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Os assassinos de uma tarde inesquecível em Porto Alegre Nunca esquecerei aquele episódio. Tarde de sol, um dia qualquer - não fosse aquilo acontecer tão de repente. O que esperaria um funcionário público, da prefeitura, de uma tarde morna de quarta-feira, 29 de junho de 2013? Convocado pelos meus superiores, dirigi meu Ford Focus preto fosco pelas ruas agitadas de Porto Alegre. As árvores da Avenida Beira-Rio me aguardavam frias, paradas, fadadas à morte. Balançavam como sempre, indicando o local ideal do corte. Muitas ideias passavam pela minha cabeça. Os conflitos interiores, é verdade, ocorrem sempre no momento mais decisivo da vida. A minha iria mudar. Aquele rosto jovial, que aparentava 25 anos (e escondia outros cinco) guardava o olhar monótono e inexpressivo de um homem solitário e modestamente feliz. Mas gostava daquele rosto, apesar de tudo. Era meu rosto. O que sou agora? Nem sei como penso! Quero esse rosto, essa vida de volta. O que recebo? A visita de meu colega de trabalho, que prontamente me substitui quando fui dado como desaparecido. Estava lá: meus ramos minhas folhas, meu tronco. Aquilo que antes eram meus pés afundava na terra e puxava, inexplicavelmente para mim (nunca gostei de biologia) a seiva bruta. Tudo aconteceu naquela tarde, depois de sair do Ford Focus. Como, meu Deus, como? Nunca entenderei - já erguem o machado. Desci do veículo, algumas horas antes, para comandar a derrubada das árvores, tarefa imposta a mim pela prefeitura da Capital. Não que eu quisesse, estava indiferente. Nunca fui muito sentimental com as pessoas, que dirá com a natureza, em breve morta. Vejo cada irmão e irmã meus caírem com um baque surdo diante do barulho infernal das ruas. Serão eles outras pessoas transformadas? Serão TODAS as árvores do mundo pessoas transformadas? Com o artefato pontiagudo a dez centímetros de meu corpo, lembrei os segundos que me tornaram um vegetal inofensivo, indefeso. A mudança começou com as mãos, coçavam muito e formigavam, achei que teria um infarto. Antes fosse. As mãos viraram galhos; os pés, raízes. A cabeça foi a parte mais dolorosa, grudou no corpo com uma violência incrível. E me tornei marrom, duro e imóvel. Aqui estou. Não estarei por muito tempo. Scraaaaaach! Cinco vezes.


Caio para o lado, ainda vivo. Não sangro. E tudo acontece de novo, ao contrário. Voltam meus pés, um pouco tortos e quebrados, minha cabeça desgruda do corpo mil vezes mais violentamente que antes. Minhas mãos, sem folhas ou galhos, vão à boca e falham em conter meu grito. A dor é insuportável. O meu agressor, de costas, não entende como um homem simplesmente apareceu a seu lado, com um corte transversal no abdômen nu. Levam-me ao hospital. Continuo vivo. As outras árvores continuavam árvores ao tombarem, uma a uma, depois de seus respectivos golpes. Não acredito que eram humanos transformados. No entanto, ainda acredito que havia outros assassinos na Avenida Beira-Rio, em meio ao trânsito caótico de Porto Alegre, naquela tarde que jamais esquecerei.

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