todos. Aqui, então, acha-se a dupla singularidade de Jesus Cristo, que o qualifica a ser o único mediador. Primeiro, há a singularidade da sua condição de ser uma pessoa divina e humana; segundo, há a singularidade da sua morte, redentora c substitutiva. O único mediador é o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate. Temos que manter juntas estas três palavras: homem, resgate e mediador. Historicamente elas se referem aos três maiores eventos de sua carreira salvífica: o seu nascimento, pelo qual ele se fez homem; a sua morte, através da qual ele se entregou como resgate; e a sua glorificação (pela sua ressurreição e ascensão) à mão direita do Pai, onde ele agora atua como o nosso mediador ou advogado. Teologicamente, elas se referem às três grandes doutrinas da salvação, a saber, a encarnação, a expiação e a mediação celestial. E como em ninguém mais, a não ser em Jesus de Nazaré, Deus primeiro tomouse homem (assumindo ele mesmo a forma humana) e depois entregou-se em resgate (assumindo o nosso pecado e a nossa culpa sobre si), então ele é o único mediador. Não há nenhum outro. Ninguém mais possui, ou jamais pos­ suiu, as qualificações necessárias para ser um mediador entre Deus e os peca­ dores. O que não sabemos é qual é exatamente o grau de precisão e os detalhes de que as pessoas precisam ser informadas sobre o Homem, sobre o Resgate e sobre o Mediador, para poderem invocar a Deus para a sua salvação. Mas o que de fato sabemos é que todos os seres humanos são pecadores, culpados e estão perecendo; que nenhum ser humano pode salvar-se por boas obras, por observâncias religiosas, por crenças ou por sinceridade; que Jesus Cristo, sendo Deus, sendo homem, sendo o resgate, é o único mediador competente, através de quem Deus salva; e que, portanto, é urgente a proclamação do evangelho em sua plenitude a tantos quantos seja possível. d. A proclamação da igreja tem de envolver todas as pessoas (2.7) A declaração de Paulo no final do versículo 6 é tão sucinta que chega a ser enigmática: o testemunho dado em seu próprio tempo. Alguns comentaristas consideram que é a morte de Cristo que, em seu próprio tempo, quando ocor­


reu, é o divino testemunho do amor de Deus que expressa o seu desejo de salvar os pecadores. Mas coAo Paulo prossegue imediatamente no versículo 7 abordando a proclamação do evangelho em seus dias, parece ser mais provável ser esse o testemunho a que ele estava se referindo. O nascimento e a morte de Jesus aconteceram no primeiro século; agora, em seu próprio tempo, o teste­ munho dele tem de ser dado. E para isso [para esse testemunho]^// designado pregador e apóstolo (digo-lhes a verdade, não minto), mestre da verdadeira fé aos gentios (v. 7). De que modo devemos compreender os três substantivos: “pregador”, “após­ tolo” e “mestre” ? Paulo foi os três, mas ninguém é os três hoje em dia. Como observamos ao considerar o primeiro versículo dessa carta, a designação “após­ tolo”, quando usada na acepção de “apóstolos de Cristo”, diferentemente da acepção de “apóstolos das igrejas”, referia-se primariamente aos Doze, a quem Paulo e Tiago depois foram acrescentados. Eles foram testemunhas oculares do Jesus histórico, especialmente de sua ressurreição, tinham a promessa de uma inspiração especial do Espírito Santo e receberam autoridade para ensinar em nome de Cristo. Além disso, Paulo tinha sido designado “apóstolo para os gentios”. Sua forte exclamação, dizendo estar falando a verdade e não mentin­ do,52 provavelmente era necessária devido aos falsos mestres que estavam pondo em dúvida a sua autoridade apostólica. Embora não haja “apóstolos” de Cristo hoje com a mesma inspiração e auto­ ridade dos escritores do Novo Testamento, certamente há “pregadores” e “mes­ tres”. Como descrever suas responsabilidades? Era função dos apóstolo for­ mular, defender e recomendar o evangelho. A função dos pregadores é procla­ má-lo, e a dos mestres é dar uma instrução sistemática de suas doutrinas e ética. O que, então, eles proclamam e ensinam? Jesus Cristo, o Deus-homem, o resgate e o mediador, e tudo o que está implícito nessas verdades. A quem minis­ tram eles? Aos gentios, às pessoas de todas as nações. Como fazem eles isso? “Na fé e na verdade” ( r a ). A n v i toma essas palavras como que indicando a essência da mensagem cristã, e assim traduz “da verdadeira fé”. Pelo contexto, parece ser mais provável que “fé” e “verdade” estejam descrevendo as caracte­ rísticas do ensino, e não o seu conteúdo, isto é, os pregadores pregam e os mestres ensinam com convicção e sinceridade. Ou, possivelmente, a “verdade” seja a verdade objetiva do evangelho e “fé”, o estado subjetivo do mestre.53 Há uma urgente necessidade de tais pregadores e mestres nos dias de hoje. Não é suficiente o Filho de Deus ter nascido, morrido e ressuscitado, ou o fato de apenas ele ser o Deus-homem, o resgate e o mediador; essa grandiosa boa-nova tem de se fazer conhecida, isto é, proclamada e ensinada, por todo o mundo. Em resumo, a primeira metade desse capítulo começa e termina com uma referência à amplitude mundial da responsabilidade da igreja. A igreja local tem 52 Cf. Rm 9:1; 2Co 11:31; G1 1:20.

53 Ellicott, p. 32.


uma missão para com todo o mundo. Segundo o versículo 1, a igreja tem que orar por todos os povos; de acordo com o versículo 7, ela tem que proclamar o evangelho a todos os povos, a todas as nações. Mas de que forma a igreja poderá incluir o mundo todo no alcance da sua intercessão e do seu testemu­ nho? Uma perspectiva assim não é arrogante, presunçosa e até mesmo imperi­ alista? Não! Crisóstomo, no final do quarto século, deu-nos a razão: “Imitem a Deus!” - clamou ele.54 Isto é, o objetivo da igreja é universal, por ser universal o objetivo de Deus. É pelo fato de existir um só Deus e um só mediador que todos os povos têm de ser incluídos nas orações da igreja e na sua proclama­ ção. É a unidade de Deus e a singularidade de Cristo que exigem a universalida­ de do evangelho. O desejo de Deus e a morte de Cristo são para todos os povos; portanto, o dever da igreja é para todas as nações de igual forma, direcionando a elas tanto suas mais ardentes orações como o seu urgente testemunho. 2. Atribuições segundo o sexo, no culto público (2.8-15) O assunto do culto público, que Paulo tinha começado a abordar na primeira metade desse capítulo, é retomado por ele na segunda parte. Mas agora ele passa da prioridade e da amplitude do alvo das orações da igreja local para os papéis que os homens e as mulheres devem desempenhar, bem como para como devem se comportar quando a igreja se reúne em culto. Ele delineia os deveres dos homens em relação à oração (v. 8) e os deveres das mulheres em relação ao vestir-se, ao estilo de seu penteado, ao uso de jóias (vv. 9 e 10) e, ainda, em relação aos homens (vv. 11-15). Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos san­ tas, sem ira e sem discussões. 9Da mesma forma quero que as mulheres se vistam modestamente, com decência e discrição, não se adornando com tranças e com ouro, nem com pérolas ou com roupas caras, 10mas com boas obras, como convém a mulheres que declaram adorar a Deus. 11A mulher deve aprender em silêncio, com toda sujeição. ,2Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.13Porque primeiro fo i formado Adão, e depois Eva. ,4E Adão não fo i enganado, mas sim a mulher que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora. I5Entretanto, a mulher será salva dando à luz filhos - se ela permanecer na fé, no amor e na santidade, com bom senso. Esses são, provavelmente, os versículos mais controvertidos das Cartas Pastorais (em especial, os versículos 11 a 15). Eles têm sido muito estudados e discutidos, principalmente nos recentes debates da igreja sobre a ordenação e Crisóstom o, p. 430.


o ministério de mulheres. Ademais, as conclusões que tiraremos desse texto vão depender muito dos princípios hermenêuticos que adotarmos. Antes de considerar em detalhe esses versículos, portanto, é necessário examinar dois princípios que parecem ter uma importância fundamental. a. Princípios hermenêuticos O primeiro pode ser chamado de princípio da harmonia. Nós, que cremos ser a Bíblia a Palavra de Deus escrita, também cremos que, quando Deus fala, ele não se contradiz. Portanto, embora reconheçamos, agradecidos, a rica di­ versidade tanto de ênfases teológicas como de estilos literários, temos também a expectativa de que a Palavra tenha uma subjacente consistência. Isso não significa que teremos que cair numa manipulação artificial, mas que buscare­ mos encontrar uma harmonia natural, interpretando cada texto dentro de todo o contexto bíblico. Desse modo, ao abordar esses versículos sobre o papel da mulher na igreja, não vamos isolá-los de uma básica afirmação das Escrituras com respeito à igualdade entre homens e mulheres em seu valor e dignidade, por criação e por redenção.55 Não há diferença alguma entre os sexos tanto na imagem de Deus que levamos como também em nossa condição de filhos de Deus pela fé em Cristo. Toda idéia de superioridade ou inferioridade de um dos sexos tem de ser de imediato descartada. Em segundo lugar, temos de procurar aplicar o princípio histórico. Isto é, Deus sempre proferiu a sua palavra num ambiente cultural e histórico em parti­ cular, especialmente o do antigo Oriente Próximo (o Antigo Testamento), o do judaísmo palestino (os evangelhos) e o do mundo greco-romano (o restante do Novo Testamento). Nenhuma palavra de Deus foi proferida num vácuo cultu­ ral; toda palavra foi dita num contexto cultural. É, de fato, glória da revelação divina que, para comunicar-se com o seu povo, Deus não lhes proclamou máxi­ mas à distância, sem características culturais. Pelo contrário, ele desceu ao nível do seu povo, entrou em sua história, assumiu a sua cultura e falou a sua linguagem. Contudo, essa divina condescendência cria, por outro lado, difíceis problemas de interpretação para nós. Isso porque as Escrituras são uma mistu­ ra, em substância e forma, da verdade eterna (que transcende a cultura) com a sua apresentação cultural e passageira. A primeira é universal e normativa; a segunda é local e mutável. Mas como distingui-las? De um modo mais particu­ lar, como considerar o elemento cultural nas Escrituras? Três principais respos­ tas são dadas, e parece-me que as discordâncias quanto a essa questão têm raiz na diferente interpretação dada ao texto que temos diante de nós. Primeiro, há aqueles que entronizam a forma cultural, dando-lhe a mesma autoridade normativa que atribuem à verdade que ela expressa. Pelo fato de a forma cultural fazer parte da Palavra de Deus, tais pessoas sentem que não têm 55 Gn 1.26ss.; G1 3.28.


condições de ceder em nada que, de qualquer forma, altere o texto. Desse modo, adotam uma postura literal rígida, considerando outras abordagens como fugas “ao que a Bíblia ensina de forma tão clara”. Para serem consistentes em sua interpretação de 1 Timóteo 2.8-15, tais pessoas terão que insistir que os homens devem sempre levantar as mãos quando orarem (v. 8), que as mulheres nunca façam tranças em seu cabelo, nem usem jóias (v. 9), e que em circunstân­ cia alguma a mulher ensine a homens (vv. 11-12). Em segundo lugar, há também aqueles que, recusando-se a diferenciar, nas Escrituras (tal como os do primeiro grupo), uma verdade eterna da sua expres­ são cultural, caem no extremo oposto. Longe de entronizá-las, tanto uma como a outra, eles as descartam. Em vez de elevarem as expressões culturais ao nível de uma verdade eterna, eles degradam a verdade eterna ao nível de suas expres­ sões culturais. Em vez de darem às duas a condição de terem autoridade divina, negam-lhes essa autoridade. Uma vez que a Palavra de Deus é apresentada com vestes culturais assim tão antigas - argumentam eles - embora ela tenha falado às pessoas no passado, agora ela está totalmente desatualizada e é irrelevante. Conseqüentemente, toda instrução que Paulo deu a Timóteo sobre as orações dos homens e sobre o adorno das mulheres e sua sujeição, tudo isso tem que ser descartado. Não há praticamente nada que valha a pena salvar-se nesse descarte, pois nada é “eterno”, tudo é meramente “cultural”. Por exemplo, A. T. Hanson escreveu: “Assim como a primeira metade desse capítulo mostrou-nos o melhor do seu autor, a segunda metade parece mostrar o que dele é pior. Os cristãos não estão absolutamente obrigados a aceitar o seu ensino quanto às mulheres”.56 Semelhantemente, embora de maneira menos estridente, William Barclay escreve: “Todas as coisas nesse capítulo são meras regulamentações temporais dentro de uma dada situação”.57 É compreensível que comentaristas liberais, a quem falta respeito à suprema autoridade canônica das Escrituras, sintam-se tão à vontade em sua interpreta­ ção. O que preocupa, entretanto, é quando eruditos tradicionais argumentam de um modo parecido. Para ser honesto, eles não afirmam que o condiciona­ mento cultural das Escrituras acaba totalmente nos dias de hoje com a autorida­ de que elas têm, mas dizem que certas passagens são de tal forma específicas a uma situação cultural, que não mais se aplicam a nós, e que assim podemos ignorá-las, sem problema algum. Até mesmo o Dr. Gordon Fee, que escreveu o seu comentário sobre as Car­ tas Pastorais com muita propriedade, e que de um modo geral eu recomendo muito, parece ter caído nessa armadilha. Chamando a atenção tanto para a importância de Éfeso como centro do culto à deusa Diana (Artemis) e dos seus rituais imundos, como também para o sucesso que os falsos mestres estavam tendo entre as “mulheres de espírito fraco”,58 ele acrescenta que, “dentro des56 Hanson (1966), p. 38 .

57 Barclay, p. 68.

58 2Tm 3.6; cf. lT m 5.6, 11.


se contexto”, as instruções de Paulo para as mulheres “fazem sentido”. Mas a afirmação de Paulo em 1 Timóteo 2.11-12- prossegue ele - “relaciona-se espe­ cificamente com o problema existente em Efeso. Obviamente, ele não assumiu essa posição para com as mulheres de um modo geral.”59 Esse princípio da aplicação local é desenvolvido um pouco mais por Richard Clark Kroeger e Catherine Clark Kroeger, em seu notável livro I Suffer Not a Woman: Rethinking 1 Timothy 2:11-15 in Light o f Ancient Evidence (Não Sou Afetado por uma Mulher: Repensando 1 Timóteo 2:11-15 à Luz de Antigas Evidências). E um tour de force, o fruto de muita pesquisa, feita de forma conscienciosa, sobre o mundo antigo. Compartilho com eles a preocupação com o fato de que esse texto tem sido usado, de maneira imprópria e opressiva, para negar legítimos ministérios de mulheres. Isso porque, sem dúvida alguma, as Escrituras asseguram a liderança de muitas mulheres inteligentes e agracia­ das com dons. Como, então, os Kroegers abordaram esse texto em mais de cem páginas? Descrevendo Éfeso como “um baluarte da supremacia feminina”,60 dominada pela grande deusa “Diana dos efésios”61 e infiltrada por mitos esoté­ ricos judeus e gnósticos, os Kroegers reinterpretam frase por frase os versícu­ los de 11 a 15 como aplicando-se exclusivamente àquele contexto. “A mulher deve aprender em silêncio, com toda sujeição” (v. 11) é uma instrução às mulhe­ res cristãs, em contraste com a “tagarelice absurda” das mulheres gnósticas, para ser ensináveis e submeterem-se silenciosamente à Palavra de Deus. “Não permito” (v. 12a) refere-se a “uma situação específica e limitada [como em Éfe­ so] e não tem uma aplicação universal”.62 O que as 'mulheres são proibidas de ensinar refere-se apenas ao ensino da “doutrina não correta”.63 A “autoridade

59 F ee (1988), pp. 70, 77. D ep ois de ter escrito esse capítulo, o livro G ospel an d Spirit: Is su e s in N ew T esta m en t H e r m e n e u tic s (O E v a n g elh o e o E sp írito: Q u estõ es de Herm enêutica no N ovo Testamento), de Fee, despertou a minha atenção, em especial o capítulo 4, que toma 1 Tim óteo'2.8-15 com o exem plo. Ele argumenta que, por causa do a d hoc, uma característica historicam ente particular do ensino de Paulo aqui, ele não tinha a in tenção de fa z ê -lo “um a regra para todas as igrejas em todos os tem p os” . Gordon Fee diferencia, com efeito, diferentes categorias no ensino do N ovo Testamento. Algumas delas o autor pretende que sejam de aplicação geral, eterna e universal, enquanto outras destinam-se a ser apenas aplicáveis a uma situação local, particular e temporária. D esse m odo, uma vez que saibamos distinguir essas duas situações, tem os de aceitar a primeira, mas teremos liberdade para rejeitar a segunda. Em minha visão, a melhor e a form a m ais certa de se proceder é diferenciar os dois n ív eis que o ensino no N o v o Testamento possui, um deles sendo a profunda e fundamental Palavra de Deus e o outro constituindo sua aparente expressão cultural. Assim , o primeiro tem de ser aceito com o normativo, ao passo que o segundo não é para ser rejeitado com base em sua “relatividade cultural”, mas deve ser transposto para a sua forma cultural na atualidade. O discernimento de que necessitam os, então, não é entre textos (alguns normativos, outros descartáveis), mas é para analisar o que está dentro de cada texto (um conteúdo de caráter eterno ou uma expressão cultural). 60 Kroeger and Kroeger, p. 54. 61 Atos 19.28, 34. 62 Kroeger e Kroeger, p. 83 63 Ibid., pp. 80-81.


sobre o homem”, que igualmente é proibida, não é no sentido de exercer domí­ nio, mas significa que a mulher não é para proclamar-se como “autora” ou “como tendo dado origem” ao homem.64 Os mitos gnósticos de que a mulher era responsável tanto pela criação como pela iluminação do homem são contra­ ditados pelas referências de Paulo à prioridade de Adão (v. 13) e ao engano de Eva (v. 14).65 Entretanto, ela será “salva”, e não condenada (v. 15). Reconheço que essa reconstrução é coerente e engenhosa, evidenciando muito conhecimento e uma profunda reflexão. Por ela, cada um dos sete ou mais segmentos dos versículos 11 a 15 foi reinterpretado com referência às idéias heréticas que provavelmente estavam circulando naquele tempo. Quando ter­ minei de ler esse livro, entretanto, tive um forte sentimento de me sentir “arrasa­ do”. Será que esse texto realmente nada tem a dizer de forma normativa sobre o relacionamento entre homens e mulheres? Será que as palavras “autoridade” e “sujeição” (vv. 11 e 12) foram esvaziadas totalmente de significado nos dias de hoje? Não haverá, por certo, ainda, alguma coisa que permanece como comple­ mentar na sexualidade criada, que Deus pretenda ser para o enriquecimento de nossa experiência humana? Como admite o Dr. Dick France, embora vá de en­ contro à sua principal tese, “o Novo Testamento revela ... um conceito muito amplo de ‘ordem’ (taxis) que Deus designou para a sociedade humana em muitos níveis”, e que exige “sujeição” (hypotagç), inclusive no caso da mulher em relação a seu marido no casamento. “Sujeitar-se é reconhecer o seu lugar dentro da ordem estabelecida por Deus na sociedade e agir de conformidade com isso, aceitando a autoridade daqueles a quem Deus a concedeu.”66 É isso o que leva o Dr. J. I. Packer a expressar, em continuação, sua convicção de “que o relacionamento do homem com a mulher é, por sua própria natureza, irreversível... Isso é parte da realidade da criação, um fato estabelecido de que nada mudará. Com certeza, a redenção não o mudará, pois a graça restaura a natureza, e não a anula”. Portanto, ele é favorável à proposta de que deveríamos “teologizar a reciprocidade, a igualdade espiritual, a liberdade para o ministério e a submissão e o respeito mútuos entre homens e mulheres - dentro dessa estru­ tura de irreversibilidade ... E importante que a razão para não se impor sobre as mulheres restrições que as Escrituras não impõem não seja confundida com os alvos bem diferentes de: minimizar as diferenças que foram criadas entre os sexos e diminuir as inalienáveis responsabilidades do macho nos relacionamentos do homem com a mulher”.67 Estou de pleno acordo com isso. O perigo de se declarar que uma passagem das Escrituras tem apenas validade local (não universal) e apenas temporal (não permanente) é que isso abre a porta para uma rejeição em larga escala do ensino apostólico, uma vez que praticamen­ 64 Ibid., p. 103.

65 Gn 1.26ss.; G1 3.28.

66 France, pp. 33-35.

61 J. I. Packer - Women, Authority and thc Bible (Mulheres, Autoridade e a Bíblia) - IVP, E U A , 1986, p. 299.


te todo o Novo Testamento foi dirigido a situações específicas. Sempre que pudermos mostrar que uma instrução era dirigida a um contexto em particular, deveremos então limitá-la àquele contexto e declará-la irrelevante em relação aos demais? Por exemplo, o mandamento para que todos “se sujeitem aos governan­ tes e autoridades”68 foi dirigido aos cretenses, cujo espírito de rebeldia era muito bem conhecido;69 ele, então, não se aplica aos não-cretenses? De forma semelhante, poderíamos argumentar que o que Paulo escreveu so­ bre a prática homossexual, sobre um estilo de vida simples, sobre a singularidade de Cristo, sobre a evangelização mundial e muitos outros tópicos estava muito bem para os seus dias. Mas os tempos mudaram, agora pertencemos a uma cultura totalmente diferente e, haveria quem acrescentasse, sabemos mais do que ele sobre tudo isso; assim, o que ele escreveu não teria autoridade sobre nós. Até aqui, o que sugeri foi que rejeitássemos as duas posições extremas em relação ao elemento cultural na revelação bíblica. Poderíamos chamá-las de “literalismo” (entronizando as duas) e “liberalismo” (descartando as duas). A terceira posição, que é conciliatória, é a da “transposição cultural”. Por ela, temos que discernir nas Escrituras o que é revelação de Deus em essência (que é imutável) e o que é sua expressão cultural (que é mutável). Então, estaremos numa posição de preservar o primeiro como permanente e universal e fazer a transposição do segundo para termos culturais atuais. Assim, em resposta à ordem de Jesus para que lavássemos os pés uns dos outros, não vamos literal­ mente obedecer a ela, saindo por aí e lavando os pés das pessoas, como tam­ bém não vamos descartar essa passagem como não sendo mais relevante para nós; vamos, porém, discernir o que é intrínseco nela (nenhum serviço será desprezível se amarmos uns aos outros) e então transpor essa verdade para a realidade de hoje (teremos prazer em lavar os pratos ou lavar o banheiro). Creio que a melhor forma de tratar os versículos 8 a 15 é aplicar a eles esse princípio da transposição cultural, admitindo que ele se aplica aos três tópicos, a saber, nas orações, dos homens (v. 8), nos adornos femininos (vv. 9-10) e na sujeição das mulheres (vv. 11-15). Nos dois primeiros casos, a aplicação não é difícil. Considere o versículo 8. Sempre e em qualquer lugar os homens devem orar em santidade e amor. Mas sua postura corporal, ao faze­ rem isso (permanecendo em pé, de joelhos, sentados, batendo palmas ou levantando os braços), pode variar de acordo com a cultura. Em seguida, os versículos 9 e 10. Sempre e em qualquer lugar as mulheres devem adornar-se com modéstia, com decência, com propriedade e com boas obras; mas suas vestes, seu estilo de penteado e seus adornos podem variar de acordo com a cultura. A transposição cultural também se aplicará no caso dos versículos de 11 a 15? Observemos que os versículos 11 e 12 contêm duas instruções complemen68 Tito 3.1.

69 Tito 1.12.


tares para as mulheres ou sobre elas. Afirmativamente, a mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição (v. 11). Negativamente, ela não deve ensinar, nem ter autoridade sobre o homem (v. 12). Além disso, a antítese é dupla. Por um lado, ela deve aprender em silêncio e não ensinar. Por outro, é para ela ser submissa e não exercer autoridade sobre o homem. Ou, exprimindo essa dupla antítese com mais precisão, o comportamento da mulher no culto público deve caracterizar-se por uma postura de quietude e/ou silêncio, não ensinando; e por sujeição, e não autoridade. Isso nos leva à questão básica: qual é a relação que há entre essas duas antíteses? São elas simplesmente paralelas, e portanto igualmente normativas? A mulher deve permanecer tanto em silêncio e não ensinar, como também ser submissa e não exercer autoridade - sem distinção alguma entre essas instru­ ções? Isso é o que muitos comentaristas aceitam. Mas a submissão tem de sempre expressar-se em silêncio, em “não exercer autoridade”, em “não ensi­ nar”? Ou seria legítimo ver a antítese submissão/autoridade como permanente e universal (por ter base na criação, veja o versículo 13); vendo, entretanto, a antítese silêncio/ensino como sendo uma expressão cultural do primeiro sécu­ lo, não sendo, assim, necessariamente aplicável a todas as culturas, mas po­ dendo lhes ser transposta? Alguns responderão, sem hesitar, que não há indicação alguma de uma dife­ renciação nesse sentido, no texto, pois os versículos 11 e 12 contêm apenas duas proibições (ensinar e ter autoridade) e duas ordens (silêncio e sujeição). É verdade. Mas o mesmo pode ser dito com respeito aos versículos 8 e 9. Não há nada no texto do versículo 8 que requeira de nós alguma diferenciação entre o mandamento de levantar mãos santas e não ter ira nem discussões. Nem ainda há nada no texto do versículo 9 que requeira de nós distinguir o mandamento para as mulheres se vestirem com modéstia em relação à ordem para não usar cabelo trançado, nem jóias de ouro. Contudo, a mente cristã, pelo que sabe das perspectivas e pressuposições do Novo Testamento, reconhece que seus man­ damentos éticos e suas expressões culturais não são igualmente normativos e têm, portanto, de ser diferenciados. Desse modo, reconhece-se que no versícu­ lo 8 a santidade e o amor são éticos, mas que levantar as mãos é cultural; e que nos versículos 9 e 10, a decência e a modéstia são éticas, ao passo que estilos de penteado e o uso de jóias são aspectos culturais. Por que não deveríamos, então, admitir que a mesma distinção entre aspectos éticos e culturais esteja ocorrendo também nos versículos 11 e 12? O contexto (com três regulamenta­ ções sobre orações, adornos e submissão) propicia que ao menos sejamos abertos a essa possibilidade. Deveríamos começar afirmando, contrariamente ao que está na moda e que é “politicamente correto”, que a “sujeição” feminina à “autoridade” masculina é normativa, pelos propósitos de Deus. Paulo desenvolve esse ensino com maior profundidade em 1 Coríntios 11.2ss. E aqui, nos versículos 12 e 13, ele dá uma


base para esse ensino, especialmente ao dizer que primeiro fo i formado Adão, e depois Eva (v. 12). Alguns eruditos rejeitam isso, como sendo um exemplo da “tortuosa exegese rabínica” de Paulo, mas não considero que se tenha liberda­ de de discordar dos apóstolos de Cristo. Seu argumento pela “liderança” mas­ culina partindo da prioridade na criação de Adão é perfeitamente razoável, quando visto à luz da primogenitura, que dá direitos legais e privilégios ao primeiro filho, pois Adão foi o primogênito de Deus. Além de ter sido criada depois de Adão, Eva foi criada a partir dele e para ele, para ser-lhe uma ajudadora idônea e que lhe fosse igual.70 Não se deve entender “autoridade” em termos de tomada de decisão e muito menos de se exercer um poder ilimitado. Em Efésios 5.21ss., no contexto dos relacionamentos recíprocos entre marido e mulher, Paulo interpreta a posição do marido como “cabeça” de sua esposa, da mesma maneira como Cristo é “cabeça” da igreja. E trata-se de uma ascendência amorosa e não subjugante, uma ascendência de auto-sacrifício e não de auto-afirmação, de amor e não de orgulho, destinada a ser liberal e não escravizante. A liderança masculina tam­ bém não é incompatível com a igualdade sexual, do mesmo modo que a afirma­ tiva “o cabeça de Cristo é Deus”71 não é incompatível com a unidade que há entre o Pai e o Filho na Divindade. Se, entretanto, a antítese autoridade/submissão é para ser tida como decorren­ te da criação, será que a antítese ensino/silêncio não deve ser considerada cultu­ ral? Será que o requisito do silêncio, tal como a necessidade do uso do véu,72 não era um símbolo cultural do primeiro século que expresfsava a liderança masculina, o que não é necessariamente apropriado nos dias de hoje? Isso porque o silêncio não é um ingrediente essencial da submissão; a sujeição expressa-se de diferen­ tes modos em diferentes culturas. Semelhantemente, o fato de uma mulher ensi­ nar homens não significa necessariamente que ela esteja tendo autoridade sobre eles. O ensino pode ser dado sob diversos estilos, com significados diferentes. Assim, a profecia pública feita por mulher não era considerada como um exercício indevido de autoridade sobre os homens, presumivelmente por realizar-se sob a direta inspiração e autoridade de Deus.73 Também o ensino de Priscila a Apoio não foi indevido, por ter sido feito não em público, mas na casa deles, com a presença de Aquila, que colaborou com essa instrução.74 O que dizer, então, acerca da segunda base bíblica dada por Paulo em sua instrução? Tendo o seu primeiro argumento sido decorrente da criação {primei­ ro fo i formado Adão, e depois Eva - v. 13), o segundo proveio da queda (Adão não fo i enganado, mas sim a mulher, que tendo sido enganada, tornou-se transgressora - v. 14). A explicação popular dada a isso é que a mulher se expôs na queda por ser naturalmente propensa ao engano e, por causa disso, ela não 70 Gênesis 3.18.

71 1 Coríntios 11.3.

73 ICo 11.5; cf. At 2.17; 21.9.

72 1 Coríntios 11.10. 74 Atos 18.26.


deve ensinar os homens. Mas há uma objeção fatal a esse argumento. Se as mulheres são por natureza crédulas, elas deveriam ser desqualificadas a ensi­ nar de maneira geral, e não apenas aos homens, uma vez que Paulo refere-se ao papel especial que as mulheres exercem no ensino de crianças75 e de outras mulheres mais jovens.76 É mais provável, portanto, que o ponto essencial com respeito à participação de Eva na queda não foi o fato de ela ter sido enganada, mas por ela ter tomado uma iniciativa indevida, usurpando assim a autoridade de Adão, invertendo os papéis de cada um.77 Por fim, a nossa decisão com respeito a se as mulheres devem ensinar os homens, se devem ser ordenadas ao pastorado ou se devem exercer outros papéis de liderança na igreja vai depender de como entendemos a natureza da liderança pastoral. Se pertencermos à tradição da Reforma, que considera o presbítero local como alguém essencialmente revestido de autoridade, respon­ sável tanto pelo ensino à congregação como pelo exercício da disciplina (inclu­ indo a excomunhão), então somos propensos a concluir que não é apropriado a uma mulher ocupar tal posição de tão grande autoridade. Suponhamos, por outro lado, que em nossa consideração sobre a liderança pastoral cristã parti­ mos do ensino de Jesus em Marcos 10.35ss., em que ele fez uma distinção entre duas comunidades humanas cujos líderes operam com base em princípios dife­ rentes. No mundo, disse ele, “seus maiorais exercem poder sobre elas”. Mas, acrescentou, “não será assim entre vocês”. De modo diferente, na comunidade cristã, a grandeza seria medida pelo serviço. Por que considerar, então, inapropriado que as mulheres exerçam uma lide­ rança assim, na condição de servas? Elas agiram desse modo em toda a história bíblica. Além disso, agora não há mais na igreja aqueles que ensinam com a mesma autoridade que tinham os doze apóstolos, com a autoridade de Cristo e em seu nome. O Novo Testamento agora está completo, e sob sua autoridade é que todos os mestres cristãos são, com humildade, chamados a ensinar. Se, então, uma mulher ensina outras pessoas, inclusive homens, debaixo da auto­ ridade das Escrituras (não reivindicando ela nenhuma autoridade de si mesma), e como membro de uma equipe pastoral cujo líder seja um homem (como um símbolo cultural da ascendência masculina que há hoje), não seria legítimo ela exercer tal ministério e ser designada (consagrada) a fazer isso, uma vez que ela não estaria infringindo o princípio bíblico da ascendência masculina? Nossa resposta a essa pergunta possivelmente dependerá de considerarmos certo, ou não, aplicar o princípio da transposição cultural aos versículos 10 e 11. b. Três instruções apostólicas Em seguida às nossas divagações pelos princípios hermenêuticos que de­ veríamos aplicar a essa passagem (vv. 8-15), estamos em condições de entrar 73 lT m 5.10; 2Tm 1.5; 3.15.

1,1 Tilo 2.:lss.

77 G ênesis 3.6, 17.


mais a fundo em sua exposição. Há três instruções que se relacionam, como o contexto deixa claro, com a condução do culto público: os homens e suas orações (v. 8), as mulheres e seus adornos (vv. 9 e 10) e as mulheres e o seu relacionamento com os homens (vv. 11 a 15). i. Os homens e suas orações (2.8) Em todo lugar (ou seja, sempre que uma oração for feita em público), a postura dos homens deve ser levantando mãos santas, sem ira e sem discus­ sões (v. 8). Aqui, há três características universais da oração em público ou, expressando-as negativamente, há três impedimentos à oração, a saber, o pecado, a ira e as contendas. A referência a “mãos santas” nos faz lembrar do Salmo 24, no qual aquele que deseja subir ao monte do Senhor e permanecer no seu santo lugar tem de ser “limpo de mãos e puro de coração”. Aqui, também, Paulo refere-se “ao sinal visível de uma realidade interior, pois nos­ sas mãos indicam um puro coração” .78 Assim, é inútil estender as mãos a Deus, em oração, se elas estão manchadas pelo pecado.79 Quanto à ira e as contendas, obviamente não é apropriado buscar o Senhor em oração quando estamos dando guarida ao ressentimento ou à amargura em relação ao pró­ prio Deus ou a outras pessoas. Como o próprio Jesus insistiu, a reconciliação tem que preceder o culto a Deus.80 Assim, a santidade, o amor e a paz são indispensáveis na oração. Mas e quanto a levantar as mãos - será que isso é igualmente essencial? Não. Postu­ ras corporais e gestos na oração são culturais, ocorrendo nas Escrituras numa grande variedade de formas. Apostura normal durante a adoração era de pé, tal como aconteceu quando os levitas convocaram o povo, dizendo: “Levantemse e louvem o S e n h o r , o seu Deus”.81 E, enquanto permaneciam em pé diante de Deus, parece que era usual tanto “erguer” as mãos a ele como “esticá-las” diante dele, numa expressão de dependência e fé. Assim, lemos: “Ouve as minhas súplicas... quando ergo as mãos para o teu Lugar Santíssimo”, e “Le­ vantemos o coração e as mãos para Deus, que está nos céus”.82 Ao mesmo tempo, os olhos podiam também ser erguidos com uma expectativa83 ou, então, serem voltados para baixo com humildade, em arrependimento.84 Mas ficar em pé não era a única postura aceitável numa oração. Davi “sen­ tou-se perante o Senhor”,85 e muitas vezes lemos que, em tempos de humilha­ ção, angústia e confissão, as pessoas encurvavam-se ou ajoelhavam-se diante

78 Calvino, p. 214.

79 Is 1.15; cf. 59.1ss.

80 Mt 5.23-24; cf. 6.12ss.; M c 11.25.

81 N e 9.5; cf. Gn 18.22; 1 Sa 1.26; M c 11.25; Lc 18.11, 13; Ap 7.9. 82 SI 28.2; La 3.41; cf. Êx 9.29; 17.11-12; lR s 8.22; N e 8.6; SI 63.4; 134.2; 143.6. 83 Por ex ., SI 25.15; 121.1; 123.1-2; 141.8; Jo 11.41; 17.1. 84 Lucas 18.13.

83 2 Samuel 7.18 (ib b ).


de Deus.86 Às vezes, parecia natural ao povo de Deus expressar seu sentimen­ to de temor em sua presença prostrando-se, com os rostos em terra,87 especial­ mente depois de uma visão da majestade de Deus.88 Em resumo, embora a santidade, o amor e a paz devam sempre acompanhar nossas orações, se ficamos em pé ou sentados, se nos encurvamos, se ajoelha­ mos ou se nos prostramos com o rosto em terra e, ainda, se levantamos nossas mãos, ou esticamos os braços, ou os cruzamos, ou se ficamos com os dedos entrelaçados, ou batendo palmas, ou acenando com as mãos, todas essas pos­ turas não têm importância alguma, ainda que tenhamos a propensão de concor­ dar com William Hendriksen, de que “uma posição relaxada do corpo, num momento de oração, é abominação ao Senhor”.89 Por outro lado, temos que assegurar que a nossa postura seja apropriada à nossa cultura e expresse genuinamente a nossa devoção interior. Isso porque Jesus alertou-nos dos perigos da ostentação religiosa,90 e a nossa adoração nunca deve ser degrada­ da à “exibição de uma pantomima sagrada”.91 ii. As mulheres e seus adornos (2.9-10) Esse trecho inicia-se com “Da mesma f o r m a d e modo que os comentaris­ tas naturalmente têm questionado qual seria a similaridade que Paulo tinha em mente. Alguns dizem que o sentido seria “Da mesma forma, quero que as mu­ lheres orem ...”; e é certo que Paulo queria que as mulheres participassem da oração em público.92 Mas é mais simples e direto entendermos da forma “Quero também q u e ...” A construção da sentença no grego é “Quero que as mulheres... adomem-se”, e é importante observar o desejo positivo do apóstolo, antes de entrar nas qua­ lificações. Quando uma mulher se adorna, está procurando aumentar a sua bele­ za. Desse modo, Paulo reconhece duas coisas: que as mulheres são bonitas e que devem aumentar a sua beleza e exibi-la. Não há base alguma nesses versículos para concluir que as mulheres devem negligenciar a sua aparência, esconder a sua beleza e não se vestir bem ou usar roupas desalinhadas. A questão é como elas devem adomar-se. Há três partes na instrução dada por Paulo. Primeiro, ele diz às mulheres que elas devem vestir-se modestamente, com decência e discrição (v. 9a). Não é possível diferenciar essas palavras entre si

86 Por ex„ Gn 17.3; 24.26, 48; Êx 12.27; lR s 8.54; 2Cr 29.30; Is 45.23; Fp 2.9ss.; Ez 9.5; D n 6 .1 0 ; M t 2 .1 1 ; L c 2 2 .4 1 ; At 7 .60; 9.40; 2 0 .3 6 ; 2 1 .5 ; Rm 14.11; E f 3.14; em contraste, Mt 4.9. 87 Por ex„ Nm 14.5; 16.4, 22, 45; Dt 9.18, 25-26; Js 5.14; Jz 13.20; lR s 18.42; lC r 29.20; 2Cr 7.1ss.; N e 8.6; M c 14.35. 88 Por ex„ Ez 1.28; 3.23; 9.8; Dn 8.17; 10.9; Ap 1.17; 11.16. 85 Hendriksen, p. 103. 92 1 Coríntios 11.5.

90 Mateus 0.1 ss.

Fairbairn, p. 122.


de uma maneira perfeita. Mas a impressão geral que se tem é clara: as mulheres devem ser discretas e modestas no seu trajar e não usar nenhuma peça do vestuário que seja intencionalmente sugestiva ou sedutora. Isso estabelece um princípio universal. Em segundo lugar, Paulo diz às mulheres para não se adornarem com tranças e com ouro, nem com pérolas ou com roupas caras (v. 9b). Diferentemente da primeira parte do versículo, certamente não se trata de uma proibição total de todos os penteados em que o cabelo é trançado, de todo tipo de jóias feitas com ouro ou pérolas e de toda roupa elegante (a expressão “roupas caras” levanta um outro ponto que, embora algo relativo, pode muito bem aplicar-se universalmente). Se a igreja glorificada é descrita no livro de Apocalipse como “preparada como uma noiva adornada para o seu marido”,93 é evidente que não há uma proibição para todo tipo de adorno material para as mulheres. Não. Estilos de penteado, uso de jóias e modo de vestir têm diferentes significados em diferentes culturas. As mulheres cristãs de Efeso, por exemplo, tinham que se cuidar para que sua aparência de forma alguma se assemelhasse com as centenas de prostitu­ tas que eram empregadas no templo da grande deusa Diana. Crisóstomo cap­ tou bem isso. “Não imitem as mulheres da corte”, apregoou ele, “pois com tais vestidos elas seduzem muitos amantes”.94 James B. Hurley explica isso com mais detalhes: “Ele [Paulo] refere-se... aos sofisticados penteados que então estavam na moda entre os ricos e também aos que eram usados pelas cortesãs. As esculturas e a literatura da época deixam bem claro que as mulheres com freqüência arrumavam o cabelo com enormes e sofisticados penteados com tranças e partes enroladas entrelaça­ das, ou em camadas sobrepostas como torres, decoradas com pedras precio­ sas, ouro e pérolas. As cortesãs faziam no cabelo numerosas tranças penden­ tes com pingos de ouro, pérolas ou pedras preciosas, tomando seus cabelos faiscantes”.93 O Dr. Hurley dá ainda informações adicionais sobre as vestimen­ tas e os penteados que eram usados no Império Romano. Esses estilos de penteado não eram apropriados para as mulheres cristãs do primeiro século na Ásia Menor. Mas o mesmo não se pode dizer com respeito a certas tribos africanas de hoje. Suas mulheres cristãs têm preservado pentea­ dos tradicionais, que fazem uso de complicados entrelaçamentos, mas que não são caros, nem têm uma conotação de ostentação, nem são sensuais. O que Paulo está enfatizando é que as mulheres cristãs devem adomar-se com vestes, penteados e artigos de joalheria que, em sua cultura, não sejam caros nem extravagantes, que sejam modestos e não ufanosos, decentes e não sensuais. Em terceiro lugar, elas devem adomar-se com boas obras, como convém a mulheres que declaram adorar a Deus (v. 10), literalmente, “que professam a 93 Apocalipse 21.2.

94 Crisóstomo, p. 433.

95 Hurley, p. 199; cf. pp. 257-259.


piedade” (ou, como na a r a : “que professam ser piedosas”). Paulo está lem­ brando às mulheres que há dois tipos de beleza feminina, a física e a moral, a beleza do corpo e a beleza do caráter. A igreja deve ser um verdadeiro salão de beleza, por encorajar as mulheres a se adornarem com boas obras. As mulheres não podem esquecer-se de que, mesmo que por natureza não sejam bonitas, a graça pode tomá-las belas; e se por natureza são bonitas, as boas obras podem acrescentar muito à sua beleza. Além disso, os homens podem colaborar nesse processo, reconhecendo e elogiando nas mulheres a beleza de serem tal como Cristo. O apóstolo Pedro também contrastou “cabelos trançados, jóias de ouro e roupas finas” com o “ser interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranqüilo, o que é de grande valor para Deus”.96 Se tem valor para o Senhor, deve ter valor para nós também. Ui. As mulheres e suas funções (2.11-15) Muitas tentativas, não bem sucedidas, tanto exegéticas como lingüísticas, têm sido feitas com o objetivo de amenizar a aparente dureza dessas instruções apostólicas, limitando suas aplicações. Primeiramente, tem-se sugerido que elas expressam apenas a opinião pesso­ al de Paulo, e não uma ordem sua, com base em sua autoridade apostólica. Isto é, o “Quero” (boulomai), do versículo 8, nada mais é do que um desejo; e o “Não permito” (epitrepô), do versículo 12, significa “Pessoalmente, não permi­ to” ( j b p ) , “não tendo o sentido de um imperativo universal para todas as situa­ ções”.97 Outros eruditos, entretanto, consideram esse trecho um argumento especial, não de ordem geral. J. H. Houlden escreve que “boulomai carrega em si o sentido de uma pro­ mulgação legislativa”,98 ao passo que Gottlob Scherenk diz que, em suas três ocorrências nas epístolas Pastorais, essa palavra refere-se a “ordenar com a autoridade apostólica”.99 Quanto a epitrepô, na passagem paralela de 1 Coríntios, Paulo identifica a sua permissão tanto como sendo o ensino do que “diz a lei” como também “o mandamento do Senhor”.100 A segunda proposta restritiva diz que as instruções de Paulo aplicam-se somente a esposas, e não a mulheres em geral. Elas têm o objetivo, portanto, de regulamentar o relacionamento da esposa com seu marido na privacidade do ambiente familiar, e não trata da função da mulher na igreja. Lutero parece ter sustentado essa posição. E as referências a Adão e Eva nos versículos 13 e 14 e a “maridos” em 1 Coríntios 14.35 lhe dão certa plausibilidade. É certo que gynç (vv. 11 e 12) pode significar tanto “mulher” como “esposa” e ançr (v. 12) pode ser “homem” ou “marido”. Por outro lado, todo o capítulo é relativo ao culto 96 1 Pedro 3.3-4.

97 Fee (1988), p. 77.

100 1 C oríntios 14.34-36.

Houlden, p. 69.

99 TDNT I, p. 632.


público, sendo que os versículos 8 a 15 definem funções para os dois sexos, de modo que a referência parece ter uma amplitude maior do que referindo-se a casais, tão somente. A terceira sugestão restritiva assinala que as instruções de Paulo são dirigi­ das apenas contra as perturbações barulhentas e interrupções feitas pelas mulheres, e não contra um exercício de seu ministério desempenhado de manei­ ra quieta e em ordem. Elas são certamente honradas por sua responsabilidade em aprender (v. 11), em contraste com a opinião chauvinista rabínica expressa no Talmude de Jerusalém, que dizia que era melhor as palavras da Torá serem queimadas do que confiadas a uma mulher. Se ela pode aprender, então não poderá ela também ensinar, atuando com tranqüilidade? No texto paralelo de Coríntios,'01 cujo contexto é o da desordem no culto público, realmente parece ser às conversas incontroláveis das mulheres que Paulo está se opondo. Mas a sua exigência de “sujeição” nas duas passagens e também de “silêncio” (ou quietude) indicam que ele tem em mente muito mais do que o problema do barulho. Em quarto lugar, tem sido argumentado que as instruções de Paulo somente proíbem a mulher de “dominar” sobre o homem. Ela não deverá começar a “discursar para ele num culto público”102 ou “ensinar de um modo imperati­ vo”103 ou fazer o papel do “autocrata”.104 Mas o significado exato do verbo authenteô é incerto, pois ocorre apenas aqui no Novo Testamento. De um estudo de suas ocorrências em outras obras, o Dr. George Knight concluiu que o seu uso “mostra não haver um sentido negativo inerente, tal como o de apropriar-se ou usurpar da autoridade, ou exercê-la de uma maneira severa ou arbitrária, mas simplesmente significa ‘ter ou exercer autoridade’”.105 O Dr. Leland E. Wilshire contestou algumas de suas conclusões106e num outro artigo, baseado no uso de computador, propôs que há um sentido de “instigar violên­ cia”, pelo qual talvez Paulo estivesse proibindo as mulheres de resistir aos falsos mestres com ira.107 Entretanto, a investigação do authenteô feita pelos Kroegers estendeu-se por vinte páginas e os levou a uma sugestão bem dife­ rente, já mencionada.108 O debate continua. Estas quatro tentativas de restringir as instruções de Paulo não podem ser consideradas bem sucedidas. Parece-me que a melhor proposta, e mais bíblica, como sugerida anteriormente, é a de que as instruções de Paulo abrangem

101 1 Coríntios 14.34-36. 104 Ellicott, p. 127.

102 Hendriksen, p. 109.

103 Fairbaim, p. 127.

105 Knight (1992), p. 141. Veja também Knight (1984).

106 “ T ijg XLG Computer and Further Reference to a u t h e n t e ô in 1 Tim.2:12”, N ew Testament

S tu d ies 34 (1 9 8 8 ), pp. 120 -134. 107 “1 Tim .2:12 Revisited: A Reply to Paul W. Barnett and Timothy J. Harris’, Evangelical Quarterly 65:1 (1 9 9 3 ), pp. 120-134. 108 Kroeger e Kroeger, pp. 84-104.


apenas o princípio universal da submissão feminina à “liderança” masculina e não expressam uma situação mutável em função da cultura. Podemos resumir agora essa distinção, uma vez que ela ocorreu três vezes na segunda metade de 1 Timóteo 1. Assim como os homens devem orar em santidade, amor e paz, mas não necessariamente levantando as mãos ao faze­ rem isso; e tal como as mulheres devem adornar-se com modéstia, decência e boas obras, mas não necessariamente abstendo-se de todo tipo de penteado com tranças, de ouro e pérolas; assim também as mulheres devem submeter-se à supremacia (com responsabilidade) de homens, não procurando reverter as funções devidas a cada sexo, mas sem que isso necessariamente as impeça de ensinar a eles. Nos versículos 13 e 14, como se infere do uso da conjunção “porque”, Paulo nos dá uma base bíblica para o que escrevera nos versículos 11 e 12. Dos homens e mulheres de seus dias ele agora se volta para Adão e Eva, o casal humano original.109 O seu argumento para a “ascendência” masculina baseiase nos acontecimentos da criação e da queda. Por ter sido criado em primeiro lugar, isso deu ascendência a Adão (v. 13), como vimos, ao passo que a insen­ satez de Eva ao desafiar isso a levou a uma calamidade (v. 14). Prevendo que parte do que tinha escrito pudesse aborrecer seus leitores, Paulo “modifica” o seu pensamento, “acrescentando uma consolação”:110 En­ tretanto, a mulher será salva (literalmente “ela se salvará”, no singular, mas obviamente o que ele está dizendo é em sentido geral, “todas as mulheres se salvarão”) dando à luz filhos - se ela permanecer na fé, no amor e na santida­ de, com bom senso” (v. 15) ou “com modéstia” ( a r c , s b t b ) , que são “esplêndi­ das atitudes maternais”,111 uma vez que a persistência nessas quatro virtudes básicas demonstrarão que há uma obra da graça em seu coração. Há três modos principais pelos quais essa promessa um tanto ambígua tem sido compreendida. O primeiro é que as mulheres “superarão com segurança o parto” (jb p ). Nes­ se caso, o texto estaria se referindo à dor e ao perigo que há no dar à luz, que fizeram parte do juízo de Deus sobre Eva.112 Mas a referência a “salvação”, nas Pastorais, parece sempre referir-se à libertação do pecado, não de um perigo. Além disso, tal promessa não é verdadeira, uma vez que muitas mulheres piedo­ sas morrem no processo do parto. A segunda interpretação é que a mulher “será preservada através de sua missão de mãe” ( a r a ) o u “salvar-se-á, porém, dando à luz filhos” ( a r c , s b t b ) . Paulo poderia ter em mente também os falsos mestres que estavam proibindo o casamento (4.3). Mas o modo de salvação para as mulheres, de acordo com 109 Com respeito a uma defesa da historicidade de Adão, veja meu livro Rom anos (A B U Editora), pp. 191-196. 110 Calvino, p. 218.

111 Kroeger e Krooner, p. 177.

112 Gênesis 3.16.


Paulo, certamente não era através de elas aceitarem sua vocação de gerar filhos. Parece-me que o terceiro modo de entender isso é o mais provável, ou seja, que as mulheres “serão salvas através do nascimento de um Filho” (como consta na n e b , em nota de rodapé), referindo-se a Cristo. Nessa forma de enten­ dimento, “salvas” tem uma conotação espiritual, sendo “através de” o meio pelo qual a salvação vem, e assim o artigo definido antes de “dando à luz”, no grego, é explicado. Acima de tudo, essa interpretação recomenda-se a si mesma por “ser extremamente apropriada”.113 Anteriormente, neste capítulo, o único “mediador entre Deus e os homens” foi identificado como sendo “o homem Cristo Jesus” (v. 5), o qual, é claro, tornou-se um ser humano por ter “nascido de mulher”.114 Além disso, no contexto das referências feitas por Paulo à cria­ ção e à queda, reportando-se a Gênesis 2 e 3, enquadra-se muito bem uma referência adicional à futura redenção através da semente da mulher, reportan­ do-se a Gênesis 3.15. A serpente tinha enganado a mulher; sua descendência derrotaria a serpente. Assim, mesmo que certas funções não estejam abertas para as mulheres e mesmo que elas se sintam tentadas a ressentir-se diante dessa situação, tanto elas como nós, homens, nunca deveremos nos esquecer do que devemos à mulher. Se Maria não tivesse dado à luz o menino-Cristo, não teria havido salvação para ninguém. Não houve jamais maior honra dada a uma mulher do que o chamado de Maria para ser a mãe carnal do Salvador do mundo. Questões Finais Ao elaborar o conceito da transposição cultural, não estou declarando (como meus leitores talvez queiram que eu declare) que isso fornece uma engenhosa solução a todas as nossas questões sobre funções pertinentes a cada sexo, embora eu pense que isso pode nos salvar de soluções erradas e nos colocar no caminho para chegarmos a soluções corretas. Mas é necessário ainda que tenha­ mos uma reflexão teológica bem maior, especialmente em relação a três questões. A primeira é a questão da complementaridade. Como devemos definir, então, a complementaridade dos sexos (incluindo as noções de “ascendência” e “sub­ missão”), não apenas física e psicologicamente, nem ainda, com certeza, cultu­ ralmente (em termos de estereótipos populares ligados ao sexo da pessoa), mas também psicologicamente e, em particular, biblicamente? O que as Escrituras ensinam sobre a essência (permanente e universal) de termos sido criados como macho e fêmea? Essa questão tem de estar em destaque em nossa agenda de debates, uma vez que, o que a criação estabeleceu, a cultura pode expressar, mas não destruir. 113 Ellicott, p. 39. Veja também Liddon, p. 20, Lock, p. 35, Oden, p. 102 e Knight (1 9 9 2 ), pp. 1 4 6 -1 4 7 . 114 Gálatas 4.4.


A segunda é uma questão quanto ao ministério. Uma vez que a complemen­ taridade dos sexos foi definida biblicamente, quais são os papéis e as respon­ sabilidades que pertencem propriamente aos homens e não às mulheres, e quais os das mulheres, e não dos homens? A terceira é uma questão sobre a cultura. Que símbolos visíveis em nossa cultura em particular expressariam de forma adequada a complementaridade sexual que as Escrituras estabelecem como normativa?


1 Timóteo 3.1-16

3.

A supervisão Pastoral

Partindo da importância da doutrina apostólica (capítulo 1) e passando pelo tema de como dirigir o culto público (capítulo 2), Paulo entra na questão da supervisão pastoral da igreja e das qualificações que os pastores devem ter (capítulo 3). Este permanece sendo um tópico de vital importância, em todo lugar e em cada geração, pois a saúde da igreja depende grandemente da qualidade, da fidelidade e do ensino de seus ministros ordenados. Dois pontos introdutórios precisam ser feitos. Primeiro, Deus deseja que a sua igreja tenha pastores. Muito embora por toda a história da igreja tenha-se oscilado entre dois extremos antibíblicos, o do “clericalismo” (o clero dominando sobre os leigos) e o do “anticlericalismo” (os leigos em rebeldia contra os clérigos), o que tem prevalecido é a convicção básica de que a vontade de Deus é que haja algum tipo de supervisão pastoral sobre o seu povo. Assim, em sua primeira viagem missionária, Paulo e Bamabé “designaram-lhes presbíteros em cada igreja”.1 Além disso, tal provisão não foi simplesmente um arranjo humano. Foi o Cristo que ascendeu aos céus que concedeu uns de sua igreja para serem “pastores e mestres”2 e é o Espírito Santo que ainda estabelece supervisores ou “bispos” sobre o rebanho.3 Essa mesma diretriz divina e humana é vista nas instruções de Paulo a Timóteo e a Tito. Este havia sido deixado em Creta para que “constituísse presbíteros em cada cidade” (Tt 1.5), e a Timóteo Paulo forneceu as características que deveriam ter os líderes que supervisionariam as igrejas de Éfeso (lT m 3). Em segundo lugar, Deus não especificou a forma precisa que a supervisão pastoral deveria ter. Por exemplo, esse capítulo apresenta as qualificações dos que exerceriam supervisão, ou seja, dos “bispos” (episkopoi) nos versículos de 1 a 7 e dos “diáconos” nos versículos de 8 a 13, mas pouca luz lança sobre quais seriam suas funções. Está claro, entretanto, que é um anacronismo traduzir episkopos por bispo (como fazem as versões Almeida e n v i) . Mesmo que Timóteo e Tito possam ser considerados bispos embrionários, no sentido de que teriam que supervisionar um grupo de igrejas e constituir os seus pastores, eles ainda não eram cognominados “bispos”. O aparecimento do “episcopado monárquico” (um único bispo presidindo sobre um colégio de presbíteros) não pode ser datado antes de Inácio, da Antioquia da Síria, cerca do ano 110 d.C. 1 Atos 14.23.

2 Efésios 4.11.

3 Atos 20.28.


No tempo do Novo Testamento, é quase certo que episkopos (“supervisor”, “bispo”) e presbyteros (“presbítero”, “ancião”) eram dois títulos para a mesma função. A evidência nesse sentido é total. Primeiro, Paulo mandou chamar os “presbíteros” da igreja de Éfeso, mas, ao se referir a eles, chamou-os de “bispos”.4 Em segundo lugar, de igual modo Pedro apelou aos “presbíteros” que havia entre seus leitores para servirem como bispos, pastoreando “o rebanho de Deus” .5 Em terceiro lugar, Paulo escreveu à igreja de Filipos “juntamente com os bispos e diáconos”;6 certamente, ele omitiu “presbíteros” somente porque eles eram os “bispos”. Finalmente, Paulo instruiu Tito a constituir “presbíteros”, acrescentando que “é necessário que o bispo seja irrepreensível” (Tt 1:5-7). Por que, então, dois títulos diferentes foram dados para as mesmas pessoas? Por duas razões, pelo menos. A palavra presbyteros (“ancião”) era judaica em sua origem (toda sinagoga tinha anciãos) e indicava a maturidade do pastor, ao passo que episkopos (“bispo”) era grega em sua origem (era empregada para oficiais municipais, supervisores de cidades etc.) e indicava a natureza de supervisão do ministério pastoral. Em resumo, “o título episkopos denota a função e presbyteros, a dignidade; o primeiro foi emprestado das instituições gregas, o segundo, das judaicas” ( g t ) . O Dr. Alastair Campbell argumenta ainda uma terceira diferença, ou seja, que o termo “anciãos” refere-se coletivamente aos homens que individualmente exerciam a supervisão das igrejas que se reuniam nas casas deles. Cada um era um supervisor, e juntos eles constituíam os anciãos.”7 Um certo grau de incerteza também envolve a origem dos “diáconos” e a natureza do seu ministério. A visão tradicional é a seguinte: na sociedade secular, o diáconos era aquele com um serviço de baixo nível, especialmente o garçom que servia à mesa.8 Além disso, “servir, aos olhos dos gregos, não era algo muito dignificado. Liderar, e não servir, é próprio do homem”.9 Mas Jesus reverteu essa avaliação. “Pois quem é maior”, perguntou ele, “o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve (ho diakonôn).”'" Também, “nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos ...”.u Foi a partir desse ensino e exemplo de Jesus que derivou o chamado geral a todos os seus seguidores para servir com humildade. Desse ensino também veio, em especial, o chamado para alguns servirem como “diáconos” . A designação dos sete em Jerusalém foi um primeiro exemplo disso, uma vez que

4 Atos 20.17,28

5 1 Pedro 5.1-2.

6 Filipenses 1.1. O ensaio de J. B. Lighllnot sobre presbíteros / bispos nunca foi refutado. Veja o seu com entário sobre A Carta a o s lü lipcn scs (1868), pp. 95-99. 7 Campbell, p. 13.

8 Por exemplo, João 2:5,9.

10 Lc 22.27; cf. Lc 12.37; 17.7ss.

TDNT II, p. 82.

" Miircos 10.45.


a expressão “servir às mesas” ocorre na narrativa,12 apesar de não ocorrer o substantivo diakonos. Parece, então, que os “diáconos” tinham funções ligadas à administração, incluindo a distribuição de fundos, alimentos e roupas aos necessitados, embora o requisito de que eles devessem “apegar-se ao mistério da fé com uma consciência limpa” (v. 9) possa sugerir que eles também assistiriam os “supervisores” em seu ministério de ensino. Mas essa reconstrução foi questionada pelo Dr. John Collins, em seu livro Diakonia (1990), no qual ele faz uma exaustiva pesquisa das palavras com raiz diakon, tanto em antigas fontes cristãs como não-cristãs. Sua conclusão é que o diakonos era essencialmente alguém que estava “no meio”, tanto na palavra (um mensageiro) como em obras (um agente autorizado). A ênfase, ele insiste, não está na condição humilde e serviçal do serviço prestado, mas em sua característica intermediária.13 Se isso for correto, então está certo vermos os diáconos como assistentes dos supervisores. Contudo, podemos questionar se a antítese não foi tomada de maneira um tanto exagerada. Afinal de contas, o diakonos, que opera como um agente, ainda é chamado a uma função de nível inferior e subordinada, por mais exaltada que seja a pessoa que ele representa. 1. Os supervisores (3:1-7) Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. 2E necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; 3não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. 4Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a digni­ dade. 5Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? 6Nãopode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. 7Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo. Paulo inicia mencionando, pela segunda vez, a expressão de que alguma coisa é digna de confiança (a primeira, com o mesmo sentido, tendo ocorrido em 1.15), ou seja, faz uso de um provérbio popular que agora ele endossa como sendo algo confiável. Não está de todo claro se a afirmação em questão referese ao que precede ou ao que se segue. Como as demais afirmações relacionamse de algum modo com a doutrina da salvação, alguns comentaristas sugerem que esta (em 3.1a) relaciona-se com a anterior em 2.15 que é uma “afirmação cristã bem conhecida sobre o efeito que a Encarnação produz nas mulheres”.14 Mas praticamente a maioria das traduções e também a maioria dos comentaristas 12 Atos 6.2.

13 Collins, pp. 148, 194, 237.

14 Lock, p. 33.


relacionam essa afirmação ao que se segue, isto é: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função (v. 1). Embora oregô (deseja) signifique literalmente “esticar, estender a mão” para alguma coisa ( b a g d ) e, assim, “aspirar a” alguma coisa ( r a , ib b ) , Paulo não está referindo-se a uma ambição pessoal de prestígio e poder que possa vir junto com um ministério ordenado. Ele está, porém, reconhecendo que o pastorado é uma função nobre, porque envolve cuidar do povo de Deus, dando condições para o seu desenvolvimento, e que é louvável desejar ter esse privilégio. Mas tomar-se pastor não é uma questão muito mais de chamado divino do que de aspiração humana? Sim. Em outra ocasião, Paulo afirma com clareza que há o chamado e a escolha de Deus.15 Assim, o que designamos como “seleção” de candidatos para o pastorado implica, de acordo com Paulo, três pontos principais: o chamado de Deus, a aspiração e a convicção no coração da pessoa e passar pelo exame criterioso da igreja quanto a se o candidato atende aos requisitos que o apóstolo agora passa a apresentar. O primeiro requisito de caráter geral é que o bispo seja irrepreensível (v. 2a). Isso não significa “imune a erros”, pois então não haveria um só filho de Adão que se qualificasse. Significa, porém, “ter reputação irrepreensível” (jb p ) e “tem a ver com uma conduta que se possa observar ser impecável”.16 Isso dá um respaldo bíblico para se pedir referências ou testemunhos, de forma que a reputação pública de um candidato possa ser verificada. Sob a direção de Paulo, ao prosseguir ele do geral para o particular, agora estamos em condições de fazer uma espécie de questionário a ser respondido pelo candidato ao pastorado. As dez áreas seguintes devem ser investigadas. a. Sua fidelidade no casamento O requisito de que ele seja marido de uma só mulher (v. 2) ou “casado uma só vez” ( n r s v ) tem sido objeto de um longo e angustiante debate. Quem é que Paulo deseja excluir do pastorado com essa cláusula? Cinco respostas foram dadas para essa pergunta. Primeiro, sugere-se que Paulo esteja excluindo aqueles que nunca se casaram. Certamente, ele presume que os pastores normalmente se casem (como eram casados os outros apóstolos),17 e sem dúvida a experiência do casamento e da vida familiar é algo que em muito contribui para o exercício do ministério. Entretanto Paulo não está pretendendo desqualificar aqueles dentre nós que são solteiros (ou, ainda que casados, sem filhos, versículo 5). Somente as igrejas Ortodoxas Orientais é que têm ensinado, a partir desse texto, que o casamento é obrigatório para um clérigo paroquial (embora requerendo que sejam monges celibatários os que estão nos níveis mais elevados do clero). Mas tanto Jesus como Paulo afirmaram que alguns são chamados para 15 Por exemplo, Atos 20.28.

K' I;cl- (

p. HO.

17 1 Coríntios 9.5.


permanecer solteiros.18 Eles também ensinaram que outros são chamados para o casamento, o que toma indefensável o celibato compulsório dos sacerdotes da Igreja Católica Romana. O Segundo Concílio do Vaticano reconheceu que o celibato “não é exigido dos sacerdotes por natureza” e referiu-se a esses versículos em 1 Timóteo como base para isso. Contudo, argumentou que o celibato está “em harmonia com” o sacerdócio: (a) no aspecto pastoral de que os sacerdotes celibatários são “menos perturbados em seu serviço”, e (b) no aspecto teológico de que eles são “um sinal visível do mundo que virá”, no qual não haverá casamento. Desse modo o Concílio exorta os sacerdotes a se firm ar... com coragem e entusiasmo” ao seu estado celibatário19 - um sentimento que só pode ser julgado como incompatível com a expectativa de Paulo nesse texto. A segunda interpretação é que Paulo exclui os polígamos. Estes são, sem dúvida, excluídos por sua afirmação, mas seriam eles os alvos principais dessa afirmação? Alguns têm defendido essa posição, porque a poligamia, embora oficialmente proibida pela lei romana, era ainda amplamente praticada e tolerada na cultura judaica. Por exemplo, em seu Diálogo com Trifo, um Judeu, Justin Martyr, um apologista cristão do segundo século, escreveu mencionando mestres judeus “imprudentes e cegos, que até agora permitem a um homem ter quatro ou cinco esposas”.20 Contudo, parece não haver evidência alguma quanto aos cristãos terem praticado a poligamia. Além disso, a exigência complementar de Paulo, ao dizer que a viúva, para ser incluída na lista de viúvas, deveeria ter sido “esposa de um só marido”,21 teria então que ser entendida como se referindo à poliandria, sendo que disso não se tem notícia nem mesmo entre os pagãos. Contudo, essa proibição apostólica tem sido relevante em sociedades polígamas de hoje (por exemplo, na África), onde as igrejas inclinam-se a admitir polígamos em sua membresia pelo batismo, mas não para o exercício de qualquer função de liderança por ordenação. Em terceiro lugar, Paulo é entendido por muitos como se referindo àqueles que, tendo se divorciado, casaram-se de novo. Esta parece ser uma explicação mais provável do que a anterior, uma vez que divórcio e novo casamento eram uma prática freqüente na sociedade greco-romana, não sendo desconhecida entre os judeus. Atualmente, ela tem se tomado cada vez mais comum no Ocidente, de forma que muitos têm questionado isso com muita ansiedade. Será que o divórcio e o novo casamento constituem uma proibição absoluta 18 Mt 19.10-11; IC o 7.7. 19 “T he L ife o f the P riests” (A Vida dos S acerd otes), para. 16, em A. F lannery (ed. ), D ocum ents o f Vatican 11 (D ocum entos do Vaticano II) - C ostello, 1992. 20 Justin Martyr - D ia lo g u e w ith Trypho, traduzido por E. P. C. H anson (Lutterworth, 1963), CXXXIV. 21 lT m 5.9 ( r a ) , literalm ente.


para a ordenação, embora isso pareça ter sido permitido por Jesus para a parte inocente, quando a outra parte é que foi culpada de um sério pecado sexual,22 e também por Paulo, no caso de um novo convertido cuja esposa permaneça incrédula, não pretendendo ele m anter o casam ento?23 Será que essas concessões, então, não se aplicam ao clero e aos que pretendem nele ingressar? Se não, isso não estaria levantando uma norma dupla? Sim, isso é verdade, mas não seria razoável e correto esperar que um nível mais elevado seja prescrito para os pastores, que são chamados a ensinar através do exemplo de sua vida, tanto como com palavras? Em quarto lugar, outros têm argumentado que Paulo estava excluindo os que, tendo enviuvado, casaram-se novamente, tal como os sacerdotes do Antigo Testamento não tinham permissão para se casar com viúvas.24 Uma parte dos primeiros pais da igreja interpretaram desse modo a proibição de Paulo. Tertuliano foi o que mais se destacou. Ele instou com sua mulher que, caso ele morresse antes, “não se casasse e abandonasse o sexo para sempre”.25 O mesmo aplicavase a homens que enviuvassem. “Pois os que se casaram duas vezes não têm a permissão de ocupar um lugar de autoridade na Igreja.”26 Em seus tratados posteriores, Uma Exortação à Castidade e Monogamia, seu falso ascetismo tornou-se ainda mais severo. Ele argumentou que o casamento é para ser contratado uma só vez; que os que se casam novamente estão se pondo contra a vontade de Deus, exigindo o que ele decidiu não permitir; e que ter duas esposas em épocas diferentes em nada é melhor do que ter duas esposas simultaneamente. O argum ento contra essa posição é, entretanto, decisivo. O Novo Testamento permite, de modo específico, o novo casamento de viúvas e viúvos.27 E verdade que Paulo expressou uma preferência para que as pessoas permanecessem tal como ele, não casadas,28 mas sua razão era de ordem pessoal e prática, e não moral, e ele ainda instou as jovens viúvas a se casarem de novo (5.14). Assim, proibir o casamento a pastores cuja primeira esposa faleceu seria algo perigoso, tal como os falsos mestres que erravam ao proibir totalmente o casamento (4.3). A quinta proposta é que Paulo está excluindo todos os que cometem o pecado da infidelidade no casamento. Ou melhor, ele está estabelecendo, de forma positiva e em caráter geral, a condição de que um candidato ao pastorado tem de ser “fiel à sua única mulher” ( n e b ), “um homem de inquestionável moralidade, alguém que seja verdadeira e fielmente devotado à sua única esposa” ,29 ou “um homem que, tendo feito a aliança de um casamento 22 Mt 5.31-32; 19.9.

23 ICo 7.12ss.

24 Lv 21.14; cf. Ez 44.22.

25 To H is Wife (Para Sua E sposa), trad. ile W. P. Le Saint, A ncient Christian Writers 13 (Longm ans, Green and C o., 1931), 1.1.6. 26 Ibid., 1.7.

27 Rm 7.1ss.; ICo 7.39.

■’* l('o 7,Xss„ 25ss„ 40.

29 Hendriksen, p. 121.


monogâmico, seja fiel aos seus votos do casamento”.1'1Essa explicação parece enquadrar-se melhor no contexto. Os que recebem a confiança de estar numa posição de supervisão sobre a igreja, que são chamados para ensinar doutrinas e exercer a disciplina, têm de ter uma reputação imaculada na área de sexo e casamento. b. Seu domínio próprio Sob esse tópico, vamos considerar as três palavras seguintes conjuntamente. Moderado ( nefalios), que algumas versões traduzem por “temperante” ( r a ) o u “vigilante” ( a r c , s b t b ) , é a primeira que Hendriksen nos faz lembrar que não tem nada a ver com “melancólico”31 nem com “perspicaz”. “Autocontrolado” (.sôphrôn ) ou “sóbrio” ( a r c , r a ) é a segunda e significa “sensato” ou “disciplinado”, ao passo que a palavra “respeitável”, a terceira, é a tradução de kosmios. “O que sôphrôn denota como uma característica introspectiva, kosmios é o contrário, é algo que se pode ver”32, é a expressão exterior de um autocontrole interior. Esse domínio próprio é uma virtude indispensável nos líderes cristãos. Como bem expressou François Rabelais, o satirista francês do século dezesseis, “como terei condições de liderar outras pessoas se não tiver pleno domínio e comando sobre mim mesmo?”.33 Os líderes são, com freqüência, deixados por consideráveis períodos sem uma supervisão, tendo que supervisionar a si mesmos. É claro que eles ainda são pessoas de carne e osso, com as mesmas emoções e paixões dos demais seres humanos. Mas “o fruto do Espírito é ... domínio próprio”.34 ’ c. Sua hospitalidade Hospitaleiro, naturalmente, decorre do domínio próprio, uma vez que o autocontrole faz com que a pessoa dê de si mesma. Filoxenia, literalmente “amor pelos estranhos”, é uma qualidade exortada pelo Novo Testamento a todos os cristãos,35 mas em especial aos líderes (cf. v. 5; Tt 1.8). Isso porque naqueles dias não havia hotéis comparáveis com os que hoje conhecemos, e as hospedarias nas estradas eram escassas, sujas, inseguras e repugnantes. Desse modo, os viajantes cristãos, especialm ente os pregadores itinerantes, necessitavam da hospedagem dada pelo pastor e sua esposa.36 Ainda hoje, embora haja muitos hotéis (ao menos nas cidades), há muitas pessoas solitárias como idosos, solteiros e visitantes estrangeiros, a quem os líderes cristãos podem demonstrar a sua qualidade de hospitaleiros e assim, talvez, até mesmo cheguem a acolher anjos, sem saber”.37 30 Knight (1994), pp. 158-159.

31 Hendriksen, p. 122.

32 Bengel, p. 257.

33 Works (Obras), trad. por D. M. Frame (U niversity o f Califórnia Press, 1991), cap. 52. 34 Gálatas 5.22-23. 37 Hebreus 13.2.

35 Por ex. : Rm 12.13; IPe 4.9; 3Jo 5.

36 Veja Fm 22; 3Jo 5-8.


d. Sua habilidade de ensino De repente, em meio a uma série de qualidades morais, uma única qualificação “profissional” é mencionada: apto para ensinar (didaktikos) ou “um bom mestre da Bíblia” ( b v ) . Disso decorre que os pastores são principalmente professores, ou mestres. De fato, o que distingue um ministério cristão pastoral é haver nele a preeminência da Palavra de Deus. Isso também indica que não devemos traçar uma grande linha divisória (como muitas vezes é feito) entre um ministério “institucional”, constituído pela igreja, e um ministério “carismático”, instituído por Deus; ou entre função e dons. O fato de que os que supervisionam a igreja têm que ter um dom de ensino demonstra que a igreja não tem a liberdade de ordenar quem quer que seja que Deus não tenha chamado e a quem Deus não tenha dado os dons necessários. e. Seus hábitos de beber O álcool é depressivo. Ele entorpece e dificulta a nossa faculdade de julgamento. Os que são chamados a ensinar devem ter um cuidado especial nesse sentido. Possivelmente, não é por acaso que a expressão não deve ser apegado ao vinho está imediatamente em seguida a “apto para ensinar”. Ensinar, e beber bebidas alcóolicas são duas coisas que não andam de mãos dadas. O Antigo Testamento contém muitas advertências bem sérias para os líderes com respeito ao efeito nocivo do álcool. Os sacerdotes são proibidos de beber quando estão exercendo a sua função, pois foi isso o que evidentemente causou a presunção de Nadabe e Abiú (filhos de Arão) ao oferecerem “fogo estranho perante a face do S e n h o r ” .38 O s reis e outros dirigentes não devem beber bebida forte, para que não se esqueçam das leis da nação e não “deixem de fazer justiça aos oprimidos”.39 Os magistrados, também, quando se fazem “campeões em beber vinho” acabam pervertendo a justiça, absolvendo o culpado e negando justiça ao inocente.40 E os profetas, quando “vencidos pelo vinho”, vêem que não têm condições de ensinar.41 Indo ao encontro desse cenário, não é de admirar que Paulo tenha proferido uma advertência semelhante aos supervisores cristãos. Ele não exigiu que fossem totalmente abstinentes, uma vez que Jesus mesmo transformou água em vinho e fez do vinho um símbolo do seu sangue. Contudo, há fortes argumentos de caráter social em favor da total abstinência, já que muitos comportamentos irresponsáveis, violentos e imorais são decorrentes do excesso de bebida. O que Paulo pede, entretanto, é que haja moderação, como resultado do domínio próprio já mencionado, principalmente porque os pastores são convidados a muitos eventos sociais, em que o vinho corre solto.

38 Levltico lO .lss. 41 Isaías 28.7ss. ( r a ) .

39 Pv 31.4ss.; cl'. 20.1; 2 3 .19ss. e 29ss.

40 Isaías 5.22-23.


f. Seu grau de irritabilidade e seu temperamento As duas qualificações seguintes no versículo 3 podem ser consideradas em conjunto: não violento, mas sim amável, pacífico. Diferentemente dos falsos mestres, que se caracterizavam por ser orgulhosos e causadores de brigas e conflitos (6.3ss.), os verdadeiros mestres cristãos, acima de tudo, devem ser pessoas amáveis. Epieikeia significa “amabilidade” ou “afabilidade” e contém em si um traço de complacência. Matthew Amold adotou a tradução “agradável sensatez” ( g t ) . Essa foi uma das qualidades que se destacaram na pessoa do Senhor Jesus, de modo que Paulo pôde apelar aos coríntios “pela mansidão e pela bondade de Cristo”.42 Sendo a amabilidade um fruto do espírito, ela deve caracterizar todos os discípulos de Jesus e em particular os líderes cristãos, que são servos do Senhor.43 • Uma vez que essa característica positiva tenha sido cultivada, as duas características negativas correlacionadas devem ser desprezadas. Um pastor amável não poderá ser nem violento (plçlctçs), nem um valentão “com a língua ou com os braços”,44 mas terá que ser “inimigo de contendas” ( r a ) , o u seja, terá que ser pacífico ( n v i ) . Sua paciência poderá ser muito testada por pessoas exigentes e irritantes, mas, como o seu Senhor, ele procurará ser amável, nunca “quebrando o caniço rachado, nem apagando o pavio fumegante”.45 g. Sua atitude diante do dinheiro Lá pelo fim da carta, Paulo diz que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (6.10). Portanto, entendemos que um candidato ao pastorado não pode ser alguém que seja apegado ao dinheiro (final do v. 3), uma vez que é isso que os falsos mestres eram (6.5; 2Tm 3.2). No entanto, por toda a história houve homens ímpios que procuraram ganhar dinheiro com o ministério. No mundo antigo, havia charlatães que alcançavam um alto nível de vida passando por professores itinerantes. No Antigo Testamento, Miquéias esbravejou contra Jerusalém porque seusjuízes recebiam propinas, seus sacerdotes cobravam pelo que ensinavam e seus profetas faziam adivinhações por dinheiro.46 No Novo Testamento, Pedro instou os pastores a atuarem “não ... por ganância, mas com o desejo de servir”47 e Paulo renunciou ao seu direito de receber sustento, trabalhamdo para ganhar a vida de forma a poder demonstrar a sinceridade dos seus motivos.48 Nos dias de hoje, ainda, há alguns mal conceituados evangelistas que enriquecem fazendo apelos financeiros, ao passo que sábios líderes cristãos dão a público os relatórios financeiros de suas atividades, devidamente auditados. Quanto aos pastores, embora Paulo ensine que eles devem ser adequadamente pagos (5.17ss.), o 42 2Co 10.1; cf. Mt 11.29.

43 G1 5.22-23; 2Tm 2.24-25.

44 B engel, p. 258.

45 Is 42.3 = Mt 12.20.

46 Miquéias 3.11.

47 1 Pedro 5.2.

48 Por ex., IC o 9.4ss.


salário dos pastores, na maioria dos países, é muito baixo, em comparação com o que recebem os que atuam em profissões seculares, para que estes não se vejam tentados a querer se ordenar por razões de ordem financeira. Samuel, no fim da sua vida, pôde desafiar Israel: “Aqui estou. Se tomei um boi ... de alguém, se explorei ou oprimi alguém, ou se ... aceitei suborno ... testemunhem contra mim. E responderam: Tu não nos exploraste nem nos oprimiste”.49 De forma mais ou menos semelhante, Paulo pôde desafiar os anciãos de Efeso: “Não cobicei a prata nem o ouro nem as roupas de ninguém. Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos supriram minhas necessidades e as de meus companheiros”.50 Que bom seria se todos nós pudéssemos fazer tais afirmações! h. Sua disciplina no lar Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua pró­ pria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? (Vv. 4-5. ) Paulo faz uma analogia entre a família do pastor e a igreja de Deus. De fato, ele emprega a palavra oikos (que significa sua “casa” ou “família”) nos dois paralelos dessa comparação (nos versículos 4,5 e 15). Assim, o pastor é chamado a exercer liderança em duas famílias, a sua e a de Deus, e a primeira é onde ele é treinado para poder atuar na segunda. O argumento é simples. Se ele não consegue cuidar da sua própria família, não se pode esperar que tenha condições de cuidar da casa de Deus. O sacerdote Eli continua sendo uma solene advertência a esse respeito, pois seus filhos eram tanto imorais quanto gananciosos, mas “ele não os repreendeu”.51 A palavra governar é a tradução de proistamenos, que por sua vez significa “líder”, juntando os conceitos de “dirigir” e “cuidado”, e que Paulo emprega em outros textos com respeito aos presbíteros (5.17 e, talvez, Rm 12.8). Ela indica que, embora o ministério pastoral seja o ministério de um servo, caracterizado pela amabilidade, uma certa autoridade dele faz parte. Não se pode esperar disciplina na igreja local se os pastores não aprenderem a exercê-la em casa. Assim, os responsáveis pela seleção de candidatos ao pastorado têm de investigar não apenas as virtudes pessoais que eles tenham, mas também sua vida em casa, sua vida familiar. Entretanto, sabemos que, normalmente, o que ocorre é que a esposa e os filhos do candidato não são chamados para ser entrevistados, não sendo nem mesmo abordados nas inquirições feitas. Paulo insiste, entretanto, que se o candidato é casado, é necessário verificar ter sido ele “fiel à sua única mulher” (v. 2 , ni ;h) e que seus filhos sejam tanto “sujeitos a ele, com toda a dignidade” (v. 4), como também crentes em Cristo (Tt 1.6). 49 1 Samuel 12.1ss.

50 At 20.33ss; d'. ITs 2.5ss.


i. Sua maturidade espiritual Não pode ser recém-convertido (neofytos, “neófito”, tendo recebido a Cristo recentemente), para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo (v. 6). Não é necessário dizer que um candidato ao pastorado tem de ser uma pessoa convertida, que tenha dado evidências da genuinidade da sua conversão; o que aqui é destacado é que ele não pode ser recém-convertido. Não há dúvida de que os pastores primeiramente eram chamados de “anciãos”, porque eram de certa idade e maduros na fé. Embora o costume atual que ocorre no Ocidente - de ordenar pastores com vinte e poucos anos, assim que completam sua formação - tenha muitos pontos positivos, contudo isso traz um certo perigo caso eles não tenham tido tempo suficiente para eliminar certas raízes e crescer em Cristo. 0 maior perigo (além de não terem maturidade suficiente para assumir responsabilidades) é o orgulho (muita responsabilidade cedo demais). Eles podem ensoberbecer-se. O verbo typhoô (de typhos, “nuvem” ou “fumaça”) é um verbo interessante, uma vez que expressa o ato de “obscurecer com nuvens”. Descreve os que são como os falsos mestres (6.4), que vivem num “mundo maluco”, num mundo de fantasia centralizado na própria pessoa. Tais pessoas cairão na mesma condenação em que caiu o Diabo (v. 6). Isto é, o juízo que recaiu sobre o diabo pelo seu orgulho recairá também sobre os presbíteros que forem orgulhosos. Assim, a humildade é uma qualificação necessária pará o pastorado, incluindose a humildade perante Deus numa vida de devoção pessoal, de fé e de obediência. j. Sua visível reputação Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo. (V. 7.) Com a expressão “os de fora” Paulo está se referindo ao “público nãocristão” ( n e b ) . Ele quer que o povo de Deus se lembre de que o mundo o está observando, sendo sábio em seu comportamento para com os de fora,52 de modo a ganhar o respeito deles.53 Essa verdade aplica-se, em especial, aos pastores. Já foi dito que os candidatos têm que ser irrepreensíveis (cf. v. 2); agora, Paulo enfatiza isso, dizendo que os candidatos têm de ter uma boa reputação tanto perante os de fora como perante os que estão dentro da igreja.

51 ISm 3.13 ( r a ) .

2 C olossenses 4.5.

53 1 Tessalonicenses 4.12. Esse enfoque missionário é um tema freqüente nessas cartas. Veja 1 Timóteo 5.7-8, 14 (onde o “inim igo” pode ser uma referência a um “homem malévolo, hostil aos cristãos”, b j - nota de rodapé).


Obviamente, ele considera o pastorado como sendo um ofício público, o que exige ser estimado pelas pessoas, pois caso contrário eles cairão em descrédito perante os de fora e cairão ... na cilada do Diabo. Observemos que foi feita uma segunda referência ao diabo. Mas embora a referência anterior, “na mesma condenação em que caiu o Diabo” (v. 6), seja uma expressão em que o diabo é passivo (o juízo caiu sobre ele), na expressão “na cilada do Diabo” ele é ativo (caímos na sua armadilha, o que é mencionado em 6.9 e em 2 Timóteo 2.26). Ou seja, em sua ânsia maligna de desacreditar o evangelho, o diabo faz o que pode para desacreditar os ministros cristãos. É um velho golpe, com uma longa história. O diabo tem agido assim por séculos, usando esse estratagema que ainda hoje é eficaz. Embora alguns comentaristas depreciem essas dez qualificações para o pastorado como sendo coisas comuns e próprias para a liderança secular, elas têm implicações de longo alcance no cristianismo, como vimos. E se os padrões estabelecidos por Paulo são considerados por alguns como sendo relativamente baixos, temos que ponderar que os padrões aceitos nos dias de hoje são mais baixos ainda! Isso porque, atualmente, o processo de seleção de muitas igrejas não inclui um exame dos candidatos, feito com base nessas dez áreas. Esses padrões constituem ainda um teste necessário, completo e desafiador. 2. Os diáconos (3.8-13) Os diáconos igualmente devem ser dignos, homens de palavra, não amigos de muito vinho nem de lucros desonestos. 9Devem apegar-se ao mistério da f é com uma consciência limpa. wDevem ser primeiramente experimentados; depois, se não houver nada contra eles, que atuem como diáconos. uA s m ulheres igualm ente sejam dignas, não caluniadoras, mas sóbrias e confiáveis em tudo. ’’O diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa. u Os que servirem bem alcançarão uma excelente posição e grande de­ terminação na f é em Cristo Jesus. Como o diakonos era o garçom à mesa e diakonein significa fazer um serviço de ordem social, como já observamos, podemos considerar os diáconos como pessoas especializadas em práticas adm inistrativas e também no ministério, mesmo que Atos 6 não seja a origem histórica do diaconato. Mas os requisitos do versículo 9, com respeito a que os diáconos tenham uma forte convicção da fé revelada, dão a entender que eles teriam que ensiná-la, o que era a principal responsabilidade dos bispos (supervisores). Assim, então, em vez de distinguir os diáconos dos bispos tal como servidores o são de professores, talvez seja melhor considerar os diáconos como assistentes dos bispos em seu ministério. Como as qualificações para o diaconalo coincidem, em parte, com as do


ofício dos presbíteros, não será necessário estudá-las detalhadamente. Mas as quatro áreas são enfatizadas. A primeira é que os diáconos têm que ter domínio próprio. Quatro expressões no versículo 8 parecem constituir um agrupamento natural - dignos, ou respeitáveis ( r a ) ; homens de palavra (mç dilogos) [“homens” não consta no original grego], literalmente, “não de duas palavras”, “não sendo indulgente a uma palavra dupla” ( r e b ) o u , como poderíamos dizer, “não ser alguém que muda de opinião de acordo com a conveniência”; não amigos de muito vinho; nem de lucros desonestos, “sem cobiçar lucros vergonhosos” ( b j) . Assim, nessas quatro expressões, ou seja, em seu comportamento, em sua fala, em seu uso do álcool e em sua atitude em relação ao dinheiro, os candidatos ao diaconato devem ter controle de si mesmos. A segunda palavra é que os diáconos têm de ter convicções Devem apegar-se ao mistério da f é com a consciência limpa (v. 9f,yí}\^MVStério traduz o grego mystçrion, e esse “mistério” é a soma tota |e \ dM as verdades reveladas da fé. A essas verdades os d iáco n ç j ctevejbà^apegar-se. E diferentemente dos falsos mestres, que rejeitamm^ua\feQi^iência e, assim, naufragaram na fé (1.19) e até mesmo a cajkèriz \ ratii por desrespeitá-la constantemente (4.2), os diáconos devem m anfóQim aconsciência limpa” (cf. 1.6), apegando-se à revelação de Deus ccíniTima-eonvicção forte e sincera. ji- A terceira palavra é que os diá&tív s iejatri primeiro testados e aprovados. Devem ser primeiramente experimètãimès ou devem “passar por um exame cuidadoso” ( n e b ) . Em acrés^ímò .ao procedimento de-escolha que Paulo está delineando, há a necess.‘J ■(..•. de um período de prova, no qual a congregação possa avaliar o carátc.r,-, as etenças e os dons dos candidatos ao diaconato. E certo que dessÊírrííJ)(fòxc' atla à congregação uma parte da responsabilidade de testar os posttí|ante£ao diaconato. Depois, se não houver nada contra eles, que a tu a á \i ; odtaconos (v. 10). Isso mostra que o conceito de “diáconos em e x £ s ^ ê rí^ ’\ « K ‘postulantes” ao cargo de diácono é um conceito bíblico e em qu<. hà ^ítbcdoria. VV^jquarta palavra é que os diáconos têm de ter uma vida familiar irrepreensível. Q)versículo 11 levanta um problema. Ele começa dizendo: “Aí mulheres, ig____sej.............. dig___ ... —___ ___ __, ...._________ Mulheres, ig____ m odo...”, m a s o s c o m e n t a r i s t a s n ã o e s t ã o d e a c o r d o q u a n t o a s e e s s a s m u l h e r e s

4

sã o a s e s p o s a s d o s d iá c o n o s (c o m o n a s b tb e n a n t l h ) o u se sã o d ia c o n is a s ( c o m o n a b j, e m n o t a d e r o d a p é ) , p o i s a p a l a v r a p o d e r e f e r i r - s e t a n t o à p r i m e ir a c o m o à s e g u n d a p o s s i b i l i d a d e ( o q u e a t e s t a a n v i, t a m b é m e m r o d a p é ) .

Em favor de “diaconisas”, o “igualmente” do versículo 11, tal como o do versículo 8, nos induz a entrar numa nova categoria; seria estranha a menção das esposas dos diáconos, uma vez que, com referência aos bispos, suas mulheres não são mencionadas. Não há o artigo definido “as” antes de mulheres (como na n v i ) , nem o possessivo “suas” - que deveria haver se o sentido fosse


o de referir-se às mulheres deles - embora algumas versões, por sua conta, tenham incluído o possessivo (como a b v ) . E sabemos, pela menção a Febe,54 que havia diaconisas naquele tempo. Em favor de “esposas dos diáconos”, por outro lado, essas mulheres não são chamadas de “diaconisas”, ou de mulheres que “servem”, tal como Febe; a referência a elas está entre duas referências aos diáconos, e isso faz com que soe muito natural uma menção às esposas. E, ainda, a omissão de uma referência a que elas tivessem uma vida de casadas com fidelidade, em correspondência aos versículos 2 e 12, é explicada com o entendimento de que elas seriam as esposas dos diáconos. Os comentaristas acham-se ainda divididos nessa questão. Uns poucos aceitam que poderia ser uma referência às duas possibilidades, uma vez que esposas e diaconisas poderiam ser assistentes dos diáconos em seu ministério. De qualquer modo, essas mulheres teriam que ser dignas (semnos), tal como os diáconos no versículo 8, e não caluniadoras, mas, tendo controle sobre sua língua, sóbrias (nefalios) - tal como os bispos no versículo 2 —e confiáveis em tudo (v. 11). Paulo agora retoma aos diáconos. Quer as mulheres do versículo 11 sejam, ou não, as esposas, o diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa (v. 12), do mesmo modo que os candidatos ao episcopado (versículos 2, 4 e 5). Então, os que servirem bem no diaconato (idiakonçsantes) alcançarão duas coisas. A primeira será uma excelente posição. Bathmos (posição) pode significar passo, degrau, grau ou posição. Pode ter aqui o sentido de que, servindo bem no diaconato, isso seria um passo para ser presbítero, mas os conceitos de “carreira” ou “promoção” certamente são um anacronismo. No caso, “posição” será algo espiritual, ou uma posição de honra aos olhos de Deus e da igreja, ou até mesmo “um ‘passo’ na carreira da alma em direção ao céu” ( b a g d ) . A segunda coisa que os diáconos fiéis ganharão será uma grande determinação na f é em Cristo Jesus (v. 13). A palavra determinação é a tradução de parrçsia, que é liberdade na fala, ou ousadia, diante de Deus e dos homens. O serviço fiel fará crescer sua confiança em Cristo. Fazendo um retrospecto, está claro que as qualificações para o episcopado e para o diaconato são muito semelhantes. São as qualificações básicas que todos os líderes cristãos devem ter. Colocando as duas listas lado a lado, podemos notar que há cinco áreas principais a ser investigadas. Com respeito à própria pessoa, o candidato tem de ter domínio próprio e maturidade, inclusive nas áreas da bebida, do dinheiro, do temperamento e da língua; com respeito a seus relacionamentos, ele tem de ser hospitaleiro e amável; com respeito aos de fora, muito respeitado; e com relação à fé, apegar-se firmemente à verdade e ter o dom de poder ensiná-la. 54 lT s 1.9; cf. At 14.15.


Toda a primeira metade desse capítulo é um bom exemplo do equilíbrio que há nas Escrituras. Isso porque aquilo que é apresentado tanto vai encorajar as pessoas certas a se oferecerem para o ministério pastoral, como desencorajar os candidatos que deixam a desejar em relação a essas características. O que os desestimulará é que os padrões requeridos são elevados e a tarefa é árdua. A responsabilidade de cuidar da “igreja de Deus” (v. 5) está a ponto de atemorizar até mesmo os melhores e mais bem dotados cristãos. Mas o correspondente encorajamento é que o pastorado é uma nobre função, um belo encargo, uma louvável ambição (v. 1). Implica em dar-se a um serviço para servir os outros. Além disso, as palavras episkopos e diakonos são usadas com referência ao Senhor Jesus no Novo Testamento. Pedro chamou-o de “Pastor e Bispo (episkopos) da vossa alma”,55e Jesus aplicou a si mesmo o verbo diakonein.56 Será que poderia haver uma honra maior do que seguir os passos do Senhor e usufruir de parte do seu episkopç e da sua diakonia, coisas que ele deseja delegar a nós? 3. Aigreja (3:14-16) Deixando o tema das qualificações para o pastorado, Paulo passa para o da igreja, onde os pastores servem, pois a natureza do ministério é determinada pela natureza da igreja. Escrevo-lhe estas coisas, embora espere ir vê-lo em breve; l5mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. ,6Não há dúvida de que é grande o mistério da piedade: Deus fo i manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória. Aqui está a autoridade apostólica de Paulo, da qual ele tinha plena consciência. Ele tem planos de visitar Timóteo em Efeso, e diz isso por duas vezes (3.14 e 4.13).57 E quando for, irá pessoalmente pôr em ordem as atividades da igreja. Mas ele acha que poderá demorar-se. Assim, dá instruções sobre o que fazer até que ele chegue. Desse modo, por uma deliberada providência de Deus, as cartas do Novo Testamento vieram a ser escritas e foram preservadas para a edificação da igreja nas gerações posteriores. Se as instruções dos apóstolos com respeito a doutrina, ética, unidade e 55 1 Pedro 2.25 ( r a ) .

56 Por ex. : Mc 10.45; Lc 22.27.

57 Cf. ICo 11.34; 2Co 13.10.


missão da igreja tivessem sido dadas apenas sob a forma oral, a igreja teria ficado como um viajante sem um mapa ou como uma embarcação sem leme. Mas pelo fato de as instruções apostólicas terem sido dadas por escrito, sabemos o que de outro modo não teríamos tido conhecimento, ou seja, qual deve ser a conduta das pessoas na igreja. Paulo emprega três expressões para descrever a igreja, cada uma das quais ilustra um aspecto diferente dela, a saber: a casa ou a família de Deus, a igreja do Deus vivo e a coluna e o fundamento da verdade (v. 15). a. A casa de Deus

A palavra oikos tanto pode significar uma casa(o edifício) como a família que ocupa o edifício. E as Escrituras nosdizem que a igreja é casa de De nesses dois sentidos, o de um edifício de Deus58 e o de família de Deus.59 Esses dois conceitos às vezes são considerados ao mesmo tempo.60 Mas como, nesse capítulo, a palavra oikos foi empregada por três vezes com o sentido de casa como família (versículos 4, 5 e 12),61 o que parece ser provável é que essa palavra tenha a mesma conotação no versículo 15. Quando nascemos de novo do Espírito, tornamo-nos membros da família de Deus, relacionando-nos com ele na condição de nosso Pai e com os demais crentes como irmãos e irmãs. Embora Paulo, aqui, não esteja entrando nas conseqüências da condição de sermos parte da casa ou família de Deus, ele o faz em outros textos. Ele enfatiza que, como filhos de Deus, temos todos uma mesma dignidade perante ele, independentemente de idade, sexo, raça ou cultura;62 e que, como irmãos em Cristo, somos chamados a amar uns aos outros, a ter paciência com nossos irmãos e dar-lhes apoio, usufruindo de fato a rica “unidade em nossas diferenças”, a reciprocidade que há na fraternidade cristã.63 58 Por exem plo, IC o 3.16; IP e 2.5. 59 Por exem plo, Hb 3:5-6; IPe 4.17.

.

60 Por exem plo, Efésios 2.19ss. O Dr. David C. Vemer investigou e comparou três sentidos da palavra casa - o sentido dado pela cultura dos romanos, dos gregos e dos judeus, o sentido de família cristã e o sentido de casa de Deus (a igreja). Embora seja evidente que Paulo vê um paralelo entre esses dois últimos, pois argumenta que o líder que não sabe com o governar a primeira casa (a sua) não lem condições de governar a segunda (a de D eu s), o Dr. Verner dá uma bela escorregada na herm enêutica. E le presum e que, por chamar a igreja de casa de D eus, o autor das pastorais pretendia que os valores que prevaleciam numa fam ília aristocríítica se reproduzissem nela (Verner, p. 182). Ele conclui: “O propósito que tem o autor ao empregar a imagem da Casa de Deus é ... claro. Ele pretende apoiar uma estrutura social hierárquica na igreja ... N esse sentido, ele espera acabar com as forças que a ameaçam e com os radicais valores sociais que elas representam” (p. 186). A evidência nesse sentido 6 íniiilo IVaca. 61 Cf. Tt 1.11; 2Tm 1.16.

“ Por exemplo, (iálatus 3.26ss.

63 Por exem plo, Hb 10.24; G1 6.2.


b. A igreja do Deus vivo Diversas vezes, no Antigo Testamento, Yahweh é chamado de “o Deus vivo”, num deliberado contraste com relação aos ídolos dos pagãos. Com efeito, ainda hoje a conversão a Cristo envolve “ir a Deus, servindo-o como o Deus verdadeiro e vivo, deixando os ídolos”.64 Mas onde é que mora o Deus vivo? Josué respondeu a esta questão de forma sucinta: “o Deus vivo está no meio de vocês”.65 Isso porque essa foi a essência da promessa da aliança que Deus havia feito com Israel: “Andarei entre vocês e serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo” .66 A consciência do povo de Israel quanto ao fato de que o Deus vivo andava entre eles foi algo que afetou profundamente sua vida comunitária. Até mesmo uma disposição elementar em relação à higiene pessoal baseava-se no fato de que o S e n h o r Deus andava entre eles, e não se devia expor a ele nada de indecente.67 E eles ficavam furiosos quando os pagãos se atreviam a “afrontar”, “insultar” ou “ridicularizar” o Deus vivo.68 Uma consciência ainda mais marcante quanto à presença do Deus vivo deve caracterizar a igreja cristã de hoje, pois somos “santuário do Deus vivo”,69 uma “morada de Deus por seu Espírito”.70 Quando os membros da congregação se acham espalhados durante a maior parte da semana, é difícil permanecer plenamente consciente desta realidade. Mas quando nos reunimos como igreja (ekklçsia, “assembléia”) do Deus vivo, todo aspecto da nossa vida comum é enriquecido pelo conhecimento da sua presença em nosso meio.71 Em nosso culto, dobramo-nos diante do Deus vivo. Pela leitura e exposição da sua Palavra, ouvimos a sua voz falando conosco. Encontramo-nos com ele à mesa do Senhor, quando ele se dá a conhecer diante de nós pelo partir do pão. Em nossa comunidade, amamos uns aos outros, tal como ele nos amou primeiro. E o nosso testemunho torna-se mais arrojado e mais urgente. De fato, os descrentes que entrarem em nosso meio confessarão que “Deus realmente está entre vocês!”.72 c. A coluna e o fundamento da verdade Tendo considerado o dever que temos uns para com os outros como família de Deus, e perante Deus por sermos o lugar em que ele habita, passamos para a nossa responsabilidade perante a igreja, como sua coluna e fundamento. 64 lT s 1.9; cf. At 14.15.

65 Js 3.10; cf. Dt 6.15.

66 Lv 26.12; Êx 25.8; 29.45-46; cf. SI 114.2; Ez 37.27; 2C o 6.16. 67 Dt 23.12ss; cf. N m 35.34; lR s 6.13. 68 ISm 17.26, 36; 2Rs 19.4, 16. ® 2C o 6.16; cf. 3.16. 72 1 C oríntios 14.25.

70 Efésios 2.22.

71 Mateus 18.20.


O hedraiôma de um prédio é o seu suporte principal. Pode referir-se tanto ao seu fundamento como a um suporte ou baluarte ( a r a ) que o sustém. Seja como for, o hedraiôma é o que dá estabilidade ao edifício. Sendo assim, a igreja é responsável por manter firme a verdade, contra todas as tempestades de heresia e incredulidade. Apalavra^/cK , entretanto, tem o sentido de “coluna” ou “pilar”. A finalidade das colunas não é apenas manter firme o telhado, mas elevá-lo a uma certa altura, de forma que o edifício possa ser visto facilmente, mesmo à distância. Os habitantes de Éfeso tinham uma clara ilustração disso em seu templo dedicado a Diana ou Artemis. Considerado como uma das sete maravilhas do mundo, esse templo ostentava 100 colunas jónicas, de mais de 18 metros de altura, que erguiam um pesado e esplendoroso teto de mármore. De igual modo, a igreja ostenta a verdade nas alturas, de modo que esta seja vista e admirada pelo mundo. De fato, do mesmo modo como as colunas sustentam um edifício bem alto, permanecendo elas mesmas sem serem vistas, assim também a função da igreja não é promover a si mesma, mas promover e expor a verdade. Eis aqui, então, a dupla responsabilidade que a igreja tem em relação à verdade. Primeiro, como fundamento, sua função é sustentá-la com firmeza, de modo que ela não caia por terra sob o peso de falsos ensinos. Em segundo lugar, como coluna, tem a função de mantê-la nas alturas, de modo que não fique escondida do mundo. Sustentar com firmeza a verdade é a defesa e a confirmação do evangelho; mantê-la bem alto é a proclamação do evangelho. A igreja é chamada para esses dois ministérios. Alguns cristãos, entretanto, estão confusos quanto à relação que há entre a igreja e a verdade. E realmente verdade que a igreja é o fundamento da verdade? Não seria o caso de que a verdade é que é o fundamento da igreja? Teria sido, então, provavelmente esse enfoque que fez com que Crisóstomo deixasse escapar que “a verdade é a coluna e o fundamento da igreja”?73 Além disso, o próprio Paulo, anteriormente, não havia descrito a igreja como edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas [isto é, sobre o seu ensino], tendo Jesus Cristo como pedra angular”?74 Então, como é que fica: a verdade^ é o fundamento da igreja, ou a igreja é o fundamento da verdade? A resposta é: “as duas afirmações são verdadeiras”. Quando ensinou que a verdade é o fundamento da igreja,75 Paulo se referia à vida e à saúde da igreja: a igreja apóia-se na verdade, depende dela, não pode existir sem ela. Ao ensinar, porém, que a igreja é o fundamento da verdade (3.15), ele se referia à missão da igreja: ela é chamada a servir à verdade, segurando-a com firmeza, fazendo-a ser conhecida. Desse modo, então, a igreja necessita da verdade, e vice-versa. Da verdade a igreja depende para a sua existência; e da igreja a verdade depende para sua defesa e proclamação. 73 Crisóstomo, p. 442.

74 Efésios 2.'20.

75 Efésios 2.20.


Qual é, então, essa verdade, pela qual a igreja deve zelar para não incorrer em nenhuma distorção ou falsificação, ao mesmo tempo em que a proclama por todo o mundo, com destemor e sem dela desviar-se? É Jesus Cristo, de quem Paulo agora testifica, citando um antigo hino ou credo. Ele inicia com as seguintes palavras: “Não há duvida de que é grande o mistério da piedade” (v. 16a). Em primeiro lugar, trata-se de um “mistério”, um conjunto de verdades que agora se tomaram conhecidas apenas porque Deus quis revelá-las. Em segundo lugar, é um “mistério da piedade”, assim como antes ele o havia chamado de “mistério da fé” (v. 9), e isso por estimular a fé e ser também o objeto da fé. E é o mistério da piedade, por sua vez, porque estimula a nossa adoração, a nossa humildade e a nossa reverência diante de Deus, como o faz toda verdade.76 Em terceiro lugar, essa revelação divina que promove a piedade é “inquestionavelmente grande” ( r e b ) o u “como se admite”,77 “inegavelmente” grande ( b a g d ) o u “grande, como se pode demonstrar”.78 E, em quarto lugar, o enfoque está na pessoa e na obra de Jesus Cristo, uma vez que “o mistério” é essencialmente “o mistério de Cristo”.79 Spicq vê esses versículos como o “clímax” doutrinário da carta, o seu “coração”, já que definem a igreja “em seu relacionamento com o glorioso Cristo”. Ele também vê a afirmação de fé (“grandiosa é a verdade revelada da nossa religião” - n t l h ) como uma “solene confissão pública em oposição à dos devotos de Diana, que gritaram em uníssono durante duas horas “Grande é a Diana dos efésios!”.80 A afirmação litúrgica que em seguida Paulo cita consiste de seis linhas que, em estilo, são muito semelhantes. Isso porque todas as seis começam no texto original grego com um verbo que termina com as letras -thç (no tempo aoristo e na voz passiva). Todas as seis também terminam com um substantivo no modo dativo, e todas - exceto uma - usam a preposição en para ligar o verbo com o substantivo. Passando, porém, do estilo para o conteúdo, qual é o significado dessas seis frases, e como se.relacionam entre si? Há três possibilidades nesse sentido. A primeira é que as seis afirmações são para serem lidas cronologicamente,81 cada uma delas referindo-se a um evento ou estágio adicional e consecutivo na carreira de Jesus, partindo da primeira até a segunda vinda, da sua manifestação em carne até a sua recepção em glória. Assim, ele fo i manifestado em corpo 76 Tito 1.1.

77 Kelly, p. 88.

79 Colossenses 1.26-27; 2.2-3; 4.3.

78 Hanson (1966), p. 46; (1982), p. 84. 80 Atos 19.28,34 ( r a ) . Ver Spicq, pp. 464, 469, 475.

81 Por ex., Barrett, p. 66. A análise m ais com pleta da interpretação e do fundo teológico d esse v ersícu lo fo i dado p elo Dr. Robert H. Gundry, em “The Form , M ean in g a n d B a c k g ro u n d o f the H ym n Q u o ted in I Tim othy 3 :1 6 ” (A Form a, o S ign ificad o e os A n tecedentes do H ino Citado em 1 Tim óteo 3.16), em W. W. Gasque e R. P. Martin (e d s.); A p o s to lic H is to r y a n d th e G o s p e l (H istó ria A p o stó lic a e o E v a n g elh o ) Paternoster, 1970, pp. 2 0 3 -2 2 2 .


(literalmente, “na carne” - r a ), e isso refere-se à sua encarnação, pela qual o preexistente Filho nasceu neste mundo, onde viveu e morreu. Em seguida, ele foi justificado no Espírito. Embora esse contraste entre corpo e espírito tenha dado a entender a alguns comentaristas tratar-se de uma referência à sua natureza tanto humana como divina, a palavra “espírito”, com maior probabilidade, referese ao Espírito Santo, que primeiramente confirmou quem Jesus era por suas obras poderosas82 e depois, de maneira grandiosa, em sua ressurreição.83 Ele foi visto pelos anjos e por eles servido, em toda a sua vida.84 Mas a seqüência cronológica, após a sua encarnação e ressurreição, seria de se esperar que fosse sua ascensão. E, de fato, anjos estiveram presentes ali85 e observaram tudo o que estava se revelando ao vivo na história da salvação.86 Que ele foi pregado entre as nações é uma clara referência à missão da igreja atingindo o mundo todo, em obediência à grande comissão dada pelo ressurreto Senhor,87 e que ele foi crido no mundo é, de igual modo, uma clara alusão ao sucesso que o evangelho ia tendo, à medida que as pessoas o aceitavam. A frase final, de que elejo/ recebido na glória, soa como mais uma referência à ascensão. Mas se a seqüência é cronológica, deve ser a parousia que está sendo considerada, sua ascensão prefigurando sua epifania final em poder e grande glória. Essa interpretação é mais provável, pois, caso contrário, “não haveria nenhuma alusão à escatologia”88 nesse hino cristológico. Uma segunda reconstrução,89 um tanto mais popular, é a divisão do hino em duas estrofes, cada uma de três versos, a primeira referindo-se à vida do homem Jesus histórico na terra, em sua encarnação (ele se manifestou, foi justificado e foi visto), e a segunda reportando-se à vida do Senhor glorificado (foi pregado, crido e glorificado). A terceira e melhor sugestão a respeito,90 entretanto, é a de que o hino consiste de três parelhas de versos, sendo que em cada uma delas há uma deliberada antítese: entre a carne e o espírito, entre os anjos e as nações, e entre o mundo e a glória. O primeiro par de versos aborda a revelação de Cristo 0manifestou-se num corpo efoi justificado no Espírito). Aqui estão os aspectos humano e divino de sua vida e de seu ministério na terra da Palestina. O segundo par de versos refere-se ao testemunho de Cristo (foi visto pelos anjos, pregado entre as nações). Isso porque agora se pode ver que a importância de Jesus Cristo estende-se para muito além da Palestina, alcançando todos os habitantes do céu e da terra, os anjos e também os homens, as nações e também os judeus. Então, o terceiro par de versos fala de como Cristo foi recebido (foi crido no 82 Mateus 12.28.

83 Romanos J.4; 8.11.

84 Por ex., Lc 2.13; M c 1.13; Lc 22.43; 24.23; Mt 28.2ss. 85 Atos 1.9ss.

86 E f 3.10; IPc 1.12.

88 Houlden, p. 85.

89 Por ex„ Lock, pp.

90 Por ex., K elly, pp. 90-93.

87 lT m 2.7; Mt 28.19ss. 45 46;

Fee (1988), pp. 92-95.


mundo e foi elevado em glória), pois o céu e a terra fizeram mais do que simplesmente vê-lo e ouvi-lo; a ele se juntaram, reconhecendo quem ele é e aclamando-o. Alguns anos atrás, Joachim Jeremias, em seu livro Jesus’ Promise to the N ations (A Prom essa de Jesus às Nações), argumentou que esse hino cristológico é essencialmente uma declaração missionária, anunciando a inclusão das nações em conseqüência da morte e ressurreição de Jesus. Ele sugeriu ainda que esse fragmento de credo “foi estruturado com a forma de um hino de três pares de versos, seguindo o estilo de um hino de coroação”, mais precisamente segundo “o antigo ritual de coroação do qual nos foi exemplo o ritual do Egito antigo”. Consistia numa Elevação (do rei a divindade), numa Apresentação (do rei divinizado ao mundo) e numa Entronização. Isso, propôs Jeremias, correspondia aos três pares de versos do versículo 16, ou seja: “a Justificação pela ressurreição daquele que se manifestara na terra, a Anunciação ao céu e à terra da sua exaltação e o Investimento de Posse do reino sobre a terra e o céu” .91 A sugestão de Jeremias despertou o interesse de alguns comentaristas, os quais referiram-se a ela como sendo “engenhosa e atraente”,92 mas eles não chegaram a se deixar persuadir por ela, principalmente pelo fato de não haver um paralelismo perfeito. Contudo, a ênfase missionária certamente é correta. O mistério da piedade que a igreja proclama, a verdade da qual a igreja é o fundamento e a coluna, é o Cristo histórico e ao mesmo tempo cósmico. Em conclusão, a perspectiva de Paulo nesse capítulo é ver os presbíteros e diáconos à luz da igreja à qual são chamados a servir, e ver a igreja à luz da verdade que ela é chamada a confessar. Um dos caminhos mais seguros para a reforma e renovação da igreja é recuperar a compreensão da sua identidade (da qual não pode abrir mão) de ser a casa de Deus, ...a igreja do Deus vivo, e coluna e fundamento da verdade (v. 15).

91 Joachim Jeremias - J esu s’ P rom ise to the N ations (1956, trad. ingl. SCM, 1958), p. 38. Jeremias referiu-se também a seu comentário anterior sobre as Pastorais, D ie Briefe des Tim otheus und Titus (G öttingen, 1934, sexta edição, 1953). 92 Lock, p. 92.


1 Timóteo 4.1- 5.2

4. A liderança local O Capítulo 3 terminou com uma referência à igreja como sendo “coluna e fundamento da verdade” (v. 15) e com um resumo dessa verdade em relação a Cristo (v. 16). O Capítulo 4 inicia-se com uma referência aos falsos mestres e às suas mentiras (vv. 1-2). Assim, Paulo alerta Timóteo para o fato de os falsos mestres estarem negando o que a igreja confessa. Sua preocupação em todo esse capítulo é com os dois grupos de mestres, que se acham em oposição entre si. De um lado, há pessoas abandonando a fé e abraçando a falsidade; de outro, há os que estão duvidando da verdade que Timóteo está pregando, tendo em vista sua relativa juventude. Assim, dois são os tópicos que Paulo desenvolve: o prim eiro é como o ensino falso pode ser detectado e desmascarado, apesar de aparentemente verdadeiro (vv. 1 a 10); e o segundo, como o ensino verdadeiro pode ser aceito e aprovado, apesar da pouca idade de Timóteo (4.11-5.2). O título “A liderança local” parece, então, ser adequado a esses dois tópicos, uma vez que a igreja local é a principal arena em que se luta a incessante batalha entre a verdade e o erro. Assim, os líderes locais necessitam de um apoio tanto para a detecção do erro como para a aprovação do que é verdadeiro. Por mais desagradável que um debate teológico possa ser, ele não pode ser evitado, especialmente quando um crescente número de pessoas simplesmente despreza o próprio conceito do que seja uma verdade objetiva. 1. A detecção do falso ensino (4:1-10) O espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. 2Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consci­ ência cauterizada 3e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que crêem e conhecem a verdade.4Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se fo r recebido com ação de graças, 5pois é santifica­ do pela palavra de Deus e pela oração. 6Se você transmitir essas instruções aos irmãos, será um bom ministro de Cristo Jesus, nutrido com as verdades da fé e da boa doutrina que tem seguido. 7Rejeite, porém, as fábulas profanas e tolas, e exercite-se


na piedade. 80 exercício físico é de pouco proveito; a piedade, porém, para tudo é proveitosa, porque tem promessa da vida presente e da futura. 9Esta ê uma afirmação fiel e digna de plena aceitação. 10Se trabalhamos e lutamos é porque temos colocado a nossa esperança no Deus vivo, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem. A principal afirmação feita nesse texto é que, a despeito da igreja ter o papel de ser a guardiã da verdade, alguns abandonarão a f é (v. la). Esse é um verbo muito forte grego (apostçsontai: “apostatarão”), que muitas foi vezes empregado na LXX com respeito à infidelidade de Israel para com Yahweh. Quando é que tal apostasia de cristãos acontecerá? Nos últimos tempos, responde Paulo. Mas ele passa depressa do tempo verbal futuro para o presente (vv. 3-6), indicando, assim, que ele acreditava que “os últimos tempos” já haviam se iniciado. E tal como em 2 Timóteo 3. lss., ao escrever sobre “os últimos dias”, quando logo em seguida ele dá a entender que tais tempos já haviam chegado, pois diz a Timóteo que se afaste das pessoas que acabava de descrever. Desse modo, “os últimos tempos” e “os últimos dias” são duas expressões que se referem à era cristã, que foi inaugurada por Jesus na sua primeira vinda e se consumará na segunda.1 Paulo sabe a respeito dessa apostasia porque o Espírito diz claramente, “expressamente” ( r a , a r c , s b t b ) , o u “especificamente” ( jb p ) que tais coisas acontecerão. Talvez ele esteja se referindo à previsão, feita por Jesus, de que muitos se afastariam da fé,2 o que o Espírito continua falando (veja a repetição sobre “algo que o Espírito diz às igrejas”, nas sete cartas de Cristo às igrejas da Ásia, em Apocalipse 2 e 3). Ou, então, Paulo poderia estar referindo-se a uma profecia sua, feita anteriormente, acerca dos falsos mestres que invadiriam a igreja de Efeso como “lobos vorazes” e iriam “arrastar os discípulos atrás deles”.3 Ou é possível que ele estivesse dizendo que, ao escrever essas palavras, o Espírito Santo o estava inspirando a fazer essa profecia. Paulo, primeiramente, faz um resumo das causas do erro (vv. 1-2), de como ele surge e se espalha por toda a igreja e, depois, dos testes (vv. 3-10) e critérios pelos quais o erro pode ser detectado e identificado. a. As causas do erro (4.1-2) Aparentemente, a situação é fácil de ser compreendida. Certos mestres começam a espalhar uma visão errada, e algumas pessoas ingênuas lhes dão ouvidos, são conquistadas por eles e, em conseqüência, abandonam a fé apostólica. Mas Paulo não tem uma visão superficial do que acontece numa 1 Cf. At 2.17; IC o 10.11; Hb 1.2. 3 At 20.2 9 -3 0 ( r a ) ; cf. 2Ts 2.3ss

2 Como em Mt 24.10-11; Mc 13.22.


situação assim e explica a Timóteo a dinâmica espiritual que está por trás de tudo isso. Ele se refere a três estágios sucessivos. A primeira causa do erro é diabólica. Aqueles que abandonarão a f é agirão desse modo porque estarão “ dando atenção a” ( b j) o u porque seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios (v. 1). Assim, no mesmo versículo, Paulo refere-se tanto ao Espírito Santo como a espíritos malignos ou demônios, pois por trás dos falsos mestres ele vê a atividade das forças demoníacas. Falando sob a influência do Espírito da verdade, ele declara que os falsos mestres estão debaixo da influência de espíritos enganadores. Temos a tendência de não levar esse fato muito a sério. As Escrituras descrevem o diabo não apenas como tentador, atraindo as pessoas para o pecado, mas também como enganador, seduzindo as pessoas para o erro. Normalmente, ele age desses dois modos ao mesmo tempo, tal como aconteceu no Jardim do Éden, quando prevaleceu sobre nossos primeiros pais, que duvidaram e em seguida desobedeceram à palavra de Deus. Não é de admirar que Jesus o tenha chamado de “mentiroso e pai da mentira”.4 E os apóstolos, de um modo geral, atribuíam o erro humano ao engano causado pelos demônios.5 Não será por causa disso que pessoas inteligentes e cultas se deixam levar pelas fantasiosas especulações das seitas e do paganismo da Nova Era, por algumas das descabidas doutrinas das religiões étnicas e pela aridez das filosofias do ateísmo? E porque há não apenas um Espírito da verdade, mas há também espíritos de falsidade, que podem enganar, entorpecer, enfeitiçar e até mesmo cegar as pessoas.6 Em segundo lugar, o erro tem uma causa humana. O diabo, geralmente, não engana as pessoas sem fazer uso de pessoas. “Idéias de inspiração diabólica” ( b v ) são admitidas no mundo e na igreja através de agentes humanos. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos (v. 2a) ou, literalmente, “pela hipocrisia dos que falam mentiras” (ra). E uma terrível combinação de palavras, uma vez que a hipocrisia é um falso comportamento e a mentira é uma falsidade, ambas feitas intencionalmente. Desse modo, os falsos mestres, conquanto seduzidos por espíritos enganadores, são eles mesmos enganadores conscientes, não importando quão enganosa seja a máscara que encobre seus conhecimentos e sua religião. Eles nem mesmo crêem no que ensinam. A terceira causa importante do erro é moral, pois as mentiras hipócritas dos falsos mestres podem ser vistas como tendo origem em sua consciência cauterizada (2b). O verbo kaustçriazô, que ocorre apenas aqui no Novo Testamento, significa “marcar com um ferro quente” ( b a g d ) . Essa expressão era em pregada com respeito às m arcas feitas no gado e nos escravos, estabelecendo, assim, quem era o seu proprietário. A maioria dos comentaristas opta por essa interpretação e acha que, de algum modo, os falsos mestres 4 João 8.44.

5 Por ex. : 2Co 2 .11; lif ft.ll; 2Ts 2.9ss.; lJo 2.18; 4.1ss.; Ap 13.14.

6 lJo 4.6; 2Tm 2.26; G1 3.1; 2Co 4.4.


teriam sido marcados como propriedade de Satanás. Mas como a consciência deles pode ter uma marca de identificação que seja visível aos outros? Parece mais provável que kaustçriazô seja usado aqui em seu outro sentido, ou seja, no sentido medicinal de “cauterizar”. Quando uma pele, um nervo ou um tumor superficial é cauterizado, isso significa que ele é destruído por um processo de queimadura e assim fica insensível. Da mesma forma, uma consciência cauterizada é como que “anestesiada”,7 ou até mesmo necrosada. “Pelo processo de constantemente discordar da consciência, abafando suas advertências e recusando o toque do seu sino”,8 sua voz fica enfraquecida e, por fim, até mesmo silenciada. Nesse estado de insensibilidade moral,9 os falsos mestres facilmente se deixam levar pelo erro. Paulo tinha mencionado anteriormente Himeneu e Alexandre como exemplos. Por terem rejeitado a sua consciência, eles “naufragaram na fé” (1.19). A desagradável seqüência de acontecimentos na carreira dos falsos mestres agora é revelada. Primeiro, eles se recusaram a dar ouvidos à voz da consciência, até ficar ela cauterizada. Em seguida, não tiveram escrúpulos em tomar-se mentirosos hipócritas. Em terceiro lugar, expuseram-se, assim, à influência de espíritos enganadores. Finalmente, fizeram com que os que lhes deram atenção abandonassem a fé. E uma perigosa descida que começa por ignorar a voz da consciência, cauterizando-a, e passa para a mentira deliberada, para o engano de demônios, causando a ruína de outras pessoas. Essa queda começa pela corrupção da consciência. Em vez disso, o que precisamos fazer é dizer tal como Paulo: “Por isso procuro sempre conservar minha consciência limpa diante de Deus e dos homens”.10 b. Testes para detectar o erro A essa altura, a nossa curiosidade foi despertada quanto àquilo que os falsos mestres estavam propagando. Tendo dito isso, Paulo deixa de abordar as causas dos erros para mostrar como detectá-los. Ele põe nas mãos de Timóteo dois importantes critérios que podem ser aplicados em todo ensino. O restante da primeira metade desse capítulo é dedicado à questão de como o erro pode ser detectado. Está claro que um dos falsos ensinos em Efeso consistia de um falso ascetismo: eles proíbem o casamento e o consumo de alimentos (v. 3a). O casamento e a alimentação relacionam-se com os dois apetites mais básicos do corpo humano: o sexo e a fome. São também naturais, embora sejam passíveis de abusos, quando degeneram em lascívia e glutonaria. Contudo, desde o princípio da história da igreja, alguns mestres foram além do devido e argumentaram que o sexo e a fome são, em si mesmos, desejos impuros, que o corpo em si é uma 7Hanson (1982), p. 87.

8 Hendriksen, p. 146.

9 Efésios 4.19.

10 Atos 24.16


carga desagradável (se não, realmente maligna) e que o único caminho para a santidade é a abstinência, a renúncia voluntária do sexo e do casamento e, pelo fato de que a alimentação não pode ser banida completamente, então, pelo menos, a renúncia a comer carne. Uma das origens desses ensinos tendenciosos era judaica. Os essênios de Qumran, por exemplo, foram citados por Josefo como os que “rejeitavam os prazeres como se fossem coisas más, entretanto, acolhiam a continência ... como uma virtude” e “negligenciavam o casamento” ." Posteriormente, essa aberração judaica veio a misturar-se com o dualismo da filosofia grega, especialmente com o gnosticismo incipiente, que considerava a matéria como má e desprezava a criação material. Os encratitas, por exemplo, são descritos por Irineu como tendo “pregado contra o casamento, deixando, assim, de lado a criação original de Deus e indiretamente culpando aquele que criou os homens como machos e fêmeas para a propagação da raça humana.” Eles também ordenavam a abstinência de produtos alimentícios derivados dos animais, “desse modo demonstrando não estarem gratos a Deus, que criou todas as coisas”.12 Outros pais da igreja, como Tertuliano, foram contaminados por um ascetismo exagerado, e consideravam a virgindade como algo sempre mais elevado e mais santo do que o casamento. Em rejeição a isso, não podemos nos esquecer de que, de acordo com Jesus e Paulo, há os que são chamados para permanecer solteiros, e que o jejum tem o seu lugar no discipulado cristão, mas essas duas coisas são casos especiais. O ponto é que o estado celibatário e o vegetarianismo não são a vontade geral de Deus para todos; proibir o casamento e proibir comer carne são erros muito sérios. Mas por quê? Onde está a essência deste erro dos falsos mestres? E como é que ele pode ser detectado? Paulo nos dá, agora, duas maneiras para testar isso, que têm uma larga aplicação. A primeira é um teste teológico, a doutrina da criação (vv. 3-5). A segunda é um teste ético, a prioridade da piedade (vv. 6-10). i. Um teste teológico: a criação (4.3-5) O casamento e certos alimentos, que os falsos mestres estavam proibindo, são dádivas, ou presentes, que Deus criou para serem recebidos com ação. de graças pelos que crêem e conhecem a verdade (3b). O princípio está claro. Como pode alguém desprezar o casamento, e ainda proibi-lo, quando ele foi instituído por Deus? Como pode alguém ordenar a abstenção de certos alimentos, uma vez que Deus os criou para serem recebidos com ação de graças? O que Deus fez e nos deu é para ser recebido, e devemos agradecerlhe por isso. A referência ao agradecimento pode ser no sentido de um espírito interior de ação de graças, mas provavelmente também seja a sua livre expressão, como ocorre ao se dar graças antes de uma refeição, algo que já 11 Josefo, Guerras II.8.2; cf. Ant. XVIII. 1.5

12 Ij-ineu, 1.28.1.


era costume nas casas dos judeus havia muito tempo.13 Notemos com cuidado a dupla consagração das dádivas da criação de Deus, o que Paulo repete três vezes para enfatizar. A primeira afirmação, como já vimos, liga a divina criação com o seu recebimento em ação de graças pelos homens (v. 3). Em segundo lugar, é dada a esse princípio uma aplicação universal: Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se fo r recebido com ação de graças (v. 4). Se tudo foi declarado bom por criação, então nada é para ser considerado um tabu. Trata-se, certamente, de uma alusão à repetição de Gênesis 1, que diz que tudo o que Deus fez é bom. Em terceiro lugar, Paulo conclui a questão: pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração (v. 5). Assim, o casamento, os alimentos e todas as demais dádivas da criação são consagradas duas vezes. Primeiro, antes de tudo, em si mesmas de maneira objetiva, uma vez que Deus os fez e os instituiu, dando-nos para que deles desfrutássemos, sendo isso declarado nas Escrituras. Segundo, eles são consagrados por nós subjetivamente quando reconhecemos sua origem divina e os recebemos de Deus com gratidão. Se Deus fez algo, chamando isso à existência mediante a sua palavra, se pela mesma palavra declarou que isso é bom e, ainda, se em decorrência do nosso conhecimento de tais coisas podemos agradecer por elas com uma boa consciência, então, temos uma dupla razão para recebê-las, para delas desfrutar e para acatá-las com alegria e com ações de graças. Apalavra criativa de Deus e a nossa oração de gratidão, juntas, santificam tais coisas para o nosso uso. Foi assim que Fairbairn escreveu, falando da “palavra de Deus ao homem, autorizando-o a usar a dádiva da criação e a palavra humana dirigida a Deus, reconhecendo a dádiva, e pedindo sua bênção sobre ela”. Desse modo, “a santificação com pleta-se de dois modos objetivamente, pela palavra de Deus, e subjetivamente, pela oração”.14 Observe com cuidado, entretanto, o que Paulo escreve. Não é que “tudo seja bom”, mas que tudo o que Deus criou é bom. Há, aí, uma restrição indispensável, uma vez que nem tudo o que existe proveio, sem se contaminar, das mãos de Deus. Isso porque a queda veio posteriormente à criação, introduzindo o mal neste mundo e estragando uma grande parte da criação de Deus. De fato, a criação foi “submetida à inutilidade” e “geme até agora como em dores de parto”.15 Temos que ter, então, discernimento para saber o que, em nossa experiência humana, pode ser atribuída à criação e o que, à queda. Uma aplicação totalmente indevida do argumento de que o que Deus criou é bom é a afirmação de que as práticas de sexo heterossexual e homossexual são igualm ente boas, por terem sido ambas criadas por Deus. Os cristãos homossexuais geralmente dizem: “sou gay porque Deus me fez assim, e portanto quero proclamar o meu homossexualismo”. Mas não, o que Deus criou foi “homem e mulher”, com um casamento heterossexual, tendo em vista a 13 Cf. Rm 14.6; ICo 10.30.

14 Fairbain, pp. 176-177.

15 Romanos 8.20-22.


p re te n d id a co n seq ü ên cia d e s te .16 É totalm ente indevido acatar o homossexualismo, como também é indevido proceder de igual modo em relação a qualquer outra tendência humana derivada da queda, como, por exemplo, a irracionalidade, a cobiça ou o orgulho. Portanto, temos de ter todo o cuidado para não confundir criação com queda, ordem com desordem, mas, pelo contrário, certifiquemo-nos de que acatamos apenas o que Deus criou, recebendo com ações de graças apenas o que ele nos dá. Entre nós, deveria estar ocorrendo muito mais a prática de dar graças, de um modo não inibido pelo nosso persistente ascetismo evangélico, pois a verdade é que ainda não foi totalmente banida de nossa teologia e prática um gnosticismo que nega as coisas do mundo. Antes, orgulham o-nos de nossa superespiritualidade, que é retirada da ordem natural das coisas, e o que desejamos ter é um céu etéreo, esquecendo-nos da promessa de uma nova terra. Temos a tendência de ter uma doutrina da redenção melhor do que a da criação, e assim somos mais gratos às bênçãos da graça do que às da natureza e da arte. Talvez, o que diz G. K. Chesterton possa nos abrir os olhos: Você dá graças antes das refeições, Muito bem. Mas eu dou graças antes de uma peça teatral e de uma ópera, E dou graças antes de um concerto e de uma pantomima, E dou graças antes de abrir um livro, E dou graças antes de atuar como ator, antes de pintar, De nadar, de esgrimir, de lutar boxe, de andar, de brincar e de dançar; E dou graças antes de começar a escrever.17 Devemos ter a disposição, então, de reconhecer, aceitar como verdadeiras, apreciar e celebrar todas as dádivas do Criador: a glória dos céus e da terra, da montanha, do rio e do mar, da floresta e das flores, dos pássaros, dos animais e das borboletas e de todo o complexo equilíbrio do ambiente natural que nos cerca; e também os privilégios singulares da nossa condição humana (nossa racionalidade, moralidade, sociabilidade e espiritualidade), como criaturas que somos, feitas à imagem de Deus e designadas mordomos perante ele; as alegrias de sermos homens e mulheres, do casamento, do sexo, dos filhos, da paternidade, da vida familiar e de nossos parentes e amigos; o ritmo do trabalho e do descanso, de cada dia, como um meio de cooperarmos com Deus e servirmos para o bem comum, e o dia do Senhor, quando cultuamos a Deus em vez de trabalharmos; as bênçãos da paz, da liberdade, da justiça e de um bom governo; 16 Veja Gn 1.27; 2.24; Mt I9.4ss. 17 Citado em D udley Barker, G. K. Chesterton anotações não publicadas.

- A Biography (Constable, 1973), p. 65, de


e dos alimentos e das bebidas, do vestuário e do abrigo; e a nossa criatividade humana expressa através da música, da literatura, da pintura, da escultura e do teatro, e as habilidades e capacidades demonstradas nos esportes. Aqueles que rejeitam essas coisas abandonarão a fé, uma vez que isso insulta o Criador. Recebê-las com ações de graças e acatá-las com alegria é glorificar a Deus, “que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação” (6.17). ii. Um teste ético: a piedade (4.6-10) A doutrina da criação tem amplas ramificações, como já vimos. É o fato de desenvolver uma atitude positiva, de gratidão, para com todo o mundo, e de ter uma forte consciência que nos libera para gozar as boas dádivas do bom Criador. Timóteo deve transmitir essas instruções para os irmãos (v. 6a), pois o que Paulo instrui a Timóteo, este tem que ensinar também a outros.18 Com efeito, compete a ele “colocar essas instruções diante dos irmãos e irmãs” ( n r s v ) , tal como um garçom servindo convidados à mesa, ou como um comerciante expondo suas mercadorias diante de um freguês. Ou talvez o verbo hypotithçmi (literalmente, “colocar debaixo”) esteja tomando Timóteo semelhante a um construtor, que estivesse estabelecendo verdades “como um fundamento para a fé daqueles cristãos”.19 Seja o que for o que Paulo tem em mente, ele acrescenta que, se Timóteo for um mestre fiel, será um bom ministro de Cristo Jesus (v. 6b; o substantivo é diakonos, mas Paulo não o está usando aqui em seu sentido técnico de “diácono”, como em 3.8,12). Sempre gostei muito dessa expressão. Jesus Cristo tem diferentes tipos de ministros - bons, maus e indiferentes mas eu não consigo imaginar uma ambição mais nobre do que a de se tomar “um bom ministro” seu. Além disso, Paulo deixa bem claro que é a boa doutrina (v. 6c) que faz dele um bom ministro, e isso de dois modos, a saber, ele tanto instrui as pessoas ensinando essa doutrina, como também dela se nutre pessoalmente: nutrido com as verdades da fé e da boa doutrina que tem seguido (v. 6). Isso parece constituir uma regra de ordem geral. Por trás do ministério do ensino, jaz a disciplina do estudo feito em particular. Todos os melhores mestres são os que se mantêm na condição de estudantes. Eles ensinam bem porque aprendem bem. Assim, antes de, com eficácia, ter condições de ensinar a verdade a outras pessoas, é necessário que primeiro nós mesmos tenhamos nos “alimentado” ( r a ) dela. No versículo 7, a metáfora altera-se, passando da nutrição de uma criança ao exercício de um atleta: Exercite-se na piedade (v. 7b), pois o exercício físico é de pouco proveito (v. 8a). Paulo emprega o verbo gymnazô e o substantivo gymnasia, e não é necessário ter nenhum conhecimento do grego para 18 2 Timóteo 2.2.

19 Lock, p. 50.


reconhecer que ele está falando de ginástica e de um ginásio de esportes. Sendo jovem, Timóteo sabia da importância de praticar exercícios; ele sabia, ainda, que um treinamento é essencial para os atletas que pretendem competir nos jogos - e isso era algo muito popular em todo o império greco-romano naquele tempo. De fato, ambas as metáforas de Paulo - a alimentação disciplinada e o exercício físico - são duas coisas indispensáveis para a saúde do corpo. Assim também ocorre no discipulado cristão. No que constitui o nosso alimento espiritual, ele já esclareceu. São “as verdades da fé e da boa doutrina” (v. 6); em outras palavras, são as verdades da doutrina dos apóstolos, pois é ela que alimenta. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas (v. 7 - r a ) , pois, como alimentos espirituais, não passam de uma tranqueira sem nenhum valor nutritivo. Voltando para a metáfora do exercício físico, Paulo diz a Timóteo: exercite-se na piedade (7b). Das quinze ocorrências da palavra eusebeia (“piedade”) e eusebçs (“piedoso”) no Novo Testamento, treze acham-se nas cartas Pastorais, sendo nove em 1 Timóteo. Desse modo, trata-se de um importante conceito nessa carta. O sentido básico que ela tem é o de “respeito” ou “reverência”, e no grego secular era usada para se referir ao respeito aos governantes, aos magistrados e também aos pais. No Novo Testamento, entretanto, ela é empregada exclusivamente como sinônimo de theosebeia, com o sentido de reverência a Deus (por ex., 2.10). Embora, às vezes, eusebeia possivelmente signifique “religião” com um sentido formal, ela geralmente tem uma conotação mais pessoal, sendo “uma mistura de temor e amor que, juntos, constituem a devoção do homem para com Deus”.20 As pessoas piedosas são pessoas tementes a Deus. Elas passaram pela impressionante revolução da conversão cristã, deixando de ser centradas em si mesmas para ser centradas em Deus. Anteriormente, delas se poderia dizer: em seus pensamentos “não há lugar para Deus”.21 Mas agora elas dizem: “Sempre tenho o S e n h o r diante de mim”.22 Elas ouviram o chamado de Deus para que renunciassem à impiedade e vivessem uma vida piedosa,23 desse modo vivendo em antecipação, sobre a terra, a vida do céu, que é centrada em Deus, dominada pelo trono de Deus.24 Como é que, então, devemos “nos exercitar na piedade”? Que ginásticas espirituais são essas que temos que praticar? Paulo não entra em detalhes. Mas o contexto e, em particular, o paralelismo entre a nutrição e o exercício físico, dão a entender que temos que nos exercitar do mesmo módo como nos alimentamos, ou seja, com a Palavra de Deus. Com certeza, tem sido uma tradição cristã de há muito tempo, consagrada pela sabedoria de todas as eras, que a disciplinada meditação nas Escrituras c indispensável à saúde do cristão e até mesmo para o seu crescimento na piedade. Isso porquem contrastando com as 20 Trench, p. 167. 23 Tito 2.12.

21 Salmo 10.4; cl'. !U>. I. 24 Apocalipse 4 . 1 2.

22 Salmo 16.8.


“fábulas profanas”, as Escrituras são o livro mais piedoso que já foi escrito. É um livro de Deus e sobre Deus. Ele poderia ter sido denominado uma autobiografia de Deus, uma vez que nele Deus nos fala a seu próprio respeito. Conseqüentemente, não podemos nos familiarizar com esse livro piedoso sem nos tornarmos piedosos também. Nada evoca a adoração a Deus como o faz a Palavra de Deus. No versículo 8, Paulo enfatiza a importância do exercício espiritual, contrastando-o com o exercício físico: “o exercício físico é de pouco proveito (v. 8a), uma vez que ele contribui para a nossa boa forma para esta vida; a piedade, porém, (incluindo, como está implícito, o treinamento que a produz) para tudo é proveitosa (ou “ é proveitosa em todos os aspectos” - n r s v ), porque tem promessa da vida presente e futura (v. 8b). Em resumo, ela nos prepara para a eternidade. Esta afirmação do versículo 8 sobre o proveito da piedade certamente é fiel e digna de plena aceitação (v. 9); é isso o que Paulo endossa, e não o versículo 10 que se segue. Pois, embora o versículo 10 pudesse ser descrito como “tendo um peso teológico maior”25 do que o versículo 8, contudo o versículo 8 não é desprovido de importância teológica e certamente é mais substancial, mais como um provérbio.26 Paulo continua: “Se trabalhamos e lutamos é porque temos colocado a nossa esperança no Deus vivo, aquele que é o autor e doador tanto da vida presente como da futura (v. 8b), sendo, ainda, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem” (v. 10). O que de fato quer dizer esta comparação entre “todos os homens” e “os que crêem” é algo que tem intrigado todos os comentaristas. Em que sentido Deus é o Salvador de todos, especialmente dos que crêem? Não se trata de universalismo, uma vez que Paulo não era universalista (ele não cria na salvação de todos os homens). Nem essa expressão pode estar se referindo à diferença entre o que é potencial (o desejo de Deus de salvar) e a realidade (a salvação de Deus), uma vez que o texto diz que ele é o Salvador de todos, não que seja esse apenas o seu desejo. Alguns, portanto, propõem que Deus é o preservador de todos, mas executa uma providência especial para com os que crêem. Mas, como tivemos a oportunidade de observar anteriormente, a referência à salvação nas Pastorais parece ter a conotação da salvação espiritual, e não da preservação física. Muitos eruditos chamaram a atenção a uma pesquisa feita por T. C. Skeat, em 1979, em que ele defende que a palavra especialmente (malista) deveria ser melhor traduzida por “mais 25 Guthrie (1 9 9 2 ), p. 107. 26 A ssim Knight (1992), p. 198; Knight (1968, 1979), p. 79 cita H. B. Swete: “N o cristão de É feso, Cristo havia tomado o lugar de Ártem is e a Igreja, o dos seus devotos; e o dom ínio próprio e o auto-sacrifício da nova vida em Cristo, que são bons para os dois m undos, eram os substitutos cristãos para os exercícios feitos no ginásio, que tinham valor apenas para a vida presente.”


precisamente” ou “em outras palavras”. Dessa forma, Paulo “não está dizendo que Deus salva crentes muito mais do que salva os demais; o apóstolo está simplesmente modificando a afirmação ampla de que Deus é o Salvador de todos os homens, acrescentando a limitação de que ninguém é salvo, a menos que seja crente.”27 Revendo agora toda a primeira metade desse capítulo, podemos juntar os dois testes que Paulo deu a Timóteo e que ainda podem ser aplicados a todos os ensinamentos duvidosos de hoje. O teste teológico é a doutrina da criação: esse ensino honra Deus como o Criador e doador de todas as coisas boas? O segundo teste é ético, e diz respeito à prioridade da piedade: esse ensino honra Deus, despertando o nosso louvor? Não precisamos hesitar em nada diante de ensinamentos que glorifiquem Deus, o Criador, e que promovam a piedade. 2. A recomendação do ensino verdadeiro (4.11 - 5.2) Ordene e ensine estas coisas. I2Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na f é e na pureza. 13A té a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino. uNão negligencie o dom que lhe foi dado por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros. 15Seja diligente nessas coisas; dedique-se inteiramente a elas, para que todos vejam o seu progresso. 16Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem. 1Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; 2as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda. a pureza. Essa seção começa com um enorme contraste entre o versículo Í l e o 12, fazendo um resumo do problema que Timóteo estava enfrentando por ser um líder jovem. De um lado, ele havia sido posto numa posição de considerável responsabilidade, como representante de Paulo em Efeso. Ordene e ensine estas coisas (v. 11), Paulo escreveu. “Estas coisas” (tauta) é uma expressão que ocorre oito vezes nesta carta;28 ela resume as instruções e ordens dadas por Paulo a Timóteo, as quais ele tinha que transmitir (os dois verbos estão no imperativo afirmativo) às igrejas de Efeso. Por outro lado, ele era ainda relativamente jovem, estando provavelmente nos seus trinta anos, de modo que Paulo teve que acrescentar: Ninguém o despreze 21 Hanson (1982), p. 92.

28 lTm 3.14;

I 1,15; 5.7,21; 6.2,17.


pelo fato de você ser jovem (v. 12a). Assim, juntando os versículos 11 e 12, Timóteo havia sido chamado à liderança cristã um tanto precocemente. Sua responsabilidade de “ordenar e ensinar” corria o perigo de ser minada por sua juventude, o que era evidente pelos sinais de que o seu ministério estava sendo rejeitado. Paulo, agora, não está se preocupando com o erro (como poderia ser detectado e rejeitado), mas com a verdade (como ela pode ser apresentada e aceita). Talvez algumas pessoas estivessem com ciúmes de Timóteo, ressentidas pelo fato de terem sido preteridas diante da promoção de Timóteo. Outros simplesmente olhavam com desdém esse pretensioso jovem, mais ou menos como Golias desprezou o jovem Davi.29 Esse é um problema que sempre ocorre. Os mais velhos normalmente têm um a grande dificuldade em adm itir que jovens estejam tendo alguma responsabilidade, em face dos direitos que eles têm, e hesitam muito em aceitálos como líderes. E podemos facilmente entender que os jovens fiquem irritados quando os mais velhos lhes ficam lembrando de sua imaturidade e inexperiência, tratando-os com desprezo. Como, então, devem os líderes cristãos jovens reagir numa situação assim, para que a sua juventude não seja desprezada e o seu ministério não seja rejeitado? Não será por meio de um comportamento orgulhoso, imponente ou agressivo. Nem ainda fazendo uso de sua autoridade, de forma a impor a sua vontade. Mas... (observe a forte conjunção adversativa alia no meio do versículo 12) por outros meios, sem dúvida. “Não permita que ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem: tome cuidado para que as pessoas o respeitem porque...” ( j b p ). O apóstolo prossegue, dando-lhe seis modos mediante os quais o seu ministério poderá ser bem recebido e ganhar aceitação. a. Timóteo tinha de seguir o exemplo de Paulo Paulo tinha todo o cuidado quanto ao exemplo que ele mesmo dava. E sentiase bem à vontade convidando seus leitores a imitá-lo.30 Timóteo teria que proceder de igual modo: Ninguém o despreze ... mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na f é e na pureza (v. 12b). As pessoas não o desprezariam por sua juventude se pudessem admirar o seu exemplo. O apóstolo Pedro deu essa mesma instrução aos anciãos da igreja, instando-os no sentido de que servissem com humildade: “Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho”.31 Ao escrever desse modo, Paulo e Pedro estavam apenas repetindo o ensino de Jesus, que introduziu no mundo um novo estilo no relacionamento entre líderes e subalternos. A grande tentação, sempre que a nossa liderança é questionada, ameaçada ou resistida, é darmos uma demonstração clara de que a possuímos, agindo 29 1 Samuel 17.42.

30 Por ex„ lT s 1.6; 2Ts 3.7,9; IC o 4.6; 11.1; Fp 3.17.


com firmeza e tomando-nos autoritários, até mesmo tirânicos. Mas liderança e senhorio são dois conceitos bem diferentes. O cristão lidera através do exemplo, não pela força; é sendo um modelo que faz com que os outros o sigam; não sendo um chefe que os obrigue a agir. Além disso, o exemplo de Timóteo tinha de ser amplo: na palavra e no procedimento, isto é, em palavras e em ações, tanto no que falava como no que fazia. E nessas duas esferas, ele tinha que ser um modelo das virtudes cristãs, em especial no amor, a preeminente graça cristã que se revela ao próximo e a toda a humanidade; nafé, o que poderia significar tanto ter confiança em Deus e em Cristo, como a condição de ser digno de toda a confiança, uma fidelidade que é fundamental para o cristão, ou ainda poderia ter esses dois sentidos; e na pureza, que constitui o autocontrole cristão. b. Timóteo tem que identificar a sua autoridade Em seguida, Paulo dá a seguinte instrução a Timóteo: Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino (v. 13). Uma certa autoridade havia sido delegada a Timóteo como representante de Paulo em Efeso, mas essa autoridade, é claro, estava subordinada ao apóstolo em dois aspectos. Por um lado, o que ele tinha que ordenar e ensinar eram estas coisas; o seu dever era o de ensinar apenas os ensinamentos de Paulo, e não os seus. Por outro, isso era para ser feito até quando Paulo chegasse, quando o apóstolo assumiria a responsabilidade. Nesse tempo, conforme Paulo o fez lembrar-se, ele tinha uma outra autoridade, a das Escrituras do Antigo Testamento. As quatro palavras leitura pública da Escritura traduzem o substantivo anagnôsis do grego, uma vez que com freqüência ele se referia à leitura pública em voz alta. Aversão m m nos dá exemplos desse uso na leitura de testamentos, petições, despachos e relatórios. Mas referia-se também à leitura pública das Escrituras, tal como aconteceu quando os sacerdotes fizeram a leitura da lei nos dias de Esdras,32 quando Jesus leu o texto de Isaías na sinagoga de Nazaré,33 e sempre que o Antigo Testamento era lido numa sinagoga.34 Essa prática da leitura do Antigo Testamento, que era feita na sinagoga, passou então para os cristãos, que a assumiram na igreja. Além disso, os apóstolos orientavam as igrejas para que lessem em voz alta, nas congregações cristãs, as cartas que eles escreviam. “Diante do Senhor,” escreveu Paulo aos Tessalonicenses - “encarrego vocês de lerem esta carta a todos os irmãos.”35 Ele deu uma instrução semelhante à igreja dos Colossenses: “Depois que esta carta for lida entre vocês, façam com que também seja lida na igreja dos laodicenses, e que vocês igualmente leiam a carta de Laodicéia”.36 O livro do Apocalipse inicia-se também com uma ordem semelhante: “Feliz aquele 31 IPe 5.3; cf. Hb 13.7.

32 Neeiiii;is 8.8, I.XX.

34 Por ex.: At 13.15; 15.21.

M I Tessiiloniiviiscs 5.27.

33 Lucas 4.16.


que lê as palavras desta profecia ...”.37 São instruções extraordinárias. Indicam que os apóstolos colocam suas instruções no mesmo nível das Escrituras do Antigo Testamento. Assim, cada igreja local começaria a colecionar as cartas e registros dos apóstolos, de modo que no dia do Senhor, na assembléia do Senhor, haveria duas leituras públicas: a primeira do Antigo Testamento (da lei e/ou dos profetas) e dos escritos dos apóstolos. E essa prática continua em muitas igrejas até hoje, em duas leituras bíblicas feitas nos cultos. Já por volta da metade do segundo século, essas leituras faziam parte da liturgia. Justin Martin, em sua Primeira Apologia, escreveu: No dia que se chama domingo, todos os que moram nas cidades do país reúnem-se num local, e os registros dos apóstolos e os escritos dos pro­ fetas são lidos, tanto quanto permita o tempo; em seguida, quando a leitura termina, o presidente fala, instruindo e exortando o povo a imi­ tar essas boas coisas.3S “Instruindo e exortando” é exatamente o que Paulo requer em seguida, quando acrescenta exortação (paraklçsis) e ensino (didaskalia, ou instrução) em sua palavra a Timóteo, depois de mencionar a leitura das Escrituras. Já era um costume nas sinagogas fazer uma exposição39 após a leitura de um texto das Escrituras, e essa prática foi levada às assembléias cristãs, constituindo o ponto inicial dos sermões no culto público. Desde o início, aceita-se ser a pregação cristã uma pregação expositiva, isto é, que toda instrução e exortação cristã seja derivada de uma passagem que tenha sido lida. Observamos, entretanto, que a leitura pública das Escrituras vinha primeiro, dando autoridade. O que se seguia era uma exposição e uma aplicação, tanto na forma de uma instrução doutrinária, como numa exortação moral, ou ambas. A autoridade de Timóteo em si era vista, então, como secundária, sujeitando-se ele tanto às Escrituras como ao apóstolo. Todos os mestres cristãos ocupam essa mesma posição subordinada, tal como Timóteo. Eles serão sábios, portanto, principalmente no caso de ser jovens, se demonstrarem tanto a sua submissão à autoridade das Escrituras como a disposição de a exporem com integridade, de forma que o seu ensino seja visto não como deles, mas como sendo a palavra de Deus. c. Timóteo tem que exercitar o seu dom Não negligencie o dom que lhe fo i dado por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros (v. 14). 36 Colossenses 4.16.

37 Ap 1.3; cf. 22.18-19.

38 Justin Martyr, F irst A p o lo g y, traduzido para o in glês por A. W. F. Blunt, Cambridge Patristic Texts (Cam bridge U n iversity Press, 1911), 1.67. 39 Por ex.: Lc 4.16ss.; A t 13.16ss.


Seria um anacronismo nos referir a isso como tendo sido a “ordenação” de Timóteo. Embora não sejamos informados sobre quando e onde ela se realizou, Paulo faz com que Timóteo se lembre de que ela se constituía de três partes. De fato essas três partes são por ele referidas também outras vezes, em suas duas cartas a Timóteo. A primeira coisa mencionada é um dom (charisma), que lhe havia sido outorgado e posteriormente é especificado como sendo um “dom de D eus” .40 Que dom era esse, não sabemos; pois não nos é dito. Mas evidentemente se relacionava com o ministério de Timóteo. Calvino escreveu a respeito dele mencionando “a graça que lhe havia sido outorgada para a edificação da igreja”;41 Alford falou do dom de “ensino e direção da igreja”;42 e Hendriksen mencionou “o dom de discernimento entre o verdadeiro e o falso, e, conseqüentemente, de poder exortar, ensinar e orientar”.43 Talvez o dom de Timóteo tenha sido o seu ministério de ensino, exercido com autoridade e poder. Em segundo lugar, Paulo menciona uma “mensagem profética”, que havia sido proferida a seu respeito (1.18), e através da qual o dom lhe fora dado. Presumivelmente, isso o identificava e o designava como uma pessoa a quem Deus havia chamado, mais ou menos como aconteceu quando o Espírito Santo destacou Paulo e Bamabé na Antioquia da Síria para o seu serviço.44 Em terceiro lugar, o “presbitério” ( r a - que significa “corpo de presbíteros” tinha feito uma “imposição de mãos” sobre ele (teria sido em Listra?), e Paulo era um deles,45 tendo sido essa uma prática pela qual a igreja confirmou o chamado e o dom de Deus sobre ele. Conquanto o relacionamento entre a mensagem profética, o dom divino e o ato feito pelos presbíteros não seja explicitado de forma clara, esses três pontos acham-se totalmente ligados entre si. O propósito de Paulo ao recordar as circunstâncias da ordenação de Timóteo é admoestá-lo a não “negligenciar” o seu dom, pedindo-lhe que “mantenha viva a chama do dom de Deus”.46 Disso aprendemos que um charisma não é algo que seja outorgado por Deus de forma permanente e estática; seu vaso humano tem de usá-lo e desenvolvê-lo. E verdade que Timóteo era jovem e inexperiente. Mas convinha que ele se lembrasse (e também lembrasse os outros) de que Deus o havia chamado (através da palavra profética), o havia capacitado (através do dom espiritual) e o havia comissionado (por meio das mãos dos presbíteros), pois assim ele .não seria desprezado em face de sua juventude, nem o seu ensino seria rejeitado. Ainda hoje é importante que os líderes cristãos discirnam, cultivem e exercitem seus dons, e que sejam ajudados nesse sentido por outras pessoas. Isso porque todos serão receptivos ao ministério de quem saibam ter sido chamado por Deus e não ter-se auto-instituído. 40 2 Timóteo 1.6.

41 Calvino, p. 247.

Alford, p. 742.

44 Atos 13.1 ss.

45 2 Timóteo 1.6.

2 Timóteo 1.6.

43 Hendriksen, p. 159.


d. Timóteo tem de mostrar progresso Tendo dito a Timóteo que fosse um exemplo e referindo-se à autoridade bíblica sob a qual ele tinha de estar ao ensinar e ao seu chamado divino, ao seu dom e comissionamento, Paulo prossegue, agora abordando a necessidade de Timóteo ter dedicação e perseverança: Seja diligente nessas coisas; dediquese inteiramente a elas (v. 15a). A segunda dessas duas exortações significa, literalmente, “esteja nelas”, ou seja, totalmente tomado por elas, devotando-se a elas com todo o coração e a alma. A versão r e b capta muito bem essa ênfase: “Que estas coisas sejam ‘o seu negócio’, dedique a elas todo o seu interesse”. E o propósito de toda essa dedicação é para que todos vejam o seu progresso (v. 15b). Ou seja, nas três esferas até agora mencionadas (seu exemplo, ensino e dom), não é apenas a dedicação de Timóteo ao dever que deve ser vista, mas sim o seu “constante crescimento”.47 O exemplo que os líderes cristãos dão, portanto, quer através de sua vida, quer através do ministério, deve ser dinâmico e progressivo. O que deve ficar patente perante todos é não apenas o que eles são, mas também o que eles estão se tornando, dando evidências de que estão crescendo na maturidade em Cristo. Alguns líderes cristãos imaginam que precisam aparentar que são perfeitos, sem quaisquer falhas visíveis, sem nada que os macule. Mas há pelo menos duas razões pelas quais isso é um erro. Primeiro, é uma atitude hipócrita. Como não há ninguém que seja um modelo de todas as virtudes, não é honesto querer passar por alguém que seja perfeito. Segundo, essa postura falsa desencoraja as pessoas, pois assim elas passam a achar que seus líderes são totalmente excepcionais e até mesmo sobre­ humanos. O próprio Paulo admitiu que ele mesmo não era perfeito. “Não que eu já o tenha recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo...”.48 Do mesmo modo, não devemos dar a falsa impressão de que já alcançamos o nosso alvo; pelo contrário, ainda estamos a caminho, ainda somos peregrinos. Não é também para cairmos no extremo oposto, exibindo todas as nossas falhas ou fazendo embaraçosas confissões em público. Isso não é bom para ninguém. e. Timóteo tem que zelar por consistência em sua vida Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres (v. 16a). Desse modo, Timóteo tem duas coisas a que dedicar, com muito cuidado, com igual atenção. A primeira delas é a sua vida, literalmente, “para si mesmo”, para o seu caráter e para a sua conduta. A segunda é a doutrina, o que ensina aos outros. Ele não deve dar um a tal atenção ao ensino, que acabe 47 Lock, p. 50.

48 Filipenses 3.12 ( r a ).


negligenciando cuidar de si mesmo, nem deve ficar de tal modo absorvido por suprir sua própria alma a ponto de negligenciar o ministério que tem para com as pessoas. Não, ele tem que ser equilibrado, dedicando-se com igual atenção e perseverança tanto a si mesmo como aos outros. E como Paulo chegou a dizer aos anciãos de Efeso: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho ...”.49 Então, não haverá dicotomia nenhuma entre a sua vida pública e a sua vida privada, nem entre a sua pregação e a sua prática. Pelo contrário, o que se manifestará será a virtude que está entre as mais necessárias na vida de qualquer líder: ser uma pessoa autêntica. Das duas situações inconsistentes mencionadas acima, a mais comum certamente é a primeira. Infelizmente, é muito fácil nos envolvermos a tal ponto na obra do Senhor que não dedicamos tempo para o próprio Senhor; ou ficamos tão preocupados com o bem estar dos outros que deixamos de dar atenção à nossa própria vida. É apenas mediante uma cuidadosa disciplina que os líderes cristãos conseguem um equilíbrio, não negligenciando um desses dois deveres em favor do outro. Pois se de fato você estiver agindo assim - Paulo conclui - você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem (v. 16b). A primeira vista, essa frase contém duas afirmativas que nos perturbam, ou seja, que Timóteo poderia salvar-se a si mesmo e também seus ouvintes. Em primeiro lugar, como é que Timóteo poderia salvar a si mesmo? Salvar-se a si mesmo não é algo impossível de fazer? Paulo não disse repetidamente, com muita ênfase, que a salvação é tão somente pela graça de Cristo, e somente através da fé? Será que ele de repente se deixa enganar e contradiz o que tinha dito? Será que ele se esqueceu de tudo o que disse quanto a ser “Deus, nosso Salvador” (1.1; 2.3) e quanto à vinda de Jesus Cristo ao mundo para “salvar os pecadores” (1.15)? Não. E claro que não. A salvação sempre e em todas as circunstâncias origina-se não em nós, mas procede da graça e da misericórdia de Deus. Não obstante, a realidade da nossa salvação tem que se demonstrar em boas obras de amor. E nesse sentido que Paulo nos diz que temos que “desenvolver a nossa salvação com temor e tremor”.50 Somente aqueles que perseverarem até o fim é que serão salvos.51 A perseverança não é o que, por mérito, produz a salvação; mas ela é a evidência definitiva de que somos salvos.52 Em segundo lugar, como Timóteo poderia salvar seus ouvintes? Com certeza, somente Deus é quem os poderia salvar através de Cristo, não é verdade? Sim, mas o Novo Testamento não poucas vezes atribui a salvação à evangelização, uma vez que é através do evangelho que é pregado que Deus salva os que crêem. Assim, Cristo, após sua ascensão, pôde dizer a Paulo que o estava enviando aos gentios “para abrir-lhcs os olhos e convertê-los das trevas para 49 Atos 20.28 52 Hebreus 3.14.

50 Filipenses 2.12 ( h a ).

m Por ex„ Mc 13.13; ICo 15.2; C l 1.22-23.


John Stott V

a luz, e do poder de Satanás para Deus”.53 Semelhantemente, ele se tomou “tudo para com todos” para, por todos os meios possíveis, “salvar alguns”.54 É claro que Paulo não tinha como salvar, nem salvou ninguém. Timóteo também não. Mas trata-se de uma expressão de linguagem, atribuindo aos evangelistas a tarefa de direcionar a salvação que o próprio Deus efetua através do evangelho que eles proclamam. f. Timóteo tem de ajustar os seus relacionamentos A sexta palavra que Paulo diz a Timóteo quanto a como ele deve proceder leva-nos aos prim eiros dois versículos do capítulo 5: “Não repreenda asperamente o homem idoso (a palavra usada é presbyteros, mas aqui Paulo não a está empregando em seu sentido técnico de “presbítero”, mas está referindo-se ao homem idoso, de um modo geral), mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza (5.1-2). Embora relativamente jovem, Timóteo achou-se responsável por várias congregações que eram compostas de pessoas de ambos os sexos (homens e mulheres) e de todas as idades (idosos e jovens). Paulo agora lhe diz que ele deve levar em conta o sexo e a idade das pessoas ao se relacionar com elas. Consideremos os mais idosos, em primeiro lugar. E bem possível que Timóteo tenha que advertir alguém de mais idade do que ele. Paulo dá a entender que isso acontecerá. Nesse caso, ele teria que desempenhar o seu dever, mas exortando e não repreendendo asperamente. Essas duas últimas palavras são a tradução do verbo epiplçssô, que parece ter o sentido de agir com “rispidez e severidade”.55 Ou seja, Timóteo tem que dar aos membros idosos da igreja o respeito que é devido à idade56 e a afeição que é devida aos pais. Ele tem que tratar os mais velhos como pais (v. 1) ou, no caso de mulheres, como mães (v. 2), que foi como Paulo tratou a mãe de Rufo em Roma, dizendo que ela tinha sido “mãe” para ele.57 Encontro aqui um bom respaldo para a necessidade de se reconhecer que há, numa congregação, uma diferença de gerações. E verdade que somos todos irmãos e irmãs em Cristo. Contudo, parece-me um tanto artificial o que ocorre no Ocidente, quando estudantes chegam até mim e chamam-me pelo meu primeiro nome, muito embora eu tenha idade para ser avô deles! As culturas dos povos da Ásia e da África são mais sábias, uma vez que promovem o hábito de os jovens se dirigirem à geração mais idosa chamando-os de “tio” ou “tia”. Paulo ainda aconselha Timóteo com respeito à atitude que ele deve ter para com os da sua própria geração. Ele deve tratar os rapazes como irmãos, amandoos e não transigindo em nada; as moças, como irmãs, amando-as também, embora com uma postura controlada e com toda a pureza (v. 2). 53 Atos 26.18.

54 ICo 9.22; cf. Rm 11.14.

56 Lv 19.32.

57 Cf. Romanos 16.13.

55 Ellicott, p. 67.


Resumindo, a igreja local é corretamente chamada de “a família da igreja”, na qual há pais e mães, irmãos e irmãs e ainda tias e tios, avôs e crianças. Os líderes não devem ser insensíveis, tratando todos de igual modo. Não, eles devem tratar os anciãos com respeito, afeição e delicadeza; a sua própria geração com igualdade, sendo que, no caso do sexo oposto, com autocontrole e pureza; e as pessoas dos dois sexos e de todas as idades com o tipo de amor que une os membros de uma mesma família. Aqui, há muita sabedoria prática para todos os que são chamados a exercer uma atividade de liderança cristã, especialmente para os mais jovens, a quem tenha sido dada uma responsabilidade acima de sua idade. Se zelarem pelo exemplo que dão, tomando-se um modelo de como Cristo é; se destacarem de onde provém a autoridade que têm, submetendo-se às Escrituras e tirando delas todos os ensinamentos que ministram; se exercitarem seus dons, dando evidência do chamado de Deus e do acerto, por parte da igreja, de os terem investido em sua função; se demonstrarem progresso, de forma que todos possam ver neles uma vida cristã e um ministério dinâmicos, e não estáticos; se zelarem por ser autênticos, praticando o que pregam; e se adequarem o modo de se relacionar, levando em conta a idade e o sexo das pessoas - então eles não serão desprezados por causa de sua juventude e o seu ministério será aceito com alegria e gratidão.


1 Timóteo 5.3- 6.2

5.Responsabilidades Sociais Tendo acabado de mencionar os homens de idade, os jovens e as mulheres das igrejas de Efeso (5:1-2) e de dizer como Timóteo deveria relacionar-se com eles, Paulo passa a considerar três outros grupos de pessoas em particular - as viúvas, os presbíteros e os escravos - , indicando quais são as responsabilidades de Timóteo e da igreja para com eles. Com respeito às viúvas, Paulo preocupase com a necessidade que elas têm de sustento e com as qualificações que elas necessitam ter para ser ministradas (5.3-16); com respeito aos presbíteros, ele trata de como devem ser remunerados e, também, de como devem ser designados e disciplinados (5.17-25); e com respeito aos escravos, considera como deve ser a qualidade do seu serviço, quer seus senhores sejam crentes ou não (6.1-2). Em cada uma dessas situações, Paulo escreve alguma coisa sobre o serviço a ser por eles realizado, uma vez que os três grupos são chamados a exercer uma diakonia (ministério) de algum tipo, sendo que nos dois primeiros casos ele acrescenta instruções sobre como deve ser o seu sustento. Além disso, esses dois enfoques acham-se relacionados entre si, sendo o serviço aquilo que se dá e o sustento, aquilo que se recebe. A interação entre eles é algo saudável, pois a comunidade cristã (como toda família) é uma comunidade onde “se dá e se recebe”.1 1. Viúvas (5.3-16) Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. 4Mas se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a colocar a sua religião em prática, cuidando de sua própria fam ília e retribuindo o bem recebido de seus pais e avós, pois isso agrada a Deus. 5A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua espe­ rança em Deus e persiste dia e noite em oração e em súplica. 6Mas a que vive para os prazeres, ainda que esteja viva, está morta. 7Dê-lhes estas ordens, para que sejam irrepreensíveis. sSe alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a f é e é pior que um descrente.

1 F ilipenses 4.15.

128


9Nenhuma mulher deve ser inscrita na lista de viúvas, a não ser que tenha mais de sessenta anos de idade, tenha sido fiel a seu marido ,0e seja bem conhecida por suas boas obras, tais como criar filhos, ser hospitaleira, lavar os pés dos santos, socorrer os atribulados e dedicarse a todo tipo de boa obra. nNão inclua nessa lista as viúvas mais jovens, pois, quando os seus desejos sensuais superam a sua dedicação a Cristo, querem se casar. 12Assim elas trazem condenação sobre si, por haverem rompido seu pri­ meiro compromisso.13Além disso, aprendem a ficar ociosas, andando de casa em casa; e não se tornam apenas ociosas, mas também fofoqueiras e indiscretas, falando coisas que não devem. 14Portanto, aconselho que as viúvas mais jovens se casem, tenham filhos, administrem suas casas e não dêem ao inimigo nenhum motivo para maledicência. 15Algumas, na verdade, já se desviaram, para seguir a Satanás. ,6Se alguma mulher crente tem viúvas em sua família, deve ajudá-las. Não seja a igreja sobrecarregada com elas, afim de que as viúvas real­ mente necessitadas sejam auxiliadas. As Escrituras têm muito a dizer sobre as viúvas, e as honram muito mais do que a maioria das culturas. Em muitas delas, a mulher casada é considerada apenas em relação ao seu marido. Assim, se ele morre, ela perde não apenas a condição de esposa, mas também toda a sua posição na sociedade. Nas Escrituras, entretanto, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros (pessoas sem um cônjuge, sem pais e sem uma casa) são valorizados pelo que são em si mesmos, e deles se diz que merecem uma especial honra, proteção e cuidado. Por toda a Bíblia, o que se pede para eles é justiça e amor. Deus é descrito como “pai para os órfãos e defensor das viúvas”;2 e dele se diz que “ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro”.3 Pelo fato de Deus ser assim, seu povo também tem de ser assim. “A nenhuma viúva nem órfão afligireis” - diz ele. “Se de algum modo os afligirdes, e eles clamarem a mim, eu lhes ouvirei o clamor; a minha ira se acenderá ...”4 Portanto, os magistrados que retivessem a justiça das viúvas cairiam no juízo de Deus;5 os fazendeiros eram instruídos a guardar um décimo da sua produção para as viúvas e os órfãos, deixando ainda a eles parte da colheita;6 e os profetas expressavam sua insatisfação pelo fato de que, em vez de defender e sustentar as viúvas, a nação as explorava e oprimia.7 Nosso Senhor Jesus tinha sempre uma conduta de grande compaixão pelas viúvas. Ele trouxe de volta à vida o único filho da viúva de Naim.8 Ele elogiou 2 Salmo 68:5.

3 Dt 14.28-29; 24.19ss.; 20.12-13.

4 Ê xodo 22.22ss. ( r a ) . ] 5 D t 27.19; cf. 24.17.

"Dt 14.28-29; 24.19ss.; 26.12-13.

7 Is 1.17,23; Jr 7.5ss.; 22.3; Ez 22.7; Zc 7.10; Ml 3.5; cf. SI 94.1ss.

«Lucas 7.11-12.


a atitude persistente da viúva que importunou o juiz injusto, a ponto de fazê-lo atuar, e também a generosidade da pobre viúva que deu como oferta as duas pequenas moedas de cobre que possuía, colocando-as no gazofilácio do templo.9 Ele alertou seus discípulos em relação aos escribas que “devoram as casas das viúvas” e, ao mesmo tempo, tinham uma ostentação religiosa.10 E quando estava na cruz, ele praticou o que pregava, confiando sua mãe desamparada aos cuidados de João." A igreja prim itiva aprendeu essa lição através do ensino do Antigo Testamento e pelo exemplo de Jesus, e continuou a demonstrar essa mesma disposição. Sete líderes muito bem dotados espiritualmente foram indicados para supervisionar a distribuição diária às viúvas em Jerusalém,12 e Tiago ainda define de maneira categórica que a religião “pura e imaculada”, à vista de Deus, é “cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades”.13 Voltando a 1 Timóteo 5, observamos de imediato que a parte que trata das viúvas parece estar dividida em dois parágrafos, cada um dos quais inicia-se com um verbo diferente, que se destaca nestes dois textos. As viúvas citadas nos versículos de 3 a 8 eram aquelas a quem Tim óteo deveria tratar adequadamente ou, literalmente, a quem deveria “honrar, ou ainda sustentar”;14 ao passo que aquelas referidas nos versículos de 9 a 16 eram para serem inscritas na lista de viúvas, ou seja, para ser “registradas” ou “arroladas”. Os comentaristas diferem quanto a se Paulo está se referindo ao mesmo grupo de viúvas nos dois parágrafos, ou se são dois grupos distintos. Mas a idéia de que são duas categorias diferentes parece evidenciar-se não apenas por causa dos dois verbos introdutórios diferentes (“honrar” e “registrar”), mas também por causa das diferentes condições para admissão em cada um desses dois grupos. No primeiro, a condição é ser desamparada e ser piedosa, ao passo que no segundo é idade, fidelidade conjugal e reputação de boas obras, tudo isso junto. Vou considerar essa alternativa, entendendo que o primeiro grupo de viúvas devia receber sustento financeiro e o segundo, oportunidades no ministério, ao lado dos presbíteros e diáconos do capítulo 3, embora não haja uma linha divisória marcante entre os dois grupos e possivelmente eles tenham partes em comum. a. Viúvas a ser sustentadas (5.3-8) O contexto deixa claro que a “honra” devida às viúvas (de fato, tratá-las adequadam ente) tem que ser muito m ais do que apenas respeitá-las pessoalmente e dar-lhes um apoio emocional e também financeiro (veja os versículos 4, 8 e 16). Isso já tinha sido incluído por Jesus no que o quinto

9 Lc 18.1 ss; Mc 12.41-42.

10 Marcos 12.40.

12 At ó .lss.; cf. 9.39,44.

13 Tiago 1.27.

11 João 19.26-27. 14 Crisóstomo, p. 450.


mandamento requeria, ou seja, no honrar os pais,15 e a honra devida aos presbíteros, a qual Paulo vai abordar em seguida, implica isso também (v. 17). Desse modo, “‘honrar’ inclui prover as necessidades materiais.”16 Mas quem é responsável por atender financeiramente as viúvas? E que viúvas estariam qualificadas para receber essa ajuda? Essas são as questões que Paulo passa a abordar agora, pois evidentemente aquela igreja estava mantendo algumas viúvas que poderiam ser atendidas pelas pessoas da sua própria família. O Dr. Bruce Winter lançou alguma luz nessa situação, ao chamar a atenção para o aspecto cultural do mundo greco-romano que afetava a sociedade de então, em especial ao sistema de dotes. Ele escreve o seguinte: O dote, que era dado pelo pai da noiva, sempre vinha junto com a mulher no seu casamento. Constituía um importante aspecto legal do matrimônio... Na ocorrência da morte do marido, as leis relativas ao sistema de dotes eram muito bem definidas. A viúva seria cuidada pela pessoa sob cuja responsabilidade estava o dote. A viúva tinha duas opções: se tivesse filhos, poderia permanecer na casa de seu falecido marido. Ali, seria sustentada pelo novo “senhor” (kyrios) da casa, que possivelmente seria seu filho. Ela poderia também voltar para seus pais, levando seu dote de volta para a sua família.17 Tal provisão legal dava à viúva uma segurança financeira. Ela seria sustentada por meio do seu dote, quer por seu filho ou por seu pai. Essa viúva não necessitava do sustento da igreja, uma vez que sua própria família tinha a obrigação tanto moral como legal de ampará-la. O sustento financeiro pela igreja deveria limitar-se às viúvas que eram realmente necessitadas (v. 3), ou aquelas “verdadeiramente viúvas” ( r a ). Essa expressão ocorre três vezes (vv. 3, 5 e 16) e significa que tais viúvas são necessitadas, sem condições de se auto-sustentar, não tendo dote nem parentes que possam mantê-las. Isso porque se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a colocar a sua religião em prática, cuidando de sua própria família (v. 4a). Dois motivos são agora apresentados, pelos quais os membros da família deveriam assim proceder. Em primeiro lugar, seria um modo de retribuir o bem recebido de seus pais e avós, que deles tinham cuidado quando eram de pouca idade. Em segundo, proceder desse modo é um ato que agrada a Deus (v. 4b), a esse Deus que nas Escrituras nos ordena a honrar nossos pais e ainda declara a sua preocupação para com as viúvas. Em contraste com aquelas que têm como, e devem, ser sustentadas pela sua própria família, Paulo passa a falar da viúva realm ente n ecessitada, daquela que está desam parada. 15 Marcos 7.10ss.

16 TDNTW Ul. p. 179.

vl Winter, p. 64. Cf. Simpson, p. 73.


C onseqüentem ente, não tendo parentes rem anescentes que lhe dêem assistência, ela põe sua esperança em Deus e persiste dia e noite em oração (tanto privadamente como em reuniões de oração) e em súplica (pedindo a ajuda dele - n t l h ) , tal como a profetisa Ana, que era viúva.18 Totalmente diferente de uma mulher assim piedosa é a viúva que vive para osprazeres (v. 6a), isto é, para si mesma, em vez de viver para Deus. Ela, “ainda que esteja viva, está morta” (v. 6b), está separada “da vida de Deus”19, pois um certo tipo de vida (o de se dar aos prazeres) é, na realidade, morte espiritual. Vários comentaristas dizem que a expressão vive para os prazeres pode ser um eufemismo aplicado à viúva que, não tendo dote, nem parentes, nem uma profissão, não tem outra alternativa que não a prostituição. Assim, há condições de ordem material e espiritual para que uma viúva seja aceita para ser ajudada pela igreja. A condição material é a sua necessidade, e a espiritual é a sua piedade. Dê-lhes estas ordens, Paulo continua (v. 7a), pois cuidar das viúvas necessitadas tem que ser uma responsabilidade da igreja, e não uma tarefa pessoal de Timóteo. A igreja tem, então, de desenvolver um programa que de fato atenda as viúvas, para que sejam irrepreensíveis (v. 7b - ou “para que ninguém possa culpá-las de nada” - n t l h ). Antes de Paulo concluir esta parte de sua instrução, entretanto, ele repete com ênfase ainda maior o que dissera quanto às famílias assumirem a responsabilidade. No versículo 4, ele apresenta razões positivas, mas agora ele acrescenta a contrapartida negativa: “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a f é e é pior que um descrente” (v. 8). Que linguagem pesada! Mas a própria natureza ensina que os filhos devem cuidar de seus pais, pois muitos pagãos, com a luz da natureza (pela lei “gravada em seu coração”),20 procederam desse modo. Aliás, como vimos, o sustento das viúvas havia sido incorporado na lei romana. Será que nós, então, que temos a luz bem mais completa da revelação objetiva, vamos desprezar aqueles a quem até mesmo os pagãos honram? No versículo 16, Paulo utiliza quatro argumentos para destacar que atender nossos parentes é aliviar a igreja de uma carga desnecessária. Tratar adequadamente dos membros idosos da família é retribuir a nossos pais (v. 4), é agradar a Deus (v. 4), é expressar, não negar, a fé (v. 8), e é não sobrecarregar a igreja (v. 16). Esse ponto é muito importante no mundo de hoje. Com o aprimoramento dos cuidados médicos aos idosos, particularmente no Ocidente, a idade média da população continua a aumentar. Hoje, há muito mais idosos do que antigamente. Enfermarias, lares e hospitais para idosos estão repletos. E é bom que tanto o governo como as igrejas estejam disponibilizando tais cuidados. Mas isso não pode fazer com que as pessoas idosas não sejam mais cuidadas por seus parentes. As culturas dos povos da África e da Ásia, que têm um conceito mais 18 Lucas 2.36-37.

19 Efésios 4.18.

20 Cf. Romanos 2.14-15.


amplo do que seja a família (não como apenas o lar do casal), são uma permanente advertência ao Ocidente a esse respeito. O versículo 8 nos diz ser um dever cristão fundamental cuidar de nossos parentes. Temos, aqui, um preceito bíblico muito claro para termos um plano de seguro para a nossa vida, um tipo de poupança planejada, feita por nós mesmos, para benefício de nossos dependentes. Isso não é uma contradição às palavras de Jesus: “não se preocupem com o amanhã”,21 uma vez que o que ele estava proibindo era a preocupação, e não a prudência ou a previdência. Nem está Paulo contradizendo suas próprias palavras, quando disse: “os filhos não devem ajuntar riquezas para os pais, mas os pais para os filhos”,22 pois essa é, obviamente, a perspectiva correta quando os pais estão na melhor fase de atividades em sua vida. Mas quando os pais envelhecem e se enfraquecem, invertem-se os papéis e as responsabilidades. Provérbios 6 nos diz para nos voltarmos para as formigas, para nelas encontrarmos sabedoria. Elas nos dão um ótimo exemplo dessas duas coisas: do trabalho e da provisão para o futuro. O que elas fazem por instinto, os homens devem fazer por uma decisão racional e deliberada. b. Viúvas a ser arroladas O enfoque dado nos versículos 3 a 8 é a manutenção financeira das viúvas, o que em primeira instância é um dever de seus parentes e somente se toma uma obrigação da igreja para aquelas que não têm parentes. Esse ponto não ocorre nesse parágrafo, exceto na forma de um apêndice, no versículo 16. Em vez disso, esse parágrafo introduz novos conceitos. Ele nos fala de uma “lista”, da situação de ser nela “inscrita” ou “incluída” (vv. 9a e 11); fala-nos de qualificações bem diferentes das anteriormente mencionadas (vv. 9b, 10); de um “compromisso” de permanecerem no estado de não se casarem (v. 12), aparentemente com o objetivo de poderem dar-se ao serviço de Deus; e da não aceitação das “viúvas mais jovens” (vv. 11-15). De tudo isso, parece que essa lista não se refere a viúvas que necessitem de sustento, mas das que possam prestar serviço ao Senhor. Há alguma evidência de que um grupo assim existiu na igreja primitiva. Por exemplo, Lucas refere-se a “todas as viúvas” de Jope, como se elas constituíssem um grupo de pessoas bem conhecido e talvez até mesmo formalmente constituído. Dorcas pode ter sido uma delas; certamente, ela era alguém “que se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas”.23 Ao escrever a Timóteo, as referências que Paulo faz de um alistamento e das condições para que fossem alistadas dão a idéia bem clara do início de um grupo bem definido, mas é um exagero dizer que “em Efeso estabeleceu-se uma ordem de viúvas oficialmente reconhecida”.24 21 Mateus 6.25-34.

22 2 Corínlios 12.14.

24 Kelly, p. 112. Veja também Hanson (1982), p. *Ki.

23 Atos 9.36,39,41.


No início do segundo século, Inácio enviou uma saudação “às virgens que são chamadas de viúvas” em Esmima,25 e Policarpo escreveu aos filipenses dizendo que “as viúvas têm que pensar com sobriedade sobre a fé do Senhor e orar por todos incessantemente”, permanecendo longe de todo mal.26 Não foi senão depois do fim do segundo século, entretanto, que Tertuliano nos deu uma inequívoca evidência de que uma ordem de viúvas existiu. Em seu tempo, e no terceiro século, as viúvas que estavam oficialmente constituídas dedicavamse à oração, davam assistência aos enfermos, cuidavam dos órfãos, visitavam cristãos na prisão, evangelizavam mulheres pagãs e ensinavam as que se convertiam, preparando-as para o batismo.27 Embora possa não ter havido uma “ordem” de viúvas no tempo de Paulo, certamente havia uma “lista” em que elas eram “inscritas”, e ele nos fornece três requisitos para essa inscrição, ou seja, idade, fidelidade no casamento e boas obras. O primeiro requisito dizia respeito à idade da viúva. Nenhuma mulher deve ser inscrita na lista de viúvas, a não ser que tenha mais de sessenta anos de idade (v. 9a); portanto, era improvável que houvesse o desejo de um novo casamento. Em segundo lugar, a pessoa tinha que ter sido fiel a seu marido (v. 9b) - veja a correspondente expressão “marido de uma só mulher” (3.2). Como foi exposto no comentário daquele texto, isso não significa que ela não tenha se casado de novo - uma vez que Paulo aconselha no versículo 14 que as mais jovens se casem novamente - mas sim que tenha sido fiel. Em terceiro lugar, para que viesse a ser incluída naquela lista, a viúva tinha que ser bem conhecida por suas boas obras. Como exemplos dessas boas obras, Paulo menciona o que Newport White chama de “deveres comuns”, uma seleção que ele considera como “característica da sanidade do cristianismo apostólico”.28 O primeiro exemplo é criarfilhos, com o sentido de “cuidar deles física e espiritualmente” (teknotrofeô, b a g d ), quer tenham sido eles seus próprios filhos ou órfãos. O segundo é ser hospitaleira, presumivelmente a viajantes, uma virtude necessária especialmente no caso de presbíteros, bispos e outros líderes (3.2). O terceiro é lavar os pés dos santos, um ministério de servo, que normalmente era reservado para os escravos, mas que foi engrandecido pelo exemplo dado por Jesus.29 A quarta boa obra que a qualificava era a de socorrer os atribulados, envolvidos com qualquer tipo de aflição ou angústia, inclusive 25 Inácio, E pistle to the Sm yrnaeans, trad. para o inglês por K. Lake, em A p o sto lic F athers 1, Loeb C lassical Library (Heinemann, 1912), 13.1. 26 Policarpo, E pistle to the Philippians, trad. para o inglês por J. B. Lighfoot, em sua obra A p o sto lic F ath ers (M acm illan, 1891), 4.3; 6.1. 27 Veja “W idows” em Everett Ferguson (ed.), Encyclopeãia o f Early Christianity (St. James Press, 1990), e em “Assistance and Charity” em A. D. Berardino (ed.), E ncyclopedia o f the E arly Church (James Clarke, 1992). 28 White, p. 130.

29 Jo 13.4ss.; cf. Lc 7.44.


a perseguição. Em seguida a esses quatros pontos específicos, Paulo acrescenta a expressão geral “e dedicar-se a todo tipo de boa obra” (v. 10). Uma experiência assim de serviços humildes, altruístas e custosos era o que qualificaria uma viúva alistada para assumir ministérios semelhantes na condição de uma obreira designada pela igrej a. Era necessário ainda ter tomado a decisão de ficar sem se casar, tendo de fato que fazer um “compromisso” nesse sentido, de maneira a ficar totalmente disponível para o serviço. Tendo estabelecido as condições para a inscrição das viúvas, é claro que as mais jovens não se qualificariam. Assim, Paulo dá a Timóteo outras instruções com respeito a elas: Não inclua nessa lista as viúvas mais jovens (v. 11a). Por que não? Por duas razões. A primeira é porque as mulheres mais jovens se tornariam insatisfeitas em seu estado de não-casadas e naturalmente poderiam querer casar-se de novo. Pois, quando os seus desejos sensuais (seus impulsos sexuais naturais) superam a sua dedicação a Cristo, ou seja, quando se tornam mais fortes do que a süa disposição de permanecerem não casadas e, assim, servirem à igreja, elas querem se casar (v. 11), e se isso acontecer, elas trazem condenação sobre si, por haverem rompido seu primeiro compromisso (v. 12). A segunda razão para as viúvas mais jovens não ser inscritas parece ser a incerteza quanto a se elas teriam condições de, com responsabilidade, dar toda a atenção ao serviço. Em vez de agir assim, elas aprendem a ficar ociosas, andando (“mexericando” - b v ) de casa em casa; e não se tornam apenas ociosas, mas também fofoqueiras e indiscretas, falando coisas que não devem (v. 13). O Dr. Gordon Fee identifica essas jovens viúvas com as “mulherzinhas instáveis” de 2 Timóteo 3.6-7, que os falsos mestres haviam conquistado. Ele interpreta as expressões “andando de casa em casa” e “falando coisas que não devem”, que se referem a elas, como sendo perturbações que elas traziam às igrejas que se reuniam nas casas, levando suas opiniões heterodoxas.30 É uma reconstrução muito engenhosa, mas Paulo não deixa nenhum indício de que elas estariam fazendo algo mais do que perder tempo em conversas frívolas. Portanto, aconselho que as viúvas mais jovens se casem, escreve Paulo (v. 14a). Não há por que considerar que isso está em contradição com o que ele mesmo escreveu em 1 Coríntios.31 E verdade que o apóstolo expressou uma preferência pessoal pela condição de se manter solteiro.32 Ao mesmo tempo, ele reconheceu que cada um tem seu próprio dom da parte de Deus, quer seja de se casar, quer seja de não se casar;33 que é necessário encarar os desejos sexuais realisticamente;34 e que as pessoas não casadas não estão presas a coisas que as impedem de se envolver com a obra do Senhor, ao passo que os casados inclinam-se a se preocupar com os negócios deste mundo.35 Quando as jovens viúvas se casarem de novo, certamente vão ter muito o que fazer e 30 Fee (1988), pp. 70, 114-115, 120-123. 33 1 Coríntios 7.7b.

" I Coríntios 7.8,40.

34 ICo 7.2,9; cl\ ITm 5 .1 1.

32 1 Coríntios 7.7a,8,40. 35 1 Coríntios 7.32-35.


assim escaparão da tentação de ser fofoqueiras, indo de casa em casa. Isso porque estarão em condições de ter filhos e administrar suas casas, não dando ao inimigo (seja humano ou demoníaco) nenhum motivo para maledicência (v. 14). E é importante não dar aos inimigos do evangelho nenhuma oportunidade mais, porque algumas dessas jovens viúvas já se desviaram, isto é, de Cristo e do seu compromisso para com ele, para seguir a Satanás (v. 15). Em seguida a esse conselho que espelha sensatez, endereçado às viúvas mais jovens e dado a Timóteo com respeito a elas, Paulo volta rapidamente para a outra categoria de viúvas. Ele insiste pela terceira vez (vv. 3-4,8) no sentido de que somente as necessitadas é que devem ser sustentadas pela igreja, não aquelas que têm familiares que delas podem cuidar. Se alguma mulher crente tem viúvas em sua família, deve ajudá-las. Não seja a igreja sobrecarregada com elas, afim de que as viúvas realmente necessitadas sejam auxiliadas (v. 16). Dois princípios permanentes relativos à assistência social parecem decorrer dessas instruções apostólicas. O primeiro é o princípio da discriminação. Não deveria haver distribuições feitas de m odo geral a todas as viúvas, independentemente da situação de cada uma. A viuvez em si não qualificava a pessoa para ser sustentada pela igreja. Não; o fornecimento de assistência social pela igreja tem que se restringir àqueles em real necessidade. Se houver qualquer meio alternativo de sustento, esse é que deverá ser usado. Em particular, o primeiro apelo recai sobre a família da viúva. Todos nós temos que assumir responsabilidade por nossos parentes. O fato de haver na igreja um sentimento de responsabilidade social não deve encorajar a irresponsabilidade das pessoas. E os programas governamentais de assistência social devem suplementar e não substituir as obrigações, tanto individuais como familiares. Em segundo lugar, há o princípio da dignidade. E muito interessante observar as duas diferentes categorias de viúvas que Paulo menciona, uma constituída das que necessitam de ajuda e a outra das que têm serviços a oferecer. Embora as tenhamos considerado separadamente, elas devem ter se misturado em parte. De fato, idealmente, uma vez que sua saúde e forças lhes dêem condições, as viúvas sustentadas podem estar também a serviço. As viúvas (junto com outras pessoas em circunstâncias semelhantes, tais como mães solteiras, mulheres abusadas e divorciadas) devem ter a oportunidade tanto de receber ajuda segundo a sua necessidade como também de servir segundo a sua capacidade, ou seja, poderão ser servidas e também servir. Fiquei impressionado, há alguns anos, ao ver esse princípio funcionando numa fábrica em Zerka, na Jordânia (a “Refugee Industries” - Indústria dos Refugiados). Os refugiados não só recebiam alimentação, roupas e abrigo, mas também encontravam auto-respeito contribuindo com suas habilidades em serviços feitos em casa para aquela indústria. A ajuda cristã através de distribuições aos necessitados nunca deve fazer com que seus beneficiários se sintam rebaixados, mas, pelo contrário, deve aumentar seu senso de dignidade.


2. Presbíteros (5.17-25) O apóstolo, agora, passa do assunto do cuidado das viúvas para tratar dos presbíteros. Tendo declarado que a liderança pastoral é uma “nobre função” (3.1) e tendo fornecido uma lista das qualificações necessárias (3.2ss.), ele aborda questões sobre remuneração, disciplina e ordenação deles. Esse parágrafo contém uma instrução prática para os bispos e outros líderes que são responsáveis pelos pastores da igreja. ,7Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, ,8pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cere­ a l”, e “o trabalhador merece o seu salário". 19Não aceite acusação contra um presbítero, se não fo r apoiada por duas ou três testemunhas. 20Os que pecarem deverão ser repreendidos em público, para que os demais também temam. 21Eu o exorto solenemente, diante de Deus, de Cristo Jesus e dos anjos eleitos, a que procure observar essas instruções sem parcialidade; e não faça nada por favoritismo. 22Não se precipite em impor as mãos sobre ninguém e não participe dos pecados dos outros. Conserve-se puro. 23Não continue a beber somente água; tome também um pouco de vinho, por causa do seu estômago e das suas freqüentes enfermidades. 24Os pecados de alguns são evidentes, mesmo antes de serem submetidos a julgamento, ao passo que os pecados de outros se manifestam posteri­ ormente. 25Da mesma forma, as boas obras são evidentes, e as que não o são não podem permanecer ocultas. “Dessa passagem” - escreveu Calvino, referindo-se em particular ao versículo 17 - , “pode-se inferir que há dois tipos de presbíteros.”36 Ele se referia, em primeiro lugar, àqueles com funções pastorais em geral e também administrativas (os que lideram bem a igreja) e, em segundo lugar, aos que haviam recebido um chamado especial para o ensino (aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino). O versículo 17 é, assim, a origem da distinção que comumente se faz nas igrejas reformadas entre “presbíteros administrativos” e “presbíteros mestres”. Nem todos os comentaristas, entretanto, estão persuadidos de que Paulo esteja especificando dois tipos diferentes de presbíteros. Isso “com certeza não é dito com clareza, mas tem estado muitas vezes em debate”37, pois, de acordo com o capítulo 3, todos os presbíteros tinham que ser aptos para ensinar 36 Calvino, p. 262.

37 Fairbairn, p. 21 (.


(3.2) e também para cuidar da igreja de Deus (3.5). Pode ser o caso, portanto, de que o advérbio especialmente (malista) não tenha o propósito de distinguir pregadores de administradores (ou líderes), mas sim identificá-los ou dizer algo mais a respeito. O versículo deveria, então, ser traduzido assim: “os presbíteros que administram a igreja, ou seja, aqueles que pregam ...”.38 Em todo esse parágrafo (vv. 17-25), Paulo instrui Timóteo sobre como devem ser tratados os presbíteros em três áreas: na remuneração, na disciplina e na consagração. Convém identificar os cinco princípios que deveriam guiá-lo, e que também devem nos guiar com respeito àqueles sobre quem temos responsabilidade. a. Apreciação (5.17-18) As vezes, dizemos ou pensamos que os obreiros cristãos necessitam ser apreciados somente pelo Pastor Supremo, e não por líderes humanos. Mas Paulo tinha uma idéia diferente a esse respeito, pois os seres humanos têm a tendência de se sentirem desencorajados e precisam receber uma palavra de reconhecimento. Desse modo, os presbíteros que atuarem bem em seu trabalho são dignos de dupla honra (v. 17). Que tipo de honra Paulo teria em mente? Que ela inclui uma remuneração adequada parece ser evidente, tendo em vista o que contém o versículo seguinte (v. 18), a b a g d nos dá um exemplo do uso da palavra timç (honra), com o sentido de “honorário de um médico”. Contudo, não parece provável que Paulo esteja se referindo apenas à remuneração, e muito menos a “um pagamento em dobro” ( n t l h ) . De qualquer modo, seria duas vezes o quê? Do que recebia uma viúva inscrita naquela lista, do dobro do que recebia algum outro tipo de presbítero ou do dobro daquilo que estavam então recebendo? E mais provável que “dupla” refira-se aos dois sentidos da palavra timç. Os presbíteros que atuassem bem deveriam receber tanto o respeito como uma remuneração, ou seja, as duas coisas: honra e honorários. • Paulo considerou que o pastorado é um ministério remunerado. Como nos dias do Antigo Testamento, os sacerdotes eram sustentados “a fim de que pudessem dedicar-se à Lei do S e n h o r ” ,39 assim, nos dias do Novo Testamento os pastores devem ser sustentados para que possam devotar-se à obra do evangelho. É verdade que Paulo insistiu em ganhar o seu próprio sustento fabricando tendas, mas ele também explicou que seu caso era uma situação especial, p or razões e sp e cíficas.40 Em outra ocasião, ele defendeu

38 Hanson opta por essa interpretação (1982, pp. 101), tal com o T. C. Skeat em “Especially the P archm ents: A N o te on 2 T ym othy 4 :1 3 ” , J o u rn a l o f T h e o lo g ic a l S tu d ies 30 (1 9 7 9 ), pp. 173-177; e tam bém K night (1 9 9 2 ), pp. 203, 232. 39 2 Crônicas 31.4. 40 Por ex.: IC o 9.4ss.


vigorosamente o direito de os mestres terem um sustento financeiro.41 Aqui, como em 1 Coríntios 9.9 e 14, o apóstolo recorre à autoridade da Bíblia para respaldar o que está dizendo, citando ao mesmo tempo dois textos. O primeiro é Deuteronômio 25.4: “Pois a Escritura diz-' ‘Não amordace o boi enquanto está debulhando o c e r e a l (v. 18a). O argumento é o seguinte: se Deus preocupa-se no sentido de que os animais que trabalham sejam adequadamente alimentados, quanto mais não se preocupará com os obreiros da igreja? A segunda citação de Paulo é a seguinte: “o trabalhador merece o seu salário” (v. 18b). Embora ele não atribua essas palavras a Jesus, elas de fato ocorrem em Lucas 10.7, como parte das instruções dadas aos setenta em sua missão. Os comentaristas que têm dificuldade em acreditar que Paulo estaria citando uma frase dita por Jesus como “Escritura” dizem que a expressão pois a Escritura diz aplica-se apenas à primeira das duas citações. E mais natural, entretanto, entender que ela se refere às duas. E não é impossível que o evangelho de Lucas, ou pelo menos um primeiro texto dele, tenha se tornado público antes de 1 Timóteo, tendo sido considerado por Paulo como Escritura. Nenhuma das duas citações é agradável aos presbíteros em particular, uma vez que na prim eira eles são assemelhados aos bois e, na segunda, a trabalhadores do campo. Mas o propósito de Paulo ao empregar esses modelos não é depreciar o ministério pastoral, mas sim enfatizar que se trata de um trabalho pesado, e que todo trabalho pesado, feito de forma correta, merece ser recompensado. É verdade que o presbítero não deve ser alguém “apegado ao dinheiro” (3.3), e os versículos 17 e 18 não têm a pretensão de estimular a cobiça. Mas o que eles realmente dizem é que um bom trabalho tem que ser apreciado, e que essa apreciação pode muito bem tomar a forma tangível de uma recompensa financeira. b. Justiça (5.19-20) Paulo agora deixa de lado os bons pastores que são merecedores de apreciação e volta-se para os que, dentre eles, são maus e merecem repreensão. Ele passa a abordar o que chamamos de “procedimentos injuriosos”, pois a situação que ele tem em vista é a de alguém que chega a Timóteo com uma queixa ou acusação relativa a um presbítero. Paulo dá duas instruções que se complementam: a primeira, para quando um presbítero é acusado de alguma coisa (v. 19), e a segunda, para quando ele é tido como culpado (v. 20).

41 Por ex.: G1 6.6. Andrew Kirk faz u m d islinção entre m inistros itinerantes e locais e argumenta que os primeiros “linhain o direilo de esperar receber uma ajuda, certamente a h o sp ita lid a d e e p ro v a v elm en te um pagam ento regu lar fe ito p ela igreja à qual m inistravam ”, enquanto os pre sb ítero s loejiis eram recom p en sad os financeiram ente numa base bem mais informal.


Primeiro, não aceite acusação contra um presbítero, se não fo r apoiada por duas ou três testemunhas (v. 19). Ou seja, a acusação tem que ter o respaldo de várias pessoas. No Antigo Testamento, duas ou três testemunhas eram requeridas para dar suporte a uma acusação e assegurar uma condenação,42 especialmente no caso de uma acusação para a pena de morte.43 O mesmo princípio aplica-se no tempo do Novo Testamento,44 particularmente quando líderes cristãos estão sob acusação. Com efeito, duas ou três testemunhas são requeridas não apenas para que uma acusação seja levada adiante, mas antes de ela ser até mesmo considerada. Tal regulamento de ordem prática é necessário para a proteção de líderes que são pastores, os quais são vulneráveis à calúnia. “Não há quem seja mais exposto a calúnias e insultos” - escreveu Calvino - “do que mestres piedosos”. Por mais corretos e conscienciosos que eles sejam no desempenho de suas funções, mesmo assim “não deixam de ser alvo de milhares de críticas”.45 Isso porque os inimigos do evangelho muitas vezes se vingam nos ministros do evangelho. Uma campanha baseada em boatos sujos pode arruinar completamente o ministério de um líder. Assim, a primeira palavra de Paulo a Timóteo é no sentido de que ele não deverá nunca dar ouvidos a fofocas envolvendo líderes, nem mesmo a uma séria acusação, se for feita por uma só pessoa. Toda acusação tem que ser endossada por várias pessoas responsáveis, antes de se dar atenção a ela. Se esse princípio bíblico tivesse sido sempre atendido, teria silenciado muitos fofoqueiros maliciosos e teria evitado o fato de muitos pastores terem passado por críticas injustas e por muito sofrimento desnecessário. Segundo, uma acusação contra um presbítero não apenas será confirmada por duas ou três testemunhas, mas se o fato “for de fato comprovado” ( j b p ) e se (como está implícito) os presbíteros em questão, embora tenham sido advertidos em particular, não quiserem se arrepender. Assim, acontecendo como a ib b traduz: “aos que vivem no pecado’’ (observe o tempo presente atestando um fato), a tristeza e o escândalo de uma ampla discussão pública não poderão ser evitados. Os que pecarem deverão ser repreendidos em público, para que os demais temam (v. 20). Tal repreensão pública, embora seja o que venha acabar com o problema, deve ser, entretanto, o último recurso. Uma regra segura é tratar em particular os pecados que não são de conhecimento público, sendo tratados publicamente apenas os de conhecimento público. Não é nem correto nem necessário tomar público o que é privado, antes que todas as demais possibilidades tenham sido exaustivamente tentadas.46 Os versículos 19 e 20, então, acham-se relacionados entre si. Timóteo não deve dar ouvidos a acusações frívolas nem deixar de levar a sério as situações 42 Deuteronômio 19.15.

43 Deuteronômio 17.6.

43 Calvino, p. 263.

46 Cf. Mateus 18.15ss.

44 Por ex.: 2Co 13.1; cf. Mt 18.16.


em que há um problema grave. Na área da disciplina, ele tem que ser escrupulosam ente ju sto , “sendo cauteloso na acusação e ousado na repreensão”,47 agindo conforme o caso exija. c. Imparcialidade Paulo agora investe Timóteo de uma responsabilidade, expressando-se da maneira mais solene possível. Ele faz uso de sua autoridade apostólica (eu o exorto) com uma autoridade também dos céus, exercida diante dos anjos, de Deus e de Jesus Cristo, aquele “que há de julgar os vivos e os mortos”.48 Ele fala diante de Deus “em quem não há parcialidade”,49 e de Cristo Jesus, “o futuro Juiz de todos os juizes da terra”,50 e dos anjos eleitos, os que são fiéis, ao contrário dos caídos. Mas que responsabilidade é essa? E a de que procure observar essas instruções, isto é, os princípios que determinam como os presbíteros devem ser tratados, e que ele tinha acabado de delinear nos versículos de 17 a 20, fazendo isso com absoluta justiça e sem nenhum traço de injustiça. Duas expressões negativas são enfatizadas. A primeira é sem parcialidade, literalmente, “sem pré-julgamento” (prokrima), ou seja, sem se apressar na decisão quanto à culpa ou inocência da pessoa. E a segunda palavra negativa é a de que ele não faça nada por favoritismo (v. 21). No trabalho de um bispo, de um superintendente ou de qualquer outro líder cristão, um dos piores pecados é o favoritismo e uma das principais virtudes é a imparcialidade. Contudo, a história da igreja, infelizmente, foi manchada por muito favoritismo, quando dignitários da igreja concederam favores especiais a parentes (nepotismo), a membros de seu grupo social, de sua classe ou tribo, a pessoas de quem gostassem, sem levar em conta os dons e a piedade de tais pessoas, e àqueles a quem, por uma razão qualquer (até mesmo por suborno) devessem favores. d. Cautela (5.22-23) É uma tendência humana muito comum tomar decisões prematuras e não muito pensadas, com precipitação no agir quando se deve ser cauteloso. Embora o erro no outro extremo seja o de ser indeciso, contudo para os líderes é melhor dar algum tempo para ter um juízo bem formado, e assim decidir, do que se precipitar e ter que se arrepender depois. Assim, Paulo ordena a Timóteo: Não se precipite em imporás mãos sobre ninguém (v. 22a). Ou, conforme as versões Almeida, tão familiares a todos, “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos”. A que Paulo está se referindo? “Impor as mãos precipitadamente” sobre alguém pode até dar a entender, como uma primeira impressão, de que se está 47White, p. 134.

48 2 Tim óteo 4.1.

45 Romanos 2.11. Ou “que não faz uccpviio tio pessoas” ( r a ).

50 Liddon, p. 66.


falando de pôr as mãos para prender um criminoso. Mas os líderes cristãos não são policiais! A referência também não é em relação a uma confirmação episcopal, uma vez que a imposição de mãos depois do batismo, que ocorre duas ou três vezes em Atos, dava-se num contexto especial e fora do comum; não era a norma geral. Alguns comentaristas acham que Paulo está se referindo à absolvição de pecados feita publicamente de alguém que se arrependeu de seu erro, trazendo a pessoa de volta à comunhão da igreja depois de ter sido publicamente repreendida nos termos do versículo 20. Assim comenta a b v n em nota de rodapé: “deve ser um ato de restauração”. Newport White vê nesses versículos o esquema de “todo o processo”,51 ou seja, a acusação (v. 19), o julgamento e a sentença, e o arrependimento e a reconciliação (v. 21). É certo que Eusébio menciona a readmissão dos que se arrependeram com a imposição de mãos como um “antigo costume” da igreja,52 mas não há evidência para isso nos dias do Novo Testamento. Gordon Fee, que entende que todo esse parágrafo referese a como disciplinar os falsos mestres, diz que o versículo 22 dá “uma certa diretriz... à readmissão deles”.53 É muito mais provável, entretanto, que Paulo esteja se referindo à ordenação, uma vez que as Pastorais contêm duas claras referências que mostram que ela era feita com a imposição de mãos.54 A imposição de mãos tanto destaca as pessoas pelas quais se está orando como também lhes comissiona para o ministério para o qual tenham sido chamadas. Isso faz sentido nesse contexto. No versículo 20, Paulo menciona que, eventualmente, pode acontecer de se ter que repreender um presbítero publicamente. A melhor maneira para evitar tal escândalo é não deixar de passar por todo o processo de exame dos candidatos antes de serem eles ordenados. No capítulo 3, o apóstolo desenvolve as condições para que alguém seja escolhido, tendo incluído a condição de que o candidato não seja “recém-convertido” (3:6); agora, ele insta Timóteo para que vá com calma ao aplicar esses critérios, que não se apresse. Isso porque, caso contrário, se pela pressa um erro for cometido e aconteça um escândalo, Timóteo estará tendo parte dos pecados dos outros, ou tornando-se “cúmplice de pecados de outrem” (ra). Em vez disso, Paulo prossegue, conserve-se puro (v. 22). O versículo 23 - pelo qual o apóstolo exorta Timóteo para que não continue a beber somente água; mas que tome também um pouco de vinho por causa do seu estômago e das freqüentes enfermidades —“tem deixado os comentaristas bastante desnorteados”,55 pois ele obviamente não tem nada a ver com o que o precede ou segue. Alguns acham que Paulo, ao dizer “conserve-se puro”, lembrase de acrescentar também “e mantenha-se com saúde”. Talvez ele estivesse um 51 White, p. 137 .

52 E cclesiastical H istory, 7.2.

54 lT m 4.14; 2Tm 1.6; cf. At 6.1ss.

53 Fee (1988), p. 131.

55 Simpson, p. 80.


tanto preocupado quanto a Timóteo não estar cuidando de si mesmo como devia, e assim a sua fragilidade poderia “prejudicar o bom desempenho do seu ministério”.56 Outros conjeturam que o versículo 23 foi uma modificação deliberada e intencional do versículo anterior: “Conserve-se puro. Mas, para isso, não caia no extremismo ascético dos falsos mestres” (4.3). E claro que Timóteo não iria para o extremo oposto, tornando-se “apegado ao vinho”. Mas o vinho era amplamente reconhecido no mundo antigo como tendo propriedades medicinais. Spicq refere-se a diversas autoridades médicas que “prescreviam o vinho como um tônico e profilático remédio”, especialmente indicado à indigestão.57 e. Discernimento (5.24-25) Nos versículos 24 e 25, Paulo continua a enfatizar a necessidade de se ter cautela, dando mais uma razão para se evitar a pressa. E que os seres humanos são, muitas vezes, diferentes do que aparentam ser à primeira vista. Inicialmente, pode ser que pareçam ser melhores ou piores do que realmente são, pois tanto podem ser seus pontos positivos como seus pontos negativos os que estejam em evidência num dado momento. Portanto, é necessário algum tempo para se descobrir a verdade a respeito de um candidato ao pastorado. Os pecados de alguns são evidentes. De fato, os pecados de algumas pessoas são tão conspícuos que “podem ser vistos claramente, antes mesmo de elas serem julgadas” (v. 24a - n t l h ) , quer seja esse julgamento divino ou humano. Os pecados de outros, entretanto, se manifestam posteriormente (v. 24b), pois não são vistos senão depois. Da mesmaforma, ou seja, sabendo que o que se dá com as coisas boas também acontece com as más, as boas obras são evidentes, ou pelo menos grande parte delas, porque são feitas a descoberto, não ocultamente. E até mesmo as que não o são, que no momento não são evidentes, não podem permanecer ocultas permanentemente (v. 25). Desse modo, Timóteo precisava de discernimento. É o princípio do iceberg, ou seja, que nove décimos de uma pessoa ficam escondidos da nossa visão. E por isso que Timóteo tinha que dar tempo ao tempo para que pudesse fazer uma avaliação precisa do caráter das pessoas com quem estivesse tratando. Aqueles qué têm uma personalidade atraente com freqüência escondem fraquezas, ao passo que pessoas que não são atraentes à primeira vista muitas vezes têm pontos fortes escondidos. Timóteo tinha de aprender a discernir entre o que se vê e o que não se vê, entre o que está à superfície e o que está escondido, entre o que é aparente e a realidade. Eis aqui, então, cinco virtudes que os líderes cristãos precisam ter ao se relacionar com as pessoas por quem têm responsabilidade: apreciação (reconhecendo todo bom desempenho); justiça (não dando ouvidos a acusações 56 Alford, p. 354; cf. Lock, p. 62.

v Spicq, p. 549.


sem fundamento); imparcialidade (evitando todo favoritismo); cautela (não tomando decisões precipitadas); e discernimento (vendo além do que é aparente, vendo o coração). Sempre que esses princípios estiverem sendo observados, erros serão evitados, a igreja será preservada em paz e em amor e o nome de Deus estará protegido da desonra. 3. Escravos (6.1-2) Tendo instruído Timóteo quanto a como as viúvas e os presbíteros devem ser tratados, o apóstolo agora menciona um terceiro relacionamento social, ou seja, o comportamento de escravos diante de seus senhores. Todos os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar seus senhores como dignos de todo o respeito, para que o nome de Deus e o nosso ensino não sejam blasfemados. 2Os que têm senhores crentes não devem ter por eles menos respeito, pelo fato de serem irmãos; ao contrá­ rio, devem servi-los ainda melhor, porque os que se beneficiam do seu serviço são fiéis e amados. Ensine e recomende essas coisas. A escravidão já foi descrita como sendo “uma abominação monstruosa”.58 Não que haja qualquer coisa degradante no servir, quando feito voluntariamente. Pelo contrário, o próprio Jesus demonstrou que no servir há dignidade, ao lavar os pés dos discípulos. Ele referiu-se a si mesmo como servo59 e como escravo,60 e acrescentou que cada um de seus seguidores teria de ser “escravo de todos”.61 O que é degradante, e que destrói totalmente a humanidade de uma pessoa, é a condição de ser, pela força, propriedade de um outro ser humano, sendo, assim, roubada de toda a liberdade. São três as características que definem um escravo. A sua pessoa é propriedade de alguém, de modo que ele pode ser comprado e vendido; a sua vontade está sujeita à autoridade da outra pessoa; e o seu trabalho é obtido pela força que o outro lhe impõe.62 Paulo é bem mais incisivo e não se limita a abordar sutilmente esses pontos, pois descreve aqui os escravos como estando sob o jugo da escravidão (v. 1). Jugo é algo designado para animais, particularmente os bois. E quando o jugo é usado nas Escrituras para descrever uma experiência humana, geralmente simboliza um regime de opressão.63 É verdade que Jesus disse que aprender dele e submeterse à autoridade dele seria um jugo, mas ele acrescentou imediatamente que, diferentemente dos demais jugos, o dele é “suave”.64 Assim, a escravidão era uma forma de tirania. Embora alguns senhores de escravos fossem bondosos para com eles, uma vez que os viam como um

58 Plummer, p. 175.

59 Lucas 22.27.

60 Cf. Fp 2.7, literalmente.

61 Marcos 10.44.

62 Essa definição de escravidão, constituída de três características, é de D. B. Davies, The Problem o f SIavery in W estern Cultures (Cornell U niversity Press, 1966), p. 31. 63 Por ex., 2Cr 10.4; Is 9.4.

64 Mateus 11.29-30.


investimento de valor, a escravatura em si era uma negação à humanidade da pessoa. Era ainda um “gigantesco câncer”, que sugava todas as forças políticas, econômicas e morais do Império Romano.65 Por que, então, nem Jesus nem seus apóstolos exigiram a imediata e completa abolição dessa horrível instituição da escravatura? Provavelmente, a principal razão tenha sido que a escravidão achava-se profundamente encravada nas estruturas da sociedade greco-romana. Todas as pessoas ricas tinham escravos, e os que eram muito ricos tinham centenas deles. Eles eram considerados essenciais, especialmente como servos domésticos e trabalhadores rurais, mas também como funcionários, artesãos, professores, soldados e gerentes. Acreditase que havia mais de cinqüenta milhões de escravos no Império, incluindo-se um terço dos habitantes de Roma. Conseqüentemente, acabar com a toda a escravatura da noite para o dia poderia acarretar o colapso total da sociedade. Qualquer indício de uma revolta de escravos era abafado com uma impiedosa brutalidade. O fato é que “males monstruosos”, tais como a escravidão, “não podem ser exterminados com um simples sopro, como os gigantes de velhos romances”. Eles se acham tão firmemente enraizados que qualquer tentativa de arrancá-los faria com que os fundamentos da sociedade viessem junto.66 Ao mesmo tempo, Paulo enunciou princípios que minaram o próprio conceito da escravidão e acabaram por levá-la a ser abolida, embora, para a vergonha dos cristãos, isso não tenha acontecido logo. Que princípios são esses? No início de sua carta, ele declarou que os “mercadores de escravos” estavam violando a lei de Deus (1.10 - b j ) ; em suas cartas anteriores, aos Efésios e aos Colossenses, ele também demonstrou que a escravidão era uma afronta ao evangelho. E deixou transparecer que escravos e senhores estão em igualdade ao declarar que todos eles têm o mesmo amo celestial, que não faz acepção de pessoas.67 Conseqüentemente, o apóstolo disse aos senhores que dessem a seus escravos tudo o que fosse “justo e direito”, embora naqueles dias não houvesse nada que fosse considerado como “direito” de um escravo.68 Paulo também abordou a radical transformação nos relacionamentos que o evangelho produz, de modo que o escravo e o seu senhor tomam-se irmãos.69 Com efeito, “não h á ... escravo nem livre,... pois todos são um em Cristo Jesus,... e herdeiros segundo a prom essa” .70 Entretanto, mesmo ficando os escravos presos exteriormente, interiormente eles podem usufruir da liberdade em Cristo.71 Nos dois versículos, 1 e 2, os escravos a quem Timóteo tem que instruir são evidentemente crentes e membros da igreja. Há uma diferença nesses dois versículos, entretanto. Se no versículo 2 somos informados explicitamente de que o senhor daqueles escravos era cristão, no versículo 1 parece que não era. Assim, Timóteo tinha que ajustar o seu ensino conforme a situação. 65 Plummer, p. 181.

66 Ibid., p. 185.

69 Fm 16; lT m 6.2.

70 Gálatas 3.26ss.

Efésios 6.9. 71 lC o 7 .2 2 .

“ Colossenses 4.1.


Em primeiro lugar, os escravos deveriam considerar seus senhores, mesmo que não fossem cristãos, como dignos de todo respeito. Isto é, deveriam tratálos com respeito por considerá-los dignos de respeito, o que de fato eles eram, por serem seres humanos, não importando o desempenho que tivessem. Há, porém, outra razão, de ordem missionária, por que os escravos deveriam respeitar seus senhores. Era porque a reputação do nome de Deus e o nosso ensino (literalmente “o ensino”, ou seja, o dos apóstolos) estavam em jogo. Se os escravos demonstrassem desrespeito diante de seus amos, trariam descrédito ao nome de Deus e ao ensino dos apóstolos; mas se respeitassem seus senhores, o nome de Deus e o ensino dos apóstolos não seriam blasfemados (v. 1). Em segundo lugar, os que têm senhores crentes não devem ter por eles menos respeito, (“isso não é desculpa para se tomarem vagarosos” - b v ; o u “não devem tomar liberdades com eles” - r e b ) pelo fato de serem irmãos. Evidentemente, alguns escravos tinham caído nessa forma errada de pensar e estavam se aproveitando da fé cristã de seus senhores. Empregados cristãos em empresas de cristãos, hoje em dia, às vezes cometem esse mesmo erro. Ao contrário (“antes” - s b t b , i b b ) , devem servi-los ainda melhor, porque os que se beneficiam do seu serviço são fiéis e amados (v. 2a), ou “possuem a mesma fé e amor que eles próprios têm” ( j b p ). As duas frases que indicam as razões de por que agir ou não agir assim, introduzidas pela palavra grega hoti (pelo fato de, porque), são paralelas. Porque seus senhores são irmãos, os escravos não devem ter por eles menos respeito. Em vez disso, por serem eles crentes e por serem amados, os escravos devem servi-los de um modo ainda melhor. A fé, o amor e a condição de serem irmãos, que os unem em Cristo, longe de ser uma desculpa para negligenciarem, deve ser uma razão a mais para servirem. Ensine e recomende essas coisas (v. 2b), escreve Paulo a Timóteo, concluindo o assunto. Ele fica com a responsabilidade de passar para a igreja as instruções recebidas do apóstolo. Essas instruções eram relativas às responsabilidades sociais da igreja, em particular com respeito às viúvas, aos presbíteros e aos escravos. Esses três grupos são totalmente diferentes em vários aspectos. São homens e mulheres, escravos e livres, jovens e idosos, trabalhadores em casa e na igreja, líderes e membros da igreja. O que os une? E a palavra “honrar”. A igreja deve “honrar” as verdadeiras viúvas e cuidar delas (v. 3). Os presbíteros que lideram bem devem ser achados dignos de dupla “honra” (v. 17). Os escravos devem considerar seus senhores como dignos de “honra” (6.1- r a ). Essa palavra grega, tanto na forma verbal (timaô) como na substantiva (timç), ocorre nesses três verbos. Com efeito, o dever de honrar alguém é bastante enfatizado nas Escrituras. Por exemplo, “Tratai todos com honra” ( r a ) o u “Tratem a todos com o devido respeito” ( n v i ) . 72 E também “Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios”, ou “... preferindo-vos em honra uns aos outros” ( r a ) . 73 Todo ser humano é digno de honra, até mesmo senhores de


escravos não cristãos, por terem sido criados à imagem de Deus. Uma vez que tenhamos entendido o valor intrínseco dos seres humanos, por terem sido criados assim, e então os reconheçamos como dignos de honra, todos os nossos relacionamentos são enriquecidos e enobrecidos.

72 1 Pedro 2.17.

73 Romanos 12.10.


1 Timóteo 6.3-21

6. Posses Materiais Há duas coisas a que os cristãos com responsabilidades dedicam uma conscienciosa atenção: dinheiro e propriedade. Em parte, isso é devido ao desafiante ensino de Jesus sobre o assunto e em parte por causa da grande desigualdade econômica que, infelizmente, há entre o Norte e o Sul, e entre setores da população de uma região ou país. Aproximadamente um bilhão de habitantes do mundo são indigentes, não tendo as necessidades básicas para a sobrevivência, ao passo que uma pequena minoria de pessoas vive num luxo contrastante. Qual deve ser a postura do cristão perante os bens materiais? Tendo instruído Timóteo com respeito a três grupos de pessoas na igreja (viúvas, presbíteros e escravos), Paulo passa a abordar um quarto grupo (o dos falsos mestres), cuja perniciosa influência está de forma inconsciente em sua mente ao escrever essa carta, do princípio ao fim. Em 1.3-7, ele observa as especulações deles quanto à lei e em 4.1-5, a condenação feita por eles a coisas criadas por Deus. Agora, em 6.3-5, ele os caracteriza como os que se desviam da sã doutrina, dividindo a igreja, sendo motivados pela avareza. É essa última característica deles que faz com que Paulo dê instruções muito importantes sobre a cobiça e a postura de contentamento, sobre a riqueza e a generosidade (17-19). É isso que confere a esse capítulo uma ênfase diferente, ou seja, o lugar dos bens materiais no discipulado cristão. O apóstolo ordena cinco medidas a ser tomadas: a primeira, contra os falsos mestres e a respeito deles (vv. 3-5); a segunda, aos cristãos que são pobres (vv. 6-10); a terceira, ao “homem de Deus” (vv. 11-16); a quarta, aos cristãos que são ricos (vv. 17-19); e, finalmente, ao próprio Timóteo (vv. 20-21). A ponte pela qual ele passa da seção anterior para esta é sua concisa declaração: “Ensine e recomende essas coisas” (v. 2b). Alguns tradutores (por ex., da n v i e da r a ) consideraram essa sentença como sendo a conclusão da seção anterior, ao passo que outros (da n t l h e da b j ) tomaram-na como sendo a introdução da nova seção. Certamente, essa frase tem os dois papéis. Em primeiro lugar ela se volta para toda a carta até esse ponto. “Essas coisas” são o que Paulo acabpu de ensinar a Timóteo e o que Timóteo tinha que transmitir às igrejas. Em segundo, essa frase de ligação aplica-se ao que Paulo vai escrever logo em seguida, ou seja, que há hereges ensinando uma mensagem diferente. Se alguém ensina falsas doutrinas... (v. 3a). Há, portanto, mestres de dois tipos, que são vistos pelo apóstolo numa clara


antítese entre si: os verdadeiros e os falsos; os ortodoxos e os heterodoxos. O ensino de Timóteo, com respeito a “essas” coisas (tauta), que o apóstolo havia ensinado, estava no primeiro grupo; o de seus oponentes, ensinando “outras” ou “falsas” doutrinas (hetera), diferentes das instruções do apóstolo, estavam no segundo. 1. Instrução quanto aos falsos mestres (6.3-5) Se alguém ensina falsas doutrinas e não concorda com a sã doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino que é segundo a piedade, 4é orgulhoso e nada entende. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas 5e atritos constantes entre aque­ les que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro. O apóstolo avalia os falsos mestres em questões relativas à verdade, à unidade e à motivação. A crítica que lhes faz é que eles se desviam da fé, dividem a igreja, e amam o dinheiro. São heterodoxos, são pessoas que dividem, são ambiciosos. a. Os falsos mestres desviam-se da fé Uma vez mais Paulo dá a entender que há um padrão na crença cristã, que nesse capítulo ele chama de “ensino” (vv. 1 ,3b), “sã doutrina” (v. 3), “verdade” (v. 5), “fé” (vv. 10,12,21), “mandamento” (v. 14) e “o que lhe foi confiado” (v. 20). Os falsos mestres tinham se desviado desse padrão. Paulo dá uma conotação individual a esses falsos mestres para enfatizar o que está dizendo: Se alguém ensina falsas doutrinas e não concorda com (não adere fielmente a)1 ... a sã doutrina... O primeiro desses verbos é heterodidaskaleô (como em 1.3), no qual 0 prefixo hetero significa “outro”, “diferente” ou “alguma novidade doutrinária” ( j b p ). É um ensino falso porque se desvia do que o apóstolo ensina, que é uma sã (saudável) doutrina. Paulo caracteriza o que ensina de dois modos. Em primeiro lugar, o seu ensino é segundo as sadias palavras (literalmente) de nosso Senhor Jesus Cristo. Alguns acham que esse genitivo é objetivo, tendo o sentido de que o ensino é sobre Cristo. Mas a instrução de Paulo não enfoca Cristo exclusivamente. Outros consideram o genitivo como subjetivo e aceitam que Paulo está se referindo a palavras ditas por Cristo, talvez num evangelho já em poder do público ou numa coleção de declarações feitas por Jesus. Mas raras vezes Paulo citou palavras de Jesus, sendo exceções 5.18 e Atos 20.35. A terceira e mais provável explicação é a de que Paulo considerava suas próprias palavras como palavras de Cristo. “Aquele que lhes dá ouvidos, está me dando ouvidos” - disse Jesus ao enviar os Setenta,2 e Lucas deu a entender 1 Lock, p. 67.


que o Cristo assunto aos céus continuaria a agir e a falar através dos apóstolos.3 Com certeza, essa era a convicção que Paulo tinha. Ele podia dar ordens e exortar em nome, ou com a autoridade, de Cristo.4 Ele declarou que Cristo falava por meio dele5 e até mesmo elogiou os gálatas pelo fato de o terem recebido como se fosse o próprio Jesus Cristo.6 Como expressou-se Crisóstomo, “Assim diz Paulo, ou melhor, Cristo através de Paulo”.7 A segunda característica da “sã doutrina” é ser ela um ensino que é segundo a piedade (v. 3b), literalmente, “o ensino que corresponde à piedade”. Uma expressão semelhante ocorre em Tito 1.1, que a n v í traduz “a verdade que conduz à piedade”. Aqui, há, então, duas características essenciais da sã doutrina. Ela provém de Cristo e promove a piedade. Todo aquele que dela discorda, portanto, é orgulhoso e nada entende (v. 4a). Ou, juntando essas duas frases, tal pessoa é “um tolo convencido” ( j b p ) o u “um pomposo ignorante” ( r e b ) . Essa é uma linguagem bem forte. Mas o falso mestre comete um sério delito, pois discordar de Paulo é discordar de Cristo. Com efeito, afinal, há apenas duas possíveis respostas à Palavra de Deus. Uma é nos humilharmos e tremermos diante dela; outra é endurecer o coração, ficar com uma dura cerviz e rejeitá-la. b. Os falsos mestres dividem a igreja Além de ser arrogante e ignorante, o falso mestre é alguém que promove divisões. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras (v. 4a) ou “um mórbido amontoado de debates e disputas” ( j b p ) . Convém observar que Paulo o descreve como tendo um interesse “doentio”, ao passo que a doutrina apostólica é chamada por ele de “sã”, isto é, “saudável”. O entusiasmo dos falsos mestres por discussões sem proveito algum é definitivamente algo patológico. Discussões e disputas desse tipo, que não levam a nada, apenas acabam totalmente com os relacionamentos humanos. Cinco conseqüências são apresentadas: inveja (ressentir-se por causa dos dons dos outros); brigas (ter um espírito de rivalidade e contenda); difamações (abusos feitos por “mestres rivais”);8 suspeitas malignas (esquecer-se de que a comunhão se constrói com a confiança, e não com a suspeita); e atritos constantes (o fruto da irritação). Esses males caracterizam aqueles que têm a mente corrompida e que são privados da verdade ... (v. 5a). Quando a mente de alguém fica distorcida, todos os seus relacionamentos também ficam distorcidos. c. Os falsos mestres têm amor pelo dinheiro Outro sintoma da mente depravada dos falsos mestres e de seu desvio da 2 Lucas 10.16.

3 A tos 1.1.

6 Gálatas 4.14.

7 Crisóstomo, p. 649.

4 Por ex., 2Ts 3.6,12. 8 Lock, pp. 67-68.

5 2 Coríntios 13.3.


verdade é que eles pensam que a piedade é fonte de lucro (v. 5b). Eles não se interessam propriamente pela piedade, mas somente na medida em que ela demonstre ser lucrativa. O modo preciso pelo qual os falsos mestres, a quem Timóteo tinha que combater, estavam explorando a piedade para obter lucro não é relatado. Mas, de fato, sabemos que Éfeso gozava de muita opulência, inflada pelo comércio que o culto a Diana havia trazido à cidade. Na segunda ida de Paulo para lá, um artesão que trabalhava com prata e seus artífices foram seus principais oponentes. A venda de santuários de prata da deusa Diana fez com que tivessem um “negócio nada pequeno”, mas agora o^seu faturamento estava diminuindo por causa da polêmica travada por Patals contra a idolatria.9 Assim, não é de causar surpresa que em sua carçá-aesD efésios Paulo tenha tido que adverti-los contra a cobiça.10 (Ç x A história da raça humana tem sido freqüentemente mkrttíháia com tentativas de comercializar a religião. Quando Simão, aM ^èa/p en so u que poderia com prar dos apóstolos poderes espirifij& ii,(pareceu o termo “simonia”, cujo significado denota a compra e vi*ne\ cie. pri\;ilég ic>s espirituais ou de um ofício eclesiástico. O próprio Paulo aehoiV.por bem declarar que, diferentemente de muitos, ele não s ai q.por a í má sc a te a n d o a Palavra de Deus para obter lucro;11 que ele ob çou a prata, o ouro e as roupas de quem quer que seja;12 e que e z uso da religião para mascarar a cobiça.13 Contudo, a igreja foi desotírác’à l rante a Idade Média por causa da vergonhosa venda de indulgênciaá^^ii. s religiosas ainda cobram quantias exorbitantes para um ensino pereon^H^aotysie^iuas doutrinas. Há evangelistas que apelam para “ofertas de aittéiC .íiiè^unca passam por uma auditoria nem constam de um relatório à . >omad do público. Alguns pregadores da televisão chegam a proir < ectadores a prosperidade em sua vida sob a condição de lhes :to dinheiro como “semente”. 3o para os versículos 3 a 5, podemos notar que Paulo nos deu três com os quais podemos avaliar qualquer ensino. Podemos colocá-los riáform a de perguntas: Esse ensino é compatível com a fé apostólica, isto é, com o JNovo testamento'/ Tem ele a característica de unir ou dividir a igreja? E promove ele a piedade com contentamento, ou promove a cobiça?

5

2. Instrução ao cristão pobre (6.6-10) De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, 7pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; spor isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. 8 Lock, pp. 67-68. 12 Atos 20.33.

9 Atos 19.23ss. 13 1 Tessalonicenses 2.5.

111 Efésios 5.3.

11 2 Coríntios 2.17.


90 s que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em mui­ tos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulha­ rem na ruína e na destruição, 10 pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaramse da f é e se atormentaram com muitos sofrimentos. A própria noção de que a piedade poderia ser fonte de lucro (v. 5b) soa como algo absurdo. Contudo, o modo pelo qual Paulo acaba com ela não é contradizendoa, mas confirmando-a. ‘D e um modo elegante e com uma certa ironia ele rapidamente lança de volta aos seus oponentes as mesmas palavras, mas com sentido oposto.”14 A “piedade” (eusebeia) é “lucro” (porismos), até mesmo uma grande fonte de lucro, desde que com lucro estejamos nos referindo a lucro espiritual, e não financeiro, e desde que acrescentemos ainda o contentamento. Paulo está repetindo a sua declaração anterior, quando disse que “a piedade, porém, para tudo é proveitosa”, trazendo bênçãos tanto para esta vida como para a vida futura (4.8). A versão r e b expressa bem esse jogo de palavras: “Eles pensam que a religião deve render dividendos; é claro que a religião rende altos dividendos, mas apenas para aqueles que se satisfazem com o que possuem”. A palavra usada por Paulo para contentamento (autarkeia) é o termo que normalmente era empregado pelos estóicos para uma auto-suficiência totalmente independente das circunstâncias. O contentamento cristão também não depende de coisas externas. Assim, “aprendi o segredo” - escreveu Paulo - “de viver contente (autarkçs) em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.” 15 Esse “segredo” cristão, entretanto, não é para ser encontrado em nós mesmos, como os estóicos ensinavam e como os partidários da Nova Era hoje ensinam, mas sim em Cristo. “Tudo posso” - prosseguiu Paulo - “naquele que me fortalece”.16 Desse modo, o contentamento genuíno “não é a aMío-suficiência, mas a Cráto-suficiência”.17 E por isso que a piedade com contentamento equivale a um grande lucro espiritual. Essa equação de Paulo exalta a virtude do contentamento e mostra a loucura da cobiça. Ele contrasta duas categorias de crentes pobres: os que têm contentamento, apesar de terem necessidades nesta vida (vv. 7-8), e os cobiçosos, que amam o dinheiro e querem enriquecer (vv. 9-10). a. Os pobres que têm contentamento (6.7-8) As pessoas a quem Paulo está se referindo não são os indigentes, que carecem das necessidades básicas para sobreviver. Ninguém pode estar contente na miséria. Antes, Paulo refere-se aos que, tendo o que comer e com que vestir, com isso estão satisfeitos (v. 8).

14 Calvino, p. 274. 17 Fee (1988), p. 143.

15 Filipenses 4.12.

16 Fp 4.13; cf. Hb 13.5-6.


De que modo, então, o apóstolo argumenta a posição cristã de contentamento, contra a cobiça? Ele nos lembra do fato de enorme importância (embora muitas vezes ignorado) da nossa experiência humana, relativamente ao nosso nascimento e à nossa morte. E o fato de que nada trouxemos para este mundo e dele nada podem os levar (“nada”, aqui, é enfático, ou seja, “absolutamente nada”, como a versão inglesa de jb p enfatiza). Provavelmente, Paulo está referindo-se a uma saudável verdade sobre a qual vários homens de sabedoria de Israel refletiram. A versão de Jó sobre ela é: “Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei”.18 Isto é, nascemos nus e sem dinheiro algum, e quando morrermos e formos sepultados, novamente estaremos nus e sem dinheiro. No que se refere aos bens terrenos, a nossa vinda e a nossa ida são iguais. Portanto, a nossa vida aqui na terra é uma breve peregrinação entre dois momentos em que estamos nus. Nada trouxemos conosco, e nada podemos levar. Um ministro, ao realizar o funeral de uma senhora que havia sido muito rica, ao ser perguntado por um curioso quanto ela tinha deixado, respondeu: “Ela deixou tudo”. Essa é uma perspectiva que deve ser levada em conta em nosso estilo de vida econômica, pois os bens são apenas a bagagem que levamos nessa viagem dentro do tempo; não estarão na eternidade. E então uma sensatez não levarmos nessa viagem muito peso e, como o próprio Jesus nos ordenou, não acumulemos para nós (ou seja, não acumulemos egoisticamente) tesouros na terra.19 Qual deve ser, então, a nossa atitude diante das coisas materiais? Paulo responde: “p o r isso, tendo o que comer e com que nos vestir, estejamos com isso satisfeitos” (v. 8; é possível que a expressão “estejamos com isso satisfeitos” seja uma exortação para nós, e não uma simples possibilidade). Assim, ele retorna ao tema do contentamento cristão. Coisas luxuosas não lhe são necessárias; mas o suprimento das necessidades são. Tais necessidades são o que ele se refere como “o que comer e com que nos vestir”, exatamente aquilo a respeito do qual Jesus nos proibiu de nos preocuparmos, uma vez que prometeu que o nosso Pai celestial nos daria essas coisas.20 A palavra que Paulo usa na expressão “o que nos vestir” é skepasma (literalmente, “o que nos abriga”), que tem “principalmente o sentido de roupa..., mas também o de casa” ( b a g d ) . Assim, provavelmente essas duas coisas, “alimentos e roupas” podem ser estendidas para incluir o abrigo de uma casa, pois essas são as três necessidades básicas em nossa jornada. Será que isso é tudo? Provavelmente não, porque o que Paulo está definindo não é o máximo que pode ser permitido para o crente, mas sim o mínimo que é compatível com o contentamento. Isso é claro, porque ele já descrevera Deus como o bom Criador, cujas dádivas temos que receber com ações de graças (4.3ss.), e porque logo adiante ele ainda acrescentará que Deus “tudo nos 18 Jó 1.21; cf. Ec 5.15.

19 Mt 6.19ss„ Lc 12.16ss.

20 Mt 6.25ss„ Lc 12.22ss.


provê ricamente, para a nossa satisfação” (6.17). Assim, ele não está advogando a austeridade ou o ascetismo, mas o contentamento em lugar do materialismo e da cobiça. Isso não significa que estamos livres para ir ao extrem o oposto da extravagância. O Compromisso Evangélico por um Estilo de Vida Simples expõe isso muito bem: Resolvemos renunciar ao desperdício e assumimos uma postura de oposição à extravagância em nossa vida pessoal, no nosso vestir e em nossas habitações, em nossas viagens e nos edifícios de nossas igrejas. Aceitamos ainda a distinção que há entre necessidades e artigos luxuosos, entre entretenimentos criativos e símbolos vazios de status, entre a modéstia e a vaidade, entre celebrações ocasionais e de rotina e entre como cultuar a Deus e o apego à moda. Onde traçar a linha divisória em cada uma dessas situações requer a tomada de uma decisão ponderada e conscienciosa, a ser feita por nós junto com os demais membros de nossa família.21 b. Os pobres que são invejosos (6.9-10) Somente depois do versículo 17 é que Paulo dá instruções com respeito aos ricos. Nos versículos 9 e 10, ele ainda está descrevendo os pobres. Entretanto, ele não tem em mente os pobres que estão contentes com a sua situação, mas os pobres que são ambiciosos, que “querem ficar ricos” (v. 9) e que são movidos pelo “amor ao dinheiro” (v. 10). O A ntigo Testam ento está cheio de advertências contra a cobiça, especialmente na literatura de sabedoria. Somos alertados de que o dinheiro pode ser como um vício, uma vez que “quem ama o dinheiro, jamais terá o suficiente”.22 A Bíblia nos diz que não devemos nos deixar impressionar pela riqueza dos outros, mas que nos lembremos de que eles a deixarão quando partirem.23 Também está explicitamente dito que “quem tenta enriquecer-se depressa não ficará sem castigo”.24 Assim, devemos orar para que não nos seja dada “nem pobreza nem riqueza”, mas apenas “o alimento necessário” de cada dia, isto é, as necessidades que temos nesta vida.25 Jesus deve ter refletido sobre esses extratos da sabedoria do A ntigo' Testamento. Com certeza, ele os endossou, dizendo que fiquemos de sobreaviso contra todo tipo de ganância e lembrando-nos de que a nossa vida não consiste na quantidade de bens que possuímos.26 21 Para.5, “P ersonal L ifesty le”, E vangelical Com m itm ent to Sim ple L ifestyle (Lausanjie C om m ittee for World E van gelization , m arço de 1980). 22 Eclesiastes 5.10. “ Lucas 12.15ss.

23 Salmo 4 9 .1 0 ,16ss.

24 Provérbios 28.20.

25 Provérbios 30.7ss.


Além lisso, as advertências que são dadas pelas Escrituras nos são transmitidas não apenas por declarações e instruções específicas, mas através de narrativas que nos advertem a respeito. Adão e Eva, Acã, Judas e Ananias e Safira, todos foram alcançados pela dor como resultado de algum tipo de cobiça.27 Paulo, agora, retoma o mesmo tema e observa o caminho de queda do ambicioso. Os que querem ficar ricos caem ... (v, 9a). Primeiramente, caem em tentação, em armadilhas. Assim, eles fazem para si mesmos o que oram pedindo para que Deus nunca lhes faça: conduzem-se à tentação, na verdade, a muitas tentações, entre as quais as da desonestidade e do roubo. E as “armadilhas” em que caem com certeza são as do diabo (como em 3.7 e 2 Timóteo 2.26), pois por causa dessa cobiça o diabo os seduz para o materialismo e para o relaxamento moral; e dispõem-se a “sacrificar o dever e a consciência em busca da riqueza”.28 Em segundo lugar, os gananciosos são tomados por muitos desejos descontrolados e nocivos (v. 9b). Certamente, a cobiça já é em si mesma um desejo, um desejo egoísta e até mesmo idólatra,29 mas ela gera outros desejos, pois o dinheiro é uma droga, e a cobiça é um vício. Quanto mais se tem, mais se quer. Mas esses desejos trazidos pela cobiça são “concupiscências insensatas (que não podem ser defendidas racionalmente) e perniciosas (elas aprisionam e não deixam livre o espírito humano)” (v. 9, r a ). Como disse Schopenhauer, “o ouro é como a água do mar - quanto mais dela se bebe, mais sede se tem”.30 Como terceiro e final estágio no processo de queda dos ambiciosos, seus maus desejos os levam a mergulharem na ruína e na destruição (v. 9c). A metáfora os apresenta como se estivessem afundando e se afogando numa “destruição total” ( b a g d ) o u , separando as duas palavras, numa ruína total nesta vida e na destruição do inferno, na outra. A ironia é que os que voltam o seu coração para o ganho acabam em total perda, a perda de sua integridade e até de si mesmos. Pois, como Jesus perguntou, “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”31 A fim de reforçar essa solene advertência, Paulo agora cita o que possivelmente tenha sido um provérbio daqueles dias: “pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (v. 10a). Essa frase tem sido encontrada, sob várias formas, tanto na literatura grega como na judaica. Mas no mundo ocidental de hoje ela nos faz lembrar do poema lírico de Joan Whitney e Alex Kramer, publicado nos Estados Unidos em Pickwick Music (1946). Seu título era “O dinheiro é a raiz de todo o mal” e tinha um refrão que era repetido três vezes: “desfaça-se dele!”. Mas essa letra está errada. Ela se diferencia do provérbio paulino em três coisas muito importantes. Primeiramente, de acordo com Paulo,

27 Gn 3.6; Js 7.20-21; Mt 26.14ss. e Jo I2.4ss; At 5.1ss.

28 Liddon, p. 75.

29 Efésios 5.5.

30 Citado pelo bispo Otto D ibelius em sua autobiografia In the Service o f the L ord (Holt, Rinehart and W inston, 1964), p. 31. 31 Marcos 8.36.


o problema não é “o dinheiro”, mas sim “o amor ao dinheiro”, ou seja, a avareza.32 Em segundo lugar, no texto grego não há o artigo definido “a” antes de “raiz”: não é “a raiz” [única], mas sim “uma raiz” [dentre outras]. Assim, o que Paulo disse não é que seria “a” raiz (como consta na n v i ; já a a r a traduz: “é raiz de todos os males”). E verdade que, gramaticalmente, não é essencialmente requerido haver no grego o artigo definido, para se traduzir com o artigo, mas nesse caso ele seria naturalmente usado, se fosse o sentido. Em terceiro lugar, o dinheiro, ou o amor ao dinheiro, não é raiz de “todo o mal”, no singular, com a idéia de uma abrangência total, mas é uma raiz de “todos os males”, no plural. Que males são esses, então, dos quais o amor ao dinheiro constitui uma importante raiz? Uma longa lista de males poderia ser fornecida. A avareza leva ao egoísmo, ao engano, à fraude, ao perjúrio, ao roubo, à inveja, às rixas e ao ódio, à violência e até ao assassinato. A cobiça acha-se por trás dos casamentos por conveniência, das perversões da justiça, do tráfico de drogas, do comércio de pornografia, das chantagens, da exploração dos fracos, da negligência às boas causas e da traição entre amigos. Mas Paulo concentra-se em apenas dois males que são decorrentes da ambição. O primeiro é: “Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé ” (v. 10b). Não é possível ter como alvo a verdade e o dinheiro, Deus e Mamom, ao mesmo tempo. Ou se renuncia à avareza ao se dedicar à fé, ou se faz do dinheiro o seu deus, abandonando a fé. O segundo, por sua vez, é: “se atormentaram com muitos sofrimentos” (v. 10c), ou “se traspassaram com muitos espinhos dolorosos” ( r e b ) . Que “sofrimentos” ou “espinhos” são esses, Paulo não esclarece, mas eles podem incluir a preocupação, o remorso, as angústias de uma consciência desprezada, a descoberta de que o materialismo jamais poderá satisfazer ao espírito humano e, finalmente, o desespero. Comenta-se sobre Jay Gould, um financista americano do século dezenove que, em sua morte, não tendo sido pranteado por ninguém e tendo deixado a quantia de $ 100 milhões de dólares, exclamou em seu último respiro: “Sou o diabo mais miserável deste mundo”. Toda essa passagem (versículos 6 a 10), que é a palavra do apóstolo para os cristãos pobres, tanto para os que são pobres com contentamento, como para os que são pobres e cobiçosos, tem tudo para fazer com que os críticos do cristianismo expludam de raiva. “Isso é exatamente o que Marx queria dizer” eles dirão - “quando disse que a religião é ‘o ópio do povo’. O cristianismo instila-no proletariado um falso contentamento diante da sua sorte. Encoraja os pobres a aceitarem a sua pobreza, e a aquiescerem ao status quo (em vez de se rebelarem contra ele), tendo como base a afirmação nada convincente de que seriam recompensados no outro mundo.” Como responder a esses críticos? Temos qü^ admitir que parte da análise de Marx estava certa. O cristianismo de fato ensina o contentamento, e alguns cristãos e igrejas cristãs chegaram a fazer mau uso


dessa ênfase cristã defendendo a exploração dos pobres e mantendo-os sob opressão, prometendo-lhes, todavia, a liberdade no céu. Mas Paulo não tem culpa desse erro. Dois esclarecimentos quanto a esse ensino precisam ser feitos. Primeiramente, como já vimos antes, a pobreza a que ele se refere não é a situação de indigência, ou miséria, que destrói a própria condição humana, mas ele refere-se a um estilo de vida simples que é perfeitamente compatível com a dignidade humana. Nessa situação, devemos ter contentamento, mas não naquela. Em segundo lugar, o contentamento de que Paulo está falando não é aquiescência à injustiça social. Pelo contrário, somos chamados a ter, lado a lado, um contentamento pessoal e também uma disposição de buscar a justiça, especialmente a justiça para as outras pessoas. A ênfase principal do apóstolo é clara, a saber, que a cobiça é um mal que destrói a própria pessoa, ao passo que a simplicidade de vida e o contentamento são virtudes belas, que se assemelham a Cristo. Em resumo, ele não está a favor da pobreza contra a riqueza, mas a favor do contentamento contra a cobiça. 3. Instrução a um homem de Deus (6.11-16) Você, porém, homem de Deus, fuja de tudo isso e busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, e a mansidão. 12Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você fo i chamado e fez a boa confissão na presença de muitas testemunhas. I3Diante de Deus, que a tudo dá vida, e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos fez a boa confissão, eu lhe recomendo: I4guarde este mandamento imaculado e irrepreensível, até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, 15a qual Deus fará se cumprir no seu devido tempo. Ele é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, I6o único que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A ele sejam honra e poder para sempre. Amém. Paulo exprime o apelo que faz em seguida, e que se destina ao próprio Timóteo, de um modo muito incisivo. O apóstolo não o chama pelo nome, como o faz no versículo 20 (“ó Timóteo” - nas versões Almeida). Não. Dessa vez, ele emprega o título honorífico de “homem de Deus”. No Antigo Testamento, era um título reservado para os líderes de Israel. Foi aplicado a Moisés,33 a Samuel,34 a Davi,35 ao profeta Semaías,36 a EÍias,37 a Elizeu,38 a Jigdalias, o recabita39 e a três profetas anônimos.40 Na única outra vez em que essa expressão é usada no Novo Testamento, um “homem de Deus” parece ser todo cristão maduro que se tome “apto e plenamente preparado para toda boa obra”.41 33 D t 33.1; Js 14.6; lCr 23.14; e o título tio Salmo 90. 35 Neem ias 12.24,36. 39 Jeremias 35.4.

36 1 Reis 12.22

34 1 Samuel 9.6.

'' I Reis 17.18; 2 Reis 1.9ss.

40 ISm 2.27; IRs U .ls s ; 2 (’r 25.7ss.

38 2 Reis 4.7.

41 2 Timóteo 3.17.


Timóteo, como homem de Deus, é propositadamente contrastado com os falsos mestres que, sendo orgulhosos, briguentos e cheios de cobiça (vs. 4-10) são homens mais do mundo do que de Deus. Você, porém, homem de Deus Paulo escreve (ou, acentuando a antítese, “Quanto a você, porém”, r s v ) - você deve ser totalmente diferente deles. Timóteo tinha que resistir firmemente à impiedade deles. E Paulo prossegue fazendo-lhe três apelos - um ético, outro doutrinário e o terceiro de apropriação. a. O apelo ético (6.11) Sendo homem de Deus, Timóteo tinha de fugir de tudo isso (tauta, “dessas coisas”) e buscar outras coisas. Tinha que fugir do amor ao dinheiro e de todos os males que com ele vêm (vv. 9-10), dos “desejos malignos da juventude”42 e de tudo o que fosse incompatível com a perfeita vontade de Deus. Em vez dessas coisas, ele tinha que buscar seis virtudes, aparentemente apresentadas em pares, que são particularmente apropriadas como alternativa para a cobiça. Em primeiro lugar, ele tinha que buscar a justiça (talvez, aqui, com o sentido de agir corretamente para com todos) e a piedade (pois é Deus e não Mamom que deve ser o objeto da adoração). Em segundo, o homem de Deus tinha que buscar a /<? e o amor (duas palavras que vão muitas vezes juntas nas cartas paulinas). Nesse contexto, possivelmente, ele está se referindo, por um lado, à fidelidade ou “integridade” ( r e b ) e, por outro, ao amor sacrificial e serviçal que não dá margem para a cobiça. A terceira meta de Timóteo era a perseverança (,hypomç), que vem a ser a paciência em circunstâncias difíceis, e a mansidão, que é a paciência perante pessoas difíceis. O que em especial nos chama a atenção é que esse apelo ético tem tanto um aspecto negativo como um positivo, e são complementares. Negativamente, temos que “fugir” do mal, “evadindo-nos permanentemente”43 dele, correndo e afastando-nos dele tanto quanto podemos e com a maior velocidade possível. Positivamente, temos que buscar intensamente a piedade. Essa contraposição ocorre com freqüência no Novo Testamento, embora com diferentes termos. Temos que nos negar a nós mesmos e seguir a Cristo,44 temos que dizer “não” para a impiedade e “sim” para a piedade e para o domínio próprio,45 temos que nos despir da velha roupa que pertencia à nossa vida anterior e nos revestir das novas vestes da vida cristã, e assim fugir do mal e buscar a piedade. Bem, nós, os seres humanos, somos grandes fujões. É natural fugir de tudo o que nos ameace. Fugir de um perigo real é um ato de bom senso, mas fugir de problemas que não temos coragem de enfrentar, ou de responsabilidades que não nos dispomos a assumir, é escapismo. Em vez de assim proceder, o que devemos fazer é nos concentrar em fugir do mal. Nós também vamos atrás de

42 2 Timóteo 2.22.

43 Ward, p. 103.

44 Marcos 8.34.

45 Tito 2.12.


muitas coisas que nos atraem - do prazer, da promoção, da fama, da saúde e do poder. Em vez disso, devemos nos concentrar na busca da santidade. Não há nenhum segredo em particular a aprender, nenhuma fórmula mágica para recitar, nenhuma técnica que devamos totalmente dominar. O apóstolo não nos dá nenhum ensino sobre “a santidade: como alcançá-la”. O que temos que fazer é simplesmente fugir do mal, da mesma forma como fugimos de um perigo; e temos que ir em busca da piedade, tal como vamos em busca do sucesso. Ou seja, temos que dedicar a nossa mente, o nosso tempo e a nossa energia a essas duas coisas. Uma vez que virmos como o mal é mau, desejaremos fugir dele; e uma vez que virmos como a piedade é uma coisa boa, desejaremos buscá-la. b. O apelo doutrinário (6.12a) Do dever de Timóteo farão parte tanto lutar como fugir, tanto resistir como correr. A n v i traduz esse segundo apelo de Paulo como “combata o bom combate da fé” (v. 12a), e com certeza está correta a inserção do artigo definido antes de fé (“da fé” e não “de fé” ou “duma fé”). A “fé” já havia sido mencionada no versículo anterior, como sendo uma das virtudes que temos de buscar. Mas nos versículos 10 e 21 Paulo descreve os falsos mestres dizendo que eles “desviaramse da fé”, tendo essa palavra “fé”, agora, o sentido da fé apostólica, o corpo de doutrinas ao qual ele se refere nas Cartas Pastorais como sendo “a verdade” (p. ex., 2.4; 3.15; 4.3), “o ensino” (p. ex.,4.6; 6.1; Tt 1.9; 2.1) ou ainda o “depósito” (que literalmente é a tradução de “o que lhe foi confiado”, em 6.20,2Tm 1.12,14). Já que alguns chegaram a se desviar da fé, agora era premente que Timóteo tivesse que “lutar” por ela. Não temos certeza quanto a que tipo de luta Paulo tinha em mente, se uma luta atlética (semelhante à dos Jogos Olímpicos), ou se uma luta militar (semelhante à da guerra); e caso fosse atlética, se era uma luta romana ou uma corrida. O uso conjunto do adjetivo “bom” com o substantivo “agôrí’ e com o verbo agônizomai poderia ser traduzido tanto por “combata o bom combate” como também por “corra a boa corrida”. Posteriormente, Paulo considera conjuntamente essas duas metáforas, quando afirma: “combati o bom combate” e “terminei a corrida”.46 É certo que tanto uma corrida como uma luta exigem um grande esforço e energia. Mas a linguagem da exortação paralela (“combata o bom combate”) de 1:18 sem dúvida alguma refere-se ao combate de um soldado (strateuô e strateià). Chama-nos a atenção que, assim como o mal e a piedade foram contrastados (v. 11), também agora o são a verdade e o erro. Isso porque Timóteo tem que “evitar” o falso ensino (v. 20b) e “guardar” (v. 20a) e “lutar” (v. 12) pela verdade. Desse modo, nos dois apelos que Paulo faz, o positivo é contraposto ao negativo. No que diz respeito à ética, temos que fugir do mal e perseguir a piedade. No que diz respeito à doutrina, temos que evitar o erro e lutar pela verdade. 46 2 T im óteo 4.7.


Ninguém tem prazer em lutar, a menos, é claro, que seja beligerante por temperamento. Lutar é algo não agradável - é indigno, sangrento, doloroso e perigoso. Assim, também, é a luta numa controvérsia, que é a luta pela verdade e pela piedade. Há algo estranho naqueles que lutam com prazer. Não obstante, ela é um “bom combate”; tem que ser lutada, pois a verdade é preciosa, até mesmo sagrada. Sendo uma verdade que procede de Deus, não podemos negligenciá-la sem afrontá-lo. Ela ainda é importante para a saúde e o crescimento da igreja. Desse modo, sempre que a verdade for ameaçada por falsos mestres, defendê-la é uma penosa necessidade. Até mesmo a “mansidão” que devemos buscar (a última palavra do versículo 11) não é incompatível com a luta que é o bom combate da fé (v. 12). c. O apelo quanto à apropriação (6.12b) O terceiro apelo de Paulo a Timóteo vai além da doutrina e da ética para uma apropriação: Tome posse da vida eterna ... (v. 12a). Muita incompreensão tem havido em relação ao conceito de “vida eterna”, e muitos talvez aceitem a definição de uma menininha, que disse: “Deus nos deu a vida; agora não dá para nos livrarmos dela”. Mas a ênfase não está na sua duração, e sim na sua qualidade. Vida eterna significa a vida da era que está por vir, a era que Jesus inaugurou. Essa vida foi definida pelo Senhor como sendo conhecê-lo e conhecer o Pai.47 Conseqüentemente, ela é algo que possuímos no presente e uma esperança futura, como as Pastorais deixam claro. Como algo do presente, veja 1.16 e 2 Timóteo 1.10, e quanto a uma esperança futura, veja Tito 1.2; 3.17. Os que pensam que, nos versículos 12 e 19, é futura a vida eterna de que Timóteo tem que se apossar, assim pensam por crerem que Paulo está prosseguindo com sua metáfora atlética, referindo-se ao prêmio que se recebe no fim da corrida. Parece ser mais provável, entretanto, que vida eterna aqui seja uma posse presente, porque Paulo a descreve a Timóteo como uma vida para a qual foi chamado e fez a boa confissão na presença de muitas testemunhas (v. 12b). A menção de “muitas testemunhas” deu a entender a alguns que a ocasião em referência não é o batismo de Timóteo, mas a sua ordenação (cf. 4.14; 2Tm 2.2). Mas considerando que o chamado (que é algo interior e privado) está ao lado da confissão (que é algo exterior e público), toma-se mais natural que a referência seja à conversão e ao batismo de Timóteo. Todo convertido passava por uma solene e pública afirmação de sua fé.48 Pode parecer estranho, entretanto, um líder cristão com a estatura de Timóteo ser exortado a “tomar posse” da vida eterna. Ele não era um cristão já por muitos anos? Portanto, não é verdade que ele já tinha recebido a vida etema havia um bom tempo? Então, por que Paulo lhe disse para tomar posse de algo 47 João 17.3.

48 Romanos 10.9ss.


que ele já possuía? A resposta provável é que é possível ter a propriedade de alguma coisa sem tomar posse e sem usufruir dela. Epilambanomai significa “tomar posse, apropriar-se... às vezes com violência” e “apropriar-se de alguma coisa, trazendo-a para si” ( b a g d ) . Essa violência pode ser vista quando Jesus pegou Pedro, que estava começando a afundar;49 nos soldados agarrando Simão de Cirene;50 na multidão que agarrou Paulo51e no tribunal que o prendeu.52 Assim, portanto, embora Timóteo já tivesse recebido a vida eterna, Paulo instou com ele que se apoderasse dela, que a agarrasse, que se apropriasse dela, tomando-a completamente dele, desfrutando dela e vivendo a vida eterna de uma maneira completa. Eis, pois, os três encargos que Paulo deu a Timóteo: o ético (fugir do mal e buscar a piedade), o doutrinário (deixar o erro e lutar pela verdade) e o relativo à tomada de posse (apropriar-se da vida que ele já havia recebido). Nesta época de relatividade em que estamos vivendo, é bom termos a verdade, a piedade e a vida diante de nós como alvos absolutos. Essas três coisas estão ainda num saudável equilíbrio. Há quem lute pela verdade, mas negligencia a santidade. Outros buscam a santidade, mas não se preocupam também com a verdade. Outros, ainda, desprezam tanto a doutrina como a ética em sua busca de experiências religiosas. Quem é de Deus tem que ter essas três coisas. d. As bases para o apelo (6.13-16) Paulo vai além de simplesmente apelar a Timóteo, pois conhece a apatia humana e a nossa conseqüente necessidade de receber incentivos. Desse modo\ ele dá suporte a seu apelo fazendo uso de fortes argumentos, a saber, citando a presença de Deus e a vinda de Cristo. Primeiramente, é impressionante como Paulo vivia conscientemente na presença de Deus, a ponto de ser natural para ele escrever: “Diante de Deus, ... e de Cristo Jesus, ...lhe recomendo (v. 13; cf. 2Tm 4.1). Além disso, ele traz à sua lembrança, e à de Timóteo, uma verdade sobre Deus e sobre Cristo. Deus é descrito como sendo aquele que a tudo dá vida.53 Sendo o doador e o mantenedor da vida de todos os seres viventes, ele envolve-se intimamente com as atividades deles. Cristo, por outro lado, é descrito como aquele que diante de Pôncio Pilatos fe z a boa confissão, reconhecendo que de fato era rei.54 Seus discípulos nunca esqueceram o precedente histórico de um ousado testemunho que ele estabeleceu. Ele foi, fora de qualquer comparação, “a testemunha fiel e verdadeira”.55 A “boa confissão” que é esperada de nós foi primeiramente feita por ele (vv. 12,13). E à vista de Deus, que dá a vida, e de Cristo, a testemunha, que Paulo faz a sua recomendação. 49 Mateus 14.31.

50 Lucas 23.26.

53 Cf. Atos 14.15; 17.28ss.

'■ Atos 21.30.

54 Jo 18.33-34; cf. Mc 15.2.

52 Atos 21.33; cf. Fp 3.12 35 Ap 3.14; cf. 1.5.


Eu lhe recomendo, escreve ele, que guarde este mandamento imaculado e irrepreensível (v. 13b-14a). Há uma diferença de opinião quanto a se este mandamento refere-se ao tríplice apelo que Paulo tinha acabado de fazer nos versículos 11 e 12 ou se à instrução ética dada em toda a carta, ou - numa abrangência ainda maior - “a toda a lei de Cristo, ao papel da fé e da vida prescrito no evangelho” .56 Os comentaristas também não estão concordes quanto a se as palavras imaculado e irrepreensível aplicam-se a Timóteo ou ao mandamento. A n t l h assim expressa: “Cumpra a sua missão com fidelidade, para que ninguém possa culpá-lo de nada.” A segunda base sobre a qual o apóstolo apoia a sua recomendação é a segunda vinda de Cristo. Timóteo deve guardar o mandamento com fidelidade até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (v. 14b). E evidente que Paulo está tão certo sobre esse evento quanto está incerto sobre a data de sua realização.57 Contudo, ele sabe que também isso está nas mãos de Deus, uma vez que isso e le/ara se cumprir no seu devido tempo (v. 15a), ou “no seu bom e devido tempo” ( r e b ). Essa certeza quanto a haver um cronograma que Deus segue à risca é uma notável característica das Pastorais. Quer Paulo esteja se referindo à primeira vinda de Cristo (no passado), quer à proclamação do evangelho (no presente) ou à volta de Jesus (no futuro), cada um desses eventos ocorre no tempo “próprio” ou “devido” (2.6; 6.15 e Tt 1.3). Além disso, a nossa confiança em que Deus faz tudo no tempo certo e a nossa conseqüente disposição de entregar tudo em suas mãos decorrem do tipo de Deus que sabemos que ele é. Isso Paulo continua revelando, provavelmente fazendo uso de um hino cristão primitivo, com uma doxologia semelhante à de 1.17. Ele afirma quatro verdades sobre o poder soberano de Deus, quatro modos pelos quais ele está totalmente fora do controle e da manipulação dos homens. Primeiro, Deus é invencível, não estando ao alcance de nenhuma interferência feita por poderes terrenos; pois ele é Deus, ele é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores (v. 15b). No Antigo Testamento, Nabucodonosor, da Babilônia, gostava de ser chamado de “rei de reis”,58 mas Yahweh foi reconhecido como “Deus dos deuses” e “Senhor dos senhores”.59 No Novo Testamento, foi dado a Cristo o título completo de “Rei dos reis e Senhor dos senhores”,60 em oposição, não há dúvida, às blasfêmias do culto ao imperador. Nenhuma lei ou norma humana pode desafiar a sua autoridade. Segundo, Deus é imortal, não sujeito a mudanças causadas pelo tempo, por morte ou por degradação; e ele é o único que é imortal, literalmente, “o único que possui imortalidade” (v. 16b - r a ). E verdade que nós, os seres humanos, também somos imortais, no sentido de que sobreviveremos à morte. Mas 56 Kelly, p. 144.

57 Cf. Mc 13.32; At 1.7; IJo 5.1.

59 Dt 10.17; SI 136.2-3; cf. 2 Macabeus 13.4.

58 Ez 26.7; Dn 2.37.

60 Ap 17.14; 19.16.


somente Deus “tem vida em si mesmo”.61 “A nossa imortalidade constitui uma dádiva, não uma propriedade inata”/’2 Terceiro, Deus é inalcançável, estando além do alcance dos pecadores, e habita em luz inacessível. Trevas de nenhuma espécie ou forma, quer de falsidade ou do mal, podem entrar em sua presença e muito menos dominar sobre ele.63 Quarto, Deus é invisível, estando fora da capacidade de visão humana e totalmente além da compreensão dos homens, pois ele é aquele que ninguém viu nem pode ver. O máximo que os olhos humanos tiveram a permissão de contemplar foi a sua “glória”,64 suas costas e não a sua face,65 suas aparições em teofania,66 ou a sua imagem em seu Filho encarnado.67 Sendo em si mesmo invisível, podemos conhecê-lo apenas até o ponto em que ele se apraz em fazerse conhecido. Além desse ponto, ele está totalmente fora de nosso alcance. A esse grande Deus, invencível, imortal, inacessível e invisível, a ele sejam honra e poder para sempre. Amém. É natural para Paulo, quando está escrevendo sobre Deus, interromper por um instante com uma doxologia, louvando a Deus por sua misericórdia (como em 1.17), ou pelo seu poder (como aqui). Na presença desse Deus, e numa antevisão da volta de Cristo, que um dia ele vai permitir que aconteça, foi que Paulo deu a Timóteo essa solene incumbência. E, ao fazer isso, sua mente incluiu a criação (Deus, o doador da vida, v. 13a), a história (Cristo diante de Pôncio Pilatos, v. 13b) e a consumação (a volta de Cristo, v. 14). Ainda hoje, a presença de Deus e a volta de Cristo são dois dos maiores incentivos que temos para a fidelidade. 4. Instrução ao cristão rico (6.17-19) Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação. 18Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir. I9Dessa forma, eles acumularão um tesouro para si mesmos, um firm e fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verda­ deira vida. E óbvio que o tema desse parágrafo são os ricos. Paulo usa o adjetivo “ricos” (plousios, v. 17a), o substantivo “riqueza” (ploutos, v. 17b), o advérbio “ricamente” (plousiôs, v. 17c) e o verbo “sejamricos” (plouteô, v. 18a). Assim, depois de fazer essa digressão (vv. 11-16), em que ordena ao homem de Deus 61 João 5.26.

62 Simpson, p. 89; cf. 2Tm 1.10.

64 P ot ex., Êx 24.9ss.; Is 6.1ss; Ez 1.28. « Por ex., Gn 16.7ss.; 18:1; 32:24.

63 Por ex., Jo 1.5; lJo 1.5.

65 Êxodo 33.18ss. 67 Jo 1.18; 14.6; Cl 1.15.


que fuja dos males da cobiça, Paulo retorna ao assunto do dinheiro. É importante observar que 1 Timóteo 6 contem dois parágrafos (6-10 e 17-19) que se completam, sendo que ambos tratam do mesmo tema, o dinheiro, mas são dirigidos a diferentes grupos de pessoas da igreja. Nos versículos de 6 a 10, Paulo dirige-se aos cristãos pobres e, em particular, àqueles que “querem ficar ricos” (v. 8). Nos versículos de 17 a 19, no entanto, Paulo volta-se para os cristãos ricos, “aos que são ricos no presente mundo” (v. 17). É claro que riqueza e pobreza são termos relativos, que não podem ser muito bem definidos. Entre os pobres, uns são mais pobres do que outros; e, entre os ricos, uns são mais ricos do que outros. Não obstante, em toda cultura há uma distinção entre eles. A primeira coisa a observar com respeito a esse parágrafo (17-19) é que Paulo não ordena que os ricos se desfaçam da sua riqueza. Mas ele lhes dá uma instrução negativa e uma positiva, a primeira alertando os ricos com respeito aos perigos da riqueza, e depois estabelecendo as obrigações que eles têm. a. Instrução negativa: os perigos de ser rico (6.17) O primeiro perigo a que os ricos se expõem é o orgulho. Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes (v. 17a). O Antigo Testamento alerta-nos com clareza nesse sentido.68 A riqueza com freqüência gera a vaidade. Ela faz as pessoas sentirem-se importantes e assim acabam “desprezando os outros” (cf. j b p ). É comum os ricos gabarem-se da casa que têm, da mobília, do carro, do iate e de outros bens. O segundo perigo a que se expõem os ricos é a uma falsa segurança. Ordene aos que são ricos no presente mundo que não ... ponham sua esperança na incerteza da riqueza (v. 17a.). Agir desse modo é ser insensato e imprevidente. Em primeiro lugar, a riqueza é uma incerteza. Jesus nos alertou sobre os prejuízos causados pela traça, pela ferrugem e pelos ladrões,69 e poderíamos ainda acrescentar: pelo incêndio e pela inflação, como perigos adicionais. Muitos são os que foram dormir ricos e acordaram pobres. Em segundo lugar, o objeto da nossa confiança não devem ser coisas, mas sim uma Pessoa; não a riqueza, mas Deus, que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação (v. 17b).70 Esse é um acréscimo importante. Não devemos trocar materialismo por ascetismo. Pelo contrário, Deus é um Criador generoso, que quer que apreciemos e desfrutemos as boas dádivas da criação. Se considerarmos certo adotar um estilo de vida econômico mais simples do que teríamos condições de manter, isso seria em solidariedade aos pobres e não por considerarmos a posse de bens como um mal. Os dois perigos, então, a que os ricos se expõem são um falso orgulho (olhando com desdém os que são menos afortunados do que eles) e uma falsa 68 Por ex„ Dt 8.14; Ez 28.5.

69 Mt 6.19; cf. Pv 23.5.

70 Cf. SI 52.7; Jr 9.23.


segurança (confiando nas dádivas recebidas e não naquele que as dá). Desse modo, a riqueza pode estragar dois relacionamentos primordiais, fazendo com que nos esqueçamos de Deus e desprezemos o nosso próximo. b. Instrução positiva: os deveres decorrentes da riqueza (6.18-19) Timóteo não tem apenas que prevenir os ricos quanto aos perigos que enfrentam, mas também alertá-los sobre os deveres que têm. Em primeiro lugar, Timóteo terá de procurar desenvolver nos ricos um senso de responsabilidade. A estrutura dos versículos 17 e 18 esclarece isso: Ordene aos que são ricos ... que ... sejam ricos ... Ou, completando um pouco mais, ordene aos que são ricos no presente m undo... que sejam ricos em boas obras. Que acrescentem um outro tipo de riqueza à riqueza que já possuem. Essa é uma admoestação necessária. A riqueza pode fazer com que as pessoas ricas se tomem preguiçosas. Uma vez que já possuem todas as coisas que desejam, não têm necessidade de se esforçar, de trabalhar para o seu sustento. Não é sem razão que alguns os chamam de “ricos ociosos”. Assim, Timóteo deve ordenar a eles que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir (v. 18), usando a sua riqueza para aliviar as necessidades e para promover boas causas. Fazendo isso, estarão imitando a Deus, pois ele é rico, contudo de tudo o que possui suprirá todas as necessidades que tivermos.71 Como Deus é tão generoso em tudo o que dá, o seu povo deve ser generoso também, não apenas por imitar a sua generosidade, mas também por causa das enormes necessidades do mundo ao nosso redor. Muitos empreendimentos cristãos ficam em dificuldades por falta de fundos. E durante todo o tempo a nossa consciência não pára de nos incomodar, lembrando-nos dos que vivem na miséria e que constituem a quinta parte dg população do mundo. Se os ricos forem de fato generosos, a ponto de darem com sacrifício, não será preciso nem dizer que eles deixarão de ter toda a riqueza que antes tinham. Eles não se tornarão pobres, mas também não permanecerão ricos. Em segundo lugar, compete a Timóteo desenvolver nos ricos um senso de proporcionalidade: Dessaforma, eles acumularão um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verdadeira vida (v. 19). Esse tesouro para si mesmos, que os ricos acumularão sendo generosos, sem dúvida não é um tesouro material, pois Jesus mencionou que não devemos acumulai" esse tipo de tesouro.72 É, sim, um tesouro espiritual, literalmente, “um bom fundamento para o futuro”, dando condições para que o rico, que é generoso, desfrute da autêntica vida que se inicia agora e que continua no céu.73

71 Cf. E f 1.7; Fp 4.19.

72 Maleus 6.19 20.

73 Cf. Mc 10.21; Lc 12.33-34.


Talvez o melhor comentário sobre esse ensino seja a parábola de Jesus “do administrador infiel” ( r a ) o u “do administrador astuto” ( n v i ) . 74 Ele usou a sua influência no presente para garantir o seu futuro, e Jesus o elogiou por sua prudência, embora não o tenha elogiado por sua desonestidade. E uma questão de perspectiva e de proporção. O que tem maior valor? E ser rico nesta era (v. 17) ou na era que há de vir (v. 19)? E acumular tesouros na terra ou no céu? E ganhar muito dinheiro no tempo presente ou “alcançar a verdadeira vida” ? Juntando agora as duas instruções de Paulo sobre a riqueza, a negativa e a positiva, os ricos não devem se orgulhar nem desprezar os pobres, mas devem fazer o bem e ser generosos; não devem pôr a sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê, e na dádiva que é a mais valorosa de todas, o tesouro da vida eterna. Em resumo, nos dois parágrafos sobre o dinheiro, a equilibrada sabedoria do apóstolo toma-se evidente. Contra o materialismo (obsessão por bens materiais), ele estabelece o estilo de vida simples. Contra o ascetismo (repúdio ao que é material), ele estabelece a gratidão por tudo o que Deus criou. Contra a cobiça (desejo de ter mais bens), ele estabelece o contentamento com o que temos. Contra o egoísmo (acúmulo de bens para si) ele estabelece a generosidade como uma im itação de Deus. Simplicidade, gratidão, contentamento e generosidade constituem um quadrilátero saudável da vida cristã. 5. Uma instrução pessoal para Timóteo (6.20-21) Timóteo, guarde o que lhe fo i confiado. Evite as conversas inúteis e profanas e as idéias contraditórias do que é falsamente chamado co­ nhecimento; 21professando-o, alguns desviaram-se da fé. A graça seja com vocês. Nessa palavra final, dada pessoalmente a Timóteo (E tu, ó Timóteo - r a ), Paulo volta aos falsos mestres, cuja danosa atividade foi o pano de fundo de toda a carta. Ele contrasta os dois ensinos (o seu e o deles) e duas possíveis atitudes a serem tomadas (guardar o seu ensino e rejeitar o deles). Ele se refere ao seu ensino com a expressão o que lhe fo i confiado (v. 20), literalmente, “o depósito”. Parathçkç era um termo legal ( b a g d ), empregado no caso de dinheiro ou valores deixados em depósito com alguém para serem guardados em segurança. Aqui, o bem de valor a que o termo se refere é “a fé” (v. 21, cf. 2Tm 1.13s.), e Timóteo deve guardá-la, preservando-a e compartilhando-a com as pessoas, sem omissões nem sem distorções. O falso ensino, por outro lado, é algo que Timóteo tem que evitar: Evite (“tendo horror a” - s b t b ; o u “não dando ouvidos a” - r e b ) as conversas inúteis e profanas e as idéias contraditórias do que é falsam ente chamado 74 Lucas 16.1-13.


conhecimento (v. 20b). Por ser a palavra “conhecimento” a tradução de gnôsis; e “idéias contraditórias”, a de antitheseis, que foi o título de um livro de Marcion (um proeminente herege da metade do segundo século em Roma), alguns eruditos, como se pode compreender, viram aqui uma referência ao gnosticismo e ao marcionismo. Mas mesmo aqueles que negam a autoria paulina das Pastorais não aceitam que elas foram escritas tão mais tarde assim como em meados do segundo século. O máximo que se pode dizer é que o que tinha florescido totalmente no gnosticismo do segundo século aparece nas Pastorais apenas na forma de um pequeno botão. Paulo acrescenta ainda que aqueles que professaram tais coisas desviaram-se da f é (v. 21a, cf. 1.6), ou seja, desviaramse do ensino dos apóstolos. O verbo astocheô tinha o sentido de errar o alvo no esporte de arco-e-flecha, e assim o sentido é o de que eles se desviaram da verdade. Na oração com que Paulo conclui a carta, A graça seja com vocês (v. 21b), como esse “vocês” está no plural, isso indica que Paulo tem em mente não apenas Timóteo, e isso não somente agora, mas em toda a carta. Ele tinha em vista também as congregações que Timóteo supervisionava. Elas não teriam condições de, por sua própria capacidade, rejeitar o erro e combater pela verdade, de fugir do mal e buscar a piedade, de renunciar à cobiça e cultivar o contentamento e a generosidade, permanecendo fiéis até o fim na prática dessas responsabilidades cristãs. Somente a graça divina é que poderia sustentar todos eles. Desse modo, ao finalizar a carta, assim como tinha feito em seu início (1.2), o apóstolo lhes deseja, acima de qualquer outra coisa, que tenham a experiência da graça de Deus, dessa graça que os podia transformar e sustentar.


Parte 2

A m ensagem de

Tito A doutrina e o dever


Os temas principais da carta A carta de Paulo a Tito é um pequeno documento do Novo Testamento que tem sido acatado e amado por muitos, especialmente pelos líderes cristãos com responsabilidade na igreja. Isso porque embora seja dirigida a Tito pessoalmente, a epístola vai muito além de uma carta particular, destinando-se também às igrejas que ele supervisionava. Não é necessário ter muita imaginação para sentar ao lado de Tito e ler a carta de Paulo como se fosse dirigida a nós, já que as instruções do apóstolo a esse seu preposto, que era objeto de toda a sua confiança, são ainda extremamente relevantes nos dias de hoje. Nós também temos que ouvir as exortações de Paulo quanto a uma cuidadosa seleção e indicação de presbíteros na igreja (1.5-9); quanto às desastrosas conseqüências do falso ensino (1.10­ 16); quanto à importância de se ajudar as pessoas, segundo o sexo e a idade, a relacionar a doutrina com seus deveres no lar (2.1-10); quanto ao poder tran sfo rm ad o r das duas aparições de C risto (2.11-15); quanto às responsabilidades civis e sociais do povo de Deus (3.1-2); e quanto às aplicações práticas que a salvação de Deus tem que ter, em termos de boas obras, no passado, no presente e no futuro (3.3-8). Nessa carta, há pelo menos três grandes temas, ou seja: presbíteros cristãos, em contraste com falsos mestres (capítulo 1); lares cristãos e deveres de uns para com os outros, tendo como base a nossa fé no que significam a primeira e a segunda vindas de Cristo (capítulo 2); e os relacionamentos cristãos na vida social e cívica, como frutos imediatos da nossa salvação (capítulo 3). Uma reflexão mais cuidadosa, porém, revela-nos que esses três capítulos de Tito relacionam-se com os três principais contextos em que se dá a vida cristã, ou seja, a igreja, o lar e o mundo, e servem para ilustrar a conexão vital que há entre a doutrina e o dever. Assim, vou adotar o seguinte esquema: • A doutrina e o dever na igreja (1.5-16); • A doutrina e o dever no lar (2.1-15); • A doutrina e o dever no mundo (3.1-11).


1 Tito 1.1-4

Introdução Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo para levar os eleitos de Deus à f é e a o conhecimento da verdade que conduz à piedade; 2f é e conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos. 3No devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra, por meio da pregação a mim confiada por ordem de Deus, nosso Salvador, 4a Tito, meu verdadeiro filho em nossa f é comum: Graça e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador. Nessa introdução, Paulo tem coisas importantes a dizer sobre si mesmo como escritor da epístola, sobre Tito como destinatário e sobre o Deus cuja graça os une. 1. Paulo apresenta-se Paulo é ao mesmo tempo servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo. O que temos que observar é o uso conjunto desses dois epítetos. Isso porque “servo”, na verdade, é “escravo”, e “escravo de D eus” designava algumas das celebridades do Antigo Testamento, tais como Moisés, Josué, os profetas e o servo sofredor.1 Contudo, como Paulo costumava expressar-se com a forma “servo de Cristo”, ela permanece sendo um título de grande humildade, representando alguém que foi comprado, possuído e dirigido por Deus. “Apóstolo de Jesus Cristo”, por outro lado, era um título de grande autoridade, que designava especialmente os Doze e Paulo, que receberam do próprio Jesus Cristo um chamado, uma comissão, uma autorização e uma capacitação sem igual, para ser seus inspirados mensageiros. Por que Paulo tomou-se escravo de Deus e apóstolo de Cristo? É isso que ele agora passa a abordar. O seu ministério relaciona-se com os eleitos de Deus, ou seja, com o povo de Deus do Novo Testamento, povo esse que está em continuidade direta com o Israel do Antigo Testamento (2.14).2 Mas há alguma incerteza entre os comentaristas quanto à correta tradução da preposição kata, literalmente, “segundo a fé dos eleitos de Deus” ( s b t b ) . Qual é a relação entre o seu apostolado e a fé dos eleitos? Paulo é um apóstolo “visto como tal” pela fé 1 Por ex„ Js 1.2; 24.29; Jr 7.25; Is 44.1.

2 Cf. Rm 8.33; Cl 3.22.


que eles tinham ( r e b ) , o u dele se esperava que “viesse a desenvolver” tal condição ( r s v ) ? É a fé dos eleitos que caracterizava o seu apostolado (como na s b t b ) , o u é o seu apostolado que lhes promovia a fé (como na n v i ) ? A mim me parece que no contexto de definição do seu apostolado, Paulo está dizendo que o seu propósito é servir à fé dos eleitos, possivelmente trazê-la à existência (“para levar os eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade conforme a piedade” - bi ); mais provavelmente, porém, promover ou nutrir a f é que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade (v. 1— ra ).

Aqui, então, se acham duas características fundamentais do povo de Deus: fé e conhecimento. Longe de ser incompatíveis, a fé e o conhecimento ou a fé e a razão, elas estão lado a lado. Aqueles que conhecem o nome de Deus são os que confiam nele.3 A base para terem fé nele é o conhecimento que têm do nome de Deus e do caráter dele, que lhes foi revelado. E confiam nele por saberem que ele é digno de toda a confiança. Consideremos, em primeiro lugar, a fé, como Paulo o faz. O povo de Deus são os crentes, “a família da fé”.4 Mas há graus na fé. Jesus falou de pessoas que tinham “pequena fé” e “grande fé”. E Paulo deu graças a Deus pela fé dos tessalonicenses, a qual crescia “cada vez mais”.5 O nosso conhecimento também tem que crescer, pois faz parte do apostolado de Paulo fazer com que ele se estenda, ou aumente. Em particular, o que ele tem em mente é o nosso conhecimento da verdade, que nos conduz à (kata, de novo) piedade ou seja, à condição de Deus estar no centro da nossa vida (eusebeia). É uma característica essencial da verdade, e um bom teste de sua autenticidade, o fato de que, tendo vindo de Deus, ela conduz a Deus. Toda doutrina que não promove a piedade obviamente é falsa. A terceira característica do povo de Deus é a esperança da vida eterna (v. 2a). Com efeito, a nossa esperança cristã é um fundamento tão firme da nossa vida cristã que o texto diz que essas duas coisas, f é e conhecimento (palavras repetidas na n v i , mas não no texto grego), nela se fundamentam (uso da preposição epi). Mas como é que a nossa esperança cristã, em contraste com todas as esperanças seculares, é tão certa, tão confiável? É porque ela tem como objeto a vida eterna (aqui, como também em 3.7, tem o sentido de sua consumação futura no céu) e porque a nossa vida eterna é algo a que o próprio Deus deu uma tríplice garantia. Primeiramente, Deus... a prometeu antes do início do tempo, porque ela faz parte do propósito eterno que ele tinha para o seu povo.6 Em segundo lugar, o Deus que fez essa promessa não mente. Nós, seres humanos, mentimos, e os cretenses eram notórios mentirosos (v. 12), mas Deus nunca mente. De fato, ele não pode mentir, porque “não pode negar-se a si mesmo”, isto é, não pode 3 Salmo 9.10.

4 Gálatas 6.10.

5 2 Tessalonicenses 1.3.

6 Veja 2 Timóteo 1.9.


contradizer o seu próprio caráter.7 Em terceiro lugar, esse mesmo Deus, que é digno de toda confiança e fez essa promessa, no devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra, por meio da pregação (kerygma) confiada a Paulo por ordem de Deus, nosso Salvador (v. 3). Desse modo, a promessa, o caráter e o evangelho de Deus, juntos, garantem a certeza da vida eterna. Podemos até mesmo admirar o entendimento que Paulo tinha do tempo e da eternidade, pois Deus fez sua promessa antes do início do tempo; ele a revelou ao mundo “no devido tempo”, através do evangelho; e ele a cumprirá quando o tempo chegar no fim. Desse modo, a pregação do evangelho por todo o mundo através do processo histórico é a ponte que faz a ligação entre a promessa do passado e o seu futuro cumprimento. Consideremos, agora, parando para refletir um pouco, o que Paulo diz sobre o seu apostolado. Seu propósito é promover e fomentar, no povo de Deus, uma nova tríade de graças cristãs - agora, não as tão familiares fé, esperança e amor, mas fé, esperança e conhecimento (pistis, elpis e gnôsis). Nós, também, embora não sejamos apóstolos, se somos chamados para a liderança na igreja, devemos ter essa mesma visão e ambição, ou seja, cultivar no povo de Deus sob nossos cuidados a f é que se apega a Deus e a seu Cristo e o conhecimento da verdade que resulta em piedade e na esperança da vida eterna, que, conquanto ainda futura, foi prometida e garantida por Deus. 2. Paulo dirige-se a Tito “Tito é a personagem mais enigmática da história do cristianismo primitivo”, escreveu Sir William Ramsay,8 acrescentando ainda, e especulando um pouco, que a omissão do nome de Tito no livro de Atos melhor se explica se ele fosse parente de Lucas, quem sabe até mesmo seu irmão.9 Sabemos que Tito era grego de nascimento10 e foi um dos convertidos de Paulo. Conseqüentemente, Paulo podia dirigir essa carta a Tito, meu verdadeirofilho, ou “meu filho legítimo” em nossa f é comum (v. 4a), isto é, “comum ... entre você, gentio, e eu, que sou judeu”; na verdade, “comum a todos os cristãos”,11 sendo a fé dos eleitos de Deus (v. 1). A primeira referência a Tito no Novo Testamento ocorre no contexto da controvérsia quanto a se os gentios convertidos tinham que ser circuncidados, além de batizados. Os judaizantes, evidentemente, estavam pressionando, querendo forçar Paulo a circuncidar Tito, que ele e Bamabé haviam levado para Jerusalém.12 Algum tempo depois, Paulo de fato circuncidou Timóteo, por causa das características daquela missão.13 Mas o caso de Tito era diferente. Agora, tratava-se de uma questão de princípios, e não de procedimentos convenientes, 7 2 Tm 2.13; cf. N m 23.19; 1 Sm 15.29; Hb 6.18. 8 St. P aul the T raveller an d the Rom an C ity (Hodder, quinta edição, 1900), p. 284. 5 Ibid., p.390.

10 Gálatas 2.3.

“ Lock, p. 128.

12 Gálatas 2.1.

13 Atos 16.1ss.


uma vez que “a verdade do evangelho” estava em jogo. Em conseqüência, “em nenhum momento nós cedemos”,14 escreveu ele, e Tito “não foi obrigado a circuncidar-se”.15 Depois disso, é provável que Tito tenha acompanhado Paulo em suas viagens missionárias. Ele chegou a ter alguma preeminência em relação à igreja de Corinto, de modo que em nossa carta de 2 Coríntios ele é mencionado nove vezes pelo nome, sempre com afeição e confiança. Paulo confiou a ele uma carta aos coríntios, que parece não ter sido nem a nossa 1 Coríntios, nem a 2 Coríntios, mas sim a epístola que tem sido referida pelos eruditos como “a terceira carta”, na qual o apóstolo repreendeu os coríntios por terem rejeitado a sua autoridade. Tendo enviado aquela carta com Tito, Paulo esperou com ansiedade qualquer notícia do seu recebimento. Ele foi a Trôade para evangelizar, e lá encontrou uma porta aberta. Mas ele não pôde aproveitar-se dela, porque, disse, “não tive sossego em meu espírito”. Como Tito ainda não tinha voltado, Paulo partiu para a Macedônia.16 Mesmo lá, ele não teve descanso,17 até que, para seu total alívio, Tito chegou de Corinto. Então, Deus o confortou, escreveu Paulo, “com a chegada de Tito”, não devido apenas ao prazer de estar com ele, mas também por causa das boas notícias trazidas sobre os coríntios: a mudança que tinha ocorrido nos sentimentos deles, seu arrependimento em relação à deslealdade anterior e por terem reacendido o seu amor por Paulo.18 Tito também tinha se alegrado e renovado. Com efeito, tudo o que Paulo havia dito de Tito aos coríntios veio a se confirmar, pois Tito, que de modo algum os explorou,19 os amou por causa da obediência deles ao apóstolo e por ter sido recebido com muito respeito, “com tem or e trem or” .20 Foi em resposta a todos esses acontecimentos que a nossa carta de 2 Coríntios veio a ser escrita. Então, o apóstolo deu a Tito uma segunda missão diplomática em Corinto. Dessa vez, era com referência à oferta que Paulo estava levantando nas igrejas gregas para benefício das igrejas mais pobres da Judéia. Tito já havia dado início a esse trabalho em sua viagem anterior. Agora, levando 2 Coríntios consigo, Paulo recomendou que ele completasse essa tarefa21, pois Deus tinha “posto no coração de Tito o mesmo cuidado” que Paulo tinha por eles, e assim Tito recebeu de bom grado a oportunidade de voltar a Corinto. Ele ia até os coríntios, Paulo escreveu, “com muito entusiasmo e por iniciativa própria”.22 Paulo o recomendou a eles chamando-o de seu “companheiro e cooperador”, e pediu-lhes que o recebessem, junto com os que iam com ele, com amor.23 Posteriormente, depois da presumida libertação de sua prisão domiciliar em Roma - ponto em que a narrativa de Atos o deixa - , Paulo retomou suas viagens missionárias. Deve ter sido durante essas viagens que ele deixou Tito em Creta 14 Gálatas 2.5 -

ntlh.

15 Gálatas 2.3 -

ntlh.

18 2 Coríntios 7.6-7.

19 2 Coríntios 12.18.

22 2 Coríntios 8.16-17.

23 2 Coríntios 8.23-24.

16 2 Coríntios 2 .12ss.

17 2 Coríntios 7.5.

20 2 Coríntios 7.13ss.

21 2 Coríntios 8.6.


(e Timóteo em Éfeso), com instruções de completar o que tinha ficado incompleto e, particularmente, com a missão de destacar presbíteros qualificados em cada cidade, com bater os falsos m estres (Tito 1.5ss), ensinar práticas de comportamento cristãs (capítulo 2) e lembrar o povo de Deus com respeito às suas mais amplas responsabilidades sociais (3.1ss). Lá pelo fim de sua carta, o apóstolo chama Tito para juntar-se a ele em Nicópolis para passar o inverno, perto da costa do Adriático, uma vez que Artemas e Tíquico tinham chegado em Creta para substituí-lo (3.11). Pode ter sido de Nicópolis ou posteriormente de Roma, que Tito foi (numa missão?) mais para o norte pelo Adriático, até a região costeira da Dalmácia.24 Nesse ponto, o Novo Testamento perde a visão de Tito, e a tradição posterior não é confiável. Mas Eusébio escreveu (em cerca de 325 A.D.) que Tito retomou a Creta para tornar-se seu primeiro bispo e lá morreu com idade bastante avançada.25 3. Paulo deseja a Tito a graça de Deus Tendo se referido a si mesmo e a Tito e tendo mencionado a sua “fé comum” (v. 4a), Paulo agora menciona o Deus que os tem unido. Ele envia a Tito a sua costumeira saudação, numa forma cristã do que era o cumprimento convencional dos gregos e hebreus: Graça (o favor de Deus, não merecido e não solicitado) e paz (a reconciliação com Deus e com o povo de Deus, o que apenas a graça pode produzir). Essas duas coisas provêm de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador (v. 4b). Vale a pena observar que no versículo 3 Paulo refere-se a Deus, nosso Salvador, e no versículo 4, a Cristo Jesus, nosso Salvador. A. T. Hanson, que tem um enorme prazer em zombar do suposto autor pseudônimo das Pastorais, declara que “esse indiscriminado uso da palavra sôtçr (salvador) sem dúvida implica numa soteriologia um tanto confusa” por parte do autor. Mas, pelo contrário, embora o Pai e o Filho tenham diferentes papéis na salvação, ambos dedicam-se a ela e ambos constituem a única fonte de onde a graça e a paz podem fluir. Não há confusão alguma aqui.

24 2 Timóteo 4.10.

25 Ecclesiastical History, 3.4.6.


Tito 1.5-16

1. A doutrina e o dever na igreja Paulo apresenta duas razões por ter deixado Tito em Creta. A primeira foi para que ele pusesse em ordem o que ainda faltava. Paulo misturou suas metá­ foras, uma vez que se põe em ordem o que não está certo, e o que ainda falta tem é que ser completado. As nossas traduções refletem essa incerteza quanto ao correto sentido de suas palavras. Segundo a i b b , Tito foi enviado para que pusesse “em boa ordem o que ainda não o está” e, segundo a j b p , “para colocar em ordem alguns assuntos que requeriam atenção”. Em particular, e também porque isso era, evidentemente, o principal assunto que ainda estava por se resolver, Paulo havia deixado Tito em Creta para constituir presbíteros em cada cidade, como eu - escreve Paulo, usando o ego da autoridade apostólica - o instruí (v. 5b). Isso porque o melhor modo de pôr em ordem e consolidar a vida da igreja é assegurar que se tenha uma supervisão pastoral conscienciosa e bem dotada. Os versículos 6-16 colocam num forte contraste os verdadeiros presbíteros que Tito deverá designar (vv. 6-9) e os falsos mestres que os presbíteros terão que silenciar (vv. 10-16). O apóstolo descreve em detalhes cada um desses grupos. 1. Os verdadeiros presbíteros (1.5-9) A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí. 6Epreciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertina­ gem ou de insubmissão. 7Por ser encarregado da obra de Deus, é neces­ sário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. 8Ao contrário, é preciso que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensa­ to, justo, consagrado, tenha domínio próprio 9e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como fo i ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela. Antes de considerar as qualificações para ser presbítero às quais o apóstolo dirige a sua maior atenção, esse parágrafo nos dá condições de fazer quatro afirmações relacionadas com a supervisão pastoral da igreja. Tanto as qualifi­


cações como essas afirmações são coincidentes com o texto de 1 Timóteo 3.1­ 13, e o leitor pode reportar-se à exposição daquela passagem. Primeiramente, o presbítero (presbyteros, v. 6) e o bispo (episkopos, v. 7) eram a mesma pessoa. Não são dois oficiais diferentes da igreja, mas as mesmas pessoas com dois títulos. A evidência disso foi resumida anteriormente, no capítulo em que tratamos de 1 Timóteo 3.1-16. É totalmente correto, portanto (em bora soe um tanto estranho), cham á-los de “presbíteros-bispos” . “Presbítero” ou “ancião” tem a conotação de destacar a sua idade, e “bispo” ou “supervisor” denota a responsabilidade de exercer uma supervisão pasto­ ral. Eles tinham diáconos para lhes darem assistência,1 mas a ocorrência de três ordens de ministros ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) pertence ao início do segundo século. Não se acha no Novo Testamento, embora o próprio Tito possa ser visto como um bispo em forma embrionária, pelo fato de ter jurisdição sobre várias igrejas em Creta e a responsabilidade de selecionar e designar pastores. Em segundo lugar, Deus pretendia que cada igreja tivesse uma equipe de supervisores, pois Tito recebeu a orientação de designar “presbíteros” em cada cidade. Isso pode significar a indicação de um presbítero para cada igreja que se reunia numa casa, presumindo que havia diversas igrejas assim consti­ tuídas em cada cidade. Mas poderia ser o caso de haver vários presbíteros em cada igreja. Nos primeiros quinze anos após a ressurreição, havia uma pluralidade de presbíteros na igreja de Jerusalém.2 Assim, o pastorado de uma só pessoa (tal como a banda musical em que um só toca todos os instrumentos) não é um modelo neotestamentário para a igreja local. E, porém, num ministério coletivo, que dá espaço para pessoas diferentes, com distintos dons e, portan­ to, com várias especializações: os que foram ordenados e os leigos, os de tempo integral e os de tempo parcial, os assalariados e os voluntários, os presbíteros e os diáconos, homens e mulheres. Em terceiro lugar, a principal função dos presbíteros-bispos era cuidar do povo de Deus, ensinando-o. No versículo 7, o supervisor é chamado de “despenseiro de Deus” ( r a ) , isto é, o que fornece o alimento na casa;3 em outras partes é chamado de “pastor”, aquele que cuida das ovelhas, que as conduz ao bom pasto. Estas são metáforas que bem caracterizam o ministério da palavra de Deus, que abrange tanto o ensino da verdade como a ação de refutar o erro (v. 9). Em quarto lugar, a seleção de presbíteros-bispos era uma responsabilidade corporativa. E verdade que Paulo disse a Tito que designasse os presbíteros, tendo estabelecido as condições para que eles fossem eleitos. Mas a ênfase na necessidade de que eles tivessem uma reputação irrepreensível indica que a congregação teria que participar do processo de seleção. Observemos que 1 1 Tm 3.8ss., cf. Fp 1.1.

2 Atos 11.30.

3 Cf. 1 Coríntios 4.1-2.


nada é dito aqui quanto a dons e a chamado (temos outras partes do Novo Testamento a esse respeito), nem quanto à ordenação (embora possamos pre­ sumir que, tal como se deu no caso de Timóteo, a ordenação envolvia a impo­ sição de mãos por outros presbíteros).4 Ao nos aproximarmos da questão da eleição para o pastorado, somos sur­ preendidos subitamente com o requisito da irrepreensibilidade, que é repetido duas vezes. E preciso que o presbítero seja irrepreensível (v. 6a); é necessário que o bispo seja irrepreensível (v. 7a). E claro que isso não quer dizer que os candidatos teriam que ser totalmente sem falhas, sem defeitos, pois nesse caso todos seriam desqualificados. A palavra grega empregada é anenklçtos, e não amômos, que significa “sem mácula”, e ocorre no Novo Testamento somente em contextos escatológicos; ou seja, ela tem em vista a nossa perfeição final.5 Anenklçtos, entretanto, não significa “sem mácula”, mas “sem culpa”, “não passível de acusação”.6 Desse modo, os candidatos ao pastorado têm de ser pessoas de “integridade inquestionável” ( j b p ) , de caráter “impecável” ( r e b ) o u quem não se possa “culpar de nada” ( n t l h ) . Parafraseando, eles não poderiam ter sido “afetados por nenhuma desgraça”;7 eles “não poderiam ter brechas para ser criticados”.8 Tudo isso reconhece que o pastorado é um ofício público e que, portanto, a reputação pública do candidato é importante. Disso decorre o requi­ sito, em muitas igrejas de hoje, de haver referências e testemunhos da pessoa e também a necessidade de um si quis, ou seja, uma declaração pública do candida­ to, seguida de uma oportunidade para a congregação poder objetá-la. Procurando estabelecer, para o candidato ao pastorado, a condição de ter uma reputação irrepreensível, Paulo especifica três esferas a ser investigadas. Essa passagem e sua exposição devem ser lidas tendo em mente o que foi dito em 1 Timóteo 3.1-13. a. Os presbíteros têm de ser irrepreensíveis em sua vida familiar e no seu casamento (1.6) “Como em 1 Timóteo”, Donald Guthrie escreve, “o lar é considerado como sendo o local em que se faz o treinamento para os líderes cristãos”.9 As espo­ sas e os filhos são mencionados. Quanto às cinco possíveis interpretações da expressão marido de uma só mulher, o leitor deve reportar-se à exposição feita anteriormente sobre 1 Timóteo 3.2. A conclusão a que lá se chegou é que não há a intenção de excluir do pastorado os que nunca se casaram, nem os que, tendo se enviuvado, casaram-se nova­ mente; mas sim excluir os que sejam polígamos e os que tenham se casado após um divórcio. De um modo mais geral e positivo, os candidatos ao ministério têm de ter uma reputação a toda prova em toda essa área de sexo e casamento. 4 1 Timóteo 4.14. 6 Ellicott, p. 184.

5 Por ex„ E f 1.4; 5.27; Fp 2.15-16; Cl 1.22; 2Pe 3.14; Jd 14; Ap 14.5. 7 Calvino, p. 358.

8 Kelly, p. 231.

9 Guthrie (1990), p. 195.


O presbítero tem de ser, também, alguém que tenha filhos crentes que não sejam, acusados de libertinagem ou de insubmissão (v.6). A palavra “libertina­ gem” traduz asôtia, que literalmente significa “não passíveis de correção” ( b a g d ). Ela “associa a idéia do esbanjador com a de uma pessoa dissoluta, como na figura do filho pródigo”.10 O pensamento de que os pais são tidos como responsáveis pela crença e pelo comportamento de seus filhos é muito sério. E os pais cristãos cujos filhos se desviam da fé ou dos princípios morais passam por uma forte dor. Contudo, a lógica é simples. Os pais que não tiveram sucesso na condução de seus próprios filhos não são merecedores de confiança quanto a conduzir a família de Deus. Esse princípio está explícito em 1 Timóteo 3.4-5 e implícito aqui no versículo 7, onde se diz que o presbítero é “despenseiro de Deus” ou, como diz a n r s v , “mordomo de Deus”. Uma extensão do mesmo princípio pode ser que não se pode esperar que os presbíteros-bispos ganhem para Cristo pessoas que eles não conhecem se não tiveram sucesso nem mesmo em relação àqueles que lhes são mais chegados: seus próprios filhos. E legítima, porém, a questão de que até que ponto a fé e a conduta dos filhos são da responsabilidade dos pais. O texto dá a entender que Paulo tem em mente os filhos quando crianças. Isso porque, embora a palavra tekna (filhos) possa referir-se à posteridade em geral11 e ocasionalmente a adultos,12 geralmente ela se refere aos filhos menores de idade (o que, é claro, varia em diferentes culturas) e que, portanto, são conside­ rados ainda sob a autoridade paterna.13 Uma aplicação adicional desse princípio pode ser considerada, especial­ mente nos casos em que os candidatos não são casados ou não têm filhos. Antes de ser aceitos num ministério de maior alcance, devem ter sido aprova­ dos num de alcance mais restrito, como, por exemplo, na Escola Dominical ou na sociedade de jovens. b. Os presbíteros têm de ser irrepreensíveis em seu caráter e em sua conduta (1.7-8) Ao descrever a irrepreensibilidade esperada de um presbítero-bispo, que é encarregado da obra de Deus, ou que é “despenseiro de Deus” ( r a ) , Paulo emprega onze termos, cinco negativos e seis positivos, os quais em grego são expressados cada um com apenas uma palavra. O pensamento principal, que se aplica a todas essas palavras e ocorre duas vezes no versículo 8, é que o pastor tem de ser “dono de si mesmo” ( r s v ) - o que a n v i traduz por sensato (sófrôn) - e alguém que tenha domínio próprio (enkratçs), sendo essa última expressão também a característica final do fruto do espírito.14 Desse modo, os candidatos 10 Simpson, p. 97; cf. Lc 15.13.

11 Por ex., em Atos 2.39. 12Porex.,

13 Por ex., E f 6.1, 4; Cl 3.20-21. 14 G1 5 .2 3 . Para uma ênfase no dom ínio próprio segundo o A n tigo Testamento, veja Pv 2 5 .2 8 ; 2 9 .1 1 .


ao pastorado têm que apresentar uma visível evidência, pelo seu comporta­ mento, de terem sido regenerados pelo Espírito Santo; de que o seu novo nascimento os tenha levado a uma nova vida; de que suas paixões decaídas acham-se sob controle; e de que o fruto do espírito, em suas nove característi­ cas, tenha ao menos começado a aparecer e a amadurecer na vida deles. Paulo apresenta, primeiro, cinco termos negativos, que se relacionam com cinco áreas de grande tentação, ou seja: orgulho, temperamento, bebida, vio­ lência e dinheiro. Expor-se a qualquer uma delas é uma condição de insalubrida­ de no oficio de um líder cristão. Todas elas desafiam a ter domínio próprio. O princípio, agora, não relaciona os candidatos ao ministério com a sua família, mas expressa que eles não podem controlar a igreja se não conseguem ter controle sobre si mesmos. Não orgulhoso significa “não teimoso, não obstinado, não arrogante” ( b a g d ) . O exercício de funções de liderança traz prestígio e poder, e os líderes são tentados a fazer mal uso dessa condição, de forma a se firmarem como tais e cedendo a tudo o que a sua vaidade exija. Nessa situação, eles não aceitam facilmente uma crítica ou um conselho. Pelo contrário, sua tendência é a de se impor sobre as pessoas, tomando-se voluntariosos e autocráticos. Não briguento (não irascível - r a ) . Orgilos significa “colérico, apimenta­ do”.15 Os pastores, com freqüência, são obrigados a ministrar a pessoas difí­ ceis, exigentes. Sua tentação é ficarem irritados e impacientes. A terceira característica negativa é não apegado ao vinho. Os pastores têm que exercer funções de caráter social, em locais onde é servido o vinho. Nem todos os pastores são totalmente abstêmios, mas todos são chamados à tem­ perança e à moderação. Não violento (a que 1 Timóteo 3.3 acrescenta a contrapartida “mas sim amável”) é mais uma característica a ser acrescentada. O dom de liderança geralmente inclui uma certa prepotência. Contudo, os pastores, cujo estilo de liderança foi aprendido com Jesus, nunca passarão por cima dos sentimentos dos outros. Eles liderarão através do exemplo e não pela força, e por um serviço prestado em humildade e não por auto-imposição. A quinta e última advertência de Paulo é quanto a não ser ávido por lucro desonesto (v. 7). O que ele está proibindo, aqui, não é tanto uma prática deso­ nesta, mas principalmente ser motivado pela cobiça. Não há nada de errado em terem os mestres cristãos o seu suporte financeiro, dado por aqueles a quem ensinam,16 mas não é certo explorar essa situação tendo amor pelo dinheiro.17 A motivação dos pastores deve ser o serviço em si, e não a cobiça.18 Depois dos aspectos negativos, vêm as virtudes; depois dos cinco pontos negativos, vêm seis positivos, que são bastante auto-explicativos. Um presbítero-bispo tem que ser hospitaleiro, recebendo em sua casa e acolhendo 15 Simpson, p. 98.

16 Por ex., Gálatas 6.6.

11 Cf. 1 Timóteo 6.5.

18 1 Pedro 5.2.


bem tanto membros da igreja como visitantes; tem que ser alguém que seja amigo do bem, que pratique muita caridade e dê apoio a toda boa causa; al­ guém que seja sensato (sóbrio - ra), tendo a capacidade de julgar com sobrie­ dade e sensibilidade (sôfrôn) e vivendo um estilo de vida disciplinado; alguém que seja justo (dikaios) em seu trato com as pessoas; e seja consagrado ou piedoso ( r a ) , o u ainda santo ( s b t b ) (hosios) perante Deus; que tenha domínio próprio (v. 8). Essa referência ao domínio próprio (enkrateia) vem no fim da lista de virtudes cristãs, tal como acontece no fruto do Espírito, sendo o autocontrole um clímax apropriado, cobrindo tudo o mais que o precedeu. c. Os presbíteros têm de ser íntegros na doutrina ortodoxa (1.9) No versículo 9, o apóstolo prossegue, no que diz respeito às qualificações para o pastorado - depois de ter abordado os aspectos de sua casa e família, de seu caráter e conduta - , considerando a necessidade de se apegarem à verdade. O presbítero tem de se apegarfirmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, ... (v. 9a). Essa mensagem (logos, sendo uma palavra de Deus) é carac­ terizada de dois modos. Primeiramente, ela é fiel (pistos). E confiável por ser verdadeira e é verdadeira por ser a palavra de Deus, que nunca mente (v. 2). Em segundo lugar, ela é (literalmente) “de acordo com a didachç”, ou seja, é segun­ do “o ensino” dos apóstolos.19 Isso constituía um conjunto de instruções bem definidas, que em Romanos Paulo se refere como sendo “a forma de ensino que lhes foi transmitida”20 e “o ensino que vocês têm recebido”;21 mas nas Pastorais, alternadamente, Paulo designa como ensino (cf. v. 9; 2.1),22 “fé” (v. 13),23 “verda­ de” (v. 14)24 e “depósito”.25 Isso agora nos foi legado no Novo Testamento. A esse ensino apostólico, confiável, os candidatos ao pastorado têm que se apegar firmemente e nunca dele se afastar.26 Por quê? Porque dele precisarão fazer uso em seu ministério de ensino. E que forma o seu ensino terá? Terá dois aspectos complementares, ou seja, encorajar (admoestar na - e c ) outros pela sã doutrina e refutar os que se opõem a ela (v. 9b). “Refutar” não é apenas contradizer os oponentes, mas vencê-los pela argumentação. Entretanto, ne­ nhum desses ministérios (instruir e refutar) será possível, a menos que os pastores se mantenham firmes na sólida palavra dos apóstolos. Está claro, de tudo isso, que os presbíteros-bispos são chamados essencial­ mente para um ministério de mestre, que necessita tanto do dom de ensino (didaktikos)27 como de ser leal à “mensagem”, isto é, à mensagem dos apóstolos (a didachç, v. 9). Somente se eles forem didaktikos na comunicação da didachç é 19 Cf. Atos 2.42. Quanto a essa dupla confiabilidade (tanto da mensagem com o do mensageiro), veja ainda 2 Tm 2.2. 20 Romanos 6.17.

21 Romanos 16.17.

23 1 Tim óteo 3.9; 4.1.

24 1 Tm 2.4; 3.15; 4.3; 6.21.

25 1 Tm 6.20; 2 Tm 1.12, 14, literalmente.

22 1 Tm 1.10; 2 Tm 1.13; 2.2; 3.10. 26 Cf. 2 Ts 2.15.

27 1 Timóteo 3.2.


que terão condições de instruir e exortar as pessoas na verdade, como também de apontar, contradizer e acabar com todo erro. Esse aspecto negativo do ministério de ensino não está particularmente em moda, hoje em dia. Mas como ele fez parte do ministério do nosso Senhor Jesus e também do ministério dos apóstolos, que alertaram quanto aos falsos mestres e os denunciaram, de igual modo nós não podemos deixá-lo de lado. E porque muitos têm deixado de combater o falso ensino que há tanta confusão doutrinária prevalecendo em muitas igrejas atualmente. Calvino compreendeu perfeitamente essa dupla natureza do ministério de ensino. Eis uma parte do que ele comentou sobre o versículo 9: “O pastor precisa ter duas vozes, uma para ajuntar as ovelhas e outra para afastar os lobos e os ladrões. As Escrituras lhe dão o meio de fazer essas duas coisas, e aquele que dela recebeu um ensino sadio terá condições tanto de instruir aqueles que são ensináveis como de refutar os inimigos da verdade. Paulo observa essas duas formas de usar as Escrituras quando diz que tinha que exortar e convencer os contraditores.”28 Tendo dado uma descrição ideal dos verdadeiros presbíteros, citando três aspectos em relação aos quais eles têm de ser irrepreensíveis (vv. 5-9), Paulo agora, num contraste, passa a descrever os falsos mestres (vv. 10-16). 2. Os falsos mestres (1.10-16) Os dois parágrafos do capítulo 1 (versículos 5-9 e 10-16) acham-se ligados pela conjunção gar, “pois” ou “porque” ( r a ). A razão pela qual Tito tem que designar presbíteros em cada cidade, levando em conta que eles atendem aos requisitos estabelecidos por Paulo, é que há muitos falsos mestres que estão desencaminhando as pessoas. Isso quer dizer que, quando os falsos mestres proliferam, a estratégia de longo prazo mais apropriada é multiplicar o número de verdadeiros mestres, preparados para contradizer e refutar todo erro. Temos que nos convencer de que isso é possível. Um exemplo de como o falso ensino pode ser completamente vencido por meio de um bom ensino pode ser visto na vida de J. B. Lightfoot, que foi professor de divindade na Universidade de Cambridge a partir de 1861 e bispo de Durham a partir de 1879. A publicação de um livro anônimo intitulado Supernatural Religion (Religião Sobrenatural) irritou muita gente, por causa de um vigoroso ataque à credibilidade dos pais da igreja primitiva. Elogiado pelos críticos, o livro rapidamente teve várias edições. Mas Lightfoot, numa série de ensaios no Contemporary Review, entre 1874 e 1877, expôs de forma tão completa todos os erros daquele livro, demolindo seus argumentos, que, segundo um livreiro, antes de a série de seus artigos se completar “o livro ficou


encalhado no mercado de usados”.29 Isso porque “diante de toda a crítica feita por Lightfoot, em busca da verdade, a base que sustentava aquele livro foi total­ mente destruída”.30 Seus artigos revelam as melhores qualidades de Lightfoot “sua paciente investigação dos fatos, sua escrupulosa justiça, sua generosidade diante de um oponente e, acima de tudo, sua total dedicação de lealdade a Cris­ to”.31 Que Deus nos dê pessoas capazes, desse calibre, em nossos dias! Pois há muitos insubordinados, que não passam de faladores e engana­ dores, especialmente os do grupo da circuncisão. "E necessário que eles sejam silenciados, pois estão arruinando famílias inteiras, ensi­ nando coisas que não devem, e tudo por ganância. 12Um dos seus pró­ prios profetas chegou a dizer: ‘Cretenses, sempre mentirosos, feras ma­ lignas, glutões preguiçosos’. I3Tal testemunho é verdadeiro. Portanto, repreenda-os severamente, para que sejam sadios na f é 14e não dêem atenção a lendas judaicas nem a mandamentos de homens que rejeitam a verdade. ISPara os puros, todas as coisas são puras; mas para os impuros e descrentes, nada é puro. De fato, tanto a mente como a cons­ ciência deles estão corrompidas. ,6Eles afirmam que conhecem a Deus, m as p o r seus atos o negam; são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra. Nesse parágrafo, Paulo alerta Tito quanto à identidade, a influência, o cará­ ter e os erros dos falsos mestres. a. Sua identidade (1.10) Primeiramente, Paulo refere-se a eles com a expressão muitos insubordina­ dos. O adjetivo é anypotaktos, que significa “insubordinado”. Diferentemente dos fiéis presbíteros, que devem apegar-se “firmemente à mensagem fiel”, os falsos mestres recusam-se a submeter-se a ela. Além disso, eles não passam de faladores (mataiologoi, como em 1 Timóteo 1.6, provedores de “palavras vazi­ as e infrutíferas”, b a g d ) . Seu ensino é desprovido de um conteúdo saudável. Pior do que isso, eles são enganadores. Sua palavra não apenas deixa de edificar; ela de fato leva ao erro. E, de um modo especial, Paulo está se referindo aos que são do grupo da circuncisão.32 Assim, os falsos mestres eram judeus 29 George R. Eden e F. C. Macdonald (eds.), Lightfoot ofD urham : M em ories and Appreciations (Cambridge U niversity Press, 1932), p. 10. 30 Ibid., p.155. 31 Ibid. 32 Alguns comentaristas, recentemente, referiram-se à pesquisa feita por T. C. Skeat (veja a nota 38 do capítulo de 1 Timóteo 5.3 - 6.2), na qual ele argumenta que m alista não sign ifica “especialm ente”, mas “isto é ”, ou “em outras palavras”. Veja Knight (1992), p. 297. Conseqüentemente, em Tito 1.10 ela não quer dizer que entre os enganadores o grupo de judeus era predominante, mas que os enganadores a respeito de quem Paulo estava escrevendo constituíam aquele grupo de judeus. Veja Fee (1988), p. 183.


- não os judaizantes, que argumentavam ser a circuncisão necessária para a salvação33, mas um grupo de judeus que tinha obsessão por “lendas judaicas” (v. 14) e por “mitos e genealogias intermináveis”.34 Há outros paralelos entre Tito 1.9-14 e 1 Timóteo 1.4-10. Essas duas passagens chamam os falsos mestres de “mentirosos” (v. 12; lTm 1.10), de “insubordinados” (v. 10; lTm 1.9), e ambas dizem que o seu ensino é caracterizado por discussões inúteis (vv. 10-14; lTm 1.6) e que se desviam da verdade apostólica (v. 11; lTm 1.3). b. Sua influência (1.11) É necessário que eles sejam silenciados, escreve Paulo (“aos quais convém tapar a boca” - a r c ) o u , ainda, que “sejam amordaçados” ( r e b ). Uma política de laissez-faire não vai funcionar. É preciso tomar uma atitude para fazê-los parar de ensinar (não é dito se por meio da argumentação ou pela disciplina) porque eles estão sendo cada vez mais influentes. Não apenas algumas pessoas estão sendo enganadas; esses enganadores estão arruinando famílias inteiras (igre­ jas que se reuniam em casas?), ensinando coisas que não devem (v. 11a). Além disso, se isso não bastasse, eles têm uma segunda intenção, ou seja, agem por ganância (v. 11b), uma avareza da qual todo verdadeiro mestre tem de se libertar (v. 7). c. Seu caráter (1.12-14a) A menção à sua “torpe ganância” ( r a ) leva Paulo a falar mais do caráter deles, ou melhor, a chamar a atenção para a reputação que eles tinham: Um dos seus próprios profetas chegou a dizer: Cretenses, sempre mentirosos, feras malignas, glutões preguiçosos (v. 12). Alguns pais da igreja, tais como Clemen­ te da Alexandria, Jerônimo, Crisóstomo e Agostinho, identificaram o autor da­ quela frase como tendo sido o mestre cretense do século sexto a.C., Epimênides de Cnossos, que foi tido em alta honra por seus compatriotas na condição de profeta e operador de milagres. Seu tríplice conceito quanto ao caráter cretense era sem dúvida infamatório, mas parece ter havido alguma confirmação a res­ peito. Quanto a terem eles sido caracterizados por ser mentirosos, os gregos incorporaram tanto o verbo krçtizô com o sentido de “mentir” ou “falsear” como o substantivo krçtismos para significar falsidade. Quanto a serem feras terríveis ( r a ) ou “animais selvagens” ( n t l h ), o próprio Epimênides foi além e jocosamente disse que a ausência de feras selvagens na ilha era suprida por seus habitantes humanos.35 Quanto a glutões preguiçosos, juntando voraci­ dade com preguiça, sua avidez era notória, de modo que Polybius pôde dizer: “A avidez e a avareza são tão nativas no solo de Creta, que o seu povo é o único do mundo para quem todo tipo de ganância não implica em nada vergonho­ so” .36 Simpson considera que Paulo estava escrevendo “com uma certa satis­ 33 Por ex., Atos 15.1.

34 1 Timóteo 1.4.

35 Odea, p. 61.

36 Citado em Barclay, p. 242.


fação e ironia”, porque considerava que os cfetenses estavam “nas garras de um dilema”, isto é, tinham duas alternativas que não lhes eram favoráveis. Se concordassem com a afirmação do seu profeta, eles estariam se condenando a si mesmos; se a repudiassem, estariam considerando-o mentiroso, tal como ele tinha dito que eles eram!37 Tal testemunho é verdadeiro, acrescentou Paulo (v. 13a), reconhecendo assim que “toda verdade procede de Deus”,38 qualquer que seja a sua fonte. Mas será que Paulo realmente aceitou essa generalização feita em relação ao caráter do povo de Creta? A consciência cristã não se sente nada confortável diante de estereótipos assim. Lembremo-nos, ainda, de que Paulo acreditava no poder do evangelho para mudar as pessoas;39de que alguns dos cretenses receberam o Espírito Santo em Jerusalém, no dia de Pentecostes, o que lhes mudou a vida;40 e, ainda, de que os presbíteros que Tito estava para designar (vv. 5-9) eram cretenses e com certeza não eram mentirosos, mas mestres da verdade. Parece, então, que Paulo estava aplicando aquela expressão de Epimênides aos falsos mestres e suas vítimas, e não a todos os cretenses, indiscriminadamente. A responsabilidade de Tito quanto àqueles que desvirtuavam a verdade era no sentido de repreendê-los severamente, para que sejam sadios na f é (v. 13b) e não dêem atenção a lendas judaicas nem a mandamentos de homens que rejeitam a verdade (v. 14). Observamos o propósito saudável de toda repreen­ são verdadeiramente cristã. O objetivo de Paulo não era humilhar os cretenses por serem crédulos, mas tirá-los do erro e firmá-los na verdade. d. Os erros deles (1.14b-16) Nesses versículos finais do capítulo 1, Paulo expõe os principais erros dos falsos mestres e seus discípulos. Em primeiro lugar, eles dão atenção a “mandamentos de homens” (v. 14b). A versão n e b destaca a importância das palavras “de homens”, entendendo que a ênfase é na origem humana daqueles mandamentos, pois diz: “mandamentos de origem meramente humana”. A n t l h também expressa essa idéia: “parem de dar atenção a ... ensinamentos humanos que vêm de pessoas que rejeitam a verdade”. Não podemos deixar de constatar que essas palavras são um eco do que Deus disse de Jerusalém: “a adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens” .41 O próprio Senhor Jesus citou esse versículo no debate que teve com os fariseus, acusando-os de negligenciar os “mandamen­ tos de Deus” e apegando-se “às tradições dos homens”.42 Paulo citou-o tam­ bém em relação aos colossenses,43 tal como em relação aos cretenses. O primei­ ro e principal erro é obedecer aos mandamentos de seres humanos que rejeitam 37 Simpson, p. 100.

38 Calvino, p. 364.

41 Isaías 29.13.

42 Marcos 7.7-8.

35 Cf. Rm 1.16; 1 Co 6.11. 43 Colossenses 2.22.

40 Atos 2.11.


a verdade de Deus; em outras palavras, é abandonar a revelação divina, subs­ tituindo-a por opiniões humanas. Em segundo lugar, eles têm uma falsa compreensão do que seja a pureza. Assim como os fariseus, eles dão valor à pureza aparente e ritual, acima da verdadeira pureza interior, moral.44 Não se trata apenas de que a pureza interior e espiritual é primordial (“Bem-aventurados os puros de coração”).45 Mas bas­ ta que nos purifiquemos em nosso interior, disse Jesus, “que tudo ... ficará limpo”.46 Assim, Paulo escreve: Para os puros, todas as coisas são puras (v. 15a); inclusive, é claro, são puras as boas dádivas do casamento e do alimen­ to,47 recebidas do Criador. Mas para os impuros e descrentes, nada épuro. De fato, tanto a mente (o que eles crêem) como a consciência (o que eles acham que são capazes de fazer) deles estão corrompidas (v. 15b). Em terceiro lugar, eles afirmam que conhecem a Deus, vangloriando-se de sua gnôsis, mas por seus atos o negam (v. 16a). Isto é, há uma enorme dicotomia entre o que dizem e o que são, entre suas palavras e seus atos. Geralmente as afirmações e as negações são opostas entre si, sendo mutuamente exclusi­ vas. Não podemos afirmar aquilo que negamos, nem negar o que afirmamos. Fazer isso é, no mínimo, a essência da hipocrisia, porque desse modo profes­ samos Deus com palavras e o negamos com nossos atos. Isso é um ritual desprovido de realidade; é ter a aparência sem o poder;48 declarações sem caráter; fé sem obras. Esses três aspectos com respeito aos falsos mestres e seus discípulos cons­ tituem três testes que podem ser aplicados a qualquer sistema. Temos que fazer três perguntas. Primeira: sua origem é divina ou humana, é uma revelação ou uma tradição? Segunda: sua essência é interior ou exterior, é espiritual ou ritu­ al? Terceiro: seus efeitos são uma vida transformada ou simplesmente uma crença formal? A verdadeira religião é divina em sua origem, espiritual em sua essência e moral em seus efeitos. Finalmente, esses falsos mestres e seus discípulos, de quem Paulo está falando sucintamente, são detestáveis (pois seus princípios provocam uma certa repugnância no povo de Deus), desobedientes (não dão importância à palavra de Deus) e desqualificados para qualquer boa obra (v. 16b). Dessas três colocações incisivas, talvez a segunda seja a mais importante, pois o tema da desobediência é abordado em todo o capítulo. O filho de um pastor não pode ser desobediente nem insubordinado (v. 6). Mas, agora, essa mesma pa­ lavra grega (anypotaktos) é empregada com respeito aos falsos mestres. Eles são chamados de “insubordinados” no versículo 10. Uma palavra semelhante descreve os cretenses que induziam ao erro (v. 16). J. B. Phillips traduz o versículo 16 do seguinte modo: “Pois há m uitos... que não reconhecem autoridade”. São 44 Marcos 7.15.

45 Mateus 5.8.

47 1 Tm 4.1 ss; Mc 7.19; Rm 14.20.

^ Lucas 11.41. 2 Timóteo 3.5.


desobedientes, insubordinados, rebeldes - escreve Paulo. É uma linguagem muito forte. Mas, no frigir dos ovos, a grande questão com que a igreja se depara é: Existe uma revelação divina? Admitimos que a verdade, tendo sido revelada por Deus, tem como conseqüência obrigatória autoridade sobre nós? Estamos prontos para nos submeter a ela, isto é, a Deus, em humildade de fé e obediên­ cia? Ou será que somos suficientemente agressivos e autoconfiantes, tal como crianças rebeldes, rejeitando a autoridade de Deus? Uma revelação com autori­ dade - escreveu Harry Blamires - deixa-nos com apenas duas alternativas: “ou nos curvarmos a ela ou virarmos as costas para ela”.49 Fazendo uma retrospectiva desse capítulo, tendo agora o contexto da igreja contemporânea, há ainda duas lições mais importantes que precisamos aprender. Primeira: copiemos a estratégia de Paulo. Ele estava profundamente preo­ cupado com a possibilidade de o falso ensino tornar-se predominante nas igrejas. Ele aborda esse ponto em todas as suas cartas. As Pastorais estão cheias de alusões aos enganadores, aos que desencaminham as pessoas, aos que são presunçosos, aos especuladores, aos que gostam de controvérsias e causam divisões e aos mentirosos hipócritas. A questão é: como foi que Paulo reagiu diante dessa situação tão preocupante? Qual foi sua estratégia, diante da propagação dos falsos ensinos? Ele recusou-se a submeter-se a essa situação com uma fraca postura de defe­ sa. Não ficou inerte nem silencioso, tendo em vista que todo o mundo tem o direito de ter sua própria opinião. Ele não se exonerou da igreja, crendo que a situação fosse irremediável. Não. Paulo não foi nem pessimista, nem pluralista, nem alguém que promovesse divisões. Assim, qual foi a sua estratégia para combater o bom combate da fé? Sua estratégia foi: quando os falsos mestres aumentam, multipliquemos os verdadeiros mestres. Tito tinha que designar presbíteros em cada cidade (v. 5), pessoas que se apegariam totalmente à palavra de Deus, que é plenamente confiável; pessoas que a ensinariam com fidelidade e refutariam os que se opusessem a ela (v. 9). Por quê? Porque havia muitos insu­ bordinados e enganadores (v. 10). Assim, quanto maior for o número de falsos mestres, um número maior ainda de verdadeiros mestres se faz necessário. E por isso que a principal instituição da igreja é o seminário ou faculdade teológica. Em cada país, a igreja reflete o que são seus seminários. Todos os futuros pastores e mestres da igreja passam pelo seminário. É ali que eles se formam ou “se estragam”, é ali que recebem toda a sua bagagem para a vida ministerial e são inspirados, ou são afetados negativamente. Portanto, importa que os seminários de todo o mundo se firmem na fé evangélica, tenham um nível acadêmico excelente e se pautem pela piedade pessoal. Não há melhor estratégia do que essa para a reforma e a renovação da igreja.


Em segundo lugar, mantenhamos os padrões estabelecidos por Paulo. Quando há falta de pastores, a tentação é baixar os padrões de aceitação, admitindo e ordenando quem quer que apareça, mesmo quem não tenha um bom testemunho de vida familiar, de comportamento ou doutrina. Praticamente todas as igrejas têm os seus procedimentos de seleção. Mas nem sempre se­ guem os padrões apostólicos. Pelo contrário, em algumas igrejas hoje não há mais barreira alguma para se ordenar alguém que tenha uma pública reputação de falta de integridade cristã e de inconsistência entre a sua vida e a sua fé; ou alguém que tenha se divorciado e casado de novo (e, às vezes, até mais de uma vez); ou alguém que seja um homossexual assumido; ou alguém cujos filhos sejam descrentes e indisciplinados; ou alguém que tenha um sério desvio de caráter ou conduta; ou alguém que mantenha posições teológicas liberais, com bem pouco respeito à autoridade das Escrituras. Chega às raias do escândalo que, mesmo desafiando o ensino apostólico, tais pessoas sejam recomendadas e aceitas para ser ordenadas. Portanto, façamos o que pudermos para seguir a estratégia de Paulo e manter os seus padrões. A igreja estará numa condição bem mais saudável se assim procedermos.


Tito 2.1-15

2. A doutrina e o dever no lar Sendo racionais como somos na condição de seres humanos, uma vez que Deus nos criou à sua própria imagem, temos que saber não apenas como devemos nos comportar, mas também por quê. E certo que precisamos receber instruções sobre como devemos ser, mas também necessitamos de incentivos. Assim, como deve ser a conduta cristã? No que ela se fundamenta? Essas duas questões relacionam-se entre si, e Tito 2 é um texto que aborda muito bem esse duplo tema. Tendo tratado das atividades dos falsos mestres, Paulo passa agora a considerar as responsabilidades de Tito como um verdadeiro mestre. De fato, as palavras iniciais do capítulo são sy de, que a n v i traduz como “você, porém”, enfatizando a tarefa que competia a Tito, em contraste com o que eles faziam. Essas duas palavras ocorrem cinco vezes nas Cartas Pastorais1 e expressam o chamado, que é tão familiar ao povo de Deus, para que seja diferente dos demais, destacando-se da cultura prevalecente. No caso, é para que Tito se comporte de um modo totalmente diferente dos falsos mestres. Eles afirmavam conhecer a Deus, mas o negavam por seus atos (1.16). Eles não praticavam o que pregavam. Com Tito, entretanto, não era para haver dicotomia alguma entre o seu ensino e o seu comportamento. “Você, porém,” - Paulo escreve - “/a/e o que está de acordo com a sã doutrina” (v. 1). Essa sucinta frase mostra que há dois pontos principais no ensino de Tito que ele não pode deixar de apresentar. Por um lado, há a “sã doutrina”, e o artigo definido mais uma vez implica um conjunto muito bem definido de ensinamentos que Paulo tem em mente. Por outro, há “coisas de acordo” com essa doutrina, a saber, os deveres éticos que são exigidos pela sã doutrina. A palavra “sã” traduz hygiainousç, particípio presente do verbo higiainô, “estar saudável”. O adjetivo de mesma raiz hygiçs (que nos faz lembrar da nossa palavra “higiene”) também significa “saudável” ou “são”. Essa palavra é, com freqüência, usada nos evangelhos com respeito a pessoas que, tendo sido curadas de algum defeito físico ou de alguma incapacidade, agora estão “totalmente sadias”, com todos os seus órgãos e faculdades funcionando normalmente. Por exemplo, o adjetivo é usado com esse sentido no caso da mulher que tinha uma hemorragia, no caso do paralítico do tanque de Betesda, 1 Tt 2.1; 1 Tm 6.11; 2 Tm 3.10, 14; 4.5.


e ainda no caso do coxo de nascença, às portas do templo de Jerusalém, depois de terem sido curados.2 Nas Pastorais, entretanto, esse adjetivo é aplicado diversas vezes à doutrina cristã,3 que é “sã” e “sadia”, em contraste com o ensino “doentio” dos enganadores (nosôn).4 Além disso, a doutrina cristã é saudável do mesmo modo como o corpo humano é saudável, pois a doutrina cristã assemelha-se ao corpo humano. É um bem ordenado sistema contendo diferentes partes que se relacionam entre si e que, juntas, constituem um harmonioso conjunto. Portanto, se a nossa teologia está mutilada (faltando nela algumas partes) ou enferma (com partes contaminadas), então ela não está “sã”, não está “saudável”. O que Paulo quer dizer com a expressão “sã doutrina” é, então o que em outra parte ele se referiu como “todo o desígnio de Deus,”5 a plenitude da revelação divina. Além da “sã doutrina”, Tito tem que ensinar “o que está de acordo” com ela, ou “o que convém” ( r a ) a ela, ou seja, as práticas que dela decorrem. Isso porque há um indestrutível elo que liga a doutrina cristã com as práticas cristãs, a teologia com a ética. Prosseguindo, o próprio Paulo faz o que estava dizendo para Tito fazer. Primeiro, elabora um resumo de algumas instruções éticas bem detalhadas que Tito teria que transmitir para diferentes grupos nas igrejas cretenses (vv. 2-10), e depois apresenta as sãs doutrinas que dão base a essas práticas, em particular as doutrinas sobre as duas vindas de Cristo (vv. 11-14). Tito não foi a única pessoa a receber essa dupla incumbência. Ainda hoje, os pastores e mestres cristãos são chamados, em primeiro lugar, a ensinar tanto doutrina como ética; e, em segundo, a ensinar como essas duas se interrelacionam, mostrando como se casam muito bem. Em terceiro lugar, são chamados a ensinar como a responsabilidade relaciona-se com a doutrina, não apresentando apenas princípios de ordem geral, mas entrando em aplicações bem detalhadas. É desse modo que Paulo prossegue, dizendo o que Tito tem de fazer. Não é para ele satisfazer-se com abstrações ou generalizações. Pelo contrário, o que deve fazer é estabelecer algumas responsabilidades bem concretas e específicas. Paulo menciona seis categorias de pessoas, segundo a idade, o sexo e a ocupação, mais ou menos como fez em 1 Timóteo 5.1-2; e destaca, para cada categoria, algumas qualidades que lhes são apropriadas. Muitos comentaristas referem-se ao que se segue como “deveres do lar”, ou “regras domésticas”, porque há um paralelismo com os preceitos da ética secular destinados às famílias. Mas o ensino paulino está bem longe de ser uma simples imitação de tais preceitos. Ele os adapta a seus propósitos e os cristianiza. Contudo, seu enfoque principal acha-se nos relacionamentos cristãos no lar. 2 M c 5.34; Jo 5.9; A t 4.10. 3 Por ex.: ITm 1.10; 6.3; 2Tm 1.13; 4.3; Tt 1.9; 2,1, 8. 4 ITm 6.4; cf. 2Tm 2.17.

5 Atos 20.27

ra

.


Além disso, tal como se deu com os candidatos ao pastorado (1.6ss.), também aqui, com esses relacionam entos no lar, a ênfase está no autocontrole (versículos 2 ,4 ,5 ,6 ,1 2 ). 1. Os deveres éticos (2.1-10) Você, porém, fale o que está de acordo com a sã doutrina. 2Ensine os homens mais velhos a serem moderados, dignos de respeito, sensatos e sadios na fé, no amor e na perseverança. 3Semelhantemente, ensine as mulheres mais velhas a serem reverentes na sua maneira de viver, a não serem caluniadoras nem escravizadas a muito vinho, mas a serem capazes de ensinar o que é bom. 4Assim, pode­ rão orientar as mulheres mais jovens a amarem seu marido e seus filhos, 5a serem prudentes e puras, a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seu marido, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada. 6Da mesma maneira, encoraje os jovens a serem prudentes. 7Em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras. Em seu ensino, mostre integridade e seriedade; 8use linguagem sadia, contra a qual nada se possa dizer, para que aqueles que se opõem a você fiquem envergonhados por não poderem falar mal de nós. 9Ensine os escravos a se submeterem em tudo a seus senhores, a procu­ rarem agradá-los, a não serem respondões e "’a não roubá-los, mas a mostrarem que são inteiramente dignos de confiança, para que assim tomem atraente, em tudo, o ensino de Deus, nosso Salvador. a. Os homens mais velhos (2.2) A primeira atenção de Tito deverá ser para com aqueles a quem Simpson chama de “as ovelhas de barba branca”.6 Eles necessitam de um conselho e de um encorajamento que lhes sejam específicos, pois, como Crisóstomo afirma, “há certos erros de conduta que são decorrentes da idade, e que, portanto, os jovens não têm. Algumas falhas, de fato, são comuns à idade avançada e aos jovens, mas para os idosos há ainda, em acréscimo, uma vagareza, uma timidez, um esquecimento, uma insensibilidade e uma certa irritação”.7 Aos idosos deverão ser feitas duas exortações em especial, que poderão ser resumidas com as palavras “dignidade” e “maturidade”. Quanto à primeira, os homens mais velhos devem ser moderados, dignos de respeito, sensatos (v. 2a). Ou seja, eles devem demonstrar uma certa solenidade, que é tanto apropriada à sua condição de terem mais idade como também é indicativa do autocontrole em seu interior.


Em segundo lugar, o que se espera é que o idoso seja sadio ou maduro em todo aspecto do seu caráter, especialmente com respeito às três virtudes cristãs principais, isto é, na fé (confiando em Deus), no amor (servindo aos outros) e na perseverança (esperando com paciência o cumprimento de sua esperança cristã). b. As mulheres mais velhas (2.3-4a) De igual modo, prossegue Paulo, dando a entender haver um paralelismo, Tito deve ensinar as mulheres mais velhas. Três áreas de conduta cristã são escolhidas para elas. A primeira é que elas devem ser reverentes na sua maneira de viver. A palavra grega para “reverente” é hieroprepçs, que ocorre apenas aqui, no Novo Testamento. Seu sentido pode ser tanto “aquilo que é próprio de uma pessoa, ou coisa, que seja santa” ou, mais especificamente, “tal como um sacerdote (no caso, tal como uma sacerdotisa)” ( b a g d ). Possivelmente, Lock tem razão ao sugerir que as mulheres idosas “devem ter, em sua vida diária, a conduta de uma sacerdotisa num templo”.8 Ou, como poderíamos dizer, compete a elas “ficar na presença de Deus” e permitir que a sensação da sua presença permeie toda a sua vida. Em segundo lugar, as mulheres mais velhas devem esforçar-se por evitar dois pontos negativos com os quais às vezes elas têm sido associadas. Elas não devem ser caluniadoras (falando mal pelas costas, boateiras) nem escravizadas a muito vinho. Em terceiro lugar, e agora dizendo o que devem fazer e não o que não devem, em vez de usarem a boca para caluniar, elas devem empregá-la para ensinar o que é bom (v. 3b). A quem devem ensinar? A seus próprios familiares, sem dúvida (aos filhos e netos), mas também, e de modo especial, orientando as mulheres mais jovens ... (v. 4a). É para se notar que - embora Tito fosse designado para ensinar aos homens idosos, às mulheres idosas (vv. 2,3) e, posteriormente (no v. 6), aos jovens (rapazes) - são as mulheres mais velhas que receberam o encargo de ensinar às jovens (mulheres). Essa orientação faz sentido especialmente quando o presbítero-bispo é solteiro, mas é também uma postura sábia no caso de ele ser casado. Há uma grande necessidade, em toda congregação, do ministério de mulheres maduras, a quem o Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana chama de “matronas santas e piedosas”. Elas podem compartilhar às novas gerações a visão e a experiência que têm, podem preparar as noivas para o casamento e posteriormente orientá-las quanto à questão de ter filhos. c. As mulheres jovens (2.4b-5) As mulheres jovens devem ser instruídas pelas mulheres mais velhas a amarem seu marido e seus filhos (v. 4b). Uma vez que as duas palavras gregas


usadas no texto incluem o termo que se refere a “amar”, essa repetição deveria ser preservada na tradução, por exemplo, assim: “a amarem seu marido, a amarem seus filhos” ( s b t b ) . Assim, o amor é a primeira e a mais importante base do casamento - não tanto o amor emocional e passional, e muito menos o do erotismo, mas sim o amor sacrificial e serviçal. As jovens esposas devem ser “orientadas” nesse sentido, o que significa que esse amor pode ficar sob seu controle. As mulheres jovens também devem ser instruídas a serem prudentes e puras, e a estarem ocupadas em casa. A tradução da s b t b “boas donas de casa” não está correta. Ela traduz o termo grego oikouroi, no lugar do melhor oikourgoi, que outras versões seguem9 e significa “trabalhando em casa” ( b a g d ) . Mas também não seria legítimo tomar esse versículo como base para estabelecer a condição de ter que permanecer em casa como um estereótipo para todas as mulheres, ou para proibir as esposas de terem uma atividade profissional. O que de fato é afirmado é que a mulher que aceita a vocação do casamento e tem marido e filhos deve amá-los, e não negligenciá-los. A expressão usada por J. B . Phillips “amar seu lar” resume muito bem o que Paulo tem em mente. Ele está se opondo não a que a mulher tenha uma profissão, mas sim ao fato tão corriqueiro de se tomar ociosa e ficar indo de casa em casa.10 Em seguida, as mulheres jovens devem ser bondosas e sujeitas a seu marido... Essa “sujeição” não contém um sentido de inferioridade e não é uma exigência de obediência, mas de fato expressa o reconhecimento de que, em meio ao igual valor dos dois sexos, Deus estabeleceu na criação uma ordem que inclui a liderança masculina, não de autoridade e muito menos de autocracia, mas de responsabilidade e tratamento com amor. E uma das razões pelas quais as mulheres jovens devem ser encorajadas a se submeter a esse ensino é para que a palavra de Deus não seja difamada (v. 5b). Os casamentos cristãos e os lares cristãos que demonstram ter uma combinação de igualdade sexual com complementaridade projetam uma bela imagem do cristianismo; os que deixam a desejar em relação a esse ideal fazem com que ele fique desacreditado. d. Os homens jovens , 2-6) Da mesma maneira - continua Paulo, percebendo um paralelismo entre os homens e as mulheres jovens, no que se refere ao autocontrole que de ambos se espera - encoraje os jovens a serem prudentes ou moderados ( i b b , s b t b ) ( v . 6). Desse modo, os jovens do sexo masculino devem ser incentivados a desenvolver apenas uma única qualidade, a do domínio próprio. “Nessa palavra que tem um conteúdo tão rico” - comenta o Bispo Ellicott - “o dever de um jovem do sexo masculino é anunciado de um modo simples, mas extensivo.”11 9 Metzger, p. 654.

10 lT m 5.13; Tt 1.11.

11 Ellicott, p. 195.


Isso porque não há dúvida de que Paulo está pensando no controle do temperamento e da língua, da ambição e da avareza, e especialmente dos apetites carnais, incluindo compulsões sexuais, de modo que o jovem cristão permaneça dentro do imutável padrão cristão de castidade antes do casamento e de fidelidade depois dele. Algumas lições de grande valor podem ser tiradas desse versículo. A primeira é que o domínio próprio é possível, mesmo aos jovens do sexo masculino, uma vez que não faria sentido exortá-los sobre algo impossível. A segunda é que o encorajamento é um meio apropriado para propiciar esse domínio próprio, especialmente uma exortação simpática, acompanhada de todo apoio, feita por umjovem do sexo masculino para outro do mesmo sexo, dentro da solidariedade da fraternidade cristã. A terceira é que esse encorajamento tem de ser acompanhado por um exemplo consistente de quem está exortando, e é isso que Paulo vai passar a abordar, ou seja, o exemplo que Tito tem que dar. e. O próprio Tito (2.7-8) Em tudo seja você mesmo um exemplo (um “modelo”, ou “padrão” cf. a r a ) para eles, fazendo boas obras (v. 7a). Parece que nós, seres humanos, somos imitadores por natureza. Temos necessidade de modelos ou padrões; eles nos dão direção, desafios e inspiração. Paulo não hesitou em oferecer-se, como apóstolo, para que as igrejas o imitassem. ‘Tomem-se meus imitadores,” escreveu ele - “como eu o sou de Cristo”.12 E Paulo esperava que tanto Timóteo ( lTm 4.12) como Tito fossem um modelo para as igrejas seguirem. A palavra que ele usou foi typos, que significa um protótipo, um padrão. Estamos acostumados com a idéia de que as personagens do Antigo Testamento são “tipos”, através dos quais podemos aprender alguma coisa. O que aconteceu com eles, dizemnos, “ocorreu como exemplo”13 e foi registrado nas Escrituras como uma advertência ou uma exortação para nós.14 Mas Deus não nos proveu modelos mortos (quer patriarcas no Antigo Testamento, quer apóstolos no Novo); ele quer que tenhamos modelos vivos também. E, entre estes, estariam principalmente os presbíteros-bispos da igreja local. Tito tinha, entretanto, que influenciar os rapazes de Creta não apenas com o seu exemplo, mas também com o seu ensino. O ensino e o exemplo, o verbal e o visual, sempre dão uma combinação poderosa. E o seu ensino tinha que ter três características, a saber: integridade, seriedade e uma linguagem sadia, contra a qual nada se possa dizer (vv. 7b-8a). A palavra integridade é a tradução de afthoria, que literalmente significa “incorruptibilidade”. Ela pode muito bem estar fazendo uma alusão aos motivos que Tito tinha em seu ministério. Seriedade, por outro lado, refere-se certamente à sua maneira de ensinar, ao 12 IC o 11.1; cf. 4,16; Fp 3.17; 2Ts 3.7,9. 14 1 Coríntios 10.11b.

13 1 Ccríntios 10.6, typoi.


passo que linguagem sadia significa que o conteúdo das suas instruções teria que ser completo e verdadeiro. Talvez, a ênfase mais importante, aqui, seja que as pessoas não levam a sério questões sérias, a menos que haja a devida seriedade na maneira de se comportar e na entrega da mensagem por parte do pregador. Como Richard Baxter afirmou, “Não importa o que você faça, assegurese de que as pessoas estejam vendo que você está sendo bastante sincero ... não dá para se quebrar corações humanos tratando-os sem seriedade”.15 No século vinte, o Dr. Martyn Lloyd-Jones confirmou isso. Ao pregar um sermão na Capela de Westminster sobre a ira de Deus, e a tendo chamado de “um freqüente conceito” de Romanos, onde ela ocorre dez vezes, ele disse: Confesso com toda liberdade: não consigo com preender um evangelista brincalhão. Veja a vida dos homens que Deus usou de modo mais poderoso, e invariavelmente você descobrirá que eles eram homens sérios, sóbrios, homens tementes ao Senhor.16 Tito, então, tinha que combinar uma motivação pura com uma exposição sadia e com um comportamento sério. Isso para que, como Paulo lhe disse, aqueles que se opõem a você fiquem envergonhados por não poderem falar mal de nós (v. 8b). f Escravos (2.9-10) Ensine os escravos a se submeterem em tudo a seus senhores (v. 9a). Quanto a uma abordagem sobre a escravatura como sendo inaceitável em sua essência, o modo como prevalecia em todo o Império Romano e por que Paulo não exigiu a sua imediata e total abolição, veja o que foi considerado em 1 Timóteo 6.1 ss. As instruções que Tito deveria transmitir àqueles que, na condição de escravos, trabalhavam na casa de seus senhores, eram sobre como trabalhar e sobre o caráter que deveriam ter. Quanto ao trabalho, eles teriam que procurar agradá-los, fazendo um serviço consciencioso; e não deveriam ser respondões, mas polidos e respeitosos (v. 9b). Quanto ao caráter, os escravos deveriam ser honestos e não roubar de seus senhores, sendo nosfizô “o termo usual usado para pequenos furtos, para o ato de surrupiar alguma coisa etc.”.17 Pelo contrário, eles deveriam ser fidedignos, mostrando ser inteiramente dignos de confiança (v. 10a). E a razão por que os escravos deveriam ser honestos e dignos de confiança, tanto no trabalho como em caráter, era para que assim eles tomassem atraente, em tudo, o ensino de Deus, nosso Salvador (v. 10b), ou para que dele “sejam ornamento” (como 15 The Reformed Pastor (O Pastor Reformado) - 1656; Epworth, segunda edição, 1950, p. 145. 16 Rom ans 1: The G ospel o f G od (Romanos 1: O Evangelho de D eus) - Banner o f Truth, 1985, p. 332. 17 Sim pson, p. 106.


expressa a s b t b ) o u “um adorno’,’ ( r s v ) . I ss o porque embora o trabalho forçado seja aviltante para os seres humanos, o serviço voluntário - mesmo para escravos - é nobre. Desse modo, Paulo escolhe os escravos como um exemplo de como um bom comportamento pode realmente adornar o evangelho. O verbo kosmeô era empregado com o sentido de colocar pedras preciosas com arte, de modo a exibirem toda a sua beleza. E o evangelho é uma pedra preciosa, sendo a vida cristã harmoniosa tal como uma armação, em que a gema do evangelho é colocada, contribuindo para “dar mais brilho” a ela ( r e b ). Por três vezes, ao tratar nesses versículos do comportamento cristão de diferentes grupos de pessoas, Paulo deixa transparecer sua constante preocupação quanto ao efeito do testemunho cristão perante o mundo nãocristão (vs. 5, 8,10). Por duas vezes, ele refere-se à doutrina cristã. As esposas jovens teriam que ser puras e bondosas, para que a palavra de Deus não fosse difamada (v. 5). Os escravos domésticos deveriam ser honestos e confiáveis, para que o evangelho se adornasse ou se “embelezasse”.18 Essa é a alternativa. A doutrina cristã é uma doutrina de salvação, uma gema chamada de “o ensino de Deus, nosso Salvador” (v. 10). Assim, ou não damos evidência alguma da salvação, caso em que a pedra preciosa do evangelho perde todo o seu brilho, ou então damos uma boa evidência da salvação, vivendo uma vida que manifeste uma vida salva, de forma que essa jóia fique brilhando com um fulgor bem maior. A nossa vida pode dar um ornamento ou um descrédito ao evangelho. 2. A sã doutrina (2.11-14) Paulo passa, agora, do dever para a doutrina; melhor dizendo, dos deveres mundanos para as sublimes doutrinas. Seu método (como se pode ver, por exemplo, em Romanos, Efésios e Colossenses) normalmente é começar com uma doutrina e, em seguida, através de um enfático “portanto”, passar para suas implicações éticas. Aqui, porém, a ordem foi invertida. Paulo começa com os deveres éticos e, com um estridente “porque”, estabelece as bases doutrinárias em que eles se fundamentam. Essas duas formas de abordagem são legítimas, desde que o elo indestrutível que existe entre a doutrina e a ética seja colocado e mantido. Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. I2Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente,13enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. 14Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particu­ larmente seu, dedicado à prática de boas obras.


A doutrina em Tito 2, na qual Paulo se baseia para fazer seu apelo ético, é a das duas vindas de Cristo, que aqui ele chama de suas duas “epifanias” ou aparições. O versículo 11 diz que a graça de Deus se manifestou (epéfanç), e o versículo 13 diz que aguardamos ... a gloriosa manifestação (epifaneian). Além disso, as duas aparições de Cristo têm um sentido de salvação, pois o que já apareceu é a graça de D eus... salvadora (v. 11), e o que estamos esperando é a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador (v. 13). Pois bem. O substantivo epifaneia significa a visível aparição de alguma coisa ou de alguém que até agora estava invisível, ou seja, o fato de o que se achava escondido se tomar visível. Essa palavra era usada no grego clássico em relação à alvorada, ao amanhecer, quando o sol transpõe a linha do horizonte e torna-se visível; e também referia-se a um inimigo, que aparecia de repente numa emboscada; ou, ainda, no caso da suposta interferência de um deus ou de deuses em situações humanas. Lucas nos dá um bom exemplo do sentido dessa palavra em Atos. E a única ocasião no Novo Testamento em que epifaneia tem um significado secular, não se referindo a Cristo. Lucas descreve que o navio, no qual Paulo e seus companheiros viajavam a Roma, foi atingido por um terrível temporal, ficando à deriva, sem que nada pudesse ser feito, no Mediterrâneo. O céu estava tão carregado, de dia e de noite, que por vários dias o sol e as estrelas “não fizeram epifania”.19 E claro que as estrelas ainda estavam no céu, mas não apareceram. Fora desse único caso em que epifaneia é usada literalmente, essa palavra ocorre no Novo Testamento quatro vezes, referindo-se à primeira vinda de Cristo,20 e seis vezes, referindo-se à sua segunda vinda.21 Aqui, na parte final de Tito 2, essa palavra é aplicada às duas vindas de Cristo (vv. 11 e 14). a. A epifania da graça (2.11-14) Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (v. 11). É certo que a graça não veio a existir somente quando Cristo veio. Deus sempre foi gracioso,22 de fato, “o Deus de toda a graça”.23 Mas a graça tornou-se visível em Jesus Cristo. A graça salvadora de Deus, que nos foi dada antes do início do tempo, foi “agora revelada pela manifestação de nosso Salvador, Cristo Jesus”.24 Ela foi esplendorosamente mostrada em seu humilde nascimento, em suas graciosas palavras e em seus atos movidos de compaixão; mas, sobretudo, em sua morte expiatória. Ele mesmo era “cheio de graça”.25 Sua vinda foi, acima de tudo, uma epifania da graça salvadora, da graça “que traz salvação”. Ela se manifestou salvadora a todos os homens, no sentido de que passou a ser publicamente oferecida a todos, até mesmo a escravos (v. 10). 19 A tos 27.20, literalmente.

20 Lc 1.78-79; 2Tm 1.10; Tt 2.11; 3.4

21 At 2.20; 2Ts 2.8; lT m 6.14; 2Tm 4.1, 8; Tt 2.13. 24 2Tm 1.9-10.

25 João 1.14; 16-17.

22 Êxodo 34.6.

23 1 Pedro 5.10.


Agora, Paulo personifica essa graça de Deus. A graça do salvador toma-se a graça de um mestre. Ela nos ensina (v. 12a) ou, talvez, nos disciplina. Em 1880, na Inglaterra, foi publicado um livro intitulado A Escola da Graça, tendo o subtítulo de Pensamentos Expositivos sobre Tito 2.11-14. Seu autor foi Canon Hay Aitken. Escreveu ele: “A graça não apenas salva, mas encarrega-se de nos instruir”.26 Desse modo, todos os cristãos tornam-se “alunos na Escola da Graça”.27 Além disso, “a graça baseia todo o seu ensino nos grandes fatos nos quais a sua primeira e grande revelação se deu, e encontra todo o seu poder de ensino nessas poderosas memórias.”28 O que, então, a graça ensina? Duas lições principais. Primeiro, num enfoque negativo, ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas (v. 12a). Segundo, agora com um enfoque positivo, ela nos ensina a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente (v. 12b). Assim, a graça nos disciplina a renunciar à nossa velha vida e a viver uma nova vida, a passar da impiedade para a piedade, do egoísmo ao autocontrole, dos caminhos desonestos a um tratamento justo com todos os demais. Parece estar claro que a segunda parte do versículo 12 foi a base bíblica para uma frase, que ocorre em Confissões Gerais, no final do Livro de Orações, na qual se ora que no futuro se viva uma “vida piedosa, reta e sóbria [isto é, disciplinada]”. Foi com esse propósito que a epifania da graça de Deus em Jesus Cristo realizou-se. Não se trata apenas de que a graça tome possível as boas obras (capacitando-nos a fazê-las), mas também de que a graça as tome necessárias (desafiando-nos a viver segundo elas). A ênfase acha-se na necessidade, não na mera possibilidade, de boas obras. b. A epifania da glória (2.13-14) Aquele que apareceu brevemente no cenário da história, e desapareceu, um dia vai reaparecer. Ele apareceu em graça; ele reaparecerá em glória. De fato, essa futura epifania da glória é o ponto supremo da nossa esperança cristã, enquanto aguardamos a bendita esperança, ou seja, a esperança que traz bênçãos. Como é que Paulo a define? Ele se refere a ela como sendo a gloriosa manifestação (literalmente, a epifania da glória) de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (v. 13). Tem havido um longo e acirrado debate quanto a se a futura epifania é de duas pessoas, ou seja, “de nosso grande Deus (Pai)” e de “nosso Salvador Jesus Cristo”, caso em que Jesus é designado apenas como “nosso Salvador” - ou de uma só pessoa, cujo título completo é referido como “nosso grande Deus e Salvador”, caso em que isso se toma a mais clara declaração da divindade de Jesus, feita no Novo Testamento. As traduções que temos da Bíblia normalmente optam por essa segunda posição, copio ocorre com a nvi e com as diversas versões Almeida.


Há cinco argumentos principais em favor dessa última posição. O primeiro é que não há o artigo definido antes do nome “Salvador”, o que dá a entender que um único artigo designa um só sujeito. Em grego, “nomes ligados por um só artigo designam o mesmo sujeito”.29 O segundo é que a maioria dos antigos pais gregos entenderam a frase desse modo, “e sem dúvida eles tinham condições de avaliar o idioma grego”.30 O terceiro argumento junta teologia com gramática. Todas as dez referências neotestamentárias à epifania são de Cristo; em parte alguma há uma referência a uma epifania de “Deus”. O quarto argumento é que o contexto, de um modo mais natural, requer a referência a Cristo, uma vez que ele passa de imediato da sua glória para os seus sofrimentos e morte. Em quinto lugar, a expressão “Deus e Salvador” foi “uma fórmula estereotipada comum no primeiro século de uma terminologia religiosa”, normalmente referindo-se a uma única divindade e, às vezes, até ao imperador romano”.31 O bispo Ellicot escreveu que é difícil resistir à convicção de que “o nosso bendito Senhor, aqui, é tratado como sendo o nosso megas Theos [isto é, “grande Deus”], e que esse texto é uma declaração direta, definitiva, e até mesmo estudada, da divindade do Filho Eterno” .32 Deve-se acrescentar, entretanto, como Lock o faz,33 que “a questão não tem importância doutrinária”. Isso porque se a referência é a duas pessoas, Jesus Cristo “ainda está no mesmo nível do grande Deus, como uma manifestação da sua glória e tendo realizado a obra de Jeová de salvação”. Já em sua primeira vinda podia-se dizer que “vimos a sua glória”,34 pois ele “revelou ... a sua glória” por meio de seus sinais35 e, de um modo supremo, em sua morte.36 Não obstante, sua glória permaneceu encoberta, e muitos não a perceberam, nem mesmo chegaram a suspeitar dela. Assim, um dia o véu que a encobre será retirado, e sua glória será manifestada, e “o veremos como ele é”.37 Como isso será a epifania da glória do “nosso grande Deus e Salvador”, que em sua vinda completará a nossa salvação, Paulo passa agora naturalmente para a sua primeira epifania, quando a nossa salvação teve início. Ele se deu por nós na cruz. Por quê? Não apenas para assegurar o nosso perdão (o que o apóstolo não menciona aqui, embora em 3.7 ele se refira à nossa justificação), mas também para nos remir de toda a maldade, libertando-nos da sua escravidão, para purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras (v. 14). Paulo deliberadamente escolhe palavras do Antigo Testamento e imagens do início de Israel como nação para apresentar a salvação de Cristo como sendo o cumprimento de todas essas coisas que a prefiguravam. Assim, “ele se 29 Simpson, p. 108.

30 Ibid.

32 Ellicot, p. 201.

33 Lock, p. 145.

36 Por ex., João 12.23-24; 17.1ss.

31 M. J. Harris, citado por Towner (1989), pp. 52, 272. 34 João 1.14. 37 1 João 3.2.

35 João 2.11.


entregou por nós” (“sacrificou-se por nós”, r e b ) nos faz lembrar do sacrifício pascal; “a fim de nos remir” nos faz lembrar da redenção da escravidão egípcia ocorrida no êxodo; e “um povo particularmente seu” nos faz lembrar da aliança no Sinai, pela qual Israel tornou-se o “tesouro pessoal” de Yahweh. Paulo usa a mesma expressão laos periousios (povo escolhido) que a Septuaginta usa.38 Assim, desfrutamos de uma continuidade direta com o povo de Deus do Antigo Testamento, pois somos um povo remido e ele é a nossa Páscoa, o nosso êxodo e o nosso Sinai. Este povo de Deus tão especial, por quem Cristo morreu para comprá-lo para si mesmo, é descrito como sendo dedicado à prática de boas obras', literalmente, “entusiasmado pelas boas obras”. Não se trata de fanatismo. Mas é entusiasmo, uma vez que “a graça nos condiciona ... a ser entusiastas”,39 para que vivamos por aquele que morreu por nós. Desse modo, o apóstolo, nesse curto parágrafo de apenas quatro versículos (vv. 11-14), coloca lado a lado os dois marcos que delimitam a era cristã, ou seja, a primeira vinda de Cristo, com a qual ela se inicia, e a sua segunda vinda, com a qual ela termina. Ele nos convida a olhar para uma e para a outra, pois vivemos no tempo entre esses dois marcos, numa situação não muito confortável entre o “já” e o “ainda não”. Com certeza, os críticos do Cristianismo apegam-se a isso com grande indignação. “Vocês, cristãos, são criaturas desesperadamente alienadas, fora da realidade” - dizem. “Tudo o que fazem é se preocupar com o passado longínquo e com o remoto futuro. Por que vocês não podem viver no presente, nas realidades do mundo contemporâneo?” Mas é exatamente isso que o apóstolo Paulo está ordenando a Tito e, através dele, a nós, para que assim façamos. Os homens mais velhos têm que ser dignos de respeito e maduros. As mulheres idosas têm que ser reverentes e ensinar as jovens. As mulheres jovens devem ser boas esposas e boas mães. Os jovens do sexo masculino têm que ter autocontrole. Tito precisa ser um bom mestre e um modelo para todos. Os escravos têm que ser conscienciosos e honestos. Todos nós temos que renunciar ao mal e viver uma vida piedosa, reta e disciplinada nesta era presente (v. 12b). Por quê? Em que Paulo baseia o seu apelo? Em que base ele assenta o presente comportamento cristão?40 A resposta que Paulo dá é direta, ou seja, que em Jesus Cristo houve uma epifania da graça de Deus, e que haverá uma epifania de sua glória. Isto é, o 38 Êx 19.5; Dt 7.6; 14.2; 26.18; cf. IPe 2.9.

39 Aitken, p. 363.

40Towner (1986) enfatiza que nas Cartas Pastorais a era presente é o tempo da salvação e é também “os dias fin a is” ; que ela “ocupa uma p osição central na m en sagem das Epístolas Pastorais” (p. 442); que a salvação é melhor entendida nas Pastorais com o um fenômeno que é tanto úm “já” com o também um “ainda não”, entre as duas epifanias; e que, sempre que a p a ró u sia se refere ao fato da vinda de Cristo, a epifaneia a enfoca com o a sua salvação, ajuda e intervenção.


melhor modo de viver agora, na era presente, é aprendendo a fazer espiritualmente o que é impossível de ser feito fisicamente, ou seja, olhando para direções opostas ao mesmo tempo. Temos que olhar tanto para trás e nos lembrar da epifania da graça (cujo propósito foi nos redimir de todo o mal e nos purificar para Deus como um povo de sua propriedade), como olhar para a frente, tendo uma antevisão da epifania da glória (cujo propósito será o de completar, na sua segunda vinda, a salvação iniciada na primeira). Essa deliberada orientação a nós mesmos, esse olhar para trás e para frente, essa determinação de viver à luz das duas vindas de Cristo, vivendo hoje à luz do ontem e do amanhã - isso deve ser parte essencial da nossa dis< . a diária. Temos de dizer a nós mesmos, com regularidade, a grande aclamai? “Cristo morreu; Cristo ressuscitou; Cristo voltará”. Pois desse modo i deveres atuais no lar serão inspirados pelas duas epifanias de passado e a do futuro. xK k J Canon Hay Aitken sugeriu que as duas vindas de Cristo ^ãg;aomo “duas janelas ... na Escola da Graça”. Através da janela do Jãc t oesi \im m solene luz brilha do monte Calvário. Através da janela dc jste, <riíh àik ^y io sol nascente, mensageira de um dia bem mais claro. “Assim, a ^soòíaoa GVaça é bem iluminada; mas não dá para viver sem essas duas ] q o tó ste e a do leste.”41 O capítulo termina como começou: t c t, uma ordem para ensinar. Paulo comissionou Tito a instruir as igrejaOlè ^rêtaí tanto na doutrina como na ética. E isso que você deve ensinar, ou ‘^áS&^stas coisas” ( r a ) , o u seja, tanto as doutrinas da epifania com^traM everes éticos. Além disso, Tito não deve comunicá-las de um1ÍM?®\Mgggsoal e com timidez, como se fossem apenas fatos inexpressivosr-Se\tmHa que ensinar exortando-os e repreendendo-os com toda autóndade. uém o despreze (v. 15).

41 A itken, pp. 2 5 3 -2 5 4 .

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Tito 3.1-8

3.A doutrina e o dever no mundo Tendo dado a Tito instruções quanto à doutrina e aos deveres na igreja (no capítulo 1) e no lar (capítulo 2), Paulo agora desenvolve o mesmo tema com respeito ao mundo (capítulo 3). Assim, de propósito, ele passa dos círculos interiores do lar e da igreja para os círculos exteriores da sociedade secular. O esquema adotado nesse capítulo é o mesmo que o do capítulo 2. O apóstolo começa dando instruções de ordem ética, nesse caso, a necessidade de submissão às autoridades e de consideração perante todos (vv. 1-2). Depois, ele imediatamente baseia o dever cristão na doutrina cristã, dando-nos um magnífico e completo relato da nossa salvação (vv. 3-8). Por fim, ele reserva algumas mensagens, mais pessoais, para a conclusão (vv. 9-15). 1. Os cristãos na vida pública (3.1-2) Lembre a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, sejam obedientes, estejam sempre prontos afazer tudo o que é bom, 2não calu­ niem ninguém, sejam pacíficos, amáveis e mostrem sempre verdadeira mansidão para com todos os homens, Lembre a todos (literalmente, “lembra-lhes” - r a ), começa ele, pois o ensino que vai dar não é novo. As igrejas já tinham ouvido isso antes. Mas há nas Escrituras muitas advertências quanto ao perigo do esquecimento, e há muitas promessas àqueles que se lembram. Uma memória má foi uma das principais razões da queda de Israel. “Logo se esqueceram”, lemos, e também “não se lembraram”.1 Jesus teve que se queixar de igual modo com os apóstolos: “Não se lembram...?”.2 Não é de surpreender, portanto, que os apóstolos, que eram líderes da igreja, tais como Paulo, Pedro e João, nas cartas do Novo Testamento, destaquem a importância do ministério de estar relembrando certas coisas.3 De igual modo, todos os mestres cristãos conscienciosos, uma vez tendo se libertado da insana avidez pela originalidade, esforçam-se para apresentar velhas verdades como novas, como se fossem recentes e não envelhecidas. O que Tito tem que fazê-los lembrar é com respeito aos relacionamentos sociais no mundo, primeiramente com as autoridades, em particular, (v. 1) e depois com todos, em geral (v. 2). 1 Salmo 106.13, 7.

2 Mateus 16.9.

3 Por ex., Fp 3.1; 2Pe 1.12-13; 3.11-12; lJo 2.21, 24.


a. Relacionamento cristão com regras (3:1) Lembre a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, sejam obedientes (v. la). “Paulo, possivelmente, está contemplando o caráter notoriamente turbulento dos cretenses, a respeito do qual nos fala Polybius;”4 eles eram constantemente envolvidos com “insurreições, assassinatos e guerras em que destruíam uns aos outros”.5 Creta havia sido subjugada por Roma em 67 a.C., e desde então permaneceu resistente ao jugo colonial romano. Paulo já tinha tocado no espírito “insubordinado” deles em 1.10 e 16. Agora, através de Tito, ele lhes diz para serem submissos a seus governantes. Paulo já havia escrito a Timóteo sobre a necessidade de orar pelos que estão investidos de autoridade (lTm 2.1ss.); agora, ele escreve a Tito sobre o nosso dever de obedecer a eles. Isso não significa que os cristãos devem dar ao estado uma sujeição incondicional. Isso significaria idolatrar o estado, tal como no culto ao imperador do primeiro século, o que os cristãos consideraram como sendo idolatria. Como poderiam eles chamar César de “Senhor” (não como tratamento, mas no sentido de “proprietário” deles), se eles haviam confessado que Jesus era o seu Senhor? Não obstante, o dever cristão, em princípio, é a submissão ao estado porque, como Paulo explicou em Romanos 13, a autoridade do estado é delegada por Deus. Isso significa que a nossa primeira lealdade é para com o Senhor, a quem pertence a autoridade; e se o nosso dever para com ele entrar em colisão com o nosso dever perante o estado, o nosso dever para com Deus prevalece. Como Pedro disse, “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!”.6 Não é suficiente, entretanto, que os cristãos sejam obedientes à lei (ao ponto permitido por nossa consciência); temos que ter o nosso espírito voltado para o público também, de modo a estarmos sempre prontos (ávidos, não relutantes) a fazer tudo o que é bom (v. lb), sempre que tivermos oportunidade. De acordo tanto com Paulo como com Pedro, o estado tem o duplo dever de punir o mal e promover o bem.7 Assim, o povo de Deus deve estar pronto para cooperar com o estado nessas duas áreas. A ênfase “tudo o que é bom” não somente esclarece qual é a nossa responsabilidade, mas também a limita. Não podemos cooperar com o estado se ele reverter o seu dever dado por Deus, promovendo o mal em vez de puni-lo e opondo-se ao que é bom, em vez de recompensá-lo e promovê-lo. b. Relacionamentos cristãos com todos (3.2) Partindo de nossa responsabilidade cristã perante os líderes da comunidade, Paulo volta-se para o nosso relacionamento com todos na comunidade. Ele 4 Kelly, p. 249.

3 Citado por Barclay, p. 258.

6 Atos 5.29. Para uma consideração mais profunda com respeito ao nosso dever para com o estado e quanto à desobediência civil, que deve prevalecer em determinadas circunstâncias, veja o meu livro R om anos (A B U Editora), pp. 411-420. 7 Rm 13.4; IP e 2.14.


olha para além do meio cristão para a sociedade secular. Como é que os crentes se relacionam com os não-crentes? E essencial ver que é esse o ponto de Paulo, pois ele começa com uma referência a “ninguém” e termina com uma referência a “todos os homens”, isto é, a todos em geral. Ele destaca quatro atitudes sociais cristãs como sendo universais em sua aplicação - duas negativas e duas positivas. Entre as negativas, dia a eles que não caluniem ninguém e sejam pacíficos, sendo essa última em grego também negativa “nem sejam altercadores ( r a ) ” . Portanto, temos de não falar contra, nem lutar contra os outros. Temos que deixar de ser ofensivos por obras e por palavras (“pessoas ... não dadas a brigas” - j b p ). Entre as atitudes positivas, temos que ser amáveis e mostrar sempre verdadeira mansidão para com todos os homens (v. 2b). Não é fácil achar em português palavras adequadas que sejam equivalentes a estas duas graciosas palavras gregas. A primeira (epieikçs) significa ser “clemente, gentil, tolerante” ( b a g d ) e especialmente “conciliador”.8 A segunda (prautçs) pode ser traduzida como “gentileza, humildade, cortesia, ter consideração, mansidão” ( b a g d ). Ambas eram características de Jesus, de modo que Paulo podia apelar aos coríntios “pela mansidão e pela bondade de Cristo”.9 Além disso, não podemos deixar de ver a totalidade do que o apóstolo estava exigindo. Literalmente, ele nos pede que demonstremos “toda gentileza a todos os homens”. Não é para haver limite algum nem para a nossa cortesia em humildade, nem para aqueles a quem temos que demonstrá-la. Aqui há, então, uma breve descrição do comportamento cristão na vida pública. Em relação às autoridades, temos que ser cidadãos conscienciosos (submissos, obedientes e cooperadores), e em relação a todos, independentemente de raça ou religião, temos de ser conciliadores, corteses, humildes e gentis. 2. Ingredientes de salvação (3.3-8) Paulo agora explica muito bem a razão teológica por que podemos esperar que os cristãos tenham uma consciência social e comportem-se responsavelmente na vida pública. A lógica é vista nos pronomes: “L&mbra-lhes ( r a ) de serem conscienciosos e cidadãos atenciosos, pois [gar foi inexplicavelmente deixada de lado pela n v i ] nós também éramos anti-sociais, mas ele (Deus) nos salvou e nos transformou.” Ou seja, a única razão pela qual ousamos instruir os outros na ética social é que sabemos que, sendo o que éramos, Deus apesar disso nos salvou e que, portanto, ele pode transformar os outros também. Não basta afirmar que a graça de Deus, que traz salvação, manifestou-se a todos os homens (2.11); temos de ter condições de dizer que ele nos salvou (3.5), e até mesmo que ele me salvou. Não é apenas a história que desperta as nossas expectativas; é a


experiência. Sem uma experiência pessoal de salvação, ficamos sem o direito, o incentivo e a confiança para ensinar ética social aos outros. Assim, Paulo agora nos dá um relato condensado, porém completo, da salvação. Os versículos de 4 a 7 constituem uma sentença única, porém longa, que ele pode ter tomado de algum credo cristão antigo. Houve tempo em que nós também éramos insensatos e desobedientes, viví­ amos enganados e escravizados por toda espécie de paixões e prazeres. Vivíamos na maldade e na inveja, sendo detestáveis e odiando uns aos outros. 4Mas quando, da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens, 5não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, 6que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.7Ele o'fez a fim de que, justificados por sua graça, nos tomemos seus herdeiros, tendo a espe­ rança da vida eterna. sFiel é esta palavra, e quero que você afirme catego­ ricamente essas coisas, para que os que crêem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Tais coisas são excelentes e úteis aos homens. Esse período como um todo gira em tomo do verbo principal, que é ele nos salvou (v. 5). Talvez essa seja a declaração de salvação mais completa que há no Novo Testamento. Contudo, toda vez que a fraseologia da salvação acontece numa conversa nos dias de hoje, a reação das pessoas é totalmente imprevisível. Tanto elas poderão ficar envergonhadas, como mostrar desagrado, ou sorrir com escárnio, ou até mesmo rir, como se fosse uma grande piada. Desse modo, o diabo, cuja ambição é destruir, e não salvar, consegue tomar trivial a questão mais séria que podemos fazer a nós mesmos ou que pode ser proposta a qualquer pessoa, pois o cristianismo é essencialmente uma religião de salvação. Para provar isso, basta citar duas afirmativas bíblicas: “o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo” 10 e “o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido”.11 De forma que temos que chegar a um entendimento quanto ao conceito de “salvação”, e um dos melhores meios é estudar os versículos de 3 a 8 de Tito 3. Isso porque, aqui, Paulo isola seis ingredientes da salvação - sua necessidade (por que é necessária); sua origem (de onde ela provém); a base (onde ela se firma); o meio (pelo qual ela chegou até nós); seu objetivo (para onde ela leva); e sua evidência (como ela dá provas de si). a. A necessidade da salvação No versículo 3, o apóstolo nos dá uma descrição não muito agradável do estado e da forma como procedem as pessoas não regeneradas. Isso ele faz


pondo à vista o que nós mesmos éramos anteriormente. Além do mais, ele não está exagerando, mas dando “a verdadeira e exata imagem da vida humana sem a graça”.12 Talvez isso possa ser melhor entendido através de quatro pares de palavras. Primeiramente, houve tempo em que nós também éramos insensatos e desobedientes. Em outras palavras, éramos ao mesmo tempo depravados na mente e na moral. Faltava-nos bom senso (anoçtos) e também suscetibilidade (apeithçs). Isso é mais bem desenvolvido no próximo par de palavras. Em segundo lugar, estávamos enganados e escravizados por toda espécie de paixões e prazeres. Os dois verbos estão na forma passiva e assim indicam que éramos vítimas de forças malignas que não podíamos controlar. Não éramos apenas “insensatos”, mas éramos enganados. Não apenas “desobedientes”, mas também escravizados. Sem dúvida, Paulo está fazendo uma alusão ao Maligno, esse grande enganador que cega a mente dos homens13 e principal tirano que também escraviza as pessoas.14 Éramos aqueles a quem ele enganava, e também seus escravos. Em terceiro lugar, vivíamos na maldade e na inveja, que constituem uma dupla de palavras bem hediondas. Isso porque a maldade é o que se faz quando se deseja o mal a alguém, e inveja é ressentir-se e desejar o bem que outros têm. Essas duas interrompem todo relacionamento humano. Em quarto lugar, éramos detestáveis e estávamos odiando uns aos outros. Ou seja, a hostilidade que tínhamos em nossos relacionamentos era recíproca. Assim, uma antítese parece ter sido buscada, com referência a como os cristãos deveriam ser (vv. 1 e 2) e como antes (v. 3). É um contraste entre a submissão e a insensatez; entre a obediência e a desobediência; entre a disposição para fazer o bem e uma escravidão pelo mal; entre a bondade e uma índole pacífica, por um lado, e a maldade e a inveja, do outro; entre as condições de ser humilde e gentil e as de ser detestável e odioso. Como é possível deixar aquela disposição mental e aquele tipo de vida e passar para o outro, trocando todo vício pela plena liberdade? A resposta é dada no versículo 5: ele nos salvou, ele nos resgatou da nossa antiga escravidão e nos transformou em seu novo povo. O Novo Testamento agrada-se muito em discorrer sobre essa transformação e sobre o que ela acarreta, usando com freqüência a fórmula: “assim éramos ... mas agora somos ...”.!5 b. A origem da salvação Como éramos verdadeiramente enganados e escravizados, uma coisa é óbvia: não podíamos nos salvar a nós mesmos. Contudo, a possibilidade de alcançar a própria salvação é um dos principais enganos da filosofia da Nova Era. Ela 12 Bengel, p. 324. 13 Por ex., 2Co 4.4. 15 Por ex., Rm 6.17ss; ICo 6.11; Ef 2 .lss ; Cl 3.7ss.

14 Por ex., 2Tm 2.26.


ensina que a salvação não vem de fora (alguém vindo para nos resgatar), mas de dentro da própria pessoa (na medida em que descobrimos a nós mesmos e os nossos próprios recursos). Assim, “olhe para si” - nos diz com insistência Shirley MacLaine - “explore a si mesmo”, pois “todas as respostas estão dentro de você”.16 E no seu livro seguinte, que tem o título bastante revelador de Going Within (Adentrando), ela escreve que “a Nova Era é toda sobre autoresponsabilidade”, isto é, sobre assumir responsabilidade por tudo, que acontece, uma vez que “a única origem de tudo somos nós mesmos”.17 Paulo, porém, nos ensina uma origem diferente para a salvação. No versículo 4, ele passa de nós, em nossa depravação, para “Deus, nosso Salvador” (1.3; 2.10; 3.4); do nosso ódio de uns para com os outros para o maravilhoso amor de Deus para conosco. Mas quando, da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens (v. 4), isto é, no nascimento, na vida, na morte e na ressurreição de Jesu s,... ele nos salvou. Então, no fim do versículo 5, Paulo menciona a “misericórdia” de Deus e, no versículo 7, a sua “graça”, que nos justifica. São quatro palavras tremendas. A “bondade” (chrçstotçs) de Deus é mostrada até mesmo para “os ingratos e maus”;18 o seu “amor” (filanthrôpia) é o seu interesse por toda a humanidade; a sua “misericórdia” (eleos) é estendida aos desesperados que não podem salvar a si mesmos; e a sua “graça” (charis) alcança os culpados e nãomerecedores. Assim, a salvação tem sua origem no coração de Deus. É por causa da sua bondade, do seu amor, da sua misericórdia e da sua graça que ele interveio em nosso favor; que ele tomou a iniciativa; que ele veio atrás de nós; e que ele nos resgatou de nossa terrível situação de desespero. c. A base da salvação Uma vez que o amor de Deus é a origem ou a fonte da qual provém a salvação, sobre que base ela se firma? Qual é a base moral pela qual Deus pode perdoar os pecadores? É verdade que, explicitamente, essa questão não é formulada nem respondida em Tito 3. Contudo, ela está implícita na antítese do versículo 4, que declara que Deus nos salvou, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia. Não é a nossa justiça, mas a sua misericórdia a base em que se firma a nossa salvação. Esse forte contraste entre o falso e o verdadeiro processo da salvação é de igual forma muito trabalhado no Novo Testamento, mediante constantes repetições.19 Deus não nos salva apenas com a sua misericórdia; entretanto, ele nos salva por causa do que a sua misericórdia o fez fazer, ao enviar o seu Filho. O seu 16 O ut on a Lim b (Em Apuros) — Elm Tree, 1983, pp. 111, 166. 17 Going Within - Bantam, 1989, pp. 27, 29. 15 Por ex., Lc 18.9ss; E f 2.8ss; Fp 3.7ss; 2Tm 1.9.

18 Lc 6.35.


atributo de misericordioso é, de fato, a origem da nossa salvação; o seu ato de misericórdia em Cristo é a sua base. Isso está implícito na afirmativa anterior de Paulo, de que da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens (v. 4). Isso porque essa “manifestação” salvadora claramente se refere ao evento histórico da vinda de Cristo para salvar, como em 2.11 e 2 Timóteo 1.10. Além disso, embora não haja uma alusão específica à cruz, ela deve ter estado na mente de Paulo, já que por duas vezes em outras partes das Pastorais ele afirma que Cristo “se entregou” para a nossa redenção (2.14; lTm 2.6). A base da nossa salvação, portanto, não são nossas obras de justiça, mas a obra de misericórdia na cruz. d. O meio pelo qual se fez a salvação O principal verbo desse longo período do versículo 5, do qual essa longa sentença depende, é “ele nos salvou”, que se encontra bem no seu meio. Por um lado, devido à sua misericórdia ... ele nos salvou, ou seja, foi através do seu ato de misericórdia (a base da nossa salvação); de outro, “ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (o meio da nossa salvação). Eis, aqui, uma expressão que contém quatro palavras-chave - lavar, regenerador, renovador e Espírito Santo. O que elas significam? Lavar (loutron) quase que com certeza refere-se ao batismo nas águas.20 Todos os primitivos pais da igreja entenderam dessa forma. Isso não implica que eles (ou Paulo) ensinassem a regeneração pelo batismo, assim como Ananias não acreditava desse modo, quando disse a Saulo de Tarso: “Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele.”11 As igrejas evangélicas, em sua maioria, consideram o batismo “um sinal exterior e visível de uma graça espiritual interior”, a saber, o lavar dos pecados e o novo nascimento pelo Espírito Santo. Mas não confundem o sinal (o batismo) com o que ele significa (a salvação). As duas palavras seguintes (regenerador, renovador) são entendidas de diversas maneiras. “Regenerador” é como se traduz palingenesia, que Jesus usou ao falar da regeneração final de todas as coisas22 e que os estóicos aplicaram à restauração periódica do mundo, em que eles acreditavam. Aqui, entretanto, o novo nascimento é individual (como a “nova criação” de 2 Coríntios 5.17) e não cósmico. Ele se refere a um radical novo início, uma vez que “Deus não nos consertou, mas nos fez completamente novos”.23 A outra palavra, “renovador”, é a tradução de anakainôsis. Ela pode ser um sinônimo de “regenerador”, entendendo-se a repetição como um efeito retórico. Ou ela pode referir-se ao processo da renovação moral, da transformação, que se segue ao novo nascimento. 20 Cf. ICo 6.11; E f 5.26. 22 Mateus 19.28.

21 Atos 22.16; cf. Rm 6.3; G1 3.27; IPe 3.21. 23 Crisóstomo, p. 538.


O Espírito Santo é, certamente, o agente pelo qual somos renascidos e renovados, e é ele que Deus derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador (v. 6b). Tanto o uso do verbo “derramou”, como o emprego do tempo aoristo dão a entender que a referência é ao derramamento do Espírito no dia de Pentecostes,24 e a afirmação de que ele foi derramado em nós denota a nossa participação pessoal no dom pentecostal. A questão que perturba todos os comentaristas é como essas quatro palavras, que foram chamadas de uma “seqüência de genitivos”,25 devem relacionar-se entre si. A a v deliberadamente colocou uma vírgula no meio da seqüência e traduziu: “pelo lavar regenerador, e a renovação do Espírito Santo”. O valor dessa versão é que ela distingue o ato exterior da lavagem do batismo em relação à renovação interior feita pelo Espírito Santo. Mas tem também a desvantagem de separar o Espírito Santo da regeneração que ele mesmo faz acontecer. Assim, outras versões não põem a vírgula e entendem a expressão como uma única, porém complexa, frase, ainda mais porque nenhuma dessas palavras é precedida de um artigo definido. Ela poderia, então, ser parafraseada do seguinte modo: “Deus nos salvou por meio de um renascimento e uma renovação que foram exteriorizadas simbolicamente em nosso batismo, mas realizadas interiorm ente pelo E spírito S anto” . Ou, revertendo a ordem , “Deus generosamente derramou o Espírito Santo sobre nós; esse Espírito derramado nos regenerou em nosso interior e nos renovou (ou nos regenerou e nos está renovando); e tudo isso foi exteriormente e visivelmente assinalado e selado para nós em nosso batismo.” Entretanto, a salvação significa mais do que um renascimento interior e uma renovação. Ela inclui também a condição de termos sido justificados por sua graça (v. 7). Temos que rejeitar decididamente as versões que dizem que Deus nos salvou através da regeneração (ou renascimento) “a fim de que fôssemos justificados por sua graça”(Bj). Isso porque a justificação é - e dizemos isso com toda ênfase - não o resultado, e muito menos o objeto, da nossa regeneração. Estas duas obras de Deus são paralelas e ocorrem ao mesmo tempo. A salvação inclui as duas. Justificação significa que Deus nos declara justos através da morte expiatória de seu Filho; regeneração significa que ele nos toma retos através do poder do seu Espírito que está presente em nós. Assim, não se pode confundir nunca justificação com regeneração, o nosso novo status e o nosso novo nascimento. Nem devemos nunca separar essas duas coisas, pois Deus as realiza sempre ao mesmo tempo. Ele nunca justifica ninguém sem que, ao mesmo tempo, o esteja regenerando; nem regenera ninguém sem, ao mesmo tempo, o justificar. A obra de Cristo na justificação e a obra do Espírito Santo na regeneração são simultâneas.

24 Veja, por ex., J1 2.29; At 2.17 ss.,33; 10.45.

25 Knight (1992), p. 343.


e. O objetivo da salvação Ele o fez (nos salvou) - escreveu Paulo - afim de que, justificados por sua graça, nos tomemos seus herdeiros, tendo a esperança da vida eterna (v. 7). Todos aqueles a quem Deus justificou e regenerou tomaram-se seus herdeiros, porque ele nos salvou com esse propósito. Somos “herdeiros de Deus e coherdeiros com Cristo”.26 E como seus declarados herdeiros, alimentamos então a expectativa de que, com certeza, um dia receberemos toda a nossa herança no céu, ou seja, “a vida eterna”, uma serena comunhão com Deus. Durante a era presente, embora tenhamos recebido uma pequena amostra do que é a vida eterna, a plenitude da vida é o objeto da nossa esperança, e somos seus “herdeiros-em-esperança”.27 Contudo, a nossa esperança é segura, porque ela se firma na promessa de Deus (1.2). Fiel é esta palavra (v. 8a), acrescenta Paulo. Vimos que as Pastorais contêm cinco afirmações assim, em que ele diz: “fiel é esta palavra” (afirmações incisivas, que Paulo endossa). Essa é a única que está em Tito. Em três delas, a fórmula relaciona-se certamente com o que segue.28 Mas aqui, em Tito (e provavelmente também em lTm 4.9), ela parece, ao contrário, referir-se ao que a precede, ou seja, à entusiástica afirmativa de Paulo quanto à salvação.29 Quanto a cobrir a totalidade dos versículos de 3 a 7, ou menos, isso os comentaristas não estão concordes. Embora seja “uma palavra fiel” bem mais longa do que as demais, mesmo assim ela é uma expressão concisa, numa única sentença. E Paulo a endossa. Ela é verdadeira, diz ele; é digna de toda confiança. f A evidência da salvação Embora a fórmula “fiel é esta palavra” pareça ter concluído a exposição da salvação, ele ainda não terminou esse tópico. Ele não passará para outro ponto sem destacar a indispensável necessidade de boas obras por aqueles que professem ter sido salvos. E quero que você afirme categoricamente essas coisas (ou seja, os ingredientes essenciais da salvação),para que os que crêem em Deus (e assim foram salvos pela fé) se empenhem na prática de boas obras (v. 8b). Que tipo de boas obras o apóstolo tem em mente? Pelo fato de o verbo que corresponde a “se empenhem” (proistçmi) poder ter o sentido quase técnico de “praticar uma profissão”,30 a r s v traduz em nota de rodapé “exercer ocupações honradas” e a r e b , “assumir um emprego honesto”. Mas o contexto não requer, nem mesmo insinua esse sentido. A referência parece ser mais de ordem geral para a prática de boas obras de retidão e de amor. Embora Paulo tenha deixado claro no versículo 5 que Deus não nos salvou “por atos de justiça por nós

26 Romanos 8.17.

27 Hendriksen, p. 393.

29 Kelly, p. 254.

30 Lock, p. 156.

28 lT m 1.15; 3.1; 2Tm 2.11.


praticados”, ele agora insiste em dizer que os crentes têm que se empenhar em realizar boas obras. Elas não são a base para a salvação, mas são o seu decorrente fruto e a sua evidência. E desse modo que tais coisas são excelentes e úteis aos homens (v. 8c). A necessidade de boas obras foi observada por diversos comentaristas como um dos tópicos mais relevantes das Pastorais. Robert Karris, por exemplo, chamou esse tema de “a mensagem básica do autor”.31 Mas foi Gordon Fee quem lhe deu uma atenção especial, não tanto nas Pastorais em geral, mas em Tito, em particular. “O tema predominante em Tito ... são as boas obras ... ou seja, um comportamento cristão exemplar, e isso por causa dos que não são crentes” e “em contraste com os falsos mestres”. E “o tema que se repete por toda a carta”.32 A expressão “boas obras” (kala erga) ocorre catorze vezes nas Pastorais. Paulo parece estar enfatizando cinco pontos. Primeiro, o verdadeiro propósito da morte de Cristo foi purificar para si um povo que teria um grande entusiasmo pelas boas obras (2.14). Segundo, embora as boas obras não constituam a base da salvação (2.5; 2Tm 1.9), elas são sua principal evidência (3.8,14). Terceiro, é de se esperar, portanto, que todo cristão seja “capacitado” e esteja “pronto” para realizar boas obras,33que as mulheres estejam procurando usar esse adorno tão especial34 e que os ricos aceitem essa importante responsabilidade.35Quarto, uma vez que a supervisão pastoral é em si mesma uma boa obra,36 todos os líderes cristãos devem ser notados pelas boas obras que fazem.37 As viúvas não devem ser inscritas na lista de viúvas se não tiverem uma reputação de boas obras,38 e todo pastor deve ser um modelo de boas obras (2.7). Tudo isso acha-se em contraste com os falsos mestres, “que afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam” (1.16). Quinto, são as boas obras que, mais do que qualquer outra coisa, adornam o evangelho e o recomendam, assim, aos incrédulos (2.9-10). Estamos, agora, em condições de fazer um sumário dos seis ingredientes essenciais para a salvação. Sua necessidade é devido ao nosso pecado, à nossa culpa e à nossa escravidão; sua origem é a bondade e o amor gracioso de Deus; sua base não é o nosso mérito, mas a misericórdia de Deus, revelada na cruz; seu significado é a obra de regeneração e de renovação do Espírito Santo, sinalizada no batismo; seu objetivo é a nossa herança final da vida eterna; e sua evidência é a nossa diligente prática de boas obras. Podemos observar como essa forma de dizer o que é a salvação é equilibrada e completa. Iso porque, aqui, as três pessoas da Trindade estão juntamente envolvidas no processo que assegura a nossa salvação: o amor de Deus Pai, que tomou a iniciativa; a morte de Deus Filho, em quem a graça e a misericórdia 31 Karris (1979), p. 120. 34 lT m 2.10.

32 Fee (1988), pp. 12, 200, 215.

35 lT m 6.18.

36 lT m 3.1.

37 lT m 5.25.

33 2Tm 2.21; 3.17; Tt 3.1. 38 lT m 5.10.


de Deus foram reveladas; e a obra interior de Deus Espírito Santo, por quem somos nascidos de novo e continuamente renovados. Aqui, temos, também, os três tempos da salvação. O passado é a justificação e a regeneração. O presente é a nova vida de boas obras, no poder do Espírito. O futuro é a herança da vida eterna que um dia será nossa. Uma vez que tenhamos compreendido o caráter tão abrangente da salvação, qualquer menção a ela sem algum desses pontos não nos satisfará mais. Temos, sim, é que tomar a decisão de, em nossa vida, tanto explorar e experimentar por nós mesmos a plenitude da salvação de Deus, como também compartilhar com os outros essa mesma plenitude, recusando-nos a aquiescer, quer para nós mesmos, quer para os outros, a qualquer forma incompleta ou banalizada do evangelho.


Tito 3.9-15

4. Mensagens pessoais finais Até aqui, em Tito 3, Paulo fez duas coisas. Primeiro, ele disse a Tito que lembrasse os cristãos de ser cidadãos conscienciosos (submissos, obedientes e com a mente voltada para o público em geral) e ter uma consistente vida de paz, cortesia e amabilidade (vv. 1-2). Não importava qual fosse a sua posição na nação, nem o seu temperamento individual, esse era o chamado deles. Em segundo lugar, Paulo desenvolveu a doutrina da salvação em seus seis ingredientes (vv. 3-8) e assim deu a Tito uma base em que ele poderia firmar a confiança de que as pessoas a seu encargo poderiam ser transformadas, de modo a viver a nova vida para a qual são convocadas. Paulo conclui sua carta dando várias mensagens, sobre diversos assuntos. O ponto em comum nelas é que todas são solicitações ou instruções para que Tito faça alguma coisa. Evite, porém, controvérsias tolas, genealogias, discussões e contendas a respeito da Lei, porque essas coisas são inúteis e sem valor. wQuanto àquele que provoca divisões, advirta-o uma primeira e uma segunda vez. Depois disso, rejeite-o. 11Você sabe que tal pessoa se perverteu e está em pecado; por si mesma está condenada. ,2Quando eu lhe enviar Ártemas ou Tíquico, faça o possível para vir ao meu encontro em Nicópolis, pois decidi passar o inverno ali. I3Providencie tudo o que fo r necessário para a viagem de Zenas, o jurista, e de Apoio, de modo que nada lhes falte. I4Quanto aos nossos, que aprendam a dedicar-se à prática de boas obras, afim de que supram as necessida­ des diárias e não sejam improdutivos. 15Todos os que estão comigo enviam-lhe saudações. Saudações àqueles que nos amam na fé. A graça seja com todos vocês. a. Tito deve evitar controvérsias inúteis Depois de ter dito a Tito que afirmasse categoricamente suas instruções (v. 8), o apóstolo agora lhe pede que “evite” certos procedimentos (v. 9): controvérsias tolas, genealogias, discussões e contendas a respeito da Lei. George W. Knight chama-os de “quatro erros” que Tito tem que evitar, acrescentando que “cada um deles acha-se mencionado também em 1 Timóteo”.1


O primeiro “erro” (controvérsias tolas) não deve ser tomado como uma proibição a toda controvérsia teológica, pois Jesus mesmo foi alguém que se envolveu com controvérsias, em constante debate com os líderes religiosos da época. Também Paulo foi levado a controvérsias acerca do evangelho, e não as pôde evitar. Ele ordenou a Timóteo, ainda, que “combatesse o bom combate da fé”2 e disse a Tito que os falsos mestres tinham de ser “silenciados” e “repreendidos” (1:11,13) Desse modo, nem toda controvérsia deve ser banida, mas apenas as que são “tolas”. A palavra é zçtçseis, que pode significar “especulações”; suas demais ocorrências nas Pastorais dão a entender que Paulo está contrastando as concepções especulativas dos falsos mestres com a verdade revelada de Deus.3 Os outros três “erros” são genealogias, discussões e contendas a respeito da lei. As referências a genealogias e à lei indicam que ele tem em vista um debate judaico, e o leitor poderá ver a exposição feita em 1 Timóteo 1.3-11, na qual os falsos mestres são mencionados como aqueles que “se dedicam a mitos e a genealogias intermináveis” e ficam “querendo ser mestres da lei”. É evidente que Paulo considerou frívolo o tratam ento que eles davam ao Antigo Testamento. As especulações deles também levavam a “discussões” e “contendas”, que podem ser traduzidas também por “ninharias” e “brigas”. Para resumir, ao passo que as boas obras são úteis (ôfelimos, v. 8), excelentes e construtivas, as controvérsias tolas são “inúteis” (anôfelçs, v. 9), isto é, fora de propósito ou fúteis; elas não levam a lugar nenhum. b. Tito deve disciplinar os contenciosos Quanto àquele que provoca divisões, advirta-o - escreve Paulo. A palavra no grego que expressa tal pessoa é hairetikos, que algumas versões chegam a traduzir, surpreendentemente, por “heréticos” (por exemplo, “homem herege” s b t b e também a a v e a n e b ) . Mas isso é um anacronismo, pois a palavra naquele tempo não tinha ainda esse significado. Hairesis significava uma seita, partido ou escola de pensamento e é aplicada no livro de Atos aos saduceus, fariseus e cristãos.4 Hairetikos, entretanto, significava alguém “faccioso” ( r a ) , “contencioso” ( r e b ) o u “provocador de divisões” (como na n v i ). Era necessário ministrar disciplina em três estágios a tal pessoa, começando com duas claras advertências. Quanto àquele que provoca divisões, advirta0 uma primeira e uma segunda vez. Somente então, depois disso - se a pessoa não se arrepender, recusando a oportunidade de ser perdoada e de ser restaurada - é que ela deve ser rejeitada. Rejeite-o (v. 10). Quanto ao fato de isso se referir a uma excomunhão formal (como em lTm 1.20), ou deixar a pessoa socialmente num ostracismo (como, provavelmente, em Romanos 16.17), não está claro. 1 Knig ht (1 9 9 2 ), pp. 353-354. “ Atos 5.17; 15.5; 24.14; 28.22.

2 lTm 1.18-19; 6.12.

3 lT m 1.4; 6.4; 2Tm 2.23.


Contudo, rejeitá-lo é um procedimento correto, pois depois de duas advertências e duas recusas você sabe que tal pessoa se perverteu (está com a mente corrompida - r e b ) e está em pecado; por si mesma está condenada (v. 11). Podemos nos lembrar do procedimento de várias etapas estabelecido por Jesus.5 O transgressor deve ter várias oportunidades para arrepender-se; a expulsão deve ser feita apenas como último recurso. c. Tito deverá encontrar-se com Paulo em Nicópolis Paulo compartilha com Tito sua intenção de enviar alguém a Creta, com competência para assumir o lugar de Tito e, desse modo, liberá-lo para um encontro com Paulo. Talvez envie Ártemas ou Tíquico - diz ele. Nada sabemos de Ártemas; não aparece ninguém com esse nome em nenhuma outra parte do Novo Testamento. Tíquico, porém, é mencionado em cinco outras ocasiões. Essas referências nos dizem que ele veio da Ásia proconsular, talvez de Efeso, sua capital, tal como Trófimo, com quem ele é citado.6 Ele foi um dos escolhidos para levar a oferta para Jerusalém. Paulo o chamou de “irmão amado e fiel servo do Senhor,”7 e evidentemente tinha grande confiança nele. Ele o enviou a Colossos, talvez com sua carta, para dizer às igrejas o que se passava com ele.8 Paulo agora se propõe a enviá-lo a Creta para liberar Tito (v. 12), e posteriormente o enviará de Roma a Efeso, aparentemente para dar condições para que Timóteo o visite o mais breve possível.9 Assim que Ártemas ou Tíquico chegar a Creta, podendo assum ir a responsabilidade pelas igrejas, Tito deverá fazer todo o possível para encontrarse com Paulo em Nicópolis, porque ele decidiu passar o inverno ali (v. 12). Embora tenham sido identificadas pelo menos três cidades com esse nome, os eruditos, em sua grande maioria, concordam em que a referência de Paulo é a capital de Epiro, na costa ocidental da Grécia. d. Tito deve enviar Zenas e Apoio em viagem Nada sabemos de Zenas, exceto que Paulo o chama de ojurista, presumivelmente significando que ele era um profissional especializado na lei romana. Apoio bem pode ser o instruído e eloqüente alexandrino, que “tinha grande conhecimento das Escrituras” e que exercido um frutífero ministério em Corinto.10 Parece provável que Paulo tenha confiado a Zenas e a Apoio o encargo de levar sua carta a Tito em Creta. Ao completarem a sua missão, eles deveriam receber “uma boa despedida” ( j b p ). Paulo pede a Tito que providencie tudo o que fo r necessário para a viagem deles,11 de modo que nada lhes falte, ou seja, que recebam tudo o que seja necessário para prosseguirem viagem.

5Mt 18.15ss.

6 Atos 20.4; 21.29.

7 Efésios 6.21.

8 Colossenses 4.7-8. 5 2Tm 4.9,12,21.

10 At 18.24ss; ICo 1.12; 3.4 ss., 22; 16.12. 11 Quanto a esse significado para propempô, veja At 15.3; Rm 15.24; ICo 16.6; 2Co 1.16; 3Jo 6.


e. Tito deve assegurar que “os nossos ” se dediquem a boas obras Quanto aos nossos, que aprendam - escreve ele, presumivelmente de Tito, mestre deles - a dedicar-se à prática de boas obras. O verbo traduzido por “dedicar-se” é o mesmo do versículo 8 e poderia, portanto, ter o sentido de “exercer ocupações honestas” ( r a - em rodapé) ou “trabalho honesto” ( j b p ). Além disso, a razão dada, afim de que supram as necessidades diárias e não sejam improdutivos (v. 14), seria compatível com essa interpretação. Contudo, como vimos, por todas as Pastorais, kala erga consistentemente significa “boas obras”, no sentido mais amplo de boas ações e atos de retidão, de modo que provavelmente o sentido seja esse aqui também. “Os nossos” deve indicar que eles são de fato assim, que verdadeiramente são seguidores dos ensinos de Paulo, dando-se às boas obras. f. Tito deverá providenciar uma troca de cumprimentos Todos os que estão comigo enviam-lhe saudações. Isto é, Tito tem de, primeiro, receber as saudações que lhe forem enviadas por Paulo e por todos os que estão com ele. Depois, ele deverá transmitir aos demais as saudações de Paulo. Saudações àqueles que nos amam na f é (v. 15a), pois a fé é “nossa fé comum” (1.4); ela liga com amor o povo de Deus. No final de suas cartas, era costume do apóstolo tomar a pena do seu escriba ou amanuense e escrever, ele mesmo, uma palavra de saudação pessoal. Normalmente, ele escrevia, em especial, uma mensagem que continha a palavra “graça”, com a qual ele fazia uma síntese de toda a sua mensagem.12 Ele se refere sempre à graça que provém do Pai e do Filho (1.4), que fez sua histórica epifania em Cristo (2.11) e pela qual fomos justificados (3.7). Ao pronunciar a sua bênção, Paulo olha para além de Tito, para todos os membros das igrejas cretenses, de fato para todos os que posteriormente leriam a sua carta, inclusive nós: A graça seja com todos vocês (v. 15b). Tendo estudado os três capítulos que compõem essa curta epístola, é evidente que “A doutrina e o dever” foi um título bem apropriado para ela, pois na igreja (capítulo 1) os líderes cristãos, em contraste com os falsos mestres, têm que transmitir a fé apostólica e praticar o que pregam. No lar (capítulo 2), os membros da casa têm que se dedicar a seus diferentes deveres na presente era, motivados pelas duas aparições de Cristo, a passada e a futura. E no mundo (capítulo 3), uma conscienciosa cidadania cristã é como um espontâneo transbordamento da maravilhosa salvação que Deus - Pai, Filho e Espírito Santo - conquistou para nós. Desse modo, a doutrina inspira o dever, e o dever adorna a doutrina. A doutrina e o dever estão casados; e que nada os separe! 12 Por ex., IC o 16.23; G1 6.11, 18; E f 4.24; Fp 4.23; Cl 4.18; lT s 5.28; 2Ts 3.17-18.A M ensagem de 1 Tim óteo.


A m ensagem de

1 Timรณteo eT ito Guia de Estudo


Guia de Estudo O objetivo deste guia de estudo é ajudá-lo a chegar ao cerne do que o autor escreveu e desafiá-lo a aplicar em sua vida o que você aprendeu. As perguntas foram feitas tanto para uso individual como para pequenos grupos de cristãos que possam se reunir, talvez por uma hora ou duas, a cada semana, para estudar, discutir e orar juntos. O guia fornece um material para estudo para cada uma das seções do livro. Quando usado por um grupo com tempo limitado, o líder deve decidir de antemão que questões são mais apropriadas para o grupo discutir durante a reunião, e quais poderão ser deixadas para que os participantes trabalhem posteriormente com elas em grupos menores durante a semana. Para que possa dar uma boa contribuição e para que aproveite bem as reuniões, cada membro do grupo precisa ler toda a seção ou seções sob discussão, além das passagens nas cartas a que se referem. É importante não deixar que estes estudos se tornem simples exercícios acadêmicos. Tome cuidado para que isso não ocorra, dando tempo para meditar e para discutir como as coisas que você descobrir no estudo operam na prática, no seu caso. Não deixe de iniciar e terminar cada estudo voltando-se para Deus em louvor e em oração. Peça ao Espírito Santo para falar com você através da discussão em grupo.


A Autenticidade das Cartas Pastorais (pp. 16-29) 1. A posição da autoria paulina 1. Tem importância o fato de Paulo ter escrito, ou não, as Cartas Pastorais? Por quê? 2. Que evidências internas nas cartas dão suporte à autoria paulina? Que explicações, como alternativa, têm sido dadas para explicar essas características? (Veja pp. 16-17.) 3. Que evidências externas temos? Como elas contribuem para a discussão? (Vejap. 18.) 2. A posição de uma autoria não-paulina 4. De que maneiras detalhes históricos dessas cartas parecem contradizer o esquema dos acontecimentos estabelecido no livro de Atos dos Apóstolos? Como essas aparentes discrepâncias podem ser explicadas? (Veja p. 19.) 5. O que ocorre com a linguagem dessas cartas, que tem feito com que alguns eruditos lancem dúvidas quanto à autoria paulina? Como responder a esses pontos? (Veja pp. 19-20.) 6. De que modos alguns eruditos têm sido “um tanto impetuosos” com respeito à teologia e à ética nessas cartas? (Veja p. 21.) Como você reage a tais afirmativas? 3. As posições favorável e contrária a um autor pseudônimo 7. O que é um autor pseudônimo? Como você considera a afirmação de que “falsificação” é, no caso, uma palavra inadequada para se usar? (Vejapp. 23-24.) “As Escrituras enfatizam sempre a santidade da verdade e a pecaminosidade dos falsos testemunhos." (p. 25.)

4. A hipótese de um amanuense ativo 8. Que evidências há para suportar a tese de que a escrita dessas cartas foi assistida por um secretário? (Vejapp. 25-28.) 9. Você concorda com John Stott, em que é importante salvaguardar o “papel de liderança e a autoridade apostólica” do autor dessas cartas? (Veja p. 29.) Por quê?


A.

A Mensagem de 1 Timóteo

1 Timóteo 1:1-2 Introdução (pp. 33-36) 1. O que sabemos sobre Timóteo ? (Veja pp. 33-34.) Até que ponto você se identifica com ele? 2. De que modo a expressão “Epístolas Pastorais” é adequada para essas cartas? (Vejapp. 34-35.) 3. Que características do apostolado Paulo enfoca nas saudações iniciais? (Veja p. 36.)

1 Timóteo 1:3-20 1. A doutrina apostólica (pp. 37-55) 1. Qual é a “preocupação de Paulo” nesse primeiro capítulo? Por que isso é como “uma nota dissonante nos dias de hoje”? (Veja p. 38.) Como você se sente diante dessa questão? 1. Os falsos mestres e a lei (1.3-11) 2. De que maneiras os falsos mestres - a respeito de quem Paulo escreve estavam fazendo mal uso da lei de Deus? (Veja pp. 39-42.) 3. A que conseqüências do falso ensino Paulo chama a atenção aqui? (Vej a pp. 45-46.) De que maneiras você já viveu tais situações? Especulações levantam dúvidas, ao passo que a revelação desperta a fé. (p. 42.) 4. Que critérios você usa para avaliar os ensinamentos cristãos que ouve? De que modo você acha que Paulo o instruiria sobre como proceder nesses casos? 5. O que os Reformadores do século dezesseis ensinaram sobre o correto uso da lei de Deus? De que modo o que eles disseram reflete o ensino de Paulo aqui? (Vejapp. 42-44.) 6. “Portanto, não é para imaginar que, por termos abraçado o evangelho, agora podemos repudiar a lei!”(p. 46.) Como é que você é tentado a fazer isso? Por que isso é tão errado assim?


2 .0 apóstolo Paulo e o evangelho (1.12-17) 7. Por que motivos, em particular, Paulo dá graças a Cristo Jesus nosso Senhor? (v. 12; veja p. 48.) Até que ponto você se identifica com o que ele escreve? 8. Que quatro coisas a afirmação fiel do versículo 15 destaca a respeito do evangelho? (Veja p. 49.) Até que ponto elas dão destaque ao modo pelo qual você procura comunicar as boas novas de Jesus? 9 .0 que fez com que Deus ficasse predisposto a ser misericordioso com Paulo? (Veja p. 51.) 10. De que modo a conversão de Paulo “continua sendo uma permanente fonte de esperança para os casos que de outro modo não teriam esperança”? (p. 51.) 11. Você acha que “liberdade” e “liturgia” são duas coisas incompatíveis? (Veja p. 52.) Por quê? Como esse problema pode ser resolvido? 3.Timóteo e o bom combate (1.18-20) 12. “Timóteo possui duas coisas valiosas que tem de guardar com cuidado” (p. 54.). A que John Stott está se referindo? Por que é assim tão importante perseverar nessas duas coisas? “Uma consciência má é a mãe de todas as heresias” (João Calvino, citação feita à p. 54). 13. Como o versículo 20 pode ser hoje aplicado à igreja? 14. Passe algum tempo orando por aqueles que são responsáveis pelo ensino da Palavra de Deus na igreja de hoje.

1 Timóteo 2.1-15 2. O culto público (pp. 56-87) 1. Como você responderia a alguém que afirmasse que a primeira prioridade da igreja é a evangelização? Quais são as sérias conseqüências dessa visão? (Veja p. 56.) 1. Enfoque mundial no culto público (2.1-7) 2 .0 que “se destaca neste parágrafo” ? (p. 57.) De que maneiras, em especial, a igreja a que você pertence reflete essa perspectiva? Como suas ações poderiam ter um efeito maior? “As vezes, questiono-me se a razão do relativamente vagaroso progresso para se alcançar a paz e a justiça no mundo, e para a evangelização mundial, não é a falta de oração por parte do povo de Deus. ” (p. 59.)


3. Por que foi assim tão “impressionante” (Veja pp. 59-62) a instrução que Paulo deu para orar pelos governantes do mundo? Por que ela é tão importante? 4. De que maneiras você, de fato, “monopoliza” Deus? (p. 61.) Qual é a causa disso? 5. Como foi que os cristãos, no correr dos anos, procuraram reconciliar o desejo de Deus de que todos seiam salvos com a eleição de alguns para a salvação? (Vejapp. 62-63.) 6. Como você particularmente responde a essa aparente contradição entre o “todos” e o “alguns” da pergunta anterior? 7. O que o versículo 5 esclarece quanto à “base fundamental” (p. 64) para a missão mundial referida no versículo 4? 8. Por que a referência a “um só mediador” no versículo 5 é “indispensável dentro do argumento de Paulo”? (p. 66.) 9. O que os termos “exclusivismo”, “inclusivismo” e “pluralismo” significam nesse contexto? Qual das posições você adota? Por quê? Que evidência há para a posição de Paulo? (Veja pp. 66-67.) 10. Como “ousam” os cristãos afirmar que Jesus Cristo não tem “competidores nem sucessores”? (p. 67.) Quais as implicações práticas que tal afirmação acarreta? 1 1 .0 que podemos entender com as expressões “expiação limitada” e “expiação universal”? (Veja pp. 68-69.) O que os defensores de cada uma dessas posições procuram defender? Como você encara esse debate? Por quê? “Não importando qual seja a nossa posição quanto à amplitude da expiação, somos totalmente proibidos de limitar a extensão da missão mundial. O evangelho é para ser pregado a todos; a salvação é para ser oferecida a todos. ” (p. 69.) 12.O que distinguia, em especial, a tríplice descrição de si mesmo, feita por Paulo, de ser pregador, apóstolo e mestre? Como esses três termos aplicamse aos cristãos de hoje? “E a unidade de Deus e a singularidade de Cristo que exigem a universalidade do evangelho. ” (p. 71.) 2. Atribuições segundo o sexo, no culto público (2.8-15) 13.A hermenêutica é o estudo de como as verdades das Escrituras devem ser aplicadas hoje. A que dois princípios de hermenêutica, que são “de importância fundamental” (veja p. 72), John Stott chama a nossa atenção nessa seção?


14. Como é que você reage ao ensino de Paulo quanto ao papel das mulheres aqui? Como você considera as diferentes abordagens sobre como esse ensino deve ser interpretado nos dias de hoje? (Veja pp. 73-76.) 1 5 .0 que John Stott quer dizer com “princípio de transposição cultural”? (Veja p. 76.) Como ele o aplica a essa questão? Você concorda com ele? Por que sim ou por que não? 16. Que três impedimentos à oração são destacados por esses versículos? (Veja p. 80.) 17. De que modo você acha que Paulo responderia a alguém que estivesse pensando que ele estava dizendo que as mulheres deveriam “negligenciar a sua aparência, esconder a sua beleza e não se vestir bem ou usar roupas desalinhadas”? (p. 81.) 18. Que tentativas têm sido feitas para atenuar um pouco o ensino de Paulo nos versículos 11 e 12? (Veja pp. 83-84.) Você concorda com John Stott, que essas tentativas não tiveram sucesso? Por que sim ou por que não? 19. De que modos diferentes a promessa do versículo 15 tem sido entendida? (Veja p. 85.) Qual das explicações você considera mais convincente? 20. Ore por aqueles que hoje estão em conflito quanto ao ministério das mulheres na igreja.

1 Timóteo 3.1-16 3. A supervisão pastoral (pp. 88-108) 1. Com respeito à liderança na igreja, quais os extremos “antibíblicos” (p. 88) entre os quais os cristãos têm oscilado? Que evidência há desses dois extremos em sua própria vivência na igreja? 2. Por que os termos do Novo Testamento episkopos (“supervisor”, “bispo”) e presbyteros (“presbítero”, “ancião”) devem ser considerados como “dois títulos para a mesma função”? (p. 89.) Por que, então, esses dois termos eram usados? 1. Os supervisores (3.1-7) 3 .0 que Paulo quis dizer ao especificar que os candidatos ao ministério pastoral tinham que ser irrepreensíveis? (v. 2.) Como essa questão tinha que ser avaliada? (Veja p. 91.) 4. Por que a afirmação de Paulo sobre a condição marital dos pastores “tem sido objeto de um longo e angustiante debate”? (p. 91.) O que ele quis dizer? E o que ele não quis dizer? 5. Que outras razões acham-se por trás das outras virtudes morais que Paulo menciona aqui? (Veja pp. 93-94.)


6. Por que a condição de ser apto para ensinar é uma qualificação importante? (Veja p. 95.) De que modo a aptidão ao ensino pode ser testada? 7 .0 que distingue um ministério cristão é haver nele a preeminência do quê? Por que tem que ser assim? O que isso nos mostra com respeito à responsabilidade da igreja na decisão de quem deve ser escolhido para uma função pastoral? 8. Quais os benefícios e perigos do costume ocidental atual de ordenar pessoas com vinte e poucos anos, assim que completam seu preparo acadêmico? (p. 98.) Como esse sistema poderia ser melhorado? 2. Os diáconos (3.8-13) 9. O que o ensino de Paulo diz com respeito ao papel desempenhado pelos diáconos? Que virtudes são enfatizadas? (Vejapp. 99-102.) 10. O versículo 11 refere-se às esposas dos diáconos ou a diaconisas? Que evidências há em favor de cada uma das alternativas? (Veja p. 101.) 11. De que modo “a primeira metade desse capítulo é um bom exemplo do equilíbrio que há nas Escrituras”? (Veja p. 102.) Até que ponto o seu próprio pensamento sobre a liderança cristã reflete esse equilíbrio? 3. A igreja (3.14-16) 12. Que três ilustrações sobre a igreja Paulo estabelece aqui? Que verdades em particular acham-se por trás dessas expressões? (Veja pp. 103-108.) 13. Qual é a dupla responsabilidade que a igreja tem em relação à verdade? (P. 105.) De que maneiras a igreja a que você pertence cumpre isso? “Da verdade a igreja depende para a sua existência; e da igreja a verdade depende para sua defesa e proclamação. ” (p. 105.) 14. Que três sugestões foram apresentadas quanto ao sentido das seis afirmações feitas nos versículos 14 a 16? (Vejapp. 106-108.) Qual delas você acha mais persuasiva? Por quê? 15. Qual é “um dos caminhos mais seguros para a reforma e renovação da igreja”? (p. 108.) Como isso se aplica na sua situação? 16. Ore por aqueles com a responsabilidade de selecionar e treinar ministros para a igreja.

1 Timóteo 4.1- 5.2 4. A liderança local (pp. 109-127) 1. Você considera “desagradável” um debate teológico? (p. 109.) Se sim, por quê? Por que John Stott afirma que “ele não pode ser evitado”?


1. A detecção do falso ensino (4:1-10) 2. O que Paulo descreve como sendo três estágios de uma dinâmica espiritual que está por trás (p. 111) do falso ensino na igreja? Que evidências desses aspectos você tem visto, pela sua experiência pessoal? 3. Que dois testes Paulo dá para detectar o erro? (Vejapp. 112-115.) 4. Por que é vital enfatizar que “tudo o que foi criado por Deus é bom”, em vez de simplesmente “tudo é bom”? (Veja p. 114.) 5. De que maneira você está sendo atingido pelo “persistente ascetismo evangélico”? (p. 115.) O que você pode fazer para dar um jeito nisso? 6. “Jesus Cristo tem diferentes tipos de ministros - bons, maus e indiferentes” (p. 116); e você, em você se enquadra? Como é que você sabe? 7. De que modo podemos nos exercitar na piedade? (v. 7; vejapp. 116-117.) Seja o mais prático e específico que puder em sua resposta. 8. O que Paulo quer dizer ao se referir a Deus como o Salvador de todos os homens? (v. 10; veja p. 119.) Será que ele está ensinando o universalismo (a crença de que todos os homens, por fim, serão salvos)? Explique. Não precisamos hesitar em nada diante de ensinamentos que glorifiquem a Deus, o Criador, e que promovam a piedade, (p. 119.) 2. A recomendação do ensino verdadeiro (4.11 - 5.2) 9. Qual é o “problema que sempre ocorre” (p. 120) abordado por Paulo nesses versículos? Qual a experiência que você tem dessa situação? 10. Quais são os seis modos que Paulo ensina a Timóteo, “mediante os quais o seu ministério poderá ser bem recebido e ganhar aceitação”? (Veja pp. 120­ 127.) Como eles se aplicam aos líderes cristãos de hoje? O cristão lidera através do exemplo, não pela força; é sendo um modelo que faz com que os outros o sigam; não sendo um chefe que os obrigue a agir. (p. 121.) 11. Quais foram os três componentes que fizeram parte da “ordenação” de Timóteo? Como eles se aplicam nos dias de hoje? (Vejapp. 122-123.) 12. Por que os líderes cristãos não devem “imaginar que precisam aparentar que são perfeitos, sem quaisquer falhas visíveis, sem nada que os macule”? (p. 124.) Que atitudes práticas os líderes podem ter para evitar essa impressão? 13. Por que “é tão fácil nos envolvermos a tal ponto na obra do Senhor que não dedicamos tempo algum para o próprio Senhor”? (p. 125.) Como esse perigo pode ser evitado?


14.0 que nos “perturba” no versículo 16b? (p. 125.) Como entender o que Paulo quis dizer aqui? 15. Que implicações John Stott tira da descrição da igreja como uma família? (Vejap. 127.) 16. Ore pelos líderes cristãos, especialmente por aqueles que são jovens e pelos que foram recentemente chamados para um ministério de liderança.

1 Timóteo 5.3-6.2 5. Responsabilidades sociais (pp. 128-147) 1. Viúvas (5.3-16) 1. Que razões Paulo dá para que os filhos dêem suporte a seus pais e avós? (Veja p. 131.) Como você aplica isso na sua vida? 2. Que princípios estão por trás das instruções de Paulo aqui? (Veja pp. 132­ 133.) Em termos práticos, como a igreja a que você pertence põe isso em prática? 3. Que “dois princípios permanentes relativos à assistência social” acham-se nessa passagem? (Vejap. 136.) 4. Como os preceitos que Paulo menciona aqui sobre as viúvas poderão ser aplicados na igreja de hoje? “A ajuda cristã através de distribuições aos necessitados nunca deve fazer com que seus beneficiários se sintam rebaixados mas, pelo contrário, deve aumentar seu senso de dignidade. ” (p. 136.) 2. Presbíteros (5.17-25) 5. Será que Paulo está se referindo a dois tipos de presbíteros (ou anciãos) aqui? (Veja p. 1367) Como você chegou à sua conclusão? 6. De que maneiras deve-se demonstrar apreciação pelos líderes da igreja? (Veja pp. 137-139.) O que diria à igrej a a que você pertence sobre como ela suporta financeiramente seus ministros? 7. De que modo o que Paulo diz aqui sobre a disciplina de líderes se aplica atualmente? (Veja pp. 139-140.) “Uma regra segura é tratar em particular os pecados que não são de conhecimento público, sendo tratados publicamente apenas os de conhecimento público. ” (p. 140.)


8. Considerando que, no trabalho de qualquer “líder cristão, um dos piores pecados é o favoritismo”, que experiências você já teve das conseqüências disso? (Vejap. 141.) 9. A que Paulo está se referindo quando menciona a “imposição de mãos”? Por que é tão importante ser cauteloso nessa questão ? (Veja p. 140.) “Aqueles que têm uma personalidade atraente com freqüência escondem fraquezas, ao passo que pessoas que não são atraentes à primeira vista muitas vezes têm pontos fortes escondidos. ” (p. 143.) 3. Escravos (6.1-2) 10. O que você acha da escravidão? Por que Paulo não a condena de imediato? (Vejap. 145.) 1 1 . 0 que há por trás do que Paulo diz sobre como os escravos devem se comportar em relação aos seus senhores? (Veja pp. 145-147.) 12. Por que “todo ser humano é digno de honra”? (p. 146.) 13. Ore por aqueles a quem não tem sido fácil honrar como merecem.

1 Timóteo 6.3-21 6. Posses Materiais (pp. 148-167) 1. Instrução quanto aos falsos mestres (6.3-5) 1. Que características dos falsos mestres Paulo enfatiza aqui? A que leva o ensino deles? (Vejapp. 148-151.) 2. Como é que John Stott chega à conclusão de que “discordar de Paulo é discordar de Cristo”? (p. 150.) “Afinal, há apenas duas possíveis respostas à Palavra de Deus. Uma é humilharmo-nos e tremermos diante dela; outra é endurecer o coração, ficar com uma dura cerviz e rejeitá-la. ” (p. 150.) 3 .0 que você já viu de “tentativas de comercializar a religião”? (p. 151) Você tem alguma abertura para ser tentado nessa área? Como? 2. Instrução ao cristão pobre (6.6-10) 4. Você diria a seu próprio respeito que é “contente”? Como você reagiria se tivesse apenas comida, roupas e um teto? De que modo o que Paulo diz nos ajuda, nesse sentido? (Vejapp. 152-154.) 5. Em termos práticos, como é possível evitar a austeridade, por um lado, e a extravagância, do outro?


6. Que resultados negativos da cobiça Paulo mostra aqui? (Vejap. 155-156.) Dá para você perceber alguns deles em sua própria vida? O que você poderá fazer a respeito? 7. O que está errado com a afirmação de que “o dinheiro é a raiz de todo o mal”? Por que é importante ficar com o que de fato Paulo disse? (p. 155.) 8. Como você responderia a quem dissesse que o ensino de Paulo sobre o contentamento apenas contribui para perpetuar a exploração e a permanente opressão sobre os pobres? (Veja pp. 156-157.) 3. Instrução a um homem de Deus (6.11-16) 9. Do que você deve fugir, por ser “incompatível com a perfeita vontade de Deus”? (Veja p. 158.) O que você deve buscar em sua vida, em vez disso? 10. No que se refere à “fé” hoje, o que deve ser combatido? Como realizar isso? 11. Qual o significado da expressão “vida eterna”? O que Paulo queria dizer quando disse a Timóteo que “tomasse posse” dela? (v. 12; veja p. 160.)

B.

A Mensagem de Tito

Tito 1:1-4 Introdução (pp. 172-176) 1. Paulo apresenta-se 1. O que é significativo sobre o modo como Paulo se apresenta? (Veja p. 172.) 2. Por que, às vezes, se diz que fé e conhecimento são duas coisas incompatíveis? O que está errado nessa afirmação? (Veja p. 173.) “Toda doutrina que não promove a piedade obviamente é falsa. ” (p. 173.) 3. Como você descreveria a sua esperança de vida eterna? Em que ela se baseia? (Vejap. 173-174.) 4. Na prática, como os líderes cristãos de hoje podem cultivar a fé, a esperança e o conhecimento naqueles sob seu cuidado? 2. Paulo dirige-se a Tito 5. O que o Novo Testamento nos diz acerca de Tito? (Veja pp. 174-176.) 3. Paulo deseja a Tito a graça de Deus 6. O que significa desejar a alguém graça e paz de Deus? (Veja p. 176.)


7. Você acha que o autor dessa carta demonstra ter “uma soteriologia um tanto confusa” (isto é, no entendimento da doutrina da salvação), tal como se expressou A. T. Hanson? (Veja p. 176.)

Tito 1:5-16 1. A doutrina e o dever na igreja (pp. 177-189) “O melhor modo de pôr em ordem e consolidar a vida da igreja é assegurar que se tenha uma supervisão pastoral conscienciosa e bem dotada.” (p. 177.) 1. Os verdadeiros presbíteros (1.5-9) 1. Quais são as quatro afirmações sobre a supervisão pastoral da igreja a que John Stott chega na análise desse texto? (Veja p. 178.) De que modo a sua igreja as coloca em prática? 2. O que exatamente Paulo quer dizer quando diz que o presbítero tem que ser irrepreensível? Por que isso é tão importante? (Veja p. 179.) 3. Quais são as três áreas, referentes ao seu comportamento, que Paulo aborda? (Vejapp. 179- 183.) Como tudo isso se aplica hoje? 4. A que John Stott se refere ao mencionar “o aspecto negativo do ministério de ensino”? (p. 183.) Por que isso não é freqüente nos dias de hoje? De que modo os líderes poderiam ser ajudados a exercer com mais eficácia esse ministério? “O pastor precisa ter duas vozes, uma para ajuntar as ovelhas e outra para afastar os lobos e ladrões. ” (João Calvino, citação feita na p. 183.) 2. Os falsos mestres (1.10-16) 5. Quando os falsos mestres proliferam, qual é a “estratégia de longo prazo mais apropriada”? (p. 183.) De que modo podemos colocar isso em prática? 6. O que Paulo diz a Tito sobre os falsos mestres? Como Tito deve procurar resolver esse problema? (Vejapp. 184-186.) 7. Que teste, constituindo de três partes, podemos empregar para avaliar um ensino? (Vejapp. 186-187.) “A verdadeira religião é divina em sua origem, espiritual em sua essência e moral em seus efeitos. ” (p. 187.)


8. Quais as “duas lições mais importantes” desse capítulo que precisamos aprender? (Veja p. 188.) Como elas se aplicam em nossa situação, em particular? 9. Ore por aqueles que têm a responsabilidade do ensino na sua igreja.

Tito 2:1-15 2. A doutrina e o dever no lar (pp. 190-202) 1. Qual era “a tarefa que competia a Tito”, em contraste com o que os falsos mestres faziam? (p. 190.) De que forma o ensino que você dá ou recebe está conforme o ponto que aqui é abordado? 1. Os deveres éticos (2.2-10) 2. Que temas, em particular, associam-se a cada um dos seis grupos referidos aqui por Paulo? (Veja pp. 192-197.) De que modo eles são importantes para você? 3. O que John Stott diz que talvez seja a “ênfase mais importante” dada por Paulo em suas instruções para Tito? (p. 196.) O que você acha disso? 4. De que forma “a nossa vida pode dar um ornamento ou um descrédito ao evangelho”? (p. 197.) Qual tem sido a característica da sua vida? 2. A sã doutrina (2.11-14) 5. Em que doutrina, em particular, “Paulo se baseia para fazer seu apelo ético”? (Veja p. 197.) 6. Como é que a graça de Deus “nos ensina”? (Veja p. 199.) 7. O final do versículo 13 refere-se a duas pessoas da Trindade ou a uma só? Como você chegou à sua conclusão? (Veja pp. 199-201.) 8. De que modo o versículo 14 nos mostra que a salvação é bem mais do que assegurar o perdão de nossos pecados? O que é significativo nas palavras e figuras que Paulo usa aqui? (Veja p. 200.) 9. Como você responderia a quem afirmasse que os cristãos estão alienados em relação ao presente e desesperadamente preocupados com o passado distante e com o futuro remoto ? (Veja p. 201.) 10. Como você acha que os líderes cristãos deveriam proceder para pôr em prática o que diz o versículo 15? 11. Passe algum tempo orando pelos líderes cristãos que estão tendo dificuldades no seu relacionamento com seus liderados.


Tito 3:1-8 3. A doutrina e o dever no mundo (pp. 203-213) 1. Os cristãos na vida pública (3.1-2) 1. Será que você sofre, de algum modo, do que John Stott chama de “insana avidez pela originalidade”? (p. 204.) O que há de errado nisso? 2. Por que não basta aos cristãos simplesmente ser cumpridores da lei? O que mais se acha envolvido em nosso relacionamento com as autoridades estatais? (Veja p. 204.) No seu caso, como isso poderia concretizar-se, na prática? 3. Quais as quatro atitudes os cristãos devem demonstrar às pessoas em geral, segundo Paulo? (Veja p. 205.) 2. Ingredientes de salvação (3.3-8) 4. Por que não basta afirmar que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens”? O que mais precisamos dizer? (Vejapp. 204-206.) “Sem uma experiência pessoal de salvação ficamos sem o direito, o incentivo e a confiança para ensinar ética social aos outros. ” (p. 206.) 5. Por que as pessoas em geral costumam reagir negativamente ao se falar sobre salvação e ser salvo? (Veja p. 206.) 6. Quais são os “seis ingredientes da salvação” que Paulo aborda aqui? (Veja p. 206.) 7. Por que é impossível salvarmos a nós mesmos? Como você explica a realidade de que muitos tentam fazer exatamente isso? (Veja pp. 208-209.) 8. Se “Deus não nos salva apenas com a sua misericórdia ...”, como é que ele nos salva, então? Por que é tão importante salientar isso? (Veja pp. 208-209.) 9. Paulo usa quatro substantivos para descrever o meio pelo qual Deus nos salvou. Quais são eles e que verdades sobre a salvação eles destacam? (Veja pp. 209-210.) 10. Por que é tão importante ressaltar que a justificação não é “o resultado, e muito menos o objeto, da nossa regeneração”? (Veja p. 210.) 11. Por que Paulo insiste em que os “os crentes têm que se empenhar em realizar boas obras”? (Veja p. 211.) Como você acha que isso se aplica em sua vida? 12. De que modo esses versículos são uma forma “equilibrada e completa” de dizer “o que é a salvação”? (Veja p. 212.) 13. De que “formas incompletas ou banalizadas do evangelho” você tem conhecimento? (p. 213.) Como as palavras de Paulo vão contra elas?


14. Ore para sermos mais equilibrados e completos na forma como comunicamos o evangelho, as boas novas de salvação.

Tito 3:9-15 3. Mensagens pessoais finais (pp. 214-217) 1. Como o versículo 9 se aplica em sua vida? Paulo está condenando todo debate teológico? (Veja p. 214.) 2. Você conhece alguém que poderia ser qualificado como uma pessoa que “promove divisões”? Qual é a sua reação diante de tais pessoas? O que Paulo diz aqui que você deveria fazer em relação a elas? (Veja pp. 215-216.) 3. O que significa ser “improdutivos”, no versículo 14? (Veja p. 217.) Quão “produtivo” você é?


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A mensagem de 1 timoteo e tito john stott  
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